Metodologias para Formação de Redes de Desenvolvimento – Um Estudo Benchmarking da Regional Innovation System – RIS, na União Européia - UE e das Plataformas Tecnológicas – PLAT, no Brasil1 Branca Regina Cantisano Terra2 Guilherme Ary Plonski3 Resumo A formação de redes está relacionada a várias áreas do saber, como a administração, a engenharia, a economia, a sociologia, a psicologia, o direito, entre outras. Entretanto, a sua aplicação é correlata a qualquer área de produção de bens e serviços. Neste trabalho, o enfoque é dado para as redes sociais — a compreensão da interação entre atores sociais que delas participam e a sua importância para o desenvolvimento econômico e social de regiões. O presente estudo apresenta um estudo benchmarking de duas metodologias lançadas em programas governamentais - a Regional Innovation System - RIS e as Plataformas Tecnológicas - PLAT. A metodologia RIS foi criada nos anos 90 por uma iniciativa da Comissão Européia na UE. A metodologia PLAT foi lançada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT também nos anos 90, no Brasil, como parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT III. Os resultados mostram as características de quatro projetos analisados (dois projetos RIS e dois PLAT) com relação à concepção teórica das metodologias, a contextualização das redes e as linhas de atuação das ações implementadas. Palavras-chave: Desenvolvimento; hélice tríplice; desenvolvimento de redes. Abastract Development Networks are related to several fields of knowledge, such as management, engineering, economics, sociology, and others. Its application is correlated with any area that produces goods and services. In this paper the focus is the understanding of social networks that promote development by means of technological innovation – their members, their importance to the economic, social and regional development and the theoretical concepts that they were designed. This paper present a benchmarking study of two methodologies, presented in governmental policies programs, which organize development networks. They are: Regional Innovation System – RIS and Technological Platforms – PLAT. The first one was created in the nineties by the European Committee and its objective was to design strategies of innovation and action plans to promote competition among business firms. The Brazilian government, also in the nineties, introduced the second one, called Technological Platform - PLAT. The aim of the program is to investigate the technological supply and demand of cooperative projects among the participants of the network in order to promote innovation. Key words: Development; triple helix; development networks. 1 Publicado originalmente no XXIV SIMPÓSIO DE GESTÃO DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA - Inovação em Redes & Redes de Inovação, 17 a 20 de outubro de 2006, Gramado, RS – Brasil 2 3 D.Sc. UERJ e UNISUAM D.Sc. USP. 1 1. Introdução A formação de redes está relacionada a várias áreas do saber, como a administração, a engenharia, a economia, a sociologia, a psicologia, o direito, entre outras. Entretanto, a sua aplicação é correlata a qualquer área de produção de bens e serviços. Neste trabalho, o enfoque é dado para as redes sociais — a compreensão da interação entre atores sociais que delas participam e a sua importância para o desenvolvimento econômico e social de regiões. A análise de redes vem se ampliando nos últimos anos, embora haja importante discussão epistemológica sobre a sua posição na pesquisa científica e tecnológica. É fato que as redes criam um conhecimento comum entre diversas áreas do saber e o transformam de tácito para explícito. Além disso, as relações existentes entre os atores que participam das redes fazem parte do capital existente nas sociedades; logo, como capital, serve de base para o desenvolvimento econômico e social de regiões. As redes geram o que Braczyk et al, 1998 chamam de ambiente favorável à economia de associação e conseqüentemente à economia do conhecimento. Marteleto e Silva (2004) citam que o capital social pode ser usado para promover a redução da pobreza, o desenvolvimento e o bem-estar social, o que aproxima os interesses da sociologia e da economia neste campo e está diretamente relacionado ao foco deste estudo. O presente trabalho apresenta um estudo benchmarking de duas metodologias lançadas em programas governamentais - a Regional Innovation System - RIS e as Plataformas Tecnológicas - PLAT. A metodologia RIS, criada nos anos 90 por uma iniciativa da Comissão Européia, na UE, objetiva estabelecer uma estratégia de inovação e um plano de ação para a promoção da competitividade de empresas das regiões. A metodologia PLAT foi lançada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT também nos anos 90, no Brasil, como parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT III e objetiva o levantamento da oferta e da demanda tecnológica para a formação de projetos cooperativos de inovação tecnológica, entre os atores participantes das redes. Os resultados do presente estudo mostram as características de quatro projetos analisados (dois projetos RIS e dois PLAT) com relação à concepção teórica das metodologias, a contextualização das redes e as linhas de atuação das ações implementadas. 2. Os Modelos Teóricos Adotados Os conceitos teóricos adotados como diretrizes no presente estudo foram os sistemas de inovação, a hélice tríplice, a gestão do conhecimento e o conceito de redes. O primeiro conceito de sistemas de inovação apresenta os atores, os elementos e as estruturas de uma região, que devem ser considerados em uma análise do diagnóstico e das ações necessárias às implementações das redes, com vistas ao desenvolvimento. O segundo conceito apresenta a hélice tríplice: universidade, empresa e governo, como sendo os principais atores indutores do desenvolvimento, em um sistema de inovação. O terceiro conceito de gestão do conhecimento apresenta a forma como as pessoas, as organizações e as regiões geram, difundem e alavancam seus ativos intelectuais, gerando capital e alcançando o desenvolvimento. Finalmente, o conceito de redes mostra a concepção da organização das redes, dentro de uma visão progressista de desenvolvimento. 