Pilotos e comissários: profissão de homem e profissão de mulher?
Claudia Musa Fay*
Geneci Guimarães de Oliveira**
Resumo
O homem comandava a aeronave ressaltando qualidades masculinas de herói destemido. A indústria
aeronáutica avançou e com ela a participação das mulheres, no início como enfermeira. As pesquisas
de gênero na aviação, área ligada à ciência e tecnologia, põem à mostra as facetas de uma mesma
profissão que recebe diferente justificativa quando exercida por homem ou por mulher. É o caso do
comando da máquina, assim como, dos serviços de bordo. A mulher na função de comissária exerce
o papel que se coaduna com o da dona de casa, reforçando a imagem de profissão feminina,
enquanto, os homens comissários sofrem o estigma de “efeminados”. A compreensão de que
preconceitos existem, passa primeiro, pela percepção dos próprios indivíduos discriminados e, depois
pela reflexão dos padrões culturais impostos pela sociedade. Esta comunicação pretende estabelecer
discussões pertinentes às referidas profissões, focando os padrões e estereótipos de gênero sobre a
masculinidade ou feminilidade no exercício destas funções.
Palavras-chave: Aviação, Gênero, Preconceito, Representação da Profissão.
*
Profª. Drª do Programa de pós-graduação em História da PUCRS - [email protected]
**
Arquiteta, Bacharel em História e mestranda do pós-graduação en História da PUCRS - [email protected]
1
O advento da Primeira Guerra Mundial trouxe consigo o reforço da imagem de que o céu era um
reduto exclusivamente masculino. Voar em combate era muito importante e envolvia muitos riscos
para que fosse permitido o ingresso feminino. Ao mesmo tempo a imagem do ás da aviação,
combinava com audaciosas aventuras das acrobacias, com a força dos esportes radicais, a coragem
do soldado, a educação do cavaleiro medieval, o instinto caçador e o companheirismo da caserna,
atributos que eram próprios dos homens, o que deixava pouco espaço para as mulheres, destinandoas não aos céus, mas ao lar.
A presente pesquisa consiste no estudo dos preconceitos que tanto os homens como as
mulheres sofrem ao optarem por carreiras de piloto ou comissários de bordo, isto é, mulheres na
cabine de comando e homens na cabine de passageiros.
O tema encontra justificativa, à medida que, tornam-se evidentes as diferenças de representação
da profissão quando exercida pelo homem ou pela mulher
A tripulação das aeronaves, nos primórdios da aviação, destinava-se ao universo exclusivo dos
homens. Eles sempre dominaram as inovações tecnológicas, o controle e manejo de armas, assim
como, nas construções do imaginário o espaço aéreo é o lugar onde os perigos são uma constante.
No campo da aviação, historicamente reservado aos homens, constata-se que as mulheres
começam a fazer parte desse espaço como pilotos, e que aprender a voar significava competição e
mudança de paradigmas. No entanto, sua tímida presença na carreira de aeronauta provoca
reflexões a respeito do gênero nas áreas de tecnologia de ponta. Ao longo do processo histórico
verifica-se que fatores econômicos, sociais e culturais contribuíram para a permanência de
comportamentos que tendem a afastar as mulheres desse processo de formação técnico-científica.
Os questionamentos a respeito dos atores que fazem parte desta investigação são deveras
intrigantes: “Quem são estas jovens que optam por carreiras tidas como masculinas? “Quem são
estes jovens que optam por carreiras tidas como femininas? Em que circunstâncias a profissão de
comissário de bordo vai sofrendo mudanças?
É relevante compreender que para muitos, ainda na atualidade, o avião representa a poderosa
máquina capaz de sobrevoar as cidades com seus grandes arranha-céus, as mais altas montanhas e
a imensidão dos mares. É possível ultrapassar as nuvens e como num passe de mágica tornar
realidade o mito de Ícaro. Assim que, o trabalho daqueles que exercem uma função dentro da
aeronave, povoa os sonhos de homens e mulheres.
