Universidade do Vale do Paraíba Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento “Variação das capacidades físicas entre diferentes modelos de treinamento: Uma abordagem no planejamento anual do futebol” Márcio Figueiredo de Castro Júnior Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas, como complementação dos créditos necessários para obtenção do título de Mestre em Ciências Biológicas. São José dos Campos, SP 2003 Universidade do Vale do Paraíba Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento “Variação das capacidades físicas entre diferentes modelos de treinamento: Uma abordagem no planejamento anual do futebol” Márcio Figueiredo de Castro Júnior Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas, como complementação dos créditos necessários para obtenção do título de Mestre em Ciências Biológicas. Orientadora: Profª. Dr.ª Patrícia Mara Danella Co-orientador: Prof. Dr. José Carlos Cogo São José dos Campos, SP 2003 “Variação das capacidades físicas entre diferentes modelos de treinamento: Uma abordagem no planejamento anual do futebol” Márcio Figueiredo de Castro Júnior Banca Examinadora Prof. Dr. Rodrigo A. B. Lopes Martins, Presidente_______________________ Profª. Dr.ª Patrícia Mara Danella, Orientadora (Univap)____________________ Prof. Dr. Paulo Roberto de Oliveira (Unicamp)___________________________ Prof. Dr. Marcos Tadeu Tavares Pacheco Diretor do IP&D São José dos Campos, 26 de Junho de 2003 AGRADECIMENTOS Agradeço aos meus pais por todo apoio durante a elaboração do trabalho; À Profª. Dr.ª Patrícia Mara Danella, pela orientação e confiança; Ao Prof. Dr. José Carlos Cogo, pela paciência; Ao Prof. Dr. Paulo Roberto de Oliveira pela atenção, auxilio e críticas indispensáveis para realização do trabalho. À Pedro Paulo, Beto e a todos os jogadores participantes da pesquisa, com os quais criei grande amizade. Ao amigo Enrique Oswaldo, pela ajuda direta na realização do trabalho. Ao Prof. Ms. Alexandre Moreira, por me incentivar nos estudos, e me auxiliar nas análises do trabalho. RESUMO O presente trabalho objetivou observar a dinâmica da variação das capacidades físicas força máxima (FM), força explosiva (FE), velocidade cíclica (VC), Índice de manifestação de força (IMF) avaliado por dinamometria isocinética, resistência anaeróbia (RAN), e resistência aeróbia (RA) dentro de dois grupos (F e NF) de jogadores de futebol com idade entre 18,5± 0,8 anos. Para o grupo F foi montado um macrociclo de treinamento baseado na proposta de Verkhoshansky- modelo de cargas concentradas de força. Para o grupo NF foi montado um macrociclo de treinamento seguindo os conceitos da periodização tradicional, ou cargas distribuídas. O macrociclo de treinamento do grupo F foi dividido em três etapas: A, B e C que se estenderam por 31 semanas. A etapa A, etapa das cargas concentradas de força, é subdividida em: A1, A2 e A3 com 2 semanas de duração cada. A etapa B, etapa de desenvolvimento do metabolismo específico e velocidade, teve duração de 6 semanas; e a etapa C, período competitivo, apresentou 16 semanas. As semanas de testes controle foram realizadas antes do inicio do treinamento (microetapa A1), depois de A3,ao final da etapa B e no meio da etapa C. Foi realizado o teste de FM no Leg Press 45°, teste de FE com salto vertical na plataforma de salto Cybex Reactor, teste de velocidade máxima em 35m, torque avaliado em dinamômetro Isocinético mensurando aos 100ms, teste de RAN com 6X35m e teste de RA com corrida de 2400m . o tratamento estatístico foi a análise de covariância com medidas repetidas seguida por teste de Scheffe, e nível de significância de 5%. Para o Grupo F os níveis de FM, FE, IMF, RAN e VC aumentaram significativamente (p<0,05), quando comparamos a etapa inicial e a etapa competitiva. Diferentemente a RA não apresentou melhora significativa. Para todos os testes, observou-se uma queda nos índices destas capacidades biomotoras no final da etapa B. Tal queda dos índices provavelmente se deve a sobrecarga metabólica do período. A etapa C observou-se o que chamamos de Efeito Posterior e Duradouro do Treinamento (EPDT), com elevação do estado funcional e das capacidades biomotoras dos atletas. No grupo NF, a análise da FM, FE, IMF, RAN não apresentou diferença significativa entre o inicio do treinamento e o período competitivo. A VC e RA mostraram elevação significativa no período competitivo. Quando comparamos os grupos, percebemos que as cargas concentradas de força, aplicadas como no presente estudo, podem ser responsáveis pelo desenvolvimento da FM, FE e VC, RAN e IMF no grupo F. Apesar da grande redução dos índices observada na etapa B, as capacidades físicas estudadas apresentaram evolução posterior dentro da etapa competitiva. Palavra-chave: Treinamento, Força, Futebol. ABSTRACT The present work has aimed to study the dynamics of the variation of the physical capacities maximum force (FM), explosive force (FE), cyclical speed (VC), Index of manifestation of force (IMF) evaluated by isokinetic, anaerobic resistance (RAN), and aerobic resistance (RA) inside of two groups (F and NF) of football players with age ranging from 18,5± 0,8 years. For group F a macrocycle of training based on the proposal of Verkhoshansky- pattern of concentrated loads of power. For group NF a macrocycle of training was following the concepts of the traditional periodization, or distributed loads. The macrocycle of training of group F was divided in three stages: A, B and C developed during 31 weeks. The stage A, stage of intent loads of force, is subdivided in: A1, A2 and A3 with 2 weeks of duration each. Stage B, stage of development of the specific metabolism and speed, had duration of 6 weeks; and stage C, competitive period, presented 16 weeks. The weeks of tests it has controlled had been carried through before initiating the training (microstage A1), after A3, to the end of stage B and in the way of stage C. Was carried through the test of FM in the Leg Press 45°, test of FE with vertical jump in the platform of Cybex Reactor, test of maximum speed in 35m, torque evaluated in Isokinetic Biodex at 100ms, test of RAN with 6X35m, and test of RA with race of 2400m. The statistical work accomplished was analysis of covariância with repeated measures followed by test of Scheffe, and level of significance of 5%. For Group F the levels of FM, FE, IMF, RAN and VC had increased significantly (p<0,05), when we compare the initial stage and the competitive period. Differently, the RA did not present significant improvement. For all the tests, a fall in the indices of these biomotoras capacities in the end of stage B. Such fall of the indices probably if must the metabolic overload of the period. In group NF, the analysis of the FM, FE, IMF, RAN did not present significant difference enters the beginning of the training and the competitive period. VC and the RA had shown significant rise in the competitive period. When we compare the groups, we perceive that the intent loads of force, applied as in the present study, can be responsible for the development of the FM, FE and VC, RAN and IMF in group F. Despite the great reduction of the capacities observed in the stage B, they had inside presented posterior evolution of the competitive stage. Key-words: Training, Power, Soccer SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................... 1 1.1TREINAMENTO ...................................................................................................... 3 1.1.1 PRINCÍPIOS DO TREINAMENTO FÍSICO.......................................................... 4 1.1.2 MEIOS E MÉTODOS DO TREINAMENTO FÍSICO............................................ 5 1.1.3 FONTES ENERGÉTICAS E TREINAMENTO FÍSICO ....................................... 5 1.1.3.1 SISTEMA ANAERÓBIO ALÁTICO .................................................................. 6 1.1.3.2 SISTEMA ANAERÓBIO LÁCTICO .................................................................. 6 1.1.3.3 SISTEMA AERÓBIO....................................................................................... 7 1.1.4 CAPACIDADES BIOMOTORAS........................................................................ 7 1.1.4.1 FORÇA ............................................................................................................ 7 1.1.4.2 RESISTÊNCIA ................................................................................................ 8 1.1.4.3 VELOCIDADE.................................................................................................. 9 1.2 TREINAMENTO NO FUTEBOL ........................................................................... 9 1.2.1 QUANTIFICAÇÃO DO TRABALHO FÍSICO NO FUTEBOL..............................10 1.2.2 METABOLISMO ENERGÉTICO NO FUTEBOL ...............................................11 1.3 MODELOS DE TREINAMENTO .......................................................................13 1.4 JUSTIFICATIVA...................................................................................................16 2. OBJETIVO GERAL................................................................................................17 2.1 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................................17 3. HIPÓTESES DE TRABALHO ................................................................................17 3.1 HIPÓTESE NULA .............................................................................................17 3.2 HIPÓTESE EXPERIMENTAL............................................................................17 4. METODOLOGIA .....................................................................................................18 4.1 GRUPO DE ESTUDO ...........................................................................................18 4.2 MODELO EXPERIMENTAL : GRUPO F..............................................................18 4.2.1 BLOCO A – BLOCO DE FORÇA......................................................................19 4.2.2 BLOCO B – BLOCO DO METABOLISMO ESPECÍFICO ..................................20 4.2.3 BLOCO C – COMPETITIVO ............................................................................20 4.3 MODELO EXPERIMENTAL : GRUPO NF ............................................................21 4.4 PADRÃO DE TREINAMENTO .............................................................................21 4.5 CONTROLE DO PROCESSO DE TREINAMENTO .............................................23 4.6 PADRONIZAÇÃO DOS TESTES..........................................................................23 4.6.1 LOCAL DOS TESTES .......................................................................................23 4.7 CAPACIDADES BIOMOTORAS..........................................................................23 4.8 TESTES MOTORES ............................................................................................24 4.8.1 TESTE DE FORÇA MÁXIMA...........................................................................24 4.8.2 TESTE DE FORÇA EXPLOSIVA .....................................................................24 4.8.3 TESTE DE VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO ...........................25 4.8.4 TESTE DE RESISTÊNCIA ANAERÓBIA.........................................................26 4.8.5 TESTE DE RESISTÊNCIA AERÓBIA..............................................................26 4.8.6 TESTE DO ÍNDICE DE MANIFESTAÇÃO DE FORÇA AVALIADO POR DINAMÔMETRO ISOCINÉTICO.................................................................................27 4.9 ANÁLISE ESTATÍSTICA. ....................................................................................28 5. RESULTADOS e DISCUSSÃO..............................................................................29 5.1 DINÂMICA DE ALTERAÇÕES DA FORÇA VOLUNTÁRIA MÁXIMA ..................29 5.1.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS....................................................................31 5.2 DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO ÍNDICE DE MANIFESTAÇÃO DE FORÇA TORQUE AVALIADO AOS 100ms.............................................................................33 5.3 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA FORÇA EXPLOSIVA.................................35 5.3.