SOCIOLOGIA
TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
CRÉDITOS
Reitor
José Carlos Pettorossi Imparato
Pró-Reitora de Graduação e Extensão
Elaine Marcílio Santos
Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa
Renato Amaro Zangaro
Pró-Reitor Administrativo
Darcy Gamero Marques Filho
Pró-Reitora Adjunta de Graduação e Extensão
Mara Regina Rösler (In Memoriam)
Diretor Acadêmico
Gustavo Duarte Mendes
Coordenadores do EAD
Abigail Malavasi (Pedagogia)
Adamaris Izaura Cavalcanti (Administração)
Gerson Tenório dos Santos (Letras)
Marcelo Rabelo Henrique (Cursos Superiores de Tecnologia)
Coordenadores de Polo
Mariangela Camba (Santos)
Paulo Cristiano de Oliveira (São Paulo)
Paulo Roberto Marcatto (Descalvado)
Professor(a) Autor(a)
Roberto Carlos Pamplona
Revisora
Maria Ivone de Ávila Oliveira
Equipe do Núcleo de Educação a Distância - NEaD
Coordenação Geral
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Supervisor de Design
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SUMÁRIO
SOCIOLOGIA
TEMA 1: O QUE É SOCIOLOGIA?
1.1 - O que é Sociologia?____________________________________________________
13
1.1.1 - Sociologia e o senso comum_____________________________________
14
1.1.2 - A imaginação sociológica________________________________________
15
1.2 - O desenvolvimento do pensamento sociológico______________________________
18
1.3 - Augusto Comte (1798-1857)_____________________________________________
21
1.4 - Émile Durkheim (1858-1917)_____________________________________________
26
TEMA 2: PENSAMENTO SOCIOLÓGICO
2.1 - Karl Marx (1818-1883)__________________________________________________
45
2.2. Max Weber (1864-1920)_________________________________________________
61
TEMA 3: AMPLIANDO A LINGUAGEM DA IDEOLOGIA
3.1 - Ampliando a linguagem da Ideologia_______________________________________
83
3.1.1 - Os caminhos da utopia__________________________________________
83
3.1.2 - Os caminhos da ideologia e suas interações com a utopia______________
84
3.2 - Socialização e Identidade________________________________________________
94
TEMA 4: SOCIALIZAÇÃO E IDENTIDADE
4.1 - Estratificação Social: Castas, Estamentos e Classes__________________________
105
4.2 - Status Social e Papel Social: O homem como ator social______________________115
SUMÁRIO
DESTAQUES
Durante o texto, você encontrará algumas informações em destaque. Preste atenção:
SAIBA MAIS:
Serve para apresentar
conteúdos, explicações
e observações a fim de
que você compreenda
melhor o tema estudado.
IMPORTANTE:
Indica conceitos ou explicações que merecem
destaque. Fique atento!
ANOTAÇÕES:
Espaço destinado para
suas anotações a respeito do tema estudado.
REFLITA:
São questionamentos
acerca de aspectos
centrais do texto.
OBJETIVOS:
Indicam os conhecimentos a serem desenvolvidos por você
durante o estudo
de cada tema.
A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
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TEMA 1
TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
O QUE É SOCIOLOGIA?
Iniciando nosso diálogo
Prezado aluno,
No decorrer de nossos estudos nesta primeira etapa procuraremos atingir os seguintes objetivos.
OBJETIVOS
• Compreender a especificidade da sociologia do âmbito das ciências em geral
e se familiarizar com a linguagem sociológica.
• Aprender a pensar sociologicamente cultivando a “imaginação sociológica” e
desenvolver um espírito crítico e capacidade de observação da sociedade.
• Perceber a diferença entre problema social e problema sociológico e entre a
maneira de pensar do sociólogo e o referencial de pensamento do senso comum.
• Perceber a sociologia como uma forma de consciência e as implicações práticas dessa forma de consciência na vida social.
• Conhecer o contexto histórico do surgimento da sociologia e os problemas
sociológicos que a nova ciência se propunha a explicar e compreender.
• Identificar duas abordagens sociológicas: Augusto Comte e Émile Durkheim
compreender como os problemas sociológicos foram formulados. Perceber o
que aproxima e o que distancia uma abordagem da outra mesmo dentro do
quadro de referência do positivismo.
• Incorporar novos os conceitos e a nova linguagem ao vocabulário aprendendo
a pensar sociologicamente.
• Relacionar as abordagens sociológicas com os problemas contemporâneos.
Vamos iniciar nosso aprendizado!
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O QUE É SOCIOLOGIA?
1.1 - O QUE É SOCIOLOGIA?
O mundo moderno edificado ao longo da história com o desenvolvimento da indústria e da
ciência e uma diversidade de modos de ser e agir é, por excelência, o ambiente onde nasceu e se
desenvolve a sociologia. A globalização estreitou as fronteiras do mundo e generalizou os valores
ocidentais; o estilo de vida e de consumo do capitalismo está em toda parte do planeta. É um mundo
que muda numa velocidade que, muitas vezes, nossos sentidos não conseguem captar. A incerteza
parece ser o signo de nossa modernidade. As novas tecnologias, possibilitadas pelo avanço científico criou uma arquitetura social profundamente diferente daquela dos nossos pais e avós. Quando
falta energia elétrica ou quando nosso computador apresenta uma pane geral ficamos totalmente
sem chão, pois não conseguimos conceber a vida de outro modo. É um mundo cheio de consequências: preocupa-nos o crescimento das desigualdades sociais e tantos daqueles para quem
esse mundo ainda é distante; os problemas ambientais se agravam com o uso indiscriminado das
tecnologias que nos trazem conforto e, com o crescimento das cidades, uma coleção de problemas
sociais se avoluma, como a falta de moradia, o abastecimento, a violência urbana. Todavia, na vida
moderna, temos condições de controlar nosso destino e moldar nossa vida de uma maneira impensável para as gerações anteriores. Como esse mundo surgiu? Como se desenhará nosso futuro?
Como podemos influenciar conscientemente a direção dessas mudanças? A sociologia, presença
marcante na vida intelectual moderna, procura explicar a realidade e, ao mesmo tempo, formular
tantas outras perguntas que nos levem à compreensão desse mundo moderno.
A sociologia é a ciência da sociedade. Nas universidades brasileiras, tem o nome de ciências
sociais (inclui a antropologia e a ciência política). O sociólogo, portanto, é um cientista social. O objeto de estudo do sociólogo são as relações sociais, as interações sociais. É verdade que tudo o que é
social interessa ao sociólogo. A sociologia, porém, emprega o termo social e sociedade num sentido
mais restrito do que aquele empregado pelo senso comum: “sociedade amigos de bairro”, “na festa
de formatura precisa vestir traje social”, “sociedade protetora dos animais”, “tal pessoa demonstra
forte preocupação social”, “numa reunião social não vamos falar em negócios”. Esses são alguns
exemplos da amplitude do adjetivo social.
Para o sociólogo, social tem a ver com a qualidade das interações sociais e inter-relações
sociais e envolve sempre significados, reciprocidade e expectativas que o sociólogo procurará compreender. A sociedade está repleta de acontecimentos sociais, na dinâmica das interações sociais
dos grupos sociais e entre os grupos sociais, as diversas maneiras de as pessoas representarem
sua vida de acordo com cada cultura, a vida social cotidiana. Para usar um termo de Émile Durkheim
que iremos ver adiante, sociedade pode ser entendida como um complexo de “fatos sociais”, e uma
situação “social” pode ser compreendida como aquela em que as pessoas orientam suas ações
umas em relação às outras, como bem expressa Max Weber, outro sociólogo que iremos estudar.
Essa “trama de significados, expectativas e conduta que resulta dessa orientação mútua, constitui
o material de análise sociológica” (BERGER, 1986, p. 37). Como podemos perceber, a sociologia
estuda o homem como um ser social. A vida social não pode estudada num laboratório, como um biólogo estuda uma célula, por exemplo. Também não é possível aplicar injeções e testar substâncias
nos homens para compreender seu comportamento social, como se faz nos ratinhos. O laboratório
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do sociólogo é toda a sociedade, são as vivências nos grupos, os conflitos existentes, ou seja, a vida
com toda sua riqueza de manifestações.
1.1.1 - SOCIOLOGIA E O SENSO COMUM
Chegamos a uma questão de crucial importância: para fazer sociologia é preciso se distanciar do senso comum. O senso comum, aliás, é objeto de estudo da sociologia. Não façamos uma
ideia puramente negativa do senso comum, como é recorrente entre as pessoas. Imaginemos a
situação em que uma dona de casa vai à feira: ela compra os produtos de que necessita, pechincha
aqui e acolá, economiza muito, conversa com os feirantes, analisa com muita atenção cada produto
agrícola antes de comprar. É pouco provável que essa dona de casa seja formada em economia ou
agronomia, no entanto, seu senso comum a orienta, firme e confiante, em suas ações. Veja um índio
na floresta. Ele sabe classificar, de acordo com sua cultura, todas as árvores e plantas, conhece os
hábitos dos animais que lhe garantem boa caça. No entanto, esse índio não é botânico ou zoólogo, a
não ser que tenha cursado uma universidade. Quando vamos a uma festa ou a um bar, ao encontro
de amigos, vamos com nosso senso comum, salvo num momento ou outro, quando um sociólogo
chato resolve dar aulas para todo mundo na mesa do bar. O que estamos dizendo é que o senso
comum não é sinônimo de ignorância, na verdade é o ar que respiramos e parte constitutiva de todas
as relações sociais.
Todavia o senso comum pode ser fonte de muitos erros e preconceitos. É superficial porque
emite opiniões sem aprofundamento, sem o devido conhecimento. É imediatista porque chega a uma
verdade de maneira superficial e se contenta com as aparências. É acrítico porque emite uma sentença sem crítica e autocrítica, não faz a devida reflexão, não duvida, não desconfia da veracidade
de nossas supostas certezas. É fonte de preconceitos porque faz um juízo de algo ou de alguém
reproduzindo verdades tidas por absolutas. É ametódico, ou seja, não usa método, chega às conclusões por caminhos tortuosos, e não pela razão e método científico. É dessa forma que ouvimos:
“político é tudo farinha do mesmo saco” ou “a família é uma realidade natural criada pela natureza”.
