PESQUISA COMO E S E R C U I DADO EM CASA: AS PERCEPCOES DOS CLiENTES THE PERCEPTION OF CLIENTS WHEN RECEIVING HOMECARE COMO ES SER CUIDADO EN CASA : LAS PERCEPCIONES DE LOS CLiENTES Lisiane Manganelli Girard i Pasku lin 1 Vilma Regina Freitas Gon<;:alves Dias2 RESUMO: Este estudo qualitativo d e carater explorat6rio analisou a percep<;:ao dos usuarios do Programa de Atendimento Domiciliar do SSS-G HC, em Porto Alegre/RS, sobre os cuidados recebidos pela equipe interd isciplinar e por seus cuidadores no domicflio. Entre os 17 clientes entrevistados predominaram m u l heres, idosos e portadores de doen<;:as cr6nico degenerativas. Da analise emergiram cinco categorias, abordando 0 cuidado profissional e familiar, bem como as experiemcias dos sujeitos quanto as circu nstancias de vida enfrentadas. Nos resu ltados, os cuidados vivenciados foram percebidos como humanizados e propiciadores d e estrategia avaliativa do Programa. PALAVRAS-CHAVE: cuidado domiciliar, aten<;:ao primaria a saude e saude coletiva ABSTRACT: This qualitative and exploratory study analyzed the perception of users of the Home Care Program (SSS-G HC) in Porto Aleg re, Rio G rande d o S u i state regard i ng the assista nce provided by its i nterd isciplinary team and ca retakers. Among the 17 clients i nterviewed , there was a prevalence of women, elderly people and chronic degenerative disease patients. As a result of the analysis it was possible to identify five categories which were related to family, professional ca re and experiences of the subjects i n relation to life circu mstances. Results showed that, accord ing to the client's poi nt of view, the care received was viewed as h u manized and favora ble to the evaluative strategy of the Program. KEYWO RD: home care , primary focus on health , collective health RESUMEN: Este estudio calitativo de caracter exploratorio analiz6 1a percepci6n de los usuarios del Programa de Atendimiento Domiciliar del SSS-GHC, en Porto Alegre/RS sobre los cuidados recibidos por el equipo interd isciplinar y por sus cuidadores en el domicilio. Entre los 1 7 clientes entrevistados predominaron mujeres,a ncianos y portadores de enfermedades cr6nico degenerativas. Del analisis resultaron cinco categorias,abordando el cuidado profesional y familiar, asi como las experiencias de los sujetos frente a las circunstancias de vida que deben enfrentar. Los resultados apuntan que los cu idados vivenciados fueron percibidos como human izados y propiciadores de estrateg ia evaluativa del programa. PALAB RAS CLAVE: cuidado domiciliar, atenci6n primaria a la salud y salud colectiva Recebido em 1 4/0 1 /2002 Aprovado em 26/06/2002 1 2 1 40 Professora Assistente da Escola de E nfermagem da U niversidade Federa l d o Rio Grande do S u I . Mestre em Educa<;:ao. Enfermeira do Servi<;:o de Saude Comunitaria do G rupo Hospitalar Concei<;:ao . Mestre em Saude Coletiva . Rev. B ras. E nferm . , B rasilia, v. 55, n. 2, p. 1 40-1 45 , mar.labr. 2002 PASKULl N , L. M . G . ; D IAS , V. R. F. G. INTRODUCAo o desenvolvimento de estudos e a i m planta9ao d e programas de atendimento domiciliar no Brasil vem ganhando for9a nesta u ltima d ecada , apesar de ser uma atividade desenvolvida na area d e Saude Publi ca desde 0 i n icio do seculo. A preocupa980 em estender 0 atendimento ao clientel familia para que estes tenham uma melhor qualidade de vida em seu domicilio e permitir aos profissionais dos servi90s aprofundar seus conhecimentos sobre as condi90es de vida de sua clientela