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS....................................................................37 5.4 DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO TEMPO NA CORRIDA DE 35m VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO ........................................................38 5.4.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS....................................................................40 5.5 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA RESISTÊNCIA ANAERÓBIA....................41 5.5.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS....................................................................43 5.6 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA RESISTÊNCIA AERÓBIA.........................44 5.6.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS....................................................................46 6. CONCLUSÕES .......................................................................................................47 7. REFERÊNCIAS.......................................................................................................48 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Organograma da divisão em etapas e microetapas do treinamento.. ...........18 Figura 2: Teste de 1 RM realizado no Leg Press.........................................................24 Figura 3: Teste de Salto vertical com contramovimento realizado na plataforma de salto no Laboratório de Biodinâmica da UNIVAP. ................................................25 Figura 4: Atleta executando corrida em velocidade máxima em 35 m. Local da realização dos testes de velocidade cíclica e resistência anaeróbia. ....................26 Figura 5: As curvas força-tempo A e B, registrada por dinamometria isocinética. Em A, curva antes do treinamento; em B, curva com inclinação acentuada, representando maior manifestação de força nos momentos iniciais do movimento. .............................................................................................................................27 Figura 6: Índice de Manifestação de Força (Força explosiva), avaliada no Dinamômetro Isocinético, do Laboratório de Biodinâmica da UNIVAP..................28 Figura 7: Comparação entre os grupos F e NF em relação às alterações de força máxima durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais, e a média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque. .............29 Figura 8: Nível de força avaliado pelo Isocinético nos primeiros 100ms na extensão do joelho no momento inicial (A1) e no momento (A3). Comparação entre grupo F e NF.........................................................................................................................33 Figura 9: Comparação entre os grupos F e NF em relação as alterações do nível de força explosiva durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais, e a média de cada grupo esta representada pela linha preta em destaque. ........35 Figura 10: Comparação entre os Grupos F e NF em relação as alterações da velocidade de deslocamento cíclico durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais e média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque. ........................................................................................................38 Figura 11: Comparação entre os grupos F e NF em relação às alterações da resistência anaeróbia durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais e a média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque...............................................................................................................41 Figura 12: Comparação entre os grupos F e NF das alterações da resistência aeróbia durante todo o período de treinamento. Os Valores são individuais e a média de cada grupo esta representada pela linha preta em destaque................................44 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Características dos esforços dentro do volume total de corridas durante uma partida em 3 jogadores. ........................................................................................10 Tabela 2: corridas em diferentes intensidade verificadas durante um jogo..................11 Tabela 3: Objetivos e Exemplos de exercícios desenvolvidos nas Etapas de treinamento do ciclo anual do Grupo F (Verkhoshansky,1995 adaptado para o presente estudo)...................................................................................................22 Tabela 4: Objetivos e Exemplos de exercícios desenvolvidos nas Etapas de treinamento do ciclo anual do Grupo NF. ( Matveev,1997 adaptado para o presente estudo)...................................................................................................22 Tabela 5: Média e desvio padrão das cargas máximas (kg) e significância estatística ANCOVA, para as alterações no nível de força máxima nas etapas de treinamento...........................................................................................................29 Tabela 6: Média e desvio padrão do torque (N/m) avaliado em 100ms e significância estatística ANCOVA, para as alterações no nível do IMF dos atletas nas etapas de treinamento...........................................................................................................33 Tabela 7: Média e desvio padrão do salto vertical (cm) - Força Explosiva e significância estatística ANCOVA para as alterações no nível da altura vertical nas etapas de treinamento...........................................................................................................35 Tabela 8: Média e desvio padrão da velocidade de deslocamento cíclico (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento....................38 Tabela 9: Média e desvio padrão da resistência anaeróbia (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento .......................................41 Tabela 10: Média e desvio padrão da resistência aeróbia (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento .......................................44 1 1. INTRODUÇÃO O treinamento desportivo representa um processo pedagogicamente organizado, cuja base é constituída pelos métodos de exercícios físicos (estímulos) que visam o aperfeiçoamento máximo de todas as potencialidades do organismo do desportista (ZAKHAROV,1992). Para otimizar o desempenho esportivo é necessário uma reorganização orgânica e funcional do indivíduo; a qual recebe o nome de adaptação (WEINECK,1991). O estímulo ou “carga” do treinamento gera perturbação da homeostase, e a conseqüente elevação do estado funcional (WEINECK,1999). Matveev (1997) ,ainda diz que, alterações biológicas de adaptações (funcionais e morfológicas) operam-se por influência do treinamento. O treinamento induz alterações fisiológicas em quase todos os sistemas do corpo, particularmente nos músculos esqueléticos e no sistema cardiorespiratório. Entende-se então que o treinamento físico causa alterações em nível tecidual, ou seja, alterações bioquímicas e estruturais no músculo e também causa mudanças sistêmicas, ou seja, as que afetam os sistemas circulatório e respiratório. (FOX,1991). Para melhorar as capacidades físicas de um atleta (força, velocidade e resistência), devem ser dados exercícios e tarefas (estímulos) que trabalhem com a musculatura específica (grupo muscular exigido no desporto). O maior desenvolvimento dessa musculatura, no que se refere a capacidade de executar contrações rápidas e fortes e tolerar fadiga, é o objetivo do treinamento físico. ( VERKHOSHANSKY, 2000). Dentro do processo de treinamento, o maior desafio é conseguir as adaptações orgânicas que possibilitem a melhor performance do atleta. Desta forma, a metodologia de treinamento a ser aplicada é responsável pelo resultado e o sucesso do atleta. Os meios e métodos aplicáveis dentro do treinamento determinam a eficácia do processo, sendo assim, podemos atingir ou não desenvolvimento otimizado do organismo dependendo da metodologia aplicada. Organizar um plano de treinamento requer então conhecimento das teorias do treinamento, assim como das características do desporto em questão. 2 O futebol atual, devido à característica do jogo, forma do campeonato, e calendário anual, exige estruturação do treinamento de forma otimizada e racional. A necessidade de se obter ganhos fisiológicos e de rendimento em pouco tempo, ou de manter a “forma” dentro das competições, reflete a busca por metodologias de treinamento mais adequadas. Dentre as formas de treinamento podemos citar a metodologia tradicional, que emprega o desenvolvimento simultâneo das capacidades físicas - cargas distribuídas; e não consideram as influências negativas que uma capacidade pode causar sobre a outra. (MATVEEV, 1997). E em contra partida a metodologia contemporânea, defendida por Verkhoshansky (1990), onde a força motora é pré requisito para desenvolvimento da coordenaçãocargas concentradas. O autor defende a idéia de que através do desenvolvimento individualizado da força motora, criam-se condições para aquisição de potência e velocidade no gesto motor. (VERKHOSHANSKY, 1990; VERKHOSHANSKY, 2000). O presente estudo propõem uma comparação entre metodologias de treinamento dentro do desporto futebol. Já que atualmente a forma tradicional é a que parece predominar neste desporto, um confronto com metodologia contemporânea parece relevante. 3 1.1 TREINAMENTO O treinamento desportivo é um processo complexo, visando obter efeitos sobre todas as características do atleta; é planificado, pois os objetivos, métodos, os processos e a organização são previamente estabelecidos; e é orientado, dado que todas as ações e procedimentos levam a um caminho direto para se atingir os objetivos conforme Carl, (1989) (citado por WEINECK,1999). Para Matveev (1997) e Zakharov (1992), o treino é um processo especializado e orientado diretamente para obtenção de elevado desempenho desportivo. Os estímulos ou “carga” do treinamento geram perturbações da homeostase1, e a conseqüente elevação do estado funcional: adaptação (WEINECK,1999). Matveev (1997) ainda diz que, alterações biológicas de adaptação (funcionais e morfológicas) ocorrem por influência do treinamento. Os possíveis tipos ou modelos de treinamento são desenvolvidos com o propósito de alcançar tais alterações orgânicas (FOX,1991). Estes modelos de treinamento tem como objetivo criar perturbações na homeostase de forma organizada. Os seguidos estímulos dos exercícios, acumulados, acabam gerando a adaptação fisiológica necessária. A programação, organização e controle do treino norteiam o modo como os estímulos serão aplicados no organismo, além de sua distribuição temporal (ao longo de todo o processo de treino) (GOMES, 2002; VERKHOSHANSKY, 2001; VERKHOSHANSKY, 1990). Desta forma, fica claro que o treinamento tem como objetivo principal, através dos estímulos dos exercícios, gerar adaptações biológicas no organismo, e assim aprimorar o desempenho em tarefas específicas (McARDLLE,1998). Conhecer estes fatores tem grande relevância ao estabelecer um treinamento eficaz. Os princípios do treinamento esportivo servem para otimizar a escolha e execução de métodos pelos treinadores. 1 Entende-se por homeostase o estado de equilíbrio bioquímico dinâmico do meio interno do organismo (McARDLLE,1998; WEINECK,1999). 