Não ocorre refletir que o nosso modo de organizar a família não é o único e que, em outras culturas,
encontraremos outras relações de parentesco. Generalizar um juízo sobre os políticos não ajuda
muito a compreender a vida política de uma sociedade, não se apercebe que o homem é um ser
político, porque vive em sociedade. Por muito tempo, durante a Idade Média europeia acreditou-se
na aparência (senso comum) em relação ao universo. Quando olhamos para o céu, parece mesmo
que o sol é menor que a terra e parece mesmo que é ele que está se movendo em torno da terra. Ele
nasce e se põe e o percebemos na aparência do senso comum. Na idade média acreditava-se que a
terra era o centro e que o sol se movia em torno dela: era a chamada teoria Geocêntrica. Depois, com
Nicolau Copérnico (1473-1543) e Galileu Galilei (1564 -1642) a partir de observações astronômicas,
a astronomia chegou à conclusão que a terra se move em torno do sol e sol é que está no centro do
sistema solar: é a chamada teoria Heliocêntrica.
Percebemos, então, que o senso comum não pode ser a base de nenhuma ciência. A sociologia, a exemplo de outras ciências estuda os fenômenos sociais, desvinculando-os das sugestões
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do senso comum, por meio da observação, experimentação, comparação e classificação. Como
dissemos, o laboratório do sociólogo é toda a sociedade, ele procura regularidades nas relações sociais e geralmente o método comparativo substitui a experimentação. Enquanto o físico, o biólogo e o
químico fazem experimentações controladas em seu laboratório, observam atentamente as fases de
sua pesquisa, classificam cada um dos fenômenos e chegam a uma lei científica de validade geral,
o sociólogo faz uma experimentação indireta, pela comparação com outros grupos e sociedades ou
de outras variações dentro da mesma sociedade ou grupo social. O sociólogo também classifica os
fenômenos, pois, a ciência se comunica por meio de conceitos científicos e formula uma explicação
que tem validade geral. Observe que o pensamento científico não persegue uma verdade absoluta,
mas uma validade que pode ser questionada por outras pesquisas e outras teorias mais competentes. Dessa forma, quando um sociólogo chega a um conceito, ele procurara verificar sua validade
explicativa para determinada sociedade e para outras sociedades. É isso que vemos quando estudarmos o desenvolvimento da sociologia. De qualquer forma, o raciocínio científico procura sempre
a objetividade, ou seja, uma explicação baseada em princípios teórico-metodológicos e científicos.
Salientamos aqui a necessidade de desenvolver um olhar sociológico que não se confunde com o
saber popular, isto é, com o senso comum. Segundo as palavras do sociólogo contemporâneo
Anthony Giddens:
“A maioria de nós vê o mundo a partir de características familiares a
nossas próprias vidas. A sociologia mostra a necessidade de assumir uma visão mais ampla sobre por que somos como somos e por
que agimos como agimos. Ela nos ensina que aquilo que encaramos
como natural, inevitável, bom ou verdadeiro, pode não ser bem assim
e que os “dados” de nossa vida são fortemente influenciados por forças históricas e sociais. Entender os modos sutis, porém complexos e
profundos, pelos quais, nossas vidas individuais refletem os contextos
de experiência social é fundamental para a abordagem sociológica”
(GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre. Artmed, 2005, p. 25).
1.1.2 - A IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA
A sociologia lança uma luz nova sobre aquilo que muitas vezes consideramos “óbvio”, natural, inevitável, pois nela a realidade social adquire um novo colorido e a vida social se redimensiona
em nossa consciência. Aprender a pensar sociologicamente consiste em cultivar a imaginação, alargar horizontes de nossa visão, ser capaz de sair da imediatidade das circunstâncias. O sociólogo C.
Wright Mills (1916-1962) usou a expressão imaginação sociológica, para se referir ao trabalho do
sociólogo como um artesanato intelectual. Fazer sociologia é “pensar em termos de vários pontos de
vista, e assim, deixamos que nossa mente se transforme num prisma móvel, colhendo luz de tantos
ângulos quanto possível” (MILLS, 1975, p.230-231).
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IMPORTANTE
A imaginação sociológica “exige de nós que pensemos fora das rotinas familiares de nossas vidas cotidianas, a fim de que as observemos de modo renovado”
(GIDDENS.2005, p. 24). O cultivo da imaginação sociológica pressupõe, no entanto, um esforço intelectual, um aprendizado constante, uma postura “socrática” diante da vida, de busca perseverante da sabedoria, requer incorporação da
atitude científica frente aos fatos sociais. Alimenta-se a imaginação sociológica
com uma vida cultural intensa: a arte, a música, a literatura, o cinema, a filosofia,
a ciência, a postura apaixonada pelos estudos etc., são ingredientes que temperam e formam uma consciência sociológica e um espírito investigativo.
Vamos exercitar nossa imaginação sociológica. Pensemos numa xícara de café. Uma xícara
de café representa muito mais que uma xícara de café se a encararmos para além de nossas rotinas
familiares, para além do senso comum. Quando sento para tomar um café com meus amigos, mesmo sem perceber, estou reforçando os laços de solidariedade e amizade nesse bate papo regado a
café. Ao participar de uma reunião de negócios, aquela xícara de café toma novos contornos, pois
se transforma numa ocasião importante para fechar um contrato de serviços. Quando compro um
cafezinho, estou movimentando toda uma economia de importância internacional e, sem perceber,
influencio a vida de produtores distantes, mas com os quais me relaciono dessa forma. Considerado
o “ouro verde” do Brasil no século XIX, o café representou uma riqueza nacional e modelou uma
complexa economia baseada na mão de obra escrava. A escravidão, por sua vez, marcou profundamente a sociedade brasileira, em rituais autoritários que persistem atualmente e foram sedimentados nas relações de dominação senhor-escravo. Quando falamos, por exemplo, “- Com quem você
pensa que está falando?”, isso reflete, sem nos darmos conta , o momento fundamental de uma
sociedade profundamente hierarquizada. As desigualdades raciais e os preconceitos raciais ainda
consistem em desafios para a sociedade brasileira. Você viu como o cafezinho foi redimensionando
e problematizado pela imaginação sociológica?
Isso mesmo podemos dizer de alguns fenômenos sociais como o divórcio ou o desemprego.
Aparentemente, o desemprego é um problema individual, todavia se atinge uma alta taxa torna-se
um problema sociológico. O divórcio, aparentemente, é uma tragédia individual, mas se seu percentual atinge um alto índice pode comprometer a estrutura familiar com consequências negativas para
uma dada sociedade. O desemprego pode ser só uma faísca para pensar o mundo do trabalho e a
sociedade capitalista. O divórcio pode ser uma simples gota para eu pensar o oceano das relações
sociais que envolvem família, preconceitos e a vida moderna. Esses são alguns exemplos de como
funciona a imaginação sociológica. A atitude sociológica problematiza a realidade social, transformando o que aparentemente não tem interesse para a sociologia em problema sociológico.
A imaginação sociológica precisa ser alimentada com a matéria prima da criatividade e
da sede de saber. O sociólogo contemporâneo, Peter Berger, diferenciou problemas sociais de
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O QUE É SOCIOLOGIA?
problemas sociológicos. O primeiro diz respeito a tudo o que o senso comum entende como tal
, como vimos ao tratar do adjetivo “social”. Um buraco da rua atrapalha o trânsito e, por isso, é
um problema social, todavia, não é um problema sociológico. O problema sociológico diz respeito
à compreensão sociológica das interações sociais. Vamos entender melhor isso. O ponto de vista
do sociólogo diferencia-se de outros pontos de vista. Por exemplo, enquanto o advogado, com seu
quadro de referência conceitual, próprio do Direito, perceberá como crime tudo o que estiver prescrito na lei, para o sociólogo será igualmente importante compreender como o criminoso considera
a lei, com o que determinados atos passaram a ser considerados criminosos. A sociedade pode ser
vista como a estrutura oculta de um edifício, cuja fachada torna invisíveis as colunas, as ferragens,
o alicerce. Como bem observa Peter Berger, a perspectiva sociológica quer ver para além dessas
fachadas da sociedade oficial, da lei, das relações aparentes, ou seja, para além das estruturas
ocultas do edifício. Não quer simplesmente descrever as relações dentro de uma empresa segundo
sua organização formal, de acordo com seu estatuto interno e seu organograma, quer compreender
como se estabelece as relações de dominação nessa empresa, quais seus fundamentos. Não quer
simplesmente ver a estrutura oficial de poder, mas a estruturas informais de poder.
REFLITA
Quais as características do senso comum? Quais as características da atitude
científica? O que caracteriza a sociologia como ciência? Você já experimentou
olhar sociologicamente para fatos a que você não dava tanta importância, seguindo o exemplo do cafezinho? Qual a distinção entre problema sociológico e
problema social e individual? As estruturas sociais determinam completamente o
comportamento humano?
Voltemos ao conceito de estrutura social. A sociedade, como dissemos, pode ser vista como
a estrutura de um edifício. As relações sociais são estruturadas, padronizadas, pois seguimos determinados padrões de comportamento que se repetem. Assim, existem regularidades observáveis
pelo sociólogo: a maneira de tomar o cafezinho se repete; esse ritual social pode ser observado
com frequência. Todavia a estrutura da organização social, diferentemente do edifício é dinâmica,
não é imóvel, está em constante processo de padronização. Embora aja de forma padronizada,
respeitando normas, regras e valores de sua cultura, o indivíduo não é totalmente determinado. Embora saibamos que os determinantes estruturais existam. Uma estrutura social baseada em reações
sociais desiguais entre brancos e negros, mesmo encoberta pela ideologia oficial e pela legislação
que estabelece a igualdade formal entre todos, influenciará na distribuição social das oportunidades
sociais, como no sistema educacional, por exemplo. Todavia, os indivíduos podem, com suas ações,
provocar reestruturações e alterar essas relações desiguais.
