LITERATURA
BRASILEIRA II
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LITERATURA BRASILEIRA II
O ROMANTISMO
WILMA MARTINS DE MENDONÇA
MAURIENE SILVA DE FREITAS
Olá,
SejabemͲvindo(a)
VocêestáingressandonoCursoVirtualdeLiteraturaBrasileiraII,quetrata,especificamente,
dasletrasromânticas.Escritosinauguraisdenossaliteraturanacional,essaselaboraçõesestéticassão
responsáveis,emlargamedida,pelasconfiguraçõesquefazemosdenósmesmosepelosmaisdiversos
retratoseperfisdebrasilidadeque circulam,atéhoje,emnossocontextosocialeem nossouniverso
escritural.
Objetivandoaexposiçãoeadiscussãodasperspectivasteóricasquenorteiamaleituradessa
modalidade literária, essa componente curricular revisitará as tentativas de apreensão do fenômeno
romântico,atentandoparaadiversidadeeapluralidadequecaracterizamassuasmanifestaçõesestétiͲ
cas,similaresàmultiplicidadedevisõesquebuscamacompreensãodasensibilidaderomântica.Nesse
intento,estruturamosesseCursoemquatrounidades,assimdistribuídas.
Aprimeira,intituladaORomantismo:desencantamentoereencantamentodomundo,focaliͲ
zaráaliteraturaromânticaemsuasorigens,feições,modosderealizaçãoougêneros,comotambémem
seu processo de propagação no mundo ocidental. Assim, nos voltaremos para o Romantismo em sua
própriagêneseeformação,ouseja,paraessaestéticaemsolo europeu.Duasobrasnosguiam neste
estudo: Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda (1984), do poeta e crítico Octavio Paz, único
escritorlatinoͲamericanoagraciadocomoPrêmioNobeldeLiteratura(1991),eRevoltaemelancolia:o
romantismonacontramãodamodernidade,deMichaelLöwyeRobertSayre,publicadaemParis(1992)
etraduzidaparaoBrasilem1995.
AsegundaunidadeseconstituirádosestudossobreoRomantismonoBrasil.Nela,procurareͲ
mosverificarcomoseprocessamaimportação,aaclimataçãoeadefinitivainserçãodoideárioeuropeu
naliteraturabrasileira.BuscaͲse,essencialmente,omodus,ouasestratégiasdeconstruçãotextual,com
as quais os nossos escritores abrasileirizam o espírito romântico europeu, em conflito aberto com a
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Modernidade.Naelaboraçãodessetópico,contamos,sobretudo,comaselaboraçõesteóricoͲcríticasde
AntonioCandidoedeAlfredoBosi,cujasperspectivassãoendossadasporesteestudo.
Aterceiraunidadeconsistirádaleituraedadiscussãoorientadadetextosrepresentativosda
fase romântica, procurandoͲse contempláͲla em suas principais tendências e orientações. A quarta e
últimaunidadesepropõecomoleituracomparadaentreostextosromânticoseosescritosposteriores
queosretomameosatualizam,aolongodenossatrajetórialiterária,sejaemformaparafrásica,paroͲ
dística,oumesmoatravésdasimplesapropriaçãooudaestilização,mecanismodecriaçãomaiscompleͲ
xo.Paraarealizaçãodessesexercíciosliterários,deverãoserconsideradostantoosobjetivostraçados
quantoasleiturasindicadasparaessefim.
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UNIDADE I
O ROMANTISMO:
DESENCANTAMENTO E REENCANTAMENTO DO MUNDO
Sim,meucaro,radicaͲseͲmecadavezmaisaidéiadequeépoucacoisa,bempoucacoisaa
existênciadeumacriatura.
Goethe
Comoédecididamentecontrárioàordemburguesaeabsolutamenteinterditointroduzira
poesiaromânticanavida,nessecaso,levemosnossavidaparaapoesiaromântica.
DorotheaSchlegel
Das dificuldades de conceituação do Romantismo
Aoafirmarqueserianecessárioterperdidotodooespíritoderigorparaseaventurarnabusca
dedefiniçãodoRomantismo,opoetafrancêsPaulValéry(1871–1945)sintetizava,empoucaspalavras,
asdificuldadesteóricoͲcríticas,emfacedaconceituaçãoedadefiniçãodasmanifestaçõesromânticas,
modalidadeliteráriaqueseoriginaeflorescenoOcidente,espaçogeográficoͲculturalaoqualserestrinͲ
giu.
Naverdade,desdeoseusurgimento,ofenômenoromânticoseapresentacomoumenigma
aparentementeindecifrávele,concretamente,mutáveleescorregadio,queconfundeeespicaçaacurioͲ
sidadedosmaisdiversoscríticoseteóricosdaliteraturadomundoocidental,deondeprovémeonde
persisteemressurgiratéosdiasatuais.Essesressurgimentoscomplicam,aindamais,aapreensãocrítica
daestéticaromântica,dificultandoasuademarcação,conformerealçamLöwyeSayre:
Depoisdeterlimitado,durantemuitotempo;ofenômenoromânticoaosmovimentos
quesedenominavamoueramdesignadoscomotalnaprimeirametadedoséculoXIX,
ahistórialiteráriaacabou,porvezes,reconhecendosuacontinuaçãonasegundameͲ
tadedesseséculo;evitou,porém,prolongáͲlaparaalémdesseperíodo(LÖWY;SAYRE,
1995,p.219).
Redivivas,asmarcasromânticaspersistememfrequentarosmaisvariadosmovimentosestétiͲ
cosquelhes sucederam,terminandoporalcançar, deformaexpressiva,asprópriasVanguardasEuroͲ
péiaseoModernismonoBrasil,nosiníciosdoséculoXX.NacompreensãodessapersistentefrequentaͲ
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çãoromânticanasliteraturasocidentais,queseprocessatantonaEuropacomonaAméricaLatina,caͲ
minhaareflexão,confessadamenteancoradapelaperspectivahispanoͲamericana,deOctavioPaz:
Acontradiçãoentrehistóriaepoesiapertenceatodasassociedades,porémsomente
na idade moderna manifestaͲse de modo explícito. O sentimento e a consciência da
discórdia entre sociedade e poesia converteramͲse a partir do romantismo, no tema
central, muitas vezes secreto, de nossa poesia. Neste livro procurei descrever, sob a
perspectiva de um poeta hispanoͲamericano, o movimento poético moderno e suas
relações contraditórias com o que denominamos ‘modernidade' (PAZ, 1984, p. 11 –
grifodoautor).
SegundoMichaelLöwyeRobertSayre,estudiososdaarteromânticaeuropeiae,comoOctavio
Paz,autoresͲchavedesse tópicodisciplinar,asdificuldadesdeapreensãoda complexidadedofatoroͲ
mântico se devem à sua diversidade, ao seu caráter fabulosamente contraditório, à sua natureza de
coincidentia oppositorum, conforme expressam em sua obra Revolta e melancolia: o romantismo na
contramãodamodernidade,de1995:
Enigmaaparentementeindecifrável,ofatoromânticoparecedesafiaraanálise,nãosó
porquesuadiversidadesuperabundanteresisteàstentativasderedução,massobreͲ
tudo por seu caráter fabulosamente contraditório, sua natureza de coincidentia
oppositorum:simultânea(oualternadamente)revolucionárioecontraͲrevolucionário,
individualistaecomunitário,cosmopolitaenacionalista,realistaefantástico,retrógraͲ
doeutopista,revoltadoemelancólico,democráticoearistocrático,ativistaecontemͲ
plativo,republicanoemonarquista,vermelhoebranco,místicoesensual.TaiscontraͲ
diçõespermeiamnãosóofatoromânticonoseuconjunto,masavidaeaobradeum
únicoemesmoautor,eporvezesumúnicoemesmotexto(LÖWY;SAYRE,
Da abrangência da visão romântica
ApartirdoséculoXIX,avisãoromânticademundomigradoterrenoespecíficodoestético,inͲ
vadindoosdiscursosdaFilosofia,daPedagogia,daTeologia,daHistoria,daEconomia,daPolítica,etc.
Essa notável abrangência tem irritado, continuadamente, os teóricos literários, notadamente aqueles
pouco afeitos ao ideário romântico. Entre eles, podemos citar o crítico estadunidense Arthur Lovejoy.
Anteadisseminaçãodoespíritoromânticoemtãodiversoscamposdavidacultural–eemtãodiferenͲ
tespaíses–Lovejoypropõequeotermoromantismofosseabolidodacríticaliterária,emdiscursoque
revelaoprópriotemordanãoͲaceitaçãodesuaproposição:
Apalavraromânticojásignificoutãograndenúmerodecoisasque,emsi,nãosignifica
nada.Deixoudeexercerafunçãodeumsignoverbal...ReceioqueoúnicoremédioraͲ
dical–asaber,quetodosnósdeixemosdefalardoromantismo–nãovenhaseradoͲ
tado(LOVEJOY,apudLÖWY;SAYRE,1995,p.10).
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Oreceio,ouintuição,deArthurLovejoyseconcretizava.OsmaisconhecidoseimportantescríͲ
ticos literários do Ocidente, especialmente os pesquisadores do Romantismo, se opuseram a sua proͲ
postadebanimentolinguístico,ounominalismo,comoficouconhecida.Entreessesteóricos,destacamͲ
seStefanosRozanis,RenéWellek,Abrams,MorsePeckham,conformenosafiançamLöwyeSayre:
Ora,comoéobservadoporStefanosRozanisemsuacríticaaLovejoy,amultiplicidade
dasexpressõesliterárias,doromantismonosdiferentespaísesnãoultrapassaonível
de umproblema filológico limitado – enquanto manifestaçãode particularidadesnaͲ
cionaiseindividuais–quenãocoloca,demodoalgum,emquestãoaunidadeessencial
dofenômeno[...]QuantoaWellek,aoproblematizarcontraonominalismodeLoveͲ
joy,afirmaqueosmovimentosromânticosformamumaunidadeepossuemumconͲ
junto coerente de idéias que implicam reciprocamente: a imaginação, a natureza, o
símboloeomito(LÖWY;SAYRE,1995,p.10Ͳ13)
EmaproximaçãoaLovejoy,otambémestadunidenseWilliamMontgomeryMcGoverninvestiͲ
riacontraasletrasromânticas,maisprecisamentesobreoseucoroláriopolítico.Aosedebruçarsobrea
obradeThomasCarlyle(1795Ͳ1881),românticoescocêseadmiradordaautoragermânicaMadamede
Staël,McGovernaconsiderariacomoumprelúdioaonazismodeHitler.Dessemodo,vêasideologias
políticasromânticascomoumapreparaçãoparaonazismo.Aele,responderiamMichaelLöwyeRobert
Sayre,desautorizando,concomitantemente,asuaanáliseeperspectivacríticaadotada,modelocomum
àépocadaSegundaGuerra:
NãohádúvidadequeosideólogosnazistasinspiraramͲseemalgunstemasromântiͲ
cos; mas isso não autorizaa reescrever toda a históriado romantismo políticocomo
umsimplesprefáciohistóricodoTerceiroReich[...]DequemaneiraincluirRousseau
nessequadroteórico?Evidentemente,paraessetipodeanálise,osromânticosingleͲ
sesefranceses(‘ocidentais’)nãopodemserconsideradoscomo‘verdadeiros’românͲ
ticos.Eoquedizerdosromânticosalemãesjacobinoserevolucionários(Hölderlin,BüͲ
chner,etc.)?Éclaro,vaiserprecisosituaressestextosemseucontextohistórico(nos
anos1939Ͳ1945),favorávelaumapercepçãodoromantismoemgeral,edesuaversão
alemãemparticular(LÖWY;SAYRE,1995,p.16Ͳ17–grifosdosautores).
Entreosqueexpressamumaostensivamávontadecomasensibilidaderomântica,podemos
elencar,ainda,CarlSchmitt,BenedettoCroceePierreLasserre,cujosescritossãoamplamentediscutiͲ
dos pelos nossos teóricos. Os três, igualmente, investem contra a feminilidade do Romantismo, num
discursomarcadopelostonspejorativosdadiscriminaçãoàmulher,conformeseverificaemseusarguͲ
mentos.
EmseusescritossobreoRomantismo,CarlSchmittassinalaumapretensainsuficiênciamoral
do lirismo romântico. Traduzida como passividade ou falta de virilidade, essa insuficiência da poética
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romântica derivaria, segundo ele, da exaltação do feminino posta em circulação pelos artistas do RoͲ
mantismo,comoanotamLöwyeSayre(1995,p.12).
Em rota similar, Benedetto Croce observa as contradições que permeiam o objeto artístico
romântico.Numavisívelreduplicaçãodosvelhosestereótiposquecircundam,historicamente,ouniverͲ
so feminino, Croce acredita que tais contradições se devem à natureza da alma romântica: feminina,
impressionável,sentimental,incoerenteevolúvel(apudLÖWY;SAYRE,1995,p.12).
ComPierreLasserre,essetomnãosealteraria.Paraesseteórico,aidiossincrasiaromânticase
deveàsuaessênciafemininaqueespalha,portodaparte,“osinstintoseotrabalhodamulher,entregue
asi”,numpurosubjetivismoqueoRomantismo“sistematiza,glorifica,diviniza”,comopontuaLasserre
(apudLöwy;Sayre,1995,p.12).TaisinterpretaçõesseriamrecusadaspelopoetaeteóricoOctavioPaz.
MuitoàvontadecomacentralidadefemininadoRomantismo,OctavioPazobservaamultipliͲ
cidaderomântica,asuaramificaçãopelosmaisvariadosdiscursosculturaisdoOcidente,perscrutandoͲ
lhesosentidoeasignificação.Nessaassimetria,demarcaͲlheasingularidadeemrelaçãoaosmovimenͲ
toseestilosdopassado,enquantoreconheceoimpulsoàfusãoentreavidaeapoesia,comoodínamo
daestéticaromântica:
Foiaprimeiraeamaisousadadasrevoluçõespoéticas,aprimeiraaexplorarosdomíͲ
nios subterrâneos do sonho, do pensamento inconsciente e do erotismo; a primeira,
também,afazerdanostalgiadopassadoumaestéticaeumapolítica[..]Oromantismo
foiummovimentoliterário,mastambémfoiumamoral,umaeróticaeumapolítica.
Senãofoiumareligião,foialgomaisqueumaestéticaeumafilosofia:ummodode
pensar,sentir,enamorarͲse,combater,viajar.UmmododevivereummododemorͲ
rer [...] A poesia romântica não foi só uma mudança de estilo e linguagens: foi uma
mudançadecrenças,eéistooqueadistinguedosmovimentoseestilospoéticosdo
passado.Nemaartebarrocanemoneoclássicoforamrupturasdosistemadecrenças
doOcidente(PAZ,1984,p.63;83Ͳ88–grifosnossos).
Em1978,apósquatroanosdaediçãodaobradeOctavioPaz,essainclinaçãoteóricaseriareͲ
tomada pelos estudiosos brasileiros, com a publicação do livro O Romantismo, organizado por Jacob
Guinsburg. Verdadeiro painel da visãocrítica do Brasil, essaobra, através de seus múltiplos autores e
textos,tentadescortinaracomplexidadedoRomantismo,comojáindiciaGuinsburgemseutextointroͲ
dutórioaessacoletâneacrítica:
OqueéoRomantismo?Umaescola,umatendência,umaforma,umfenômenohistóͲ
rico,umestadodeespírito?Provavelmentetudoistojuntoecadaitememseparado
[..]Eleéapenasumaconfiguraçãoestilísticaou,comoqueremalguns,umadasduas
modalidadespolareseantitéticas[..]MasétambémumaescolahistoricamentedefiͲ
nida,quesurgiunumdadomomento,emcondiçõesconcretasecomrespostascaracͲ
terísticasàsituaçãoqueselheapresentou[..]Éumfatohistóricoqueassinala,nahisͲ
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tóriadaconsciênciahumana,arelevânciadaconsciênciahistórica.É,pois,umaforma
depensarquepensouesepensouhistoricamente(GUINSBURG,2002,p.13Ͳ14).
Do surgimento do fenômeno romântico
Docampoteóricodoqualseindagaoquandoeondesurgeofenômenoromântico,járecoͲ
nhecidocomotal,reinaumaconsiderávelconfusão,marcadatambémpeladiversidadeopinativa.Ora,
apontaͲseaInglaterracomoocentrodesurgimentodaarteromântica;oraaAlemanha,ou,ainda,de
formaconcomitante,essesdoispaíses,enquantoseressaltaoingressotardiodoespíritoromânticoem
solofrancês.
Defendendoaprimaziaalemã,ofrancêsPaulVanTieghem(1871Ͳ1948)afirmaquesãonas
manifestaçõesocorridasentre1797e1810quesedevesituaroiníciodoRomantismopropriamente
dito,ouseja,apartirdosurgimentodaescolaalemã,seguidapelosingleses,emparticularporWalter
ScotteChateaubriand.Sóposteriormente,surgirianaFrançaenospaísesescandinavos,naItáliae,mais
tardiamente,naEspanhaenaPolônia.
Nessacompreensão,VanTieghemelaboraumatabelacronológicadosiníciosdoRomantismo
naEuropa:1795paraaAlemanha;1798paraaInglaterraeoiníciodoséculoXIXparaaFrançaeospaíͲ
sesescandinavos;1816,paraaItália;eumpoucomaistardeparaaEspanha;1822,paraaPolônia.NesͲ
secalendário,VanTieghemreforçaostatusdeprecursoraqueeleatribuiàAlemanha,assinalandotamͲ
bémoatrasodairrupçãoromânticaemFrança.
Noutroolhar,oteóricoArnoldHauseracreditaseroRomantismoummovimentooriginalmenͲ
te inglês, situando, assim, o cenário da Inglaterra como ponto de nascimento da estética romântica,
enquantoapontaparaasespecificidadesdasmanifestaçõesinglesas,segundoele,muitomaisàvontade
comasregrasdecomposiçãodaherançaclássica,doqueaFrançaeaAlemanha.
Poroutrolado,OctavioPazseinclinapelaInglaterraepelaAlemanhacomoosepicentrosoriͲ
ginais da corrente romântica, de onde se propaga o seu ideário por todo o continente europeu. Para
Paz,aproeminênciadoRomantismoalemãoeinglêssedevemenosasuaantecipaçãocronológicado
queàsuaformidávelpenetraçãocríticaesuaoriginalidadepoética.
RessaltandoaqualidadeliteráriadasproduçõesromânticasnaAlemanhaenaInglaterra,eloͲ
giando os seus escritos programáticos, verdadeiros manifestos revolucionários, Octavio Paz terminaria
porcreditar,aessaexcelênciadiscursiva,apermanênciadeumatradiçãoquesecomunicariaàposteriͲ
dade,paraaqual,insistentemente,opoetamexicanochamaaatençãodeseuleitor,reforçandoocaráͲ
terdeatualidadedasexpressõesromânticas.
Tais perspectivas, em conjunto, seriam retomadas e redimensionadas pelos estudos de JacͲ
quesBousquetepelaspesquisasdeKarlMannheim,escritoresque,àsemelhançadeOctavioPaz,são
frequentementechamadosaotextodeMichaelLöwyedeRobertSayre.
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EmacordocomopensamentodeBousquetedeMannheim,LöwyeSayrefocalizamoinício
doRomantismonoespaçotemporaldasegundametadedoséculoXVIII,elegendo,igualmente,aFranͲ
ça,aAlemanhaeaInglaterracomoprecursorasefiadorasdodesenvolvimento,dadivulgaçãoedadisͲ
seminaçãodanovaarteeuropeia.Nessaescolha,LöwyeSayredescartamavisãodaFrançacomorefraͲ
tária às ideias iniciais do Romantismo, amparandoͲse, explicitamente, nos trabalhos de Bousquet e
Mannheim:
Com efeito, a Alemanha e a Inglaterra já foram propostas como candidatas a esse
título: a primeira quase sempre por motivo de uma vocação particular devido a seu
caráter e destino social; a segunda em razão de sue avanço socioeconômico. No
entanto, se olharmos detalhadamente a história cultural desses três países no século
XVIII, parece que essas afirmações são contestáveis e estaremos de acordo com Karl
Mannheim para quem o Romantismo apareceu praticamente ao mesmo tempo nesses três países europeus [...] Jacques Bousquet refuta de maneira convincente a idéia de que a França teve um atraso considerável [...] Houve, portanto, na França
ao mesmo tempo que na Alemanha e na Inglaterra, um denso tecido cultural romântico e não somente algumas obras-guias. Quanto à questão das pretensas influências anglo-germânicas, Bousquet prova que a dos autores alemães não teve
grande importância e a dos ingleses foi muito menor do que se afirmou (LÖWY;
SAYRE, 1995, p. 79-80 – grifos dos autores).
Elencandoosmaisvariadosargumentosquecorroboramassuasprópriasopiniões,istoé,de
queosurgimentodoespíritoromânticoseprocessoudeformasincrônicaeassemelhada,porémindeͲ
pendente,emseustrêspaísesͲcentros,LöwyeSayreprocedemaumverdadeiroinventáriodasperspecͲ
tivasteóricasacercadoRomantismo.Nessacatalogaçãodoespóliocríticoromântico,especialmenteo
elaboradonoséculoXX,nossosautoresdemonstramqueàdiversidadeeàmultiplicidadequecaracteriͲ
zamofatoromânticocorresponde,igualmente,umafabulosaeinquietantepluralidadecrítica:
Em sua forma mais banal, essa abordagem opõe o romantismo ao ‘classicismo’.