4 1.1.1 PRINCÍPIOS DO TREINAMENTO FÍSICO O treinamento físico, ou preparação física, constitui parte do sistema de treinamento do atleta, cujo objetivo é o aprimoramento do desempenho desportivo. Isto é conseguido pela educação das capacidades físicas (ZAKHAROV,1992). Capacidades físicas ou funcionais podem ser definidas como o conjunto de propriedades orgânicas que se revelam no processo da interação: organismo-exercício (ZAKHAROV,1992). Podemos citar como capacidades biomotoras ou principais requisitos motores: Força, Velocidade e Resistência (ZAKHAROV,1992; WEINECK,1991). O que deve ser entendido é que qualquer interação; tarefa motora ou exercício realizado, são resolvidos graças a essas propriedades do organismo, ou seja, as capacidades biomotoras (ZAKHAROV,1992). Sendo as capacidades biomotoras as propriedades psicomotoras que asseguram a efetividade útil da atividade muscular, é de extrema importância conhecer os mecanismos fisiológicos que as desenvolvam. ( GOMES, 2002). Sendo a musculatura específica alvo do treino físico, qualquer programa de condicionamento ou treinamento deve seguir estes princípios básicos: (1) reconhecer a principal fonte energética utilizada na realização da atividade do atleta treinado (princípio da especificidade); e (2) construir um programa com seus meios e métodos aplicáveis capaz de desenvolver essas fontes energéticas em particular mais do que qualquer outra (princípio da sobrecarga) (FOX,1989; WEINECK,1991) Dentro dessa visão, percebe-se que na montagem de um treinamento físico, a preocupação deve ser com os meios e métodos empregados, para se atingir desenvolvimento das fontes energéticas predominantes. É claro que aqui estamos dando ênfase na preparação física propriamente dita, não nos preocupando com a coordenação, a técnica e a tática; partes fundamentais de toda a metodologia do treinamento. 5 1.1.2 MEIOS E MÉTODOS DO TREINAMENTO FÍSICO Quando falamos de meios e métodos do treinamento estamos nos referindo aos exercícios e de que forma estes serão aplicados durante toda a programação. Esta forma de aplicação dos exercícios dentro de um modelo de treinamento pretende criar as já citadas perturbações na homeostase. Dentro do processo de treinamento o maior desafio será atingir a eficácia, integrando no treino os diferentes estímulos necessários para desenvolver as diferentes capacidades físicas. (GONZALEZ,2001). Os meios e métodos aplicáveis deverão de forma organizada e cronológica distribuir-se ao longo do processo de treinamento. (ZAKHAROV, 1992). Para cada capacidades biomotoras ( força, velocidade e resistência), existem diferentes estímulos de treino, ou seja, meios e métodos específicos de exercícios. (TOLEDO, 2000). 1.1.3 FONTES ENERGÉTICAS E TREINAMENTO FÍSICO Como citamos anteriormente, um dos princípios básicos do treinamento envolve descobrir a principal fonte de energia utilizada na atividade do atleta. Sendo assim, conhecer os sistemas de fornecimento energético do organismo é relevante. O fornecimento do ATP, ou sua ressíntese ocorre através de reações bioquímicas baseadas em três mecanismos energéticos: 1) Sistema anaeróbio alático, ou sistema do ATP-CP, onde a fosfocreatina (CP) é hidrolisada para formação de ATP. 2) Glicólise Anaeróbia, sistema anaeróbio láctico ou sistema do ácido láctico, onde há formação de ATP a partir da degradação parcial da glicose ou glicogênio. 3) Glicólise Aeróbia ou sistema aeróbio, formando o ATP com a degradação total dos carboidratos e das gorduras pelo processo oxidativo. (GASTIN, 2001;MCARDLE, 1998; FOX,1991; PLATONOV, 1991; ZAKHAROV, 1992). Sabemos portanto que a fonte energética utilizada no desporto será o ATP; nos resta agora saber qual o(s) mecanismo(s) vai ser responsável pela 6 seu fornecimento ou ressíntese. Segundo McArdle(1998), as atividades físicas podem ser classificadas em função do sistema específico de transferência de energia que ativam predominantemente; isto quer dizer que conforme a intensidade e duração do gesto motor, serão exigidos sistemas energéticos diferentes, e classificados diferentemente. Reconhecendo quais são as fontes energéticas utilizadas em maior grau em uma atividade, poderemos prescrever os exercícios e sua forma de execução para desenvolver esse sistema energético em particular, mais do que qualquer outro (FOX,1991). 1.1.3.1 SISTEMA ANAERÓBIO ALÁTICO O Sistema Anaeróbio alático, ou do ATP-CP possui a maior velocidade de liberação de energia, assegurando o trabalho muscular já nos primeiros segundos de atividade. Sem esse sistema, os movimentos rápidos, vigorosos e curtos não poderiam ser realizados, pois essas atividades exigem muito mais um fornecimento rápido do que uma grande quantidade de energia de ATP. Os motivos de ser essa via a mais rápida, é pelo fato de que não depende de uma longa série de reações químicas, não depende do transporte do oxigênio, e ATP e CP estão armazenados no próprio músculo. Esse sistema assegura energia para trabalho potente até 10 segundos, e não mais do que 30 segundos, onde as reservas de CP já se esgotaram (MCARDLE,1998; ZAKHAROV, 1992; WEINECK,1991; PLATONOV, 1991). 1.1.3.2 SISTEMA ANAERÓBIO LÁCTICO A Glicólise Anaeróbia, assim como o sistema anterior ressintetiza ATP sem a presença de oxigênio. A desintegração parcial do glicose gera o ácido láctico. A glicólise anaeróbia pode ser considerada mais complicada do que o sistema anaeróbio alático quimicamente falando, pois requer várias reações químicas para sua concretização. Na realização dos exercícios a glicólise anaeróbia é extremamente importante já que proporciona ATP de uma forma relativamente rápida. Esse sistema não é tão potente quanto o anterior, porém tem mais capacidade energética; isto é, assegura o trabalho muscular potente entre 1 e 3 minutos. Sua capacidade é limitada pela concentração de lactato no 7 sangue (fadiga muscular2). (MCARDLE,1998; WEINECK,1991; ZAKHAROV, 1992). 1.1.3.3 SISTEMA AERÓBIO A Glicólise Aeróbia ressintetiza ATP com a presença de oxigênio. A desintegração completa do carboidrato garante a essa via grande capacidade máxima, porém tem pouca potência na produção de ATP. Isso significa que tal via garante suporte energético por até 60 minutos ou mais para exercícios moderado, porém não garante energia de uma forma imediata (MCARDLE,1998; WEINECK,1991; ZAKHAROV, 1992). Podemos perceber com as descrições acima que a intensidade do trabalho realizado, assim como a duração desse gesto motor influencia diretamente a via energética utilizada pelo organismo. 1.1.4 CAPACIDADES BIOMOTORAS Reconhecer as capacidades físicas e entender como desenvolve-las é de grande importância para alcançar bom desempenho esportivo. São elas: 1.1.4.1 FORÇA Em todas as atividades esportivas a melhora da força constitui um fator importante, e de certa forma determinante. Se desenvolvida de maneira correta não será prejudicial ao esportista. A força no âmbito esportivo, é entendida como a capacidade do músculo de produzir tensão ao ativar-se ou contrair-se (GONZALEZ,2001). Os fatores básicos que a determinam são de caráter morfológico e fisiológico, isto é, a força é determinada pela própria estrutura muscular (tipo de fibras, reservas energéticas ), e pela ativação nervosa imposta ( recrutamento e freqüência de ativação nervosa), além de fatores hormonais. ² Fadiga muscular é o estado de desconforto e de menor eficiência que resulta de um esforço prolongado e excessivo. (Fox, 1989) 8 A força pode ser dividida em: Força Máxima, Força Explosiva e Resistência de Força (GONZALEZ,2001; WEINECK,1999). O conhecimento desses tipos de força é de grande importância para a montagem de um programa de treinamento. Força Máxima – “É a força máxima que o sistema nervo-músculo pode realizar dentro de uma seqüência de movimento, com uma contração” (WEINECK,1991). Se analisarmos essa definição com o que foi citado anteriormente, percebemos que a força máxima é expressada com ativação de quase, senão todas, as unidades motoras( FLECK,1999; GONZALEZ,2001). Força Explosiva – A Força Explosiva compreende a capacidade do sistema neuromuscular que desenvolve alta velocidade de ação, ou de conseguir manifestar níveis consideráveis de força em condições limitadas de tempo (VERKHOSHANSKY,1995; GONZALEZ,2001; ZATSIORSKY,1999). A força explosiva baseia-se na capacidade de desenvolver uma grande força pelo recrutamento instantâneo de maior número de unidades motoras (GONZALEZ,2001). Resistência de Força – Representa a capacidade de resistência à fadiga da musculatura em desenvolvimento prolongado de força (WEINECK,1999). Verkhoshansky (1990) descreve que a resistência local manifesta-se na capacidade de expressar, a longo prazo, o componente de força do exercício. 1.1.4.2 RESISTÊNCIA Podemos compreender resistência como a capacidade do esportista resistir à fadiga; ou realizar trabalho muscular durante um tempo prolongado mantendo parâmetros do movimento Podemos dividir o treinamento de resistência, quanto a sua mobilização energética, em resistência aeróbia e anaeróbia. (WEINECK,1991;ZAKHAROV,1992; VERKHOSHANSKY,2001). Resistência Aeróbia – É a capacidade de resistir a esforços aeróbios, ou seja, manter/sustentar condições de trabalho muscular de exercícios que utilizam a via da glicólise aeróbia. A resistência aeróbia depende 9 principalmente da capacidade dos sistemas cardiovascular, respiratórios e metabólico conforme HOLLMANN (1980) (citado por WEINECK,1991). Resistência Anaeróbia – É a capacidade de resistir à estímulos de alta intensidade e curta duração. Depende do sistema anaeróbio (alático e láctico) como via de obtenção de energia (MCARDLE,1998; FOX,1991; PLATONOV,1991). 1.1.4.3 VELOCIDADE Velocidade é a capacidade de completar a ação motora, sob determinadas condições, em curto espaço de tempo (ZAKHAROV,1992; WEINECK,1991). Segundo este último autor, podemos dividir a velocidade em: velocidades de reação, cíclica e acíclica. Para o presente estudo somente a velocidade cíclica será abordada. Velocidade Cíclica – Velocidade de Deslocamento Progressivo – Consiste na realização de ações motoras seqüenciais ritmicamente repetidas (WEINECK,1991). A velocidade depende da força da musculatura, tipo de fibra envolvida, impulsos por parte do SNC, das reservas energéticas e sua mobilização e coordenação (WEINECK,1999; VERKHOSHANSKY,2001). Uma melhora na força , no que refere aos ganhos citados acima, vem sempre acompanhada de um aumento da velocidade de movimento segundo Buehrle-Schmidtbleicher,1981 (citado por WEINECK, 1991). Um impulso de força tem grande influência sobre a amplitude dos passos, ou sobre sua freqüência; isso quer dizer que, o impulso de força é determinante na velocidade da corrida (GONZALEZ,2001). Quando se trata de velocidade, tais ações são sustentadas pelas vias anaeróbias aláticas ou lácticas dependendo da intensidade e tempo de esforço. 1.2 TREINAMENTO NO FUTEBOL Baseado nos dados descritos, o importante, durante a realização do treinamento, é identificar as variáveis metabólicas e motoras que intervêm predominantemente no rendimento de um atleta, e buscar no treinamento os 10 meios e métodos aplicáveis para melhora do desempenho (TOLEDO,2000). Parece necessário descobrir quais são as principais ações no futebol, sua intensidade e freqüência, grupos musculares envolvidos e, desta forma, tentar determinar os sistemas metabólicos de produção de energia. A organização do treinamento no futebol se faz extremamente necessária pelo fato deste ser considerado um desporto complexo. Essa complexidade está diretamente ligada as características do jogo, que apresenta atividades diversificadas ( corridas curtas para frente, trás e para os lados, além dos saltos e dribles) e não uniformes (corridas aceleradas, lentas explosivas) (TOLEDO,2000). 