O sociólogo, portanto, procurará sempre um ponto de vista relativo. O indivíduo cético em
relação à religião pode se converter num fervoroso religioso. A relatividade na análise da sociedade
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A IMPORTÂNCIA DA COM
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TEMA 1
é importante para o sociólogo, pois, por meio de suas ações, os indivíduos estruturam novos modos
de viver e de ver o mundo e isso provoca mudanças e rearranjos sociais . Os papéis sociais (que é
o nosso jeito padronizado de agir) estão em constante processo de construção e redefinição e estruturação. Um conceito sociológico interessante a esse respeito é o de alternação, como explica Peter
Berger, o indivíduo pode alternar entre um sistema de significado e outro. O homem não é uma presa
inerte dos controles sociais (padrões de comportamentos valorizados socialmente, normas, regras,
valores, sanções sociais, a lei, o Estado). Se um sistema de significados, de crença religiosa, por
exemplo, não lhe proporciona mais uma explicação plausível para a sua existência ele pode procurar
outra religião. Caso um partido político não satisfaça suas convicções, poderá escolher outro partido.
A alternação é essa margem de liberdade do indivíduo diante dos controles sociais e das exigências sociais, quando o indivíduo salta de um mundo para outro. No entanto, sem fazer esse salto, é
possível respirar. No trabalho, por exemplo, o indivíduo vivencia situações de que ele não pode se
desvencilhar. Ele então cria uma espécie de distanciamento, cria seu “mundo próprio”, que interage
com o mundo da empresa desempenhando seus papéis numa espécie de reserva mental. Com suas
normas, regras e valores, a sociedade pesa sobre nós, todavia não somos um simples joguete das
estruturas sociais.
Por fim, salientemos que sociologia é uma forma de consciência. “A perspectiva sociológica
constitui um panorama amplo, aberto e emancipado da vida humana” (BERGER, 1986, p. 64). Aberto ao saber sociológico e disposto a alimentar e exercitar sua imaginação sociológica, o estudante
identificará os temas relevantes da sociedade em que vive e não menosprezará aqueles temas que,
embora não tenham talvez a mesma amplitude, dizem respeito ao modo como vivemos nosso cotidiano. Poderá ampliar seu olhar crítico às políticas sociais. A consciência sociológica não nos deixa
indiferentes aos debates como a ampliação da cidadania indígena e negra na sociedade brasileira,
sobre os impactos da universalização da educação para a maioria dos brasileiros a partir da constituição de 1988 ou, ainda, sobre as consequências do nosso modelo econômico para a vida do planeta. Sempre haverá uma postura de dúvida (uma dimensão importante do raciocínio científico é a
dúvida) e de reflexão crítica. Como os negros foram integrados à sociedade brasileira após o fim da
terrível instituição da escravidão? Quais são entraves atuais para a ampliação da cidadania negra no
Brasil? A universalização do direito à educação foi acompanhada por uma qualidade equivalente do
ensino? É possível o desenvolvimento de uma consciência planetária em que o homem não se sinta
morador deste ou daquele país, desta ou daquela nação, mas morador de uma pátria única chamada
Planeta Terra? É possível transformar nosso modelo econômico e industrial numa perspectiva planetária? Fazer boas perguntas ao seu objeto de interesse sociológico traz resultados favoráveis na formação da consciência sociológica. A sociologia, nesse sentido, nos fornece um autoesclarecimento,
uma autocompreensão que nos possibilita interagir de forma consciente e propositiva em relação ao
nosso próprio universo interior e com a sociedade de maneira geral.
1.2 - O DESENVOLVIMENTO DO PENSAMENTO SOCIOLÓGICO
Podemos vislumbrar traços de pensamento sociológico em diferentes momentos históricos.
Na Grécia antiga, por exemplo, os filósofos Platão e Aristóteles já procuravam compreender a so-
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ciedade e o mundo em que viviam fornecendo explicações para os problemas que enfrentavam.
Na Idade Média igualmente, os teólogos forneciam explicações com traços sociológicos. Todavia,
o estudo objetivo e sistemático da sociedade desenvolveu-se no ambiente moderno e industrial
que emergiu com Revolução Industrial Inglesa e se espalhou por toda a Europa durante os séculos
XVIII e XIX transformando significativamente o modo tradicional de vida que ainda respirava os valores da sociedade feudal. A industrialização e a urbanização crescente trouxeram um conjunto de
novos problemas que a sociologia procurou formular com diferentes abordagens teóricas. Todavia,
a necessidade de explicar a nova situação social com o advento do capitalismo industrial foi um fio
condutor comum em todo o desenvolvimento sociológico.
A Revolução Francesa de 1789 prolongou suas consequências por todo o século XIX foi
outro acontecimento pano de fundo do desenvolvimento da sociologia. De alguma forma todos os
fundadores da sociologia procuraram compreender e explicar esse mundo secular, em que a religião havia perdido sua preeminência na explicação da existência humana. Novos conhecimentos
científicos, novas tecnologias industriais, a queda dos governos absolutistas, em que o rei justificava
seu poder pelo direito divino, desenharam um novo mundo. Praticamente a Revolução Industrial
e a Revolução Francesa em seus desdobramentos, contribuíram para minar a fonte de poder da
nobreza possuidora de terras e títulos. Os filósofos das Luzes foram na sua absoluta maioria antiabsolutistas e favoráveis a um poder constitucional, baseados em leis aprovadas por uma assembleia
de deputados. O Iluminismo nutria uma confiança sem igual na história, na razão, no homem como
protagonista de seu destino, a luz natural da razão queria varrer todo misticismo e todos os obstáculos levantados pela teologia ao desenvolvimento da ciência. Foi um movimento social e cultural irresistível, disposto a tirar das sombras todos os valores até então sufocados pelo império da religião
sobre todas as outras formas de saber. “Indivíduo, Cidadão, Razão, Natureza, Progresso, Felicidade
são palavras chaves dessa filosofia combatente. Combate das luzes da razão contra as trevas da
ignorância, dos preconceitos, da superstição.” (JEAN-SIMON, 1994, p. 112).
A linguagem moderna das luzes falava de cidadão, de soberania do povo, de governo constitucional. A burguesia francesa levará esses valores até as últimas consequências durante a Revolução Francesa, instituindo uma nova ordem social – a burguesia se torna a protagonista da história.
Jean Jacques Rousseau (1712-1778) publica em 1755 o seu famoso ensaio Discurso sobre a origem das desigualdades entre os homens em que identifica no surgimento da propriedade privada
a origem de todos os males e vícios, quando um primeiro homem cercando um terreno disse: “Isto
me pertence”. Em 1757, publica Do Contrato Social. Aborda temas que terão repercussão duradoura
para a história. Os franceses o elegeram patrono da grande Revolução. Partindo do artifício de um
estado natural e original de bondade, corrompido a partir do surgimento da propriedade privada e
das relações de dominação, procurou explicar o surgimento da sociedade civil, das leis e do governo
e a sua legitimação. Ao perder sua condição natural, os homens passam a precisar de leis, precisam
estabelecer um pacto social. Na contramão de um governo monárquico em que o rei era o soberano
absoluto, em sua obra, Rousseau fala de soberania do povo, em que o governante passa a ter que
respeitar a vontade geral, as leis instituídas para todos. Antes de Rousseau, temos a presença marcante de Montesquieu (1689-1755) que publica, em 1748, O espírito das leis no qual faz a distinção
de três poderes, Legislativo, Judiciário e Executivo que se combinam e se equilibram para garantir a
estabilidade de uma ordem social e evitar um poder absoluto e despótico.
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A IMPORTÂNCIA DA COM
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TEMA 1
REFLITA
É possível encontrar pensadores que foram precursores da sociologia, mesmo
antes de sua fundação como ciência? Qual o contexto histórico do desenvolvimento do pensamento sociológico?
Neste ambiente intelectual surge um personagem considerado de importância crucial na
fundação da sociologia: o francês Saint-Simon (1760-1825). Embora não usasse o nome “sociologia”
- como veremos, o termo foi inventado por Augusto Comte, que inclusive trabalhou como secretário
de Saint-Simon – este já se expressava em termos verdadeiramente sociológicos. Em seus estudos,
via necessidade de criar uma ciência nova para explicar um mundo moderno que já não era possível
ser compreendido só em termos filosóficos. Essa ciência nova ele chamava de ciência do homem
ou ciência das sociedades, ou, ainda, Fisiologia Social.
Saint-Simon já identificava a sociedade como uma realidade singular, não era uma simples
aglomeração de indivíduos cada uma agindo por conta própria sem relação com o todo. Pelo contrário, a “sociedade, é, sobretudo, uma verdadeira máquina organizada na qual todas as partes contribuem de uma maneira diferente para a marcha do conjunto”. (JEAN-SIMON, 1994, p. 185). Seus
escritos demonstravam lucidez nas análises e uma confiança sem igual na sociedade industrial.
Ele usava o termo classe industrial para se referir a todos os que produziam independentemente
da posição, trabalhadores urbanos, agricultores, empresários todos em sua visão formavam uma
classe útil. O futuro estaria nas mãos dessa classe industrial que, unidas por laços orgânicos e harmônicos, poria fim às infindáveis desordens da sociedade após a Revolução Francesa e construiria
uma ordem social de prosperidade e felicidade. Ele chamava aqueles que nada produziam, os da
classe governamental, de classe parasitária e defendia um governo dominado por industriais talentosos. Os trabalhadores se organizariam em associações de livres produtores nas quais a única
desigualdade existente seria a baseada nos talentos e nas capacidades. Uma nova ordem social
organizada por cientistas e industriais, que substituiriam os grandes proprietários de terras, os altos
funcionários, o clero (membros da Igreja), os chefes de governo e até mesmo o rei, pois representavam uma sobrevivência da sociedade feudal e dos governos absolutistas que a Revolução Francesa
destruiu. Por suas ideias, Saint-Simon é considerado um socialista utópico, como Karl Marx o classificará no “Manifesto Comunista”, por basear sua reforma da sociedade numa união entre classes
conflitantes.
Vamos agora navegar nas águas do pensamento de muitos autores: Augusto Comte, Émile
Durkheim, Karl Marx, Max Weber. Todos se aproximam em procurar compreender, cada um a seu
modo, a sociedade industrial que se edifica no contexto histórico da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. Cada um a seu modo dará a sua contribuição para o desenvolvimento da sociologia.