Por exemplo, segundo o Larousse du XXe siècle, ‘são chamados de românticos os
escritores que, no início do século XIX, se liberaram das regras de composição e do
estilo do classicismo. Na França, o romantismo foi uma reação profunda contra a
literatura clássica nacional, enquanto vai constituir, na Inglaterra e Alemanha, o
fundo primitivo do gênio autóctone [...] Sem ultrapassarem a visão estritamente literária do romantismo, outros críticos consideram inadequada a definição que se limita a levar em consideração as ‘regras de composição não clássicas’ ou a ‘alma nacional’ e tentam encontrar denominadores comuns mais substanciais. É o caso, em
particular, dos três mais conhecidos especialistas norte-americanos da história do
romantismo: M.H. Abrams, René Wellek e Morse Peckham. Para Abrams, apesar de
sua diversidade, os românticos compartilham certos valores: por exemplo, a vida, o
amor, a liberdade, a esperança e a alegria. Têm também em comum uma nova
concepção do espírito, que sublinha mais a atividade criadora do que a recepção
das impressões exteriores [...] Wellek afirma que os movimentos românticos formam
uma unidade e possuem um conjunto coerente de idéias que se implicam reciprocamente: a imaginação, a natureza, o símbolo e o mito [...] Peckham propõe definir
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o romantismo como uma revolução do espírito europeu contra o pensamento estático/mecânico e em favor do organicismo dinâmico. Seus valores são: a mudança,
o crescimento, a diversidade, a imaginação criadora e o inconsciente [...] Cada autor faz sua própria escolha e, por vezes, revisa sua escolha anterior [...] Por exemplo, em artigo de 1961 que reconsidera sua teoria de 1951, Morse Peckham verifica que o organicismo era antes um produto da Filosofia das Luzes [...] Incapaz de
determinar um conteúdo qualquer para essa ‘identidade do ego’, a nova tentativa
de Peckham desemboca em um vazio conceitual e nos faz reconduzir ao ponto de
partida – a tumultuosa multiplicidade das cores a serviço de um ego criativo, cara a
Carl Schmitt (LÖWY; SAYRE, 1995, p. 1-14 – grifos dos autores).
Da gênese romântica
Se o início do Romantismo é, geralmente, delimitado no espaço da última década do século
XVIII,asuagênese,todavia,remontaaosprincípiosdasegundametadedoSéculodasLuzes,porvolta
de1760.Emrazãodisso,temsefaladodeumprotoͲromantismo,oudeumapréͲhistóriadoRomantisͲ
mo,quesemanifestaduranteafasedoIluminismo,períodomarcadoporumcrescentedesenvolvimenͲ
todocapital,docomércio,daindústriaedascidades.Essebulício,metaforizadocomosolidãonasocieͲ
dade(LÖWY;SAYRE,1995,p.68),setransformariaemmaterialidadeverbal,atravésdasobrasdosmais
variadosescritoresdoperíodoiluminista.
Avisívelexpansãodoprogressonãoagradavaatodos.Haviaosromânticos, ouseja,osdesͲ
contentes,comoosdenominavaKarlMannheim,sociólogohúngaroeestudiosodasutopiasromânticas.
Dessedescontentamentosurgiaumasensibilidadequesecontrapunhaàdurezadaprosadonegócio,
quereverberavacontraoracionalismodocálculoeafriezadoespíritodocapital.Nessa(econtra)atͲ
mosfera,desabrochaoespíritoromântico.
Informadosporessaperspectiva,LöwyeSayresituamaobradeJeanͲJacquesRousseau(1712Ͳ
1778)comogênesedessasensibilidade.RetomandoacompreensãodeOctavioPaz,consideramosdiͲ
versosdiscursosdeRousseaucomotextosinauguraisdoimpulsoanticapitalista,precursoresdamaniͲ
festaçãodavisãodemundodosromânticos,portanto.Assim,consideramosescritosdeRousseau,osde
seusdiscípulos,comotambémosdeChateaubriand,comoliteraturaromânticadafaseanterioràRevoͲ
luçãoFrancesa.
RousseauéoautorͲchavenagênesedoromantismofrancêsporque,aindaemmeados
doséculoXVIII,soubearticulartodaavisãoromânticadomundo[...],alémdisso,OcͲ
tavioPazobservaque‘sealiteraturamodernacomeçacomumacríticadamodernidaͲ
deéRousseauafiguraqueencarnaesseparadoxocomumaespéciedeexemplaridaͲ
de’. Vemos aparecer em Rousseau uma configuração romântica a partir de Discours
(1750,1755)edeLaNouvelleHéloïse(1761),masigualmenteemobrasescritasnofim
desuavida:ConfessionseRêveriesdupromeneursolitaire[...]osdiscípulosdeRousseͲ
au, tais como Bernardin de SaintͲPierre e Restif de La Bretonne são plenamente roͲ
mânticos:oprimeiroemseuidíliotrágicoPauletVirginie;eosegundoemsuasutopiͲ
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ascomunistas,patriarcaisecampestres.NesseromantismoanterioràRevoluçãoFranͲ
cesa,podemossituartambémChateaubriandporquesuaobraTableauxdelaNature
foiredigidaentre1784e1790(LÖWY;SAYRE,1995,p.85Ͳ86).
Nesseraciocínio,MichaelLöwyeRobertSayredesconstroemumaperspectivacríticabastante
rotineiranoscompêndiosdeLiteraturae,deformamaisacentuada,noslivrosdidáticosoriginados,no
maisdasvezes,dasmaisconflitantesinterpretações:adoestabelecimentodeumarelaçãodiretaentre
aRevoluçãoFrancesaeasideiasromânticas.
Ora,aoidentificar,naobradeRousseau,agênesedoespíritoromântico,LöwyeSayrefazemo
movimento romântico recuar para aquém da Revolução Francesa e, na mesma moeda, o avança para
alémdaRevoluçãoIndustrial.Assim,criticamacidamenteasinterpretaçõesqueinsistememligar,com
estreitos laços, o advento do Romantismo a determinantes históricos ou econômicos, valendoͲse da
contribuiçãodeHenriPeyre,pesquisadorfrancêsdasletrasromânticas,aquemchamameconcedem
voz,emsuaobra:
Escutemos a opinião de um eminente especialista, Henri Peyre: ‘Seria arriscado ligar
demasiadoestreitamenteascriaçõesdoespírito,istoé,amaislivreatividadequese
possaimaginar,aosacontecimentosdahistóriaeàvidaeconômica...Defato,asrelaͲ
çõesentreliteraturaesociedadesãopraticamenteindefiníveis...LigarcomojásetenͲ
toufazer,oromantismoaoadventodarevoluçãoindustrial...éaindamaisarriscado...
Se, em seguida, o romantismo exprimiu, melhor do que inúmeros historiadores, os
transtornoscausadospeloafluxodaspopulaçõesemdireçãoàindustriaeàscidades,a
misériadasclassestrabalhadorasjulgadastambémclassesperigosas....issoaconteceu
porqueBalzac,oHugodosMiseráveiseatémesmoEugèneSue,maistardeDickense
Disraeli na Inglaterra, foram observadores argutos da sociedade e homens magnâniͲ
mos’.Aexplicaçãopelocoraçãoéumpoucolimitadaeincapazdepreencherovazio
analítico que resulta da recusa em examinar a relação entre literatura e sociedade
(LÖWY;SAYRE,1995,p.20)
A visão romântica: desencantamento e reencantamento do mundo
ApartirdasegundametadedoséculoXVII,aEuropaassisteaumavertiginosatransformação
social,operadapelaordemdocapitalquesevaiconsolidandoecriandoumnovotempoefeiçãosocial
quesedenominarádeModernidade.
Conceitoexclusivamenteocidental,aModernidadeiriasecaracterizarpeloacentuadodesenͲ
volvimentodocomércio,daindústria,datécnica,doraciocíniocientíficoelógicoqueoIluminismoafaͲ
gava.Noreverso,tambémseverificaodesalentoanteoraciocínioabstratoefriodocálculo,aimpessoͲ
alidadedaburocracia,amisériapasmosadegrandescontingenteshumanosqueabandonamocampo
embuscadasgrandescidades,oabandonoinfantil,ahumilhaçãodostrabalhadores,aquebradosvínͲ
culossociaiseafetivos,opoderdodinheiro,oflagelodapobreza,aquantificaçãodomundoeaconseͲ
quentereificaçãohumana.
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DessaModernidade–econtraela–desabrochaasensibilidaderomântica,oupoesiamoderna
emsentidolato,comnovostemas,novasformasepersonagensoutrasquepõemfimàlógicadoClassiͲ
cismo,retomadapelaRenascimento.Nessequadro,surgeumamultiplicidadedeobrasque,refratárias
aessedesenvolvimento,denunciam,negamedesmontamoprogressoouprojeto“civilizatório”ocidenͲ
tal,especialmenteemseustrêspaísesmaisdesenvolvidos–França,AlemanhaeInglaterra–deondese
originaapoesiamoderna,claramenteengajadaemumprojetocentradonohumanismo.
Dissoresultaumaliteraturaempenhada,perpassadaorapelaperspectivaética,orapelapolítiͲ
ca, ou pela religiosidade, ou simplesmente humanística, ou tudo isso junto, como se vê nos diversos
discursosromânticos,aexemplodeThomasCarlyleque,emseusSinaisdosTempos(1829),expressao
horrorromânticoàmecanizaçãodomundo,comverdadeirotemordequeestaseestendesseaohumaͲ
no.OumesmooromanceOliverTwist(1837),doinglêsCharlesDickens,cujotemasevoltaparaainͲ
fânciaabandonadaeultrajada,paraainiquidadedosorfanatosdeLondres,seusespaçossujosesórdiͲ
dos.OumesmoOsmiseráveis(1862),dofrancêsVictorHugo,narrativaqueseconstituinumverdadeiro
panoramadasociedadefrancesa,naqualseunarradorfazumacontundentedefesadabondadehumaͲ
na,seguindoopensamentodosocialismoutópico.
NoBrasil,essaliteraturaquetomaposiçãoemfacedasiniquidadessociaisteriaumaformidáͲ
velrealizaçãoemCastroAlves.Este,comoseuspareseuropeus,revestededignidadeosmaisultrajados
pela divisão social do mundo da Modernidade. Entre nós, é o escravo, sem sombra de dúvida, sobre
quemrecaiosônusmaisinfamesdocapitalismo.Contraessaescravidão,reverbera,emprosaeverso,
nossopoetaabolicionista,CastroAlves.
Desencantados, descontentes, revoltados ou nostálgicos em relação a um tempo perdido, iͲ
dentificado em suas obras como a Idade Média, os românticos europeus recorreram às mais diversas
estratégias,emsuasbuscasdereencantamentodomundo.Entreosvariadosrecursos,temáticoseforͲ
mais, do reencantamento romântico, elencamos os que se seguem, ressaltando que muitos deles se
imbricamnumverdadeiroredemoinhoparaosseusleitores.
Imaginação–paraoRomantismo,apercepçãodorealéobradaimaginação;éumapanágio
dafantasiapoética.Otemada“imaginaçãocriadora”éameduladapoéticaromântica.ÉtamͲ
bémumarupturacomaestéticaclássica,queconcebiaaartecomomimese,comoimitação
objetivadoreal.
Fantasia–contraochoquecomarealidadehostil,provocadoradedesencanto,osromânticos
recorremàfantasia,comoestratégianarupturadoslimitesestreitosdarealidadeecomocaͲ
nalprivilegiadodepropiciaçãoaoexercíciodaimaginação.
LETRAS|83
Ensimesmamento–ainterioridade,ovoltarͲseparasi,éopontodepartidadopensamento
romântico.Paraosromânticos,expressãodaalmaéaexpressãodoEu.Daíligarem,emlarga
medida,ocultodoegoaosensoreligiosodatotalidade.
Sensodereligiosidade–contraovazioreligiosodaModernidade,vistocomoausênciadesenͲ
tidodavida,osromânticosretornamàstradiçõesreligiosaseàsmísticas,queseconverteriam
em uma das principais estratégias românticas de reencantamento do mundo, a tal ponto de
muitoscríticosconsideráͲlascomoaprincipalcaracterísticaromântica.
Nostalgia–nareaçãoàdespoetizaçãoeaoprosaísmodavidaburguesa,osromânticossevolͲ
tamparaosparaísosperdidos,paraumpassadopréͲcapitalistaouumpassadoemqueohorͲ
rordamecanizaçãodomundonãoeravisível.EssesparaísoseramidentificadosnomedievaͲ
lismoouemterraslongínquas–eexóticas–comasflorestasamericanas,oOrienteeaÍndia.
Retorno ao passado – objeto da nostalgia e da melancolia romântica, o eterno retorno se
processava tanto de forma coletiva, a exemplo do medievalismo, das tradições da pátria,
usualmente confundida como lar, quanto de forma individual, como expressa a saudade da
infância,dopassadoparticular.
Mito–narrativamágica,deinterseçãoentreareligião,ahistória,apoesia,alinguagem,eafiͲ
losofia,omitoofereceumreservatórioinesgotáveldesímbolosealegorias:fantasmas,demôͲ
niosedeuses.DesfrutadeumlugaràpartenoconjuntodosrecursosromânticosdereencanͲ
tamento. Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel, poeta alemão, associa a poesia à mitologia,
transformandoomitoemcargautópicaeapoesiaempodermágico
Cultodanatureza–diferentedaimitaçãoclássica,anaturezaparaosromânticoséoafastaͲ
mentodohicetnunc;érefúgioaobulíciodacidade,locusdemanifestaçãodaoriginalidadedo
gênio,nãoͲcontaminadopelasociedade.Opaisagismoneoclássicocedelugaraopitoresco,ao
local.É,também,contrapontoàmodernidadeindustrial,quevênanaturezatãoͲsomenteas
quantidadesdematériasͲprimasquedelapodeextrair.
Sensodehistoricidade–orientadopelavisãodasingularidadedaobra,proposiçãoprivilegiaͲ
dapelacorrentealemã,osromânticosreivindicamosensodehistoricidadeparaasartes,conͲ
cebendoͲasemsuarelaçãocomocontextohistóricoͲculturaldopaísemquesurgem,ouseja,
o espírito da nação. Na ficção histórica romântica, destacaͲse o escritor inglês Walter Scott,
comquemAlencardialogaemseusromanceshistóricos.
LETRAS|84
Superabundânciadesentimento–motivadapelavisãomaniqueístaromântica,dobemverͲ
susmal,aliteraturaromânticaexpressaumagamavariadadeemoçõesque,porvezes,alcanͲ
çamoexagerodapieguiceedodramalhão.
Repúdioàsconvençõessociais–subvertendoasociabilidadedoartistaneoclássico,osromânͲ
ticosreabilitamoscomportamentosnãoͲracionaise/ounãoͲracionalizáveis,valorizandotodas
asformasdeexistênciasubjetiva,taiscomooamor,aemoçãopura,aspaixões,asintuições,
as premonições, os instintos, o sonho, o delírio, o estado da infância. Essa indisposição às
normassociais,ouvolúpiadatransgressão,seexpressanosatanismodeByron.NoBrasil,essa
tendênciaapresentaͲse,sobretudo,emÁlvaresdeAzevedo.
Fascíniopelanoite–espaçodemagia,demistério,dossortilégios,anoitevemseadequarà
contraposiçãoromânticaàluz,signoemblemáticodoracionalismoclássico.
Ofemininoromântico–objetodoamor,concebidocomoessênciadavidapeloromantismo,a
mulherédivinizada,retiradadoseucotidiano,desuahumanidadecomumealçadaàsalturas
deumapurezaarquetípica.Mashátambémoutrasheroínas...MarionDelorme,doromance
homônimodeVictorHugo(1829);MargueriteGautier,deADamadasCamélias,deAlexandre
DumasFilho(1848);Carolina,danarrativadramáticadeJosédeAlencar,AsAsasdeumAnjo
(1958);eLúcia,personagemdoromanceLucíola1862),deautoriatambémdoautorbrasileiro.
Apátriaromântica–comoaalmaromânticavive–aquieagora–longedeseuverdadeiro
lar,desuaverdadeirapátria,estaérepresentadaevividacomoexílio,constituindoͲsecomo
carência.SegundoArnoldHauser,osentimentodecarênciadelaredeisolamentotornouͲsea
experiênciafundamentaldosromânticosdoiníciodoséculoXIX.ParaWalterBenjamim,oapeͲ
loàvidaoníricadosromânticosindicaasdificuldadesimpostaspelavidarealaoregressoda
almaaolardaterramaterna(apudLÖWY;SAYRE,1995,p.40).
Ironia–atravésdaironia,osromânticosprocuramdesfazerasaparênciasdomundoquantifiͲ
cado da Modernidade, revelando a quebra do princípio da identidade, a cisão do idêntico, o
outroladodarazão.EmSenhora(1875),JosédeAlencarseutilizariadessaestratégiaparaa
suaproblematizaçãodoamortornadonegócio,pormeiodaexigênciadedotes,arranjosmuito
comunsnoRiodeJaneiro,comocriticaAlencaratravésdesuapersonagemAurélia:
Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes,
dandoͲlhescertovalormonetário.Emlinguagemfinanceira,AuréliacotavaosseusaͲ
doradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial.
Umanoite,noCassino,aLísiaSoares,quefaziaͲseíntimacomela,edesejavaardenͲ
LETRAS|85
tementevêͲlacasada,dirigiuͲlheumgracejoacercadoAlfredoMoreira,rapazelegante
quechegararecentementedaEuropa.–Éummoçomuitodistinto,respondeuAurélia
sorrindo;valebemcomonoivocemcontosderéis;maseutenhodinheiroparapagar
ummaridodemaiorpreço,Lísia;nãomecontentocomesse(ALENCAR,1951,p.97Ͳ98,
V.XV).
Romantismo versus classicismo
Recusandoacosmovisãodomundoclássicoeaestéticaneoclássicaaelaligada,oRomantisͲ
moseprojetoucomoumgrandefenômenohistórico,comoaprimeiraeamaiordasrevoluçõespoétiͲ
casdoOcidente,nostermosdeOctavioPaz.AsubstituiçãodavisãoracionalistaclássicapelacosmoviͲ
sãoromântica–idealistaemetafísica–alteraria,radicalmente,osmodeloseospadrõesqueatéentão
orientavamafeituradopoético,doartístico.
Nessecaminhoderecusaedesubstituição,osromânticoscontrapõemaosprincípiosdiscipliͲ
nadoresdaestéticaclássica–objetividade,contenção,ponderação,proporção,equilíbrio,ordem,harͲ
monia,serenidade,clareza,caráterapolíneo,transparência,clarezaeluminosidade,elementosligados
aodomíniododiurno–asubjetividade,aliberdade,aabundância,anoite,aimaginaçãoeafantasia,os
indisciplinamentosdainterioridade.
Simetricamenteoposta,tambémseriaamaneiracomaqualosromânticosapreenderiamoarͲ
tista.Se,noClassicismo,ovalorestéticodependiaexclusivamentedaobra,cabendoaoartistaevaporarͲ
seportrásdela,noRomantismoovalordaobrapassaaseinstalarnoartista,elevadoàcondiçãode
gênio,dotadodepoderdemiúrgico,vistocomoportaͲvozdodivino,doinfinito.Assim,enquantooartisͲ
taclássicoépresoàsregraserealistaaosfatos,ogênioromânticoémovidoporsuavontade,suasemoͲ
çõesesentimentos,numexercíciodeinusitadaliberdadeautoral.
AliberdaderomânticaimpeleosseusartistasainvestircontraosditamesclássicosdaseparaͲ
çãodasartes.Opõeodiálogoentreaprosaeapoesiaàrigidezdasfronteirasliteráriasclássicas,disciͲ
plinarmenteseparadaseobedientesàssuasprópriasregras,restritasàssuasprópriasfeições.Alémde
umafabulosadiscussãosobreoverso,dessediálogoresultariaacorrosãoromânticadasvelhasformas
clássicas,comosugereAlfredoBosi:
A mesma liberdade desterra formas líricas ossificadas e faz renascer a balada e a canção, em
detrimento do soneto e da ode; ou, abolindo qualquer constrangimento, escolhe o poema
sem cortes fixos, que termina onde cessa a inspiração (Byron, Lamartine, Vigny...). A epopéia,
expressão heróica já em crise no século XVIII, é substituída pelo poema político e pelo romance histórico, livre das peias de organização interna que marcavam a narrativa em verso.
No teatro, espelho fiel dos abalos ideológicos, as mudanças não seriam menos radicais: afrouxada a distinção de tragédia e comédia, cria-se o drama, fusão de sublime e grotesco,
LETRAS|86
que inspira a reproduzir o encontro das paixões individuais contido pelas bienséanceas clássicas (BOSI, 1980, p. 105 – grifos do autor).
Darecusaromânticaaoscódigosestéticosclássicos,seusgêneros,estilosetécnicas,resultaria
o romance. Gênero misto, apreciado como a revolução literária do Terceiro Estado por Debenedetti
(apudBOSI,1980,p.106),oromanceéconsideradoogêneromodernoporexcelênciaeoquemelhor
expressouapoesiadaModernidade.Daí,afirmarͲse,continuadamente,queoromancenãoapenasofeͲ
receu ao espírito romântico as melhores condições de expressão de seu ideário, como se converteu,
exemplarmente,emgêneroprivilegiadodasociedadeburguesa.