O controle sobre o próprio destino nos ares trouxe para a contemporaneidade significativas
transformações, encurtou distâncias, na medida em que ocorreram modificações nos transporte e nas
comunicações, aproximou as diversas culturas e redimensionou a idéia de tempo. A velocidade tornase a participante de tudo, não se restringindo somente a mover as coisas de forma mais rápida. A
ordem agora é produzir mais rápido, vender e comprar mais rápido e fazer com que as informações
se processem de maneira quase instantânea.
Este grande invento foi recebido com extrema euforia , mas, se comparado com o surgimento do
2
automóvel, da eletricidade, do cinema ou do rádio, percebe-se que o mesmo não teve impacto
imediato e direto na vida das pessoas, em virtude de que não atingia a todos, isto é, eram uns poucos
que voavam.
O tempo foi passando e com ele o avião, cada vez mais, é utilizado para os serviços de
transporte de pessoas e bens em detrimento de outros meios de locomoção. Incorpora-se ao
cotidiano da humanidade; salva vidas ao oferecer meio rápido de transporte na busca de socorro e
remédios; mata vidas ao ser utilizado para fins bélicos, causando pânico e destruição quando carrega
bombas e gases venenosos.
O avião, mais do que qualquer outra invenção, causou extraordinário impacto simbólico no
imaginário coletivo. Desde sempre, mexeu com a emoção, cuja imagem representa a modernidade, a
beleza e o poder, há muito exploradas pelo cinema e pela propaganda.
Nas discussões a respeito de quem executa o comando da aeronave e os serviços de bordo na
aviação brasileira, sabe-se que a primeira empresa no Brasil a transportar passageiros foi a Condor
Syndikat, no hidroavião "Atlântico", em 1927,ainda com a matrícula alemã D-1012, e em junho de
1927, foi fundada a Viação Aérea Rio-Grandense (Varig). Nesses vôos, a tripulação era composta
somente de pilotos homens que estavam tão ocupados na pilotagem do avião que não tinham tempo
de atender aos passageiros.
A extensão do país e a precariedade de outros meios de transporte fizeram com que a aviação
comercial tivesse uma expansão excepcional no Brasil. Em 1960, o país tinha a maior rede comercial
do mundo em volume de tráfego depois dos Estados Unidos.
Nas pesquisas relativas aos pilotos percebe-se que eles, desde o início, têm sido as estrelas da
aviação mundial e seu papel tem evoluído admiravelmente ao longo dos anos. Os principais avanços
neste campo são devido aos novos equipamentos e à mudança dos padrões de treinamento. Quando
os aviões foram inventados, eles tinham sistemas de controle relativamente simples, mas com os
avanços da tecnologia aumentou a necessidade de mais treinamento.
Apesar de um maior número de sistemas automatizados e da sofisticação dos instrumentos
facilitarem o trabalho do piloto, ele deve entender a linguagem do equipamento. Para comandar
aeronaves em grandes companhias aéreas, além de muito preparo que leva um determinado tempo,
1
também exige muito investimento. Segundo dados de 2006, o Piloto de linha aérea para exercer o
comando de aeronaves de grande porte, necessita algo em torno de 1500 horas de voo e o valor que
deve ser despendido para isto é de R$120.000,00.
2
Os números acima, de certa forma, justificam as pesquisas de Márcia Siqueira de Andrade ao
mostrar que a situação de segregadas e discriminadas, ainda nos dias de hoje, inicia no contexto
familiar: “(...) parecem ser mais acentuadas quando existe um ou mais irmãos do sexo masculino. (...)
a família investe mais no futuro do menino, instalando, desde cedo, e no próprio seio familiar, a
desigualdade de oportunidades.”
Ao longo do processo histórico verifica-se que fatores econômicos, sociais e culturais
contribuíram para a permanência de comportamentos que tendem a afastar as mulheres da formação
3
3
técnico-científica. Ainda de acordo com Fry e Macrae : “Desde o berço, meninos e meninas são
submetidos a um tratamento diferenciado que os ensina os comportamentos e emoções considerados
adequados”, então as condutas que destoam dos padrões estabelecidos causam estranhamento.