1.2.1 QUANTIFICAÇÃO DO TRABALHO FÍSICO NO FUTEBOL Para que façamos a estruturação do treinamento, devemos conhecer as particularidades das ações físicas no futebol, tais como: distância total percorrida pelos atletas, distâncias percorridas com diferentes intensidades, formas de deslocamentos e gestos particulares do jogo (TOLEDO,2000). Conhecendo as características motoras do desporto talvez possamos destacar o metabolismo exigido, assim como as respostas fisiológicas correspondentes. A freqüência cardíaca, o consumo de O2, a pressão arterial e o lactato são variáveis fisiológicas que nos trazem parâmetros variados em função do jogador analisado, da posição do mesmo, do jogo em questão e de condições climáticas (TOLEDO, 2000; AMORIN, 1998). Dentro do volume total do jogo, alguns autores analisaram as formas de deslocamento em diferentes intensidades. Fernandes (1994) citados por Toledo(2000), propõe os seguintes valores: Tabela 1: Características dos esforços dentro do volume total de corridas durante uma partida em 3 jogadores. (Fernandes, 1994) Características dos Esforços Corrida Lenta Velocidade Submáxima Sprint Corrida para Trás 2095m 1588m 789m 498m 4040m 2159m 1063m 498m 2769m 1752m 1068m 498m 11 Godik, 1996( citado por Toledo (2000), mostra os seguintes valores: Tabela 2: corridas em diferentes intensidades verificadas durante um jogo. (Godik, 1996) Características dos Esforços Corrida Lenta Velocidade Submáxima 800m Sprint Jogador 1 2000m 600m Jogador 2 2100m 1000m 800m Jogador 3 1900m 900m 700m Jogador 4 2300m 700m 200m Bosco,1990 descreve em seu trabalho que do volume total percorrido durante a partida, 15% a 39% é desenvolvido em velocidades máximas. Segundo Fernandes,1994 (citado por TOLEDO,2000), os deslocamentos em intensidade máxima ocorrem em distâncias que variam de 3 a 30 metros em sua maioria, predominando distâncias entre 10 e 15 metros. Amorim (1998), mostra que a deslocamento das corridas rápidas concentram-se entre 3 e 20 metros; e que distâncias maiores que 40 metros poucas vezes são realizadas. Podemos antecipadamente analisar os dados acima e perceber que existe grande participação das corridas de alta velocidade no futebol, as quais são realizadas em metragens curtas. As corridas lentas são realizadas em ações não decisivas, geralmente sem a posse da bola ou em momentos de recuperação. Assim, como na maioria das modalidades esportivas, as ações rápidas são as que determinam o jogo. Quantificar os esforços no futebol é importante para que se possa dar ao treinamento físico um caráter mais específico de trabalho. A especificidade é alcançada analisando-se também os fatores metabólicos desses esforços. 1.2.2 METABOLISMO ENERGÉTICO NO FUTEBOL Para Ananias ,1998 (citado por TOLEDO,2000) as ações motoras no futebol tem um predomínio aeróbio, devido a distância total percorrida ao final da partida. 12 Porém, não podemos esquecer que o envolvimento de corridas em velocidade máxima e submáxima é também expressivo. As ações determinantes que predominam nos momentos de maior importância durante o jogo são as de velocidade máxima, que exigem o metabolismo alático e lático. Tradicionalmente os preparadores físicos dão prioridade para o desenvolvimento das capacidades aeróbicas do atleta. O que parece acontecer é que alguns preparadores consideram que estas capacidades respiratórias possam assegurar a força explosiva, resistência de força e velocidade. Devido a complexidade das ações motoras do futebol, sua capacidade não se limita à resistência aeróbica; e segundo Bosco(1990) e Amorin(1998), os esforços decisivos realizados pelos atletas de futebol durante a partida caracterizam-se como anaeróbico alático com pequena participação do metabolismo anaeróbio láctico. Entende-se desta forma que os arranques ofensivos e defensivos (corridas de 5-25m) apresentam característica de utilização do metabolismo anaeróbio. ( GASTIN, 2001; TOLEDO, 2000) Parece que o metabolismo anaeróbico proporciona energia para ações motoras decisivas e determinantes, e o sistema aeróbico passa a ter um importante significado no que se refere ao processo de recuperação ativa entre as ações intensas do desporto futebol (FOX,1991; MCARDLE,1998; TOLEDO,2000). A via do metabolismo aeróbio é requerida nos momentos de recuperação, passando a ter importância nos intervalos de descanso entre os esforços curtos e intensos. (TOLEDO, 2000; VERKHOSHANSKY, 2000). Segundo Verkhoskansky(1990), aumentar a resistência depende não só do aumento do aumento do oxigênio no sangue, mas também da melhora no transporte e aumento da capacidade do músculo em utilizar melhor o oxigênio (dif.A-V02.). Pode-se dizer que a condição interna do músculo (capacidade contrátil e oxidativa, além do conteúdo das reservas energéticas), submetido a treinamento intenso, é quem determina o nível de resistência, e não somente a capacidade respiratória. Portanto, o desenvolvimento da resistência depende não só do aperfeiçoamento da capacidade respiratória, mas também da especialização funcional do sistema muscular. Entenda especialização como 13 tornar o músculo com maior capacidade de suportar a fadiga em trabalhos intensos e/ou prolongados ( aumentar suas reservas energéticas, capacidade contrátil e condução nervosa). ( VERKHOSHANSKY, 2001; McARDLE, 1998). Esta melhora do sistema muscular depende exclusivamente do tipo de treinamento empregado. O jogo de futebol apresenta gestos motores que causam sobrecarga no sistema músculo-esquelético; e desta forma, exige preparação do atleta futebolista para aquisição de capacidades biomotoras que preparem o músculo ou grupo muscular para reagir em alta velocidade, resistir a estímulos repetitivos e suportar grandes cargas. Como descrito anteriormente, as capacidades biomotoras que satisfazem esta necessidade muscular são a força ( explosiva, máxima) e resistência (anaeróbia e aeróbia). Dentro dessa idéia, deve ser criado um programa que desenvolva a capacidade muscular, no que se refere a especialização morfo-funcional, e neuromuscular. Esta especialização objetivará melhorar os processos contráteis da fibra muscular pela hipertrofia sarcoplasmática e miofibrilar, além de aumento do número de mitocôndrias, das reservas de glicogênio e mioglobina. Ainda há o desenvolvimento dos processos neurais, que são o desenvolvimento na capacidade de recrutar mais unidades motoras e aumentar sua frequencia de ativação. (VERKHOSHANSKY, 2000; VERKHOSHANSKY, 1995; McARDLE, 1998; SALE, 1988; HAKKINEN, 1986). Essa adaptação neuromuscular é responsável pelo desenvolvimento da força, resistência e aumento da eficiência dos gestos motores (MCARDLE,1998; FOX,1991; WEINECK,1991). Os sistemas de treinamento que podem desenvolver esta especialização morfofuncional serão ferramentas deste presente estudo e estarão descritos à seguir. 1.3 MODELOS DE TREINAMENTO Com o passar dos anos a periodização do treinamento desportivo modificou-se freqüentemente. Um modelo de treinamento nada mais é do que um esquema teórico do sistema que se elabora como objetivo de facilitar sua organização. ( GOMES, 2002) 14 O que observa-se nos diferentes modelos apresentados na literatura é que alguns já não são suficientes para dar suporte aos requisitos do calendário desportivo atual. ( GOMES, 2002; TOLEDO, 2000). Dentre os mais conhecidos e utilizados modelos de treinamento no mundo desportivo temos: MODELOS TRADICIONAIS; onde as idéias principais são: Predomínio do trabalho de preparação geral do atleta (enfase nos exercícios que geram a base, ou condições fisiológicas básicas necessárias para os treinos futuros) (MATVEEV,1997). Desenvolvimento simultâneo de diferentes capacidades (biomotoras) em um mesmo período de tempo ( ou seja, o organismo do atleta é submetido a diferentes estímulos metabólicos, devendo se adaptar a cada um deles dentro do processo de treino) (MATVEEV,1997). Pouca importância ao trabalho específico ( não havia preocupação em destacar os exercícios com características competitivas) ( VERKHOSHANSKY, 1990). (GOMES, 2002). MODELOS CONTEMPORÂNEOS; caracterizado por: Concentração das cargas de treinamento da mesma orientação em períodos de curta duração com distribuição destas de forma organizada. ( o organismo do atleta era estimulado com os exercícios a se adaptar em uma única orientação fisiológica, isto é, as adaptações orgânicas, que eram objetivo do treinamento, eram resultados específicos de estímulos orientados. Não havia conflito entre diferentes estímulos, para diferentes adaptações fisiológicas). (OLIVEIRA, 1998; TOLEDO, 2000) Ênfase no trabalho específico de treinamento (diferentemente dos conceitos tradicionais, neste modelo a preocupação era com os exercícios semelhantes aos da competição – exercícios de grande mobilização dos recursos maximizados do organismo). (OLIVEIRA, 1998). (GOMES, 2002). 15 O que observamos é a diferença extrema entre modelos de treinamento que procuram da mesma forma alcançar as capacidades ótimas do desportista; desenvolver fisiológicamente todo seu potencial orgânico para realização do gesto esportivo. O que na verdade se busca com o treinamento desportivo é o melhor desempenho do atleta, que somente é atingido por desenvolvimento particularizado de (ZAKHAROV, 1992). suas funções orgânicas associadas ao desporto. 16 1.4 JUSTIFICATIVA Por ser o futebol um desporto complexo, devido à habilidade técnica e preparação física, e pelo fato que muito do que conhecemos no futebol modificou-se com o passar dos anos, em relação as características do jogo, forma do campeonato, calendário anual, além das influências da organização empresarial, torna-se relevante um estudo que reavalie o método tradicional. Criar um treinamento mais específico para adaptações morfo-funcionais (neuromusculares), objetivando alcançar o aperfeiçoamento do metabolismo específico, e dessa forma obter possível ganho em velocidade e coordenação parece adequado para o desporto futebol. Dessa forma, este trabalho sugere dentro do planejamento do treino, uma periodização Verkhoshansky. do mesmo em blocos, segundo a proposta de 17 2. OBJETIVO GERAL Organizar a periodização de um treinamento para jogadores de futebol, através de preparação física especial. 2.1 OBJETIVOS ESPECÍFICOS - Controlar as diferentes capacidades Biomotoras adquiridas ( Força Máxima, Força Explosiva, Resistência Aeróbia e Anaeróbia e Velocidade Cíclica), observando a dinâmica da alteração de diferentes indicadores externos do processo de treinamento. - Comparar a metodologia das cargas concentradas e distribuídas e sua influência na dinâmica de alterações de diferentes indicadores externos. 3. HIPÓTESES DE TRABALHO 3.1 HIPÓTESE NULA Os níveis de capacidade biomotora selecionadas não apresentam significativa alteração nas diferentes etapas do modelo proposto. 3.2 HIPÓTESE EXPERIMENTAL Os níveis de capacidade biomotora selecionadas apresentam alterações significativas nas diferentes etapas do modelo proposto. 18 4. METODOLOGIA 4.1 GRUPO DE ESTUDO Participaram da pesquisa 24 jogadores de futebol do sexo masculino, com idade de 18,5 ± 0,8 anos. Os atletas fazem parte da equipe de Juniores do São José Esporte Clube (SJEC), participante do Campeonato Paulista de Futebol. Os atletas foram divididos em dois grupos de 12 jogadores, sendo aplicado para cada grupo uma metodologia de treinamento diferente. O jogadores que treinaram seguindo a metodologia proposta por Verkhoshanshy formaram o Grupo F; já os atletas que seguiram a metodologia tradicional foram chamados de Grupo NF. 4.2 MODELO EXPERIMENTAL : GRUPO F Este modelo experimental, com característica longitudinal, estabelecido de acordo com o conceito de modelação de atividade desportivas formulada por Verkhoshansky (1990) e adaptado por Oliveira (1998). Tal estruturação apresenta algumas adaptações peculiares, mas foi elaborada a partir das informações coletadas na literatura desportiva, e foi baseada na proposta de outro trabalho que já fez uso desta concepção (Toledo,2000). O macrociclo que teve 31 semanas de duração foi dividido em três etapas (A, B, C). TREINAMENTO ETAPA A MICROETAPA MICROETAPA PREPARATÓRIA A1 3 SEMANAS 2 SEMANAS ETAPA B ETAPA C MICROETAPA A2 MICROETAPA A3 MICROETAPA B MICROETAPA C1 MICROETAPA C2 2 SEMANAS 2 SEMANAS 6 SEMANAS 10 SEMANAS 6 SEMANAS Figura 1: Organograma da divisão em etapas e microetapas do treinamento. ( o ciclo de treinamento. ) testes realizados durante 19 O treinamento foi dividido em 3 etapas, para que pudéssemos estruturar nestas divisões a metodologia proposta. Dentro do que esta sendo sugerido como modelo de treinamento, as três etapas ou blocos se dividem em: Bloco A - etapa inicial com características de desenvolvimento neuromuscular e colocando a força motora como condição prévia para um alto nível de desenvolvimento de outras capacidades, Bloco B – etapa onde se objetiva o desenvolvimento do metabolismo específico da modalidade, Bloco C – etapa competitiva onde a meta é a melhora do gesto esportivo e velocidade. 