UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI MARCELO LOPARDI MOSTARO O STYLIST COMO BRICOLEUR NO DESIGN DE MODA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO MESTRADO EM DESIGN PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU São Paulo, março/2012 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI MARCELO LOPARDI MOSTARO O STYLIST COMO BRICOLEUR NO DESIGN DE MODA DISSERTAÇÃO DE MESTRADO Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. Orientadora: Professora Doutora Márcia Merlo São Paulo, março/2012 UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI MARCELO LOPARDI MOSTARO O STYLIST COMO BRICOLEUR NO DESIGN DE MODA Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Design – Mestrado, da Universidade Anhembi Morumbi como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Design. Aprovada pela seguinte banca examinadora: Prof. Dr. Rodney Nascimento Examinador externo Universidade Casper Líbero Profa. Dra. Carolina Garcia Examinadora interna Universidade Anhembi Morumbi Prof. Dr. Jofre Silva Examinador interno Universidade Anhembi Morumbi Profa. Dra. Márcia Merlo Orientadora e Presidente da Banca Mestrado em Design Anhembi Morumbi São Paulo, março/2012 M286b Mostaro, Marcelo A bricol[ação] do styling no design de moda / Marcelo Mostaro. – 2012. 164f.: il.; 30 cm. Orientadora: Profa. Dra. Márcia Merlo. Dissertação (Mestrado em Design) – Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, 2012. Bibliografia: f.137-144. 1. Design. 2. Design de moda. 3. Styling. 4. Bricoluer. I. Título. CDD 741.6 Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da Universidade, do autor e do orientador. MARCELO LOPARDI MOSTARO Mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM - SP), especialista em Arte, Cultura Visual e Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF - MG) e Bacharel em Moda pelo Instituto Zuzu Angel de Moda e Universidade Veiga de Almeida (UVA/IZA - RJ). Há uma atmosfera que sei que existe, compreendo, consumo, sou, transborda em mim. Porém, sua aura desponta no horizonte a meu ver; excedendo em mim, em páginas brancas há serem escritas. RESUMO O presente estudo aborda o ofício do stylist de moda e como este correlaciona o design e a moda. Para tanto, pinçamos algumas relações sobre o design e a moda e abordamos como ambas se relacionam com o stylist de moda. Para o nosso recorte, objetivamos o profissional que executa o seu ofício de styling para os editoriais de moda. A diversidade criativa proposta pelo stylist acarreta uma construção notória de looks na mídia contemporânea - o processo de estilização do design produzido por meio dos looks, proporcionando leituras não verbais. Utilizamos o conceito de Bricoleur, da obra de Lévi-Strauss (1989), e de configuração, de Arnheim (2006), para aclarar o possível método de estilização mencionado por Cardoso (2008). Palavras-chave: Design de Moda. Styling. Bricoleur. ABSTRACT This study discusses the craft of fashion stylist and how it can correlate design and fashion. To this end, we gathered some relation on design and fashion and pointed out how both are linked to the fashion stylist. For our study, we aimed at the professional that works styling for fashion editorials. The creative diversity proposed by the stylist provides a notorious building of looks in the contemporary media - the process of design styling produced by the looks, providing non-verbal readings. We use the concept of the Bricoleur, by Levi-Strauss (1989), and configuration of Arnheim (2006), to clarify the possible method of styling mentioned by Cardoso (2008). Keywords: Fashion Design. Styling. Bricoleur. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 01: Foto da Linha Trapézio de Yves Saint Laurent; modelo exibido na retrospectiva do estilista, em Paris, no Petit Palais, 2011. ...................................................................... 18 Figura 02: Desfile de João Pimenta no SPFW – outono/inverno 2011. Referência ao bordado militar, à linha Trapézio e à roupa eclesiástica...................................................... 19 Figura 03: Da direita para esquerda: Croqui da experiência nº 3, o “desfile” na rua da cidade de São Paulo e a prova da roupa. ............................................................................ 20 Figura 04: Desfile outono/inverno 2011, Alexandre Herchcovicth. .................................. 20 Figura 05: Desfile de Alta-Costura 2011 e campanha da marca. Ambas da maison Givenchy. ............................................................................................................................. 22 Figura 06: Lea T. nas capas das revistas Love e Mag!. ..................................................... 22 Figura 07: Exemplo de indumentária neoclassicista da classe ociosa. Georges Rouget, As senhoritas, Mollien, 1811. .............................................................................................. 28 Figura 08: A cantora francesa Polaire, no ano de 1890, usando o indumento próprio das formas rígidas da Belle Époque. ........................................................................................ 38 Figura 09: Modelos de Poiret. Da direita para a esquerda: A linha ampulheta suavizada. A linha La Vague, de 1906, e a teatralidade de suas clientes que formam seu harém, usando trajes com referências orientais. ............................................................................. 40 Figura 10: Da direita para a esquerda – Corte geométrico dos cabelos, o quadro Les Demoiselles d’ Avignon de Picasso (1907) e a designer Coco Chanel. .............................. 43 Figura 11: Da direita para esquerda – Coco Chanel e a sua amiga Vera Batem (1928), o quadro La Joie de Vivre, de Matisse (1905) e vestidos de Coco Chanel (1926). .............. 43 Figura 12: Exemplo de objetos da Art Déco com inspiração em formas retas. ................. 46 Figura 13: Modelo T, da Ford (1908), e o vestido preto de Chanel (1926). ...................... 51 Figura 14: Da direita para esquerda – A silhueta-ampulheta é encontrada nos exemplos da Art Nouveau (1890), do New Look de Dior (1947) e em Poiret, no começo do século XX. ..................................................................................................................................... 54 Figura 15: Da direita para esquerda, exemplo da prancha, caderno e painel de inspiração/referência. .......................................................................................................... 68 Figura 16: Estudo e roupa confeccionada com a técnica de moulage. ............................... 74 Figura 17: Desfile de Alta-Costura, no qual o designer Jean-Paul Gaultier mostra sua coleção e utiliza, entre outros tecidos, o Jeans. .................................................................. 78 Figura 18: Croquis do designer Cristian Lacroix, em busca de capturar o espírito da roupa; ao lado dos croquis, vemos as peças confeccionadas. ........................................................ 79 Figura 19: Convites da 17º e 18º edições do Senac Rio Fashion Business, com a participação da General Cook............................................................................................. 92 Figura 20: Fachada das lojas com sede em Juiz de Fora, Minas Gerais. Da esquerda para direita: Lojas situadas no Mister e no Independência Shoppings. ...................................... 94 Figura 21: Interior de uma das lojas. Independência Shopping. Juiz de Fora, Minas Gerais. ....................................................................................................................... 94 Figura 22: Texto referente à coleção 360º inserido no site da General Cook (citado anteriormente)...................................................................................................................... 98 Figura 23: Foto que antecede a apresenta a coleção 360º e as posteriores em tonalidades dos elementos de design em azul claro. .............................................................................. 102 Figura 24: Transição do azul claro para o azul escuro. Na mesma configuração começa a ser presentado o verde militar com combinação de caqui. .............................................. 103 Figura 25: Tons pistache de verde e verde militar. A configuração apresenta no look os tons de verde água. .............................................................................................................. 104 Figura 26: Transição do verde militar para os tons escuros de cinza e preto. A configuração apresenta tons de bege, branco e verde bandeira. ...................................... 105 Figura 27: Transição do branco e preto para o vermelho e cinza claro. ............................ 106 Figura 28: Primeiro demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. ................................ 114 Figura 29: Segundo demonstrativo de comparação - roupa/silhueta. ................................ 114 Figura 30: Terceiro demonstrativo de comparação – roupas/silhueta. .............................. 115 Figura 31: Quarto demonstrativo de comparação – roupa/silhueta.................................... 115 Figura 32: Quinto demonstrativo de comparação – roupa/silhueta.................................... 116 Figura 33: Frente e verso do catálogo outono/inverno 2011 – General Cook. .................. 118 Figura 34: Quatro páginas do catálogo 360º. A peça “TRASpassado” encontra-se na segunda imagem e linha, sendo o 1º look. ........................................................................... 119 Figura 35: Configuração do look que utiliza a peça “TRASpassado” (catálogo 360º, General Cook). .................................................................................................................... 120 Figura 36: Apresentação das personalidades: Cany Darling, Edie Sedgwick, Christa Päffgen e Valerie Solanas – Primeira página dupla do editorial. Fonte Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. .......................................................................................................... 122 Figura 37: Christa Päffgen – Nico. Segunda e terceira páginas do editorial. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. ............................................................................................... 123 Figura 38: Candy Darling sendo retratada em paginação dupla – quarta e quinta fotos. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. ...................................................................... 124 Figura 39: Edie Sedgwick em seus looks pretos – sexta e sétima fotos. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. ............................................................................................... 125 Figura 40: Valerie Solanas sendo retratada com o uso da técnica de serigrafia e peça “TRASpassado” – oitava foto. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011....................... 126 Figura 41: Estilização da peça “TRASpassado” da direita para esquerda: Catálogo General Cook e Editorial Warhol’s Superstars. ............................................................................... 129 Figura 42: Imagens retiradas do editorial Warhol’s Superstars. Podemos observar as personalidades retratadas e suas caracterizações. Direita para esquerda: 1º fila. Nico e Darling. 2º fileira: Sedgwick e Solanas. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. ....... 132 Figura 43: Desenho da ficha técnica e croqui de moda da peça “TRASpassado”. ............ 133 LISTA DE QUADROS Quadro 01: Etapas cronológicas da história do design (BOMFIM, 2002). ....................... 23 Quadro 02: Catorze leituras não-verbais (JONES, 2005, p. 35). ....................................... 77 Quadro 03: O Estilista e/ou marca percorre os seguintes cronogramas. Elaborado pelo autor. ................................................................................................................................... 82 Quadro 04: O cronograma do consumidor começa na performance do estilista e/ou marca. Elaborado pelo autor. ............................................................................................... 82 Quadro 05: Localização das cores nas figuras. Cores (elaborado pelo autor). .................. 108 Quadro 06: Localização dos tecidos nas figuras. Tecidos (elaborado pelo autor). ............ 110 Quadro 07: Localização de design de superfície nas figuras. Design de superfície (elaborado pelo autor). ......................................................................................................... 112 Quadro 08: Possível Matriz Conceitual. Coleção 360º, outono/inverno 2011. Matriz conceitual (elaborado pelo autor). ....................................................................................... 117 Quadro 09: Inventário e relações de “configuração” dos looks. Inventário e relações dos looks. (elaborado pelo autor). .............................................................................................. 130 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................ 11 1. DESIGN E MODA – INTERRELAÇÕES ............................................ 15 1.1 Introdução ............................................................................................................15 1.2 Notas gerais sobre a história do design e da moda ............................................16 1.3 ................................................................................................................... Corp o, vestimenta e técnica .......................................................................................... 23 1.4 ................................................................................................................... A moda na composição de um novo cenário social ................................................27 1.5 ................................................................................................................... O avanço do design ...................................................................................................35 1.6 ................................................................................................................... Desig n no século XX ......................................................................................................37 1.7 ................................................................................................................... A arte no início do século XX ..................................................................................42 1.8 ................................................................................................................... A Bauhaus e suas consequências no campo do design ..........................................47 1.9 ................................................................................................................... A assinatura de Coco Chanel ..................................................................................48 1.9.1 ......................................................................................................... Ford – novo modelo de produção .......................................................................51 1.10 Design e Moda na primeira metade do século XX – tecendo amarrações .................................................................................................................52 1.11 Revoluções do pós-guerra .................................................................................55 2. O DESIGN DE MODA E O STYLING .................................................. 60 2.1 O Design de Moda ............................................................................................... 61 2.2 O processo criativo .............................................................................................. 65 2.2.1 ......................................................................................................... Tema ......................................................................................................................67 2.2.2 ......................................................................................................... Pesq uisa...............................................................................................................67 2.2.3 ......................................................................................................... Tend ência ............................................................................................................68 2.2.4 ......................................................................................................... Cor ......................................................................................................................70 2.2.5 ......................................................................................................... Tecid o ...................................................................................................................71 2.2.6 ......................................................................................................... Desig n de superfície ............................................................................................ 72 2.2.7 ......................................................................................................... Mode lagem ...........................................................................................................73 2.2.8 ......................................................................................................... Silhu eta ................................................................................................................75 2.3 Linguagem de Moda ............................................................................................ 75 2.4 O Styling ..............................................................................................................80 3. ESTUDO DE CASO ............................................................................... 88 3.1 A marca General Cook ......................................................................................91 3.2 O design e o designer no processo e na prática projetual ................................ 95 3.2.1 A prática projetual ......................................................................................97 3.2.1.1 Tema ............................................................................................... 98 3.2.1.2 Pesquisa .......................................................................................... 100 3.2.1.3 Tendência .......................................................................................100 3.2.1.4 Cor ..................................................................................................107 3.2.1.5 Tecido ............................................................................................. 109 3.2.1.6 Design de superfície ......................................................................110 3.2.1.7 Modelagem .....................................................................................112 3.2.1.8 Silhueta ........................................................................................... 113 3.3 Leitura da estilização do design .........................................................................118 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................... 134 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................... 137 ANEXO 1 ....................................................................................................... 145 ANEXO 2 ....................................................................................................... 162 ANEXO 3 ...........................................................................................164 INTRODUÇÃO O presente estudo aborda o ofício do stylit de moda e como este correlaciona com o design e a moda. A pesquisa em torno deste campo foi objetivada pelo envolvimento do pesquisador com o objeto proposto no estudo, tanto no meio acadêmico quanto no profissional. A diversidade criativa proposta pelo stylist acarreta uma construção notória de looks na mídia contemporânea: é justamente esta relação de estilização do design produzido por meio dos looks que pontuamos em nossa reflexão. O stylist reelabora os elementos formadores do design de moda e os modifica em uma nova construção, transformando os looks propostos por designers ou marcas. Segundo Lipovetsky (1989, p.128) “o look e sua embriaguez dos artifícios, do espetáculo, da criação correspondem a uma sociedade em que os valores culturais primordiais são o prazer e a liberdade individuais.” A liberdade individual de projetar novas silhuetas pode ser observada nas coleções de moda, onde cada designer utiliza dos elementos de design de moda para construir novos conceitos e ou tendências de moda a cada estação, porém essa expressão criativa não fica restrita somente ao campo dos designers de moda, sendo usada também pelo fashion stylist que, pelo viés da estilização, configura novas formas de planejar o look já definido pelos estilistas, em função de seu ofício. O stylist é a pessoa que faz styling, sendo que o “styling ou estilização [...] consiste em dar a qualquer objeto um tratamento superficial de reformulação estética - ou seja, de reduzir o design a uma questão de projetar novas embalagens para velhos produtos” (CARDOSO, 2008, p. 146); ao concordamos com a reflexão apontada por Cardoso (2008), de proporcionar novas embalagens para velhos produtos ou recentes objetos lançados no mercado que será o foco da pesquisa. Para tal, percorreremos o estudo em três capítulos, nos quais a reflexão nos levará à hipótese da pesquisa, que tem como tema a estilização do produto do vestuário de moda pela manipulação do stylist. O primeiro capítulo destina-se a algumas abordagens sobre a história do design e da moda e aos elementos formadores do design de moda. Nesta narrativa, pontuaremos o surgimento do design no século XVIII, seu amadurecimento no século XIX e seu desenvolvimento nos séculos XX e XXI. Abordaremos alguns fatores da historicidade do design e da moda - séculos XVIII e XIX - e como ambos foram tangenciando sua história. A ponderação destinada aos séculos XX e XXI tem como suporte teórico a obra de Cardoso (2008) e Forty (2007). Para cogitar a padronização do design e da moda, utilizaremos como fonte de argumentação o surgimento da Art Nouveau e da Art Déco, como as primeiras manifestações do design de massa, datadas do século XX. Sendo o movimento da Art Déco e a escola da Bauhaus os propulsores do funcionalismo e da simplicidade do design no começo do século XX. A implantação do design no século XX como produto de massa, de certa forma, planificou a moda até a década de 1960, quando surgiu a antimoda promovida pela rejeição a esta uniformização da moda como sistema, que tinha em seu topo hierárquico o designer e a massificação de produtos, após a segunda guerra mundial, subsidiada pelo ready-to-wear. “A expressão, introduzida definitivamente no vocabulário de moda como “prêt-à-porter”, em 1948, por Jean-Claude Weill, indica roupas compradas prontas, que não demandam técnicas de alta-costura e podem ser confeccionada em série” (GARCIA ; MIRANDA, 2010, p. 40). Após a década de 1960 até os tempos atuais, percebemos que há um movimento cada vez mais crescente da individualização da moda, acarretando novas formas de conceber a individualidade através da vestimenta, sendo esta manipulada para a sua não padronização. Neste sentido, podemos laçar como referência alguns dos movimentos libertadores do indumento após 1960. Entre esses movimentos de liberdade de expressão, podemos citar a customização e o vintage. Para aclarar o estudo do design de moda, trataremos de seus elementos formadores. Os elementos de design de moda são os formadores do desenvolvimento do design aplicado à criação, planejamento e ao projeto factual de uma coleção de moda. Na presente pesquisa são citados oito elementos: o tema, a pesquisa, a tendência, a cor, o tecido, o design de superfície, silhueta e modelagem. O segundo capítulo aborda como o stylist de moda estiliza o design, por meio de novas configurações de peças que juntas formam um novo look. O look não é somente a viabilização dos desejos individuais; segundo Garcia e Miranda (2010), teremos acoplados a essa individualização o fato de “orquestrar determinadas categorias vestimentas” a uma “postura corporal”, portanto, o look é “a combinação de uma linguagem; a moda e a gestualidade, caracterizam o look como uma manifestação sincrética” (GARCIA; MIRANDA, 2010, p. 37). Esse sincretismo é projetado pelo stylist na mídia, em que ele agrega ao look o ideal da imagem a ser realizada. Para ordenar essa elaboração, utilizamos a obra do psicólogo alemão Rudolf Arnheim (2006), na qual o autor confere, à percepção visual a expressão de que “qualquer padrão de estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto permitem as condições dadas” (ARNHEIM, 2006, p. 47). Em relação ao look, podemos cogitar que o item da configuração é a base para esta análise, sendo este um dos princípios da configuração a que Arnheim define como o “registro de elementos menores para a composição de unidades maiores” (ARNHEIM, 2006, p. 36). Podemos cogitar que o registro da configuração em um look é formado com as partes menores sendo as peças de roupas formadoras do look e, este último, a unidade maior destas peças configuradas. Os itens de movimento e de expressão são utilizados para elucidar que suas funções são os agentes da formação da gestualidade, citados por Garcia e Miranda (2010). Por meio dessas pequenas reflexões, o stylist opera seu ofício de construção tanto corpóreo quanto ambiental, podendo utilizar as análises da percepção visual proposta por Arnhein. Em nosso trabalho, o processo de formatar a configuração de pequenos pedaços para a formação de um todo ocorre por meio da fotografia de moda, que registra a imagem dessa configuração. Apontamos como o stylist reagrupa ou coleta as configurações de seus looks; para esse fim, utilizamos o conceito de Bricoleur, do sociólogo francês Lévi- Struss (1989). O conceito, no entanto, não fica somente a cargo do modo como, a priori, o stylist percorre as suas descobertas dos objetos/tesouros, mas também no posteriori quando o autor reflete o pensamento cientifico contemporâneo. No terceiro capítulo do presente estudo sobre o design, a moda e o styling, examinamos a marca General Cook. Esse estudo de caso explora a elaboração da coleção intitulada 360º, para o outono/inverno 2011. Para isso, escolhemos uma peça dessa coleção para ser investigada: o “TRASpassado”, nomenclatura destinada ao produto. Pelo acompanhamento de como foram formados seus elementos de design de moda e seu registro no catálogo, pudemos confrontá-los com o editorial de moda que o estiliza, no look configurado para a revista Duetto Fashion. Com essa trajetória, verificamos as modificações aplicadas pelo stylist, que, pela intervenção por meio da estilização e da recombinação de peças, advinda de seu ofício, nos proporciona uma configuração diversificada do design projetado pelo design de moda, valendo-se dessa criação para uma nova concepção de configuração de peças. Acreditamos que este tema poderá contribuir para clarificar as relações propostas, pois em seu desenvolvimento não foi encontrado estudos sobre o tema abordado. Aqui citamos alguns suportes teóricos da trajetória do design e da moda, o acompanhamento do lançamento de uma peça de coleção e como esta é reaproveitada e estilizada pelo stylist de moda, portanto: da criação à estilização! 1 – DESIGN E MODA - INTERRELAÇÕES 1.1 Introdução Talvez eu espere mesmo demais de um designer de moda, porque, para mim, um criador é aquele capaz de devassar nossa vidinha, disponibilizando-nos novas formas e conexões com este mundo (PRECIOSA, 2007, p. 50). O design é um ofício relativamente novo na cultura ocidental. Os primeiros relatos a esse respeito datam do século XVII, todavia somente nos séculos XVIII e XIX as condições tecnológicas e culturais formatariam o campo para sua viabilização e expansão. Neste estudo acerca dessa área do conhecimento e da criação, apontaremos alguns dos principais fatores referentes a interligações entre o design e a moda, pelo intermédio da história, compondo assim um panorama, de alcance crescente, sobre design e moda, e assinalando como esses dois ofícios acoplaram, em seus sistemas, uma metodologia que pôde moldar a cultura de moda vigente até os dias atuais. Além de enfocar fatos históricos dessas duas áreas do conhecimento, esta pesquisa correlaciona dois aspectos do design: o design projetado para a produção em série e aquele concebido para a fabricação de um único objeto. Ambas as formas de produzir objetos são visadas pela linha investigatória do presente projeto, em que se aborda a estilização do design de moda, por intermédio do stylist de moda. Para ressaltar, cronologicamente, os criadores e movimentos relacionados na presente pesquisa, adotamos o recurso de apresentá-los com a informação referente às datas de nascimento e falecimento, no caso dos criadores, e de surgimento, no caso das criações, para também estabelecer a época em que tal movimento desenvolveu-se. Com essa metodologia, esperamos pontuar o momento em que a criação foi concebida, para, assim, relacioná-la ao comportamento social vigente àquela época, bem como ao desenvolvimento do design e da moda. 1.2 Notas gerais sobre a história do design e da moda A palavra “design” advém do verbo latino designare, grafado como na língua italiana, que se relaciona ao ato de designar ou desenhar. O primeiro registro do verbo to design ocorreu na Inglaterra e é datado do século XVII, de acordo com o Oxford English Dictionary. Já a palavra “design” usada como “substantivo, refere-se tanto à ideia de plano, desígnio, intenção, quanto à de configurar, arranjo e estrutura” (CARDOSO, 2008, p. 20). Percebemos, pela etimologia e o uso da palavra em língua inglesa, que o design está associado ao ato de designar alguma tarefa à outra pessoa, sendo um de seus conceitos o “[...] de uma atividade que gera projetos, no sentido de plano, esboço ou modelo” (Ibidem, p. 20). A atividade de gerar projetos pode ser aplicada à elaboração de produtos em série ou na feitura de somente um objeto. Em ambas as formas de efetivar-se, a atividade do designer estabelece um método, sendo “[...] um programa que regula previamente e controla a execução de uma série de operações que devem ser realizadas de modo a evitar erros” (CIPINIUK; PORTINARI, 2006, p. 17). Esse método é, do mesmo modo, aplicado na criação do design tanto para a feitura de um produto a ser fabricado em série quanto para o desenvolvimento de um único objeto. Na produção em série, o designer tende a formatar sua concepção, utilizando meios de pesquisa de tendências mercadológicas. Os estudos são, assim, usados, para elaborar o melhor plano possível, de modo que o objeto tenha êxito no mercado. Esse procedimento, em muitas ocasiões, pode não ser pertinente se o designer pretende elaborar um objeto único, visto que a pesquisa mercadológica é muitas vezes renegada, ofertando ao designer a liberdade na feitura de seu produto, como será apresentado a seguir. O produto vestimenta pode orbitar nessas duas operações, ainda que o processo de criação seja, nelas, adverso. Zowie Broach e Brian Kirkby (2009), designers da marca Boudicca,1 reconhecida pela não aceitação da indústria da moda, referem-se ao seu design como aquele voltado para “descobrir perguntas criativas e respondê-las” (BROACH; KIRKBY, 2009, p. 150). Outra ponderação que nos interessa é a de Jamie O’Hare (2009), 1 Zowie Broach e Brian Kirby trabalham (e vivem) juntos sob o pseudônimo Boudicca. Uma marca de moda assídua no calendário de desfiles de Londres desde a primavera/verão -1998. Boudicca é também o nome da rebelde rainha do povo Iceni, que liderou a revolta contra os Romanos na Grã-Bretanha. As criações da Boudicca caracterizam-se por uma veia similar, que tem conferido a Broacha e Kirby uma reputação de não-conformistas na indústria da moda [...] (JONES; MAIR, 2003, p.88). designer da marca See (a linha jovem da Chloé2), que considera o seu processo criativo como um trabalho de design “criativo para ser diferente de outras marcas” (O’HARE, 2009, p. 151). Comparando essas afirmações acerca do processo de criação, podemos cogitar que a reflexão de Broach e Kirkby consiste em uma liberdade de criação que não reconhecemos em O’Hare, segundo o qual podemos pressupor que o processo está inserido em alguma pesquisa mercadológica, de modo que a marca (See) obtenha uma distinção das concorrentes. No campo da moda, esses processos de fabricação do “objeto vestimenta” tiveram de ser redefinidos frente aos trabalhos acadêmicos. Christo (2008), por exemplo, reflete sobre o fato de o ofício do estilismo estar ligado à arte, enquanto a atividade do designer liga-se à ação de projetar produtos para a fabricação em série. A primeira concepção tende a situar o estilismo entre as atividades com aura de arte, como objeto de criação única, individual e projetada pelo intelecto do criador e, portanto, merecedora do status de arte pura. Seu objeto, por sua vez, não seria uma arte aplicada, em virtude de, em sua feitura, não se utilizarem pesquisas mercadológicas. Esse motivo levou algumas escolas de Estilismo ou Moda a trocarem seu nome para Design de Moda, entre elas “o curso de Design de Moda do SENAI-CETIQT, no Rio de Janeiro, e a Faculdade Novo Milênio, no Espírito Santo” (CHRISTO, 2008, p. 27). Trocar a nomenclatura para Design de Moda não significa que a moda tenha perdido seu apelo de algo exclusivo. Essa nova definição não quer dizer, tampouco, que o termo design aplique-se somente à produção em série; na verdade, o design se faz presente também na concepção de um produto singular. Para ilustrar esse pensamento, utilizaremos dois exemplos. O primeiro deles refere-se ao design de moda para fins de produção em série, e iremos nos reportar à coleção do designer João Pimenta3 (1968-), desfilada no dia 02 de fevereiro de 2011, na semana de moda do São Paulo Fashion Week, edição outono/inverno de 2011. O segundo exemplo será um “objeto vestuário” com aura de exclusivo, expresso pela Experiência nº 3, de Flávio de Carvalho, artista participante do movimento modernista brasileiro. 2 A marca francesa de moda feminina foi criada por Jacques Lenoir e Gaby Aghion, e vários estilistas já foram responsáveis por suas coleções. Karl Lagerfeld trabalhou, entre 1965 e 1983, e Martine Sitbon respondeu pelo estilo entre 1987 e 1991. Em 1992, Lagerfeld retornou. Em 1997, Stella McCarteney assumiu a grife, sendo substituída, algum tempo depois, por Phoebe Philo, que deixou a marca em 2006. Sua moda é considerada prática, elegante e com alguns toques de ousadi (SABINO, 2007, p.169). 3 Estilista mineiro radicado em São Paulo, trabalha com moda desde seus 17 anos, tendo participado da Casa dos Criadores por cinco anos e fazendo parte da SPFW há um ano. Para maiores informações, veja a entrevista no Anexo 1. Desfilando há um ano no SPFW4, João Pimenta busca, em sua coleção de outono/inverno 2011, “[...] uma nova forma para o guarda-roupa masculino”5. Nela, o designer utiliza como referência a linha A, criada em 1955 por Christian Dior6 (1905-1957). Essa linha, estreita nos ombros e mais longa no quadril, ficou conhecida também como “Trapézio”, nome dado por Yves Saint Laurent7 (1936-2008), logo após o estilista assumir o posto de diretor artístico da Maison Dior, na qual trabalhava desde 1955. Em sua primeira coleção como diretor artístico, Laurent divulgou o seguinte press release sobre a coleção primavera/verão de 1958, intitulada Ligne Trapèze Printemps-Été: Figura 01: Foto da Linha Trapézio de Yves Saint Laurent; modelos exibidos na retrospectiva do estilista, em Paris, no Petit Palais, 2011. 4 Abreviação de São Paulo Fashion Week. 5 Ver o anexo 3 (pg 150), o documentário da coleção de outono/inverno 2011. 6 O estilista francês Christian Dior nasceu na cidade de Granville, e teve seu primeiro trabalho em uma galeria de arte. Em 1938, começou sua participação no ramo da moda, trabalhando para a maison de Robert Piguet. Logo depois, foi para a maison de Lucien Lelong, na qual já trabalhava Pierre Balmain. No ano de 1946, abriu sua própria maison, na Avenida Montaigne, nº 30, em Paris. Sua primeira coleção de primavera/verão foi apresentada, no dia 12 de fevereiro de 1947, tendo sido chamada de linha Carolle. Essa linha foi rebatizada como “New Look”, pela editora de moda americana Camel Snow. No ano de 1947, foi lançado seu primeiro perfume, o Miss Dior, e em 1949, teve início o processo de licenciamento de seus produtos. Nos anos 1950, ele lançou várias linhas, porém as que obtiveram maior sucesso foram as linhas A, H e Y. Após sua morte, na Itália, o jovem estilista argelino Yves Saint Laurent assumiu a Maison Dior. Na sequência dos sucessores de Christian Dior em sua maison, tivemos Philippe Guibourgué, em 1967 (até 1970), Gianfranco Ferré, em 1989, e John Galliano, em 1996 (até os dias atuais) (SABINO, 2007, p. 170-1). 7 O estilista argelino Yves Mathieu Saint Laurent foi para Paris em 1953, e em 1954 conquistou o prêmio de melhor vestido, no concurso promovido pelo Secrétariat International de la Laine, com o modelo Coquetel. Em 1957, ele é contratado pela maison de Christian Dior, na qual, mais tarde, assumiria o posto de diretor artístico, logo após a morte do criador da maison, em 1957. No ano de 1959, fez os figurinos do balé Cyrano de Bergerac. Abre sua maison junto com o companheiro Pierre Bergé, no ano de 1961, no nº 30 da Rua Spontini e, no ano seguinte, apresenta a primeira coleção para sua própria marca. Como Coco Chanel, ele também utilizava o vestuário masculino como parâmetro para suas criações; um exemplo dessa postura é o clássico smoking de 1966. Suas coleções sempre tinham temas artísticos, como Mondrian, a Pop Art, a Espanha de Velázquez, o Marrocos de Delacroix, o cubismo, Marcel Proust, Picasso, Matisse, entre outros (Figura 01). Transferiu sua maison para a Avenida Marceau, nº 05, em 1976. Coco Chanel declarou que ele era seu herdeiro espiritual. Entre 2000 e 2004 o estilista Tom Ford comandou a maison, que atualmente é conduzida por Stefano Pilati (SABINO, 2007, p. 651). Stefano Pilati é o designer responsável pela marca quando este trabalho foi realizado, maio de 2011 (Observação do autor). A moda para esta estação é uma questão de equilíbrio e construção. Equilíbrio do chapéu bem colocado na cabeça, equilíbrio da silhueta, que mostra entre as duas bases do trapézio. A linha deve sua elegância, antes de tudo, ao despojamento e à pureza de sua construção. Os dois pontos capitais da estação são os ombros sobre os quais repousa a parte superior do trapézio e a amplitude da saia, que forma a segunda base do trapézio. Esta nova construção da silhueta promove um encurtamento bem preciso do vestir... (SABINO, 2007, p. 170). Todas as informações contidas no press release sobre a forma ou silhueta do Trapézio estão inseridas na coleção outono/inverno 2011 de João Pimenta, porém este designer compõe com outras referências em sua coleção: o paramento eclesiástico e o bordado militar que podem ser avaliados na figura 02. As roupas eclesiásticas têm uma estrutura semelhante às da linha Trapézio, sua diferenciação está no comprimento, que chega até o tornozelo, e no emprego bordado em estilo militar, compondo com a feminilidade da linha Trapézio. Dessa forma, podemos reconhecer que João Pimenta utilizou códigos semelhantes aos de Christian Dior ou que não fazem parte do universo da moda masculina, porém, reelaborou-os em uma composição contemporânea. Figura 02: Desfile de João Pimenta no SPFW - outono/inverno 2011. Referência ao bordado militar, à linha Trapézio e à roupa eclesiástica. O segundo exemplo advém da obra do pintor, desenhista e arquiteto modernista Flávio de Carvalho (1899-1973) que, em 1956, elaborou um novo traje de verão para homens, mostrando-o nas ruas da cidade de São Paulo, utilizadas como passarelas. Seu traje propunha “[...] um nivelamento entre o homem e a mulher pela indumentária e que nós vamos possivelmente presenciar em tempos futuros” (CARVALHO, 2010, p. 296). Essa profecia do autor costura a ambiguidade apresentada por Pimenta (cinquenta e cinco anos depois do desfile nas ruas de São Paulo), embora saibamos que tal concepção não seja nova no universo da moda, pois o uso de saias para a moda masculina já fora amplamente difundido por estilistas internacionais após 1960. Essa referência tem como premissa a moda contemporânea, no entanto encontramos alusão a ela em indumentos típicos, como a saia escocesa e os indumentos greco-romanos. Figura 03: Da direita para esquerda: Croqui da experiência nº 3, o “desfile” na rua da cidade de São Paulo e a prova da roupa. Observamos, no texto de Flávio de Carvalho (2010), que o projeto foi planejado para um design exclusivo. O traje e o look foram projetados para que não causassem calor a seu usuário. Para esse fim, Carvalho utilizou alguns recursos, como a gola redonda no lugar do colarinho, o blusão aberto para a circulação do ar e o uso da saia, completado nas pernas por uma meia de malha de pescador, muito conhecida atualmente como meia arrastão, cuja finalidade, na composição do look, é esconder as veias que algum usuário poderia ter, sem oferecer desconforto. Com esse planejamento e elaboração de design, Carvalho produziu uma roupa única, tendo a aura de exclusividade inerente ao artista. Ao investigar esses dois exemplos, percebemos, em ambos, a referência a Christian Dior. Um busca em sua pesquisa a forma da linha Figura 04: Desfile outono/inverno 2011, Alexandre Herchcovitch. A, e o outro elabora o New Look para o traje masculino, referindo-se ao estilo New Look de Dior, criado em 1947. O look era composto de “[...] tailleur, blusa estruturada, saias amplas, muitas vezes com mais de 20 metros de tecido e cintura bem marcada, complementada por scarpins, chapéu e luvas”. (SABINO, 2007, p. 462). Estilo oposto ao projetado por Carvalho, em cujo traje o conforto e a circulação do ar eram prioridades. No entanto, as semelhanças não se baseiam somente na obra de Christian Dior: os dois criticam e rejeitam o guarda-roupa masculino, propondo sua reelaboração e a modernização das peças. Em 1973, o sociólogo Gilberto Freyre deleita-se com a obra do amigo e termina seu texto com o seguinte parágrafo: “Traje que corresponderia ao unissexualismo de uma época, à qual – admitia Flávio em conversa comigo – provavelmente se sucederá um regresso, sob novas formas ao bissexualismo” (FREYRE apud CARVALHO, 2010, p. 299), afirmação que enfatiza a crítica ao universo do machismo estabelecido dentro e fora do Brasil. Os dois conceitos de reelaboração da roupa masculina ganham força na tendência comportamental que a moda está propondo, tanto no Brasil quanto no exterior: empregar transexuais para divulgar a moda feminina. Esse recente suporte de apresentação de coleções de moda feminina pôde ser visto em três momentos da moda contemporânea, nas criações dos designers Alexandre Herchcovitch8 (1971) e do italiano Riccardo Tisci9 (1975), atual designer da Givenchy10. Ambas as marcas contrataram a modelo transexual brasileira Lea T. para seus trabalhos: o desfile de outono/inverno 2011 de Herchcovitch, realizado em 28 de fevereiro, no SPFW (Figura 04), e o desfile de Tisci para a campanha outono/inverno 2010 e a coleção Alta-Costura 2011 da marca Givenchy (figura 06). 