UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO
CELINA BATISTA DE OLIVEIRA SILVA
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE
CIANORTE
2011
CELINA BATISTA DE OLIVEIRA SILVA
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE
Trabalho de conclusão de curso
apresentado à Universidade Estadual de
Maringá, Campus Regional de Cianorte,
como um dos requisitos para a obtenção
do título de Pedagogia
Orientadora: Drª. Sheila Maria Rosin
CIANORTE
2011
CELINA BATISTA DE OLIVEIRA SILVA
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE
Trabalho de conclusão de curso
apresentado à Universidade Estadual de
Maringá, Campus Regional de Cianorte,
como um dos requisitos para a obtenção
do título de Pedagogia
BANCA EXAMINADORA
_________________________
Prof. Dr.ª Sheila Maria Rosin
(Orientadora)
________________________________________
Profª. Ms. Gizeli Aparecida Ribeiro de Alencar
(Universidade Estadual de Maringá)
_____________________________
Profª. Ms. Janira Siqueira Camargo
(Universidade Estadual de Maringá)
CIANORTE
2011
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus pela minha vida e por ter me dado forças para realizar este
trabalho de pesquisa, o qual foi muito importante para mim.
À minha família que me apoiou nos momentos difíceis para eu continuar
nesta caminhada, principalmente a minha neta Tamires Vitória da Silva Marques.
Em especial agradeço à minha orientadora Sheila Maria Rosin que muito
auxiliou na realização deste meu trabalho.
Meus agradecimentos aos meus colegas de turma, que durante quatro anos
convivemos juntos, com os quais aprendi muito pela troca de experiências, foi muito
válido o vínculo de amizade estabelecido pela turma.
À Universidade Estadual de Maringá pelo apoio institucional e oportunidade
que me foi dada.
E a todos que contribuíram de forma direta ou indireta para a conclusão
deste trabalho.
O PAPEL DA ESCOLA NO DESENVOLVIMENTO DA SEXUALIDADE
Celina Batista de Oliveira da Silva1
Profª Drª Sheila Maria Rosin2
Resumo: Muitos são os teóricos que na contemporaneidade têm como objeto de
estudo a sexualidade infantil, mas, a despeito dos resultados destas pesquisas que
apontam a sexualidade como uma manifestação humanizada e aprendida, que sofre
influências de diversos fatores, entre eles: culturais, históricos, econômicos e sociais,
pais e educadores se comportam como se a criança não tivesse sexualidade ou
dando pouca importância para o papel da mesma no desenvolvimento infantil. Além
disso, essa temática é pouco discutida e/ou estudada na escola, que, como uma
instituição educativa, deveria exercer seu papel de incentivadora e promotora do
saber, sendo o lugar mais propício para o desenvolvimento integral da criança.
Nesse sentido, por acreditarmos ser papel da escola oferecer um trabalho efetivo no
tocante à educação sexual, visando assim à promoção da saúde e do bem estar dos
alunos, é que objetivamos, neste artigo, discutir a Educação Sexual Infantil nas
séries iniciais do Ensino Fundamental, a fim de verificar como a ação pedagógica da
escola poderia se desenvolver frente às questões referentes à orientação sexual dos
alunos. Trata-se de uma investigação de cunho bibliográfico, tendo como
pressuposto que a educação, como prática social, necessita refletir os aspectos
educacionais, reconhecendo e respondendo às dificuldades de seus alunos.
Ressaltamos que a educação como um processo de socialização não pode ser
analisada por ela mesma, havendo a necessidade de reflexão do contexto social,
histórico e econômico que a gera em cada momento da história.
Palavras- chaves: Educação Sexual Infantil, sexualidade infantil, escola.
1 INTROUDUÇÃO
Este trabalho tem por objetivo discutir a Educação Sexual Infantil nas séries
iniciais do Ensino Fundamental, a fim de verificar como a ação pedagógica da escola
pode desenvolver frente às questões referentes à orientação sexual dos alunos.
O sexo e a sexualidade sempre foram temas tabus e geradores de
repressão, culpa e vergonha em toda a sociedade. Mesmo com este tema sendo
abordado e estudando com maior ênfase nestes últimos 100 anos por diversos
teóricos, o espaço escolar ainda está longe de exercer sua função de promover a
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2
Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Maringá – Paraná (2008 -2011).
Orientadora. Professora do Departamento de Teoria e Prática da Universidade Estadual de Maringá.
