4. HIDROCINEMÁTICA
Unidade Curricular: Hidráulica
Docente: H. Mata­Lima, PhD
Universidade da Madeira, 2010
4. Hidrocinemática
(Descrição do escoamento com base nos deslocamentos, velocidades e acelerações).
Os parâmetros que descrevem o comportamento de um fluido não são
constantes num dado conjunto de circunstâncias, podendo variar de ponto para ponto e/ou de instante para instante.
Tópicos a abordar:
• Trajectórias de partículas
• Linhas de corrente
• Classificação de tipos de escoamento
• Caudal e velocidade média
• Equação da continuidade.
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4.1. Trajectórias de Partículas (TP)
Nota: Fluidos são corpos cujas moléculas têm a propriedade de se moverem umas em relação às outras.
A Trajectória de Partículas é definida como o lugar geométrico dos pontos ocupados pela partícula ao longo do tempo.
Figura 4.1. Trajectórias das Linhas de Corrente.
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4.2. Linhas de Corrente (LC)
Aspectos a considerar:
1. A velocidade de uma partícula de fluído (V) é função da sua posição (i.e. do ponto considerado) e do instante de tempo;
Uma partícula que se desloque de ponto A para B a variação da V pode ser expressa pela equação:
∂V
∂V
∂V =
∂t
∂x +
∂x
∂t
2. Num instante t a V corresponde a um campo de vectores;
3. É possível traçar linhas no instante t em que, em qualquer ponto, a tangente respectiva coincide com a direcção da velocidade. Estas linhas conhecidas como Linhas de Corrente (LC) são sempre tangentes à trajectória das partículas.
As linhas de corrente
podem receber também a designação de linhas de fluxo ou linhas de escoamento.
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Um feixe de linhas de corrente vizinhas designa‐
se por Tubo de corrente ou de fluxo (ver QUINTELA, 2005:43).
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4.2. Linhas de Corrente (LC)
Algumas imagens de visualização do escoamento:
Figura 4.2. Bancada de Visualização do Escoamento.
Figura 4.3. Visualização das Linhas de Corrente em Torno de Obstáculos.
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Fonte: IST
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
ESCOAMENTO
Permanente
Variável (escoamento em regime estacionário)
(não permanente)
Uniforme (Secção uniforme, profundidade
e velocidade constantes)
Variado
(Acelerado ou retardado)
Gradualmente
Rapidamente
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
ESCOAMENTO
Permanente
Variável (escoamento em regime estacionário)
(Não Permanente)
O ESCOAMENTO PERMANENTE (ou estacionário) – ocorre quando os valores dos parâmetros que o caracterizam (e.g. velocidade, caudal, pressão) em cada ponto não variam com o tempo.
Em situações práticas os escoamentos rigorosamente permanentes raramente ocorrem. Porém, é possível analisar satisfatóriamente grande parte dos problemas da hidráulica assumindo que o escoamento é permanente visto que as variações/flutuações da velocidade e de outras grandezas são pequenas podendo considerar‐se os valores médios sensivelmente constantes no tempo (ver Massey, 2002: 145‐153).
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
ESCOAMENTO
Permanente
Variável (escoamento em regime estacionário)
(não permanente)
O ESCOAMENTO VARIÁVEL (ou transitório) – ocorre quando os valores das grandezas que caracterizam o escoamento (e.g. velocidade, caudal, pressão), em cada ponto, variam com o decorrer do tempo.
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
Tipo
Descrição
Escoamento Permanente
Esc. Permanente uniforme
Esc. Permanente ‘não uniforme’ (ou variado)
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Os valores das grandezas que o caracterizam (e.g. velocidade, caudal, pressão), em cada ponto, não variam com o tempo.
Além das características, em cada ponto, não variarem no tempo, são ainda constantes em cada instante de ponto para ponto numa região especificada.
Exemplo
­­­­­­
Escoamento a caudal constante e elevado num tubo comprido e direito, de secção constante. Nota: despreza‐se a região junto da parede do tubo.
As características, em cada Escoamento a caudal ponto, não variam no constante num tubo que tempo, mas variam, num afunila.
mesmo instante, de ponto para ponto numa região especificada.
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
Tipo
Descrição
Escoamento Variável
Ocorre quando os valores das grandezas que o caracterizam (e.g. velocidade, caudal, pressão), em cada ponto, variam com o decorrer do tempo.
Apesar das características, em cada ponto, variarem no tempo, são constantes em cada instante de ponto para ponto numa região especificada.