A sensibilidade, por exemplo, é próprio de menina, pois menino não chora, ele é forte. Ser dócil
ou frágil é característica feminina, coisa de mulher, ou seja, “desde a mais tenra infância meninos e
meninas são educados para se portarem como homens e mulheres mais tarde”
4
5
Na narrative de Luciana , ela expõe a resistência que enfrentou ao dizer para a família da sua
intenção de se tornar piloto:
(…) eu tive a oportunidade de fazer um vôo num CESNA 172 para S.José do Rio Preto com um
amigo... ele me deixou segurar o “manche”...eu tive a sensação de voar...e aí fiquei apaixonada pela
aviação. Eu cheguei em casa e pedi pro meu pai pra fazer o curso, mas ele com uma graduação já
elevada, professor universitário, achava que o melhor era eu seguir uma carreira “mais feminina”. Não
concordou e também não estava disposto a investir. Para realizar meu sonho precisei me desfazer de
alguns bens e continuar na luta. Hoje estou em treinamento para co-piloto da TAM. Quanto ao meu pai
acho que está conformado!
6
Bourdieu traz para reflexão dos pesquisadores interessados em discutir os temas relacionados
com a prepoderância masculina estudos que servem de suporte para o entendimento das
permanências, ou seja, que determinadas profissões estejam reservadas ao seleto mundo do
universo masculino, enfatizando quem são os agentes estimuladores neste processo de dominação:
(...) longe de afirmar que as estruturas de dominação são a - históricas, eu tentarei, pelo contrário,
comprovar que elas são produto de um trabalho incessante (e, como tal, histórico) de reprodução, para
o qual contribuem agentes específicos (entre os quais os homens, com suas armas como a violência
física e a violência simbólica) e instituições, famílias, Igreja, escola, Estado.
Percebe-se que as filhas encontram dificuldades para estudar e progredir profissionalmente,
quando se trata de carreiras em que o fator economico tem um forte impacto no orçamento familiar.
No caso específico da aviação, os diversos depoimentos revelam os obstáculos que as mulheres
tiveram e continuam tendo que enfrentar até conquistarem o lado esquerdo da cabine de comando. A
utilização do método da história oral possibilita novos caminhos de investigação, assim como, tiram
7
do anonimato os sujeitos partícipes do processo. Para as pesquisadoras RUIZ FUNES & TUÑON :
1
Anac/Gerência de capacitação de recursos humanos- ano 2006
ANDRADE, Márcia Siqueira de. Mulheres do século XX: a aprendizagem do feminino. São Paulo: Memnon Edições
Científicas, 2004. p. 24.
3
FRY, Peter; MACRAE, Edward. O que é Homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 11.
4 Idem. p.41
5 Depoimento concedido a Geneci G. de Oliveira quando Luciana fazia aulas no simulador da PUCRS como parte do
treinamento de co-piloto da TAM em 2006.
6 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Trad.: Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999. p. 46.
7 RUIZ FUNES, Concepción; TUÑON, Enriqueta. Palabras del exilio 2. Final y comienzo: el Sinaia. Biblioteca Virtual Miguel
de Cervantes, 2003. http://www.cervantesvirtual.com
2
4
(…) éste es el instrumento idóneo para recuperar aquella dimensión de los procesos históricos que,
generalmente, se pierde en otro tipo de trabajos de índole histórica y que sólo hasta fecha reciente se
ha intentado configurar de manera científica: la dimensión viva y maleable de la vida cotidiana de los
individuos inmersos en la historia; los matices emotivos y personales; la óptica irreductible, abrupta y
contradictoria de los hombres de carne y hueso; su manera de sentir y percibir los acontecimientos y de
percibirse a sí mismos dentro de ellos.
Porém, o fato da tímida presença feminina na carreira de aeronauta, provoca reflexões a
respeito do gênero na ciência e, se faz necessário uma abordagem histórica a respeito da diferença
dos sexos como afirma Mary del Priore:
(...) também a importância, nos últimos anos, de fazer a história das mulheres, para compreensão
deste enorme problema, antes filosófico e agora histórico, que é a diferença dos sexos. Ancorada na
riqueza de representações sobre a diferença sexual na história, convencida da insuficiência da reflexão
sobre as invariantes antropológicas, esta história é, conseqüentemente, promessa de diversidade tanto
8
nos fatos quanto nas representações .