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construção do conhecimento necessário à formação integral do indivíduo, que,
naturalmente, já nasce possuindo sua sexualidade.
Além dos estudos internacionais que evidenciam a importância da ação
docente na formação da sexualidade infantil, também há os Parâmetros Curriculares
Nacionais (BRASIL, 1997) que oficializam o direito e a necessidade de abordar a
sexualidade infantil, além de ofertar um direcionamento à prática pedagógica.
Entretanto a realidade da orientação sexual na escola, principalmente na Educação
Infantil, é, muitas vezes, ignorada tanto por professores quanto pela instituição
escolar.
Assim, este trabalho objetiva abordar os fatores que impedem a realização
de um trabalho em sala de aula que satisfaça todas as necessidades dos educandos
diante de inúmeras questões relativas ao desenvolvimento do próprio corpo.
Por fim, também buscamos estabelecer quais as melhores iniciativas para
alcançarmos a concretização da plena ação educativa que consiga dar conta das
demandas dos discentes, quando o assunto é compreender o que é, além de como
ocorre seu desenvolvimento corporal e emocional.
2 A SEXUALIDADE ATRAVÉS DOS TEMPOS
A infância, com seu significado que caracteriza criança como criança, é
reconhecida há poucos séculos - a tomar a existência da humanidade. Em NUNES;
SILVA (2000, p.9) é relatado que “notadamente não somos tributários de uma
cultura que valorize a criança em suas expressões e propriedades”.
Mesmo sendo recente, o período denominado de infância tem sido um dos
campos de investigação e estudos mais exigentes, contando “[...] com a contribuição
de várias ciências como a Medicina, a Psicologia, Sociologia, Antropologia e
Filosofia (BRAGA, 2009, p. 78).
Desde o século XVII, está sendo construída uma nova realidade para a
criança, o universo infantil passa a ser poupado de viver o mundo do trabalho e do
sexo dos adultos.
De acordo com Silva (2009), a sociedade moderna passou a compreender a
prática do sexo como uma atividade pecaminosa e não merecedora da aceitação
divina e social, surgindo assim, um novo tipo de educação, pautada num padrão
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repressor de comportamento, com a intenção de manter a criança afastada das
curiosidades e conhecimentos sobre sua sexualidade e o ato sexual.
Segundo Braga (2009) é como se a sexualidade humana, especialmente a
infantil, não fizesse parte da realidade atual “A sexualidade infantil ainda é encarada
nos dias de hoje como se não existisse, ou como se fosse um aspecto de pouca
importância para o desenvolvimento integral da criança”.
Desta forma, podemos concluir que, a sexualidade infantil, como
conhecemos hoje, nasceu no século XVII e foi marcada por uma educação repleta
de relações repressoras, preconceituosas, que sobreviveram até os dias atuais,
podendo ser percebidas nas ações que a família, a escola como instituição, além da
sociedade direcionam para a criança.
3 A FAMÍLIA E A ESCOLA DIANTE DA SEXUALIDADE INFANTIL
Em nossos estudos compreendemos que a sexualidade infantil é vista de
forma fragmentada, como algo não inerente à infância. As formulações conceituais
sobre a sexualidade na infância, atualmente, ainda não são conhecidas ou aceitas
nem pela família e nem pela escola.
A concepção sobre a sexualidade infantil que quase todos os adultos,
envolvidos na educação da criança, expressam em seus discursos e em suas
atitudes faz parte de uma formação social e educacional marcada pela repressão,
autoritarismo e incompreensão, que provavelmente tenham recebido na infância, o
que gera experiências de caráter traumático, repressor e negativo. Para Braga
(2009, p.81), os tabus e os bloqueios, muitas vezes apresentados pelo adulto, são
fruto das “[...] dificuldades que teve em receber a sua própria educação sexual”.
Este padrão de comportamento repressor é semelhante ao observado na
família no que tange ao universo da sexualidade infantil e também pode ser
percebido na escola. Segundo Braga (2007, p. 212), a escola entende,
(...) como uma normalidade à negação da explicação, ou melhor, da
expressão sexual da criança, reprimindo toda e qualquer
manifestação sexual desta, que cotidianamente se expressa dentro
do ambiente escolar, mas, continuam escamoteadas, penalizadas ou
negadas pelos /as profissionais que ali atuam.