tem sido u m a tematica i m portante neste co ntexto , a p o n ta d a p o r a l g u n s a u to re s ( B O R DAS ; SANTAMARIA; GONDELL, 1 992, LOPES; OLiVE I RA, 1 998). Verificamos que os artigos e investiga0es brasileiras real izadas nesta a rea se volta m , basicamente, para a divulga980 dos programas realizados e compreensao da vi sao dos profissionais de s aude q u e atua m no ate n d i m ento domiciliar ( PAD I L H A et aI . , 1 994 ; SANTOS et aI . , 1 998; ARA U JO et aI . , 2000 ; LO P E S ; O L IVE I RA, 1 998). Ass i m , acred itamos ser d e fu n d a m e ntal i m portancia, tam b e m , identificar como 0 cl iente percebe 0 atend i mento em n ivel domiciliar, uma vez q u e i sto i n d i ca a q ual idade da aten9ao q u e e d e s e n vo l v i d a e as p o s s i b i l i d a d e s do cu i d a d o intradomiciliar. o Servi90 de Saude Comunitaria do Grupo Hospitalar Concei9ao (SSC/G H C ) e formado por d oze U n idades de Saude, situa-se na Zona Norte d a cidade d e Porto Alegre no Rio Grande do Sui e desenvolve atendimento domiciliar desde o in icio de suas atividades, ha d ezenove anos. Uma d essas doze U nidades e a U nidade de Saude da Vila Floresta (SSCVF) q u e atende a uma popula9ao adscrita de 9 .404 pessoa s , seg u n d o d ados do I n stituto Brasileiro de Geografia e Estatistica ( 1 996), tendo cadastrada na U nidade 66% d a mesma . Verifica-se que a popula9ao desta area geografica, em sua maiori a , reside ha mu itos anos neste local . Da popula9ao cadastrada, 7% sao idosos (acima de 65 anos d e idade) e no Programa de Atendimento Domici liar a maior parte dos clientes tambem sao idosos . As doen9as d e maior prevalencia nesta popula9ao sao as cronico-degenerativas, e como pri ncipais causas de obitos, os problemas d ecorrentes de d oen9as card iovascu lares e causas externas. Esta U n idade busca colocar em pratica os principios da Aten9ao Pri maria a Saude (STA R F I E L D , 1 992) e com p o e a red e publ ica d e Aten9ao a S a u d e d o municipio de Porto Alegre e d esenvolve a90es de prom09ao a saude, preven9ao, cu ra e reabilita9ao. D e n tre a s d i v e r s a s a t i v i d a d e s a s s i st e n c i a i s desenvolvida, inclui-se 0 atendimento domiciliar (denominado de "Prog rama de Acamados" pela e q u i pe ) aos pacientes/ clientes . Este Program a e d esenvolvido ha treze anos, e contava no segundo semestre d e 1 999, com 46 pacientes inscritos. Atual mente, atende 52 usuarios . A equipe de saude da U nidade participa efetivamente deste Programa, onde os pacientes recebem atendimento da Te r a p i a O c u p a c i o n a l , E nferm a g e m ( A u x i l i a re s e E n fe r m e i ra ) , M e d i c i n a , S e rv i 90 S o c i a l , P s i co l o g i a , Odontologia (Odontologo e Tecni co d e H igiene Denta l ) , conforme a necessidade d e c a d a caso. N o momenta d a real iza9ao d a pesq uisa, a freq Oenci a d o s atendimentos no domicilio pela equipe, nao encontrava-se sistematizada , sendo real izada a parti r d a ava l i a9ao d o s profissionais envolvidos, d e acordo com a necessidade de cad a caso . A rotina incl u i , p rimeira mente , uma solicita9ao por parte d e a l g u m familiar q u e identifica a necessidade do atendimento domici l iar. Apos a solicita9ao, u m profissional do servi90, normal mente 0 med ico ou a enfermeira, real iza uma visita domiciliar (VD ) e avalia a necessidade de atendimento e tipo de acompanhamento . Conforme ava lia9ao do profissional q u a nta a necessidade d e manuten9ao do atendimento, 0 cliente