Riqueza e Pobreza na Idade Média:
Os legados pios do clero conimbricense entre os séculos XII e XIV
Ana Rita Rocha
Universidade de Coimbra
Com a aproximação da morte, o homem medieval encontrava nas suas riquezas
terrenas um meio para atingir a salvação eterna. Recorrendo ao testamento, procedia à
distribuição dos seus bens por aqueles que lhe eram próximos, mas também por todos os
que pudessem interceder junto de Deus com vista à remissão dos seus pecados.
Entre estes intercessores encontra-se o pobre, com quem o rico estabelecia uma
relação de troca, a designada “economia da salvação”. Nesta relação o testador legava
uma parte dos seus bens aos pobres, que retribuíam através de orações pela alma
daquele e da intercessão junto de Deus, uma vez que a sua condição miserável lhes
garantia a salvação eterna. Embora o doador fosse o principal beneficiário, os pobres
encontravam nestas esmolas, que dependiam da generosidade e riqueza daquele, uma
oportunidade para aliviar as suas necessidades e sofrimento. A morte favorecia, assim, o
envolvimento dos poderosos com a problemática da pobreza.
Partindo desta relação entre grupos sociais distintos à hora da morte, esta
comunicação tem por objectivo analisar a acção caritativa do clero da cidade de
Coimbra, entre os séculos XII e XIV, e a atenção dispensada àqueles que não tinham
outra forma de sustento a não ser as esmolas que recebiam, nomeadamente, por via dos
legados testamentários. Desta forma, tomamos como ponto de partida os próprios
testadores. Pretendemos, assim, saber quem eram os indivíduos pertencentes ao clero
conimbricense, tanto catedralício, como paroquial, que, numa expressão das suas
últimas vontades, dispunham e distribuíam o seu património, sem esquecer aqueles que
nada tinham. Por outro lado, partindo da definição de pobre, que inclui múltiplas
situações de pobreza, de acordo com as adversidades que estavam na sua origem,
importa conhecer aqueles que beneficiavam da caridade destes eclesiásticos.
Conhecidos os testadores e seus assistidos, apresentaremos as formas como os
clérigos exerciam a sua caridade, atendendo à composição dos legados e esmolas. Deste
modo, é nosso objectivo verificar e comparar a frequência das dádivas em dinheiro e
das que eram feitas em géneros, como alimentos e vestuário, destinadas aos mais
desfavorecidos. Além disso, pelo papel que as instituições de assistência, como
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confrarias e hospitais, desempenhavam no socorro aos pobres, analisaremos as doações,
em dinheiro, géneros ou bens imóveis, que lhes eram feitas pelos testadores, que por
vezes eram até responsáveis pela fundação destes estabelecimentos caritativos.
Por fim, centraremos a nossa atenção no lugar ocupado pelos legados pios nos
testamentos analisados, tendo em conta o peso que tinham nas fortunas distribuídas à
hora da morte, em comparação com as restantes doações, feitas à família, a outros
indivíduos particulares, e à Igreja.
Palavras-Chave: Riqueza; Pobreza; Caridade; Coimbra medieval
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Desigualdade fiscal e pobreza na Idade Média: um estudo de caso
O presente artigo pretende explorar de forma quantitativa e qualitativa o tema da
desigualdade e pobreza na Baixa Idade Média, mais especificamente na área do Porto na
primeira metade do século XV. Para tal recorreu-se ao “Livro da abertura da Rua Nova”, um
registo fiscal do ano de 1438 para a construção de uma rua no Porto, no qual foram registados
parte dos contribuintes do termo do Porto (numa área que se estendia desde Santa Maria da
Feira a sul, até Azurra já perto de Vila do Conde a norte).
Foram assim analisados os dados disponíveis relativos aos contribuintes em cada uma das
circunscrições no termo do Porto, sistematizando-os em tabelas e calculando para efeito de
análise as frequências absolutas e relativas.