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A escola, ao reprimir ou castigar as manifestações da sexualidade do aluno,
faz com que os mesmos percebam que no ambiente escolar, expor a sua
manifestação sexual, tanto em forma de perguntas como de toques corporais, é
proibido (BRAGA, 2009). Tal situação repressora demonstra que a escola não está
devidamente preparada para lidar com essa realidade.
Contudo, pais e educadores não devem se esquecer que a criança, inserida
na sociedade tecnológica, vivencia uma overdose de informações e esse frequente
bombardeio é observado em grande parte dos livros, revistas, jornais, programas de
TV, atrativos da internet, nas músicas, propagandas que exercem um poder muito
grande de formação de opinião e são decisivos na construção da identidade da
criança ou do adolescente.
Assim, tomando em análise a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Brasileira - a LDB 9.394/96, (BRASIL, 1996) que dispõe em seus primeiros artigos
sobre a educação, a preocupação com o exercício da cidadania e o pleno
desenvolvimento do educando, na LDB nº 5692/1971 ( BRASIL, 1971) já era
destacada a questão de uma educação de qualidade, que proporcionasse a
formação necessária para o desenvolvimento das potencialidades como elemento
de auto-realização e o preparo para o exercício consciente da cidadania, aspecto
também abordado nos Parâmetros Curriculares Nacionais – Orientação Sexual
(BRASIL, 1997).
Ao analisarmos a LDB, ou mesmo os Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCN) percebemos que ambos destacam a preocupação com o objetivo principal da
educação comprometida com a construção da cidadania. Logo, não se alcança a
cidadania de um país com escolas que somente trabalhem conteúdos tradicionais,
pois o saber sobre a sexualidade contribui na constituição do sujeito enquanto ser
social, sendo fundamental no desenvolvimento de sua identidade, logo esse saber
e/ou conteúdo é parte integrante na formação do educando em todos os níveis de
aprendizagem.
4 A ORIENTAÇÃO SEXUAL SEGUNDO OS PARÂMETROS CURRICULARES
NACIONAIS (PCN)
O Ministério da Educação e Cultura (MEC) coordenou, no ano de 1995, a
elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais conhecido como PCN. Os
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parâmetros são apresentados no ano de 1997 às escolas (para as séries iniciais, 5ª
e 8ª séries e Ensino Médio), não como currículo, e sim como subsídio para apoiar o
projeto da escola na elaboração do seu programa curricular. A grande novidade
apresentada pelos PCN foram os Temas Transversais, que incluíram a Orientação
Sexual como tema a ser trabalhado no espaço escolar (BRASIL, 1997).
A Orientação Sexual está baseada nos princípios constitucionais que
orientam o processo de ensino e aprendizagem: a dignidade da pessoa humana, a
igualdade de participação ativa para a cidadania e a co–responsabilidade pela vida
social, permeando as diversas disciplinas. Portanto a criação dos Parâmetros
Curriculares Nacionais – Orientação Sexual – significou a inserção da temática
sexualidade no âmbito educacional.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), marcos teóricos e
pontuais fundamentos referenciais subsidiários à nova organização
curricular da Educação Básica no Brasil, produzidos a partir da
promulgação da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional, 20/12/1996) definiram a Orientação Sexual como um dos
temas transversais que devem perpassar toda a concepção e
estruturação do ensino fundamental e médio em nosso país (SILVA;
NUNES, 2000, p. 1).
De acordo com os PCN (1997), se intensificaram a partir da década de 70 do
século XX, as discussões sobre a inclusão da temática sexualidade no currículo
escolar. Porém, merece destaque o fato de que há registros de discussões e
trabalhos sobre sexualidade em escolas desde a década de 1920. E mesmo com
décadas de estudos, os conceitos sobre sexualidade infantil ainda não são
conhecidos ou aceitos atualmente por parte dos profissionais que se ocupam de
crianças, inclusive educadores (BRASIL, 1997, p. 81).
A dificuldade docente em trabalhar com a sexualidade também tem suas
raízes culturais. Segundo Reis e Ribeiro (2005), a nossa cultura sexual é marcada
por uma concepção de sexualidade limitada, normatizada, geradora de culpa,
angústia e ansiedade, ou seja, ela é uma herança judaica- cristã, trazida pelos
portugueses no período colonial, relegada a nossa cultura. “É com toda esta história
de preconceitos e de repressão sexual que muitos projetos de orientação sexual são
elaborados e realizados nas escolas”.
