Maria Dalva Casimiro da Silva Relações de Trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro: Resistência e Modernização Universidade Federal do Rio de Janeiro 2007 i Relações de Trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro: Resistência e Modernização Maria Dalva Casimiro da Silva Universidade Federal do Rio de Janeiro Centro de Filosofia e Ciências Humanas Escola de Serviço Social Mestrado em Serviço Social Orientador: Prof. Dr. Giuseppe Mário Cocco Rio de Janeiro 2007 ii Relações de Trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro: Resistência e Modernização Maria Dalva Casimiro da Silva Dissertação submetida ao corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social em Nível de Mestrado da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre. Aprovada por: Prof. Dr. ___________________________________________________ - Orientador Prof.Doutor Giuseppe Mário Cocco Profª Drª. __________________________________________________ Profª. Doutora Maria de Fátima Cabral Marques Gomes Prof. Dr. ___________________________________________________ Prof. Doutor Fréderic Monié iii RESUMO SILVA, Maria Dalva Casimiro da. Relações de Trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro: Resistência e Modernização. Orientador: Giuseppe Mário Cocco. Rio de Janeiro: UFRJ/CFCH/ESS/Programa de Pós Graduação em Serviço Social em Nível de Mestrado, 2007. Diss. A dissertação é o resultado de uma pesquisa sobre as relações de trabalho no cais do porto do Rio de Janeiro levando em consideração o perfil do trabalhador portuário avulso. Tem-se como base as grandes transformações ocorridas no processo de trabalho ocasionadas pela Reestruturação Produtiva e pela Globalização - tendências que vêm incidindo direta e profundamente na composição e no perfil da força de trabalho, gerando a necessidade da qualificação de um novo tipo de trabalhador, cujo perfil se enquadre aos objetivos empresariais de gestão da força de trabalho para o aumento da produtividade. Na dissertação portanto, pretendemos levar em consideração as profundas mudanças que vem ocorrendo no mundo do trabalho e os reais impactos nas relações entre capital e trabalho, destacando-se aqui a figura do trabalhador que no mundo globalizado, assume o papel de mero coadjuvante, ou seja, em seu sentido pejorativo, de “colaborador” dentro deste cenário. Mesmo diante das contrariedades que este quadro apresenta, intencionamos aqui, considera-lo protagonista, principal figura dentro deste processo. É de grande interesse desvelar através do estudo e da investigação, o perfil do trabalhador portuário e a sua inserção em um mundo cada vez mais modernizado, levando-se em consideração os aspectos culturais, políticos e sócio-econômicos, buscando perceber qual a importância e qual o papel que ocupam na sociedade enquanto sujeitos responsáveis pelas atividades do porto, sendo este considerado o termômetro que mede a temperatura da economia de um país. iv ABSTRACT SILVA, Maria Dalva Casimiro da. Relações de Trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro: Resistência e Modernização. Orientador: Giuseppe Mário Cocco. Rio de Janeiro: UFRJ/CFCH/ESS/Programa de Pós Graduação em Serviço Social em Nível de Mestrado, 2007. Diss. The dissertation is the outcome of a search about workrelations on Rio de Janeiro quay port and have main purpose from unconnected hard worker. The great changes was done by the way of production and by globalization has taken as foundation, these tendencies indides directly and deeply on composition of the profile from power of work begetting of necessity of qualification of new kind of worker wich profile frames on way of companies on management of power of work to increase productivity. This dissertation intends to take in consideration the deep changes that came occurring in the world of work and real impact between capital and work showing the hard worker to the globalizad world, the hard worker became a mere assistant or your pejorative way "collaborator", in this scene although contrariety we intend show him as main person into this way. It is very interesting to search through study, on investigastion the profile of hard worker and his insertion in this modern although cultural sights, politic sights and way economic of life, looking for what is importance in the society, thus to been responsible by activities on quay port, been thermometer measuring of temperature of economic of one country. v “Tudo é do Pai, Toda a honra e toda a glória É D’ele a Vitória Alcançada em minha vida”. Dom vi AGRADECIMENTO Agradeço infinitamente a Deus, pela sua força e sabedoria que sempre me concedes para realizar grandes coisas e por me revelar o imenso da vida, me fazendo enxergar longe, além do horizonte. Aos meus pais, que sempre me incentivaram e respeitaram a minha opção e dedicação pela vida acadêmica. A todos que passaram pela história da minha vida deixando marcas e contribuições, me fazendo crescer profissionalmente. Neste sentido, não posso deixar de apresentar minha grande estima pela Assistente Social do OGMO, Luciana Maria Capra, que no ano de 2000 me permitiu conhecer o Cais do Porto, local até então desconhecido para mim, mas que já revelara os seus “encantos” no momento em que eu fora contratada como estagiária em Serviço Social e logo após, efetivada como Assistente Social. Sem dúvidas, os dois anos e meio de trabalho no Órgão Gestor de Mão-de-Obra Portuária foram definitivos para a aquisição de conhecimento sobre aquela área e esta dissertação nada mais é do que o resultado dessa vivência. Agradeço também à banca examinadora da turma de 2004, do Programa de Pós-Graduação da Escola de Serviço Social, especialmente ao professor Jean (in memorian), responsáveis pela minha aprovação no processo de seleção do mestrado e pelo investimento aplicado. Ao CNPQ pela bolsa concedida. Ao meu orientador Giuseppe Cocco, pela paciência, dedicação e atenção. Ao pesquisador Gerardo Silva do Laboratório de Território e Comunicação – LaBTec.que colaborou na pesquisa e na coleta de material sobre o porto. Agradeço a todos os Trabalhadores Portuários Avulsos – TPAs, que sempre me trataram com um grande carinho e respeito, participando da pesquisa e de entrevistas por mim solicitadas. O mesmo agradecimento direciono ao Fiscal de Operações da Companhia Docas do Rio de Janeiro, Carlos Augusto, que aceitou ser entrevistado por mim, me dando orientações e facilitando o meu acesso em outros setores da Cia Docas para a coleta de material. A todas essas pessoas agradeço por serem co-autoras dessa dissertação. vii GLOSSÁRIO Amarradores – Nome dado aos associados que ingressaram no Sindicato em 1985, por determinação da Delegacia do Trabalho Marítimo, em razão da extinção dos postos de trabalho dos que executavam os serviços de amarração dos navios às bóias no largo da Baía da Guanabara. Cabotagem – Transporte interno de mercadorias. Cadastrados – Os que compõem atualmente o quadro de mão-de-obra supletiva. Câmbio – Controle de rodízio no qual é utilizado um sistema em que cada dia trabalhado equivale a um furo ou picote na papeleta de trabalho. O câmbio gira de zero a quatro furos. As preferências ao engajamento são dadas aos que têm menos furos. O modelo de escala adotado pelo OGMO, apesar de sistematizado, preservou inicialmente o antigo sistema de câmbio. Capatazia – Serviço de movimentação de cargas em terra. Cara de Madeira – Terminal de computador que realiza a escala. Cavalo – Sub-locação de mão-de-obra. Ocorre quando um trabalhador é escalado para o trabalho e este coloca outro trabalhador no seu lugar, indo realizar outras tarefas. Geralmente o “cavalo” é cadastrado. No final, o pagamento recebido é do titular que repassa para o “seu prestador de serviço” em torno de 20% do que foi pago. Conteinerização – Trata-se de uma modalidade de transporte de cargas que não somente tem permitido a sua significação e obtenção de um alto grau de segurança, no seu translado e manipulação como também a sua automatização, que vem trazendo uma grande redução da mão-de-obra em comparação com as tarefas básicas de estiva e depósito. DTM – Como eram chamados os componentes do quadro de mão-de-obra supletiva. viii DTM – Delegacia do Trabalho Marítimo. Estivagem – Arrumação da carga nos porões. GEMPO – Grupo Executivo para Modernização Portuária. Guincho – Mecanismo de controle do movimento de subida e descida do peso do pau de carga. Lingada – Volumes acondicionados em estropos, fundas ou redes, para serem içados pelo guindaste ou guincho de bordo. Parede – Momento do engajamento no trabalho. Pear / despear – Prender / desprender; fixar a carga nos porões depois de estivada. Registrados – Os que compõem atualmente o quadro de mão-de-obra efetiva. Resistência – O mesmo que arrumadores. SINDOPERJ – Sindicato dos Operadores Portuários do Estado do Rio de Janeiro. Terno – Equipe de trabalhadores. TPA – Trabalhadores Portuários Avulsos. Transbordo – Movimentação de carga de uma embarcação para outra. Unitização – Técnica que se refere à possibilidade de transportar mercadorias gerais de diferentes tipos, pesos e tamanhos como se fossem uma só. Vinculados – Estivadores com vínculo empregatício em caráter permanente, afastado do rodízio avulso. ix Sumário Introdução ..................................................................................................................... 11 Capítulo 1 Desenvolvimento Portuário e o emprego da mão-de-obra: alguns aspectos históricos e culturais 1. O porto e a cidade do Rio de Janeiro: rumo à modernização ..................................... 20 2. A utilização da mão-de-obra portuária ........................................................................ 24 3. O desenvolvimento portuário a partir da década de 30 .............................................. 28 Capítulo 2 A Modernização dos Portos e o caso específico da Mão-de-Obra Portuária Avulsa – alguns aspectos econômicos ...................................................................................... 32 1. A Lei de Modernização dos Portos – Lei 8.630/93 ..................................................... 34 Capítulo 3 Relações Sociais e de Trabalho no Cais do Porto: sindicatos, trabalhadores e operadores portuários – alguns aspectos sócio-políticos ....................................... 57 1. A modernização portuária e o início das demissões em massa ............................... 59 2. A relação sindicato – OGMO no processo de modernização portuária .................... 60 3. A Modernização e os Sindicatos do Porto do Rio de Janeiro sob a ótica dos trabalhadores............................................................................................................. 64 Capítulo 4 Perfil do Trabalhador Portuário Avulso ........................................................................... 74 Considerações Finais ................................................................................................... 83 Anexos ........................................................................................................................... 90 Bibliografia .................................................................................................................... 110 x xi Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização O Introdução papel dos portos na historicidade de quase todas as cidades brasileiras tem se dado desde o período colonial. Neste período os portos constituíam os elos fundamentais de intercâmbio entre metrópole portuguesa e cidades brasileiras entre si; constituindo-se em portas de entrada dos colonizadores e escravos, e portas de saída das riquezas sobre as quais se baseavam os diferentes ciclos econômicos brasileiros. Vimos crescer no interior do porto, ao redor de suas atividades, a zona portuária, com características bastante peculiares. Temos cidades portuárias quando toda atividade da cidade faz-se em torno e há como no porto do Rio de Janeiro, zona portuária delimitada pela proximidade a mesma. Com o início das atividades portuárias surgiram as vilas portuárias onde moravam os trabalhadores e suas famílias. Surgiram também, uma rede de serviços para atender a demanda dessas vilas como também a dos embarcados que apenas aportam na área. De acordo com os autores Giuseppe Cocco e Gerardo Silva1, pesquisadores e estudiosos do tema abordado nesta dissertação, ao longo do século XX, principalmente nas últimas décadas, as cidades redesenharam suas relações com o mar e o porto tornou-se um ”anexo específico dentro de uma organização cada vez mais funcional do espaço nacional”. A extração dos portos de seus respectivos tecidos urbanos foi conseqüência do projeto de desenvolvimento nacional, transformando-os em ”infraestruturas terminais de corredores de exportação planejados e gerenciados no nível federal“ (COCCO & SILVA, 1999:10). Neste período, o Estado proporcionava um fluxo relativamente estável de investimentos em infra-estruturas e em serviços. Em função desta disponibilidade de recursos e do interesse estratégico do governo central, houve uma enorme concentração de poder nas instâncias mais centralizadas de administração, planejamento e, portanto, dos centros metropolitanos relativamente desenvolvidos. Não havia qualquer preocupação em vincular a gestão pública da cidade ao porto. Foram criados órgãos autônomos em relação às instituições locais, como a PORTOBRÁS, que desempenhou um papel relevante na integração entre elas. 1 SILVA, Gerardo e COCCO, Giuseppe “Cidades e Portos – os espaços da globalização” - DP&A editora, 1999. 12 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização No Rio de Janeiro criou-se um cinturão ao redor do porto com características próprias, porém tal perfil vem sendo gradualmente descaracterizado. Na década de 80, a perspectiva de desenvolvimento do porto oriunda do modelo desenvolvimentista entrou em crise. O Estado abriu mão de seu papel de interventor na estrutura produtiva; fazendo-se surgir novos padrões de reprodução e organização social do trabalho; ”tornando-se obsoletos antigos parâmetros de uso e financiamento das infraestruturas de comunicação e transporte” (COCCO & SILVA, 1999:17). As infra-estruturas adquiriram uma nova concepção de articulação entre as esferas da produção e do consumo, ou seja, produção de bens voltados para o mercado, com o fim de atenderem às necessidades do consumidor num mínimo de tempo. Dentro de um contexto de modernização, onde situamos como condutores, o processo de globalização vinculado à reestruturação produtiva conduzidos por forças hegemônicas em âmbito internacional; os portos passaram a assumir nova função ”gerenciar e organizar fluxos contínuos de bens para produção e o consumo, a partir de redes de empresas que se estendam de maneira difusa e flexível pelos territórios“ (COCCO & SILVA, 1999:17). Importante observar que essas tendências vêm incidindo direta e profundamente na composição e no perfil da força de trabalho, gerando a necessidade da qualificação de um novo tipo de trabalhador, cujo perfil se enquadre aos objetivos empresariais de gestão da força de trabalho para o aumento da produtividade. A utilização de equipamentos automatizados, o emprego cada vez mais especializado, a crescente “conteinerização” das cargas, além de outras formas de “unitização”, têm facilitado tecnologicamente este processo; porém reduzindo a demanda de mão-de-obra, movimentando cada vez mais cargas com cada vez menos mão-deobra. Este processo de modernização pelo qual os portos estão passando, está ligado diretamente à inovação do papel sócio-econômico que sempre lhe pertenceu, sendo visto como locus de intercâmbio, isto é, de saída e entrada de mercadorias e também como responsável pelo desenvolvimento estratégico do país ainda que em moldes arcaicos e ultrapassados até então. A intenção de se tornar uma grande área comercial, despertou no porto do Rio de Janeiro a necessidade de se inserir no mundo globalizado, altamente mecanizado, ainda que em passos iniciais a caminho da inovação de seu quadro geral. Sendo assim, passou a atuar exaustivamente em dois aspectos que foram, num primeiro plano perseguir o padrão de tecnologia operacional da atividade em conformidade com o 13 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização novo padrão de transporte marítimo, e num segundo aspecto, modelar suas estruturas organizacionais para o atendimento a uma atividade cada vez mais comercial e competitiva. A partir deste contexto, observamos que, através das transformações ocorridas em toda a economia mundial, a questão portuária está se resumindo exclusivamente a uma única palavra, que se constitui num fim único para o seu desenvolvimento – qualidade. Com a introdução das várias inovações tecnológicas, e em especial, de novas formas de organizar o trabalho no porto, surge a exigência de um novo perfil de seus trabalhadores. Para atender a tais desígnios, foram criadas leis e normas que regulamentassem e garantissem tal processo de modernização portuária. A Lei 8.630, criada em 25 de fevereiro de 1993, também conhecida como ”Lei da Modernização dos Portos“, vem sendo gradualmente implementada, tendo como fim principal, a modernidade da área portuária no que diz respeito a suas instalações e à racionalização na utilização de mão-de-obra portuária. Além disso, esta lei passa a garantir a competitividade entre os portos com o objetivo de se tornarem cada vez mais eficientes e acima de tudo com baixos custos. Como já foi mencionado anteriormente, este processo de modernização passa a atingir também a mão-de-obra portuária, uma vez que se exige trabalhadores com boas condições físicas, sem nenhum impedimento para a realização de tais atividades. Dessa forma, um dos objetivos também apresentados é o de inovação da mão-de-obra, que além de diminuir os custos, irá garantir a boa qualidade do trabalho, uma vez sendo realizado por trabalhadores com média faixa etária, que serão adequados aos modernos processos de manipulação de cargas e incentivados a aumentarem a sua produtividade. Tais mudanças, como serão vistas no segundo capítulo desta dissertação, em contrapartida, estão relacionadas à redução considerável da demanda de mão-de-obra, que implicará na diminuição dos custos, e à exigência da incorporação de um novo perfil de trabalhador, que corresponda aos padrões de multifuncionalidade profissional, considerando-se não só o desenvolvimento de tarefas e funções pertinentes à atividade, mas à capacidade de absorver novos conhecimentos e a estar preparado para oferecer soluções aos diversos problemas e desafios enfrentados no ambiente de trabalho. O perfil do novo trabalhador deve então, estar em consonância com as novas funções que 14 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização deverá desempenhar, atendendo-se ainda a necessidade de transferibilidade entre as funções desempenhadas, que significa a extinção de algumas categorias sendo as suas atividades incorporadas a outras categorias já existentes, ou, em último caso, construir outras formas de alternativas de sobrevivência fora do mercado formal de trabalho. Nesta dissertação, como visto, torna-se desafio maior considerar as profundas mudanças que vêm ocorrendo no mundo do trabalho e os reais impactos nas relações entre capital e trabalho, analisando o caso específico do cais do Porto, destacando-se aqui a figura do Trabalhador Portuário Avulso – TPA, que no mundo globalizado, assume o papel de mero coadjuvante, ou seja, em seu sentido pejorativo, de “colaborador” dentro deste cenário. Mesmo diante das contrariedades que este quadro apresenta, intencionamos, nos capítulos que se seguem, considera-lo protagonista, principal figura dentro deste processo. Considerando o perfil dos trabalhadores, a hipótese apontada é a de que hoje, não mais se imagina em um modelo de produção moderno, o perfil característico da chamada até então “zona portuária”. Porém, o que torna o quadro contrastante é o fato de existir, na totalidade da mão-de-obra, um quantitativo considerável de trabalhadores desgastados fisicamente, visto que tiveram sua vida produtiva executada em péssimas condições de saúde e segurança. Em outras palavras poder-se-ia afirmar que, mesmo após a implantação da Lei de Modernização dos Portos, com seus acordos e convenções ou contrato coletivo de trabalho, que deveriam estabelecer as novas relações de trabalho, o perfil do trabalhador permanece incompatível com o processo, não atendendo, de certa forma, aos desígnios desejados de eficiência e competitividade, tratando-se de um cenário profundamente contraditório e ao mesmo tempo incerto no que diz respeito à mão-de-obra dos portos, não só do Rio de Janeiro como de outras localidades que aderiram ao modelo de reestruturação e globalização. Este fato acabará acarretando a redução maciça da mão-de-obra e ao mesmo tempo o desemprego de centenas de trabalhadores, visto não serem desenvolvidas políticas sociais eficazes de garantia de direitos dos trabalhadores portuários avulsos. 15 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Capítulo 16I Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Desenvolvimento portuário e o emprego da mão-de-obra: alguns aspectos históricos e culturais "A capital não pode continuar a ser apontada como sede de vida difícil, quando tem fartos elementos para constituir o mais notável centro de atração de braços, de atividades e capitais nesta parte do mundo" Rodrigues Alves, 15 de novembro de 1902. A frase acima foi dita pelo presidente Rodrigues Alves, um paulista de Taubaté que ao assumir o cargo no dia 15 de novembro de 1902 afirmou que o seu programa de governo seria muito simples e se limitaria exclusivamente ao saneamento e melhoramento do porto do Rio de Janeiro. No seu ideário, não só o porto se constituía em uma área precária e desorganizada como também grande parte da cidade crescia desordenadamente. Entre 1903 e 1906, promover um ambicioso programa de renovação urbana da capital era o objetivo central do então presidente Rodrigues Alves, uma vez sendo tratada como questão nacional. Na verdade, a reforma urbana representava uma ruptura no processo de urbanização do Rio de Janeiro que apresentava de forma evidente uma mudança de paradigma, onde a cidade colonial passaria a ceder espaço determinantemente à cidade burguesa, típica de uma cidade moderna do século XX, utilizando-se como parâmetro as grandes metrópoles européias. Sustentada pelo tripé: saneamento–abertura de ruas–embelezamento, a renovação urbana não só daria, na concepção do projeto, um padrão arquitetônico mais digno de uma cidade-capital, como também atrairia capitais estrangeiros para o país. Para isso, obras de grande monta foram realizadas tanto pela prefeitura2 quanto pelo governo federal, cabendo a este, abrir as avenidas Central e do Mangue e iniciar um processo árduo de saneamento na cidade. Era também de sua responsabilidade realizar 2 No programa de renovação urbana da capital de Rodrigues Alves, foi atribuído à prefeitura sob a gestão de Pereira Passos, demolir o casario do centro antigo, abrir e alargar diversas ruas e embelezar os logradouros públicos. 