Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 ABORDAGENS DE SAÚDE EM LIVRO DIDÁTICO DE BIOLOGIA: CONSTRUÇÃO DE FERRAMENTA ANALÍTICA Grégory Alves Dionor (UNEB-Campus X – bolsista PIBIC/FAPESB) Reynan Leal Ferreira (UNEB-Campus X – bolsista PIBIC/FAPESB) Liziane Martins (UNEB-Campus X – bolsista CAPES) RESUMO: Dentre as ferramentas que os professores dispõem para suas aulas temos o livro didático que se tornou objeto de interesse e estudo de vários pesquisadores. Assim, a análise do livro é muito importante por este ser um recurso pedagógico de grande circulação que frequentemente constitui-se no único material impresso dos professores e estudantes, através do qual a maioria dos estudantes e mesmo professores tem acesso à Educação em Saúde. Porém, apesar de muito eficaz, esse material pode apresentar certas limitações em diversas áreas, como a da Saúde. Busca-se, então, propor uma ferramenta analítica para realizar,no livro didático de Biologia, uma investigação epistemológica de sua abordagem de saúde, através da análise de conteúdo, utilizando a técnica de análise das coocorrências. Palavras-chave: Ensino de Biologia; Livros didáticos; Educação em Saúde. INTRODUÇÃO O Ensino de Ciências e Biologia têm sofrido várias modificações ao longo dos anos. Inúmeras são as propostas visando atender a estas transformações que, no geral, têm como escopo desenvolver o espírito crítico-científico, auxiliando na formação da criticidade e da cidadania dos educandos. Um dos objetos de pesquisa que vem acompanhando essas modificações e que contribui para a educação dos estudantes e desperta o interesse de inúmeros pesquisadores é a interface entre saúde e educação. A saúde no contexto educacional é tema de investigação vasta tanto no âmbito internacional, quanto no nacional. Os estudos sobre o tema variam da proposição de iniciativas de formação de professores voltadas para a educação em saúde (CATALÁN; SALA; BEGUER, 1993; GODOY; KAJIHARA, 2009), às análises das abordagens de saúde encontradas em livros didáticos de biologia (MOHR; 2000; 2011; SANTOS; MARTINS, 2011), às pesquisas sobre concepções de saúde de escolares (DAIGLE; HEBERT; HUMPHRIES, 2007). A interação entre essas duas grandes áreas do conhecimento – a Educação e a Saúde – culmina no surgimento de uma nova linha de pesquisas e interesses, a Educação em Saúde. A Educação em Saúde (ES)pode ser definida como as atividades de intenção pedagógica que possuam relação com a temática saúde tanto individual quanto coletiva (MOHR, 2002). Deve ser vista, então, como uma ferramenta para empoderar os alunos (se pensarmos no contexto escolar)de modo a terem hábitos saudáveis de vida, promovendo, 2796 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 dessa forma, a saúde não só a partir de uma mudança de comportamentos (MOHR, 2002; 2013), mas frente a uma visão mais ampla, social, coletiva e plural dessa saúde. Neste contexto, aAlfabetização Científica e Técnica (ACT) é importante, pois trata-se deuma possibilidade da população ter acesso a conhecimentos científicos e tecnológicos que auxiliem o desenvolvimento da vida diária, ajudando na resolução de alguns problemas. Por exemplo, entender porque é preciso ferver ou filtrar a água não-tratada antes de consumi-la, ou perceber a relação entre as cores dos vegetais e os nutrientes que eles possuem, ou ainda perceber a importância das vacinas (e campanhas de vacinação) para a população. Dessa forma pode-se contribuir para as necessidades básicas da saúde tanto individual quanto coletiva (FURIÓ ET AL., 2001). A ACT nos permite, também, entender a linguagem da ciência a partir da língua escrita que conhecemos (CHASSOT, 2003; TEIXEIRA, 2013).Dessa forma, podemos compreender melhor as interações entre Ciência e nossa própria vida cotidiana. A importância de tratar a ES sob uma perspectiva de alfabetização científica está, portanto, na possibilidade de que a partir dos processos de ensino e aprendizagem de temas que despertam o interesse dos alunos, como a temática