8 O estilista Alexandre Herchcovitch formou-se pela Faculdade Santa Marcelina, na cidade de São Paulo, no ano de 1993, e nessa mesma data apresentou sua primeira coleção. Iniciou sua carreira usando como top model a drag queen Márcia Pantera. Em 1996, lançou, pela Grendene, um modelo de Rider, e em 2003, um modelo para a Melissa. Trabalhou como estilista das marcas Cori e Zoomp. No ano de 1998, começou a exportar para a Inglaterra e também lançou uma coleção de joias. Em 1999, apresentou, pela primeira vez, sua criação fora do território brasileiro, desfilando suas criações na Semana de Moda de Londres e na de Paris. Atualmente, participa das semanas de moda São Paulo Fashion Week e Olympus Fashion Week (SABINO, 2007, p. 32; MAIR; JONES, 2005, p. 212). 9 O estilista italiano formou-se na Central Saint Martins, em 1999 e, ao voltar para a Itália, em 2002, ele foi nomeado diretor criativo da marca italiana Coccapani. No ano de 2004, desfilou suas criações na Semana de Moda de Milão. No mesmo ano, assinou um contrato com a Ruffo Research, porém, somente no ano seguinte o maior desafio de sua carreira seria proposto: ser o estilista da coleção feminina da Givenchy (MAIR; JONES, 2005, p. 430). 10 O estilista francês Hubert de Givenchy nasceu em 1927, na cidade de Beauvais, estudou Belas Artes em Paris e, ainda como estudante, começou a trabalhar com Jacques Fath, e em seguida para Robet Piguet. Como assistente, trabalhou por quatro anos para Lucien Lalong e Elza Schiaparelli. No ano de 1952, abriu sua própria maison na capital francesa e, no mesmo ano, lançou a blusa Bettina. Em 1953, tornou-se amigo da atriz belga Audrey Hepburn, para quem fez vários figurinos, que ela usou em seus filmes. Em 1973, lançou sua linha masculina, e foi afastado pelo grupo LVMH em 1995. Seus sucessores foram John Galliano, Alexander McQueen e Julien MacDonald. Atualmente, sua coleção masculina é assinada por Oswald Boateng, e a feminina, por Ricardo Tisci (SABINO, 2007, p. 324). O terceiro momento ocorre em duas capas de revistas, nas quais T. aparece: a capa da revista britânica Love, que estampou seu rosto em duas versões do mês de fevereiro de 2011 (na primeira versão, Lea T. posa beijando a boca da modelo Kate Moss11), e a capa da edição de abril de 2011 da revista brasileira Mag!, na qual a modelo também aparece (fig.06). Figura 05: Desfile de Alta-Costura 2011 e campanha da marca. Ambas da maison Givenchy. Figura 06: Lea T. nas capas das revistas Love e Mag!. 11 Modelo britânica, nascida em 1988, e descoberta pela chefe-booker da agência Storm, de Nova York, aos 14 anos, no aeroporto Kennedy. Aos 18 anos, já era o novo rosto das campanhas da americana Calvin Klein, posando ao lado de Mark Wahlberg para as publicidades de underwear, e nua, para o lançamento do perfume Obsession. No início dos anos 90, um ensaio sobre o waif look, assinado pela fotógrafa Corinne Day, trazia a modelo que, de um dia para o outro, redefiniu parte do padrão de beleza da década (SABINO, 2007, p. 392). Todos os projetos citados refletem as questões das roupagens masculinas, bem como o modo através do qual a sensualidade do homem é vista pela sociedade contemporânea. Os projetos de Herchcovitch e de Tisci reconduzem-nos à apresentação de vestimentas femininas, tanto em desfiles como em campanhas publicitárias, mas por meio de um corpo reelaborado; já os projetos de Pimenta e Carvalho modificam o indumento pressuposto do traje do homem. Todos tentam alterar a cultura de moda predominante daquilo que seria o masculino na moda, por meio de uma nova forma de exibição e de silhueta, ofertando à sociedade uma reflexão que, contudo, ainda não é muito aceita no século XXI. A questão do masculino e feminino, na relação entre corpo e roupa, será, dessa forma, um tópico a ser articulado, apoiando-nos nas obras de Simmel (2008), Cardoso (2008), Forty (2007) e Veblen (1980). A essa relação entre corpo e roupa, serão acrescidos os exemplos citados, de modo a enfatizar que o design da coleção de Pimenta é projetado para a fabricação em série, enquanto o design do modelo de Carvalho foi idealizado para a produção de uma roupa exclusiva. Pode-se acompanhar o seu processo de criação, voltando à “figura 03”, na qual observam-se o esboço do projeto, sua confecção e sua apresentação ao público nas ruas de São Paulo. 1.3 Corpo, vestimenta e técnica A relação do corpo com a roupa acompanha o desenvolvimento proporcionado pela tecnologia. Segundo Bomfim (2002), a história do design pode ser exemplificada em quatro etapas cronológicas: Arte (artífice) + Produto artesanal = produto artesanal até cerca de 1200 (por exemplo) Arte + Técnica + Produção manufatureira = Art Nouveau (por exemplo) Técnica + Ciência + Produção industrial (eletromecânica) = Funcionalismo (por exemplo) Ciência + Arte + Produção industrial (eletrônica-robótica) = Customização (por exemplo) Quadro 01: Etapas cronológicas da história do Design (BOMFIM, 2002). Nos quatro campos do quadro 01, verificamos que o design está ligado ao método de processo, a uma ideologia ou ao gosto de cada época, assim como, também, às ferramentas propostas para sua execução. Em todas as épocas relatadas no esquema, se faz uso do design tanto para fins de produção em série, como para a fabricação de produtos únicos; não podemos esquecer que o design oferta - ou deveria ofertar -, nos objetos em que está presente, uma qualidade de vida melhor ao usuário desses produtos, não podendo ser considerado somente como um processo mecanizado ou uma sistemática de divisão da produção em várias etapas. O desenvolvimento produzido em cada época é responsável pela metodologia de processamento de objetos - em série ou únicos -, para os quais ambos os aspectos reformulam a interação entre corpo e vestimenta. Partindo desse pressuposto, tanto Bomfim (2002), como Cardoso (1998) e Christo (2008) afirmam que o design efetiva-se nestas duas formas: a da produção em série e a da produção única. O design não é, portanto, somente o projeto de execução e não se faz apenas pelo advento da mecanização das etapas e da divisão do processo de produção gerado pela Revolução Industrial. Definida a abordagem do tema do design, pinçaremos alguns dos processos socioculturais dos séculos XVIII e XIX que, de certa forma, estimularam o design e a moda em algumas de suas interligações com o desenvolvimento comportamental. Para essa articulação, tomaremos como ponto de partida as três condições propostas por Cardoso (2008), sobre como o design teve três processos para sua consolidação: O primeiro destes é a industrialização: a reorganização da fabricação e distribuição de bens para abranger um leque cada vez maior e mais diversificado de produtos e consumidores. O segundo é a urbanização moderna: a aplicação e adequação das concentrações de população em grandes metrópoles, acima de um milhão de habitantes. O terceiro pode ser chamado de globalização: a integração de redes de comércio, transporte e comunicação, assim como dos sistemas financeiro e jurídico que regulam o funcionamento das mesmas (CARDOSO, 2008, p. 22-3). A reorganização do modo de fabricação iniciou-se no século XVII e modelou-se no XVIII. É durante o século XVIII que “[...] o design torna-se necessário como uma atividade separada da produção, assim que um único artífice deixa de ser responsável por todos os estágios da manufatura [...]” (FORTY, 2007, p. 43). Esta nova organização da metodologia no sistema de manufatura dividia os estágios da produção antes feitos somente pelo artesão. Este, muitas vezes, para a fabricação do objeto, era encarregado da criação, do projeto, da execução e da comercialização, sendo o único responsável por todo o processo de fabricação. Esse processo foi dividido em uma organização diferente, na qual o ato de planejar a execução é separado das demais etapas. Dessa forma, quem criava o design projetava o objeto a ser fabricado e dividia o processo de sua produção em uma série de etapas, com a finalidade de obter a qualidade e a uniformização dos objetos a serem manufaturados. A razão proposta para essa divisão é que, por meio desse redirecionamento, em que um operário seria responsável por somente uma parte do processo de fabricação, as probabilidades de erro cairiam, os objetos ganhariam qualidade e, por consequência, o consumidor reconheceria os produtos em sua uniformidade. Entre as décadas de 1780 e 1850, a Grã-Bretanha teve o primeiro registro de expansão da quantidade de bens produzidos, atribuindo-se esse aumento ao método de fabricação implantado. Graças ao novo meio de produção, a fabricação de tecidos de algodão aumentou, nesse período, a uma inacreditável taxa de 5.000% (CARDOSO, 2008, p. 26). O crescimento da indústria têxtil possibilitou o abastecimento do mercado consumidor de vestimentas, levando-se em conta que, nesse período, a diferenciação de classes sociais tinha uma relação com a moda, ocasionando, assim, um consumo extensivo de tecido. Segundo Udale (2009), a Inglaterra dominava a moda masculina, e a França, a feminina. Os franceses, para consolidarem sua hegemonia na moda feminina e imporem seu gosto sobre a Europa, conceberam um meio de divulgação da tendência de moda. A divulgação se dava por intermédio da prática das “bonecas de moda”, prática que consistia em copiar os modelos da moda em miniatura, vestindo-os em bonecas, que eram enviadas a todos os países europeus. Tudo isso com o objetivo de criar uma “[...] tendência à unificação do traje europeu e o pólo atrativo de Paris” (LIPOVETSKY, 1989, p. 74). O pólo atrativo de Paris baseava-se no domínio francês dos gostos e costumes da época, determinando que a cidade de Paris fosse o centro da moda, originando, dessa forma, uma tendência global para o consumo. A Alta-Costura, exemplo da divisão do ofício para manter o consumo e irrigá-lo sempre com as novidades da moda, fornece-nos um panorama planificado de como eram produzidas as vestimentas. A estrutura tinha, em seu topo, o designer, que, na época, era chamado de “costureiro”, sendo responsável pelo estúdio em que se criavam os modelos e se orientavam, com o programa, as oficinas. Estas eram divididas em [...] tarefas especializadas (as fazedoras de mangas, de corpetes, de saias, as ‘costureiras’ e, mais tarde, as que fazem ponto ajour12, as operárias do 12 Ponto cruzado que se usa para obter uma junção aberta decorativa entre duas extremidades de tecido, frequentemente a costura de uma roupa (O’HARA, 1992, p. 28). ‘grande vestido’, do tailleur, do ‘solto’) e seus índices hierarquizados (‘primeira’, ‘segunda de oficina’, primeira e segunda contramestra, ajudante, aprendiz) (LIPOVETSKY, 1989, p. 93). Nesse período, o “coser” era executado à mão, e essa realidade somente seria modificada com o surgimento da máquina de costura, datada de 1851; anteriormente a esse período, todas as costuras eram realizadas com o ponto ajour. O processo de divisão proposto para o design foi resultado de novas técnicas que pretendiam a reformulação do sistema de produção. O economista escocês Adam Smith (1723-1790), utilizando uma fábrica de alfinetes como exemplo para ilustrar sua teoria, que tinha, como um de seus frutos, a especialização das etapas de trabalho, afirmou [...] em vez de contratar muitos artesãos habilitados, bastava um bom designer para gerar o projeto, um bom gerente para supervisionar a produção e um grande número de operários sem qualificação nenhuma para executar as etapas [...] (CARDOSO, 2008, p. 34). Nessa mesma obra, Smith continua seu raciocínio ressaltando que, em época de baixa demanda de produção, os operários poderiam ser demitidos; com a demissão de empregados, a empresa ganharia, em virtude da economia gerada por essa dispensa. O sistema de fabricação em série de produtos propunha-se a obter, além da economia financeira, também economia de tempo, proporcionada pela contratação de pessoal não qualificado, cujo trabalho, simples, era sistematizado em um único processo de fabricação, e poderia ser substituído, a qualquer momento, pela abundância de pessoas nessa condição. Percebemos, nesse caso, que o sistema capitalista - tal como emergiu da Revolução Industrial - começaria a transformar as sociedades, utilizando as pessoas para implementar seus ciclos de produção. As novas invenções geradas no século XVIII também alteraram a linha de produção, a qualidade e a quantidade dos objetos produzidos. Um exemplo disso é a indústria têxtil inglesa que, para estampar o algodão, precisou inovar seu processo por duas vezes. Na primeira, houve a troca do processo de impressão de suas estampas, feito, inicialmente, com blocos de madeira, que passaria, então, a ser realizado com placas de cobre. Estas, por serem maiores, ofereciam maior riqueza de detalhes em seu espaço e, com isso, o trabalho manual de imprimir as estampas ganhava agilidade. Mas esse mecanismo “[...] não conseguia estampar mais do que seis peças de tecido por dia (uma peça tinha 28 jardas – cerca de 25,5 metros)” (FORTY, 2007, p. 66). Com o consumo expandindo-se, os 25,5 metros de tecido eram insuficientes para atender a demanda do mercado. O problema de aumentar a produção para satisfazer o consumo crescente somente foi resolvido com o surgimento da segunda grande invenção da indústria têxtil: por volta do final do século XVIII, em 1796, um novo mecanismo de impressão transformaria a placa de cobre em um cilindro, movido à água. Com o uso do cilindro, “[...] tornou possível imprimir todo o comprimento da peça de algodão continuamente, em um único processo mecânico”. (FORTY, 2007, p. 66). Nesse período, a etapa do projeto constituída pelo design do produto já se tinha consolidado na indústria têxtil: ele era responsável pelo desenho das estampas a serem executadas nesses dois grandes momentos da industrialização. A estamparia de tecido tornase, então, mais rentável, pelo fato de que um mesmo padrão bem sucedido poderia ser estampado quantas vezes fosse necessário, sem o custo adicional da mão de obra e da contratação do designer. 1.4 A moda na composição de um novo cenário social As novas tecnologias modificaram profundamente o cenário social e, por decorrência, a moda, como também as indústrias de louças e de móveis, consolidando-se a essas a produção de artigos de luxo. Esse tipo de artigo era, primeiramente, produzido para a realeza e a nobreza, tornando-se, posteriormente, acessível às classes emergentes de comerciantes e industriais. Origina-se, desse cenário urbano, a competição de uma classe com outra, e a aparência da vestimenta mostrava-se um terreno fértil e volátil para se estabelecerem as relações entre as classes sociais. Fértil, pelo consumo e a ascensão das classes abastadas, acarretando novos modismos para as classes ociosas; e volátil, pela curta duração dos modismos. Simmel (2008, p.172) afirma que a moda, [...] através de seu jogo entre a tendência para a expansão geral e a destruição de seu próprio sentido que essa expansão acarreta, tem uma atração peculiar pelas fronteiras, uma atração simultânea pelos começos e pelos fins, uma atração pela novidade e, ao mesmo tempo, pela efemeridade. Sua questão não é ser ou não ser, pois a moda é ao mesmo tempo ser e não ser, ela se coloca sempre no limite entre as águas do passado e do futuro, e nos dá, assim, tão logo atinge seu cume, um sentido tão forte de presente como poucos outros fenômenos podem dar. Por meio do olhar de Simmel, a moda do século XVIII pode ser considerada um dispositivo lançador de tendências comportamentais e de moda. As tendências de comportamento demarcam territórios na sociedade, sendo estes também demarcados pela moda. Quando os territórios sociais estão em processo de expansão para novas classes abastadas, a supremacia da classe ociosa é ameaçada e, novamente, aquelas são obrigadas a flertarem com as novas tendências. Um exemplo de nova tendência de moda e de comportamento, constituindo um novo paradigma a ser assimilado pela classe abastada, é o representado pela presença, no cenário urbano, dos operários ou de pessoas de qualquer outro ofício caracterizado pelo emprego de força física. O fim de uma moda ou tendência é um jogo decorrente da luta de classes, mantido pela fabricação em série de produtos e pelo consumo. Entre a relação de fabricação e de consumo, consolida-se o papel do designer, sendo este o responsável, muitas vezes, pela criação de novas tendências de moda ou de artigos de luxo. Quanto mais novas tendências são lançadas às altas classes, mais rápidas serão imitadas pelas classes abastadas; formando-se, dessa maneira, um novo ciclo de consumo. O consumo, sendo um dos alicerces da luta de classes, ocasionou, nos artigos de luxo, entre as décadas de 1750 e 1760, um movimento contra o Figura 07: Exemplo de indumentária neoclassicista da classe ociosa. Georges Rouget, As senhoritas, Mollien, 1811. processo das novas tecnologias aplicadas na manufatura dos produtos. Os objetos de luxo poderiam ser fabricados com as novas tecnologias, porém deveriam ter o estilo derivado do Neoclassicismo. O Neoclassicismo “[...] pretendia recuperar, para a arte e o design, a pureza de formas e expressão que julgava faltar no estilo rococó da primeira metade do século XVIII, e que era identificada naquilo que a Grécia e Roma haviam produzido (FORTY, 2007, p. 24-5). Para a moda do final do século XVIII, o Neoclassicismo resultou na tendência de vestidos de algodão branco, ou em tons pastel, para serem usados sem roupa íntima. Os tecidos então usados pela classe social privilegiada eram a musselina ou o gazar, considerados tecidos nobres. Outro motivo para o uso de ambos esses tecidos é o mérito de seu caimento, pois não modelavam o corpo. A modelagem solta e os tons pastel podem ser notados na figura 07, exemplo de indumentária neoclássica. O modismo contestava, assim, as roupas de algodão estampadas pela impressão com cilindros de cobre movidos a água e utilizadas pelas classes abastadas, que aproveitavam os baixos preços desse tipo de tecido. O paradoxo do novo e do velho demonstra que as novas invenções, no primeiro momento, sempre encontram rejeição do conhecimento, dos valores e dos questionamentos que trazem para a sociedade. O novo passa a ser aceito pela sociedade, em muitos casos, somente após sua popularização ou depois de haver sido validado por uma empresa ou pessoa notória. O novo segue rompendo paradigmas até os dias atuais: Lipovetsky (1989) aponta que a moda somente se torna moda com a validação e o consumo de massa, e também com a aprovação dos meios de comunicação, por intermédio das revistas de moda e, na contemporaneidade, dos editoriais. Investigamos algumas das mudanças promovidas pelo surgimento do design no século XVIII. A partir desses novos meios de produção de bens manufaturados, começaremos a refletir sobre como essas mudanças influenciaram o design, a moda, a sociedade, a economia e a cultura no século XIX. Para Forty (2007, p. 128), “[...] conhecer a amplitude dos diferentes designs era conhecer uma imagem da sociedade”. Essa afirmação expõe como o design e sua diferenciação pode ser um meio por meio do qual poderemos analisar um período histórico. A leitura é oferecida pelos bens de manufaturas. Neles, a sociedade tem a seu dispor, pela primeira vez na história ocidental recente, uma quantidade de produtos com a mesma função, mas com algumas modificações em seus tamanhos, cor e material, para serem consumidos por diferentes públicos. Forty descreve quatro públicos específicos de diferenciação: o masculino, o feminino, o infantil e o de diferentes classes sociais. Sua definição sobre como surgiu a diversidade do design abrange dois questionamentos, portanto o autor afirma que as duas teorias não conseguem explicar todos os casos. A primeira reporta-se à diferenciação, “[...] como consequência da evolução de novas necessidades [...]”, e a segunda ao “[...] desejo dos designers de expressarem sua engenhosidade e talento artístico” (FORTY, 2007, p. 125). A diferenciação trouxe com ela uma nova dimensão sobre variedade, alocada dentro das possibilidades do design diferenciado. A variação propunha ao consumidor a expectativa de encontrar o objeto que expressasse o seu gosto, como consequência de sua individualidade. Como foi dito, as variações poderiam ser de cor, de tamanho e de material e, dessa forma, o indivíduo usa o artifício de utilizar materiais caros ou baratos, como parâmetros sociais. A moda é um alicerce, por sua natureza, em que se fez presente esse sistema de variedade pela distinção social, descrito na obra de Forty (2007). O autor descreve a diferenciação entre produtos de design, em cinco grupos simultaneamente. O masculino e o feminino, a infância, as classes sociais e o grupo patrão e criado. Para uma abordagem simplificada, reagruparemos os cinco grupos em somente quatro. O masculino e o feminino, a infância e o grupo da classe social, que também abordará as questões referentes a patrão e criado. Para essa análise, nortearam-nos algumas considerações referentes ao universo da moda, seguindo as reflexões de Forty. A moda aberta é a referência de onde surgiram as roupas unissex. Essa referência é datada, segundo Lipovetsky (1989), em 1960. No século XIX, essas diferenciações ficam ligadas às considerações sobre o feminino ser frágil e delicado, enquanto o masculino detém a força e o vigor. Com o reconhecimento desses atributos, os designers aproveitavam para projetar objetos que denotassem essas qualidades. O design destinado ao masculino apresentava formas e volumes maiores e sem ornamentação, e o feminino continham ornamentações elaboradas e de tamanhos menores. Um desses exemplos descritos pelo autor é o catálogo de vendas dos relógios da Army and Navy Store. Os relógios de pulso destinados aos homens eram maiores, com numeração romana e preços acessíveis; já os modelos de relógios oferecidos às mulheres eram menores, ornamentados, dotados de numerais arábicos, formas arredondadas e preços elevados. Todos os elementos de design descritos pelo catálogo estão inseridos na preocupação referente às questões de gênero. As vestimentas infantis mudaram no decorrer dos séculos XVIII e XIX em seu conceito e em sua composição estética; enquanto, no século XVIII, eram praticamente miniaturas de roupas adultas, no século XIX as vestes destinadas a crianças ganharam contornos de leveza, inocência e bondade. Essa mudança é claramente efetivada pelos adultos, com a finalidade de diferenciar a idade adulta dos primeiros anos de vida, e certamente uma criança nunca compraria suas próprias roupas: essa era uma função destinada às mulheres, naquela época. Empregaremos a função feminina no decorrer do século XIX para elucidar a diferenciação entre classes e o design de moda, sendo esta a área em que teremos maior número de recortes, de modo a ilustrar essa abordagem. Para tanto, utilizaremos as já mencionadas obras de Forty (2007) e Lipovetsky (2007), além de Simmel (2008) e Cardoso (2008). Recorreremos também às considerações de Veblen (1980) sobre moda, para refletir sobre a moda feminina, o design e o comportamento social, uma vez que essas relações interligam-se, em um sistema híbrido que atravessa o século XIX. A divisão entre classes, marcada pela vestimenta, na época vitoriana, teve um motivo específico para acontecer. Os avanços da fabricação, da metodologia e de novas invenções geradas pela Revolução Industrial culminaram em uma maior facilidade para adquirir os bens de consumo. Com o aumento numérico da classe operária – e também de seu poder aquisitivo –, ela passa a consumir cada vez mais, e um de seus objetivos é aproximar-se dos padrões das camadas sociais mais elevadas. Isso levou as classes de maior condição social - ditas ociosas - a usarem a moda e o comportamento como sistema de diferenciação. Os padrões de estamparia são um excelente ponto de partida para se observar esse procedimento de diferenciação, iniciado no final do século XVIII, e gerando notoriedade no começo do século XIX, pois a possibilidade de a estampa ser feita em metros barateou seu custo, modificando-se e reforçando-se, assim, o lançamento de tendências de moda. O uso de estampas era reconhecido como característica das vestimentas de pessoas das classes trabalhadoras, enquanto roupas de uma única cor caracterizavam as classes altas (que se reportavam ao Neoclassicismo, em padrões originários do estilo da Roma e da Grécia em seus hábitos de vestir o corpo e a própria casa). No decorrer do século, outros modos de diferenciação entre as classes e os padrões preexistentes foram sendo estipulados, também com o objetivo de reafirmar os diferentes territórios das classes sociais. Forty (2007) aponta, entre outras diferenciações, para o costume de as esposas comprarem as roupas da criadagem ou para o fato de os empregados usarem as roupas que não eram mais usadas pelos padrões. Com esses procedimentos, não se poderia distinguir os componentes de cada uma das classes em relação às demais, pois ambas usavam vestimentas aparentemente iguais; a diferença poderia ser notada nos mínimos detalhes, como no tecido e na boa conservação das roupas, mas isso só seria percebido se uma observação cuidadosa fosse feita. Para restabelecer essa diferenciação de classes, foi definido o uso de um uniforme na cor preta e com avental branco, para as criadas que, assim, seriam facilmente diferenciadas dos membros da classe dos patrões. Com o mesmo objetivo, as regras de serviço foram redefinidas: o uso de bandejas, por exemplo, passou a ser obrigatório, e o criado nunca poderia oferecer alguma refeição sem o uso desse instrumento, que codificava sua condição de servidão. Dessa forma, o papel do criado, de empregado da casa, seria claramente estabelecido, pondo fim à ambiguidade quanto à sua classe social. Na segunda metade do século, surge uma atividade que, com “[...] o anseio de ocupar os momentos de folga, deu origem a outra invenção da era moderna: o conceito de lazer [...]” (CARDOSO, 2008, p. 47). O conceito abriu as portas para uma série de novos costumes, como frequentar museus, teatros, exposições, parques, jardins e, nesse meio, lojas de departamentos. As lojas de departamentos merecem maior ênfase, pois seu surgimento trouxe uma subversão de valores no comportamento feminino. As primeiras surgiram em Paris - Bon Marché, Printemps e Samaritaine -, em Londres - Liberty -, e em Nova York - Macy’s. Até antes da chegada dessas lojas, a rotina das mulheres estava voltada, apenas, à segurança do lar, aí se concentrando toda a sua atividade. Com seu surgimento, porém, o consumo transformou esse novo território em domínio feminino, pois nesse espaço elas poderiam potencializar sua integração social e denotar a própria expressão individual fora da vida doméstica. Com essa recente rotina da modernidade, a família vitoriana passaria a usufruir do lazer e a exibir-se nos grandes centros urbanos. Assim, suas diferenciações de modos e de moda não ficavam mais restritas ao interior de suas moradas, instaurando-se o luxo na moda, como marca legitimada da era vitoriana, até 1910; esse luxo era expresso por meio da AltaCostura. O responsável pelos primeiros “alinhavos” na formatação da moda como a conhecemos atualmente foi o couturier inglês Charles Frédéric Worth (1825-1895) que, em outubro 1857, “[...] funda, na Rue de la Paix, em Paris, sua própria casa, a primeira da linhagem do que, um pouco mais tarde, será chamado de Alta-Costura. Worth anuncia: ‘Vestidos a mantôs confeccionados, sedas, altas novidades’ [...]”(LIPOVETSKY, 1989, p. 71). Com Worth, outra diretriz é fixada na moda moderna (LIPOVETSKY, 1989): suas roupas são originais e apresentadas ao consumidor; este as escolhe, e elas são fabricadas sob medida. Posteriormente, essas vestimentas são apresentadas em desfiles, com manequins vivas - as primeiras modelos, na época chamadas de “sósias”. Os desfiles acompanham as estações do ano e, pela primeira vez na história, as roupas são assinadas por seu criador. Dessa maneira, a moda conecta-se com os novos conceitos de lazer e de luxo. O costureiro, então, é consolidado, no universo da moda; ele possui um [...] prestígio inaudito, é reconhecido como um poeta, seu nome é celebrado nas revistas de moda, aparece nos romances com traços do esteta, árbitro inconteste da elegância; como as de um pintor, suas obras são assinadas e protegidas pela lei (LIPOVETSKY, 1989, p. 82). As leis que garantiam a patente do designer originaram-se na Grã-Bretanha, entre 1830 e 1860; na indústria da moda, criou-se um sindicato para legitimar e registrar as criações dos estilistas: “em 1868, foi criada a Chambre Syndicale de la Haute Couture em Paris, a qual não fazia, ainda, a distinção entre Alta-Costura e confecção”; somente em 1870, o nome costureiro seria utilizado (SABINO, 2007, p. 37). Essa distinção entre as roupas de Alta-Costura e as de confecção tinha como objetivo distinguir as vestimentas de luxo, feitas pela Alta-Costura, dos demais vestuários, produzidos em larga escala, com diferentes tipos de materiais e preços, ofertados às classes abastadas. Cardoso (2008) expõe o problema da imitação de produtos, ao descrever, em sua obra, o primeiro boicote feito por consumidores de que se tem notícia na história, no qual lutava-se contra o emprego de mão de obra quase escrava nas confecções londrinas destinadas às classes populares, chamadas de sweatshops. As sweatshops produziam cópias das roupas de Alta-Costura, mas com preços bastante reduzidos; para esse fim, utilizavam tecidos e acabamentos de baixa qualidade, sendo esse sistema - “de pirataria” - recorrente na moda até os dias atuais. Consolidando-se a Alta-Costura no século XIX, surgem outros costureiros oferecendo o mesmo sistema de design e de apresentação das coleções criado por Worth. Entre as novas maisons, surgem a de Paul Poiret (1879-1944)13, em 1880, e a de Jeanne Paquin (1869-1936)14, em 1891. Com a Alta-Costura propondo os novos conceitos de fabricação, inovação e criação, aprofundaram-se as diferenças de classes. O luxo tornou-se um empecilho incontornável, fazendo com que a divisão social ficasse mais nítida, com as classes manifestando-se como duas forças contrárias. Com apoio em A teoria da classe ociosa, obra do sociólogo americano Thornstein Veblen (1857-1929), apontaremos algumas questões em 13 O estilista francês foi, no período que vai da Belle Époque até 1920, um dos mais importantes e visionários estilistas. Em 1889, trabalhou com Jacques Doucet (1853-1929)*, e para Worth em 1901. No ano de 1903, abriu sua maison no número 5, da Rue Auber; após três anos se transferiu para a Rue Pasquier e, mais tarde, adquiriu mais uma maison, na Rue Colisée. Aboliu o uso de corset, e em 1913 lançou a linha vestidos-quimono. Buscava inspirações em outros países e culturas, e foi ligado ao movimento modernista que receberia o nome de Art Déco. No final de sua carreira apresentou sua coleção em um mix de festa e desfile, que ocorreu dentro de um barco no rio Sena (SABINO, 2007, p. 483-4). * Estilista francês que queria ser pintor, porém, estava predestinado a ser um costureiro, ao herdar o negócio criado por seu avô e seu pai. A maison foi aberta em 1875, e ele abandonou a carreira em 1912 para tornar-se um dos grandes mecenas da arte impressionista. 14 A estilista era concorrente de Poiret e Worth, e sua maison tinha um grande diferencial: a mulher não era apenas musa, e sim também criadora. Em 1906, lançou seu vestido Império. Este vestido tinha um recorte no busto e ampliava-se pelo corpo; um ano antes de Poiret. No ano 1900, foi a primeira mulher presidente da seção de moda da Exposição Mundial, e no ano de 1913, tornou-se a primeira costureira a ser condecorada com a Cruz da Legião de Honra. Inovou seus desfiles, apresentando-os em estreias de óperas e corridas de cavalo (SABINO, 2007, p. 480; SEELING, 1999, p. 44). torno da sociedade do século XIX, dividida, pelo autor, em duas classes sociais: a classe ociosa e a classe operária. Veblen define classe ociosa como aquela que, como um todo, compreende as classes nobres e as classes sacerdotais e grande parte de seus agregados. As ocupações são diferentes dentro da classe ociosa, mas todas elas têm uma característica comum – não são ocupações industriais. Estas ocupações não industriais das classes altas são, em linhas gerais, de quatro espécies – ocupações governamentais, guerreiras, religiosas e esportistas (VEBLEN, 1980, p. 15). A classe ociosa não precisa ter nenhum ofício, e suas vestes são altamente elaboradas; por essa razão, poderiam ser utilizadas como referências de moda e comportamento: a moda feminina servirá como reagente dessa demarcação, e, o traje masculino apresenta-se “[...] neutro, escuro, austero, traduzi[ndo] a consagração ideológica igualitária como ética conquistadora da poupança, do mérito, do trabalho das classes burguesas” (LIPOVETSKY, 1989, p. 91). A austeridade da moda masculina traduzia os valores de força, economia e seriedade para constituir o processo industrial; em contrapartida, a vestes femininas tinham de cumprir o papel de espelhar o sucesso financeiro de sua família, frívolo, oneroso, ostensivo e luxuoso. Essas características da moda feminina e da moda masculina poderiam ser comparadas à vida urbana e à arquitetura das grandes cidades, que refletiam esse conceito de frivolidade e austeridade. As fachadas das casas, por exemplo, eram austeras, mas apresentavam uma forma arquitetônica simples; em seu interior, em contrapartida, reinava a exuberância na decoração e no serviço dos empregados. Dessas duas relações, podemos inferir que o interior doméstico refletia a moda feminina, e a fachada austera, a moda masculina: ambas as associações formataram os códigos de respeitabilidade que deveriam ser seguidos pela classe ociosa. Veblen (1980, p. 99-101) descreve alguns códigos a serem seguidos como padrão de respeitabilidade na moda feminina: (a) o vestuário não dispendioso é considerado inferior; (b) o vestuário deve conotar para todos os observadores que quem o usa não tem nenhum dever de ofício produtivo; (c) o vestuário deve conotar aos observadores que quem o usa não faz esforço; (d) o vestuário deve conotar aos observadores que quem o usa está na moda. Com tais códigos, a mulher traduzia, por meio das vestes - para toda a sociedade e aonde quer que fosse -, sua origem e sucesso familiar. 1.5 O avanço do design Procede-se, então, a um novo costume, aliado ao recente costume do lazer: a exposição de objetos de design, para divulgar, explicar e mostrar os avanços da tecnologia ao grande público. A partir daí, os produtos e meios de produção ficariam conhecidos do grande público consumidor e, baseando-nos no estudo das obras de Forty (2007) e Cardoso (2008), podemos afirmar que, por esse meio educativo de massa, pressupunha-se, entre outras questões, a eliminação da rejeição do paradoxo entre o velho e o novo, recorrente na sociedade do século anterior (como já foi dito, o gosto pelo estilo Neoclassicista). A maior exposição sobre design realizada no século XIX ocorreu em Londres, em 1851, e ficou conhecida como “Grande Exposição”. Nessa mostra, foram expostos trabalhos de várias nações, e, com o sucesso atingido, outras exposições foram realizadas: na França, na cidade de Paris, nos anos de 1855, 1867, 1878, 1889 e 1900; na Inglaterra, na cidade de Londres, no ano de 1873, e nos Estados Unidos da América, nas cidades de Filadélfia, em 1876, e Chicago, em 1893 (CARDOSO, 2008). Mas essas exposições não eram o único meio de se pensar e se refletir sobre design no século XIX. A criação das primeiras escolas de ensino de design propunha sua valorização e também a qualificação dos designers: um exemplo dessa preocupação foi o surgimento, na Inglaterra, de uma rede de escolas públicas de design, em 1837. Assim, nesses dois séculos, tivemos um avanço notório no ofício do design e no modo como ele é feito e elaborado. Por meio de algumas ponderações, extraídas das experiências ocorridas nos séculos XVIII e XIX, podemos confirmar a importância dos três alicerces, apontados por Cardoso (2008), que foram implantados nesse período e ajudaram a consolidar o design: a industrialização, a urbanização moderna e a globalização. A moda, por sua vez, percorreu o mesmo trilho do desenvolvimento do design, utilizando a industrialização proposta pela Revolução Industrial para aumentar sua competitividade e lucro: esse desenvolvimento pode ser notado desde a produção dos tecidos até a revolução nos métodos de estamparia e fabricação em larga escala de roupas, com as sweatshops. O ambiente é de pura efervescência: a urbanização das grandes cidades transforma-as em centros de consumo; surgem os novos códigos de diferenciação de classes sociais; estabelecem-se as patentes e o comércio internacional da moda, sendo Paris a cidade onde se encontrava o epicentro das normas do luxo e da variedade do consumo. A moda se torna, pelo desenvolvimento tecnológico e social da época - e por meio da invenção de Charles Frédéric Worth -, um sistema legitimado e possuidor dos próprios territórios de conduta. Worth provavelmente notou que, em algumas fábricas, costumava-se contratar um designer oriundo da região em que o produto seria oferecido. O designer, portanto, detinha o conhecimento do processo de fabricação e também do público para o qual o produto seria oferecido. Com esse subterfúgio, o designer era levado a procurar conhecer o gosto e os conceitos que estavam na moda; partindo-se desse conhecimento prévio, provavelmente, todo o processo de criação de um novo bem manufaturado ganharia com sua assinatura. Por parte do designer, o ato de assinar valorizava o produto e, como consequência, evitava o insucesso de sua aceitação. Talvez Worth estivesse levando em conta os métodos dos designers, para elaboração de seu sistema de apresentação da moda moderna: esses mesmos processos podem ser vistos na propagação do design de moda. Ou, talvez, tenha havido um insight criativo, e o universo da moda adquiriu suas primeiras condutas modernistas por meio apenas de um sairde-si... Insight “é um sair-de-si e um captar, uma busca de conteúdos significativos” (OSTROWER, 2007, p. 66). Entre outras considerações possíveis sobre o que são “conteúdos significativos”, podemos especular a respeito do que são as novas descobertas ou o refinamento de um processo já estabelecido, a serem consolidados pelo uso feito na sociedade. Na busca por uma moda representativa de valores individuais ou de expressão de classes, por sua vez, a cultura de moda passou a ser uma “[...] prática dos prazeres, é prazer de agradar, de surpreender, de ofuscar. Prazer ocasionado pelo estímulo da mudança, a metamorfose das formas, de si e de outros. A moda não é apenas marca de distinção social, é também atrativo, prazer dos olhos e da diferença” (LIPOVETSKY, 1989, p. 62). O prazer dos olhos é o prazer decorrente do design que se consolidou nos séculos XVIII e XIX, para transformar a sociedade com produtos funcionais ou meramente belos pela sua forma, cor e textura. Essa busca de qualquer sistema que legitime determinada classe social pode ser considerada um sair em busca do estilo utópico do individual e, por consequência, para a descoberta de nós mesmos em nossa sociedade. Essa busca pelo sui generis será, então, o condutor dos próximos séculos a serem estudados: os séculos XX e XXI. Dessa forma, percebemos que há a procura de novos conteúdos que dêem respaldo às novas criações. O novo como sistema social de diferença. 