LITERATURA BRASILEIRA II LETRAS|71 LETRAS|72 LITERATURA BRASILEIRA II O ROMANTISMO WILMA MARTINS DE MENDONÇA MAURIENE SILVA DE FREITAS Olá, SejabemͲvindo(a) VocêestáingressandonoCursoVirtualdeLiteraturaBrasileiraII,quetrata,especificamente, dasletrasromânticas.Escritosinauguraisdenossaliteraturanacional,essaselaboraçõesestéticassão responsáveis,emlargamedida,pelasconfiguraçõesquefazemosdenósmesmosepelosmaisdiversos retratoseperfisdebrasilidadeque circulam,atéhoje,emnossocontextosocialeem nossouniverso escritural. Objetivandoaexposiçãoeadiscussãodasperspectivasteóricasquenorteiamaleituradessa modalidade literária, essa componente curricular revisitará as tentativas de apreensão do fenômeno romântico,atentandoparaadiversidadeeapluralidadequecaracterizamassuasmanifestaçõesestétiͲ cas,similaresàmultiplicidadedevisõesquebuscamacompreensãodasensibilidaderomântica.Nesse intento,estruturamosesseCursoemquatrounidades,assimdistribuídas. Aprimeira,intituladaORomantismo:desencantamentoereencantamentodomundo,focaliͲ zaráaliteraturaromânticaemsuasorigens,feições,modosderealizaçãoougêneros,comotambémem seu processo de propagação no mundo ocidental. Assim, nos voltaremos para o Romantismo em sua própriagêneseeformação,ouseja,paraessaestéticaemsolo europeu.Duasobrasnosguiam neste estudo: Os filhos do barro: do romantismo à vanguarda (1984), do poeta e crítico Octavio Paz, único escritorlatinoͲamericanoagraciadocomoPrêmioNobeldeLiteratura(1991),eRevoltaemelancolia:o romantismonacontramãodamodernidade,deMichaelLöwyeRobertSayre,publicadaemParis(1992) etraduzidaparaoBrasilem1995. AsegundaunidadeseconstituirádosestudossobreoRomantismonoBrasil.Nela,procurareͲ mosverificarcomoseprocessamaimportação,aaclimataçãoeadefinitivainserçãodoideárioeuropeu naliteraturabrasileira.BuscaͲse,essencialmente,omodus,ouasestratégiasdeconstruçãotextual,com as quais os nossos escritores abrasileirizam o espírito romântico europeu, em conflito aberto com a LETRAS|73 Modernidade.Naelaboraçãodessetópico,contamos,sobretudo,comaselaboraçõesteóricoͲcríticasde AntonioCandidoedeAlfredoBosi,cujasperspectivassãoendossadasporesteestudo. Aterceiraunidadeconsistirádaleituraedadiscussãoorientadadetextosrepresentativosda fase romântica, procurandoͲse contempláͲla em suas principais tendências e orientações. A quarta e últimaunidadesepropõecomoleituracomparadaentreostextosromânticoseosescritosposteriores queosretomameosatualizam,aolongodenossatrajetórialiterária,sejaemformaparafrásica,paroͲ dística,oumesmoatravésdasimplesapropriaçãooudaestilização,mecanismodecriaçãomaiscompleͲ xo.Paraarealizaçãodessesexercíciosliterários,deverãoserconsideradostantoosobjetivostraçados quantoasleiturasindicadasparaessefim. LETRAS|74 UNIDADE I O ROMANTISMO: DESENCANTAMENTO E REENCANTAMENTO DO MUNDO Sim,meucaro,radicaͲseͲmecadavezmaisaidéiadequeépoucacoisa,bempoucacoisaa existênciadeumacriatura. Goethe Comoédecididamentecontrárioàordemburguesaeabsolutamenteinterditointroduzira poesiaromânticanavida,nessecaso,levemosnossavidaparaapoesiaromântica. DorotheaSchlegel Das dificuldades de conceituação do Romantismo Aoafirmarqueserianecessárioterperdidotodooespíritoderigorparaseaventurarnabusca dedefiniçãodoRomantismo,opoetafrancêsPaulValéry(1871–1945)sintetizava,empoucaspalavras, asdificuldadesteóricoͲcríticas,emfacedaconceituaçãoedadefiniçãodasmanifestaçõesromânticas, modalidadeliteráriaqueseoriginaeflorescenoOcidente,espaçogeográficoͲculturalaoqualserestrinͲ giu. Naverdade,desdeoseusurgimento,ofenômenoromânticoseapresentacomoumenigma aparentementeindecifrávele,concretamente,mutáveleescorregadio,queconfundeeespicaçaacurioͲ sidadedosmaisdiversoscríticoseteóricosdaliteraturadomundoocidental,deondeprovémeonde persisteemressurgiratéosdiasatuais.Essesressurgimentoscomplicam,aindamais,aapreensãocrítica daestéticaromântica,dificultandoasuademarcação,conformerealçamLöwyeSayre: Depoisdeterlimitado,durantemuitotempo;ofenômenoromânticoaosmovimentos quesedenominavamoueramdesignadoscomotalnaprimeirametadedoséculoXIX, ahistórialiteráriaacabou,porvezes,reconhecendosuacontinuaçãonasegundameͲ tadedesseséculo;evitou,porém,prolongáͲlaparaalémdesseperíodo(LÖWY;SAYRE, 1995,p.219). Redivivas,asmarcasromânticaspersistememfrequentarosmaisvariadosmovimentosestétiͲ cosquelhes sucederam,terminandoporalcançar, deformaexpressiva,asprópriasVanguardasEuroͲ péiaseoModernismonoBrasil,nosiníciosdoséculoXX.NacompreensãodessapersistentefrequentaͲ LETRAS|75 çãoromânticanasliteraturasocidentais,queseprocessatantonaEuropacomonaAméricaLatina,caͲ minhaareflexão,confessadamenteancoradapelaperspectivahispanoͲamericana,deOctavioPaz: Acontradiçãoentrehistóriaepoesiapertenceatodasassociedades,porémsomente na idade moderna manifestaͲse de modo explícito. O sentimento e a consciência da discórdia entre sociedade e poesia converteramͲse a partir do romantismo, no tema central, muitas vezes secreto, de nossa poesia. Neste livro procurei descrever, sob a perspectiva de um poeta hispanoͲamericano, o movimento poético moderno e suas relações contraditórias com o que denominamos ‘modernidade' (PAZ, 1984, p. 11 – grifodoautor). SegundoMichaelLöwyeRobertSayre,estudiososdaarteromânticaeuropeiae,comoOctavio Paz,autoresͲchavedesse tópicodisciplinar,asdificuldadesdeapreensãoda complexidadedofatoroͲ mântico se devem à sua diversidade, ao seu caráter fabulosamente contraditório, à sua natureza de coincidentia oppositorum, conforme expressam em sua obra Revolta e melancolia: o romantismo na contramãodamodernidade,de1995: Enigmaaparentementeindecifrável,ofatoromânticoparecedesafiaraanálise,nãosó porquesuadiversidadesuperabundanteresisteàstentativasderedução,massobreͲ tudo por seu caráter fabulosamente contraditório, sua natureza de coincidentia oppositorum:simultânea(oualternadamente)revolucionárioecontraͲrevolucionário, individualistaecomunitário,cosmopolitaenacionalista,realistaefantástico,retrógraͲ doeutopista,revoltadoemelancólico,democráticoearistocrático,ativistaecontemͲ plativo,republicanoemonarquista,vermelhoebranco,místicoesensual.TaiscontraͲ diçõespermeiamnãosóofatoromânticonoseuconjunto,masavidaeaobradeum únicoemesmoautor,eporvezesumúnicoemesmotexto(LÖWY;SAYRE, Da abrangência da visão romântica ApartirdoséculoXIX,avisãoromânticademundomigradoterrenoespecíficodoestético,inͲ vadindoosdiscursosdaFilosofia,daPedagogia,daTeologia,daHistoria,daEconomia,daPolítica,etc. Essa notável abrangência tem irritado, continuadamente, os teóricos literários, notadamente aqueles pouco afeitos ao ideário romântico. Entre eles, podemos citar o crítico estadunidense Arthur Lovejoy. Anteadisseminaçãodoespíritoromânticoemtãodiversoscamposdavidacultural–eemtãodiferenͲ tespaíses–Lovejoypropõequeotermoromantismofosseabolidodacríticaliterária,emdiscursoque revelaoprópriotemordanãoͲaceitaçãodesuaproposição: Apalavraromânticojásignificoutãograndenúmerodecoisasque,emsi,nãosignifica nada.Deixoudeexercerafunçãodeumsignoverbal...ReceioqueoúnicoremédioraͲ dical–asaber,quetodosnósdeixemosdefalardoromantismo–nãovenhaseradoͲ tado(LOVEJOY,apudLÖWY;SAYRE,1995,p.10). LETRAS|76 Oreceio,ouintuição,deArthurLovejoyseconcretizava.OsmaisconhecidoseimportantescríͲ ticos literários do Ocidente, especialmente os pesquisadores do Romantismo, se opuseram a sua proͲ postadebanimentolinguístico,ounominalismo,comoficouconhecida.Entreessesteóricos,destacamͲ seStefanosRozanis,RenéWellek,Abrams,MorsePeckham,conformenosafiançamLöwyeSayre: Ora,comoéobservadoporStefanosRozanisemsuacríticaaLovejoy,amultiplicidade dasexpressõesliterárias,doromantismonosdiferentespaísesnãoultrapassaonível de umproblema filológico limitado – enquanto manifestaçãode particularidadesnaͲ cionaiseindividuais–quenãocoloca,demodoalgum,emquestãoaunidadeessencial dofenômeno[...]QuantoaWellek,aoproblematizarcontraonominalismodeLoveͲ joy,afirmaqueosmovimentosromânticosformamumaunidadeepossuemumconͲ junto coerente de idéias que implicam reciprocamente: a imaginação, a natureza, o símboloeomito(LÖWY;SAYRE,1995,p.10Ͳ13) EmaproximaçãoaLovejoy,otambémestadunidenseWilliamMontgomeryMcGoverninvestiͲ riacontraasletrasromânticas,maisprecisamentesobreoseucoroláriopolítico.Aosedebruçarsobrea obradeThomasCarlyle(1795Ͳ1881),românticoescocêseadmiradordaautoragermânicaMadamede Staël,McGovernaconsiderariacomoumprelúdioaonazismodeHitler.Dessemodo,vêasideologias políticasromânticascomoumapreparaçãoparaonazismo.Aele,responderiamMichaelLöwyeRobert Sayre,desautorizando,concomitantemente,asuaanáliseeperspectivacríticaadotada,modelocomum àépocadaSegundaGuerra: NãohádúvidadequeosideólogosnazistasinspiraramͲseemalgunstemasromântiͲ cos; mas isso não autorizaa reescrever toda a históriado romantismo políticocomo umsimplesprefáciohistóricodoTerceiroReich[...]DequemaneiraincluirRousseau nessequadroteórico?Evidentemente,paraessetipodeanálise,osromânticosingleͲ sesefranceses(‘ocidentais’)nãopodemserconsideradoscomo‘verdadeiros’românͲ ticos.Eoquedizerdosromânticosalemãesjacobinoserevolucionários(Hölderlin,BüͲ chner,etc.)?Éclaro,vaiserprecisosituaressestextosemseucontextohistórico(nos anos1939Ͳ1945),favorávelaumapercepçãodoromantismoemgeral,edesuaversão alemãemparticular(LÖWY;SAYRE,1995,p.16Ͳ17–grifosdosautores). Entreosqueexpressamumaostensivamávontadecomasensibilidaderomântica,podemos elencar,ainda,CarlSchmitt,BenedettoCroceePierreLasserre,cujosescritossãoamplamentediscutiͲ dos pelos nossos teóricos. Os três, igualmente, investem contra a feminilidade do Romantismo, num discursomarcadopelostonspejorativosdadiscriminaçãoàmulher,conformeseverificaemseusarguͲ mentos. EmseusescritossobreoRomantismo,CarlSchmittassinalaumapretensainsuficiênciamoral do lirismo romântico. Traduzida como passividade ou falta de virilidade, essa insuficiência da poética LETRAS|77 romântica derivaria, segundo ele, da exaltação do feminino posta em circulação pelos artistas do RoͲ mantismo,comoanotamLöwyeSayre(1995,p.12). Em rota similar, Benedetto Croce observa as contradições que permeiam o objeto artístico romântico.Numavisívelreduplicaçãodosvelhosestereótiposquecircundam,historicamente,ouniverͲ so feminino, Croce acredita que tais contradições se devem à natureza da alma romântica: feminina, impressionável,sentimental,incoerenteevolúvel(apudLÖWY;SAYRE,1995,p.12). ComPierreLasserre,essetomnãosealteraria.Paraesseteórico,aidiossincrasiaromânticase deveàsuaessênciafemininaqueespalha,portodaparte,“osinstintoseotrabalhodamulher,entregue asi”,numpurosubjetivismoqueoRomantismo“sistematiza,glorifica,diviniza”,comopontuaLasserre (apudLöwy;Sayre,1995,p.12).TaisinterpretaçõesseriamrecusadaspelopoetaeteóricoOctavioPaz. MuitoàvontadecomacentralidadefemininadoRomantismo,OctavioPazobservaamultipliͲ cidaderomântica,asuaramificaçãopelosmaisvariadosdiscursosculturaisdoOcidente,perscrutandoͲ lhesosentidoeasignificação.Nessaassimetria,demarcaͲlheasingularidadeemrelaçãoaosmovimenͲ toseestilosdopassado,enquantoreconheceoimpulsoàfusãoentreavidaeapoesia,comoodínamo daestéticaromântica: Foiaprimeiraeamaisousadadasrevoluçõespoéticas,aprimeiraaexplorarosdomíͲ nios subterrâneos do sonho, do pensamento inconsciente e do erotismo; a primeira, também,afazerdanostalgiadopassadoumaestéticaeumapolítica[..]Oromantismo foiummovimentoliterário,mastambémfoiumamoral,umaeróticaeumapolítica. Senãofoiumareligião,foialgomaisqueumaestéticaeumafilosofia:ummodode pensar,sentir,enamorarͲse,combater,viajar.UmmododevivereummododemorͲ rer [...] A poesia romântica não foi só uma mudança de estilo e linguagens: foi uma mudançadecrenças,eéistooqueadistinguedosmovimentoseestilospoéticosdo passado.Nemaartebarrocanemoneoclássicoforamrupturasdosistemadecrenças doOcidente(PAZ,1984,p.63;83Ͳ88–grifosnossos). Em1978,apósquatroanosdaediçãodaobradeOctavioPaz,essainclinaçãoteóricaseriareͲ tomada pelos estudiosos brasileiros, com a publicação do livro O Romantismo, organizado por Jacob Guinsburg. Verdadeiro painel da visãocrítica do Brasil, essaobra, através de seus múltiplos autores e textos,tentadescortinaracomplexidadedoRomantismo,comojáindiciaGuinsburgemseutextointroͲ dutórioaessacoletâneacrítica: OqueéoRomantismo?Umaescola,umatendência,umaforma,umfenômenohistóͲ rico,umestadodeespírito?Provavelmentetudoistojuntoecadaitememseparado [..]Eleéapenasumaconfiguraçãoestilísticaou,comoqueremalguns,umadasduas modalidadespolareseantitéticas[..]MasétambémumaescolahistoricamentedefiͲ nida,quesurgiunumdadomomento,emcondiçõesconcretasecomrespostascaracͲ terísticasàsituaçãoqueselheapresentou[..]Éumfatohistóricoqueassinala,nahisͲ LETRAS|78 tóriadaconsciênciahumana,arelevânciadaconsciênciahistórica.É,pois,umaforma depensarquepensouesepensouhistoricamente(GUINSBURG,2002,p.13Ͳ14). Do surgimento do fenômeno romântico Docampoteóricodoqualseindagaoquandoeondesurgeofenômenoromântico,járecoͲ nhecidocomotal,reinaumaconsiderávelconfusão,marcadatambémpeladiversidadeopinativa.Ora, apontaͲseaInglaterracomoocentrodesurgimentodaarteromântica;oraaAlemanha,ou,ainda,de formaconcomitante,essesdoispaíses,enquantoseressaltaoingressotardiodoespíritoromânticoem solofrancês. Defendendoaprimaziaalemã,ofrancêsPaulVanTieghem(1871Ͳ1948)afirmaquesãonas manifestaçõesocorridasentre1797e1810quesedevesituaroiníciodoRomantismopropriamente dito,ouseja,apartirdosurgimentodaescolaalemã,seguidapelosingleses,emparticularporWalter ScotteChateaubriand.Sóposteriormente,surgirianaFrançaenospaísesescandinavos,naItáliae,mais tardiamente,naEspanhaenaPolônia. Nessacompreensão,VanTieghemelaboraumatabelacronológicadosiníciosdoRomantismo naEuropa:1795paraaAlemanha;1798paraaInglaterraeoiníciodoséculoXIXparaaFrançaeospaíͲ sesescandinavos;1816,paraaItália;eumpoucomaistardeparaaEspanha;1822,paraaPolônia.NesͲ secalendário,VanTieghemreforçaostatusdeprecursoraqueeleatribuiàAlemanha,assinalandotamͲ bémoatrasodairrupçãoromânticaemFrança. Noutroolhar,oteóricoArnoldHauseracreditaseroRomantismoummovimentooriginalmenͲ te inglês, situando, assim, o cenário da Inglaterra como ponto de nascimento da estética romântica, enquantoapontaparaasespecificidadesdasmanifestaçõesinglesas,segundoele,muitomaisàvontade comasregrasdecomposiçãodaherançaclássica,doqueaFrançaeaAlemanha. Poroutrolado,OctavioPazseinclinapelaInglaterraepelaAlemanhacomoosepicentrosoriͲ ginais da corrente romântica, de onde se propaga o seu ideário por todo o continente europeu. Para Paz,aproeminênciadoRomantismoalemãoeinglêssedevemenosasuaantecipaçãocronológicado queàsuaformidávelpenetraçãocríticaesuaoriginalidadepoética. RessaltandoaqualidadeliteráriadasproduçõesromânticasnaAlemanhaenaInglaterra,eloͲ giando os seus escritos programáticos, verdadeiros manifestos revolucionários, Octavio Paz terminaria porcreditar,aessaexcelênciadiscursiva,apermanênciadeumatradiçãoquesecomunicariaàposteriͲ dade,paraaqual,insistentemente,opoetamexicanochamaaatençãodeseuleitor,reforçandoocaráͲ terdeatualidadedasexpressõesromânticas. Tais perspectivas, em conjunto, seriam retomadas e redimensionadas pelos estudos de JacͲ quesBousquetepelaspesquisasdeKarlMannheim,escritoresque,àsemelhançadeOctavioPaz,são frequentementechamadosaotextodeMichaelLöwyedeRobertSayre. LETRAS|79 EmacordocomopensamentodeBousquetedeMannheim,LöwyeSayrefocalizamoinício doRomantismonoespaçotemporaldasegundametadedoséculoXVIII,elegendo,igualmente,aFranͲ ça,aAlemanhaeaInglaterracomoprecursorasefiadorasdodesenvolvimento,dadivulgaçãoedadisͲ seminaçãodanovaarteeuropeia.Nessaescolha,LöwyeSayredescartamavisãodaFrançacomorefraͲ tária às ideias iniciais do Romantismo, amparandoͲse, explicitamente, nos trabalhos de Bousquet e Mannheim: Com efeito, a Alemanha e a Inglaterra já foram propostas como candidatas a esse título: a primeira quase sempre por motivo de uma vocação particular devido a seu caráter e destino social; a segunda em razão de sue avanço socioeconômico. No entanto, se olharmos detalhadamente a história cultural desses três países no século XVIII, parece que essas afirmações são contestáveis e estaremos de acordo com Karl Mannheim para quem o Romantismo apareceu praticamente ao mesmo tempo nesses três países europeus [...] Jacques Bousquet refuta de maneira convincente a idéia de que a França teve um atraso considerável [...] Houve, portanto, na França ao mesmo tempo que na Alemanha e na Inglaterra, um denso tecido cultural romântico e não somente algumas obras-guias. Quanto à questão das pretensas influências anglo-germânicas, Bousquet prova que a dos autores alemães não teve grande importância e a dos ingleses foi muito menor do que se afirmou (LÖWY; SAYRE, 1995, p. 79-80 – grifos dos autores). Elencandoosmaisvariadosargumentosquecorroboramassuasprópriasopiniões,istoé,de queosurgimentodoespíritoromânticoseprocessoudeformasincrônicaeassemelhada,porémindeͲ pendente,emseustrêspaísesͲcentros,LöwyeSayreprocedemaumverdadeiroinventáriodasperspecͲ tivasteóricasacercadoRomantismo.Nessacatalogaçãodoespóliocríticoromântico,especialmenteo elaboradonoséculoXX,nossosautoresdemonstramqueàdiversidadeeàmultiplicidadequecaracteriͲ zamofatoromânticocorresponde,igualmente,umafabulosaeinquietantepluralidadecrítica: Em sua forma mais banal, essa abordagem opõe o romantismo ao ‘classicismo’. Por exemplo, segundo o Larousse du XXe siècle, ‘são chamados de românticos os escritores que, no início do século XIX, se liberaram das regras de composição e do estilo do classicismo. Na França, o romantismo foi uma reação profunda contra a literatura clássica nacional, enquanto vai constituir, na Inglaterra e Alemanha, o fundo primitivo do gênio autóctone [...] Sem ultrapassarem a visão estritamente literária do romantismo, outros críticos consideram inadequada a definição que se limita a levar em consideração as ‘regras de composição não clássicas’ ou a ‘alma nacional’ e tentam encontrar denominadores comuns mais substanciais. É o caso, em particular, dos três mais conhecidos especialistas norte-americanos da história do romantismo: M.H. Abrams, René Wellek e Morse Peckham. Para Abrams, apesar de sua diversidade, os românticos compartilham certos