Saúde, estes possam desenvolver a sua autonomia para usar o conhecimento de forma crítica e reflexiva em suas vidas (VENTURI; PEDROSO; MOHR, 2013), tendo a capacidade de relacionar as mais diversas situações do seu cotidiano com os determinantes de sua própria saúde e os vários fatores da sociedade (socioeconômicos, ambientais, culturais, entre outros).Como exemplo, citamos a aptidão de refletir sobre os impactos causados pelo uso de produtos transgênicos ou, ainda, sobre a possibilidade que a venda de lanches estragados em uma lanchonete de um bairro possa tornar-se um surto infeccioso. A partir dessas discussões, fomentadas pela preocupação com a saúde, estaganha visibilidade inclusive nos currículos e nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental – Temas Transversais(BRASIL, 1997), documentos que indicam que ela deve ser tratada como um tema transversal e em conformidade com as orientações propostas pela Organização Mundial da Saúde, centrando-se na promoção de saúde a partir de uma perspectiva mais abrangente. Enfatizamostambém que esse tema, apesar de ser tratado de forma muito significativa no Ensino Fundamental, precisa ser abordado no Ensino Médio, mesmo necessitando de adaptações, visto que este conhecimento é considerado válido e de grande importância para todos, como já explicado anteriormente (CHASSOT, 2003). 2797 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Ademais, a temática saúde é apontada nas habilidades e competências a serem desenvolvidas em Biologia, nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino MédioPCNEM(BRASIL, 2000),afirmando que os alunos devem ser capazes de relacionar aspectos fisiológicos à saúde, e a degradação ambiental com situações de agravo, bem como “julgar ações de intervenção, identificando aquelas que visam à preservação e à implementação da saúde individual, coletiva e do ambiente” (BRASIL, 2000, p.21). Além disso, nos assuntos do PCN+ Ensino Médio(BRASIL, 2002), aponta-se que é no momento da escolarização que os discentes devem compreender os fenômenos biológicos, valorizando aspectos imanentes a saúde, compreendo-a como um valor não só individual, mas também social. Para tornar isso possível, o guia sugere a associação da temática saúde com diversas atividades como: articulação de dados, análise e interpretação de textos, discussões de saúde na atualidade sob aspectos éticos e de cidadania, dentre outros (BRASIL, 2002). Vale destacarque a opção pelo nível médio de escolaridade decorre do fato de que, para a grande maioria das pessoas, ele representa a última experiência de educação formal na área das Ciências Naturais, o que implica uma última oportunidade de terem uma Educação em Saúde orientada por um ensino sistematizado. Frente a este cenário, vê-se a necessidade de se construir materiais didáticos e ferramentas que permitam não só incluir os pressupostos da saúde, mas, também, analisar que construtos estão por trás dos materiais já produzidos, por exemplo, nos Livros Didáticos (LD), por serem acessíveis e tão utilizados no ambiente escolar. A partir disso, este trabalho objetiva (i) construir uma ferramenta analítica para ser usada ao verificar se e como o tema Saúde é abordado nos diversos materiais didáticos; (ii) validar a ferramenta a partir da análise dos livros da 1ª a 3ª série do Ensino Médio de Biologia, de autoria de Martho eAmabis (2010a, b, c); (iii) averiguar se a ferramenta desenvolvida é capaz de mostrar os pressupostos teóricos e práticos relacionados às abordagens de saúde. METODOLOGIA Por essa análise do LD tratar-se de um estudo de natureza qualitativa, optamos pela análise de conteúdo (BAUER, 2002; FRANCO, 2008; BARDIN, 2011). Esta escolha vem das possibilidades que ela traz de produzir descrições dos conteúdos das mensagens veiculadas nos livros didáticos com base em procedimentos sistemáticos, metodologicamente explícitos e replicáveis (BAUER, 2002), a partir de características específicas identificadas no texto. 