2.1. Os Sistemas de Inovação A expansão do processo de inovação, com desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação - C&T&I, criou ambientes apropriados para a pesquisa e desenvolvimento – P&D, com o 2 objetivo de alcançar resultados econômicos e sociais, em função da produção de conhecimento (Terra, 2001). Essa finalidade passa pela necessidade de os países construírem um sistema nacional de inovação (Lundvall, 1992; Nelson, 1993 e Edquist, 1997) e de prepararem os atores, integrantes deste sistema, para alcançarem as metas de desenvolvimento econômico e social projetadas nas políticas governamentais de C&T&I, por meio da formação de redes. Os sistemas de inovação (Freman, 1974; Lundvall, 1992; Nelson, 1993; Edquist, 1996) são conjuntos de elementos e estruturas de uma nação, no caso de sistemas nacionais, que assumem funções específicas no processo de produção, transmissão e armazenamento de conhecimento, para fins de inovação. Tais sistemas são caracterizados por sua capacidade de interação, mediante a articulação desses elementos, com a finalidade da produção de conhecimento, sua difusão e utilização, de forma competitiva e lucrativa. Sistema nacional de inovação, segundo relato de Albuquerque (2004), "é um conceito síntese da elaboração evolucionista neo-shumpeteriana: ele expressa o complexo arranjo institucional que, impulsionando o progresso tecnológico, determina a riqueza das nações". Denomina-se sistema regional ou local de inovação quando se realiza a contextualização de uma região de um sistema nacional de inovação. Entretanto, não se pode desconsiderar a influência do sistema nacional de inovação sobre o sistema regional. No presente trabalho, verifica-se se o recorte das redes de desenvolvimento, criadas pelos atores integrantes do movimento de progresso das regiões, segue a diretriz deste conceito teórico e aborda os seis contextos delineados, conforme a sua atividade principal no processo de inovação, segundo a UE, 1999a e 1999b, 2000a, 2000b e 2000c: a) Contexto Produtivo é aquele em que se produz bens e serviços e é integrado pelas empresas, bem como por suas entidades de ação conjunta (associações, federações, juntas comerciais, entre outras); b) Contexto Científico é aquele em que, predominantemente, produz-se conhecimentos científicos, constituído pelas universidades e pelos centros públicos de pesquisa. É nesse contexto que se desenvolve a análise de atividades, de investimentos, de pessoas, de integração com esforço em nível nacional, de patentes concedidas a indivíduos e a empresas e outros; c) Contexto Tecnológico é aquele em que se desenvolvem as tecnologias e são constituídos por institutos ou centros tecnológicos, parques tecnológicos, laboratórios de ensaios e medidas, fabricantes de bens e de equipamentos e empresas de engenharia e de serviços avançados tais como aquelas ligadas à informação e informática; d) Contexto Financeiro é onde existem recursos financeiros disponíveis para os demais contextos necessários ao desenvolvimento de suas atividades. É integrada pelo sistema bancário, pelas sociedades de capital de risco, pelas sociedades de garantia recíproca e pela administração pública esta última constituída por órgãos governamentais que fomentam a inovação, principalmente sob forma de bolsas, subvenções, créditos e outros mecanismos; e) Contexto Logístico ou operacional é onde se faz o mapeamento da infra-estrutura necessária ao desenvolvimento. É neste contexto que se verifica a existência de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, redes de comunicação, laboratórios, hospitais, escolas, entre outros; e f) Contexto Legal é analisado de forma a remover os impedimentos às ações necessárias à instalação do processo de desenvolvimento e estudar medidas a serem adotadas para a regulamentação e indução da inovação tecnológica, prevendo instrumentos legais que garantam a continuidade do desenvolvimento tecnológico para uma região. Hoje, os Contextos Social e Ambiental também já são considerados por diversos autores (Terra, B.; Mello, J. M. C., Domingues, J. M.; Barros, F. C. P. e Seidl, P., 2000; Terra, B.; 3 Barros, F. C. P. e Seidl, P., 2001a e Terra, B.; Barros, F. C. P. e Seidl, P., 2001b) nas análises particulares dos sistemas de inovação, em função da importância que estes dois locus vêm assumindo, principalmente nos países em desenvolvimento. No contexto social consideram-se principalmente a responsabilidade social das empresas e os empreendedores sociais ou cívicos, atores importantes das redes, uma vez que criam a sinergia necessária à produção do conhecimento, dentro destas estruturas desenvolvimentistas. No contexto ambiental considera-se toda a forma de uso de tecnologia limpa para a produção de inovação, bem como seu impacto no meio-ambiente. 2.2. A Hélice Tríplice Como não basta que os atores de um sistema regional de inovação coexistam para que se tenha uma rede de desenvolvimento, as universidades e as empresas, esferas institucionais distintas e relativamente separadas, começaram a assumir funções que eram anteriormente específicas de uma e de outra, com a finalidade de atingirem os objetivos inerentes à inovação tecnológica. Observa-se, nos habitats de inovação, uma mudança de uma interação bipolar entre a universidade e a empresa para uma interação multipolar. Adicionalmente, o papel do governo na relação com essas duas entidades está mudando, em direções aparentemente contraditórias. Os governos, por um lado, estão oferecendo incentivos e, por outro, pressionado as instituições acadêmicas para que desempenhem um papel maior na inovação, pois a sociedade está aprendendo a avaliar, ainda que intuitivamente, a relação custo/benefício dos recursos investidos. No paradigma Fordista-Keynesiano, o contrato entre universidade e a sociedade era baseado no modelo de inovação linear, presumindo contribuições de conhecimento acadêmico para a economia – technology push ou vice-versa – demand pull. O que assume o seu lugar é um modelo não linear de inovação em que universidade, empresa e governos vêm emitindo e captando linhas recíprocas e múltiplas, em diferentes estágios de produção do conhecimento, formando um habitat de inovação no seio da