e incl u id o no Programa. A fam ilia e esti mulada a participar ativamente d este programa atraves do cuidado ao fa miliar e i ntera9ao com a equ ipe de saude na troca de s a b e re s . Os re c u rs o s m ateri a i s n ecessarios p a ra os cuidados sao fornecidos , na sua maioria , pela U n idade d e Saude. o atendi mento domiciliar e uma atividade existente ha muito tempo no setor saude e, para nos, ele fundamenta se no principio de q u e 0 d oente, que se torna dependente, recebe os cuidados necessarios para a man uten9ao e/ou recupera980 de sua saude, bem como a preven980 de agravos indesejavei s , no convivio de seus fam i l iares . Esta visao i nterativa d e cuidados domiciliares req uer mudan9a nos modelos d e aten980 a saude centrados na logica organizativa dos Servi90s que baseiam-se na demanda espontanea e na cura dos problemas de saude, vistos, em sua maioria, no contexto d a fisiopatolog i a . Constatamos q u e 0 atendimento domici l iar pode propiciar u m contato mais estreito dos profissionais de saude com 0 paciente e seus fa miliares em seu proprio meio, podendo ser este momenta util para uma avalia9ao das condi90es q u e 0 cerca e por vezes de g rande i m portancia p a ra 0 s u ce s s o d o a co m p a n h a m e n to . As s i m , n o s associamos com Oliveira e Berger ( 1 996) ao afi rmarem que o momenta d a VD pode auxi liar na elucida9ao de causas para problemas que perdem 0 nexo explicativo quando fora do contexto fam i liar. Sao poucos os fam i l iares q u e desempenham sem d ificuldades 0 papel d e cuidador e a proposta do atendimento domiciliar depende, fu ndamentalmente, da figura deste . Esta situa9ao, por vezes, pode exig i r mais da eq uipe de saude que necessita estar alerta e muito bem capacitada para intervir no d o m i c f l i o da cl i e ntela e pod er prestar os cuidados, aproveitar 0 espa90 para educa9ao em saude, respeitar as d ifere ntes cu ltu ra s e com p reender 0 a m b iente fa m i l i a r ( PAD I L HA et a I . , 1 998). E mbora a equipe na maioria das vezes ja i nterage com membros d esta fam il i a , cu idada n a U n idade d e S a u d e , observamos que freqOentemente e necessario repensar e reconstru i r conju ntamente - cliente , familia e eq u ipe-o "caminho" d a pratica do cu idado, a fim d e envolverem-se participativamente num processo terapeutico i nters u bjetivo , e l e m e nto essenci a l para a con q u i sta d o cu idado com qualidad e . Santos e t a l . ( 1 998, p . 1 3 1 ) encontraram, ao trabalhar com enfermeiras sobre 0 cuidado domiciliar, que nesse espa90 nao e possivel preyer uma rotina de atendimento pela d i n a mi ca d e cada domicilio "( . . . ) requer da equ ipe uma ca p a ci d a d e de fl e x i b i l i d a d e , rea d a pta9ao consta n t e , criatividade e, pri ncipalmente, u m a atitude interd isciplinar q u e valorize tanto 0 sistema d e cuidado, como, tambem 0 sistema popular". Alg u n s estudos n a a rea ambulatorial, hospitalar e comunitaria tem refo r9ado a i m portancia dos profissionais Rev. B ras . Enferm . , Brasilia, v. 55, n . 2 , p . 1 40-1 45 , mar./abr. 2002 1 41 Como e ser cu idado . . . d e saude con hecerem a percep<;ao d a clientela . sobre 0 atendimento recebido para a melhoria da qualidade do servi<;o prestado (TH O R N E , 1 988, BOTE L H O , 1 997, LORENZI ; SC H N E I D E R , 1 998, RAM O S , 2 0 0 0 ) . E ntreta nto, faz-se necessaria uma avalia<;ao sobre os beneffcios e dificuldades vivenciados pelos proprios sujeitos para a efetiva<;ao destes cuidados nos seus domicil ios . o termo percep<;ao esta sendo util izado nesta investiga<;ao no sentido proposto por H amachek citado por Sundeen , ( 1 997, p . 