A Música romântica
Porexpressaroinexprimível,atenuando,portanto,alacunadoverbo,abuscadaexpressiviͲ
dademusicalsetornarianumadasmaiorespreocupaçõesdoRomantismo,reveladanointeressepela
canção, em especial a de origem popular. Ao se voltar para as composições eruditas de Beethoven, o
escritor, compositor e pintor alemão Hoffmann sintetizava o que se entendia por música romântica:
“põeemmovimentoaalavancadomedo,doterror,doarrepio,dosofrimento,edespertaprecisamente
esseinfinitoaneloqueéaessênciadoromantismo”(apudBOSI,1980,p.103).
Romantismo e Dramaturgia
Emrelaçãoaoteatro,caberiaaoromancistafrancêsVictorHugoaresponsabilidadepelasforͲ
mulaçõesromânticasnessecampoartístico.Criticandoomodeloclássico,rigidamentedivididoemgêͲ
nerosreivindicadosemestadodepureza–acomédiaeatragédia–VictorHugosituaodramacomoa
expressãoprivilegiadadaModernidade,enquantoconfrontaasbasesconceituaisclássicas,notocante
àsunidadesdetempoedeespaço,igualmentedisciplinadaspelorigorclássico.
Romantismo e Linguística
Comosesabe,oRomantismonãofoitãoͲsomenteummovimentoderenovaçãonocampoliͲ
terário,masumarenovaçãonaformadecompreensãodomundo,dohomemedasartesemgeral,em
suas múltiplas linguagens. A profunda discussão acerca de formas, gêneros e linguagens deslocava os
românticos,notadamenteosalemães,paraoterrenodaLinguística.Essedeslocamentoseconsumaria
com as investigações linguísticas do poeta alemão Frederich Schlegel. Em 1806, Schlegel publica suas
pesquisasSobrealínguaeaciênciadosHindus,nasquaissedebruçasobreaantigalínguadaÍndia,o
sânscrito. EsmaeciaͲse, assim, a estrela do latim no firmamento linguístico (ELIA, 2005, p. 123), como
ressaltaMeillet:
LETRAS|87
ORomantismoalemãoseinteressavaporumpassadoindependentedaculturagrecoͲ
latina,eaproveitavaͲsedetudooqueahistóriadopassadoeaexploraçãodomundo
faziamparaalargarasvistasestreitasdoClassicismo.ParaaslínguascomoparaaliteͲ
ratura, para o Direito, para as instituições, os alemães estudaram outra coisa que a
GréciaeRoma(MEILLET,apudELIA,2005,p.123).
OrientadospelométodohistóricoͲcomparativoepelodesejoromânticoderesgateàsculturas
antigas e às experiências linguísticas populares, os estudos de Schlegel operam um descentramento1,
istoé,desalojaoidiomaclássicodeseulugardecentro,focalizando,comoreferencialidade,osânscrito.
ComSchlegel,aterminologiagramáticacomparadaseriaempregadapelaprimeiravez,oquelhedá,a
nossover,olugardeantecipadordessaspesquisas.Nesseverdadeiroexercícioderotação,osromântiͲ
cosalemãesdescartamavisãodagramáticatradicional,elaboradapelosfilósofosgregos,cujaconcepͲ
çãosepautavapelapadronizaçãoepelointentodefirmaroático–antigodialetofaladonaregiãode
Atenas,deondederivaabasedalínguagregaclássica–comomodeloideal,comoobservaolinguista
brasileiro,MárioEduardoMartelotta:
Osentimentoromânticolevouosprimeiroscomparatistasatentarreconstruir,através
dométodocomparativoumestadodelínguaoriginal,consideradoidealmenteperfeito
emfunçãodeconcepçãodaépocadequeamudançaeraumaespéciededegeneração
deumestadodelínguaprimitivoe,pornatureza,íntegro[...]adescobertadosânscriͲ
to,antigalínguadaÍndia,quesemostroumuitoparecidacomaslínguasdaEuropa[...]
aguçouacuriosidadedospesquisadores,incentivandoosestudoscomparativosentre
aslínguas.Ouseja,foiacomparaçãocomosânscritoquedeubasessólidasàteoriareͲ
ferente ao parentesco e à unidade e origem das línguas indoͲeuropéias. Além disso,
forneceuumanovafontedeinspiraçãoaoRomantismo,movimentodeidéiasquese
opunhamàtradiçãogrecoͲlatina(MARTELOTTA,2008,p.49).
Nessa linha, Franz Boop, também alemão, publica o seu livro Sistema de configuração do
Sânscrito em comparação com o do Grego, Latim, Persa e Germânico (Frankfurt, 1816), dedicado ao
estudodosverbosdosânscrito,emaproximaçãocomogrego,latim,persaeosdaslínguasgermânicas.
Preocupado,principalmente,comosaspectosmorfológicos,BoopdesenvolveuumacomparaçãosisteͲ
mática entre os principais ramos indoͲeuropeus, tornandoͲse, assim, conhecido como o fundador da
gramáticacomparativadoindoͲeuropeu.AfereͲse,portanto,aimportânciadosestudosromânticosno
processodecriaçãoedesedimentaçãodagramáticahistóricoͲcomparativaedaLinguísticaemgeral.
1
ExpressãocriadaporJacquesDerrida,aotratardaimportânciadaEtnologiaparaosestudosdoschamadospovosprimitivos:
“aEtnologiasótevecondiçõesparanascercomociêncianomomentoemqueaculturaeuropéia[...]foideslocada,expulsado
seulugar,deixandoentãodeserconsideradacomoaculturadereferência”(DERRIDA,apudSANTIAGO,1978,p.13).
LETRAS|88
Redefinindo o Romantismo
Procedendo a um verdadeiro inventário das diversas visões sobre o Romantismo, Michael
LöwyeRobertSayreterminariamporseaventurarpelocaminhopedregosoeescorregadiodaconceituͲ
açãoromântica.Emsituaçãomaisconfortáveldoqueademuitoscríticosnopassado,hajavistaoconͲ
siderávelvolumeeaqualidadedarecentefortunacríticadequepodemdispor,LöwyeSayreignorama
advertênciadopoetaPaulValéryesedispõem,semperderosensoderigor,aenveredarnaaventurada
redefiniçãodoRomantismo,entendidocomoreaçãoàModernidadequeseinaugura.
Aoselançaraessaempreitada,LöwyeSayreestabelecemcomopontodepartidaumadefiniͲ
çãodoRomantismocomoWeltanschuungouvisãodomundo,istoé,comoestruturamentalcoletiva.
Desse ponto, procedem às suas apreciações da expressão romântica em toda sua globalidade, examiͲ
nandoͲa em toda a sua extensão e multiplicidade. Essas perspectivas metodológicas os aproximam,
harmoniosamente,deOctavioPaz.Este,comoLöwyeSayre,tambémbuscaumaapreensãodoRomanͲ
tismoemsuatotalidadeediversidade,apreciandoͲo,também,comooposiçãoàlógicadaModernidade:
Antes de mais, indiquemos com duas palavras a essência de nossa concepção: para
nós,oromantismorepresentaumacríticadamodernidade,istoé,dacivilizaçãocapitaͲ
listamoderna,emnomedevaloreseideaisdopassado(préͲcapitalista,préͲmoderno).
Podemosdizerque,desdesuaorigem,oromantismoéiluminadopeladuplaluzdaesͲ
treladarevoltaedo‘solnegrodamelancolia’[...]OromantismosurgedeumaoposiͲ
çãoaessarealidadecapitalista/moderna[...]é,queiramosounão,umacríticamoderͲ
na da modernidade [...] uma consciência aguda da deterioração radical da qualidade
dasrelaçõeshumanasnamodernidadeeabuscanostálgicadacomunidadeautêntica
(LÖWY;SAYRE,1995,p.34;68–grifosdosautores).
Desdesuaorigem,apoesiamodernatemsidoumareaçãodiante,paraecontraamoͲ
dernidade[...]Desdeoseunascimento,amodernidadeéumapaixãocrítica[...]Aarte
moderna não é apenas filha da idade crítica, mas é também crítica de si mesma [...]
Suamodernidadeéambígua:háumconflitoentrepoesiaemodernidadequecomeça
com os préͲromânticos e se prolonga até os nossos dias. A sensibilidade dos préͲ
românticos não tardará em se transformar em paixão dos românticos [...] A poesia
modernanasce com osprimeiros românticos e seus predecessores imediatos defins
doséculoXVIII,atravessaoséculoXIX,atravésdesucessivasmutaçõesquesãoapesar
detudorepetições,echegaatéoséculoXX.TrataͲsedeummovimentoqueenvolve
todosospaísesdoOcidente,domundoeslavoaohispanoͲamericano,masqueemcaͲ
daumdeseusmomentosseconcentraemanifestaemdoisoutrêspontosdeirradiaͲ
ção(PAZ,1984,p.17Ͳ18;52Ͳ54;152).
LETRAS|89
UNIDADE II
O ROMANTISMO NO BRASIL
A NARRAÇÃO DA NAÇÃO
Semdúvidaqueopoetabrasileirotemquetraduziremsualínguaasidéias[...]nessatraͲ
duçãoestáagrandedificuldade.
JosédeAlencar
Criamosassimumpequenomundo,unicamentenosso.
JosédeAlencar
O Romantismo na América Latina
NoquetangeàrecepçãolatinoͲamericanaaoRomantismo,cumprenotarqueestasóseproͲ
cede,apartirdosanos30doséculoXIX,poucosanosdepoisdaacolhidadospaísesdoLesteEuropeu–
Rússia,Polônia,Hungria,povosbalcânicos;daItáliaedaEspanha.
Naverdade,desdeosfinsdoséculoXVIIIeiníciosdoXIX,ascontradiçõesentreasColôniasda
América Latina e suas Metrópoles haviam se tornado insuportáveis. As Colônias em nuestra América
haviamcrescido,sedesenvolvidoejácontavamcompequenosmasimportantescírculosdeintelectuais
quecomeçaram,desdeoperíododoArcadismo,apensaraColôniadeumaformamaisprópria,como
ilustra,entrenós,aparticipaçãodospoetasárcades–CláudioManueldaCosta,TomásAntônioGonzaͲ
ga,InácioJosédeAlvarengaPeixoto,BárbaraHeliodora2–naInconfidênciaMineiraem1789.
NosprincípiosdoséculoXIX,aAméricaLatinaseconstituía comocenáriode lutasacirradas,
especialmente,nasColôniasespanholas.AessasrebeliõeslibertáriassedevemaemancipaçãodoParaͲ
guai(1811),doUruguai(1814),daArgentina(1816),doChile(1818),VenezuelaeNovaGranada(1819Ͳ
1821),Equador(1820),Peru(1824)eBolíviaem1825.Em1822,amaioriadasColôniasdaAméricaCenͲ
traluniaͲseaoMéxico,tornandoͲseindependentes.Em1823,essasColôniassesepararamdoMéxicoe
formaramasProvínciasUnidasdoCentrodaAmérica.AspressõesdosEstadosUnidosedaInglaterra,as
discórdias entre as oligarquias locais terminariam, contudo, provocando a fragmentação desse Centro
Americano.Apartirde1830,essasColôniassetornariamasatuaisRepúblicasdaCostaRica,Nicarágua,
ElSalvador,HonduraseGuatemala.
2
BárbaraHeliodoraGuilherminaSilveira(SãoJoãodelRei–1759;SãoGonçalodeSapucaí(MG)–1819).Musaeesposade
AlvarengaPeixoto,BárbaraHeliodorafoielaprópriapoeta.Comomarido,participoudaConjuraçãoMineira.Apósaprisãoeo
degredodeAlvarengaPeixoto,suportoucomraradignidadeoconfiscodeseusbens,ainfâmiasobreosseusfilhoseamorte
domarido,umanoapósachegadadesteaodegredoafricano.
LETRAS|90
EmrelaçãoaoHaiti,colonizadopelosfranceses,aindependênciaseconsumariaem1925,deͲ
pois de uma luta sangrenta que se arrastou do século XVIII ao século XIX. Os haitianos pagariam um
preçoaltíssimopelasualiberdade.Ossenhoresdeengenhoserecusavamaentregaropaísaosnegros,
preferindodestruíͲlo.Queimaramtodososcanaviais,dizimaramtodoogadoearruinaramosengenhos
deaçúcar.
Poroutrolado,aMetrópolefrancesaenviatropasfortementearmadasquecompletamoserͲ
viçodossenhoresdoaçúcar.NoHaiti,oexércitonapoleônicopilhou,destroçouecometeuumdosmasͲ
sacresmaisviolentosdahistóriadaFrança.AomassacredapopulaçãoeaodestroçodoHaiti,seseguiͲ
riaobloqueiocomercialimpostopelosfranceses,alémdeumadívidaimensa.Issoexplicaapobrezaea
desolaçãodoHaiti,nosdiasatuais.
Cuba,localizadanoarquipélagocaribenhocomooHaiti,tambémteveumcaminhoduroelonͲ
go até a sua libertação. Inicialmente, é vendida à Inglaterra pelos espanhóis, depois fica sob a tutela
econômicadosEUA,sóselibertandocomaRevoluçãoCubanade1959,queimplantariaumregimede
cunhosocialista.
Movidos por um acirrado sentimento de busca de reconhecimento de si, os países latinoͲ
americanosacolhemoideárioromânticoeuropeu.NaAméricaLatina,ofervordasrebeliõesedosanͲ
seiosdeindependênciadariaàsprimeirasmanifestaçõesromânticasumexpressivoepersistenteacento
denacionalismo,defundogermânico,explicávelemfacedocontextolibertárioedaconsequenteneͲ
cessidadedeidentidadenacional,comobemanotaocríticomexicano,JoséLuisMartínez,ressaltandoa
especificidadedoprocessobrasileiro:
Com efeito, as gerações latinoͲamericanas que apareceram por volta dos anos trinta
doséculoXIX,quandoasnovasrepúblicascomeçavamaseestabilizareadirimirseus
conflitos internos – com exceção do Brasil, que foi reino independente até 1889,
quandopassouaosistemarepublicano–,adotaramintegralmentecomoprogramaa
criaçãodeumanovaliteraturaqueexpressassenossanaturezaenossoscostumes.Em
todosospaísesdaregião,poetasromancistas,dramaturgoseensaístasentregaramͲse
laboriosamenteàtarefadecantaroesplendordanaturezaamericanaeadereproduͲ
zir e explorar as peculiaridades de nossos costumes (MARTÍNEZ, 1972, p. 63 – grifos
nossos).
NãoobstanteaflagrantesimilaridadeentreasletraslatinoͲamericanas,oBrasilseapresentaͲ
ria,contudo,comosingularidadehistóricoͲliterária,noquadrolatinoͲamericano.Suasexperimentações
românticas,especialmentenoromance,gênerocriadopeloRomantismo,são,comumente,apreciadas
comorealizaçõesmaisconsistenteseelaboradas,enquantodesfrutadoestatutodemelhorelaboração
romanescaemnossocontinente,comoreconheceOctavioPazesugereLuisMartínez,teóricotambém
mexicano:
LETRAS|91
OromantismohispanoͲamericanofoiaindamaispobrequeoespanhol:reflexodeum
reflexo.Noentanto,háumacircunstânciahistóricaque,emborademaneiranãoimeͲ
diata,afetouapoesiahispanoͲamericanaealevouamudarderumo.RefiroͲmeàreͲ
volução da Independência [...] Inclusive pode dizerͲse que houve nessa época três
grandesrevoluçõescomideologiasanálogas:adosfranceses,adosnorteͲamericanos
eadoshispanoͲamericanos,ocasodoBrasilfoidiferente[...]Adesolaçãofoianossa
história(PAZ,1974,p.114–grifosnossos).
ArelativapazdequeoBrasildesfrutounoséculoXIX–emcontrastecomaspersisͲ
tentesagitaçõesdaAméricahispânica–contribuiuparaoflorescimentodoromance
nessepaís,duranteasegundametadedoséculo,omaisimportantedaAméricaLatiͲ
nanesteperíodoemseuconjunto(MARTÍNEZ,1972,p.63–grifosnossos).
Como se verifica, foi num trajeto desigual mas combinado, que a nova poética europeia se
instalounasletrasdaAméricaLatina.AnossareceptividadepermitiuaoRomantismoalcançaraparte
quelhefaltavaparaatingiratotalidadedoOcidente.ComobemlembraOctavioPazadespeitodasdifeͲ
rençasdelínguaseculturasnacionais,apoesiamodernaéuma,eotermoOcidenteabrangetambémas
tradições literárias e culturais latinoͲamericanas, em suas três línguas: a espanhola, a portuguesa e a
francesa (PAZ, 1884, p.11Ͳ12). Isso, evidentemente, nos torna construtores e intérpretes do mosaico
poéticoͲliterárioquecaracterizaaculturadouniversoocidental.
A ESTÉTICA ROMÂNTICA CHEGA AO BRASIL
O jeitinho brasileiro
EnquantoospaísesdaAméricaLatina,delínguaespanholaedelínguafrancesa,estatuíama
rupturacomsuasMetrópoles,atravésdeumasériederevoluções,oBrasil,aocontrário,estreitaseus
laços com Portugal. Em 1808, a Família Real portuguesa e a sua Corte, seus funcionários e soldados,
chegameseinstalamnoRiodeJaneiro,transformandoaColôniaemsededamonarquialusitana,além
deseurefúgioeamparo,anteasinvestidasfrancesas.
PressionadopelasameaçasnapoleônicasdeinvasãodeLisboa,D.JoãoVI,entãoPríncipeReͲ
gentedePortugal,sobaproteçãodaarmadainglesa,fogeparaoBrasilabandonandoopovoportuguês
a sua própria sorte. Ironicamente, a transferência da Coroa lusitana concretiza o temor português exͲ
pressoporAmbrósioFernandesBrandão,emsuaobraDiálogosegrandezasdoBrasil,de1618:“Não
permitaDeusquepadeçaanaçãoportuguesatantosdanosquevenhaoBrasilaseroseurefúgioeamͲ
paro”(BRANDÃO,1997,p.15).
LETRAS|92
AtransferênciadaCoroaportuguesaparaoBrasilalteraprofundamentenossafeiçãocolonial.
AcidadedoRiodeJaneiro,acanhadaparaospadrõeseuropeus,setransfigura:duplicasuapopulaçãoe
começaaexibirasconvençõeseetiquetassociaistrazidaspelaenormecomitivadeD.JoãoepelosartisͲ
tas,intelectuais,pesquisadoresquedesembarcamnacidade,atraídospelacuriosidadeepelapresença
daCortelusitana.
Noterrenodaeconomia,aaberturadosportoséprimeiramedidatomadaporD.JoãoVI,seͲ
guindoͲseoutrasresoluçõesquerevogamosentravesaproduçãoeaocomérciodaColônia,incompatíͲ
veis com a nova condição de sede da monarquia portuguesa. Na cultura, as transformações foram iͲ
gualmenteimportantes.PermitiuͲseaimportaçãodelivros,ainstalaçãodetipografias,imprimiramͲse
nossasprimeirasobras,criouͲseumabiblioteca,foramfundadososprimeiroscursoseescolasdenível
superior,surgiram,enfim,osnossosprimeirosjornais.OBrasilcomeçavaaviverumprocessodeindeͲ
pendênciavirtual,quegarantiriaaonossopaíspreservarasuaunidade,comoassinalaAntonioCandido
(2002,p.10).
Em1816,D.JoãoVItornaͲsereideBrasilePortugal,apósamortedesuamãe,D.MariaI.O
BrasiléalçadoàcondiçãodeReinoUnidodePortugal.VerificaͲse,nessecenário,acriaçãodaAcademia
deBelasArtesqueoferecevariadoscursosnoterrenodaartevisual.Começatambémasedesenvolver,
comnotóriaqualidade,anossaatividademusical.
Em1821,pressionadoporseussúditoseuropeus,D.JoãoVIretornaaPortugal,recomendando
aofilhoqueseaindependênciabrasileirasetornasseinevitável,elemesmoaproclamasse.Foioquefez
D.Pedroem1822.Nessecaminho,oBrasilnãopassavadeColôniaaRepública;comoosnossospaíses
coͲirmãos, passava de Colônia a Monarquia, sem ter se resolvido o grave problema da escravidão. Só
nostornaríamosumaRepúblicaem1889,umanoapósaaboliçãodaescravatura,amaislongadenosso
continente.
Nessejeitinho,lentoegradual,marcadopelospactoseconchavosdenossaselites,seprocesͲ
saria a emancipação política do Brasil. DiferenciandoͲse do processo emancipatório latinoͲamericano,
nossaindependênciaseconstituiriacomoumasoluçãoconciliatóriaaosinteressesdasclassesdominanͲ
tes,ciosasemmantersuasposiçõeseprivilégios,àreveliadosinteressesdasclassesdominadas.Seria,
pois,numcontextocaracterizadopelaconciliaçãoeporumacentuadocondensamentocultural,quea
estéticaromânticasurgenoBrasil.
Aosevoltaremparaessecontexto,Sousândrade(1995,p.85)eMuriloMendes(1995,p.164)
transformamemmatériapoéticaojeitinhodenossatransição.MovidosporumimpulsocríticoͲirônico,
tantoopoetaromânticoquantoopoetamodernistaproblematizamaatipicidadedenossaautonomia.