Mais do que procurar uma resposta única, o importante é perceber que o ser humano tem uma vida
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TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
social dinâmica e não comporta uma resposta absoluta e exata sobre seu comportamento e sobre
o modo como se organiza socialmente. Aprender a ver as sociedades a partir de vários prismas, de
forma relativa consiste em estimular nossa imaginação sociológica.
1.3 - AUGUSTO COMTE (1798-1857)
Sabemos que uma ciência é uma construção coletiva e histórica e que podemos encontrar
como vimos traços de pensamento sociológico em muitos pensadores ao longo da história. Todavia,
confere-se a Augusto Comte o mérito de ter fundado a sociologia. Foi ele que, de fato, inventou a
palavra, inicialmente dando-lhe o nome de física social e, depois, como havia outros pensadores que
usavam esse nome, forjou o termo unindo dois radicais de origens diferentes: socius do latim e logos
do grego. Nascia assim a palavra que se tornaria muito divulgada e passaria a expressar uma nova
área de saber, ou seja, a ciência da sociedade.
Augusto Comte nasceu em Montpellier, na França, no ano de 1798. Desde adolescente foi
aluno brilhante em Matemática. Aos dezesseis anos, entrou para a Escola Politécnica de Paris, tentou sem sucesso ser professor efetivo dessa reputada escola, mas não teve sucesso. Foi secretário
e colaborador de Saint-Simon durante sete anos quando teve seus primeiros contatos com preocupações sociológicas. Após desentendimentos intelectuais e de vaidade, rompe com o antigo mestre
e, a partir de 1824, realizará sua obra como “intelectual marginal”, sem posição social e de origem
humilde. Morre em 1857, como pontífice da Religião da Humanidade, por ele mesmo criada. Escreveu e publicou, no período de 1830 a 1842, o Curso de Filosofia Positiva, e de 1851 a 1854 Sistema
de Política Positiva e Catecismo Positivista em 1852.
Profundamente influenciado pelos acontecimentos de sua época – a intensificação da industrialização e o processo político ainda em curso inaugurado com Revolução Francesa que causavam
constantes abalos, reviravoltas e destruição das formas tradicionais de sociabilidade – atribuirá à
sociologia a missão de contribuir para reorganizar o edifício social em ruína. Para tanto, a sociologia
deveria desenvolver-se como uma ciência positiva longe das especulações filosóficas sem fundamento científico. Sua máxima positivista ver para prever foi incorporada por ele e marcou a sua obra,
o saber científico como forma de prever e agir sobre o presente e o futuro. Desde sua juventude,
como aponta o sociólogo Raymond Aron, Augusto Comte tinha dois objetivos principais: reformar a
sociedade e estabelecer a síntese dos conhecimentos científicos (ARON, 1993, p.107). Seu otimismo era ainda sobrevivente do Iluminismo adaptado ao mundo industrial e cientificamente avançado
que ele presenciava no século XIX e tenderia a progredir numa marcha civilizatória progressiva.
O mundo social, segundo Comte, é uma extensão do mundo natural e igualmente governado
por leis universais que a sociologia deve desvendar. Essas leis só podem ser alcançadas por meio
do mesmo rigor científico das ciências naturais. A sociedade é governada por leis invariáveis tal
como no mundo físico. Sua inspiração são os gênios da ciência que ele elevou à divindade em sua
religião positivista: Francis Bacon (1561-1626), René Descartes (1596-1650), Galileu Galilei (15641642), Isaac Newton (1642-1727), dentre outros expoentes que lançaram as bases do método cien-
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
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tífico, ou seja, a observação, a experimentação, a comparação e a classificação. Imaginemos
um biólogo em seu laboratório. Para que uma vacina seja tida como eficiente ele precisará realizar
muitas observações, testar, experimentar esse soro em animais ou mesmo em seres humanos, descrever e classificar cada etapa de sua pesquisa, comparar resultados. A sociologia, na perspectiva
comtiana, deve se espelhar no método científico das ciências naturais.
Galileu, por exemplo, no século XVI, contribuiu imensamente para o progresso das ciências
ao provar, por meio de suas observações e cálculos, a validade da teoria heliocêntrica, ou seja, o
sol é o centro do universo e a terra é que gira em torno do sol e não ao contrário como pensavam os
teóricos ligados à Igreja Católica, adeptos da teoria geocêntrica, isto é, de que a terra era um corpo
imóvel e perfeito no centro do universo. Sabemos também que a lei da gravitação universal criada
por Newton tem validade universal para todo o universo físico. René Descartes, por sua vez, lembrava que as ciências só avançam por meio da postura racional de dúvida perante os fenômenos, cuja
única certeza é de que somos seres pensantes e que existimos: “Penso, logo existo” era a sua máxima racionalista. Por meio de uma postura racionalista e metódica, o cientista atinge as evidências e
as certezas. Francis Bacon, por sua vez, dizia que era preciso combater os ídolos na ciência, isto é,
as falsas noções impregnadas de teologia que impediam o desenvolvimento da ciência. A pesquisa
científica deve basear-se no método indutivo, isto é, partir de dados da experiência objetiva para
chegar às conclusões gerais, inaugurando, assim, o método experimental.
REFLITA
Quais os personagens da ciência em que Comte se inspirava? O positivismo de
Comte tem a ver com esses cientistas?
A perspectiva sociológica de Comte, portanto, é a da ciência positiva. O que a sociologia tem
em comum com a química, a física e a biologia? O método, responde Comte. No grande laboratório
que é a sociedade humana, o sociólogo deverá proceder de forma idêntica, com o mesmo rigor metodológico que esses cientistas em relação ao mundo físico, embora a experimentação, nas ciências
sociais, se dê de forma indireta, pelo método comparativo. O positivismo de Comte é essa confiança na razão e na ciência. Comte acreditava ter descoberto uma lei universal que explicaria finalmente
o progresso do espírito humano: a lei dos três estados (estágios). Sustentava que a humanidade
em sua marcha, teria passado por três estados diferentes e sucessivos: o estado teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato; e, por fim, o estado positivo ou científico.
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TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
IMPORTANTE
O termo positivismo designa o conjunto de concepções de Augusto Comte, como
o aluno poderá ler nas páginas que seguem. Todavia, elementos do que Comte
denominou positivismo, podem ser encontrados desde o nascimento da ciência
moderna com o método experimental e racionalista, ou seja, desde Francis Bacon, René Descartes e tantos outros, com os quais Comte comunga da mesma
atitude científica. Veremos mais adiante que a perspectiva sociológica de Émile
Durkheim é considera positivista, no entanto, a sociologia positiva de Durkheim
inspira-se em Comte somente em sua postura metodológica, ou seja, no rigor
científico no tratamento dos fatos sociais, a exemplo das demais ciências da
natureza, e não em suas considerações sociológicas, distanciando-se de Comte
em muitos sentidos.
No estado teológico, a humanidade compreendia o mundo natural e social por meio das forças sobrenaturais, que eram explicações mitológicas e religiosas em busca de respostas absolutas.
Esse estado subdivide-se, por sua vez, em animismo ou fetichismo, politeísmo e monoteísmo. Podemos encontrar exemplos do animismo ou fetichismo nas comunidades primitivas em que os homens
depositavam suas crenças em espíritos ou forças sobrenaturais que residiam em determinadas regiões, pessoas, materiais ou animais; podemos encontrar exemplos do politeísmo na Grécia antiga
com a crença em uma diversidade de deuses, nos mitos e nos oráculos que explicavam o destino
dos homens. O monoteísmo herdado dos hebreus da antiguidade, cria raízes sólidas na Idade Média europeia com o desenvolvimento do cristianismo, o poder espiritual que exercia a Igreja Católica
com sua doutrina, sacramentos e crença em um único Deus.
Em seguida vem o estado metafísico, no qual as forças sobrenaturais são substituídas por
entidades abstratas e igualmente absolutas, pelas quais se procurava atingir as causas primeiras, a
essência, a natureza íntima dos seres, a origem e destino de todas as coisas. A natureza substitui
entidades divinas. A especulação filosófica caracteriza esse estado metafísico. Finalmente, no estado positivo impera a razão e a ciência, os fenômenos do mundo natural e social são compreendidos
por meio de explicações objetivas, e baseadas na observação dos fatos. A indústria que avança no
ritmo do saber científico e tecnológico e realiza uma mudança fundamental na relação do homem
com a natureza representa, para Comte, a criação mais consequente do estado positivo. Vejamos
as palavras de Comte:
“No estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e a destinação do universo, e a conhecer as causas íntimas dos fenômenos,
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
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para se dedicar a descobrir, pelo uso combinado do raciocínio e da
observação, suas leis efetivas, isto é, suas relações invariáveis de sucessão e similitude [semelhança]. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, nada mais é, doravante, do que a vinculação
estabelecida entre os fenômenos particulares e alguns fatos gerais,
dos quais tendem os progressos da ciência a reduzir cada vez mais.”
(Comte, Augusto. Curso de Filosofia Positiva, vol. 1. In Moraes Filho,
Evaristo de (org.) Comte. São Paulo: Ática, 1989, p. 148).
O termo positivo significa para Comte, como bem expressa o sociólogo Pierre Jean-Simon: “o
real por oposição ao quimérico, o útil em contraste com o ocioso, o certo que se opõe ao indeciso, o
preciso que rejeita o vago. É também a capacidade de organizar, de construir, ao contrário da aptidão
para destruir do negativo. É enfim, sobretudo o relativo que se substitui ao absoluto” (JEAN-SIMON,
Pierre. História da Sociologia. Porto, Portugal: Rés-Editora, 1994, p. 258).