Sabe-se que, a partir da Primeira Guerra Mundial, os homens começaram a ter treinamento
amplo e padronizado quando os militares colocam os soldados no ar. Com o advento da Segunda
Guerra Mundial e nas décadas subseqüentes ocorre uma intensificação do exercício militar com as
aeronaves.
Até os anos 60 a grande maioria dos pilotos era oriunda das forças armadas, porém, ao longo
das últimas décadas novas escolas de formação foram surgindo, inclusive, oportunizando a entrada
das mulheres neste mercado de trabalho. As transformações tecnológias facilitaram o manejo da
aeronave, ao mesmo tempo em que as inovadoras máquinas domésticas liberaram as mulheres dos
afazeres no lar.
9
Joan Scott destaca a conexão entre a história das mulheres e a política por ser ao mesmo
tempo óbvia e complexa, que na década de 80 consegue seu próprio espaço: “(...) a emergência da
história das mulheres como um campo de estudo envolve, nesta interpretação, uma evolução do
feminismo para as mulheres e daí para o gênero; ou seja, da política para a história especializada e
daí para a análise”.
Apesar da complexidade que envolve a pesquisa referente a profissão de piloto, seja para
mulher ou para homem, tem-se evoluído nestas discussões e na busca de novas fontes que possam
contribuir para a compreensão das especificidades da função, assim como, dos conflitos que a
própria hierarquia da aviação impõe.
Muitos são os estudos que discutem as profissões socialmente consideradas exclusivas do
homem ou da mulher, entretanto, não há argumentos plausíveis na natureza humana que os
justifiquem, assim que, pode-se falar em representações sociais que foram construídas
8
9
FREITAS, Marcos Cezar de (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998. p. 220.
SCOTT, Joan. História das mulheres. In: BURKE, Peter (Org.). A escrita da história: novas perspectivas. Tradução:
Magda Lopes. São Paulo: UNESP, 1992. p. 65.
5
10
historicamente. Conforme afirma Krautz :
A natureza não determina que as moças devem lavar louça e os rapazes, o carro. Nem que elas têm o
direito de chorar em público e eles não”. E na escola? Só as garotinhas podem manter os cadernos
arrumados, com letra impecável?. Idéias assim não passam de estereótipos. Tratá-las como verdades
imutáveis, pode ser um erro com uma conseqüência nefasta: a difusão de preconceitos. Ao reproduzir
modelos, você pode, sem querer, estar podando habilidades, tolhendo talentos.
Alessandro Portelli reforça a importância das fontes orais, em especial "a história da memória, a
história da imaginação, a história da subjetividade (tanto dos indivíduos como das instituições)”
11
e
aqui, se torna relevante os depoimentos de aeronautas, a fim de refletir sobre as complexas relações
de poder que se estabelecem no espaço até então reservado aos homens, compreender as
dificuldades femininas para, num primeiro momento, ingressar e, num segundo, permanecer nos
territórios masculinos, ou seja, provar que a capacidade de voar não é privilégio do sexo masculino.
No caso específico da aviação brasileira, em que a entrada das mulheres nos postos de
comando ocorreu na década de 90, significa um tempo muito exíguo para a realização de uma
análise histórica. As pesquisas sobre este novo sujeito que integra o espaço aéreo, por ora
realizadas, evidenciam que as mulheres apenas iniciaram uma caminhada na direção deste exclusivo
universo masculino.
Furar o bloqueio que impedia o ingresso feminino está resolvido! Será que é suficiente para
sustentarmos que se extinguiu a diferença entre os gêneros? Que nada mais temos a discutir sobre
as relações de poder? São reflexões, sobre as quais, tem se debruçado uma gama de pesquisadores,
multidisciplinares, na árdua tarefa de compreender o processo de inserção da mulher nas diferentes
atividades profissionais.
A necessidade de incluir nas pesquisas, também os agentes responsáveis pelos serviços de
bordo,tornou-se importante à medida que estudos sobre as mulheres pilotos trouxe à tona outros
sujeitos que ocupam funções tidas como femininas, além das relações de poder entre as duas
esferas da tripulação: pilotos estão no mundo da tecnologia enquanto comissárias e comissários
pertencem às atividades do cuidar, zelar pelo bem-estar e a segurança dos passageiros.