1.6 Design no século XX O novo século nasce despontando em busca da consolidação de um movimento legítimo da modernidade. Essa modernidade é vista, aqui, no sentido de que sua fonte de referência não poderia mais calcar-se no passado, haja vista sua produção estar inserida nas recentes descobertas da revolução industrial. Essa busca originou, segundo Cardoso (2008), dois movimentos que legitimaram a nova era. O primeiro, designado Art Nouveau, teve sua procedência no final do século XIX e resistiria até a Primeira Guerra Mundial (1914-1918); após esse momento, a semente da Art Déco ganharia forças e este tornar-se-ia o movimento sucessor da Art Nouveau. Ambos são considerados pelo autor como os primeiros produtos de massa do século XX, oriundos da expressão criativa daquela sociedade modernista: eles não tinham referências no passado, e eram produzidos, em massa, para os grandes centros urbanos. Os grandes centros urbanos retratavam a amplitude do comércio ávido por produtos e, consequentemente, por novidades; assim, essas tendências estilísticas ganhariam novas formas: revistas, mobiliário, cartazes e, na esfera da moda, criações de joias e vestimentas. Para articularmos esses estilos com a moda, observaremos suas estruturas e correlacionaremos a Art Nouveau com a Belle Époque; a Art Déco, por sua vez, será ligada às tendências dos anos de 1920, tendo como referência o estilo simplificado e funcional dessa década. Desse modo, o estilo Art Nouveau está associado às formas botânicas estilizadas, com uma profusão de motivos florais e femininos, em curvas assimétricas e cores vivas, com a exuberância vegetal de formas que brotam de uma base tênue, se impulsionam verticalmente, se entrelaçam e irrompem em plenitude redonda e orgânica: culminado, tipicamente, em flores douradas, asas de libélula ou penas de pavão (CARDOSO, 2008, p. 96). Os excessos de ornamentação, marca registrada desse estilo, afirmam os elementos relacionados à época conhecida como Belle Époque. O estilo substitui, então, o referencial da Era Vitoriana, que consistia, em parte, dos seguintes elementos: a “silhueta-ampulheta” ou a “cintura de marimbondo”, construídas à força de espartilhos, que comprimiam o ventre e as costas e projetavam os seios para frente e as nádegas para trás. Rígido, feito de tecido forte, mantido ereto por varetas feitas de barbatanas de baleias, o espartilho devia ser usado pelas mulheres desde os 11 anos e acabava por produzir deformações na estrutura óssea, com a atrofia das costelas interiores; sacrificavam também os pulmões, o baço, o fígado e os rins (BRAGA; PRADO, 2011, p. 32). A silhueta-ampulheta (ver figura 08) compunha o look da classe burguesa da época e, juntamente com esse rigor estético, o “corpo feminino tornou-se também um verdadeiro repositório de linhas curvas [...] onde os [...] adornos de chapéus, especialmente de flores, compunham a cabeça com enormes coques fofos; o uso de botas era fundamental” (BRAGA, 2007, p. 66-67). Podemos relacionar esse modismo com o movimento da Art Nouveau, em que encontramos, segundo referências de Cardoso (2008), todas essas volúpias do estilo vigente. Entre os designers que se destacavam nessa época, podemos citar os franceses Jacques Doucet15 (18531929) e Paul Poiret (1879-1944), sendo este o condutor de uma possível articulação, por meio da qual pretenderemos especular acerca da transição da moda a partir dos movimentos da Art Nouveau e Art Déco. Paul Poiret (nascido em 08 de abril de 1879) teve grande importância para a moda, pois conjugou uma proposta de liberdade e, ao mesmo tempo, um rigor doutrinário - característico de suas clientes -, por suas proporções de medida e criação. Poiret libertou a mulher dos espartilhos, deixando-a sem a austeridade das linhas curvas da Belle Époque; Figura 08: A cantora francesa Polaire, no ano de 1890, usando o indumento próprio das formas rígidas da Belle Époque. essa transição, contudo, não seria realizada de uma só vez: o designer suavizou, inicialmente, as linhas curvas e, posteriormente, no ano de 1906, desenvolveu a linha - La Vague - que o imortalizaria para a historicidade da moda. Esse nome deve-se ao fato de que ela “se move com uma onda suave em torno do corpo” (SEELING, 1999, p. 24). Sua esposa, Denise Boulet era a sua “sósia”: desfilava sua produção e, por meio dela, os olhares da sociedade feminina almejavam as criações do designer. Boulet era 15 Estilista francês de grande sucesso entre o fim do século XIX e o início do século XX, cuja Maison foi aberta em Paris, em 1875. Doucet costumava inspirar-se em telas dos séculos anteriores para a criação de uma moda extravagante, que explorava o uso de ricos bordados, tecidos finos e peles, seduzindo uma clientela composta por aristocratas, atrizes e senhoras da sociedade (SABINO, 2007, p. 362). esbelta, morena, jovem, livre de espartilhos e de pó-de-arroz. [...] não é só a falta do espartilho, que Poiret substitui pelo soutien elástico e cinto de ligas lassos, que tornam as mulheres mais jovens e activas, mas também as cores fortes e os modelos ligeiros, utilizados em vez dos tons pastel deslavado e das frágeis grinaldas com flores. Além disso, rejeitava as meias pretas e presenteia as mulheres (e os homens) com a ilusão de pernas nuas, na medida em que as envolve em seda da cor da pele (SEELING, 1999, p. 2627). Poiret renova e simplifica o indumento feminino, colocando-o em sintonia com a nova era. A Belle Époque foi, assim, transformada em uma suave silhueta de ampulheta. O designer, posteriormente, libertaria ainda mais essa forma, descendo o recorte da cintura para o quadril, em tecidos leves que ondulavam o corpo. A rigidez fora, então, substituída por um design inovador, próprio das convenções estéticas da Nova Era, que pressupunha não ser influenciada pelos estilos de outras. No ano de 1910, toda a poética libertadora foi colocada à prova pelo próprio designer, com a criação de uma saia tão justa, que as mulheres não conseguiam andar, tal era a sua modelagem. Poiret declara, então: “libertei a parte de cima dos seus corpos, mas amarro as suas pernas” (Ibidem, p.27). As mulheres rejeitam essa criação: após experimentarem o frescor da nova modelagem proporcionada pelo criador, tomaram gosto pelo conforto. Não se importando com o fracasso, Poiret desenvolve uma nova criação em seu imaginário: ele como um sultão e suas clientes como o seu harém. Para concretizá-la, impõe “cafetãs e quimonos, calças de balão e túnicas, véus e turbantes [...] o luxo incondicional: bordados com cores magníficas, rendas trabalhadas em ouro e prata, brocados sumptuosos, bordados com franja, pérola e plumas raras” (Ibidem, p. 28). Essa trajetória pode ser apreciada na figura 09, na qual o decorrer de sua criação pode ser observado, nas quatro imagens que a compõem. Figura 09: Modelos de Poiret. Da direita para a esquerda: A linha ampulheta suavizada. A linha La Vague, de 1906, e a teatralidade de suas clientes que formam seu harém, usando trajes com referências orientais. A Alta-Costura de Poiret distingue a mulher moderna, e, em sua criação, ele impõe seu gosto. Assim, “o vestuário é concebido, inventado de ponta a ponta pelo profissional em função de sua inspiração” (LIPOVETSKY, 1989, p. 92). Arriscamo-nos, então, a afirmar que, após as contribuições de Worth, a moda não se resguardaria, desdobrando-se para aclamar e registrar o nome do criador que estava por detrás de cada criação. O desdobramento, típico de um origami, ressurgia agora em novas formas de demonstração do poder de criação do designer: um exemplo é a forma por meio da qual Poiret apresentava sua coleção, vestindo, cotidianamente, Boulet, sua esposa, e gerando, assim, outro tipo de marketing para a maison. Ainda segundo Lipovetsky (1989), a Alta-Costura, “a exemplo da arte moderna, é inseparável da ideologia individualista segundo a qual, pela primeira vez na história, é colocada a primazia da unidade individual sobre o todo coletivo, o indivíduo autônomo, independente, liberto da obrigação imemorial de curvar-se aos ritos, usos e tradições em vigor no conjunto social” (Ibidem, p. 102-103). A essa articulação, não almejamos deslegitimar a moda como um divisor de classes sociais, pois ela, com seus modismos de fato, pressupõe essa conduta. Essa visão é tangenciada tanto por Lipovetsky (1989), como também por meio dos estudos referentes a Simmel (2008), Cardoso (2008), Forty (2007) e Veblen (1980). Todas as obras declamam o indumento como um dos depositários por meio dos quais, podemos encontrar o diálogo da divisão de classes. O fato novo - e que se torna evidenciado no século XX e respaldado pela modernidade - é a atuação do designer de moda por meio da Alta-Costura. Este é, de fato, um criador, que através de suas clientes joga com silhueta, proporções, medidas e todos os elementos de elaboração de uma tendência de moda, cuja premissa é a satisfação da inspiração do criador; este, por sua vez, somente perceberá a aceitação da sociedade que o cerca após cumprir sua eloquência criativa. Então, inserido na cultura consumista da individualidade, formará um novo panorama que subverterá a coerência da “relação dos indivíduos com as coisas e com o necessário” (LIPOVETSKY, 2005, p. 57). Com a trajetória do desenvolvimento da moda proporcionada por Poiret - de libertar e suavizar as linhas da forma ampulheta, de proporcionar a liberdade por meio da linha La Vague (sendo esta uma variação da silhueta utilizada nas roupas da década de 1920), de amarrar as pernas da mulher (com o uso de saias tão justas que chegavam a impedir os movimentos) e de ter como fonte de inspiração as indumentárias advindas de outras nacionalidades -, acreditamos que o designer transgrediu não apenas a sua própria “evolução” como também o gosto de sua época. Poiret, contudo, não atentou para o fato de que, após a experiência de liberdade proporcionada pela simplificação da linha La Vague e a ausência de ornamentação, a modelagem de suas criações era coerente com o seu tempo (cinturas baixas e usos de calças para compor a toalete feminina, conforme vimos nas duas últimas imagens da figura 09), mas o conjunto de sua obra, não cotiam os códigos da moda moderna. A modelagem e a silhueta são coerentes com o estilo Art Déco, mas o excesso de luxo (expresso no design de superfície, sobre a seda), não, estando mais de acordo com um novo gosto, que estava sendo implantado, e que ganharia notoriedade nos anos 1920. Poiret, assim, ofertou-nos uma presumível reelaboração do Art Nouveu, abrandando o estilo da Belle Époque e, provavelmente, sendo um dos lançadores da silhueta que dominaria a moda dos considerados loucos anos vindouros, a década de 1920. A Alta-Costura proporcionada por Poiret não o consolida mais como um primoroso criador, ou melhor, como criador do belo, do bom gosto, do refinamento, do comportamento, enfim como um costureiro da Alta-Costura, sendo esta um artigo de luxo. O luxo ganharia outro sentido, e essa nova deliberação do que seria luxuoso não coexistia em suas criações. O luxo, então, era frequentemente relacionado aos prazeres dos cincos sentidos. As análises precedentes mostram que essa aproximação não é suficiente, visto que o luxo é indissociável de um outro sentido, um sentido não materialista, tão constitutivo da natureza humana que se pode considerá-lo o sexto sentido: o que é relativo ao seu tempo (LIPOVETSKY, 2005, p. 85). O relativo ao seu tempo torna-se inerente ao design e à moda; a modernidade requer da sociedade o comportamento intrínseco aos seus conceitos de inovação do design e da tecnologia. O metal e o vidro não moldariam as formas orgânicas sucedidas no começo do século XX, o brilho proporcionado por ambos moldará o esteticismo geométrico do design originado na Art Déco. 1.7 A arte no início do século XX O movimento Art Déco é “caracterizado como menos ornamentado e mais construtivo, menos floral e mais geométrico, menos orgânico e mais mecânico, menos um entrelaçamento de linhas e mais uma sobreposição de planos”. (CARDOSO, 2008, p. 96). A Alta-Costura comunga com a moda nesses recentes valores de esteticismos de formas retas e com a utilização simplista de ornamentação. A ruptura ecoa após a Primeira Guerra Mundial e torna a sociedade dos anos de 1920, um celeiro de informações que culminariam com o surgimento da silhueta da época moderna. Essa silhueta da mulher dos anos 1920, reta e lisa, está em consonância direta com o espaço pictórico cubista, feito de planos nítidos e angulares, de linhas verticais e horizontais, de cores uniformes e de contornos geométricos; faz eco ao universo tubular de Léger, ao despojamento estilístico empreendido por Picasso, Braque, Matisse, depois de Manet e Cézanne. Os volumes e curvas da mulher deram lugar a uma aparência depurada, dessofisticada, na continuidade do trabalho das vanguardas artísticas. A moda tirou as lições do projeto modernista, começando por Manet, de que Georges Bataille dizia que se caracterizava pela “negação da eloquência”, “pela rejeição da verborréia grandiloquente” e da majestade das imagens; abandonando a poética da ornamentação e da exibição da lantejoula, a Alta Costura trabalhou parcialmente para dessublimar e desidealizar o aspecto feminino, democratizou o estilo do vestuário no clima dos novos valores estéticos modernistas, dirigidos para a depuração das formas e a recusa do decorativo (LIPOVETSKY, 1989, p. 78). Cardoso (2008) e Lipovetsky (1989), em seus estudos sobre o design e a moda dos anos de 1920, posicionaram-se da mesma forma perante o modernismo do começo do século: ambos relatam as formas retas e sem opulência, advindas das aplicações sobre o tecido; a hominização das formas retas também se fez notar em alguns dos pintores citados por Lipovetsky, que utilizaremos em nossa reflexão. Para realizar uma observação referente às silhuetas e sobreposições de planos retos, faremos um recorte sobre a obra de dois pintores: o espanhol Pablo Picasso (18811973) e o francês Henri Matisse (1869-1954). Figura 10: Da direita para a esquerda - Corte geométrico dos cabelos, o quadro Les Demoiselles d’Avignon de Picasso (1907) e a designer Coco Chanel (1929). Figura 11: Da direita para esquerda - Coco Chanel e a sua amiga Vera Batem (1928), o quadro La Joie de Vivre, de Matisse (1905) e vestidos de Coco Chanel (1926). Podemos perceber, no quadro de Picasso (figura 10), a ausência de curvas nas formas femininas e também nos demais elementos que a compõem (somam-se um total de cincos formas). Essas composições - de cinco formas humanas - marcam o estilo artístico reconhecido como Expressionismo, “fenômeno europeu com dois centros distintos: o movimento francês dos fauves (feras) e o movimento alemão Die Brücke (a ponte). Os dois movimentos se formam quase simultaneamente em 1905 e desembocam, respectivamente, ao Cubismo na França em 1908 [...]” (ARGAN, 1992, p. 227). O Expressionismo é o movimento substituto do Impressionismo, que ressalta a realidade na forma da pintura, pressupondo capturar e registrar, da melhor forma possível, o que vemos. O movimento foi perdendo força a partir da invenção da fotografia, descoberta em 1839. Conforme ARGAN (1992, p. 227), a “expressão é o contrário de impressão. A impressão é um movimento do exterior para o interior: é a realidade (objeto) que se imprime na consciência (sujeito). A expressão é um movimento inverso, do interior para o exterior: é o sujeito que, por si, imprime o objeto”. Podemos ponderar acerca das afirmações de Argan (1992) e, frente a elas, articular que o Expressionismo é o modo como o artista processa o mundo, a realidade, e através dela, aponta as suas reflexões sobre determinado tema; o Impressionismo, por sua vez, é a retratação do mundo por meio da realidade sem o processamento advindo desse artista. O sujeito não opera suas análises, mas sim utiliza sua habilidade para a construção de formas pictóricas realísticas do mundo, sendo este o objeto de retratação. O Impressionismo é, assim, realístico na forma de compor suas configurações. O pinçamento da obra dos pintores Matisse e Picasso, como também das duas outras obras aqui referenciadas (o quadro La Joie de Vivre, figura 11, e Les Demoiselles d’Avignon, figura 10) decorre de uma relação entre ambos os pintores e suas respectivas obras. O quadro La Joie de Vivre foi pintado por Matisse entre os anos de 1905 e 1906, sendo anterior ao quadro de Picasso. Matisse exerce certo lirismo e pretende consagrar sua obra por meio da “não distinção entre os seres humanos e a natureza, tudo se comunica e se associa, as pessoas se movem livres com se feitas de ar, a única lei é a harmonia universal” (ARGAN, 1992, p. 234). O universo de Matisse será revisto por Picasso, e o movimento dos fauves sofrerá por intermédio de Les Demoiselles d’Ávignon; por essa criação despontará o Cubismo. Les Demoiselles d’ Avignon, realizada somente um ano após a obra de Matisse, demostra que a arte pode ser reelaborada em todos os seus sentidos, sendo um objeto vivo, emissor de ideias e conceitos que, através desses mesmos conceitos e ideias, pode sofrer variações de análises, como no Cubismo proposto por Picasso. Matisse delibera sua obra na natureza, nos moldes conceituais da Art Nouveau e da Belle Époque, enquanto Picasso acredita que “a arte é realidade e vida, a realidade e a vida não são coerentes”, conduzindo sua obra, assim, nos conceitos da Art Decó (ARGAN, 1992, p. 424). O antagonismo de ambas as formas reflete, por um lado, o desejo “de humanizar/naturalizar a máquina através de formas estilizadas” e, por outro, o de “adaptar o mundo e as pessoas à mecanização através da imposição de formas euclidianas” (CARDOSO, 2008, p. 126). Ao retratar essa ausência de coerência, Picasso lança a forma Cubista. A primeira década do século XX ressaltará, portanto, a contemplação desse estilo de pintura; logo após o primeiro decanato, a Art Déco, com suas formas retas, propõe essas mesmas linhas ao design. A moda, por sua vez, confabula com essas mesmas diretrizes, na produção de um modismo que acompanhava o comportamento sociocultural da época. Esse novo modismo pressupunha o corte de cabelo em formato geométrico (primeira imagem à direta, figura 10), que ficou conhecido como corte à la garçonne, ou “ à maneira dos meninos”. Esse corte pode ser percebido na designer francesa Coco Chanel (última imagem da figura 10), em cuja imagem reconhecemos o corte geométrico também na roupa, ressaltando sua funcionalidade. Chanel está sendo retratada, usando uma das suas criações, composta pela combinação de duas peças. Tal combinação não marca o corpo, não deixa os seios em evidência, tampouco o quadril. A ornamentação excessiva é reduzida aos colares de pérolas que compunham o visual com pequenos brincos desse mesmo material. As formas geométricas são referenciadas nas estampas, na camisa em listras que originam os retângulos na horizontal, e no tailleur 16 em quadrados apoiados em um de seus vértices. O sapato bicolor, sem exageros, resguarda a vestimenta, em seu design, que não abriga nenhuma forma de texturização do tecido por meio de bordados. Nota-se, nesse período, um predomínio de certa androginia na forma das roupas, que toma força com o uso de roupas masculinas pelas mulheres dessa década. Além de destituir as vestes das formas volumosas e arredondadas do corpo, as mulheres cobrem essas formas com um novo vestíbulo; a diferenciação do sexo oposto é evidenciada apenas pelo uso da maquiagem, que ressaltaria os traços femininos, igualando-as às feições de uma pequena boneca. Essa maquiagem era composta de ruge, batom, rímel e pó. As mulheres faziam questão de pintar a boca em feitio de coração, eliminando completamente as linhas naturais dos lábios. O rímel deixava os cílios como os de uma boneca, as faces recebiam o ruge com certo exagero, deixando tudo muito vermelho, e as sombras negras encarregavam-se de escurecer as pálpebras. Esse visual era mais usado nas festas do que no dia a dia. Precisamos lembrar que a criadora do cabelo curto e com franja jamais abusou da maquiagem. Muitas jovens eram proibidas pelos pais de usar maquiagem, pois a geração anterior vinha com os tabus de criação de acordo com os quais “moça de família” não podia usar pintura (VITA, 2008, p.117118). Essas menções podem ser observadas na figura 11; assim, destacaremos a masculinização dos trajes usados por Chanel e Batem, sendo Chanel a referência citada como criadora do cabelo curto e com franja, bem como do refinamento no ato de se maquiar (VITA, 2008). As curvas originais do corpo feminino somem, assim, através de cortes retos, de uma modelagem ampla e camadas de peças. 16 Conjunto feminino, composto por saia e casaco ou casaco e calça, também conhecido por costume. Apesar de o tailleur ter começado a ser usado em torno de 1880, o traje composto por saia e casaco foi celebrizado por Mlle. Gabrielle Chanel, a partir de 1955, quando a estilista simplificou o seu corte, transformando-o num dos uniformes da mulher moderna e sempre elegante. A partir do final do século XX e o início do século XXI, ele se tornaria ainda mais popular, sendo eleito o traje de preferencia da mulher executiva. Atualmente, é, sem dúvida, um clássico no guarda-roupa feminino (SABINO, 2007, p. 571). Figura 12: Exemplos de objetos da Art Déco com inspiração em formas retas. Nessas articulações, tentamos elaborar um paralelo sobre uma provável comparação entre moda e arte. Espelhamo-nos e orientamo-nos para um exercício de reflexão, no qual possamos fazer uma possível conjectura a respeito de o design e a moda serem influenciados pelos novos pensamentos artísticos ou, simplesmente, articularem-se. Ao mesmo tempo, como afirma Lipovetsky (2005), a possibilidade de se articularem sobre o luxo, que aponta para a mesma estética “relativa ao seu tempo”, haja visto o fato de tanto “a arte quanto o design e a moda exist[ir]em em razão da atividade humana; da interferência do conhecimento humano sobre a matéria que, somada ao universo do sensível e da estética, dá forma ao objeto” (MOURA, 2008, p.38). Moura (2008) concebe o design, a moda e a arte como a relação de transformação da matéria em algum objeto, cada qual utilizando suas próprias tecnologias para o seu ofício. Nesse final da década de 1920, porém, o design, a moda e a arte elaboraram uma mesma forma estética. Assim, a arte (representada pelo Cubismo), o design (Art Déco) e a moda (anos 1920) nos proporcionam uma ampla visão acerca das profundas mudanças de valores nos padrões socioculturais que determinavam as questões do gosto, do belo e do consumo. Não podemos deixar de ressaltar que o design e a moda implicam, nessa época, em uma simplificação de sua elaboração, tornando seu produto mais funcional e/ou prático. Essa simplificação do design remete-nos ao que seria desenvolvido na escola Bauhaus. 1.8 A Bauhaus e suas consequências no campo do design A Bauhaus foi fundada na Alemanha no ano de 1919, e permaneceu ativa por quinze anos, sendo fechada em 1933, ano que culmina com a chegada do partido nazista alemão ao poder. A Casa de Construção Estatal, Bauhaus, foi dirigida por Walter Gropius, Hannes Meyer e Mies van der Roche, e teve três momentos distintos implantados por eles. Na direção de Gropius, dominavam as ideias expressionistas e míticas; sob o olhar de Meyer, vigorava o tecnicismo e o racionalismo; finalmente, sob a orientação de van der Roche, o foco estava no ensino de arquitetura, que se tornaria quase totalitário. A famosa escola de design teve como prescrição máxima o Funcionalismo, que consistia no pensamento de que “a forma ideal de qualquer objeto deve ser determinada pela sua função, atendo-se sempre a um vocabulário formal rigorosamente delimitado por uma série de convenções estéticas bastantes rígidas” (CARDOSO, 2008, p. 135). Podemos pressupor, perante essa definição, que todos os bens manufaturados teriam de apresentar formas simplificadas e, por essa razão, a ornamentação estilística ficaria em segundo plano; o funcional e as formas simples derivadas de seu design teriam consonância com sua funcionalidade. Essa norma também simplificaria as etapas de produção, evitando possíveis erros de fabricação, pois quanto menos ornamentação, menor a possibilidade de se cometerem erros em sua feitura. Essa deliberação contraria, portanto, os princípios da Art Nouveau do começo de século XX, em que encontramos o rebuscamento de formas orgânicas, sendo estas arredondadas e com excesso de aplicações, identificadas, no campo da moda, com bordados, penas, flores, espartilhos ou nas diferentes formas de texturização do tecido. A década de 1920 surge e faz proliferar uma nova conduta para a sociedade, com novas tecnologias que, baseados em Bomfim (2002, p.10) nos levam à possível conclusão de que o design está ligado ao método de processo, a uma ideologia ou ao gosto de cada época, assim como, também, às ferramentas propostas para sua execução (quer seja no design, na moda ou mesmo na arte). Segundo essa reflexão, cada período proporcionaria um desenvolvimento diferente dos padrões estilísticos. 1.9 A assinatura de Coco Chanel Na moda, então, surge uma nova roupagem, localizada entre a classe ociosa, descrita por Veblen (1980), e o jogo das tendências reveladas por Simmel (2008). A diferenciação de quem está em uma alta casta segue o jogo das tendências e das aparências, e é mimetizada pela cultura e pelos gostos implantados nesse período, para os quais a redução da ideia de altivez, correlativa à dignificação das coisas humanas e terrestres, saiu do culto moderno da moda, que não é senão uma de suas manifestações. A apologia da felicidade, a busca do agradável, a aspiração a uma vida mais livre, mais radiosa, mais fácil acarretaram um processo de humanização do sublime, uma concepção menos majestosa, menos elevada do belo, assim como um enobrecimento das coisas úteis, dos “pequenos prazeres”, da fantasia decorativas, das belezas e refinamentos temporais: fanfreluches, bibelôs, “pequenos apartamentos”, decoração de interior, miniaturas, pequenos camarotes de teatro e etc... (LIPOVETSKY, 1989, p. 79-80). Lipovetsky (Ibidem) lembra-nos que a descoberta do prazer dos esportes e da vida no campo ou praia ocorreu no século XIX, tendo esse gosto por estar com a natureza se fixado no comportamento da sociedade somente no século XX. As grandes demonstrações de opulência da burguesia - representações do prazer por intermédio de objetos de luxo - foram modificadas, mas isso não que dizer que essa classe social não demonstrasse sua riqueza, a grandeza (grandes casas, grandes joias, grandes espaços a serem ocupados por vestidos e peças dos mobiliários volumosos) apenas foi substituída por esses pequenos prazeres descritos pelo autor. Entre os designers de moda que comungam com os novos pequenos prazeres da vida e aplicam-nos em seu design, podemos citar a figura imagética de Gabrille Chanel (18831971)17. Não seria por esse nome, contudo, que Mademoiselle Chanel ficaria registrada para sempre no universo da moda: ela começou a trabalhar cantando em cabarés e, por seu ofício de cantora, ganharia o apelido de Coco, “nome de um pequeno cachorrinho na letra de uma das músicas cantadas pela estilista, a chamada Qui a vu Coco dans le Trocadero?” (SABINO, 2007, p. 158, grifo nosso). Mas a cantora sai de cena, e o universo da moda ganha uns dos 17 Nascida em 19 ou 20 de agosto de 1883, em Saumur, na França. Essas duas datas devem-se ao fato de não encontrarmos a data precisa do nascimento de Gabrille Chanel. A autora (ROUX, 2007) aponta a data do dia 20 de agosto, e Seeling (1999), o dia 19 de agosto daquele mesmo ano. estilos mais emblemáticos da cultura moderna do século XX, que persiste até a nossa atualidade: a designer Coco Chanel. Chanel surge no contexto da moda, transformando-a, juntamente com Jean Patou18 (1880-1938), pela ausência de ornamentação da vestimenta. Chanel e Patou repudiaram o luxo vistoso, despojaram a mulher das fanfreluches e das nove horas: elas usarão, doravante, vestidos justos, curtos e simples, chapéu em forma de sino, calças e malhas de lã; Chanel poderá vestir as mulheres da alta sociedade com tailleur de jérsei, com pulôver cinza, preto ou bege. Patou criará suéteres com motivos geométricos e saias plissadas (LIPOVETSKY, 1989, p. 75). Chanel cria seu estilo em harmonia com seu tempo, ecoando em suas criações as linhas geométricas da Art Déco e a funcionalidade do design pragmático da Bauhaus. A exemplo de Picasso, lança um insight, um sair-de-si para olhar o mundo e processá-lo internamente, retornando esse olhar em um novo conceito a ser digerido pela sociedade. O processo é olhar o mundo e não imitá-lo, acrescentando-o em sua criação. Destacamos, assim, a década de 1920 e todas as referências advindas do trabalho dessa designer que, por meio de seu olhar processador, digeriu aqueles loucos anos, compreendeu-os, os fez amadurecer e serem aceitos em seu estilo modernista de vida e de criação. As peças e os materiais usados para as criações de Chanel “não têm sentido no universo da época, senão em oposição ao da moda feminina: o trabalho e o vestuário masculino. [...] foi graças a essa inversão que Chanel dotou-se de uma identidade distintiva e singular” (ROUX, 2005, p. 158–159). A autora expõe em seu trabalho uma lista de criações e materiais elaborados e utilizados pela designer. A blusa à marinheiro (1913); o Jérsei (1916); o cardigã e os conjuntos de tricô (1918); a calça (1920); o vestido preto (1924); o blazer com botões dourados (1926); a boina de marinheiro (1926); o tweed (1928); as joias de fantasia (1930); o tailleur de tweed com alamares e cinto dourado (1956); o escarpim bege com ponta e bolsa matelassê pespontada, com sua corrente dourada (1957) e o catogan (1958) (ROUX, 2005, p.157). Podemos afirmar que esses doze itens apresentam as inovações descritas por Roux (2005) sobre como Chanel inovou na criação e no uso de matéria-prima empregada para elaborá-los. Podemos chamar todas essas inovações de “novas tecnologias”, pois estão 18 Jean-Alexandre Patou nasceu em 1880, e foi considerado um dos maiores costureiros franceses, entre 1923 e 1932. [...] lançou o famoso perfume Joy, em 1930, e ficou conhecido por seu estilo prático e esportivo, valorizando uma cintura natural e desenhando uma silhueta sem excesso (SABINO, 2007, p. 364). situadas no século XX, somando, assim, um total de doze contribuições à moda, nove das quais estão inseridas na primeira metade do século XX: a blusa a marinheiro (1913), o Jérsei (1916), o cardigã e os conjuntos de tricô (1918), a calça (1920), o vestido preto (1924), o blazer com botões dourados (1926), a boina de marinheiro (1926), o tweed (1928) e as joias de fantasia (1930). Entre estas, três foram criadas na primeira metade daquele século - o tailleur de tweed com alamares e cinto dourado (1956), o scarpin bege com ponta e bolsa matelassê pespontada, com sua corrente dourada (1957) e o catogan (1958); as outras seis surgiriam na segunda metade do século XX, após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando Chanel retorna à cena. Suas criações dos anos 1920, com a simplificação dos vestuários femininos, democratizaram a moda para todos, tornando-a acessível para todas que quisessem usar suas criações confortáveis e sem ornamentações. Sobre essa simplicidade, “em 1931, a jornalista Janet Flanner escrev[er]ia a propósito de Chanel: Chanel lançou o ‘gênero pobre’, introduziu no Ritz o tricô do apache, tornou elegantes a gola e os punhos de camareira, utilizou o lenço de cabeça do operário de terraplenagem e vestiu as rainhas com macacão de mecânico”. Lipovetsky (1989, p. 74) aponta que a distinção entre classes, relacionada ao indumento, ficou difícil de ser vista e percebida somente em uma rápida observação. No século XIX, quanto mais adornos constituíssem o indumento, mais clara ficaria a posição da mulher na sociedade; já com a simplicidade do estilo Chanel, as classes abastadas tinham facilidade para copiar as classes ociosas. A moda sendo, desse modo, simplória em sua modelagem, transformaria a fabricação das peças, que também passariam a sê-lo; esses dois fatores foram primordiais para a democratização da moda na primeira metade do século XX. Entre as criações de Chanel, encontramos o vestido preto de 1924, sendo ele um dos símbolos de seu estilo; o futuro “pretinho básico” é comparado ao “Modelo T”, da Ford, em descrição da Vogue americana (edição de1926), segundo a qual o vestido preto de Chanel era declarado como “[...] o Ford assinado por Chanel”. Essa comparação deve-se à simplicidade de suas formas, à falta de complexidade em sua feitura e à cor com que ambos eram manufaturados. Figura 13: Modelo T, da Ford (1908), e o vestido preto de Chanel (1926). Para podermos comparar esses dois modelos de produção, criados para atender ao desejo de consumo de massa proporcionado pelo século XX, teremos de nos reportar à criação do Modelo T de Henry Ford como produto de consumo de massa, inserido no que Cardoso (2008, p. 110) descreve como “um fenômeno novo, qualitativo diferente de tudo que o antecedeu: o próprio termo só entrou em uso corrente na década de 1920”. 1.9.1 Ford – novo modelo de produção O sistema implantado por Henry Ford em a sua empresa, a Ford Motor Company, será conhecido mais tarde como modelo fordista, que “se refere não somente a um sistema de fabricação, mas também a todo um modelo de gerenciamento do trabalho, da indústria e, em última instância, do consumo e da própria sociedade” (Ibidem, p. 111). Ford efetua, com seu sistema, várias mudanças, não somente no processo na elaboração de meios de produção específicos, como também na relação com o trabalhador, proporcionando uma mudança que estabeleceria um novo pensar tange aos sistemas trabalhistas, de gerenciamentos e de mercadológicas. As alterações nos meios de produção minimizavam a mão de obra, evitando erros na linha de produção, procedimento já estudado por Smith em sua fábrica de alfinetes, como citamos anteriormente. Gerenciando sua empresa, Ford aumentou os salários e, através da melhoria da renda, os próprios funcionários constituíam-se como público de consumo: todos poderiam sonhar e desejar possuir um carro. Esse sistema impulsionaria a venda do Modelo T, injetaria mais recursos econômicos na sociedade, ofertando as bases do consumo de massa: uma linha de produção ágil, barateamento do produto por meio da simplicidade e praticidade, portanto, sem ornamentações de luxo. Como exemplo dessa simplicidade, em 1926, ele profetizaria a célebre frase: “o freguês podia escolher qualquer cor para o seu carro Ford, contanto que fosse preto” (BATCHELOR, 1994, p. 28-40 apud CARDOSO, 2008). Dessa forma, Ford revolucionaria os anos de 1920, proporcionando, à sociedade de consumo, a revolução do consumo de massa. O ditame que traduz toda a engenhosidade do fordismo - em definir uma única cor para modelar o seu produto - confere, com precisão, o mesmo ano da elaboração da criação do vestido preto de Chanel. O ano de 1926 torna-se, assim, um marca para a indústria e para a moda, quando Chanel apresenta o seu “Modelo T” – na mesma cor e com a mesma praticidade do carro – para o consumo das mulheres. 1.10 Design e Moda na primeira metade do século XX – tecendo amarrações As primeiras décadas do século XX conduziram-nos, assim, para um sistema de pinçamentos que melhor ampara as cogitações de nosso estudo, lembrando que, em nossa pesquisa, estamos ainda distantes da captura de todas as informações necessárias para articular um período tão fértil para a história do design e da moda. O movimento de pinçar alguns conceitos e eleger algumas informações sobre tais conceitos é apenas um dos possíveis recursos para se analisar, da melhor forma possível, a reflexão almejada acerca do design e da moda. Pinçamos, então, ideias dos campos do design, da moda e da arte para construir uma narrativa que nos direciona a uma possível conclusão de que todos os conceitos vigentes àquela época ressoam na moda e no estilo ditados por Coco Chanel. A (1) Art Déco, com sua ausência de ornamentação e alusões às formas mecânicas e geométricas da industrialização, a (2) Bauhaus, no elemento funcional de suas produções, a (3) obra de Picasso, com seu Cubismo de formas retas e, ao mesmo tempo, o Expressionismo, sendo este uma reflexão - de dentro para fora - sobre a sociedade e sobre o que esta requer como meio de comportamento, e, por fim, (4) o fordismo, cuja ideia principal facilitaria a execução e a fabricação dos produtos, refletindo-se, na moda, na redução da compressibilidade das roupas, tornando-as mais confortáveis e ampliando suas possibilidades de uso. Chanel, ao ver o mundo com seus olhos, propunha uma nova maneira de coabitação, na relação entre corpo e moda, silhueta e modelagem, entre a cor e a sua não existência: suas referências na composição de suas criações podem ser colhidas em um insight, não de forma aleatória, mas por meio de um olhar, de experiências de vida, do comportamento; por meio dessas referências, ela buscava recombinar os significados dos símbolos do luxo, e tornou-se uma criadora contemporânea em seu tempo. Ser contemporâneo, assim, é pertencer verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas exatamente por isso, exatamente é capaz, mais do que outros, de perceber e apreender o seu tempo (AGAMBEN, 2009, p. 58-59). Agamben (2009) reflete acerca do comportamento do ser contemporâneo em sua época. Para o autor, o ser contemporâneo é como um indivíduo que se relaciona com seu tempo, porém compreende-o de outra forma, olha por outros ângulos suas manifestações socioculturais, e por meio desse olhar é capaz de estabelecer novos conceitos ao seu tempo, modificando os já estabelecidos. Sob esse prisma, todos os movimentos aqui discutidos, portanto, foram contemporâneos em seu tempo, todos os criadores, artistas e designers de moda foram também contemporâneos em sua época, suas reflexões de gosto ou estilo mudaram ou acrescentaram novas formas e maneiras de contemplar a vida e de vivê-la. A contemporaneidade dos criadores dos anos de 1920, o borbulhar do frenesi da perlage foram, gradualmente, sendo colocados em repouso, com a iminência da Segunda Guerra Mundial, e seu sono perduraria os seis anos de duração da guerra, após a qual, a Europa estava devastada, e a França necessitava reafirmar sua supremacia do bom gosto. Para tanto, foi elaborada a exposição intitulada de Le Théatre de la Mode, “em março de 1945, em Paris, no Museu de Artes Decorativas, uma exposição organizada pela Câmara Sindical da Costura Parisiense” (GRUMBACH, 2009, p. 51). A exposição contava com “cento e oitenta bonecas, de oitenta centímetros de altura, sumariamente confeccionadas com arame, [que] apresentavam vestidos, chapéu, penteados, calças, luvas e bolsas em miniaturas. As 180 bonecas ou, melhor dizendo, personagens, estavam dispostas em catorze teatros” (Ibidem, p.51). As cento e oitenta bonecas conseguiram reafirmar Paris como o centro do luxo, e é justamente nesse cenário de retorno da criatividade que surgirá o designer Christian Dior e a criação do New Look. Por meio desse criador, “a alta costura, que durante a guerra estagnou, florescia novamente” (SEELING, 1999, p. 253). A moda, como geradora de tendências comportamentais, repousou os seis longos anos do sono da guerra e os sonhos de realização de novos conceitos. A construção de uma moda do século XX teve dois grandes momentos após o sono imposto pela guerra: a moda dos anos de 1950 e 1960. No primeiro decanato após guerra, retornaram as formas femininas e orgânicas, e “a silhueta elegante se trai por nostálgicas lembranças da Belle Époque” (BAUDOT, 2008, p. 143). Em uma rápida comparação entre o New Look de Christian Dior, lançado em 194719, e as imagens da forma da silhueta-ampulheta, podemos afirmar que essa mesma forma entraria em vigor novamente. Figura 14: Da direita para a esquerda - A silhueta-ampulheta é encontrada nos exemplos da Art Nouveau (1890), do New Look de Dior (1947) e em Poiret, no começo do século XX. A ostentação, por sua vez, não está estabelecida na elaboração da ornamentação sobre o tecido, mas na metragem destinada à confecção do que se pretendia produzir. A saia poderia gastar, em sua feitura, um total de 20 metros de tecido! O uso de chapéus maiores e a construção mais elaborada da parte superior da roupa, moldando a silhueta e demarcando seios e quadril, também demonstram essa ostentação. Por meio dessa concepção, a mulher volta a ser feminina e coloca, portanto, a forma geométrica, simples e sem ornamentação, do design de moda proposto por Chanel, em desuso. A moda, proferindo o modelo fordiano de produção de massa, é legitimada, em 1948, mas como uma produção específica de coleção de moda, produzida em série, e não 19 A descrição do New Look, de Dior, pode ser encontrada nas páginas iniciais de nossa pesquisa, quando elaboramos sua articulação com a Experiência nº 3, de Flávio de Carvalho, e a coleção de Pimenta. mais como a criação de peças únicas para cada cliente. As roupas “prontas para usar”- que, em inglês, receberam o nome de ready-to-wear - ganharam notoriedade na moda - em francês, o prêt-à-porter. A Alta-Costura, a partir da revolução proposta pelo prêt-à-porter, teve de se adaptar a esse novo estilo de propagação da moda. As roupas confeccionadas sob encomenda e sob medida deram, então, lugar a uma vasta numeração de grades de roupas (ou passaram a dividir espaço com ela), de modo que um maior número de indivíduos pudesse consumir o estilo que mais lhes agradasse. Assim, o prêt-à-porter democratizou a moda: [...] há essa democratização última dos gostos de moda trazidas pelos ideais individualistas, pela multiplicação das revistas femininas e pelo cinema, mas também pela vontade de viver no presente, estimulada pela nova cultura hedonista de massa. A elevação do nível de vida, a cultura do bem-estar e da felicidade imediata acarretaram a última etapa da legitimação e da democratização das paixões de moda. Os signos efêmeros e estéticos da moda deixaram de aparecer nas classes populares, como um fenômeno inacessível reservado aos outros; tornaram-se uma exigência de massa, um cenário de vida decorrente de uma sociedade que sacraliza a mudança, o prazer, as novidades. A era do prêt-à-porter coincide com a emergência de uma sociedade cada vez mais voltada para o presente, euforizada pelo Novo e pelo consumo (LIPOVETSKY, 1989, p. 115, grifos nossos). 1.11 Revoluções do pós-guerra Lipovetsky (1989) divide a moda em dois grandes momentos: a moda de cem anos e a moda aberta. A primeira relaciona-se à ditada pelos criadores de moda, enquanto a moda aberta deriva do prenúncio da democratização da moda como direito das classes abastadas. Desse direito, origina-se uma contracultura de moda, que tem, nas ruas, nas avenidas e em cada esquina, um novo estilo a ser descoberto; que utiliza as possibilidades de combinações desses estilos, como uma marca da individualização e, para tal, consome a roupa pronta, produzida em série, mas individualizada pelo gosto pessoal. “A lei vertical da imitação foi substituída por uma imitação horizontal, de acordo com uma sociedade de indivíduos reconhecidamente iguais” (Ibidem, p. 150). Dessa horizontalidade da moda - usada como produto de identificação de semelhantes, formadora de um grupo com a mesma ideologia e com a liberdade de escolhas ofertada pela grande quantidade de peças - origina-se a elaboração e o uso do look como meio de expressão coletiva ou individual. As décadas de 1960 e 1970 revolucionaram com a moda de contracultura, a chamada antimodas, constituída pelos jovens que nasceram após a Segunda Guerra Mundial, que não queriam ser orientados por nenhuma regra imposta pela sociedade. Em seguida aos movimentos de 1960 e 1970, em que predominaram a mistura e a liberdade de escolha, a moda aberta ganha força e concretiza-se nos anos de 1980, por intermédio do look: cada um poderia, agora, utilizar e elaborar o look que o mais lhe agradasse, originando, dessa forma, uma profusão de escolhas e de variedades de combinações. A era do look “nada mais é do que o terminal da dinâmica individualista consubstancial à moda, desde seus primeiros balbucios; ela não faz senão levar, ao seu extremo limite, o gosto da singularidade, da teatralidade, da diferença, que as épocas anteriores igualmente manifestaram, ainda que, evidentemente, de uma maneira diferente e em limites mais estreitos” (LIPOVETSKY, 1989, p. 128). No penúltimo decanato do século XX, portanto, ressurge a manifestação do gosto operante da singularidade do indumento, não em função da demarcação social econômica, como Simmel (2008) e Veblen (1980) citam em suas reflexões, mas pela teatralidade do look. Entendemos que, por seu intermédio, a sociedade do século XX capturou os sentidos estabelecidos de elevação social e de diferenciação, modificados pelas classes ociosas. A teatralidade do look está em demonstrar, pelo uso de combinações de peças, um estilo pessoal, que pode ser constituído de roupas caras ou não, valorizando, assim, a relação do corpo com a roupa e obtendo, como resultado dessa ação, uma maior expressividade do indivíduo. A valorização do estilo propagou-se até os tempos atuais, prevalecendo o culto aos estilos, entre outras demonstrações do cultismo individual ou de um determinado grupo, em que podemos citar os movimentos da customização e da moda vintage. O verbo “customizar” passa a ser, assim, utilizado no vocabulário da moda a partir do final dos anos 90, referindo-se à adaptação ou modificação de peças do vestuário segundo o gosto do cliente. [...]