O estado metafísico é intermediário entre o primeiro e o último, serviu para preparar esse
momento positivo. Podemos exemplificá-lo, historicamente, no modo de pensar dos filósofos do
Iluminismo que, com suas críticas, corroíam as bases do antigo regime. Quando um filósofo como
Jean Jacques Rousseau (1712-1778) fala em um estado imaginário de natureza em que o homem
era desprovido de maldade, era um “bom selvagem” e que com o advento do mundo urbano e industrial ele adquire vícios e passa a precisar de leis, regras, ou seja, um contrato social baseado no
consentimento do povo soberano, o que faz esse filósofo, senão, com suas ideias revolucionárias,
abalar as estruturas do antigo regime. Da mesma forma todos os filósofos que atacaram o poder da
Igreja Católica, particularmente o satírico e bem humorado Voltaire (1694-1778). Charles de Montesquieu (1689-1755), por sua vez, advogava uma divisão de poderes entre executivo, legislativo e
judiciário, num ambiente onde os reis eram divinos e absolutos. Todos esses filósofos citados, sem
exceção, condenavam um poder absoluto nas mãos de um rei divino como era o caso da França na
época da Revolução de 1789. Esses filósofos das Luzes contribuíram cada um com o seu modo de
pensar, com sua linguagem filosófica própria, para a chegada, segundo Comte, do estado positivo,
colocando em crise o velho mundo onde a religião, as classes nobres, as corporações de trabalhadores urbanos e as comunidades rurais viviam em relativa harmonia. No entanto, na perspectiva de
Comte, o positivismo quer superar essa especulação filosófica e formular uma explicação científica
da sociedade.
Esse mundo desorganizado por esses abalos sísmicos causados pelo pensamento revolucionário e incendiário dos filósofos e por essas revoluções sociais, políticas e econômicas precisa
de uma explicação científica, ou seja, sociológica. É o que Comte faz ao elaborar os conceitos de
estática e dinâmica. A sociologia estática estuda os fenômenos sociais em sua estabilidade e permanência, isto é, em sua ordem social. A sociologia dinâmica estuda a sociedade sob o aspecto da
mudança, do movimento, da evolução.
Estática e dinâmica, a sociedade reflete as preocupações políticas de Comte. A sociedade
do antigo regime (antes da Revolução Francesa) vivia em relativa estabilidade que foi abalada pelos
movimentos revolucionários. No estágio positivo da humanidade, essas revoluções tempestuosas,
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O QUE É SOCIOLOGIA?
essa critica filosófica que destrói e não constrói nada no lugar, esse individualismo exagerado dos
economistas liberais, cede espaço para o progresso do espírito humano, em direção à positividade
da ciência e da indústria baseada nas trocas pacíficas, na ilustração do espírito que atingirá a todos
e romperá com os conflitos abertos e permanentes e possibilitará a harmonia entre as classes. A
dinâmica estende sua visão para o futuro porque seu solo é a ciência e a indústria que não para de
se desenvolver e a estática resgata valores do passado, como a vida moral familiar e comunitária,
traduzidos agora, numa linguagem positivista.
Por um lado, Comte valoriza a crítica corrosiva dos filósofos do iluminismo, mas quer
superá-los e buscar uma ordem social para o caos político que presencia na sociedade francesa
de sua época. Por outro lado, valoriza as ideias politicamente conservadoras, como as de Edmund
Burke (1729-1797) que realizava uma crítica contundente à corrosão dos valores tradicionais, comunitários e familiares, das ideias absurdas dos filósofos das luzes que teriam desorganizado uma sociedade edificada durante séculos no respeito à ordem e à religião. Dinâmica significará para Comte
mudança, movimento, progresso em direção à industrialização e constante renovação do saber
científico e tecnológico, ou seja, em direção ao estado positivo, todavia sem revoluções tempestuosas e negativas, portanto, dentro da ordem (estática). No plano político, o bom governo é aquele que
governa por meio da ordem e do progresso, isto é, um governo positivista é aquele iluminado com a
razão científica e, portanto, um governo de sábios e tecnocratas. Essa visão política conservadora e
essa perspectiva sociológica teve audiência entre os militares e republicanos brasileiros: o lema de
Comte, Ordem e Progresso, (estática e dinâmica) está estampado em nossa Bandeira Nacional.
Na escala hierárquica das ciências, cinco haviam alcançado o estágio de positividade, ou
seja, utilizavam métodos positivos em suas pesquisas: a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química e a Biologia. Os critérios para essa hierarquia consistiam em verificar o maior ou menor grau de
generalidade de uma ciência, seu poder de abstração, sua autonomia e dependência. A matemática
figura entre as primeiras pelo seu grau de simplicidade, generalidade e autonomia frente às demais.
A matemática é a base de todas as ciências naturais. A sociologia, para Comte, é a última das ciências na escala evolutiva, todavia é a mais importante: é menos geral, mais dependente de outras
ciências, pois, sem o exemplo do raciocínio e do método das ciências naturais, não teria atingido o
estágio de positividade. Todavia, a sociologia é a mais complexa de todas, deve reunir, refletir e sintetizar todo conhecimento científico para a organização e felicidade da humanidade. É também mais
complexa, porque o homem é o objeto de estudo mais complicado, a sociedade é esse organismo
vivo e complexo que a sociologia da estática e dinâmica deve perceber e explicar cientificamente em
seu processo evolutivo e progressivo, desde a família que é a célula elementar do organismo social
aumentando em complexidade social até os níveis da indústria e das estruturas de poder do Estado.
Após a perda de seu grande amor, Clotilde de Vaux, Augusto Comte entra num momento de
introspecção e funda a Religião da Humanidade em que Clotilde é santificada, como símbolo da virgem, da pureza, da guardiã da família e da feminidade (ordem) que viria a contrabalançar os valores
masculinos da força e virilidade (progresso). O culto à Humanidade, quer dizer, à razão é sintetizado
na doutrina: O amor por princípio, a ordem por base e progresso por fim. Essa religião está permeada de rituais e hierarquicamente estruturada com seus sacerdotes-sociólogos e um panteão de
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
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divindades que são na realidade os heróis da humanidade, os grandes nomes da ciência, da filosofia
e da arte. No Brasil essa Igreja Positivista está presente e atuante até os dias atuais.
1.4 - ÉMILE DURKHEIM (1858-1917)
Émile Durkheim nasceu em Epinal, na França, em 15 de abril de 1858 e morreu em 15 de
novembro de 1917. Cursou a Escola Normal Superior e foi professor em várias escolas provincianas
e, mais tarde, lecionou na Universidade de Bordeaux no cargo de ensino da Pedagogia e Ciência
Social. A partir de 1902, é nomeado para a Universidade de Sorbonne na cadeira de Ciências da
Educação transformada, em 1913, em Ciências da Educação e Sociologia, o primeiro departamento
universitário na França a receber essa designação anos depois de Comte ter inventado o nome.
Durkheim é uma referência necessária e obrigatória na sociologia contemporânea e na vida
de todos os estudantes universitários de vários cursos. Foi um sábio profundamente apaixonado e
convencido de sua missão: fundar a sociologia em base científica e sólida e consolidá-la como disciplina acadêmica. Teve um êxito inegável, atestado pela importância atual que a sociologia adquiriu
em praticamente todas as universidades e colégios do mundo todo. Suas principais obras são: A
divisão do Trabalho Social (1893), As regras do método sociológico (1894), O suicídio (1897), As
formas elementares da vida religiosa (1912).
O que é um fato social?
Embora compartilhe com Augusto Comte a preocupação em tornar a sociologia uma ciência positiva,
ou seja, que se baseia no mesmo rigor das ciências naturais (observação, experimentação, comparação, classificação) no estudo dos fenômenos sociais, se distancia deste na maneira de entender
como a sociologia deve proceder. Em Regras do método sociológico Durkheim delimita seu objeto de estudo, não é a Humanidade toda como entendia Augusto Comte, mas os fatos sociais. A
Humanidade é um objeto de estudo muito vago, mas mais impreciso ainda é procurar desvendar
as leis de sua evolução em linha geométrica, porque o desenvolvimento das sociedades se dá de
maneira desigual, umas progredindo em alguns aspectos outras nem sequer se colocam a necessidade de progredir de um determinado jeito. É mais provável que a evolução tenha se dado em forma
de uma árvore, com seus ramos e raízes em sentidos históricos diferentes e muitas vezes opostos.
Traduzindo, o que Durkheim está falando é que o que existe são sociedades particulares, cada uma
com sua história, sua vida material e social, sua cultura, seu modo de ser e entender o mundo. São
essas sociedades particulares que o sociólogo irá estudar e observar. Estudar as sociedades particulares de maneira indiscriminada e aleatória, surtiria poucos resultados positivos, portanto, mais
precisamente os sociólogos estudam os fatos sociais. O que são os fatos sociais? Vamos ler o texto
a seguir para continuarmos a conversa. É importante conhecer e se familiarizar com a linguagem do
próprio autor:
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TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
IMPORTANTE
Estamos, pois, diante de uma ordem de fatos que apresenta caracteres muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores
ao indivíduo e dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhes
impõem. (...) Devemos, portanto, considerar os fenômenos sociais em si mesmos, desligados dos sujeitos conscientes que, eventualmente, possam ter as
suas representações; é preciso estudá-los como coisas exteriores, porquanto é
nesta qualidade que eles se nos apresentam. (...) O fato social é reconhecível
pelo poder de coerção externa que exerce ou é susceptível de exercer sobre
os indivíduos; e a presença deste poder é reconhecível, por sua vez, seja pela
existência de alguma sanção determinada, seja pela resistência que o fato opõe
a qualquer empreendimento individual que tenta violá-lo. (...) É fato social toda
maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção
exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais
(DURKHEIM, Émile. Regras do Método Sociológico. São Paulo: Abril Cultural,
1978. pp., 88, 90, 91, 92, 93, 100).
Para fazer sociologia, para desenvolver um olhar sociológico temos que sair do senso comum, afastar as pré-noções, tudo isso porque a sociologia é uma ciência e o olhar deve ser científico. Durkheim estabelece como regra sociológica primordial que o fato social deve ser visto como
coisa. Ele não está dizendo, que os seres humanos devem ser tratados como uma coisa qualquer
e muito menos que os seres humanos para os sociólogos não passam de coisas como madeiras,
pedras. Imaginemos um biólogo em seu laboratório: ele observa uma célula no seu microscópio objetivamente, assim como no mundo da física, da biologia, da química há coisas observáveis também
se pode dizer o mesmo em sociologia. No sentido sociológico, tratar os fatos sociais como coisas é
compreendê-los como objetos de estudo.