OprimeirosereportandoaoconselhodeD.JoãoVIaD.Pedro;osegundotrazendoasuapoesiaofato
poucoconhecidodequeD.Pedroproclamaraanossaindependência,acometidodeumafortediarréia,
comosugereapoesiadeMuriloMendes:
LETRAS|93
Tatuturema(fragmentos)
(D.JoãoVI,escrevendoaseufilho:)
Pedro(credo!quesustos!)
Sehádeaoreinoempalmar
Algumaventureiro,
Oprimeiro
Sejas...tocaacoroar!
Apescaria
FoinasmargensdoIpiranga,
Emmeioaumapescaria. SentindoͲsemal,D.Pedro
ͲComerademaiscuscuz–
Desapertaabarriguilha Egrita,roxoderaiva:
“Oumelivrod’estacólica
oumorrologod’uavez!” Opríncipesealiviou,
Sainocaminhocantando:
“Jámesintoindependente.
Safa!vipertoamorte!
Vamoscairnofadinho
Pracelebrarosucesso.”
ATunadeCoimbrasurge
Comasguitarrasafiadas,
Masasmulatasdengosas
DoClubFlordoAbacate,
Entram,firmes,nomaxixe,
Abafamofadocomavoz,
Levantam,sorrindo,aspernas...
Eacolôniabrasileira
Tomaadireçãodafarra.
NãoobstanteasdiferençasapontadasentreastrajetóriasdeemancipaçãodoBrasiledospaíͲ
sesdaAmericaLatina,degradaçãoestéticaentreassuasproduçõesdanovapoética,asmanifestações
românticaslatinoͲamericanasexpressam,contudo,umagritantesimilaridade,conformeobservaAntoͲ
nioCandido,emseutexto“Literaturaesubdesenvolvimento”,quecompõeaobra,AméricaLatinaem
sualiteratura(1972),coletâneacríticadeautoreslatinoͲamericanos:
Onossocéueramaisazul,asnossasfloresmaisviçosas,anossapaisagemmaisinspiͲ
radoraqueadeoutroslugares,comoselênumpoemaquesobesteaspectovale
comoparadigma,a“Cançãodoexílio”,deGonçalvesDias,quepoderiatersidoassinaͲ
doporqualquerumdosseuscontemporâneoslatinoͲamericanosentreoMéxicoea
TerradoFogo.AidéiadapátriasevinculaestreitamenteàdenaturezaeemparteexͲ
traíadelaasuajustificativa.AmbasconduziamaumaliteraturaquecompensavaoaͲ
trasomaterialeadebilidadedasinstituiçõespormeiodasupervalorizaçãodosaspecͲ
tos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social. No Santos Veja, do arͲ
gentinoRafaelObligado,jáquasenoséculoXX,aexaltaçãonativistaseprojetasobreo
civismopropriamentedito,eopoetadistingueimplicitamentepátria(institucional)e
terra(natural),ligandoͲasporémnomesmomovimentodeidentificação:Laconvicción
dequeesmía/LapatriadeEcheverría,/LatierradeSantosVega.Pátriadopensador,
terra do cantador. Um dos pressupostos ostensivos ou latentes da literatura latinoͲ
americanafoiestacontaminação,geralmenteeufórica,entreaterraeapátria,conͲ
siderandoͲsequeagrandezadasegundaseriaumaespéciededesdobramentonatural
dapujançaatribuídaàprimeira.Asnossasliteraturassenutriramdas“promessasdiviͲ
nasdaesperança”–paracitarumversofamosodoRomantismobrasileiro(CANDIDO,
1987,p.141Ͳ142–grifosdoautor).
LETRAS|94
O surgimento do Romantismo
CostumaͲseassinalar,comprecisão,oanode1836comoadatadosurgimentodoRomantisͲ
mo no Brasil. Nesse ano, é editada, em Paris, a Niterói, revista brasiliense dirigida por Gonçalves de
Magalhães, Torres Homem e Araújo PôrtoͲAlegre. ConstituindoͲse, em sua primeira edição, como um
aglomerado de textos de temática variada, essa Revista traz – disputando um apertado espaço entre
artigosdeAstronomia,Química,Economia–umestudodeGonçalvesdeMagalhães,intituladode“EnͲ
saiosobreahistóriadaliteraturadoBrasil”.EstetextosetornariaomarcofundadordapoesiaromântiͲ
caentrenós.DeParis,MagalhãeslançavaassementesdoRomantismonoBrasil.Em1837,aoretornar,
GonçalvesdeMagalhãesérecepcionadocomoofundadordaliteraturabrasileira,propriamentedita.
NãoobstanteasdiferençasmateriaiseideológicasqueseparamoBrasildaEuropa–lá,amoͲ
dernidade,amáquina,ooperário,aexploraçãodotrabalho;cá,olatifúndio,aescravidão,aideologiado
favor–oideárioestéticodoRomantismoencontrariacorrespondênciaemnossocontextodeautonoͲ
miapolítica.Éramosumpovoembuscadenaçãoedesuacorrespondenteexpressão.OsartistasbrasiͲ
leiros aproveitavamͲse da chancela romântica. A acolhida foi geral. Nossos escritores dialogaram com
todasascorrentesromânticaselograramrealizarobrasdevalornotável,comparáveisemelaborações
mentaisàseuropeias,comoapreciaemgeralacríticabrasileira,comoilustraBosi:
Assim,apesardasdiferençasdesituaçãomaterial,podeͲsedizerqueseformaramem
nossoshomensdeletrasconfiguraçõesmentaisparalelasàsrespostasqueainteligênͲ
ciaeuropéiadavaaseusconflitosideológicos.Osexemplosmaispersuasivosvêmdos
melhoresescritores.OromancecolonialdeAlencareapoesiaindianistadeGonçalves
Diasnascemdaaspiraçãodefundaremumpassadomíticoanobrezarecentedopaís,
assimcomo–mutatismutandis–asficçõesdeW.ScottedeChateaubriandrastreaͲ
vamnaIdadeMédiafeudalecavaleirescaosbrasõescontrastadosporumaburguesia
emascensão.Deresto,Alencar,aindafazendo“romanceurbano”,contrapunhaamoͲ
raldohomemantigoàgrosseriadosnovosͲricos;efazendoromanceregionalista,acoͲ
ragemdosertanejoàsvilezasdocitadino.AcorrespondênciafazͲseíntimanapoesia
dos estudantes boêmios, que se entregam ao spleen de Byron e ao mal du siècle de
Musset, vivendo na província uma existência doentia eartificial, desgarradade qualͲ
querprojetohistóricoeperdidanopróprionarcisismo:ÁlvaresdeAzevedo,Junqueira
Freire,FagundesVarela.Comoosseusídoloseuropeus,osnossosromânticosexibem
fundostraçosdedefesaeevasão,queoslevaaposturasregressivas:noplanodarelaͲ
çãocomomundo(oretornoàmãeͲnatureza,refúgionopassado,reinvençãodobom
selvagem,exotismo)enodasrelaçõescomopróprioeu(abandonoàsolidão,aosoͲ
nho,aodevaneio,àsdemasiasdaimaginaçãoedossentidos)[...]Enfim,oparaleloalͲ
cançaaúltimafasedomovimento,jánasegundametadedoséculo,quandovãocesͲ
sandoasnostalgiasaristocráticas,jásemfunçãonadinâmicasocial,eseadensamem
tornodomitodoprogressoosideaisdasclassesmédiasavançadas.SeráoRomantisͲ
mopúblicoeoratóriodeHugo,deCarducci,deMichelet,edonossoAntônioCastro
Alves(BOSI,1980,p.101–grifosdoautor).
LETRAS|95
A carência da nação
Naverdade,osanosqueseseguema1822secaracterizamporumanotávelatmosferadeoͲ
timismoedeentusiasmo,emfacedenossarecenteautonomiapolítica.Nessecontexto,marcadopela
euforiadadissoluçãodoslaçosquenosprendiamaPortugal,surgeoRomantismo.EssanovasensibiliͲ
dadepoéticanoscaía,comoemtodaaAméricaLatina,comoumaluva,postoqueàsvoltascomadefiͲ
nição da nossa própria nacionalidade, missão delegada pela Independência, autonomia, esta, que se
desejavaestenderaocampodaexpressãodoartístico.
Nessapretensão,oRomantismoseafiguravacomoocaminhofavorável.EstéticaparticularisͲ
ta,seuamplomosaicodeconcepçõesedemodelos,emcontramãoaoClassicismo,facultavaaliberdaͲ
dedeexpressãoaospaísesrecémͲsaídosdatuteladacolonização,enquantopropiciavaoaparecimento
dasescolasnacionais,numprocessodedemocratizaçãodaliteratura,comoanotaAntonioCandido,ao
acentuaraenormeimportânciadoRomantismonasconfiguraçõesdenossasidentidadesculturais:
Umelementoimportantenosanosde1820e1830foiodesejodeautonomialiterária,
tornadomaisvivodepoisdaIndependência.Então,oRomantismoapareceuaospouͲ
coscomocaminhofavorávelàexpressãoprópriadanaçãorecémͲfundada,poisforneͲ
ciaconcepçõesemodelosquepermitiamafirmaroparticularismoe,portanto,aidenͲ
tidade,emoposiçãoàMetrópole,identificadacomatradiçãoclássica[...]Odesejode
autonomiaencontrou,comovimos,apoiosólidonaestéticaparticularistaaplicadaaos
paísesdoNovoMundo.ElafoiimportantenamedidaemquepropunhaocaracterístiͲ
co em lugar do genérico, levando a valorizar o pitoresco, na paisageme nas populaͲ
ções.Levavatambémaprivilegiarasingularidadedosentimentoindividual,quedeveͲ
riaprocurarexpressõesúnicas,enãoseacomodarnodiscursotópicodosclássicos[...]
Sobesteaspecto,asdiferentesformasdeparticularizaçãoforamimportantescomofaͲ
tordedemocratizaçãodaliteratura,inclusiveatenuandoumpoucooabismoqueanͲ
tesseparavaaliteraturaeruditadaliteraturapopular[...]Sendomaisacessível,aliteͲ
ratura do tempo doRomantismo pôde popularizarͲse mais e dar voz aos que não tiͲ
nhammeiosdeexprimirͲseemnívelerudito.Porissoelacontribuiuparaaidéiaqueo
brasileiroiaformandodesimesmo,ouseja,paraossentimentosdeidentidade,por
meiosdemecanismosqueampliarametornarammaiscomunicativaamensagem.Ao
mesmotempo,implantouanoçãoideologicamenteimportantequeanossaliteratura
éprópria.(CANDIDO,2002,p.20;88Ͳ95)
NoBrasil,avisãoeuropeiadapátria/lar,vividaemestadodeperdaoudeexílio,setorͲ
nariaemexperiênciafundamentaldenossaliteratura,frequentandoͲlhestodasastendênciasemodaliͲ
dades,aopontodeMáriodeAndradealçáͲlaaostatusficcionalde“entidadenacionaldosbrasileiros”,
segundoobservaLeylaPerroneͲMoisés(2007,p.17).
Naverdade, essaentidade,criadaepropagadapelaestéticaromântica,seespalharia,como
temáticaderecorrência,portodososnossosdiscursosculturaisestruturados,nomaisdasvezes,pelas
mais díspares ideologias. A força literária do nacionalismo seduziria até mesmo os autores arredios a
LETRAS|96
essa temática, como Álvares de Azevedo no poema “Na minha terra”, Sousândrade em seu “Harpas
selvagens”, fornecendo, ainda, matéria poética para a poesia abolicionista de Castro Alves, como se
verificaemsua“Cançãodoafricano”.
Tal literatura, qual língua?
OsséculosiniciaisdacolonizaçãonoBrasilsecaracterizaram,linguisticamente,pelopredomíͲ
niodaslínguasgerais,ouseja,dotupimisturadoaoportuguês,graçasaotrabalhodedesapropriaçãodo
códigolinguísticoindígena,efetuadopelosjesuítas.NasegundametadedoséculoXVIII,essequadrose
modifica. Portugal, sob a tutela do Marquês de Pombal, alteraria a sua política linguística. As línguas
geraissãobanidasdenossoterritórioeosseususoscriminalizados.
Nãoobstanteessegolpefatal,asexpressõesindígenasepopulares–hámuitointernalizadas
pelouso–persistemempermanecermesmonodiscursocultodasrecémfundadasAcademiasliterárias
detimbreneoclássico.NoArcadismo,tantoapaisagem,quantoatemáticaeasexpressõeslinguísticas
locaisenformamassuasobras.Essaspresenças,contudo,seafiguraramcomosubitensdoNeoclassicisͲ
mo,semnenhumapretensãoreformista,programáticaouformulaçãoconscientementeplanejada.Em
face dessa cor local, muitos críticos têm avaliado o Arcadismo no Brasil como o nosso protoͲ
romantismo,comoexemplificaSílvioRomero:
AntesdeiniciarͲsefrancamenteareaçãoromânticaque,emgeralcompoucajustiça,sefazdaͲ
tarde1836comapublicaçãodosSuspirosPoéticos,jáhaviamuitossinaisdequearevoluçãoentrenós
começadapelosmineiros,quepodemoschamarosprotoͲromânticos,jásetinhaconsumadonumasérie
de poetas que precederam a Gonçalves de Magalhães, ainda que muitas das produções daqueles só
viessemàluzemlivrosmuitomaistarde.Aestespoetaséquedevemosassinalarummodestolugarna
fasedetransiçãoparaoromantismo(ROMERO,2001,p.192–grifosdoautor).
Apesardotimbrebrasileirodenossasproduçõesárcades,écomoRomantismoqueaquestão
dalínguanoBrasilcresceemimportânciaeurgência.Oacentobrasileiro,antesreconhecidopelouso
oralpassaaserusado,estrategicamente,comoalíngualiterárianacional.Assim,osromânticosbrasileiͲ
ros,naesteiradenossatradiçãolinguística,elegemalínguaoral–deorigemindígenaepopular–como
seusânscrito,pordireitoelegitimidade.Dessearranjo,alínguaoralepopularnoBrasiléalçadaàconͲ
diçãodelíngualiterária.Essaperspectiva,dequebradepurismolingüísticolusitanoemnossaarteescriͲ
ta,alcançariaumaenormevisibilidadecomoModernismo.DoModernismoaosdiasatuais,essatemáͲ
ticacontinuaaespicaçarnossainteligência,ainspirarnossaliteratura,mobilizandolinguistasepoetas,
estes últimos aqui representados por José Paulo Paes, autor do “Lisboa: aventuras”, poemaͲdiálogo
entrePauloPaes(1988)eGonçalvesDias:
LETRAS|97
LISBOA:AVENTURAS
tomeiumexpresso
chegueidefoguete
subinumbonde
pedicafezinho
quiscomprarmeias
fuidaràdescarga
descideumelétrico
serviramͲmeumabica
sóvendiampeúgas
Gritei“ócara!”
dispareiumautoclisma responderamͲme“ópá!”
positivamente
asavesqueaquigorjeiamnãogorjeiamcomolá
A tradução na língua da nação
EmPosfácioàprimeiraediçãodeIracema,JosédeAlencar,aocriticarduramentealinguagem
épicadeGonçalvesdeMagalhães,chamaaatençãoparaograndedesafiodogêniobrasileiro:traduzir,
paraacompreensãonacional,asidéiasͲforçaeavisãodemundodainteligênciaeuropeia,comosevê
naepígrafequeabreessaunidade:“Semdúvidaqueopoetabrasileirotemdetraduziremsualínguaas
idéias[...]masnestatraduçãoestáagrandedificuldade”(ALENCAR,1994,p.98).
Atravésdessecomentário,AlencarapontaparaagrandequestãoquecircundaacriaçãoliteráͲ
ria,edasartesemgeral,naAméricaLatina,emaisparticularmentenoBrasil:odadependênciacultural
àsMetrópoleseuropeias,herançadenossafatalidadehistórica.DessedesconfortolatinoͲamericanose
originaabuscaincessantedenossanaturezacultural,persistenteatéosnossosdias,comoexplicitao
críticobrasileiro,RobertoSchwarzeRubénBareiroSaguier,escritorparaguaio:
BrasileiroselatinoͲamericanosfazemosconstantementeaexperiênciadocaráterposͲ
tiço,inautêntico,imitadodavidaculturalquelevamos.Essaexperiênciatemsidoum
dadoformadordenossareflexãocríticadesdeostemposdaIndependência.Elapode
LETRAS|98
serefoiinterpretadademuitasmaneiras,porromânticos,naturalistas,modernistas,
esquerda,direita,cosmopolitas,nacionalistasetc.,oquefazsuporquecorrespondaa
um problema durável e de fundo. Antes de arriscar uma explicação a mais, digamos
portantoqueomencionadomalͲestaréumfato(SCHWARZ,1987,p.21grifosdoauͲ
tor).
Dada a diversidade de componentes, um problema latinoͲamericano essencial foi, e
continuasendo,encontrarsuaidentidadecultural,situaçãoquealiteraturareflete,ao
procurarapropriarͲsedeumalinguagemeconcretizarumconteúdo,numidiomaem
certamedidaemprestado,edentrodeumcontextopolíticonãounificado.Aprocura
seintensifica,eoconflitotornaͲseevidente,emcertosmomentoscríticosdetomada
deconsciência:aemancipaçãoromântica,omodernismo,oromancesocialealiteraͲ
turadenossosdias(BAREIROSAGUIER,1979,p.3).
Paraessareflexão,sevoltaAntonioCandido,emseuestudosobrearelaçãoentreasnossas
manifestações românticas e as matrizes européias. Em sua análise, o crítico examina com atenção as
estratégias de acomodação das letras européias em nosso corpus romântico, identificando três mecaͲ
nismosdefaturatextual,aosquaisdenominarádetransposição,desubstituiçãoedeinvenção.Segundo
Candido,osprocessosdetransposiçãoesubstituiçãodefinemanossarelativadiferença,enquantoproͲ
picia a consciência própria. Neles, conforme ressalta o crítico, reside a nossa originalidade, segundo
lemosabaixo:
A transposição consiste em passar para o contexto brasileiro as expressões, concepͲ
ções, lendas, imagens, situações ficcionais, estilos das literaturas européias, numa aͲ
propriação(perfeitamentelegitima)queseintegraedáaoleitoraimpressãodealguͲ
macoisaqueémuitonossa,eaomesmotempofazsentirapresençadasraízescultuͲ
rais.Nopoemeto“Juvenília”,deFagundesVarela,aatmosferaencantadorademagiaé
obtidapormeiodeumarsenalqueexprimeoutroscontextos:“péroladeOfir”,“fada”,
“sifilo”.Mascomoissoéexpressonumatotalidadesentimentalquenoshabituamosa
considerarcomoprópria,oselementostranspostosfuncionamamododeingredientes
deumuniversofamiliar,oquenãosurpreendeseconsiderarmosque,apesardasaleͲ
gaçõesrituaisdonacionalismoliteráriomaisextremado,anossaculturadominanteéa
mesmaquegerouaquelasimagenseentidades.Porisso,emgeraçõesanteriores,Silva
AlvarengatranspuseraesquemasestróficoserítmicostomadosaPaoloRollieMetasͲ
tasioparaelaborarosseusmelodiososrondós,quesemprepareceramcorresponder
aoquehádemaisautenticonasensibilidadebrasileira.MashácasosemqueatransͲ
posiçãopareceinassimilável,comoquandoBernardoGuimarãescolocaflocosdeneͲ
vesnasárvoresdecertaspaisagensdeseusversos,sabendoͲsequeasuaexperiência
serefereànaturezatropical.Noentanto,elesacabamfuncionando,porqueevocama
paisagemdospaísesdeondenosveiosacivilizaçãoeque,portanto,aimaginaçãodos
brasileirosincorporacomopartedeumpatrimônioqueafinaldecontasestánassuas
raízes.
LETRAS|99
AsubstituiçãoéumprocessomaisprofundodopontodevistadalinguagemedainͲ
terpenetraçãocultural.Nele,oescritorbrasileiropõedeladoaterminologia,asentiͲ
dades,assituaçõesdaliteraturaeuropéiaeossubstituiporoutros,claramentelocais,
afimdequedesempenhemomesmopapel.Porexemplo:substituemocavaleiropelo
índio,ofidalgopelofazendeiro,otorneiopelavaquejada,comosepodeveremOserͲ
tanejo,deJosédeAlencar.Assim,naintroduçãoaopoema“Ostimbiras”ogostopelas
ruínasésubstituindopeladescriçãodaaljavarotaquependedosombrosdovencidoe
vaideixandocairasflechasinúteis,simbolizandoofimdasuasociedade.Nomesmo
sentido,opoetadeclaraquenãoquermaisseinspirarnafonteCastálianemsubirao
Parnaso,mas,encostadonumtroncodepalmeira,tencionatraduziramelodiaselvaͲ
gemdosventos,quesãoavozdeumaoutrarealidade.Aofazerisso,nãodesejacomo
prêmioacoroaclássicadelouros,masoutra,feitadefloresbrasileiras,quejámencioͲ
namosantesnesteescrito.Emtalcaso,asituaçãoépicaeosmoldesdecomposição
permanecemajustadosapráticadasliteraturasmatrizes,masostemaseasimagens
foramsubstituídos,demaneiraaproduzirumaespéciededuplicação,quecorresponͲ
deaonovomundonaturalecultural.