96) como "0 processo atraves do qual n o s s e l e ci o n a m o s , o rg a n i za m o s e i nterpreta m o s a s estimula<;6es sensoriais dentro d e uma visao de mu ndo s i g n ificativa e coerente . 0 a utor re l ata a i n d a q u e as necessidades individ uais, valores, cren<;as e autoconceito sao fatores vitais para d eterminar como 0 i n d ividuo ve seu espa<;o de vida e arredores" . Tendo como ponto de partid a as exposi<;6es acima e dentro de uma proposta de integra<;ao universidade-servi<;o, as autoras propuseram os segu i ntes objetivos na presente investiga<;ao: con hecer as caracte risticas demograticas da popula<;ao atendida no programa, identificar como 0 cliente percebe 0 atendimento prestado pelos profissionais do servi<;o, conhecer como 0 cliente percebe 0 papel do(s) seu(s) cuidador( es) no domicilio, identificar 0 que 0 cliente considera como pontos positivos no cu idado domiciliar e conhecer 0 que 0 cl iente considera como pontos negativos no cuidado domiciliar. METODOLOGIA A investiga<;ao, de cu nho q u a l itativo, teve ca rater exploratorio e corte transversal . Compuseram a amostra os 1 7 clientes i nscritos no Programa de Atendimento Domiciliar do SSCVF, que tiveram condi<;6es d e responder a uma entrevista. 0 Projeto de Pesquisa foi aprovado pela Comissao de E tica e Pesq uisa do Grupo Hospitalar Concei<;ao. As i n fo r m a <; 6 e s fo ra m c o l e ta d a s atraves de consu ltas aos Prontuarios de Fam ilia e de entrevistas semi estruturadas com os clientes d o progra m a . N o Prontuario de Familia foram levantados dados demograficos, tais como, idade, sexo , problema de saude que gerou a necessidade de atendi mento domiciliar e 0 tempo d e permanencia no Programa. A entrevi sta s e m i-estru t u r a d a b u s c o u co l h e r i nfo rmac;:6es q u e respond essem a o s d e m a i s obj etivos propostos. Foram realizadas pel a pesquisadora docente (que nao e contratada pelo servic;:o) e pel a bolsista d e pesq uisa, na re s i d e n c i a d o s c l i e ntes , com h o ra ri o prev i a m e nte agendado. Neste encontro foi fornecido aos participantes do estudo um Termo de Consentimento I nformado. Apos a leitura e explicac;:ao do mesmo, escla receu-se a fi nalidade do estudo, possibilidades de desistencia e as d uvidas . A partir d a concordancia escrita do res p o n d e nte i n i ciava-se a entrevista , ficando uma copia em sua guard a . A anal ise das informa<;6es foi realizada com base na Analise de Conteudo pro posta por Bardin ( 1 977). As unidades foram categorizadas por criterio semantico (tematico), a partir dos objetivos da investiga<;ao. Os temas q u e emerg i ra m da analise das entrevistas, e os dados d e m o g raticos l evantados sao apresentados a seguir. 1 42 C O N H E C E N D O A C L i E N TE LA D O PROG RAMA D E ACAMADOS E D O S SUJEITOS DO ESTUDO Dos 46 usuarios do Prog ra ma de Acamados, mais d e 50% sao do sexo fem i n i n o , (35 usu arias) 0 mesmo acontecendo com os 1 7 da amostra estudada. A faixa eta ria pred ominante, dos sujeitos do estu do, variou de 70 a 89 anos de idade, destacando-se , tambem, a faixa entre 60-69 anos. Em rel ac;:ao ao tempo de permanencia dos sujeitos estudados no Programa, houve predom inio daqueles que 0 utilizam entre 3 e 6 anos (6 usuarios), seguido dos que foram inclu idos ha menos de 1 ana (3 usuarios). Quanto ao tempo d e permanencia n o P ro