sociedade. Verifica-se a utilização de modelos institucionais inovadores, com formação de redes ou de consórcios em que participam duas ou mais organizações, de natureza similar ou distinta (Plonski, 1993). É nesse ambiente que surge o novo modelo das relações interinstitucionais. O governo apresenta iniciativas para que as universidades assumam novas funções, com foco no desenvolvimento econômico, atuando de forma aderente ao modelo de universidade empreendedora, proposta na hélice tríplice, (Etzkowitz, Webster, Gebhard eTerra, 2000). A hélice tríplice é, dessa forma, entendida como um conceito fundamental, cuja metáfora representa um mecanismo de interação, que permite aos atores: universidade, empresa e governo, criarem uma dinâmica interativa entre eles e entre os demais atores sociais de uma rede de desenvolvimento. Esta rede, localizada em um sistema de inovação, promove o progresso por meio da atitude empreendedora desses atores, da modernização tecnológica e, conseqüentemente, da inovação. A hélice tríplice surgiu da necessidade da adoção de formas eficazes e flexíveis de gestão do conhecimento nestas comunidades ou habitats tecnológicos, onde é premente o desenvolvimento econômico e social, o qual deve ser medido por meio de indicadores de avaliação que possam demonstrar a evolução do processo de inovação tecnológica e seu impacto na região. Além disso, esses modelos escolhidos para servirem de diretriz nas análises acadêmicocientíficas devem seguir formatos abrangentes, de maneira a não dificultarem o movimento 4 cíclico, espiral, cumulativo e contínuo do processo inovador, conforme preconizado no modelo da hélice tríplice. Este modelo foi lançado nos anos noventa por Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff, professores da State University of New York e da University of Amsterdan, respectivamente (Etzkowitz e Leydesdorff, 1996). 2.3. A Gestão do Conhecimento A gestão do conhecimento, conhecido em inglês como knowledge management, é uma forma de gerir uma organização, um grupo de pessoas ou mesmo uma região, por meio da interação entre estes atores. Usa mecanismos de transformação do conhecimento tácito ou individual em conhecimento explícito, de forma que este possa ser disponibilizado como vantagem competitiva. A gestão do conhecimento une pessoas e organizações, promove a competitividade e dissemina o conhecimento, por meio da sua democratização. De uma forma geral, a gestão do conhecimento pode ser definida como a busca pelo conhecimento útil, oriundo da competência dos indivíduos, construída a partir da capacidade de estudo, de análise, de pesquisa, de inovação, de criatividade e da experiência de vida, além disso, utilizam as tecnologias da informação e comunicação como ferramentas de gestão. Esse conhecimento é considerado útil quando é capaz de ser absorvido pelo mercado, pelos clientes, pelos processos de negócio e por todos os fatores que possam influir no aumento da competência das pessoas e da competitividade de uma organização ou de uma região. A definição de gestão do conhecimento, com foco nas empresas, dada por Melo (2003) é "identificar e mapear os ativos intelectuais para fazer com que os processos dentro de uma empresa atendam aos requisitos do negócio, transformar os conhecimentos implícitos em explícitos e como armazená-los (tarefa do profissional, gerente do conhecimento), democratizar o acesso dos colaboradores aos conhecimentos sobre o negócio (tarefa do portal do conhecimento, a ser elaborado durante o processo de gestão do conhecimento), fazer avaliação da qualidade das informações obtidas para o seu agrupamento." Dessa forma, o conceito teórico de gestão do conhecimento pode ser utilizado na observação dos habitats de inovação e em especial, na dinâmica das redes de desenvolvimento organizadas para resultarem no progresso econômico e social. 2.4. As Redes Uma definição simples, mas abrangente de redes e dada por (Emirbayer, M. and Goodwin, J., 1994): "Rede é um conjunto de relações ou ligações sociais entre um conjunto de atores (e também os atores ligados entre si)". Outra consideração (DeBresson e Amesse, 1991) é a de que as redes são usualmente entendidas como mais do que a soma de relações bilaterais. Elas são um conjunto de relações elaboradas dentro de um sistema integrado e que dão origem às ações, determinadas a partir das diretrizes e dos valores estabelecidos nos grupos de relacionamento, pelos atores sociais nela envolvidos. Por um longo tempo o conceito de redes vem sendo usado em engenharia para o gerenciamento de sistemas complexos, em particular em comunicações e transportes. Nos anos 60 e 70, os sociólogos usaram o conceito para entender normas, trocas e poder. Nos anos 80, o conceito tinha se tornado uma das mais modernas metáforas nas ciências sociais - por exemplo, em marketing industrial e comércio, a metáfora de redes captura algumas das características essenciais de cadeia produtiva: fornecedores, relações de usuários ou clientes, aglomerações regionais, alianças técnicas, alianças estratégicas e outras. 5 Uma rede pode reunir duas ou mais empresas, várias regiões e diversos atores, que tenham diferentes missões institucionais, no seu modelo de gestão, mas que objetivam um bem comum maior. As redes também podem incluir uma joint-venture, que irá além de um projeto particular isolado, incluindo toda ou parte de uma cadeia produtiva, como já foi citado: redes de fornecedores, de clientes, de desenvolvedores e outros atores, que formam as ligações e os relacionamentos. A rede de desenvolvimento é uma rede específica que promove cultura inovadora entre os atores regionais e aumenta o capital social local, para que ocorra o desenvolvimento econômico e social, por meio da inovação. Na abordagem da C&T&I, a rede de desenvolvimento aparece na literatura também como rede de conhecimento, de inovação, de competitividade e de negócios. 