. O Customizar dos anos 90 e início do século XXI nada mais é do que um processo resgatado dos anos 70, quando, em plena era hippie, as pessoas modificavam suas roupas colocando nesgas de tecido contrastantes na parte laterais externas das calças e cobriam de broches, botões, bordados e enfeites suas jaquetas, chapéus, e casacos (SABINO, 2007, p. 211). O mesmo autor orienta-nos acerca da moda vintage; Sabino (Ibidem, p. 628) refere-se a ela como um ato de busca da exclusividade, surgido nos anos 1980: A palavra inglesa para designar o ano ou safra de vinhos e de outras bebidas foi incorporada ao vocabulário da moda nos anos 80, como referência a roupas de outras épocas. [...] Brechós e lojas de roupas passaram a ser procurados por clientes e comerciantes, que, em seu garimpo constante, buscavam peças que fossem sinônimo de exclusividade no mundo da moda globalizada do final do século XX. A relação de consumo ganha, assim, um novo sentido, quando percebemos que, ao consumir, ao se apoderar de alguma peça antiga de vestuário, a relação entre corpo e roupa vai de encontro à produção de massa e à planificação do gosto promovida pelas coleções de prêt-à-porter. Em um sentido mais amplo, poder-se-ia até afirmar que a quantidade de peças de roupas gerada pelas coleções de prêt-à-porter originou-se em uma bricolage conforme Lévi-Struss (1989) coleta suas escolhas, a partir das quais nascem composições de looks, advindas de vários conceitos estabelecidos por diversos designers. As mesmas composições podem sofrer um redesign(reelaborar/remodelar/reformar), de cunho ornamental ou de interferência em sua modelagem de origem, transformando-se, dessa forma, em uma peça exclusiva, procedente da vontade particular de uma pessoa ou grupo. A essa particularização da vontade do indivíduo ou de um determinado grupo, podemos chamar de estilo, e este está ligado à construção de identidade, já que apresenta o caráter do que é uno, do que permanece idêntico a si próprio; é o fato, para uma pessoa, de ser tal indivíduo e de poder ser assim reconhecido, sem nenhuma confusão, graças aos elementos [design de moda] que o singularizam. A identidade compreende, portanto, uma primeira dimensão de “mesmidade”. Essa dimensão supõe a unicidade, a permanência, a continuidade, que, como vimos, não se define senão na diferença (GREIMAS apud ROUX, 2005, p.140). Assim sendo, a identidade aqui está sendo posta como permanência de uma escolha, mas também na relação com outros, por isto podemos conferir ao estilo a forma singular (única) da relação corpo e roupa. Mas o estilo também pode ser atribuído a um grupo determinado, que aproveita a relação pretendida para estabelecer e demarcar a sua cultura, nessa cogitação propomos que a identidade aqui discutida é relacional. Para essa cogitação, retomemos os exemplos das primeiras “antimodas” que, a partir dos anos de 1960, ganham uma amplitude e uma significação novas. Como as vogas hippie, “baba”, punk, new-wave, rasta, ska, skinhead, a moda viu-se desestabilizada, os códigos foram multiplicados pela cultura anticonformista jovem (LIPOVETSKY, 1989, p. 126). O retorno ao passado surge, assim, como um resgate, para costurar a elaboração do estilo ímpar de um grupo, que pode ser reconhecido nas ruas ou até mesmo nas diferenças regionais de cada país ou entre países distintos. Por meio dessas demarcações de estilos vigentes - de foro cultural ou não -, é possível perceber o que o estilo de uma vestimenta pode fazer. Cardoso (2008) e Bomfim (2002) já nos orientavam na construção de um design fabricado em série ou não. Os processamentos das roupas produzidas em série, podem estabelecer outro significado perante o estilo de quem as possui ou de como elas serão manipuladas por meio da customização, originalizando-se, assim, em um processo de exclusividade e tornando-se uma peça única que envolverá o corpo. O jogo das aparências constitui-se, então, em um novo território: os códigos de padrão de respeitabilidade, descritos por Veblen (1980), mudaram e ganharam novas articulações acerca de “o que é ser” e de “como ser interpretado pelo que se veste”. Os padrões de design e de moda mudaram e, com eles, a sua relação com o mundo. A não ornamentação, a funcionalidade, a praticidade e o conforto são questões de luxo, conforme Lipovetsky (2005), e o novo sentido da vida é estar relacionado ao seu tempo - é viver seu tempo. Podemos usar como mote o movimento Expressionismo, e olhar o mundo pelo nosso olhar individual, originando nossas próprias fantasias, desejos e humores, por meio dos estilos pelos quais nos representamos cotidianamente. Na configuração das tendências do jogo de aparências descrito por Simmel (2008), o design de moda oferta o caminho de ser ou não ser, de estar ou não estar na moda, porém é ainda livre a escolha de não seguir a moda, mas sim um estilo, e de fazer desse estilo a sua “expressão” de identidade. O design e a moda na contemporaneidade refletem as ressonâncias dos elementos pinçados na narrativa, para a construção de algumas relações entre esses campos. Desde o século XVIII, a busca por alguns elementos que abordassem a coexistência entre os objetos propostos, formou um cronograma temporal, por meio do qual poderemos concluir que o design e a moda, no século XXI, inserem-se no contexto do que é contemporâneo, seguem as mesmas questões de gosto vigentes em uma determinada época; por implicação a esse gosto, surge um novo padrão estético, que configura, dessa forma, a rejeição das estéticas que foram substituídas – ou promovem uma releitura do passado -, mas sempre com uma roupagem atual. Podemos, então, por meio dessa provável articulação, afirmar que o design e a moda estão intrinsecamente ligados no que é relativo ao tempo em que se inserem. Portanto, as novas questões de desenvolvimento de design e de moda, referentes ao consumo de massa (em que um recente conceito de modismo estilístico pode ser, ou não, operante, no estilo de cada um de nós, mesmo no que tange às questões de gênero) não configuram mais barreiras à escolha, como explicitamos com a modelo Lea T. e suas escolhas de vida, de estilos e de comportamentos socioculturais. A escolha modifica os elementos de design de moda e os próprios formadores das roupas pertencentes a cada um de nós. Cabe-nos, desse modo, a liberdade em relação ao contexto em que vivemos e ao porquê de escolhermos viver nesse ou em outro lugar, de sermos nós ou sermos outros, em outros lugares: essa metamorfose pode ser promovida pela vestimenta. A vestimenta é a relação do “design, é a forma que surge entre o corpo e o contexto, já que a roupa é um elemento relativo, cuja proposta surge a partir de uma relação: porque veste, cobre, descobre e modifica o corpo em função de um contexto específico” (SALTZMAN, 2008, p. 305). Em uma abordagem ampla, o contexto específico, por meio do qual poderemos cogitar a relação do homem com o mundo, o modo como esse homem relaciona-se com o mundo, e como ele se apresenta ao universo, utilizando o design de moda como um dos veículos construtores de sua aparência. A aparência reflete as relações de estilo, de look, de combinações de peças, e é justamente nesse repertório que surge o ofício do styling, que utiliza os elementos do design de moda para compor novas formas de apresentações de look, advindas de coleções de designers diferentes. Essa é uma das possíveis maneiras de apresentar uma nova roupagem para velhos produtos, por meio da estilização do design. Somente com o processo de desenvolvimento do design, da moda e do design de moda, o profissional que faz o styling, conseguirá legitimar o seu trabalho, no século XX e XXI, para, com isso, ofertar um novo olhar ao processamento de “ideias” sobre moda. O Styling e o Design de Moda serão, portanto, os protagonistas do nosso próximo capítulo, no qual pretendemos aclarar algumas considerações de cada um desses ofícios. 2. O DESIGN DE MODA E O STYLING Moda não é algo que existe apenas nas roupas. A moda está no céu, na rua; a moda tem a ver com ideias, com a maneira como vivemos, com o que está acontecendo (CHANEL apud SEIVEWRIGHT, 2009, p.37). No capítulo anterior, fizemos alguns movimentos de pinçar referências sobre como o design propõe novos métodos de elaboração de bens manufaturados e como a tecnologia promove tais métodos. O designer, inserido no contexto da relação entre tecnologia e bens manufaturados, origina novos meios para a elaboração de tendências de consumo, nas quais o duelo de classes - descrito por Simmel (2008) - propõe seus territórios de modismos. O jogo das aparências apontado pelo autor é o campo em que o design de moda designa suas criações, para ofertar novos modismos e, por meio deles, impulsionar o consumo de indumento contemporâneo. A fabricação de roupas, na atualidade, traz em si uma série de metodologias projetuais desenvolvidas a partir do design de moda e, para sua compreensão, mencionaremos alguns dos elementos que o designer de moda utiliza, no intuito de elaborar e construir uma coleção de moda. O resultado do método/processo que será utilizado na produção ou na leitura de um editorial de moda, por meio do qual o stylist reconfigurará a unidade visual promovida pela peça - e/ou conjunto de peças - de uma coleção. Nosso estudo, portanto, pontua algumas das ferramentas de criação do designer e pretende aclarar o ofício de styling ao manobrar o design proposto pelo criador para efetuar novas combinações de peças. Trabalhamos, anteriormente, com a ideia de que o design de moda “é a forma que surge entre o corpo e o contexto, já que a roupa é um elemento relativo, cuja proposta surge a partir de uma relação: porque veste, cobre, descobre e modifica o corpo em função de um contexto específico” (SALTZMAN, 2008, p. 305). Na relação entre corpo e contexto, encontramos a roupa como elemento de coligação; o equilíbrio do conjunto comunica por meio da roupa, sendo esta o invólucro que repousa sobre o corpo, denotando e revelando sua modelagem, cor, silhueta, a textura do tecido, enfim, as possibilidades acerca de como foi gerado seu desenvolvimento. E é justamente com esse mesmo repertório que o stylist de moda elaborará suas combinações de peças, formadas pelos elementos do design de moda, para efetuar uma nova elaboração de peças. Ambos os profissionais utilizam-se da relação do corpo com o contexto, para expressarem sua criatividade, por meio da criação de vestimentas e/ou de uma nova leitura a partir delas, proporcionando-nos, assim, cotidianamente, o jogo das aparências de vestir, cobrir, descobrir e modificar a roupa, em função do contexto em que vivemos ou trabalhamos. O contexto a partir do qual serão apresentadas as combinações de peças representa, para os profissionais, a formação de um look, que, segundo o filósofo francês Lipovetsky (1989, p. 128), trata-se da “embriaguez dos artifícios, do espetáculo, da criação, corresponde a uma sociedade em que os valores culturais primordiais são o prazer e a liberdade individual”. Agregada a essa valorização da liberdade de expressão, proporcionada por meio da vestimenta, surge uma relação com a “organização na construção de uma determinada roupa, associada à postura corporal, à atitude, cabelo e etc.” (GARGIA; MIRANDA, 2005, p. 37). E é justamente essa organização de combinação de peças, atitudes, expressão individual, posturas, cabelo e maquiagem que consideramos um look. 2.1 O Design de Moda Você mora onde mora, faz o seu trabalho, você fala o que você fala, come o que você come, veste as roupas que veste, olha para as imagens que vê. Você vive como pode viver. Você é quem você é. "Identidade"... de uma pessoa, de uma coisa, de um lugar. "Identidade". Só a palavra já me dá calafrios. Ela lembra calma, conforto, satisfação. O que é identidade? Conhecer o seu lugar? Conhecer o seu valor? Saber quem você é? Como reconhecer a identidade? Criamos uma imagem de nós mesmos e estamos tentando nos parecer com essa imagem. É isso que chamamos de identidade? A reconciliação entre a imagem que criamos de nós mesmos e nós mesmos? Mas quem seria esse "nós mesmos"? [...] Wim Wenders O cineasta alemão Wim Wenders, em seu filme Identidade de nós mesmos20, aborda alguns pontos que consideramos relevantes ao projeto e ao estudo do processo de criação de um designer de moda. O longa-metragem aponta questões ligadas às novas tecnologias e também discute como utilizá-las (ou não). Wenders vive o dilema entre as 20 O longa-metragem foi uma solicitação do museu francês Georges Pompidou. Data de 1989 e tem duração de 81 minutos. câmeras analógica e digital, entre o velho e o novo e ressalta, ainda, a forma como a nova tecnologia rapidamente absorve os valores da cultura de época em que foi suscitada, comungando com eles. Vimos esse dilema, por exemplo, no movimento Neoclassicista, no qual as roupas até poderiam ser confeccionadas com os novos meios de produção, porém deveriam manter o estilo greco-romano. O designer Yohji Yamamoto21 (1943-), em busca de uma moda que agregue a valorização do corpo humano, apresenta ao público o seu processo de criação, suas dúvidas acerca de como realizar e de como pesquisar as fontes para a execução de seu trabalho, para uma moda globalizada; no sentido do global, ele cria e desenvolve sua pesquisa sem territórios preconcebidos. Yamamoto despontou no universo da moda nos anos 1980, com uma criação minimalista, sendo, assim, considerado um designer conceitual para os padrões da época. Seu processo de realização do design de moda parte da premissa de que “fazer uma roupa significa pensar nas pessoas” (YAMAMOTO, 2000, p.13). O designer afirma: Tenho sempre vontade de encontrar as pessoas e falar com elas. Isso me interessa mais do que tudo. O que fazem? Como vivem a vida? Em seguida, posso começar a trabalhar. Começo pelo tecido, pelo material, por tocá-lo. Depois, passo à forma. Para mim é o toque que conta primeiro. Em seguida, quando começo a trabalhar o material, eu me transporto em pensamento, para a forma que ele deve assumir (YAMAMOTO, 2000, p.13). Partindo, assim, da preocupação em oferecer ao consumidor um design que vá ao encontro de suas necessidades, escolhemos, entre as várias possibilidades para a realização de um recorte, o design de Yamamoto, pois seu processo de criação comunga com o objetivo do design, que oferta - ou deveria ofertar - uma qualidade de vida melhor ao usuário. Mas nem sempre foi aceitável o uso das palavras design e designer para nomear o profissional que desenvolve produtos de moda, conforme apontado por Christo (2008), acerca da ponderação entre as faculdades de moda na utilização da palavra estilismo ou design para a identificação de seus cursos22. 21 Nasceu em Tóquio, em 1943; estudou na Faculdade de Moda Bunka e começou a fazer as primeiras roupas em 1970, lançando sua marca Y’s em 1972. Cinco anos depois, apresentou a primeira coleção no Japão e, em 1981, apresentou-se em Paris [...]. Considerado minimalista e teorizando sobre a cor, a função e a relação da roupa com o corpo humano, sempre usou muito o preto, o branco e as formas desconstruídas, produzindo visuais que fazem lembrar andarilhos e outros povos que fazem da superposição de peças uma elegância e arte de vestir inesperadas. Para ele, tudo começa a partir do tecido, que, após encontrar seu principal ponto de apoio no corpo, pode ser cortado e transformado, gerando um tipo de indumentária que procura primeiro valorizar o indivíduo e colocar em evidência a sua personalidade (SABINO, 2007, p. 647). 22 Como opção metodológica, no presente estudo, quando referirmo-nos ao estilista, em nossas articulações, essa nomenclatura será mantida se o autor citado assim se referir de modo a dar continuidade ao seu pensamento; quando, por outro lado, referirmo-nos ao trabalho de desenvolvimento de um produto de moda, seja este uma produção em série ou não, empregaremos os termos design e designer. Podemos especular que o termo design de moda originou-se no termo costureiro que ganhou notoriedade com a revolução promovida por Worth, em 1857, quando assinou as suas criações, pois, antes desse fato, o costureiro não criava produtos de moda com o seu estilo e com a sazonalidade das estações. Contudo sempre houve distinção dos artigos de luxo sobre os demais produtos manufaturados; o luxo, na moda, é representado pela Alta-Costura, enquanto os demais produtos são expressos pela confecção, como podemos observar nas sweatshops inglesas, do século XVIII, e, atualmente, no fast fashion23. O que diferencia a Alta-Costura das confecções é que “uma procura enfatizar o luxo e o savoir-faire que se exige dela, exaltando a criatividade, ao passo que a outra se padroniza, a fim de tornar-se mais competitiva” (GRUMBACH, 2009, p. 33). Essa é a primeira diferenciação dos extremos em que o designer de moda pode empregar em seu ofício; além disso, por intermédio da Câmara Sindical da Costura, foi estipulado, em 1930, um calendário das apresentações das coleções que relatava as normas, as quais consistiam em determinar as diferenciações relevantes da Alta-Costura sobre as demais formas de elaboração de roupas. Essa nova conduta descrevia que os quatrocentos modelos que habitualmente constituem uma coleção são reduzidos a uma centena. Somente as casas listadas no calendário podem se gabar de pertencer à “alta-costura”. Aquelas que não “desfilam”, mas recebem, além de sua cliente privada, compradores profissionais, integram a chamada “média-costura”. [...] quanto à “pequena-costura”, compõe-se exclusivamente de costureiras tradicionais, ditas de bairro, que vestem suas clientes sob medida (GRUMBACH, 2009, p. 34). Vestir sob medida, contudo, não correspondia à democratização da moda aberta, descrita por Lipovetsky (1989). Com o surgimento do prêt-à-porter e sua expansão, durante os anos 1950, desponta outro tipo de profissional que comungará dos afazeres de elaboração de roupas. Estamos nos referindo ao trabalho do estilista, atividade recente, originada no ano de 1952. A priori, o ofício era destinado, segundo Grumbach (2009 p. 203), a alguém com a função de examinar “todas as coleções de confecção e de alta-costura, a fim de extrair o que se tornará, graças às suas escolhas, o estilo” vigente. O primeiro a exercer esse papel na sociedade moderna foi a princesa Ghislaine de Polignac, mas a palavra estilista “só aparecerá por volta de 1960” (GRUMBACH, 2009 p. 203). 23 As empresas fast-fashion foram consideradas empresas capazes de utilizar o design, promotoras de consumo “fast” semelhante ao que acontece na alimentação com as cadeias de fast-food. A velocidade de resposta ao mercado é considerada a verdadeira alavanca competitiva; os custos baixos dos seus produtos são obtidos principalmente pela exploração de seus fornecedores, aos quais impõem preços e condições de entrega que levam, inevitavelmente, à exploração de mão de obra (CIETTA, 2010, p.19). Podemos perceber, assim, que o profissional que atuava como estilista, naquela época, estava muito mais relacionado ao estilo, do que ao desenvolvimento propriamente de cunho de design. Por essa razão, os profissionais que começaram a executar essa ocupação, consolidaram-se como consultores de estilo, e, em 1957, nasceria Relations Textiles, “[...] o primeiro escritório de consultoria e estilo independente na Europa” (GRUMBACH, 2009 p. 205). Na lacuna proporcionada pelo mercado de roupas prontas para usar, o estilista encontra definitivamente o seu setor, no qual poderá ofertar o seu talento para atender à nova demanda do consumo rápido, porém capaz de liquidificar as referências da moda de luxo e da cultura popular. Esse foi personificado pelo estilista, ou designer, o qual se preocupa essencialmente com que o desenho do produto final, roupa ou complemento, esteja de acordo com as projeções do consumidor, racionalmente delimitado por pesquisas de marketing (GARCIA; MIRANDA, 2010, p. 41-42). As autoras estipulam onde e como o estilista efetua e legitima o seu processo de criação, porém, como mencionado anteriormente, utilizaremos, preferencialmente, as palavras design e designer para designar a pessoa que exerce a profissão de criar roupas, empregando o design como ferramenta para tal criação. O estilista, por sua vez, pode ser correlacionado com a estilização, que “consiste em dar a qualquer objeto um tratamento superficial de reformulação estética – ou seja, de reduzir a uma questão de projetar novas embalagens para velhos produtos” (CARDOSO, 2008, p. 146). Conforme o conceito de Cardoso, o estilista está ligado ao ato de trabalhar em novas formas de produtos já concebidos. Ponderaremos acerca desse conceito, pois toda a construção do pensamento sobre design - apresentado nos pinçamentos reminiscentes sobre o estudo do design e da moda - conduziu-nos a essa cogitação. É preciso ressaltar, contudo, que no processo de estilização também temos outro tipo de design, para o qual toda transformação tende a ter uma metodologia; mas, no presente estudo sobre design de moda, entendemos que esta é a melhor forma de se esclarecer a nossa reflexão. Com o falecimento dos designers criadores das marcas que levam o seu nome (como, por exemplo, Christian Dior, marca Christian Dior e Yves Saint Laurent, marca Yves Saint Laurent), passa a existir, no mercado; o diretor de criação, que “possui uma experiência profunda de seu métier e dos métiers correlatados. [...] acima da ideia de criar sua própria marca, o que ele prefere é a proposta de encarnar uma marca célebre com a qual tenha afinidade” (GRUMBACH, 2009, p. 360). O diretor de criação trabalha em equipe, mas controla absolutamente tudo o que se refere à marca para a qual trabalha. A imagem da marca, o estilo das roupas, a decoração das lojas, as publicidades, as outras linhas de produtos, o comportamento dos vendedores, as embalagens, a criação de perfumes, os desfiles, enfim, tudo passa obrigatoriamente pelo crivo deste novo profissional do setor (SABINO, 2007, p. 226). Em uma pequena reflexão sobre a historicidade do profissional que cria e desenvolve produtos de moda, refletimos acerca de como ele galgou sua trajetória e o modo através do qual ele cria e desenvolve os seus produtos. Percebemos, assim, por meio de todas as nomenclaturas, as mudanças e o amadurecimento do design, e dos processos de que o profissional do design de moda lança mão para processar a sua criação. Porém, provavelmente, as nomenclaturas que codificam a profissão / o profissional que exerce sua criatividade em confeccionar roupas, de algum modo, em pesquisar os elementos do design de moda, quer seja utilizando todas as possibilidades dos itens formadores dos elementos, quer seja buscando-os em menor número, como na diferenciação entre Alta-Costura e confecção, por exemplo. A fabricação de roupas, que padronizam e empregam matérias de baixo custo para a reprodução de suas peças de moda, não utiliza algumas das ferramentas voltadas ao desenvolvimento de um design de moda - como tendência e desenvolvimento da modelagem, - pelo fato de que tais ferramentas já são inerentes ao produto a ser copiado. 2.2 O processo criativo Nesta breve contextualização da trajetória do designer, observamos como diferentes nomenclaturas foram dadas ao profissional que desenvolve e planeja a vestimenta: esse planejamento somente é plausível por meio da metodologia de criação do design de moda, que consiste em coletar informações sobre os elementos do design de moda. Acerca desse processo, afirmam Merlo e Navalon (2010) que realizar pesquisas, organizar referências, eleger cores, tecidos, desenhar croquis, planejar a coordenação entre as peças, pertencem ao universo dos processos criativos em design de moda. A construção deste se dá por meio da elaboração de fichas técnicas, estudos de modelagem, confecção de peças-piloto e definição final de tecido, e aviamento, que, por sua vez, orientam a produção [...] (MERLO; NAVALON, 2010, p. 02). A produção de um produto de moda tem suas bases nos elementos do design de moda, que se constituem como “essenciais para o desenvolvimento de suas ideias em formas e detalhes de roupa, determinando qualidades de tecido, uso de cor e estampa e, por fim, o direcionamento que a coleção vai adotar” (SEIVEWRIGHT, 2009, p.122). A silhueta, proporções e linhas, função, detalhes, cor, tecido, estampas e ornamentação, referências históricas, tendências contemporâneas e mercado, segmentação e gêneros na moda formam o conjunto de elementos de que o designer de moda usufrui para compor, elaborar, criar, desenvolver, planejar e misturar elementos que originarão as peças de uma coleção de moda. Para a realização de nosso estudo, elegemos, entre os dez elementos descritos aqui - a silhueta, a proporção e linha, a função, os detalhes, a cor, o tecido, as estampas e ornamentação, as referências históricas, as tendências contemporâneas e mercado - oito ferramentas, que consideramos mais representativas entre os segmentos e gêneros na moda, e pelas quais, nos guiaremos, para efetuar a pesquisa. O motivo desse recorte relaciona-se ao fato de acreditarmos na representação desses oitos elementos como base para a criação e o desenvolvimento do design de moda, pois neles podem ser inseridos os outros itens relacionados neste estudo. Empregaremos, assim, os seguintes elementos de design para edificar a criação de um design no campo da moda: (1) o tema (no qual podem ser incluídos o seguimento e os gêneros de moda); (2) a pesquisa (que englobará referências históricas); (3) a tendência (que comunga com as tendências contemporâneas e o mercado); (4) a cor; (5) o tecido; (6) o design de superfície têxtil (encampa as estampas e ornamentações, bem como os detalhes); (7) a modelagem (poderá articular-se com a função) e (8) a silhueta. Todos esses oitos elementos serão citados e terão suas funções relatadas no processo de manipulação, para o desenvolvimento de uma coleção de moda. 2.2.1Tema O tema tem como premissa ser inserido na sazonalidade proposta por Worth, ou seja, para qual estação está sendo produzida a coleção de moda. Deriva-se dessa estipulação a escolha de materiais a serem pesquisados para a formação dos elementos de design de moda e, por consequência, originam-se as coleções de primavera/verão e de outono/inverno dos calendários oficiais, das semanas de moda nacional e internacional. Tendo previamente estabelecido esse critério, podemos esmiuçar o tema da coleção, que será o alicerce para a construção das demais referências. O tema pode ser dividido em duas vertentes, sendo elas definidas como a conceitual e a narrativa, segundo Seivewright (2009); cabendo ao designer escolher ambas as fontes - ou não - em seu processo. No tema conceitual “é possível explorar várias fontes visuais não relacionadas, uma vez que elas podem ser combinadas ou qualidade de justaposição”, já o tema narrativo “significa um relato escrito sobre algo, como uma história ou conto” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 38). 2.2.2 Pesquisa Após escolhido o tema da coleção de moda, o designer propõe-se à realização da pesquisa, que é “o registro de informações para usar agora ou no futuro” e “caracteriza-se pela investigação e aprendizagem de algo novo ou do passado, podendo ser comparada, muitas vezes, ao começo de uma jornada exploratória. A pesquisa envolve leitura, visitação ou observação, mas, sobretudo, envolve registro de informação” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 14). A nova jornada deve capturar e registrar as informações coletadas e, na maioria das vezes, as fontes são divididas em dois grupos: primárias e a secundárias. A pesquisa de fonte primária consiste em “registros que você realizou a partir da fonte original. Em outras palavras, são os objetos que você desenhou diretamente de, por exemplo, referências anatômicas de um museu de história natural”; a secundária, por sua vez, “são os dados já existentes, que podem ser encontrados em livros, internet, jornais e revistas” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 41). Alguns dispositivos para compilar toda a coleta de dados referem-se aos painéis e às pranchas de inspiração; tal método é utilizado como referência de ideias para o desenvolvimento da coleção. O painel de inspiração é, na maioria das vezes, o registro empregado por uma equipe de estilo como forma comunitária de conhecer e compartilhar as mesmas referências. Já a prancha de inspiração é o oposto do painel: ela é um meio pelo qual o designer agrupa as informações de pesquisa de forma individual, podendo ser usada por uma pessoa da equipe de estilo para demonstração de suas ideias ao grupo. Outra forma de armazenamento e agrupamento das pesquisas realizadas por uma pessoa é o uso de cadernos em que cada página poderá expor as fontes de inspiração e torna-lás referência de criação. Figura 15: Da direita para esquerda, exemplos de prancha, caderno e painel de inspiração/referência. 2.2.3 Tendência A moda e as tendências mudam semestralmente, elas são um dos pré-requisitos com que o designer terá de lidar em seu cotidiano de trabalho. As mudanças são pautadas em relação aos modismos, como também aos fatores socioculturais, políticos e econômicos. Segundo Caldas (2006), o termo tendência deriva do latim tendentia, particípio presente e nome plural substantivo do verbo tendere, cujos significados são “tender para”, “inclinar-se para” ou “atraído por”,[...] sendo [que] o conceito de tendência que [se] generalizou na sociedade contemporânea foi construído com base nas ideias de movimento, mudança, representação do futuro, evolução e sobre critérios quantitativos (CALDAS, 2006, p. 22-23). O autor discute que as tendências podem ser divididas em duas categorias: a primeira, “tendências de fundo, que são aquelas que influenciam o social por longos períodos de tempo”, e a outra, as de “ciclo curto, identificam-se como os fenômenos passageiros de moda” (CALDAS, 2006, p.109). O ciclo da moda constitui-se em movimentos periódicos, conforme Jones (2005) indica em sua obra. Por essa periodicidade, são geradas as tendências e, em decorrência disso, os consumidores poderão propor mudanças na formação e na composição do look. Ao lançar uma tendência, o designer (ou a marca) oferta novos paradigmas de mudanças; essas mudanças, de certa forma, podem resultar em novos modismos (tendências de ciclo curto), articular novas formas de cultura ou lançar uma determinada cultura para o conhecimento do público (tendências de fundo). Podemos relatar, entre os vários exemplos mencionados no capítulo anterior, o da contracultura de moda, a chamada antimoda dos anos de 1960 e 1970, e a moda da designer Chanel. As tendências criadas realizaram mudanças comportamentais, uma advinda da coletividade social e a outra do processo de criação de uma designer de moda, que transformou em modismo as suas criações nos anos 1920. A reflexão a que nos propomos aqui se refere aos lançamentos de novos modismos, sendo eles agentes transformadores da cultura, confeccionando as mudanças do indumento humano; por seu intermédio pode-se, assim, registrar, constatar e observar as manifestações do design de moda por meio da vestimenta. O designer precisa estar atento aos movimentos culturais de seu tempo, saber relacioná-los com a sua criação, dispondo do conhecimento dos conceitos socioculturais de sua época, como discutido no capítulo anterior. A essa contemporaneidade a que está sujeito o designer, Caldas (2006) chama de zeitgeist ou “espírito do tempo”. O zeitgeist consiste em buscar “definir algo que está ‘no ar’, mas ainda não se apreendeu, ou não se pôde apreender totalmente, devido, justamente, à sua imaterialidade, ou porque esse ‘algo’ encontra-se em formação” (CALDAS, 2006, p. 71). Em busca de capturar novas concepções do imaterial, o designer segue sua pesquisa, para criar o design que conjugue com os anseios de seu tempo; ele dedica-se a reunir os elementos para a feitura desse design, compondo-os com o seu próprio repertório, individualizando, dessa forma, o olhar sobre a moda. De certa forma, o espírito do tempo encontra-se em harmonia com o insight, descrito por Ostrower (2007), e o ser contemporâneo, exposto por Agambem (2009). Ambos os autores atribuem essas articulações a uma maneira de capturar a inspiração (imaterial) e processá-la conforme suas percepções de cultura e de sociedade. Um dos meios pelos quais o processamento da inspiração (imaterial) pode ser condessado é através do Expressionismo, explicitado pelo historiador Argan (1992). O processo de expressão coloca o indivíduo em uma posição de observar das tendências comportamentais e ao fazer leituras dos movimentos, para tomá-los como referências em sua criação; tais leituras sofrem um processamento de cunho individual, podendo surgir, assim, um design novo ou uma reelaboração de conceitos preexistentes. 2.2.4 Cor Articulamos como a tendência pode surgir e originar modismos que expressam a cultura e o comportamento, e um dos elementos que podem consolidar algo como sendo um modismo é a cor. Em toda forma, há uma cor, e cada cor simboliza ou transmite uma leitura. Assim, podemos relacionar [o] branco à pureza, inocência e status; o preto à melancolia, culpa e sofisticação; o cinza à discrição e mistério; o vermelho [a]o amor e [à] raiva; o amarelo à juventude, esperança e ânimo; o azul à harmonia, franqueza e fé; o verde à mata; o púrpura à realeza e vulgaridade; o marrom à estabilidade, economia e fraternidade (LURIE, 1997, p.197-216). Além dessas possíveis leituras, há ainda muitas outras, referentes aos significados que podem ser atribuídos a cada cor, podendo-se exaltar, assim, na realização do design, a transmissão de uma determinada sensação. Caberá, portanto, ao designer, eleger qual cor potencializará o seu projeto. Para essa definição, ele poderá contar com duas outras formas de estudo sobre a manipulação das cores. A primeira, distingue as cores em cinco categorias determinadas pela sua composição. O conjunto das cores consiste em cores primárias: o vermelho, o amarelo e o azul não podem ser obtidos pela mistura de outras cores. Cores secundárias: o laranja, o verde e o violeta são criados misturando duas das cores primárias. Cores terciárias: vermelhoalaranjado, azul-amarelado, azul-esverdeado, roxo-azulado e vermelhoarroxeado. Cores complementares: pares de cores que aparecem em lados opostos no círculo cromático, por exemplo, vermelho e verde, azul e laranja e amarelo e violeta. Cores análogas: aquelas com um matiz em comum, que são dispostas lado a lado no círculo cromático. Por exemplo, azul arroxeado, roxo e vermelho arroxeado (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 128). A segunda forma de apreendermos a cor é valermo-nos da terminologia empregada na indústria de tingimento. Nesse campo, a paleta de cor é dividida em vinte termos, e, entre os revelados, encontra-se o termo de cores complementares e de cores análogas, que relatamos por intermédio de Seivewright (2009). Os dezoito itens apontam para as seguintes leituras: intensa: a cor forte, escura; concentrada: cor viva, saturada; pastel: cor diluída com branco; cor quente: associada com fogo, luz solar, paixão (vermelho, laranja, amarelo, roxo etc.); cor fria: associada com céu, mar, gelo, paz (azuis, violetas, tons diluídos com o branco etc.); neutras: cores baseadas nos tons terciários (bege, cinza, marrom, cáqui, verde-oliva etc.); opacas/foscas: cores que têm seu brilho suavizado pela adição de preto, branco, cinza ou de uma complementar (por exemplo, amarelo com um toque de violeta vira dourado escuro); monocromáticas: a gama ou escala de tons do preto ao branco usado[s] [como] uma só cor; cor de base: a matriz, nuança ou tom de fundo dominante; acentuada: cor usada em pequena proporção, mas que causa forte atração visual; harmonia: quando duas ou mais cores parecem equilibradas e agradáveis lado a lado; contrastantes: cores que realçam fortemente suas diferenças quando aproximadas [...]; cores aditivadas: misturas de cores com o uso da luz ou de absorção da luz; cores subtrativas: misturas de cores com o uso de pigmentos e corantes; mistura óptica: cores iridescentes que aparecem quando duas cores diferentes são tricotadas ou tecidas juntas, normalmente como urdume e trama, de tal modo que, visto de diferentes ângulos o tecido aparenta mudar de cor [...]; fugazes: cores que desbotam [...]; contraste simultâneo: efeito que ocorre quando a intensidade de uma cor parece mudar em razão do brilho da cor de fundo ou conjunto de cores [...] (JONES, 2005, p. 116). Em relação às referências proferidas sobre as cores citadas, a “nomenclatura mais elementar distingue apenas entre obscuridade e claridade, e todas as cores são classificadas segundo esta simples dicotomia [...] (preto e branco)” (ARNHEIM, 2006, p. 322). O preto e o branco são opostos nas sensações que emitem, e, em sua constituição, um é representado pela ausência de cor e o outro pela junção de todas as cores. A obscuridade e a claridade influenciam a cor ou a cartela de cores, perante a qual está sendo pesquisada a coleção de moda. “As cores mais claras geralmente são utilizadas na primavera/verão e tons escuros, no outono/inverno” (SORGER; EDALE, 2009, p. 44). 2.2.5 Tecido A sazonalidade da moda também determina qual tecido será usado perante a diferenciação climática das estações. Segundo Sorger e Edale (2009, p. 44), “os tecidos mais leves tendem a ser utilizados com maior frequência em coleções primavera/verão, e os mais pesados, apropriados para peças usadas por cima, são mais utilizados no outono/inverno”. O tecido é o material, o viés pelo qual o designer de moda pode repousar todas as informações das pesquisas realizadas e nos deleitar com a sua criatividade. A escolha do tecido “não é só uma questão de gosto, visual, mas também de peso e caimento, preço, disponibilidade, desempenho, qualidade e época” (JONES, 2005, p. 122). As qualidades de peso, caimento e desempenho são obtidas através da fabricação do tecido e do modo como foi realizado o entrelaçamento do urdume e da trama. Esse processo é obtido por meio das fibras e originam o fio a ser tramado. A fibra é a matéria prima que dá origem aos tecidos e possui três categorias principais: a fibra animal (pelos), a vegetal (fibra de celulose) e a mineral (fibras sintéticas). Vejamos: a fibra animal é “formada por proteína, é um componente essencial de todas as células vivas, e a “queratina” é o principal constituinte do pelo, além de ser a proteína mais utilizada na produção de fibras têxtil”. A fibra de celulose, por sua vez, “tem propriedades respiráveis e absorve bem a umidade, o que a torna um bom tecido para climas muito quentes ou para o verão”. A fibra sintética “compreende fibras como látex, poliamida e poliéster. Essas fibras conferem aos tecidos durabilidade, elasticidade e resistência à água, sendo muito utilizadas em roupas esportivas” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 110-111). Dos entrelaçamentos dos fios, resultam duas qualidades de tecidos: os tecidos planos, que não contêm elasticidade, e os tecidos não-planos, que não oferecem tensão; ambos podem ser fabricados pelos três tipos de fibras. É na superfície do tecido que poderá ser aplicado o design de superfície têxtil, e cada peça poderá receber diversos tipos de textura e diferentes aspectos. 2.2.6 Design de superfície O design de superfície têxtil é composto, em sua grande maioria, de três dispositivos principais, para a texturização do tecido. As técnicas podem ser originadas pelo tingimento, pela ornamentação e/ou bordado e pela estamparia. A prática do tingimento ou revestimento especializado [...] cria um aspecto, ou manuseio, único e desejável. Um corante é uma substância colorida que funciona como tinta. Como é absorvida nas fibras de um tecido, não desbota com facilidade como a cor aplicada à superfície, como o pigmento ou a pintura. A cor pode ser aplicada com corantes sintéticos ou naturais em qualquer estágio da produção de uma roupa, desde a fibra, o fio e o tecido até a roupa pronta (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 56). O bordado/ornamentação pode ser aplicado somente na peça em fase final de produção e “confere uma aparência mais tridimensional e decorativa ao tecido. Lantejoulas, espelhinhos (shisha), miçangas, conchas, pedras e penas podem ser usadas para adicionar cor, padronagens e textura de superfície a um tecido ou peça de roupa” (UDALE, 2009, p.108). Udale revela-nos, ainda, que as estampas podem ser somente aplicadas por meio de técnicas, tais como: impressão, serigrafia, xilografia, cilíndrica, mono, manual ou digital. A textura pode ser obtida por um desses meios, e o procedimento de alteração da superfície será realizado após a estamparia. O procedimento é o ato de cobrir alguma parte ou a totalidade da estampa (desenho), podendo ser utilizada uma vasta gama de materiais para concebê-lo, entre os quais a inserção da flocagem e de purpurina. 2.2.7 Modelagem Todos os elementos de design de moda citados até aqui serão empregados em uma peça a ser confeccionada24, antes de se fazer a modelagem, sendo esta constituída pela feitura de uma base e/ou molde em papel. Essa base será a matriz do processo de produção em série. Para que o designer tenha a certeza de que o caimento e o volume estão de acordo com a sua criação, habitualmente é desenvolvida uma peça piloto, geralmente confeccionada em tecido cru (fibras naturais), sendo o método conhecido por toile. Somente após a validação do designer ou da equipe de estilo é que o processo de confecção em série será realizado. A modelagem é tão importante para o sucesso de uma coleção de moda, que o designer britânico e ex-estilista da casa Dior, John Galliano25 (1960-), em entrevista concedida ao cronista de moda e escritor Colin McDowell, manifesta-se a respeito da modelagem e a compara mais a uma “engenharia do que [a] qualquer outra coisa. [O ato de modelar] É descobrir os limites do que você pode fazer ao envolver o corpo com tecidos. Tudo evolui. Nada é rigidamente definido” (GALLIANO, 2009, p.107). 24 Estamos tratando os elementos de moda neste capítulo de forma mais esquemática, porém esses elementos serão aplicados à análise do estudo de caso no capítulo 3, no intuito de evidenciar ainda mais nosso objeto de estudo. 