4.2.1 BLOCO A – BLOCO DE FORÇA A etapa A se caracterizou pela aplicação de cargas concentradas de força que se apresentam como exercícios preparatórios especiais de volume crescente de carga. Esse bloco visa desenvolver a estrutura morfológica e neural do sistema muscular dos atletas para suporte das etapas posteriores. O Bloco A foi dividido em 3 etapas ( A1, A2 e A3), e foi precedido de uma etapa preparatória. A Etapa preparatória constituiu-se do aprendizado dos exercícios e dos testes de controle e desta forma serviu como preparação para as demais etapas. A Etapa A1 foi caracterizada por exercícios preparatórios especiais, ou seja, adequar e criar adaptações no aparelho de sustentação dos atletas – exercícios de força e saltos generalizados. Na Etapa A2 predominou o maior volume dos exercícios de força e a inclusão do treinamento complexo – exercícios de força de alta intensidade seguido de exercícios em condições facilitadas ou normais. A Etapa A3 se apresentou com o inicio dos trabalhos de esforços explosivos balísticos (saltos pliométricos) e estimulação neuromuscular de menor volume e alta intensidade. As etapas A1, A2, e A3 seguiram o principio da sucessão e interconexão proposto por Verkhoshansky (1990); ou seja, ordem crescente de intensidade das cargas. 20 4.2.2 BLOCO B – BLOCO DO METABOLISMO ESPECÍFICO No presente estudo, o bloco B teve como prioridade a execução de atividades que objetivem o aprimoramento do metabolismo energético anaeróbico alático e láctico (metabolismo específico), das velocidades das ações motoras e da técnica individual e coletiva. Como já descrito anteriormente, metabolismo anaeróbio está presente nas atividades de curta duração e de alta potência (velocidade e força). Considerando a característica dos principais gestos motores do desporto, como as corridas rápidas, rápidas e de curta duração; os meios utilizados nesse bloco para desenvolver o metabolismo específico envolvem ações motoras características do futebol realizados em grande velocidade (corridas curtas, em diferentes direções com e sem bola). Exercícios de velocidade e resistência de velocidade são aplicados simulando as ações peculiares do jogo com intervalos variados de descanso. O treino intervalado mobiliza o metabolismo anaeróbio alático e láctico (ROBERTS,1982; GAITANOS,1993). Através do método intervalado mobilizar-se a via do ATP-CP, bem como a glicólise anaeróbia dependendo da intensidade e duração do estímulo. Não podemos desconsiderar que neste tipo de treino as adaptações aeróbias aparecem quando no descanso de uma atividade anaeróbia. (OLIVEIRA, 1998). 4.2.3 BLOCO C – COMPETITIVO O Bloco C, visou o aprimoramento técnico/tático do atleta em situações próximas de jogo, além do aproveitamento das influências positivas das capacidades adquiridas nas etapas A e B. O bloco C foi dividido em etapas C1 e C2, que representam os jogos iniciais e as oitavas de final respectivamente. Para manter os níveis adquiridos nas etapas anteriores, (força explosiva, velocidade e resistência anaeróbia) foram dados semanalmente aos atletas estímulos de força e estímulos metabólicos, porém, com um volume menor do que o aplicado nos blocos anteriores. Tais estímulos são os mesmos exercícios aplicados dos blocos anteriores como forma de “manutenção” dos índices. No Bloco C, o objetivo foi aprimorar a “forma” ou “estado de prontidão” para os jogos competitivos. Exercícios técnicos e táticos foram exigidos em 21 grande volume; considerando que o aprimoramento físico é uma meta que deve ser buscada dentro de toda a etapa C, acredita-se que os jogos constituem no melhor estímulo de treinamento para aperfeiçoar o mais alto nível. As competições são uma forma de consolidar e aperfeiçoar o desempenho adquirido pelo treinamento segundo Hotz,1994 (citado por WEINECK,1999). 4.3 MODELO EXPERIMENTAL : GRUPO NF O modelo experimental com característica longitudinal representou o treinamento tradicional. Esta estrutura tradicional previu um trabalho de preparação generalizada (desenvolvimento simultâneo das capacidades coordenativas biomotoras), com cargas de trabalho distribuídas ao longo do processo e pouca ênfase ao trabalho específico. O macrociclo de 31 semanas dividiu-se em Período Preparatório Geral, Período Preparatório Especial e Período Competitivo. Os exercícios de preparação geral com objetivos de ganho de resistência aeróbia dominaram a primeira etapa. Nenhum trabalho com pesos foi utilizado neste período. As ações técnico/táticas foram crescentes no decorrer da etapa. No período Preparatório Especial predominou exercícios de corridas rápidas, no entanto, alternando-se com corridas de longa duração, exercícios técnicos e táticos, e jogos coletivos; os exercícios com pesos foram feitos esporadicamente com mínimo volume. Na etapa competitiva predominaram os jogos, treinos com bola e corridas longas. 4.4 PADRÃO DE TREINAMENTO Os grupos F e NF treinaram separadamente as capacidades coordenativas biomotoras, assim como a parte física. Ambos os grupos se uniam para treinos coletivos, ou jogos amistosos. O calendário de treinamento semanal era o mesmo para as duas equipes (5-6 vezes/ semana). 22 Tabela 3: Objetivos e exemplos de exercícios desenvolvidos nas Etapas de treinamento do ciclo anual do Grupo F (Verkhoshansky,1995 adaptado para o presente estudo). ETAPAS OBJETIVOS EXERCÍCIOS DESENVOLVIDOS A1 Melhorar a capacidade contrátil das fibras lentas (tipoI) e rápidas (tipoII). Preparar o aparelho de locomoção (muscular e ligamentar) para posterior trabalho de alta intensidade. Exercícios preparatórios gerais: extensora, supino, puxador, flexora, desenvolvimento, panturrilha e outros. Exercícios com carga para desenvolver força máxima, principalmente mmii. Exercícios de saltos generalizados com intensidade moderada. A2 Aperfeiçoamento simultâneo da capacidade oxidativa das fibras TipoI e Tipo IIa e da capacidade contrátil das fibras TipoII. A3 Importância para o desenvolvimento da capacidade oxidativa das fibras TipoII. Trabalhos de estimulação neuromuscular reativos, mais potentes do que na etapa anterior. Atenção especial ao desenvolvimento da potência anaeróbia. Exercícios de saltos com carga, pequena participação de saltos em profundidade. Exercícios de força para membros inferiores ( leg press, flexora, panturrilha), e RML (resistência muscular localizada). Ex: 3x3 90% / 3x30 50%. Exercícios de corrida com sobrecarga (corrida dificultada). Exercícios de corrida com carga com maior intensidade. Exercícios de velocidade e resistência de velocidade. Ex: corrida de 15m/50m. Exercícios de força máxima e saltos em profundidade no regime reversivo. B Exercícios de velocidade e resistência de Manutenção dos níveis de força adquiridos. velocidade. Desenvolvimento da força explosiva, resistência de Exercícios de força máxima (mmii) e saltos em profundidade para manutenção da força e resistência de velocidade. Aperfeiçoamento técnico e tático e ações específicas força máxima e explosiva. Exercícios de jogo: corrida e chute, drible, dos jogo. saltos, acelerações e desacelerações. C Manutenção dos níveis de força. Elevação da velocidade ds exercício competitivo. Jogos amistosos e competitivos Competição Exercícios de força máxima e saltos em profundidade(menor volume semanal). Exercícios de estimulação da velocidade ( tiros curtos e intensos). Trabalhos com bola e exercícios técnicos. Jogos. Tabela 4: Objetivos e exemplos de exercícios desenvolvidos nas Etapas de treinamento do ciclo anual do Grupo NF. ( Matveev,1997 adaptado para o presente estudo). ETAPAS OBJETIVOS EXERCÍCIOS DESENVOLVIDOS pelo Exercícios de corrida de longas distâncias, alternava-se os volumes e físicas. Assimilação e ampliação dos intensidades. 2400m/ 6000m conhecimentos técnicos e táticos. Predomínio Exercícios técnicos e táticos com bola. Exercícios de corrida tracionada (eventual) do aumento do volume de trabalho. Desenvolvimento as capacidades físicas Corridas rápidas e curtas. 20m/50m/100m especificas do desporto. Técnica e tática mais Corridas longas como na etapa anterior. estáveis. Predomínio da intensidade de Exercícios com bola mais específicos e trabalho. jogos amistosos e coletivos. Obtenção e manutenção do nível máximo Jogos, coletivos, treinos táticos. alcançado. Aperfeiçoamento das habilidades. Corridas de curta e longa duração. Elevar as capacidades funcionais PREPARAÇÃO desenvolvimento múltiplo das capacidades onde GERAL PREPARAÇÃO ESPECIAL COMPETITIVO 23 4.5 CONTROLE DO PROCESSO DE TREINAMENTO Para controle do treinamento, foram realizados testes periódicos, com o propósito de averiguar as possíveis alterações das diferentes capacidades biomotoras. Os testes foram realizados utilizando como calendário o macrociclo do Grupo F, sendo assim, aconteceram antes da microetapa A1, após microetapa A3, no final da etapa B e no meio da etapa C. 4.6 PADRONIZAÇÃO DOS TESTES Para criar um padrão na realização dos testes, foram mantidos os locais de coleta, os métodos empregados, os avaliadores, os instrumentos de avaliação, os padrões de roupa, horários e aquecimentos. Todos os atletas foram submetidos a um teste de aprendizagem, para adaptação à mecânica do aparelho utilizado , assim como ao movimento. 4.6.1 LOCAL DOS TESTES Os teste foram realizados no Estádio Martins Pereira do São José Esporte Clube (SJEC); utilizo-se do campo de futebol, e da pista de atletismo. Na Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP) - Faculdade de Ciências da Saúde (FCS), foram realizados os testes no laboratório de biodinâmica (Prédio da Fisioterapia) e na academia (Prédio da Educação Física). 4.7 CAPACIDADES BIOMOTORAS Os testes para controle do treinamento foram escolhidos pelos seguintes critérios: apresentar semelhança com o exercício realizado durante o treinamento; envolver as mesmas capacidades físicas exigidas durante o jogo, assim como o metabolismo específico exigido no desporto. Para a realização dos testes foram escolhidas as seguintes capacidades biomotoras: Força Máxima, Força Explosiva, Velocidade de deslocamento cíclico, Resistência Anaeróbia, Resistência Aeróbia. 24 4.8 TESTES MOTORES 4.8.1 TESTE DE FORÇA MÁXIMA Analisou-se no teste de Força Máxima a maior carga (peso) possível para a realização da força voluntária máxima. Para análise da força máxima dos membros inferiores utilizou-se o exercício de extensão simultânea dos joelhos ( Leg Press. ) O atleta posicionou-se sentado, com apoio total das costas no aparelho, os pés colocados sob a plataforma de apoio, e segurando na alça de sustentação. Para iniciar o procedimento de teste, o atleta executou uma tentativa inicial com o movimento de extensão dos joelhos. Após no máximo 5 tentativas foi determinado o peso máximo levantado. (GONZALEZ, 2001). Figura 2: Teste de força voluntária máxima realizado no Leg Press. 4.8.2 TESTE DE FORÇA EXPLOSIVA Para a análise da Força Explosiva de membros inferiores, utilizou-se o Salto Vertical com contra movimento (CMJ); realizado por uma flexão-extensão rápida de pernas, com mínima parada entre ambas as fases. As mãos foram mantidas fixas, pegadas aos quadris, o tronco vertical. As pernas 25 permaneceram estendidas durante o a fase aérea, contatando o solo com a ponta dos pés e os joelhos estendidos. (GONZALEZ, 2001). O Salto Vertical foi realizado na plataforma de contato CYBEXREACTOR, do Laboratório de Biodinâmica da UNIVAP. Essa plataforma mede o tempo de vôo no salto e calcula imediatamente, por meio de um microprocessador, a altura do salto (BOSCO,1983). Cada atleta realizou 3 tentativas, sendo considerada como válida a do salto correto mais alto. Figura 3: Teste de Salto vertical com contramovimento realizado na plataforma de contato no Laboratório de Biodinâmica da faculdade de Ciências da Saúde (FCS) da UNIVAP. 4.8.3 TESTE DE VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO No presente estudo analisou-se a velocidade de deslocamento cíclico, em uma distância de 35 metros (figura 4). A distância escolhida representa a metragem em que os atletas do futebol empregam ações decisivas, e ainda pelo fato de utilizar a via metabólica anaeróbia (MANSO, VALDIVIELSO, CABALERO, 1996). O atleta posicionou-se em pé atrás da linha de saída e aguardou os sinais de comando. Os comandos “prepara” e “vai” que são acompanhados da descida do braço com o objetivo de sinal visual, são as referências para o atleta e para o cronometrista. 26 Figura 4: Atleta executando corrida em velocidade máxima em 35 m. Local da realização dos testes de velocidade cíclica e resistência anaeróbia. 