Para Durkheim, como vimos, o objeto de estudo dos sociólogos, por excelência, são os
fatos sociais. A religião, a educação, as relações econômicas, etc. são fatos sociais, exteriores às
consciências dos indivíduos e devem ser estudados como objetos de estudo, de forma objetiva, impessoal, sem julgamento de valor. Esse mesmo distanciamento e objetividade que um biólogo deve
ter com o seu objeto de estudo, ou seja, os seres vivos e o sociólogo não fogem a essa regra. Caso
pretendamos, por exemplo, estudar objetivamente uma determinada religião, não podemos estar
armados com nossos preconceitos, nossos pontos de vista pessoais, isto é, com nossos juízos de
valor, porque, agindo assim, não estaremos sendo sociólogos e não produziremos nenhuma explicação válida e importante sobre as crenças e a maneira de ser, de agir e de se organizar desses
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
TEMA 1
fiéis. Tire a religião do exemplo e coloque uma escola, um sindicato, uma empresa privada, uma
repartição pública ou uma simples volta pelo mercado municipal de uma cidade. Durkheim ensina
que, para atingir objetividade científica no estudo da vida social, para se produzir algo digno de ser
lido por outros e apreciado como importante para a sociedade que você vive é recomendável, ou
melhor, é regra científica que você tome o devido distanciamento do seu objeto de estudo, estude os
fatos sociais como coisas. Na natureza, só há coisas, e o cientista natural estuda seus fatos como
coisas. Os fatos que ocorrem na sociedade, igualmente, devem ser compreendidos objetivamente,
como coisas, afastando todo tipo de preconceito do senso comum. O sociólogo deve ter uma postura
científica, racionalista no estudo dos fatos sociais.
Designamos como social uma multidão de ocorrências. Todos os indivíduos comem, bebem,
dormem, raciocinam, têm pensamentos que são comuns ou realizam um movimento repetido e mecânico, como bocejar quando alguém próximo de nós o faz. Essa são ocorrências sociais, mas não
são fatos sociais no sentido dado por Durkheim. Fato social deve apresentar três características:
• É exterior às consciências e manifestações individuais;
• Deve ter um caráter de generalidade;
• Tem um poder de coerção sobre as consciências e manifestações individuais.
Vamos compreender melhor tudo isso. Vamos supor que você entre em um culto religioso e
observe a conduta das pessoas. Os indivíduos estão se relacionando sem a preocupação de calcular
cada gesto ou cada centímetro de sua atitude. Aliás, pareceria um louco quem assim agisse. O modo
de ser e de se comportar dos indivíduos presentes no culto religioso seguem convenções e regras
sociais de que eles não se dão conta, fazem isso ou aquilo porque é assim que precisa ser feito. A
sociedade, com suas normas, sua cultura e, sobretudo com sua moral social, à medida que partilhamos coletivamente esses valores passa a ter uma existência própria, uma independência em relação
aos indivíduos. Percebemos que não é um indivíduo que age de determinado modo no culto, muitos
têm condutas que se assemelham, se aproximam, há uma regularidade nas condutas dos fiéis, é
geral na extensão do grupo religioso que eu estou observando. As pessoas não sentem o poder de
coerção, de pressão dos fatos sociais. Os fiéis desse grupo religioso que estamos observando não
se sentem coagidos ou obrigados por nada, relacionam-se como se só existissem indivíduos com
vontade própria, não nos damos conta, mas a sociedade está presente com sua moral, suas normas
e regras em cada membro ali presente. Imaginemos agora que um indivíduo se comporte de maneira
reprovável durante o culto. Nesse caso, receberá a censura dos demais. Nesse momento negativo,
percebe-se mais claramente o poder imperativo da sociedade, isto é, dos fatos sociais, porque o indivíduo violou regras de conduta consideradas importantes para a coesão do grupo religioso e recebeu
da parte do grupo uma sanção, que pode ser uma simples censura, um olhar de reprovação ou algo
mais forte, mais grave, como, por exemplo, a expulsão daquela congregação religiosa. A sociedade,
salienta Durkheim, é uma realidade sui generis, isto é, singular, única. Portanto, um fato social, dirá
Durkheim, só pode ser explicado por outro fato social. Aumentaremos nossa compreensão dos fatos
sociais no item seguinte.
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TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
Consciência Coletiva e Solidariedade Social
Durkheim viveu uma época em que a França e a Europa de maneira geral passavam por muitas
mudanças sociais. A industrialização, as novas tecnologias aplicadas a indústrias, novas fontes de
energia como a eletricidade e o petróleo e a crescente urbanização e aglomeração das pessoas
nas grandes cidades e, em poucas palavras, o desenvolvimento do capitalismo, trazia consigo uma
série de desafios sociais que ele procurou abordar em suas obras. Vamos ler agora um fragmento
extraído de seu livro Da divisão do Trabalho Social, vejamos:
IMPORTANTE
O conjunto de crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de
uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem sua vida própria;
poderemos chamá-lo: a consciência coletiva ou comum. (...) é completamente
diversa das consciências particulares, se bem que se realize somente entre os
indivíduos. (...) Há em cada uma de nossas consciências (...) duas consciências:
uma, que é comum a nós e ao nosso grupo inteiro e que, por conseguinte, não
é nós mesmos, mas a sociedade inteira que vive e age em nós; a outra, que,
ao contrário, só nos representa no que temos de pessoal e distinto, no que faz
de nós um indivíduo.[Solidariedade Mecânica]: A solidariedade que deriva das
semelhanças se encontra em seu apogeu quando a consciência coletiva recobre exatamente nossa consciência total e coincide em todos os pontos com ela.
Mas, nesse momento, nossa individualidade é nula. Ela [a individualidade] só
pode nascer se a comunidade ocupa menos lugar em nós. (...) Nas sociedades
em que essa solidariedade é muito desenvolvida o indivíduo não se pertence (...)
ele é literalmente uma coisa de que a sociedade dispõe. [Solidariedade Orgânica]: Bem diverso é caso da solidariedade produzida pela divisão do trabalho.
Enquanto a precedente implica que o os indivíduos se assemelham, esta supõe
que eles diferem uns dos outros. A primeira só é possível a medida em que a
personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva; a segunda só é
possível se cada um tiver uma esfera de ação própria, por conseguinte uma personalidade. É necessário, pois, que a consciência coletiva deixe descoberta uma
parte da consciência individual, para que nela se estabeleçam essas funções especiais (...). Pertence à natureza das tarefas especiais escapar à ação da consciência coletiva; pois, para que uma coisa seja objeto de sentimentos comuns,
a primeira condição é que ela seja comum, isto é, que esteja presente em todas
as consciências e que todas possam representá-la de um único e mesmo ponto
de vista. (...) Mesmo no exercício de nossa profissão, conformamo-nos a usos, a
práticas que são comuns a nós e a toda nossa corporação. Mas, mesmo nesse
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
TEMA 1
caso, o jugo que sofremos é muito menos pesado do que quando a sociedade
inteira pesa sobre nós. [No tipo de solidariedade orgânica] a individualidade do
todo aumenta ao mesmo tempo que a das partes; a sociedade torna-se mais capaz de mover em conjunto, ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem mais movimentos próprios (DURKHEIM, Émile. Da divisão do trabalho
social. São Paulo: Martins Fontes, 2008. pp. 50,104,106,107,108).
A consciência coletiva, como vimos, são as crenças, os valores, os sentimentos comuns
presentes à média dos indivíduos de uma determinada sociedade. Ela faz parte do indivíduo, mas
vai além dele. A consciência coletiva é, portanto, um fato social, tem um poder de coerção sobre as
consciências individuais. Podemos perceber a força da consciência coletiva, por exemplo, na representação que nossa sociedade tem da relação entre pais e filhos. Os pais devem educar os filhos e
dar-lhes carinho, devem ser severos quando preciso, mas ponderados e tolerantes quando necessário. Os filhos, por sua vez, devem tratar os pais de forma respeitosa e amorosa. Se, numa comunidade qualquer, os papéis que os pais devem desempenhar não são cumpridos, ou seja, os filhos
numa determinada família são tratados violentamente ou de forma intolerável ou, inversamente, se
os filhos tratam os seus pais de forma que fere os sentimentos coletivos de como devem ser os filhos
em relação aos pais, a consciência coletiva age com suas sanções num sentido moral, os vizinhos, a
escola ou o próprio poder público manifestam-se. A educação dos filhos, a família são coisas sociais
e a consciência coletiva não fica indiferente a isso.
A consciência coletiva é uma dimensão moral da sociedade. São correntes de pensamento
e sentimentos que perpassam invisíveis o corpo social, só a percebemos em casos limites como em
nosso exemplo, mas ela está presente nas relações afetivas, nas relações profissionais ou familiares, etc., ou seja, em tudo o que é social, a sociedade está presente. No trabalho eu me comporto
de determinada maneira, à mesa uso talheres, cumpro as obrigações de irmão, namorado, esposo,
cidadão, honro compromissos que contraí na compra de um bem qualquer, comunico-me através da
língua falada em minha cultura e tudo se passa com naturalidade. A consciência coletiva pesa sobre
nós, no entanto não a sentimos como uma força estranha. A organização social, o funcionamento
da sociedade só é possível pela presença da consciência coletiva. Para Durkheim, a sociedade não
é uma simples soma de indivíduos, é um corpo orgânico em analogia a um organismo vivo e cada
órgão deve cooperar com os demais para o corpo como um todo funcione harmonicamente. As
consciências particulares precisam estar combinadas e associadas para formar uma individualidade
psíquica de novo gênero, ou seja, a consciência coletiva que depende do individuo, mas tem existência própria.