Nesse livro os contribuintes estão divididos entres os que pagam a contribuição inteira
classificados de “inteiros”, os que pagam só metade (sendo num significativo número de vezes
indicada a razão para só pagar metade- por motivo de velhice, viuvez ou pobreza) sendo
chamados “cabaneiros”; finalmente são referidos os que são dispensados completamente da
contribuição, sendo normalmente também referido o motivo dessa dispensa (aqui os motivos
também são variados: doenças incapacitantes como a cegueira ou a viuvez de idosos que
estavam já doentes) sendo estes referidos como pobres.
Dos contribuintes temos a seguinte proporção: 19,4% de cabaneiros e 80,6% de inteiros, num
total de 4200 contribuintes de quem temos referenciado o estatuto; o número de pessoas que
empobreceu de tal modo que deixou de pagar completamente nesse ano é de 56 (o que dá
uma percentagem de 1,3%), não existindo dados para o total de pobres que não pagavam
habitualmente (mas que decerto seria superior). Os contribuintes de que foi indicada o
estatuto são todos de áreas rurais.
Vão ser apresentadas algumas das estratégias que eram utilizadas por alguns dos referidos
pobres para tentar mitigar a sua situação: a fuga, a recolha por parentes ou clérigos o que lhes
permitia assegurar a sua subsistência.
Finalmente vão ser apresentados alguns raros exemplos de pessoas que conseguimos detectar
na documentação que eram dispensadas do pagamento do imposto por serem privilegiadas e
que por diversos motivos são referidos.
Pretendeu-se assim com este trabalho, estudar os critérios que eram utilizados para alguém
ser considerado pobre e a diferenciação das várias categorias de contribuintes, assim como a
sua condição na Idade Média.
Palavras-chave: Idade Média, desigualdade, pobreza
A ORIGEM DA DESIGUALDADE NO SEIO DO
CLERO PAROQUIAL DE C OIMBRA ( SÉCULOS
XIII-XV): METODOLOGIAS DE ANÁLISE
M ARI A A MÉLIA Á LVARO
DE
C AMPOS
(U. C O I M BR A /CHSC; U. É V O R A /CIDEHUS; U.
L I MO G ES /CRIHAM; U. P AR I S 1/LAMOP)
[email protected]
| 96 8 1 15 7 13
Os clérigos medievais integravam um grupo social alargado no qual,
numa primeira análise, partilhavam os mesmos direitos e privilégios.
Porém, à parte do século e encarregues da mais importante
responsabilidade junto da sociedade do seu tempo – a de interceder
pela salvação dos fiéis de Deus e de mediar a relação entre estes e o
divino –, formavam um estrato muito heterogéneo e composto das
mais complexas desigualdades.
Ao longo das últimas décadas, os trabalhos realizados no âmbito da
prosopografia do clero medieval português têm dado a conhecer a
caracterização deste grupo. Esses estudos demonstram, desde logo,
que a primeira razão para essa desigualdade reside na origem social
dos indivíduos, antes de receberem ordens sacras. Mas factores
como o poder económico, a instrução ou a formação universitária,
as relações de sociabilidade e de solidariedade, nem sempre
decorrentes do estatuto social enquanto laicos, são igualmente
determinantes para o percurso destes homens e para o lugar que
ocuparão dentro da hierarquia eclesiástica.
A curto prazo, é minha intenção caracterizar os cabidos colegiais
das igrejas paroquiais de Coimbra, o que me permitirá diferenciar
formas distintas de vivência do estatuto eclesiástico, bem como as
razões de diferenciação entre os indivíduos pertencentes a este
grupo privilegiado. Nesta fase, interessa reflectir sobre o quadro
metodológico a aplicar a estes cabidos paroquiais, integrando-o no
contexto historiográfico nacional e europeu, das últimas décadas.
Num primeiro momento desta comunicação, proponho-me
caracterizar genericamente o clero paroquial de Coimbra, na Baixa
Idade Média. De seguida, apresentarei o quadro teórico que
fundamenta metodologias de análise social como a prosopografia e
a microbiografia. O objectivo final deste trabalho será a
1
demonstração da validade das metodologias escolhidas para o
estudo do grupo social em causa. Para tal, será fundamental a
exposição problematizante de exemplos da sua aplicação, pela
historiografia nacional e europeia.
PALAVRAS-CHAVE
Coimbra; clero medieval; colegiadas; prosopografia.