g ra m a como um todo ha uma d iversidade, sendo mais representativos os period os de 1 a 3 anos, 4 a 5 e 5 a 6 anos. N o que se refere as patologias apresentadas pelos c l i e ntes i n scrito s , os c i n co p ro b l e m a s pri n c i p a i s sao: H ipertensao Arterial Sistemica ( 1 8 casos), Acidente Vascular Encefalico ( 1 1 casos), outras doen<;as card iovasculares ( 1 0 casos), Doenc;:a bronco-p u l monar ( 9 casos) e Dia betes Mellitus (7 casos) . Um diagnostico nao estava reg istrado e a obesidade, protese de q uadril, infec<;ao do trato respiratorio, amputac;:ao de m e m b ros i nferiores, artrose, Parki nson , paralisia ou paraplegia dos membros inferiores (por acidente) ocorreram com menor freq Oencia . Salienta-se que mu itos s u j e i t o s a p r e s e n t a m m a i s d e u m a p a to l o g i a simultaneamente . Esses d a do s retratam que as pri ncipais patologias encontradas no atendimento domiciliar sao as doenc;:as cron icas . E m relac;:ao ao cuidador dos sujeitos estudados observa-se que mu itos sao acompanhados por mais de uma pessoa simultaneamente . Onze sujeitos citam os filhos como cu idadores, e com menor freqOencia incluem-se os sobrinhos, conj uges, i rmaos, netos , pais e cu nhada . Em apenas dois casos e citado a contratac;:ao d e empregad os. Esses dados demonstra m que 0 cu idado com 0 cliente acamado e prestado, em sua maioria, pela familia , podendo esta belecer uma rel ac;:ao d e carinho e solidariedade no processo do cu idado. Durante a rea l iza<;ao das entrevistas observamos as d ificu ldades enfrentadas pelos cuidadores, em fun<;ao de mu itos necessitarem ass u m i r, simultaneamente, 0 cuidado do doente, 0 compromisso la boral e 0 su stento da fa m i l i a . Verificamos, ainda, q u e ha fa m i l ias ( o u doentes) que tem cond ic;:ao econom ica de conta r com 0 apoio de profissional contratado, possibi litando d ivisao das tarefas de cuidado. Certamente, cu idar d e u m familiar em casa traz sobrecarga a familia, exigindo mudan<;as na sua organizac;:ao. A PERCEPC A o D O C L I E NTE SOBRE 0 ATENDIM ENTO DOMICILIAR - CATEGORIAS CONSTRU i DAS A P E RCEPC;Ao SOBRE 0 ATE N D I M ENTO DA EQU I P E Os participantes do estudo referem gostar muito d o atendi mento rea l izado p e l a eq uipe. Ressaltam a presteza , atenc;:ao , cordialidade, amizade e tranq Oilidade com que sao atendidos. Consideram esse tipo de atividade uma inovac;:ao e relembram a sua intancia, quando os medicos particu lares vi nham em casa : Rev. B ra s . E nferm . , Brasi l i a , v. 55, n. 2, p. 1 40- 1 45 , mar./a b r. 2002 PASKULl N , L. M . G . ; D IAS , V. R. F. G . Entao se tornaram assim . . . amigas, ne ? sao pessoas muito queridas na familia. Eu tenho 0 dialogo aberto e isso para mim e muito importante. (Suj . . 1 ) Percebemos nessa fala a valorizac;ao do vinculo com os profissionais do servic;o . A Aten c;ao Primaria de Saude prenuncia q u e 0 vinculo p ropicia maior resol utividade das necessidades de saude (STARF I E L D , 1 992 ). Destacamos, ainda, 0 depoimento d e u m dos clientes q u e relata a diferenc;a do atendimento p restado em sua casa a o referir-se aos profissionais de saude que 0 acompanham n o domicilio: . . . eu nao sei se e porque eles vem aqui na minha casa que eles sao mais educados . . . eu acho mais educaC;ao deles aqui . . (Suj . 1 7 ) . Este relato vem ao encontro da afirmac;ao de Clayson citado por Oliveira e Berguer ( 1 996, p . 