4.8.4 TESTE DE RESISTÊNCIA ANAERÓBIA Para analisar a Resistência Anaeróbia Lática foi realizado o teste de 6x35 metros com intervalo de descanso de 10 segundos entre cada um. O motivo para a escolha do teste é o alto nível de exigência anaeróbia imposta. Por esse teste pode-se aferir a resistência anaeróbia do atleta medindo o tempo total de execução da atividade. Quanto mais resistente, melhor o tempo do atleta. (ANANIAS et al.,1998; TOLEDO, 2000). O atleta posiciona-se em pé atrás da linha de saída e aguarda os sinais de comando como descrito anteriormente. Foram realizadas 6 corridas de 35 metros cada com pausa de 10 segundos entre elas. Os testes foram realizados em campo com chuteiras (figura 4). 4.8.5 TESTE DE RESISTÊNCIA AERÓBIA Para averiguar a Resistência Aeróbia foi utilizada a corrida de 2400m. O motivo da utilização dessa metragem é que com corridas de 2400m utiliza-se a via da glicólise aeróbia pelo tempo do esforço físico. Também podemos justificar a escolha do teste pelo fato ter na literatura exemplos de averiguação da capacidade dos futebolistas com o teste de 2400. ( TOLEDO, 2000). 27 O atleta posicionou-se em pé atrás da linha de saída e aguarda os sinais de comando, como descrito anteriormente. Verificou-se o tempo gasto para completar o percurso com a máxima velocidade (TOLEDO,2000). O teste foi realizado em pista de corrida com os atletas utilizando tênis. 4.8.6 TESTE DO ÍNDICE DE MANIFESTAÇÃO DE FORÇA AVALIADO POR DINAMÔMETRO ISOCINÉTICO A relação entre força manifestada e o tempo necessário para tanto é conhecida como curva força-tempo(C.f-t). A C.f-t foi observada na avaliação em Dinamômetro Isocinético - BIODEX. Parte desta curva representa a fase de força explosiva ou Índice de Manifestação de Força (IMF), ou força de saída (VERKHOSHANSKY, 1995). Tal índice representa a capacidade de manifestar rapidamente o esforço no início da tensão muscular, e pode ser avaliada pelo torque produzido nos momentos iniciais do movimento (figura 5). Se a força aplicada pelo atleta, em determinado tempo, contra uma resistência, aumentar com o treinamento, pode-se considerar que o atleta desenvolveu sua capacidade de manifestar força rapidamente, ou melhorou sua força explosiva. Em um mesmo indivíduo, o efeito do treinamento manifesta-se por modificações na curva força-tempo (GONZALEZ, 2001). ISOKINETIC BILATERAL: 5 REP AT 60/60 DEG/SEG 160 A 140 TORQUE IN N-m 120 B 100 80 60 40 EXTENSÃO FLEXÃO 20 0 0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 TIME IN SECONDS Figura 5: Exemplos de curvas força-tempo A e B, registrada por dinamometria isocinética. O primeiro cume representa a extensão do joelho e onde foi avaliado o IMF, o secundo cume é a flexão. Em A, curva antes do treinamento; em B, curva com inclinação acentuada, representando maior manifestação de força nos momentos iniciais do movimento. 28 Com o dinamômetro Isocinético consegue-se aferir o torque (N.m) alcançados em qualquer momento do movimento. O IMF foi obtido pela análise do torque nos 100ms iniciais do movimento de extensão do joelho (GONZALEZ, 2001). Foram realizadas 5 repetições a 60°/s de extensão-flexão da articulação do joelho. Figura 6: Teste do Índice de Manifestação de Força (Força explosiva), avaliada no Dinamômetro Isocinético, do Laboratório de Biodinâmica da Faculdade de Ciências da Saúde da UNIVAP. 4.9 ANÁLISE ESTATÍSTICA. Os resultados foram avaliados estatisticamente através do Teste de ANCOVA – análise de covariância, com medidas repetidas seguida por Teste de Sheffe. O nível de significância adotado foi para valores de p<0,05. Tal análise calcula as diferenças entre os atletas do mesmo grupo, e entre os dois grupos; sendo relevante os valores iniciais dos índices dos atletas. 29 5. RESULTADOS e DISCUSSÃO 5.1 DINÂMICA DE ALTERAÇÕES DA FORÇA VOLUNTÁRIA MÁXIMA Na análise da Figura 7, observa-se a diferença entre os ganhos obtidos do Grupo F quando comparados com o Grupo NF, para níveis de força máxima verificada no teste de força voluntária máxima. DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE FORÇA MÁXIMA MEMBROS INFERIORES - LEG PRESS 45° - GRUPO(NF) 50% 50% 45% 45% 40% 40% 35% DIFERENÇA PERCENTUAL DIFERENÇA PERCENTUAL DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE FORÇA MÁXIMA MEMBROS INFERIORES - LEG PRESS 45° - GRUPO(F) 35% 30% 25% 20% 15% 10% 30% 25% 20% 15% 10% 5% 0% 5% -5% 0% A3 A1 C1 B A1 C B A3 ETAPAS DE TREINAMENTO -10% ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 7: Comparação entre os grupos F e NF em relação às alterações de força máxima durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais, e a média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque. Tabela 5: Média e desvio padrão das cargas máximas (kg) e significância estatística ANCOVA, para as alterações no nível de força máxima nas etapas de treinamento. GRUPO F ETAPA A1 A3 GRUPO NF B C MÉDIA 299,09±29,73 409,54±37,31 365,0±39,30 340,90±34,77 A1 A3 B C * * * * * * * * * * * * * p<0,05 ETAPA A1 A3 B C MÉDIA A1 215±29,58 227,2±35,73 220±30,82 213,2±34,66 A3 * B C * Os ganhos em força observados para o Grupo F provavelmente devemse às cargas concentradas de força aplicadas no inicio do treinamento (TOLEDO, 2000; MOREIRA, 2002); confirmado que a aplicação de exercícios 30 com pesos aumenta a força máxima voluntária (HAKKINEN,1983; SALE,1988; FLECK,1999; VERKHOSHANSKY,1990). Os maiores ganhos foram obtidos após o término da etapa A (final de A3), onde se concentrou a aplicação de exercícios com pesos no próprio Leg Press, além de exercícios de salto. Estudos mostram que os ganhos em força máxima são resultado de específica adaptação neuromuscular e pode ser atribuída aos movimentos balísticos (saltos) (HAKKINEN,1983; SALE,1994). Este estudo mostrou que o aumento da força foi devido a maior ativação nervosa , assim como a maior freqüência de ativação. Considerou que o aumento de unidades motoras ativadas também foi motivo de adaptação neuromuscular e aumento da força. Sabe-se que um grande aumento das adaptações neurais é observado após um período de 6 à 10 semanas sob treinamento de força (SALE,1988). Os ganhos em força estão relacionados com a coordenação intramuscular (HAKKINEN,1985), onde unidades motoras são recrutadas de modo mais coordenado, e por coordenação intermuscular pela aprendizagem do movimento(GONZÁLEZ,2001). O treinamento de força com aplicação de exercícios de salto promove aumento, e considerável adaptação, na atividade elétrica observada por eletromiografia (HAKKINEN,1985). Este estudo mostra que a atividade elétrica aumentou nos músculos trabalhados com cargas e exercícios de salto. O Autor defende a idéia de que esta adaptação neural esta ligada à freqüência de ativação dos neurônios motores. No presente estudo os ganhos em força são estatisticamente significativos (p<0,05) entre a Etapa A1 e as demais etapas durante o ano, como mostra a tabela 5. Observou-se queda do nível de força máxima na etapa B do Grupo F, porém mantiveram-se os níveis de força acima do nível inicial. Essa queda na força máxima pode ser referida ao fato de não mais predominarem os exercícios de força durante esse período. Pesquisas mostram que estímulos diminuídos de exercícios de força mostram queda dos seus índices (HAKKINEN,1983; FLECK,1999). Essa etapa caracterizou-se por exercícios de velocidade e resistência de velocidade, ou seja, atividades de grande exigência 31 metabólica, que contribuem para um maior estresse muscular, e maior fadiga neuromuscular (TOLEDO,2000). Os exercícios de força para manutenção são aqui aplicados para sustentar os índices alcançados. Na etapa C, do Grupo F, a força manteve valores superiores aos obtidos na etapa inicial (A1). Esses valores estatisticamente significativos (p<0,05) provavelmente devem-se ao trabalho de tonificação neuromuscular feito nessa etapa. Outro estudo mostrou que a força pode ser mantida mesmo quando treinada em volume reduzido, como no caso de uma vez por semana (FLECK,1999). Observando a Figura 7, nota-se que não há variação significativa da força máxima para o Grupo NF. A pequena evolução observada na força, provavelmente ocorreu por adaptação ao teste, assim como, podemos supor devido a melhora dos impulsos neurais por intermédio do treinamento com pesos realizados esporadicamente, que não caracterizou-se como sendo um treino de cargas concentradas, como no Grupo F. A queda na curva observada na etapa de competição, (etapa C) do Grupo NF, mostra que o grande volume de jogos e treinos provavelmente contribui para a perda dos níveis de força inicialmente adquiridos. A carga metabólica imposta aos jogadores nesse período, dado a soma dos treinos aeróbios, os jogos e a falta de estímulos que visando desenvolver ou manter os níveis de força, podem ser causas desta perda na força máxima observada. 5.1.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS A comparação entre os grupos nos permite observar que realmente o trabalho de cargas concentradas de força aplicado no início do treinamento desenvolveu a força máxima dos atletas; e os exercícios de manutenção durante o período de treinamento foram suficientes para manter os níveis significativos de força, ainda no período competitivo. Os resultados do grupo NF, mostram que a falta deste estímulo não desenvolve força máxima significativa, e em alguns casos, a ausência desse estímulo contribuiu para valores menores do que os iniciais. 32 Tem-se claro que a força máxima não é uma capacidade física necessária para atletas, jogadores de futebol. Porém, estes ganhos em força máxima, ocorridos neste momento, têm íntima ligação com ganhos em força explosiva, velocidade cíclica e também na resistência muscular. Entende-se que a força máxima contribui para a aquisição e melhora dos processos neurais, contráteis e metabólicos ( aláticos e láticos); fundamentais para a velocidade, resistência e força explosiva. ( VERKHOSHANSKY, 2000). 33 5.2 DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO ÍNDICE DE MANIFESTAÇÃO DE FORÇA - TORQUE AVALIADO AOS 100ms A curva força-tempo(C.f-t), adquirida no teste do Dinamômetro Isocinético, nos oferece o Índice de Manifestação de Força (IMF). O IMF representa uma fase da C.f-t, exatamente a maior pendente, onde se produz o maior incremento da tensão muscular. Este índice, que é observado nos momentos iniciais da curva, representa a força explosiva (GONZÁLEZ, 2001). O torque avaliado nos primeiros 100ms forneceu o valor quantitativo da manifestação da força dos atletas. O Grupo F mostrou que o treino de força aumentou de forma significativa (p<0,05) seu IMF. O Grupo NF não apresenta mudança estatisticamente significativa. 200 190 180 170 N/ m 160 150 140 130 120 110 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 DINÂMICA DA VARIAÇÃO DO TORQUE MEDIDO AOS 100ms NO DINAMÔMETRO ISOCINÉTICO - GRUPO(F) 240 DINÂMICA DA VARIAÇÃO DO TORQUE MEDIDO AOS 100ms NO DINAMÔMETRO ISOCINÉTICO - GRUPO(NF) 220 200 N/m 180 160 140 120 100 80 60 40 20 A1 A3 0 A1 ETAPAS DE TREINAMENTO A3 ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 8: Nível de força avaliado pelo Isocinético nos primeiros 100ms na extensão do joelho no momento inicial (A1) e no momento (A3). Comparação entre grupo F e NF Tabela 6: Média e desvio padrão do torque (N/m) avaliado em 100ms e significância estatística ANCOVA, para as alterações no nível do IMF dos atletas nas etapas de treinamento. GRUPO F ETAPA A1 MÉDIA 109,1±21,8 A1 A3 * GRUPO NF A3 144,5±21,1 * *P<0,05 ETAPA A1 MÉDIA 156,8±25,5 A1 A3 A3 158,0±24,5 34 Estudos com treinamento de força mostram que o aumento no IMF está associado ao aumento da ativação nervosa local. Com comprovação eletromiográfica, os estudos discutem que o treinamento de força caracterizase pelo aumento no número de unidades motoras recrutadas, e a freqüência de impulsos nervosos da fibra (HAKKINEN,1983; SALE,1988; GONZÁLEZ,2001). Outro estudo mostrou realmente que o aumento de força através de treino no Leg Press, associado com treino de salto vertical (ambos aplicados no treinamento do Grupo F ), podem aumentar a taxa de desenvolvimento de força (IMF) (NEWTON,1999). Cronin (2000), afirma que o treino de força máxima aumenta a força inicial produzida no movimento. A força inicial está relacionada com a força explosiva e representa a força manifestada no início da contração muscular (GONZÁLEZ, 2001). Hakkinen (1986), afirma que o treinamento com saltos explosivos não melhora a força máxima, mas sim o tempo para produção da força, ou seja, força explosiva. Para o autor, o aumento na freqüência de ativação é responsável por essa melhora. Hakkinen (1983), também verificou através de exercícios com salto, vários parâmetros, entre eles, a possível variação no tempo para a produção de força, ou seja, a melhora na força explosiva. Grande parte desta adaptação neural está vinculada ao treinamento de força associado à saltos. Estes movimentos balísticos são responsáveis pela melhora da atividade eletromiográfica, e conseqüente aumento do índice de manifestação de força (HAKKINEN,1985; ZEHR,1994). Exercícios de saltos são responsáveis pela melhora na performance atlética comprovada em equipes de voleibol e futebol (NEWTON,1999; DIALLO,2001). O Grupo NF não apresentou nenhum ganho estatisticamente significativo nos valores do torque, medido à 100ms. Essa ausência de melhora pode estar relacionada com pouca ou nenhuma adaptação neural para o grupo. Ao se considerar que no treinamento do Grupo NF os exercícios de saltos e força não caracterizaram o treinamento, poderíamos responsabilizar a ausência destes estímulos pela falta de adaptação neural e muscular (TOLEDO,2000). 