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CURRICULUM VITAE
M ARI A A MÉLIA Á LVARO
[email protected]
DE
C AMPOS
| 96 8 1 15 7 13
Bolseira
de
pós-doutoramento
FCT
(SFRH/BPD/100765/2014); projecto Territórios, sociedades e
religiões: redes paroquiais numa cidade medieval europeia. O caso de
Coimbra, nos Centros de Investigação CHSC (U. Coimbra),
CIDEHUS (U. Évora), CRIHAM (U. Limoges).
Doutoramento Santa Justa de Coimbra na Idade Média: o espaço
urbano, religioso e socio-económico, com bolsa FCT
(SFRH/BD/37303/2007). Apresentado em 2012, aprovado
por unanimidade, com distinção e louvor.
Investigadora associada do LAMOP (U. Paris 1 – Panthéon
Sorbonne).
PROJECTOS D E I&D
Desde 2012 – DEGRUPE – A Dimensão Europeia de um grupo de
Poder: o clero na construção política das Monarquias Peninsulares (sécs.
XIII-XV), PTDC/EPH-HIS/4964/2012, coord. Prof.
Doutora Hermínia Vilar. Projecto financiado pelo Programa
COMPETE e comparticipado pelo FEDER.
Desde 2012 – DIAITA. Dietas de Influência Mediterrânea: História,
Património e Media, FCT 2417 e CAPES 10396/13-0, coord.
Prof. Doutora Carmen Isabel Leal Soares. Projecto
parcialmente financiado pelo Programa FCT/CAPES e pela
Fundação Calouste Gulbenkian.
PUBLICAÇÕES RECENTES
CAMPOS, Maria Amélia Álvaro de – «Alimentar a cidade de
Coimbra na Baixa Idade Média: notas sobre os alimentos, as
estruturas de transformação alimentar e os ofícios». In
Carmen SOARES e Irene SILVA (ed.) – Ensaios sobre
Património Alimentar Luso-Brasileiro. Coimbra: Imprensa da
Universidade de Coimbra, S. Paulo: Annablume, 2014, p. 113137.
– – «Aspetti della convivenza fra mondo rurale ed urbano nella
città di Coimbra nel Medioevo». In Alessandro MUSCO e
Giuliana MUSOTTO (ed.) – Coexistence And Cooperation In The
Middle Ages. IV European Congress of Medieval Studies F.I.D.E.M.
(Fédération Internationale des Istituts d’Études Médiévales) 23-27 june
2009, Palermo (Italy). Palermo: Oficina di Studi Medievali,
2014, p. 163-177.
COMUNICAÇÕES
RECENTES
EM
EVENTOS
CIENTÍFICOS
2014 – «Water supply and sewerage in the Portuguese city of the
Late Middle Ages. The example of Coimbra», presented at the
12th International Conference on Urban History: Cities in Europe,
3
Cities in the World of the European Association of Urban History,
Lisbon, September 3rd-6th.
– «Testamentary will of Pedro Domingues and the Foundation of
the chapel of Corpo Santo, in the collegiate of Santa Justa»,
Conferência Internacional Kings & Queens 3: Entourage, organizado
por Royal Studies Network, 11-12 Julho, Winchester, 2014.
– «The establishment of the parish network of Coimbra (12th
century)»,45th Annual Conference Of The Association For Spanish
And Portuguese Historical Studies, 26-29 Junho, Modena, 2014.
– «The definition of the parish network of Coimbra (12th
century): parish clergy and its conexions with the royal
power», Encontro Internacional Os eclesiásticos e a construção da
monarquia medieval: metodologias, experiências e perspectivas, 19 e 20
Junho, Évora, 2014.
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A source for the Study of Poverty in Early Modern Seville: the ‘moneda forera’ census
One the main problems to measure poverty in Early Modern times is the lack of common criteria both
from a qualitative and a quantitative point of view: What did it mean to be poor for the people of the 16th
century, and what did imply in their lives? What was the poverty threshold and how many people lived bellow
it? Academic studies have been affected by this problem, and scholars have traditionally been impelled to
abandon more general approaches to the topic, focusing their efforts in the analysis of particular cases. In this
regard, a good example is the study of pious institutions dedicated to poor people –such as hospitals,
brotherhoods, misericordias–, favoured by their rich documental collections.