Esta outra mulher: aquela que sai para o trabalho no espaço aéreo, às vezes sob o olhar de "mal
vista", ou ainda com a alegação de trabalho perigoso, mas que não invadem a esfera do masculino,
entretanto, contribuíram para a construção de mitos e fantasias, deste segmento profissional, no
imaginário social.
Ao contrário dos pilotos, que desde sempre precisaram de uma formação técnica, cujo aporte
financeiro significa muito investimento – inclusive, no presente, a exigência de cursos de graduação
10 KRAUTZ, Rosiani. A Influência da Família no Momento da Escolha Profissional: Trabalho de Investigação em
Psicologia – Universidade do Sul de Santa Catarina. Palhoça, 2002, p. 27.
11 PORTELLI, Alessandro (Org). República dos sciuscià: a Roma do pós-guerra na memória dos meninos de Dom Bosco.
Tradução de: Luciano Vieira Machado. São Paulo: Salesiana, 2004. p. 12.
6
12
superior – as(os) comissárias(os) de bordo não são "doutores nem sábios" . Para habilitar-se ao
exercício da profissão passam por curso que tem a duração máxima de 8 meses, da mesma forma é
no Brasil e nos demais países.
Antes vista como heróica e gosto pela aventura, a nova aviação comercial torna-se uma "aviação
glamourosa", em que os quesitos conforto, segurança e requinte são partes integrantes dos vôos de
empresas aéreas norte-americanas e européias. São os modelos para todas as outras empresas
vinculadas às entidades que as congregam e disciplinam a atividade no mundo todo. Estão na busca
de atrativos cada vez mais sofisticados para magnetizar os seus usuários, na acirrada concorrência
entre as companhias aéreas.
A Varig, servindo com qualidade e requinte, torna o serviço de bordo da companhia um dos
melhores do mundo que aliada à constante presença de autoridades, gente do high society e ídolos
do público, revestem de glamour as viagens aéreas da companhia, presente no imaginário social
brasileiro na década de 40 a 60.
O acréscimo de nova personagem, a comissária, destinada a executar as tarefas específicas do
serviço de bordo, revestida de amabilidades e gentilezas, em conjunto com a aparência exterior
13
caracterizada pelo alinhamento dos uniformes , cuidados com maquiagem e cabelos, que,
analisados no seu conjunto, colaboram na conquista de novos passageiros, é transformada pelas
empresas de aviação em um produto que as tornam mais atraentes no mercado.
Aspecto a destacar, ainda em nossos dias, é a questão do sexismo presente em algumas
14
ocupações como refere Whitaker : “Assim há profissões masculinas e profissões femininas, o que
pouco tem a ver com o conteúdo da profissão, e se explica muita mais em função de papéis sociais
representados por homens e mulheres na sociedade tradicional”.
Na revista Contato encontra-se um artigo
15
que revela como era pensado o papel da comissária
(Aeromoça) no imaginário coletivo e com que objetivos fora construído:
É. Há profissões especialmente visadas por este machismo estimulado socialmente. Não há quem
possa negar que a profissão de comissária de vôo é uma delas. Nesta área, todos os mitos e
preconceitos têm sido propositadamente utilizados para fazer render um negócio já rendoso, como é o
da aviação comercial civil. (...) assim confundida com objetos é que a mulher passa também a ser um
objeto de deleite disponível aos privilegiados passageiros. Daí porque compreende-se a exigência da
chamada “boa aparência” dentro dos padrões vigentes: a aeronauta deve pintar-se com graça, ser
jovem, vestir-se elegantemente em seus uniformes especialmente desenhados, andar de salto alto, não
muito alto e estar sempre sorridente em seu estafante trabalho. Ah, precisa ser uma “gatinha”, não
pode “envelhecer” ou ser “madura”.
12
CABRAL, Ana Isabel Aguiar. Marcados pelo perigo: um estudo etnográfico sobre os comissários de vôo. Tese (Doutorado)
– Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antopologia-PPGSA, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003. p. 6.
13
14
RICH, Elizabeth. Flying high: swinger or slave or both? What it's realy like to be an Airline Stewardess. USA e Canadá:
Bantam Books, 1971. p. 74.