Os pais, ao sentirem dificuldade em falar abertamente sobre sexo com seus
filhos em casa apóiam e reivindicam a orientação sexual nas escolas. Desta forma, a
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escola, que ao longo da história se consagrou como instituição especializada em
ensinar, poderá se tornar parceira da família, prestando informações mais completas
e esclarecendo as dúvidas que a criança possa apresentar. Desta forma, o trabalho
com Orientação Sexual, segundo os PCN (BRASIL, 1997), compreende a ação da
escola em complementar a educação dada pela família e não substituí-la.
Diante disso, ressaltamos que a Orientação Sexual a ser implantada na
escola deve estar pautada num trabalho sistemático e sistematizado, visando à
promoção da saúde das crianças e dos adolescentes, como também ações
preventivas de doenças transmissíveis como o HIV (AIDS), a prevenção ao abuso
sexual e à gravidez indesejada: “[...] a implantação de Orientação Sexual nas
escolas contribui para o bem-estar das crianças e dos jovens na vivencia de sua
sexualidade atual e futura (BRASIL, 1997, p.79).
No PCN é enfatizado que “as curiosidades das crianças a respeito da
sexualidade são questões significativas” - a satisfação dessas curiosidades contribui
para que o desejo de saber seja impulsionado ao longo de toda vida, enquanto o
não esclarecimento acaba gerando ansiedade e tensão. Portanto, o foco da
discussão é o de preencher lacunas nas informações que a criança já possui,
principalmente, a possibilidade de formarem opinião a respeito do que lhe é ou foi
apresentado (BRASIL, 1997, p.83).
A criança é julgada pelo mundo adulto, desde muito cedo, os adultos reagem
aos primeiros movimentos exploratórios em que a criança realiza com o próprio
corpo, e de acordo com os PCN (BRASIL, 1997, p.89) “Essas manifestações
também acontecem no âmbito escolar e é necessário que a escola, como instituição
educacional, se posicione clara e conscientemente sobre referências e limites com
os quais irá trabalhar as expressões de sexualidade dos alunos”.
Segundo os PCN (BRASIL, 1997), a escola pode propiciar informações
atualizadas do ponto de vista científico e explicitar uma gama de valores associados
à sexualidade e aos comportamentos sexuais existentes em nossa sociedade,
propiciando ao aluno o desenvolvimento de atitudes coerentes com valores que ele
próprio elencou como seus.
A escola tem a possibilidade de ofertar um espaço no qual as crianças
possam esclarecer suas dúvidas e continuar formulando novas questões, o que
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contribuirá para o alívio de suas ansiedades que muitas vezes acabam interferindo
no processo ensino/aprendizagem (BRASIL, 1997, p.78).
A escola, querendo ou não, depara com situações nas quais sempre
intervém. Seja no cotidiano da sala de aula, quando proíbe ou
permite certas manifestações e não outras, seja quando opta por
informar os pais sobre manifestações de seu filho, a escola está
sempre transmitindo certos valores, mais ou menos rígidos, a
depender dos profissionais envolvidos naquele momento.
O trabalho de Orientação Sexual a ser realizado pela escola deve ser
compreendido como problematizar, levantar questionamentos, para assim ampliar o
leque de conhecimentos e de opções para que seus alunos possam, por si só,
escolher seu caminho (BRASIL, 1997).
Nesse discurso, é relevante ressaltar que os professores desempenham um
papel importante para informar seus alunos sobre questões relacionadas à
sexualidade. Vale lembrar que o incentivo escolar e o apoio para compreender
discussões sobre a temática em sala de aula que envolve o respeito às diferentes
formas de pensar, o cuidado na avaliação de uma afirmação, a autoconfiança para a
defesa de um ponto de vista e o respeito ao próximo é significante para a formação
do aluno.
O professor, assim como o aluno, possui expressão própria de sua
sexualidade que se traduz em valores, crenças, opiniões e
sentimentos particulares. Não se pode exigir do professor uma
isenção absoluta no tratamento das questões ligadas à sexualidade,
mas a consciência sobre quais são os valores, crenças, opiniões e
sentimentos que cultivam em relação à sexualidade é um elemento
importante para que desenvolva uma postura ética na sua atuação
junto dos alunos (BRASIL, 1997, p. 84).