17 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização as obras de modernização do porto do Rio de Janeiro, dada a grande precariedade de suas estruturas tendo como objetivo a articulação do novo porto ao centro da cidade. A Avenida Central e do Mangue foi construída em fevereiro de 1904 tendo como objetivo, entre outros, melhorar e facilitar a Arquivo CDRJ circulação de mercadorias na Destarte, retratarmos sobre o desenvolvimento portuário e os seus impactos na vida laboral e cotidiana dos trabalhadores portuários, é considerar, antes de tudo, este ambiente como um espaço estratégico, não só de crescimento econômico para o país como também de desenvolvimento e fortalecimento da economia local, referindo-se ao Rio de Janeiro. Neste sentido, ao fazermos um reconhecimento de identidade do cais do porto, é preciso considerá-lo inserido em um processo de desenvolvimento não só econômico, mas também, social e político que diz respeito a interesses de âmbito nacional3. Esse assunto estará vinculado ao próximo capítulo, ao retratarmos sobre a modernização dos Portos do Rio de Janeiro, claramente dinamizada pela reestruturação produtiva e pela globalização. Neste capítulo nos ateremos apenas ao desenvolvimento portuário articulado à expansão da cidade do Rio de Janeiro4. 3 Eu diria mais nacional do que local, pois esse desenvolvimento tem a ver com a grande concorrência mercadológica promovida pelo investimento econômico, dinamizado pela globalização e pela reestruturação produtiva. 4 De acordo com Bittencourt (2004), a atividade portuária, comercial e, principalmente, política, fez com que o Rio também se tornasse a sede da Marinha de Guerra que, desde o século XVIII, tinha aqui sua maior base, o 18 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Podemos considerar o Rio de Janeiro como sendo uma das principais cidades a concentrar expressivos contingentes populacionais do país, dada a sua privilegiada condição de metrópole, onde materializam-se as relações econômicas e sociais e onde se instalam os principais centros de atividades produtivas e distributivas de bens e serviços. Sendo assim, podemos dizer que o Rio de Janeiro, assim como outras metrópoles, representa, na atualidade, um espaço físico e social rico e dinâmico. Cumpre frisar que durante quase dois séculos e meio, de 1716 a 1960, a cidade do Rio do Janeiro foi a capital da Colônia, do Império e da República do Brasil, reinando na política, na economia, na cultura e como centro financeiro e social do país. Este fato se tornou mais evidente durante o percurso do século XIX, período em que ocorreram grandes esforços para colocar o Brasil em compasso com as transformações tecnológicas e organizacionais que ocorrera inicialmente na Europa. Logo após a independência, a capital continuou crescendo aceleradamente, desenvolvendo-se e demarcando a sua posição de centro político, administrativo e financeiro do império, tornando-se um núcleo urbano movimentado, cosmopolita, na qual viviam cerca de duzentos habitantes, em 1872. O Rio de Janeiro, tornou-se então, o maior mercado consumidor urbano do país e a única metrópole brasileira neste período. O Rio de Janeiro manteve durante muito tempo intacta a sua vocação de centro cultural e turístico e continua sendo a principal porta de entrada dos estrangeiros que vêm ao país. Mesmo perdendo a liderança para o porto de Santos5, sendo este o principal porto exportador do país, a cidade tinha já no século XIX o porto como o maior importador de imigrantes, se tornando um dos portos mais movimentado do mundo, estando na Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. A presença dessa grande base naval, somada às necessidades criadas durante os conflitos do Prata (1850-1870), contribuíram para que surgisse aqui uma pequena indústria de construção e reparos navais. Tanto o Arsenal quanto a região de Niterói passaram a sediar docas e diques de reparos e construção. Desde então, a indústria de construção e reparos navais firmou-se como uma das principais atividades da região. 5 O Rio já competia, desde o final do século XIX, com Santos, em São Paulo, de onde partia o grosso das exportações de café do Brasil. Mas ainda levaria muito tempo até que o Rio perdesse para Santos a liderança em volume de cargas e negócios - isto só iria acontecer em meados dos anos cinqüenta do século passado. Durante a Segunda Guerra, aumentou a participação da navegação de cabotagem nas atividades portuárias. O volume de atracações chegou a crescer cerca de 12 por cento, o que não significa que houve um aumento no volume de cargas, pois os navios costeiros são significativamente menores do que os grandes vapores oceânicos. 19 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização mesma posição dos portos de Montevidéu e Buenos Aires, já na segunda metade do século em questão. Este fato despertou nos governantes o interesse particular em manter relativamente as instalações modernas e em bom estado. O porto e a cidade do Rio de Janeiro: rumo à modernização A necessidade de articular o porto ao centro do Rio de Janeiro nos remete a uma historicidade de desenvolvimento da cidade que se confunde com a história do próprio cais do porto e da zona portuária pois entrelaçado com a vida do porto está o próprio processo de construção da máquina administrativa do Estado Nacional. Nesse contexto até então apresentado, a figura do porto se expressava de uma forma contundente visto possuir uma importância estratégica, econômica e comercial, porém, ainda no final do século XIX, o porto do Rio de Janeiro não possuía uma estrutura que pudesse atender à altura as necessidades locais, principalmente no que dizia respeito à movimentação de cargas e ao embarque de passageiros, uma vez sendo a cidade naquele período o centro político, econômico, cultural e comercial do país. Havia intensa movimentação de cargas que eram realizadas em instalações precárias e rudimentares. Como essas instalações não possuíam profundidade suficiente, eram feitas apenas pequenas embarcações. Sendo assim, a movimentação de cargas e de pessoas era realizada através de vários barcos de pequeno porte, que encareciam e tornavam morosas as operações6. Em contrapartida, as atividades portuárias se intensificaram a partir dos anos 1830, logo após o desenvolvimento e crescimento da indústria cafeeira. Ao mesmo 6 Há muitos anos vigorava uma "especialização" no litoral da cidade: os ancoradouros da Saúde e da Gamboa recebiam navios mercantes, cabendo ao trecho correspondente à atual praça XV os navios de passageiros. Em ambos os locais, os navios não podiam acostar, ficando fundeados ao longo da orla. Assim, as operações de carga e descarga eram realizadas por pequenas embarcações que, no caso da Gamboa e da Saúde, não conseguiam atender ao crescente fluxo de mercadorias. As condições de armazenagem oferecidas pelos trapiches, por sua vez, eram bastante insatisfatórias, ao passo que as docas de D. Pedro II (chamadas Nacionais após a proclamação da República) e a estação marítima da Gamboa não garantiam a eficiência necessária aos serviços que tinham lugar naquele trecho do porto. (in “O Rio de Janeiro do seu tempo” – Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz). 20 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização tempo, via-se claramente uma disputa espacial entre os trapiches, armazéns e oficinas, e as residências, chácaras e sítios, modificando consideravelmente o perfil daquele lugar. O porto teve condições necessárias para a atracação de navios e movimentação das cargas somente após a sua construção em 1906, sendo o seu primeiro armazém inaugurado em 1910, passando a ser mais tarde armazém 18, desativado para a movimentação das cargas com o objetivo de abrigar o local de escalação dos estivadores e de outros trabalhadores portuários avulsos. Em termos de localização, o cais do porto sempre foi considerado a zona mais perigosa da cidade do Rio de Janeiro, oferecendo sérios riscos para quem se aventurasse pelas suas ruas e variados becos, ladeiras e morros. Apesar do perigo, a cidade identificava o local como o ”beco do samba”, do carnaval popular e de outras práticas culturais associadas à identidade negra e africana. Foi a partir da segunda metade do século XIX que o Rio de Janeiro passou a ser considerado uma cidade insalubre, assolada por constantes e severas epidemias, como febre amarela, varíola e cólera-morbo, causadas não só pela ocupação desordenada, uma vez que as habitações coletivas se multiplicavam aceleradamente, como também pela falta de uma política sistemática de limpeza pública, aliadas às características climáticas e topográficas da cidade7. Com este fato, a cidade passou a adotar internacionalmente o estigma de porto sujo. Nos principais jornais da cidade, via-se a seguinte manchete; Rio de Janeiro, a capital das doenças e epidemias nacionais No verão, o porto e a cidade são atacados pela febra amarela. No inverno, o inimigo é a varíola (3 566 mortos em 1904). Por todos os lados há cólera e os surtos de peste bubônica. Na falta de um hospital, tuberculosos buscam refúgio em cortiços e favelas. Esse é o triste retrato do Rio de Janeiro, onde os esforços do Dr. Oswaldo Cruz, 7 No início do século XX, o Rio de Janeiro enfrentava graves problemas sociais, decorrentes, em larga medida, de seu crescimento rápido e desordenado. Com o declínio do trabalho escravo, a cidade passara a receber grandes contingentes de imigrantes europeus e de ex-escravos, atraídos pelas oportunidades que ali se abriam ao trabalho assalariado. Entre 1872 e 1890, sua população duplicou, passando de 274 mil para 522 mil habitantes. 21 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização iniciados no anos passado, estão longe de chegar ao fim. Quatro entre cinco imigrantes que descem em seu porto sucumbem á febre amarela. A doença atinge tropas inteiras de companhias teatrais. Os brasileiros mais abonados fogem do Rio. Vão para Petrópolis, de onde avistam o Rio de muito longe. É para Petrópolis que sobem também, no verão, o presidente da República e seus ministros, deixando a Capital Federal entregue aos ratos, insetos e aos pobres. O Rio, a antiga corte, é uma vergonha nacional. (matéria publicada em 1905) Por conta dessa precariedade que assolava a cidade, os higienistas foram os pioneiros na formulação de um discurso articulado sobre as condições de vida no Rio de Janeiro. A partir de então foram propostas intervenções enérgicas a fim de restaurar não só o equilíbrio mas a sociabilidade do local. Entendiam que a cidade se tornara um “organismo doente” que deveria ser curado. Entre 1873 e 1876, em meio a duas fortes epidemias (febre amarela e varíola), foi elaborado o primeiro plano urbanístico que durara em sua execução aproximadamente três décadas para ser concretizado. Em muito contribuiu a difícil estabilidade político-econômica, alcançada pelo governo Campos Sales, entre 1898 e 19028, para que o ambicioso programa de renovação urbana da capital fosse realizado pelo presidente Rodrigues Alves, entre 1903 e 1906, como visto inicialmente. Seguindo o modelo de civilização industrial e urbana implantado nas principais potências capitalistas européias, este ideário de desenvolvimento obteve a adesão da mais nova elite intelectual e política, que se tornou realidade no governo federal e com a gestão do prefeito Pereira Passos, no início do século XX9. 8 No final dos oitocentos, um surto de grandes obras públicas, motivado pela disponibilidade de capitais, fez com que os principais portos da América do Sul sofressem grandes obras, o que também aconteceu no Rio de Janeiro. 9 No caso específico do Rio de Janeiro, uma grande reforma urbana tentou dar a cidade feição européia, de forma a capacitá-la a competir com Buenos Aires e Montevidéu como centro de atração de investimentos estrangeiros. A modernização do porto transferiu suas instalações para a região em torno da ponta do Caju, intensamente modificada por aterros e dotada de infra-estrutura moderna e equipamentos capazes de ampliar o movimento de mercadorias. As instalações eram concessões públicas feitas, por longos períodos, a empresas particulares de características monopolistas. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, algumas das empresas mais lucrativas do mundo estavam sediadas no Rio de Janeiro: A Companhia Docas do Rio era uma delas. 22 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização A reforma urbana de Pereira Passos pressupôs, de acordo com alguns textos da época, um renascimento moral e a existência de uma oposição radical entre a cidade antiga, tradicional, atrasada, feia e suja, e o Rio de Janeiro moderno, progressista, belo e higienizado. Podemos perceber claramente uma gênese análoga entre a referida reforma urbana e da cidade de modo geral, e a modernização portuária e o porto propriamente dito. Tanto na historicidade do desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro quanto no processo de modernização da zona portuária, existia um imaginário das “velhas classes perigosas”, representadas neste cenário pelas camadas mais pobres que residiam e trabalhavam na área, mais especificamente os negros, que representava a maioria. Para a imposição de suas determinações, os governantes criaram como hábito a utilização do chicote, apelando cotidianamente para uma força policial corrupta e violenta, que garantia a ordem através da opressão. Limpar a cidade e transformar a capital modernizando-a, significava fundamentalmente, eliminar da vista e do convívio o grande contingente de pobres e mestiços que teimavam em sobreviver, mesmo dentro das condições tão precárias que lhe eram destinadas pois não existiam projetos e programas de promoção social para essa grande massa. As oposições entre o feio e o belo; o passado e o futuro; o atraso e o progresso estavam presentes tanto no discurso de desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro, quanto na defesa de um porto moderno. O funcionamento antigo do sistema portuário era visto como um conjunto ultrapassado de trapiches precários e ineficientes. Vislumbravase um porto que surgiria das obras redentoras provindas da reforma urbana, ou seja, o cais moderno, que permitiria a atracação de grandes vapores e promoveria uma revolução nos métodos de trabalho através da supressão das operações de carga e descarga nos saveiros, já que existia uma grande impossibilidade de atracação de grandes navios. Início das obras do cais da Gamboa – Arquivo CDRJ 23 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização A utilização da mão-de-obra portuária Em sua obra intitulada “Estivadores do Rio de Janeiro: Um século de presença na história do movimento operário brasileiro”, o estivador Luiz Gustavo Nascimento de Almeida descreve o histórico do porto e a inserção de sua categoria nesse ambiente laboral, dando ênfase às conquistas obtidas através da organização do movimento operário, mais precisamente do sindicato, assunto que será abordado no terceiro capítulo. Segundo o autor, o serviço portuário é dinamizado principalmente através da mão-deobra avulsa e faz do porto um local privilegiado. De acordo com as análises de ALMEIDA (2003), o modelo da utilização da mãode-obra (do estivador) foi inspirado na Europa. Lá utilizaram os serviços dos homens que viviam nas regiões portuárias, empregando-os por tarefa quando havia trabalho, remunerando-os apenas por essa tarefa. Segundo ARANTES (2005), nesse tipo de trabalho, convivia uma massa bastante heterogênea de trabalhadores de diversas identidades raciais e nacionalidades, porém, mesmo sendo, o Rio de Janeiro, uma cidade de maioria branca, naquele ambiente, a predominância era dos negros. Para alguns autores que se dedicaram à história da cidade, a presença dos escravos era um fator marcante, algo característico no trabalho portuário do Rio de Janeiro. Todos os serviços de transporte de cargas, e também de pessoas, por terra ou por água, estavam nas mãos dos escravos. Trata-se de trabalhadores que têm como principal local de moradia, de trabalho e de lazer, a região formada pelos bairros vizinhos ao cais – Saúde, Gamboa e Santo Cristo – especificamente tidos pelas autoridades como “perigosos”. O caráter ocasional do trabalho era uma das principais características da mão-deobra portuária. Tal forma de contratação moldava a experiência dos trabalhadores do porto em diversos níveis: na organização do trabalho, nas lutas sindicais e também nas horas de folga e lazer. HOBSBAWN afirma que o porto nada mais é que “uma indústria de fronteiras fluídas”, onde se reuniam diversas ocupações, desde o serviço de carga e descarga de carregamentos, passando pelo sistema de transportes de mercadorias, tanto por água quanto por terra, manutenção das instalações e das máquinas, até as atividades burocráticas de conferência e despacho de mercadorias. 24 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Com relação à contratação, o número de trabalhadores portuários chamados para determinado trabalho dependia da quantidade de cargas que deveriam ser embarcadas ou desembarcadas naquele dia. O critério utilizado para a escalação dos trabalhadores portuários era pré-definido. Esse sistema levou à criação e manutenção de um exército permanente de mão-de-obra na área portuária, ao qual os empresários recorriam nos momentos de pico do movimento portuário, o que provocava a desvalorização dos salários, uma vez que aos trabalhadores portuários avulsos que ficavam à espera de trabalho, era pago um valor bem inferior pelos serviços prestados, comparando-se à remuneração dos trabalhadores que normalmente eram escalados. Os trabalhadores eram escolhidos na “parede”, ou seja, no local onde se apresentavam para disputar uma vaga nas turmas que fariam o serviço. Todos os dias, em diversos horários, vários homens se reuniam em busca de trabalho. Ganhavam por período trabalhado, que podia ser por hora, dia ou noite trabalhada, ou, até mesmo por volume de mercadoria transportada. Aos trabalhadores que não eram selecionados para o trabalho cabia a dolorosa tarefa de voltar para suas residências ou ficarem aguardando a próxima escalação, que representava para eles, uma remota esperança de serem inseridos no trabalho. Para tanto, perpassavam noites nos bairros circunvizinhos ao cais do porto, nos chamados “bairros portuários”, pois a qualquer momento poderiam ser escalados. As praças e os bares passaram a ser neste sentido, lugares demasiado íntimos para tais trabalhadores, pois faziam desses ambientes pontos de encontro por excelência. Os trabalhadores que passavam a noite no cais do porto à espera de trabalho tinham uma vantagem pois uma vez já estando lá, acordaria no local de trabalho, bem cedo se apresentando para uma possível escalação na “parede”. Até mesmo os trabalhadores que tinham residência fixa longe da zona portuária, optavam pelas hospedarias. A forma de contratação e de relação trabalhista entre os empresários e os trabalhadores do porto propiciava a esses permanecerem dias e noites corridas no ambiente laboral, pois tinham que se apresentar cedo na “parede”, e mesmo à noite, desembarcar navios para descarga. Em algumas situações a própria atividade exigia a permanência do trabalhador no local de trabalho. Muitos, para pouparem o dinheiro com hospedagem e transporte até o local de moradia, dormiam ou nos bancos de alguma praça quando não, nos próprios botes do cais. 25 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Muitos que ali permaneciam, na ausência de trabalho no cais do porto, conseguiam obter algum ganho exercendo outras tarefas eventuais. O cais do porto acabou se tornando um lugar propício para àqueles trabalhadores mais pobres conseguirem serviços provisórios que pudessem suprir parte de suas necessidades. Sendo assim, não era raro encontrar homens realizando diversas tarefas. O trabalho portuário envolvia muitos trabalhadores residentes de bairros distantes, porém, os bairros situados na área portuária concentravam a maior parte da mão-de-obra desde o início do século XX. Com relação à seguridade, nas análises de ALMEIDA (2003), os trabalhadores não recebiam nenhuma proteção de cunho social ou previdenciário. Caso adoecessem ou se acidentassem, passariam a depender exclusivamente da caridade pública e, para tratamento médico, a única opção eram os deficientes, porém gratuitos serviços da Santa Casa de Misericórdia, mantidos pela Igreja Católica. A penosidade e insalubridade dos trabalhos nos porões geralmente os incapacitavam para a profissão muito cedo, por volta dos 50 anos de idade. Trabalhavam quase todos descalços, movimentando volumes muito pesados em árduas jornadas de trabalho, muitas delas ultrapassando 12 horas diárias. Não havia horário determinado para as refeições ou qualquer tipo de descanso. Resumindo, o trabalho portuário dava-se em sua maioria nos trapiches (ALMEIDA, 2003), que eram numerosos nas pontes (pequenos cais de madeira ou de alvenaria) e ao longo, nos porões dos vapores de carga ou paquetes (navios que transportavam cargas ou passageiros) e pequenos barcos. Como a maior parte desses locais não era dotada de guindastes, o trabalho era basicamente feito à custa do esforço físico dos homens, que transportavam os volumes nas costas ou na cabeça, através de pranchas para os navios ou vice-versa. Arquivo CDRJ 26 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Além da área portuária da Saúde, Gamboa e Centro, também se faziam operações em várias ilhas da Baía da Guanabara, principalmente na Ilha do Governador. Com a construção do porto, algumas mudanças aconteceram: - Houve uma mudança na geografia da zona portuária e também no que diz respeito às condições de trabalho dos estivadores. - Os guindastes substituíram as pranchas no transporte das cargas aos navios. Os esforços dos operários foram reduzidos consideravelmente, já não mais carregavam às costas os pesados fardos e a volumosa sacaria. Com isso diminuíram também os postos de trabalho pois os estivadores que antes também trabalhavam nos trapiches ficaram restringidos aos espaços dos navios, ficando o trabalho de terra, a chamada capatizia, a cargo de outra categoria que surgia, os trabalhadores da resistência – os atuais arrumadores – e os portuários. Esse fenômeno porém, não criou a necessidade de se reduzir o contingente dos estivadores, porque a modernização nos métodos de manipulação de cargas logrou uma maior movimentação de mercadorias e de navios no porto. Porém, a desativação dos trapiches até o funcionamento pleno e definitivo do porto (1904 a 1910) levou os estivadores a grandes crises por falta de trabalho. Os esforços dos operários foram reduzidos consideravelmente, já não mais carregavam às costas os pesados fardos e a volumosa sacaria. Foto: Arquivo CDRJ 27 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização O desenvolvimento portuário a partir da década de 30 Na década de 30, passamos a observar certa estagnação nas atividades econômicas ligadas ao setor portuário, pois, com o crescimento da indústria paulista, muito intenso nos anos 30, parte do