Escoamento Variável uniforme
Exemplo
­­­­­­
Escoamento a velocidade elevada, com aumento ou diminuição contínua de caudal, num tubo rectilíneo de secção recta constante. Nota: despreza‐
se a região junto da parede do tubo.
Escoamento Variável não uniforme
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As características, em cada ponto, variam no tempo, sendo também variável, num mesmo instante, de ponto para ponto numa região especificada.
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Escoamento com aumento ou diminuição contínua de caudal num tubo que afunila.
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
4.3.1. Escoamento variável (ou transitório)
A velocidade varia no espaço e no tempo. A velocidade num ponto é função da sua localização e do instante de tempo considerado. Isto equivale a dizer que, em cada ponto, a velocidade das partículas que por ele passa varia de instante para instante.
Portanto, num escoamento variável os parâmetros que descrevem o seu comportamento (e.g. velocidade, caudal, altura) variam no espaço e no tempo:
∂V
≠0
∂s
∂V
≠0
∂t
Importa referir que o escoamento variável é o tipo de escoamento mais comum (e.g. cursos de águas naturais; escoamento a velocidade elevada, com aumento ou diminuição contínua de caudal, num tubo rectilíneo de secção recta constante; escoamento com aumento ou diminuição contínua de caudal, num tubo que afunila).
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
4.3.2. Escoamento permanente (ou estacionário)
• Corresponde a um escoamento em que os valores dos diferentes parâmetros (e.g. velocidade, caudal, altura) não variam com o tempo;
• A velocidade varia de ponto para ponto, permanecendo‐se constante no tempo para cada ponto
∂V
=0
∂t
• Em escoamento permanente o padrão (i.e. as linhas de corrente) mantém‐se inalterado ao longo do tempo. No caso do escoamento variável o padrão varia com o tempo;
• Neste tipo de escoamento as linhas de corrente (lc) coincidem com as trajectórias (não se alteram no tempo). Nota: as linhas de corrente também podem coincidir com a trajectória quando o escoamento é variável (ver QUINTELA, 2005: 40‐42).
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
4.3.3. Escoamento uniforme
• Quando em cada instante, as grandezas que caracterizam o escoamento não variam de ponto para ponto, numa região especificada;
• É um movimento permanente em que a velocidade é constante ao longo de cada trajectória
∂V
=0
∂s
• As trajectórias num movimento uniforme são rectilíneas (ver Fig. 4.4).
Figura 4.4. Trajectórias num movimento uniforme.
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
Escomentos Unidimensionais
Escoamentos Didimensionais
Escoamentos Tridimensionais
∂V
=0
∂s
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
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4.3. Tipos de Escoamento (TE)
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4.4. Caudal e Velocidade média
4.4.1. Caudal do escoamento (Q)
• O caudal (Q) é o volume do fluído que atravessa uma dada secção por unidade de tempo;
∀
Q = , com o Q em m 3 /s
t
(
)
• O caudal recebe também a designação de débito ou vazão e pode obter‐se também multiplicando a velocidade média do escoamento (U) pela área da secção (A) perpendicular à direcção do escoamento;
Q =U × A
Conduto cheio: A = área do círculo
VdA
Q A∫
U= =
A
A
Conduto parcial/te cheio: A é a área da secção Canal aberto: A = área da secção molhada (azul)
molhada (azul)
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4.5. Equação da Continuidade: conservação da matéria
4.5.1. Equação da continuidade (ou conservação da matéria)
• O Princípio de conservação da massa estabelece que: a variação da massa fluída contida num volume de controle, fixo e arbitrário, durante um dado intervalo de tempo é igual à soma das massas fluídas que nele entram e subtraídas das que dele saem nesse intervalo.
Massa do fluído a entrar no volume fixo
Massa do fluído a sair do volume fixo
• Por não haver criação nem destruição da matéria no interior do volume de controle (∀):
⎡Taxa de entrada ⎤ ⎡Taxa de saída ⎤
⎢ da massa no ∀ ⎥ = ⎢ da massa do ∀ ⎥ +
⎦
⎦ ⎣
⎣
• Para escoamento permanente:
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⎡Taxa de acumulação ⎤
⎥
⎢ da massa no ∀
⎦
⎣
⎡Taxa de acumulação ⎤
⎢da massa no ∀
⎥=0
⎣
⎦
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Logo,
Q = constante
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4.5. Equação da Continuidade
Regime permanente (i.e. constante no tempo) implica que não há acumulação da matéria.