These studies have contributed to the progress of our knowledge about how Early Modern society dealt
with the presence of poverty that affected a large proportion of the population. Poverty was considered
something inevitable and, by the wealthier part of society, even desirable, because it allowed them to proof their
Christian charity. But the advances in this way have proven, more than ever, the necessity of new tools to
measure this complex phenomenon by integrating the partial studies in a structural view.
This paper seeks to expound the utility of a particular fiscal source: the neighbours’ census produced for
the collection of the “moneda forera”. The characteristics of these census make them appropriate documents for
the development of such tools. They were prepared regularly and always with the same criteria; they registered
the inhabitants of every street in every neighbourhood of every town, were they commoner or not; and, above all,
they are based on clear and regular economic criteria through time, so they permit to note who were the poor
neighbours, which are marked in every census.
The middle decades of the 16th century witnessed the growth of the commerce with the Americas that
attracted richness as well as immigrants to Seville, provoking the increase of economic inequality. Despite this
fact and the classical studies by Fernand Braudel and Bernard Vincent –who worked with Andalusian census –,
poverty continues to be a little-known topic in this epoch and region. The approach proposed in this paper takes
as its starting point the study of the census created in different Seville neighbourhoods in the central years of the
16th century.
Key words: census, moneda forera, poverty, Seville.
Curriculum Vitae
Personal information:
Juan Manuel Castillo
Honorary Assistant at the Department of Early Modern History, and PhD candidate,
University of Seville.
Academic Information: Master in ‘Estudios Históricos Avanzados’, University of Seville, 2014; specialization
in Early Modern History.
Degree in History, University of Seville, 2013; End-of-Degree extraordinary prize.
Degree in Architecture, University of Seville, 2010; specialization in heritage and
restoration.
Publications:
“El mercado local de Sevilla a mediados del siglo XVI a través del tejido laboral y
urbano de una collación con vocación comercial”, Actas de la XIII Reunión Científica
de la Fundación Española de Historia Moderna, Universidad de Sevilla, Sevilla.
“El tejido productivo en la Sevilla de mediados del XVI: un análisis demográfico y
socioeconómico a partir de los padrones de moneda forera de las collaciones de Santa
Catalina y San Román de 1548”, Historia y Genealogía, nº 4 (2014), Universidad de
Córdoba, Córdoba.
“La interpretación y el diálogo frente a la mímesis”, La Plataforma, nº 3, Área de
cultura, Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Sevilla, Sevilla, 2010.
Conferences
Accepted paper: “Norma y uso del espacio religioso en la Castilla pretridentina”.
Session: ‘Cultura material y civilización en la España Moderna’, III Encuentro de
Jóvenes Investigadores en Historia Moderna, Fundación Española de Historia
Moderna, University of Valladolid, July, 2015.
Paper: “De la ciudad al barrio: la vida en las collaciones sevillanas a mediados del
Quinientos”, International Seminar ‘Do silêncio à ribalta: os resgatados das margens
da história (séculos XVI-XX)’, Universidade do Minho, Braga, May, 2015.
Paper: “Negociando la representación: la difícil inserción de la nobleza en los espacios
religiosos patente en cartas de patronazgo, testamentos y pleitos”, International
Workshop ‘Metodologías y Fuentes en Historia Comparada, siglos XV-XIX. Brasil y
España’, University of Seville, November, 2014.
Paper: “El mercado local de Sevilla a mediados del siglo XVI a través del tejido
laboral y urbano de una collación con vocación comercial”, Section A.2. ‘Las
ciudades mercantiles’, XIII Reunión Científica de la Fundación Española de Historia
Moderna, University of Seville, June, 2014.
Fellowships
Collaboration Fellowship at the Early Modern History Department, University of
Seville. Supervised by Dr. Rafael M. Pérez García. October 2013-July 2014.
Intership at the Early Modern History Department, University of Seville. October
2012-July 2014.
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1 Riqueza e Pobreza na Idade Média: Os legados pios