movimento do Rio transferiu-se para Santos. Segundo BITTENCOURT (2001), o movimento de atracações ainda não traduzia tal esvaziamento por causa da permanência, no Rio, das grandes casas importadoras e das empresas de navegação de cabotagem. Entre as mais conhecidas, estavam a Companhia de Navegação Costeira, que também tinha uma grande instalação de reparos navais em Niterói, e a Organização Henrique Lage, com estaleiros e oficinas na Ilha do Governador. O Rio também manteve, embora incipiente, uma indústria estatal de estaleiros militares, situados no Arsenal de Marinha e na Ilha do Governador. Já a partir de 1934, com o chamado “Estado Novo” e com um programa estatizante, o porto passou a ser tratado como fator de desenvolvimento econômico, porém, sob controle do Estado. Alguns intelectuais acham que houve propostas equivocadas de legislações, pois foi a era Vargas que mais regulamentou a atividade portuária no País. No período de 1964, no regime da ditadura militar, o enfoque era de área de segurança, não tendo como objetivo aumento de movimentação de mercadoria nem avanço tecnológico das operações portuárias, para tornar o porto um fator de desenvolvimento. Com o passar do tempo, a presença do Estado na economia foi ficando cada vez mais forte e, em 1975, foi criada a Empresa de Portos do Brasil S/A – PORTOBRAS, uma “holding” que representava o interesse do governo em centralizar atividades portuárias. Desta maneira, seguindo o critério de centralização da administração pública federal vigente à época, iniciado no Estado Novo e intensificado após 1964, era consolidado o modelo monopolista estatal para o Sistema Portuário Nacional. De acordo com o Assessor do Ministério do Trabalho e Emprego Raimundo F. Kappel, que faz uma análise sobre o desafio dos portos brasileiros na sociedade, naquela época, as relações dos trabalhadores e empresários estavam sob total controle do aparelho do Estado, não permitindo o processo de modernização das atividades portuárias com maior eficiência. Sobre esse assunto veremos com mais detalhes no terceiro capítulo. Por força de uma legislação ora paternalista e autoritária e a inexistência 28 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização de uma política correta para os portos, ao longo dos anos foi-se criando, segundo KAPPEL (2003) “uma expressiva massa de trabalhadores da orla marítima, que tornaram o sistema de relações de trabalho algo obsoleto e autoritário, com criação da Delegacia do Trabalho e dos Conselhos Regionais do Trabalho Marítimo”. Ao Conselho Superior do Trabalho Marítimo cabia controlar todos os atos normativos para operação, inclusive as taxas portuárias, e isto foi responsável por custos exagerados nas operações de carga e descarga, ao obrigar os contratantes de serviços a pagarem por um excessivo contingente de mão-de-obra. Foi nesse momento que teve início um período de marcante ineficiência nos portos brasileiros. A POPRTOBRÁS explorava os portos através de subsidiárias, as Companhias Docas, tendo também assumido a fiscalização das concessões estaduais e, até mesmo, dos terminais privativos de empresas estatais e privadas, aumentando muito, com isso, a burocracia nos portos. Antigo Prédio da Portobrás No início de 1993, o sistema portuário brasileiro passava por uma crise institucional sem precedentes, principalmente pelas nefastas conseqüências advindas com a abrupta dissolução da PORTOBRÁS, por força da Lei nº 8029/90, criando um desastroso vazio institucional. Esse processo culminou com a aprovação da Lei 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, conhecida como Lei de “Modernização dos Portos”. Esta fase foi a mais difícil para o sistema portuário, que passou a ter um novo marco legal: a partir dessa nova regulamentação mais privatista nos portos, se estabeleceu uma nova 29 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização regulamentação com esse objetivo, e também foram criadas organismos institucionais para dar suporte a esse marco. A partir de então se iniciou o embate sobre a reforma portuária no Brasil, que é tida como requisito básico para a retomada do crescimento econômico. Com a chamada modernização, as posições pró reforma indicavam a necessidade de mais e melhores equipamentos e instalações – para aumentar a eficiência dos serviços e reduzir seus custos – e de novas formas de regulamentação das operações tendo como objetivo o uso da mão-de-obra, principalmente a avulsa. Ambos os aspectos implicavam, segundo os atores empresariais, avanços na privatização dos serviços portuários que modificou completamente as estruturas portuárias brasileira, permitindo progredir na liberalização do setor e, como resultado, no estímulo à concorrência, inclusive desleal. Desde então, vários portos e terminais privados passaram a disputar as cargas. O processo de competição entre os portos à luz da Lei 8.630 de 1993, impulsionado pela globalização e pela reestruturação produtiva será o assunto do próximo capítulo. 30 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Capítulo II 31 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização A Modernização dos Portos e o caso específico da Mão-de-Obra Portuária Avulsa – alguns aspectos econômicos Na atualidade, por conta do processo de modernização pelo qual os portos não só do Rio de Janeiro mas de todo o mundo estão passando, os trabalhadores portuários avulsos, queiram ou não, estão submetidos aos efeitos da globalização que se configuram: na crescente competição internacional, nas novas tecnologias, na busca da qualidade, na redução de custos e na qualificação profissional. Cumpre afirmar que tanto a globalização quanto a reestruturação produtiva são modalidades balizadas pelo neoliberalismo, política econômica que se configurara no início da década de 80 no Brasil. Diga-se de passagem, seguindo as afirmações de OLIVEIRA10, se tratando da realidade brasileira, os efeitos das políticas neoliberais tendem a ser mais perversos do que nos países centrais, isso se dá principalmente pela ausência de um Estado de Bem Estar Social ou de um sistema de proteção social consolidado. De acordo com SCHERER (1999), o cerne da modernização portuária está na nova organização econômica industrial, que se baseia na constituição de “redes globais de fornecedores, exigindo a criação de sistemas de logística capazes de colocar insumos e componentes diretamente nas indústrias, observados critérios de qualidade, fluxo e prazos determinados”. Conseqüentemente, a abrangência da análise de reestruturação de uma matriz de transporte há de ser nacional e de integração global. Dessa forma, os portos deixaram de ser apenas locais onde se realizam a movimentação, o armazenamento e o transbordo de cargas, para passar a ser também um modal importante nessa reestruturação, visando a elevação da competitividade das empresas e o aumento das exportações11. Nesse sistema portanto, SCHERER afirma que a baixa 10 OLIVEIRA, Íris Maria de, 1990. 11 Com isto, segundo SCHERER, comprova-se que a atividade portuária é, na sua essência, um aglomerado produtivo cuja especialidade é a movimentação de mercadoria oriunda de embarcações marítimas ou fluviais numa área definida, que tem como objetivo o comércio exterior, com isto gerando divisas e fazendo o equilíbrio da balança comercial brasileira. 32 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização produtividade e os altos custos, representam um grande obstáculo ao crescimento das exportações, sendo este o caso dos portos brasileiros, o que acaba por limitar a participação do Brasil no crescimento do comércio mundial. Uma das exigências desse processo, por este motivo, está relacionado à redução maciça da demanda de mão-de-obra implicando na diminuição dos custos e na exigência de um novo perfil de trabalhador, que corresponda a uma nova forma de multifuncionalidade profissional, considerando-se não só o desenvolvimento de tarefas e funções pertinentes à atividade, mas à capacidade de absorver novos conhecimentos e a estar preparado para oferecer soluções aos diversos problemas enfrentados no ambiente de trabalho. Em outras palavras, nos referimos à inovação da mão-de-obra, relacionandoa a garantia da boa qualidade do trabalho, sendo realizado por trabalhadores de média faixa etária, que serão adequados aos modernos processos de manipulação de cargas e incentivados a aumentarem a sua produtividade. Junto a essas imposições, tem-se a necessidade de maior escolaridade dos trabalhadores. O perfil do novo trabalhador deve, então, adequar-se às novas funções que deverá desempenhar, atendendo-se ainda a necessidade de transferibilidade entre as funções desempenhadas, ou até mesmo a construção de outras formas de alternativas de sobrevivência fora do mercado formal de trabalho, agravando ainda mais o que alguns autores chamam de “precariedade do trabalho”. Com relação a essa questão, podemos verificar em POCHMMAN (2002) que o constante risco de rompimento do emprego pode estar associado ao baixo nível médio educacional dos trabalhadores, não havendo interesse dos empregadores na qualificação de sua mão-de-obra. POCHMMAN afirma que, “na realidade, a pressão pela redução do custo do trabalho, travestida por contratos de trabalho atípicos e pela flexibilização dos direitos social e trabalhista, tende a levar à precarização das relações e das condições de trabalho”. (POCHMMAN, 2003) Nos referindo ao trabalho portuário, podemos afirmar que a modernização do porto não significa a qualificação e treinamento de todos os trabalhadores portuários 33 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização avulsos para que esses possam se adequar às novas modalidades de trabalho pois levando-se em consideração o objetivo de redução de custo, este implicará no arrefecimento em massa dessa mão-de-obra, seguida da qualificação apenas daqueles que correspondem ao perfil do porto moderno. Em um sentido mais amplo, a análise de POCHMMAN nos apresenta a tese sobre o alto custo da contratação de trabalhadores no Brasil, que tem ganho maior dimensão nos últimos anos, apesar da existência de baixos salários. Trata-se de uma aparente contradição que existiria por conta dos dispendiosos encargos sociais. Sobre a flexibilização dos contratos de trabalho dissertaremos no próximo capítulo. A Lei de Modernização dos Portos – Lei 8.630/93 A Lei 8.630, criada em 25 de fevereiro de 1993, também conhecida como “Lei de Modernização dos Portos”, vem sendo gradativamente implementada, tendo como fim principal, a modernização da área portuária no que diz respeito a suas instalações e à racionalização na utilização de mão-de-obra portuária. Além disso, esta lei passa a garantir a competitividade entre os portos com o objetivo de se tornar cada vez mais eficientes. Diga-se de passagem que com essa lei, os portos brasileiros aderiram ao processo de amplas reformas, demarcadas, à princípio, apenas por algumas alterações pontuais, destinadas apenas a romper antigas tradições tidas como obstáculos à modernização. SCHERER (1999) afirma que os “marcos regulatórios” da lei demanda uma reforma do porto sob três dimensões: 1- elo de cadeia logística; 2- agente econômico; 3- ente físico. O foco de análise na primeira dimensão é a carga, a segunda dimensão refere-se à mercadoria, e a terceira, as instalações e os usuários do porto. De acordo com SCHERER essa lei objetiva, principalmente: 34 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização - No curto prazo: descentralização e desregulamentação do setor, redução da atuação do Estado, aumento da participação da iniciativa privada, redução dos custos operacionais, - No médio prazo: melhoria na qualidade da mão-de-obra, racionalização do ambiente de trabalho, aumento da produtividade, estímulo à concorrência e redução dos preços e tarifas, - No longo prazo: aumento da eficiência e competitividade dos portos. (SCHERER, 1999) A fim de atingir tais desígnios, a lei introduz uma série de modificações nas regras de gerenciamento e de operação dos portos, que são logo após, descritas pelo autor: - Exploração do Porto e das Operações Portuárias: A operação portuária em um porto organizado passa a ser feita prioritariamente pela iniciativa privada, eliminando a exclusividade das administrações públicas anteriores nas operações de capatazia (serviço de movimentação das cargas no cais). Foi criada a figura do operador portuário, pessoa jurídica pré-qualificada junto à Administração do Porto que pode explorar integralmente um porto através de concessão, ou parcialmente, através de arrendamento de terminais de áreas ou serviços (cap. III da Lei 8.630/93). - Administração do Porto A administração, denominada autoridade portuária, pode ser exercida diretamente pela União, ou por uma concessionária. Dentre as suas atribuições está a de pré- 35 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização qualificar os operadores portuários; prestar apoio técnico ao Conselho de Autoridade Portuária (CAP) e ao Órgão Gestor de Mão-de-Obra Portuária Avulsa (OGMO); estabelecer o horário do funcionamento do porto e as jornadas de trabalho, fiscalizar as operações portuárias; arrecadar as tarifas pelo uso das instalações portuárias de uso público; manutenção da área do porto organizado; e demais atividades administrativas referidas no Artigo 33 da Lei. - Conselho de Autoridade Portuária O CAP, criado em cada porto organizado, segundo SCHERER, tem a atribuição de baixar regulamentos de exploração do porto; promover a racionalização e otimização do uso de suas instalações, fomentar sua ação industrial e comercial, desenvolver mecanismos para a atração de cargas; homologar os valores das tarifas pela administração, aprovar o plano de desenvolvimento e zoneamento do porto e outras competências previstas no Artigo 30 da Lei 8.630/93. A composição do Conselho privilegia a descentralização das decisões, estimulando a participação de todos os agentes envolvidos no setor – o poder público, operadores portuários, trabalhadores portuários e usuários dos serviços do porto. Cada bloco de agentes tem direito a um voto, cabendo ao Presidente (representante do poder público) o voto de Minerva. - Órgão Gestor de Mão-de-Obra No âmbito de cada porto deve ser implementado um Órgão Gestor de Mão-deObra Portuária Avulsa – OGMO, com a finalidade de cadastrar, registrar e treinar a mãode-obra dos trabalhadores portuários, administrar o fornecimento de mão-de-obra para os 36 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização operadores portuários; estabelecer o número de vagas; arrecadar junto aos operadores os encargos sociais e previdenciários, bem como a remuneração devida aos trabalhadores; e por fim, outras competências que estão previstas no Capítulo IV da Lei. Ainda de acordo com o autor, a Lei acabou por extinguir o monopólio de fornecimento de mão-de-obra pelos sindicatos previstos nas legislações anteriores. As condições de trabalho passam a ser acordadas através de negociação coletiva entre trabalhadores e operadores portuários no âmbito de cada porto. Apesar de ter sido implantada a nova sistemática para o treinamento do trabalhador portuário, sendo o Órgão Gestor de Mão-de-Obra Portuária – OGMO, o responsável pela promoção desse treinamento, conforme disposto na Lei Nº 8.630/93, os portos brasileiros esbarram em uma problemática que é a baixa escolaridade de seus trabalhadores. Em pesquisa realizada pelo departamento de Assistência Social do OGMO-RJ em 2001, cujos dados serão demonstrados no quarto capítulo, foram entrevistados 233 trabalhadores portuários avulsos do porto do Rio de Janeiro de todas as categorias. Na variável escolaridade, constata-se que boa parte dos trabalhadores tem apenas o primeiro grau incompleto, o que corresponde a 40 % dos trabalhadores entrevistados. Outro impasse é o reduzido contingente de mão-de-obra avulsa habilitado a operar os equipamentos mais modernos já existentes. Até mesmo para as operações de equipamentos mais remotos, temos um baixo índice de trabalhadores capacitados, tornando-se necessário ampliar o número de cursos oferecidos aos trabalhadores avulsos, e, simultaneamente, acelerar o processo de modernização dos currículos e das técnicas de ensino. A multifuncionalidade no trabalho portuário, que corresponde à promoção da utilização multifuncional dos trabalhadores portuários avulsos, deveria, de acordo com a lei Nº 8.630/93, ser buscada progressivamente a partir de 25/02/98, através de contratos, convenções e acordos coletivos. Porém, um grande obstáculo para sua implantação está no grande contingente de mão-de-obra disponível, que pode ser visto como uma barreira para a redução da composição das equipes de trabalho em compatibilidade com as necessidades do serviço, uma vez que essa composição, nos termos da Lei, tem que 37 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização resultar de negociações entre as entidades representativas dos operadores e trabalhadores portuários. O trabalho portuário, de acordo com SCHERER, “apresenta um extenso elenco de funções especializadas, definidas ao longo de décadas de operação. A ‘Lei de Modernização dos Portos’ prevê que se deva buscar, num prazo de cinco anos, a superação dessas disfunções, implantando progressivamente a multifuncionalidade do trabalho, visando adequá-los aos modernos processos de manipulação de cargas para desse modo, aumentar a sua produtividade” (SCHERER, 1999). De acordo com estimativas de usuários e operadores portuários publicadas na Gazeta Mercantil de 20 de fevereiro de 1998, a multifuncionalidade poderá trazer uma redução no custo de pessoal de até 50%. As vantagens da multifunção na movimentação de contêineres é estimada em um terminal pelos seguintes dados: Função Serviços Tradicionais Multifuncionalidade - Movimentação de navio Realizada com 54 Realizada com 14 de 1.500 contêineres trabalhadores trabalhadores 12 trabalhadores 02 trabalhadores Custo fechado na faixa de Custo máximo de US$ US$ 200,00 40,00 - Movimentação de um contêiner - Serviço a bordo contêiner por Fonte: Departamento de Tarifas e Estudos Econômicos-Financeiros/1998 Em entrevista realizada pelo LabTec (Laboratório de Territórios e Comunicação), o Presidente do Sindicato dos Conferentes de Carga e Descarga, Sr. Mayo Uruguaio, afirma que antes da Lei 8.630/93 os trabalhadores estavam divididos em duas categorias 38 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização básicas: avulsos12, que compreendia os que trabalhavam a bordo da embarcação, com exceção dos trabalhadores marítimos; e dos portuários, que abrangia os trabalhadores vinculados à DOCAS. Após a aplicação da lei, todos passaram a serem considerados trabalhadores portuários, tanto os avulsos como os com vínculo empregatício. Contudo, mantêm-se na atualidade, diferentes sindicatos e distintas federações que englobam as diversas categorias de trabalhadores portuários. Dentro da própria área primária do porto, as atividades se dividem em: 1. Arrumador (Capatazia) - atividade de movimentação de mercadoria nas instalações portuárias, que compreendem: recebimento, conferência, transporte interno, abertura de volumes para conferência aduaneira, manipulação e arrumação e entrega de carregamento e descarregamento de embarcações, quando estas efetuadas por aparelhos portuários. Capatazia é o trabalhador portuário de terra. 2. Estiva – atividade da movimentação de mercadoria nos convés e/ou nos porões das embarcações, que podem ser principais ou auxiliares, incluindo o transbordo. Compreende-se por estivagem a arrumação, peação, despeação bem como carregamento / descarregamento realizados por equipamentos de bordo ou de terra (transtainer). 3. Conferência de carga – é a contagem de volumes, anotação de suas características, procedência ou destino, verificação de estado da mercadoria, pesagem, conferência de manifesto/romaneio e serviços correlatos na operação de carregamento e descarregamento de embarcações. 4. Conserto de carga – é o reparo ou a restauração de embalagens na operação de carregamento ou descarregamento da embarcação. Compreende-se como reembalagem, marcação, remarcação, carimbagem, etiquetagem, abertura ou fechamento de domínios. 5. Vigilância de embarcação – atividade de fiscalização da entrada e saída de pessoas a bordo das embarcações atracadas ou fundeadas ao largo, bem como a movimentação de mercadoria nos portalós, rampas, porões, conveses e plataformas ou em qualquer outro lugar da embarcação. 12 A categoria dos avulsos compreende as seguintes funções: arrumadores, conferentes, estivadores, consertadores, vigias e trabalhadores do bloco. 39 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização 6. Bloco – é a atividade de limpeza, conservação das embarcações, assim como seus tanques, forragem de porão, batimento de ferrugem, pintura, reparo de pequenas montas e seus serviços correlatos. 7. Operador portuário – é o responsável por toda realização das operações portuárias, que é indispensável à sua intervenção no controle das operações portuárias13. Na concepção de Uruguaio, a multifuncionalidade representa uma maior diversificação das qualificações do trabalhador portuário, onde as especialidades não se limitam a uma determinada categoria profissional, podendo, por exemplo, um consertador fazer um curso e se habilitar para operar o guindaste, havendo assim, a possibilidade dele se engajar em outras atividades portuárias, caso haja uma falta de demanda de trabalho na sua atividade “primitiva”, desde que esse engajamento nas demais atividades, que não a sua, seja para suprir uma deficiência de oferta de mão-de-obra da categoria respectiva àquela atividade. Como podemos verificar, existem duas condições para que a multifuncionalidade seja aplicada. A primeira delas é a ausência de trabalho na área de origem do trabalhador tendo como conseqüência a sua não inserção nas atividades portuárias e, a segunda, a escassez de mão-de-obra especializada para desenvolver determinada atividade. Como o trabalho no porto apresenta como característica a sazionalidade, anteriormente havia o registro de mão-de-obra supletiva, isto é, existia no interior da vida laboral do porto um quadro de trabalhadores efetivo e um quadro reserva. Com a Lei de Modernização a mão-de-obra supletiva foi matriculada no OGMO como cadastrada e a mão-de-obra efetiva como registrada. Uruguaio, na entrevista afirma que há uma desproporção entre a força de trabalho registrada no OGMO e a demanda de trabalho requerida nos portos. Além disso, sustenta a hipótese de que caso não haja uma redução dessa mão-de-obra através de aposentadorias ou incentivos para a retirada de trabalhadores da atividade portuária, pode haver um agravamento dos problemas sociais na área portuária. Também entrevistado pelo LabTec, Eduardo Madeira, ex-Diretor Executivo do OGMO afirma que a média de trabalhadores avulsos operando diariamente no porto do Rio de Janeiro no final da década de 90 era de 1.300 a 1.400, sendo 5.200 o número de 13 Nota-se que com o advento da Lei 8.630/93, foi criada a figura do operador portuário, um dos responsáveis pela viabilização da modernização dos portos. 