3. A Metodologia Empregada − Um Estudo Benchmarking Utilizou-se nesta pesquisa a metodologia do estudo benchmarking entre duas tipologias usadas para a formação de redes de desenvolvimento O benchmarking é entendido como uma ferramenta utilizada para revitalizar os processos produtivos e de desenvolvimento, incluindose a produção do conhecimento, por meio da comparação das características, dos conjuntos e componentes, dos aspectos e processos entre várias organizações ou redes. O objetivo do benchmarking é verificar a forma de ocorrência das operações dentro de uma empresa, instituição, organização ou região, estabelecendo padrões de desempenho, pesquisando novas idéias e práticas para serem copiadas e ou adaptadas. No estudo benchmarking realizado neste trabalho, a partir do estudo de casos, três dimensões foram analisadas na arquitetura das redes, que serão a seguir mostradas. A primeira dimensão está relacionada à concepção teórica de seus respectivos projetos, baseados nos conceitos de sistemas de inovação (Freman, 1974; Lundvall, 1992; Nelson, 1993; Edquist, 1996), da hélice tríplice (Etzkowitz e Leydesdorff, 1996) e da gestão do conhecimento (Melo, 2003), como será demonstrado no decorrer da leitura. A segunda dimensão diz respeito à arquitetura e aborda a contextualização das redes, segundo os seis contextos citados anteriormente no documento da UE, 2000a, 2000b e 2000c e mais os dois contextos sugeridos pela autora, integralizando os oito contextos a serem observados: produtivo, tecnológico, científico, logístico, financeiro, legal, social e ambiental. A terceira dimensão identifica as linhas de atuação das ações a serem implementadas nos planos de ação elaborados pelas redes, segundo citação do documento do Governo do Estado do Rio de Janeiro, 2001: diagnóstico, monitoramento (indicadores de C&T&I), prospecção, infra-estrutura, sensibilização, formação tecnológica, informação tecnológica e financiamento tecnológico. 4. A Caracterização da RIS e da PLAT 4.1. A Regional Innovation Strategy - RIS A metodologia RIS, segundo Cooke (1992) foi criada nos anos 90 por uma iniciativa da UE, (UE, 1998, 1999 e 2000) e foi idealizada a partir do modelo teórico dos sistemas nacionais de inovação (Freman, 1974; Lundvall, 1992; Nelson, 1993; Edquist, 1996). A RIS, segundo Oughton, C. (2000), é uma metodologia adequada a projetos regionais e baseada em redes de desenvolvimento formadas por diversos atores, onde as empresas definem suas necessidades e definem o plano de ações para atender a essas demandas. A rede desenvolve um consenso regional e estabelece uma estratégia clara e viável para promover a 6 competitividade das empresas estabelecidas da região, através da inovação, além de definir as ações necessárias à implementação dessa estratégia. A RIS é um programa governamental financiado pela UE junto com os governos e empresários locais. Esta metodologia, usada como estratégia de desenvolvimento para as regiões, foi aplicada a diversos países da Europa, com muito sucesso, devido à obtenção de resultados positivos, muito além das expectativas planejadas na sua arquitetura inicial. A RIS é considerada a primeira política de inovação que objetiva a catálise da inovação e o desenvolvimento para formar as regiões capazes e promissoras. A finalidade é criar a cultura da inovação na região de modo que estas aprendam a ser auto-sustentáveis. Após a implantação inicial da RIS, outras ações que visam dar continuidade ao desenvolvimento tecnológico regional devem ser aplicadas, desde que sejam de consenso e elaboradas a partir da gestão do conhecimento local. A função de uma política pública para a promoção de inovação, conforme apresentada na metodologia RIS, consiste em considerar o setor público parceiro do setor privado, fazendo com que todos os atores envolvidos na rede desempenhem papéis importantes de catalisadores, de articuladores, de intermediadores, de facilitadores e de suporte às ações propostas pelo grupo. Na metodologia RIS a demanda empresarial ou as necessidades de negócios, sejam elas latentes ou não, devem ser as diretrizes do projeto. A grande vantagem dessa metodologia é a sua aplicabilidade a qualquer região genérica de um país ou a qualquer sistema regional de inovação, já que os próprios atores regionais, organizados em redes, serão os responsáveis pelo processo de desenvolvimento estabelecido nas metas estratégicas e nas ações a serem implementadas. Para Braczyk et al. (1998), a RIS pode ser considerada uma tipologia cujo objetivo seria dar assistência ao entendimento das diferenças e das similaridades, em termos de nível e grau de institucionalização dos atores da rede, para fins de inovação. Na realidade, o autor cita que a RIS é a criação realística de um modelo conceitual, para um sistema de governança da inovação em uma determinada região, e que a sua importância está nas duas dimensões que engloba: a governamental e a de negócio, já que esta ultima é considerada diretriz maior, em função das demandas empresariais. O processo da RIS consiste em desenvolver uma estratégia e um plano de ações como fatorchave para o desenvolvimento dos setores envolvidos na rede formada pelos atores regionais, escolhidos a partir dos contextos (científico, tecnológico, produtivo, logístico, legal, financeiro, social e ambiental), necessários à implementação das ações de desenvolvimento. Para cada setor produtivo escolhido, a rede RIS convida atores que podem ser: pequenas e grandes empresas, fornecedores, acadêmicos, clientes, agências de fomentos e outros. Escolhe entre eles um representante de um negócio de sucesso para a liderança da própria rede. Os benefícios esperados da RIS são: a) uma estratégia clara e de longo prazo para determinados setores produtivos; b) um foco internacional para o estabelecimento das regiões como pólos exportadores de negócios, se esta for uma das ações definidas na estratégia de desenvolvimento; c) interações mais eficazes entre os atores das próprias cadeias produtivas e entre os demais atores, principalmente os representantes das agências de fomento (contexto financeiro); d) possibilidade de criação de bancos de dados para melhor exploração do conhecimento disponível na região, para fins de negócio; e) oportunidade de se verificar, por meio de estudos benchmarking, as melhores práticas regionais, nacionais e globais, difundir estas informações e aplicá-las quando necessário; f) formação de novas redes, sinergias e parcerias que agregam capital social à região; g) suporte das empresas na elaboração de 7 regulamentos, normas, propostas