Podemosfalareminvençãoquandooescritorpartedopatrimônioeuropeuparacriar
variantesoriginais,comoocorrernumpoemadeÁlvaresdeAzevedo,“Meusonho”,no
qual ele fecunda o modelo da balada macabra de tipo alemão (como a “Lenora”, de
Bürger),deformandoͲo a fim de obter algo diferente.A baldada se caracteriza, pelas
suasprópriasorigenspopulares,porserumanarrativadepersonagensexterioraopoͲ
eta;masadeÁlvaresdeAzevedodescreveodramainterior,elaborandoimagensque
projetamastensõesdoser,demodoaresultarumtiponovodecomposiçãopoética.
Essatransformaçãodeumgêneronarrativoemgênerointimistapodeserconsiderado
invenção,quetodavianãoapagaolaçoorgânicoemrelaçãoàsliteraturasdaEuropa,
das quais (nunca é demais repetir quando se fala do Romantismo com a sua forte
componentenativista)abrasileiraéumramo
Foi,portanto,pormeiodeempréstimosininterruptosquenosformamos,definimosa
nossadiferençarelativaeconquistamosconsciênciaprópria.OsmecanismosdeadapͲ
tação, as maneiras pelas quais as influências forma definidas e incorporadas é que
constituemaoriginalidade,quenocasoéamaneiradeincluiremcontextonovoos
elementosquevêmdeoutro(CANDIDO,2002,p.96Ͳ101–grifosdoautor).
Notocanteàvisãodeoriginalidade,otextodeAntonioCandidoseaproximadasreflexõesdo
ensaístaSilvianoSantiago.Estudiosodaquestãodadependênciacultural,SilvianoSantiagoconsideraas
traduçõesoudesviosdostextoslatinoͲamericanos,comoformaessencialdeassinalarasuapresençae
particularidadenoacervoliterárioocidentalecomocontribuiçãodaAméricaLatinaàculturadoOcidenͲ
te,comoexprimeaseguir:
AmaiorcontribuiçãodaAméricaLatinaparaaculturaocidentalvemdadestruiçãosisͲ
temáticadosconceitosdeunidadeedepureza:estesdoisconceitosperdemocontorͲ
noexatodoseusignificado,perdemseupesoesmagador,seusinaldesuperioridade
cultural,àmedidaqueotrabalhodecontaminaçãodoslatinoͲamericanosseafirma,se
mostramaisemaiseficaz.AAméricaLatinainstituiseulugarnomapadacivilizaçãooͲ
cidentalgraçasaomovimentodedesviodanorma,ativoedestruidor,quetransfigura
LETRAS|100
oselementosfeitoseimutáveisqueoseuropeusexportavamparaoNovoMundo[...]
Apassividadereduziriaseupapelefetivoaodesaparecimentoporanalogia.Guardando
seulugarnasegundafila,énoentantoprecisoqueassinalesuadiferença,marquesua
presença,umapresençamuitasvezesdevanguarda.OsilêncioseriaarespostadeseͲ
jadapeloimperialismocultural(SANTIAGO,1978,p.18Ͳ19–grifosdoautor).
Longe da passividade, José de Alencar expressa um deliberado propósito de transgressão ao
modeloeuropeu,acalentandoodesejodeumacriaçãooriginal,nuncasonhadapelavelhaliteraturade
umvelhomundo(ALENCAR,1994,p.158).EsseprojetodeafirmaçãodenossaparticularidadeexpressiͲ
va,denossogênio,porquanto,passa,necessariamente,peloárduotrabalhodetraduçãoourearranjo
dostextoseuropeus,comosinalizaAlencar,aodescreverotrajetoqueprecedeuàfeituradeAsasasde
umanjo(1858),suaprimeiraobrasobreomundodacortesã.Numexercíciodeleitura,comparaçãoe
remodelação do tema teatral francês, Alencar reescreve o destino da mulher decaída, afastandoͲse,
assim, da mera transposição, desbotada e macilenta (ALENCAR, 1994, p.152), da temática européia.
Dessetorceromoldeeuropeu,paradarͲlheoutraconfiguração,derivaadiferençaentreCarolina,perͲ
sonagemͲcortesãdeAlencar,esuaspredecessoraseuropeias,comoressaltaopróprioautor:
AssistindoàADamadasCamélias,ouAsMulheresdeMármore,cadaumsefiguraque
MargaridaGautiereMarcosãoapenasduasmoçasumtantoloureira[...]assistindoa
Asasasdeumanjo,oespetáculoencontraarealidadediantedeseusolhos[...]Victor
HugopoetizouaperdiçãonasuaMarionDelorme;AlexandreDumasFilhoenobreceuͲa
n’ADamadasCamélias;eumoralizeiͲan’AsAsasdeumAnjo;oamorqueépoesiade
Marion,earegeneraçãodeMargarida,éomartíriodeCarolina;eisaúnicadiferença,
nãofalandodoquedizrespeitoàarte,queexisteentreaquelestrêstipos(ALENCAR,
1977,p.257)
Nessastraduções,decunhotemáticoeformal,osromânticosbrasileirosfundamaliteratura
nacional,instituemnossolugarnoacervoliterárioocidental,criandoassimumpequenomundo,unicaͲ
mentenosso,emmeioaosmundoseuropeus,comodesejaerealizaJosédeAlencar,(1951,p.74,v.3).
Partindodessacompreensão,procederemosaumaleituradostextossugeridos,levandoemconsideraͲ
çãoasanáliseseoscomentárioscríticos,discutidosaolongodesteCurso.
LETRAS|101
UNIDADE III
AUTORES E OBRAS
GONÇALVES DE MAGALHÃES
DomingosJoséGonçalvesdeMagalhães,viscondedoAraguaia(1811–1882)
Obras:Suspirospoéticosesaudades(1836);AntônioJoséouOpoetaeaInquisição(1839);
A Confederação dos Tamoios, poema épico (1857); Os Mistérios (1857); Fatos do Espírito
Humano, tratado filosófico (1858); Urânia, poesias (1862); Cânticos fúnebres, poesias
(1864);Aalmaeocérebro,ensaios(1876);Comentáriosepensamentos(1880).
Comentáriocrítico
DomingosJoséGonçalvesdeMagalhãespublicou,retomandoFerdinandDenis,o“EnsaiosobreahistóriadaliteraͲ
tura brasileira”, no qual traçava o programa renovador, completado pelo do prefácio do livro que publicou no
mesmoano,Suspirospoéticosesaudades,consideradopeloscontemporâneosopontodepartidadatransformaͲ
ção literária e iniciador da literatura propriamente brasileira. Magalhães foi um caso interessante de renovador
semforçarenovadora.Oseumedíocrelivrodeestréia,Poesias(1832),érotineiramenteneoclássico,mastemo
toque nacionalista do tempo: patriotismo aceso e celebração da liberdade política, banhada na embriaguês da
cidadaniarecente(CANDIDO,2002,p.26).
Saudação à pátria à vista do Rio de Janeiro no meu regresso da Europa – Em 14 de maio de 1837
Eis o pétreo gigante majestoso,
Sobre as cerúleas ondas ressupino,
Guardando a entrada do meu pátrio Rio!
Ei-lo c’o pé assinalando a barra
Do golfo ingente, que do mundo as naves
Todas pode conter no âmbito imenso,
Sem par na Natureza!...
Ei-lo!... do sol nascente os primos raios
Já lhe douram a nobre, altiva fronte;
E ele como que acorda do seu sono,
O cobertor de névoa sacudindo!
Terras da minha pátria, eu vos saúdo,
Depois de longa ausência!
Eu te saúdo, oh sol da minha infância!
Inda brilhar te vejo nestes climas,
Da Providência esmero,
Onde se apraz a amiga liberdade
Tão grata aos corações americanos!
Minha terra saudosa,
Terra de minha mãe, como és tão bela.
Se em ti não venho achar da Europa o fausto,
Pelo suor dos séculos regado,
Também não acharei suas misérias,
Maiores que o seu brilho.
Verdes montanhas que cercais meu berço,
Como sublime sois, como sois grande!
Por vós são estas lágrimas de júbilo
Que em êxtase minha alma aos olhos manda,
Ao respirar teus ares!
Por vós agora o coração palpita
Com desusado impulso
Do inefável prazer em que me inundo.
LETRAS|102
Ah nunca, nunca apaixonado amante
Com mais transporte viu por entre a selva
Brilhar o rosto do querido objeto,
Que ele em seus braços apertar deseja.
Aqui meu corpo está, ali minha alma!
Ah se eu asas tivesse,
Nem mais um’hora no baixel ficara!
Disparando os mares
Precipitado,
Rompendo os ares
Qual veloz águia
A ti voara
Oh pátria cara!
E apavonado,
Todo garboso
Soltando iria
Nova harmonia,
Que o céu formoso
Grato escutara.
Mas nesse adejo,
Onde o desejo
Me transportara?
Onde?... Eu não sinto
Presságio triste.
Meu pai existe,
E a mãe querida
Também respira;
E o mesmo instinto
Me conduzira
Ao tugúrio de meus pais,
A quem envio meus ais.
GONÇALVES DIAS
AntônioGonçalvesDias(1823–1864)
Obras: Meditação (1845Ͳ6); Primeiros cantos (1846); Segundos Cantos e Sextilhas de Frei
Antão(1848);ÚltimosCantos(1851);OBrasileOceania(1852);Cantos(1857);Ostimbiras
(1857);DicionáriodaLínguaTupichamadalínguageraldosindígenasdoBrasil(1858).
Comentáriocrítico
GonçalvesDiassedestacanomedíocrepanoramadaprimeirafaseromânticapelasqualidadessuperioresdeinspiͲ
ração e consciência crítica. Contribui ao lado de José de Alencar para dar à literatura, no Brasil, uma categoria
perdidadesdeosárcadesmaiorese,aomododeCláudioManuel,forneceaossucessoresomolde,opadrãoaque
se referem como inspiração e exemplo [...] A “Canção do Exílio” (banalizada a ponto de perder a magia que no
entantoapercorredepontaaponta)representabemoseuidealliterário;belezanasimplicidade,fugaaoadjetiͲ
vo,procuradaexpressãodetalmaneirajustaqueoutraseriadifícil[...]Amaioriadospoetasemesmosjornalistas
consideravaGonçalvesDias,desdemeadosdoséculo,overdadeirocriadordaliteraturanacional.Em1849,ÁlvaͲ
resdeAzevedovianeleafontedeinspiraçãoparaosnovose,pormeiodo“livrorenovador,OsPrimeirosCantos”,
regeneradorda“ricapoesianacionaldeBasíliodaGamaeDurão(CANDIDO,1993,p.71).
Canção do Exílio
Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen, glühen?
Kennst du es wohl? – Dahin, dahin!
Möcht ich ... zienh.
Goethe
Conheces o país onde florescem as laranjeiras?
Ardem na escura fronde os frutos de ouro...
Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu
ir!
Tradução de Manuel Bandeira
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem q’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
LETRAS|103
ÁLVARES DE AZEVEDO
ManuelAntônioÁlvaresdeAzevedo(1831–1852)
Obras:LiradosVinteAnos(1853);NoitenaTaverna(1855);OCondeLopo(1866).
Comentáriocrítico
ÁlvaresdeAzevedofoiumdospoetasmaislidosequeridosdoBrasil,enquantoestiveramemvogaascadências
melodiosas,otomsentimentalousatânicoeoentrechoqueabruptodaspaixões,peculiaresaoRomantismo.Boa
partedesuaspoesiasserefereànoite,ondedecorremtodasassuasnarrativaseaçõesdramáticas.Étambéma
hora do sonho e do pesadelo, como em Macário, “Meu sonho” e na visão macabra do Conde Lopo galopando
entreesqueletos,acaminhodeumritualpavoroso(CANDIDO,2001,p.9Ͳ13).
Meu Sonho
EU
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?
Cavaleiro, quem és? — O remorso?
Do corcel te debruças no dorso...
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?
LETRAS|104
Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?...
Tu escutas... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?
Cavaleiro, quem és? que mistério...
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?
O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...
JUNQUEIRA FREIRE
LuísJosédeJunqueiraFreire(1832–1855)
Obras:InspiraçõesdoClaustro(1855);PoesiasCompletas(1944–ediçõespóstumas).
Comentáriocrítico
EmJunqueiraFreireéprecisamenteesseconvíviotensoentreerosethanatosqueselaapersonalidadedoreligioso
artistamalogrado.Contrárioasimesmo,cantandoporaspiraçõesopostas,apareceͲnosohomematrásdopoeta,
disse Machado de Assis; e nessas palavras ia um elogio, mas também uma restrição [...] cujas Inspirações do Cla
podemoslercomoumdocumentopungentedeummoçoenfermiço,divididoentreasensualidade,osterroresdac
eosideaisreligiosos,masnãocomoumaobradepoesia(BOSI,1980,p.124Ͳ125–grifosdoautor).
Martírio
Beijar-te a fronte linda:
Beijar-te o aspecto altivo:
Beijar-te a tez morena:
Beijar-te o rir lascivo:
Sentir teus modos frios:
Sentir tua apatia:
Sentir até repúdio:
Sentir essa ironia:
Eis a descrença e a crença,
Eis o absinto e a flor,
Eis o amor e o ódio,
Eis o prazer e a dor!
Beijar o ar que aspiras:
Beijar o pó que pisas:
Beijar a voz que soltas:
Beijar a luz que visas:
Sentir que me resguardas:
Sentir que me arreceias:
Sentir que me repugnas:
Sentir que até me odeias:
Eis o estertor de morte,
Eis o martírio eterno,
Eis o ranger dos dentes,
Eis o penar do inferno!
CASSIMIRO DE ABREU
CasimiroJoséMarquesdeAbreu(1839–1860)
Obras: Camões e o Jaú (1856); As Primaveras (1859); Obras Completas (1940); Poesias
Completas(1948).
Comentáriocrítico
AindanalinhadecompreensãodopúblicomédioéquesedeveapreciarapopularidadedeCasimirodeAbreu,
queoperouumadescidadetomemrelaçãoàpoesiadeGonçalvesDias,ÁlvaresdeAzevedoeJunqueiraFreire.Na
verdadepoucodefeririadestesseocritériodecomparaçãoseesgotassenaescolhadostemas,valorizadosemsi
mesmos:asaudadedainfância,oamorànatureza,osfogachosdeadolescente,areligiãosentimental,opatrioͲ
tismodifuso.Masoquesingularizaopoetaéomododecompor,queremonta,emultimaanálise,aoseumodode
conhecerarealidadenalinguagemepelalinguagem.Casimiroreduziaanaturezaeopróximoaumângulovisual
menor: o do seu temperamento sensual e menineiro. CompareͲse a “Canção do exílio” que abre as Primaveras
comapeçahomônimadosPrimeirosCantosdeGonçalvesDias:nestaotomésóbrioatéàausênciaabsolutade
adjetivos;naquela,apesardaimitaçãodosdadosnaturais(palmeiras,sabiá,céu...),otomélânguidoeosmotivos
dapátriadistantesediluemaoembalodasrimasseguidasedospleonasmos(BOSI,1980,p.127–grifosdoautor).
Não, não tem, que Deus fadou-a
Dentre todas – a primeira:
Deu-lhe esses campos bordados,
Deu-lhe os leques da palmeira,
E a borboleta que adeja
Sobre as flores que ela beija,
Quando o vento rumoreja
Na folhagem da mangueira.
Quando Dirceu e Marília
Em terníssimos enleios
Se beijavam com ternura
Em celestes devaneios
Da selva o vate inspirado,
O sabiá namorado,
Na laranjeira pousado
Soltava ternos gorjeios.
Todos cantam sua terra,
Também vou cantar a minha;
Nas débeis cordas da Lira
Hei de fazê-la rainha.
– Hei de dar-lhe a realeza
Nesse trono de beleza
Em que a mão da natureza
Esmerou-se em quanto tinha.
É um país majestoso
Essa terra de Tupá,
Desd’o Amazonas ao Prata,
Do Rio Grande ao Pará!
– Tem serranias gigantes
E tem bosques verdejantes
Que repetem incessantes
Os cantos do sabiá.
Foi ali, foi no Ipiranga,
Que com toda a majestade
Rompeu de lábios augustos
O brado da liberdade;
Aquela voz soberana
Voou na plaga indiana
Desde o palácio à choupana,
Desde a floresta à cidade!
Correi pr’as bandas do sul;
Debaixo dum céu de anil
Encontrareis o gigante
Santa Cruz, hoje Brasil:
– É uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Nas belas tardes de abril.
Ao lado da cachoeira,
Que se despenha fremente,
Dos galhos da sapucaia
Nas horas do sol ardente,
Sobre um solo d’açucenas,
Suspensa a rede de penas
Um povo ergueu-se cantando
– Mancebos e anciãos –
E, filhos da mesma terra,
Alegres deram-se as mãos;
Foi belo ver esse povo
Em suas glórias tão novo,
Bradando cheio de fogo:
– Portugal! somos irmãos!
MINHA TERRA
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá.
G. Dias
Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
– É uma terra encantada
– Mimoso jardim de fada –
Do mundo todo invejada,
Que o mundo não tem igual,
LETRAS|106
Ali nas tardes amenas
Se embala o índio indolente.
Foi ali que noutro tempo
À sombra do cajazeiro
Soltava seus doces carmes
O Petrarca brasileiro;
E a bela que o escutava
Um sorriso deslizava
Para o bardo que pulsava
Seu alaúde fagueiro.
Quando nasci, esse brado
Já não soava na serra,
Nem os ecos da montanha
Ao longe diziam – guerra!
Mas não sei o que sentia
Quando, a sós, eu repetia
Cheio de nobre ousadia
O nome da minha terra!
SOUSÂNDRADE
JoaquimdeSousaAndrade(1833–1902).
Obras:HarpasSelvagens(1857);OGuesa(1871).
Comentáriocrítico
Apoesiabrasileira,empelomenostrêsmomentos,representaoscentrosfinanceiroscomoolocalinfernaleafonte
de seus males, inclusive os da poesia. A mais contundente e direta é o canto X, “Inferno de Wall Estreet”, de
1877/1888,dograndepoema“OGuesa”,deSousândrade,poetamaranhense[...]OquetornaocantomaissurpreͲ
endenteéaintençãocríticoͲsatírico,ouseja,omodopeloqualjulgaacidadedeNovaYork,umcentropróspero
equivalenteàsmaismodernascapitaiseuropéias.Opoeta,emvezdeseembasbacarcomasmaravilhasdatécnicae
davidamoderna,oqueseriaomaisprovável–comoacontececomD.PedroIIesuacomitiva,que,naépoca,visita
aExposiçãodoCentenáriodaIndependênciadosEstadosUnidos–,elefazumacríticaagudadavidaamericanae
quevaibemalémdamoralista.SousândradeapreciaosmovimentosdesubidaedecidadasBolsasecomo,com
eles,asriquezasseformamesedesfazem.Aomesmotempo,observacomoosvaloresmoraiseespirituaisacomͲ
panhamessesmovimentos,massomenteemtrajetodedescendimentoecorrosão,semqueconheçamumaconͲ
trapartidaascendente,comoosduplosecompensatóriosdacirculaçãodariquezamaterial(RONCARI,2007,p.271Ͳ
272).
Do canto décimo
1873-188...
No dia de anos bons a lady nobre,
Recamados drawingrooms deslumbrantes
Às recepções, radiosa de brilhantes,
Deusa o colo alvo e cândido descobre
A que adornos desmaiam. Suntuosos,
Bufetes e o bouquet. Sorrindo a miss
No adorável serviço de meiguice,
Que não dos escanções silenciosos,
Linda oferece na mãozinha branca,
Dizem que beberagem para amor –
Porém sorrindo of’rece, ingênua e franca,
O ponche de champanha abrasador.
Entanto às hops não sendo, das montanhas,
Sem dúvida que é este o mais propício
Risonho dia ao doce compromisso
Do coração, que a filtro tal se assanha:
São callers os papás; nem os consente
Boa etiqueta em casa; e o soberano
Cetro tem-no a mulher – Quão docemente
Alvora o dia que é primeiro do ano!
Gelada a terra, o ar vivo, o sol brilhante,
Aos lagos, que ondas foram sonorosas
De margens d’ecos, o rapaz e as rosas
Vêm ao baile do gelo: delirante,
Envolta em vestes de veludos quentes,
A menina, nos pés, viveza e graça,
O aro prendendo dos patins luzentes,
Letras sobre o cristal girando traça.
A Bíblia da família à noite é lida;
Aos sons do piano os hinos entoados,
E a paz e o chefe da nação querida
São na prosperidade abençoados.
Mas no outro dia cedo a praça, o stock,
Sempre acesas crateras do negócio.
O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,
Ao smart Yankee astuto, abre New York.
FAGUNDES VARELA
LuísNicolauFagundesVarella(1841–1875)
Obras: De Noturnas (1861); De Vozes da América (1864); De Pendão Auriverde (s.d.); De
CantoseFantasias(1865);DeCantosMeridionais(1869);DeCantosdoErmoedaCidade
(1869).