40 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização trabalhadores registrados no OGMO. Isso revela, segundo Madeira, um desequilíbrio entre a oferta de mão-de-obra e a demanda de trabalho no porto, existindo uma mão-deobra excessiva. No ano de 2005, a situação dos trabalhadores portuários avulsos se apresentava da seguinte forma no Órgão Gestor de Mão-de-Obra14: ARRUMADORES: 587 582 Arrumadores 590 580 570 Arrumadores Registrado Arrumadores Cadastrado Registrado Cadastrado 582 587 O total de arrumadores registrados no OGMO do Rio de Janeiro foi de 582 no ano em questão, menos que o número de trabalhadores cadastrados, que equilibradamente esteve na marca dos 587. Estes números pouco foram alterados até o final do ano de 2006, perfazendo um universo de 1.169 trabalhadores portuários avulsos na atividade de arrumador. 14 Levantamento realizado durante o ano de 2006 no Departamento de Serviço Social do Órgão Gestor de Mão-de-Obra para fins de desenvolvimento dessa dissertação. 41 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Arrumadores Registrados 300 250 247 91 4 39 Sub Judce Vinculado 1 Normal Detido Aposentado por Invalidez Aposentado Afastado temporariamente 38 3 Desligado pelo OGMO 3 0 -50 Indenizado 67 Situação 89 Falecido 200 150 100 50 Aposentado por Desligamento do Afastado temporariamente Invalidez Aposentado Ogmo Detido Falecido Indenizado Normal Sub Vinculado Judce 67 91 3 89 3 38 4 247 1 39 De acordo com os dados apresentados, temos um total de 582 trabalhadores registrados manipulando as cargas em terra, porém, somente 247 se encontram em situação normal no OGMO, isto é, exercendo a sua atividade. Com relação aos arrumadores cadastrados, somente 131 trabalhadores se encontram na ativa, ou seja, aguardando serem chamados para o trabalho, como mostra o gráfico abaixo: Arrum adores Cadastrados 250 233 200 150 131 100 3 Sub Judce Normal 0 Indenizado Falecido Situação Vinculado 28 1 Detido A posentado A f astado temporariamente -50 0 Desligado pelo OGMO 31 0 A posentado por Invalidez 50 100 60 42 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Afastado temporariamente 60 Aposentado 31 Aposentado por Desligado Invalidez do Ogmo 0 233 Detido Falecido Indenizado Normal Sub Judce Vinculado 1 28 0 131 3 100 BLOQUISTAS: 240 228 240 Bloquistas Bloquistas 220 Registrado Cadastrado Registrado Cadastrado 228 240 Bloquistas Com relação aos trabalhadores do bloco, o número de registrados no OGMO do Rio de Janeiro foi de 228, bem menos que o de arrumadores, no ano em questão e menos que o número de trabalhadores cadastrados, que equilibradamente esteve na marca dos 240, perfazendo um universo de 468 trabalhadores portuários avulsos na atividade de bloquista. Bloquistas Registrados 136 Situação 4 1 Sub Judce Indenizado Falecido Detido 6 Vinculado 15 1 Normal 27 0 Desligado pelo OGMO Aposentado 15 Aposentado por Invalidez 23 Afastado temporariamente 160 140 120 100 80 60 40 20 0 -20 43 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Afastado temporariament e Aposentad o Aposentad o por Invalidez Desligad o do Ogmo Detid o Falecid o Indenizad o Norma l Sub Judc e Vinculad o 23 15 0 27 1 15 6 136 1 4 Referindo-nos aos trabalhadores registrados, 136 bloquistas encontram-se em situação normal, ou seja, desenvolvendo as suas atividades de limpeza e de conservação das embarcações. Bloqustas Cadastrados 82 68 Situação 29 22 20 16 0 Sub Judce Normal Indenizado Falecido Detido Desligado pelo OGMO Aposentado por Invalidez Aposentado 0 Vinculado 2 1 Afastado temporariamente 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 -10 Afastado temporariament e Aposentad o Aposentad o por Invalidez Desligad o do Ogmo Detid o Falecid o Indenizad o Norma l Sub Judc e Vinculad o 22 16 1 68 2 29 0 82 0 20 Dos 240 trabalhadores cadastrados do bloco, apenas 82 se encontram na ativa no cais do Porto do Rio de Janeiro. Entre os cadastrados, 68 foram desligados do trabalho portuário enquanto que apenas 16 conseguiram se aposentar pelo INSS. 44 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização CONFERENTES 196 81 conferentes 200 0 Registrados conferentes conferentes Cadastrados Registrados Cadastrados 196 81 No caso dos conferentes, a situação se apresenta de forma distinta das apresentadas pelas categorias anteriores. Aqui temos um número de trabalhadores registrados maior em relação ao número de trabalhadores cadastrados. Enquanto na primeira situação temos 196 trabalhadores, na segunda temos 81conferentes aguardando a matrícula de registrado no OGMO. Conferentes Registrados 100 92 80 61 60 Situação 40 16 5 12 Vinculado Sub Judce 0 Normal Falecido 0 Indenizado 1 Detido Aposentado por Invalidez -20 1 Desligado pelo OGMO 8 Afastado temporariamente 0 Aposentado 20 45 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Afastado temporariamente Aposentado Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo 8 61 1 1 Detido Falecido 0 Indeniza do Normal Sub Judce 16 92 0 5 Vinculado 12 Dos conferentes registrados no OGMO, apenas 92 trabalhadores se encontram em situação normal. Alguns trabalhadores foram indenizados (Plano de Desligamento Voluntário – PDV) o que corresponde a 16 conferentes. Conferentes Cadastrados 30 25 24 22 20 15 10 5 22 Situação 12 Afastado temporariamente 0 Aposentado 12 Aposentado por Invalidez 0 Desligado do Ogmo Falecido 0 24 22 Indenizado 0 Vinculado Sub Judce Indenizado Detido 1 0 Normal 0 Falecido Detido 0 Desligado pelo OGMO Aposentado por Invalidez 0 Aposentado 0 Afastado temporariamente 0 -5 Normal 22 Sub Judce Vinculado 0 1 Do total apresentado de trabalhadores cadastrados (81), apenas 22 se encontram em situação normal. Temos também o mesmo número de trabalhadores que foram desligados do trabalho portuário pelo OGMO. 46 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização CONSERTADORES Consertadores 76 38 100 Consertadores 50 0 Registrados Cadastrados 76 38 Consertadores Com relação aos consertadores, estes representam uma categoria praticamente em extinção, uma vez que as cargas passaram a ser contêinerizada. Atualmente são requisitados para o manuseio de carga geral. Temos um total de 114 trabalhadores consertadores, sendo 76 registrados e 38 cadastrados. Consertadores Registrados 43 0 Sub Judce Indenizado Detido 5 4 0 Desligado pelo OGMO Aposentado por Invalidez Aposentado 0 0 Vinculado 12 Falecido 3 Normal 20 Afastado temporariamente 50 40 30 20 10 0 Situação Cadastral 47 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Afastado temporariamente Aposentado Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo Detido Falecido Indenizado Normal Sub Judce Vinculad o 3 20 0 12 0 4 5 43 0 0 Dos 76 trabalhadores consertadores registrados no OGMO, pelo menos 43 se encontram em situação normal de trabalho. Por conseguinte, temos 14 trabalhadores cadastrados em situação normal e 12 afastados pelo OGMO. Vale lembrar que antes da modernização, era esta categoria que costurava as toneladas de sacas de mercadorias quando estas eram carregadas nas costas dos trabalhadores. A contêinerização e a unitização fez com que a necessidade do trabalho manual fosse abolida. A grande estimativa é de não existir mais esta categoria pelo menos daqui há cinco anos. Consertadores Cadastrados 16 14 12 10 8 6 4 2 0 14 12 7 3 0 De tid o Fa le ci do In de ni za do 0 0 0 A fa st ad o te m po ra ria m A en po te se A po nt ad se o n p or tad De o In sl va ig ad lid o ez pe lo O G M O 0 No rm al Su b Ju dc e V in cu la do 2 Situação Cadastral Afastado temporariamente Aposentado Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo Detido Falecido 2 7 0 12 0 3 Indenizado Normal 0 14 Sub Judce 0 48 Vinculado 0 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização ESTIVADORES: Estivadores estivadores 1.665 651 2.000 estivadores 0 Registrado Cadastrado Registrado Cadastrado 1.665 651 estivadores A categoria dos estivadores apresenta um número mais expressivo de mão-deobra portuária avulsa. Este resultado está ligado ao fato de ser historicamente a categoria mais antiga do porto e, por conseguinte, por ter se organizado enquanto entidade de classe. Já no início de reorganização da área portuária. São no total 2.316 trabalhadores da estiva, sendo 1.665 devidamente registrados no OGMO e 651 cadastrados. 49 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Estivadores Registrados 900 800 700 600 500 400 300 200 100 0 807 382 e do 19 la cu Vi n Ju dc al b Su N or iza en m do o id ec 1 In d Fa l et id o 2 po D o rI nv ad al id o ez pe lo O G M O 80 382 es Situação D nt ad se Ap o Aposentado li g o Ap o se nt ad te en m ri a ra po te m 146 27 6 o ta d Af as fastado temporariamente 195 146 Aposentado por Invalidez 6 Desligado do Ogmo 27 Detido Falecido 2 80 Indenizado Normal 195 807 Sub Judce 1 Vinculado 19 Dos trabalhadores registrados, 807 se encontram em situação normal no OGMO e dos cadastrados, 250. Entre os estivadores, o índice de óbitos é bastante elevado. Tivemos um total de 134 casos de falecimentos até o ano de 2005, sendo 80 casos de estivadores registrados e 54 de cadastrados. Pelo fato de trabalharem diretamente com o manuseio de equipamentos pesados, estão constantemente expostos a acidentes de trabalho que podem até mesmo acarretar a sua morte. 50 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Estivadores Cadastrados 300 250 250 200 150 150 Situação Cadastral 139 100 te m po r 27 0 28 1 A ad o fa st A fastado temporariamente 1 1 ar ia m en po A te se po nt s ad en o ta po do De rI sl nv ig al ad id o ez pe lo O G M O 0 54 27 De tid o Fa le ci do In de ni za do No rm al Su b Ju dc e V in cu la do 50 Aposentado Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo Detido Falecido 1 139 1 54 150 Indenizado 0 Normal Sub Judce 250 1 Vinculado 28 PORTUÁRIOS: Portuários 664 0 1000 Portuários Portuários 500 0 Portuários Registrado Cadastrado Registrado Cadastrado 664 0 51 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Os trabalhadores portuários são aqueles que têm vínculo empregatício com alguma empresa portuária através de sua solicitação ao Órgão Gestor de Mão-de-Obra. Sendo assim, não são considerados como avulsos. Todos possuem o registro do OGMO, o que corresponde a um total de 664 trabalhadores, porém, somente 84 encontram-se em situação normal de trabalho, uma vez que temos 384 trabalhadores aposentados e 112 que foram desligados do OGMO. Portuários Registrados 450 400 350 300 250 200 150 100 50 0 384 112 fastado temporariamente Aposentado 12 Vinculado Sub Judce Normal 0 Situação Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo Detido Falecido 1 112 0 10 384 61 0 Indenizado Falecido Detido 0 Desligado pelo OGMO Aposentado por Invalidez 1 Aposentado Afastado temporariamente 12 84 10 Indenizado 0 Normal Sub Judce 84 0 Vinculado 61 VIGIAS: Vigias 347 90 500 Vigias Vigias 0 Registrado Vigias Cadastrado Registrado Cadastrado 347 90 52 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Os vigias são os responsáveis pela vigilância da carga a bordo da embarcação. Perfazem um total de 437 trabalhadores. Desses, 347 são registrados e 90, cadastrados. Portuários Registrados Vigias Registrados 400 350 300 250 200 150 100 50 0 347 187 Aposentado por Invalidez 1 Aposentado 61 18 Vinculado Normal Indenizado 0 Sub Judce 8 0 Detido Desligado pelo OGMO Aposentado por Invalidez Aposentado Afastado temporariamente fastado temporariamente 14 57 1 Falecido 61 14 Situação Desligado do Ogmo 57 Detido Falecido 0 8 Indenizado Normal 18 187 Sub Judce 0 Vinculado 1 Dos 347 trabalhadores registrados, 187 se encontram em situação normal enquanto que dos cadastrados, apenas 12 estão aguardando serem inseridos na atividade, como apresenta o gráfico abaixo. Portuários Cadastrados Vigias cadastrados 60 54 50 40 30 20 A 4 12 0 0 3 0 0 0 De tid o Fa le ci do In de ni za do No rm al Su b Ju dc e V in cu la do te m po r fa st ad o A 17 ar ia m en po A te se po nt s ad en o ta po do De r sl In ig va ad lid o ez pe lo O G M O 10 0 Situação 53 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização fastado temporariamente Aposentado 4 Aposentado por Invalidez Desligado do Ogmo Detido 0 54 0 17 Falecido 3 Indenizado 0 Normal Sub Judce 12 0 Vinculado 0 Somando-se todos os trabalhadores registrados em situação normal, tem-se um total de 1.596 trabalhadores atuando atualmente no cais do porto. Isso nos mostra que com relação aos dados mencionados pelo ex-diretor do OGMO Eduardo Madeira, não houve redução da mão-de-obra a ser empregada, uma vez que no final da década de 90 o número de trabalhadores que operavam diariamente ficou entre 1.300 e 1.400. Ao contrário, houve um acréscimo de 169 trabalhadores atuando no porto. Com relação à situação salarial dos trabalhadores portuários avulsos, a mesma se encontrava da seguinte maneira no ano de 2002: REMUNERAÇÃO MÉDIA DO TRABALHADOR RIO, NITERÓI, SEPETIBA E FORNO Categoria ARRUMADOR BLOCO CONFERENTE CONSERTADOR ESTIVA PORTUÁRIO VIGIA 01/2002 372,63 966,08 3.551,09 1.752,64 1.458,21 522,53 373,51 02/2002 251,97 989,20 3.620,71 1.315,47 1.425,76 475,05 410,78 03/2002 324,44 1.130,38 3.695,20 1.415,47 1.498,15 588,04 335,27 REGISTRADOS 04/2002 05/2002 342,34 373,30 1.027,75 1.002,66 3.617,48 4.113,49 1.712,28 1.039,95 1.472,46 1.526,63 733,79 430,52 375,33 398,94 06/2002 371,88 1.136,16 3.736,29 1.952,71 1.610,60 549,34 399,45 07/2002 293,58 1.042,01 3.898,03 1.479,65 1.489,35 546,91 413,75 08/2002 490,95 1.278,47 4.530,88 2.454,98 1.822,16 901,62 437,07 09/2002 410,95 936,37 4.328,67 2.322,51 1.693,73 647,29 430,86 MÉDIA 359,12 1.056,56 3.899,09 1.720,21 1.555,23 565,98 397,22 Categoria ARRUMADOR BLOCO CONFERENTE CONSERTADOR ESTIVA VIGIA 01/2002 277,32 528,32 949,63 667,56 308,16 67,31 02/2002 217,76 487,95 671,55 1.018,20 329,65 191,56 03/2002 393,96 538,26 751,07 870,79 353,35 228,02 CADASTRADOS 04/2002 05/2002 308,67 485,31 365,37 343,69 648,12 974,81 1.084,06 473,06 279,43 358,82 112,40 187,35 06/2002 301,56 493,42 608,46 1.040,57 350,06 112,40 07/2002 227,15 312,50 347,32 926,98 211,37 24,17 08/2002 242,29 455,82 860,19 1.277,55 418,80 108,77 09/2002 459,60 237,19 982,77 1.361,72 648,01 189,34 MÉDIA 323,74 418,06 754,88 968,97 361,96 135,70 Podemos perceber na tabela acima uma disparidade considerável entre os salários dos trabalhadores registrados e os dos cadastrados. Uma vez sendo os 54 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização trabalhadores portuários avulsos cadastrados uma reserva de mão-de-obra, sendo convocados para o trabalho apenas quando há escassez de trabalhadores registrados para realizar a atividade do porto, as melhores oportunidades que se traduzem em melhores remunerações, são direcionadas prioritariamente para quem tem matrícula efetiva no OGMO. No ano de 2001 foi realizada uma série de negociações entre o sindicato dos trabalhadores e dos operadores no que se referia à escalação do trabalhador para a execução das atividades. Um dos itens discutidos foi também sobre a mudança na forma de remuneração. Uma vez sendo determinada pela produção (tonelagem movimentada), a remuneração dos trabalhadores avulsos passaria a ser realizada por diária, o que facilitaria o processo da escalação. Neste caso, a única preocupação seria apenas a aptidão do trabalhador para desempenhar a função requerida e a escala levaria em conta apenas as variáveis: categoria, função e especialização. No mês de março de 2006, em sua visita ao porto do Rio de Janeiro, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva15 destacou o fato de haver um grupo de trabalhadores portuários avulsos que há cerca de dez anos não tem reajuste de salário. Vários sindicalistas escreveram cartas ao presidente chamando sua atenção para este fato. Uma das cartas foi entregue ao presidente Lula pelo representante do Sindicato dos Arrumadores, Oswaldo Henrique Teixeira. A partir deste fato, foi solicitado por Lula ao presidente da Companhia Docas, Sr. Antônio Carlos Soares, que convoque as empresas que atuam no Porto do Rio de Janeiro para discutir a situação. Lula também pediu aos "companheiros" do porto que olhem com carinho a reivindicação. "Se tem um segmento da sociedade que pede pouco para o governo e pede muito para deus são as pessoas que ganham menos salário neste país. Então, nós temos que pensar nesses ajustes". O presidente voltou então a pedir a Soares que coordene um trabalho para solucionar "o grande problema que é melhorar a vida das pessoas". A seguir dissertaremos sobre as relações de trabalho no cais do porto: sindicatos, trabalhadores e operadores portuários. 15 Fonte: Panorama Brasil – 24/03/2006 55 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização III Capítulo 56 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Relações Sociais e de Trabalho no Cais do Porto: sindicatos, trabalhadores e operadores portuários – alguns aspectos sócio-políticos “São as lutas, dentro e contra o comando capitalista, que fazem a história” 16 As relações sociais e de trabalho no interior do cais do porto foram demarcadas pela implantação da Lei de Modernização dos Portos, Lei 8.630/93. Como visto no capítulo anterior, pretendia-se através de investimentos financeiros para novos equipamentos, como guindastes e esteiras facilitadoras do movimento de carga, elevar a produtividade, ou seja, otimizar a atividade com menos custos, a fim de garantir a competitividade entre os portos. Tal processo implicava em uma mudança não só na estrutura do trabalho portuário como também na sua organização. Vimos também que os portos, a partir de então, passaram por profundas transformações, afetando a vida de inúmeros trabalhadores – tanto daqueles que eram empregados do setor estatal, quanto daqueles que trabalhavam na condição de avulso. Diga-se de passagem que o processo de reformas portuárias em curso nos portos do Brasil, passou a definir novos papéis ao poder público e à iniciativa privada. As mudanças no relacionamento entre os diversos agentes envolvidos na atividade portuária, como os vários níveis de governo, arrendatários, operadores, trabalhadores, entre outros, foram profundamente sentidos dentro de um cenário que se configurava na imposição de novos padrões tecnológicos e gerenciais. Nos interessa aqui discutirmos sobre as relações de trabalho em um ambiente de constante tensão, provocadas pelas mudanças já postas em questão e que coloca no centro das relações, tanto de reivindicações quanto de negociações, a figura do sindicato que, cumprindo ou não em sua cotidianidade papel essencial na vida dos trabalhadores portuários avulsos, tem a sua importância pela sua historicidade, lutas e conquistas já obtidas no panorama nacional. Digo isso pelo fato dos sindicatos viverem o eterno dilema de serem representações expressivas das classes trabalhadoras ao mesmo tempo que incorpora em sua estrutura, característica completamente corporativistas, o que lhe é 16 André Górz em sua obra intitulada “O Imaterial” (2004). 57 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização peculiar mediante às demandas e imposições do Estado e da classe empresarial. De acordo com Guilherme Marques17, a estrutura sindical brasileira subsiste desde a sua criação, ou seja, desde a primeira metade do século – especialmente na ditadura Vargas. Tinha-se como base, já a partir deste período, um sindicalismo corporativista, definido pelo Estado e por ele regulado, baseado em sindicatos de categorias específicas delimitadas territorialmente, como é o caso do sindicato dos trabalhadores portuários avulsos. Com relação a estes, veremos mais precisamente a partir da concepção dos trabalhadores, como mudaram o seu perfil a partir do momento em que perderam a sua hegemonia no processo de escalação dos trabalhadores portuários avulsos. Problematizar as relações entre os sindicatos, os operadores portuários na figura do OGMO e os trabalhadores portuários avulsos, torna-se tarefa imprescindível, haja vista os acontecimentos da década de 90 que afetaram desde a implementação da Lei 8.630/93, o andamento do processo de modernização de cunho puramente neoliberal18, de precarização do trabalho e de desconstrução da cidadania da grande massa de trabalhadores19. Nesse momento, o movimento sindical e grevista, tanto no porto do Rio de Janeiro quanto em Santos, recolocou a classe trabalhadora na cena social e política do nosso país. 17 Livro “O Novo Sindicalismo – A estrutura Sindical e a Voz dos Trabalhadores – 1977 a 1995” – Editora Adia, 2000. 18 Considerado como uma ideologia e como uma política econômica, o neoliberalismo se tornou a figura mais adequada para o capital nessa nova fase de desenvolvimento, nas palavras de FILGUEIRAS (1997), tanto em uma órbita microeconômica, como na defesa da individualização das relações entre capital e trabalho, além da livre negociação sem algum parâmetro ou restrições e do sindicato, quanto no nível macroeconômico, mediante a intenção de aniquilamento de todas as barreiras que impediam a livre mobilização do capital, bem como a reorientação do Estado no sentido de viabilizar todas as formas de flexibilidade intencionadas pelo capital. 19 De acordo com FILGUEIRAS, Luiz A. M. (1997), “a crise do fordismo, a partir da década de 70 anuncia, com todas as conseqüências daí advindas, a crise de um determinado “modo de vida", a quebra de um pacto social, caracterizado pela busca do "pleno emprego", por uma certa estabilidade no trabalho e por amplas garantias sociais. É justamente a destruição desse "modo seguro de se viver", construído entre a Segunda Guerra Mundial e o início dos anos 70, que dá origem ao profundo "mal-estar" específico deste final de século”. 