2798 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Entre as técnicas de análise de conteúdo, para a elaboração da ferramenta, utilizou-se, em particular, a análise das relações por coocorrências, que busca no texto as relações entre a presença (ou ausência) simultânea, na mesma unidade de contexto, de duas ou mais unidades de registro (BARDIN, 2011). Tais unidades de registro são palavras-chave ou categorias que possuem uma relação direta ao tema central, levando em consideração termos sinônimos ou com significado semelhante. Já as unidades de contexto são recortes no material a ser analisado, como uma matéria em um jornal ou uma seção em um livro didático. Para Osgood(1959), em um texto contínuo/longo, essas unidades devem ter entre 120 e 210 palavras, tamanho tido como suficiente para que uma ideia seja expressa de modo estruturado, mesmo que não esteja tão completa e/ou aprofundada. Abaixo segue a ferramenta analítica construída com as unidades de registro categóricas,estruturadas sob tais pressupostos metodológicos.Vale destacar que as mesmas foram definidas após estudo da literatura referente à temática, associada com a investigação prévia em livros didáticos de Biologia. Dessa forma, elas não se referem somente aos indicadores descritos em artigos especializados, bem como não foram escolhidas de forma parcial a partir da análise flutuante, passo necessário em estudos de análise de conteúdo (MARTINS; CASTRO, 2009). 2799 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Quadro 1: Aspectos enfocados ao abordar saúde: pressupostos teóricos Aspecto secundário Aspecto principal Ausência / presença de doença Aspectos físicos/ químicos/ orgânicos/ biológicos Aspectos mentais/ psicológicos/ emocionais Qualidade de vida / Estilos de vida Aspectos históricos Aspectos sociais/coletivos (economia, política, trabalho, etc) Aspectos tecnológicos Aspectos culturais Aspectos ecológicos Ausência / presença de doença Aspectos físicos/químicos/ orgânicos/biológicos Aspectos mentais/ psicológicos/ emocionais Qualidade de vida / Estilos de vida Aspectos históricos Aspectos sociais/coletivos (economia, política, trabalho, etc) Aspectos tecnológicos Aspectos culturais Aspectos ecológicos Biomédico Socioecológico 2800 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 Quadro 2: Aspectos enfocados ao abordar saúde: pressupostos práticos Aspecto secundário Aspecto principal Restauração / manutenção da saúde Tecnologias em saúde Internação hospitalar Consulta aprofissionais de saúde Alimentação/ nutrição adequada Atividade física Lazer Qualidade de vida / Mudança de estilo de vida Ações sociopolíticas (ONGs/associ ações) Políticas públicas (governo) Restauração/ manutenção da saúde Tecnologias em saúde Internação hospitalar Consulta a profissionais de saúde Alimentação/nutrição adequada Atividade física Lazer Qualidade de vida/ Mudança de estilo de vida Ações sociopolíticas (ONGs/associações) Políticas públicas (governo) Biomédico Socioecológico 2801 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 2802 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 CODIFICAÇÃO DA FERRAMENTA ANALÍTICA Visto que a análise das coocorrências se dá a partir da relação entre dois ou mais termos, temos nos quadros da ferramenta os Aspectos Principais (linhas) e os Aspectos Secundários (colunas), os quais devem ser confrontados nas unidades de contexto a serem analisadas. Tais aspectos podem possuir caráter principal ou secundário a depender do que está sendo abordado no recorte de estudo.O Quadro 1 foi construído a partir de pressupostos teóricos relacionados às abordagens de saúde. Por outro lado, o Quadro 2 relaciona-seaos pressupostos práticos, às ações em saúde sugeridas nos textos dos livros. Temos no Quadro 1 as seguintes categorias: • Ausência/presença de doença: diz respeito somente a visão de saúde como a ausência de doença no organismo, conforme defendida na teoria boorseana (BOORSE, 1975, 1977). • Aspectos físicos/químicos/orgânicos/biológicos: fatores relacionados à anatomia, fisiologia