valores: por exemplo, a vida, o amor, a liberdade, a esperança e a alegria. Têm também em comum uma nova concepção do espírito, que sublinha mais a atividade criadora do que a recepção das impressões exteriores [...] Wellek afirma que os movimentos românticos formam uma unidade e possuem um conjunto coerente de idéias que se implicam reciprocamente: a imaginação, a natureza, o símbolo e o mito [...] Peckham propõe definir LETRAS|80 o romantismo como uma revolução do espírito europeu contra o pensamento estático/mecânico e em favor do organicismo dinâmico. Seus valores são: a mudança, o crescimento, a diversidade, a imaginação criadora e o inconsciente [...] Cada autor faz sua própria escolha e, por vezes, revisa sua escolha anterior [...] Por exemplo, em artigo de 1961 que reconsidera sua teoria de 1951, Morse Peckham verifica que o organicismo era antes um produto da Filosofia das Luzes [...] Incapaz de determinar um conteúdo qualquer para essa ‘identidade do ego’, a nova tentativa de Peckham desemboca em um vazio conceitual e nos faz reconduzir ao ponto de partida – a tumultuosa multiplicidade das cores a serviço de um ego criativo, cara a Carl Schmitt (LÖWY; SAYRE, 1995, p. 1-14 – grifos dos autores). Da gênese romântica Se o início do Romantismo é, geralmente, delimitado no espaço da última década do século XVIII,asuagênese,todavia,remontaaosprincípiosdasegundametadedoSéculodasLuzes,porvolta de1760.Emrazãodisso,temsefaladodeumprotoͲromantismo,oudeumapréͲhistóriadoRomantisͲ mo,quesemanifestaduranteafasedoIluminismo,períodomarcadoporumcrescentedesenvolvimenͲ todocapital,docomércio,daindústriaedascidades.Essebulício,metaforizadocomosolidãonasocieͲ dade(LÖWY;SAYRE,1995,p.68),setransformariaemmaterialidadeverbal,atravésdasobrasdosmais variadosescritoresdoperíodoiluminista. Avisívelexpansãodoprogressonãoagradavaatodos.Haviaosromânticos, ouseja,osdesͲ contentes,comoosdenominavaKarlMannheim,sociólogohúngaroeestudiosodasutopiasromânticas. Dessedescontentamentosurgiaumasensibilidadequesecontrapunhaàdurezadaprosadonegócio, quereverberavacontraoracionalismodocálculoeafriezadoespíritodocapital.Nessa(econtra)atͲ mosfera,desabrochaoespíritoromântico. Informadosporessaperspectiva,LöwyeSayresituamaobradeJeanͲJacquesRousseau(1712Ͳ 1778)comogênesedessasensibilidade.RetomandoacompreensãodeOctavioPaz,consideramosdiͲ versosdiscursosdeRousseaucomotextosinauguraisdoimpulsoanticapitalista,precursoresdamaniͲ festaçãodavisãodemundodosromânticos,portanto.Assim,consideramosescritosdeRousseau,osde seusdiscípulos,comotambémosdeChateaubriand,comoliteraturaromânticadafaseanterioràRevoͲ luçãoFrancesa. RousseauéoautorͲchavenagênesedoromantismofrancêsporque,aindaemmeados doséculoXVIII,soubearticulartodaavisãoromânticadomundo[...],alémdisso,OcͲ tavioPazobservaque‘sealiteraturamodernacomeçacomumacríticadamodernidaͲ deéRousseauafiguraqueencarnaesseparadoxocomumaespéciedeexemplaridaͲ de’. Vemos aparecer em Rousseau uma configuração romântica a partir de Discours (1750,1755)edeLaNouvelleHéloïse(1761),masigualmenteemobrasescritasnofim desuavida:ConfessionseRêveriesdupromeneursolitaire[...]osdiscípulosdeRousseͲ au, tais como Bernardin de SaintͲPierre e Restif de La Bretonne são plenamente roͲ mânticos:oprimeiroemseuidíliotrágicoPauletVirginie;eosegundoemsuasutopiͲ LETRAS|81 ascomunistas,patriarcaisecampestres.NesseromantismoanterioràRevoluçãoFranͲ cesa,podemossituartambémChateaubriandporquesuaobraTableauxdelaNature foiredigidaentre1784e1790(LÖWY;SAYRE,1995,p.85Ͳ86). Nesseraciocínio,MichaelLöwyeRobertSayredesconstroemumaperspectivacríticabastante rotineiranoscompêndiosdeLiteraturae,deformamaisacentuada,noslivrosdidáticosoriginados,no maisdasvezes,dasmaisconflitantesinterpretações:adoestabelecimentodeumarelaçãodiretaentre aRevoluçãoFrancesaeasideiasromânticas. Ora,aoidentificar,naobradeRousseau,agênesedoespíritoromântico,LöwyeSayrefazemo movimento romântico recuar para aquém da Revolução Francesa e, na mesma moeda, o avança para alémdaRevoluçãoIndustrial.Assim,criticamacidamenteasinterpretaçõesqueinsistememligar,com estreitos laços, o advento do Romantismo a determinantes históricos ou econômicos, valendoͲse da contribuiçãodeHenriPeyre,pesquisadorfrancêsdasletrasromânticas,aquemchamameconcedem voz,emsuaobra: Escutemos a opinião de um eminente especialista, Henri Peyre: ‘Seria arriscado ligar demasiadoestreitamenteascriaçõesdoespírito,istoé,amaislivreatividadequese possaimaginar,aosacontecimentosdahistóriaeàvidaeconômica...Defato,asrelaͲ çõesentreliteraturaesociedadesãopraticamenteindefiníveis...LigarcomojásetenͲ toufazer,oromantismoaoadventodarevoluçãoindustrial...éaindamaisarriscado... Se, em seguida, o romantismo exprimiu, melhor do que inúmeros historiadores, os transtornoscausadospeloafluxodaspopulaçõesemdireçãoàindustriaeàscidades,a misériadasclassestrabalhadorasjulgadastambémclassesperigosas....issoaconteceu porqueBalzac,oHugodosMiseráveiseatémesmoEugèneSue,maistardeDickense Disraeli na Inglaterra, foram observadores argutos da sociedade e homens magnâniͲ mos’.Aexplicaçãopelocoraçãoéumpoucolimitadaeincapazdepreencherovazio analítico que resulta da recusa em examinar a relação entre literatura e sociedade (LÖWY;SAYRE,1995,p.20) A visão romântica: desencantamento e reencantamento do mundo ApartirdasegundametadedoséculoXVII,aEuropaassisteaumavertiginosatransformação social,operadapelaordemdocapitalquesevaiconsolidandoecriandoumnovotempoefeiçãosocial quesedenominarádeModernidade. Conceitoexclusivamenteocidental,aModernidadeiriasecaracterizarpeloacentuadodesenͲ volvimentodocomércio,daindústria,datécnica,doraciocíniocientíficoelógicoqueoIluminismoafaͲ gava.Noreverso,tambémseverificaodesalentoanteoraciocínioabstratoefriodocálculo,aimpessoͲ alidadedaburocracia,amisériapasmosadegrandescontingenteshumanosqueabandonamocampo embuscadasgrandescidades,oabandonoinfantil,ahumilhaçãodostrabalhadores,aquebradosvínͲ culossociaiseafetivos,opoderdodinheiro,oflagelodapobreza,aquantificaçãodomundoeaconseͲ quentereificaçãohumana. LETRAS|82 DessaModernidade–econtraela–desabrochaasensibilidaderomântica,oupoesiamoderna emsentidolato,comnovostemas,novasformasepersonagensoutrasquepõemfimàlógicadoClassiͲ cismo,retomadapelaRenascimento.Nessequadro,surgeumamultiplicidadedeobrasque,refratárias aessedesenvolvimento,denunciam,negamedesmontamoprogressoouprojeto“civilizatório”ocidenͲ tal,especialmenteemseustrêspaísesmaisdesenvolvidos–França,AlemanhaeInglaterra–deondese originaapoesiamoderna,claramenteengajadaemumprojetocentradonohumanismo. Dissoresultaumaliteraturaempenhada,perpassadaorapelaperspectivaética,orapelapolítiͲ ca, ou pela religiosidade, ou simplesmente humanística, ou tudo isso junto, como se vê nos diversos discursosromânticos,aexemplodeThomasCarlyleque,emseusSinaisdosTempos(1829),expressao horrorromânticoàmecanizaçãodomundo,comverdadeirotemordequeestaseestendesseaohumaͲ no.OumesmooromanceOliverTwist(1837),doinglêsCharlesDickens,cujotemasevoltaparaainͲ fânciaabandonadaeultrajada,paraainiquidadedosorfanatosdeLondres,seusespaçossujosesórdiͲ dos.OumesmoOsmiseráveis(1862),dofrancêsVictorHugo,narrativaqueseconstituinumverdadeiro panoramadasociedadefrancesa,naqualseunarradorfazumacontundentedefesadabondadehumaͲ na,seguindoopensamentodosocialismoutópico. NoBrasil,essaliteraturaquetomaposiçãoemfacedasiniquidadessociaisteriaumaformidáͲ velrealizaçãoemCastroAlves.Este,comoseuspareseuropeus,revestededignidadeosmaisultrajados pela divisão social do mundo da Modernidade. Entre nós, é o escravo, sem sombra de dúvida, sobre quemrecaiosônusmaisinfamesdocapitalismo.Contraessaescravidão,reverbera,emprosaeverso, nossopoetaabolicionista,CastroAlves. Desencantados, descontentes, revoltados ou nostálgicos em relação a um tempo perdido, iͲ dentificado em suas obras como a Idade Média, os românticos europeus recorreram às mais diversas estratégias,emsuasbuscasdereencantamentodomundo.Entreosvariadosrecursos,temáticoseforͲ mais, do reencantamento romântico, elencamos os que se seguem, ressaltando que muitos deles se imbricamnumverdadeiroredemoinhoparaosseusleitores. Imaginação–paraoRomantismo,apercepçãodorealéobradaimaginação;éumapanágio dafantasiapoética.Otemada“imaginaçãocriadora”éameduladapoéticaromântica.ÉtamͲ bémumarupturacomaestéticaclássica,queconcebiaaartecomomimese,comoimitação objetivadoreal. Fantasia–contraochoquecomarealidadehostil,provocadoradedesencanto,osromânticos recorremàfantasia,comoestratégianarupturadoslimitesestreitosdarealidadeecomocaͲ nalprivilegiadodepropiciaçãoaoexercíciodaimaginação. LETRAS|83 Ensimesmamento–ainterioridade,ovoltarͲseparasi,éopontodepartidadopensamento romântico.Paraosromânticos,expressãodaalmaéaexpressãodoEu.Daíligarem,emlarga medida,ocultodoegoaosensoreligiosodatotalidade. Sensodereligiosidade–contraovazioreligiosodaModernidade,vistocomoausênciadesenͲ tidodavida,osromânticosretornamàstradiçõesreligiosaseàsmísticas,queseconverteriam em uma das principais estratégias românticas de reencantamento do mundo, a tal ponto de muitoscríticosconsideráͲlascomoaprincipalcaracterísticaromântica. Nostalgia–nareaçãoàdespoetizaçãoeaoprosaísmodavidaburguesa,osromânticossevolͲ tamparaosparaísosperdidos,paraumpassadopréͲcapitalistaouumpassadoemqueohorͲ rordamecanizaçãodomundonãoeravisível.EssesparaísoseramidentificadosnomedievaͲ lismoouemterraslongínquas–eexóticas–comasflorestasamericanas,oOrienteeaÍndia. Retorno ao passado – objeto da nostalgia e da melancolia romântica, o eterno retorno se processava tanto de forma coletiva, a exemplo do medievalismo, das tradições da pátria, usualmente confundida como lar, quanto de forma individual, como expressa a saudade da infância,dopassadoparticular. Mito–narrativamágica,deinterseçãoentreareligião,ahistória,apoesia,alinguagem,eafiͲ losofia,omitoofereceumreservatórioinesgotáveldesímbolosealegorias:fantasmas,demôͲ niosedeuses.DesfrutadeumlugaràpartenoconjuntodosrecursosromânticosdereencanͲ tamento. Karl Wilhelm Friedrich von Schlegel, poeta alemão, associa a poesia à mitologia, transformandoomitoemcargautópicaeapoesiaempodermágico Cultodanatureza–diferentedaimitaçãoclássica,anaturezaparaosromânticoséoafastaͲ mentodohicetnunc;érefúgioaobulíciodacidade,locusdemanifestaçãodaoriginalidadedo gênio,nãoͲcontaminadopelasociedade.Opaisagismoneoclássicocedelugaraopitoresco,ao local.É,também,contrapontoàmodernidadeindustrial,quevênanaturezatãoͲsomenteas quantidadesdematériasͲprimasquedelapodeextrair. Sensodehistoricidade–orientadopelavisãodasingularidadedaobra,proposiçãoprivilegiaͲ dapelacorrentealemã,osromânticosreivindicamosensodehistoricidadeparaasartes,conͲ cebendoͲasemsuarelaçãocomocontextohistóricoͲculturaldopaísemquesurgem,ouseja, o espírito da nação. Na ficção histórica romântica, destacaͲse o escritor inglês Walter Scott, comquemAlencardialogaemseusromanceshistóricos. LETRAS|84 Superabundânciadesentimento–motivadapelavisãomaniqueístaromântica,dobemverͲ susmal,aliteraturaromânticaexpressaumagamavariadadeemoçõesque,porvezes,alcanͲ çamoexagerodapieguiceedodramalhão. Repúdioàsconvençõessociais–subvertendoasociabilidadedoartistaneoclássico,osromânͲ ticosreabilitamoscomportamentosnãoͲracionaise/ounãoͲracionalizáveis,valorizandotodas asformasdeexistênciasubjetiva,taiscomooamor,aemoçãopura,aspaixões,asintuições, as premonições, os instintos, o sonho, o delírio, o estado da infância. Essa indisposição às normassociais,ouvolúpiadatransgressão,seexpressanosatanismodeByron.NoBrasil,essa tendênciaapresentaͲse,sobretudo,emÁlvaresdeAzevedo. Fascíniopelanoite–espaçodemagia,demistério,dossortilégios,anoitevemseadequarà contraposiçãoromânticaàluz,signoemblemáticodoracionalismoclássico. Ofemininoromântico–objetodoamor,concebidocomoessênciadavidapeloromantismo,a mulherédivinizada,retiradadoseucotidiano,desuahumanidadecomumealçadaàsalturas deumapurezaarquetípica.Mashátambémoutrasheroínas...MarionDelorme,doromance homônimodeVictorHugo(1829);MargueriteGautier,deADamadasCamélias,deAlexandre DumasFilho(1848);Carolina,danarrativadramáticadeJosédeAlencar,AsAsasdeumAnjo (1958);eLúcia,personagemdoromanceLucíola1862),deautoriatambémdoautorbrasileiro. Apátriaromântica–comoaalmaromânticavive–aquieagora–longedeseuverdadeiro lar,desuaverdadeirapátria,estaérepresentadaevividacomoexílio,constituindoͲsecomo carência.SegundoArnoldHauser,osentimentodecarênciadelaredeisolamentotornouͲsea experiênciafundamentaldosromânticosdoiníciodoséculoXIX.ParaWalterBenjamim,oapeͲ loàvidaoníricadosromânticosindicaasdificuldadesimpostaspelavidarealaoregressoda almaaolardaterramaterna(apudLÖWY;SAYRE,1995,p.40). Ironia–atravésdaironia,osromânticosprocuramdesfazerasaparênciasdomundoquantifiͲ cado da Modernidade, revelando a quebra do princípio da identidade, a cisão do idêntico, o outroladodarazão.EmSenhora(1875),JosédeAlencarseutilizariadessaestratégiaparaa suaproblematizaçãodoamortornadonegócio,pormeiodaexigênciadedotes,arranjosmuito comunsnoRiodeJaneiro,comocriticaAlencaratravésdesuapersonagemAurélia: Assim costumava ela indicar o merecimento relativo de cada um dos pretendentes, dandoͲlhescertovalormonetário.Emlinguagemfinanceira,AuréliacotavaosseusaͲ doradores pelo preço que razoavelmente poderiam obter no mercado matrimonial. Umanoite,noCassino,aLísiaSoares,quefaziaͲseíntimacomela,edesejavaardenͲ LETRAS|85 tementevêͲlacasada,dirigiuͲlheumgracejoacercadoAlfredoMoreira,rapazelegante quechegararecentementedaEuropa.–Éummoçomuitodistinto,respondeuAurélia sorrindo;valebemcomonoivocemcontosderéis;maseutenhodinheiroparapagar ummaridodemaiorpreço,Lísia;nãomecontentocomesse(ALENCAR,1951,p.97Ͳ98, V.XV). Romantismo versus classicismo Recusandoacosmovisãodomundoclássicoeaestéticaneoclássicaaelaligada,oRomantisͲ moseprojetoucomoumgrandefenômenohistórico,comoaprimeiraeamaiordasrevoluçõespoétiͲ casdoOcidente,nostermosdeOctavioPaz.AsubstituiçãodavisãoracionalistaclássicapelacosmoviͲ sãoromântica–idealistaemetafísica–alteraria,radicalmente,osmodeloseospadrõesqueatéentão orientavamafeituradopoético,doartístico. Nessecaminhoderecusaedesubstituição,osromânticoscontrapõemaosprincípiosdiscipliͲ nadoresdaestéticaclássica–objetividade,contenção,ponderação,proporção,equilíbrio,ordem,harͲ monia,serenidade,clareza,caráterapolíneo,transparência,clarezaeluminosidade,elementosligados aodomíniododiurno–asubjetividade,aliberdade,aabundância,anoite,aimaginaçãoeafantasia,os indisciplinamentosdainterioridade. Simetricamenteoposta,tambémseriaamaneiracomaqualosromânticosapreenderiamoarͲ tista.Se,noClassicismo,ovalorestéticodependiaexclusivamentedaobra,cabendoaoartistaevaporarͲ seportrásdela,noRomantismoovalordaobrapassaaseinstalarnoartista,elevadoàcondiçãode gênio,dotadodepoderdemiúrgico,vistocomoportaͲvozdodivino,doinfinito.Assim,enquantooartisͲ taclássicoépresoàsregraserealistaaosfatos,ogênioromânticoémovidoporsuavontade,suasemoͲ çõesesentimentos,numexercíciodeinusitadaliberdadeautoral. AliberdaderomânticaimpeleosseusartistasainvestircontraosditamesclássicosdaseparaͲ çãodasartes.Opõeodiálogoentreaprosaeapoesiaàrigidezdasfronteirasliteráriasclássicas,disciͲ plinarmenteseparadaseobedientesàssuasprópriasregras,restritasàssuasprópriasfeições.Alémde umafabulosadiscussãosobreoverso,dessediálogoresultariaacorrosãoromânticadasvelhasformas clássicas,comosugereAlfredoBosi: A mesma liberdade desterra formas líricas ossificadas e faz renascer a balada e a canção, em detrimento do soneto e da ode; ou, abolindo qualquer constrangimento, escolhe o poema sem cortes fixos, que termina onde cessa a inspiração (Byron, Lamartine, Vigny...). A epopéia, expressão heróica já em crise no século XVIII, é substituída pelo poema político e pelo romance histórico, livre das peias de organização interna que marcavam a narrativa em verso. No teatro, espelho fiel dos abalos ideológicos, as mudanças não seriam menos radicais: afrouxada a distinção de tragédia e comédia, cria-se o drama, fusão de sublime e grotesco, LETRAS|86 que inspira a reproduzir o encontro das paixões individuais contido pelas bienséanceas clássicas (BOSI, 1980, p. 105 – grifos do autor). Darecusaromânticaaoscódigosestéticosclássicos,seusgêneros,estilosetécnicas,resultaria o romance. Gênero misto, apreciado como a revolução literária do Terceiro Estado por Debenedetti (apudBOSI,1980,p.106),oromanceéconsideradoogêneromodernoporexcelênciaeoquemelhor expressouapoesiadaModernidade.Daí,afirmarͲse,continuadamente,queoromancenãoapenasofeͲ receu ao espírito romântico as melhores condições de expressão de seu ideário, como se converteu, exemplarmente,emgêneroprivilegiadodasociedadeburguesa. A Música romântica Porexpressaroinexprimível,atenuando,portanto,alacunadoverbo,abuscadaexpressiviͲ dademusicalsetornarianumadasmaiorespreocupaçõesdoRomantismo,reveladanointeressepela canção, em especial a de origem popular. Ao se voltar para as composições eruditas de Beethoven, o escritor, compositor e pintor alemão Hoffmann sintetizava o que se entendia por música romântica: “põeemmovimentoaalavancadomedo,doterror,doarrepio,dosofrimento,edespertaprecisamente esseinfinitoaneloqueéaessênciadoromantismo”(apudBOSI,1980,p.103). Romantismo e Dramaturgia Emrelaçãoaoteatro,caberiaaoromancistafrancêsVictorHugoaresponsabilidadepelasforͲ mulaçõesromânticasnessecampoartístico.Criticandoomodeloclássico,rigidamentedivididoemgêͲ nerosreivindicadosemestadodepureza–acomédiaeatragédia–VictorHugosituaodramacomoa expressãoprivilegiadadaModernidade,enquantoconfrontaasbasesconceituaisclássicas,notocante àsunidadesdetempoedeespaço,igualmentedisciplinadaspelorigorclássico. Romantismo e Linguística Comosesabe,oRomantismonãofoitãoͲsomenteummovimentoderenovaçãonocampoliͲ terário,masumarenovaçãonaformadecompreensãodomundo,dohomemedasartesemgeral,em suas múltiplas linguagens. A profunda discussão acerca de formas, gêneros e linguagens deslocava os românticos,notadamenteosalemães,paraoterrenodaLinguística.Essedeslocamentoseconsumaria com as investigações linguísticas do poeta alemão Frederich Schlegel. Em 1806, Schlegel publica suas pesquisasSobrealínguaeaciênciadosHindus,nasquaissedebruçasobreaantigalínguadaÍndia,o sânscrito. EsmaeciaͲse, assim, a estrela do latim no firmamento linguístico (ELIA, 2005, p. 123), como ressaltaMeillet: LETRAS|87 ORomantismoalemãoseinteressavaporumpassadoindependentedaculturagrecoͲ latina,eaproveitavaͲsedetudooqueahistóriadopassadoeaexploraçãodomundo faziamparaalargarasvistasestreitasdoClassicismo.ParaaslínguascomoparaaliteͲ ratura, para o Direito, para as instituições, os alemães estudaram outra coisa que a GréciaeRoma(MEILLET,apudELIA,2005,p.123). OrientadospelométodohistóricoͲcomparativoepelodesejoromânticoderesgateàsculturas antigas e às experiências linguísticas populares, os estudos de Schlegel operam um descentramento1, istoé,desalojaoidiomaclássicodeseulugardecentro,focalizando,comoreferencialidade,osânscrito. ComSchlegel,aterminologiagramáticacomparadaseriaempregadapelaprimeiravez,oquelhedá,a nossover,olugardeantecipadordessaspesquisas.Nesseverdadeiroexercícioderotação,osromântiͲ cosalemãesdescartamavisãodagramáticatradicional,elaboradapelosfilósofosgregos,cujaconcepͲ çãosepautavapelapadronizaçãoepelointentodefirmaroático–antigodialetofaladonaregiãode Atenas,deondederivaabasedalínguagregaclássica–comomodeloideal,comoobservaolinguista brasileiro,MárioEduardoMartelotta: Osentimentoromânticolevouosprimeiroscomparatistasatentarreconstruir,através dométodocomparativoumestadodelínguaoriginal,consideradoidealmenteperfeito emfunçãodeconcepçãodaépocadequeamudançaeraumaespéciededegeneração deumestadodelínguaprimitivoe,pornatureza,íntegro[...]adescobertadosânscriͲ to,antigalínguadaÍndia,quesemostroumuitoparecidacomaslínguasdaEuropa[...] aguçouacuriosidadedospesquisadores,incentivandoosestudoscomparativosentre aslínguas.Ouseja,foiacomparaçãocomosânscritoquedeubasessólidasàteoriareͲ ferente ao parentesco e à unidade e origem das línguas indoͲeuropéias. Além disso, forneceuumanovafontedeinspiraçãoaoRomantismo,movimentodeidéiasquese opunhamàtradiçãogrecoͲlatina(MARTELOTTA,2008,p.49). Nessa linha, Franz Boop, também alemão, publica o seu livro Sistema de configuração do Sânscrito em comparação com o do Grego, Latim, Persa e Germânico (Frankfurt, 1816), dedicado ao estudodosverbosdosânscrito,emaproximaçãocomogrego,latim,persaeosdaslínguasgermânicas. Preocupado,principalmente,comosaspectosmorfológicos,BoopdesenvolveuumacomparaçãosisteͲ mática entre os principais ramos indoͲeuropeus, tornandoͲse, assim, conhecido como o fundador da gramáticacomparativadoindoͲeuropeu.AfereͲse,portanto,aimportânciadosestudosromânticosno processodecriaçãoedesedimentaçãodagramáticahistóricoͲcomparativaedaLinguísticaemgeral. 