58 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização A modernização portuária e o início das demissões em massa A intensificação das tensões nas relações de trabalho no cais do porto teve início com um movimento empresarial que reivindicava a “modernização” (privatização) por fim instituída pela lei 8.630 de 25 de fevereiro de 1993. Faziam-se licitações para administrar por arrendamento os terminais de contêineres, num ambiente de competição entre os operadores. Os investimentos voltados para a agilização das operações, com vistas ao aumento da produtividade, embutiam um propósito de reduzir o contingente de trabalhadores. Com a meta de utilizar menos pessoal, até se chegou a propor um programa de indenização, para estimular o desligamento voluntário; pretendia-se suprimir pelo menos a metade do quadro. Contudo, os trabalhadores portuários naquele momento, não se interessaram por tal programa: não cogitavam de indenização e sim de preservar o seu trabalho. Mesmo assim, a redução do contingente se processava, visto que a automação redundava numa solicitação menor de mão-de-obra para as tarefas portuárias. Se não se conseguia reduzir na proporção pretendida de 50%, pelo menos um quarto dos trabalhadores acabou desistindo do porto, em decorrência da precarização das condições de trabalho. Muitos trabalhadores foram incentivados a se aposentarem, visto serem “amparados” pela legislação previdenciária com relação à aposentadoria especial pela insalubridade da atividade laboral. Para os empresários, porém, isso não era suficiente. Todavia, para ir além, era necessário enfrentar os sindicatos portuários, especialmente o dos estivadores, e promover a desregulamentação das relações trabalhistas no porto. Foi assim que se estabeleceu um sistema que levava em conta o fato de serem os estivadores trabalhadores “avulsos”, não vinculados a uma companhia determinada através de contrato: diversamente, eles se apresentam todos os dias ao porto, oferecendo seus serviços às agências de navegação que eles necessitem. Nessa condição de “avulsos” representava-os o seu sindicato. Era este que contratava os serviços e os distribuía entre os seus associados, além de administrar a vida jurídica, econômica e previdenciária de cada um deles. Essas relações de trabalho estavam definidas e reguladas na Seção VIII e no artigo 258 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Tratando-se de um serviço irregular, sazonal por razões diversas, o artigo 258 da CLT, combinado com uma Portaria do Ministério do Trabalho, determinara que a 59 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização admissão de novos sócios ao Sindicato se fizesse apenas quando, durante um mês, cada estivador tivesse trabalhado mais que um certo número de horas. Nesse caso, trabalhadores matriculados não pertencentes à corporação poderiam ser convocados e encaminhados ao Sindicato para a devida sindicalização, obrigatória para o exercício da profissão de estivador. Os estivadores se apresentavam e eram escalados para o serviço, sendo essa incumbência solicitada ao Sindicato, cujo representante formava a equipe a ser enviada para cada navio, levando em conta inclusive a adequação física dos componentes dela. Foi justamente contra esse vínculo com o sindicato – particularmente a intermediação para escalar a equipe de serviço solicitada – que o empresariado do porto privatizado pela Lei 8.630/93 investiu. O sistema lhe parecia retardar o objetivo da obtenção da “competitividade” através da utilização de menos mão-de-obra, uma vez que as equipes recrutadas incluíam, segundo sua opinião, mais trabalhadores que o necessário. A própria Lei 8.630 já sinalizava nessa direção anti-sindical, confirmada em 1998 pela Lei 9.719. Assim, pelo novo método, a escalação dos portuários era transferida para o Órgão Gestor de Mão-de-Obra – OGMO, entidade controlada pelos empresários, sendo responsável pela gestão dos trabalhadores no cais do porto. A partir de então, intensificaram-se pressões de toda ordem. A relação Sindicato – OGMO no processo de modernização portuária Em dezembro de 1999 foram divulgadas as conclusões de um estudo elaborado pelo Banco Mundial (Bird) acerca da lei brasileira de modernização dos portos. Nesse documento, a redução já alcançada do contingente de mão-de-obra era considerada insuficiente. Para atingir o nível adequado, propunha-se a reformulação das relações trabalhistas, sob a pretensa alegação de que na situação vigente os terminais eram levados a admitir número excessivo de trabalhadores. Por sua vez, num artigo intitulado “A Equação Social dos Portos Brasileiros”, o presidente da Associação Brasileira de Terminais Portuários observa que a modernização tecnológica acarretara um problema social, pois parte da mão-de-obra portuária tornarase “irreversivelmente desnecessária”. 60 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização De acordo com o artigo, os empresários reclamavam do fato de serem obrigados a negociar com os sindicatos que, na opinião patronal, escalavam muito mais trabalhadores que os suficientes. Nas palavras de um operador portuário, “...hoje, o desembarque com guindastes em um navio de contêineres exige 12 homens pelas regras acordadas com os sindicatos, quando apenas 5 seriam necessários”. O resultado, insistia, “era a elevação dos custos e a diminuição da ‘competitividade’ do porto”. Determinados a cortar pela metade o contingente dos trabalhadores nos dois anos subseqüentes, os operadores portuários informavam até que, preocupados com o resultante “problema social grave”, já cogitavam de instituir um plano de desligamento voluntário, que previa a formação de um correspondente fundo de indenização. Em novembro de 2000, o Órgão Gestor de Mão-de-Obra tentava executar ele mesmo a distribuição do serviço mas os estivadores resistiram e no dia 27 de março, eclodia a greve. O protesto foi motivado pela categoria dos trabalhadores portuários avulsos que considerava evidente a incapacidade do OGMO em praticar a escala, visto que o critério a ser utilizado por esta entidade seria o do mero rodízio numérico, enquanto os sindicalistas selecionavam os trabalhadores também de acordo com a aptidão e condição física. Os trabalhadores paralisaram o movimento de cargas no porto, destruindo as instalações e recursos materiais do OGMO, tanto do Rio de Janeiro quanto do porto de Santos. O resultado foi um compromisso pelo qual o OGMO (ao qual o dono do navio solicita os trabalhadores) assumia formalmente a atribuição de escalar, mas aceitava a indicação dos trabalhadores feita pelo sindicato. Isso ocorreu no Porto do Rio de Janeiro mediante muita resistência por parte dos sindicatos dos trabalhadores, que imporam profundos entraves para os OGMOs assumirem suas funções. Voltando à entrevista com Eduardo Madeira, ex-Diretor Executivo do OGMO, realizada pelo LabTec, foi elaborado, na ocasião, um Termo de Consenso, exatamente para que a escalação fosse efetivada de maneira pacifica pelo OGMO, mediante o apoio das lideranças trabalhistas sindicais. Através desse acordo, os sindicatos dos operadores e dos trabalhadores também discutiram a questão da informatização, visto que no esquema 61 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização daquele período, o trabalhador ia para o porto para disputar a possibilidade de se empregar sem saber se trabalharia efetivamente. Com a informatização, seria possível fazer a escala dos trabalhadores de forma automatizada, com antecedência e sem a necessidade do trabalhador ter que ir ao porto sem saber se realmente trabalharia, pois nesse caso, ele seria avisado previamente sobre os trabalhos que estariam disponíveis (escalação virtual). Assim se procedeu durante 120 dias, até que em março de 2001, numa nova investida, os empresários obtiveram uma sentença favorável, mandando cumprir a lei federal 9.719/98, que atribuía a escalação ao OGMO. Já no início desse processo, era visível o amplo caráter desempregador do novo sistema portuário, o que passou a ser entendido pelos sindicatos dos trabalhadores, segundo o ex- diretor do OGMO Eduardo Madeira. Uma vez sendo necessária a redução do contingente de mão-de-obra a ser escalado, exigiam que houvesse alguma espécie de compensação ao impacto social que seria gerado com esse “enxugamento” de mão-de-obra requerida. A partir de então, os sindicatos começaram a pleitear que os empresários apresentassem uma solução social para essa questão, através de novos incentivos, tais como programas de capacitação profissional, a fim de que essa mão-de-obra pudesse sobreviver fora do porto. É importante destacar que, segundo Eduardo Madeira, nem sempre o OGMO, e junto com ele, os operadores portuários, conseguem atingir os seus objetivos visto ter “ainda” o sindicato dos trabalhadores, muito poder político. Com relação à redução da mão-de-obra portuária vinculada ao processo de modernização, o presidente da Federação da Estiva e representante dos trabalhadores portuários no CAP – Ernani – faz uma crítica ao sistema implantado também em entrevista ao LabTec: “No Brasil, querem reduzir pessoal mas utilizando os mesmos equipamentos, sobre os quais foi estabelecido a composição dos ternos hoje vigente, sem mudanças tecnológicas que a justifique. Essa redução de pessoal não vem acompanhada de uma discussão que possa sanar ou atenuar os problemas sociais decorrentes da redução de postos de trabalho”. Ernani compara a situação do Brasil a outros países que adotaram o sistema de modernização portuária: 62 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização “No exterior, há a garantia de um rendimento mínimo que permite ao trabalhador manter um certo padrão social. No Brasil, ainda estão defendendo junto ao governo a adequação dessa recomposição dos ternos de modo que garanta uma certa proteção social. Encaminharam uma proposta para ser criada uma “sobre-taxa” sob a manipulação das cargas que permita gerar ao longo do tempo um fundo que garanta essa proteção social, que se daria através de benefícios, incentivos, requalificação, etc. Enquanto isso, estão solicitando ao Governo um empréstimo junto ao BNDES para poderem oferecer desde já esses benefícios e que seria devolvido assim que o fundo pudesse oferecer algum retorno”. A respeito, seguindo as reflexões de OLIVEIRA (2003), de um modo mais geral, no Brasil, não é possível falar de um Estado de Bem Estar tal como se observa na experiência internacional. Porém, considerando-se as especificidades da experiência brasileira, a década de 30 representou o período em que o Estado passou a intervir de forma mais explícita nas relações entre capital e trabalho. É importante ressaltar, segundo a autora, que a partir do final do século XIX e das duas primeiras décadas do século XX, houve um crescimento significativo das organizações e lutas operárias no país, as quais conseguiram conquistar direitos essenciais, na sua maioria relativos ao trabalho. Tivemos como exemplo o direito à organização e formação dos sindicatos, como o dos estivadores, fundado em 1910; regulamentação da proteção relativa ao acidente de trabalho, em 1919 e a criação de caixas de Aposentadorias e Pensões. Nos finais da década de 80 passamos a ter, por conta de adoção de uma política perversamente neoliberal, uma relação de trabalho mais flexível, e, segundo POCHMMAN, com fraca presença da organização dos empregados por local de trabalho, elevado excedente de mão-de-obra e ausência de regras de contratação favorável aos trabalhadores. Esse conjunto de fatores acabou por inviabilizar a construção de um padrão de emprego comprometido com condições e relações de trabalho democráticas. 63 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização A Modernização e os Sindicatos do Porto do Rio de Janeiro sob a ótica dos trabalhadores. Parece-nos de suma importância situar na conjuntura nacional, o complexo sindical portuário do Rio de Janeiro. Desta forma, abordaremos a seguir alguns pontos relevantes da história política e econômica do país que influenciaram a trajetória do sindicalismo brasileiro e portuário. Senão, vejamos: No Brasil, para traçar a trajetória do movimento sindical, alguns estudiosos citam Arnaldo Sussekind, membro da Comissão responsável pela elaboração da CLT nos anos 40 e primeiro Ministro do Trabalho na ditadura militar, ao caracterizar a estrutura sindical brasileira: corporativista, regida pelo monopólio da representação e pela obrigatoriedade do imposto sindical. Essa foi a máquina montada por Vargas, fortemente atrelada ao Estado e conseqüentemente: burocrata, assistencialista, apresentando carreirismo dos dirigentes, colaboracionista e privilegiando a conciliação das classes20. A criação das centrais sindicais, especialmente da Central Única dos Trabalhadores - CUT, (cujo estatuto apresenta bandeiras socialistas) e as ondas grevistas entre 83 e 89 marcaram a década de 80 como a “era” do “novo sindicalismo”, tratando-se de um forte movimento sindical, com propostas e práticas notadamente classistas21. Sobre a nova forma de organização da classe trabalhadora, pela sua capacidade de pressão política e social, ALVES (2000:123) afirma que este movimento impôs ao capital, a necessidade de retomar o controle do trabalho, reconstituindo tanto a hegemonia na produção, como novos tipos de controle do trabalho. Além disso, o caráter classista do novo sindicalismo vinculado à CUT, apresentava obstáculos à cooptação ideológica e política das novas lideranças operárias e sindicais. 20 Cf. BADARÓ (1998:58); o sindicalismo populista começou a se fortalecer no início dos anos 50 e atingiu seu auge na década de 60. Ficou conhecido por se subordinar à ideologia nacionalista e ser atrelado ao Estado, ser politicamente reformista, conciliador, não-classista, mas colaboracionista. Entra em crise em 1964, desaparecendo em sua forma original assumindo, no entanto, formas mistas de acordo com o novo panorama político-institucional do país. 21 Cf. ALVES (2000:289), este movimento representou uma nova prática sindical de organização de base, da construção da intervenção operária nos locais de trabalho e o que Iran Rodrigues chamou de comissões de fábricas, comissões de empresas, conselhos de representantes dos funcionários e comissões de garagem. 64 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Neste sentido, na estrutura do complexo portuário do Rio de Janeiro, é notável a semelhança entre esta e a que ALVES (2000:187) descreve relativa ao sindicalismo brasileiro. Segundo a autora, o sindicalismo, “É uma estrutura descentralizada, fragmentada e dispersa por uma miríade de sindicatos municipais, em sua maioria pouco expressivos, com exígua capacidade de barganha, com parcas iniciativas e formas de ações unificadas. Finalmente, é uma estrutura verticalizada com muitas dificuldades de se articular numa perspectiva horizontal mais ampla” (2000:282). Embora muito cautelosamente e sem pretensão de generalizar os dados, as informações recolhidas situam o quadro de organização dos trabalhadores portuários avulsos do Rio de Janeiro, dentro de uma perspectiva, pelo menos, semelhante ao conjunto do movimento sindical brasileiro, cujo principal sintoma é o de uma imensurável crise de identidade. Pode-se observar quão fragmentados estrutural e politicamente, estão. A forma como se constituem (sindicatos por ofícios), os torna mais vulneráveis e sensíveis aos fatores sociais, que não só influenciam como muitas vezes podem até determinar a trajetória do movimento, caracterizando, o que os estudiosos chamam de crise do sindicalismo no mundo e no Brasil. Especificamente, nota-se nos referidos sindicatos, como reflexo de uma crise generalizada, uma crise de identidade de representação política dentro das diversas categorias. Como conseqüência mais visível, algumas importantes atribuições antes suas, passaram para a responsabilidade do órgão (OGMO) criado estrategicamente pelo governo Federal, que conta com o apoio dos próprios trabalhadores. Este fato se confirma pelo depoimento de alguns estivadores: “Hoje em dia é o OGMO que faz tudo, o sindicato não faz nada”. 65 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Muitos questionam qual o real papel sindical em uma relação de trabalho considerada caótica, principalmente como forma de obtenção de dignidade e respeito ao trabalhador portuário avulso. A esse respeito, dois estivadores22 falam sobre o sindicato: “Acho um absurdo você descontar 10% do seu trabalho para um órgão (sindicato) que não te dá retorno... Da estiva ainda temos um apoio, mas e dos outros sindicatos? Do bloco? O cara não tem uma clínica, não tem uma sede, não tem nada. Então o que acontece, eles descontam 10% para engordar o presidente (do sindicato). Porque não temos nenhum retorno”. “... O sindicato se tornou, na minha concepção, um cabide de emprego. Então, o que acontece, não adianta nada eu descontar da minha folha 10% para uma entidade, se eu não tenho retorno, eu não tenho!”. Outros trabalhadores, mais incisivos afirmam: “Sindicato não serve para nada”. Em resposta à questão “quais seriam as funções do sindicato”, os trabalhadores demonstraram seus “reais” anseios: conseguir plano de saúde, melhorias apenas básicas, sejam pessoais ou profissionais. Embora saibamos que existem outros elementos que determinam esse estágio de consciência, podemos perceber como alguns trabalhadores sinalizam a incorporação de uma lógica individualista, destituída de um outro sentido ou consciência de classe, tão comum porque tão bem trabalhada na sociedade capitalista em que vivemos e adotada por consideráveis parcelas do sindicalismo brasileiro. ANTUNES (1988), de certa forma, explica este fato, a partir de sua reflexão sobre os níveis da consciência de classe: “A consciência proletária é uma longa distância que vai da falsa consciência, presa à ideologia dominante e limitada pela imediatidade, até o máximo de consciência possível, que 22 Entrevista coletiva realizada em 06/11/2001, com estivadores do Porto do Rio de Janeiro, no Armazém 18. 66 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização corresponderia à percepção da totalidade concreta e sua possibilidade de superação revolucionária, o que somente é possível quando a classe operária apodera-se da teoria revolucionária, fornecida pelo marxismo e transforma-se na única classe capaz de destruir o capitalismo e iniciar a transição para a sociedade sem classes. É preciso lembrar a impossibilidade de tal distância ser pensada de forma linear e evolutiva: ela deve ser concebida como um processo com fluxos e refluxos, onde ora são predominantes os momentos da falsa consciência, ora se está próximo da consciência verdadeira”. (ANTUNES Idem:22). ANTUNES discute as repercussões da reestruturação produtiva e a crise no sindicalismo brasileiro apontando a mudança de direção, de classista para corporativista. Este fato é bem explicado por COCCO em sua obra “Trabalho e Cidadania: do fordismo ao pós-fordismo”. Nela o autor fala sobre o desnorteamento das organizações sindicais por não terem previsto os impactos das transformações econômicas e globais sobre a composição da classe. Tenderam pois, a se apegarem aos segmentos sociais mais organizados localizados na administração pública, revestindo-se desse modo, de uma roupagem conservadora e corporativista. Nessa perspectiva, a crise do sindicalismo brasileiro atinge também o universo da consciência, da subjetividade, do trabalho e suas formas de representação. Os sindicatos estão aturdidos e exercitando uma prática que raramente foi tão defensiva. Abandonam o sindicalismo de classe dos anos 60/70, aderindo ao acrítico sindicalismo de participação e de negociação, que em geral aceita a ordem do capital e do mercado, só questionando os aspectos fenomênicos desta mesma ordem; abandonam a perspectiva de luta pela emancipação do gênero humano, operando uma aceitação também acrítica da socialdemocratização, ou o que é ainda mais perverso, limitando o seu debate ao universo da agenda e do ideário neoliberal. Há outras conseqüências da automatização, da flexibilização e deste complexo de mudanças no processo de produção e de trabalho: paralelo à redução quantitativa do operariado tradicional, altera-se a qualidade na forma de ser do trabalho - a substituição do trabalho vivo pelo morto, transformando o trabalhador em supervisor e regulador do processo de produção. Assim, “se por um lado houve uma intelectualização do trabalho, por outro lado inversamente nota-se uma 67 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização desqualificação e mesmo subproletarização, expressa pelo trabalho precário, informal e temporário”.(ANTUNES 1997:78). Percebe-se uma grande insatisfação dos trabalhadores em relação ao órgão que os representa politicamente. Ao se referirem às suas funções, notamos uma visão pontual e corporativista, o que parece ser reflexo de uma política mais ampla de sujeição dos órgãos de classe à lógica capitalista e neoliberal. Assim, aberta a lacuna de uma anterior política sindical classista23, esses trabalhadores tentam responder às suas demandas primeiras de sobrevivência, cuja responsabilidade o Estado capitalista se liberou. Neste sentido, os trabalhadores reclamam: “Não vai dizer que eles estão brigando pelos ‘meus interesses’ que eu discordo”. Desta forma, parece-nos que a organização dos trabalhadores portuários no Rio de Janeiro carece de uma visão totalizadora e histórica que possibilite a adoção de táticas de lutas condizentes com as aspirações e necessidades deste grupo especifico, porém que o faça, associando-as às aspirações de libertação da classe trabalhadora, que segundo Marx, é a sua missão. Por outro lado, há de se admitir que os sindicatos que adotam tal postura classista também vivem esses mesmos problemas. Isto nos coloca uma questão, que nos distancia de uma conclusão determinista. Parece que este quadro político-ideológico do sindicalismo brasileiro está muito ligado à reestruturação produtiva, mas o que fazer para desmontá-lo? Sem a menor pretensão de respondermos a tão complexo problema, podemos, todavia, apontar algumas pistas. Neste caso concordamos com CRUZ (2000), ANTUNES (1998) e ALVES (1991), sobre a urgência dos trabalhadores assumirem de fato o papel que lhes cabe enquanto classe. Tal concepção nos aproxima da teoria marxista, tendo esta, o papel de nos fornecer elementos de explicação da realidade social, sob o ponto de vista da classe, além de nos trazer respostas efetivas sobre o destino da humanidade. 23 Cf. Maria Almeida, “O novo sindicalismo, traduzia em demandas por maior autonomia o anseio profundo de afirmação de uma identidade operária, forjada na experiência do degredo político e de uma cidadania social de segunda classe, que convivia como florescimento de uma sociedade de consumo”. In BADARÓ (1998:66). 68 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Assinala-se aí, nossa preocupação com a debandada desta direção da grande maioria dos principais atores sociais, incluindo a principal central dos trabalhadores, a CUT. Com a investida neoliberal, a ela tem se subordinado, voltando-se ainda para uma lógica mercantil e corporativista, distanciando-se das suas primeiras bandeiras, de matizes socialistas, presentes em seu estatuto. Sobre o assunto, BOITO (1994, 96) afirma que: “A CUT desde o seu surgimento, como movimento de massa transitou entre um sindicalismo que ‘tendia’ à ação unificada de amplos setores das classes trabalhadoras contra a política de desenvolvimento pró-monopolista e pró-imperialista do Estado burguês brasileiro - ou pelo menos, contra a política salarial que era um aspecto fundamental da política de desenvolvimento - para uma ação na qual os diferentes setores da classe trabalhadora, isolam-se em suas reivindicações específicas, desenvolvem uma nova segmentação corporativista e procuram reduzir as perdas de seu setor particular numa conjuntura de crise, mesmo quando as reduções das perdas implica a aceitação ativa da política pró-monopolista e pró- imperialista.” Dados como esses não nos permitem creditar uma solução isolada para qualquer categoria24. Entretanto, podemos vislumbrar pistas dos sujeitos que tentam retomar a direção de um movimento sindical classista em termos de totalidade. Aponta o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte Marítimo, Aéreo e Fluvial (CONTIMAF) Severino Almeida Filho: “A indústria de portos está atravessando uma crise mundial. O processo de globalização, na ótica dos principais interessados em sua implementação rápida, passa pelo desmonte da organização dos trabalhadores da orla portuária em qualquer lugar do mundo. Foi o que aconteceu na Argentina, no Uruguai, no Chile. Dizimaram, literalmente, a 24 Esse termo retrata o nível de fracionamento a que a classe trabalhadora chegou, atendendo aos interesses da burguesia. Esta divisão tem o objetivo de facilitar as investidas burguesas diante das reações isoladas dos grupos, impedindo a reação de todo o conjunto da classe, o que seria mais forte e perigoso. 