35 5.3 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA FORÇA EXPLOSIVA As variações nos níveis de força explosiva, mensuradas pelo salto vertical com contramovimento, está representada na Figura 9. O teste de salto vertical foi utilizado para verificar resultados do treino de força explosiva (HAKKINEN,1993; BOSCO,1986). 24% 22% 22% 20% 20% 18% DIFERENÇA PERCENTUAL DIFERENÇA PERCENTUAL 18% 16% 14% 12% 10% 8% 6% 4% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE FORÇA EXPLOSIVA SALTO VERTICAL - GRUPO(NF) 24% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE FORÇA EXPLOSIVA SALTO VERTICAL - GRUPO(F) 16% 14% 12% 10% 8% 6% 4% 2% 0% -2% 2% A1 A3 -4% C B 0% A1 B A3 ETAPAS DE TREINAMENTO C ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 9: Comparação entre os grupos F e NF em relação as alterações do nível de força explosiva durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais, e a média de cada grupo esta representada pela linha preta em destaque. Tabela 7: Média e desvio padrão do salto vertical (m) - Força Explosiva e significância estatística ANCOVA para as alterações no nível da altura vertical nas etapas de treinamento GRUPO F ETAPA A1 A3 GRUPO NF B C MÉDIA 0,326±0,024 0,367±0,033 0,340±0,039 0,387±0,044 A1 A3 B C * * * * * * * * * * ETAPA A1 A3 B C MÉDIA 0,364±0,048 0,377±0,051 0,378±0,051 0,371±0,050 A1 A3 B C * p<0,05 O Grupo F apresentou elevados índices de força explosiva durante todas as etapas de treinamento. A alteração positiva que ocorreu da etapa inicial (A1) para a etapa A3 é estatisticamente significativa (p<0,05). Essa melhora 36 provavelmente se deve à melhora da atividade neural. Zatsiorsky (1999), explica que a força depende da ativação das fibras musculares, ou seja, da ativação neural (coordenação intramuscular). Hakkinen(1985), descreve mudanças neuromusculares após treinamento de força comprovadas pelo aumento da altura do salto vertical. Sale (1994), mostrou que nos movimentos balísticos, como os saltos aplicados no Bloco A, existe específica adaptação neuromuscular. O salto vertical é colocado como exemplo de atividade que melhora a capacidade neural, assim como, uma forma utilizada para avaliar seu desenvolvimento (HAKKINEN,1983; SALE,1993). O treinamento com cargas pesadas melhora a força explosiva registrada pelo salto vertical (HAKKINEN,1983; VERKHOSHANSKY,1990). A força explosiva que é a capacidade de manifestar esforços consideráveis em condições limitadas de tempo (VERKHOSHANSKY,1995), está totalmente ligada ao IMF registrado anteriormente. Percebe-se que o aumento na força explosiva avaliada pelo salto vertical, coincide com o aumento do IMF registrado pelo Dinamômetro Isocinético. Observa-se que existe diferença estatisticamente significativa (p<0,05), quando comparada a etapa B com as etapas A3 e C do Grupo F. Isto mostra que a força explosiva apresentou grande diminuição de seus valores na etapa B , assim como posterior elevação de seus índices na etapa C. Neste Grupo a queda observada na etapa B , mais uma vez sugere que tenha sido devido aos altos níveis de carga imposta ao atleta nesse período, causando fadiga metabólica e neuromuscular. Verkhoshansky (1990), coloca que a força explosiva apresenta uma tendência à diminuição no que chamou de etapa competitiva, o que nos faz supor que o aumento do trabalho intenso de corrida (Bloco B) pode ser responsável por este fenômeno. Os níveis elevados de força explosiva na etapa C são estatisticamente significativos, quando comparados com as demais etapas (p<0,05). Tais índices são explicados pela diminuição dos exercícios de alta exigência metabólica. Nessa etapa foram desenvolvidas atividades com volume de 37 treinamento reduzido, que de certa forma contribuíram para uma manifestação da força explosiva (TOLEDO,2000). Oliveira (1998), coloca em seu trabalho, que a redução dos índices de força ( absoluta, explosiva e inicial) acontece após o treinamento concentrado de força de elevado volume. Por outro lado, cita ainda que terminada a aplicação destas cargas, os níveis de força retornam gradativamente, e aumentam de forma significativa na seqüência. Este fenômeno, é conhecido como Efeito Posterior e Duradouro do Treinamento (EPDT), e ocorre neste período de diminuição das cargas. ( OLIVEIRA, 1998). Baseado nestes dados podemos entender o formato da curva nas etapas A3, B e C. A queda da capacidade de força explosiva, e sua subsequente elevação no período mais importante, o da competição. Não houve ganho estatisticamente significativo na força explosiva do grupo NF durante todo o período de treinamento. A falta de estímulo que gerasse adaptação neural (saltos verticais e treinamento de força) pode ser a causa da não evolução dessa capacidade para o Grupo NF. (TOLEDO,2000). 5.3.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS Pode-se observar que a influência de cargas concentradas de força, aplicadas no inicio do treinamento, contribuíram para a manifestação da força explosiva (Hakkinen,1983; Hakkinen,1985; Hakkinen,1986), principalmente se comparar com o grupo NF, que não treinou nessas condições. Os ganhos em força explosiva observados na Etapa A3, apesar de demostrarem queda na Etapa B, reaparecem na Etapa Competitiva. Os ganhos obtidos no grupo NF não ultrapassaram 5% da média do grupo, e são muito inferiores aos aproximados 18% da média do grupo F. 38 5.4 DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO TEMPO NA CORRIDA DE 35m VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO Observando a tabela 8, podemos notar que para o Grupo F houve aumento estatisticamente significativo (p<0,05) da velocidade de deslocamento cíclico, quando comparada a etapa inicial (A1) e as demais etapas do treinamento. Valores não significativos entre A3 e C mostram que mesmo após a queda dos índices de velocidade na etapa B, esta volta a adquirir valores 20% 19% 18% 17% 16% 15% 14% 13% 12% 11% 10% 9% 8% 7% 6% 5% 4% 3% 2% 1% 0% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DA VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO - CORRIDA DE 35m - GRUPO(F) DINÂMICA DA ALTERAÇÃODONÍVEL DE VELOCIDADE DE DESLOCAMENTO CÍCLICO - CORRIDA DE 35m- GRUPO(NF) 19,5% 18,0% 16,5% 15,0% 13,5% DIFERENÇA PERCENTUAL DIFERENÇA PERCENTUAL elevados no período competitivo. 12,0% 10,5% 9,0% 7,5% 6,0% 4,5% 3,0% 1,5% 0,0% A1 A3 C B -1,5% A1 A3 B C ETAPAS DE TREINAMENTO ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 10: Comparação entre os Grupos F e NF em relação as alterações da velocidade de deslocamento cíclico durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais e média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque. Tabela 8: Média e desvio padrão da velocidade de deslocamento cíclico (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento. GRUPO F GRUPO NF ETAPA A1 A3 B C ETAPA A1 A3 B C MÉDIA A1 5,00±0,14 4,50±0,23 4,67±0,21 4,38±0,23 5,19±0,18 5,07±0,19 5,03±0,16 5,01±0,21 * * * * MÉDIA A1 * * A3 B C * * * * * * * p<0,05 A3 B C * * A elevação da velocidade de deslocamento cíclico, ocorrida na etapa A3, pode ter acontecido provavelmente pela melhora da coordenação intramuscular 39 e intermuscular, já que podemos dizer que os trabalhos com cargas concentradas de força desenvolvem o mecanismo neural, impondo condições de manifestação da força (SALE,1988; MATAVULJ,2001). A velocidade depende da organização do movimento, e da potência de trabalho do sistema locomotor, que é a capacidade de gerar grande quantidade de energia rapidamente. Desta forma, a velocidade depende da força (coordenação inter e intramuscular) e do potencial energético do organismo (VERKHOSHANSKY,2001). Toledo(2000), em seu trabalho apresentou resultados similares quanto ao ganho de velocidade após as cargas concentradas de força, assim como seu aprimoramento no período competitivo. Buhle, Shimidtbleicher ,1977( citado por WEINECK,1986), afirmam que um elevado nível de força é condição necessária para a obtenção da velocidade máxima. Wisloff (1998), coloca que a melhoria do nível dos jogadores de futebol depende de maior ênfase no desenvolvimento da força. Segundo Weineck (1986), somente uma ótima coordenação inter e intramuscular permitirá um maior recrutamento de unidades motoras, assim como uma melhor coordenação dos músculos participantes do movimento. Sugere-se que na etapa B do Grupo F, a perda de velocidade provavelmente ocorreu pela sobrecarga metabólica imposta ao organismo dos atletas pelos exercícios de resistência especial, ocasionando o aparecimento de uma fadiga neuromuscular acentuada (GREEN,1996; TOLEDO,2000). A elevação dos índices de velocidade ocorridos na etapa C para o Grupo F pode ser pela diminuição da sobrecarga metabólica, até então imposta aos atletas. Essa elevação ocorre também devido a execução de exercícios específicos, que mantém o estímulo da velocidade, e atividade de tonificação neuromuscular, que favorece a manutenção dos estímulos neurais e consequentemente da força (ZEHR, 1994; ZATSIORSKY, 1999; TOLEDO, 2000). Os índices observados na etapa C foram maiores do que os atingidos em A3. Desta forma supõe-se que o EPDT manifestou-se com a redução das 40 cargas de trabalho. As cargas concentrada de força aplicadas no inicio do treinamento, podem ter dado suporte para a elevação da velocidade neste período. Os valores médios de velocidade de deslocamento cíclico do grupo NF apresentaram aumentos constantes durante todo o período de treinamento. Essa elevação estatisticamente significativa(p<0,05) da etapa inicial A1 para as etapas B e C, comprova o ganho de velocidade. Apesar de significantes, esses valores apresentam-se muito baixos quando comparados com o Grupo F. Essa elevação provavelmente se deve ao aprimoramento do gesto motor, pela melhora coordenativa; ou pela aquisição de melhora metabólica através do treinamento imposto ( WEINECK, 1986; VERKHOSHANSKY,1990). A não significância estatística entre as etapas A3, B e C mostra que não existe diferença dos níveis de velocidade adquiridos no inicio do processo de treinamento e a etapa competitiva. 5.4.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS Novamente podemos supor que as cargas concentradas de força, aplicadas no Grupo F criaram condições neurais, metabólicas (potencial energético), e coordenativas para aquisição de ganho em velocidade (FLECK,1999; VERKHOSHANSKY,1990; ZEHR,1994; OLIVEIRA,1998; ZATSIORSKY, 1999; TOLEDO, 2000). Weineck (1986), afirma que o nível de força age imediatamente na eficácia do treinamento a longo prazo, e também na sua manutenção. O aparecimento do que podemos chamar de EPDT, mostra que a força, aplicada no início do treinamento, e como forma de manutenção no período competitivo, possibilita a manifestação duradoura da velocidade máxima de deslocamento cíclico. Isto acaba contrariando treinadores tradicionais, que colocam que o treino de força cria estímulos inadequados para o desenvolvimento da velocidade.