1 ExpressãocriadaporJacquesDerrida,aotratardaimportânciadaEtnologiaparaosestudosdoschamadospovosprimitivos: “aEtnologiasótevecondiçõesparanascercomociêncianomomentoemqueaculturaeuropéia[...]foideslocada,expulsado seulugar,deixandoentãodeserconsideradacomoaculturadereferência”(DERRIDA,apudSANTIAGO,1978,p.13). LETRAS|88 Redefinindo o Romantismo Procedendo a um verdadeiro inventário das diversas visões sobre o Romantismo, Michael LöwyeRobertSayreterminariamporseaventurarpelocaminhopedregosoeescorregadiodaconceituͲ açãoromântica.Emsituaçãomaisconfortáveldoqueademuitoscríticosnopassado,hajavistaoconͲ siderávelvolumeeaqualidadedarecentefortunacríticadequepodemdispor,LöwyeSayreignorama advertênciadopoetaPaulValéryesedispõem,semperderosensoderigor,aenveredarnaaventurada redefiniçãodoRomantismo,entendidocomoreaçãoàModernidadequeseinaugura. Aoselançaraessaempreitada,LöwyeSayreestabelecemcomopontodepartidaumadefiniͲ çãodoRomantismocomoWeltanschuungouvisãodomundo,istoé,comoestruturamentalcoletiva. Desse ponto, procedem às suas apreciações da expressão romântica em toda sua globalidade, examiͲ nandoͲa em toda a sua extensão e multiplicidade. Essas perspectivas metodológicas os aproximam, harmoniosamente,deOctavioPaz.Este,comoLöwyeSayre,tambémbuscaumaapreensãodoRomanͲ tismoemsuatotalidadeediversidade,apreciandoͲo,também,comooposiçãoàlógicadaModernidade: Antes de mais, indiquemos com duas palavras a essência de nossa concepção: para nós,oromantismorepresentaumacríticadamodernidade,istoé,dacivilizaçãocapitaͲ listamoderna,emnomedevaloreseideaisdopassado(préͲcapitalista,préͲmoderno). Podemosdizerque,desdesuaorigem,oromantismoéiluminadopeladuplaluzdaesͲ treladarevoltaedo‘solnegrodamelancolia’[...]OromantismosurgedeumaoposiͲ çãoaessarealidadecapitalista/moderna[...]é,queiramosounão,umacríticamoderͲ na da modernidade [...] uma consciência aguda da deterioração radical da qualidade dasrelaçõeshumanasnamodernidadeeabuscanostálgicadacomunidadeautêntica (LÖWY;SAYRE,1995,p.34;68–grifosdosautores). Desdesuaorigem,apoesiamodernatemsidoumareaçãodiante,paraecontraamoͲ dernidade[...]Desdeoseunascimento,amodernidadeéumapaixãocrítica[...]Aarte moderna não é apenas filha da idade crítica, mas é também crítica de si mesma [...] Suamodernidadeéambígua:háumconflitoentrepoesiaemodernidadequecomeça com os préͲromânticos e se prolonga até os nossos dias. A sensibilidade dos préͲ românticos não tardará em se transformar em paixão dos românticos [...] A poesia modernanasce com osprimeiros românticos e seus predecessores imediatos defins doséculoXVIII,atravessaoséculoXIX,atravésdesucessivasmutaçõesquesãoapesar detudorepetições,echegaatéoséculoXX.TrataͲsedeummovimentoqueenvolve todosospaísesdoOcidente,domundoeslavoaohispanoͲamericano,masqueemcaͲ daumdeseusmomentosseconcentraemanifestaemdoisoutrêspontosdeirradiaͲ ção(PAZ,1984,p.17Ͳ18;52Ͳ54;152). LETRAS|89 UNIDADE II O ROMANTISMO NO BRASIL A NARRAÇÃO DA NAÇÃO Semdúvidaqueopoetabrasileirotemquetraduziremsualínguaasidéias[...]nessatraͲ duçãoestáagrandedificuldade. JosédeAlencar Criamosassimumpequenomundo,unicamentenosso. JosédeAlencar O Romantismo na América Latina NoquetangeàrecepçãolatinoͲamericanaaoRomantismo,cumprenotarqueestasóseproͲ cede,apartirdosanos30doséculoXIX,poucosanosdepoisdaacolhidadospaísesdoLesteEuropeu– Rússia,Polônia,Hungria,povosbalcânicos;daItáliaedaEspanha. Naverdade,desdeosfinsdoséculoXVIIIeiníciosdoXIX,ascontradiçõesentreasColôniasda América Latina e suas Metrópoles haviam se tornado insuportáveis. As Colônias em nuestra América haviamcrescido,sedesenvolvidoejácontavamcompequenosmasimportantescírculosdeintelectuais quecomeçaram,desdeoperíododoArcadismo,apensaraColôniadeumaformamaisprópria,como ilustra,entrenós,aparticipaçãodospoetasárcades–CláudioManueldaCosta,TomásAntônioGonzaͲ ga,InácioJosédeAlvarengaPeixoto,BárbaraHeliodora2–naInconfidênciaMineiraem1789. NosprincípiosdoséculoXIX,aAméricaLatinaseconstituía comocenáriode lutasacirradas, especialmente,nasColôniasespanholas.AessasrebeliõeslibertáriassedevemaemancipaçãodoParaͲ guai(1811),doUruguai(1814),daArgentina(1816),doChile(1818),VenezuelaeNovaGranada(1819Ͳ 1821),Equador(1820),Peru(1824)eBolíviaem1825.Em1822,amaioriadasColôniasdaAméricaCenͲ traluniaͲseaoMéxico,tornandoͲseindependentes.Em1823,essasColôniassesepararamdoMéxicoe formaramasProvínciasUnidasdoCentrodaAmérica.AspressõesdosEstadosUnidosedaInglaterra,as discórdias entre as oligarquias locais terminariam, contudo, provocando a fragmentação desse Centro Americano.Apartirde1830,essasColôniassetornariamasatuaisRepúblicasdaCostaRica,Nicarágua, ElSalvador,HonduraseGuatemala. 2 BárbaraHeliodoraGuilherminaSilveira(SãoJoãodelRei–1759;SãoGonçalodeSapucaí(MG)–1819).Musaeesposade AlvarengaPeixoto,BárbaraHeliodorafoielaprópriapoeta.Comomarido,participoudaConjuraçãoMineira.Apósaprisãoeo degredodeAlvarengaPeixoto,suportoucomraradignidadeoconfiscodeseusbens,ainfâmiasobreosseusfilhoseamorte domarido,umanoapósachegadadesteaodegredoafricano. LETRAS|90 EmrelaçãoaoHaiti,colonizadopelosfranceses,aindependênciaseconsumariaem1925,deͲ pois de uma luta sangrenta que se arrastou do século XVIII ao século XIX. Os haitianos pagariam um preçoaltíssimopelasualiberdade.Ossenhoresdeengenhoserecusavamaentregaropaísaosnegros, preferindodestruíͲlo.Queimaramtodososcanaviais,dizimaramtodoogadoearruinaramosengenhos deaçúcar. Poroutrolado,aMetrópolefrancesaenviatropasfortementearmadasquecompletamoserͲ viçodossenhoresdoaçúcar.NoHaiti,oexércitonapoleônicopilhou,destroçouecometeuumdosmasͲ sacresmaisviolentosdahistóriadaFrança.AomassacredapopulaçãoeaodestroçodoHaiti,seseguiͲ riaobloqueiocomercialimpostopelosfranceses,alémdeumadívidaimensa.Issoexplicaapobrezaea desolaçãodoHaiti,nosdiasatuais. Cuba,localizadanoarquipélagocaribenhocomooHaiti,tambémteveumcaminhoduroelonͲ go até a sua libertação. Inicialmente, é vendida à Inglaterra pelos espanhóis, depois fica sob a tutela econômicadosEUA,sóselibertandocomaRevoluçãoCubanade1959,queimplantariaumregimede cunhosocialista. Movidos por um acirrado sentimento de busca de reconhecimento de si, os países latinoͲ americanosacolhemoideárioromânticoeuropeu.NaAméricaLatina,ofervordasrebeliõesedosanͲ seiosdeindependênciadariaàsprimeirasmanifestaçõesromânticasumexpressivoepersistenteacento denacionalismo,defundogermânico,explicávelemfacedocontextolibertárioedaconsequenteneͲ cessidadedeidentidadenacional,comobemanotaocríticomexicano,JoséLuisMartínez,ressaltandoa especificidadedoprocessobrasileiro: Com efeito, as gerações latinoͲamericanas que apareceram por volta dos anos trinta doséculoXIX,quandoasnovasrepúblicascomeçavamaseestabilizareadirimirseus conflitos internos – com exceção do Brasil, que foi reino independente até 1889, quandopassouaosistemarepublicano–,adotaramintegralmentecomoprogramaa criaçãodeumanovaliteraturaqueexpressassenossanaturezaenossoscostumes.Em todosospaísesdaregião,poetasromancistas,dramaturgoseensaístasentregaramͲse laboriosamenteàtarefadecantaroesplendordanaturezaamericanaeadereproduͲ zir e explorar as peculiaridades de nossos costumes (MARTÍNEZ, 1972, p. 63 – grifos nossos). NãoobstanteaflagrantesimilaridadeentreasletraslatinoͲamericanas,oBrasilseapresentaͲ ria,contudo,comosingularidadehistóricoͲliterária,noquadrolatinoͲamericano.Suasexperimentações românticas,especialmentenoromance,gênerocriadopeloRomantismo,são,comumente,apreciadas comorealizaçõesmaisconsistenteseelaboradas,enquantodesfrutadoestatutodemelhorelaboração romanescaemnossocontinente,comoreconheceOctavioPazesugereLuisMartínez,teóricotambém mexicano: LETRAS|91 OromantismohispanoͲamericanofoiaindamaispobrequeoespanhol:reflexodeum reflexo.Noentanto,háumacircunstânciahistóricaque,emborademaneiranãoimeͲ diata,afetouapoesiahispanoͲamericanaealevouamudarderumo.RefiroͲmeàreͲ volução da Independência [...] Inclusive pode dizerͲse que houve nessa época três grandesrevoluçõescomideologiasanálogas:adosfranceses,adosnorteͲamericanos eadoshispanoͲamericanos,ocasodoBrasilfoidiferente[...]Adesolaçãofoianossa história(PAZ,1974,p.114–grifosnossos). ArelativapazdequeoBrasildesfrutounoséculoXIX–emcontrastecomaspersisͲ tentesagitaçõesdaAméricahispânica–contribuiuparaoflorescimentodoromance nessepaís,duranteasegundametadedoséculo,omaisimportantedaAméricaLatiͲ nanesteperíodoemseuconjunto(MARTÍNEZ,1972,p.63–grifosnossos). Como se verifica, foi num trajeto desigual mas combinado, que a nova poética europeia se instalounasletrasdaAméricaLatina.AnossareceptividadepermitiuaoRomantismoalcançaraparte quelhefaltavaparaatingiratotalidadedoOcidente.ComobemlembraOctavioPazadespeitodasdifeͲ rençasdelínguaseculturasnacionais,apoesiamodernaéuma,eotermoOcidenteabrangetambémas tradições literárias e culturais latinoͲamericanas, em suas três línguas: a espanhola, a portuguesa e a francesa (PAZ, 1884, p.11Ͳ12). Isso, evidentemente, nos torna construtores e intérpretes do mosaico poéticoͲliterárioquecaracterizaaculturadouniversoocidental. A ESTÉTICA ROMÂNTICA CHEGA AO BRASIL O jeitinho brasileiro EnquantoospaísesdaAméricaLatina,delínguaespanholaedelínguafrancesa,estatuíama rupturacomsuasMetrópoles,atravésdeumasériederevoluções,oBrasil,aocontrário,estreitaseus laços com Portugal. Em 1808, a Família Real portuguesa e a sua Corte, seus funcionários e soldados, chegameseinstalamnoRiodeJaneiro,transformandoaColôniaemsededamonarquialusitana,além deseurefúgioeamparo,anteasinvestidasfrancesas. PressionadopelasameaçasnapoleônicasdeinvasãodeLisboa,D.JoãoVI,entãoPríncipeReͲ gentedePortugal,sobaproteçãodaarmadainglesa,fogeparaoBrasilabandonandoopovoportuguês a sua própria sorte. Ironicamente, a transferência da Coroa lusitana concretiza o temor português exͲ pressoporAmbrósioFernandesBrandão,emsuaobraDiálogosegrandezasdoBrasil,de1618:“Não permitaDeusquepadeçaanaçãoportuguesatantosdanosquevenhaoBrasilaseroseurefúgioeamͲ paro”(BRANDÃO,1997,p.15). LETRAS|92 AtransferênciadaCoroaportuguesaparaoBrasilalteraprofundamentenossafeiçãocolonial. AcidadedoRiodeJaneiro,acanhadaparaospadrõeseuropeus,setransfigura:duplicasuapopulaçãoe começaaexibirasconvençõeseetiquetassociaistrazidaspelaenormecomitivadeD.JoãoepelosartisͲ tas,intelectuais,pesquisadoresquedesembarcamnacidade,atraídospelacuriosidadeepelapresença daCortelusitana. Noterrenodaeconomia,aaberturadosportoséprimeiramedidatomadaporD.JoãoVI,seͲ guindoͲseoutrasresoluçõesquerevogamosentravesaproduçãoeaocomérciodaColônia,incompatíͲ veis com a nova condição de sede da monarquia portuguesa. Na cultura, as transformações foram iͲ gualmenteimportantes.PermitiuͲseaimportaçãodelivros,ainstalaçãodetipografias,imprimiramͲse nossasprimeirasobras,criouͲseumabiblioteca,foramfundadososprimeiroscursoseescolasdenível superior,surgiram,enfim,osnossosprimeirosjornais.OBrasilcomeçavaaviverumprocessodeindeͲ pendênciavirtual,quegarantiriaaonossopaíspreservarasuaunidade,comoassinalaAntonioCandido (2002,p.10). Em1816,D.JoãoVItornaͲsereideBrasilePortugal,apósamortedesuamãe,D.MariaI.O BrasiléalçadoàcondiçãodeReinoUnidodePortugal.VerificaͲse,nessecenário,acriaçãodaAcademia deBelasArtesqueoferecevariadoscursosnoterrenodaartevisual.Começatambémasedesenvolver, comnotóriaqualidade,anossaatividademusical. Em1821,pressionadoporseussúditoseuropeus,D.JoãoVIretornaaPortugal,recomendando aofilhoqueseaindependênciabrasileirasetornasseinevitável,elemesmoaproclamasse.Foioquefez D.Pedroem1822.Nessecaminho,oBrasilnãopassavadeColôniaaRepública;comoosnossospaíses coͲirmãos, passava de Colônia a Monarquia, sem ter se resolvido o grave problema da escravidão. Só nostornaríamosumaRepúblicaem1889,umanoapósaaboliçãodaescravatura,amaislongadenosso continente. Nessejeitinho,lentoegradual,marcadopelospactoseconchavosdenossaselites,seprocesͲ saria a emancipação política do Brasil. DiferenciandoͲse do processo emancipatório latinoͲamericano, nossaindependênciaseconstituiriacomoumasoluçãoconciliatóriaaosinteressesdasclassesdominanͲ tes,ciosasemmantersuasposiçõeseprivilégios,àreveliadosinteressesdasclassesdominadas.Seria, pois,numcontextocaracterizadopelaconciliaçãoeporumacentuadocondensamentocultural,quea estéticaromânticasurgenoBrasil. Aosevoltaremparaessecontexto,Sousândrade(1995,p.85)eMuriloMendes(1995,p.164) transformamemmatériapoéticaojeitinhodenossatransição.MovidosporumimpulsocríticoͲirônico, tantoopoetaromânticoquantoopoetamodernistaproblematizamaatipicidadedenossaautonomia. OprimeirosereportandoaoconselhodeD.JoãoVIaD.Pedro;osegundotrazendoasuapoesiaofato poucoconhecidodequeD.Pedroproclamaraanossaindependência,acometidodeumafortediarréia, comosugereapoesiadeMuriloMendes: LETRAS|93 Tatuturema(fragmentos) (D.JoãoVI,escrevendoaseufilho:) Pedro(credo!quesustos!) Sehádeaoreinoempalmar Algumaventureiro, Oprimeiro Sejas...tocaacoroar! Apescaria FoinasmargensdoIpiranga, Emmeioaumapescaria. SentindoͲsemal,D.Pedro ͲComerademaiscuscuz– Desapertaabarriguilha Egrita,roxoderaiva: “Oumelivrod’estacólica oumorrologod’uavez!” Opríncipesealiviou, Sainocaminhocantando: “Jámesintoindependente. Safa!vipertoamorte! Vamoscairnofadinho Pracelebrarosucesso.” ATunadeCoimbrasurge Comasguitarrasafiadas, Masasmulatasdengosas DoClubFlordoAbacate, Entram,firmes,nomaxixe, Abafamofadocomavoz, Levantam,sorrindo,aspernas... Eacolôniabrasileira Tomaadireçãodafarra. NãoobstanteasdiferençasapontadasentreastrajetóriasdeemancipaçãodoBrasiledospaíͲ sesdaAmericaLatina,degradaçãoestéticaentreassuasproduçõesdanovapoética,asmanifestações românticaslatinoͲamericanasexpressam,contudo,umagritantesimilaridade,conformeobservaAntoͲ nioCandido,emseutexto“Literaturaesubdesenvolvimento”,quecompõeaobra,AméricaLatinaem sualiteratura(1972),coletâneacríticadeautoreslatinoͲamericanos: Onossocéueramaisazul,asnossasfloresmaisviçosas,anossapaisagemmaisinspiͲ radoraqueadeoutroslugares,comoselênumpoemaquesobesteaspectovale comoparadigma,a“Cançãodoexílio”,deGonçalvesDias,quepoderiatersidoassinaͲ doporqualquerumdosseuscontemporâneoslatinoͲamericanosentreoMéxicoea TerradoFogo.AidéiadapátriasevinculaestreitamenteàdenaturezaeemparteexͲ traíadelaasuajustificativa.AmbasconduziamaumaliteraturaquecompensavaoaͲ trasomaterialeadebilidadedasinstituiçõespormeiodasupervalorizaçãodosaspecͲ tos regionais, fazendo do exotismo razão de otimismo social. No Santos Veja, do arͲ gentinoRafaelObligado,jáquasenoséculoXX,aexaltaçãonativistaseprojetasobreo civismopropriamentedito,eopoetadistingueimplicitamentepátria(institucional)e terra(natural),ligandoͲasporémnomesmomovimentodeidentificação:Laconvicción dequeesmía/LapatriadeEcheverría,/LatierradeSantosVega.Pátriadopensador, terra do cantador. Um dos pressupostos ostensivos ou latentes da literatura latinoͲ americanafoiestacontaminação,geralmenteeufórica,entreaterraeapátria,conͲ siderandoͲsequeagrandezadasegundaseriaumaespéciededesdobramentonatural dapujançaatribuídaàprimeira.Asnossasliteraturassenutriramdas“promessasdiviͲ nasdaesperança”–paracitarumversofamosodoRomantismobrasileiro(CANDIDO, 1987,p.141Ͳ142–grifosdoautor). LETRAS|94 O surgimento do Romantismo CostumaͲseassinalar,comprecisão,oanode1836comoadatadosurgimentodoRomantisͲ mo no Brasil. Nesse ano, é editada, em Paris, a Niterói, revista brasiliense dirigida por Gonçalves de Magalhães, Torres Homem e Araújo PôrtoͲAlegre. ConstituindoͲse, em sua primeira edição, como um aglomerado de textos de temática variada, essa Revista traz – disputando um apertado espaço entre artigosdeAstronomia,Química,Economia–umestudodeGonçalvesdeMagalhães,intituladode“EnͲ saiosobreahistóriadaliteraturadoBrasil”.EstetextosetornariaomarcofundadordapoesiaromântiͲ caentrenós.DeParis,MagalhãeslançavaassementesdoRomantismonoBrasil.Em1837,aoretornar, GonçalvesdeMagalhãesérecepcionadocomoofundadordaliteraturabrasileira,propriamentedita. NãoobstanteasdiferençasmateriaiseideológicasqueseparamoBrasildaEuropa–lá,amoͲ dernidade,amáquina,ooperário,aexploraçãodotrabalho;cá,olatifúndio,aescravidão,aideologiado favor–oideárioestéticodoRomantismoencontrariacorrespondênciaemnossocontextodeautonoͲ miapolítica.