69 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização organização dos trabalhadores. Daí que, depois desses anos da Lei dos Portos, cresceu entre os trabalhadores e suas lideranças, a consciência da necessidade da unificação de ações e das entidades sindicais. Há vontade política de aglutinar forças. Uma estrutura única, que é a discussão que vem sendo travada, terá um peso político formidável. As intersindicais que se formam nos portos, e não tenho dúvidas de que alcançarão todos os portos, é uma demonstração inequívoca dessa vontade dos trabalhadores de elevarem suas lutas a um novo patamar”. Mário Teixeira, presidente da Federação dos Conferentes, Consertadores, Vigias e trabalhadores do Bloco, chama à resistência e unificação de forças: “Nosso papel, portanto, tem de ser o de resistência, e caminhamos rapidamente para a unificação de nossas forças no país e no mundo, como já a fizeram os empresários. Quando não há negociação, há luta. A história humana ensina isso”. Outra alternativa pode ser vislumbrada na entrevista de um trabalhador portuário avulso do Rio de Janeiro: “... nós temos uma comissão onde estamos correndo atrás de um direito para alguns estivadores cadastrados, que é o nosso caso”. Apesar de tê-lo argüido, poucas informações a este respeito foram acrescentadas. Então perguntamo-nos: estariam retornando as organizações por local de trabalho? Tática essa de legítima resistência, muito utilizada mundialmente nos momentos de fragilidade e de repressão aos trabalhadores. De qualquer forma, como já vimos em ANTUNES, a consciência parte da imediatidade, podendo vir a alcançar um nível revolucionário. Ainda tentando pontuar as tendências, não só no complexo de sindicatos do Porto do Rio de Janeiro, mas atendo-nos à organização sindical da classe trabalhadora em seu 70 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização conjunto, podemos situar algumas respostas que mesmo incipientes ou iniciantes, acreditamos poderem traduzir um pouco do novo perfil do movimento sindical. Vejamos: Considerando todos esses dados e a despeito de teses neoliberais como a de Leôncio Rodrigues, que conclama as lideranças sindicais a “se flexibilizarem como os empresários” e que anuncia a inexorável tendência do sindicalismo a se incorporar à lógica do capital, concordamos com Iran Jácome quando afirma: “a forte tradição coletivista do século XIX, que serviu para consolidar o Estado de bem-estar na 1ª metade do século XX, ainda não foi inteiramente desmontada pela tentativa de ajuste neoliberal do capitalismo contemporâneo”. RODRIGUES (1999:232). Ainda contra a tese de Leôncio Martins sobre a decadência histórica irreversível do sindicalismo, Boito contrapõe afirmando que o recuo sofrido por este movimento, representa sim, um refluxo e não sua decadência, parecendo esta, já ter superado seus momentos mais difíceis, o que levou o sindicalismo a importantes mutações. Segundo ele, arrefeceram importantes setores operários, tanto da indústria, como dos serviços (portos, ferrovias), mas por outro lado, emergiu um novo proletariado de serviços, assinalando o já consolidado sindicalismo de classe média, principalmente no setor público. Esse autor chama a atenção para o novo sindicalismo industrial que apareceu no hemisfério sul, graças ao vertiginoso processo de industrialização dos últimos anos nesta área e na América Latina. Aponta ainda que o crescente desemprego sem amparo do Estado, fez surgir ou ressurgir vários movimentos populares: de desempregados, dos Sem-Teto, voltando inclusive ao cenário político, o movimento camponês. Para Boito: “Sustentar que o movimento sindical tem futuro, não significa ignorar as lutas populares emergentes. A esquerda deve valorizar esses movimentos, que devem, junto com o sindicalismo, acumular forças para recomeçar a luta antiimperialista e anticapitalista”. Assim, antes de concluir este capítulo, como ANTUNES, nos interrogamos: “... como se efetiva, no contexto de uma situação defensiva, uma ação sindical que dê respostas às necessidades imediatas do mundo do trabalho, preservando elementos de uma estratégia anticapitalista e socialista? ... Procurará (o sindicalismo 71 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização brasileiro) elaborar um programa de emergência simplesmente gerir a crise do capital ou tentará para avançar na elaboração de um programa econômico alternativo, formulado sob a ótica dos trabalhadores, capaz de responder às reivindicações imediatas do mundo do trabalho, mas tendo como horizonte uma organização societária fundada nos valores socialistas e efetivamente emancipatórios ?” (1997: 72) É de nossa intenção ainda, reafirmar a impossibilidade de uma saída para tão complexo quadro ser conseguida isoladamente. Nossa única certeza é a de que a mesma deverá contemplar toda a classe trabalhadora. Portanto, ao observarmos a realidade e a capacidade de organização sindical dos trabalhadores portuários avulsos, podemos chegar à conclusão de que o movimento sindical, em função de sua força coletiva como sujeito inserido no dia-a-dia dos trabalhadores, se constitui na contemporaneidade, ainda que seguindo às determinações atribuídas pelo capital, em um instrumento capaz de formular um novo projeto para a sociedade onde se possa aprofundar a análise sobre concepções de vida, para a verdadeira emancipação política e humana do trabalhador, ou seja, para o exercício pleno da cidadania. 72 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização IV Capítulo 73 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Perfil do Trabalhador Portuário Avulso Por fim, chegamos ao ponto final dessa dissertação que diz respeito ao perfil do trabalhador portuário avulso. Muitos pontos foram considerados ao longo deste trabalho porém, o mais importante é situarmos o trabalhador enquanto sujeito fundamental em todo esse processo. O seu protagonismo está além das negociações e acordos, das reivindicações e manutenção das conquistas obtidas enquanto componente de uma classe até então. Destarte, vale a pena nos perguntarmos: quem é esse trabalhador? Quais as aspirações e concepções que compõem a sua vida laboral e o seu modus vivendi ? Apresentamos os dados referentes à pesquisa de 2001, realizada pelo Departamento de Serviço Social, no qual fiz parte, e os dados referentes a uma pequena amostragem obtida no ano de 2005. Esses dados nos permitirão fazer uma análise comparativa do perfil desse trabalhador, visto que dentro desse período pequenas modificações ocorreram no processo de trabalho e na composição do perfil da mão-deobra avulsa do porto do Rio de Janeiro. Na pesquisa realizada para traçar o seu perfil, tanto em 2001 quanto em 2005 foram consideradas algumas questões referentes aos seus dados pessoais, familiares, sócio-econômicos, além de informações referentes ao trabalho no porto. ESTADO CIVIL Para começar, apresentamos abaixo os dados referentes ao estado civil dos trabalhadores portuários avulsos. 81 100 80 66 52 60 52 29 40 30 7 3 4 17 20 0 Casado Solteiro Divorcidado Viúvo Outros Ano de 2005 Ano de 2001 74 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Casado Solteiro Divorciado Viúva Outros Ano de 2005 52 49% 29 27% 7 7% 3 2% 17 15% Ano de 2001 81 34% 66 28% 30 13% 4 2% 52 23% Como demonstra o gráfico, 34% dos trabalhadores disseram serem casados em 2001. 28% declararam-se solteiros, 13% divorciados e 23% vivem em outras situações25. Conseguimos identificar quatro trabalhadores que se disseram viúvos, representando 2% da pesquisa. Esses dados demonstram que, apesar da sua característica típica do malandro do cais do porto, estereótipo obtido no início do século XX e que perdura até os dias de hoje, muitos trabalhadores demonstraram ser chefes de família sendo casados legalmente e tendo uma vida familiar estável. Dos trabalhadores que se declararam solteiros, poucos afirmaram ter mais de um relacionamento. Já no caso dos trabalhadores divorciados, muitos afirmaram ter constituído mais de uma família consecutivamente, o que fica evidenciado nos processos de pensão alimentícia junto às Varas de Família, que eram muitas vezes acompanhados pelas assistentes sociais do OGMO/RJ26. Em 2005, os dados permaneceram praticamente inalterados, levando-se em consideração a pequena amostragem. Maior parte dos trabalhadores se declararam, como em 2001, serem casados (49%), enquanto que 27% revelaram-se solteiros. 25 23% dos entrevistados disseram viverem em outras situações com relação ao seu estado civil (separados ou vivendo em união instável). 26 Durante os anos de 2001 a 2002, foram acompanhados 26 casos de pensão alimentícia. 75 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização IDADE Idade 66 65 70 60 50 50 40 34 40 20 Ano de 2001 25 30 Ano de 2005 23 12 11 11 0 4 10 0 21 a 30 Ano 31 a 40 21 a 30 41 a 50 51 a 60 31 a 40 61 a 70 (+) 70 41 a 50 51 a 60 61 a 70 (+) 70 2005 11 10% 25 23% 34 32% 23 21% 11 10% 4 4% 2001 12 5% 65 28% 66 28% 50 22% 40 17% 0 0% A faixa etária dos trabalhadores portuários avulsos varia entre 21 e 70 anos. Há quem tenha mais de 75 anos como demonstra o gráfico. No ano de 2005, pelo menos 4 trabalhadores com essa faixa etária, o que corresponde a 4% dos entrevistados, estava na ativa, ou seja, em situação normal no OGMO. Em 2001, a maior parte dos trabalhadores avulsos tinha entre 31 e 50 anos, como observado no gráfico. Logo em seguida, temos que pelo menos 22% da mão-de-obra possuía entre 51 e 60 anos e 17% entre 61 e 70 anos. Esse nos parece ser um dado importante pois, uma vez que a Lei 8.630/93 exige um novo perfil de trabalhador, com uma média faixa etária, são exatamente os trabalhadores com idade entre 53 e 70 anos que deveriam ser retirados do trabalho portuário, seja através de incentivos (PDV) ou de aposentadoria. Para tanto, no ano de 2000, foi criado pelo OGMO/RJ o Departamento de Serviço Social, com a função de realizar levantamento da situação cadastral de todos os trabalhadores avulsos, providenciando a aposentadoria para aqueles que já tinham idade. Cumpre lembrar que no caso do trabalhador portuário avulso, o INSS concede aposentadoria especial, uma vez sendo o trabalho considerado insalubre. Sendo assim, um trabalhador dessa categoria aos 53 anos de idade, já deveria estar se afastando do trabalho no porto. Só no ano de 2000, foram realizados pelo Departamento de Serviço Social, 650 atendimentos 76 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização (orientação e encaminhamento ao INSS) aos trabalhadores e familiares que desejavam dar entrada em benefício (aposentadoria e auxílio doença). No ano de 2001, esta demanda cresceu consideravelmente. Foram atendidos 1.452 trabalhadores e familiares. Dentro desse período ocorreram 195 concessões de aposentadoria pelo INSS aos trabalhadores avulsos que foram atendidos pelo departamento. Não se trata de um número tão expressivo, levando-se em consideração o universo de trabalhadores existente no cais do porto e uma vez que a entidade deveria reduzir pelo menos em 50% a quantidade de mão-de-obra existente. No ano de 2005, os números permaneceram quase que inalterados com relação à faixa etária. A maior parte dos trabalhadores tinha entre 31 e 50 anos, exatamente a faixa etária que permaneceria, dentro desse fator, no trabalho portuário. 23% corresponderiam aos trabalhadores com idade entre 31 e 40 anos e 32% aos trabalhadores cuja faixa etária varia entre 41 e 50 anos. Dos trabalhadores que estariam “fora dos padrões de modernização do porto” temos um total de 39%, sendo 21% dos trabalhadores cuja faixa etária varia entre 51 e 60 anos, 10% entre 61 e 70 anos e 4% com mais de 70 anos. ESCOLARIDADE 70 64 60 57 52 50 40 27 21 20 0 4 2 Ano Não Alfab. 0 2 Ano de 2005 Ano de 2001 3º Grau Compl. 2º Grau Compl. 2º Grau Incomp. 1º Grau Compl. 3 1º Grau Incomp. Não Alfabetizado 0 3º Grau Incompl. 10 31 25 30 53 Ano de 2001 Ano de 2005 1º Grau 1º Grau 2º Grau 2º Grau 3º Grau 3º Grau Incompl. Compl. Incompl. Compl. Incompl Completo 2005 11 13% 25 22% 34 31% 23 21% 11 10% 4 3% 0 0% 2001 12 5% 27% 66 28% 50 21% 40 17% 3 1% 2 1% 65 77 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Com relação ao grau de escolaridade, temos, como base na pesquisa do ano de 2001, que a maior parte dos trabalhadores portuários avulsos possuem apenas o 1º grau completo - atual ensino fundamental (28%), seguido dos que têm o 1º grau incompleto (27%), totalizando 55% dos que não chegaram nem a ingressar no 2º grau – atual ensino médio. Apenas 38% chegaram a cursar o ensino médio sendo que 21% não concluíram o curso. 17% dos trabalhadores entrevistados completaram o ensino médio. Em 2005, a situação se manteve a mesma, tendo um total de 53% trabalhadores apenas com o 1º grau (22% incompleto e 31% completo). Apenas 31% cursaram o 2º grau (21% incompleto e 10 % completo). LOCAL DE RESIDÊNCIA Local de Residência 126 150 107 Ano de 2005 62 50 Área Portuária Ano de 2001 0 Ano de 2001 46 Área não Portuária 100 Ano de 2005 Ano Área não Portuária Área Portuária 2005 62 57% 46 43% 2001 126 54% 107 46% Com relação à localização da residência, os dados de 2001 nos revelam que grande parte dos trabalhadores portuários avulsos (54%) mora em áreas fora da zona portuária. Geralmente são moradores da baixada fluminense (Caxias, São João do Meriti e Belford Roxo) ou da zona oeste (Bangu e Campo Grande), entre outras. Os que moram 78 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização na área portuária, nos bairros da Saúde e Santo Cristo correspondendo a 46% dos trabalhadores entrevistados. Em 2005, os dados se apresentaram quase que inalterados. Dos 108 trabalhadores entrevistados, 62 moram em área não portuária, o que corresponde a 57% e 46 moram em áreas portuárias, o que significa 43 % do público entrevistado. TIPO DE MORADIA 140 123 120 89 100 60 65 40 29 20 Ano 2005 2001 Própria 65 60% 123 53% 11 Ano 2005 0 Cedida Alugada Própria 0 10 14 Alugada 29 89 Ano 2001 Financiada 80 27% 38% Cedida 14 13% 10 4% Financiada 0 0% 11 5% No que se refere ao tipo de moradia, dos trabalhadores entrevistados, 53% possui casa própria e 38% pagam aluguel, segundo dados de 2001. No ano de 2005 temos que 60% moram em casa própria e 27% em casa alugada. Dos 17% que moram em casa cedida, 13% corresponde ao ano de 2005 e 4% ao ano de 2001. SITUAÇÃO CADASTRAL 79 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Situação Cadastral 140 132 120 100 101 69 80 Ano 2001 39 60 Ano 2005 40 20 Ano 2005 0 Ano 2001 Cadastrados Ano 2005 2001 Registrados Registrado 69 64% 132 57% Cadastrado 36% 43% 39 101 Com relação à situação cadastral, no ano de 2001, 57% dos trabalhadores entrevistados tinham matrícula efetiva no OGMO, ou seja, eram registrados, em 2005, o número de TPA entrevistado registrado aumentou para 64%. Dos 79% de trabalhadores cadastrados, 43% correspondem ao ano de 2001 e 36% ao ano de 2005. 80 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização TEMPO DE TRABALHO NO PORTO Te m po de Trabalho no Porto 70 60 62 56 50 40 53 36 34 30 30 20 20 20 Ano de 2001 20 Ano de 2005 4 10 0 Ano 2005 2001 60 (-) de 10 e 10 15 anos anos 16 a 20 anos (-) de 10 anos 10 a 15 anos 4 36 7% 16% 30 56 21 e 25 anos 27% 25% Ano de 2001 26 e 30 anos (+) de 30 anos 16 a 20 anos 20 20 18% 9% 21 a 25 anos 34 62 30% 26% 26 a 30 anos 20 53 18% 22% (+) de 30 anos 0 0% 6 2% Com relação ao tempo de trabalho no Cais do Porto do Rio de Janeiro, maior parte dos trabalhadores entrevistados em 2001 disseram ter entre 21 e 25 anos de trabalho, o que corresponde a 26% no ano em questão e 30% no ano de 2005. Os mais recentes, ou seja, os que ainda não completaram dez anos de trabalho no porto, correspondeu a 16% em 2001 e 7% em 2005. Dos que trabalham há mais de 30 anos no local tivemos apenas 2% em 2001. Dos dados apresentados em 2005, 52% dos trabalhadores estariam dentro de uma faixa intermediária com relação ao tempo de trabalho, isto é, entre 1 a 20 anos de trabalho portuário. Em 2001, 50% dos trabalhadores entrevistados se encontravam dentro deste período. 81 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Por fim, eis o perfil do trabalhador portuário avulso: Variável Estado Civil Situação Casado Média entre os anos de 2001 e 2005 66% Faixa Etária Entre 31 e 50 anos 55% Escolaridade Apenas o 1º grau 54% Local de Residência Fora da área portuária 55% Tipo de Moradia Própria 56% Situação cadastral Registrado 60% Tempo de trabalho portuário Entre 10 e 20 anos 39% Este perfil, mesmo que incipiente, nos dá a idéia das características atuais da mão-de-obra portuária avulsa. Diante da necessidade da permanência e/ou inserção no mercado de trabalho, no caso específico dos trabalhadores portuários avulsos, o grande entrave é, sem dúvida, a sua qualificação que, num mundo altamente globalizado ganha “peso” maior, determinando não só a vida profissional desses trabalhadores como também a disputa política através da correlação de forças entre capital e trabalho. 82 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Conclusão 83 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Após chegarmos ao final desse trabalho podemos apontar algumas conclusões que não têm como objetivo se encerrarem nelas mesmas, mas sim de dar continuidade não só à pesquisa como também às análises e estudos, além do contato com a área estudada e com os trabalhadores portuários avulsos, objeto central dessa dissertação. Seguem apenas algumas pistas a serem apontadas na esteira da Lei de Modernização dos Portos – 8.630/93. Antes disso, um dos pontos que nos chama a atenção é o fato de que no Brasil, mais precisamente em nossa “cidade maravilhosa”, na concepção da população em geral, infelizmente ainda há um distanciamento considerável entre a cidade e o porto do Rio de Janeiro, não sendo esse devidamente valorizado. Diga-se de passagem que esse distanciamento teve origem no início do século XX, apesar das similaridades vistas no primeiro capítulo27. Uma das causas que provocou esse distanciamento foi o fato de que o porto sempre foi uma atribuição do governo federal, o que fez com que as administrações portuárias agissem como se não estivessem no município por estarem localizadas em áreas federais. Outro ponto que provocou o distanciamento e junto com ele a falta de planejamento foi a carência de áreas reservadas para a expansão do porto. Uma atitude que pode e deve ser feita para harmonizar a convivência entre os interesses dos cidadãos / cidade e das atividades portuárias é buscar ações conjuntas. Porém o processo de aproximação entre o porto e a cidade, no caso do Rio de Janeiro, só será consolidado quando forem adotados modelos de administração regional / municipal, incluindo a participação direta do Município. Em entrevista concedida para fins de desenvolvimento dessa dissertação, o fiscal de operações da Companhia Docas do Rio de Janeiro, Sr. Carlos Augusto afirma que Atualmente, vemos uma grande mobilização da Prefeitura do Rio, em parceria com o governo federal em transformar a área em um grande pólo turístico, tendo como projeto principal a construção de um shopping center que tende a ocupar todo o sítio portuário, o que pode descaracterizar totalmente a área não só em sua historicidade como também provocar a retirada de inúmeras famílias que ali vivem. 27 As similaridades a que nos referimos diz respeito à história do desenvolvimento do porto que se confunde com a própria história de desenvolvimento da cidade. 84 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Com relação ao emprego da mão-de-obra portuária, levando-se em consideração a Lei 8.630/93, esbarramos em um impasse que está relacionado ao reduzido contingente de mão-de-obra avulsa habilitado a operar os equipamentos mais modernos já existentes. Até mesmo para as operações de equipamentos mais remotos, temos um baixo índice de trabalhadores capacitados, tornando-se necessário ampliar o número de cursos oferecidos aos trabalhadores avulsos, e, simultaneamente, acelerar o processo de modernização dos currículos e das técnicas de ensino. Porém, este processo ainda não foi iniciado e isso nos remete à seguinte dúvida: a Lei de Modernização dos Portos está sendo posta em prática ou ainda não alcançou o grau de capilaridade esperado no porto do Rio de Janeiro? A verdade é que em geral, em todo o Brasil, a constituição dos OGMOs foi se concretizando com certa lentidão, na medida em que se produziam as privatizações e os operadores passaram a perceber a necessidade de participarem mais ativamente na gestão de mão-de-obra portuária. De acordo com a visão da classe trabalhadora avulsa, a criação dos OGMOs significa mais uma estratégia de redução de mão-de-obra do que um projeto de organização e qualificação do trabalhador portuário – que inclui a formação e capacitação para os que iriam permanecer no porto, e compensações sociais adequadas para os que iriam sair. O que ocorre é que, anos após ter sido sancionada a Lei dos Portos, os papéis se inverteram: hoje os trabalhadores insistem na modernização, na implantação de padrões de eficiência e produtividade, enquanto as empresas operadoras buscam a proteção governamental para não negociarem os acordos previstos e evitarem investimentos em estruturas mais competitivas. Na ótica dos operadores portuários, a multifuncionalidade no trabalho portuário, que corresponde à promoção da utilização multifuncional dos trabalhadores portuários avulsos, deveria, de acordo com a lei Nº 8.630/93, ser buscada progressivamente a partir de 25/02/98, através de contratos, convenções e acordos coletivos. Porém, um grande obstáculo para sua implantação está no grande contingente de mão-de-obra disponível, que pode ser visto como uma barreira para a redução da composição das equipes de trabalho em compatibilidade com as necessidades do serviço, uma vez que essa composição, nos termos da Lei, tem que resultar de negociações entre as entidades representativas dos operadores e trabalhadores portuários. Uma questão que se impõe, e que se torna um fator passível de avaliação, diz respeito a essa tal multifuncionalidade da mão-de-obra portuária. Como aplicar tal 85 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização modalidade, uma vez que as funções são bem específicas e diferenciadas por categorias? Como exigir do trabalhador avulso um perfil que corresponda à versatilidade e polivalência nos moldes do porto moderno uma vez que já houve a incorporação do hábito natural de exercer um único ofício, levando-se em consideração que são bem poucos os trabalhadores que possuem mais de uma matrícula no OGMO? Uma vez que a multifuncionalidade está atrelada a boa qualificação do trabalhador, suas conseqüências são um tanto preocupantes, já que significa a redução maciça do contingente de mão-de-obra em atividade no porto. Porém, não representa a extinção da mão-de-obra portuária avulsa. ANTUNES28 nos afirma que por mais que haja modernização, as máquinas não podem substituir os trabalhadores. “Ao contrário, a sua introdução utiliza-se do trabalho intelectual do operário que, ao interagir com a máquina informatizada, acaba também por transferir parte dos seus novos atributos intelectuais à nova máquina que resulta deste processo. Estabelece-se, então, um complexo processo interativo entre trabalho e ciência produtiva, que não pode levar à extinção do trabalho. Este processo de retro-alimentação impõe ao capital a necessidade de encontrar uma força de trabalho ainda mais complexa, multifuncional, que deve ser explorada de maneira mais intensa e sofisticada, ao menos nos ramos produtivos dotados de maior incremento tecnológico”. Com tudo isso, constatamos que a concretização de uma modernização portuária favorável à todos é possível, ainda que determinada pelos princípios capitalistas e ainda que se tente romper com eles. Um dos caminhos sê-nos apresenta como um desafio: 28 ANTUNES, Ricardo. (Perenidade (e superfluidade) do trabalho: Alguns equívocos sobre a descostrução do trabalho). 