25 Graduou-se em 1984 pela Saint Martin’s School of Art e sua primeira etiqueta levou o nome Lucid Game. No final dos anos 80, já se apresentava em Paris e, em 1991, instalou-se definitivamente na capital francesa. Com talento reconhecido, mas sem grande sucesso comercial, o estilista apresentou interessantes coleções como a Fuga da Princesa Lucrécia (primavera/verão 94) e Kiki de Montpamasse (outono/inverno 94). Em junho de 1995, foi contratado por Bernard Amaut do grupo LVMH e tornou-se o responsável pelas coleções prêt-à-porter e alta costura da Givenchy. Em janeiro de 1997, foi transferido para a Dior (BABINO, 2007, p. 378). Essa engenharia descrita por Galliano pode ser conduzida por meio de dois procedimentos distintos: a modelagem plana e a moulage. A modelagem plana é construída na bidimensionalidade, em um procedimento realizado sobre o papel: somente após esse processo a peça ganhará, por meio da junção das partes modeladas, a forma propriamente dita. Trata-se, assim, de “um conjunto de medidas padronizadas. Também podem ser projetadas no computador, com o uso de softwares programas para imprimir no plotter conforme as medidas especificadas” (JONES, 2005, p. 143). A outra modalidade da construção de uma modelagem é a denominada moulage. A modelagem decorrente dessa técnica é oposta à da modelagem plana. A técnica de moulage (em francês) ou draping (em inglês) é uma técnica de modelagem tridimensional, executada por meio da manipulação do Figura 16: Estudo e roupa confeccionada com a técnica de moulage. tecido sobre um manequim, sendo utilizada para a criação de modelos com a forma tridimensional, posteriormente passados para o plano bidimensional; isso ocorre somente “quando a forma e o tamanho estão corretos, o tecido é removido e copiado em um molde de papel” (JONES, 2005, p. 149). A moulage é também utilizada quando a peça for cortada em viés26; na Alta-Costura, podemos ressaltar seu uso para a realização de peças exclusivas. Outra técnica, esta mais de âmbito masculino, que tangencia a moulage é a alfaiataria, comumente usada em roupas “para sair”, masculinas ou femininas. É um método de combinar e modelar tecidos para criar a forma desejada no corpo, uma combinação de técnicas de colocar enchimentos, pesponto e passar. Tecidos 26 Madeleine Vionnet* foi a primeira estilista a introduzir com sucesso o corte em viés para a roupa. As mulheres trocaram seus espartilhos por vestidos cortados em viés, que se modelavam ao redor do corpo e destacavam suas formas naturais. O corte de peça enviesada é feito em ângulo de 45 graus em relação ao urdume do tecido (FISCHER, 2010, p. 56). * Madeleine Vionnet (1876-1975) nascida em Aubervilliers, França. Em 1912, abriu sua própria maison. Mestra do corte viés e do drapeado, Madame Vionnet criava seus modelos num boneco de madeira articulado com cerca de 80 centímetros. Depois de prontos, eram encaminhados às suas modelistas, que reproduziam a criação em seus próprios bonecos, tirando inicialmente um molde em escala menor que, depois de aprovado, era aumentado e encaminhado ao corte (SABINO, 2007, p.418). com forros resistentes são usados, para dar firmeza e contorno. Há mais trabalho manual e maior atenção aos detalhes, o que torna as roupas de alfaiataria mais caras (Ibidem, p. 160). Pelas descrições de seus processos, podemos articular que as técnicas da alfaiataria e da moulage requerem uma atenção às proporções do corpo do indivíduo, para que seja fabricado o indumento. Os ajustes ao corpo da modelagem fazem de cada roupa produzida, uma peça exclusiva. 2.2.8 Silhueta As técnicas para a execução da modelagem nos proporcionam a silhueta da peça e, em decorrência, a silhueta da coleção de moda que o designer de moda propõe a cada estação do ano. A silhueta “significa o contorno ou forma que é delineada em volta do corpo por uma peça de vestuário” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 123). 2.3 Linguagem de moda Todos os itens relacionados anteriormente constituem elementos do design de moda, cada qual com sua importância, para a concretização de uma coleção ou para a execução de uma roupa exclusiva. O resultado da combinação dos elementos de design de moda consiste na diferenciação dos produtos e dos objetos contemporâneos [e] apresenta uma constante busca pelo novo, pela resolução e adequação de questões que se inserem na nova dinâmica de ergonomia, de tempo e de espaço na contemporaneidade; e é nesse sentido que o design de moda promove, de maneira cada vez mais efetiva, experiências com a forma, com o volume, com a textura, com a cor, com os novos materiais, que são, no conjunto, os elementos característicos da construção da linguagem da moda (CASTILHO; MARTINS, 2005, p. 29). Os elementos do design de moda são, assim, os agentes que promovem a linguagem da moda, por meio da qual o designer - ou marca - pode se posicionar no mercado e também perante seu consumidor. O público, por sua vez, poderá enaltecer a criação do designer ou marca e reconhecê-la por uma dada característica, como ocorreu com Burberry e Pringle, considerados “a quintessência do clássico britânico, o que implica qualidade e conforto, enquanto Versace é uma marca que transpira glamour, sexo e extravagância” (JONES, 2005, p. 31). O reconhecimento do estilo do designer ou marca é a confirmação de que ele escolheu as ferramentas dos elementos do design de moda e as desenvolveu em produtos com consonância estética reconhecida como uma característica desse designer ou marca e, ao mesmo tempo, inerentes a sua época. A linguagem da moda é, assim, decorrência da construção de uma coleção de moda e das escolhas dos oito itens formadores dos elementos do design a partir dos quais o designer de moda pode organizar sua criação. Por meio da moda e dos [...] Assim como tentamos ler as expressões faciais das pessoas ao nosso redor, também lemos os sinais emitidos por suas roupas e inferimos, às vezes erroneamente, o tipo de gente que são. Essa comunicação não-verbal – a linguagem da moda – pode ser aprendida como outra linguagem (JONES, 2005, p. 34). A linguagem de moda é, portanto, uma forma não-verbal de comunicação, constituída pelo look, originado pelo designer ou marca, e pela interferência de pessoas que reagrupam as peças de roupas advindas de vários meios de produção, como a Alta-Costura e o fast fashion. Desse look, o autor Jones (2005) relata quatorze leituras não verbais esquematizados no quadro a seguir. Calça, gravata, ombros largos, tecidos pesados ou rústicos, roupas Masculinidade para atividades ao ar livre. Feminilidade Saia, decote, cintura marcada, tecidos delicados. Maturidade Sexual Roupas justas, tecidos transparentes ou com brilho, salto alto. Imaturidade Roupas desestruturadas e soltas, blue jeans, modelagem ou estampas infantis, cores vivas, sapatos baixos. Dominação Uniformes, tecidos desconfortáveis, ombros salientes, cor preta, couro, apliques de metal, chapéus largos e acessórios. Submissão Tecidos pouco práticos, babados, cores claras, sapatos decorados. Inteligência Óculos de leitura, meia-calça preta, cores escuras, pasta de documento. Conformismo Roupas insípidas, peças de cadeias de lojas, vincos bem passados, cores discretas. Rebeldia Vestuário e cortes de cabelo extravagantes, tatuagem, piercings, sapatos esquisitos (ou não-sapatos). Ocupação Uniforme, ternos, roupas com acessórios de trabalho. Origem Indicada por roupas da cidade ou do campo e vestimentas religiosas. Riqueza Joias, roupas novas e limpas, caimento perfeito, etiquetas famosas, cores berrantes, roupas de pele, perfume. Saúde Roupas e marcas de moda esportiva ou casual, cortes que revelam o corpo, silhueta esguia, tênis. Idade Apego a estilo do passado. Quadro 02: Catorze leituras não-verbais (JONES, 2005, p. 35). Das probabilidades proporcionadas no quadro 02, temos a sua utilização como referência de moda, sendo ela constituída em um movimento de construir e desconstruir os seus próprios códigos, transformando-os em modismos ou direcionando seu status em sentido contrário àquele em que sua leitura foi registrada. Um dos exemplos sobre os quais podemos refletir é o uso do jeans27, tecido utilizado em todas as camadas sociais e culturais, na atualidade. O jeans, no quadro 02, é apontado como uma leitura que remete à imaturidade, mas sua invenção não condiz mais com sua linguagem. Recentemente, na coleção primavera/verão 2010, da semana de moda de AltaCostura, em Paris, o tecido foi usado pelo designer francês Jean-Paul Gaultier28 (1952-), que desenvolveu roupas de Alta-Costura utilizando como suporte o tecido blue. Luigi Torre, repórter do site FFW, confere ao desfile o seguinte prognóstico, referindo-se às roupas: são usáveis ou não, pouco importa: after all estamos falando de um desfile de alta-costura. A excelência do trabalho manual investida em cada peça do desfile transforma essa coleção em puro sonho fashion. Colocando os requisitos da alta-costura em primeiro lugar, Gaultier entra na onda étnica que promete pautar a moda em 2010, imprimindo sobre essa já tendência sua identidade pessoal e inconfundível (TORRE, 2010). Figura 17: Desfile de Alta-Costura, no qual o designer Jean-Paul Gaultier mostra sua coleção e utiliza, entre outros tecidos, o Jeans. A identidade de cada criador de moda, seja o próprio criador da casa ou da marca, depende de como ele se comporta e se mostra ao universo da moda e, por decorrência, à 27 De Giorgio Armani a Marc Jacobs, todos os estilistas pelo mundo afora têm um único desejo: o de terem inventado os jeans. Os jeans foram inventados por um negociante de São Francisco chamado Levi Strauss e um alfaiate de Reno chamado Jacob Davis, que comprou a ganga a Strauss. David começou a rebitar calças para um cliente que se queixava que as calças se rasgavam demasiado depressa. Quando outros clientes começaram a pedir-lhe o mesmo serviço, decidiu patentear a ideia, mas não conseguiu fazer sozinho por falta de dinheiro. Assim, pediu ajuda a Strauss e, em 1873, produziram juntos a primeira jardineira patenteada e reforçada. O duplo arco bordado nos bolsos é hoje o mais antigo logotipo usado continuamente na América (JONES; AVRIL, 2005, p. 296). 28 Desde os 14 anos, já imaginava e desenhava coleções inspiradas no trabalho dos grandes estilistas de então. Não gostava muito de estudar e preferia frequentar o salão de beleza da avó, onde teve o primeiro contato com o mundo dos segredos da beleza e da transformação. Depois de enviar seus croquis para vários estilistas, foi chamando por Pierre Cardin para integrar sua equipe de trabalho. Em seguida, estagiou com Jacques Esterel, Angelo Tarlazzi e na Maison Patou. Em 1974, voltou a trabalhar com Pierre Cardin e, em 1976, apresentou sua primeira coleção, onde apareciam mixes inusitados, como um blusão de roqueiro usado com um tutu de bailarina (SABINO, 2007, p. 364). sociedade. Não podemos deixar de ressaltar que todos os elementos do design de moda são ferramentas por onde decorre a criação do designer ou marca, no desenvolvimento de sua pesquisa. Nesse percurso, ele conta com o auxílio de dois tipos de desenho: o desenho ou croqui de moda e o desenho da ficha técnica. Os autores Sorger e Udale (2009) conferem a eles seguinte diferenciação: o desenho ou croqui reuniu os elementos de design de moda, congregando-os para a sua avaliação, e a ficha técnica consiste na ordenação de uma série de procedimentos para a fabricação de uma peça em série. “Um croqui envolve comunicar suas ideias de modelos, embora também possa estar relacionado à captação do espírito da roupa” (SORGER; UDALE, 2009, p. 49), buscando, assim, capturar o imaterial, como podemos observar na figura 18. Figura 18: Croquis do designer Cristian Lacroix, em busca de capturar o espírito da roupa; ao lado dos croquis, vemos as peças confeccionadas. Podemos constatar, pelas figuras, que alguns elementos de design estão inseridos nos croquis do designer Cristian Lacroix29 (1951-). Lacroix compõe suas ferramentas e as distribui, para atingir a melhor percepção da realidade que o desenho ou croqui pode dar acerca da roupa a ser confeccionada. O design de moda percorre, assim, um longo caminho para desenvolver a sua criação, os resultados do processo e a concepção de looks com que os consumidores irão se 29 Desde pequeno, gostou de fazer colagens e desenhar. Ao frequentar o curso de História da Arte em Montpellier, já fazia croquis de moda e imaginava figurinos para ópera. Mudando-se para Paris, terminou seus estudos na Sorbonne, em 1973, tendo também cursado a escola do Louvre, onde se preparava para ser um dos conservadores do museu. Através de Madame Rucki, diretora do Studio Berçot, apresentou seus desenhos a Karl Lagerfeld, Marc Bohan e Pierre Bergé, que o encorajaram a seguir seu caminho na moda. Em 1978, entrou para Hermès, onde aprendeu as técnicas e as bases da costura. Em 1980, tornou-se assistente de Guy Paulin na própria Hermès e, em 1981, entrou para a maison Jean Patou, onde começou a mostrar o estilo que, mais tarde, o notabilizou. Lacroix tornou-se sinônimo de opulência, luxo e sofisticação, inspirados no folclore provençal, em trajes históricos, e em Arles, sua colorida cidade natal, na região da Camargue, onde o colorido universo de ciganos costuma mesclar-se ao dos toureiros, com sua rica e luxuriante indumentária. Em 1987, o estilista abriu sua própria Maison no Fauborg Saint-Honoré, com o suporte de Bernard Arnault, presidente do atual conglomerado de luxo LVMH (SABINO, 2007, p. 174). identificar. Esses consumidores, por sua vez, são o objeto de trabalho e reflexão criativa do stylist de moda, que apontará novas leituras e “expressões”. Justamente nessa relação entre corpo e contexto, o stylist proporciona uma estilização das elaborações dos designers ou marcas. Através desse mecanismo de destituição dos looks concebidos pelos designers e ou marcas, será efetuado o ofício do styling, promovendo o direcionamento de novos looks e ou modismos na contemporaneidade. 2.4 O Styling [...] Nós moramos nas cidades, as cidades moram em nós, o tempo passa. Mudamos de uma cidade para outra, de um país para outro, trocamos de idioma, trocamos de hábito, trocamos de opinião, trocamos de roupa, trocamos de tudo. Tudo muda, e rápido. Sobretudo as imagens. Elas mudam cada vez mais rápidas e se multiplicam num ritmo infernal desde a explosão que desencadeou as imagens eletrônicas, as mesmas imagens que agora estão substituindo a fotografia. Wim Wenders Na primeira parte do texto de abertura do filme Identidade de nós mesmos, Wenders (1989) reflete sobre, o que seria a identidade na contemporaneidade. Esse pensamento pode ser revisto na citação de abertura, sobre as ponderações do design de moda. A primeira parte completa-se com a citação descrita nesta página, em que o autor transmite a insegurança de não termos raízes em nenhum lugar e o fato de nos abastecermos cotidianamente de produtos originados pelo processo criativo de vários projetos de design. Trocamos de hábitos todos os dias, trocamos de roupas todas as horas em que podemos colocar em prática a maravilhosa combinação de peças, para usufruirmos de uma identidade adquirida a partir delas. Somos rápidos em capturar as informações e transportá-las a nossa rotina, para ser, a cada dia, uma possível imaginação de nós mesmos. Queremos ser fotografados a cada minuto, e em cada um desses minutos, aparentamos viver apenas o último post ou tweett, em uma referência à recente tendência de ações, momentos e frases de ciclo curto: tentativa de capturar o espírito do tempo de ser único – individualizante. Compomos nossos looks para constituirmo-nos no “terminal da dinâmica individualista consubstancial à moda desde seus primeiros balbucios; ela não faz senão levar ao seu extremo limite o gosto da singularidade, da teatralidade, da diferença [...]” (LIPOVETSKY, 1989, p.128). Garcia e Miranda (2010) apontam duas constituições de looks: autoral e releitura. A diferenciação promovida é que [...] a primeira não apenas atualiza as variantes do sistema de moda com inovações tecnológicas, como eventualmente inaugura nele novas categorias por introduzir elementos de outro sistema. Trata-se, por exemplo, de uma organização da exterioridade bastante comum entre grupos subculturais urbanos, também conhecidos como movimentos de estilo [...] (GARCIA; MIRANDA, 2010, p. 50). Novamente podemos relacionar essa diferenciação ao estilo, como as premissas de tendências a serem manifestadas nas duas características de Caldas (2006). Utilizamos a teatralidade, ao compormos nosso look - região onde o hábito não se hospeda. A composição do look sempre se modifica, conforme o estilo de quem estiver promovendo a ação, pois o estilo mantém-se, o look quase sempre não. O estilo tende ao individualismo, um depoimento de si mesmo. Tanto o ato de ser um depoimento híbrido quanto o de ser singular, consistem na procura individualista da “expressão”, que Argan (1992) confere ao Expressionismo, no começo do século XX, a instabilidade denunciada por Wenders (1989) em seu texto depoimento e no fato de ser contemporâneo de Agamben (2009). O stylist, muitas vezes, é confundido com o produtor de moda; realmente os dois profissionais têm uma linha tênue diferenciando suas funções. Para obter essa distinção entre as funções do produtor e do stylist de moda, conceituaremos a produção de moda como o ato de “captar a atmosfera desejada pela editora de moda ou diretor de arte” (SABINO, 2007, p. 503). Portanto, o produtor não confere, à produção, a linguagem final do desfile ou do editorial; essa será a função do stylist de moda, como veremos a seguir. Conforme dissemos, o stylist e o produtor de moda oficializam sua criação entre o corpo e o contexto, sendo esse o objetivo contemplativo de ambos. O profissional que faz o stylist é definido como sendo, o [...] profissional que define a imagem de um desfile, catálogo, ou editorial de moda. Sugere e ajuda a selecionar modelos, faz a edição das roupas a serem usadas e ajuda a determinar a maquiagem e o cabelo a serem adotados. No desfile, interfere na atitude das modelos e opina sobre o cenário e a trilha sonora” (SABINO, 2007, p. 563). Ou simplesmente é o “ intérprete da moda” (JONES, 2005, p.2009). Nosso estudo volta-se ao profissional stylist que trabalha para as revistas de moda e é responsável pelos seus editoriais. Assim, faremos uma reflexão que engloba o designer de moda e o stylist, precisamente no ponto comum a esses profissionais: o desfile. A combinação de peças é reconhecida como o produto final de uma coleção de moda, e entre vários possíveis meios de divulgação dessa proposta - que pretende transmitir ao público a nova tendência de moda -, encontram-se os desfiles de moda, que são divididos em primavera/verão e outono/inverno. Segundo Castilho e Martins (2008), um dos meios de apresentação da coleção de moda são os desfiles. Os autores descrevem essa trajetória em um quadro que aponta o percurso do estilista/marca e o percurso do consumidor/usuário. Para a nossa leitura, elaboraremos um breve resumo das trajetórias descritas pelos autores. O estilista e/ou marca percorre os seguintes cronogramas: Manipulação O estilista elabora uma coleção; Processo de desenvolvimento; Design de Moda. Competência Pesquisas de tecnologia, material e pesquisas de tendências. Desfile Performance Cognitiva Compradores e mídia reconhecem o valor da coleção Pragmática Após o reconhecimento cognitivo, o consumidor adere à moda proposta Sanção Este cronograma está completo e o estilista retornará à manipulação. Quadro 03: Elaborado pelo autor. O cronograma do consumidor começa na performance do estilista e/ou marca: Manipulação Na apresentação ou no desfile, propriamente dito, o consumidor deseja comprar. Competência O sujeito comprador tem dinheiro para comprar o objeto de desejo. Performance Aquisição do bem e apresentação ao seu meio social. Novamente dividida em duas: O sujeito é reconhecido por ser portador de um objeto de Cognitiva desejo. Pragmática É aceito por estar usando esse objeto de desejo. Este ciclo completa-se e o consumidor retornará à sua manipulação Sanção Quadro 04: Elaborado pelo autor Podemos considerar, por meio dessa demonstração, que o cronograma do design de moda termina onde começa o cronograma do consumidor, e encontramos, na performance do desfile, o stylist de moda. Conforme o exemplo demonstrado nos quadros 03 e 04, a performance tem um papel importante, sendo ela o primeiro contato com a manipulação do cronograma do consumidor. Na sanção do cronograma do percurso estilista-criador/marca, percebemos que o stylist de moda, por meio da estilização, poderá reelaborar o look proposto pelo estilistacriador/marca. O stylist é, assim, a pessoa que tem como ofício a profissão de styling, sendo que o “styling ou estilização [...] consiste em dar a qualquer objeto um tratamento superficial de reformulação estética – ou seja, de reduzir a uma questão de projetar novas embalagens para velhos produtos” (CARDOSO, 2008, p. 146). Pelo conceito apresentado por Cardoso, podemos concluir que o stylist projeta novas combinações entre peças e, dessa recombinação, criam-se novos looks. A estilização dos produtos criados pelo design de moda, por intermédio do stylist (que se valeu do processo de criação do design para reelaborar futuros looks), agrega uma postura criativa e inovadora. Essa postura inovadora pauta-se na fotografia de moda, para transmitir uma linguagem única a ser divulgada nos editoriais de moda. O resultado da criação do stylist será um look recombinado, advindo do ciclo da moda em que o designer de moda está inserido; é por essa recombinação que o consumidor orientará as suas futuras combinações de peças de roupas. A fotografia de moda é uma imagem e, como tal, “indica algo que, embora nem sempre remeta ao visível, toma alguns traços emprestados do visual e, de qualquer modo, depende da produção de um sujeito: imaginária ou concreta, a imagem passa por alguém que a produz ou reconhece” (JOLY, 1996, p.13). Joly (1996) argumenta que a imagem pode ser mental em primeira instância; dessa forma, pode surgir uma organização de como queremos passar propriamente a mensagem da imagem, por meio de quem a produzirá, função que, em nosso estudo, será conferida ao stylist. A autora aborda várias visões de imagens: imagem e comunicação, imagem com intercessão e imagem de publicidade. Todas as formas de realização ou de intuito descritas têm, como embasamento teórico, a mensagem plástica apresentada, em 1980, por Grupo Mu, que delineou cores, formas, composição e textura como mensagens plásticas de configuração de uma imagem a ser realizada e que, por implicação, será lida como mensagem não-verbal, recebida pelo consumidor. Cada elemento comunica seu significado por si só, não podendo ser chamados de elementos icônicos, portanto figurativos. No presente trabalho analisamos esses elementos como signos plenos e inteiros. Por essa articulação, cada peça tem sua cor, sua forma, sua composição e sua textura; podemos, assim, correlacioná-los às peças de roupas, em que cada elemento (peça) transmite os elementos de design conferidos em sua organização e construção. Cogita-se, assim, que cada peça imprime suas qualidades como uma “expressão” individual, sendo ela um estímulo. O “estímulo tende a ser visto de tal modo que a estrutura resultante é tão simples quanto permitem as condições dadas” (ARNHEIM, 2006, p. 47). O psicólogo alemão Rudolf Arnheim (1904-2007), confere esse padrão à lei básica da configuração relacionada à Gestalt: a percepção visual apreende como enxergamos e compreendemos qualquer objeto de origem natural ou não; consiste em compreender o que está sendo observado. A configuração ressalta que um objeto pode ser analisado por suas partes menores ou ser observado como um todo, gerando, desses contornos (limite e ou silhueta), a sua assimilação. Podemos relacionar esses limites como sendo o “todo” da imagem a ser gerada pela fotografia de moda, e as pequenas partes, como as peças de roupas, cada uma tendo seu repertório individualista de representação, ocasionando, assim, uma configuração. A essa configuração serão adicionadas a expressão corporal, a maquiagem, o cabelo, o contexto (onde será realizada a seção de fotos) em uma composição de um look. É precisamente nesse raciocínio que caminharemos em nosso estudo, que consiste em produzir uma imagem de moda a partir de pequenas partes, para condensar, propriamente, a imagem não-verbal a ser comunicada ao observador, conforme a lei da configuração da Gestalt. Primeiramente, escolheremos as peças de roupa para compor uma roupa, depois conjugaremos, a esse indumento, os acessórios que melhor compõem a forma desejada, estipularemos a expressão corporal e estética em que a modelo será fotografada para compor a foto e o modo como ela posará perante a lente. Elaboraremos a maquiagem e o cabelo, para exaltar a expressão corporal e compor com a produção de peças de roupa. Toda a configuração mencionada terá uma ambientação, sendo esta o contexto que servirá de locação e, ao mesmo tempo, fará parte da imagem a ser fotografada, resultando no produto final; conforme Jones (2005) constitui-se desse método, uma nova interpretação da moda, sendo criada pelo profissional que realiza o styling – o stylist. O processo descrito pode ser alterado aleatoriamente, não necessariamente na ordem mencionada, rígida em sua estrutura de comunicação não-verbal ou linguagem de moda. O procedimento de configuração assemelha-se à bricolagem, assim denominada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Lévi-Strauss (1989) delineia aquele que realiza a bricolagem como sendo o bricoleur, que equivale a uma “volta para uma coleção de resíduos de obras humanas, ou seja, para um subconjunto da cultura” (Lévi-Strauss, 1989, p.36). No trabalho do bricoleur, em uma coleta de subconjuntos da cultura, ele deve voltar-se para um conjunto já constituído, formado por utensílios e materiais, fazer ou refazer seu inventário, enfim e sobretudo, entabular uma espécie de diálogo com ele, para listar, antes de escolher, entre elas, as respostas possíveis que o conjunto pode oferecer ao problema colocado. Ele interroga todos esses objetos heteróclitos [contraria as regras da arte] que constituem seu tesouro, a fim de compreender o que cada um deles poderia “significar”, contribuindo assim para definir um conjunto a ser realizado [...] (LÉVI-STRAUSS, 1989, p.35). O novo conjunto a ser edificado em nossa pesquisa caberá ao bricoleur, sendo equiparado ao stylist, a realizar o inventário e a coleta de seus tesouros, construindo suas referências para instaurá-las em um conjunto já constituído, denominado em nosso estudo de desfile, ou em qualquer outro meio de comunicação não-verbal de moda. As analogias pertinentes aos conceitos de configuração e de bricolage podem ser orientadas para o campo do styling. A estilização, conforme Cardoso (2008), é o ato de promover a ação de renovação de qualquer objeto, promovendo novas formas para produtos já concebidos. A questão que estamos pautando pode vir a ter uma bifurcação em relação à concepção comentada. Segundo uma delas, a estilização modificaria a estrutura da modelagem projetada ou transformaria a superfície têxtil, por meio de quaisquer práticas inerentes ao design de moda. Em nosso estudo, essa possível transformação de peças do vestuário é relacionada à customização, originada nas décadas de 1960 e 1970, com a antimoda. A outra homogeneíza - é a ordenação dos processos de coleta de informações que denominaremos de peças/tesouros para compor uma configuração de um novo look. A essa configuração, podemos relacionar um processo de realização de um origami, consistindo-se, este, em um desdobramento de uma pequena parte (peça/tesouros), em função da formação de uma unidade visual de um todo (imagem). O papel do stylist, para a realização da estilização perante a coleção projetada pelo design de moda, é configurar futuros looks, em cuja composição serão empregadas peças e tesouros coletados em várias coleções de moda. O processo de bricoleur do stylist de moda é a coleta e seleção dos objetos que podem responder e solucionar o trabalho proposto (editorial). A organização da peças/tesouro, dos acessórios, da expressão corporal e estética da modelo, a orientação acerca de qual maquiagem e cabelo serão realizados, e a ambientação partem da premissa de se “[...] compreender o que cada um deles poderia significar” (LÉVI- STRAUSS, 1989, p.35); assim, por meio do conjunto da configuração, busca-se disponibilizar uma nova forma de combinar peças recentes lançadas no mercado, fazendo germinar um conceito de comportamento e de tendências para as futuras coleções de moda a serem criadas pelos designers. A partir dessa manipulação, o stylist sempre está um passo a frente do design de moda, pois, de certa forma, e, quase sempre, destitui os elementos de design formadores de uma coleção e deles se apropria em seu ofício, transformando-os em outro, e mantendo o ciclo da moda em constante movimento de reciclagem de modismos e tendências. A contemporaneidade definida por Agamben (2009) revela que a moda é um dispositivo para a compreensão de o que é ser contemporâneo. A contemporaneidade na moda [...] introduz no tempo uma peculiar descontinuidade, que o divide segundo a sua atualidade ou inatualidade, o seu estar ou o seu não-estar-mais na moda [...] o tempo da moda está constitutivamente adiantado a si mesmo e, exatamente por isso, também sempre atrasado, tem sempre a forma de um limiar inapreensível entre um “ainda não” e um “não mais” (AGAMBEN, 2009, p. 66-67). A contemporaneidade das tendências é fomentada pelo jogo de identidades promovido pelos looks e, na natureza urbana atual, encontramos a figura do stylist, um dos protagonistas capazes de capturar o espírito do tempo e processá-lo, por meio de sua “expressão” individualista. Ao observar as páginas de qualquer editorial de moda, você verá que as roupas, cabelos e maquiagem são assessorados e estilizados em um modo particular. Este é o trabalho do stylist, criar uma imagem que os leitores possam almejar, retratar roupas que eles querem comprar e mostrar a eles modos de usá-las, assim como informá-los onde encontrá-las e quanto são (DINGEMANS, 1999, p. 1, tradução livre). Ao orientar o desejo, ecoamos naquilo que Wenders (1989) descreve: “tudo muda, e rápido. Sobretudo as imagens. Elas mudam cada vez mais rápidas e se multiplicam num ritmo infernal”, na construção de imagens de publicidade. As imagens de comunicação e de intercessão estão introduzidas na imagem de publicidade de moda, comunicando e promovendo a intercessão de produtos configurados. O stylist ressoa o seu trabalho na contemporaneidade, ao assinar a sua configuração, na mesma “expressão” que Worth promoveu à moda em 1857. Ao assinar seu trabalho, ele promove seu nome, seu estilo, seu conhecimento e habilidades de organizador, de bricoleur: cada um tem, portanto, seu estilo, por meio do qual exercerá, para os editoriais de moda, a estilização do design de moda. Coloco-me, desse modo, na posição de um bricoleur, pois a indagação que levantou este estudo tangencia a minha vida acadêmica e profissional: acadêmica por lecionar ‘Stylist de moda’ e ‘Planejamento e desenvolvimento de coleção’, e profissional por exercer a profissão em suas eloquências acerca das indagações sobre o que ser um stylist pode acarretar. No que tange à metodologia de pesquisa, continuaremos a costurar com o bricoleur em nosso estudo de caso, por meio da peça que denominamos de “TRASpassado”. 3. ESTUDO DE CASO O meio não é a mensagem, mas a forma como a mensagem é transmitida, e os artistas que têm consciência da estrutura da mídia fazem uso disso como recurso estilístico (DANTO, 2005, p. 218). A ponderação de Danto (2005) nos faz a refletir que o meio por onde é executada e transmitida a ideia (que poderá ou não ser lida e compreendida pelo seu observador) não é a mensagem propriamente dita, mas o meio escolhido para registrar a execução dela. Como averiguamos anteriormente, o desfile é um dos meios pelos quais o designer pode expressar o resultado do projeto factual; outro recurso é o catálogo, sendo este um meio de comunicar a variedade de produtos manufaturados. Observamos esse procedimento no catálogo de vendas dos relógios da Army and Navy Store, em nossa reflexão sobre Design e Moda. O catálogo é um dispositivo (meio), sendo confeccionado pela fotografia ou desenho; caminhos pelos quais, devem-se “facilitar as vendas, alcançar consumidores distantes ou que estivessem impossibilitados de ir até suas lojas” (SABINO, 2007, p. 155). Estamos nos reportando ao catálogo, pois essa foi a forma escolhida para difundir a coleção outono/inverno 2011, da marca juiz-forana General Cook, intitulada de 360º, para a qual foi elaborada e criada a peça “TRASpassado”. Nortearemos nosso estudo em três interfaces distintas. A primeira será a pesquisa sobre os elementos do design de moda que originaram a peça e o modo como o designer a desenvolveu. Na segunda, reportaremos como a peça foi utilizada pelo stylist para a feitura do editorial de moda, que se encontra na revista Duetto Fashion, nº 03, de Maio de 2011, entre as páginas 122 a 131. Finalizando a trajetória, relacionaremos ambos os aspectos mencionados para articular a hipótese que nos propomos a averiguar sobre o processo de styling do design de moda. A metodologia de pesquisa adotada para ambos os objetos de estudo será advinda do bricoleur, que consiste na cogitação de que dos meios disponíveis deve estar também implicitamente inventariada ou concebida, para que se possa definir um resultado que sempre será um compromisso estre a estrutura do conjunto e a do projeto [...]. A poesia do bricolage lhe advém, também, e, sobretudo, do fato de que se limita a cumprir ou executar; ele não “fala” apenas como as coisas, como já demostramos, mas também através das coisas; narrando: através das escolhas que faz entre possíveis, limitados, o carácter e a vida de seu ator. Sem jamais completar seu projeto, o bricoleur sempre coloca nele alguma coisa de si (LÉVI-STRAUSS, 1989, p. 37-39). Para aclarar o método de bricoleur de pesquisa científica, entenderemos que, quando o autor menciona que o “projeto jamais se completa”, trata-se da coleta de dados dos objetos/tesouros, em que o projeto transforma-se em novos questionamentos a serem desenvolvidos e solucionados. Na coleta de dados de peças-tesouros, o bricoleur não repousa diante dos objetos já coletados: sua poética, ao contrário, sempre tende por aquilo que pode ser, mas ainda não foi coletado (executado, pesquisado ou usado como meio de expressão). O outro ponto a ser elucidado é a nota da tradução de Aguiar e Souza (LÉVISTRAUSS, 1989, p. 33), na qual a tradução do bricoleur consiste em: “que executa um trabalho usando meios e expedientes que denunciam a ausência de um plano preconcebido e se afastam dos processos adotados pela técnica”. Sendo essa a tradução dada para o bricoleur, o autor descreve em sua obra que “toda classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação no nível das propriedades sensíveis é uma etapa em direção a uma ordem racional” (Ibidem, p. 31). As propriedades sensíveis nos processos do design e do stylist de moda podem ser observadas, pela transformação da inspiração (impalpável) para a referência (palpável) de uma coleção ou editorial de moda. Toda a coleta de inspirações - para serem usadas para o desenvolvimento projetual - tende a uma premissa, segundo a qual, na sua primeira etapa, a coleta pode ser aleatória, para buscar ou capturar alguma “coisa” (insight/zeitgeist) a ser usada como referência para ambos os projetos. Portanto toda inspiração de ordem sensível (impalpável) tende a um processo de eliminação dos objetos coletados (sensíveis/inspiração/ impalpável), sendo estes selecionados e transformados em dados (referências/expressão/palpáveis). O remanescente dessa operação de eliminação pode se tornar, de certa forma, a referência da coleção e ou editorial, por meio da expressão individual do designer ou do stylist. O resultado do processo de eliminação compõe-se nos dados que serão usados e será o meio por meio do qual o designer ou stylist processará o movimento de “expressão” (criação de dentro para fora). O designer e ou stylist observa o meio sensível (insight/zeitgeist), processa-o (individualmente perante o designer/stylist ou coletivamente na equipe de estilo/equipe responsável pelo editorial de moda) e o projeta, usando os meios de linguagens (desfile/fotografia de moda); estes poderão resultar em tendências estilísticas ou de comportamento (de moda ou social) a serem seguidas no próximo ciclo da moda. Por essas especulações é que acreditamos que a falta de plano ou técnica descrita pela tradução do termo Bricoleur, não serão aplicas nas considerações analisadas sobre o design de moda e o stylist. Ambos os ofícios tendem para o método, o design de moda a um método (elementos do design de moda) de desenvolvimento de uma coleção ou de uma peça exclusiva, e o stylist para uma configuração (editorial) de recentes produtos de moda lançados no mercado. Não podemos deixar de citar dois outros aspectos que apontam para esse raciocínio que estamos pleiteando. O primeiro é que técnica pode advir de um método ou o método é resultado de uma técnica, e ambos estão inseridos no design. Vale lembrar o quadro 01 de Bomfim (2002) na página 23. O segundo - e não menos importante - é que os afazeres constam em seu cotidiano, nas várias reuniões para aperfeiçoar as referências para a coleção (neste caso com a equipe de criação) e/ou stylist (equipe responsável pelo editorial). O paradoxo do sensível (impalpável) e do referencial (palpável), tanto no método de estilização quanto no design de moda podem ser abordados perante o que o autor compreende como ciência contemporânea, para a qual ele admite apenas uma solução: é que existem dois modos diferentes de pensamentos científicos, um e outro funções, não certamente estágios desiguais do desenvolvimento do espírito humano, mas dois níveis estratégicos em que a natureza se deixa abordar pelo conhecimento científico - um aproximadamente ajustado ao da percepção e ao da imaginação, e o outro deslocado; como se as relações necessárias, objeto de toda ciência, neolítica ou moderna, pudessem ser atingidas por dois caminhos diferentes: um muito próximo da intuição sensível e o outro mais distanciado (LÉVI-STRAUSS 1989, p. 31). A forma próxima da imaginação e do distanciamento será adotada como suporte metodológico do estudo de caso. A imaginação na forma como o bricoleur age, colocando-se sempre alguma coisa de seu próprio repertório, e o distanciamento para a feitura da leitura dos procedimentos de design e do stylist - para o processo de elaboração e desenvolvimento da peça e na forma de configurar um editorial. Ambas as leitura contam também com o acaso. O acaso pode ser pelas questões climáticas; por exemplo: na ambientação escolhida para a seção de foto (stylist) e o surgimento de uma nova concepção de ordem prática para a construção de uma peça (design de moda), pois a cada escolha acarretará uma reorganização completa da estrutura que jamais será aquela sonhada [insight/zeitgeist] nem uma outra que poderia ter sido preferida [projeto/expressão]. A [...] ciência dialoga não com a natureza pura, mas com um determinado estado da relação entre a natureza e a cultura definível pelo período da história no qual ele vive pela civilização que é a sua e pelos meios materiais de que se dispõe (Ibidem, 1989, p. 35-36). Definida a abordagem do nosso estudo de caso, começaremos a nossa “bricol[ação]” da marca General Cook e, por conseqüência, a leitura da peça “TRANSpassado”. 3.1 A marca General Cook As abordagens mencionadas no estudo referente à marca General Cook terão como fomento a entrevista realizada no dia 03 de maio de 2011, com o proprietário e designer da marca Manoel Rezende, as visitas feitas a uma das suas lojas (Independência Shopping, Juiz de Fora – MG – figuras 20 e 21) e as edições do 17º e 18º Fashion Business, e m que a marca teve um estande para a demonstração de produtos e captação de novos compradores, além do acompanhamento da seção de fotografia que originou o catálogo da coleção 360º e o site da marca – www.generalcoolk.com.br, acessado em 15 de novembro de 2011, em que o conteúdo de divulgação constitui-se na coleção 360º. O empresário e designer Manoel Rezende começou a trabalhar com a moda no ano de 1981, sendo proprietário de uma loja multimarca. Após um intervalo de alguns anos, ele retorna à moda e desenvolve a General Cook, no ano de 1997. Há mais de dez anos no mercado brasileiro, tendo sua sede na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, a General Cook foi primeiramente planejada para ter como conceito os esportes outdoor, como o rally e o enduro. Rezende, no site da marca, a define como um estilo de vida, uma proposta de conforto. Talvez assim possamos começar a contar a história da General Cook, uma marca que já se consolidou como uma das mais aceitas pelo consumidor. O nome General Cook é uma referência – e por que não dizer referência – ao capitão inglês James Cook, homem com raro entusiasmo pela aventura, responsável por expedições fantásticas e desbravadoras. A marca General Cook segue ao pé da letra sua filosofia em busca de proporcionar conforto e durabilidade a quem não abre mão de qualidade em seu dia a dia. Assume também um estilo de roupa europeia, misturando tecidos tecnológicos, buscando novidades através de pesquisa no mundo inteiro, para manter e aperfeiçoar seu padrão. E assim a General Cook escreve a sua história. História que começa nas expedições de James Cook e que continua na cabeça e no corpo daqueles que fazem do gosto pela aventura e da eterna busca pelo novo uma condição de vida (REZENDE, 2011). Rezende, no “decorrer das coleções, foi percebendo uma lacuna no mercado que era um lifestyle” (REZENDE, 2011), por essa razão, a marca teve seu conceito ligado ao esporte substituído por uma moda para o dia a dia, sem perder a qualidade, como ele mesmo ressalta. O leque de faixas etárias de suas criações é bem amplo, e a marca direciona seus produtos ao consumidor entre os quatorze e os cinquenta anos, com uma orientação às classes A e B. Atualmente, a marca conta com duas lojas em Juiz de Fora, dois pontos de vendas de franquiados, um em Ubá e a outra em Muriaé, ambos localizados no estado de Minas Gerais, um showroom na cidade do Rio de Janeiro e vinte e cinco lojas multimarcas. Encontra-se em pleno processo de expansão, sendo este um dos motivos principais para a participação do 17º Senac Rio Fashion Business (outono/inverno 2011) entre os dias 10 e 13 de janeiro e da 18º edição (primavera/verão 2012) entre os dias 24 e 27 de maio de 2011. Ambas as edições realizadas na cidade do Rio de Janeiro, na Marina da Glória, Avenida Infante Dom Henrique s/nº. Figura 19: Convites da 17ª e 18ª edições do Senac Rio Fashion Business, com a participação da General Cook. O evento é destinado ao negócio de moda do setor varejista, conforme o site oficial do Fashion Business; somente a edição em que foi lançada a coleção 360º, a 17ª edição do evento, foram registrados cerca [...] de R$ 690 milhões em negócios, um aumento da ordem de 25% sobre a edição outono/inverno de janeiro de 2010. Em quatro dias, o evento registrou a presença de 60 mil visitantes, 20% maior do que na edição passada (primavera/verão), realizada em maio. Com o tema “Alquimia”, a maior bolsa de negócios da América Latina recebeu investimento de R$ 16 milhões. Todos os 310 expositores atingiram as metas de negócios. Desse total, cerca de 30% superaram as vendas da edição anterior30. Nessa ocasião, pretendia-se abrir mais vintes pontos de venda nas regiões Sudeste e Nordeste. O “nordeste dividido em duas partes, a parte Bahia, uma na verdade é Bahia, os outros são o nordeste interior; São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro” REZENDE (2011). A explicação para a tentativa de obter mais pontos de vendas, além da expansão, segundo Rezende, é para tornar a marca mais competitiva no mercado. Neste processo o designer não abre mão da qualidade de suas peças e, perante essa diretriz, chegou-se à conclusão de que o aumento da produção seria viável para a adequação da marca com o mercado atual. A lógica persiste em abrir novos pontos de vendas e, assim, aumentar a quantidade de peças produzidas, sem perder a qualidade e o custo. Um demonstrativo desse planejamento é o valor projetado para o crescimento entre as duas edições do evento abordadas no estudo. A 17º edição do Fashion Business contabilizou um montante entre cento e vinte e cento cinquenta mil reais em vendas; para a edição de 18º, foi projetado um valor estimado de quatrocentos e cinquenta mil reais, um acréscimo significativo de 300%; que foi conquistado e superado, segundo Rezende. O prognóstico de acréscimo de vendas também acompanhou a quantidade de peças a serem desenvolvidas para cada coleção. A coleção de outono/inverno 2011, com o tema 360º, contava com um mostruário de 150 peças e gerou a fabricação de 3.500 peças; perante a coleção de primavera/verão, intitulada de Stand Up, deliberou-se que se geraria, pelo crescimento estimado, a quantidade de 6.000 peças e, novamente o resultado superou a meta delineada. O crescimento da marca não ocorre somente em questões de produtividade e de gerenciamento. Podemos destacar que a marca foi idealizada para atender o público masculino e lentamente começou a desenvolver produtos femininos. Essa demanda foi a pedidos da clientela feminina, que almeja as criações do designer. A coleção destinada a esse público não ultrapassa 10% da coleção, como também não são vendidas, as peças, nas lojas multimarcas. 