Éramosumpovoembuscadenaçãoedesuacorrespondenteexpressão.OsartistasbrasiͲ leiros aproveitavamͲse da chancela romântica. A acolhida foi geral. Nossos escritores dialogaram com todasascorrentesromânticaselograramrealizarobrasdevalornotável,comparáveisemelaborações mentaisàseuropeias,comoapreciaemgeralacríticabrasileira,comoilustraBosi: Assim,apesardasdiferençasdesituaçãomaterial,podeͲsedizerqueseformaramem nossoshomensdeletrasconfiguraçõesmentaisparalelasàsrespostasqueainteligênͲ ciaeuropéiadavaaseusconflitosideológicos.Osexemplosmaispersuasivosvêmdos melhoresescritores.OromancecolonialdeAlencareapoesiaindianistadeGonçalves Diasnascemdaaspiraçãodefundaremumpassadomíticoanobrezarecentedopaís, assimcomo–mutatismutandis–asficçõesdeW.ScottedeChateaubriandrastreaͲ vamnaIdadeMédiafeudalecavaleirescaosbrasõescontrastadosporumaburguesia emascensão.Deresto,Alencar,aindafazendo“romanceurbano”,contrapunhaamoͲ raldohomemantigoàgrosseriadosnovosͲricos;efazendoromanceregionalista,acoͲ ragemdosertanejoàsvilezasdocitadino.AcorrespondênciafazͲseíntimanapoesia dos estudantes boêmios, que se entregam ao spleen de Byron e ao mal du siècle de Musset, vivendo na província uma existência doentia eartificial, desgarradade qualͲ querprojetohistóricoeperdidanopróprionarcisismo:ÁlvaresdeAzevedo,Junqueira Freire,FagundesVarela.Comoosseusídoloseuropeus,osnossosromânticosexibem fundostraçosdedefesaeevasão,queoslevaaposturasregressivas:noplanodarelaͲ çãocomomundo(oretornoàmãeͲnatureza,refúgionopassado,reinvençãodobom selvagem,exotismo)enodasrelaçõescomopróprioeu(abandonoàsolidão,aosoͲ nho,aodevaneio,àsdemasiasdaimaginaçãoedossentidos)[...]Enfim,oparaleloalͲ cançaaúltimafasedomovimento,jánasegundametadedoséculo,quandovãocesͲ sandoasnostalgiasaristocráticas,jásemfunçãonadinâmicasocial,eseadensamem tornodomitodoprogressoosideaisdasclassesmédiasavançadas.SeráoRomantisͲ mopúblicoeoratóriodeHugo,deCarducci,deMichelet,edonossoAntônioCastro Alves(BOSI,1980,p.101–grifosdoautor). LETRAS|95 A carência da nação Naverdade,osanosqueseseguema1822secaracterizamporumanotávelatmosferadeoͲ timismoedeentusiasmo,emfacedenossarecenteautonomiapolítica.Nessecontexto,marcadopela euforiadadissoluçãodoslaçosquenosprendiamaPortugal,surgeoRomantismo.EssanovasensibiliͲ dadepoéticanoscaía,comoemtodaaAméricaLatina,comoumaluva,postoqueàsvoltascomadefiͲ nição da nossa própria nacionalidade, missão delegada pela Independência, autonomia, esta, que se desejavaestenderaocampodaexpressãodoartístico. Nessapretensão,oRomantismoseafiguravacomoocaminhofavorável.EstéticaparticularisͲ ta,seuamplomosaicodeconcepçõesedemodelos,emcontramãoaoClassicismo,facultavaaliberdaͲ dedeexpressãoaospaísesrecémͲsaídosdatuteladacolonização,enquantopropiciavaoaparecimento dasescolasnacionais,numprocessodedemocratizaçãodaliteratura,comoanotaAntonioCandido,ao acentuaraenormeimportânciadoRomantismonasconfiguraçõesdenossasidentidadesculturais: Umelementoimportantenosanosde1820e1830foiodesejodeautonomialiterária, tornadomaisvivodepoisdaIndependência.Então,oRomantismoapareceuaospouͲ coscomocaminhofavorávelàexpressãoprópriadanaçãorecémͲfundada,poisforneͲ ciaconcepçõesemodelosquepermitiamafirmaroparticularismoe,portanto,aidenͲ tidade,emoposiçãoàMetrópole,identificadacomatradiçãoclássica[...]Odesejode autonomiaencontrou,comovimos,apoiosólidonaestéticaparticularistaaplicadaaos paísesdoNovoMundo.ElafoiimportantenamedidaemquepropunhaocaracterístiͲ co em lugar do genérico, levando a valorizar o pitoresco, na paisageme nas populaͲ ções.Levavatambémaprivilegiarasingularidadedosentimentoindividual,quedeveͲ riaprocurarexpressõesúnicas,enãoseacomodarnodiscursotópicodosclássicos[...] Sobesteaspecto,asdiferentesformasdeparticularizaçãoforamimportantescomofaͲ tordedemocratizaçãodaliteratura,inclusiveatenuandoumpoucooabismoqueanͲ tesseparavaaliteraturaeruditadaliteraturapopular[...]Sendomaisacessível,aliteͲ ratura do tempo doRomantismo pôde popularizarͲse mais e dar voz aos que não tiͲ nhammeiosdeexprimirͲseemnívelerudito.Porissoelacontribuiuparaaidéiaqueo brasileiroiaformandodesimesmo,ouseja,paraossentimentosdeidentidade,por meiosdemecanismosqueampliarametornarammaiscomunicativaamensagem.Ao mesmotempo,implantouanoçãoideologicamenteimportantequeanossaliteratura éprópria.(CANDIDO,2002,p.20;88Ͳ95) NoBrasil,avisãoeuropeiadapátria/lar,vividaemestadodeperdaoudeexílio,setorͲ nariaemexperiênciafundamentaldenossaliteratura,frequentandoͲlhestodasastendênciasemodaliͲ dades,aopontodeMáriodeAndradealçáͲlaaostatusficcionalde“entidadenacionaldosbrasileiros”, segundoobservaLeylaPerroneͲMoisés(2007,p.17). Naverdade, essaentidade,criadaepropagadapelaestéticaromântica,seespalharia,como temáticaderecorrência,portodososnossosdiscursosculturaisestruturados,nomaisdasvezes,pelas mais díspares ideologias. A força literária do nacionalismo seduziria até mesmo os autores arredios a LETRAS|96 essa temática, como Álvares de Azevedo no poema “Na minha terra”, Sousândrade em seu “Harpas selvagens”, fornecendo, ainda, matéria poética para a poesia abolicionista de Castro Alves, como se verificaemsua“Cançãodoafricano”. Tal literatura, qual língua? OsséculosiniciaisdacolonizaçãonoBrasilsecaracterizaram,linguisticamente,pelopredomíͲ niodaslínguasgerais,ouseja,dotupimisturadoaoportuguês,graçasaotrabalhodedesapropriaçãodo códigolinguísticoindígena,efetuadopelosjesuítas.NasegundametadedoséculoXVIII,essequadrose modifica. Portugal, sob a tutela do Marquês de Pombal, alteraria a sua política linguística. As línguas geraissãobanidasdenossoterritórioeosseususoscriminalizados. Nãoobstanteessegolpefatal,asexpressõesindígenasepopulares–hámuitointernalizadas pelouso–persistemempermanecermesmonodiscursocultodasrecémfundadasAcademiasliterárias detimbreneoclássico.NoArcadismo,tantoapaisagem,quantoatemáticaeasexpressõeslinguísticas locaisenformamassuasobras.Essaspresenças,contudo,seafiguraramcomosubitensdoNeoclassicisͲ mo,semnenhumapretensãoreformista,programáticaouformulaçãoconscientementeplanejada.Em face dessa cor local, muitos críticos têm avaliado o Arcadismo no Brasil como o nosso protoͲ romantismo,comoexemplificaSílvioRomero: AntesdeiniciarͲsefrancamenteareaçãoromânticaque,emgeralcompoucajustiça,sefazdaͲ tarde1836comapublicaçãodosSuspirosPoéticos,jáhaviamuitossinaisdequearevoluçãoentrenós começadapelosmineiros,quepodemoschamarosprotoͲromânticos,jásetinhaconsumadonumasérie de poetas que precederam a Gonçalves de Magalhães, ainda que muitas das produções daqueles só viessemàluzemlivrosmuitomaistarde.Aestespoetaséquedevemosassinalarummodestolugarna fasedetransiçãoparaoromantismo(ROMERO,2001,p.192–grifosdoautor). Apesardotimbrebrasileirodenossasproduçõesárcades,écomoRomantismoqueaquestão dalínguanoBrasilcresceemimportânciaeurgência.Oacentobrasileiro,antesreconhecidopelouso oralpassaaserusado,estrategicamente,comoalíngualiterárianacional.Assim,osromânticosbrasileiͲ ros,naesteiradenossatradiçãolinguística,elegemalínguaoral–deorigemindígenaepopular–como seusânscrito,pordireitoelegitimidade.Dessearranjo,alínguaoralepopularnoBrasiléalçadaàconͲ diçãodelíngualiterária.Essaperspectiva,dequebradepurismolingüísticolusitanoemnossaarteescriͲ ta,alcançariaumaenormevisibilidadecomoModernismo.DoModernismoaosdiasatuais,essatemáͲ ticacontinuaaespicaçarnossainteligência,ainspirarnossaliteratura,mobilizandolinguistasepoetas, estes últimos aqui representados por José Paulo Paes, autor do “Lisboa: aventuras”, poemaͲdiálogo entrePauloPaes(1988)eGonçalvesDias: LETRAS|97 LISBOA:AVENTURAS tomeiumexpresso chegueidefoguete subinumbonde pedicafezinho quiscomprarmeias fuidaràdescarga descideumelétrico serviramͲmeumabica sóvendiampeúgas Gritei“ócara!” dispareiumautoclisma responderamͲme“ópá!” positivamente asavesqueaquigorjeiamnãogorjeiamcomolá A tradução na língua da nação EmPosfácioàprimeiraediçãodeIracema,JosédeAlencar,aocriticarduramentealinguagem épicadeGonçalvesdeMagalhães,chamaaatençãoparaograndedesafiodogêniobrasileiro:traduzir, paraacompreensãonacional,asidéiasͲforçaeavisãodemundodainteligênciaeuropeia,comosevê naepígrafequeabreessaunidade:“Semdúvidaqueopoetabrasileirotemdetraduziremsualínguaas idéias[...]masnestatraduçãoestáagrandedificuldade”(ALENCAR,1994,p.98). Atravésdessecomentário,AlencarapontaparaagrandequestãoquecircundaacriaçãoliteráͲ ria,edasartesemgeral,naAméricaLatina,emaisparticularmentenoBrasil:odadependênciacultural àsMetrópoleseuropeias,herançadenossafatalidadehistórica.DessedesconfortolatinoͲamericanose originaabuscaincessantedenossanaturezacultural,persistenteatéosnossosdias,comoexplicitao críticobrasileiro,RobertoSchwarzeRubénBareiroSaguier,escritorparaguaio: BrasileiroselatinoͲamericanosfazemosconstantementeaexperiênciadocaráterposͲ tiço,inautêntico,imitadodavidaculturalquelevamos.Essaexperiênciatemsidoum dadoformadordenossareflexãocríticadesdeostemposdaIndependência.Elapode LETRAS|98 serefoiinterpretadademuitasmaneiras,porromânticos,naturalistas,modernistas, esquerda,direita,cosmopolitas,nacionalistasetc.,oquefazsuporquecorrespondaa um problema durável e de fundo. Antes de arriscar uma explicação a mais, digamos portantoqueomencionadomalͲestaréumfato(SCHWARZ,1987,p.21grifosdoauͲ tor). Dada a diversidade de componentes, um problema latinoͲamericano essencial foi, e continuasendo,encontrarsuaidentidadecultural,situaçãoquealiteraturareflete,ao procurarapropriarͲsedeumalinguagemeconcretizarumconteúdo,numidiomaem certamedidaemprestado,edentrodeumcontextopolíticonãounificado.Aprocura seintensifica,eoconflitotornaͲseevidente,emcertosmomentoscríticosdetomada deconsciência:aemancipaçãoromântica,omodernismo,oromancesocialealiteraͲ turadenossosdias(BAREIROSAGUIER,1979,p.3). Paraessareflexão,sevoltaAntonioCandido,emseuestudosobrearelaçãoentreasnossas manifestações românticas e as matrizes européias. Em sua análise, o crítico examina com atenção as estratégias de acomodação das letras européias em nosso corpus romântico, identificando três mecaͲ nismosdefaturatextual,aosquaisdenominarádetransposição,desubstituiçãoedeinvenção.Segundo Candido,osprocessosdetransposiçãoesubstituiçãodefinemanossarelativadiferença,enquantoproͲ picia a consciência própria. Neles, conforme ressalta o crítico, reside a nossa originalidade, segundo lemosabaixo: A transposição consiste em passar para o contexto brasileiro as expressões, concepͲ ções, lendas, imagens, situações ficcionais, estilos das literaturas européias, numa aͲ propriação(perfeitamentelegitima)queseintegraedáaoleitoraimpressãodealguͲ macoisaqueémuitonossa,eaomesmotempofazsentirapresençadasraízescultuͲ rais.Nopoemeto“Juvenília”,deFagundesVarela,aatmosferaencantadorademagiaé obtidapormeiodeumarsenalqueexprimeoutroscontextos:“péroladeOfir”,“fada”, “sifilo”.Mascomoissoéexpressonumatotalidadesentimentalquenoshabituamosa considerarcomoprópria,oselementostranspostosfuncionamamododeingredientes deumuniversofamiliar,oquenãosurpreendeseconsiderarmosque,apesardasaleͲ gaçõesrituaisdonacionalismoliteráriomaisextremado,anossaculturadominanteéa mesmaquegerouaquelasimagenseentidades.Porisso,emgeraçõesanteriores,Silva AlvarengatranspuseraesquemasestróficoserítmicostomadosaPaoloRollieMetasͲ tasioparaelaborarosseusmelodiososrondós,quesemprepareceramcorresponder aoquehádemaisautenticonasensibilidadebrasileira.MashácasosemqueatransͲ posiçãopareceinassimilável,comoquandoBernardoGuimarãescolocaflocosdeneͲ vesnasárvoresdecertaspaisagensdeseusversos,sabendoͲsequeasuaexperiência serefereànaturezatropical.Noentanto,elesacabamfuncionando,porqueevocama paisagemdospaísesdeondenosveiosacivilizaçãoeque,portanto,aimaginaçãodos brasileirosincorporacomopartedeumpatrimônioqueafinaldecontasestánassuas raízes. LETRAS|99 AsubstituiçãoéumprocessomaisprofundodopontodevistadalinguagemedainͲ terpenetraçãocultural.Nele,oescritorbrasileiropõedeladoaterminologia,asentiͲ dades,assituaçõesdaliteraturaeuropéiaeossubstituiporoutros,claramentelocais, afimdequedesempenhemomesmopapel.Porexemplo:substituemocavaleiropelo índio,ofidalgopelofazendeiro,otorneiopelavaquejada,comosepodeveremOserͲ tanejo,deJosédeAlencar.Assim,naintroduçãoaopoema“Ostimbiras”ogostopelas ruínasésubstituindopeladescriçãodaaljavarotaquependedosombrosdovencidoe vaideixandocairasflechasinúteis,simbolizandoofimdasuasociedade.Nomesmo sentido,opoetadeclaraquenãoquermaisseinspirarnafonteCastálianemsubirao Parnaso,mas,encostadonumtroncodepalmeira,tencionatraduziramelodiaselvaͲ gemdosventos,quesãoavozdeumaoutrarealidade.Aofazerisso,nãodesejacomo prêmioacoroaclássicadelouros,masoutra,feitadefloresbrasileiras,quejámencioͲ namosantesnesteescrito.Emtalcaso,asituaçãoépicaeosmoldesdecomposição permanecemajustadosapráticadasliteraturasmatrizes,masostemaseasimagens foramsubstituídos,demaneiraaproduzirumaespéciededuplicação,quecorresponͲ deaonovomundonaturalecultural. Podemosfalareminvençãoquandooescritorpartedopatrimônioeuropeuparacriar variantesoriginais,comoocorrernumpoemadeÁlvaresdeAzevedo,“Meusonho”,no qual ele fecunda o modelo da balada macabra de tipo alemão (como a “Lenora”, de Bürger),deformandoͲo a fim de obter algo diferente.A baldada se caracteriza, pelas suasprópriasorigenspopulares,porserumanarrativadepersonagensexterioraopoͲ eta;masadeÁlvaresdeAzevedodescreveodramainterior,elaborandoimagensque projetamastensõesdoser,demodoaresultarumtiponovodecomposiçãopoética. Essatransformaçãodeumgêneronarrativoemgênerointimistapodeserconsiderado invenção,quetodavianãoapagaolaçoorgânicoemrelaçãoàsliteraturasdaEuropa, das quais (nunca é demais repetir quando se fala do Romantismo com a sua forte componentenativista)abrasileiraéumramo Foi,portanto,pormeiodeempréstimosininterruptosquenosformamos,definimosa nossadiferençarelativaeconquistamosconsciênciaprópria.OsmecanismosdeadapͲ tação, as maneiras pelas quais as influências forma definidas e incorporadas é que constituemaoriginalidade,quenocasoéamaneiradeincluiremcontextonovoos elementosquevêmdeoutro(CANDIDO,2002,p.96Ͳ101–grifosdoautor). Notocanteàvisãodeoriginalidade,otextodeAntonioCandidoseaproximadasreflexõesdo ensaístaSilvianoSantiago.Estudiosodaquestãodadependênciacultural,SilvianoSantiagoconsideraas traduçõesoudesviosdostextoslatinoͲamericanos,comoformaessencialdeassinalarasuapresençae particularidadenoacervoliterárioocidentalecomocontribuiçãodaAméricaLatinaàculturadoOcidenͲ te,comoexprimeaseguir: AmaiorcontribuiçãodaAméricaLatinaparaaculturaocidentalvemdadestruiçãosisͲ temáticadosconceitosdeunidadeedepureza:estesdoisconceitosperdemocontorͲ noexatodoseusignificado,perdemseupesoesmagador,seusinaldesuperioridade cultural,àmedidaqueotrabalhodecontaminaçãodoslatinoͲamericanosseafirma,se mostramaisemaiseficaz.AAméricaLatinainstituiseulugarnomapadacivilizaçãooͲ cidentalgraçasaomovimentodedesviodanorma,ativoedestruidor,quetransfigura LETRAS|100 oselementosfeitoseimutáveisqueoseuropeusexportavamparaoNovoMundo[...] Apassividadereduziriaseupapelefetivoaodesaparecimentoporanalogia.Guardando seulugarnasegundafila,énoentantoprecisoqueassinalesuadiferença,marquesua presença,umapresençamuitasvezesdevanguarda.OsilêncioseriaarespostadeseͲ jadapeloimperialismocultural(SANTIAGO,1978,p.18Ͳ19–grifosdoautor). Longe da passividade, José de Alencar expressa um deliberado propósito de transgressão ao modeloeuropeu,acalentandoodesejodeumacriaçãooriginal,nuncasonhadapelavelhaliteraturade umvelhomundo(ALENCAR,1994,p.158).EsseprojetodeafirmaçãodenossaparticularidadeexpressiͲ va,denossogênio,porquanto,passa,necessariamente,peloárduotrabalhodetraduçãoourearranjo dostextoseuropeus,comosinalizaAlencar,aodescreverotrajetoqueprecedeuàfeituradeAsasasde umanjo(1858),suaprimeiraobrasobreomundodacortesã.Numexercíciodeleitura,comparaçãoe remodelação do tema teatral francês, Alencar reescreve o destino da mulher decaída, afastandoͲse, assim, da mera transposição, desbotada e macilenta (ALENCAR, 1994, p.152), da temática européia. Dessetorceromoldeeuropeu,paradarͲlheoutraconfiguração,derivaadiferençaentreCarolina,perͲ sonagemͲcortesãdeAlencar,esuaspredecessoraseuropeias,comoressaltaopróprioautor: AssistindoàADamadasCamélias,ouAsMulheresdeMármore,cadaumsefiguraque MargaridaGautiereMarcosãoapenasduasmoçasumtantoloureira[...]assistindoa Asasasdeumanjo,oespetáculoencontraarealidadediantedeseusolhos[...]Victor HugopoetizouaperdiçãonasuaMarionDelorme;AlexandreDumasFilhoenobreceuͲa n’ADamadasCamélias;eumoralizeiͲan’AsAsasdeumAnjo;oamorqueépoesiade Marion,earegeneraçãodeMargarida,éomartíriodeCarolina;eisaúnicadiferença, nãofalandodoquedizrespeitoàarte,queexisteentreaquelestrêstipos(ALENCAR, 1977,p.257) Nessastraduções,decunhotemáticoeformal,osromânticosbrasileirosfundamaliteratura nacional,instituemnossolugarnoacervoliterárioocidental,criandoassimumpequenomundo,unicaͲ mentenosso,emmeioaosmundoseuropeus,comodesejaerealizaJosédeAlencar,(1951,p.74,v.3). Partindodessacompreensão,procederemosaumaleituradostextossugeridos,levandoemconsideraͲ çãoasanáliseseoscomentárioscríticos,discutidosaolongodesteCurso. LETRAS|101 UNIDADE III AUTORES E OBRAS GONÇALVES DE MAGALHÃES DomingosJoséGonçalvesdeMagalhães,viscondedoAraguaia(1811–1882) Obras:Suspirospoéticosesaudades(1836);AntônioJoséouOpoetaeaInquisição(1839); A Confederação dos Tamoios, poema épico (1857); Os Mistérios (1857); Fatos do Espírito Humano, tratado filosófico (1858); Urânia, poesias (1862); Cânticos fúnebres, poesias (1864);Aalmaeocérebro,ensaios(1876);Comentáriosepensamentos(1880). Comentáriocrítico DomingosJoséGonçalvesdeMagalhãespublicou,retomandoFerdinandDenis,o“EnsaiosobreahistóriadaliteraͲ tura brasileira”, no qual traçava o programa renovador, completado pelo do prefácio do livro que publicou no mesmoano,Suspirospoéticosesaudades,consideradopeloscontemporâneosopontodepartidadatransformaͲ ção literária e iniciador da literatura propriamente brasileira. Magalhães foi um caso interessante de renovador semforçarenovadora.Oseumedíocrelivrodeestréia,Poesias(1832),érotineiramenteneoclássico,mastemo toque nacionalista do tempo: patriotismo aceso e celebração da liberdade política, banhada na embriaguês da cidadaniarecente(CANDIDO,2002,p.26). Saudação à pátria à vista do Rio de Janeiro no meu regresso da Europa – Em 14 de maio de 1837 Eis o pétreo gigante majestoso, Sobre as cerúleas ondas ressupino, Guardando a entrada do meu pátrio Rio! Ei-lo c’o pé assinalando a barra Do golfo ingente, que do mundo as naves Todas pode conter no âmbito imenso, Sem par na Natureza!... Ei-lo!... do sol nascente os primos raios Já lhe douram a nobre, altiva fronte; E ele como que acorda do seu sono, O cobertor de névoa sacudindo! Terras da minha pátria, eu vos saúdo, Depois de longa ausência! Eu te saúdo, oh sol da minha infância! Inda brilhar te vejo nestes climas, Da Providência esmero, Onde se apraz a amiga liberdade Tão grata aos corações americanos! Minha terra saudosa, Terra de minha mãe, como és tão bela. Se em ti não venho achar da Europa o fausto, Pelo suor dos séculos regado, Também não acharei suas misérias, Maiores que o seu brilho. Verdes montanhas que cercais meu berço, Como sublime sois, como sois grande! Por vós são estas lágrimas de júbilo Que em êxtase minha alma aos olhos manda, Ao respirar teus ares! Por vós agora o coração palpita Com desusado impulso Do inefável prazer em que me inundo. LETRAS|102 Ah nunca, nunca apaixonado amante Com mais transporte viu por entre a selva Brilhar o rosto do querido objeto, Que ele em seus braços apertar deseja. Aqui meu corpo está, ali minha alma! Ah se eu asas tivesse, Nem mais um’hora no baixel ficara! Disparando os mares Precipitado, Rompendo os ares Qual veloz águia A ti voara Oh pátria cara! E apavonado, Todo garboso Soltando iria Nova harmonia, Que o céu formoso Grato escutara. Mas nesse adejo, Onde o desejo Me transportara? Onde?... Eu não sinto Presságio triste. Meu pai existe, E a mãe querida Também respira; E o mesmo instinto Me conduzira Ao tugúrio de meus pais, A quem envio meus ais. GONÇALVES DIAS AntônioGonçalvesDias(1823–1864) Obras: Meditação (1845Ͳ6); Primeiros cantos (1846); Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão(1848);ÚltimosCantos(1851);OBrasileOceania(1852);Cantos(1857);Ostimbiras (1857);DicionáriodaLínguaTupichamadalínguageraldosindígenasdoBrasil(1858). Comentáriocrítico GonçalvesDiassedestacanomedíocrepanoramadaprimeirafaseromânticapelasqualidadessuperioresdeinspiͲ ração e consciência crítica. Contribui ao lado de José de Alencar para dar à literatura, no Brasil, uma categoria perdidadesdeosárcadesmaiorese,aomododeCláudioManuel,forneceaossucessoresomolde,opadrãoaque se referem como inspiração e exemplo [...] A “Canção do Exílio” (banalizada a ponto de perder a magia que no entantoapercorredepontaaponta)representabemoseuidealliterário;belezanasimplicidade,fugaaoadjetiͲ vo,procuradaexpressãodetalmaneirajustaqueoutraseriadifícil[...]Amaioriadospoetasemesmosjornalistas consideravaGonçalvesDias,desdemeadosdoséculo,overdadeirocriadordaliteraturanacional.Em1849,ÁlvaͲ resdeAzevedovianeleafontedeinspiraçãoparaosnovose,pormeiodo“livrorenovador,OsPrimeirosCantos”, regeneradorda“ricapoesianacionaldeBasíliodaGamaeDurão(CANDIDO,1993,p.71). Canção do Exílio Kennst du das Land, wo die Citronen blühen, Im dunkeln Laub die Gold-Orangen, glühen? Kennst du es wohl? – Dahin, dahin! Möcht ich ... zienh. Goethe Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura fronde os frutos de ouro... Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir! Tradução de Manuel Bandeira Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar – sozinho – à noite – Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem q’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. LETRAS|103 ÁLVARES DE AZEVEDO ManuelAntônioÁlvaresdeAzevedo(1831–1852) Obras:LiradosVinteAnos(1853);NoitenaTaverna(1855);OCondeLopo(1866). Comentáriocrítico ÁlvaresdeAzevedofoiumdospoetasmaislidosequeridosdoBrasil,enquantoestiveramemvogaascadências melodiosas,otomsentimentalousatânicoeoentrechoqueabruptodaspaixões,peculiaresaoRomantismo.Boa partedesuaspoesiasserefereànoite,ondedecorremtodasassuasnarrativaseaçõesdramáticas.Étambéma hora do sonho e do pesadelo, como em Macário, “Meu sonho” e na visão macabra do Conde Lopo galopando entreesqueletos,acaminhodeumritualpavoroso(CANDIDO,2001,p.9Ͳ13). Meu Sonho EU Cavaleiro das armas escuras, Onde vais pelas trevas impuras Com a espada sanguenta na mão? Por que brilham teus olhos ardentes E gemidos nos lábios frementes Vertem fogo do teu coração? Cavaleiro, quem és? — O remorso? Do corcel te debruças no dorso... E galopas do vale através... Oh! da estrada acordando as poeiras Não escutas gritar as caveiras E morder-te o fantasma nos pés? LETRAS|104 Onde vais pelas trevas impuras, Cavaleiro das armas escuras, Macilento qual morto na tumba?... Tu escutas... Na longa montanha Um tropel teu galope acompanha? E um clamor de vingança retumba? Cavaleiro, quem és? que mistério... Quem te força da morte no império Pela noite assombrada a vagar? O FANTASMA Sou o sonho de tua esperança, Tua febre que nunca descansa, O delírio que te há de matar!... JUNQUEIRA FREIRE LuísJosédeJunqueiraFreire(1832–1855) Obras:InspiraçõesdoClaustro(1855);PoesiasCompletas(1944–ediçõespóstumas). Comentáriocrítico EmJunqueiraFreireéprecisamenteesseconvíviotensoentreerosethanatosqueselaapersonalidadedoreligioso artistamalogrado.Contrárioasimesmo,cantandoporaspiraçõesopostas,apareceͲnosohomematrásdopoeta, disse Machado de Assis; e nessas palavras ia um elogio, mas também uma restrição [...] cujas Inspirações do Cla podemoslercomoumdocumentopungentedeummoçoenfermiço,divididoentreasensualidade,osterroresdac eosideaisreligiosos,masnãocomoumaobradepoesia(BOSI,1980,p.124Ͳ125–grifosdoautor). Martírio Beijar-te a fronte linda: Beijar-te o aspecto altivo: Beijar-te a tez morena: Beijar-te o rir lascivo: Sentir teus modos frios: Sentir tua apatia: Sentir até repúdio: Sentir essa ironia: Eis a descrença e a crença, Eis o absinto e a flor, Eis o amor e o ódio, Eis o prazer e a dor! Beijar o ar que aspiras: Beijar o pó que pisas: Beijar a voz que soltas: Beijar a luz que visas: Sentir que me resguardas: Sentir que me arreceias: Sentir que me repugnas: Sentir que até me odeias: Eis o estertor de morte, Eis o martírio eterno, Eis o ranger dos dentes, Eis o penar do inferno! CASSIMIRO DE ABREU CasimiroJoséMarquesdeAbreu(1839–1860) Obras: Camões e o Jaú (1856); As Primaveras (1859); Obras Completas (1940); Poesias Completas(1948). Comentáriocrítico AindanalinhadecompreensãodopúblicomédioéquesedeveapreciarapopularidadedeCasimirodeAbreu, queoperouumadescidadetomemrelaçãoàpoesiadeGonçalvesDias,ÁlvaresdeAzevedoeJunqueiraFreire.Na verdadepoucodefeririadestesseocritériodecomparaçãoseesgotassenaescolhadostemas,valorizadosemsi mesmos:asaudadedainfância,oamorànatureza,osfogachosdeadolescente,areligiãosentimental,opatrioͲ tismodifuso.Masoquesingularizaopoetaéomododecompor,queremonta,emultimaanálise,aoseumodode conhecerarealidadenalinguagemepelalinguagem.Casimiroreduziaanaturezaeopróximoaumângulovisual menor: o do seu temperamento sensual e menineiro. CompareͲse a “Canção do exílio” que abre as Primaveras comapeçahomônimadosPrimeirosCantosdeGonçalvesDias:nestaotomésóbrioatéàausênciaabsolutade adjetivos;naquela,apesardaimitaçãodosdadosnaturais(palmeiras,sabiá,céu...),otomélânguidoeosmotivos dapátriadistantesediluemaoembalodasrimasseguidasedospleonasmos(BOSI,1980,p.127–grifosdoautor). Não, não tem, que Deus fadou-a Dentre todas – a primeira: Deu-lhe esses campos bordados, Deu-lhe os leques da palmeira, E a borboleta que adeja Sobre as flores que ela beija, Quando o vento rumoreja Na folhagem da mangueira. Quando Dirceu e Marília Em terníssimos enleios Se beijavam com ternura Em celestes devaneios Da selva o vate inspirado, O sabiá namorado, Na laranjeira pousado Soltava ternos gorjeios. Todos cantam sua terra, Também vou cantar a minha; Nas débeis cordas da Lira Hei de fazê-la rainha. – Hei de dar-lhe a realeza Nesse trono de beleza Em que a mão da natureza Esmerou-se em quanto tinha. É um país majestoso Essa terra de Tupá, Desd’o Amazonas ao Prata, Do Rio Grande ao Pará! – Tem serranias gigantes E tem bosques verdejantes Que repetem incessantes Os cantos do sabiá. Foi ali, foi no Ipiranga, Que com toda a majestade Rompeu de lábios augustos O brado da liberdade; Aquela voz soberana Voou na plaga indiana Desde o palácio à choupana, Desde a floresta à cidade! Correi pr’as bandas do sul; Debaixo dum céu de anil Encontrareis o gigante Santa Cruz, hoje Brasil: – É uma terra de amores Alcatifada de flores Onde a brisa fala amores Nas belas tardes de abril. Ao lado da cachoeira, Que se despenha fremente, Dos galhos da sapucaia Nas horas do sol ardente, Sobre um solo d’açucenas, Suspensa a rede de penas Um povo ergueu-se cantando – Mancebos e anciãos – E, filhos da mesma terra, Alegres deram-se as mãos; Foi belo ver esse povo Em suas glórias tão novo, Bradando cheio de fogo: – Portugal! somos irmãos! MINHA TERRA Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá. G. Dias Tem tantas belezas, tantas, A minha terra natal, Que nem as sonha um poeta E nem as canta um mortal! – É uma terra encantada – Mimoso jardim de fada – Do mundo todo invejada, Que o mundo não tem igual, LETRAS|106 Ali nas tardes amenas Se embala o índio indolente. Foi ali que noutro tempo À sombra do cajazeiro Soltava seus doces carmes O Petrarca brasileiro; E a bela que o escutava Um sorriso deslizava Para o bardo que pulsava Seu alaúde fagueiro. Quando nasci, esse brado Já não soava na serra, Nem os ecos da montanha Ao longe diziam – guerra! Mas não sei o que sentia Quando, a sós, eu repetia Cheio de nobre ousadia O nome da minha terra! SOUSÂNDRADE JoaquimdeSousaAndrade(1833–1902). Obras:HarpasSelvagens(1857);OGuesa(1871). Comentáriocrítico Apoesiabrasileira,empelomenostrêsmomentos,representaoscentrosfinanceiroscomoolocalinfernaleafonte de seus males, inclusive os da poesia. A mais contundente e direta é o canto X, “Inferno de Wall Estreet”, de 1877/1888,dograndepoema“OGuesa”,deSousândrade,poetamaranhense[...]OquetornaocantomaissurpreͲ endenteéaintençãocríticoͲsatírico,ouseja,omodopeloqualjulgaacidadedeNovaYork,umcentropróspero equivalenteàsmaismodernascapitaiseuropéias.Opoeta,emvezdeseembasbacarcomasmaravilhasdatécnicae davidamoderna,oqueseriaomaisprovável–comoacontececomD.PedroIIesuacomitiva,que,naépoca,visita aExposiçãodoCentenáriodaIndependênciadosEstadosUnidos–,elefazumacríticaagudadavidaamericanae quevaibemalémdamoralista.SousândradeapreciaosmovimentosdesubidaedecidadasBolsasecomo,com eles,asriquezasseformamesedesfazem.Aomesmotempo,observacomoosvaloresmoraiseespirituaisacomͲ panhamessesmovimentos,massomenteemtrajetodedescendimentoecorrosão,semqueconheçamumaconͲ trapartidaascendente,comoosduplosecompensatóriosdacirculaçãodariquezamaterial(RONCARI,2007,p.271Ͳ 272). Do canto décimo 1873-188... No dia de anos bons a lady nobre, Recamados drawingrooms deslumbrantes Às recepções, radiosa de brilhantes, Deusa o colo alvo e cândido descobre A que adornos desmaiam. Suntuosos, Bufetes e o bouquet. Sorrindo a miss No adorável serviço de meiguice, Que não dos escanções silenciosos, Linda oferece na mãozinha branca, Dizem que beberagem para amor – Porém sorrindo of’rece, ingênua e franca, O ponche de champanha abrasador. Entanto às hops não sendo, das montanhas, Sem dúvida que é este o mais propício Risonho dia ao doce compromisso Do coração, que a filtro tal se assanha: São callers os papás; nem os consente Boa etiqueta em casa; e o soberano Cetro tem-no a mulher – Quão docemente Alvora o dia que é primeiro do ano! Gelada a terra, o ar vivo, o sol brilhante, Aos lagos, que ondas foram sonorosas De margens d’ecos, o rapaz e as rosas Vêm ao baile do gelo: delirante, Envolta em vestes de veludos quentes, A menina, nos pés, viveza e graça, O aro prendendo dos patins luzentes, Letras sobre o cristal girando traça. A Bíblia da família à noite é lida; Aos sons do piano os hinos entoados, E a paz e o chefe da nação querida São na prosperidade abençoados. Mas no outro dia cedo a praça, o stock, Sempre acesas crateras do negócio. O assassínio, o audaz roubo, o divórcio, Ao smart Yankee astuto, abre New York. FAGUNDES VARELA LuísNicolauFagundesVarella(1841–1875) Obras: De Noturnas (1861); De Vozes da América (1864); De Pendão Auriverde (s.d.); De CantoseFantasias(1865);DeCantosMeridionais(1869);DeCantosdoErmoedaCidade (1869). Comentáriocrítico Mas o epígono por excelência, o maior dentre os menores poetas saídos das Arcadas paulistas, foi sem dúvida, FagundesVarela,oúnicoderelevonapoesiadadécadade60[...]Seriafácilrastrearemsuaproduçãodescuradae prolixasugestõesemesmodecalquesdeGonçalvesDias,ÁlvaresdeAzevedoeCasimirodeAbreu.Exploroutodos ostemasromânticos,nãoexcetuandooíndio[...]Poroutrolado,Varelafoi,maisqueosseusmodelos,sensívelà lirapatrióticadefiliaçãoliberal[...]Umlugaràpartenasuaprodução,pelaconstânciadofôlego,ocupao“Cântico doCalvário”,escritoemmemóriadofilho.NessabelaelegiaemversosbrancosVarelaredimeͲsedasensaçãodejá lidocomqueomarcaraasecuradocrítico(BOSI,1980,129Ͳ131–grifosdoautor). CânticodoCalvário(fragmento) Fulgurarnacoroademartírios Quemecircundaafrontecismadora! ÀMemóriadeMeuFilho Sãomortosparamimdanoiteosfachos, MortoalldeDezembro MasDeusvosfazbrilhar,lágrimassantas, de1863. Eàvossaluzcaminhareinosermos! Erasnavidaapombapredileta Quesobreummardeangústiasconduzia Oramodaesperança.—Erasaestrela Queentreasnévoasdoinvernocintilava Apontandoocaminhoaopegureiro. Erasamessedeumdouradoestio. Erasoidíliodeumamorsublime. Erasaglória,—ainspiração,—apátria, Oporvirdeteupai!—Ah!noentanto, Pomba,—varouͲteaflechadodestino! Astro,—engoliuͲteotemporaldonorte! Teto,caíste!—Crença,jánãovives! Brandoorvalhodocéu!—Sedebenditas! Oh!filhodeminh'alma!Últimarosa Quenestesoloingratovicejava! Minhaesperançaamargamentedoce! Quandoasgarçasvieremdoocidente Buscandoumnovoclimaondepousarem, Nãomaisteembalareisobreosjoelhos, Nemdeteusolhosnocerúleobrilho Achareiumconsoloameustormentos! Nãomaisinvocareiamusaerrante Nessesretirosondecadafolha Eraumpolidoespelhodeesmeralda Correi,correi,oh!lágrimassaudosas, Legadoacerbodaventuraextinta, Dúbiosarchotesqueatremerclareiam Alousafriadeumsonharqueémorto! Correi!Umdiavosvereimaisbelas QueosdiamantesdeOfiredeGolgonda LETRAS|108 Estrelasdosofrer,—gotasdemágoa, Querefletiaosfugitivosquadros Dossuspiradostemposqueseforam! Nãomaisperdidoemvaporosascismas Escutareiaopôrdosol,nasserras, Vibraratrompasonorosaeleda Docaçadorqueaoslaresserecolhe! LUÍZ DA GAMA LuísGonzagaPintodaGama(1830–1862). Poeta revolucionário que lutou contra a escravidão e tudo o que a ela estava associado, LuizGamaéconsideradooprecursordeCastroAlves.Nocampodesuaatuaçãojurídica, ficoufamosopelafrase,“Oescravoquemataosenhor,sejaemquecircunstânciafor,mata sempreemlegítimadefesa”.Obras:PrimeirastrovasburlescasdeGetulino(1859) Comentáriocrítico AmãedeGamafoialegendárianagôLuízaMahin,eseupaiumfidalgodeorigemportuguesacujonomenãose conhece.Segundoconta,LuizGama,emcriança,foivendidopeloprópriopai.Anosmaistarde,conseguiuprovara ilegalidadedesuasituaçãodeescravo,umavezfilhodemãelivre,eobtevealiberdade[...]OtextorealmentefaͲ mosodeLuizGamachamaͲse“Quemsoueu?”,sendomaisconhecidocomo“Abodarrada”.Nestepoemasatírico de 138 versos, Gama brinca com as diversas acepções populares da palavra “bode”. Na gíria brasileira, “bode” é mestiço,mulato.Étambémindividuolibidinoso,sátiro.Alémdisso,obode“berra”,perturbaosossego–exatamenͲ teoqueoautorpretendefazercomseupoema.Semalusõesafatosdesuavidapessoal,GamadefineͲsecomo homemecomopoetae,apardisso,denunciaferinamenteahipocrisiaeosvíciosreinantes.Enquantoindivíduo, afirmarepudiarriquezas,glórias,brasões,sórendendoobediência“àvirtude,àinteligência”.Enquantopoeta,reͲ conheceseuslimites:“Façoversos,nãosouvate”.Masainda:sabeserimprudenteoofíciodopoeta[...]SimultaneͲ amentejocosoecáustico,trazendoàlembrançaGregóriodeMatos,ofinaldopoemaassumeumtomlúdiconuma atitudequehojechamaríamosde“carnavalizadora”(GOMES,1988,p.85Ͳ91). Quem sou eu? (Bodarrada) Amo o pobre, deixo o rico, Vivo como o Tico-tico; Não me envolvo em torvelinho, Vivo só no meu cantinho; Da grandeza sempre longe Como vive o pobre monge. Tenho mui poucos amigos, Porém bons, que são antigos, Fujo sempre à hipocrisia, À sandice, à fidalguia; Das manadas de Barões? Anjo Bento, antes trovões. Faço versos, não sou vate, Digo muito disparate, Mas só rendo obediência À virtude, à inteligência: Eis aqui o Getulino Que no pletro anda mofino. Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta; Que no século das luzes, Os birbantes mais lapuzes, Compram negros e comendas, Têm brasões, não - das Kalendas; E com tretas e com furtos Vão subindo a passos curtos; Fazem grossa pepineira, Só pela arte do Vieira, E com jeito e proteções. Galgam altas posições! Mas eu sempre vigiando Nessa súcia vou malhando De tratante, bem ou mal, Com semblante festival Dou de rijo no pedante De pílulas fabricante Que blasona arte divina Com sulfatos de quinina Trabusanas, xaropadas, E mil outras patacoadas. Que, sem pingo de rubor Diz a todos que é DOUTOR! Não tolero o magistrado, Que do brio descuidado, Vende a lei, trai a justiça - Faz a todos injustiça – Com rigor deprime o pobre Presta abrigo ao rico, ao nobre, E só acha horrendo crime No mendigo, que deprime. - neste dou com dupla força, Té que a manha perca ou torça. Fujo às léguas do lojista, Do beato e do sacrista – Crocodilos disfarçados, Que se fazem muito honrados Mas que, tendo ocasião, São mais feros que o Leão Fujo ao cego lisonjeiro, Que, qual ramo de salgueiro, Maleável, sem firmeza Vive à lei da natureza Que, conforme sopra o vento, Dá mil voltas, num momento O que sou, e como penso, Aqui vai com todo o senso, Posto que já veja irados Muitos lorpas enfurnados Vomitando maldições, Contra as minhas reflexões. Eu bem sei que sou qual Grilo, De maçante e mau estilo; E que os homens poderosos Desta arenga receosos Hão de chamar-me Tarelo Bode, negro, Mongibelo; Porém eu que não me abalo Vou tangendo o meu badalo Com repique impertinente, Pondo a trote muita gente. Se negro sou, ou sou bode Pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda casta Pois que a espécie é muito vasta... Há cinzentos, há rajados, Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos, E, sejamos todos francos, Uns plebeus e outros nobres. Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios importantes, E também alguns tratantes... Aqui, nesta boa terra, Marram todos, tudo berra; Nobres, Condes e Duquesas, Ricas Damas e Marquesas Deputados, senadores, Gentis-homens, vereadores; Belas damas emproadas De nobreza empantufadas; Repimpados principotes, Orgulhosos fidalgotes, Frades, Bispos, Cardeais, Fanfarrões imperiais, Gentes pobres, nobres gentes Em todos há meus parentes. Entre a brava militança Fulge e brilha alta bodança; Guardas, Cabos, Furriéis Brigadeiros, Coronéis Destemidos Marechais, Rutilantes Generais, Capitães de mar-e-guerra - Tudo marra, tudo berra – Na suprema eternidade, Onde habita a Divindade, Bodes há santificados, Que por nós são adorados. Entre o coro dos Anjinhos Também há muitos bodinhos. O amante de Syringa Tinha pêlo e má catinga; O deus Mendes, pelas costas, Na cabeça tinha pontas; Jove, quando foi menino, Chupitou leite caprino; E segundo o antigo mito Também Fauno foi cabrito. Nos domínios de Plutão, Guarda um bode o Alcorão; Nos lundus e nas modinhas São cantadas as bodinhas: Pois se todos têm rabicho, Para que tanto capricho? Haja paz, haja alegria, Folgue e brinque a bodaria; Cesse pois a matinada, Porque tudo é bodarrada! CASTRO ALVES AntônioFredericodeCastroAlves(1847–1871) Obras:EspumasFlutuantes(1870);GonzagaouaRevoluçãodeMinas(1875);ACachoͲ eiradePauloAfonso(1876);OsEscravos(1883). Comentáriocrítico CastroAlves,emcujaobraapoesiadoRomantismoencontrouofechobrilhante,poisemseguidasóseproduziu coisadesegundaeterceiraordem[...]eradotadodoquesechamavanaqueletempode‘inspiraçãogenerosa’,isto é,facilidadetorrencialdecomposição,associadaàprodigiosaconcatenaçãoverbaldosimprovisadores[...]Comele rompeͲseomasoquismolamurientoqueestavanamodaatéentão,enosseuspoemasossentimentosparecemum atodeafirmaçãovital.Tantomaisquantotinhaacapacidadedeinventarmetáforasexpressivasedinamizaroverso pormeiodocontrasteedaantítese,empregadosaogostodeVictorHugo[...]Asuafamafoidevidasobretudoà poesiahumanitáriaesocial.Deixandodeladooíndio,voltouͲseparaonegroetornouͲseopoetadosescravos, comumagenerosidadeeumânimolibertárioquefizeramdesuaobraumaforçanosmovimentosabolicionistas. ComeleoescravosetornouassuntonobredaliteraturaeoseugenerosoânimopoéticosoubecriarparacantáͲlo situaçõeseversosdegrandeeficácia,comosevêem“Onavionegreiro”,noqualusadiversosmetroseorganizaa narrativacomexpressivosensodemovimento(CANDIDO,2002,p.73Ͳ75–grifosdoautor). Navio Negreiro (fragmento) I 'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço Brinca o luar — dourada borboleta; E as vagas após ele correm... cansam Como turba de infantes inquieta. 'Stamos em pleno mar... Do firmamento Os astros saltam como espumas de ouro... O mar em troca acende as ardentias, — Constelações do líquido tesouro... 'Stamos em pleno mar... Dois infinitos Ali se estreitam, n’um abraço insano Azuis, dourados, plácidos, sublimes... Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas Ao quente arfar das virações marinhas, Veleiro brigue corre à flor dos mares, Como roçam na vaga as andorinhas... LETRAS|110 Donde vem? onde vai? Das naus errantes Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? Neste saara os corcéis o pó levantam, Galopam, voam, mas não deixam traço. Bem feliz quem ali pode nest'hora Sentir deste painel a majestade!... Embaixo — o mar... em cima — o firmamento... E no mar e no céu — a imensidade! Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! Que música suave ao longe soa! Meu Deus! como é sublime um canto ardente Pelas vagas sem fim boiando à toa! Homens do mar! O’ rudes marinheiros, Tostados pelo sol dos quatro mundos! Crianças que a procela acalentara No berço destes pélagos profundos! Esperai!... esperai!... deixai que eu beba Esta selvagem, livre poesia... Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, E o vento, que nas cordas assobia... TEIXEIRA E SOUSA AntônioGonçalvesTeixeiraeSousa(1812–1861) Obras:Ofilhodopescador(1843);Tardesdeumpintorouasintrigasdeumjesuíta;GonzaͲ gaouaconjuraçãodeTiradentes;Aprovidência;Mariaouameninaroubada;AsfatalidaͲ desdedoisjovens(1843Ͳ1856). Comentáriocrítico ConsideraͲse oficialmente como sendo o primeiro romancista propriamente dito Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa,autortambémdoprimeiropoemalongodetemaindianista,porsinalmuitoruim:“TrêsdiasdeumnoivaͲ do” (1844). Um ano antes tinha publicado O filho do pescador, e em seguidapublicou mais cinco romances até 1856.Escritordeterceiraordem,apostounaperipéciaenamaisdesabaladacomplicação,aomododoslivrosde aventuraemistérioqueeramentãodevoradospelopúblico,tantoaqui(ondeerabempequeno)quantonaEuroͲ pa.Noentanto,nãochegouàpopularidade(CANDIDO,2002,p.40Ͳ41). CenadodiálogoentreLauraeAugusto AgentilmadrugadoradaCopacabana,tendolentamentepasseadoaruadoJardim,foifinalͲ mentesentarͲsesobreumbanco,debaixodoslongosefrondososramosdeumavenerandamangueira, sobrecujotronco,depoisdeterfeitovaguearseusolhospeloamplodosmares,queanteelasedesenͲ rolava, trouxeͲos, ao depois, contemplar as ondas, que em incessante lida vinham com murmurinho roucodespedaçarseusfragoresdeencontroàimpassíveldurezadossobranceirosrochedos.ElamediͲ tava.Hápoucosminutosduravaestacenamuda,quandoalguémdeummodoafetuosomurmurouseu nome. Ela ergueͲse rapidamente, e voltando a ver quem chama, um mancebo está de joelhos a seus pés...Amoçaoencaraefala. ͲSenhor...ͲEuteamomaisdoqueaminhaprópriavida...ͲAmim....Senhor,amim?ͲSim,ati, minhabelanáufraga...ati...acreditaͲme,euteamo...ͲAmim.Tãopobre.Vítimadadesgraça.Cercada damiséria,escapadaaumnaufrágioquequesetu...ͲEqueimportatudoisso?Euteamo,eéquanto basta.Sai,poisdadesgraça,sim,vemaosmeusbraços;vemserminha,minhaparasempre,minhaesͲ posaenfim....ͲSenhor,masvossopai...ͲEleconsentirá,oh.Semdúvida. LETRAS|111 JOAQUIM MANOEL DE MACEDO JoaquimManueldeMacedo(1820–1882). Obras:Amoreninha(1844);Omoçoloiro(1845);Osdoisamores(1848);Rosa(1849);ViͲ centina(1853);Oforasteiro(1855);Osromancesdasemana(1861RiodoQuarto(1869);A lunetamágica(1869);AsvítimasͲalgozes(1869);Asmulheresdemantilha(1870);Ocego (1849);Cobé(1852);Ofantasmabranco(1856);OprimodaCalifórnia(1858);LuxoeverͲ dade(1860);Atorreemconcurso(1861);Lusbela(1862);CincinatoQuebraͲLouças(1873); Anebulosa(1857). Comentáriocrítico AcronologiamandacomeçarpeloromancedeJoaquimManueldeMacedo.TendoatravessadotodooRomantisͲ mo,poisescreveudesdeosanosde40aosde70,nemporissonotaͲlheprogressonatécnicaliteráriaounacomͲ preensão do que deveria ser um romance. Macedo descobriu logo alguns esquemas de efeito novelesco, sentiͲ mentaloucômico,eaplicouͲosassiduamenteatésuasúltimasproduçõesnogênero[...]Nãoadmiraque,achadas comfacilidadeasreceitasjáemAmoreninha,oescritortenhasidotentadoadiluíͲlasemmaisdezesseteromanͲ ces(BOSI,1980,p.143Ͳ144). CapítuloIͲApostaImprudente(fragmento) Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho. Bravo!...interessantecena!mascertoquedesonrosaforaparacasadeumestudantedeMedicinaejá no sexto ano, a não valerͲlhe o adágio antigo: Ͳ o hábito não faz o monge. Ͳ Temos discurso!... atenͲ ção!...ordem!...gritaramaumtempotrêsvozes.ͲCoisacélebre!acrescentouLeopoldo.Filipesempre setornaoradordepoisdojantar...ͲEdáͲlheparafazerepigramas,disseFabrício.ͲNaturalmente,acuͲ diuLeopoldo,que,pordonodacasa,maiorquinhãohouveranocumprimentodorecémͲchegado;natuͲ ralmente.Bocage,quandotomavacarraspana,descompunhaosmédicos.ͲC’esttropfort!bocejouAuͲ gusto,espreguiçandoͲsenocanapéemqueseachavadeitado.ͲComoquiserem,continuouFilipe,ponͲ doͲseemhábitosmenores;mas,porminhavida,queacarraspanadehojeaindameconcedeapreciar devidamenteaquiomeuamigoFabrício,quetalvezacabadechegardealgumavisitadiplomática,vestiͲ docomesmeroealinho,porém,tendoacabeçaencapuzadacomavermelhaevelhacarapuçadoLeoͲ poldo;este,aliescondidodentrodoseurobeͲdeͲchambrecordeburroquandofoge,esentadoemuma cadeiratãodesconjuntadaque,paranãocaircomela,põeemaçãotodasasleisdeequilíbrio,queestuͲ douemPouillet;acolá,enfim,omeuromânticoAugusto,emceroulas,comasfraldasàmostra,estirado emumcanapéemtãobomuso,queaindaagoramesmofezcomqueLeopoldoselembrassedeBocage. Oh!VV.SS.tomamcafé!...Aliosenhordescansaaxícaraazulemumpiresdeporcelana...aqueletem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires é corͲdeͲrosa... aquele outro nem porcelana, nemlavores,nemcorazulouderosa,nemxícara...nempires...aquiloéumatigelanumprato...ͲCarͲ raspana!... carraspana!... Ͳ O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltandoͲse para o corredor, trazeͲme café, aindaquesejanopúcaroemqueocoas;poiscreioqueanãoserafaltadelouças,játeusenhormo teriaoferecido.ͲCarraspana!...carraspana!...ͲSim,continuouele,euvejoquevocês...ͲCarraspana!... carraspana!... Ͳ Não sei de nós quem mostra... Ͳ Carraspana!... carraspana!... SeguiramͲse alguns moͲ mentosdesilêncio;ficaramosquatroestudantesassimamododemoçasquandojogamosiso.Filipe nãofalava,porconheceropropósitoemqueestavamostrêsdelhenãodeixarconcluirumasóproposiͲ ção,eestes,porqueesperavamvêͲloabrirabocaparagritarͲlhe:carraspana!...Enfim,foiaindaFilipeo primeiroquefalou,exclamandoderepente:ͲPaz!paz!...ͲAh!já?...disseLeopoldo,queeraomaisinͲ fluído.ͲFilipeécomoogalego,disseumoutro;perderiatudoparanãoguardarsilêncioumahora. LETRAS|112 MANUEL DE ALMEIDA ManuelAntôniodeAlmeida(1831Ͳ1861) Obras:Memóriasdeumsargentodemilícias(1853);Obradispersa(1991). Comentáriocrítico No outro pólo, as Memórias de um sargento de Milícias estão isentas de qualquer traço idealizante e procuram despregarͲsedamatériaromanceadagraçasaométodoobjetivodecomposição,próximodoqueseriaumacrônica históricacujoautorsedivertisseemresenharasandançaseospecadilhosdouomoqualunque.EmMacedoaveraͲ cidadedoscostumesfluminensesaparecedistorcidapelacumplicidadetácitacomaleitora,quequerorarir,ora chorar,deonderesultaumrealismodesegundamão,nãorarorasteiroelamuriento.EmManuelAntônio,ocomͲ promissomaisaltoelegítimo,porquesefazentreorelatodeummomentohistórico(oRiosobD.JoãoVI)euma visão desenganadada existência,fonte dohumor difusono seuúnico romance [...]O seu valor reside principalͲ menteemtercaptado,pelofluxonarrativo,umadasmarcasdavidanapobreza,queéaperpétuasujeiçãoàneͲ cessidade, sentida de modo fatalista como o destino de cada um. Esse contínuo esforço de driblar o acaso das condiçõesadversaseaavidezdegozarosintervalosdeboasorteimpelemosfigurantesdasMemórias,e,empriͲ meirolugar,oantiͲheróiLeonardo,“filhodeumapisadelaedeumbeliscão”paraarodavivadepequenosengodos e demandas de emprego, entremeadas com ciganagens e patuscadas que dão motivo ao romancista para fazer entraremcenacertostiposdovelhoRio(BOSI,1980,p.145Ͳ147–grifosdoautor). CapítuloIIͲPrimeirosinfortúnios(fragmento) LogoquepôdeandarefalartornouͲseumflagelo;quebravaerasgavatudoquelhevinhaàmão.Tinha umapaixãodecididapelochapéuarmadodoLeonardo;seesteodeixavaporesquecimentoemalgumlugaraoseu alcance, tomavaͲo imediatamente, esganava com ele todos os móveis, punhaͲlhe dentro tudo que encontrava, esfregavaͲoemumaparede,eacabavaporvarrercomeleacasa;atéqueaMaria,exasperadapeloqueaquilolhe havia de custar aos ouvidos, e talvez às costas, arrancavaͲlhe das mãos a vítima infeliz. Era, além de traquinas, guloso;quandonãotraquinava,comia.AMarianãolheperdoava;traziaͲlhebemmaltratadaumaregiãodocorpo; porémelenãoseemendava,queeratambémteimoso,eastravessurasrecomeçavammalacabavaadordaspalͲ madas.Assimchegouaosseteanos.AfinaldecontasaMariasempreerasaloia,eoLeonardocomeçavaaarreͲ penderͲseseriamentedetudoquetinhafeitoporelaecomela.Etinharazão,porque,digamosdepressaesem maiscerimônias,haviaeledesdecertotempoconcebidofundadassuspeitasdequeeraatraiçoado.Haviaalguns mesesatrástinhanotadoqueumcertosargentopassavaͲlhemuitasvezespelaporta,eenfiavaolharescuriosos através das rótulas:uma ocasião, recolhendoͲse,pareceraͲlhe que o vira encostado à janela. Isto porém passou semmaisnovidade.Depoiscomeçouaestranharqueumcertocolegaseuoprocurasseemcasa,paratratarde negóciosdooficio,sempreemhorasdesencontradas:porémistotambémpassouembreve.FinalmenteaconteͲ ceuͲlheportrêsouquatrovezesesbarrarͲsejuntodecasacomocapitãodonavioemquetinhavindodeLisboa,e istocausouͲlhesérioscuidados.Umdiademanhãentrousemseresperadopelaportaadentro;alguémqueestava nasalaabriuprecipitadamenteajanela,saltouporelaparaarua,edesapareceu.ÀvistadistonadahaviaaduviͲ dar:opobrehomemperdeu,comosecostumadizer,asestribeiras;ficoucegodeciúme.Largouapressadosobre umbancounsautosquetraziaembaixodobraço,eendireitouparaaMariacomospunhoscerrados.—GrandesͲ síssima!...Eainjúriaqueiasoltareratãograndequeoengasgou...epôsͲseatremercomtodoocorpo.AMaria LETRAS|113 recuoudoispassosepôsͲseemguarda,poistambémnãoeradasquesereceavacomqualquercoisa.—TiraͲtelá, óLeonardo!—Nãochamesmaispelomeunome,nãochames...quetrancoͲteessabocaasocos...—SafeͲsedaí! QuemlhemandoupôrͲseaosnamoricoscomigoabordo?IstoexasperouoLeonardo;alembrançadoamorauͲ mentouͲlheadordatraição,eociúmeearaivadequeseachavapossuídotransbordaramemsocossobreaMariͲ a, que depois de uma tentativa inútil de resistência desatou a correr, a chorar e a gritar: — Ai... ai... acuda, Sr. compadre... Sr. compadre!... Porém o compadre ensaboava nesse momento a cara de um freguês, e não podia largáͲlo. Portanto a Maria pagou caro e por junto todas as contas. EncolheuͲse a choramingar em um canto. O meninoassistiraatodaessacenacomimperturbávelsangueͲfrio:enquantoaMariaapanhavaeoLeonardoesbraͲ vejava,aqueleocupavaͲsetranqüilamenteemrasgarasfolhasdosautosqueestetinhalargadoaoentrar,eem fazerdelasumagrandecoleçãodecartuchos.Quando,esmorecidaaraiva,oLeonardopôdeveralgumacoisamais doqueseuciúme,reparouentãonaobrameritóriaemqueseocupavaopequeno.EnfureceͲsedenovo:suspenͲ deu o menino pelas orelhas, fêͲlo dar no ar uma meia volta, ergue o pé direito, assentaͲlhe em cheio sobre os glúteosatirandoͲosentadoaquatrobraçasdedistância.—Ésfilhodeumapisadelaedeumbeliscão;mereces queumpontapéteacabeacasta.Omeninosuportoutudocomcoragemdemártir,apenasabriuligeiramentea bocaquandofoilevantadopelasorelhas:malcaiu,ergueuͲse,embarafustoupelaportafora,eemtrêspulosestaͲ vadentrodalojadopadrinho,eatracandoͲseͲlheàspernas.OpadrinhoerguianessemomentoporcimadacabeͲ çadofreguêsabaciadebarbearquelhetiraradosqueixos:comochoquequesofreuabaciainclinouͲse,eofreͲ guêsrecebeuumbatismodeáguadesabão. LETRAS|114 JOSÉ DE ALENCAR JoséMartinianodeAlencar(1829–1877) Obras: Cinco minutos (1856); O Guarani (1857); A viuvinha (1860); Lucíola (1862); Diva (1864);Iracema(1865);Asminasdeprata.(1864Ͳ1865);Ogaúcho(1870);Apatadagazela (1870);Otroncodoipê(1871);Guerradosmascates(1873Ͳ1974);Til,(1872);Sonhosd'ouro, (1872);Alfarrábios,(1873);Ubirajara,(1874);Osertanejo,(1875);Senhora(1875);EncarnaͲ ção,(1893);Ocrédito,(1857);Versoereverso,(1857);Demôniofamiliar,(1857);Asasasde um anjo, (1858); Mãe, (1860); A expiação, (1867); O jesuíta, (1875); Ao correr da pena, (1874);Comoeporquesouromancista,(1893);Cartassobreaconfederaçãodostamoios, (1856);Aoimperador:cartaspolíticasdeErasmoeNovascartaspolíticasdeErasmo,(1865); Aopovo:cartaspolíticasdeErasmo,(1866);Osistemarepresentativo,(1868). Comentáriocrítico BemdiferentefoiaobradeAlencar,aotodovinteromancespublicadosentre1856a1877,dandoexemplodaimͲ portânciaqueogênerohaviaadquiridonaliteraturabrasileira,ultrapassandoonívelmodestodospredecessorese demonstrandocapacidadenarrativabemdefinida.