72) ao destacar que a d inamica de atendi mento em uma visita domiciliar e alterada "su bstancialmente em fu nc;ao d e ser real izado no territ6rio do paciente". A PERC EPy A O SOBRE S E R C U I DADO P E LA FAM I LIA Dez participantes d o estudo opinam positivamente quanto a ser cuidado em cas a pela fam i l i a . Valorizam 0 cuidado d iferenciado recebido pelos fi lhos: A minha filha me cuida ela e muito . . . , e demais (Suj . 1 0) ; Em casa elas me cuidam com carinho, me dao banho com carinho e tudo . . . (Suj . 4 ) . Atraves de uma frase singu lar, expressam 0 carinho recebido e a individualizac;ao do cuidado: Canja e beijo na boca e s6 em casa (Suj . 1 4) ; Ela e q u e cuida de mim, agora eu e que sou filha dela. (Suj . 1 5) Um paciente refere as dificuldades enfrentadas pelos fa m i l i a re s p a ra p o d e re m c u i d a - I o e a s s u m i r s e u s compromissos simu ltaneamente : E complicado . . . ela (a filha) tem muita obrigaC;ao. (Suj . 1 6 ) As d iferenc;as contidas nos rel atos acima revelam que as condic;6es familiares sao d eterminantes da satisfac;ao pelo cu idado recebido. Assi m , a i nter-relac;ao da familia e s u a situac;ao soci o e co n 6 m ica i ra Q d efi n i r, ta m be m , a qualidade do cuidado. Ressa lta mos que estas diferenc;as devem ser investigadas, identificadas e trabalhadas pela equipe que presta 0 atendi mento . Reforc;amos, tambem, a importancia do trabalho i nterd i sci plinar para q u e se possa refleti r com a fam i l ia sobre suas vivEmcias, sentimentos e dificuldades, auxiliando-a a encontrar altemativas de interac;ao e convive n c i a c o m a s s i t u a c;6 e s e n fre n ta d a s . E stas considerac;6es vem ao encontro as d e Araujo, Sampaio, Carneiro e Sena (2000, p . 1 1 8) q u e a pontam a necessidade de uma "parceria tera peutica" , onde 0 cuidado domiciliar permite 0 resgate das praticas tradicionalmente usadas pel a popu laC;ao, embasadas na sua bagagem cultura l . Os outros cinco sujeitos d a amostra n a o qualificam o cuidado recebido em casa , relata ndo apenas as ta refas desempenhadas pelos familiares/cu idadores . Quanto as atividades desenvolvidas pel os familiaresl cuidadores citadas pelos pacientes envolvem: auxilio na higiene, preparo d a alimentac;ao, limpeza da casa, cu idados com as ro upas, rea l izac;ao d e curativ�s, fornecimento e admin istrac;ao da medicac;ao. Alem das atividades diarias no cuidado d o paciente e l i m peza da casa, relatam ainda que recebem auxilio dos familiares na realizac;ao de compras no mercado e de "coisas de rua" como pagamentos d e contas, marcac;ao d e co nsu ltas e outros . VANTAGE N S DO ATEN D I M E NTO DOM I CI LIAR Em relac;ao a esta categoria todos os usuarios reforc;am a importancia deste tipo de atendimento em fu nc;ao de sua d ificu ldade de locomoc;ao. Relatam a faci lidade d e acompanhamento, visto n a o dependerem dos familiares para serem assistidos, nao terem gastos com 0 transporte e nao necessitarem "entrar e m fila" (suj . 1 0) . Cinco pacientes demonstram em suas falas valorizar o atendi mento , a atenc;ao q u e recebem e a im porta ncia do apoio dos profissionais: Sao pessoas que me transmitem um pouco de carinho, um pouco de calor humane nas fases mais dificeis da minha vida, ne ? ( S uj . 1 ) Outros quatro apontam a facilidade para a realizac;ao de proced imentos e forneci mento de material : . . . as enfermeiras abrem, poe curativ�, trazem 0 que precisa: gazes, remedios, essas faixas, a pomada. (Suj . 