Entretanto, na realidade, essa posição do docente não se confirma assim,
visto que a grande maioria dos professores demonstra dificuldades em lidar com
toda a complexidade que a sexualidade infantil representa atualmente. As reações
dos profissionais da educação em relação às manifestações da sexualidade de seus
alunos se resumem em respostas que reprimem, ignora ou ainda acaba por ocultar
tal situação.
Portanto, concluímos, a partir da leitura do PCN, que a educação sexual não
surge na escola por meio do documento, mas já vinha sendo discutida há algum
12
tempo. O debate sobre sexualidade ganha força nos anos de 1960 com os
movimentos feministas. Entretanto, atualmente, mesmo a escola sabendo da
existência de um documento que a ampara, parece tapar os olhos, ignorando as
manifestações da sexualidade infantil, se esquecendo que, afinal, a sexualidade já
nasce com a criança. O discurso de proibições e punições deve dar lugar para o
debate, o esclarecimento, a formação consciente do sujeito. Porém, o que devemos
lembrar é que se educar é um desafio, educar sexualmente é um desafio maior
ainda e exige do educador, antes de tudo, mudança de atitude (BRAGA, 2009).
5 ORIENTAÇÃO SEXUAL NA ESCOLA
Nos últimos anos, é perceptível a importância da inclusão da temática da
sexualidade nos currículos escolares, devido ao aumento dos casos de gravidez
indesejada entre adolescentes e a problemática da contaminação pelo vírus HIVAids que invade o contexto escolar.
O estudo de Reis e Ribeiro (2005, p.36), concorda com as determinações
dos Parâmetros Curriculares Nacionais, visto que estes autores destacam que a
Orientação Sexual na escola se caracteriza por um trabalho sistematizado,
organizado e que tem por objetivo, “[...] informar, debater e refletir sobre questões da
sexualidade com os indivíduos, levando-os a conhecer seu próprio corpo, entender
sentimentos, medos e angústias, a ser sujeitos de sua própria sexualidade”.
Diante desta situação, a Orientação Sexual como tema transversal na escola
representa um grande desafio, principalmente para nós, professores, uma vez que o
assunto é permeado por tabus e preconceitos, além de ser regido por valores
culturais e de ordem pessoal que dificultam a naturalidade da conversa, tanto pela
negação da sexualidade como por métodos educativos conservadores que induzem
à vergonha, à culpa e à ignorância.
De acordo com Braga (2010), a escola apresenta inúmeras dificuldades em
trabalhar com essa temática, em todos os sentidos. “A escola, que tem por função
social a transmissão da aprendizagem formal, cientifica e organizada historicamente,
ainda apresenta inúmeras dificuldades em trabalhar a temática da sexualidade, em
todos os aspectos”.
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É claro que o trabalho sobre Orientação Sexual é tarefa complexa, envolve
dificuldades e requer planejamento e preparo do educador, que não pode se
esquivar, reprimir ou punir seus alunos por um questionamento que o coloque em
situação, talvez, de afrontamento, de provocação. Cabe ao professor estar aberto
para entender que um desafio feito por um aluno esteja ligado a uma questão de
dúvida, de medo ou angústia etc.
Em Britzman (2001, p.87), vimos que é difícil falar sobre sexo na escola,
pois, às vezes, encontramos dificuldades em encontrar palavras adequadas para
expressar o que realmente estamos querendo dizer. “Mesmo quando tentamos falar
sobre sexo, existe uma estranha contradição entre a própria ambiguidade da
linguagem e a insistência dominante na estabilidade do significado de práticas
sexuais”.
Diante desta situação de dificuldade, Braga (2009, p.82) afirma que os
educadores necessitam receber informações acerca do desenvolvimento infantil e
da sexualidade, tomando conhecimento das “[...] explicações teóricas sobre como as
crianças elaboram sua sexualidade e a forma de transmissão ao estágio de
maturação afetiva e cognitiva de cada criança”.
A mesma autora afirma que a Orientação Sexual na escola deve estar
pautada num espaço que oportunize a discussão de idéias, de reflexão sobre a
educação sexual, assegurando o conhecimento das informações que não foram
obtidas em casa, erradicando preconceitos e possibilitando espaços para a
discussão de emoções e valores. Braga (2009, p.80) ainda afirma, “[...] a escola
deve oferecer um trabalho sistemático e sistematizado referente à educação sexual,
visando à promoção da saúde dos alunos envolvidos, principalmente para o seu
bem estar e a vivência de sua sexualidade atual e futura”.