Os conceitos de solidariedade mecânica e solidariedade orgânica nos fazem entender melhor
o que Durkheim diz por consciência coletiva. A sociedade moderna, industrial, capitalista, passa por
um processo de crescente diferenciação social, ou seja, uma crescente especialização das funções,
que, por sua vez, é consequência da divisão do trabalho social. Percebemos isso claramente quando
30
TEMA 1
O QUE É SOCIOLOGIA?
visualizamos o interior de uma fábrica; cada operário realiza uma função, cada seção compõe-se de
um determinado número de trabalhadores. Pensemos em uma indústria automobilística: uma seção
produz o motor, outra monta o carro, outra verifica a qualidade do que foi produzido, isso tudo falando simplificadamente. São muitas as empresas e os operários se diferenciam pelos vários ramos da
indústria. Façamos o mesmo exercício de pensamento para a sociedade de modo geral: existe na
política o poder executivo, o poder legislativo, o poder judiciário; nos serviços uns são educadores,
médicos, advogados, eletricistas, pedreiros, merceeiros e assim por diante. A diferenciação se estende infinitamente, no estilo de vida, no tipo de gosto, na moda, etc. Pois bem, Durkheim dirá que
essa nova realidade produz uma nova solidariedade, um novo tipo de laço entre as pessoas, que
ele chama de solidariedade orgânica. Numa fábrica, que pode ser comparada a um organismo vivo,
cada operário coopera com o outro, cada seção especializada coopera com a outra para realizar o
produto final, o carro, por exemplo. Na sociedade em geral também, e, sem nos damos conta dependemos um do outro, cooperamos, para que seja possível a organização social. O médico, o professor, o eletricista, o merceeiro, cada qual desempenhando sua função constrói a arquitetura social
caracterizada pela interdependência tanto na esfera econômica, como na política e nas relações em
geral.
A solidariedade mecânica, por sua vez, é característica de sociedades “simples” se comparadas com a sociedade industrial moderna. Numa sociedade indígena, de cultura tradicional, por
exemplo, a divisão do trabalho social é mais simples: há uma divisão sexual do trabalho: os homens
fazem determinadas tarefas, por exemplo, caçam e pescam e as mulheres cuidam dos trabalhos
domésticos e da agricultura. Os homens são educados para serem guerreiros e caçadores e as
mulheres são educadas para procriar e cuidar da casa. Uns são feiticeiros e adivinhos, os velhos
representam a autoridade, constituem um conselho de anciãos. Essa imagem ultrassimplificada de
uma sociedade indígena tradicional nos ajuda a compreender o conceito de solidariedade mecânica: é própria de um organismo social mais “simples”, no qual a diferenciação social e, portanto, a
divisão do trabalho social é menos extensa, baseada no gênero e na idade. Podemos estender essa
imagem para uma cidade do interior, onde a diferenciação social também é muito diferente de uma
cidade metropolitana.
O que tudo isso tem a ver com consciência coletiva? Vamos entender isso. Em uma sociedade onde vigora uma intensa e crescente divisão do trabalho social, ou seja, onde há mais diferenciação social a consciência coletiva é mais fraca, mais frouxa, mais elástica, mais flexível, portanto,
a margem de liberdade das pessoas é grande, há mais individualidade. Nela, a consciência coletiva
e a moral social não pesam tanto, embora não deixem de existir. Costumamos dizer que tal indivíduo
é moderno, querendo dizer que ele tem um estilo de vida próprio da sociedade moderna e industrial,
também é mais livre, tem mais autonomia, comparado com sociedades mais tradicionais, nas quais
a religião, por exemplo, ainda tem um peso grande na conduta das pessoas. Numa sociedade moderna, a religião, embora continue tendo o seu papel, não cobre todas as dimensões de existência
do indivíduo, pois sua liberdade de pensamento tem amplo terreno para crescer e vicejar.
Numa sociedade em que vigora a solidariedade mecânica, o peso da consciência coletiva é
maior, isto é, há menos individualidade, a moral social é mais rigorosa, podemos dizer que a tradição, aqueles valores e regras respeitados há muito tempo, influenciam mais o comportamento das
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A IMPORTÂNCIA DA COM
O QUE É SOCIOLOGIA?
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pessoas, o indivíduo tem que se movimentar ao ritmo do corpo social como um todo. Nesse caso,
os desvios em relação ao comportamento padrão são mais facilmente percebidos. Exagerando ao
extremo, numa sociedade onde impera absolutamente a solidariedade mecânica e a consciência
coletiva a individualidade é nula. Essa seria uma situação limite.
O mundo moderno desenvolve, por seu lado, aspectos disfuncionais. As rápidas mudanças
vindas com o mundo moderno, o enfraquecimento da religião, crenças e valores tradicionais, podem
criar um extremo individualismo, uma elasticidade exagerada da consciência coletiva, e a destruição dos laços de solidariedade, podem criar disfunções no corpo social que Durkheim caracteriza
como anomia (ausência de regras sociais) um vazio social, um sentimento de desespero e angústia
ou uma ética puramente utilitária que desvaloriza o outro ou vê no outro um simples meio de obter vantagens. Uma situação inquietante em que pode de desenvolver uma solidariedade negativa,
anômica. É importante lembrar, nas palavras de Durkheim, que existem em nós duas consciências
que se combinam, uma que nos força mais para a individualidade, a ser nós mesmos, a outra que
nos movimenta mais em direção do coletivo, é a própria sociedade dentro de nós. Embora seja uma
só consciência e ambas se equilibrem, o desequilíbrio extremado pode causar uma situação de
anomia.
IMPORTANTE
O estudante deve estar atento. Na perspectiva sociológica de Durkheim, a anomia corresponde àquelas situações sociais em que as normas, as regras e as
orientações morais estão em conflito e “o indivíduo tem dificuldade em conformar-se às suas exigências contraditórias” como bem observa o Dicionário de
Ciências Sociais da FGV. Por fim, salientemos, corresponde a um estado limite
de desorganização social e ausência de regras que orientem o comportamento
social. A sociedade pode apresentar traços anômicos; alguma ou algumas das
dimensões do corpo social podem apresentar elementos anômicos.
Vamos a um exemplo, em que igualmente iremos exagerar: Numa cidade do interior, fortemente marcada por laços face a face, as pessoas são mais próximas umas das outras. Na praça central, visualizamos todos os poderes constituídos: a igreja, a delegacia, o fórum, o prédio da prefeitura.
Uma via central e a disposição da maior parte do comércio local se localiza neste pequeno centro.
Nele, as relações de vizinhanças são mais estreitas. Geralmente os valores sociais e a moral social
costumam ser mais rigorosos. Comportar-se mais livremente, por exemplo, em relação ao estilo de
vida, ser “moderno” demais pode chocar a consciência coletiva dessa pequena cidade, que responde
a essa afronta com sanções, reprovações, alguém pode até chamar a polícia. Já numa cidade grande, o estilo de vida é mais diversificado, as pessoas se vestem de diversas maneiras, vivem uma vida
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O QUE É SOCIOLOGIA?
sexual mais livre, ou seja, têm mais individualidade, portanto, a consciência coletiva é mais flexível.
Podemos sintetizar o que dissemos num pequeno esquema. Leia em linha horizontal considere os
sinais de mais (+) e menos (–) indicando a intensidade de cada elemento que, combinados, dão um
resultado (=):
(–)
Divisão do Trabalho Social
(+)
Divisão do Trabalho Social
(–)
Diferenciação
Social
(+)
Diferenciação
Social
(–)
Individualidade
(+)
Individualidade
(+)
Consciência Coletiva
(–)
Consciência Coletiva
(=)
Solidariedade
Mecânica
(=)
Solidariedade
Orgânica
Vamos dar mais um exemplo que Durkheim usou muito para ilustrar o que ele pretendia dizer
por fato social e consciência coletiva. O crime é um fato social. Não há uma sociedade em que não
exista crime, a não ser uma sociedade de santos, portanto, do ponto de vista sociológico, crime é um
fato normal. Todavia, como definir crime, se uma simples ofensa, numa sociedade, pode ser tratada
severamente e, noutra, vista como falta leve ou mesmo nem é considerada ato delituoso? Crime,
então, no sentido sociológico, pode ser definido como todo ato que ofenda a consciência coletiva
e que, por sua vez, reclama por parte desses sentimentos coletivos ofendidos uma determinada
pena. Nesse sentido, muitas reações da sociedade que costumamos chamar de pena, apresentam
semelhanças e diferenças captáveis pela observação e passível de ser definido na categoria crime.
Nesse sentido, crime não será só aquilo que prescreve a lei jurídica e formal, mas tudo o que ofenda
a consciência coletiva e reclame por parte desta uma reação que se chama pena. Veja que é bem
diferente de uma visão em que crime é o que está previsto na lei. É mais que isso. A própria lei é uma
expressão dos sentimentos sociais. É a sociedade, portanto, que pune uma ofensa realizada contra
ela, por meio da consciência coletiva, que, em última análise, pode se expressar nos aparelhos repressivos institucionais, o Direito, a Justiça, mas também em sanções de reprovações e censuras.
Quando o crime deixa de ser um fato normal? Quando ele atinge uma taxa muito elevada ou
quando determinado crime é sentido como algo desorganizador da vida social com intensidade desmedida. Tudo depende da conjuntura social que se está analisando. Durkheim dirá que, sociologicamente, ele será considerado um fato patológico, isto é, o organismo social está doente, as regras
sociais e morais, em determina conjuntura, não estão funcionando adequadamente, estão falhando,
os laços de solidariedade estão esgarçados, a sociedade está desorganizada. Essa situação pode
piorar, desenvolvendo-se uma doença mais grave e uma situação de anomia quando à imunidade
do organismo social não está dando conta dos milhões de vírus que o estão atacando. Um exemplo
da ficção nos ajuda a compreender o crime numa situação de anomia: quando, por exemplo, o crime
organizado se embrenha no aparelho do Estado, elegendo deputados, governadores, como bem
mostra o filme Tropa de Elite, dirigido por José Padilha (Brasil, 2007), em que Wagner Moura protagoniza o Capitão Nascimento, destemido comandante do BOPE, Batalhão de Operações Especiais,
uma ficção com forte apelo à verossimilhança. De maneira geral, o crime é um fato normal. Essa
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perspectiva sociológica de Durkheim pode ser entrevisto no pensamento do sociólogo brasileiro
Sérgio Adorno:
As infrações contra o patrimônio cometidas por adolescentes infratores, no período de 1993-96, representam 51,1% (no período anterior,
1988-91, representavam 49,5%. Entre esses crimes, o roubo tomou a
dianteira antes ocupada pelo furto. Os registros relativos ao uso e porte
de droga representam 4,30%, enquanto as relativas ao tráfico representam 2,90%. É muito pouco significativa a ocorrência de homicídios
(1,30%), embora essa modalidade de infração tenha a faculdade de
exercer ampla mobilização da opinião pública e estimular o imaginário
coletivo de medo e insegurança. É significativo que 11,70% de todos os
registros refiram-se a lesões corporais resultantes de agressões, uma
proporção quase três vezes maior que o porte ilegal de armas e do que
as infrações relativas ao porte, consumo e tráfico de drogas (Adorno,
Sergio. Adolescentes na Criminalidade Urbana em São Paulo, Brasília, Ministério da Justiça, Secretaria do Estado dos Direitos Humanos,
1999).