30 Disponível em: http://www.fashionbusiness.com.br/site_novo/?p=2461. Acesso em: 24 abr 2011. Figura 20: Fachadas das duas lojas com sede em Juiz de Fora, Minas Gerais. Da esquerda para direita: lojas situadas no Mister e no Independência Shoppings. Figura 21: Interior de uma das lojas. Independência Shopping. Juiz de Fora, Minas Gerais. Rezende explica esse posicionamento de rejeição ao investimento na moda feminina, para não perder o foco do planejamento da coleção voltada ao masculino. Ele considera seu design voltado para uma linha básica. Seu negócio consiste em conseguir fazer um básico bem elaborado e que não se perca num tempo muito pequeno, que ele não fique, vamos chamar assim, totalmente fora de moda. Eu acho que o básico é por aí, é uma roupa que você vai ter, vai usar todos os dias, e até em ocasiões especiais, com algum acessório interessante, com, por exemplo, uma calça básica com parte de cima mais elaborada, então acho que básico é isso, é uma coisa que não perde com tanta rapidez (REZENDE, 2011). Confeccionando roupas com o estilo atemporal, como o designer afirma; seu processo de design está ligado diretamente em ofertar uma moda que não segue diretamente as tendências da moda ou os modismos de estação. A relação de como o designer comporta-se no planejamento e execução de seu trabalho reflete no interior de suas lojas. O estilo das lojas visitadas tende a ser uma extensão de suas criações, que podemos perceber nas figuras 20 e 21. A cada mudança de coleção, sempre haverá uma adequação da loja para se “proporcionar à roupa um diferencial [...] a cada coleção a gente muda um pouco o ambiente, cria situações diferentes, mudamos móveis, mexe com a carinha da loja” (REZENDE, 2011). Outra estratégia bem sucedida da marca apoia-se em ter suas peças exibidas na rede Globo de televisão, em diferentes seguimentos. Rezende confere a essa aceitação de seu produto um mérito restrito à qualidade e ao “básico” bem elaborado e não a uma estratégia de marketing. Suas roupas já foram usadas na Malhação, no Vídeo Show e, recentemente, na novela O Astro. O apresentador do Big Brother Brasil, Pedro Bial, usou suas roupas nas apresentações do reality show de 2011, como também a revista Caras, em um dos seus editoriais de moda. Infelizmente Rezende não sabe qual o número da revista e não mantém um acervo documental da marca ou das coleções de moda. Continuaremos nosso estudo sobre a marca General Cook e, como o próprio proprietário qualifica o seu ofício e marca, “um pequeno negócio de moda”, a que lançaremos nosso olhar, por acreditar que, para o nosso estudo, a observação dos procedimentos de uma pequena empresa de moda será de fácil assimilação, pois não teremos muitas fontes pessoais para serem articuladas na reflexão proposta. 3.2 O design e o designer no processo e na prática projetual Para potencializar a narrativa proposta de como o design e o designer conduzem a prática projetual de moda, temos de nos reportar a conceitos que estabeleçam um suporte teórico para o que pretendemos realizar. Estas três diretrizes conduzem a prática de planejamento e desenvolvimento de um produto de moda. A primeira se refere ao significado da palavra moda: tal conceito implica que o termo moda, “do latim modus, em seu significado mais amplo significa uma escolha, ou melhor, mecanismo de escolhas realizadas, tendo com base critérios de gosto” (CONTI, 2008, p. 223). Por essa definição epistemológica da moda, ela é uma prática de escolhas, passando-se, a sua existência, pelas escolhas individuais (designer) ou em grupo (equipe de estilo). Propondo as escolhas, valem-se dos elementos em design de moda para efetuar as variantes selecionadas para o desenvolvimento de uma coleção sendo que tais preferidas podem pronunciar que o processo de elaboração de uma coleção está inserido nos tesouros do bricoleur e da diferenciação de inspiração e de referência, como relatamos anteriormente. Obtendo um modus de se vestir, teremos de processar as variantes em um processo que o qualifique e o ordene, no caso do design de moda, a metodologia aplicada é o uso dos elementos de design de moda. Dessa técnica, objetivará uma coleção. A coleção “é um sistema particular (diferente dos de outros campos), tanto pela lógica de montagem, que apresenta princípios de complementaridades entre diferentes produtos que serão utilizados sobre o corpo, quando por sua projeção temporal e seu caráter efêmero” (FIORINI, 2008, p. 108). A partir dessa associação dos dois conceitos mencionados, poderemos chegar a uma possível conclusão de que o modus deriva-se da padronização de uma coleção de moda, previamente pesquisada e elaborada pelo designer; como na maioria das vezes, a obtenção da igualdade da coleção e da linguagem não-verbal têm como base a identidade de cada peça da coleção que o consumidor poderá recombinar ao seu gosto, porém, “entre as peças de uma série instauram-se relações que se multiplicam por toda coleção” (Ibidem, p. 109). Em uma analogia das diretrizes explicitadas, assemelham-se novamente a um desdobramento de origami; a referida nos conduz ao conceito de configuração, sendo a menor parte a peça; pelo meio de sua elaboração, introduz a ordem em uma coleção, que por sua vez, origina um novo modus de se vestir ou de uma futura coordenação de peças de coleção para o consumidor. É excepcional notar que, para obter essa relação, é preciso que a peça e pesquisa primeiramente façam parte de um todo. O totalismo da inspiração/referencial e dos elementos de design de moda, os subsídios agirão na feitura de uma coleção, sendo ela dividida em peças combináveis entre si, e por sua implicação, acarretará um look na linguagem nãoverbal. A partir desses pressupostos, o design e o designer de moda guiam a sua pesquisa de criação, com o objetivo de designar a melhor concepção a partir de suas potencialidades; no caso Rezende, percebemos que a falta de um curso superior, que desse subsídio às suas criações, não o manteve refém para a realização de sua empresa. O aprendizado foi conquistado na prática, em que as dificuldades do percurso projetual se consolidam diariamente - para cada obstáculo teremos um novo aprendizado. O design projetado por Rezende é uma prolongamento de seu meio de vida e do que acredita ser uma roupa básica, ao mesmo tempo atemporal e com qualidade. Estamos mencionando as vestes não conceituais, no sentido de que finalizam um look ou pontuam-no, dando-lhe uma aparência individual, criativa ou que está seguindo algum modismo. O design é o estilo de vida (lifestyle), que poderemos supor sendo, um indivíduo não aliciado nos cânones da moda (modismo), que conduz e vive cotidianamente - sem roupas apertadas, sem exageros ou sem algum tipo de Ergonomia que prejudique a sua mobilidade existencial. Rezende conta com uma estrutura pequena, que consiste em um escritório, onde trabalham cinco pessoas, sendo uma delas estagiário de administração. Suas lojas contam com onze empregados, exercendo os cargos de estoquistas, vendedores e gerentes. Na viabilização de cada coleção de moda, a disposição é reduzida para três a quatro indivíduos que formam a sua equipe de criação. Entre estes, encontraremos um assistente direto “Marquinhos” e o “Binha”, responsável pela linguagem das lojas, realizando as vitrines, a programação visual do ponto de venda das lojas próprias e a produção e o stylist dos catálogos. A confecção das peças que irão compor a coleção é feita em fornecedores, pois a marca não conta com fabricação própria. Os fornecedores estão alocados “no Sul do Brasil, em São Paulo, no Rio. Temos em torno de doze fornecedores que são praticamente fixos. Quando a coleção pede algum produto que não está envolvido diretamente no meu dia a dia, então a gente busca outro fornecedor” (REZENDE, 2011). Rezende explica que cada fornecedor oferta um método de trabalho que consiste que ele desenvolva as modelagens até a sua prova dentro das fábricas. Executando o procedimento, Rezende explana que gera economia de tempo e também terá a certeza de que a peça piloto ficará como foi idealizada. Agregado ao mecanismo, outro ponto de suma importância é a qualidade dos materiais empregados para a fabricação das peças. A junção de uma boa execução da peça piloto com o material acredita ele ser o agente de fidelização do público da marca. Realizamos um pequeno mapeamento de como o design e o designer idealizam e quais os mecanismos para tal feito; acreditamos que para uma empresa pequena, como o próprio empresário estipula ser sua marca, a falta de deliberações de funções acarreta uma sobrecarga e, ao mesmo tempo, dificulta o projeto de expansão da empresa; essa observação foi obtida em todos os encontros que tivemos com o empresário e com os funcionários. Acreditamos que, para o crescimento da marca, sendo este o objetivo de Rezende, o próprio terá de abrir mão do excesso de controle em todas as operações de gestão e de criação. 3.2.1 A prática projetual O designer de moda, para projetar a coleção, vale-se dos elementos de design para desenvolver suas ideias, dando-lhes as formas coerentes conforme as sua escolhas; dessa maneira transforma peças em coleções e, por fim, em modus. Manoel Rezende utiliza-se desta mesma concepção criativa para a realização de sua coleção de moda. Como dito antes, os tópicos apontados em nosso estudo são divididos em oito elementos, perante os quais observaremos a coleção outono/inverno 2011 da marca General Cook, seguindo a mesma ordenação mencionada dos elementos do design de moda. 3.2.1.1 Tema O tema abordado para a coleção de outono/inverno 2011 foi denominado de 360º. Segundo o site da marca, em sua página direcionada à coleção Winter Collection 2011, o nome é atribuído às viagens pelo mundo. Na água, nos céus ou no chão, percorrer o mundo e os diversos lugares realizando sonhos e conquistas. Interpretar e relatar o que foi visto, culturas diferentes, novas aventuras, buscar o novo e desafiar limites. O tema do Inverno 2011 General Cook Brand se inspira nas viagens pelo mundo, debaixo d’água ou sobre ela, pela terra ou cruzando o ar, cada indivíduo a sua maneira buscando formas de viajar para viver experiências únicas (REZENDE, 2011). O texto refere-se às viagens por um mundo sem fronteiras, utilizando todas as formas para os que querem fazê-lo. O espírito de aventura, de liberdade, de satisfação pessoal de encontrar culturas novas ou mesmo de buscar o novo a qualquer mod[us]a. Esse perfil se relaciona diretamente com o conceito da marca, de proporcionar, ao seu público, roupas para o dia a dia confortáveis e também se confere a elas a abordagem de criação da marca. Figura 22: Texto referente à coleção 360º inserido no site da General Cook (citado anteriormente). O texto não se espelha com a entrevista cedida por Rezende onde o designer proclama que Nós [ele e a equipe de estilo/criação] queríamos dar ideia de que a coisa é muito mais ampla do que o mundo, muito maior do que às vezes a gente tá vivendo num mundinho pequeno. Então a gente usou coisas que são cíclicas, que vão e voltam, por exemplo, então a gente mostrou a questão hoje de meio ambiente, a gente usou plantas, para a pessoa saber que aquilo ali é muito importante, que está num momento, como podemos falar? Muito em voga, vamos chamar assim, a questão do meio ambiente, botou a coisa do mar, a coisa de um surfista representando o mar, a gente foi mais pra um lado, caleidoscópio, por exemplo, coisa que gira, pegamos uma estamparia e colocamos um bumerangue que é uma peça que você manda e ela volta, pássaros, que a gente brinca com o lado ecológico, mas ao mesmo tempo é ... Por que esses pássaros estão aqui? Porque eles migram e voltam, eles fazem o ciclo da vida, eles saem lá de cima do Alaska, vão lá embaixo e voltam, no período deles, e voltam. Então as coisas foram surgindo na cabeça, coisas que fazem giro (REZENDE, 2011). O texto nos conduz a uma leitura de que o mundo é pequeno e que a relação proposta é sair e se propor a galgar novos rumos de descobertas. Outro ponto é a leitura de quando o designer designa objetos ou animais que têm ciclos ou que vão e voltam, que não permanecem no mesmo lugar, pois estão sempre em movimento. Neste ponto coabita a ideia de viagem que o Resende nos propõe no seu primeiro texto do site, em que a utiliza como linguagem verbal para sua coleção. Pela pesquisa realizada e os elementos de design que abordaremos a seguir, podemos propor que o conceito de ir e faltar está explícito na coleção, na forma de design de superfície, que pode ser vista nas fotos desenvolvidas para demonstrar a coleção. Na dicotomia dos textos, apenas encontramos o fio por onde eles se homogeneizaram, a consideração de viagem; porém uma viagem sem novas descobertas, sendo estas inviáveis pelo fato que tudo vai e volta. Com isso, parte-se do pressuposto do conhecimento do itinerário (dos pássaros) ou da forma de manipulação (do objeto). O novo não se estabelece no itinerário e nem mesmo na forma de manuseio dos objetos. A coleção 360º - perante o que Seivewright (2009) pronuncia - são as duas vertentes do tema, estando, portanto, inserida na temática conceitual, em que, ao designer, é possibilitado “explorar várias fontes visuais não relacionadas, uma vez que elas podem ser combinadas ou [apresentarem] qualidades de justaposição” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 38). 3.2.1.2 Pesquisa A pesquisa é o próximo elemento do design de moda que será trabalhado logo após a estipulação do tema abordado. Na entrevista, a pesquisa de como foi concretizada a coleção 360º não foi relatada pelo entrevistado, mas ele aponta alguns caminhos pelos quais o designer orienta-se para sua obtenção. Essa não investida se deve ao fato de que a coleção 360º já estava lançada para compradores e toda a empresa voltava-se para a coleção primavera/verão 2011, com a temática do Stand Up, que consiste em surfar com pranchas grandes, no estilo conhecido pelos praticantes do esporte, inerente à década de 1950. Primeiramente essas pranchas de tamanhos fora das dimensões realizadas até o momento, foram criadas para que os fotógrafos pudessem exercer o seu ofício e com isso realizar as fotos dos surfistas em plena ação, dentro do mar. Pelas conversas realizadas no decorrer do estudo e com base nos relatos da entrevista podemos averiguar que o método de pesquisa pronunciado por Rezende é mencionado no estudo. A fonte primária consiste em “registros que você realizou a partir de fonte original. Em outras palavras, são os objetos que você desenhou diretamente” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 41). O entrevistado relata que a ideia para o tema Stand Up e por decorrência a pesquisa, foi resultado de uma viagem que pode ser “para fora ou até mesmo dentro do Brasil ou algum lugar que eu vou lá e vejo uma determinada coisa” (REZENDE, 2011) – que neste caso foi derivada de uma viagem ao Havaí, sendo este a procedência do estilo do surfe. Em relação à coleção 360º que consiste em tudo que vai e volta, ponderamos que a pesquisa foi obtida por fontes secundárias adquiridas de “dados já existentes, que podem ser encontradas em livros, internet, jornais e revistas” (SEIVEWRIGHT, 2009, p. 41). O método de pesquisa é muito abrangente; dependendo do grau de conhecimento do designer e de suas práticas projetuais, quanto maior grau de intimidade e de diálogo com o método de design, mais a pesquisa poderá gerar uma enorme fonte de dados para serem coletados pelo designer, e ele próprio deverá escolher qual será a creditada em cada coleção. 3.2.1.3 Tendência As coleções da General Cook não ficam alicerceadas somente na tendência de moda, estamos nos referindo a uma moda de estilo lifestyle e, por essa razão, as coleções não serão conceituais, com roupas com um grau difícil de execução e de desenvolvimento. Rezende não se volta totalmente às tendências sugeridas a cada ciclo de moda, como vemos no exemplo do estilo militar, que também foi empregado por Pimenta (pg. 19) em sua coleção do mesmo ano e estação. Os designers utilizaram o recurso do design de superfície para apontar o estilo: Pimenta no bordado e Rezende na estampa corrida (camuflagem). Mesmo utilizando a tendência de ciclo custo, como relatamos, temos que notar que suas peças são criadas com o propósito da marca. A marca tende a escolher as tendências de fundo, “que são aquelas que influenciam o social por longos períodos de tempo” (CALDAS, 2006, p. 109). Temos essa razão para delimitar a tendência escolhida pelo designer pelo uso constante das mesmas peças de roupas com variações de cor e de design de superfície. Um relato nos chama a atenção quando Rezende discursa sobre a coleção Stand Up e sobre a sintonia de um esporte que ele nunca tinha visto e os relaciona com as suas relações pessoas. No trecho abaixo podemos apreender a relação proposta. Eu nunca tinha visto nada sobre stand up. Hoje até coleção eu já vi sobre isso, que fizeram, que apareceu na coleção de alguém, uma porção de coisas, de stand up. Olha só, cara, e eu nunca tinha visto isso, passava despercebido. Isso aí, tem um psicólogo, uma pessoa que conversou com a gente fala isso, quando você quer comprar um determinado carro, você começa a ver esse carro para caramba, e você fala: nossa como tem esse carro, e aquele carro está ali do mesmo jeito. Até eles falam quando a mulher está grávida, sua esposa tá grávida, você sai à rua e só vê mulher grávida. É impressionante. É porque você antena, liga naquele negócio. Então hoje a questão do stand up foi interessante, e tem um amigo meu que pratica isso e eu não sabia, ele falou: ‘pô eu faço isso, cara. Eu estou tendo aula disso’. E eu não sabia. Então é legal pra caramba. E o conhecimento das coisas também. Eu nunca sabia que tinha essa função pra fotógrafo, tinha vindo lá do Havaí, e assim vai, e você vai aprendendo (REZENDE, 2011). O aprendizado no campo do design é remanescente quando se abordam as conveniências da coleção Stand Up e confere-se a mesma a uma questão psicológica; de certa forma, é uma maneira de capturar o zeitgeist ou o insight, meios mencionados em nossa pesquisa. A captura do que está no ar, ou ainda, do que não foi coletado, refere-se ao método “bricolagiano”. Mesmo sendo uma coleta já empregada por outro indivíduo é, de certa maneira, uma captura nova, perante a realidade de Rezende. Após a captura dos tesouros, a próxima realização será o processamento e o desenvolvimento em um conteúdo de uma coleção de moda, sendo esta a expressão catalisadora do designer de moda. A partir desse elemento de design de moda, os outros componentes serão sempre relacionados com as fotos da coleção exposta no site da marca; também trabalharemos para uma melhor visualização, utilizando o recurso de quadros em três elementos de design: Cor, tecido e design de superfície, como veremos a seguir. Figura 23: Foto que antecede e apresenta a coleção 306º e as posteriores em tonalidades dos elementos de design em azul claro. Figura 24: Transição do azul claro para o azul escuro. Na mesma configuração começa a ser presentado o verde militar com combinação de caqui. Figura 25: Tons pistache de verde e verde militar. A configuração apresenta no look os tons de verde água. Figura 26: Transição do verde militar para os tons escuros de cinza e preto. A configuração apresenta tons de bege, branco e verde bandeira. Figura 27: Transição do branco e preto para o vermelho e cinza claro. 3.2.1.4 Cor Como podemos observar pelas figuras 23 a 27, a gama de cores da coleção é composta por sete tons principais. Acreditamos que, para uma melhor leitura das peças e dos looks proporcionados pela coleção, elegeremos a separação das fotos perante a cor e sua transição, que compõe cada possível narrativa disposta. No total obtivemos uma figura com três e quatro com quatro configurações, totalizando dezenove produções para serem comentadas perante os elementos que faltam ser relatados. Destas dezenove, comentaremos somente dezoito, pois a primeira configuração alocada na figura 23 é a de apresentação da coleção. Perante essa circunstância retiraremos suas presumíveis considerações. Rezende qualifica que a cor é derivada do tema, não somente a cor é refém do tema abordado, mas também é um dos elementos do design que primeiro causa a leitura nãoverbal. A cor tende a ser notada em primeiro lugar no look produzido em um desfile ou em um catálogo ou editorial de moda. A coleção traz em sua cartela um número que não podemos precisar, por não termos tido acesso a todas as peças da coleção, mas tomaremos como base as dezoito configurações condensadas em nosso estudo, para formatar as leituras das linguagens nãoverbais. Não poderemos afirmar também o número do pantone31 ou o nome da cor escolhida por Rezende. Desta forma elas serão aqui relacionadas como: nos tons de verde encontraremos o verde oliva, verde claro, verde pistache e verde água; nos tons de azul, o azul claro e o azul escuro; nos tons de marrom, teremos o caqui e o bege; nos tons escuros, obteremos o preto, o cinza escuro e o cinza claro; e o branco. Teremos, por essa falta de recursos, uma análise simplória. Referente às cores que serão factíveis, teremos duas cores primárias (azul e vermelho), uma secundária (verde), e sete cores terciárias (azul-esverdeado, marrom, cinza, bege, verde oliva, cáqui e o verde– amarelado - pistache) e o preto e o branco. Cores complementares (vermelho e verde) e nenhuma cor análoga. Nomearemos, segundo Seivewright (2009), conforme a terminologia empregada na indústria de tingimentos. Alcançamos, assim, o seguinte resultado: cor intensa: preto, azul e verde escuro; concentrada: vermelho; pastel: dispomos do azul claro e do verde claro; cor quente: novamente o vermelho; cor fria: branco e bege; opaca/fosca: cinza; monocromática: preto; harmonia: Verde escuro e verde claro, azul escuro e azul claro, azul escuro e cinza; 31 Sistema numérico de identificação das cores déspotas em forma de cartelas, podendo ter as variações de CD, livro e leques (Nota do autor). contrastantes: verde e vermelho, branco e preto; cores subtrativas: o azul no tingimento do Deep Dye. Concluímos assim que a coleção foi dividida em três grupos distintos de cores, acarretando os seguintes panoramas: as cores claras (azul claro, verde claro, branco, bege), escuras (preto, cinza, marrom, azul escuro, verde militar), as cores que intercalam a composição de ambas (somente o vermelho). Colocaremos o vermelho como “intercalar”, pois ela não derivou na tabela de cor outra nuance para o pastel ou intensa cor, mantendo-se na mesma tonalidade na coleção. Por esse raciocínio, podemos apontar que a coleção utiliza cores próprias do inverno (frias), tendo-as como a base a partir da qual será processado o design de superfície. O azul e verde podem refletir no imaginário do designer e são adotados, sendo essas cores direcionadas a terem os significados de mata e mar. Nessa sequência de meditação, o primeiro texto sobre a coleção teria uma analogia direta com as cores relatadas. As mesmas cores, quando relacionadas ao segundo texto, representam as idas e voltas, ou a ideia de cíclico, representado pelas cores verde e azul, que seriam as imigrações de pássaros e baleias por exemplos. Acreditamos que a alusão ao primeiro texto faz sentido e seria de relevância ao domínio do consumidor sobre o tema e a pesquisa efetuada, como também à execução da própria. Localização das cores nas figuras Cor Figura/Foto 23 24 25 26 27 Cor Primária/complementar/ fria/inocência/contrastante Cor primária/complementar/ fria/melancolia/monocromática/ contrastante Cor secundária/análoga/ fria/descrição/opaca Cor terciária/análoga/ fria/estabilidade 2ª, 3ª Fotos - 2ª Fotos - - 3ª Foto - 2ª Foto 1ª e 2ª Fotos 2ª Foto - - - 3ª Foto - 4ª foto Bege Cor fria/análoga - - 4ª Foto Verde Cor secundária/complementar/ fria/mata/intensa/contrastante 1ª Foto 1ª e 2ª Fotos 2ª, 3ª e 4ª Fotos 4ª Foto 3ª e 4ª Fotos 4ª Foto 1ª e 4ª Fotos 1ª e 2ª Foto 4ª Foto Azul Cor primária/complementar /fria/harmonia/subtrativa Cor primária/complementar/ quente/amor/concentrada 1ª e 2ª Fotos 1ª e 2ª Foto 4ª Foto - Branco Preto Cinza Marrom Vermelho Quadro 05: Cores (elaborado pelo autor). 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Fotos - 3ª e 4ª Fotos 4ª Foto 3.2.1.5 Tecido Para a feitura da coleção, podemos mencionar que os tecidos nos quais será fabricada e depositada a criação do designer, tendem a dois patamares. O primeiro patamar interage com a estação, sendo os tecidos pesados e outros leves, fazendo um mix de produtos. O mix de produtos “é o nome que se dá à variedade de produtos oferecidos por uma empresa” (TREPTOW, 2009, p. 100). Essas variedades de produtos são combináveis entre si, e inerentes à coleção proposta, neste caso, tratando-se do outono/inverno brasileiro, sendo este um país continental, onde há estados em que não se pronuncia a estação. Conforme o plano de adequação da marca, orientando sua vendas para o consumidor do Nordeste e ofertando, na maioria das vezes, para os estados litorâneos, encontramos peças na coleção como bermudas, que utilizam tecidos próprios para o verão como o algodão e o tactel. A marca tem, no viés do tecido, um dos seus pilares de credibilidade perante o consumidor, projetando sempre as suas criações e utilizando-as em tecidos planos e não planos de alta qualidade. Os tecidos usados somam um total de sete tipos distribuídos da seguinte forma: um sintético (Tactel) e seis naturais (Malha, Moletom, Algodão, Tricô, Jeans e Couro). Na consideração da elasticidade percebida nos tecidos não planos, teremos exemplos somente nos naturais, sendo eles a Malha, o Moletom, o Tricô. O Algodão, o Jeans e o Couro são tecidos planos, portanto não se obtém neles elasticidade. O único tecido proeminente de fibra animal é o couro; encontramos ainda os de mineral na fabricação do Tactel e os demais são decorrentes de vibra vegetal. Não podemos apontar nos três tipos de fibras escolhidas para a coleção, a presença de mesclagem de fibras para se derivar tecidos planos com certo grau de elasticidade, durabilidade e por motivos de custos. As fibras 100% naturais são de custos elevados e por este motivo, na maioria das vezes, podem ser combinadas com fibras minerais (sintéticas/mineral) como o Poliéster, barateando o custo do tecido e da peça a ser confeccionada. Para possibilitar confortabilidade aos tecidos planos, temos a mistura de Elastano (sintético/mineral); um exemplo bem sucedido é o jeans com elastano, que confere ao tecido uma amabilidade de criação de peças justas ao corpo. Ilustraremos a utilização dos tecidos no quadro a seguir. Localização dos tecidos nas figuras Tecido Malha Moletom Algodão Tricô Jeans Couro Tactel Figura/Foto 23 24 25 26 27 Tecido não plano/ vegetal/natural Tecido não plano/ vegetal/natural Tecido plano/ vegetal/natural Tecido plano/ vegetal/natural Tecido plano/ vegetal/natural Tecido plano/ animal/natural Tecido plano/ mineral/sintético 2ª e 3ª Fotos 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Fotos - 3ª Foto 1ª Foto 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Fotos - - 1ª, 2ª, 3ª e 4ª Fotos 3ª Foto 2ª Foto 2ª Foto 4ª Foto - 4ª Foto 2ªª Foto 2ª foto - 2ª Foto 2ª Foto 3ª Foto 4ª Foto - 4ª Foto - 1ª, 2ª e 3ª Fotos 1ª, 2ª e 3ª Fotos 2ª Foto 1ª Foto 4ª Foto - 3ª Foto 3ª Foto - Quadro 06: Tecidos (elaborado pelo autor). 3.2.1.6 Design de superfície Udale (2009) aponta três dispositivos para a texturização do tecido: tingimento, ornamentação e estamparia. Há ainda outra forma de tratamento da superfície de um tecido, mais especificamente no beneficiamento do Jeans32. Esta técnica consiste nas lavagens, que transformam a peça já confeccionada, dando-lhe um aspecto diferenciado, pois cada uma será feita por meio de aplicações em uma peça única. A técnica pode ser manual ou industrial e originou-se após a década de 1970, quando os jovens hippies começaram a customizar suas roupas. 32 Existem vários tipos de beneficiamento do Jeans disponíveis no mercado, alguns deles são: stonewashed: lavagem com pedras pomes que conferem aspecto desgastado, principalmente nas costuras; delavé: feita com alvejantes químicos, a peça fica mais macia e bem desbotada; jato de areia: um jato potente de areia e de água desgasta o Jeans bruto. Muito usado para reproduzir o desgaste do tempo; aplicação de produtos químicos: permanganato e cloro são aplicados manualmente, desgastando o tecido; puído: artesanalmente se desgastam partes específicas da calça com um esmeril; used: é aplicado um produto químico com uma pistola; fast pin: a peça fica com efeitos localizados; resinado: a resina deixa o Jeans com um aspecto mais rígido, parecendo engomado; laser: desgasta o Jeans da forma desejada; over bleach: lavagem abrasiva de cloro, obtendo um jeans totalmente branco (http://www.bazarpop.com.br/blog/2010/02/26/os-diversos-tipos-de-lavagens-do-jeans/. Acesso em 10/01/2012). A customização foi abordada em nossa pesquisa, referindo-se à individualização do estilo pessoal, mas originou na indústria da moda uma nova visão de mercado e acarretou a abertura de um novo seguimento. Percebemos que nas figuras 23 (segunda foto), 24 (terceira foto), 25 (quarta foto) e 26 (primeira, segunda e quarta), o Jeans foi favorecido com o tratamento da superfície através de lavagens. A calça Jeans Black que compõe a configuração do look nas figuras 23 (segunda foto) e 26 (primeira foto) provavelmente teve a lavagem over bleach; a peça da figura 24 (terceira foto) pode apontar que uns dos cinco tipos de beneficiamento poderão dar o resultado da peça: o laser, o puído, o químico, a areia e o stonewashed; estas mesmas formas de lavar ocorreram nas figuras 25 (quarta foto) e 26 (segunda e quarta fotos); na quarta foto da figura 26 o Jeans está no seu estado bruto – índigo. Rezende (2011) recorre a lavagens na “maioria das nossas peças, vamos dizer 80%, tem algum tipo de lavanderia” e “às vezes a pessoa compra a mesma calça e vai mudando só a lavanderia”. Em relação à moda feminina, o designer designa para a coleção “duas variantes de jeans só, e ele é sempre aquele mesmo corte, brinca só com detalhes, e coisas mais básicas, coisas mais fácies de vender, que não é muito sazonal”. Com essas declarações, sugerimos que o Jeans está sendo elaborado como “básico”, no que se aplica à configuração do look, ou seja, a parte inferior não transmite qualquer conceito de moda, sua usualidade é para realçar e servir como suporte para a parte superior (camisas). A coleção 360º além das variáveis de lavagens dispõe de cinco variantes de design de superfície têxtil, além da lavagem. A Sublimação, o Silk (estamparia localizada), o Bordado, a Estampa Corrida, Deep Dye (tingimento). Os elementos silkados são sempre a logomarca da marca ou os objetos que dão referência ao tema abordado, entre os quais podemos visualizar o Bumerangue, o 360º, floresta concreta (Figura 27, 1º foto), conceitual (figura 25, 3º foto) e ondas (figura 25, 2º foto); os que estão na parte da frente das camisas geralmente estão na cor vermelha, sendo esta aproveitada como ponto de coesão, como também aquecendo a coleção, pois é a única cor utilizada como tecido e cor de tratamento de superfície têxtil. A cor amarela que transmite a mesma sensação é encontrada na figura 23 (primeira foto), na forma de estampa de Sublimação, no tom verde amarelado (verde pistache) e no laranja do objeto Bumerangue na figura 25 (primeira foto). A leitura ofertada é que o design de superfície é utilizado como componente que dá às peças a localização do tema, pois não averiguamos o mesmo sentido em outro elemento de design. Geralmente são aplicadas em cores que contrastam com a cor do tecido, chamando desta forma a atenção para o objetivo do tema e ou marca. A composição em estampas de círculos (Sublimação), listras, quadriculada e camuflada (estampas corridas) confere à coleção um caráter inusitado, com o intuito de combinar as configurações dos looks de forma anacrônica, principalmente no uso de listrado e quadriculado na mesma foto. A estampa corrida, obtida durante o entrelaçamento da trama e o urdume do fio de Algodão, para se produzir o Tricô, são os Argyle33 e os Listrados nas peças de Cardigã. Localização de design de superfície nas figuras Design de superfície Figura/Foto 23 24 25 26 27 Silk Localizado 1ª Foto Corrida 1ª e 2ª Fotos 1ª Foto - 1ª, 2ª e 3ª Fotos 4ª Foto - Estampa 1ª, 2ª, e 4ª Fotos 2ª, 3ª e 4ª Fotos 4ª Foto 1ª foto 3ª Foto 4ª Foto 3ª Foto - 1ª e 2ª Fotos 2ª, 3ª e 4ª Fotos 3ª Foto 4ª Foto - - - 4ª Foto - Corrida Sublimação Linha/aplicado/não Bordado aplicado Tingimento Deep Dye Quadro 07: Design de superfície (elaborado pelo autor). 3.2.1.7 Modelagem A modelagem é, para o designer, o elemento de design onde será empregado o diferencial da marca; com este respaldo, ponderamos que deveria ser impecável no caimento ao corpo. A simplicidade recorrente na coleção nos mostra, contudo, que a mesma modelagem será reaproveitada para as coleções seguintes, mudando somente os detalhes com Silk e a lavagem. Não observamos o uso de Alfaiataria na coleção, técnica procedente da moda masculina que iria ao encontro do público-alvo e do conceito da marca, também não foi efetuada nenhuma moulage. A divisão, segundo Rezende (2011), segue a proporção de “a parte de cima começa pelo top, a gente chama de top, regata: 10 peças; t-shirts, aquelas camisetinhas que vão só com a marquinha: 06 modelinhos; depois você vem na t-shirt estampada, que é forte [são] 42 peças”. 33 Padrão de losangos multicoloridos (inspirado do Tartã* do clã escocês Argyle) outrora tricotado à mão na Grã-Bretanha, mas hoje feito à maquina em todo mundo (O’HARA, 1992, p. 23). *O Tartã ou Tartan, originou-se na Escócia e refere-se a um tipo de tecido com trama fechada, cujos padrões diferentes de xadrez têm sido usados na identificação dos diversos Clãs. Na Europa, o tartã popularizou-se na moda a partir de 1840, devido às frequentes incursões da Rainha Vitória à suas propriedades em Balmoral, Escócia (SABINO, 2007, p.573). Não temos a informação completa da divisão do mix de produtos ofertados a cada coleção, pois a menção é incompleta, não se referindo totalmente à quantidade de peças da parte superior; também não há nenhum registro de informação sobre a parte inferior, sabe-se que o custo médio por peça é estimado em R$ 60,00, mas podemos identificar pelas fotos remanescentes do site da marca34, que encontramos os seguintes números de peças: (a) blusas malha, manga curta: oito; (b) blusas malha, manga longa: onze; (c) casaco: quatro; (d) camisa algodão (botão): três; (e) casaco de tricô: cinco; (f) casaco moletom: dois; (g) blusa polo: uma; (h) bermudas: cinco; (i) calças: quatro; (j) acessórios: dois. A somatória é composta por 34 peças superiores, 9 na inferior, seguindo o padrão de consumo que tende a comprar em maior quantidade a parte superior do vestuário. 3.2.1.8 Silhueta A silhueta proposta para a moda masculina de outono/inverno 2011 nos remete À forma retangular na vertical, sem volume, a não ser pelo uso dos casacos, que não conferem volume à coleção. A silhueta continua reta e solta ao corpo, como poderemos avaliar nas figuras e fotos anteriores que registram a coleção - para uma melhor leitura, transformamos todas elas em silhueta. 34 Não utilizaremos o catálogo da coleção 360º para esta análise, pois acreditamos que ele deve ser mencionado no estudo, somente quando for observado e comparado ao editorial de moda; sabendo-se e constatando-se que, em suas configurações, há um número maior de mix de produtos. Figura 28: Primeiro demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. Figura 29: Segundo demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. Figura 30: Terceiro demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. Figura 31: Quarto demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. Figura 32: Quinto demonstrativo de comparação – roupa/silhueta. Após termos realizado da melhor forma possível o estudo dos elementos de design coletados para a concretização da coleção 360º, faremos uma suposição da matriz conceitual que originou o outono/inverno 2011. A matriz conceitual é um procedimento cujo objetivo é reunir as informações (tesouros) coletadas e colocá-las na forma escrita, possibilitando a visualização do tema abordado no que refere à inspiração e à referência. Possível Matriz Conceitual Coleção 360º Outono/Inverno 2011 Sensível inspiração impalpável (Insight/zeitgeist) Palpável referência expressão Cor Forma Design de Superfície Conforto Branco e Preto Solta e Volume Lisa e Bordado Mata Verde Solta Estampa Corrida e Silk Mar Azul Solta Deep Dye e Estampa Corrida Objetos Vermelho, Marrom, Laranja e Amarelo Solta Silk e Sublimação Tecido Malha, Moletom, Couro e Jeans Black Malha, Moletom e Algodão Algodão, Jeans Índigo e Tricô Malha e Tactel Quadro 08: Matriz conceitual (elaborado pelo autor). A matriz conceitual provável equivale à coleção outono/inverno 2011 e segue o padrão conceitual da marca. O conforto e a roupa básica encontram-se enraizados em sua distribuição de peças, formando combinações de fácil composição para o consumidor. Manoel Rezende elege um inverno de formas retas e soltas ao corpo, o tema de 360º é contado de forma sutil no andamento e nos looks que se sucedem à coleção. 360º sugere-nos uma falta ao redor de algum objeto ou mesmo de nosso planeta, deste modo, o ir e voltar que conduz a narrativa proposta fica apático nas estampas. O tema poderia ser bem mais alinhavado, em texturas e em modelagem - como nervuras e recortes. A tendência de camisas quadriculadas foi mantida em tons de verde e azul e a surpresa ficou por conta de sua combinação, em configuração de foto. O inverno é restrito a cores sóbrias com pitadas de vermelho, laranja e amarelo, sendo elas as responsáveis pelo calor da coleção. O verde oliva e o camuflado abrigam o homem urbano na selva de pedra ou em uma praia de veraneio; a praticidade vai ao encontro do que se que vestir. 3.3 Leitura da estilização do design Para a realização da leitura da estilização do design, teremos que perfazer duas observações e, por meios delas, confortá-las em uma presumível linguagem não verbal. Ambas as fontes encontraremos no casaco “TRASpassado”, sua elaboração conta na parte da frente em Tricô e a parte de trás, confeccionada em Moletom Flanelado. A manga raglã 35 é costurada no acabamento vivo36, dando a volta no capuz. Essa junção de manga e capuz origina-se em uma gola proeminente, cuja eficácia elimina ou substitui o uso de cachecol, segundo Resende. As fontes de pesquisas que usaremos como origem serão o catálogo da coleção 360º e o editorial da revista Duetto Fashion. O catálogo da coleção 360º conta com duas folhas em formato 30 X 21 cm, sendo usados os dois lados para a impressão, totalizando quatro páginas, nas quais são dispostas 44 fotos, sendo 10 nas páginas de 1 a 3, e 14 fotos na última página. A capa tem 26,5 X 21; em sua parte da frente está o nome da coleção e na parte posterior as informações das lojas, como endereços, contatos e Show Room. A ficha técnica dispõe dos seguintes nomes: fotógrafo: Aelson F. Amaral; produção e stylist de moda: Binha; assistente de produção: Rafaela Resende; logística: Ricardo Mattos; modelos: Vinicius Lana e Lucas Malcacine, este último foi o vencedor do concurso Mister Brasil 2011. Figura 33: Frente e verso do catálogo outono/inverno 2011 - General Cook. 35 Raglã é o nome dado ao tipo de manga inserida ao casaco, blusa ou mantô, a partir de costuras diagonais, permitindo uma maior mobilidade. O nome raglã foi dado homenagem ao lorde e comandante britânico Raglan (1788 – 1855), que, devido ao grande frio durante a guerra na Crimeia, sugeriu aos soldados que improvisassem um agasalho a mais, cortando cobertores. A maneira como cortaram e fizeram o agasalho acabou dando uma linha mais suave aos ombros, sendo logo depois lembrada e adaptada às vestimentas civis. A manga raglã começa na altura da gola da blusa ou casaco, confere um visual menos estruturado às roupas e tem sido adotada desde o século XIX até os dias de hoje (SABINO, 2007, p. 424). 