E, no contexto escolar, a Orientação Sexual apóia-se na ideia de que a
escola deve ter uma visão integrada das experiências vividas por seus educandos,
buscando desenvolver o prazer do conhecimento e desempenhar um papel
importante ao discutir assuntos que estão ligados à vida, à saúde, ao prazer e ao
bem estar que integra as diversas dimensões do ser humano envolvidas nesse
aspecto, pois “[...] a escola querendo ou não interfere na construção da sexualidade
de cada aluno (BRAGA, 2009, p. 82).
Assim, a proposta ou projeto de Orientação Sexual na escola, de acordo
com os autores pesquisados, deveriam visar diversos aspectos, tais como a:
14
[...] reflexão sobre educação sexual atualmente existente,
considerando cada pessoa em sua singularidade e inserção cultural;
fornecimento de informações e organização de espaços para
reflexões e questionamentos sobre sexualidade; esclarecimento
sobre mecanismos sociais de repressão sexual aos quais estamos
condicionados; ajuda as pessoas, para que possam obter uma visão
mais positiva da sexualidade; ênfase no aspecto social e cultural, a
partir do coletivo, sem perder de vista o indivíduo, mas não tendo
caráter de aconselhamento psicoterápico individual isolado de um
contesto histórico. (BRAGA, 2010, p.212).
A partir dos aspectos a serem considerados no trabalho com a orientação
sexual na escola, o professor será o mediador nesse processo, contando com o
apoio da escola, mudando a visão repressiva e punitiva que herdamos através dos
tempos, pois para colaborar para a efetivação dos princípios constitucionais que
orientam o processo de ensino e aprendizagem como destaca os PCN (BRASIL,
1997), devemos nos ater a esses aspectos.
Já para Britzman (2001), a abordagem sobre a sexualidade em sala de aula
instiga o desenvolvimento do exercício da curiosidade. Diante de tal afirmação,
compreende-se que os momentos propiciados para socialização da temática se
caracterizam como uma grande oportunidade para ambas as partes – professor e
aluno – esclarecem juntos dúvidas, questionamentos, até mesmo aliviar as
ansiedades que às vezes se fazem presentes também para o educador.
Vale lembrar que o perfil de trabalho do orientador sexual segundo Reis e
Ribeiro (2005), requer alguns pré-requisitos que sejam refletidos em sua atuação.
Primeiramente deve acreditar em sua proposta, na necessidade de levar o debate
sobre sexo e sexualidade para a sala de aula, além de ser coerente com a sua
proposta, não deve tentar passar modelos, mas sim analisar com seus alunos as
diferentes situações e visões sobre a temática. “O orientador sexual deve estar bem
preparado e protegido de desequilíbrios pessoais que possam inibi-lo ou fazer com
que tenha uma postura moralista e tendenciosa” (REIS; RIBEIRO, 2005, p. 40).
Vale destacar neste ponto, que orientar sexualmente não significa informar,
mas sim representa uma atividade de ensino, de instrução que exige um mecanismo
mais elaborado, ou seja, um trabalho integrado de diversos professores, no qual
questões ligadas à sexualidade devem ser abordadas transversalmente em todos os
ciclos de escolarização, e não como conteúdo específico de uma única disciplina.
“Todo esse trabalho implica uma visão de conjunto e um quadro de referências
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alimentado pelo diálogo, por princípios de justiças, equidade e valores democráticos”
(BRAGA, 2009).
Nesse sentido, a Orientação Sexual escolar não acontece por alguns
motivos. Primeiro os profissionais reclamam por não terem uma formação para lidar
com questões tão frágeis (havendo assim, a necessidade de capacitação de
professores em diferentes temas da educação, inclusive o da sexualidade). E apesar
dos pais, como é citado nos PCN, desejarem que a escola trabalhe essa temática,
devido às dificuldades que também apresentam em dialogar com seus filhos, os
temas transversais precisam ser abordados no currículo escolar, principalmente a
sexualidade, que até o presente momento parece não ter saído do papel.
Não podemos esquecer que, deixar as questões significativas passarem
despercebidas, ou ainda sem respostas, por vergonha, por omissão, estaríamos
nós, educadores, fugindo da função social da escola, da educação como formação
do sujeito para exercer a sua cidadania e sua emancipação. “A escola pode deixar
de ser um espaço de opressão e repressão na questão da sexualidade, para se
tornar um ambiente efetivamente seguro, livre e educativo para todas as pessoas”
(BRAGA, 2010, p. 214).