Observe que, embora algumas modalidades de crimes cometidos por adolescentes tenham
taxas mais altas, os homicídios cometidos por eles chocam mais a consciência coletiva, e fazem
crescer o sentimento de medo e insegurança, pois, no imaginário popular, a criança e os adolescentes representam a continuidade da sociedade. Por isso, dizemos geralmente “a juventude é o futuro
da nação”.
REFLITA
O que é um fato social? A consciência coletiva é um fato social? Que tipos de
solidariedade social a divisão do trabalho social produz? O que é fato normal, patológico? Quais as características de um estado de anomia? Você compreendeu
a perspectiva teórica de Durkheim e como ele define a sociedade?
Suicídio: um estudo exemplar
Em seu estudo sobre O suicídio, publicado em 1897, e em seu intuito de fundar a sociologia
como ciência autônoma, diferenciando-a de outras ciências, notadamente da psicologia, Durkheim
escolhe como objeto de estudo um objeto curioso, o suicídio. Por mais individual que seja uma pessoa tirar a própria vida, pode ser tratado como um fato social, ou seja, podemos perceber a influên-
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O QUE É SOCIOLOGIA?
SAIBA MAIS
• Representações coletivas: Leia mais sobre as
representações coletivas
na interessante interpretação da sociedade brasileira feita pelo antropólogo e sociólogo Roberto
Da Matta: DA MATTA,
Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para
uma sociologia do dilema
brasileiro. Rio de Janeiro:
Rocco, 1997.
Para o conceito de representações
coletivas
no sentido durkheimiano:
DURKHEIM, Émile. Formas elementares da vida
religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São
Paulo: Edições Paulinas,
cia da sociedade neste tipo de atitude. Estudando e interpretando os
dados estatísticos da França da época Durkheim elabora uma explicação eminentemente sociológica. Classifica o suicídio relacionando com
suas ideias sobre a solidariedade social e pelo maior ou menor grau de
integração de um indivíduo na sociedade:
• O suicídio egoísta é explicado pela baixa integração do
indivíduo na sociedade, pelo seu isolamento, a sociedade está fracamente representada em sua consciência.
O casamento, a religião e outras situações, fornecendo
ao indivíduo um sentido para a sua vida, o protegem e
o integram.
• O suicídio altruísta ocorre quando o indivíduo está integrado de mais, sua individualidade está submersa no
coletivo a exemplo dos pilotos japoneses, os kamikazes,
que, durante a segunda guerra mundial, se atiravam suicidamente sobre os seus alvos americanos ou os “homens-bomba” islâmicos, nesses casos uma causa, uma
missão se eleva acima do indivíduo.
• Por fim, o suicídio anômico, causado pela falta regulação social. Em determinas situações, crises econômicas, transformações muito abruptas, divórcio, e muitas
outras, o indivíduo não sente o chão sob os seus pés e
as regras sociais não funcionam mais como referência
na situação conturbada.
1989.
A introdução ao pensa-
Representações Coletivas
mento de Durkheim na
coleção Grandes Cientistas Sociais, feita por
José Albertino Rodrigues
é
muito
esclarecedo-
ra: DURKHEIM, Émile.
Sociologia. (seleção de
textos e introdução do
organizador). In RODRIGUES, José Albertino e
FERNANDES, Florestan
(coord.) Durkheim. São
Paulo: Ática, 1993.
Em todas as suas obras Durkheim procura abordar as representações coletivas elevadas à condição de fato social e produtoras
de fatos sociais. Nas manifestações religiosas, no calor efervescente
dos rituais, festas e cerimônias, por exemplo, o indivíduo deposita sua
força em uma força que o transcende, que vai além dele e que, em
última análise, é a própria sociedade que é elevada a essa potência
moral que ultrapassa as fronteiras da religião. Por meio dos rituais religiosos, as pessoas reforçam o seu pertencimento ao grupo. A religião
consiste na demarcação – por parte das representações religiosas – de
dois campos, o sagrado e o profano. As crenças religiosas são, portanto, representações que prescrevem, num sentido moral, ao indivíduo,
como deve ser o seu comportamento em relação ao campo do sagrado. Quando juntos, numa mesma atmosfera religiosa, os indivíduos
reforçam seus laços sociais de solidariedade: é a sociedade que se
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A IMPORTÂNCIA DA COM
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edifica em verdadeira potência que é adorada. Como bem observa o sociólogo francês Raymond
Aron (1905-1983) para Durkheim, “as sociedades são umas máquinas de fabricar deuses.” (ARON,
1997 p.330). É a sociedade que favorece o surgimento das crenças:
“As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que surgem unicamente no seio dos grupos reunidos e que se
destinam a suscitar, a manter, ou a refazer certos estados mentais desses grupos”. (Durkheim, Émile.
Formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Edições Paulinas, 1989. p. 38).
Alguns fatos sociais, como o crime, para retomar o nosso exemplo anterior, redimensionam
nosso entendimento. Uma representação, observa Durkheim, não é simplesmente uma imagem da
realidade, uma sombra inerte projetada em nós pelas coisas. O crime por representar um estado
contrário aos nossos sentimentos, justamente aqueles que nos são mais caros, contrário ao que
entendemos por ordem social, introduz uma desorganização e provoca por parte da consciência
coletiva uma reação emocional. A imagem da Medusa entre os gregos da antiguidade provocava a
petrificação de quem a via de frente. Simboliza as forças da desordem que deveríamos evitar e combater, enquanto Apolo era o deus que simbolizava as forças da harmonia.
Observe que representações coletivas é coisa diferente de consciência coletiva. Quando representamos nossa vida social por meio das crenças religiosas ou de nossas ideias, entendemos
por ordem social em oposição à desordem, estamos alimentando nossa consciência dos elementos
sociais mais diversos. O pão representa o corpo de Cristo, o vinho representa o sangue. A cruz representa o sacrifício. A missa reforça esse pertencimento do grupo e revive o momento fundamental da
vida cristã católica. A consciência coletiva é o motor e o idioma de nossa ação, são os sentimentos
comuns, as crenças e valores comuns, uma força moral que nos faz agir nesta ou naquela direção.
As representações coletivas são manifestações sociais, consistem em veículos das crenças e sentimentos, exprimem uma realidade coletiva. Falando de outro modo, podemos dizer que a consciência
coletiva é integrada por representações coletivas ou, ainda, que a consciência coletiva é a totalidade
das representações coletivas organizadas de uma determinada maneira, por exemplo, pelo campo
do sagrado, quando os indivíduos interagem e compartilham os valores religiosos da sociedade ou
de uma determinada igreja ou grupo religioso.
REFLITA
Como podemos perceber as representações coletivas na realidade social brasileira? O carnaval, particularmente o de rua, como demonstra o sociólogo e antropólogo Roberto Da Matta, pode ser visto como um ritual de inversão, o momento
carnavalesco “suspende temporariamente a classificação das coisas, pessoas,
gestos, categorias, grupos no espaço social, dando margem para que tudo e
todos possam estar deslocados”. Numa sociedade autoritária e hierarquizada
como a brasileira, não é difícil ouvirmos de pessoas de todas as classes sociais
(pobres ou ricos) a expressão com quem você pensa que está falando.
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Esse ritual autoritário que presenciamos no cotidiano é uma reminiscência, uma
marca da formação colonial brasileira, de uma hierarquia de senhores e escravos
que se amalgamou na cultura e identidade nacional onde cada um deve saber
qual é o seu lugar. Todavia, na festa carnavalesca, observa Da Matta, é ilegítimo
utilizar essa fórmula brasileira clássica (com quem você pensa que está falando?). O carnaval ritualiza, dramatiza a vida social; as representações coletivas
carnavalescas produzem um mundo invertido, um espaço de igualdade numa
sociedade profundamente desigual e hierarquizada, “as escolas reúnem pobres
e milionários, astros de futebol e do rádio, televisão e cinema”. Há uma trégua
entre dominantes e dominados, “a inversão constituída entre o desfilante (um
pobre, geralmente negro ou mulato) e a figura que ele representa no desfile (um
nobre, um rei, uma figura mitológica) e, ainda, a participação de toda a sociedade
inclusiva, seja como juiz, seja como torcedor” (DA MATTA, p.58).
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RECAPITULANDO
Nesses primeiros passos introdutórios tivemos contato com uma diversidade de temas e
problemas sociológicos. Aprendemos a cultivar a nossa imaginação sociológica e desta forma compreendemos que a perspectiva sociológica se afasta do senso comum por ser uma ciência, mais
especificamente, uma ciência social. Aprendemos também que o objeto de estudo da sociologia
pode ser expresso genericamente como as relações e interações sociais. O sociólogo procura estudar, explicar e compreender as relações sociais de acordo com sua perspectiva teórica específica.
A abordagem sociológica se diferencia de outras abordagens dentro das ciências humanas e em
especial em relação às ciências naturais embora se espelhe nessas ciências quanto ao método científico. Émile Durkheim, dentre os precursores e fundadores da sociologia estudados até o momento
foi o que mais contribui para a afirmação da sociologia como ciência, dando uma solidez teórica,
metodológica e conceitual. O seu pensamento permanece atual e rico em possibilidades e pode ser
considerado uma fonte inesgotável de sugestão e de alimento para a nossa imaginação sociológica.
Na perpectiva de Durkheim a sociedade pode ser vista como um “complexo de fatos sociais” e a
dimensão coercitiva da sociedade é reconhecível na dinâmica da vida social. Mais importante que
concordar ou não com suas ideias é ter aprendido a raciocinar, a pensar sociologicamente.
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