e questões mercadológicas e h) influência dos atores nas políticas regionais de inovação e suas prioridades. Os setores da RIS a serem escolhidos para participar da rede serão muitas vezes em função de poderem se tornar líderes tecnológicos nacionais ou globais em determinada área de conhecimento. Isto reduz a tensão entre os setores produtivos e foca uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, construindo em bloco o modelo que a região quer ter para o desenvolvimento econômico e social sustentável. No passado os materiais de informação da UE orientavam os atores regionais em como desenvolver uma estratégia, a partir de um consenso regional. Atualmente, com mais de dez anos de experiência na metodologia RIS, a Innovating Regions in Europe Network – IRE, que é uma rede criada (chamada de rede das redes) com apoio da UE pelos países que já desenvolveram a metodologia RIS, orienta as redes sobre as quais os fundamentos necessários para construir a estratégia factível, passível de realização, focando o sistema regional de inovação, em que todos os atores relevantes interagem para alavancar as metas estratégicas da região (IRE Network, 2002 e 2005). 4.2. As Plataformas Tecnológicas As PLAT são definidas em documentos lançados pelo MCT, 1998, como: “... foros onde as partes interessadas da sociedade se reúnem para identificar os gargalos tecnológicos ligados a um determinado setor ou região e para definir as ações prioritárias para eliminá-los. Como parte interessada da sociedade entende-se o agente do sistema de inovação e difusão de tecnologia: usuários e produtores de conhecimento técnico e científico, empresários, investidores, agências de fomento, representantes do governo federal, estadual, municipal e outros...”. As PLAT são instrumentos adequados à aplicação de políticas públicas de indução ao desenvolvimento tecnológico regional no Brasil. A operacionalização das PLAT se dá por meio da organização de redes de desenvolvimento, sejam elas regionais e ou setoriais, financiadas pelo governo brasileiro, que atuam nos sistemas regionais de inovação, funcionando como elementos indutores do processo de inovação. O MCT lançou, em 1998, a terceira edição do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - PADCT III, por meio de dois Editais que apresentaram projetos de plataformas tecnológicas dentro do Componente de Desenvolvimento Tecnológico CDT/PADCT III. As plataformas tecnológicas tinham como resultado o estabelecimento de propostas para projetos tecnológicos cooperativos, que objetivavam o desenvolvimento da pesquisa tecnológica no país (MCT, 1998a, 1998b, 1999 e 2000). Segundo Passos, C. (2002), um dos consultores avaliadores do programa, o PLAT visa organizar foros onde as partes interessadas da sociedade se reúnem para identificar os gargalos tecnológicos ligados a um determinado setor ou região e para definir ações prioritárias para eliminá-los. Nessas plataformas, o MCT considera os parceiros locais como atores ativos e fundamentais ao desenvolvimento das economias regionais (Fujino, A; Terra, B; Passos, C.A.S., 2001). Foram contratados pelo MCT, ao todo, 30 projetos em duas rodadas, selecionados a partir de editais definindo regras e valores de financiamento. Destes projetos apenas um sofreu problema de continuidade. Os resultados da primeira rodada foram consolidados em dez plataformas que obtiveram sucesso após a sua aplicação regional. Estas plataformas são: CARS - Plataforma Tecnológica da Cadeia Automotiva do Rio Grande do Sul; PLAPSUL Plataforma de Polímeros no Sul do Brasil; MedQTROP - Medicamentos Para o Combate a 8 Tuberculose; IRDSL - Identificação de Restrições Técnicas, Econômicas e Institucionais ao Desenvolvimento do Setor Leiteiro Nacional; PLATARAN - Problemas da Produção, Abate/Processamento e Comercialização dos Produtos da Ranicultura; Autocomp Automação Industrial e Componentes; EXPFLOR - Expansão Competitiva do Setor de Base Florestal; PDAI-BA - Coordenação das Necessidades Tecnológicas e Fomento de Ações Cooperativas em Automação visando o Desenvolvimento do Setor Industrial do Estado da Bahia; PIBRC - Plataforma para Indústria Brasileira de Revestimento Cerâmico; Cadvalor Análise da Cadeia de Valor da Indústria de Mármore e Granito e Construção Civil do Espírito Santo. A segunda rodada do PADCT III foi composta de outros vinte projetos. Os indicadores de C&T&I utilizados para avaliar o PADCT III, incluindo o PLAT, constam da metodologia elaborada por Furtado, A. T.; Terra, B.; Passos, C.; Plonski, G. A. (2002) em trabalho apresentado ao MCT, para cumprimento de cláusula do acordo com o Banco Mundial, parceiro do governo brasileiro no financiamento deste programa. Os resultados apresentados no estudo citado mostraram que o PLAT atingiu seus objetivos, superando-os em alguns casos. Foi o primeiro programa brasileiro a atuar na base do processo de desenvolvimento, criando mecanismos de aproximação entre os principais atores dos sistemas regionais de inovação por meio das redes criadas, fazendo com que haja um alinhamento de ações e principalmente uma maior sinergia entre estes e suas respectivas ações. O principal resultado do PLAT foi a formação de redes por meio de parcerias entre governo, universidades, centros de P&D e o setor empresarial para elaboração dos projetos cooperativos que visam eliminar gargalos e aumentar a competitividade das empresas nacionais em diversas regiões do país. O outro importante resultado esperado era a formação de redes cooperativas. Além disso, a criação de associações específicas, o estabelecimento de fóruns permanentes de discussão e a troca de informações visando à inovação, seja ela em produtos, processos ou serviços vêm complementar o cenário de desenvolvimento esperado. O PLAT teve o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq como agência executora, que atuou como gestor do programa. Hoje, através dos Arranjos Produtivos Locais - APL, o MCT, por meio da Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP, vem dando continuidade à organização de redes regionais, que objetivam o desenvolvimento por meio da incorporação de tecnologia às empresas, para o aumento da competitividade local. Os APLs, baseados nos sistemas locais de inovação, surgiram como aprofundamento teórico do PLAT e com o lançamento dos Fundos Setoriais, uma vez que os programas do PADCT III foram desmembrados em diversos programas. 