⎡Taxa de entrada ⎤ ⎡Taxa de saída ⎤
⎢ da massa no ∀ ⎥ = ⎢ da massa do ∀ ⎥
⎣
⎦ ⎣
⎦
• Portanto, o Q é constante seja qual for a secção considerada.
• Matematicamente tem‐se
Q = U1 A1 = U 2 A2 = ... = U n+1 An+1 = cons tan te
• Quando se pretende o caudal em massa (caudal massico) multiplica‐se a equação anterior pela massa volúmica do fluído (ρ):
Qmassico = ρ1U1 A1 = ρ2U 2 A2 = ... = ρn+1U n+1 An+1 = constante
• De acordo com a condição anterior, a U aumenta com a diminuição de A e vice‐versa.
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4.5. Equação da Continuidade
Visto que a velocidade média do escoamento (U) aumenta com a diminuição de área da secção de escoamento (A) e vice‐versa pode‐se concluir que no escoamento permanente:
• A velocidade aumenta nas regiões onde as linhas de corrente se aproximam no sentido do escoamento:
• A velocidade diminui nas regiões onde as linhas de corrente se afastam (e.g. escoamento entre planos divergentes) – ver Figura.
A1
A2
Figura 4.5. Evolução das Linhas de Corrente com a variação da secção.
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4.6. Escoamentos laminares e turbulentos
Os regimes de escoamento de fluidos podem ser de dois tipos: 1) laminar e 2) turbulento.
1. Escoamento LAMINAR – prevalece um caminhamento ordenado das partículas. As partículas não se atropelam umas as outras e seguem trajectórias regulares (i.e. as trajectórias de duas partículas vizinhas nunca se cruzam). O escoamento laminar é conhecido, em inglês, como viscous, streamline ou laminar flow.
2.Escoamento TURBULENTO – neste tipo de escoamento a velocidade num dado ponto varia constantemente em grandeza e direcção, sem qualquer ordem ou regularidade, sendo as trajectórias das partículas muito irregulares. A título de exemplo, refira‐se que no escoamento no interior de um conduto, uma mesma partícula pode localizar‐se, num instante, na vizinhança do eixo, e, noutro instante, junto da parede.
Contudo é possível admitir hipóteses simplificativas no regime turbulento de modo a definir‐se escoamento uniformes e permanentes (ver Figuras seguintes).
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4.6. Escoamentos laminares e turbulentos Existe um parâmetro designado por número de Reynolds (Re), em homenagem ao cientista que o desenvolveu (1883), que permite distinguir facilmente os escoamentos em:
1. Regime Laminar (linhas de corrente seguem trajectória rectilínea)
Re < 2000 corresponde a regime laminar
2. Regime Turbulento (linhas de corrente seguem trajectória irregular e dispersam‐se)
Re ≥ 2000 corresponde a regime turbulento
O número de Reynolds é expresso pela equação:
Re =
UD
ν
onde: U é a velocidade média do escoamento (m/s), D o diâmetro do conduto e ν a viscosidade cinemática do fluído (m2/s).
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4.6. Escoamentos laminares e turbulentos
Exercício 4.6.1
Um conduto de 25 mm de diâmetro transporta óleo. O caudal transportado é de 0,2 l/s e ν = 5*10‐5 m2/s. Classifique o regime de escoamento.
Resposta: O regime é laminar porque Re = 203 (i.e. < 2000)
Repita o mesmo exercício considerando que o fluido transportado é água a 20º C. Compare o resultado com o do óleo e justifique a diferença.
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NOTAS FINAIS
• O escoamento de fluidos é um fenómeno complexo, sendo geralmente necessário recorrer à experimentação para obter as soluções;
• Quando se efectua a análise matemática do escoamento consideram‐se, geralmente, hipóteses simplificativas: i) fluído perfeito (i.e. desprezam‐se os efeitos da viscosidade); ii) admite‐se que as condições do escoamento não variam no tempo (i.e. regime permanente)
• Apesar de se considerar as simplificações supracitadas, deve ter‐se em atenção que, na realidade, as grandezas que descrevem o comportamento e o estado do fluído (e.g. velocidade, pressão, massa volúmica, etc.) não são, em geral, constantes. São, de facto, variáveis e podem variar de ponto para ponto e/ou de instante para instante no seio de um fluído em movimento. Ou seja, tais grandezas variam no espaço e no tempo:
dV
dV
≠ 0;
≠0
ds
dt
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REFERÊNCIAS
Massey, B. (2002). Mecânica dos Fluídos, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Quintela, A. (2005). Hidráulica, 9ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
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