WHITAKER, Dulce. Escolha da Carreira e Globalização. São Paulo: Moderna, 1997, p.57.
15
Contato- Artigo publicado na revista, Porto Alegre, Associação de Pilotos da Varig, Informe Especial, n. 141, jan./fev. 1986.
7
Esse artigo encontra reforço naquilo que nos relatam pessoas ligadas à aviação e inseridas no
contexto da época, tanto no que se refere às comissárias como também na possibilidade de uma
mulher estar no comando da aeronave:
As mulheres não gostam de ver seus maridos viajando com outra mulher. As esposas têm ciúmes (...)
primeiro das comissárias: “O que o meu marido está fazendo no pernoite lá em Londres?” (...) Imagina
quando a mulher está na cabine como piloto? Fica mais difícil ainda. Fica mais complicado ainda para
uma cabeça fantasiosa. Os maridos poderiam dizer a mesma coisa. Primeiro lugar, está voando lá no
16
alto, depois o hotel à noite .
A origem da função de comissário de bordo está relacionada com a contratação de Ellen Church,
enfermeira americana, que ingressou na Boeing Air Transport em 1930, e que foi chamada de
“aeromoça”. No Brasil a inclusão das mulheres nos vôos da aviação comercial somente acontece
quinze anos mais tarde; a justificativa, dentre muitas, era a de que o sexo feminino não teria a força
física necessária para o trabalho de carga e descarga das bagagens dos passageiros. Percebe-se
17
que desde início da aviação comercial a profissão de comissário
sofreu grandes mudanças que
vieram na esteira das transformações tecnológicas, assim como, pela competitividade do mercado.
18
No detalhado estudo de Cabral , temos que a Varig contrata as primeiras aeromoças em 1950,
para trabalhar em terra, no balcão do aeroporto em Porto Alegre, que pleiteavam a participação na
tripulação de bordo, como aeromoças. Questionavam “seu Berta" – Rubem Berta, presidente da
Varig, porque não colocavam mulheres no vôo, uma vez que as demais empresas já haviam aderido,
ao que ele respondia – “aquele não era trabalho para moças de família, pois teriam que pernoitar fora
de casa”.
Uma série de regras discriminatórias foi elaborada pelas empresas no que se refere à idade,
estatura, estado civil e constituição de prole. Importante ressaltar é que somente comissários homens
podiam casar e ter filhos, enquanto as aeromoças deveriam permanecer solteiras, e, ainda, os cargos
de chefia permaneciam com os homens. Por outro lado, integrar os quadros de uma empresa aérea
significava melhores ganhos, possibilidade de viajar para vários lugares, mesmo que para isso
precisasse abdicar, temporariamente, de alguns projetos pessoais. O depoimento a seguir, ilustra
alguns aspectos interessantes da escolha pela profissão e das regras a cumprir:
(...) eu entrei para a aviação em 1969 e fiquei pouco tempo, só fiquei dois anos na aviação, porque na
muito bom, excelente. A empresa pagava o curso, a estadia, a refeição, esta era descontada do salário,
mas a empresa pagava um salário para gente estudar, ganhava uniforme e tinha três meses de
duração o curso. Pensei, assim, vou dar uma virada na minha vida! Não tinha namorado, ninguém
assim que me prendesse, só a família, que como sempre, deu umas "bronquinhas": não gosto por
isso... por aquilo, tinha sim um preconceito. Era uma profissão muito liberal, ainda a moça morando fora
de casa...
16
17
Depoimento do Comandante Enio Dexheimer à Geneci G. de Oliviera em 18 de maio de 2006 na Faculdade de Ciências
Aeronáuticas da PUCRS.
HARRIS, Tom. "HowStuffWorks - Como funcionam as tripulações de linhas aéreas". Publicado em 14 de junho de 2001
(atualizado em 04 de abril de 2008) http://viagem.hsw.uol.com.br/tripulacoes-de-linhas-aereas3.htm
18
CABRAL, Ana Isabel Aguiar.
(23 de agosto de 2008)
Marcados pelo perigo: um estudo etnográfico sobre os comissários
de vôo. Tese
(Doutorado) –PPGSA, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, UFRJ, Rio de Janeiro, 2003, p. 178-179.