36 O acabamento Vivo é muito parecido com o Debrum; a única diferença é que o Debrum se percebe nos dois lados da peça (frente e verso) e o Vivo não se aparenta no verso, sendo encoberto pelo overloque (Nota do Autor). Figura 34: Quatros páginas do catálogo 360º. A Peça “TRASpassado” encontra-se na segunda imagem e linha, sendo o 1º look. Com essa disposição, teremos no total de 44 configurações de looks. A peça “TRASpassado” encontra-se na página 1, na segunda fileira sendo mostrada na primeira foto. A linguagem de moda encontrada no catálogo percorre vários tópicos do que Jones (2005) descreve como sendo peças que relatam uma linguagem não verbal. Dos quatorze, poderemos perceber que o catálogo está inserido em três categorias. Na masculinidade (calças, tecidos pesados e roupas para atividades ao ar livre), na imaturidade (Blue Jeans) e na dominação (uniformes, cor preta e couro). A peça “TRASpassado” é fotografada na configuração de um casaco verde oliva em Tricô, camisa de algodão quadriculada em tons de azul, verde e vermelho, calça Jeans Black com lavagem Over Bleach, dobrada na barra e sapatênis na cor branca com detalhes em verde e vermelho (Figura 35). A peça é também utilizada para compor outra configuração, encontrada na mesma página, primeira linha, última foto, na qual observamos que o modelo esta vestindo: casaco verde oliva em Tricô, camisa de malha branca, camisa de algodão quadriculada em tons de azul, verde e vermelho, calça jeans preta com lavagem Over Bleach, dobrada na barra, sapatênis na cor branca com detalhes em verde e vermelho e cinto em tecido azul claro com fivela prata fosco. Os instes de linguagem são os mesmos já citados e perpassam a coleção dando uniformidade entre as peças. Ao terminamos os relatos do catálogo da General Cook, onde se encontra a peça “TRASpassado”, que será estilizada em um editorial de moda. O editorial que estamos nos referindo e o Figura 35: Configuração do look que utiliza a peça “TRASpassado” (catálogo 360º, General Cook). da revista Duetto Fashion, nº 03 de Maio de 2011, está localizado entre as páginas 122 e 131, intitulado de Warhol’s Superstars. O subtexto os conduz, sem qualquer margem de dúvida, sobre o tema e como será direcionado o editorial. Ao logo de sua carreira, Andy Warhol – artista multimídia que, além de revolucionar a concepção do que é arte, transformou todo um pensamento em sua época – tornou famoso um time de belas mulheres, travestis, escritores, músicos e artistas de diversos segmentos que frequentavam seu estúdio, mais conhecido como “The Silver Factory”. O local era ponto de encontro da turma mais cool de Nova York, nas décadas de 60 e 70. Escolhemos quatro personagens da vida de Andy Warhol para estrelar esse Shooting, nomes que ganharam, na história de sua vida, muito mais do que apenas 15 minutos de fama, através das mãos do artista (FASHION, 2011, p. 122). O artista norte americano Andy Warhol (1928-1987) está inserido no movimento designado de Pop Art. A arte popular originou-se na Grã-Bretanha na década de 1950 e nos Estados Unidos, onde ganhou notoriedade por volta dos anos 1960. Entre os artistas que optaram pelo estilo, além de Warhol, podemos ressaltar alguns nomes como de Roy Lichtenstein (1923-1997), Claes Oldenburg (1929), James Rosenquist (1933) e Tom Wesselmann (1931-2004). O norte do movimento iria ao encontro do consumo e do modo como o consumidor era incentivado a comprar. A revolução industrial produzia bens manufaturados duráveis no seu padrão estilístico, justamente a rejeição à não-durabilidade de estilo, o contestar dos artistas. “Descobriu-se que o consumo psicológico era infinitamente mais rápido do que o consumo de objetos; basta apresentar um novo tipo de produção, e imediatamente o velho torna-se obsoleto, caduca” (ARGAN, 1992, p. 581). Será nesse território de criação, que Warhol coletará imagens e objetos e o transfigurará em arte, indagando o consumo por meio de seu “expressionismo, para definir os aspectos de suas imagens” e objetos (Ibidem, p. 584). Em suas obras, o uso de cores fortes em objetos do cotidiano, serigrafia, colagem e materiais descartados, aliados à personalidade intrigante conquistaram crítica e o próprio consumidor; o mesmo público que era questionado em sua obra. Assemelhando-se de certa forma, a ação criadora de coletagem de recentes produtos lançados no mercado e utilizados pelo stylist/bricoleur, como nova leitura/imagem de moda, para a interpretação da moda acarretando possivelmente, novos modismos para o designer de moda em seu processo de criações de futuras coleções. Novamente estamos nos enveredando pela metodologia de expressão criativa do humano e será com ela que tentaremos deglutir as páginas do editorial de moda; para tal, cada personalidade será retratada como Shooting; a revista traz um pequeno texto explicativo e também uma foto de cada uma. Na sua paginação dupla inicial, encontramos as quatro reunidas, duas de cada lado, cada uma já se apresentando via expressão corporal, empregando a configuração para se apresentar ao leitor, posteriormente, nas demais páginas que se sucedem, cada uma será retratada separadamente. Na foto da esquerda encontram-se Cany Darling e Edie Sedgwick. Figura 36: Apresentação das personalidades: Cany Darling, Edie Sedgwick, Christa Päffgen e Valerie Solanas – Primeira página dupla do editorial. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. Darling está sendo fotografada com ares de diva de cinema, cabelos soltos e trajando óculos Absurda, vestido de seda em estampa de onça e colar Espaço Fashion; ao seu lado, a modelo dando vida a Sedgwick. Com os cabelos presos ao estilo de 1960, partidos ao meio e usando saia brocada da Animale, brincos da Colcci, body, meia e sapatos de acervo; ao lado a primeira a ser mostrada é Christa Päffgen com calça pantalona com pregas em linho e top do acervo pessoal, cinto Bob Store e o sapato não está contido nos créditos. Valerie Solanas encarna o estilo francês, com um toque masculinizado pelos sapatos Oxford da Santa Lolla, camisa de tricoline da Forum, gravata de TNG (usada como cinto), calça xadrez da Animale e boina da Pralana. Solanas é a única a ser retratada de frente para a lente do fotógrafo, mantendo o olhar de provocação. Indagando ao leitor, que procura saber, quem esta o confronta-lo. A imagem projetada sobre as modelos é em vermelho com bolas brancas, o vermelho distorce a tonalidade de cada peça, mas gera uma imagem enigmática e bela. A apresentação do editorial conta com nove marcas. A primeira performance individual será a da modelo Nico: A alemã Christa Päffgen, mais conhecida como Nico, foi modelo, atriz e especialmente conhecida por sua trajetória como cantora. Em Nova York, conheceu Andy Warhol, que logo tratou de colocá-la em seus filmes e fazê-la vocalista da banda The Velvet Underground. Depois do álbum icônico com a ilustração de Warhol na capa – uma banana – brigas envolvendo ciúmes, amor e ódio fizeram com que Nico seguisse carreira solo. Introspectiva, biografias sobre a sua história nos dão conta de que ela não gostava muito do fato de chamar atenção apenas por sua beleza, tornando-se uma mulher melancólica em sua essência, ao longo da vida (FASHION, 2011, p. 124). Nico é homenageada em duas fotos, a primeira conta com blazer veludo Bob Store, cinto Corporeum, calça Fabulous Agilitá. No próximo look, teremos a calça e camisa Corporeum e bolsa D Store. A primeira foto retrata uma mulher sonhadora, com o olhar perdido no horizonte. O blazer em tom de vermelho contrapõe-se aos ton sur ton da camisa de seda branca e da calça em cetim bege, com alto relevo em arabescos florais. Nico é retrata posteriormente com o mesmo olhar perdido: o olhar foi mantido, mas suas roupas não condizem com o romantismo empregado anteriormente. A calça pantalona branca de cintura alta, conjugada com a blusa preta em organza transparente denota uma mulher executiva e forte, casando perfeitamente com a bolsa em couro tipo tiracolo. Para a execução dessa primeira leitura, contabilizamos quatro marcas de roupas para efetuar a imagem. Figura 37: Christa Päffgen - Nico. Segunda e terceira páginas do editorial. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. Vale lembrar que cada item citado advém de uma coleção de moda e, assim, foi criada toda uma abordagem para sua criação, empregando os elementos do design de moda. Não sabemos ao certo a qual look cada peça foi designada e também não podemos certificar todos os nomes dos tecidos aqui mencionados. A foto conta com a projeção ao fundo, em ambas as configurações, da banana criada por Warhol. Observando a segunda foto (direita) é que podemos afirmar isso, pois na primeira (esquerda) sua existência é menos revelada, pois logo acima delas há uma junção de imagem em tons de vermelho, azul, branco e amarelo que não nos permite reconhecer a sua forma, mas combina com o tom vermelho do blazer. Figura 38: Candy Darling sendo retratada em paginação dupla - quarta e quinta fotos. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. A configuração de Darling foi efetivada em preto e branco, tanto na vestimenta quanto na cenografia, sentada em pufes listrados, sendo os dois primeiros no lado aparente quadriculado. A imagem projetada é um dizer que nos relata a dificuldade de um travesti na época, ou até mesmo na atualidade. “Eu acho que todo mundo deveria gostar de todo mundo” (DARLING, 2011). A revista relata que a “querida” com os longos cílios da travesti Candy Darling e seus trejeitos ultra femininos declaravam, por si só, que James Slattery não nascera para ser um garoto. Atuou em vários filmes de Andy Warhol e alguns importantes do cinema americano, ao lado de Robert de Niro e Jane Fonda. Candy, que foi inspiração para canções de bandas como Rolling Stones e The Velvet Underground, faleceu aos 29 anos, vítima de Leucemia (FAHION, 2011, p. 127). Talvez pela morte prematura a “Querida” foi retrata usando somente as cores clássicas da moda, o look é configurado harmonicamente com a ambientação, sem os excessos de cores de Warhol. Compunha-se em vestido de seda preto e branco com estampa animal da Corporeum, underwear da Animale, open boot Santa Lolla e colete de pelo Skunk; somando assim quatro marcas. Figura 39: Edie Sedgwick em seus looks pretos – sexta e sétima fotos. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. A lata de sopa Campbell’s foi empregada em imagem em um cubo, provavelmente o mesmo em que Solanas apoiou-se com a perna na foto de abertura do editorial. Edie Sedgwick posa sorridente, e seu texto indica que talvez Edie Sedgwick seja a primeira it-girl de que se tem notícia na história, seus fashion looks “causavam” em NY, assim como suas atitudes-loucurinhas. Edie, que era socialite, foi atriz de diversos filmes de Warhol, sendo uma de suas amigas mais próximas. Mini-saias, maxibrincos e os olhos delineados eram as características mais marcantes de Sedgwick, que morreu prematuramente, aos 28 anos, vítima de overdose de medicamentos misturados ao álcool. Os balões em forma de travesseiros prateados da foto representam a instalação Silver Clouds, de 1966. Segundo contam, Andy Warhol também soltou um desses balões, certa vez, na Factory, num ritual que simbolizava a mudança do pensamento da época (FASHION, 2011, p 129). Tanto Sedgwick como Nico são as únicas a serem fotografadas com duas configurações, em ambas Edie mostra-nos explicitamente a felicidade. Na primeira, Edie apresenta-se sentada no cubo de Campbell’s e os balões referenciais da instalação mencionada; usa brinco da Colcci, underwear e carteira de acervo, casaco de pelo Colcci, legging My Place. Ao lado, com a foto projetada de Warhol em tons de verde e vermelho, usa novamente um look preto com vestido Skunk, brinco Almejar, legging de couro Reinaldo Lourenço (acervo) e boot Santa Lolla. A somatória de peças oriundas de diferentes marcas ou designer escabele-se em seis. Figura 40: Valerie Solanas sendo retratada como uso da técnica de serigrafia e com a peça “TRASpassado” – oitava foto. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. Finalizamos com as quatro fotos que antecedem o look relevante para nossa pesquisa; nela está registrada a estilização da peça “TRASpassado”. Como dito anteriormente, faremos um paralelo sobre como a peça foi fotografada pelo stylist da produção do catálogo da coleção 360º e como ela está inserida no editorial. Começaremos com a leitura da foto, nos padrões que estão sendo demonstrados de Valerie Solanas. Solanas e Darling foram fotografadas apenas em um look, sendo ele: óculos da Mormall, casaco de moletom com tricô General Cook (peça “TRASpassado”), camisa flanela TNG, bermuda Caricatura, bota Arpel Mulher, gravata (usada como cinto) e meia acervo; gerando cinco marcas para a configuração da foto. Sobre quem era Solanas o texto explicativo nos confere que a escritora e feminista Valerie Sonalas não seria exatamente uma superstar de Andy Warhol se não tivesse atirado no artista. Em 1968, num surto de loucura, por acreditar que Andy tivesse roubado os manuscritos de seu livro, atirou à queima-roupa em Warhol, três vezes, mas apenas um tiro o acertou. Warhol escapou com vida, apesar de ficar alguns dias em coma. O evento foi pouco noticiado por causa do assassinato de Robert Kennedy, no mesmo mês. Solanas foi presa, mas Warhol negou-se a prestar queixa contra ela. Na época ele teria declarado que sua vida ganhara um novo sentido depois dessa experiência (FASHION, 2011, p. 130). Podemos perceber que o editorial transita em um direcionamento de estilo performático, cada modelo tende a se posicionar perante o fotógrafo com alguma nuance da personalidade daquelas “belas mulheres” que estão sendo mencionadas no editorial. Os textos explicativos conduzem o leitor a uma comparação do que se está lendo com a imagem que se está vendo. Também destaca-se o cuidado da produção na escolha das modelos que, de certa forma, assemelham-se com a beleza das Superstars. As peças/tesouros foram encontradas em dezessete lojas diferentes, quatro das quais são lojas multimarcas: as lojas Óticas Kika apresentam os óculos Adsurda e Mormall; a Casa Linda, a marca de chapéu Pralana; a Day After, a marca carioca Animale; e a Corporeum e Fabulous Agilitá podem ser coletadas na Flow. As demais são esconderijos (lojas) próprios de cada marca. São elas: Espaço Fashion, Colcci, Bob Store, Santa Lolla, Forum, TNG, Skunk, Almejar, General Cook, Caricatura e Arpel Mulher. A relação de design de acessórios e de roupas segue a seguinte divisão: as lojas de acessórios são Ótica Kika, Casa Linda, Santa Lolla, Alemejar, Arpel Mulher; as que proporcionaram a coleta de ambos os tipos de design somam quatro, compostas pelo Espaço Fashion, Colcci, Bob Store e TNG; as marcas que só cederam design de roupas, também somam quatro e são: Forum, Skunk, General Cook e Caricatura. Seguiremos o mesmo referencial de separação de tipos de design de moda que estamos abordando, em que o design de roupas elabora somente peças de vestimentas (camisa, calças, vestido, sais etc.) e o design de acessórios as peças que compõem o design de roupas (meias, sapatos, brinco, cinto etc.). Perante essa diretriz, chegamos a um total de dezoito peças de acessórios e dezessete de roupas, totalizando trinta e cinco tesouros coletados em lojas. Para chegar ao total de peças colhidas para a realização do editorial, teremos de computar as peças de acervo. As peças de acervo são peças tesouros atemporais, que podem fazer parte da coleção pessoal do stylist, da produção ou mesmo de pessoas que os “bricoleures” conhecem ou vão ao encontro de uma “bricol[ação]” para descobrir onde podem descobrir peças que agreguem valor ao editorial. Podem ser peças antigas de valor sentimental, de coleções passadas, roupas de caracterização (figurino), museus, brechós ou serem provenientes de outros lugares que denotem a ação de procura do bricoleur stylist, que encontrará o tesouro esperado escondido. No Editorial Warhol’s Superstars, contamos com dez peças tesouros de acervo entre acessórios e roupas; o conjunto de linho, o top, o peep toe, o colete, body encontram-se na página de abertura do editorial que localiza as quatro personalidades; o legging de couro de Reinaldo Lourenço, a underwear, a carteira do look de Edie Sedgwick; o cinto e a meia da configuração de Valerie Solanas, todas essas peças são creditadas e vinculas à produção do editorial. A ficha técnica do editorial é composta de: Modelo: Julia Damke (Candy Darling), Elisa de Paula (Edie Sedgwick), Karine Marques (Nico) e Manoela Marandino (Valerie Solanas), 40 Graus Models; Conceito: Raquel Gaudard; Produção e Stylist: Aline Firjam, Camila Sigiliano e Raquel Gaudard; Assistente de Produção: Danyelle Almada; Hair: André Pavam; Make-up: Duda Pavam; Foto: Márcio Brigatto; Cenografia com projeção de vídeo: Luiz André R. Gama (VJ Lab) (FASHION, 2011, p. 131). Nos créditos das fichas técnicas podemos encontrar informações difusas, quando usamos o conceito de stylist mencionado em nossa pesquisa. O conceito, do modo como está sendo abordado, é diretamente proporcionado pelo oficio de styling, que também direciona a direção de arte do editorial. As projeções de vídeos têm em sua essência a criação da linguagem abordada no decorrer da seção de fotos. Toda a construção foi planejada para caracterizar as personalidades retratadas, dando a intenção de uma sequência, ao mostrar ícones da obra de Warhol, não sendo necessária - a quem criou o modo de representação - a obrigação de fazê-lo. A Lab foi a empresa contratada para a realização das projeções, através de Luiz André R. Gama, executor técnico da ideia, que podemos acreditar ser de Raquel Gaudard, uma vez que ela aparece nos créditos em três expoentes de criações e ofício; o primeiro nós já citamos, sendo o conceito do editorial, e o outros de Stylist e Produção. Apontamos que produção não é stylist, ambos os trabalhos são divididos por uma linha tênue. A produção é orientada na execução da criação (SABINO, 2007). Por meio dessa ponderação, podemos relacionar a produção de moda a um trabalho de bricolagem, no exercício de feitura e procura de objetos tesouros, mas sendo orientada ao seu desempenho. Cabe ao stylist esse procedimento de criação e norteamento do editorial. Gaudard acumula funções intrínsecas do stylist/bricolariano e, por essa razão, chagamos à possibilidade de ser ela a autora, podendo galgar o crédito como stylist nos procedimentos que apontamos pelos autores Garcia e Miranda (2010) , Sabino ( 2007), Jones (2005) e Dingemans (1999). Seguindo por esse percurso conceitual de denominações relevantes à nossa abordagem, usaremos a criação de Gaudard e de Ataliba Junior (Binha), para a demonstração da estilização da peça “TRASpassado”; o recurso que iremos usar é a concretização de quadro em que pretendemos inventariar e relacionar as produções. Figura 41: Estilização da peça “TRASpassado” da direita para a esquerda: Catálogo General Cook e Editorial Warhol’s Superstars Inventário e relações de “configurações” dos looks Empresa Revista Duetto Fashion General Cook Meio/Foto Editorial Catálogo Warhol’s Superstars 360º Divulgação do que está usando e configuração de novos looks Dez Divulgação e venda de coleção Raquel Gaudard Ataliba Junior Aline Firjam, Camila Sigiliano e Raquel Gaudard Ataliba Junior Danyelle Almada Rafaela Resende André Pavam e Duda Pavam Sem créditos ou não executado Márcio Brigatto Aelson F. Amaral Luz Oblíqua Frontal Plano Fotográfico Frontal Frontal Total Total Vinicius Lana Manoela Marandino Postura dos Modelos Logística Indagação/afrontamento e contato pelo olhar com o observador Sem créditos ou não executado Casual e contato pelo olhar com o observador Ricardo Mattos Cenografia Imagens projetadas por Luiz André R. Gama (VJ Lab), livros e pufes Moletom tricô (General Cook), Camisa flanela (TNG), Bermuda (Caricatura), Bota (Arpel Mulher) e óculos (Mormall) Fundo preto realizado pelo fotógrafo Casaco (“TRASpassado”), Calça Jeans Black (Lavagem Over Bleach) e Sapatênis (Branco com detalhes em verde e vermelho) Cinto e meia Sem créditos ou não executado Verde, marrom, preto e vermelho Verde, marrom, preto, branco e vermelho Tricô Tema Fins Número de Páginas Stylist Produção de Moda Assistente de Produção Beleza Fotógrafo Enquadramento Fotográfico Modelos Roupas e Acessórios Roupas e Acessórios de Acervo Cor Tricô e quadriculado Textura Linguagem de Moda Estilo Estilização Quatro Masculinidade (gravata e tecidos pesados), feminilidade (cinto apertado), imaturidade (jeans e sapatos baixos), inteligência (óculos e pasta de documentos) Militar Masculinidade (tecidos pesados), Imaturidade (Jeans) Capuz O capuz estilizado como gola rolê Casual Quatro 09: Inventário e relações de “configurações” dos looks (elaborado pelo autor). Conforme podemos ver na figura 40 e no quadro 08, a peça “TRASpassado” foi empregada nas duas configurações de looks, como também em ambas as publicações, que são os registros de moda de outono/inverno 2011. O casaco faz parte da coleção com o tema 360º, em que o designer desenvolve sua criação para um conceito de animais e objetos, que sempre tem ciclos de ir e voltar. Na sequência observaremos o editorial de moda, da revista Duetto Fashion, com o embasamento do artista Andy Warhol, perante as informações colhidas em todo o processo, bem como a execução do design e do designer. A função do stylist nas duas configurações deveria estar, ou pelo menos, pregaremos como se o tivesse feito, nos conceitos dispostos no decorrer de nossa pesquisa. O stylist, em ambos os casos, obtinha um conceito preestabelecido e planejado para ser concretizado. É por essa realização denotada no quadro 08 que iremos prosseguir. O intuito do material (catálogo e editorial) tem diferentes parâmetros de públicos e de idealização, um é feito para a venda e divulgação de uma coleção. As peças têm a mesma orientação de tema, proporcionando, dentro da coleção, a mesma narrativa combinatória de peças, cores, design de superfície, tecido e modelagem; os itens referenciais que foram coletados e eleitos são transformados em elementos de design e orquestrados para ordenar a composição de uma coleção. O editorial tem o intuito de informar ao leitor quais peças estarão ou já se encontram à venda, seu preço ou outras formas de combinações de roupas, além das tendências da estação em beleza e vestimenta. O editorial, não tendo somente um padrão de cabelo, galgou uma sequência de caracterização dentro do universo de cada personalidade retratada; a maquiagem de correção e básica deve ter sido eleita para dar uma coesão à beleza assinada por Duda e André Pavam: pele bem feita com olhos marcados levemente de preto, pouca sombra no lado exterior das pálpebras, blush em tom pêssego e boca vermelha. A única que não teve essa definição foi Solanas que, como escritora e feminista, teve a maquiagem por conta somente de correção e ausência de batom, blush e sombras (Figura 42). Figura 42: Imagens retiradas do editorial Warhol’s Superstars. Poderemos observar as personalidades retratadas e suas caracterizações. Direita para esquerda:1º fileira. Nico e Darling. 2º feleira: Sedgwick e Solanas. Fonte: Revista Duetto Fashion. nº 03, 2011. Os fotógrafos, ao registrarem a peça, deram diferentes ângulos na luz projetada para os modelos: enquanto Márcio Brigatto conduz a iluminação na posição oblíqua (lateral), Aelson F. Amaral direciona o look da General Cook numa luz frontal; os dois fotógrafos igualam-se no plano de fotografia, em que ambos direcionam suas lentes de frente para os modelos. O resultado é o enquadrando total dos modelos e da roupa. Os modelos posam de formas diferenciadas: o modelo Vinicius Lana encontra-se em uma pose casual, com perna esquerda apoiada e mão do mesmo lado, ligeiramente no bolso da frente da calça, e o olhar direto para a câmera. O capuz está bem demonstrado: o modelo o usa e podemos ressaltar o trabalho no acabamento vivo em marrom e a manga raglã. Em relação às outras peças envolvidas na obtenção da foto, encontramos: camisa xadrez nas cores verde, azul e vermelho em algodão, calça Jeans Black e sapatênis branco com detalhes em verde e vermelho - somando quatro peças para compor o look. Na configuração de Solanas, encontramos cabelos e maquiagem limpos, a foto é constituída com ambas as pernas afastadas no plano frontal, seu torso está ligeiramente inclinado para a direita e sua mão esquerda em direção do fotógrafo, dando uma conotação de indagação; a mão direita está segurando um cinto marrom; também segura cinco livros, sendo o primeiro sobre Pop Art; o olhar encontra-se, do mesmo modo, direcionado para o fotógrafo. A composição conta com short marrom xadrez, que podemos acreditar ser na cor preta, compondo com a camisa flanelada xadrez nas tonalidades de preto, cinza, branco e vermelho, meia preta e bota marrom em estilo militar. O casaco foi acinturado por uma faixa preta, que acreditamos ser de lutas marciais. A mesma peça foi estilizada, seu capuz foi transformado em uma gola Rolê; também foi retirada da peça a gola alta do transpasso, que deriva da manga Raglã. Sua função era proporcionar proteção ao pescoço, evitando, através dessa modelagem, o uso de cachecol, como podemos nos deleitar ao ver nos desenho da ficha técnica e do croqui técnicos expostos, abaixo. Figura 43: Desenho da ficha técnica e o croqui de moda da peça “TRASpassado”. Os itens coletados em lojas somam cinco peças da estação, com o acréscimo de dois itens de acervo e mais dois de cenografia (o cinto e os cinco livros) – no total foram empregados treze elementos para constituir a imagem fotográfica. A imagem de Solana deve ter sido fotografada em fundo branco e, logo após, recortada para se obter o estilo de uma das técnicas usadas por Warhol, a serigrafia. A imagem foi colocada em fundo azul e replicada em mais quatro, nas tonalidades azul negativo, vermelho, sépia e verde; todas com saturação na manipulação da cor, igualando-se aos quadros do artista. O estilo casual da imagem da General Cook foi substituído por uma mulher no estilo militar, contemporânea, com a combinação de short e camisa xadrezes. O acabamento vivo na tonalidade marrom conjuga-se com a bota; comunga também com o cinto na cor preta, com meia e blusa xadrez; nessa configuração, encontramos a cor do casaco, sendo esta a peça em destaque, a cor mais clara do look e com o maior peso. O origami da configuração em ambas as imagens nos conduz ao que podemos conotar de conforto e abrigo, delimitando a linguagem de moda, entre o masculinizado, o feminilizado e a imaturidade com menções aos estilos casual e militar. Considerações finais Pinçamos, no decorrer desse estudo, alguns dos movimentos tangentes ao design, à moda e à arte; dessa trajetória, podemos acreditar que o ofício de styling ecoa na sociedade desde que o oficio do designer originou-se, todavia dissimulado ou ainda não tendo sido descoberto o que se é - creditando ao designer a uma proliferação de estilos. Moda, como vimos, é uma escolha, e para ser ter uma modus, teremos de ter o consumo do que se pretenderia que não ficasse somente em uma tendência de ciclo curto - os eternos modismos que fazem o ciclo da moda ser o que é e a mantêm viva em sua natureza emblemática de consumo contemporâneo. Assim, a moda sempre tende a ser outorgada pelo consumo e pelos meios de comunicação; atualmente o alcance de um editorial de moda idealizado pelo stylist tem, em seu escoamento, uma visibilidade nunca antes vista nas mídias, sendo ele um dos condutores do paradoxo “velho e novo”. Velho ao se desfilar: desfilando o seu design, a marca ou designer demonstra o que se considera ser tendência para uma temporada, refletindo da melhor forma possível para o seu público, o que se pretende efetuar como consumo de moda. O novo, por sua vez, será pleiteado em harmonizar várias tendências estilísticas de marcas e designers em uma configuração de um look que, por seu meio criativo, também se tornará velho aos olhos do consumidor, quando folhear suas páginas, mas ao lançar novas formas de “configurações” de peças, tornando-as referência, que poderão ser coletadas para as próximas temporadas de moda. O consumidor se enaltece, ao ver o prolongamento do que seria estático (agrupamento de peças de desfiles) - ou pretenderia ser -, combinações de peças de roupas, originando novas leituras não-verbais, nunca antes vistas. O papel de lançar modismos sempre existiu em solo fértil da moda, e sempre houve pessoas e profissionais que mantinham essa luta de classes (aparências) em estado de luta do corpo, como forma (meio/mídia) primária de individualismo ou de representação de estilo. Do costureiro ao diretor de criação, esse há de ser o perfil para quem está efetivando o design de moda, que deve também ter o conhecimento e ser parte integrante da sociedade que deseja comprar sua criação. Por essas razões é que acreditamos que o stylist sempre existiu em nossa sociedade, e acreditamos também que há de sempre existir alguém que olhe de forma diferenciada para a moda e, por meio desse olhar, nos proponha novas formas de expressão, como nos aponta Argan (1992). Simmel (2008) e Veblen (1980) não poderiam, em seu tempo, ter o olhar acerca do que, na atualidade, suas reflexões apontariam, para calcar o individualismo promovido pelo look/configuração do stylist. Não estamos fazendo uma relação com a leitura de ambos sobre o seu tempo, mas com o modus se opera a sociedade no tempo em que se vive. Bomfim (2002) afirma que a tecnologia é, em cada época e em cada tempo, de certa forma, uma escada para novas descobertas; cada qual com seu valor perante o que se ofertou como inovação. Ao propor o novo, não poderemos retroagir ao tempo antigo: ao observamos Poiret, percebemos que este é um caminho sem volta; ao elegermos Chanel, demostramos que a trilha nem sempre será fácil, mas necessária a quem é contemporâneo ao seu tempo. A moda pertence ao repertório do atual, e o papel do stylist é selar e estar sempre a um passo do que é modismo. Os tesouros coletados em sua “bricol[ação]” sempre hão de ter fragmentos de sua vida, sua experiências, seu gosto, seu contentamento e descontentamento, seu prazer, sua vida... E pelo fato de sua própria vida não parar em descanso, ele tende a ser uma ação permanente de resgate e elaboração de recentes produtos em novas roupagens. Não se contendo, o stylist promove a estilização daqueles ou de outros, velhos produtos. Temos de rever o conceito de estilização, não como uma questão de bom e mau design, mas alocá-lo em seu tempo, nos anos de 1970. A estilização, como também a customização e o vintage, são meios por meio dos quais o reaproveitamento de produtos recém-lançados no mercado - ou há muito tempo ofertados - é reciclado. O reaproveitamento condiz com a sustentabilidade e, assim, é intrínseco a nossa época. Esse tempo não se importa com a questões de gênero, “TRANSgride” os velhos modelos vigentes na cultura e na moda ocidental; não sendo aplicado na demonstração do suporte humano que desfilará ou posará na frente na cenografia/ambientação de um desfile ou editorial de moda. Relatamos aqui uma “TRANSexual” com o invólucro feminino e uma mulher passando-se por uma; uma peça genuinamente desenvolvida para a moda masculina, a peça TRA[N]Spassado foi estilizada para uma configuração feminina. Todos esses relatos ofertados no estudo são, ou deveriam ser, creditados à criação de um stylist, que promove, em seu ofício de styling, uma forma de design, segundo a reflexão de Cardoso (2008); uma criação genuína com paramentos artísticos e estilísticos, eternizando em foto a sua coleta de desdobramentos de suas expressões criativas em forma de looks/configurações Da coleta à reelaboração e coordenação de postura; da escolha do modelo, maquiagem, cabelo à cenografia/ambientação, ao direcionamento da foto: encontrar os subconjentos/subculturas de roupas e acessórios para, por fim, instaurar a imagem a ser lida como leitura não-verbal e imagem de moda - essa será a sua assinatura, que legítima o seu estilo de criação. O ato de assinar nasceu com o que chamamos de moda, nas considerações que Worth proclamou. Somente um criador sabe como é a sua grafia de estilo, como Yamamoto, no filme de Wenders, deslizando o giz em várias versões imperceptíveis de ortografia: somente o criador saberá o fim, e esse será imortalizado e visto por quem chegar a sua loja. Talvez sempre esperemos demais de um styling de moda, porque, para nós, um criador é aquele capaz de devassar nossa vida prosaica, disponibilizar-nos novas formas e conexões com este mundo, por intermédio do corpo e do contexto. Assim, é essencial ao stylist ser bricoleur, e promover a sua “bricol[ação]”, à procura de algo que nunca terá fim, uma vez que você, como ele, não pode disciplinar o contemporâneo: é o contemporâneo que te disciplina. REFERÊNCIAS Bibliográficas AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapeco - SC. Ed: Argos, 2009. AGUIAR, Titta. Personal Stylist: Guia para consultores de imagens. São Paulo. Ed: Senac São Paulo, 2003. ARGAN, Carlo Giulio. Arte Moderna. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1992. 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Figura 14 Esquerda para direita BRAGA, João. Histórias da Moda: Uma narrativa. São Paulo: Ed. Anhembi Morumbi, 2007. SEELING, Charlotte. Moda: O século dos estilistas 1900-1999. Itália: Ed. Könemann, 2000. ______. Moda: O século dos estilistas 1900-1999. Itália: Ed. Könemann, 2000. Figura 15 SEIVEWRIGHT, Simon. Pesquisa e Design. Porto Alegre: Ed. Bookman, 2009. Figura 16 SEIVEWRIGHT, Simon. Pesquisa e Design. Porto Alegre: Ed. Bookman, 2009. Figura 17 Disponível em http://ffw.com.br/desfiles/paris/verao-2010-hc/jean-paul-gaultier/home/ Acesso em: 26 out. 2011. Figura 18 BOUDOT, François. Christian Lacroix. São Paulo: Ed. Cosac & Naif, 2000. Figura 19 BUSINESS, Fashion. Convites da 17ª e 18ª edições. Figura 20 RESENDE, Manoel. Foto de arquivo. Figura 21 RESENDE, Manoel. Foto de arquivo. Figura 22 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 23 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 24 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 25 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 26 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 27 Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 28 Esquerda para direita Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 29 Esquerda para direita Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 30 Esquerda para direita Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 31 Esquerda para direita Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 32 Esquerda para direita Disponível em: www.generalcook.com.br Acesso em: 15 nov. 2011. Figura 33 General Cook. Capa e contracapa do catálogo da coleção 360º - outono/inverno 2011. Figura 34 General Cook. Catálogo. Figura 35 AMARAL, F. Aelson. Foto de arquivo. Figura 36 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 37 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 38 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 39 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 40 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 41 Esquerda para direita AMARAL, F. Aelson. Foto de arquivo. DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura42 DUETTO, Fashion. Warhol’s Superstars, 2011. In: The Winter Issure. Duetto Fashion, v. 03, Maio, 2011. Figura 43 RESENDE, Manuel. Croquis e desenhos da coleção 360º - outono/inverno 2011. ANEXO 1 ENTREVISTA COM MANOEL RESENDE PROPRIETÁRIO DA MARCA GENERAL COOK Marcelo Mostaro: Manoel há quanto tempo que você trabalha com moda? Manoel: Na verdade eu comecei em 1981 em lojas de multimarcas, era uma loja na rua Braz Bernardino, em Juiz de Fora. E, depois eu continuei com a questão de moda e parti para uma outra atividade que era motocicleta, e depois eu voltei e criei essa marca em 1997. Então, com essa marca, General Cook, eu estou com ela faz 13 anos Marcelo Mostaro: Qual o conceito da General Cook? Manoel: A princípio, quando eu criei essa marca eu tinha uma relação muito estreita com a questão de rally, de enduro, coisa relacionada a esporte outdoor. Então eu criei uma ideia na loja de fazer roupa mais, vamos chamar assim, mais grossa, mais resistente e direcionei para esse lado, só que no decorrer das coleções a gente foi percebendo uma lacuna no mercado que era um life style, então a gente tendeu para esse lado mas não perdemos a raiz de um pouco de outdoor que a gente leva as coisas. Sempre tem nas coleções cores básicas assim relacionado a esporte outdoor, no caso do cáqui, chino, essa linha assim.,. E hoje, o conceito é um life style que atinge uma faixa etária extensa, que é de 14 a 50 anos, a gente tem cliente. Então eu acho que é um life style. Marcelo Mostaro: Mas, pra que tipo de público que você já definiu e a classe social? Manoel: A e B. Desde o princípio, fizemos peças com valor agregado alto. Primamos muito pela qualidade, pela pesquisa de produtos, pesquisa do que as pessoas querem naquele momento, em cada coleção, o que a pessoa está buscando no mercado, que tipo de comportamento que as pessoas estão vivendo naquele momento, e a gente puxa a roupa, a coleção, sempre para esse lado, o lado que a pessoa está querendo, não às vezes muito engessado no que a moda está ditando especificamente. Sempre a gente tem alguma coisa na coleção que é o que a pessoa está ansiando, o que que a gente acredita, que se a gente colocar na vitrine o cliente vai ficar feliz com aquilo ali, gostar de usar, e acaba que vira moda Marcelo Mostaro: A General nasceu exclusivamente como moda masculina. Hoje vemos que você tem uma pequena porcentagem na sua arara de moda feminina. O público que pediu ou como que você pretende aumentar essa participação da roupa feminina na sua coleção? Manoel: A tendência de toda marca que a gente percebe, ou pelo menos as lojas que a gente observa, porque estão relacionados ao mesmo mercado nosso, o que nós percebemos é que as pessoas começam com o masculino, e o masculino é uma moda, eu acho legal de fazer, eu gosto de fazer o masculino, mas o homem compra menos, agora hoje a gente tem percebido que as pessoas estão mais vaidosas, e vão acabar comprando mais, isso é uma tendência. Mas as pessoas sempre vão até um determinado caminho com o masculino e depois eles dividem e partem muito para o feminino que é onde ganha-se bastante dinheiro. É uma moda muito mais perecível, naturalmente, mas que você vai pegando know raw e acaba partindo para isso. Não é o caso, não é o que eu gostaria, então eu mantenho um pouco resistente e não deixo passar de 10% da minha coleção, é de 10 para menos do feminino. Tanto é que agora estou desenvolvendo um atendimento à multimarca que a gente abriu mão totalmente do feminino, vamos fazer só o masculino. Agora o que a gente percebeu nesse período que a gente está no mercado? É que sempre as mulheres queriam que tivesse alguma coisa feminina. Foi por isso que a gente começou a fazer coisinhas muito básicas. A gente tem sempre um jeans que é muito interessante, mas ele tem duas variantes de jeans só, e ele é sempre aquele mesmo corte, brinca só com detalhes, e coisas mais básicas, coisas mais fáceis de vender, que não é muito sazonal. Marcelo Mostaro: Você fala que o básico... O que é o básico para você? Por que eu acho assim, que o básico, ele pode ser bem elaborado. Manoel: É exatamente. Eu acho que o interessante do nosso negócio é você conseguir fazer um básico bem elaborado e que ele não perca num tempo muito pequeno, que ele não fique, vamos chamar assim, totalmente fora de moda. Eu acho que o básico é por aí, é uma roupa que você vai ter, vai usar todos os dias, e até em ocasiões especiais, com algum acessório interessante, com alguma, por exemplo, uma calça básica com a parte de cima mais elaborada, então eu acho que básico é isso, é uma coisa que você não perde com tanta rapidez. A minha impressão é essa. Marcelo Mostaro: Seria uma peça atemporal? Manoel: Uma peça atemporal, exatamente. Uma coisa que a gente mantém. Nós temos produtos lá na loja, que é engraçado, que depois de 13 anos, nós estamos partindo para o décimo quarto dessa marca e nós tempos pessoas, chega a ser até engraçado, nós temos pessoas que têm peças da primeira coleção que foi feito na loja e que se você botar hoje, ela não vai ser assim, nossa está totalmente fora. Ela é uma peça muito bem elaborada, que é um casaco de lona e elas, até hoje, estão bem a tempo, bem atuais. Marcelo Mostaro: Quantas lojas próprias que você tem da General no Brasil? Manoel: A gente tem duas lojas próprias, e tem duas franquias. O nosso negócio é... A intenção em primeiro momento era de ampliar as lojas próprias, partindo para capitais, e depois atender mais e até abrir franquias, mas a gente mudou o foco um pouco, a gente vai partir mais para multimarcas que a gente, eu acredito que a gente consiga nesse momento pulverizar mais a marca, ela está mais conhecida no Brasil, capitalizar mais, estruturar melhor a empresa, e a gente conseguir realmente entrar em pontos especiais, por exemplo, em shoppings, em áreas nobres da cidade, que é um investimento muito alto e nesse momento, não seria conveniente nós fazemos esse investimento agora porque comprometeria o andamento dessa multimarca Marcelo Mostaro: Em Juiz de Fora existem duas lojas, e as outras cidades, quais são as outras duas lojas? Manoel: Ubá que é um laboratório. Foi a primeira loja que a gente fez como franquia, que anda certo, que hoje até eles estão fazendo uma mudança de endereço porque realmente está indo muito bem e tem uma em Muriaé, que é uma outra cidade de Minas também. Marcelo Mostaro: Quantas lojas de multimarcas que você atende no Brasil? Manoel: Hoje estamos com vinte e cinco lojas. Nós, nessa coleção que está vindo, nós pretendemos abrir vinte clientes em cada região. Nós estamos com cinco regiões para focar, que é o Nordeste, o nordeste dividido em duas partes, a parte da Bahia, uma na verdade é Bahia, os outros são o nordeste inteiro; São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A gente pretende abrir vinte em cada uma, que serão cem multimarcas, além das 30 que a gente tem hoje. Marcelo Mostaro: O mercado de moda hoje no Brasil está passando por uma efervescência. Como que você vê isso? Manoel: O mercado de moda... O momento talvez, no momento vamos falar assim, nesse período que do verão passado, nós estamos entrando no inverno agora, do verão pra