2)... U m d o s u s u a r i o e s p e ra , a i n d a , q u e o u t r a s dificu ldades sejam resolvidas p e l a equipe do posto : Eles estavam ajudando na parte financeira, num ranchinho . . . mas nao durou dois meses e ja cortaram tudo. (Suj . 1 9) Com menor freqUencia sao citadas as possibilidades d e conti nuidade do tratamento por meio do atendi mento em casa e a crenc;a d e poder prevenir problemas: Fica mais a von tade, a gente tem mais liberdade em casa ne ? (Suj. 9); Se prevenir antes, do que deixar acontecer. . . (Suj . 1 ) Ao compararem com 0 atendimento recebido por ocasiao de i nternac;ao hospitalar a maioria p refere ser acom panhado e m casa por ter mais l i berdade, ser mais tranq U ilo, poder fica r com a fam il i a , comer 0 que gosta , escolher os horarios, nao precisar ver 0 sofrimento dos outros d oentes , bem como nao precisar esperar sua vez para ser atend ido: Eles em casa vem com mais calma (Suj . 1 3); ... a gente fica junto com a familia ne ? Vem um parente, vem outro . . . (Suj . 1 5) . U m dos sujeitos do estudo a o fazer esta comparac;ao reforc;a q u e em casa mel hora mais rapido e fala sobre a rotina do Hospita l : E. Melhora bem mais ligeiro. L a tem horario pra tudo ne ? E como um quartel. Pra ti trocar tu espera, porque tem mais trezentos para trocar. . 0 cara vomitava do meu lado. Vamos fazer 0 que ? Comer nao vamos mais, colocava 0 . Rev. Bras. E nfe rm . , Bras ilia, v. 55, n . 2 , p . 1 40- 1 45 , mar.labr. 2002 1 43 Como e ser cuidado . . . prato para 0 lado. Nao pode falar porque ele e doente, ta doente, fazer o que ? (Suj . 1 8) P o r o u tr� l a d e u m d o s p a c i e n t e s v e c o m o desvantagem nao ter recursos a m a o como no hospita l : Nao tem muita diferenr;a, la a gente esta n o meio dos recursos, aqui tem que sair correndo e procurar ajuda, mas e melhor poder ser atendido em casa pois posso ficar junto com a esposa que me ajuda . . . (Suj . 1 2 ) A P E R C E P <; A o S O B R E A S D I F I C U L D A D E S D O PROGRAMA - 0 Q U E PODE S E R M EL H O RADO A maior parte dos sujeitos do estudo sugerem que o atendimento seja sistematizado, onde as visitas domiciliares tenham uma freq uencia planejada e garantida : Prazo para realizar visitar;ao (Suj . 3 ) ; . . . devia ter alguem que uma vez por mes, uma vez por 1 5 dias ia e verificava a pressao de todos e fazia um historico. . . quando acontece alguma coisa 0 medico vai saber desde quando ta com a pressao alta (Suj . 1 ); . . . deveria ter um acompanhamento, ne ? Nao so quando tem alguma coisa (Suj . 1 5) A i n d a sao s u g e r i d o s : a existe n c i a d e u m a "assistencia" (ambu lancia) para 0 tra nsporte dos pacientes acamados, quando necessari o ; um "tel efone 24 horas" visando ao contato ininterrupto com os profissionais do posto; a informatiza<;ao dos prontu arios; a i m plem enta<;ao d e atendimento odontol6gico para todos o s pacientes acamados; expa ndir 0 atendimento domici l iar para alem da area de abrangencia do servi<;o e mel horar a letra das receitas med icas. Tambem ha 0 relato d e um dos clientes quanto ao com um atendi mento q u e foi marcado e nao foi rea lizado . Confirmamos 0 referido por Bastos, Santana e Nunes (2000) quanto a importancia da aval ia<;ao do usuario sobre 0 sistema de saude. Os autores apontam que a avalia<;ao alem de ser um indicador da qualidade do servi<;o prestado tambem possibilita uma maior adequa<;ao no uso do servi<;o . Assim , acred itamos q u e a s percep<;oes dos clientes quanto ao atendimento prestado pela eq uipe, sobre ser cu idado em seu domicflio e sobre as d ificuldades do Programa e auxiliam os profissionais e