( TOLEDO, 2000). A comparação com o Grupo NF nos comprova que a falta de estímulos apropriados, ou a combinação de muitos estímulos pode levar a um desenvolvimento não otimizado. 41 5.5 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA RESISTÊNCIA ANAERÓBIA A resistência anaeróbia medida pelo teste de 6x35m do Grupo F, mostrou elevação estatisticamente significativa (p<0,05) de seus índices, comparando valores iniciais (A1) com as etapas seguintes (A3, B e C). A figura a seguir mostra a variação dos índices de resistência anaeróbia 18% 17% 16% 15% 14% 13% 12% 11% 10% 9% 8% 7% 6% 5% 4% 3% 2% 1% 0% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DA RESISTÊNCIA ANAERÓBIA CORRIDA 6X35 - GRUPO(F) 18,0% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE RESISTÊNCIA ANAERÓBIA CORRIDA 6X35m- GRUPO(NF) 16,5% 15,0% 13,5% 12,0% DIFERENÇA PERCENTUAL DIFERENÇA PERCENTUAL para o Grupo F e Grupo NF. 10,5% 9,0% 7,5% 6,0% 4,5% 3,0% 1,5% 0,0% A1 A3 C B -1,5% A3 A1 B C ETAPAS DE TREINAMENTO ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 11: Comparação entre os grupos F e NF em relação às alterações da resistência anaeróbia durante todo o período de treinamento. Os valores são individuais e a média de cada grupo está representada pela linha preta em destaque. Tabela 9: Média e desvio padrão da resistência anaeróbia (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento . Grupo F Grupo NF ETAPA A1 A3 B C ETAPA A1 A3 B C MÉDIA A1 5,47±0,14 4,90±0,22 5,05±0,16 4,75±0,18 5,50±0,24 5,38±0,25 5,41±0,20 5,45±0,23 A3 * * * * * * MÉDIA A1 B C * * A3 B C * p<0,05 Os ganhos em resistência obtidos na etapa A3, podem estar relacionado provavelmente à melhora do potencial energético do organismo, ou seja, 42 maiores reservas de ATP-CP e glicogênio, conseguidas pelo treinamento de força segundo McDougall,1977( citado por FLECK,1999). Essa melhora pode ser atribuída ao aumento na capacidade do músculo para trabalhar de forma duradoura (ZATSIORSKY,1999). Saltin 1973, Jakowlew,1975( citados por WEINECK ,1986), mostram que o treino de força pode levar a um aumento das reservas de glicogênio e de fosfocreatina. Estas alterações são responsáveis pelo aumento da resistência anaeróbia e tem íntima relação com fatores periféricos (TOLEDO,2000). Para um teste como o que foi aplicado aos atletas, a soma das corridas de curta distância e alta intensidade, induzem a participação da via glicolítica com conseqüente produção de lactato. A oxidação do lactato ocorre predominantemente no músculo esquelético (VERKHOSHANSKY,2001), e por isso, os fatores periféricos são responsáveis pela melhora da resistência. Pode-se sugerir que o aumento das reservas energéticas, a capacidade de ressíntese de ATP e a melhor remoção do lactato foram conseqüências dos exercícios aplicados. O objetivo do trabalho para o grupo F era desenvolver a especialização morfofuncional. Assegurado pelo trabalho de Toledo(2000), Oliveira(1998), poderíamos supor que os ganhos na resistência anaeróbia observados podem ser devido aos exercícios aplicados. As modificações ocorridas na estrutura muscular, eram objetivo do treinamento e apesar de não observadas diretamente, podem ter ocorrido. A queda observada na etapa B deve-se provavelmente aos grandes estímulos metabólicos ocorridos neste período. A fadiga neuromuscular e metabólica geram diminuição da capacidade de performance, pois a grande exigência desta fase diminui muito as reservas de energia do músculo (GREEN,1996). No bloco B predominaram exercícios de alta intensidade que priorizam esforços anaeróbios. Sendo assim, ainda segundo Green (1996), os músculos neste período estão sob extrema perturbação metabólica. Na etapa C observou-se níveis elevados de resistência anaeróbia para o Grupo F. Esta elevação estatisticamente significativa (p<0,05), foi encontrada em relação as etapas A1 e A3. Parece que o trabalho de força desenvolvido 43 inicialmente, o qual proporcionou melhora metabólica, seguido de trabalho específico (anaeróbio), proporcionou aumento da resistência anaeróbia no período competitivo (Etapa C). (TOLEDO, 2000). Como podemos observar, o Grupo NF não apresentou alteração estatisticamente significativa em nenhum momento do período de treinamento. Apesar de não significativos, pequenos ganhos foram observados no Grupo NF no inicio do treinamento. Porém, na etapa competitiva seus valores chegam a apresentar índices muito baixos, até negativos. A exigência da competição somada ao pouco ganho em resistência, podem ter contribuído para que aconteça esta queda na performance. 5.5.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS A análise dos gráficos mostra que a falta de estímulos adequados, ou a não orientação dos mesmos, como é o caso do Grupo NF, não cria desenvolvimento otimizado da qualidade física. O grupo F apresentou níveis elevados de resistência anaeróbia, provavelmente devido a organização do treino e as cargas concentradas de força, seguidas de trabalho especial. Os jogadores do futebol atual necessitam da resistência de velocidade, e parece que ao modificações morfológicas na musculatura esquelética proporcionaram ganhos na resistência anaeróbia. A força mostrou ser pré requisito para aquisição de resistência anaeróbia e conseqüente resistência de velocidade. 44 5.6 DINÂMICA DAS ALTERAÇÕES DA RESISTÊNCIA AERÓBIA A resistência aeróbia não foi a base do desenvolvimento do treinamento para o Grupo F, porém, foi amplamente treinada pelo Grupo NF. 18% 16% DINÂMICA DA ALTERAÇÃODONÍVEL DE RESISTÊNCIA AERÓBIA TESTE DE 2400m- GRUPO(F) 14% 10% 8% 6% 4% 2% 0% -2% A1 C B A3 -4% -6% -8% DIFERENÇA PERCENTUAL DIFERENÇA PERCENTUAL 12% 18% 17% 16% 15% 14% 13% 12% 11% 10% 9% 8% 7% 6% 5% 4% 3% 2% 1% 0% DINÂMICA DA ALTERAÇÃO DO NÍVEL DE RESISTÊNCIA AERÓBIA TESTE DE 2400m - GRUPO(NF) A1 A3 ETAPAS DE TREINAMENTO B C ETAPAS DE TREINAMENTO Figura 12: Comparação entre os grupos F e NF das alterações da resistência aeróbia durante todo o período de treinamento. Os Valores são individuais e a média de cada grupo esta representada pela linha preta em destaque. Tabela 10: Média e desvio padrão da resistência aeróbia (seg.) e significância estatística ANCOVA dentro das etapas de treinamento . Grupo F ETAPA A1 A3 MÉDIA 553,8±21,24 538,2±17,11 A1 Grupo NF B C 537±20,93 566,3±21,12 A3 B C * * ETAPA A3 MÉDIA 559,1±20,01 A1 A3 * * A1 B C * p<0,05 * * * 491±11,09 B 500,6±15,02 503,5±21,98 * * Os dados apresentados na Figura 12 e Tabela 10 mostram que o Grupo F apresentou, em seus valores médios, elevação dos seus níveis de resistência aeróbia entre etapa A1 e A3, porém tais valores não foram estatisticamente significativos. Esta etapa se caracterizou por exercícios C de cargas * 45 concentradas de força, ou seja, atividade onde predomina o metabolismo anaeróbio. Verkhoshansky(1990), coloca que o treinamento de resistência aeróbia depende não somente do aperfeiçoamento da capacidade respiratória, como também da especialização funcional dos sistemas musculares, ou seja, o aumento da capacidade de força e coordenação que conduz à economia de energia. A pequena elevação observada é conseqüência portanto da caraterística do treino desta etapa. Alguns especialistas colocam que a capacidade aeróbia de jogadores de futebol deveria estar entre 60 e 65 ml/kg/min Cazorla; Farhi ,1998, Wisloff,1998 (citados por TOLEDO,2000). Os índices dos atletas, durante as fases de treinamento, estavam sempre abaixo do que os autores propunham, provavelmente pela metodologia empregada no processo de treino. Os níveis de resistência aeróbia alcançados devem-se também a preparação acentuada da força (VERKHOSHANSKY, 1990). Podemos observar também que existe sim uma queda estatisticamente significativa desta capacidade no que chamamos de período competitivo (Etapa C), quando comparada com as etapas A3 e B. A queda neste período deve-se provavelmente a característica do treinamento desta fase; que se apresentou com exercícios extremamente técnicos e de velocidade que são curtos e intensos, com pouca mobilização aeróbia (TOLEDO, 2000). Foram observadas quedas nos níveis de VO2máx entre o período preparatório e o competitivo em alguns trabalhos conforme Bachaualov,1974; Serafinov,1974; Volkov, 1974; Zatsciorsky,1992, (citados por VERKHOSHANSKY,1990). Verkhoshansky (2001), coloca que muitos dados experimentais testemunham a diminuição do VO2máx no período competitivo, e que sua correlação com o resultado diminui. A mesma tendência foi observada no trabalho de Toledo(2000), onde a queda na resistência aeróbia aconteceu no período competitivo. 46 Para o desenvolvimento de uma boa base desportiva não é desejável que o jogador tenha o desempenho aeróbio de um corredor, já que um grande desempenho em resistência implica prejuízo na capacidade anaeróbia segundo Dickhut, 1981; Hollmann,1981, (citados por WEINECK,1999). O Grupo NF apresentou melhora estatisticamente significativa (p<0,05) dos índices de resistência aeróbia, comparando a etapa inicial (A1) com as demais etapas do ano. Os ganhos obtidos pelo Grupo NF podem ser devido a melhora oxidativa dos grupamentos musculares envolvidos, assim como, uma melhora cardiovascular adquirida pelo treinamento de corridas contínuas, que predominaram durante o macrociclo (MCARDLLE, 1998; FOX,1989). O Grupo NF também apresentou queda dos índices de resistência aeróbia no período competitivo. Provavelmente devido a predominância do treinamento de corridas contínuas, mesmo neste período, esta queda não foi significativa. 5.6.1 COMPARAÇÃO ENTRE GRUPOS A aplicação das cargas concentradas de força no treinamento do Grupo F e apesar das capacidades aeróbias terem sido treinadas indiretamente nos períodos de descanso das sessões anaeróbias, não observamos elevação significativa dos níveis de resistência aeróbia. Verkhoshansky(1990), afirma que o VO2máx. de nível elevado não garante bons resultados. O resultado mostrado esta em função do teste de 2400m, que é um teste contínuo. Caso o grupo F fosse submetido à um teste intermitente com as características do futebol, provavelmente apresentaria melhores resultados. Suas capacidades aeróbias foram constituídas nos treinamentos anaeróbios, ou seja intermitentes. O grupo NF, pela característica do seu treinamento, com aplicação de corridas contínuas e a preocupação em desenvolver a capacidade aeróbia, realmente apresentou aumento desta capacidade em níveis superiores aos observados no grupo F. 47 6. CONCLUSÕES Pode-se concluir que as cargas concentradas de força, ou o modelo de estruturação proposto por Verkhoshansky, quando aplicado como no presente estudo criam condições de melhora significativa das forças máxima, explosiva, velocidade cíclica, resistência anaeróbia e índice de manifestação de força. A resistência aeróbia não apresentou melhora significativa quando aplicou-se cargas concentradas de força. Em todas as capacidades avaliadas, foi observado níveis individualizados de respostas adaptativas dos atletas; provavelmente devido as diferenças na Reserva Atual de Adaptação (RAA). A aplicação da metodologia das cargas concentradas de força para o futebol parece ser eficaz; principalmente se comparada com a metodologia de cargas distribuídas. A metodologia tradicional, como aplicada no presente estudo, mostrouse pouco eficiente para as variáveis neuromusculares e ligadas ao metabolismo anaeróbio, talvez pela ausência de caracterização, ou intensificação de qualquer qualidade física. Porem mostro-se eficiente para adaptações aeróbias medidas em testes contínuos. Talvez a metodologia tradicional mostrou adaptações concorrentes entre as capacidades, ou seja, destaque para as capacidades aeróbias e pouca significância para as capacidades neuromusculares. 48 7. REFERÊNCIAS AMORIN, C. A. N. Estudo de caracterização e quantificação do esforço físico realizado no futebol. Monografia. Curso de Educação Física, UNICAMP, 1998. BEHM, D. G; SALE, D. G. Velocity specificity of resistence training. Spots Med; v.15, n.6, p. 374-88, 1993. 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