5. O Estudo Benchmarking 5.1. Na Comunidade Européia A metodologia RIS foi aplicada a várias regiões de diversos países da EU; entretanto, a razão da escolha deste estudo de campo na Espanha deveu-se ao fato da sua semelhança regional com várias localidades do Brasil. Estas semelhanças podem ser aferidas pela cultura latina; pelo interior com baixa renda per capita, em comparação com as regiões mais desenvolvidas; pela presença de pequenas e médias empresas; pela infra-estrutura científica e tecnológica concentrada em determinada região (na Comunidade de Madri, a capital do país tem a maior concentração de infra-estrutura de P&D, assim como no Estado do Rio de Janeiro, (Etzkowitz e outros, 1998); pela necessidade de desenvolver tecnologicamente vários setores produtivos, incluindo o setor primário (basicamente a agricultura), além da pesca e de vários setores industriais e de serviços, tais como o turismo, entre outros. 9 Foram escolhidos os planos de Madri e Galícia. A Comunidade de Madri implementou no final dos anos 90, o III Plano Regional e a Comunidade de Galícia, o primeiro Plano. A primeira região estudada foi a Galícia (Xunta de Galicia, 1999a e 1999b). A Galícia é uma região rural, situada ao noroeste da Espanha, que representa 5,84% do território espanhol e onde habitam 6,93% da população do país. O Produto Interno Bruto - PIB per capita em relação à média européia (admitida como 100%) é de 64,07%, sendo a espanhola de 77,6%. A taxa de desemprego é de 18,3% e está acima da média do país. Sua estrutura empresarial é de pequenas e médias empresas, cerca de 100% e empregam 87,36 % dos trabalhadores galegos. A Estrategia Gallega de Innovación é o primeiro documento produzido pela Xunta de Galicia, municipalidade, representante do governo local., com a utilização da metodologia RIS, objetivando o desenvolvimento tecnológico regional por meio de uma estratégia consensual local e de ações previstas na Estrategia Gallega de Innovación. Estas ações estão citadas a seguir, na transcrição do Plano de Ação da Conselheria de Indústria e Comércio. As ações estão divididas em três Programas a seguir citados, com relação aos objetivos, programação e participantes: a) Programa 1 — Adaptação de Infra-estruturas, com o objetivo de avaliar as capacidades atuais das infra-estruturas tecnológicas e dotá-las dos recursos humanos e técnicos necessários para satisfazer as necessidades de serviços de apoio à inovação demandada pelo setor produtivo; b) Programa 2 — Fomento da Inovação nas Empresas, com o objetivo de criação e desenvolvimento de um programa que ajude as empresas a iniciarem e ou consolidarem ações inovadoras, a serem executadas por equipes de especialistas em inovação, que diagnostiquem, identifiquem ou impulsionem estas ações; c) Programa 3 — Rede de Instituições de Interface, com o objetivo de criação e desenvolvimento de uma rede de trabalho comum entre todos os organismos de interface que operam na Galícia, com objetivo de melhorar sua capacidade de resposta às necessidades das empresas, assim como divulgar a cultura da inovação na Comunidade Autônoma Galega. Os órgãos de interface são escritórios de transferência de tecnologia, que operam na interface entre universidade, empresa e governo, conforme conceito da hélice tríplice. Todos os participantes das redes dos três programas são as instituições que implementarão as ações previstas no Plano, pertencentes aos diversos contextos dos sistemas regionais de inovação. A segunda região estudada foi Madri. A Comunidade de Madrid é a capital da Espanha e constitui o principal centro de pesquisa e desenvolvimento do país, além de ser um grande difusor de tecnologia para a Europa (Comunidad de Madrid, 1999). Madri oferece aos pesquisadores um contexto tecnológico, produtivo e financeiro com infra-estrutura apropriada para a inovação, assim como um potencial humano devidamente capacitado para a promoção do desenvolvimento tecnológico. A Pesquisa+Desenvolvimento +Inovação - P+D+I, como vem sendo chamado o processo de desenvolvimento tecnológico na região, se integra como um elemento fundamental na estratégia de difusão do conhecimento da Comunidade de Madri, sendo inúmeros os centros de pesquisa e as empresas inovadoras que estão instaladas na região. A Comunidade de Madri vem planejando uma atuação pública regional no campo da pesquisa e da inovação desde 1990, quando foi criado o I Plano Regional de Pesquisa, o qual teve um alcance temporal que durou até 1993. A partir desta data as ações de desenvolvimento foram sendo continuadas pelo II Plano Regional de Pesquisa, cujas atuações se prolongaram até 1997. Ambos os planos estavam fundamentalmente focados na geração de conhecimento, devido à fraca percepção que se tinha, então, do fator inovação como um fenômeno de 10 resultado integral, uma vez que acolhe o desenvolvimento tecnológico e conseqüentemente o desenvolvimento econômico e social. O III Plano Regional de Pesquisa Científica e Inovação Tecnológica incorpora a promoção da pesquisa e a inovação tecnológica como uma ação estratégica da política de desenvolvimento regional da Comunidade de Madrid. Este Plano pretende que o cidadão tome consciência da importância do papel que pode desempenhar nas atividades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico e que se sinta partícipe e co-responsável nesse trabalho. Este Plano é um projeto dirigido aos pesquisadores para promover a excelência científica e para melhorar a competitividade nas empresas, em um cenário necessariamente internacional. O lema deste Plano é: "cooperar localmente para competir globalmente". O Plano está dirigido às universidades, aos centros de pesquisa, às empresas, às entidades financeiras, às associações e fundações de apoio à pesquisa e à inovação tecnológica, às diferentes administrações públicas regionais, que têm papel decisivo no cumprimento dos objetivos deste Plano e aos municípios, através de suas agências de desenvolvimento local. Um fator com grande influência na implementação do Plano foi a publicação, no