Comentáriocrítico
Mas o epígono por excelência, o maior dentre os menores poetas saídos das Arcadas paulistas, foi sem dúvida,
FagundesVarela,oúnicoderelevonapoesiadadécadade60[...]Seriafácilrastrearemsuaproduçãodescuradae
prolixasugestõesemesmodecalquesdeGonçalvesDias,ÁlvaresdeAzevedoeCasimirodeAbreu.Exploroutodos
ostemasromânticos,nãoexcetuandooíndio[...]Poroutrolado,Varelafoi,maisqueosseusmodelos,sensívelà
lirapatrióticadefiliaçãoliberal[...]Umlugaràpartenasuaprodução,pelaconstânciadofôlego,ocupao“Cântico
doCalvário”,escritoemmemóriadofilho.NessabelaelegiaemversosbrancosVarelaredimeͲsedasensaçãodejá
lidocomqueomarcaraasecuradocrítico(BOSI,1980,129Ͳ131–grifosdoautor).
CânticodoCalvário(fragmento)
Fulgurarnacoroademartírios
Quemecircundaafrontecismadora!
ÀMemóriadeMeuFilho
Sãomortosparamimdanoiteosfachos,
MortoalldeDezembro
MasDeusvosfazbrilhar,lágrimassantas,
de1863.
Eàvossaluzcaminhareinosermos!
Erasnavidaapombapredileta
Quesobreummardeangústiasconduzia
Oramodaesperança.—Erasaestrela
Queentreasnévoasdoinvernocintilava
Apontandoocaminhoaopegureiro.
Erasamessedeumdouradoestio.
Erasoidíliodeumamorsublime.
Erasaglória,—ainspiração,—apátria,
Oporvirdeteupai!—Ah!noentanto,
Pomba,—varouͲteaflechadodestino!
Astro,—engoliuͲteotemporaldonorte!
Teto,caíste!—Crença,jánãovives!
Brandoorvalhodocéu!—Sedebenditas!
Oh!filhodeminh'alma!Últimarosa
Quenestesoloingratovicejava!
Minhaesperançaamargamentedoce!
Quandoasgarçasvieremdoocidente
Buscandoumnovoclimaondepousarem,
Nãomaisteembalareisobreosjoelhos,
Nemdeteusolhosnocerúleobrilho
Achareiumconsoloameustormentos!
Nãomaisinvocareiamusaerrante
Nessesretirosondecadafolha
Eraumpolidoespelhodeesmeralda
Correi,correi,oh!lágrimassaudosas,
Legadoacerbodaventuraextinta,
Dúbiosarchotesqueatremerclareiam
Alousafriadeumsonharqueémorto!
Correi!Umdiavosvereimaisbelas
QueosdiamantesdeOfiredeGolgonda
LETRAS|108
Estrelasdosofrer,—gotasdemágoa,
Querefletiaosfugitivosquadros
Dossuspiradostemposqueseforam!
Nãomaisperdidoemvaporosascismas
Escutareiaopôrdosol,nasserras,
Vibraratrompasonorosaeleda
Docaçadorqueaoslaresserecolhe!
LUÍZ DA GAMA
LuísGonzagaPintodaGama(1830–1862).
Poeta revolucionário que lutou contra a escravidão e tudo o que a ela estava associado,
LuizGamaéconsideradooprecursordeCastroAlves.Nocampodesuaatuaçãojurídica,
ficoufamosopelafrase,“Oescravoquemataosenhor,sejaemquecircunstânciafor,mata
sempreemlegítimadefesa”.Obras:PrimeirastrovasburlescasdeGetulino(1859)
Comentáriocrítico
AmãedeGamafoialegendárianagôLuízaMahin,eseupaiumfidalgodeorigemportuguesacujonomenãose
conhece.Segundoconta,LuizGama,emcriança,foivendidopeloprópriopai.Anosmaistarde,conseguiuprovara
ilegalidadedesuasituaçãodeescravo,umavezfilhodemãelivre,eobtevealiberdade[...]OtextorealmentefaͲ
mosodeLuizGamachamaͲse“Quemsoueu?”,sendomaisconhecidocomo“Abodarrada”.Nestepoemasatírico
de 138 versos, Gama brinca com as diversas acepções populares da palavra “bode”. Na gíria brasileira, “bode” é
mestiço,mulato.Étambémindividuolibidinoso,sátiro.Alémdisso,obode“berra”,perturbaosossego–exatamenͲ
teoqueoautorpretendefazercomseupoema.Semalusõesafatosdesuavidapessoal,GamadefineͲsecomo
homemecomopoetae,apardisso,denunciaferinamenteahipocrisiaeosvíciosreinantes.Enquantoindivíduo,
afirmarepudiarriquezas,glórias,brasões,sórendendoobediência“àvirtude,àinteligência”.Enquantopoeta,reͲ
conheceseuslimites:“Façoversos,nãosouvate”.Masainda:sabeserimprudenteoofíciodopoeta[...]SimultaneͲ
amentejocosoecáustico,trazendoàlembrançaGregóriodeMatos,ofinaldopoemaassumeumtomlúdiconuma
atitudequehojechamaríamosde“carnavalizadora”(GOMES,1988,p.85Ͳ91).
Quem sou eu? (Bodarrada)
Amo o pobre, deixo o rico,
Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho,
Vivo só no meu cantinho;
Da grandeza sempre longe
Como vive o pobre monge.
Tenho mui poucos amigos,
Porém bons, que são antigos,
Fujo sempre à hipocrisia,
À sandice, à fidalguia;
Das manadas de Barões?
Anjo Bento, antes trovões.
Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude, à inteligência:
Eis aqui o Getulino
Que no pletro anda mofino.
Sei que é louco e que é pateta
Quem se mete a ser poeta;
Que no século das luzes,
Os birbantes mais lapuzes,
Compram negros e comendas,
Têm brasões, não - das Kalendas;
E com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos;
Fazem grossa pepineira,
Só pela arte do Vieira,
E com jeito e proteções.
Galgam altas posições!
Mas eu sempre vigiando
Nessa súcia vou malhando
De tratante, bem ou mal,
Com semblante festival
Dou de rijo no pedante
De pílulas fabricante
Que blasona arte divina
Com sulfatos de quinina
Trabusanas, xaropadas,
E mil outras patacoadas.
Que, sem pingo de rubor
Diz a todos que é DOUTOR!
Não tolero o magistrado,
Que do brio descuidado,
Vende a lei, trai a justiça
- Faz a todos injustiça –
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre,
E só acha horrendo crime
No mendigo, que deprime.
- neste dou com dupla força,
Té que a manha perca ou torça.
Fujo às léguas do lojista,
Do beato e do sacrista –
Crocodilos disfarçados,
Que se fazem muito honrados
Mas que, tendo ocasião,
São mais feros que o Leão
Fujo ao cego lisonjeiro,
Que, qual ramo de salgueiro,
Maleável, sem firmeza
Vive à lei da natureza
Que, conforme sopra o vento,
Dá mil voltas, num momento
O que sou, e como penso,
Aqui vai com todo o senso,
Posto que já veja irados
Muitos lorpas enfurnados
Vomitando maldições,
Contra as minhas reflexões.
Eu bem sei que sou qual Grilo,
De maçante e mau estilo;
E que os homens poderosos
Desta arenga receosos
Hão de chamar-me Tarelo
Bode, negro, Mongibelo;
Porém eu que não me abalo
Vou tangendo o meu badalo
Com repique impertinente,
Pondo a trote muita gente.
Se negro sou, ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda casta
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
Bodes negros, bodes brancos,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres.
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra;
Nobres, Condes e Duquesas,
Ricas Damas e Marquesas
Deputados, senadores,
Gentis-homens, vereadores;
Belas damas emproadas
De nobreza empantufadas;
Repimpados principotes,
Orgulhosos fidalgotes,
Frades, Bispos, Cardeais,
Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes
Em todos há meus parentes.
Entre a brava militança
Fulge e brilha alta bodança;
Guardas, Cabos, Furriéis
Brigadeiros, Coronéis
Destemidos Marechais,
Rutilantes Generais,
Capitães de mar-e-guerra
- Tudo marra, tudo berra –
Na suprema eternidade,
Onde habita a Divindade,
Bodes há santificados,
Que por nós são adorados.
Entre o coro dos Anjinhos
Também há muitos bodinhos.
O amante de Syringa
Tinha pêlo e má catinga;
O deus Mendes, pelas costas,
Na cabeça tinha pontas;
Jove, quando foi menino,
Chupitou leite caprino;
E segundo o antigo mito
Também Fauno foi cabrito.
Nos domínios de Plutão,
Guarda um bode o Alcorão;
Nos lundus e nas modinhas
São cantadas as bodinhas:
Pois se todos têm rabicho,
Para que tanto capricho?
Haja paz, haja alegria,
Folgue e brinque a bodaria;
Cesse pois a matinada,
Porque tudo é bodarrada!
CASTRO ALVES
AntônioFredericodeCastroAlves(1847–1871)
Obras:EspumasFlutuantes(1870);GonzagaouaRevoluçãodeMinas(1875);ACachoͲ
eiradePauloAfonso(1876);OsEscravos(1883).
Comentáriocrítico
CastroAlves,emcujaobraapoesiadoRomantismoencontrouofechobrilhante,poisemseguidasóseproduziu
coisadesegundaeterceiraordem[...]eradotadodoquesechamavanaqueletempode‘inspiraçãogenerosa’,isto
é,facilidadetorrencialdecomposição,associadaàprodigiosaconcatenaçãoverbaldosimprovisadores[...]Comele
rompeͲseomasoquismolamurientoqueestavanamodaatéentão,enosseuspoemasossentimentosparecemum
atodeafirmaçãovital.Tantomaisquantotinhaacapacidadedeinventarmetáforasexpressivasedinamizaroverso
pormeiodocontrasteedaantítese,empregadosaogostodeVictorHugo[...]Asuafamafoidevidasobretudoà
poesiahumanitáriaesocial.Deixandodeladooíndio,voltouͲseparaonegroetornouͲseopoetadosescravos,
comumagenerosidadeeumânimolibertárioquefizeramdesuaobraumaforçanosmovimentosabolicionistas.
ComeleoescravosetornouassuntonobredaliteraturaeoseugenerosoânimopoéticosoubecriarparacantáͲlo
situaçõeseversosdegrandeeficácia,comosevêem“Onavionegreiro”,noqualusadiversosmetroseorganizaa
narrativacomexpressivosensodemovimento(CANDIDO,2002,p.73Ͳ75–grifosdoautor).
Navio Negreiro (fragmento)
I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam, n’um abraço insano
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...
LETRAS|110
Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!...
Embaixo — o mar... em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!
Homens do mar! O’ rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!
Esperai!... esperai!... deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia...
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
TEIXEIRA E SOUSA
AntônioGonçalvesTeixeiraeSousa(1812–1861)
Obras:Ofilhodopescador(1843);Tardesdeumpintorouasintrigasdeumjesuíta;GonzaͲ
gaouaconjuraçãodeTiradentes;Aprovidência;Mariaouameninaroubada;AsfatalidaͲ
desdedoisjovens(1843Ͳ1856).
Comentáriocrítico
ConsideraͲse oficialmente como sendo o primeiro romancista propriamente dito Antônio Gonçalves Teixeira e
Sousa,autortambémdoprimeiropoemalongodetemaindianista,porsinalmuitoruim:“TrêsdiasdeumnoivaͲ
do” (1844). Um ano antes tinha publicado O filho do pescador, e em seguidapublicou mais cinco romances até
1856.Escritordeterceiraordem,apostounaperipéciaenamaisdesabaladacomplicação,aomododoslivrosde
aventuraemistérioqueeramentãodevoradospelopúblico,tantoaqui(ondeerabempequeno)quantonaEuroͲ
pa.Noentanto,nãochegouàpopularidade(CANDIDO,2002,p.40Ͳ41).
CenadodiálogoentreLauraeAugusto
AgentilmadrugadoradaCopacabana,tendolentamentepasseadoaruadoJardim,foifinalͲ
mentesentarͲsesobreumbanco,debaixodoslongosefrondososramosdeumavenerandamangueira,
sobrecujotronco,depoisdeterfeitovaguearseusolhospeloamplodosmares,queanteelasedesenͲ
rolava, trouxeͲos, ao depois, contemplar as ondas, que em incessante lida vinham com murmurinho
roucodespedaçarseusfragoresdeencontroàimpassíveldurezadossobranceirosrochedos.ElamediͲ
tava.Hápoucosminutosduravaestacenamuda,quandoalguémdeummodoafetuosomurmurouseu
nome. Ela ergueͲse rapidamente, e voltando a ver quem chama, um mancebo está de joelhos a seus
pés...Amoçaoencaraefala.
ͲSenhor...ͲEuteamomaisdoqueaminhaprópriavida...ͲAmim....Senhor,amim?ͲSim,ati,
minhabelanáufraga...ati...acreditaͲme,euteamo...ͲAmim.Tãopobre.Vítimadadesgraça.Cercada
damiséria,escapadaaumnaufrágioquequesetu...ͲEqueimportatudoisso?Euteamo,eéquanto
basta.Sai,poisdadesgraça,sim,vemaosmeusbraços;vemserminha,minhaparasempre,minhaesͲ
posaenfim....ͲSenhor,masvossopai...ͲEleconsentirá,oh.Semdúvida.
LETRAS|111
JOAQUIM MANOEL DE MACEDO
JoaquimManueldeMacedo(1820–1882).
Obras:Amoreninha(1844);Omoçoloiro(1845);Osdoisamores(1848);Rosa(1849);ViͲ
centina(1853);Oforasteiro(1855);Osromancesdasemana(1861RiodoQuarto(1869);A
lunetamágica(1869);AsvítimasͲalgozes(1869);Asmulheresdemantilha(1870);Ocego
(1849);Cobé(1852);Ofantasmabranco(1856);OprimodaCalifórnia(1858);LuxoeverͲ
dade(1860);Atorreemconcurso(1861);Lusbela(1862);CincinatoQuebraͲLouças(1873);
Anebulosa(1857).
Comentáriocrítico
AcronologiamandacomeçarpeloromancedeJoaquimManueldeMacedo.TendoatravessadotodooRomantisͲ
mo,poisescreveudesdeosanosde40aosde70,nemporissonotaͲlheprogressonatécnicaliteráriaounacomͲ
preensão do que deveria ser um romance. Macedo descobriu logo alguns esquemas de efeito novelesco, sentiͲ
mentaloucômico,eaplicouͲosassiduamenteatésuasúltimasproduçõesnogênero[...]Nãoadmiraque,achadas
comfacilidadeasreceitasjáemAmoreninha,oescritortenhasidotentadoadiluíͲlasemmaisdezesseteromanͲ
ces(BOSI,1980,p.143Ͳ144).
CapítuloIͲApostaImprudente(fragmento)
Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho.
Bravo!...interessantecena!mascertoquedesonrosaforaparacasadeumestudantedeMedicinaejá
no sexto ano, a não valerͲlhe o adágio antigo: Ͳ o hábito não faz o monge. Ͳ Temos discurso!... atenͲ
ção!...ordem!...gritaramaumtempotrêsvozes.ͲCoisacélebre!acrescentouLeopoldo.Filipesempre
setornaoradordepoisdojantar...ͲEdáͲlheparafazerepigramas,disseFabrício.ͲNaturalmente,acuͲ
diuLeopoldo,que,pordonodacasa,maiorquinhãohouveranocumprimentodorecémͲchegado;natuͲ
ralmente.Bocage,quandotomavacarraspana,descompunhaosmédicos.ͲC’esttropfort!bocejouAuͲ
gusto,espreguiçandoͲsenocanapéemqueseachavadeitado.ͲComoquiserem,continuouFilipe,ponͲ
doͲseemhábitosmenores;mas,porminhavida,queacarraspanadehojeaindameconcedeapreciar
devidamenteaquiomeuamigoFabrício,quetalvezacabadechegardealgumavisitadiplomática,vestiͲ
docomesmeroealinho,porém,tendoacabeçaencapuzadacomavermelhaevelhacarapuçadoLeoͲ
poldo;este,aliescondidodentrodoseurobeͲdeͲchambrecordeburroquandofoge,esentadoemuma
cadeiratãodesconjuntadaque,paranãocaircomela,põeemaçãotodasasleisdeequilíbrio,queestuͲ
douemPouillet;acolá,enfim,omeuromânticoAugusto,emceroulas,comasfraldasàmostra,estirado
emumcanapéemtãobomuso,queaindaagoramesmofezcomqueLeopoldoselembrassedeBocage.
Oh!VV.SS.tomamcafé!...Aliosenhordescansaaxícaraazulemumpiresdeporcelana...aqueletem
uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é corͲdeͲrosa... aquele outro nem porcelana,
nemlavores,nemcorazulouderosa,nemxícara...nempires...aquiloéumatigelanumprato...ͲCarͲ
raspana!... carraspana!... Ͳ O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltandoͲse para o corredor, trazeͲme café,
aindaquesejanopúcaroemqueocoas;poiscreioqueanãoserafaltadelouças,játeusenhormo
teriaoferecido.ͲCarraspana!...carraspana!...ͲSim,continuouele,euvejoquevocês...ͲCarraspana!...
carraspana!... Ͳ Não sei de nós quem mostra... Ͳ Carraspana!... carraspana!... SeguiramͲse alguns moͲ
mentosdesilêncio;ficaramosquatroestudantesassimamododemoçasquandojogamosiso.Filipe
nãofalava,porconheceropropósitoemqueestavamostrêsdelhenãodeixarconcluirumasóproposiͲ
ção,eestes,porqueesperavamvêͲloabrirabocaparagritarͲlhe:carraspana!...Enfim,foiaindaFilipeo
primeiroquefalou,exclamandoderepente:ͲPaz!paz!...ͲAh!já?...disseLeopoldo,queeraomaisinͲ
fluído.ͲFilipeécomoogalego,disseumoutro;perderiatudoparanãoguardarsilêncioumahora.
LETRAS|112
MANUEL DE ALMEIDA
ManuelAntôniodeAlmeida(1831Ͳ1861)
Obras:Memóriasdeumsargentodemilícias(1853);Obradispersa(1991).
Comentáriocrítico
No outro pólo, as Memórias de um sargento de Milícias estão isentas de qualquer traço idealizante e procuram
despregarͲsedamatériaromanceadagraçasaométodoobjetivodecomposição,próximodoqueseriaumacrônica
históricacujoautorsedivertisseemresenharasandançaseospecadilhosdouomoqualunque.EmMacedoaveraͲ
cidadedoscostumesfluminensesaparecedistorcidapelacumplicidadetácitacomaleitora,quequerorarir,ora
chorar,deonderesultaumrealismodesegundamão,nãorarorasteiroelamuriento.EmManuelAntônio,ocomͲ
promissomaisaltoelegítimo,porquesefazentreorelatodeummomentohistórico(oRiosobD.JoãoVI)euma
visão desenganadada existência,fonte dohumor difusono seuúnico romance [...]O seu valor reside principalͲ
menteemtercaptado,pelofluxonarrativo,umadasmarcasdavidanapobreza,queéaperpétuasujeiçãoàneͲ
cessidade, sentida de modo fatalista como o destino de cada um. Esse contínuo esforço de driblar o acaso das
condiçõesadversaseaavidezdegozarosintervalosdeboasorteimpelemosfigurantesdasMemórias,e,empriͲ
meirolugar,oantiͲheróiLeonardo,“filhodeumapisadelaedeumbeliscão”paraarodavivadepequenosengodos
e demandas de emprego, entremeadas com ciganagens e patuscadas que dão motivo ao romancista para fazer
entraremcenacertostiposdovelhoRio(BOSI,1980,p.145Ͳ147–grifosdoautor).
CapítuloIIͲPrimeirosinfortúnios(fragmento)
LogoquepôdeandarefalartornouͲseumflagelo;quebravaerasgavatudoquelhevinhaàmão.Tinha
umapaixãodecididapelochapéuarmadodoLeonardo;seesteodeixavaporesquecimentoemalgumlugaraoseu
alcance, tomavaͲo imediatamente, esganava com ele todos os móveis, punhaͲlhe dentro tudo que encontrava,
esfregavaͲoemumaparede,eacabavaporvarrercomeleacasa;atéqueaMaria,exasperadapeloqueaquilolhe
havia de custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancavaͲlhe das mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas,
guloso;quandonãotraquinava,comia.AMarianãolheperdoava;traziaͲlhebemmaltratadaumaregiãodocorpo;
porémelenãoseemendava,queeratambémteimoso,eastravessurasrecomeçavammalacabavaadordaspalͲ
madas.Assimchegouaosseteanos.AfinaldecontasaMariasempreerasaloia,eoLeonardocomeçavaaarreͲ
penderͲseseriamentedetudoquetinhafeitoporelaecomela.Etinharazão,porque,digamosdepressaesem
maiscerimônias,haviaeledesdecertotempoconcebidofundadassuspeitasdequeeraatraiçoado.Haviaalguns
mesesatrástinhanotadoqueumcertosargentopassavaͲlhemuitasvezespelaporta,eenfiavaolharescuriosos
através das rótulas:uma ocasião, recolhendoͲse,pareceraͲlhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou
semmaisnovidade.Depoiscomeçouaestranharqueumcertocolegaseuoprocurasseemcasa,paratratarde
negóciosdooficio,sempreemhorasdesencontradas:porémistotambémpassouembreve.FinalmenteaconteͲ
ceuͲlheportrêsouquatrovezesesbarrarͲsejuntodecasacomocapitãodonavioemquetinhavindodeLisboa,e
istocausouͲlhesérioscuidados.Umdiademanhãentrousemseresperadopelaportaadentro;alguémqueestava
nasalaabriuprecipitadamenteajanela,saltouporelaparaarua,edesapareceu.ÀvistadistonadahaviaaduviͲ
dar:opobrehomemperdeu,comosecostumadizer,asestribeiras;ficoucegodeciúme.Largouapressadosobre
umbancounsautosquetraziaembaixodobraço,eendireitouparaaMariacomospunhoscerrados.—GrandesͲ
síssima!...Eainjúriaqueiasoltareratãograndequeoengasgou...epôsͲseatremercomtodoocorpo.AMaria
LETRAS|113
recuoudoispassosepôsͲseemguarda,poistambémnãoeradasquesereceavacomqualquercoisa.—TiraͲtelá,
óLeonardo!—Nãochamesmaispelomeunome,nãochames...quetrancoͲteessabocaasocos...—SafeͲsedaí!