cá, principalmente no vestuário masculino nós percebemos, eu não sei se é uma queda nas vendas em geral, ou se houve uma entrada muito grande de produtos de fora do Brasil. A questão do dólar baixo hoje, ele deu uma mexida no mercado, principalmente no masculino, pelo masculino não ser tão perecível, ser uma coisa mais fácil de se comprar, o vestido você compra, ele é cheio de ajuste. O masculino é uma coisa que você, uma camisa média você dá para uma pessoa que usa P, e ela acaba indo. Então o mercado masculino sofreu muito com a concorrência externa, muitas viagens pra fora, então a gente tem percebido isso. Agora, eu acho que a economia do país deu uma mexida, hoje se fala muito em inflação, e o vestuário eu acho que é uma das primeiras coisas, o primeiro mercado que sente é o do vestuário, que a pessoa abre mão de comprar roupa, para suprir as outras necessidades em função da inflação que está aumentando, mas, eu acho que a coisa, acredito que nesse segundo semestre volte a normalizar. Marcelo Mostaro: O seu perfil e da sua roupa, ele para agregar valor a essa roupa, você utiliza nas suas lojas a mesma narrativa, o mesmo conceito que você fabrica da sua marca? Manoel: A loja, a gente faz o seguinte: a loja é um ambiente que ela proporciona à roupa um diferencial. O que a gente percebe? Que às vezes um produto sai daqui e vai para uma loja multimarca e ela não tem o mesmo glamour eu tem no ambiente que a gente produz para receber essa roupa. Então a cada coleção a gente muda um pouco o ambiente, cria situações diferentes, mudamos móveis, mexe com a carinha da loja para ver que a gente mudou e, naturalmente, acompanhar aquela linha que a gente propôs na coleção. Marcelo Mostaro: Bom, eu te encontrei em dois momentos: uma 17ª edição do Fashion Business, no Rio, onde você estava lançando a sua coleção para compradores, e hoje estamos na sua loja que você já lançou a coleção 360º, que é a sua coleção de inverno 2011 para o público. Primeiro queria te perguntar por que você participou do Fashion Business? Manuel: Pois é, como há uma necessidade da gente ampliar o mercado de multimarcas, o melhor veículo é hoje, realmente o Fashion Business, porque o Rio de Janeiro passa por um momento muito positivo com relação a essas feiras. Perdeu-se muito o que tinha no Rio que eram as prontas entrega, que era um negócio que para nós que produzimos, ele era um pouco complicado, porque você não tinha a realidade do que você ia vender naquele período, era uma necessidade e a pessoa vinha e pegava. Era uma coisa que era muito boa para o cliente, o lojista. O que nós percebemos? Que de três anos para cá acabou isso, tanto é que eu tenho lá no Rio um escritório, um showroom em Ipanema, que tinha essa função de fazer uma prontaentrega, isso não funcionou, não funciona bem, lá funciona como um showroom para atendimento de representantes, produtoras de novela, TV e de moda, que vai lá e pega produtos, e, então qual é o caminho para você desenvolver e dar a cara no mercado? No primeiro momento fiz Rio-à-Porter, depois fiz Fashion Business e agora vou fazer Fashion Business de novo. A cada momento a gente percebe que cresce o número de clientes e cresce o número de peças pedidas, entendeu? As pessoas vão e estão voltando. Então a cada feira é um desafio diferente. Buscamos clientes, agenda clientes no Brasil inteiro, essa empresa que faz o Fashion Business tem um agendamento que traz oitocentas lojistas com todas as despesas pagas, hotel e passagem aérea, e isso de uma certa forma, amarra o cliente e leva esse cliente para dentro da feira. O cliente só goza desse benefício quando ele vai à feira, então, necessariamente ele tem que ir à feira, e nisso a gente acaba sendo visto. Foi o caminho que gente achou mais curto talvez para ampliar a multimarca. Marcelo Mostaro: Você vai participar da 18ª edição lançando a coleção primavera-verão? Manuel: Exatamente. A minha coleção de primavera-verão está prontinha. É um trabalho árduo, não é fácil, no momento em que está todo mundo, todas as fábricas produzindo para entregar o que foi pedido lá trás, que é o inverno, e você entram com pilotagem nas fábricas. Como a gente não tem fábrica, quer dizer, tudo terceirizado, a gente passa por um... Mas esse problema, depois que começa a conviver bem nesse meio, é geral. Todo mundo passa pelo mesmo problema, é uma correria, mas, enfim, é um desafio e a gente a cada ano vai aprendendo. Marcelo Mostaro: Como que você cria a sua coleção? Manoel: Pois é, às vezes parte de um item. Às vezes quando faço uma viagem para fora, ou até mesmo dentro do Brasil ou algum lugar que eu vou lá e vejo uma determinada coisa. Na coleção que vem, por exemplo, é stand up. Stand up é um tipo de surf que começou no Havaí há muitos anos atrás e era uma prancha muito grande, que o cara rema essa prancha. Isso foi no Havaí, e depois veio para a Califórnia, nos Estados Unidos. E qual era a função dessas pranchas? Os surfistas iam surfar e os caras precisavam de fotografar, e o meio que eles tinham era fazer as pranchas grandes, que tinha um equilíbrio muito grande, e remava, e os fotógrafos ficavam nessas pranchas e faziam as fotos dos surfistas. E aquilo acabou virando um esporte porque os surfistas que já não tinham mais tanto habilidade e queria permanecer no esporte ele acabava optando pelas pranchas grandes, que tinha um equilíbrio mais fácil e tal, e começaram a ter as travessias de stand up, e eu vi numa foto antiga essa prancha, e comecei dali a estudar sobre esse esporte e comecei a direcionar a minha coleção puxando para a década de 50, 60, algumas coisas, bermuda retro, estampas que remetem a esse tipo de esporte, e dali começa, e a gente vai vendo o que aquilo pede. Marcelo Mostaro: Mas a década de 50 ela está na pauta da moda como uma tendência. Você está seguindo essa tendência, ou então vai usufruir dessa tendência para jogar no conceito da General? Manoel: Pois é, eu vou usufruir dela. A gente vai pegar coisas que estão relacionados ali, mas o mercado, na verdade, existe dois lados, que a moda, você melhor do que eu sabe disso, você tem o lado que é conceito, que é você fazer coisas bacanas que mostram que você está sabendo, que você curte, que é aquela coisa, que não vou te falar que eu sou estilista não, mas que eu gosto de fazer, é brincar com o vestuário, só que na verdade tem um lado comercial, e esse lado ele pesa muito na hora de você começar a fazer, a mexer na sua coleção, porque você tem um momento que você fala, pô é muito legal, estou fazendo isso aqui, mas vender pra quem? Vender pra seis pessoas? Não, então você tem que dar ali a carinha que você está puxando para aquela época e botar o que realmente vende. Agora, a moda no meu caso, é um pouco diferente às vezes de algumas marcas. O feminino, por exemplo, se o cara pega a década de 50 que está muito em alta, a mulher aceita isso. Você bota na vitrine coisas que remetem muito àquela época e elas são muito mais acessíveis a isso. Quando você bota no homem, década de 60, por exemplo, 70, shortinho curto, acima do joelho para homem, a gente quase não vende, você faz para mostrar que tem, mas aquilo não tem venda, não dá lucro, não dá rentabilidade. Então a gente faz para pessoa falar, pô o cara sabe o que ta fazendo, uma camisa mais certinha, mais justinha, uma calça skinny, quando que isso pegou? Há uma resistência enorme do homem principalmente. Ah não, esse meu pé ficou muito grande aqui, então são coisas que depois vem acontecendo, você sabe disso. Por exemplo, o xadrez, a gente fez em três coleções atrás e agora está no auge, todo mundo só quer isso, aí você tem que partir pelo lado comercial, então você acaba fazendo porque o mercado está pedindo. Marcelo Mostaro: Nós falamos da sua próxima coleção, mas como que foi criada e desenvolvida coleção 360º que é a sua coleção de inverno 2011? Manoel: Ali a gente fez o seguinte: nós queríamos dar ideia de que a coisa é muito mais ampla do que o mundo, muito maior do que às vezes a gente ta vivendo num mundinho pequeno. Então a gente usou coisas que são cíclicas, que vão e voltam, por exemplo, então a gente mostrou a questão hoje de meio ambiente, a gente usou plantas, para a pessoa saber que aquilo ali é muito importante, que está num momento, como podemos falar? Muito em voga, vamos chamar assim, a questão do meio ambiente, botou a coisa do mar, a coisa de um surfista representando o mar, a gente foi mais pra um lado, caleidoscópio, por exemplo, coisa que gira, pegamos uma estamparia e colocamos um bumerangue que é uma peça que você manda e ela volta, pássaros, que a gente brinca com o lado ecológico, mas ao mesmo tempo é ... Por que esses pássaros estão aqui? Porque eles migram e voltam, eles fazem o ciclo da vida, eles saem lá de cima do Alaska, vão lá embaixo e voltam, no período deles, e voltam. Então as coisas foram surgindo na cabeça, coisas que fazem giro. Marcelo Mostaro: Essa pesquisa quem elabora é você? Manoel: Eu tenho uma pessoa que trabalha comigo que é o Marquinhos, a gente trabalha em conjunto. A gente vai conversando, ele pesquisa de um lado, eu pesquiso do outro, e a gente vai vendo o que a gente pode fazer. Um dá ideia, e daquela ideia a gente parte pra uma outra. São duas pessoas que diretamente estão envolvidas. Eu tenho, por exemplo, quando a gente chega na coleção, queremos fazer isso aqui, e a ideia é essa, e aí aparece o Binha no meio do caminho. O Binha trabalha comigo e ele me ajuda em vitrine, me ajuda em produção de vitrine, e o Binha aparece no meio do caminho que é onde a gente mexe com as cores das peças, para que a gente possa fazer uma coisa bem encaixadinha, então é um conjunto. Eu tenho uma filha que é envolvida com coisas de moda, então dá uns pitacos dela, e a gente vai pegando isso tudo para construir a coleção. Marcelo Mostaro: Quantas pessoas você emprega hoje na sua loja? Manoel: Eu tenho um escritório que emprega 4 pessoas, tenho 1 estagiário de administração de empresa, e na minha loja tem 11 pessoas. Em torno de 15 pessoas direto. Marcelo Mostaro: E no planejamento da coleção, quantas pessoas você coordena, que trabalham com você e que também são seus fornecedores? Manoel: Os fornecedores, a gente tem muitos no sul do Brasil, em São Paulo, no Rio, temos em torno de 12 fornecedores que são praticamente fixos. Quando a coleção pede algum produto que não está envolvido diretamente no meu dia a dia, então a gente busca outro fornecedor. O que seria isso? Por exemplo, quando eu abri a minha loja lá atrás, nas duas primeiras coleções, há 10 anos atrás, eu fazia um determinado casaco, que era um casaco pesado, de lona, essa fábrica só me fornecia isso. Então como eu fiquei 10 anos sem fazer isso, ele ficou fora dos meus fornecedores atuais. Agora ele voltou, porque eu quis reeditar essa peça, como era uma coisa 360, a gente quis voltar lá atrás, aqui na frente a gente quis voltar lá atrás, vamos recomeçar, então ela aparece de novo. Então esse fornecedor, as vezes, eles variam um pouco, por necessidade de algum produto. Marcelo Mostaro: E quantas pessoas que trabalham com você na criação? Manoel: Olha só, diretamente tem eu e mais três pessoas, de 3 a 4 pessoas. Eu não estou incluindo aqui, cada fábrica tem, cada fornecedor meu tem, por exemplo, o modelista. Essa modelista em determinado período da coleção ela fica por minha conta, vamos falar assim. A gente trabalha, às vezes, dois dias juntos, modelando peças, mas eu desloco daqui, vou dentro da fábrica da pessoa, que já tem toda estrutura de modelagem, pilotagem das peças. Isso eu não inclui no meu desenvolvimento, mas elas fazem parte, porque no mínimo 4 pessoas estão envolvidas dessa maneira comigo. Por exemplo, eu tenho um fornecedor no Rio, a gente senta junto com a modelista, desenvolve peça, corta, monta, ela acaba sendo uma pessoa que participou do meu desenvolvimento, mas, ela não é minha funcionária, é funcionária da empresa que me fornece. Marcelo Mostaro: Os elementos de design de moda que fazem uma coleção, que a gente poderia subentender que é o tema, pesquisa, tendência, cor, tecido, silhueta e a modelagem, qual, na sua opinião, é o que absorve maior tempo e com ele é a cara da loja. É onde que você presta mais atenção, é onde que você se identifica com este elemento para a composição da sua coleção de moda? Manoel: Eu acho que no meu negócio, no que eu trabalho tem duas coisas que são, que eu acho que são, não vou falar por mim, mas por quem usa: modelagem é um elemento que é muito importante, até mesmo é o que você conquista o cliente no caso do masculino, principalmente, que como eu te falei, é uma roupa que tem um período mais extenso de uso, a modelagem então acho que é a principal, e tecido. Porque o homem quando a gente consegue fidelizar muito o homem assim, no jeans, por exemplo, a gente consegue fidelizar muito as pessoas assim. Porque quando você tem um jeans que é muito legal, que tem uma modelagem boa, um material bom, um tecido bom, você fideliza a pessoa. Às vezes a pessoa compra a mesma calça, e vai mudando só a lavanderia. Isso é uma maneira que fideliza. Agora o que dá muito trabalho, em coleção é estamparia. Estamparia é um negócio muito complexo porque é o processo que depende de desenhista, do cara que faz o fotolito, da pessoa que estampa. E como a gente tem na maioria das nossas peças, vamos dizer 80%, tem algum tipo de lavanderia, algum tipo de trabalho para diferenciar, então a estamparia é o mais complexo de mexer, porque envolve muita gente nesse processo. Marcelo Mostaro: Essas três observações que você deu, é praticamente uma qualidade inerente da sua marca. Então se você gosta, principalmente, da modelagem, do tecido e de uma boa design de superfície, que é a estamparia, você prima pela qualidade do seu produto? Manoel: Pois é, vamos falar assim, esse é o principal do meu trabalho é a qualidade. Por exemplo a questão de aviamento que a gente usa, a gente busca o melhor que tem, a melhor qualidade. Eu tive uma conversa com uma pessoa essa semana que ele falou muito de preço comigo. E eu comecei a trabalha a minha cabeça para tentar diminuir custo, e a única maneira que eu tenho para diminuir custo e manter a qualidade que eu tenho é aumentar volume. E para aumentar volume eu tenho que, vou falar assim, dar um passo para trás, investir muito no negócio, fazer um investimento que é o que eu estou fazendo na verdade, e buscar novos compradores para esse produto. É a expansão de pulverizar essa marca. Então eu ando olhando custos. E o que que acontece? Se eu quiser manter a mesma qualidade, eu tenho que aumentar volume. E ter preço para eu conseguir ficar competitivo no mercado, ou eu trabalho com esses produtos que eu tenho, e eu acho que eles valem em qualquer lugar do Brasil, ele tem o seu espaço, porque é muito bem elaborado, é muito bem pensado, a gente pode se sentir modesto nesse ponto, porque realmente eu busco os melhores fornecedores das melhores marcas do Brasil. Fornecedores que através de mim hoje são fornecedores de Osklen, de Reserva, Richard’s, que é uma linha que vende camisaria, que hoje é o melhor fabricante de camisaria, um dos melhores do Paraná, e a pessoa trabalha comigo. Então, eu realmente, não tenho um custo muito bom de produto. Meu produto tem um valor agregado muito alto e eu não tenho volume, e acaba sendo uma peça, não vou falar que é exclusiva, mas há um certo grau de exclusividade nas peças. Marcelo Mostaro: Você esteve comentando sobre Osklen agora, e tem em Juiz de Fora, uma comparação entre a Osklen e a General, sendo a General a Osklen juizorana. O que você acha disso? Manoel: Eu acho que, para quem está no mercado como a Osklen, como pessoas que fazem um trabalho interessante, eu acho que é um orgulho para nós as pessoas falarem que há uma semelhança. Eu não busco essa semelhança. O que eu acho interessante é que as vezes a gente pesquisa no mesmo lugar determinadas coisas e o gosto dele acaba batendo com meu gosto e vice e versa. E isso, eu acho que pra mim é honra, é legal você falar que está comparado com pessoas desse padrão. Vamos falar Richard’s é uma marca careta, mas prima pela qualidade. Então é legal o cara falar: pô essa camisa tem uma cara de Richard’s, pó é legal, porque os caras até mesmo por estar em uma linha mais conservadora mas tem qualidade e tem o respeito no mercado, estão há cinquenta anos no mercado. Eu acho que talvez, por exemplo, por eu estar em Juiz de Fora, a minha visibilidade foi pequena, no período que eu estou, talvez se eu estivesse em outro mercado, que fosse mais aberto para o mundo, talvez eu estivesse num outro momento já, entendeu? Mas a gente vai buscando sempre, e sempre com o pé no chão. A comparação acho legal, não me incomoda em nada. Marcelo Mostaro: Você falou em três elementos do design, então eu vou te perguntar o que você acha dos outros elementos como tema da coleção. O que você acha sobre o tema? Manoel: Olha, o tema é a chave que vai abrir a nossa cabeça, as portas do nosso negócio. Agora, como te falei, a gente começa num “itenzinho” que é uma prancha, virou um tema que é o stand up, que é esse esporte que está lá. Então dentre esses elementos, todos eles têm a sua importância. Alguns são mais, por exemplo, quando você pega o tema, ele é importante? É, mas a partir do momento que você definiu ele, acabou, ele vai embora, é só você andar com ele, e vai embora. Agora, quando a gente fala de modelagem por exemplo, fez a primeira modelagem, e está resolvido? Não. Faz a primeira modelagem, e quando muda o tecido muda tudo, então é uma coisa assim mais trabalhosa. E Estamparia? Em cada tecido que você estampa, que você chama de design de tecido, cada tecido tem um resultado diferente. Então ela dá o trabalho dela. E assim vai. Mas todos eles são um conjunto. Marcelo Mostaro: E a pesquisa? O que você acha da pesquisa? Manoel: A pesquisa é o mais legal de fazer. Ainda mais quando você vai... O interessante disso, da vida em geral, é que você vai vendo que você não sabe nada. Cada momento em que você mexe com o negócio, ali tem tanta coisa envolvida e passava despercebido por você. Por exemplo, eu nunca tinha visto nada sobre stand up. Hoje até coleção eu já vi sobre isso, que fizeram, que apareceu na coleção de alguém, uma porção de coisas, de stand up. Olha só, cara, e eu nunca tinha visto isso, passava despercebido. Isso aí, tem um psicólogo, uma pessoa que conversou com a gente fala isso, quando você quer comprar um determinado carro, você começa a ver esse carro para caramba, e você fala: nossa como tem esse carro, e aquele carro está ali do mesmo jeito. Até eles falam quando a mulher está grávida, sua esposa ta grávida, você sai à rua e só vê mulher grávida. É impressionante. É porque você antena, liga naquele negócio. Então hoje a questão do stand up foi interessante, e tem um amigo meu que pratica isso e eu não sabia, ele falou: pô eu faço isso, cara. Eu estou tendo aula disso. E eu não sabia. Então é legal pra caramba. E o conhecimento das coisas também. Eu nunca sabia que tinha essa função pra fotógrafo, tinha vindo lá do Havaí, e assim vai, e você vai aprendendo. Marcelo Mostaro: E com relação à tendência de moda, como que você acha? Tendência que você vai aplicar na sua coleção. Porque isso é um dos elementos de design de moda Manoel: Olha só. Quando você fala da tendência eu imagino que seja assim: o que está acontecendo por aí e que vai ser a tendência. Não seria mais ou menos isso? Marcelo Mostaro: É você que me diz. Manoel: Então eu acho que é, porque quando você pega para pesquisa, por exemplo, qual é a tendência para essa coleção? Por exemplo, é jeans bem lavado, a tendência é a cor tal, essas coisas, é claro, que naturalmente a gente pega um pouco disso para não ficar fora também da realidade de todo mundo, mas eu não fico muito amarrado, por exemplo, se a minha coleção, eu não sei se no inverno, coleção que vem, se vai usar muito azul, mas eu botei muito azul. Por que? Porque é relacionado a mar. Então eu botei vários tons de azul, branco sempre tem, então quer dizer, aí você fala, nessa coleção apareceu uma camisa jeans... Marcelo Mostaro: Você já está falando em relação à cor. A cor representa para você o que na coleção? Manoel: A cor representa a relação com o tema. No primeiro momento eu uso o tema, vamos imaginar que o tema seja uma corrida de aventura, eu buscaria coisas que relacionariam com a cor de corrida de aventura, de uniforme de corrida de aventura, de calçados que são relacionados à corrida de aventura, mais rústicos, mais resistentes. Eu acho que é por aí. A cor é exatamente puxada pelo tema. Nessa que nós estamos baixando nela, ela foi muito ampla, porque em nenhum momento... Caleidoscópio tem milhões de cores lá dentro, então você não fica preso a nada. Aí a gente busca o que o cara vai pedir mais. É rosa? Não estou vendo ninguém falar em rosa, mas a gente tem a peça rosa. Marcelo Mostaro: Toda essa junção de modelagem, de pesquisa de tema, vai dar numa coisa que é chamada de silhueta, que é a forma que dá a coleção em relação à ??????? das peças, e o que representa para você? Manoel: (Risos) Marcelo Mostaro: Você só mexe com moda masculina que quase não tem, né? Manoel: Pois é, cara. Não tem muito como eu te falar em silhueta. Como você falou que é o conjunto de todas as coisas, na minha cabeça veio um cara vestido, a silhueta da pessoa vestida, um homem vestido com uma camisa que tem um cortezinho mais curto ou mais compridinho ou mais cintado, ou uma calça... Eu imagino isso, estou vendo um cara vestido com a minha roupa. Mais ou menos isso que eu vejo. É o conjunto desses elementos todos. Marcelo Mostaro: Você estava falando em relação à imersão num projeto, por exemplo, quando eu te encontrei a primeira vez, você estava inserido no projeto 360°, não sei se você reparou, mas tudo que o seu foco de criação fala está na nova coleção, que você está propondo agora, a futura. Porque querendo ou não quem fabrica a moda já está pensando no verão. Como é que é esse processo para você? Como que você transita? Porque querendo ou não, você está vivendo o agora o futuro das outras pessoas. Manoel: Pois é, isso é uma loucura esse negócio. Porque ontem quando mandei pôr todas as peças que vieram, que estão chegando, todas elas, botei lá na arara, eu estava vendo, e foi até um comentário que eu fiz que eu já enjoei dessa roupa que é lá pra setembro. Então aquilo ali pra mim, igual aqui hoje, tem hora que até eu me confundo. Se essa camisa é de agora ou é da outra, já está tudo perdido. Porque cria na sua cabeça uma confusão. Porque essa inversão, na verdade, ela tende a apagar tudo o que eu fiz pra trás, senão eu não consigo... eu não consigo. É muita coisa. Então tem agora que a gente perde onde a gente está. E essa antecipação das coisas, por ser quando eu não tinha essa questão de participar de feira era muito mais simples. Eu ia fazendo a minha coleção, eu vinha andando, e as vezes alguma coisinha atrasava e não tinha problema, porque não era necessário ter aquela coleção todinha já prontinha, porque as vezes no primeiro momento eu dava o start, depois no meio do caminho, opa, eu acho que podia colocar alguma coisa. Hoje a coisa mudou. Eu tenho que construir isso tudo, deixar isso tudo de sobreaviso, e fiz a feira, fizemos o pedido, o que vendeu, o que não vendeu. Tem peça até que eu tenho que abortar porque ela não teve uma aceitação tão boa. É um negócio muito louco, acho que por eu estar iniciando nessa área, está me deixando um pouco desgastado, entendeu? Marcelo Mostaro: Você tem um stylist que acompanha a sua coleção? Ou esse profissional é só para a fabricação do catálogo de moda? Manoel: Olha só, eu tenho uma pessoa que acompanha, como eu te falei. No primeiro momento, eu dou o start no meu negócio. Nesse meio do caminho quando eu crio o tema, vou pra estampa, ai vem a pessoa, que é o stylist que você está falando, que ele me ajuda na composição de cores, acompanha catálogo, acompanha vitrine quinzenalmente, muda a vitrine quinzenalmente, e ele dá os pitacos dele que são muito bem vindos, por ele ser uma pessoa que também está muito envolvida, tem uma visão mais ampla da coisa, do que só o meu momento que é, pro exemplo o stand up agora, ele tem uma visão muito mais ampla. Então o que eu preciso, às vezes, de um cara mais fashion no meu negócio, ele aparece dando... Então praticamente full time, só que não é o tempo inteiro, não é full time, é o cara que aparece a qualquer momento, e aparece sempre bem. Marcelo Mostaro: Então ele te acompanha? Manoel: Acompanha. Eu quis só determinar até pra falar da importância que ele tem no processo, mas não fica o tempo todo colado em mim. Marcelo Mostaro: O que que você acha em relação à formação superior em design de moda? Você tem um comentário, uma ideia sobre isso? Manoel: Eu acho que é importantíssimo para o mercado, importantíssimo para a empresa, eu percebo hoje que há uma necessidade no meu negócio e eu vou ter que montar uma estrutura dessa, tipo colocar pessoas que estão, que têm um traquejo técnico do negócio, ao invés de ser só prático, como é o meu caso. Que tem, como a gente pode falar? Que tem um estudo por trás, que é a necessidade do profissional de moda, para nos ajudar. Sem dúvida nenhuma, é importantíssimo. E vai abrir uma necessidade para mim, breve, breve, de eu contratar uma pessoa que tem toda essa técnica que adquiriu lá na escola, a teoria. Marcelo Mostaro: Qual o conceito de publicidade ou marketing que você faz para General Cook. Manoel: Pois é. Nós tivemos um momento muito, a gente fazia muita mídia, muitos catálogos, trabalhava muito com essa parte, era um momento de alavancar. O nosso negócio. Agora nós demos uma diminuída na propaganda dentro do nosso mercado em Juiz de Fora, porque a gente está focando em outro mercado. E nós percebemos aqui dentro que estamos num patamar aqui que não tem muita chance de crescimento por enquanto. Por que por enquanto? Porque a cidade, a economia da cidade não mudou, criou-se um shopping novo, esse shopping trouxe muito mais oferta de produtos, e a gente não consegue ter o crescimento que estávamos vindo tendo na mesma velocidade. Então a gente deu uma segurada em determinadas mídias e estamos focando mais em questão de catálogos, a questão de mídia Marcelo Mostaro: Você sempre faz um catálogo? Manoel: Um catálogo ou um look book. Nessa coleção que passou, houve a necessidade de fazer um look book porque essas pessoas que vão trabalhar para mim, na multimarcas precisavam de ter um produto mais a cara de homem, que fosse mostrando mais o produto. Então era para prospectar novos clientes, então foi feito uma coisa mais comercial Marcelo Mostaro: Falando em relação a última edição do Fashion Business: qual montante você pode falar que vendeu durante a exposição? Manoel: Em torno de 150 mil. 120 a 150 mil. Nessa coleção que vem agora, a gente pretendia 450, triplicar esse número, porque a gente buscou outros, não diretamente ali no Fashion Business, mas com esse representante que nós vamos trabalhar nas novas regiões determinadas lá, a gente pretende triplicar esse faturamento. É um faturamento pequeno, mas é um faturamento de acordo com a marca nova entra. Ela entrou legal, da maneira direitinho, da forma que ela teria que ter entrado mesmo, e é isso que nas pesquisas que a gente vai fazendo, nas conversas que a gente vai tendo com as pessoas que iniciaram igual eu estou iniciando, é o que consegue, porque as pessoas tem muita resistência num mercado, e apesar de ser um mercado legal, ele não está igual há 10 anos atrás que qualquer coisa que você botava num lugar a pessoa comprava. Hoje está muito mais exigente, tem muito mais oferta. Então... Marcelo Mostaro: O valor agregado à peça é muito mais forte. A marca tem que ser mais forte do que a roupa. Manoel: É, a marca tem que ser mais forte, mas é exatamente isso aí, só que no Brasil desse tamanho, para a marca ser muito forte, você tem que começar o trabalho pequenininho, ou então você tem que pegar um investimento enorme, e fazer, por exemplo, um investimento em mídia no Brasil inteiro, revistas, e participar de coisas que demanda muita receita, muito dinheiro, muito capital. E, algumas empresas, a gente sente isso, porque a gente vive esse mesmo momento, que tiveram um crescimento muito rápido, aí você vai na base deles e vê que foi investimento de 50 milhões de reais, 15 milhões de reais, que anúncio de revista custa não sei quanto, a e aí o cara fala: ta bonito, o cara ta aparecendo em todas... toda hora aparece um cara na televisão com a roupa dele. Só que quanto custou para aquilo ali estar ali dentro? É mérito dele, porque ele tinha o capital para fazer... Marcelo Mostaro: Você já teve roupas suas usadas pela Globo. Manoel: A gente tem bastante roupa até, nas novelas e tal. Mas é mérito da roupa Marcelo Mostaro: Você poderia citar algumas novelas? Manoel: A gente trabalhou muito tempo em Malhação. Teve uma novela que acabou agora, novelas das 8, a última que passou, que não me lembro o nome. Ta sendo feito uma novela agora, que vai ser uma reedição, O Astro, tem muita roupa minha. Alguns eriados, tem um que foi feito em Diamantina, negócio de um médico, também foi feito, acho que Murilo Benício, muita roupa, ele era motociclista. Já fiz um figurino inteirinho para revista Caras, falando Chile, que na época tinha muito tricô, muita roupa de inverno, foi para neve. Saiu várias vezes. Tem bastante coisa. Vídeo Show, por exemplo, a gente nem fica sabendo muito, vão lá e compram. Nesse Big Brother que teve agora, o Bial várias vezes estava com roupa da loja. Mas tudo mérito da própria roupa, o produtor passa lá, e eu não vou lá e mostro para ele. O produtor passa lá, ah, ta legal, vou levar. As vezes as roupas aparecem e a gente nem sabia. Marcelo Mostaro: Em termos financeiros giram lucros de 150, mas eu gostaria de saber a quantidade de peças produzidas para a coleção de inverno de peças piloto e quantas peças isso gerou. Manoel: O mostruário meu tinha 135 peças, 135 referências. Se nós dividirmos 150 por 70, que era o preço médio, daria em torno de 3000 peças, mais ou menos 3.300 peças vendidas. O mostruário de 135 peças. O mostruário nosso, normalmente, nessa coleção... Marcelo Mostaro: E quantas peças isso vai gerar? Isso de venda. Mas para uma coleção, se vc tem um mostruário de 150 peças, vai gerar que quantidade bruta de peças para uma coleção? Manoel: 3.500 peças. Marcelo Mostaro: 3.500 peças. E para próxima coleção, você já tem esse prognóstico? Manoel: 6000 peças. Marcelo Mostaro: 6000 peças? Pra próxima? Por que? Verão vende mais do que inverno? Manoel: Verão vende mais. E porque eu ampliei. Nós fizemos uma projeção de vender 400.000. Vamos colocar R$ 400.000,00. O preço médio da peça são R$ 60,00. Você tem camiseta que custa R$34,00. O que mais vende na verdade, são peças que custam de R$ 34,00 a R$ 45,00, nessa faixa. Eu tenho nisso até uma projeção de coleção, vou até de mostrar depois, você faz o preço médio dar R$ 60,00. Você tem R$ 400.000,00 para vender dividido por 60 e dá 6.600 peças no total. Isso estou falando só de caixa. Marcelo Mostaro: Você acha isso pouco ou muito 6.500 peças de produção para uma loja? Manoel: Eu acho para o meu negócio muito. Mas é uma mixaria, é muito pouco para uma empresa que já está totalmente resolvida. A gente faz um mix. Por exemplo, a parte de cima da peça... Marcelo Mostaro: Quantas partes superiores e inferiores que você lida? Manoel: A gente faz o seguinte: a parte de cima começa pelo top, a gente chama de top, regatas: 10 peças. T-shirts básicas, aquela camisetinha que vai só com a marquinha: 6 modelinhos, depois você vem na t-shirt estampada, que é o forte, 42 peças. Aí você vem para pólo... Marcelo Mostaro: Qual que vende mais? Superior ou Inferior? Manoel: Superior. Marcelo Mostaro: Superior? Manoel: Superior. O que agora está acontecendo, nós tivemos um feedback dos nossos clientes e o que está indo muito bem são as bermudas. Marcelo Mostaro: E qual é a sua peça chave da sua coleção? Qual é o produto que é sempre chave que as pessoas procuram, e que você sempre tem uma credibilidade ao fazer e vender? Manoel: Marcelo, aconteceu um negócio legal. Tem essas bermudas body short, que são essas bermudas de praia, elas tiveram uma explosão muito grande desse produto há umas quatro coleções atrás, 1 ano e meio atrás, só que era um produto que era usado microfibra, tecidos sintéticos, que eram sublimação... isso houve realmente, foi muito... foi um estouro... Houveram muitas vendas. E quando a coisa vai muito lá, você sabe que ela banaliza, então ela deu uma banalizada nisso. No meio desse caminho, há dois atrás, eu falei: pô, nós temos que achar um substituto para esse produto. Eu peguei o shape daquela bermuda e criei uma bermuda, com o mesmo shape da bermuda de água sendo que era com 100% algodão. O que aconteceu? Os garotinhos que usavam aquela bermuda de água passaram a usar a bermuda que tem o mesmo shape só que era de algodão. Isso dava uma cara mais nobre. Então o garoto pra não ficar igual a todo mundo que já estava banalizado, ele ficou eletizado. Esse foi o grande negócio. Porque em dois anos, 1 ano e meio, a gente está com isso muito forte. E no nordeste, que é um lugar que é quente, mesmo nessa coleção que estamos nela, no inverno, já houve até repique de bermuda com essa característica, porque é um negócio que está implantando, uma coisa nova. Esse, talvez, eu acho que seja um dos produtos que tem mais projeção agora. Isso e camiseta mais elaboradazinha. Marcelo Mostaro: Eu estou acompanhando, fazendo esse trabalho de pesquisa utilizando uma peça da sua coleção. Como que você identifica a peça? Como que você descreveria a peça dessa coleção? Ela tem nome? Manoel: Eu acho que botei transpassado nela. Na verdade a gente pegou... Marcelo Mostaro: A peça chama transpassado? Manoel: Na gola tem um transpasse. É uma brincadeira interessante. Tricô é um negócio, uma peça de tricô geralmente você pensa uma peça mais careta, mais coroão. O que eu fiz al? Eu busquei o tricô e misturei com essa peça o moletom, que é uma peça totalmente jovem, que até na verdade, se você falar tem um contraste muito grande o tricô com moletom. Moletom é uma coisa mais, não vou chamar de popular, mais comum. E a gente falou: pô, como é que eu vou fazer? Vão fazer um transpassado nessa coisa que a gente abre mão de cachecol para o garoto, para o cara mais novo. Aí fizemos a peça, ela ficou muito legal, porque ela acaba tampando o pescoço, e não é cachecol. E a molecada, o pessoal da faixa que a gente trabalha, que é a garotada, os mais jovens, adora. Aí a gente pega o moletom põe uma estampinha que remete uma coisa mais jovenzinha, mais leve, com uma manga raglam, um debrum, que contrasta... Marcelo Mostaro: Que vai direto para o transpasse que você falou. Manoel: Exatamente Marcelo Mostaro: Você acha que uma peça dessa pode transmitir todo o conceito de uma coleção? Somente pela peça. Manoel: Se um cara for um bom entendedor, ela fala legal, ela fala bem. É como uma peça, por exemplo, vou voltar na coleção que vem, que a gente às vezes coloca num casaquinho levinho um goodyzinho de capuz, aquilo ali se o cara tiver uma boa leitura, ele vai entender que o troço está ali porque é um surfista que vai usar na hora que ele terminar o negócio lá e precisa de um casaquinho, que um ventinho frio vem. Então, às vezes, remete, se o cara tiver boa vontade, ele acaba achando. Agora eu não sei se todo mundo tem essa percepção. Marcelo Mostaro: Não, porque é isso que reflete todo trabalho que você teve dos elementos do design de moda. Você afirmando isso, e esses elementos sendo bem trabalhados isso configura que essa peça vai remeter todo o conceito da sua coleção e loja. Você concorda com essa opinião? Manoel: Concordo, concordo. Ela é forte, ela fala bem o que eu quis dizer isso na coleção. O que eu estou dizendo é que eu não sei se as pessoas entendem bem isso. Marcelo Mostaro: Você acha que elas entendem? O seu público entende? A pessoa que compra, os seus revendedores de lojas multimarcas, eles entram no seu stand no Fashion Business, eles entendem ou querem entender para passar essa mensagem para o público deles? Manoel: O Marcelo, como eu te falei, eu acho que algumas pessoas entendem, agora eu estou desenvolvendo um trabalho que não é fácil de fazer, que seriam as convenções que eu dependeria de um espaço e tal, e eu gostaria de fazer com uma pessoa que estivesse envolvida no meu negócio, tivesse uma boa didática e a gente fizesse uma convenção para a pessoa entender, para a pessoa abraçar a causa. Porque quando eu era multimarca, eu até brinquei outro dia com uma pessoa, numa viagem que eu fiz, buscando um cliente, eu falei com ela: eu gostaria de achar um cliente para a minha marca que tivesse o mesmo carinho que eu tinha com as marcas que eu trabalhei na multimarcas. Que buscasse o que você está fazendo. O que é isso? O que eu estou vendendo? Mas o que a gente percebe é que a maioria chega lá e vai no pedido e, quero essa aqui, quero uma cor dessa, dessa, dessa, essa aqui vou vender para o fulano, essa aqui vou vender pro sicrano. É uma coisa muito mais comercial do que uma coisa que tem um glamour. Eu não sei se é o momento que eu entrei nessa e que as pessoas estão muito mais na prática, quer pegar e quer vender e acabou do que na verdade, pegar aquilo ali, chegar dentro da loja e mostrar a coleção, olha que marca é essa, olha o que é isso. Eu não percebi na maioria das pessoas que eu atendi lá que tem todo esse... Entendeu? Marcelo Mostaro: Mas aí é um paradoxo, né. Porque é assim: é a venda e a criação. Infelizmente nós vivemos num mundo, eu acho, que a criação é um pouco refugada, é colocada em segundo plano. Uma boa criação, isso não quer dizer que vai ser uma boa venda. Manoel: Não, exatamente, é o que eu te falo. A gente também vai pelo lado comercial. O que eu acho que no futuro eu teria que ter? A partir do momento que exista uma condição financeira para isso, é você fazer uma convenção, fazer uma venda para o cara, e dependendo do volume dessa venda, eu ter um pessoa, não seria um supervisor, mas que fosse uma pessoa que fosse lá e desse uma “pajeada” no cara. Ir lá, orientar a pessoa, chegar dentro da loja dele, mostrar o espaço, vamos fazer isso aqui, que tivesse uma sensibilidade de organização e falasse, vamos fazer isso assim. Mas isso é um processo que eu preciso chegar nele, só que não é fácil, porque ele é dispendioso. Marcelo Mostaro: Moda para você é... Manoel: Moda pra mim, cara, é... ela tem um lado, vamos falar assim, minha vida, é meu meio de vida, e é a minha vida. Eu vivo isso. Na verdade, tudo que eu fiz na minha vida, depôs que eu abri uma loja, tudo tem relacionamento com moda. Por exemplo, eu organizo um rally de motocicleta e carro, e eu consegui criar dentro do meu rally um vestuário, umas roupas que é um desejo enorme de pessoas, eu recebo email de pessoas toda semana pedindo tem o casaco, tem o boné, tem o chapéu. Marcelo Mostaro: Uma coisa liga à outra, porque é bem a cara. A arquitetura da sua loja nos remete a essa coisa orgânica, de madeira, e por aí vai. Manoel: Então acho que tudo gira em torno da moda. Tudo que você faz, eu acho. Marcelo Mostaro: E designer para você é? Manoel: Designer é ... O designer como pessoa? Marcelo Mostaro: A palavra designer. O que é design para você? Manoel: Eu acho o design... Vou partir dessa pessoa. Eu acho o designer O CARA. Acho que o cara que é designer eu admiro pra caramba. Para você ter uma ideia, eu fui na Itália, e tomei uma água mineral e trouxe uma garrafa da “Fina e Farina”, que é um design italiano, que desenhou para.... tem um escritório hoje chamado . Era o design da garrafa, e eu pedi ao cara, e ele disse que era descartável. Então eu trouxe a garrafa. Eu acho o designer o cara. Marcelo Mostaro Ética para sempre, né. Você é um designer? Manoel: Bom, eu acho que não seria modesto a esse ponto. Eu acho que não. Marcelo Mostaro Ué, mas todo o seu trabalho que você relatou agora é inerente a um designer. Manoel: É, eu acho que pode ser. Eu acho que eu não tenho toda a técnica para transmitir para o papel o que é o design, mas eu sei, eu entendo alguma coisa disso... Pode-se considerar que eu sou um meio-designer. Marcelo Mostaro Não, você entende da prática de designer muito bem. Obrigado, Manoel, foi ótimo. ANEXO 2 ENTREVISTA COM JOÃO PIMENTA, DESIGNER E PROPRIETÁRIO DA MARCA JOÃO PIMENTA Dados recolhidos por e-mail. De: Marcelo Mostaro [mailto:[email protected]] Enviada em: quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011 21:17 Para: [email protected] Assunto: Entrevista Olá Gabriela. Somente para lembrar. A entrevista será parte da minha dissertação de mestrado em moda na Universidade Anhembi Morumbi. Sei que a vida de um designer é corrida e peço-lhe que tire um tempinho para estas pequenas indagações. Aproveito também para cumprimentá-lo pelo maravilhoso desfile no SPFW e pela contratação da gentil Gabriela(belo atendimento) Conto com a sua colaboração, desta forma a moda ganhas em seus vários territórios. Segue as perguntas: Marcelo Mostaro: Quantos anos tem e qual a sua formação acadêmica? João Pimenta: 43 anos. Colegial completo. Marcelo Mostaro: Desde quantos o senhor trabalha com a Moda? JP: Comecei com 17 anos. Marcelo Mostaro: Quais foram os seus principais passos ou vitórias que alavancaram sua carreira? JP: Escolha pelo público masculino. Vontade de experimentar. Marcelo Mostaro: Quanto tempo ficou na Casa dos Criadores e há quanto tempo esta no São Paulo Fashion Week? JP: Casa dos Criadores: 5 anos; Fashion Week: 1 ano. Marcelo Mostaro: O senhor considera o ensino de Design de Moda importante para o mercado? JP: Sim. Marcelo Mostaro: Destes elementos do design de moda, qual deles o senhor considera o mais importante para a criação de sua coleção? O Tema, a pesquisa, a tendência, a cor, o tecido, a silhueta, a modelagem. Por quê? JP: Silhueta, Modelagem, Tecido, Sapato, Tema. Marcelo Mostaro: Qual é o seu processo criativo? Parte de onde? JP: Atualmente tenho seguido o mesmo raciocínio tentando uma evolução. Marcelo Mostaro: Qual foi o processo criativo da coleção inverno 2011? JP: A vontade da forma trapézio, justificando com liturgia. Marcelo Mostaro: Quantas lojas e para quantos pontos de venda a marca João Pimenta atende no Brasil e exterior? JP: 1 loja. 2 pontos de vendas. 1 ponto em Portugal. Marcelo Mostaro: Atualmente quantas pessoas estão envolvidas no processo de criação e confecção das peças? JP: 10 pessoas. Marcelo Mostaro: O senhor recorre para a elaboração do seu desfile ou catálogo de moda a um stylist? Qual? Por quê? Caso contrario, quem faz este trabalho para sua marca? Qual a importância deste profissional da moda no mercado atual? ANEXO 3 VÍDEO DOCUMENTÁRIO - JOÃO PIMENTA Dados recolhidos por Youtube.