e opapel da genética no ser humanocomo os responsáveis pelo bom funcionamento do corpo (ÓGATA; PEDRINO, 2004; DIAS ET AL., 2007). • Aspectos mentais/psicológicos/emocionais:considera aspectos da mente, emoção, afetividade, bem como suas influências no convívio social como fatores relacionados ao processo de saúde e doença. Por exemplo, os estudos sobredepressão que mostram-na como uma patologia psicológica, determinada a partir de fatores psicossociais que podem (ou não) estar relacionados à sociedade. • Qualidade de vida/Estilos de vida: a qualidade de vida não deve ser entendida apenas como uma vida livre de enfermidades, mas como uma trajetória na qual a ausência de doença seja um fator agregado às características biológicas e psicossociais do indivíduo na busca pela garantia de um bem estar, abordando certos determinantes da saúde de forma mais abrangente (BUSS, 2000; GIMENES, 2013). • Aspectos históricos: diz respeitos às relações históricas no processo de construção dos conhecimentos ligados ao campo da saúde. • Aspectos sociais/coletivos (economia, política, trabalho, etc.):consideram omodo de vida e as relações socioeconômicas como as condições de alimentação, educação, lazer, moradia como fatores associados à saúde, interligando-os com temas como economia, política, trabalho, entre outros. 2803 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 • Aspectos tecnológicos: refere-se aos componentes tecnológicos vinculados aos fatores de saúde como tratamentos, medicamentos, exames, testes, equipamentos e outros. • Aspectos culturais:fatores relacionados aos hábitosdas pessoas, bem como sua educação, crenças, atividades etc. Temos como exemplo o uso de bebidas alcoólicas como forma de confraternizações ou a não ingestão de certo grupo alimentar por causa das crenças religiosas. • Aspectos ecológicos:é quando as discussõessobre o meio ambientesão relacionadasà situação de agravos de doenças infectocontagiosas, assim como ao bem estar de comunidades diretamente ligadas ao trato com a natureza. No Quadro 2 temos as categorias: • Restauração/manutenção da saúde: trata a temática saúde apenas como o reestabelecimento do equilíbrio das funções biológicas. • Tecnologias em saúde: diz respeito desde a elaboração de equipamentos médicos mais sofisticados até a produção de novas drogas medicamentosas, mais eficazes, como aspectos essenciais ao processo de saúde. • Internação hospitalar:quando a saúde e o seu reestabelecimento dependem de cuidados de profissionais de saúde intensos, obtidos com a hospitalização. • Consulta a profissionais de saúde:a saúde nesse quesito é considerada como consequência do auxílio aos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, terapeutas e outros). • Alimentação/nutrição adequada:como requisito para assegurar a saúde, é necessário que o indivíduo possua uma alimentação adequada com todos os componentes básicos (carboidratos, proteínas, lipídios etc.), assim como uma nutrição balanceada. • Atividade física: a prática de atividades físicas, como exercícios, esportes, entre outros, é vista como necessária para evitar o sedentarismo, melhorando a qualidade de vida e, consequentemente, a saúde. • Lazer: o lazer é tido como prática agregadora ao bemestar do indivíduo e também àqueles que com ele interage. • Qualidade de vida/Mudança de estilo de vida: asaúde não deve ser lembrada apenas nos momentos de enfermidade, mas sim, precisa estar diretamente ligada ao cotidiano da pessoa, aos seus hábitos, costumes e suas práticas diárias.Dessa forma, 2804 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 necessita haver uma mudança na forma como as pessoas entendem e vivenciam sua própria saúde.Podemos citar o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, a falta da prática de atividades físicas e a alimentação não balanceada; atitudes que precisam ser revistas ao se repensar o modo como vivemos. • Ações sociopolíticas (ONGs/associações): são as ações e atividades desenvolvidas por Organizações Não-Governamentais