8
(...) quando eu casei fui obrigada a pedir demissão.
Em relação ao curso a gente aprendia uma série de conhecimentos teóricos e práticos, depois a gente
ia aprender dentro do avião: como se movimentar, como fazer o serviço, como tratar com o
passageiro..., posicionamento de talheres, (...) além de conhecimentos de segurança de vôo, pra que?
Para você auxiliar o passageiro em qualquer eventualidade de acidente, de passageiro passando mal à
19
bordo, (...) .
Considerando as colocações da entrevistada, cabe lembrar que os mitos que envolvem
determinadas profissões servem como fortes atrativos na conquista de novos postulantes. No caso da
aviação, a possibilidade de um bom salário, de liberdade para viajar, parece pesar muito na hora da
opção pela carreira de aeromoça, não levando em conta que a rotina a desempenhar nos serviços de
bordo são consideradas tarefas menores pela sociedade.
Os homens que fazem parte do quadro de comissários de uma companhia aérea, pelo que até
agora se pode verificar não sofreram restrições quanto a sua entrada e, quando do ingresso das
mulheres para o desempenho das mesmas funções, que serviam às estratégias das empresas para a
conquista de novos passageiros, eles detinham os postos de chefia . Porém, há muitos pontos a
pesquisar, inclusive, aqueles a respeito da ambigüidade na carreira, que nos parece difícil de
compreender, na relação do patrimônio cultural de cada um desses indivíduos com as práticas
derivadas da profissão.
As funções da tripulação de cabine, o pessoal não técnico não fica restriita somente ao serviço
de bordo. São estes profissionais, as comissárias e os comissários, muito mais do que o estereótipo
que formou-se no imaginário popular. Antes de tudo é um agente de segurança, cuja principal função
no interior da aeronave é garantir a máxima segurança dos passageiros.
O sucesso de um pouso de emergência, a organização e comando da evacuação da aeronave
de forma segura, os primeiros socorros em caso de feridos, entre outros, fazem parte das suas
atividades. Portanto, ser comissário é muito mais que distribuir sorrisos e bandejas, uma maneira que
as empresas encontraram para distrair e confortar os passageiros.
No que trata da questão do regulamento
20
temos que: o governo brasileiro baixou a portaria de
nº 69 em 27 de abril de 1938, regulamentando a profissão no país, através do Departamento de
Aviação Civil – DAC. Com esta portaria o profissional passava a ser parte da tripulação e cumprir com
os seguintes requisitos: ter folha corrida limpa, a idade deveria ser inferior a 30 anos (idade máxima)
e apresentar laudo do exame de sanidade psico-fisiológico.
Os sindicatos da categoria e os representantes dos movimentos da igualdade de direitos tiveram
importante atuação nos anos 60 a 80, conseguindo grandes mudanças nas companhias aéreas que
mantinham as mais variadas restrições quando da contratação das aeromoças. Passa para as
companhias aéreas o compromisso de atestar a preparação da sua tripulação de cabine, pois, ao
olhar do passageiro é ela o cartão de visitas de uma empresa aérea.
19
20
Depoimento da Comissária de Bordo Luci Menezes de Azevedo à Geneci G. de Oliveira em 08 de abril de 2006, na cidade
de Gramado/RS.
http://www.aerovirtual.org/forum/index.php?showtopic=127219 - pesquisado em 20/11/09.
9
Atualmente a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que substituiu o DAC, é a responsável
pela regulamentação das atividades das escolas de aviação civil que formam profissionais do setor. O
Regulamento Brasileiro da Aviação Civil nº 141 (RBAC 141) trata da formação e capacitação de
tripulantes de voo (todas as categorias de pilotos e instrutores de voo), tripulantes de cabine
(comissários de bordo e mecânicos de voo) e despachantes operacionais de voo (profissionais que
trabalham em solo e auxiliam no planejamento do voo com o cálculo do peso de decolagem,
desempenho e navegação de grandes aeronaves).