86 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização mudar por total a concepção de porto como uma operação simplesmente de carga e descarga de mercadoria (conforme era antes) e entender que a atividade portuária é um sistema complexo que envolve diversas atividades, com um sistema de logística e de prática própria. Compreendendo-se isto, aos olhos dos operadores portuários, tanto empresários como trabalhadores terão que mudar sua cultura, pois as atividades pressupõem uma nova concepção de organização do trabalho de negociação coletiva, conforme a Lei 8.630/93 estabelece e a atividade requer, que não é simplesmente a chamada Lei de Mercado, mas a garantia de reverter essas atividades em postos de trabalho mais eficientes e com novas tecnologias, bem como o setor empresarial ter mais ousadia em promover melhores condições de vida e de empregabilidade para os trabalhadores que vivem dessa atividade direta ou indiretamente, por ser ela hoje, no mundo atual, uma relação internacionalizada concretizada. Por outro lado, se nos basearmos no processo atual e real de modernização portuária e na aplicabilidade da lei 8.630 nos portos do Rio de Janeiro, podemos constatar uma considerável precarização do trabalho. O termo "pleno emprego", tão comum na época do Welfare, parece estranho no cenário contemporâneo. Como afirma SILVEIRA (1998) “Impera a precarização do trabalho e a redução de custos, mesmo que nela esteja nosso emprego”. Este fato está diretamente ligado ao intenso processo de reestruturação produtiva pela qual passam as economias industriais. Esta modalidade tem provocado, em todos os lugares, o crescimento do desemprego estrutural: postos de trabalho, outrora protegidos por diversas regras formais, vêm sendo substituídos rapidamente pelo inchaço do chamado setor informal, o que, quase sempre, representa uma degradação das condições de trabalho e piora das condições de vida do trabalhador. Diante das questões apresentadas, o Serviço Social do OGMO/RJ apresentou, no ano de 2001 algumas propostas de trabalho voltadas tanto para a reinserção dos trabalhadores avulso no mercado de trabalho, pensando em medidas de amparo à mãode-obra em função das repercussões sociais decorrentes do processo de modernização dos portos, quanto para a reinserção de trabalhadores que apresentavam incapacidade física para exercer as suas funções. Neste sentido, desenvolver-se-ia o Programa de Reabilitação e de Requalificação Profissional. 87 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização O programa de Reabilitação Profissional consistia em criar condições para que o trabalhador afastado do trabalho por motivo de doença ou de acidente de trabalho, fosse reinserido em sua atividade laborativa ou em outra atividade economicamente produtiva. O programa implicava em duas etapas: a Reabilitação Física e a Profissional. A Reabilitação Física envolvia toda a parte do tratamento, permitindo ao trabalhador recuperar o máximo de seu potencial laborativo. Depois de concluído e esgotado todos os recursos da recuperação física, seria feita uma avaliação do residual laborativo e teria início, então, a etapa da Reabilitação Profissional. Esta consistia em, após rigorosa avaliação de todos os aspectos que envolvem a atividade profissional exercida, determinarmos o residual laborativo do trabalhador e se com esse residual haveria condições de retorno ao exercício das atividades ou não, exigindo nesse caso, que se iniciasse o processo de readaptação profissional. Um dos instrumentos desse trabalho seria o perfil profissiográfico. Através dele percebe-se quais os pontos com maior ou menor risco à saúde e à segurança do trabalho. Apesar do programa de reabilitação ser uma importante alternativa para os problemas vigentes no porto relacionados ao emprego de mão-de-obra, vemos que, distintamente dos outros espaços laborais, o trabalho portuário tem um cotidiano bastante diversificado. Não só as “tarefas” são variáveis, mas também as condições em que estas são realizadas. Cada dia manipula-se uma carga diferente, em um ou mais navios diferentes, o que exige da equipe de segurança do trabalho esforço redobrado de observação. Por esse motivo, tornou-se complicado o desenvolvimento do programa de reabilitação Profissional pela característica do trabalhador de profissional avulso. Como trocar de função um TPA em caso de readaptação profissional? Nesse processo, ganham grande visibilidade, as políticas de requalificação profissional, que visam melhorar as condições de acesso ao mercado de trabalho, seja melhorando a qualificação dos trabalhadores, seja preparando-os para novos tipos de ocupação. Nesse sentido e, olhando para o caso específico do porto do Rio de Janeiro, com as recentes discussões pertinentes ao processo de revitalização do porto, apontamos algumas alternativas nesse momento conclusivo: 88 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização • Realização de um levantamento com relação aos tipos de profissionais que serão absorvidos pelo processo de revitalização do porto. Uma vez sendo realizado, verificar-se-á a qualificação necessária a fim de que seja programado cursos em áreas compatíveis com as atividades dos trabalhadores portuários avulsos. • Montar uma central de pesquisa e de disponibilização de informações sobre mercado de trabalho, bem como, a realização de contatos com algumas instituições responsáveis pelo recrutamento de mão-de-obra. • Realização de um levantamento capaz de fornecer informações necessárias, bem como: quem são os trabalhadores realocados do trabalho no porto, qual o seu perfil, quantos são, que ocupação vem demonstrando maior capacidade de crescimento, e simultaneamente, apontar as vocações e oportunidades econômicas em cada área de atividade. • Montar centro de requalificação para o trabalhador avulso com recursos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador. Sugerimos também a realização de um trabalho junto aos operadores portuários para que a reserva de vagas prevista no Decreto nº 3.298 de 20 de dezembro de 1999, que determina o percentual de vagas a serem reservadas aos portadores de deficiência ou reabilitandos, seja utilizada com os TPAs que necessitem de readaptação. Todos estes pontos apresentados são fundamentais, porém, diante da situação que se faz presente na realidade dos trabalhadores portuários avulsos, acrescento a suma importância de se tornar concreta as determinações da Lei 8.630/93 não a favor da modernização em nome das operadoras portuárias e do capital, em detrimento dos trabalhadores, porém, a favor de um desenvolvimento que torne justa e digna a sobrevivência dessa categoria que nós até então não conhecíamos mas que é um dos alicerces da economia desse país. 89 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Anexos 90 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO (PORTUÁRIO – RJ / PORTO: ANGRA DOS REIS) CONVENÇÃO COLETIVA DE TRABALHO QUE ENTRE SI CELEBRAM DE UM LADO O SINDICATO DOS OPERADORES PORTUÁRIOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, ENTIDADE SINDICAL DE PRIMEIRO GRAU, PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO, POR SEU PRESIDENTE, DORAVANTE DENOMINADO SINDOPERJ E DE OUTRO O SINDICATO DOS TRABALHADORES NOS SERVIÇOS PORTUÁRIOS DOS PORTOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, ENTIDADE SINDICAL DE PRIMEIRO GRAU, PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO, POR SEU PRESIDENTE, DORAVANTE DENOMINADO SINDICATO, MEDIANTE AS SEGUINTES CLÁUSULAS: Cláusula Primeira - Do Objetivo, Finalidade e Princípios O presente instrumento de natureza normativa e eficácia coletiva tem por objetivo e finalidade o estabelecimento de regras disciplinares das relações de trabalho, nos termos da Lei 8.630, de 25 de fevereiro de 1993, entre os Operadores Portuários e os Trabalhadores Portuários Avulsos na Atividade de Capatazia. 1 - As partes signatárias da presente Convenção consideram ser a Lei 8.630/93 o instrumento basilar para o processo de modernização dos Portos, bem como fundamento das presentes e futuras negociações que forem realizadas; 2 – A Direção e a Coordenação da Operação Portuária é de titularidade do Operador Portuário, sendo de sua responsabilidade a operação em si, a administração da Mão-de-Obra contratada e demais questões trabalhistas em conformidade com as Convenções Coletivas e a legislação vigente; 3 - Os Operadores Portuários e os Trabalhadores Portuários Avulsos do Estado do Rio de Janeiro comprometem-se a buscar de forma permanente, o aumento da eficiência e da competitividade. Estes objetivos serão perseguidos seja pelo aprimoramento tecnológico dos equipamentos, dos implementos, seja pela dinamicidade de formas de embarque, desembarque e armazenagens das mercadorias, bem como pelo aprimoramento da Mão-de-Obra, a fim de adequá-la ao processamento de transformação, criando objetivas condições para a multifuncionalidade e o almejado pleno emprego; 4 - A atividade portuária será operacionalizada 24 horas por dia, em jornadas de trabalho de 6(seis) horas, devendo Operadores Portuários e Trabalhadores Portuários Avulsos dos Portos do Estado do Rio de Janeiro criarem condições para viabilizar uma política articulada que propicie a atração de novas cargas e aumento de volume das atuais, buscando assim, maior oferta de empregos, maior capacidade operacional do porto, bem como melhor distribuição da massa salarial gerada; 5 - As relações Capital e Trabalho devem ser marcadas pela transparência e pela lisura, buscando-se sempre a via negocial para a solução de eventuais conflitos; 91 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização 6 - Todas as questões sociais inerentes à classe trabalhadora e principalmente à sua evolução, numa visão objetiva e pragmática, são também de responsabilidade do segmento empresarial. O empenho em solucioná-las, é condição essencial para o pleno desenvolvimento do Setor; 7 - Durante todo e qualquer processo negocial, caberá as partes, em negociação, empenharem-se em obstar qualquer tipo de ação que vise pressionar os negociadores sob qualquer pretexto; 8 – O quadro de Registrados e Cadastrados compõe-se dos trabalhadores enquadrados respectivamente pelos artigos 27 Item II, 55 e 70, e artigos 27 Item I e 54, da Lei 8.630/93; 9 – Os trabalhadores do quadro de Cadastrados terão acesso ao quadro de Registrados, sendo o seu enquadramento, de acordo com as normas da presente Convenção, em conformidade com a Lei 8.630/93, na qual considera-se o cancelamento do registro por aposentadoria, morte, transgressão disciplinar ou desistência, sempre observado o fato da adequação da oferta de trabalho à demanda de Mão-de-Obra no Porto, ouvido o Conselho de Supervisão do OGMO; 10- Terão acesso aos Programas de Treinamento Técnico do Fundo de Ensino Profissional Marítimo os trabalhadores Registrados no OGMO; 11 - O OGMO, em respeito ao princípio da Multifuncionalidade, deverá atender ao excesso de demanda de mão-de-obra de uma categoria funcional, solicitando TPAs de outra categoria de avulsos; 12 - O OGMO deverá fornecer os comprovantes de pagamento da remuneração total mensal individual por TPA, não só as importâncias pagas e descontos efetuados, bem como dos demais encargos sociais; 13 - O ingresso na área do Porto Organizado dos trabalhadores portuários avulsos quando escalados para o trabalho do dia, far-se-á sempre com a apresentação do documento de identificação fornecido pelo OGMO. Cláusula Segunda - Categoria Abrangida São alcançados por esta Convenção Coletiva de Trabalho os trabalhadores portuários avulsos, exercentes da atividade de Capatazia. Parágrafo Único - Não estão abrangidos pela presente os trabalhadores contratados para as atividades de Capatazia, regulados pela CLT. Cláusula Terceira - Abrangência da Presente Convenção O presente instrumento tem abrangência plena no Porto de Angra dos Reis. Clausula Quarta - Atividades do Trabalho Avulso de Capatazia 92 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Compreende-se por Capatazia, a atividade de movimentação de mercadorias nas instalações de uso público, compreendendo o recebimento, conferência, transporte interno, abertura de volumes para a conferência aduaneira, manipulação, arrumação e entrega, bem como o carregamento e descarga de embarcações, quando efetuados por aparelhamento portuário, conforme Inciso I, Parágrafo 3º, Artigo 57 da Lei 8.630/93.. Cláusula Quinta - Vigência O prazo de vigência da presente convenção é de 24 meses, com início na data de sua assinatura. Parágrafo Primeiro - A prorrogação, a revisão, a denúncia, ou a revogação total ou ainda que parcial da presente Convenção, fica subordinada ao disposto no artigo 612, da CLT. Parágrafo Segundo – 60 dias antes do prazo de vencimento da presente Convenção Coletiva de Trabalho, serão iniciadas negociações pelas partes, que, não convergindo dentro do prazo estabelecido ao Instrumento Normativo almejado, suscitarão o dissídio coletivo. Cláusula Sexta - Jornada de Trabalho A atividade de Capatazia será realizada a critério do Operador Portuário em turnos contínuos de 6 (seis) horas. Parágrafo Primeiro - A jornada de trabalho em turnos de 6 (seis) horas será cumprida nos seguintes horários: de 07:00 às 13:00 horas; de 13:00 ás 19:00 horas. de 19:00 às 01:00 hora; de 01:00 às 07:00 horas. Parágrafo Segundo - A substituição das Equipes será diretamente realizada nos respectivos postos de trabalho, 15 (quinze) minutos antes do término de cada turno. Cláusula Sétima - Requisição O OGMO. por solicitação do Operador Portuário, requisitará e alocará o trabalhador portuário avulso nas operações demandadas, enquadrando-o adequadamente aos tipos de cargas a serem movimentadas, considerando a sua qualificação e capacitação técnica, podendo o trabalhador, em caso de discordância e ao término da operação, recorrer formalmente ao OGMO. 93 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Parágrafo Primeiro - No regime de trabalho estabelecido as requisições de serviços serão efetuadas conforme instrução do OGMO. Parágrafo Segundo – É facultado ao Operador Portuário cancelar as requisições solicitadas, com antecedência mínima de uma hora antes do início da escalação. Cláusula Oitava - Escalação A escalação de trabalhadores portuários avulsos de Capatazia para compor as equipes requisitadas pelo Operador Portuário será efetuada pelo OGMO, em sistema de rodízio, a quem compete efetuar o fornecimento / gerenciamento, administração / fiscalização da mão-de-obra. Parágrafo Primeiro – O Sindicato obreiro obriga-se a cooperar com o OGMO constituindo Comissão própria para acompanhar o desenvolvimento do processo/sistema de escalação junto ao órgão. Parágrafo Segundo – O SINDOPERJ e o OGMO-RJ comprometem-se a aprimorar o sistema rodiziário empregado na escalação dos trabalhadores avulsos, informatizando o sistema para que o processo de engajamento dos trabalhadores possa atingir o objetivo maior de ser estritamente técnico e democrático, sem preterir ou privilegiar trabalhadores, aumentando, ainda, substancialmente a previsibilidade de acesso ao trabalho e o bem estar do trabalhador. Parágrafo Terceiro - O ingresso no Porto somente será permitido ao trabalhador escalado pelo OGMO. Parágrafo Quarto - Para as operações de Roll-on Roll-off de Veículos, somente poderão ser requisitados/escalados os trabalhadores portuários avulsos de Capatazia que possuam Carteira de Habilitação e que estejam em dia com suas obrigações junto ao DETRAN, bem como devidamente registrados no OGMO. Claúsula Nona - Da Direção e Do Comando da Operação Portuária A função de Encarregado, bem como, quaisquer outras funções de comando, é da exclusividade e titularidade do Operador Portuário, à quem compete, nos termos da Lei, a direção e a coordenação da operação portuária, sendo de sua atribuição: a) chefiar, dirigir e orientar os serviços da equipe de trabalho, promovendo todos os atos e procedimentos necessários, além de responder pela correta execução dos mesmos; b) colaborar no planejamento das operações, bem como no controle e programação dos equipamentos a serem utilizados na movimentação das cargas; c) assegurar a correta execução das operações, atuando como intermediário entre o Operador Portuário no comando da operação e os trabalhadores a si subordinados; 94 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização d) zelar pelo cumprimento das normas operacionais; e) zelar pelo cumprimento das normas de segurança, higiene e medicina do trabalho; f) formalizar ao Operador Portuário no prazo de 24 (vinte e quatro) horas após o encerramento do período de trabalho, através de relatório referente à infração disciplinar dos estivadores engajados e também, qualquer tipo de incidente, seja ele dentro ou fora da embarcação, que venham a prejudicar o bom andamento dos serviços, bem como os direitos e a integridade física dos TPA’s. g) zelar pela boa execução dos serviços operacionais das embarcações.; h) observar a composição da equipe, a capacidade individual de cada trabalhador, visando assegurar a execução das tarefas para as quais tenha sido o mesmo requisitado; i) solicitar equipamentos, ferramentas e implementos necessários a operação; j) solicitar ao Operador Portuário, a substituição de trabalhadores, que não estiverem em conformidade com as necessidades operacionais; k) diligenciar na solução dos problemas que possam prejudicar o curso normal das operações; l) relatar avarias ou sinistros detectados no curso das operações; Cláusula Décima – Das Equipes / Matriz Técnica Operacional Os serviços referentes a atividade de Capatazia quando realizados pelas Equipes de Trabalhadores Portuários Avulsos, por Grupo de Mercadoria, serão de acordo com o quantitativo/funções especificadas nos Anexos I.1 - "Matriz Técnica Operacional de Capatazia", por Porto, que é parte integrante da presente Convenção. Parágrafo Primeiro - Será facultado ao Operador Portuário a requisição de trabalhadores adicionais, em função de necessidades específicas, a seu único e exclusivo critério. Parágrafo Segundo - Na eventual constatação de insuficiência de mão-de-obra avulsa para a execução da operação portuária, o OGMO, por solicitação do Operador Portuário, complementará a equipe com trabalhadores portuários avulsos de outra categoria, a fim de manter a eficiência operacional e atender a demanda. Parágrafo Terceiro - A recusa pelo trabalhador de engajamento no trabalho, possibilitará ao Operador Portuário, através do OGMO, substituir parcial ou 95 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização totalmente a equipe, possibilitando ainda, sua substituição por trabalhadores avulsos de outra categoria para compor a equipe. Parágrafo Quarto – Uma equipe poderá ser utilizada para operar, em um mesmo período, diferentes tipos de cargas no mesmo navio, desde que respeitado o número estabelecido de trabalhadores que compõem as equipes constantes da Matriz Técnica Operacional (Anexo I), sendo, nesse caso, a remuneração percebida a definida para as cargas efetivamente movimentadas. Cláusula Décima-Primeira - Remuneração A remuneração dos trabalhadores portuários avulsos exercentes da atividade de Capatazia será na forma e valores especificados no Anexo II - " Remuneração da Mão-de-Obra Avulsa", que é parte integrante da presente Convenção. Parágrafo Primeiro - Os valores constantes do Anexo II correspondem à remuneração do TPA pelo trabalho executado em dias úteis, sábados e domingos, sendo, com relação a este último, ressalvada ao trabalhador uma folga compensatória durante a semana. Parágrafo Segundo - O trabalho executado em feriados será remunerado com acréscimo de 100 % (cem por cento) sobre o valor básico; Cláusula Décima-Segunda - Adicional Noturno O adicional noturno, devido no percentual de 50% (cinquenta por cento), deverá ser acrescido aos valores apresentados no Anexo II – "Remuneração da Mão-de Obra Avulsa", quando o trabalho for realizado no período entre 19:00 horas e 07:00 horas. Cláusula Décima-Terceira - Repouso Semanal Remunerado Os valores apresentados na presente Convenção deverão ser acrescidos do percentual de 18,18 % (dezoito vírgula dezoito porcento), relativo ao Repouso Semanal Remunerado (R.S.R.). Cláusula Décima-Quarta - Forma de Pagamento O OGMO é o responsável pelo pagamento aos trabalhadores, que será feito uma vez por semana, após a realização do serviço, por crédito em conta corrente bancária individual do TPA, em Banco conveniado pelo órgão. Parágrafo Único - O OGMO, poderá contratar serviços de terceiros para a elaboração da folha de pagamento, às suas expensas, bem como para outros serviços necessários à consecução de seus objetivos. Cláusula Décima-Quinta - Comprovante de Pagamento 96 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização O OGMO fornecerá comprovante mensal de pagamento de salário aos trabalhadores com discriminação das importâncias pagas e descontos efetuados, identificação do operador portuário e os valores a serem depositados na conta do FGTS, recolhimentos previdenciáros, férias e 13º salário. Parágrafo Único – Faculta-se ao Sindicato obreiro a fiscalização dos recolhimentos dos depósitos fundiários e recolhimentos previdenciários. Cláusula Décima-Sexta - Férias Os trabalhadores abrangidos pela presente terão direito anualmente a gozo de férias remuneradas, acrescidas do terço constitucional, controladas e gerenciadas pelo OGMO, considerando para tanto, o número de horas trabalhadas a cada ano civil, garantindo-se proporcionalidade de férias nos termos da Constituição Federal, e pagas através do OGMO juntamente com sua remuneração salarial Parágrafo Primeiro - O operador portuário repassará ao OGMO juntamente com o pagamento dos salários, a parcela referente a 12,12% (doze vírgula doze por cento) do total da remuneração paga ao trabalhador, para custeio das férias, do adicional constitucional de 1/3 e da contribuição ao OGMO, conforme Ordem de Serviço INSS/DAF nº 139, de 31.05.96. Parágrafo Segundo - Na eventualidade de novo ato normativo do Estado sobre o assunto, admite-se imediata alteração de procedimentos, adequando-se ao estabelecido. Claúsula Décima-Sétima - 13º Salário O operador portuário repassará ao OGMO-RJ, juntamente com o pagamento do salário, a parcela de gratificação natalina representada por 9,06 % (nove vírgula zero seis por cento), do total da remuneração, para pagamento do 13º salário e da contribuição ao OGMO, conforme Ordem de Serviço INSS/DAF nº 139, de 31.05.98. Parágrafo Primeiro - Na eventualidade de novo ato normativo do Estado sobre o assunto, admite-se imediata alteração de procedimentos, adequando-se ao estabelecido. Cláusula Décima-Oitava - Da Gestão da Mão-de-Obra A gestão da mão-de-obra utilizada na atividade de Capatazia obedecerá aos dítames da Lei 8.630/93 e as normas deste instrumento, e será realizada pelo OGMO, devendo atender as seguinte finalidades: a) Promover o fornecimento da mão-de-obra do trabalhador avulso; b) Manter registro profissional dos trabalhadores; 97 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização c) Promover o treinamento e a habilitação profissional do trabalhador portuário ao registro profissional, inscrevendo-o no cadastro; d) Expedir o documento de identificação do trabalhador portuário avulso registrado e cadastrado; Cláusula Décima-Nona - Deveres dos Trabalhadores: O trabalhador portuário avulso de Capatazia deverá cumprir as normas e procedimentos legais estabelecidos na legislação vigente, com a finalidade de assegurar ambiente e condições adequadas de trabalho, garantindo, por conseguinte, a eficiência da operação portuária. Parágrafo Primeiro - O descumprimento das normas acima estabelecidas implica na aplicação pelo OGMO das seguintes penalidades: a) Repreensão verbal e por escrito; b) Suspensão do registro pelo período de dez a trinta dias; c) Cancelamento do registro; d) Nas operações de Roll-on Roll-off, substituição imediata e impedimento de engajamento nos serviços de embarque e desembarque posterior à punição. Parágrafo Segundo - Caberá ao OGMO regular o processo disciplinar estabelecendo as normas disciplinares, a gradação e a aplicação das penalidades. Parágrafo Terceiro - A aplicação das penalidades poderá ser sumária por decisão do OGMO-RJ e os recursos do direito de defesa deverão ser procedidos no âmbito da Comissão Paritária (art. 23/Lei 8.630). Cláusula Vigésima - Deveres do Sindicato Obreiro Orientar os seus representados para o cumprimento das normas disciplinares legais. Cláusula Vigésima-Primeira - Deveres dos Operadores Portuários São deveres dos operadores portuários: a) Prestar ao Sindicato, quando legitimamente solicitadas, todas as informações necessárias ou convenientes ao desenvolvimento das relações de trabalho. b) Quitar, em tempo hábil, na forma deste instrumento e das normativas emanadas do OGMO a remuneração e demais valores devidos aos trabalhadores ou deles descontados para repasse a organismos diversos. 