Boletim Oficial da Comunidade de Madri - BOC, em 19 de maio de 1998, da Lei 5/1998, de 7 de maio de 1998, de Fomento à Pesquisa Científica e à Inovação Tecnológica - LEFICIT, aprovada por unanimidade na Assembléia da Comunidade de Madri. Essa lei introduziu a inovação como elemento essencial do III Plano, considerando-a inseparável dos conhecimentos gerados pela pesquisa, de forma que esses conhecimentos sejam aproveitados pelo setor produtivo. Nesta lei se inclui a decisão de fomentar a cultura científica na Comunidade de Madri, considerando que o cidadão deve participar com sua demanda para incrementar os fundos que são alocados a temas que a cada dia mais o afetam diretamente. Como existe uma forte demanda de conhecimentos científico e tecnológico por parte da população, esta é que deve ser satisfeita, e a importância desta lei é que ela garante a aplicação temporal do III Plano, necessária a este tipo de atendimento. A Comunidade de Madri também criou a Oficina Européia da Comunidade de Madri, em Bruxelas, para auxiliar os empresários na interpretação de regulamentos e editais dos programas da UE, no apoio técnico para reuniões de trabalho com sócios europeus, na solicitação de entrevista com representantes da EC e no apoio lingüístico necessário à negociação de propostas. 5.2. No Brasil No Brasil, no estado do Rio Grande do Sul, a PLAT - CARS foi coordenada pelo Núcleo de Gestão da Inovação Tecnológica – NITEC, do Programa de Pós-Graduação em Administração - PPGA da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, em parceria com o Centro de Competitividade da Federação de Indústrias do Rio Grande do Sul COMPET/FIERGS e o Instituto Gaúcho de Estudos Automotivos - IGEA. Esta plataforma visou à consolidação de um pólo automotivo no Rio Grande do Sul e o projeto foi submetido na primeira rodada do PADCT III, lançada em março de 1998, o projeto CARS, e foi considerada um dos melhores projetos entre outros 72 projetos de plataformas de todo o Brasil, apresentadas ao MCT. Dois elementos foram fundamentais para o sucesso do projeto CARS (Zawislak, 1999, 2001a e 2001b e Zawislak e Melo, 2002 e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1999). O primeiro foi a renovação radical do setor automotivo gaúcho. Segmento consolidado nacionalmente e com tradição de mais de 40 anos, este setor passou a viver uma nova fase 11 propícia à modernização e inovação tecnológica, no final dos anos 90, com o anúncio dos investimentos de uma planta local por parte da maior montadora de veículos e maior empresa do ramo no mundo: a General Motors. Esta ação determinou um novo desenho de cadeia regional que se configura sob a égide de novas formas de organização da produção, a chamada produção enxuta e a cadeia totalmente integrada, sendo que esta cadeia visa se tornar um dos mais importantes pólos automotivos da América do Sul. O segundo elemento de sucesso foi a parceria entre o NITEC e o COMPET, iniciada por uma aproximação da FIERGS, para discutir as questões do desenvolvimento tecnológico no Estado, essa parceria determinou a realização de diferentes projetos. Destes, o mais significativo foi o projeto que desenvolveu uma metodologia simples para a identificação de demandas tecnológicas. Através de seminários com empresários de diferentes setores da indústria gaúcha, foi possível estabelecer um quadro bastante coerente de necessidades de capacitação tecnológica das empresas destes setores. Este quadro de informações teve como intuito subsidiar decisões em termos de políticas públicas de desenvolvimento científico e tecnológico e em termos de projetos tecnológicos estratégicos das empresas. Os resultados obtidos foram: CD-ROM, disponibilizado para toda a sociedade contendo os resultados obtidos no âmbito geral da pesquisa: informações gerais e específicas e dados da pesquisa documental e junto às empresas; relatório diagnóstico das demandas e ofertas tecnológicas para a cadeia em questão; cadastros empresarial e institucional para consulta facilitada na FIERGS; criação do IGEA na FIERGS; participação de 235 empresas da cadeia em questão de todas as atividades propostas na CARS; contrapartida de 35 empresas da cadeia em questão; propostas de 12 projetos cooperativos para serem implementados em parceria com os atores locais. No Espírito Santo, a Cadvalor, coordenada pelo Instituto Euvaldo Lodi - IEL, (Instituto Euvaldo Lodi, 1999, 2000a e 2000b), da Federação de Indústrias do Estado do Espírito Santo - FIES foi desenvolvida a partir das etapas a seguir descritas: 1) Organização da rede; 2) Elaboração da estratégia de inovação; 3) Caracterização dos contextos; 4) Mapeamento dos setores produtivos; 5) Levantamento das informações existentes por meio de pesquisa direta ou indireta; 6) Realização de pesquisa direta, nas empresas e instituições, da demanda e oferta tecnológica; 7) Análise qualitativa, por meio do cruzamento entre a oferta e a demanda tecnológica; 8) Identificação do posicionamento e situação da cadeia em questão, com relação ao sistema regional de inovação; 9) Organização de discussões temáticas, por setor integrante da cadeia; 10) Identificação das necessidades e dificuldades tecnológicas; 11) Ações; 12) Projetos Cooperativos; 13) Divulgação das Informações: meio gráfico e eletrônico (homepage) de forma a possibilitar a identificação de casos semelhantes em outras regiões ou cadeias produtivas do país. As atividades organizadas para a obtenção dos resultados esperados na Cadvalor foram: pesquisa bibliográfica; pesquisa de campo; entrevistas; visitas técnicas; palestras; organização de base de dados; seminários; relatórios e rodadas de cooperação. 6. Resultados do Estudo Benchmarking Na Comunidade Européia, onde a realidade é bem distinta da brasileira, as universidades, como representantes da terceira hélice, no modelo da hélice tríplice, poderiam estar nas duas dimensões, dependendo do papel que assumissem no processo de desenvolvimento em rede: ora como representantes governamentais, no desenvolvimento de pesquisas suportadas pelo governo, ora como representantes de negócio se admitirmos que sejam atores que promovam 12 a transferência da tecnologia ou conhecimento para o mercado. Entretanto, talvez fosse mais conveniente introduzirmos a dimensão científica e considerarmos a universidade como a principal produtora de conhecimento em uma estrutura de C&T&I de um país em desenvolvimento, tal como o Brasil. 