QuemlhemandoupôrͲseaosnamoricoscomigoabordo?IstoexasperouoLeonardo;alembrançadoamorauͲ
mentouͲlheadordatraição,eociúmeearaivadequeseachavapossuídotransbordaramemsocossobreaMariͲ
a, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar: — Ai... ai... acuda, Sr.
compadre... Sr. compadre!... Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês, e não podia
largáͲlo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. EncolheuͲse a choramingar em um canto. O
meninoassistiraatodaessacenacomimperturbávelsangueͲfrio:enquantoaMariaapanhavaeoLeonardoesbraͲ
vejava,aqueleocupavaͲsetranqüilamenteemrasgarasfolhasdosautosqueestetinhalargadoaoentrar,eem
fazerdelasumagrandecoleçãodecartuchos.Quando,esmorecidaaraiva,oLeonardopôdeveralgumacoisamais
doqueseuciúme,reparouentãonaobrameritóriaemqueseocupavaopequeno.EnfureceͲsedenovo:suspenͲ
deu o menino pelas orelhas, fêͲlo dar no ar uma meia volta, ergue o pé direito, assentaͲlhe em cheio sobre os
glúteosatirandoͲosentadoaquatrobraçasdedistância.—Ésfilhodeumapisadelaedeumbeliscão;mereces
queumpontapéteacabeacasta.Omeninosuportoutudocomcoragemdemártir,apenasabriuligeiramentea
bocaquandofoilevantadopelasorelhas:malcaiu,ergueuͲse,embarafustoupelaportafora,eemtrêspulosestaͲ
vadentrodalojadopadrinho,eatracandoͲseͲlheàspernas.OpadrinhoerguianessemomentoporcimadacabeͲ
çadofreguêsabaciadebarbearquelhetiraradosqueixos:comochoquequesofreuabaciainclinouͲse,eofreͲ
guêsrecebeuumbatismodeáguadesabão.
LETRAS|114
JOSÉ DE ALENCAR
JoséMartinianodeAlencar(1829–1877)
Obras: Cinco minutos (1856); O Guarani (1857); A viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva
(1864);Iracema(1865);Asminasdeprata.(1864Ͳ1865);Ogaúcho(1870);Apatadagazela
(1870);Otroncodoipê(1871);Guerradosmascates(1873Ͳ1974);Til,(1872);Sonhosd'ouro,
(1872);Alfarrábios,(1873);Ubirajara,(1874);Osertanejo,(1875);Senhora(1875);EncarnaͲ
ção,(1893);Ocrédito,(1857);Versoereverso,(1857);Demôniofamiliar,(1857);Asasasde
um anjo, (1858); Mãe, (1860); A expiação, (1867); O jesuíta, (1875); Ao correr da pena,
(1874);Comoeporquesouromancista,(1893);Cartassobreaconfederaçãodostamoios,
(1856);Aoimperador:cartaspolíticasdeErasmoeNovascartaspolíticasdeErasmo,(1865);
Aopovo:cartaspolíticasdeErasmo,(1866);Osistemarepresentativo,(1868).
Comentáriocrítico
BemdiferentefoiaobradeAlencar,aotodovinteromancespublicadosentre1856a1877,dandoexemplodaimͲ
portânciaqueogênerohaviaadquiridonaliteraturabrasileira,ultrapassandoonívelmodestodospredecessorese
demonstrandocapacidadenarrativabemdefinida.Éumaobrabastanteambiciosa.Apartirdecertaaltura,Alencar
pretendeuabrangercomela,sistematicamente,osdiversosaspectosdopaísnotempoenoespaço,pormeiosde
narrativassobreoscostumesurbanos,sobreasregiões,sobreoíndio[...]Parpôrempráticaesseprojeto,quisforͲ
jarumestilonovo,adequadoaostemasebaseadonumalinguagemque,semperderacorreçãogramatical,seaͲ
proximassedamaneirabrasileiradefalar.Aofazerisso,estavatocandoonódoproblema(caroaosromânticos)da
independênciaestéticaemrelaçãoaPortugal.Comefeito,caberiaaosescritoresnãoapenasfocalizararealidade
brasileira,privilegiandoasdiferençaspatentesnanaturezaenapopulação,maselaboraraexpressãoquecorresͲ
pondesseàdiferenciaçãolinguísticaquenosiadistinguindocadavezmaisdosportugueses,numagrandeaventura
dentrodamesmalíngua.ComomaistardeMáriodeAndradenoModernismo,JosédeAlencaratacouaquestãoda
identidadepeloaspectofundamentaldalinguagem[...]Asuaobraatraiuamaioriadosleitorespeloquetinhade
romanesco no sentido estrito, tanto sob o aspecto de sentimentalismo quanto do heroísmo rutilante. O guarani
(1857),cujaaçãodecorrenoséculoXVIeéomaispopulardosseuslivros,temessasduascoisas,alémdefacilitar
pelopróprioenredoaescritapoéticaeempoladaquemarcouoRomantismo.Amor,bravura,perfídiasecombinam
neleparadaraoleitoroespetáculodeumBrasilplasticamentebelo,enobrecidopelasqualidadesideaisdoepôniͲ
moindígena(CANDIDO,2002,p.63Ͳ66).
CapítuloII–Lealdade(fragmento)
A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português de cota
d’armaseumdosfundadoresdacidadedoRiodeJaneiro.EradoscavalheirosquemaissehaviamdisͲ
tinguidonasguerrasdaconquista,contraainvasãodosfranceseseosataquesdosselvagens.Em1567
acompanhouMemdeSáaoRiodeJaneiro,edepoisdavitóriaalcançadapelosportugueses,auxiliouo
governadornostrabalhosdafundaçãodacidadeeconsolidaçãododomíniodePortugalnessacapitania.
Fezparteem1578dacélebreexpediçãodoDr.AntôniodeSalemacontraosfranceses,quehaviamesͲ
tabelecidoumafeitoriaemCaboFrioparafazeremocontrabandodepauͲbrasil.Serviuporestemesmo
tempo de provedor da real fazenda, e depois da alfândega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses
empregososeuzelopelarepúblicaeasuadedicaçãoaorei.Homemdevalor,experimentadonaguerra,
ativo,afeitoacombaterosíndios,prestougrandesserviçosnasdescobertaseexploraçõesdointeriorde
LETRAS|115
MinaseEspíritoSanto.Emrecompensadoseumerecimento,ogovernadorMemdeSálhehaviadado
uma sesmaria de uma légua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por
muito tempo devoluta. A derrota de AlcácerͲQuibir, e o domínio espanhol que se lhe seguiu, vieram
modificaravidadeD.AntôniodeMariz.Portuguêsdeantigatêmpera,fidalgoleal,entendiaqueestava
presoaorei dePortugal pelojuramentodanobreza,equesóaele deviapreitoe menagem. Quando
pois,em1582,foiaclamadonoBrasilD.Felipe11comoosucessordamonarquiaportuguesa,ovelho
fidalgoembainhouaespadaeretirouͲsedoserviço.Poralgumtempoesperouaprojetadaexpediçãode
D. Pedro da Cunha, que pretendeu transportar ao Brasil a coroa portuguesa, colocada então sobre a
cabeçadoseulegitimoherdeiro,D.Antônio,priordoCrato.Depois,vendoqueestaexpediçãonãose
realizava, e que seu braço e sua coragem de nada valiam ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe
guardariafidelidadeatéamorte.Tomouosseuspenates,oseubrasão,assuasarmas,asuafamília,efoi
estabelecerͲsenaquelasesmariaquelheconcederaMemdeSá.Aí,depésobreaeminênciaemqueia
assentaroseunovosolar,D.AntôniodeMariz,erguendoovultodireito,elançandoumolharsobranceiͲ
ropelosvastoshorizontesqueabriamemtorno,exclamou:ͲAquisouportuguês!Aquipoderespirarà
vontade um coração leal, que nunca desmentiu a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo
meurei,econquistadapelomeubraço,nestaterralivre,tureinarás,Portugal,comoviverásn’almade
teusfilhos.Euojuro!DescobrindoͲse,curvouojoelhoemterra,eestendeuamãodireitasobreoabisͲ
mo,cujosecosadormecidosrepetiramaolongeaúltimafrasedojuramentoprestadosobreoaltarda
natureza,emfacedosolquetransmontava.Istosepassaraemabrilde1593;nodiaseguinte,começaͲ
ramostrabalhosdaedificaçãodeumapequenahabitaçãoqueserviuderesidênciaprovisória,atéque
osartesãosvindosdoreinoconstruíramedecoraramacasaquejáconhecemos.D.AntôniotinhaajunͲ
tadofortunaduranteosprimeirosanosdesuavidaaventureira;enãosóporcaprichodefidalguia,mas
ematençãoàsuafamília,procuravadaraessahabitaçãoconstruídanomeiodeumsertão,todooluxo
ecomodidadepossíveis.AlémdasexpediçõesquefaziaperiodicamenteàcidadedoRiodeJaneiro,para
comprarfazendasegênerosdePortugal,quetrocavapelosprodutosdaterra,mandaravirdoreinoalͲ
gunsoficiaismecânicosehortelãos,queaproveitavamosrecursosdessanaturezatãorica,paraproveͲ
rem os seus habitantes de todo o necessário. Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuͲ
guês, menos as ameias e a barbacã, as quais haviam sido substituídas por essa muralha de rochedos
inacessíveis,queofereciamumadefesanaturaleumaresistênciainexpugnável.
LETRAS|116
BERNARDO GUIMARÃES
BernardoJoaquimdaSilvaGuimarães(1825–1884)
Obras:CantosdaSolidão(1852);InspiraçõesdaTarde(1858);OErmitãodeMuquém
(1858);AVozdoPajé(1860);PoesiasDiversas(1865);Evocações(1865;LendaseRomances
(1871);Ogarimpeiro(1872);HistóriaeTradiçõesdaProvínciadeMinasGerais(1872);O
Seminarista(1872);OÍndioAfonso(1872);AEscravaIsaura(1875);NovasPoesias(1876);
MaurícioouOsPaulistasemSãoJoãodelͲRei(1877);AIlhaMalditaouAFilhadasOndas
(1879);OPãodeOuro(1879);FolhasdeOutono(1883);AEnjeitada(1883).
Comentáriocrítico
OregionalismodeBernardoGuimarãesmisturaelementostomadosànarrativaoral,os‘causos’eestórias’deMinas
eGoiás,comumaboadosedeidealização.Esta,emboranãotãomaciçacomoemAlencar,éresponsávelporuma
linguagemadjetivosaeconvencionalnamaioriadosquadrosagrestes[...]AsobrasmaislidasdeBernardoGuimaͲ
rães,OSeminaristaeAEscravaIsaura,devemasuapopularidademenosaumprogressodefabulaçãoounotraçaͲ
dodaspersonagensdoqueàgarradosproblemasexplícitos:ocelibatoclericalnoprimeiro,aescravidãonosegunͲ
do[...]AEscravaIsaurajáfoichamadodeAcabanadoPaiTomásnacional.Háevidenteexageronaasserção.O
nossoromancistaestavamaisocupadoemcontarasperseguiçõesqueacobiçadeumsenhorvilãomoviaàbela
Isauraqueemreconstruirasmisériasdoregimeservil.E,apesardealgumaspalavrassincerascontaasdistinçõesde
cor(cap.XV),todaabelezadaescravaépostanoseunãoparecernegra,masníveadonzela,comovemdescrita
desdeoprimeirocapítulo(BOSI,1980,p.157Ͳ159).
Capítulo I (fragmento)
Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestíbulo ao edifício. Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramos aberta uma larga porta, que
dá entrada à sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma bela e nobre
figura de moça. As linhas do perfil desenham-se distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas
ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam
toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não
sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos
e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada.
Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar
vago pairava-lhe pelo espaço. Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza, e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade
o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da
qual se erguia a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas.
Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único ornamento. Apenas terminado o
canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua
canção. Entretanto abre-se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no
salão. Era também uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante. A riqueza e o primoroso
esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de
grande senhora nem por isso sua grande beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das formas puras e
corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora
mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis toda a nativa bondade de seu coração.
LETRAS|117
VISCONDE TAUNAY
AlfredoMariaAdrianod'EscragnolleTaunay(1843–1899)
Obras:ACampanhadaCordilheira(1869);LaRetraitedeLaguna(1871);Inocência(1872);
LágrimasdoCoração.ManuscritodeumaMulher(1873);OurosobreAzul(1875);Estudos
críticos, (1881 e 1883); Amélia Smith (1886); No Declínio (1889); O Encilhamento (1894);
Reminiscências(1908–ediçõespóstumas)
Comentáriocrítico
Representaocasobembrasileirodofilhodeestrangeirosdetalmaneiraidentificadoànovapátriaquesetorna
intérpreteprivilegiadodasuarealidade.Militardecarreira,tinhaboaformaçãointelectualeartística,sendobom
desenhista e compositor, qualidades que soube transpor para a sua prosa, capaz de descrever a natureza com
forçapictórica[...]OseuromancemaisfamosoéInocência(1872),quealgunsconsideramomelhorprodutodo
Regionalismoeédefatobemrealizado,graçasàhabilidadecomquedescreveapaisagemeoscostumesdosertão
remoto,quadronoqualsoubecontarcomsingelezaatocantepaixãoqueenvolveaprotagonista(CANDIDO,2002,
p.79).
Capítulo I - O sertão e o sertanejo (fragmento)
Todos vós bem sentis a ação secreta
Da natureza em seu governo eterno;
E de ínfimas camadas subterrâneas
Da vida o indício à superfície emerge.
Goethe, Fausto, 2ª parte.
Então com passo tranqüilo metia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a
mão do homem, nem me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde
nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e a natureza
J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão.
Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da vila de Sant’Ana do Paranaíba vai ter ao sítio abandonado de Camapoan. Desde aquela
povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais,
Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas
dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas às
outras; depois, porém, rareiam as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe momentâneo agasalho e o
provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no
Baixo Paraguai. Ali começa o sertão chamado bruto. Ao homem do sertão afiguram-se tais momentos incomparáveis, acima de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto círculo de ambições. Satisfeita a sede
que lhe secara os lábios, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento azul, as
nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos brancos das pindaíbas, a copa dos ipês e
as palmas dos buritis a ciciar a modo de harpas eólias, músicas sem conta com o perpassar da brisa. Como
são belas aquelas palmeiras! O estípite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta
denso feixe de pecíolos longos e canelados, em que assentam flabelas abertas como um leque, cujas pontas se
acurvam flexíveis e tremulantes. Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas espatas, densos
cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia, revestida de escamas romboidais e de um amarelo alaranjado, desafia por algum tempo o férreo bico das araras. Também, com que vigor trabalham as barulhentas aves
antes de conseguir a apetecida e saborosa amêndoa! Em grupos juntam-se elas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras, pelo contrário, de todo azuis, de maior viso e que,
por parecerem negras em distância, têm o nome de araraúnas. Ali ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, às imensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não
LETRAS|118
seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém, estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha à outra. Vê tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado
de sono. Caem-lhe pesadas as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar venenosas alimárias,
mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preocupação, adormece com serenidade. Correm as horas: vem
o Sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não ciciam mais os buritis; gemem, e convulsamente agitam as flageladas palmas. É a tarde que chega.
FRANKLIN TÁVORA
JoãoFranklindaSilveiraTávora(1842–1888)
Obras:Trindademaldita(1861);OsíndiosdoJaguaribe(1862);Acasadepalha(1866);Um
casamentonoarrabalde(1869);Ummistériodefamília(1862);Trêslágrimas(1870);Cartas
de Semprônio a Cincinato (1871); O Cabeleira (1876); O matuto (1878); Lourenço (1878);
LendasetradiçõesdoNorte(1878);Osacrifício(1879).
Comentáriocrítico
Aunidadepolítica,preservadaàsvezesporcircunstânciasquasemiraculosas,podefazeresqueceradiversidadeque
presidiuàformaçãoedesenvolvimentodanossacultura.Acolonizaçãoseprocessouemnúcleosseparados,pratiͲ
camenteisoladosentresi:odesenvolvimentoeconômicoeaevoluçãosocialforam,assim,bastanteheterogêneos,
consideradasasdiferentesregiões.Umhistoriadorcontemporâneo,AlfredoEllisJr.,serecusaafalaremColônia,ou
Brasil Colônia, acentuando o fato, assinalado desde Handelmann e fecundado por João Ribeiro, de que houve na
Américanãouma,senãováriasColôniasportuguesas.Trazendoaidéiaparaoterrenoliterário,VianaMoogprocuͲ
rouinterpretaranossaliteraturaemfunçãodasquechamou“ilhasdeculturasmaisoumenosautônomasedifeͲ
renciadas”,caracterizadacadaumapeloseugeniuslociparticular.Comprovantedestaidéiaengenhosa,eemparte
verdadeira,ésemdúvidaocasodoNordeste,quesedestacanageografia,nahistóriaenaculturabrasileiracom
impressionanteautonomiaenitidez[...]FranklinTávorasentiutudoistoprofundamente,aopontodetentaruma
espéciedefélibrige;sóquefélibrigepelametade,dentronãoapenasdomesmopaís,masdamesmalíngua.“Norte
eSulsãoirmãos,massãodois.Cadaumhádeterumaliteraturasua,porqueogêniodeumnãoseconfundecomo
deoutro.Cadaumtemassuasaspirações,seusinteresses,ehádeter,sejánãotem,suapolítica”.Desvioevidente
que, levandoͲo a dissociar o que era uno e fazer de características regionais princípio de independência, traía de
certomodoagrandetarefaromânticadedefinirumaliteraturanacional.OseuregionalismoparecefundarͲseem
trêselementos,queaindahojeconstituem,emproporçõesvariáveis,aprincipalargamassadoregionalismoliterário
do Nordeste. Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona tão estreitamente a vida de toda a região,
marcandooritmodasuapelafamosa“intercadência”deEuclidesdaCunha.Emseguida,oquesepoderiachamar
patriotismo regional, orgulhoso dasguerras holandesas, do velho patriarcadoaçucareiro, das rebeliões nativistas.
Finalmente,adisposiçãopolêmicadereivindicarapreeminênciadoNorte,reputadomaisbrasileiro,“ondeabunͲ
damoselementosparaaformaçãodeumaliteraturapropriamentebrasileira,filhadaterra.Arazãoéobvia:oNorͲ
teaindanãofoiinvadidocomoestásendooSuldediaemdiapeloestrangeiro”.Távorafoioprimeiro“romancista
doNordeste”,nosentidoemqueaindahojeentendemosaexpressão;edestemodoabriucaminhoaumalinguaͲ
gem ilustre, culminada pela geração de 1930, mais de meio século depois das suas tentativas, reforçadas a meio
caminhopelobaianofluminensed’OsSertões(CANDIDO,1993,p.267Ͳ268).