e associações (de moradores, de determinados profissionais, etc.) para melhorar as condições de saúde desses grupos. Podem ser desde campanhas de incentivo à ginástica laboral até mesmo a uma maratona promovida entre funcionários. • Políticas públicas (governo): são consideradas as ações mais amplas por serem implantadas a partir de políticas públicas oriundas de interferências governamentais e visam atingir um grande contingente populacional, como uma campanha de vacinação, por um surto de determinada doença, por exemplo, ou ainda a distribuição de camisinhas em postos de saúde para evitar Doenças Sexualmente Transmissíveis ou casos de gravidez indesejada. Desse modo, ao analisar as unidades de registro selecionadas aquele que estiver realizando a investigação dos pressupostos teóricos ou práticos na unidade de contexto poderá, a partir da cor encontrada no quadro, verificar na escala indicada abaixo dos quadros, se aquele conteúdo apresenta uma tendência mais restritiva, ligada a abordagem biomédica de saúde, ou mais abrangente, como a indicada pela abordagem socioecológica. Esta ferramenta analítica foi validada a partir da análise das abordagens de saúde presentes na coleção de livros didáticos de 1ª a 3ª série do Ensino Médio de Biologia, de autoria de Martho eAmabis (2010a, b, c). Foi analisada esta coleção, visto que seus três livros foram submetidos ao Programa Nacional do Livro para o Ensino Médio PNLEM, no ano de 2010, e categorizados como indicados, em 2012, para serem utilizados até 2014,além de terem sido os mais solicitados pelas escolas públicas brasileiras nesse período (BRASIL, 2014). A validação se deu pela categorização das unidades de registro encontradas nos textos principais, textos complementares, atividades e imagens (unidades de contexto) a partir dos indicadores dos quadros da ferramenta. Cabe destacar que, a fim de aumentar a validade interna do estudo, análises independentes do livrodidático foram feitas por 2805 SBEnBio - Associação Brasileira de Ensino de Biologia Revista da SBEnBio - Número 7 - Outubro de 2014 V Enebio e II Erebio Regional 1 dois pesquisadores que tinham familiaridade com osreferenciais teórico-metodológicos da pesquisa (LECOMPTE; GOETZ, 1982). CONCLUSÃO A partir das análises iniciais é possível verificar que os conteúdos ligados à saúde geralmente são citados brevemente no texto principal ou restrito aos textos complementares;com uma predominância da abordagem biomédica nos conteúdos de saúde, assim como nas suas atividades, visto que a maior parte das unidades de registro foram categorizadas nas linhas e colunas relacionadas à Ausência/presença de doença e aos Aspectos físicos/químicos/orgânicos/biológicos.Uma abordagem mais abrangente, conhecida por socioecológica, advinda de avanços na visão proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é encontrada principalmente nas imagens. Frente ao cenário encontrado, vê-se a necessidade de que o conteúdo de saúde seja trabalhado de forma interdisciplinar nos espaços escolares. Dessa maneira, o tema não será limitado a uma visão biologicista, restritiva e reducionista. Além disso, precisamos ter atenção aos livros didáticos utilizados, visto que são os materiais mais acessíveis aos alunos. Ademais, é necessário que se faça uso de materiais auxiliares, como jogos educativos e vídeos voltados para a temática, diante das limitações encontradas nos livros. Diante desses dados, pôde-se demonstrar que essa ferramenta analítica é capaz de indicar qual abordagem de saúde é predominante nos pressupostos de saúde, teóricos e práticos, de materiais como os livros didáticos. REFERÊNCIAS BARDIN, L.. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011. BAUER, M. W.. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, M. W.; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. BOORSE, C. On the distinction between disease and illness.Philosophy and Public Affairs, v. 5, n. 1, p. 49-68, 1975. _______. 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