Considerações finais
Nas sociedades as questões de gênero, quase que invariavelmente, permearam as trajetórias
humanas em relação ao desempenho de papéis masculinos ou femininos. Na sua gênese tais
determinações de “coisas de homem” ou “coisas de mulher” foram sedimentadas ao longo do tempo
através de circunstâncias históricas, sociais e culturais, as quais perpassam as relações de gênero
entre os sujeitos em cada contexto histórico e as peculiaridades próprias de cada sociedades.
A profissão de aeronauta com todas as singularidades que este trabalho exige, seja como
participante do comando ou da tripulação de cabine, no tocante à questão da necessidade de
características físicas e psicológicas diferentes para que os profissionais de cada uma das funções
sejam homens ou mulheres, não encontram respaldo que justifiquem o determinismo de carreiras
masculinas ou femininas.
Sabe-se, porém, que ciência e tecnologia foram construídas como áreas de domínio masculino.
Na aviação, da mesma forma, constituiu-se em redutos exclusivos do universo masculino. A partir de
meados da década de 1990, no caso brasileiro, a entrada das mulheres na cabine de commando e,
apesar de ser ainda quase inexpressive, revelam indícios de que começa a mudar, mostrando que
não era uma situação natural e sim uma construção social.
É bastante comum que determinadas profissões sejam cunhadas como masculinas ou femininas
de acordo com o tipo de atividade e local de trabalho. O homem que escolhe tornar-se piloto de
aeronave ou a mulher uma comissária de bordo, inserem-se no grupo de profissionais, cujas escolhas
são socialmente aceitas. Entretanto, uma mulher no comando do avião e o homem na função de
comissário, com os atributos e desempenho que ela exige, implicam na ocupação de um espaço
diferenciado na escala de organização social tida como apropriada. Associa-se a tudo isso as
imbricadas relações do saber e do poder, assim como, a valorização profissional desta ou daquela
função carregaria consigo o pressuposto de melhor remuneração e elevado reconhecimento social da
profissão.
As representações sociais das profissões vão além do modo como se percebe o profissional,
ultrapassam as diferenças individuais, tornando-se construções fundamentalmente baseadas nos
preconceitos e que geram uma visão distorcida da realidade. No caso dos comissários, o fato de
10
estarem exercendo uma função, tida como tipicamente feminina no imaginário social, sofrem o
preconceito em relação a sua masculinidade. Não raros são os depoimentos destes profissionais
dizendo-se taxados de homossexuais.
Às comissárias, as quais não invadem a esfera do masculino, por outro lado, lhes são imputadas
as mais variadas insinuações, baseadas em preconceitos de que estas mulheres, por serem
demasiadamente liberadas, estariam disponíveis para manter relacionamentos com o primeiro que
aparecer. Nas indagações realizadas com os atores que fazem parte do mundo da aviação, os pilotos
são taxativos em manifestar que suas esposas não vêem com bons olhos as comissárias.
A aviação tornou-se, portanto, com muita propriedade o espaço em que aparecem os
preconceitos e as discriminações de toda ordem. Entretanto, analisados sob a ótica da capacidade
física e intelectual, em nenhum momento, pode-se afirmar que haja papéis apropriados somente para
homens ou para mulheres. Existe sim, uma construção social que ainda insiste em determinar que a
profissão de piloto seja para homens e as funções da tribulação de cabine desempenhadas pelas
mulheres comissárias. Portanto, à luz das pesquisas sobre tais profissões, pode-se inferir que apesar
dos avanços nas conquistas das mulheres por mais espaços nos redutos masculinos, ainda é
inexpressivo o número delas na cabine de comando, porém, maciça é sua presença nos serviços de
bordo das aeronaves.
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Anac/Gerência de capacitação de recursos humanos- ano 2006
Depoimentos
Depoimento do Comandante Enio Dexheimer à Geneci G. de Oliviera em 18 de maio de 2006 na
Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUCRS.
Depoimento de Luciana concedido à Geneci G. de Oliveira quando fazia aulas no simulador da
PUCRS como parte do treinamento de co-piloto da TAM em 2006.
Depoimento da Comissária de Bordo Luci Menezes de Azevedo à Geneci G. de Oliveira em 08 de
abril de 2006, na cidade de Gramado/RS.
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Pilotos e comissários: profissão de homem e profissão de mulher?