PrefáciodeOcabeleira
NoCabeleiraofereçoͲteumtímidoensaiodoromancehistórico,,segundoeuentendoestegênerodaliͲ
teratura.Àcríticapernambucana,maisdoqueaoutraqualquer,cabedizerseomeudesejonãofoiiludido;ea
ela,sejaqualforasuasentença,curvareiacabeçasemreplicar.Asletrastêm,comoapolítica,umcertocaráter
geográfico;maisdoNorte,porém,doquenoSulabundamoselementosparaaformaçãodeumaliteraturaproͲ
priamentebrasileira,filhadaterra.Arazãoéóbvia:oNorteaindanãofoiinvadidocomoestásendooSuldedia
emdiapeloestrangeiro.Afeiçãoprimitiva,unicamentemodificadapelaculturaqueasraças,asíndoles,eoscosͲ
LETRAS|119
tumesrecebemdostemposoudoprogresso,podeͲseafirmarqueaindaseconservaaliemsuapureza,emsua
genuínaexpressão.PorinfelicidadedoNorte,porém,dentreosmuitosfilhosseusquefiguramcomgrandebrilho
nasletraspátrias,poucostêmseriamentecuidadodeconstruiroedifícioliteráriodessapartedoimpérioque,por
suanaturezamagnificenteeprimorosa,porsuahistóriatãoricadefeitosheróicos,porseususos,tradiçõesepoeͲ
siapopularhádetercedooutardeumabibliotecaespecialmentesua.EstapouquidadedearquitetosfazͲsenotar
comespecialidadenoromance,gêneroemqueoNorte,ameuver,podeentretantofigurarcombrilhoebizarria
inexcedível. Esta verdade dispensa demonstração. Quem não sabe que na história conta ele J. F. Lisboa, Baena,
AbreueLima,VieiradaSilva,HenriquesLeal,MunizTavares,AJ.deMelo,FernandesGama,emuitosoutrosque
podembemcompetircomVarnhagen,PereiradaSilvaeFernandesPinheiros;queoprimeirofilólogobrasileiro,
SoterodosReis,énortista;queénortistaGonçalvesDias,amaispoderosaeinspiradamusadenossaterra;eque
IgualmenteosãoTenreiroAranha,OdoricoMendes,FrancodeSã,AlmeidaBraga,JoséCoriolano,CruzCordeiro,
FerreiraBarreto,MacielMonteiro,BandeiradeMelo,TorresBandeira,quevalembemMagalhães,A.deAzevedo,
Varela, Porto Alegre, Casimiro de Abreu, Cardoso de Meneses. Teixeira de Melo? No romance, porém, já não é
assim.OSulcampeiasemêmulonestaarena,ondetêmcolhidonotáveislouros:Macedo,oobservadorgracioso
doscostumesdacidade;BernardoGuimarães,odesenhistafieldosusosrústicos;MachadodeAssis,cultorestudiͲ
osodogêneroquefoivastocampodeglóriasparaBalzac;Taunayqueseparticularizapelafluência,epelofaceto
danarrativa;Almeidinha,queatodosestesseavantajounacorreçãodosdesenhos,postohouvessedeixadoumsó
quadro, um só painel, quadro brilhante, painel imenso, em que há vida, graça e colorido nativo. Estes talentos,
alémdeoutrosquemenãoselembramdemomento,nãotêm,aomenosporagora,competidoresnoNorte,onde
aliásnãoháfaltadetalentosdeigualesfera.Nãomeélícitoesqueceraqui,aindaquesetratadoromancedoSul,
umengenhodeprimeiragrandeza,que,comserdoNorte,temconcorridocomsuasmaisimportantesprimícias
para a formação da literatura austral. Quero referirͲme ao Exmo Sr. Conselheiro José Martiniano de Alencar, a
quemlátiveocasiãodefazerjustiçanasminhasconhecidasCartasaCincinato.Quando,pois,estáoSulemtão
favoráveis condições, que até conta entre os primeiros luminares das suas letras este distinto cearense, têm os
escritoresdoNortequeverdadeiramenteestimamseutorrão,odeverdelevantaraindacomlutaeesforçosos
nobresforosdessagranderegião,exumarseustiposlegendários,fazerconhecidosseuscostumes,suaslendas,sua
poesia,máscula,nova,vividaelouçãtãoignoradanoprópriotemploondesesagramasreputações,assimliteráͲ
rias,comopolíticas,queseenviamàsprovíncias.Nãovainisto,meuamigo,umbaixosentimentoderivalidadeque
nãoaninhoemmeucoraçãobrasileiro.Proclamoumaverdadeirrecusável.NorteeSulsãoirmãos,massãodois.
Cadaumhádeterumaliteraturasua,porqueogêniodeumnãoseconfundecomodooutro.Cadaumtemsuas
aspirações,seusinteresses,ehádeter,selánãotem,suapolítica.Enfimnãopossodizertudo,ereservareiodeͲ
senvolvimento,quetaisidéiasexigem,paraaocasiãoemqueteenviarosegundolivrodestasérie,oqualtalvez
venha ainda este ano, à luzda publicidade. Depois de haveres lido O Cabeleira, melhor me poderás entender a
respeitodacriaçãodaliteraturasetentrional,cujosmoldesnãopodemser,segundomeparece,osmesmosem
quevaisendovazadaaliteraturaaustralquepossuímos.
Teu,FRANKLINTÁVORA,Rio,1876
LETRAS|120
Autor dos fins do Romantismo, Franklin Távora publica O cabeleira apenas cinco anos antes
das Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, quando a nossa literatura já se
encaminhapelaperspectivarealistaenaturalista.Mesmoassim,aprosadeTávorailustra,explicitamenͲ
te,odiálogo plural,profundoe contínuoentreosnossosautoreseosromânticoseuropeus,comose
aferedesuaapropriaçãoinventivadatesedasduasliteraturas,elaboradapelacorrenteromânticafranͲ
cesa,maisespecificamente,pelaescritoraMmedeStaël:
Há, pareceͲme, duas literaturas completamente distintas, a que vem do Sul e a que
descedoNorte,aqueladequeHomeroéafonteprimeira,aqueladequeOssianéa
suaorigem.SemdúvidaqueosinglesesealemãesimitaramfrequentementeosantiͲ
gos.Dessefecundoestudoretiraramúteislições;massuasbelezasoriginaistrazema
marca da mitologia do Norte, têm uma espécie de semelhança, uma certa grandeza
poéticadequeOssianéoprimeirotipo(STAËLapudELIA,2005,p.116).
RevisitadanasúltimasdécadasdoséculoXX,aprosaregionalistadeFranklinTávoratambémé
umtestemunhoexemplardapermanênciaedaatualidaderomânticaemnossodiscursoliterárioeculͲ
tural,comoilustraaexpansãoeodeslocamento,paraocampoestritamentedopolítico,desuaasserͲ
çãodasduasregiõesbrasileiras,efetuadapelospoetaspopularesnordestinos,IvanildoVilanovaeBráuͲ
lioTavares,em1984:
NORDESTE INDEPENDENTE (Imagine o Brasil)
Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso for feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense"
a bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Se isso aí se tornar realidade e alguém
do Brasil nos visitar neste nosso país vai
encontrar neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fêz
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente
LETRAS|121
Naverdade,arecorrênciaaoRomantismoeàtemáticaporelesuscitada,odaculturaedaiͲ
dentidade nacional, se processa em nossos diversos discursos culturais, nos mais variados momentos,
desdeoseusurgimento,comodemonstramasparáfrasesdeCasimirodeAbreueascançõespatriótiͲ
cas,emespecialoHinoNacional,atéosdiasatuais,comoseobservounotextodeIvanildoVilanovae
BráulioTavares,oprimeirooriundodePernambuco,osegundonascidonoEstadoparaibano.
PerpassandotodooperíododoNaturalismoedoRealismo,determinadostraçosdavisãoroͲ
mântica alcançariam novo e intenso vigor na fase das experiências vanguardistas de 22. Momento de
intensaebuliçãoeproduçãodenossaarte,emqueseagudizaanecessidadededefiniçãodonacional,o
Modernismobrasileiroexibeasmaisvariadasmarcasdaestéticaromântica,desdeoseuperíodoinicial
atésuafasemaistardia,atestando,assim,nãoapenasaatualidadedoRomantismo,masasuaprópria
incorporação ao nosso mosaico literárioͲcultural, seja pela via da reduplicação ou endosso; seja pela
negaçãoe/ouconfronto,oumesmopelocaminhodaestilização.
Comoquerqueseja,orepertórioromântico,comoumaespéciedelocusderetorno,continua
ainspiraranossaimaginaçãocriadora,tantoemseusmodoseruditos,quantoemsuasformaspopulaͲ
res e em suas maneiras narrativas, dramáticas e poéticas. Nessa perspectiva, nos voltaremos para a
leituradetextosemblemáticosdessaconstanteoperaçãoderetornoaosassuntosemodosdoRomanͲ
tismo,nocapítuloquesesegue.
LETRAS|122
UNIDADE IV
A RETOMADA E ATUALIDADE DAS LETRAS ROMÂNTICAS
Souromântico?Concedo.
Exibo,semevasiva.
ManuelBandeira
A presença romântica nas canções cívicas (fragmentos)
HinoNacional
HinoàBandeira
CançãodoExpedicionário
Letra:JoaquimOsórioDuqueEstrada
Letra:OlavoBilac
Letra:GuilhermedeAlmeida
Música:FranciscoManueldaSilva
Música:FranciscoBragaSalve
Música:SpartacoRossi
Gigantepelapróprianatureza,
Ésbelo,ésforte,impávidocolosͲ
so,
EoteufuturoespelhaessagranͲ
deza.
.......................................................
Emteuseioformosoretratas
Pormaisterraqueeupercorra,
Estecéudepuríssimoazul,
NãopermitaDeusqueeumorra
Averdurasempardestasmatas,
Semquevolteparalá;
EoesplendordoCruzeirodo
Sul...
Semquelevepordivisa
Doqueaterramaisgarrida
Teusrisonhos,lindoscampostêm maisflores;
"Nossosbosquestêmmaisvida",
"Nossavida"noteuseio"mais
amores".
Esse“V”quesimboliza
Avitóriaquevirá:
LETRAS|123
O Romantismo no Modernismo
OSWALD DE ANDRADE (1890 – 1954)
Canto de regresso à pátria (1925)
Minha terra tem palmares
Ouro terra amor e rosas
Onde gorjeia o mar
Eu quero tudo de lá
Os passarinhos daqui
Não permita Deus que eu morra
Não cantam como os de lá
Sem que volte para lá
Minha terra tem mais rosas
Não permita Deus que eu morra
E quase que mais amores
Sem que volte pra São Paulo
Minha terra tem mais ouro
Sem que veja a Rua 15
Minha terra tem mais terra
E o progresso de São Paulo
Ohquesaudadesqueeutenho Eutinhadocesvisões
Dacocaínadainfância
NosbanhosdeastroͲrei
Doquintaldeminhaânsia
Queosanosnãotrazemmais
Acidadeprogredia
Naquelequintaldeterra
Emrodademinhacasa
DaRuadeSantoAntônio
Queosanosnãotrazemmais
Debaixodabananeira Debaixodabananeira
Semnenhumlaranjais Semnenhumlaranjais
Daaurorademinhavida
Dashoras
Deminhainfância
LETRAS|124
Meusoitoanos(1927) Pronominais(1925)
DêͲmeumcigarro
Dizagramática
Doprofessoredoaluno
Edomulatosabido
Masobomnegroeobombranco
DaNaçãoBrasileira
Dizemtodososdias
Deixadissocamarada
Medáumcigarro
MURILO MENDES (1901 – 1975)
Canção do exílio (1930)
Minha terra tem macieiras da Califórnia
nossas frutas mais gostosas
onde cantam gaturamos de Veneza.
mas custam cem mil réis a dúzia.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Ai quem me dera chupar uma
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
uma carambola de verdade
A gente não pode dormir
e ouvir um sabiá com certidão
com os oradores e os pernilongos.
de idade!
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
LETRAS|125
RIBEIRO COUTO (1898 – 1963)
Modinhadoexílio(1939)
Emqueelecantandoestá.
Osmoinhostêmpalmeiras
Meusabiádaspalmeiras
Ondecantaosabiá.
Cantaaquimelhorquelá.
Nãosãoartefeiticeiras!
Mas,emterrasestrangeiras,
Portodaparteondeeuvá,
Eportristezasdecá,
Mareterrasestrangeiras,
SóànoiteeàssextasͲfeiras.
Possoouvirosabiá,
Nadamaissimplesnãohá!
Possovermesmoaspalmeiras
Cantamodasbrasileiras.
Canta—equepenamedá!
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902 – 1987)
Nova canção do exílio (1945)
UM sabiá
Onde é tudo belo
na palmeira, longe.
e fantástico,
Estas aves cantam
só, na noite,
um outro canto.
seria feliz.
(Um sabiá,
O céu cintila
na palmeira, longe.)
Sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
Ainda um grito de vida e
e o maior amor.
voltar
para onde é tudo belo
Só, na noite,
e fantástico:
Seria feliz:
a palmeira, o sabiá,
Um sabiá,
o longe.
na palmeira, longe.
LETRAS|126
Europa, França e Bahia (1930)
MEUS olhos brasileiros sonhando exotismos.
Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo.
Os cais bolorentos de livros judeus
e a água suja do Sena escorrendo sabedoria.
O pulo da Mancha num segundo.
Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas.
Tarifas bancos fábricas trustes craques.
Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas
formam um
[tapete para Sua Graciosa
Majestade
[Britânica pisar.
E a lua de Londres como um remorso.
Submarinos inúteis retalham mares vencidos.
O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados.
Hamburgo, embigo do mundo.
Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça
dos outros
[dentro de alguns anos.
A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados,
vulcões que nunca estiveram acesos
a não ser na cabeça de Mussolini.
E a Suíça cândida se oferece
numa coleção de postais de altitudes altíssimas.
Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa.
Não há mais Turquia.
O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a
declanchar.
Mas a Rússia tem as cores da vida.
A Rússia é vermelha e branca.
Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme
bolchevista
[e no túmulo de Lênin
em Moscou
[parece que um
coração enorme está
[batendo, batendo
mas não bate igual ao da gente ...
Chega!
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.
Minha boca procura a “Canção do Exílio”.
Como era mesmo a “Canção do Exílio”?
Eu tão esquecido de minha terra ...
Ai terra que tem palmeiras
onde canta o sabiá!
LETRAS|127
FRANCISCO DE ASSIS (1933) / CARLOS LYRA (1939) – CPC
Subdesenvolvido (1962)
O Brasil é uma terra de amores
Alcatifada de flores
Onde a brisa fala amores
Em lindas tardes de abril
Correi pras bandas do sul
Debaixo de um céu de anil
Encontrareis um gigante deitado
Santa Cruz, hoje o Brasil
Mas um dia o gigante despertou
Deixou de ser gigante adormecido
E dele um anão se levantou
Era um país subdesenvolvido
Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc.
(refrão)
E passado o período colonial
O país se transformou num bom quintal
E depois de dadas as contas a Portugal
Instaurou-se o latifúndio nacional, ai!
Subdesenvolvido, subdesenvolvido
(refrão)
Então o bravo povo brasileiro
Em perigos e guerras esforçado
Mais que prometia a força humana
Plantou couve, colheu banana..
Bravo esforço do povo brasileiro
Que importou capital lá do estrangeiro
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc.
(refrão)
As nações do mundo para cá mandaram
Os seus capitais desinteressados
As nações, coitadas, queriam ajudar
E aquela ilha velha ajudou também
País de pouca terra, só nos fez um bem
LETRAS|128
Um grande bem, um 'big' bem, bom,
bem, bom
Nos deu luz, ah! Tirou ouro, oh!
Nos deu trem, ahhh! Mas levou o nosso
tesouro
ooooh! Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão)
Houve um tempo em que se acabaram
Os tempos duros e sofridos
Pois um dia aqui chegaram os capitais
dos..
Estados Unidos
País amigo desenvolvido
País amigo, país amigo
Amigo do subdesenvolvido
País amigo, país amigo
E nossos amigos americanos
Com muita fé, com muita fé
Nos deram dinheiro e nós plantamos
Nada mais que café
E uma terra em que plantando tudo dá
Mas eles resolveram que a gente ia
plantar
Nada mais que café
Bento que bento é o frade - frade!
Na boca do forno - forno!
Tirai um bolo - bolo!
Fareis tudo que seu mestre mandar?
Faremos todos, faremos todos...
E começaram a nos vender e a nos
comprar
Comprar borracha - vender pneu
Comprar madeira - vender navio
Pra nossa vela - vender pavio
Só mandaram o que sobrou de lá
Matéria plástica,
Que entusiástica
Que coisa elástica,
Que coisa drástica
Rock-balada, filme de mocinho
Ar refrigerado e chiclet de bola
E coca-cola! Oh...
Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc.
(refrão)
O povo brasileiro tem personalidade
Não se impressiona com facilidade
Embora pense como desenvolvido
Embora dance como desenvolvido
Embora cante como desenvolvido
Lá, lá, la, la, la, la
Êh, êh, meu boi
Êh, roçado bão
O meior do meu sertão
Comeram o boi...
Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc.
(refrão)
Tem personalidade!
Não se impressiona com facilidade
Embora pense, dance e cante como
desenvolvido
O povo brasileiro
Não come como desenvolvido
Não bebe como desenvolvido
Vive menos, sofre mais
Isso é muito importante
Muito mais do que importante
Pois difere os brasileiros dos demais
Pela... personalidade, personalidade
Personalidade sem igual
Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida
E essa é que é a vida nacional!
CHICO BUARQUE DE HOLANDA (1944)
Sabiá (1978)
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá
E é ainda lá
Que eu hei de ouvir
Cantar
Uma sabiá
Cantar
Uma sabiá
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar
à sombra de uma palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor
Talvez possa espantar
As noites que eu não queria
E anunciar
O dia ...
Doze anos (1978)
Ai, que saudades que eu tenho
Dos meus doze anos
Que saudade ingrata
Dar banda por aí
Fazendo grandes planos
E chutando lata
Trocando figurinha
Matando passarinho
Jogando muito botão
Colecionando minhoca
Rodopiando pião
Fazendo troca-troca
Ai, que saudades que eu tenho
Duma travessura
O futebol de rua
Sair pulando muro
Olhando fechadura
E vendo mulher nua
Comendo fruta no pé
Chupando picolé
Pé-de-moleque, paçoca
E disputando troféu
Guerra de pipa no céu
Concurso de piroca
Iracema voou (1998)
Iracema voou
Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Tem saído ao luar
Com um mímico
Ambiciona estudar
Canto lírico
Não dá mole pra polícia
Lava chão numa casa de chá
Se puder, vai ficando por lá
Tem saudades do Ceará
Mas não muita
Uns dias, afoita
Me liga a cobrar
– É Iracema da América
LETRAS|129
JOSÉ PAULO PAES (1926 – 1998)
Canção do exílio facilitada (1973)
lá?
ah!
sabiá...
papá...
maná...
sofá...
sinhá...
cá?
bah!
CACASO - ANTÓNIO CARLOS DE BRITO (1944 - 1987)
Jogos florais (1975)
I
Minha terra tem palmeiras
onde canta o tico-tico.
Enquanto isso o sabiá
vive comendo o meu fubá.
II
Minha terra tem Palmares
memória cala-te já.
Peço licença poética
Belém capital Pará.
Ficou moderno o Brasil
ficou moderno o milagre:
a água já não vira vinho,
vira direto vinagre.
Bem, meus prezados senhores
dado o avançado da hora
errata e efeitos do vinho
o poeta sai de fininho.
(será mesmo com dois esses
que se escreve paçarinho?)
LETRAS|130
E com vocês a modernidade (1975)
Há uma gota de sangue no cartão postal (1975)
Meu verso é profundamente romântico
Choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por aí a longa sombra de rumores e ciganos.
Ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira
de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido de medo e de amor
EDUARDO ALVES DA COSTA (1936)
Outra canção do exílio (1985)
Minha terra tem Palmeiras,
Corinthians e outros times
de copas exuberantes
que ocultam muitos crimes.
As aves que aqui revoam
são corvos do nunca mais,
a povoar nossa noite
Minha terra tem primores,
A chorar sozinho, aflito,
requintes de boçalidade,
penso, medito e reflito,
que fazem da mocidade
sem encontrar solução;
um delírio amordaçado:
a não ser voar para dentro,
acrobacia impossível
voltar as costas à miséria,
de saltimbanco esquizóide,
à doença e ao sofrimento,
equilibrado no risível sonho
que transcendem o quanto possam
de grandeza que se esgarça e rompe,
o pensamento conceber
roído pelo matreiro cupim da safadeza.
e a consciência suportar.
Minha terra tem encantos
Minha terra tem palmeiras
de recantos naturais,
a baloiçar, indiferentes
praias de areias monazíticas,
aos poetas dementes
subsolos minerais
que sonham de olhos abertos
que se vão e não voltam mais.
a rilhar os dentes.
com duros olhos de açoite
que os anos esquecem jamais.
Em cismar sozinho, ao relento,
sob um céu poluído, sem estrelas,
nenhum prazer tenho eu cá;
porque me lembro do tempo
em que livre na campina
pulsava meu coração, voava,
como livre sabiá; ciscando
nas capoeiras, cantando
nos matagais, onde hoje a morte
tem mais flores, nossa vida
mais terrores, noturnos,
de mil suores fatais.
Não permita Deus que eu morra
pelo crime de estar atento;
e possa chegar a velhice
com os cabelos ao vento
de melhor momento.
Que eu desfrute os primores
do canto do sabiá,
onde gorjeia a liberdade
que não encontro por cá.
LETRAS|131
MORAES MOREIRA (1947) / BÉU MACHADO (1950 – 1992)
Ave Nossa (1984)
Minha terra tem pauleira
Desencanta e faz chorar
Mas tem um fio de esperança
Quando canta e quando dança
No assobio do sabiá
O sábio sabiá
Sabia assobiar
Sabia assobiar
E ouvia
Será que o sábio sabia
Que só aqui assobia
O sabiá
As aves que aqui rodeiam
Também rodeiam por lá
Na floresta, na avenida
N’alguma fresta da vida
A ave tenta escapar
Por mais terra que eu percorra
Só permita deus que eu corra
Pra que eu veja esse voar
Minha terra tem pauleira
Desencanta e faz chorar
Mas tem um fio de esperança
Quando e canta e quando
dança
No assobio do sabiá
MÁRIO DE ANDRADE (1893 – 1945)
Capítulo I Macunaíma (fragmento)
No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho
do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo de
Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o
incitavam a falar exclamava: – Ai! Que preguiça!... e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que
tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de
saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E
também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do
banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que
habitando a água-doce por lá. No mucambo se alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara.
Porém respeitava os velhos e freqüentava com aplicação a mura a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho
sempre se esquecendo de mijar.
LETRAS|132
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Literatura Brasileira II