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do estudo realizado, compreendemos a complexidade que envolve a
formação do educador na área de orientação sexual, acreditamos, assim, em uma
proposta de trabalho com sexualidade, na qual a prática educacional seja
intencional, organizada, planejada, e que a aquisição de conhecimentos sobre a
sexualidade seja tomada em nossas discussões sem receio, rompendo com os
preconceitos, contribuindo para que haja confiança, e o mais importante um
desenvolvimento saudável, sem mitos e traumas para que o aluno aprenda como
lidar com as questões relacionadas à sexualidade durante sua vida.
Vale lembrar que preconceitos e tabus ainda são elementos negativos
comuns a grande parte dos educadores, geralmente frutos de uma formação
familiar, e até mesmo acadêmica pautada em padrões moralistas e repressores.
Portanto, a escola e seus educadores precisam se posicionar, contribuindo
para uma educação de qualidade ou permanecerá fazendo jus a uma pedagogia
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disciplinadora de corpos e comportamentos, repressiva que toma a sexualidade
como um problema a ser resolvido, sem solução, sem respostas, sem atenção, sem
diálogos, sem compreensão, sem discutir as verdades e os valores acerca da
sexualidade, permanecendo em nossos alunos: as dúvidas, as atitudes, os gestos,
as cenas, as incertezas, suas inseguranças permeada pelo medo, pela angústia.
Não podemos esquecer que a omissão da instituição escolar em trabalhar
com a sexualidade compromete a missão escolar, de ser o espaço para o debate e
construção de todos os conhecimentos necessários para a plena formação do
indivíduo, visto que a sexualidade é um fator natural do ser humano, sendo
essencial sua compreensão desde as primeiras manifestações.
Podemos concluir que nossos estudantes, geralmente, não estão tendo uma
formação completa, no sentido de abordar a totalidade de suas necessidades
educativas, visto que, na grande maioria das salas de aula, todas as questões
relativas à sexualidade do educando são deixadas no esquecimento, simplesmente
ignoradas como se não existissem.
Assim, cabe aos gestores públicos promover o acesso dos educadores ao
conhecimento necessário que dê suporte à ação docente livre de tabus,
preconceitos e da bagagem cultural repleta das cicatrizes da repressão.
Aos professores também cabe o dever de buscar tal formação, garantindolhe a segurança necessária para o trabalho com a temática do sexo e sexualidade,
deixando de persistir não enxergando a gritando sexualidade que aflora em atos e
questionamentos em sala de aula.
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7 REFERÊNCIAS
BRAGA, Eliane Rose Maio. A questão do gênero e da sexualidade na educação. In:
Infância e Práticas Educativas. Maringá: Eduem, 2007. p. 211-219.
______. Sexualidade: uma discussão importante (e inevitável) no espaço educativo.
In: Psicologia da Educação e os Processos Educativos de Desenvolvimento. 2.
ed. Maringá: Eduem, 2009. p. 77- 89.
______. Gênero, sexualidade e educação: questões pertinentes á Pedagogia. In:
Educação e Diversidade Cultural. Maringá: Eduem, 2010. p. 205 - 218.
BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares
Nacionais: Pluralidade cultural, orientação sexual. Brasília: MEC/SEF, 1997. p.
70- 134.
BRITZMAN, Deborah. Curiosidade, sexualidade e currículo. In: O corpo educado:
pedagogias da sexualidade. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.p. 83-111.
NUNES, César; SILVA, Edna. A educação sexual da criança: subsídios teóricos e
propostas práticas para uma abordagem da sexualidade para além da
transversalidade. Campinas, SP: Autores Associados, 2000.
REIS, Giselle Volpato dos; RIBEIRO, Paulo Rennes Marçal. Sexualidade e
educação escolar: algumas reflexões sobre orientação sexual na escola. In:
Sexualidade e Infância. Cadernos CECEMCA. Brasília: MEC/ SEF, 2005. p. 34 –
44.
SILVA, Kelly Cristina. As implicações da sexualidade infantil e a orientação
sexual nas instituições escolares. 2009. Disponível em:
http://psique.org/archives/311. Acesso em: jul.2011.
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SILVA, Celina Batista de Oliveira. O papel da escola no