98 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Cláusula Vigésima-Segunda – Do Vínculo Empregatício O Operador Portuário poderá contratar trabalhadores com vínculo empregatício a prazo indeterminado, dentre os trabalhadores registrados no OGMO ou não, de acordo com o Artigo 26 e seu Parágrafo Único, da Lei 8.630/93, podendo alocálo(s) em qualquer função definida na Matriz Técnica Operacional (Anexo 1), promovendo, por conseguinte, a substituição devida na equipe de trabalhadores, face ao(s) engajamento(s) efetuado(s). Parágrafo Único - Formalizada a contratação com vínculo empregatício a prazo indeterminado de trabalhadores avulsos registrados, serão estes excluídos da escala do rodízio dos avulsos e terão retida pelo OGMO a sua carteira de identificação do órgão, enquanto permanecer o vínculo. Cláusula Vigésima-Terceira – Do Desenvolvimento dos Aspectos Sociais Convenciona-se a formação de Comissão Técnica Tripartite para Assuntos Sociais, composta de 2 membro da Diretoria do Sindicato dos Portuários, do OGMO e do SINDOPERJ, com o objetivo de analisar e sugerir o aprimoramento sobre os temas a seguir descritos, coordenados pelo OGMO. 1 – Fundo de Aposentadoria Programada com base na Lei 9477 de 24.07.97; e/ou 2 – Fundo de Previdência privada complementar, 3 – Sistema de incentivo ao cancelamento do Registro Profissional no OGMO,e 4 – Programa de Benefícios Sociais – Outros. Cláusula Vigésima-Quarta - Foro Fica eleito o foro da Capital do Estado do Rio de Janeiro para dirimir conflitos oriundos da presente Convenção Coletiva de Trabalho. Por assim haverem livremente acordado, assinam o presente instrumento, em 4 (quatro) vias de igual teor e para os mesmos efeitos, sendo duas delas depositadas, para fins de registro e arquivo, perante a Delegacia Regional do Trabalho do Estado do Rio de Janeiro, em conformidade com o que preceitua o artigo 614 da CLT. Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1998 SINDOPERJ - SINDICATO DOS OPERADORES PORTUÁRIOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO _____________________________ 99 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Rafael Augusto Roquette Bruno SINDICATO DOS TRABALHADORES NOS SERVIÇOS PORTUÁRIOS DOS PORTOS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO _________________________________ Jorge Luiz de Jesus Drummond 100 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Entrevista com o fiscal de operações da Companhia Docas do Rio de Janeiro Sr. Carlos Augusto. Data: 06 de novembro de 2006. Dalva - A Lei de Modernização dos Portos – Lei 8.630/93 prevê uma série de mudanças na estrutura e na execução do trabalho portuário. O que você acha que foi feito até agora referente à aplicabilidade desta Lei? Carlos Augusto – Até o ano de 2001, não houve uma descontinuidade do serviço praticamente. Para quem está de fora, olha e não vê uma mudança, agora para quem gerencia essa atividade, vê que as mudanças aconteceram logo a partir de mais ou menos 95 e 96, quando foi realmente que a lei começou a ser aplicada no Porto do Rio de Janeiro. Houve um lapso de tempo em que realmente agente tinha a lei e não houve uma mudança de comportamento no perfil da Companhia Docas. O que era Docas antes da lei? Ela administrava e realizava as operações portuárias, isso antes da lei. Até 95 e 96 as coisas não se modificaram, continuaram praticamente a mesma coisa. A partir desse período as coisas começaram a acontecer no sentido de nós nos afastarmos das operações ficando apenas com a administração do porto. Até mesmo porque até um determinado momento, a lei mandava criar terminais, fazer arrendamentos, então até um determinado momento, nós não tínhamos arrendamentos. Os arrendamentos começaram a ser estudados, agente já sabia mais ou menos o perfil do porto mas não tinha um estudo escrito dizendo – “Olha, a vocação do porto é essa” – com todo o estudo, tínhamos um terminal que não deu certo, que foi o terminal de açúcar. Houve um estudo para poder direcionar o porto para aquele segmento. Então a partir de 95 nós começamos a nos afastar e começar realmente a entregar a operação 101 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização aos operadores portuários, que foi uma entidade criada a partir da Lei 8.630. Posteriormente, já com os estudos de arrendamento, de perfil de cada um dos terminais, começaram a sair os primeiros arrendamentos dentre eles o que nós temos hoje, o Píer Mauá que é a estação de passageiros, dois terminais de contêineres, um terminal siderúrgico, um terminal de veículos e o que não deu certo que é o terminal de açúcar, que começou mas não é uma carga típica do Rio de Janeiro e a coisa não deu certo e nós ficamos com o terminal praticamente que... operava outras cargas e não operava a carga principal, e uma das metas era que você operasse a carga que se dispôs a movimentar. O grande diferencial a partir da lei, primeiro foi o nosso afastamento das operações. Na prática a operação é dividida sempre em duas partes: capatazia e estiva. Capatazia é todo mundo que está em terra e estiva os que estão dentro do navio. Principalmente a parte de terra, que era a que nós realizávamos. Tínhamos exclusividade encima de leis de 42, 45, leis de governos inclusive fortes, ninguém podia fazer este serviço dentro do porto. Isso já foi um avanço, porque é uma atividade que ela tem que ser altamente qualificada, tem que ser produtiva e era realizada por funcionários públicos. Isso é salutar? Inicialmente não. Embora eu seja fruto desse segmento, eu era conferente, trabalhei na operação, mas não é o tipo de atividade que o setor público deve exercer. Isso eu acho que já foi um ganho. Esquecemos um pouco dos arrendamentos na área do porto público. Nós temos os operadores portuários com os seus empregados, eles operadores competindo entre si para realizarem serviços dentro do mesmo porto. Então, você usuário, poderia chegar aqui e escolher dentre os cinco operadores portuários, aquele que melhor realizasse os seus serviços com um preço melhor para você. Isso já foi um avanço. Além disso vieram os arrendamentos, que são os terminais com a proposta de aperfeiçoar aquele tipo de serviço que ele se propunha a 102 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização realizar ali. Então o arrendatário tinha que se especializar em contêiner de produto siderúrgico, de veículos, de papel. Cada um tinha que se especializar na sua área e buscar estas cargas para o porto do Rio porque os contratos de arrendamento têm meta de movimentação. Começavam com uma movimentação pequena e ao longo dos anos iam aumentando e hoje é uma das nossas missões fiscalizar estes contratos, inclusive as suas movimentações. Existem metas de investimento mas a busca de novos negócios para o porto do Rio é principalmente através das metas. É claro que o aparelhamento é importante mas as metas forçavam os arrendatários a buscarem as cargas para o porto. Antes os portos de um modo geral pertenciam a um mesmo holding, a Petrobrás, e cada um ficava sentado no seu porto esperando o serviço chegar. Se o serviço não viesse para o porto do Rio ia para o porto de Santos ou para o de Vitória e lucrava para o Governo Federal. Hoje não. Hoje existe uma competição, até mesmo entre o porto do Rio com Sepetiba (hoje é porto de Itaguaí) que está a 85 Km daqui. Também pertence à Companhia Docas mas existe competição entre estes dois portos e foi uma competição premeditada, até mesmo quando nós pensamos nos terminais que teríamos em Sepetiba. O porto do Rio foi quase um percussor de tudo isso. O porto de Sepetiba quando foi planejado para os arrendamentos já tinha esse perfil. A carga própria de lá é o carvão, é o minério de ferro, que está ligado diretamente ao CSN e não tem como tirar de lá, pelo contrário, nós tiramos daqui. Essa carga era do porto do Rio e num determinado momento vimos que não tinha como ficar mais aqui, fizemos então um porto lá em Itaguaí e a carga foi para lá. Como esta carga, outros terminais foram criados e competem com o porto do Rio hoje. Isso correu para incentivar mesmo a competição entre os portos. Existe competição interna hoje dentro dos nossos dois terminais de contêiner por exemplo, e existe competição 103 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização entre o porto do Rio na movimentação de contêineres lá e também produto siderúrgico que é o carro chefe do porto do Rio de Janeiro. De um modo geral, quanto a isso, o nosso afastamento da operação e novos negócios para os portos eu acho que nós alcançamos. A Lei 8.630 foi muito mexida, principalmente no governo Collor. Quando falava em privatização dos portos, ele não falava em modernização, o governo federal arrendando áreas mantendo uma autoridade portuária que foi criada na lei para gerenciar o porto. Isso espantou muita gente. Agente sabe que aqui dentro existe um segmento que é altamente classista, têm muitos sindicatos envolvidos. Muitos se viram perdendo os seus empregos. Não tínhamos muito a fazer mas os sindicatos sim. Aqui nós temos envolvidos dentro do cais trabalhando o sindicato da estiva que é fortíssimo, sindicato de resistência que é o dos arrumadores, dos conferentes, os consertadores, o bloco, os vigias. Olha só quantos sindicatos! Então houve realmente uma discussão muito grande por conta disso e a lei acabou sendo mexida. Eu não sei se no final acabou sendo totalmente o que o governo queria, mas de certa forma embora não tenha sido excelente para o trabalhador porque o segmento perdeu emprego com isso, e foi exatamente o meu segmento, os funcionários da Companhia Docas, muitos perderam emprego porque nós nos afastamos da operação. Não tinha motivo para manter hoje para manter guindasteiro, motorista de empilhadeira, trabalhadores de capatazia, e eu ainda tenho conferentes dentro do cais do porto porque tem que haver a fiscalização na movimentação. Este segmento que era a maioria no nosso quantitativo foram demitidos, a maior parte saiu através de incentivos mas muitas vezes saíram na condição de ter que ir embora por não saber o que iria acontecer amanhã. Saíram de repente sem estarem preparados para isso. Você vê muita gente hoje aqui fora que está aí ao Deus dará. Esse era outro 104 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização segmento, tinha vínculo empregatício. Para esse segmento a Lei não foi a melhor saída mas alguém tinha que pagar. O pessoal que agente chama de avulso é ligado a esses sindicatos, embora tenha sido criado através da própria Lei 8.630, um Órgão Gestor de Mão-de-Obra exatamente para poder administrar a mão-de-obra e ver as necessidades e realmente buscar a multifuncionalidade que a lei tanto persegue e é necessária. Eu como administrador do porto vejo que temos altos e baixos aqui. Trabalhamos nos últimos dias com uma taxa de ocupação de quase 100% , tendo que inventar lugar para colocar carga. E de repente, em outros determinados momentos vemos o porto esvaziar, é uma coisa ligada ao comércio, aqui no porto do Rio quase 90% da nossa atividade é importação e exportação de comércio exterior, não é cabotagem. São coisas ligadas ao comércio exterior que de repente faz surgir uma série de serviços e de repente desaparecem todas as cargas e navios e nós ficamos com um monte de mão-de-obra sem saber o que fazemos com ela que era um problema que nós tínhamos quando administrávamos o porto. De certa forma, com relação ao avulso, embora tenha aparecido o OGMO que veio exatamente coordenar esta mão-de-obra, os sindicatos não acabaram. No fundo, todos estão ligados a seus sindicatos que de certa forma defende os interesses de seus associados e é claro tenta compor isso da melhor forma possível com os operadores e com os arrendatários através do próprio OGMO. Num processo desse, alguém pagou o pato por isso e foram os funcionários da Companhia Docas. 105 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização Entrevista com os TPA’s Data: 05 de novembro de 2001 Local: Armazém 18 Observação: Participaram desta entrevista 05 (cinco) estivadores cadastrados. DALVA: Como vocês estão vendo o processo de modernização dos portos? Ele está acontecendo aqui no Porto do Rio de Janeiro? T1 - A Modernização realmente ainda não chegou, está organizando, né.. Vê aí, os guindastes estão todos parados, tudo em mau estado. Num tem um banheiro descente prá quando nós, trabalhador(...). Num tem um alojamento descente pra tomar banho, num tem um bandeijão, um restaurante aqui, agente tem que ir lá no Caju ou então comer um sanduíche fora da barraca sem higiene nenhuma. T2 - Betinho né... por um real! T1 - É... Então tá faltando aí mais estrutura, organização acho que isso tem, sem dúvida. E é uma melhora né... porque o nosso FGTS parecendo que está sendo corretamente depositado, nosso fundo de garantia... A Lei Trabalhista. Acho que ele está andando certo mas em modernização, ainda não chegou nos portos. Vê, daqui pra lá vê os asfaltos aí todo esburacado, tá crescendo mato ..., não tem uma arrumação descente. DALVA - Agora me diz uma coisa: antes da modernização como era? O que modificou? T1 - Só na organização modificou, mas não modernizou nada. T2 - Pera aí, qual o seu órgão? T1 - Eu sou da Estiva e do Bloco. T2 - Na Estiva houve modernização sim senhor. Esse sistema que está aí agora. Houve uma grande renovação sim senhor, pelo lado da estiva. Por quê? Antigamente, na escalação para o trabalho, se você não gostasse de fulano, ele não trabalhava, agora, o computador impede. Não existe mais critério de escolha porque é câmbio. Câmbio existe 106 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização zero, 1, 2, 3 e 4. Se o companheiro, tá, digamos que o primeiro câmbio a ser chamado é zero, tá, não adianta, que se não tiver com zero, não sai do trabalho. (OBS: este trabalhador quis dizer que agora a escalação funciona como uma espécie de rodízio: O primeiro trabalho ele pode escolher, corresponde ao Câmbio zero, após trabalhado, vai para o câmbio 1 .... até chegar ao quatro. Chegando ao quarto, ele zera novamente o seu câmbio, e o ciclo começa novamente). Não existe mais a dobra. Não adianta que o companheiro que tiver dobrado não trabalha na frente do outro. Isso aí houve uma melhora muito grande. T3 - Organização! T2 - Esta organização foi boa, tá, muito boa por sinal. Quanto ao problema do porto, companheiro... Isso aí é outro departamento. Isso aí não implica agente não. Eu acho que isso não tem valor. T4 - Meu nome é Cézar Brás. Sou estivador . Já que é uma matéria para os universitários, eu queria saber, que eu não estudei muito. Mas ouvi falar sobre esses descontos de DAS, sobre cada trabalhador, de 10% e em outros sindicatos é até 20%, eu queria saber o que a universidade poderia fazer por nós trabalhador, que não tem ninguém pra nos defender, infelizmente hoje o trabalhador não tem ninguém pra defender ele. O sindicato se tornou, na minha concepção, na minha visão, um cabide de emprego. Então, o que acontece, não adianta nada eu descontar da minha folha 10% para uma entidade, se eu não tenho retorno, eu não tenho! Hoje em dia, o OGMO faz tudo, o Sindicato não faz nada, nada! Não vai dizer que eles estão brigando pelos meus interesses que eu discordo. Estão brigando sim, pra eles arrumarem uma posição para se encaixarem. Esta é a minha visão. T2 - Cabide de Emprego! T4 - Então eu acho um absurdo você descontar 10% do seu trabalho para um órgão que não te dá retorno. Da estiva ainda temos um apoio, mas e dos outros sindicatos? Do bloco? O cara não tem uma clínica, não tem uma sede, não tem nada. Então o que acontece, eles descontam 10% para engordar o presidente (OBS: Ele está se referindo ao presidente do sindicato). Porque não temos nenhum retorno. T5 - Em 80, tinha muito trabalho aqui no porto ..... O que está faltando é interesse do pessoal das Docas. Tinha que baixar a taxa. Porque a taxa aqui no porto é muito cara, o governo... A taxa de cobrança pra agente atracar o navio é muito alta. O governo Federal 107 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização e estadual tinham que fazer a taxa abaixar. Trazer mais trabalho aqui para nós do porto. O navio não para aqui porque a taxa é muito cara. Então o navio vai embora para São Paulo. Fica amontoado de navio lá e aqui sem nenhum. Aqui tem pouco trabalho. Muita gente e pouco trabalho, aqui no porto. Outra coisa: eu queria que o sindicato, junto com o OGMO, fizesse uma clínica legal pra gente aqui, pra nossos filhos, nossas famílias, se uma pessoa vai para o Souza Aguiar, fica largado lá, sem ter uma assistência médica. Gostaria que o OGMO botasse uma clínica, um restaurante aqui pra gente. Um plano de saúde... a gente tá necessitando mesmo. T2 - Deixa só eu fazer uma retificação aqui: o companheiro falou sobre negócio de restaurante, isso é verdade... em relação a esse negócio de buraco, isso aí não compete agente, esse negócio de buraco, de trajeto aí... agora, tinha que ver, aqui existe um banheiro, tá..., mas acontece que as Docas, o pessoal portuário, eles fecham a parte de dentro alí, ao invés de fechar a parte de fora para o pessoal da rua não roubar coisa aqui dentro... O problema nosso é o acesso para chegar aqui.... DALVA - Agora, vocês têm como fazer esse tipo de exigência? T2 - Já foi falado, já foi pedido, as Docas não abre mão. T3 - Alega-se que tem pouco funcionário. T2 - Agora, o que o companheiro falou, que tem que ter um lugar pra comer, limpinho, aqui realmente não tem não. Ou agente come sentado aqui mesmo.... ....Agente vem do navio, vem descarregando até aqui. Tem pessoas que dormem aqui e estão doentes. T3 - Tem muita gente doente mesmo. T4 - Eu queria é que o OGMO desse, ou eu ou outro qualquer, agente tá aqui mas não sabe quem está doente. Fizesse uma pesquisa, um exame geral pra gente, pra todos. Exame mesmo! Na época da capitania, existia um respeito, se o elemento está doente, não pode estar convivendo com outros TPA´s ...! Problema de pele, um monte de coisa.... T2 - E aqui tem gente doente do pulmão mesmo ! A pouco tempo o Miro obrigou, obrigou, um estivador aí a se internar. Falou que ia desligar ele de tudo aí, obrigou ele. O estivador estava doentão que ele não queria se internar.... DALVA - Não nterna porque se ele parar de trabalhar não ganha? 108 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização T2 - Não recebe, nós somos avulsos! DALVA - E aí, diante desta situação, o que vocês acham que pode e que é possível ou que não é possível mas que tem que batalhar para ser feito? T2 - Ué, o OGMO tem condições de dar dois salários mínimos para o cara se internar! E o DAS que ele vem descontando? O que existe aqui é jogo de interesses. O OGMO ainda não colocou um plano de saúde senão ele acaba com o sindicato de vez. Ele não vai resistir.... ... O presidente do meu sindicato se dá com o Miro (OBS: Miro é o Diretor Executivo do OGMO) Existe um interesse. Dizem, dizem... que a nossa diretoria leva uma porcentagem em cima do montante que é o salário. ....Nós temos uma Comissão onde estamos correndo atrás de um direito para alguns estivadores que é o nosso caso.... Trabalhamos há 13 anos como cadastrados..... Somos discriminados...... T5 - Eu só queria pedir aos universitários pra vê se eles podem nos ajudar. Existe um decreto... lei onze mil... T2 - 8.630 ! T5 - Inclusive, ele fala na lei, sobre uma parte, sobre os descontos do sindicato, que não pode passar de 4% do salário do trabalhador. Só que estamos pagando 6% a mais. Agora, eu gostaria que vocês pegassem a lei e dessem uma cópia pra gente. Pra gente começar um movimento de fora pra dentro. Eu acho que não há necessidade de descontar 10% em uma coisa que não sou beneficiado a nada. Eu não tenho direito a nada. Não tenho direito a voto, não tenho direito a participara de reuniões, não tenho direito de discutir e desconto os mesmos direitos que os associados descontam. Observação: T1, T2, T3, T4 e T5 são os trabalhadores que participaram da entrevista. 109 Relações de Trabalho no Cais do Porto: Resistência e Modernização REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIAS ALBUQUERQUE, Marli B. M. 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