6.1. Na Comunidade Européia Com respeito ao primeiro plano espanhol apresentado, o plano da Galícia, pode-se relatar que a dimensão concepção teórica pode ser notada na composição das redes criadas pelos Programas 1, 2 e 3 que estas contemplam a hélice tríplice do desenvolvimento para a mobilização do sistema regional de inovação. Existe inclusive, explicitado no objetivo do Programa 3, ações para órgãos de interface, que organizam a transferência de tecnologia proveniente da produção de conhecimento obtida pelos mecanismos de gestão do conhecimento usados na dinâmica dos trabalhos e que ratifica a dinâmica da interação universidade-empresa-governo. Observa-se ainda, nesta dimensão, que na gestão do conhecimento disponível nas competências dos atores regionais, o Programa 1 objetiva a criação de rede para a elaboração de um diagnóstico real da infra-estrutura existente. Já nos Programas 2 e 3 a organização de redes objetiva a criação de capital social, em função do conhecimento a ser produzido por meio de inovação tecnológica. Com relação à dimensão contextualização, é fato também que estas redes agregam os atores do sistema regional de inovação, observando os contextos inerentes à modernização e inovação tecnológica (produtivo, científico, tecnológico, financeiro, logístico e social), conforme anteriormente citado. Entretanto, nota-se a ausência de atores que possam fortalecer o Plano por meio das competências inerentes aos contextos legal e ambiental. Além disso, nota-se uma ênfase na inclusão social, que é uma característica de responsabilidade social muito presente em países em desenvolvimento e que se inclui no contexto social citado. Por outro lado, no que diz respeito à terceira dimensão, nas linhas de atuação das ações, indicadas no plano de ações, nota-se a ausência da preocupação com os cenários prospectivos, apesar de existir a demanda pelo monitoramento por meio de indicadores de C&T, que possam avaliar o impacto das ações no desenvolvimento tecnológico pretendido. Não existem também programas específicos para a sensibilização, formação, informação e busca de financiamento tecnológico, como parte fundamental das etapas necessárias à inovação tecnológica, ou anteriormente, à modernização tecnológica. O III Plano da Comunidade de Madrid, na Espanha, foi elaborado com base nos conceitos teóricos anteriormente citados. Pode-se dizer que ele contempla na sua rede praticamente todos os atores analisados na dimensão contextualização, com exceção dos contextos ambiental e social, que não estão fortemente explicitados no trabalho. A ênfase na arquitetura do plano pode ser dada ao contexto legal em função da lei de inovação lançada naquele país e já citada anteriormente. Além disso, na dimensão linhas de atuação, as ações abordam trabalhos nas oito diretrizes analisadas: diagnóstico, prospecção, sensibilização, informação, infra-estrutura, indicadores de C&T, formação e financiamento. 6.2. No Brasil No Brasil, no Rio Grande do Sul, no projeto de rede de desenvolvimento da PLAT - CARS foram considerados na arquitetura os três conceitos teóricos propostos para a análise. No que diz respeito à dimensão de contextualização, na análise dos oito contextos propostos, foram 13 verificados todos, com exceção do contexto legal. No que se refere à dimensão das linhas de atuação, os trabalhos prospectivos e os de monitoramento, através de indicadores de C&T&I, não foram explicitados no projeto. Na PLAT - Cadvalor, no Espírito Santo, os conceitos analisados nas dimensões concepção teórica e contextualização foram considerados na arquitetura do projeto, com exceção do contexto legal, nesta última análise. Entretanto, no que diz respeito à dimensão das linhas de atuação também os trabalhos prospectivos e de monitoramento através de indicadores de C&T&I não foram explicitados no projeto. 7. Conclusão No Brasil, a desigualdade regional tem sido um dos principais elementos inibidores do progresso. O país, hoje, tem um grande desafio que é terminar com os bolsões de pobreza que permeiam as regiões para poder avançar no desenvolvimento tecnológico. Necessita-se cada vez mais de estratégias governamentais para a implantação de um conjunto de ações que visem à transformação da sociedade em uma sociedade capaz de gerar e distribuir riqueza por meio da inovação tecnológica. A criação de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento da C&T&I e a criação de mecanismos de fomento às ações necessárias deverá ser sempre a grande meta dos governos. Entre estas ações está a manutenção de programas para serem financiados pelos Fundos Setoriais que induzam a formação de redes. As redes de desenvolvimento têm um papel importante, pois elas atuam nas médias e pequenas empresas, base do sistema produtivo brasileiro, criando, junto com as universidades e governos, mecanismos de aproximação entre os principais atores do desenvolvimento tecnológico, fazendo com que haja um alinhamento de ações e principalmente uma maior sinergia entre eles. Os resultados apresentados neste trabalho apresentam muito mais do que uma avaliação propriamente dita, mas sim, um conjunto de informações, sobre os projetos de redes de desenvolvimento regional. 8. Referências Albuquerque, E. M. e (2004). Idéias Fundadoras. Revista Brasileira de Inovação, Volume 3, Número 1, janeiro/junho, ISSN 1677-2504. Publicada pela Financiadora de Estudos e Projetos – FINEP (www.finep.gov.br). Braczyk, H.; Cooke, P.; Heidenreich, M. (1998). Regional Innovation Systems. UCL Press, London, UK, ISBN 1-85728-690-1. Comunidad de Madrid, (1999). III Plan Regional de Investigación e Innovación Tecnológica 2000-2003 (PRICIT) – Cooperar para Competir. Cooke, P. (1992). Regional Innovation Strategy: Competitive Regulation in the New Europe. Geoforum, 23, 365-382. DeBresson, Chris; Amesse, Fernand (1991). Networks of innovators: A review and introduction to the issue. Research Policy 20, pp 363-379, North-Holland, Elsevier Science Publishers. Edquist, C. (1997). 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