Éumaobrabastanteambiciosa.Apartirdecertaaltura,Alencar pretendeuabrangercomela,sistematicamente,osdiversosaspectosdopaísnotempoenoespaço,pormeiosde narrativassobreoscostumesurbanos,sobreasregiões,sobreoíndio[...]Parpôrempráticaesseprojeto,quisforͲ jarumestilonovo,adequadoaostemasebaseadonumalinguagemque,semperderacorreçãogramatical,seaͲ proximassedamaneirabrasileiradefalar.Aofazerisso,estavatocandoonódoproblema(caroaosromânticos)da independênciaestéticaemrelaçãoaPortugal.Comefeito,caberiaaosescritoresnãoapenasfocalizararealidade brasileira,privilegiandoasdiferençaspatentesnanaturezaenapopulação,maselaboraraexpressãoquecorresͲ pondesseàdiferenciaçãolinguísticaquenosiadistinguindocadavezmaisdosportugueses,numagrandeaventura dentrodamesmalíngua.ComomaistardeMáriodeAndradenoModernismo,JosédeAlencaratacouaquestãoda identidadepeloaspectofundamentaldalinguagem[...]Asuaobraatraiuamaioriadosleitorespeloquetinhade romanesco no sentido estrito, tanto sob o aspecto de sentimentalismo quanto do heroísmo rutilante. O guarani (1857),cujaaçãodecorrenoséculoXVIeéomaispopulardosseuslivros,temessasduascoisas,alémdefacilitar pelopróprioenredoaescritapoéticaeempoladaquemarcouoRomantismo.Amor,bravura,perfídiasecombinam neleparadaraoleitoroespetáculodeumBrasilplasticamentebelo,enobrecidopelasqualidadesideaisdoepôniͲ moindígena(CANDIDO,2002,p.63Ͳ66). CapítuloII–Lealdade(fragmento) A habitação que descrevemos, pertencia a D. Antônio de Mariz, fidalgo português de cota d’armaseumdosfundadoresdacidadedoRiodeJaneiro.EradoscavalheirosquemaissehaviamdisͲ tinguidonasguerrasdaconquista,contraainvasãodosfranceseseosataquesdosselvagens.Em1567 acompanhouMemdeSáaoRiodeJaneiro,edepoisdavitóriaalcançadapelosportugueses,auxiliouo governadornostrabalhosdafundaçãodacidadeeconsolidaçãododomíniodePortugalnessacapitania. Fezparteem1578dacélebreexpediçãodoDr.AntôniodeSalemacontraosfranceses,quehaviamesͲ tabelecidoumafeitoriaemCaboFrioparafazeremocontrabandodepauͲbrasil.Serviuporestemesmo tempo de provedor da real fazenda, e depois da alfândega do Rio de Janeiro; mostrou sempre nesses empregososeuzelopelarepúblicaeasuadedicaçãoaorei.Homemdevalor,experimentadonaguerra, ativo,afeitoacombaterosíndios,prestougrandesserviçosnasdescobertaseexploraçõesdointeriorde LETRAS|115 MinaseEspíritoSanto.Emrecompensadoseumerecimento,ogovernadorMemdeSálhehaviadado uma sesmaria de uma légua com fundo sobre o sertão, a qual depois de haver explorado, deixou por muito tempo devoluta. A derrota de AlcácerͲQuibir, e o domínio espanhol que se lhe seguiu, vieram modificaravidadeD.AntôniodeMariz.Portuguêsdeantigatêmpera,fidalgoleal,entendiaqueestava presoaorei dePortugal pelojuramentodanobreza,equesóaele deviapreitoe menagem. Quando pois,em1582,foiaclamadonoBrasilD.Felipe11comoosucessordamonarquiaportuguesa,ovelho fidalgoembainhouaespadaeretirouͲsedoserviço.Poralgumtempoesperouaprojetadaexpediçãode D. Pedro da Cunha, que pretendeu transportar ao Brasil a coroa portuguesa, colocada então sobre a cabeçadoseulegitimoherdeiro,D.Antônio,priordoCrato.Depois,vendoqueestaexpediçãonãose realizava, e que seu braço e sua coragem de nada valiam ao rei de Portugal, jurou que ao menos lhe guardariafidelidadeatéamorte.Tomouosseuspenates,oseubrasão,assuasarmas,asuafamília,efoi estabelecerͲsenaquelasesmariaquelheconcederaMemdeSá.Aí,depésobreaeminênciaemqueia assentaroseunovosolar,D.AntôniodeMariz,erguendoovultodireito,elançandoumolharsobranceiͲ ropelosvastoshorizontesqueabriamemtorno,exclamou:ͲAquisouportuguês!Aquipoderespirarà vontade um coração leal, que nunca desmentiu a fé do juramento. Nesta terra que me foi dada pelo meurei,econquistadapelomeubraço,nestaterralivre,tureinarás,Portugal,comoviverásn’almade teusfilhos.Euojuro!DescobrindoͲse,curvouojoelhoemterra,eestendeuamãodireitasobreoabisͲ mo,cujosecosadormecidosrepetiramaolongeaúltimafrasedojuramentoprestadosobreoaltarda natureza,emfacedosolquetransmontava.Istosepassaraemabrilde1593;nodiaseguinte,começaͲ ramostrabalhosdaedificaçãodeumapequenahabitaçãoqueserviuderesidênciaprovisória,atéque osartesãosvindosdoreinoconstruíramedecoraramacasaquejáconhecemos.D.AntôniotinhaajunͲ tadofortunaduranteosprimeirosanosdesuavidaaventureira;enãosóporcaprichodefidalguia,mas ematençãoàsuafamília,procuravadaraessahabitaçãoconstruídanomeiodeumsertão,todooluxo ecomodidadepossíveis.AlémdasexpediçõesquefaziaperiodicamenteàcidadedoRiodeJaneiro,para comprarfazendasegênerosdePortugal,quetrocavapelosprodutosdaterra,mandaravirdoreinoalͲ gunsoficiaismecânicosehortelãos,queaproveitavamosrecursosdessanaturezatãorica,paraproveͲ rem os seus habitantes de todo o necessário. Assim, a casa era um verdadeiro solar de fidalgo portuͲ guês, menos as ameias e a barbacã, as quais haviam sido substituídas por essa muralha de rochedos inacessíveis,queofereciamumadefesanaturaleumaresistênciainexpugnável. LETRAS|116 BERNARDO GUIMARÃES BernardoJoaquimdaSilvaGuimarães(1825–1884) Obras:CantosdaSolidão(1852);InspiraçõesdaTarde(1858);OErmitãodeMuquém (1858);AVozdoPajé(1860);PoesiasDiversas(1865);Evocações(1865;LendaseRomances (1871);Ogarimpeiro(1872);HistóriaeTradiçõesdaProvínciadeMinasGerais(1872);O Seminarista(1872);OÍndioAfonso(1872);AEscravaIsaura(1875);NovasPoesias(1876); MaurícioouOsPaulistasemSãoJoãodelͲRei(1877);AIlhaMalditaouAFilhadasOndas (1879);OPãodeOuro(1879);FolhasdeOutono(1883);AEnjeitada(1883). Comentáriocrítico OregionalismodeBernardoGuimarãesmisturaelementostomadosànarrativaoral,os‘causos’eestórias’deMinas eGoiás,comumaboadosedeidealização.Esta,emboranãotãomaciçacomoemAlencar,éresponsávelporuma linguagemadjetivosaeconvencionalnamaioriadosquadrosagrestes[...]AsobrasmaislidasdeBernardoGuimaͲ rães,OSeminaristaeAEscravaIsaura,devemasuapopularidademenosaumprogressodefabulaçãoounotraçaͲ dodaspersonagensdoqueàgarradosproblemasexplícitos:ocelibatoclericalnoprimeiro,aescravidãonosegunͲ do[...]AEscravaIsaurajáfoichamadodeAcabanadoPaiTomásnacional.Háevidenteexageronaasserção.O nossoromancistaestavamaisocupadoemcontarasperseguiçõesqueacobiçadeumsenhorvilãomoviaàbela Isauraqueemreconstruirasmisériasdoregimeservil.E,apesardealgumaspalavrassincerascontaasdistinçõesde cor(cap.XV),todaabelezadaescravaépostanoseunãoparecernegra,masníveadonzela,comovemdescrita desdeoprimeirocapítulo(BOSI,1980,p.157Ͳ159). Capítulo I (fragmento) Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos festões e lindas flores, que serve de vestíbulo ao edifício. Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramos aberta uma larga porta, que dá entrada à sala de recepção, vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham-se distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas ainda mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas, que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise. A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam quase completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração. Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairava-lhe pelo espaço. Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza, e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda amplas ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único ornamento. Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua canção. Entretanto abre-se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores, e uma nova personagem penetra no salão. Era também uma formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante. A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril, certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam-lhe esse ar pretensioso, que acompanha toda moça bonita e rica, ainda mesmo quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande senhora nem por isso sua grande beleza deixava de ficar algum tanto eclipsada em presença das formas puras e corretas, da nobre singeleza, e dos tão naturais e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos azuis toda a nativa bondade de seu coração. LETRAS|117 VISCONDE TAUNAY AlfredoMariaAdrianod'EscragnolleTaunay(1843–1899) Obras:ACampanhadaCordilheira(1869);LaRetraitedeLaguna(1871);Inocência(1872); LágrimasdoCoração.ManuscritodeumaMulher(1873);OurosobreAzul(1875);Estudos críticos, (1881 e 1883); Amélia Smith (1886); No Declínio (1889); O Encilhamento (1894); Reminiscências(1908–ediçõespóstumas) Comentáriocrítico Representaocasobembrasileirodofilhodeestrangeirosdetalmaneiraidentificadoànovapátriaquesetorna intérpreteprivilegiadodasuarealidade.Militardecarreira,tinhaboaformaçãointelectualeartística,sendobom desenhista e compositor, qualidades que soube transpor para a sua prosa, capaz de descrever a natureza com forçapictórica[...]OseuromancemaisfamosoéInocência(1872),quealgunsconsideramomelhorprodutodo Regionalismoeédefatobemrealizado,graçasàhabilidadecomquedescreveapaisagemeoscostumesdosertão remoto,quadronoqualsoubecontarcomsingelezaatocantepaixãoqueenvolveaprotagonista(CANDIDO,2002, p.79). Capítulo I - O sertão e o sertanejo (fragmento) Todos vós bem sentis a ação secreta Da natureza em seu governo eterno; E de ínfimas camadas subterrâneas Da vida o indício à superfície emerge. Goethe, Fausto, 2ª parte. Então com passo tranqüilo metia-me eu por algum recanto da floresta, algum lugar deserto, onde nada me indicasse a mão do homem, nem me denunciasse a servidão e o domínio; asilo em que pudesse crer ter primeiro entrado, onde nenhum importuno viesse interpor-se entre mim e a natureza J. J. Rousseau, O Encanto da Solidão. Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima província de Mato Grosso a estrada que da vila de Sant’Ana do Paranaíba vai ter ao sítio abandonado de Camapoan. Desde aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até ao Rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas às outras; depois, porém, rareiam as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe momentâneo agasalho e o provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioac, no Baixo Paraguai. Ali começa o sertão chamado bruto. Ao homem do sertão afiguram-se tais momentos incomparáveis, acima de tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto círculo de ambições. Satisfeita a sede que lhe secara os lábios, e comidas umas colheres de farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem lustrosa e os troncos brancos das pindaíbas, a copa dos ipês e as palmas dos buritis a ciciar a modo de harpas eólias, músicas sem conta com o perpassar da brisa. Como são belas aquelas palmeiras! O estípite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias, sustenta denso feixe de pecíolos longos e canelados, em que assentam flabelas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexíveis e tremulantes. Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas espatas, densos cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia, revestida de escamas romboidais e de um amarelo alaranjado, desafia por algum tempo o férreo bico das araras. Também, com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a apetecida e saborosa amêndoa! Em grupos juntam-se elas, umas vermelhas como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras, pelo contrário, de todo azuis, de maior viso e que, por parecerem negras em distância, têm o nome de araraúnas. Ali ficam alcandoradas, balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, às imensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não LETRAS|118 seja um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quase sempre, porém, estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem encostadinha à outra. Vê tudo aquilo o sertanejo com olhar carregado de sono. Caem-lhe pesadas as pálpebras; bem se lembra de que por ali podem rastejar venenosas alimárias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais preocupação, adormece com serenidade. Correm as horas: vem o Sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não ciciam mais os buritis; gemem, e convulsamente agitam as flageladas palmas. É a tarde que chega. FRANKLIN TÁVORA JoãoFranklindaSilveiraTávora(1842–1888) Obras:Trindademaldita(1861);OsíndiosdoJaguaribe(1862);Acasadepalha(1866);Um casamentonoarrabalde(1869);Ummistériodefamília(1862);Trêslágrimas(1870);Cartas de Semprônio a Cincinato (1871); O Cabeleira (1876); O matuto (1878); Lourenço (1878); LendasetradiçõesdoNorte(1878);Osacrifício(1879). Comentáriocrítico Aunidadepolítica,preservadaàsvezesporcircunstânciasquasemiraculosas,podefazeresqueceradiversidadeque presidiuàformaçãoedesenvolvimentodanossacultura.Acolonizaçãoseprocessouemnúcleosseparados,pratiͲ camenteisoladosentresi:odesenvolvimentoeconômicoeaevoluçãosocialforam,assim,bastanteheterogêneos, consideradasasdiferentesregiões.Umhistoriadorcontemporâneo,AlfredoEllisJr.,serecusaafalaremColônia,ou Brasil Colônia, acentuando o fato, assinalado desde Handelmann e fecundado por João Ribeiro, de que houve na Américanãouma,senãováriasColôniasportuguesas.Trazendoaidéiaparaoterrenoliterário,VianaMoogprocuͲ rouinterpretaranossaliteraturaemfunçãodasquechamou“ilhasdeculturasmaisoumenosautônomasedifeͲ renciadas”,caracterizadacadaumapeloseugeniuslociparticular.Comprovantedestaidéiaengenhosa,eemparte verdadeira,ésemdúvidaocasodoNordeste,quesedestacanageografia,nahistóriaenaculturabrasileiracom impressionanteautonomiaenitidez[...]FranklinTávorasentiutudoistoprofundamente,aopontodetentaruma espéciedefélibrige;sóquefélibrigepelametade,dentronãoapenasdomesmopaís,masdamesmalíngua.“Norte eSulsãoirmãos,massãodois.Cadaumhádeterumaliteraturasua,porqueogêniodeumnãoseconfundecomo deoutro.Cadaumtemassuasaspirações,seusinteresses,ehádeter,sejánãotem,suapolítica”.Desvioevidente que, levandoͲo a dissociar o que era uno e fazer de características regionais princípio de independência, traía de certomodoagrandetarefaromânticadedefinirumaliteraturanacional.OseuregionalismoparecefundarͲseem trêselementos,queaindahojeconstituem,emproporçõesvariáveis,aprincipalargamassadoregionalismoliterário do Nordeste. Primeiro o senso da terra, da paisagem que condiciona tão estreitamente a vida de toda a região, marcandooritmodasuapelafamosa“intercadência”deEuclidesdaCunha.Emseguida,oquesepoderiachamar patriotismo regional, orgulhoso dasguerras holandesas, do velho patriarcadoaçucareiro, das rebeliões nativistas. Finalmente,adisposiçãopolêmicadereivindicarapreeminênciadoNorte,reputadomaisbrasileiro,“ondeabunͲ damoselementosparaaformaçãodeumaliteraturapropriamentebrasileira,filhadaterra.Arazãoéobvia:oNorͲ teaindanãofoiinvadidocomoestásendooSuldediaemdiapeloestrangeiro”.Távorafoioprimeiro“romancista doNordeste”,nosentidoemqueaindahojeentendemosaexpressão;edestemodoabriucaminhoaumalinguaͲ gem ilustre, culminada pela geração de 1930, mais de meio século depois das suas tentativas, reforçadas a meio caminhopelobaianofluminensed’OsSertões(CANDIDO,1993,p.267Ͳ268). PrefáciodeOcabeleira NoCabeleiraofereçoͲteumtímidoensaiodoromancehistórico,,segundoeuentendoestegênerodaliͲ teratura.Àcríticapernambucana,maisdoqueaoutraqualquer,cabedizerseomeudesejonãofoiiludido;ea ela,sejaqualforasuasentença,curvareiacabeçasemreplicar.Asletrastêm,comoapolítica,umcertocaráter geográfico;maisdoNorte,porém,doquenoSulabundamoselementosparaaformaçãodeumaliteraturaproͲ priamentebrasileira,filhadaterra.Arazãoéóbvia:oNorteaindanãofoiinvadidocomoestásendooSuldedia emdiapeloestrangeiro.Afeiçãoprimitiva,unicamentemodificadapelaculturaqueasraças,asíndoles,eoscosͲ LETRAS|119 tumesrecebemdostemposoudoprogresso,podeͲseafirmarqueaindaseconservaaliemsuapureza,emsua genuínaexpressão.PorinfelicidadedoNorte,porém,dentreosmuitosfilhosseusquefiguramcomgrandebrilho nasletraspátrias,poucostêmseriamentecuidadodeconstruiroedifícioliteráriodessapartedoimpérioque,por suanaturezamagnificenteeprimorosa,porsuahistóriatãoricadefeitosheróicos,porseususos,tradiçõesepoeͲ siapopularhádetercedooutardeumabibliotecaespecialmentesua.EstapouquidadedearquitetosfazͲsenotar comespecialidadenoromance,gêneroemqueoNorte,ameuver,podeentretantofigurarcombrilhoebizarria inexcedível. Esta verdade dispensa demonstração. Quem não sabe que na história conta ele J. F. Lisboa, Baena, AbreueLima,VieiradaSilva,HenriquesLeal,MunizTavares,AJ.deMelo,FernandesGama,emuitosoutrosque podembemcompetircomVarnhagen,PereiradaSilvaeFernandesPinheiros;queoprimeirofilólogobrasileiro, SoterodosReis,énortista;queénortistaGonçalvesDias,amaispoderosaeinspiradamusadenossaterra;eque IgualmenteosãoTenreiroAranha,OdoricoMendes,FrancodeSã,AlmeidaBraga,JoséCoriolano,CruzCordeiro, FerreiraBarreto,MacielMonteiro,BandeiradeMelo,TorresBandeira,quevalembemMagalhães,A.deAzevedo, Varela, Porto Alegre, Casimiro de Abreu, Cardoso de Meneses. Teixeira de Melo? No romance, porém, já não é assim.OSulcampeiasemêmulonestaarena,ondetêmcolhidonotáveislouros:Macedo,oobservadorgracioso doscostumesdacidade;BernardoGuimarães,odesenhistafieldosusosrústicos;MachadodeAssis,cultorestudiͲ osodogêneroquefoivastocampodeglóriasparaBalzac;Taunayqueseparticularizapelafluência,epelofaceto danarrativa;Almeidinha,queatodosestesseavantajounacorreçãodosdesenhos,postohouvessedeixadoumsó quadro, um só painel, quadro brilhante, painel imenso, em que há vida, graça e colorido nativo. Estes talentos, alémdeoutrosquemenãoselembramdemomento,nãotêm,aomenosporagora,competidoresnoNorte,onde aliásnãoháfaltadetalentosdeigualesfera.Nãomeélícitoesqueceraqui,aindaquesetratadoromancedoSul, umengenhodeprimeiragrandeza,que,comserdoNorte,temconcorridocomsuasmaisimportantesprimícias para a formação da literatura austral. Quero referirͲme ao Exmo Sr. Conselheiro José Martiniano de Alencar, a quemlátiveocasiãodefazerjustiçanasminhasconhecidasCartasaCincinato.Quando,pois,estáoSulemtão favoráveis condições, que até conta entre os primeiros luminares das suas letras este distinto cearense, têm os escritoresdoNortequeverdadeiramenteestimamseutorrão,odeverdelevantaraindacomlutaeesforçosos nobresforosdessagranderegião,exumarseustiposlegendários,fazerconhecidosseuscostumes,suaslendas,sua poesia,máscula,nova,vividaelouçãtãoignoradanoprópriotemploondesesagramasreputações,assimliteráͲ rias,comopolíticas,queseenviamàsprovíncias.Nãovainisto,meuamigo,umbaixosentimentoderivalidadeque nãoaninhoemmeucoraçãobrasileiro.Proclamoumaverdadeirrecusável.NorteeSulsãoirmãos,massãodois. Cadaumhádeterumaliteraturasua,porqueogêniodeumnãoseconfundecomodooutro.Cadaumtemsuas aspirações,seusinteresses,ehádeter,selánãotem,suapolítica.Enfimnãopossodizertudo,ereservareiodeͲ senvolvimento,quetaisidéiasexigem,paraaocasiãoemqueteenviarosegundolivrodestasérie,oqualtalvez venha ainda este ano, à luzda publicidade. Depois de haveres lido O Cabeleira, melhor me poderás entender a respeitodacriaçãodaliteraturasetentrional,cujosmoldesnãopodemser,segundomeparece,osmesmosem quevaisendovazadaaliteraturaaustralquepossuímos. Teu,FRANKLINTÁVORA,Rio,1876 LETRAS|120 Autor dos fins do Romantismo, Franklin Távora publica O cabeleira apenas cinco anos antes das Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis, quando a nossa literatura já se encaminhapelaperspectivarealistaenaturalista.Mesmoassim,aprosadeTávorailustra,explicitamenͲ te,odiálogo plural,profundoe contínuoentreosnossosautoreseosromânticoseuropeus,comose aferedesuaapropriaçãoinventivadatesedasduasliteraturas,elaboradapelacorrenteromânticafranͲ cesa,maisespecificamente,pelaescritoraMmedeStaël: Há, pareceͲme, duas literaturas completamente distintas, a que vem do Sul e a que descedoNorte,aqueladequeHomeroéafonteprimeira,aqueladequeOssianéa suaorigem.SemdúvidaqueosinglesesealemãesimitaramfrequentementeosantiͲ gos.Dessefecundoestudoretiraramúteislições;massuasbelezasoriginaistrazema marca da mitologia do Norte, têm uma espécie de semelhança, uma certa grandeza poéticadequeOssianéoprimeirotipo(STAËLapudELIA,2005,p.116). RevisitadanasúltimasdécadasdoséculoXX,aprosaregionalistadeFranklinTávoratambémé umtestemunhoexemplardapermanênciaedaatualidaderomânticaemnossodiscursoliterárioeculͲ tural,comoilustraaexpansãoeodeslocamento,paraocampoestritamentedopolítico,desuaasserͲ çãodasduasregiõesbrasileiras,efetuadapelospoetaspopularesnordestinos,IvanildoVilanovaeBráuͲ lioTavares,em1984: NORDESTE INDEPENDENTE (Imagine o Brasil) Já que existe no Sul este conceito que o Nordeste é ruim, seco e ingrato, já que existe a separação de fato é preciso torná-la de direito. Quando um dia qualquer isso for feito todos dois vão lucrar imensamente começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido: imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. Em Recife o distrito industrial o idioma ia ser "nordestinense" a bandeira de renda cearense "Asa Branca" era o hino nacional o folheto era o símbolo oficial a moeda, o tostão de antigamente Conselheiro seria o Inconfidente Lampião o herói inesquecido: imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. Se isso aí se tornar realidade e alguém do Brasil nos visitar neste nosso país vai encontrar neste nosso país vai encontrar confiança, respeito e amizade tem o pão repartido na metade tem o prato na mesa, a cama quente: brasileiro será irmão da gente venha cá, que será bem recebido... imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. Dividindo a partir de Salvador o Nordeste seria outro país: vigoroso, leal, rico e feliz, sem dever a ninguém no exterior. Jangadeiro seria o senador o cassaco de roça era o suplente cantador de viola o presidente e o vaqueiro era o líder do partido. Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. O Brasil ia ter de importar do Nordeste algodão, cana, caju, carnaúba, laranja, babaçu, abacaxi e o sal de cozinhar. O arroz e o agave do lugar a cebola, o petróleo, o aguardente; o Nordeste é auto-suficiente nosso lucro seria garantido imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. Eu não quero com isso que vocês imaginem que eu tento ser grosseiro pois se lembrem que o povo brasileiro é amigo do povo português. Se um dia a separação se fêz todos dois se respeitam no presente se isso aí já deu certo antigamente nesse exemplo concreto e conhecido, imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente LETRAS|121 Naverdade,arecorrênciaaoRomantismoeàtemáticaporelesuscitada,odaculturaedaiͲ dentidade nacional, se processa em nossos diversos discursos culturais, nos mais variados momentos, desdeoseusurgimento,comodemonstramasparáfrasesdeCasimirodeAbreueascançõespatriótiͲ cas,emespecialoHinoNacional,atéosdiasatuais,comoseobservounotextodeIvanildoVilanovae BráulioTavares,oprimeirooriundodePernambuco,osegundonascidonoEstadoparaibano. PerpassandotodooperíododoNaturalismoedoRealismo,determinadostraçosdavisãoroͲ mântica alcançariam novo e intenso vigor na fase das experiências vanguardistas de 22. Momento de intensaebuliçãoeproduçãodenossaarte,emqueseagudizaanecessidadededefiniçãodonacional,o Modernismobrasileiroexibeasmaisvariadasmarcasdaestéticaromântica,desdeoseuperíodoinicial atésuafasemaistardia,atestando,assim,nãoapenasaatualidadedoRomantismo,masasuaprópria incorporação ao nosso mosaico literárioͲcultural, seja pela via da reduplicação ou endosso; seja pela negaçãoe/ouconfronto,oumesmopelocaminhodaestilização. Comoquerqueseja,orepertórioromântico,comoumaespéciedelocusderetorno,continua ainspiraranossaimaginaçãocriadora,tantoemseusmodoseruditos,quantoemsuasformaspopulaͲ res e em suas maneiras narrativas, dramáticas e poéticas. Nessa perspectiva, nos voltaremos para a leituradetextosemblemáticosdessaconstanteoperaçãoderetornoaosassuntosemodosdoRomanͲ tismo,nocapítuloquesesegue. LETRAS|122 UNIDADE IV A RETOMADA E ATUALIDADE DAS LETRAS ROMÂNTICAS Souromântico?Concedo. Exibo,semevasiva. ManuelBandeira A presença romântica nas canções cívicas (fragmentos) HinoNacional HinoàBandeira CançãodoExpedicionário Letra:JoaquimOsórioDuqueEstrada Letra:OlavoBilac Letra:GuilhermedeAlmeida Música:FranciscoManueldaSilva Música:FranciscoBragaSalve Música:SpartacoRossi Gigantepelapróprianatureza, Ésbelo,ésforte,impávidocolosͲ so, EoteufuturoespelhaessagranͲ deza. ....................................................... Emteuseioformosoretratas Pormaisterraqueeupercorra, Estecéudepuríssimoazul, NãopermitaDeusqueeumorra Averdurasempardestasmatas, Semquevolteparalá; EoesplendordoCruzeirodo Sul... Semquelevepordivisa Doqueaterramaisgarrida Teusrisonhos,lindoscampostêm maisflores; "Nossosbosquestêmmaisvida", "Nossavida"noteuseio"mais amores". Esse“V”quesimboliza Avitóriaquevirá: LETRAS|123 O Romantismo no Modernismo OSWALD DE ANDRADE (1890 – 1954) Canto de regresso à pátria (1925) Minha terra tem palmares Ouro terra amor e rosas Onde gorjeia o mar Eu quero tudo de lá Os passarinhos daqui Não permita Deus que eu morra Não cantam como os de lá Sem que volte para lá Minha terra tem mais rosas Não permita Deus que eu morra E quase que mais amores Sem que volte pra São Paulo Minha terra tem mais ouro Sem que veja a Rua 15 Minha terra tem mais terra E o progresso de São Paulo Ohquesaudadesqueeutenho Eutinhadocesvisões Dacocaínadainfância NosbanhosdeastroͲrei Doquintaldeminhaânsia Queosanosnãotrazemmais Acidadeprogredia Naquelequintaldeterra Emrodademinhacasa DaRuadeSantoAntônio Queosanosnãotrazemmais Debaixodabananeira Debaixodabananeira Semnenhumlaranjais Semnenhumlaranjais Daaurorademinhavida Dashoras Deminhainfância LETRAS|124 Meusoitoanos(1927) Pronominais(1925) DêͲmeumcigarro Dizagramática Doprofessoredoaluno Edomulatosabido Masobomnegroeobombranco DaNaçãoBrasileira Dizemtodososdias Deixadissocamarada Medáumcigarro MURILO MENDES (1901 – 1975) Canção do exílio (1930) Minha terra tem macieiras da Califórnia nossas frutas mais gostosas onde cantam gaturamos de Veneza. mas custam cem mil réis a dúzia. Os poetas da minha terra são pretos que vivem em torres de ametista, os sargentos do exército são monistas, cubistas, Ai quem me dera chupar uma os filósofos são polacos vendendo a prestações. uma carambola de verdade A gente não pode dormir e ouvir um sabiá com certidão com os oradores e os pernilongos. de idade! Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda. Eu morro sufocado em terra estrangeira. Nossas flores são mais bonitas LETRAS|125 RIBEIRO COUTO (1898 – 1963) Modinhadoexílio(1939) Emqueelecantandoestá. Osmoinhostêmpalmeiras Meusabiádaspalmeiras Ondecantaosabiá. Cantaaquimelhorquelá. Nãosãoartefeiticeiras! Mas,emterrasestrangeiras, Portodaparteondeeuvá, Eportristezasdecá, Mareterrasestrangeiras, SóànoiteeàssextasͲfeiras. Possoouvirosabiá, Nadamaissimplesnãohá! Possovermesmoaspalmeiras Cantamodasbrasileiras. Canta—equepenamedá! CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902 – 1987) Nova canção do exílio (1945) UM sabiá Onde é tudo belo na palmeira, longe. e fantástico, Estas aves cantam só, na noite, um outro canto. seria feliz. (Um sabiá, O céu cintila na palmeira, longe.) Sobre flores úmidas. Vozes na mata, Ainda um grito de vida e e o maior amor. voltar para onde é tudo belo Só, na noite, e fantástico: Seria feliz: a palmeira, o sabiá, Um sabiá, o longe. na palmeira, longe. LETRAS|126 Europa, França e Bahia (1930) MEUS olhos brasileiros sonhando exotismos. Paris. A torre Eiffel alastrada de antenas como um caranguejo. Os cais bolorentos de livros judeus e a água suja do Sena escorrendo sabedoria. O pulo da Mancha num segundo. Meus olhos espiam olhos ingleses vigilantes nas docas. Tarifas bancos fábricas trustes craques. Milhões de dorsos agachados em colônias longínquas formam um [tapete para Sua Graciosa Majestade [Britânica pisar. E a lua de Londres como um remorso. Submarinos inúteis retalham mares vencidos. O navio alemão cauteloso exporta dolicocéfalos arruinados. Hamburgo, embigo do mundo. Homens de cabeça rachada cismam em rachar a cabeça dos outros [dentro de alguns anos. A Itália explora conscienciosamente vulcões apagados, vulcões que nunca estiveram acesos a não ser na cabeça de Mussolini. E a Suíça cândida se oferece numa coleção de postais de altitudes altíssimas. Meus olhos brasileiros se enjoam da Europa. Não há mais Turquia. O impossível dos serralhos esfacela erotismos prestes a declanchar. Mas a Rússia tem as cores da vida. A Rússia é vermelha e branca. Sujeitos com um brilho esquisito nos olhos criam o filme bolchevista [e no túmulo de Lênin em Moscou [parece que um coração enorme está [batendo, batendo mas não bate igual ao da gente ... Chega! Meus olhos brasileiros se fecham saudosos. Minha boca procura a “Canção do Exílio”. Como era mesmo a “Canção do Exílio”? Eu tão esquecido de minha terra ... Ai terra que tem palmeiras onde canta o sabiá! LETRAS|127 FRANCISCO DE ASSIS (1933) / CARLOS LYRA (1939) – CPC Subdesenvolvido (1962) O Brasil é uma terra de amores Alcatifada de flores Onde a brisa fala amores Em lindas tardes de abril Correi pras bandas do sul Debaixo de um céu de anil Encontrareis um gigante deitado Santa Cruz, hoje o Brasil Mas um dia o gigante despertou Deixou de ser gigante adormecido E dele um anão se levantou Era um país subdesenvolvido Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc. (refrão) E passado o período colonial O país se transformou num bom quintal E depois de dadas as contas a Portugal Instaurou-se o latifúndio nacional, ai! Subdesenvolvido, subdesenvolvido (refrão) Então o bravo povo brasileiro Em perigos e guerras esforçado Mais que prometia a força humana Plantou couve, colheu banana.. Bravo esforço do povo brasileiro Que importou capital lá do estrangeiro Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão) As nações do mundo para cá mandaram Os seus capitais desinteressados As nações, coitadas, queriam ajudar E aquela ilha velha ajudou também País de pouca terra, só nos fez um bem LETRAS|128 Um grande bem, um 'big' bem, bom, bem, bom Nos deu luz, ah! Tirou ouro, oh! Nos deu trem, ahhh! Mas levou o nosso tesouro ooooh! Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão) Houve um tempo em que se acabaram Os tempos duros e sofridos Pois um dia aqui chegaram os capitais dos.. Estados Unidos País amigo desenvolvido País amigo, país amigo Amigo do subdesenvolvido País amigo, país amigo E nossos amigos americanos Com muita fé, com muita fé Nos deram dinheiro e nós plantamos Nada mais que café E uma terra em que plantando tudo dá Mas eles resolveram que a gente ia plantar Nada mais que café Bento que bento é o frade - frade! Na boca do forno - forno! Tirai um bolo - bolo! Fareis tudo que seu mestre mandar? Faremos todos, faremos todos... E começaram a nos vender e a nos comprar Comprar borracha - vender pneu Comprar madeira - vender navio Pra nossa vela - vender pavio Só mandaram o que sobrou de lá Matéria plástica, Que entusiástica Que coisa elástica, Que coisa drástica Rock-balada, filme de mocinho Ar refrigerado e chiclet de bola E coca-cola! Oh... Subdesenvolvido, subdesenvolvido... etc. (refrão) O povo brasileiro tem personalidade Não se impressiona com facilidade Embora pense como desenvolvido Embora dance como desenvolvido Embora cante como desenvolvido Lá, lá, la, la, la, la Êh, êh, meu boi Êh, roçado bão O meior do meu sertão Comeram o boi... Subdesenvolvido, subdesenvolvido, etc. (refrão) Tem personalidade! Não se impressiona com facilidade Embora pense, dance e cante como desenvolvido O povo brasileiro Não come como desenvolvido Não bebe como desenvolvido Vive menos, sofre mais Isso é muito importante Muito mais do que importante Pois difere os brasileiros dos demais Pela... personalidade, personalidade Personalidade sem igual Porém... subdesenvolvida, subdesenvolvida E essa é que é a vida nacional! CHICO BUARQUE DE HOLANDA (1944) Sabiá (1978) Vou voltar Sei que ainda vou voltar Para o meu lugar Foi lá E é ainda lá Que eu hei de ouvir Cantar Uma sabiá Cantar Uma sabiá Vou voltar Sei que ainda vou voltar Vou deitar à sombra de uma palmeira Que já não há Colher a flor Que já não dá E algum amor Talvez possa espantar As noites que eu não queria E anunciar O dia ... Doze anos (1978) Ai, que saudades que eu tenho Dos meus doze anos Que saudade ingrata Dar banda por aí Fazendo grandes planos E chutando lata Trocando figurinha Matando passarinho Jogando muito botão Colecionando minhoca Rodopiando pião Fazendo troca-troca Ai, que saudades que eu tenho Duma travessura O futebol de rua Sair pulando muro Olhando fechadura E vendo mulher nua Comendo fruta no pé Chupando picolé Pé-de-moleque, paçoca E disputando troféu Guerra de pipa no céu Concurso de piroca Iracema voou (1998) Iracema voou Para a América Leva roupa de lã E anda lépida Vê um filme de quando em vez Não domina o idioma inglês Tem saído ao luar Com um mímico Ambiciona estudar Canto lírico Não dá mole pra polícia Lava chão numa casa de chá Se puder, vai ficando por lá Tem saudades do Ceará Mas não muita Uns dias, afoita Me liga a cobrar – É Iracema da América LETRAS|129 JOSÉ PAULO PAES (1926 – 1998) Canção do exílio facilitada (1973) lá? ah! sabiá... papá... maná... sofá... sinhá... cá? bah! CACASO - ANTÓNIO CARLOS DE BRITO (1944 - 1987) Jogos florais (1975) I Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico. Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá. II Minha terra tem Palmares memória cala-te já. Peço licença poética Belém capital Pará. Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre. Bem, meus prezados senhores dado o avançado da hora errata e efeitos do vinho o poeta sai de fininho. (será mesmo com dois esses que se escreve paçarinho?) LETRAS|130 E com vocês a modernidade (1975) Há uma gota de sangue no cartão postal (1975) Meu verso é profundamente romântico Choram cavaquinhos luares se derramam e vai por aí a longa sombra de rumores e ciganos. Ai que saudade que tenho de meus negros verdes anos! eu sou manhoso eu sou brasileiro finjo que vou mas não vou minha janela é a moldura do luar do sertão a verde mata nos olhos verdes da mulata sou brasileiro e manhoso por isso dentro da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio na imensa solidão de latidos e araras lívido de medo e de amor EDUARDO ALVES DA COSTA (1936) Outra canção do exílio (1985) Minha terra tem Palmeiras, Corinthians e outros times de copas exuberantes que ocultam muitos crimes. As aves que aqui revoam são corvos do nunca mais, a povoar nossa noite Minha terra tem primores, A chorar sozinho, aflito, requintes de boçalidade, penso, medito e reflito, que fazem da mocidade sem encontrar solução; um delírio amordaçado: a não ser voar para dentro, acrobacia impossível voltar as costas à miséria, de saltimbanco esquizóide, à doença e ao sofrimento, equilibrado no risível sonho que transcendem o quanto possam de grandeza que se esgarça e rompe, o pensamento conceber roído pelo matreiro cupim da safadeza. e a consciência suportar. Minha terra tem encantos Minha terra tem palmeiras de recantos naturais, a baloiçar, indiferentes praias de areias monazíticas, aos poetas dementes subsolos minerais que sonham de olhos abertos que se vão e não voltam mais. a rilhar os dentes. com duros olhos de açoite que os anos esquecem jamais. Em cismar sozinho, ao relento, sob um céu poluído, sem estrelas, nenhum prazer tenho eu cá; porque me lembro do tempo em que livre na campina pulsava meu coração, voava, como livre sabiá; ciscando nas capoeiras, cantando nos matagais, onde hoje a morte tem mais flores, nossa vida mais terrores, noturnos, de mil suores fatais. Não permita Deus que eu morra pelo crime de estar atento; e possa chegar a velhice com os cabelos ao vento de melhor momento. Que eu desfrute os primores do canto do sabiá, onde gorjeia a liberdade que não encontro por cá. LETRAS|131 MORAES MOREIRA (1947) / BÉU MACHADO (1950 – 1992) Ave Nossa (1984) Minha terra tem pauleira Desencanta e faz chorar Mas tem um fio de esperança Quando canta e quando dança No assobio do sabiá O sábio sabiá Sabia assobiar Sabia assobiar E ouvia Será que o sábio sabia Que só aqui assobia O sabiá As aves que aqui rodeiam Também rodeiam por lá Na floresta, na avenida N’alguma fresta da vida A ave tenta escapar Por mais terra que eu percorra Só permita deus que eu corra Pra que eu veja esse voar Minha terra tem pauleira Desencanta e faz chorar Mas tem um fio de esperança Quando e canta e quando dança No assobio do sabiá MÁRIO DE ANDRADE (1893 – 1945) Capítulo I Macunaíma (fragmento) No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo de Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram Macunaíma. Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: – Ai! Que preguiça!... e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água-doce por lá. No mucambo se alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e freqüentava com aplicação a mura a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo. Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. LETRAS|132 Referências 1. Crítico-teóricas AGUIAR,Flávio.Asasasdeumanjo.In:ͲͲͲͲ.AcomédianacionalnoteatrodeJosédeAlencar.SãoPaulo:Ática,1984. BAREIROSAGUIER,Rubén.Encontrodeculturas.In:FERNÁNDEZMORENO,César(Org.)AméricaLatinaemsualiteratura. TraduçãodeLuizJoãoGaio.SãoPaulo:Perspectiva,1972. BOSI,Alfredo.Dialéticadacolonização.2.ed.SãoPaulo:CompanhiadasLetras,1999. ͲͲͲͲͲ.Oromantismo.In:ͲͲͲͲͲ.Históriaconcisadaliteraturabrasileira.SãoPaulo:Cultrix,1980,p.99Ͳ178. ͲͲͲͲͲ.ImagensdoRomantismonoBrasil.In:GUINSBURTG,Jacob.(Org.).ORomantismo.SãoPaulo:Perspectiva,2005. CAMARGO,Oswaldode.Oprimeiroromancebrasileiro[TeixeiraeSouza]In:ͲͲͲͲͲ.Onegroescrito:apontamentossobrea presençadonegronaliteraturabrasileira.SãoPaulo:SecretariadeEstadodeCulturadeSãoPaulo,1987. CHASTEEN,JohnCharles.AméricaLatina:umahistóriadesangueefogo.RiodeJaneiro:Campus,2001. 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