o servi<;o como u m todo na delimita<;ao de estrategias de atua<;ao cond izentes com as necessidades dos usuarios . nas estrateg ias d e reconstru<;ao do seu espa<;o ffsico para q u e p o s s a m a c e s s a r o bj etos n e ces sarios d e fo rma independente; a construyao de "peya" com banheiro adaptado as necessidades do acamado, adapta<;ao de equipamentos para higiene, alimenta<;ao e necessidades fisiol6gicas, alem d a s q u e s t 6 e s p s i co l 6 g i c a s p a ra e n fre n t a r e m a s circunstancias n a q u a l s e encontram . Va lorizam tambem situa<;oes de solidariedade da comunidade onde se inserem , como auxflio para transporte, visita de religiosos e voluntarios. CONSIDERAC; O ES FINAlS Verifica-se que a popula<;ao em estudo e composta na sua grande maioria por m u l heres , idosos, portadores de doen<;as cro n i co-d e g e n e rativa s , te ndo como principal cu idador os fil hos e estao, em med ia, ha quatro anos em atendi mento domicil iar. Os sujeitos d o estu d o perce bem q u a l idade no atendi mento q u e recebem no domicilio, tanto no ambito da cu ra q u a nto da p reve n <;a o , v a l o rizando 0 v i n c u l o , a continuidade no atend i mento e facilidade de acesso. A p o s s i b i l i d a d e d e co n h e ce r e v a l o r i z a r a s percep<;oes de clientes cu idados em seus domicflios, como um suporte a aval ia<;ao do atendi mento prestado propiciou ao servi<;o uma reflexao d a sua prati ca , buscando seu apri moramento , considerando as necessidades sentidas pelos usuarios. Trouxe tambem elementos para subsidiar 0 ensino dos futuros profissionais de saude, ao buscarmos mod ificar 0 modele de aten<;ao vigente . F i ca evi d e nte n o s d e p o i m e ntos q u e 0 grande diferencial do cuidado domiciliar e a questao da humaniza<;ao do atendi mento tanto pelo am biente , como pel a i ntera<;ao com a fam i l i a . O s re s u l t a d o s e n co n t ra d o s a p o n t a m q u e e imprescind ivel haver atendimento domiciliar no Sistema U nico de Saude (SUS), u m a vez que a popula<;ao de menor poder aquisitivo fica d esassistido na ausencia deste . o presente estudo mobilizou a equipe de saude para uma reaval ia<;ao e readequa<;ao do trabalho desenvolvido. Assim, bu scou-se melhor sistematizar 0 cu idado, inclusive, com garantia d a p rivacidade das visitas aos pacientes . Tambem foi constru ida u m a cartilha para dar suporte ao cuidador i ntradomiciliar, alem d a real iza<;ao de um Grupo de Apoio para Cuidadores de Pacientes Acamados . AS VIV � NC IAS DOS PART I C I PANTES DO EST U DO REFERE NCIAS BIBLIOGRA FICAS Os entrevistados, ao falarem sobre sua situa<;ao atual, trouxeram q uestoes acerca de suas hist6rias de vida que pela relevancia merecem ser destacadas: ARAU JO, M . R. N . et a l . Saude da Familia: Cu idando no Domicilio. Revista B rasileira de Enfermage m , Bras ilia, v. 53, p . 1 1 7- 1 22 , dez. 2000. Ed ic;:ao Especi a l . Briguei com velhice . . (Suj . 5); 0 mundo . . . nao me preparei para a . Tenho saudades da casa no interior (Suj . 6 ) . Os suje itos a b o rd a m a fa s e d o cicio fa m i l i a r vivenciad a , falando sobre as d ificu l d ades n a s rela<;oes fam i liares , a perda d e parentes pr6xi mos como fil hos e esposo. Relatam ainda 0 suporte pessoal que buscam atraves da auto ajuda e do auxilio dos fam i l iares , exem pl ifi cados 1 44 BARD I N , L . Analise de conteudo. Lisboa : Edic;:oes 70, 1 977. BASTO S , A . C; S A N TA N A , E; N U N E S , M. 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