Revista Brasileira de Gestão de Negócios ISSN: 1806-4892 [email protected] Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado Brasil Cardoso Vieira Machado, Maria João Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PME'S industriais portuguesas Revista Brasileira de Gestão de Negócios, vol. 13, núm. 41, octubre-diciembre, 2011, pp. 396-414 Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado São Paulo, Brasil Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=94722337003 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto RBGN REVISTA BRASILEIRA DE GESTÃO DE NEGÓCIOS ISSN 1806-4892 © FECAP ÁREA TEMÁTICA: CONTABILIDADE E CONTROLADORIA Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas Contingent Variables to the Valuation Product Methods: empirical study of industrial portuguese SMEs Variables Contingenciales a los Métodos de Valoración de los Productos: estudio empírico en PMES industriales portuguesas Maria João Cardoso Vieira Machado1 Recebido em 06 de janeiro de 2011 / Aprovado em 16 de dezembro de 2011 Editor Responsável: Ivam Ricardo Peleias, Dr. Processo de Avaliação: Double Blind Review RESUMO relação entre a forma como as empresas valoram A teoria da contingência é baseada na premissa de os produtos e o fato de produzirem para stock ou que não há um sistema de contabilidade ideal que por encomenda, no entanto o reduzido número se aplique da mesma forma a todas as organizações, de observações não permitiu validar estatistica- tudo depende de diversos fatores contingenciais. mente esta evidência. Relativamente à detenção Os estudos já realizados permitem identificar diver- do capital, a informação recolhida mostra que não sas variáveis contigenciais aos métodos de contabili- existe nenhuma relação entre o tipo de sociedade dade de gestão, no entanto nenhum desses estudos e o método de valoração dos produtos. se dirigiu a Pequenas e Médias Empresas (PMEs), o que justifica investigação que permita concluir Palavras-chave: Teoria contingência. Detenção se estas variáveis contigenciais, já estabilizadas capital. Dimensão. na teoria, também o são se analisarmos empresas de pequena dimensão. Os objetivos deste estudo estão relacionados com a identificação de relações ABSTRACT entre o método de valoração dos produtos utili- The contingency theory is based on the premise zados pelas PMEs e três variáveis contingenciais: that there is an ideal accounting system that a dimensão das empresas; o tipo de produção; a applies equally to all organizations; it all depends detenção do capital. Foram encontradas relações on several contingent factors. Studies have estatisticamente significativas entre a dimensão das identified several variables contingency methods empresas e os métodos de valoração dos produtos. of management accounting, however, none of Os dados recolhidos sugerem ainda existir uma these studies addressed the Small and Medium 1. Doutora em Contabilidade e Professora do Instituto Universitário de Lisboa, Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa ISCTE, Portugal. [[email protected]] Endereço da autora: Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa Portugal. Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas Enterprises (SMEs), which justifies research to relación entre la forma cómo las empresas valoran conclude whether these variables contingency, los productos y el hecho de que produzcan sea para now established in theory, are the same if we look stock, o por encargo, sin embargo el pequeño at small businesses. The objectives of this study número de observaciones no permitió validar are related to the identification of relationships estadísticamente estas pruebas. En cuanto a la between the method of valuation of products used detención del capital, la información recolectada by SMEs and three contingent variables: firm size, muestra que no existe ninguna relación entre type of production; the keeping of the capital. el tipo de sociedad y el método de valoración We have found statistically significant relationships de los productos. between firm size and methods of goods valuation. The collected data also suggests a relationship Palabras clave: Teoría contingencia. Detención between how the company values their products capital. Dimensión. as well as the fact that they produce for stock or under orders, however the small number of observations did not allow validate this evidence 1 INTRODUÇÃO statistically. Regarding to the shareholding, the information collected shows that there is no Continua a ser uma preocupação dos relationship between the type of society and the investigadores estudar se as empresas utilizam os method of goods valuation. métodos de valoração dos produtos considerados pela teoria como mais adequados e, caso não os Key words: Contingency theory. Holding capital. utilizem, encontrar variáveis que expliquem a sua Dimension. não utilização (AGNDAL; NILSSON, 2007; BANKER; BARDHAN; ,CHEN 2008; BLAKE; WRAITH; AMAT, 2000; COHEN; VENIERIS; RESUMEN KAIMENAKI, 2005; COTTON; JACKMAN, La teoría de la contingencia se basa en la premisa 2002; DRAKE; HAKA, 2008; ENGLUND; de que no existe un sistema de contabilidad ideal GERDIN, 2008; HALDMA; LÄÄTS, 2002; que pueda aplicarse de la misma forma en todas HOOZÉE; BRUGGEMAN, 2010; HOPPER; las organizaciones, todo depende de varios factores MAJOR, contingenciales. Los estudios ya realizados permiten SINCLAIR, 2000; JOSHI, 2001; KALLUNKI; identificar diversas variables contingenciales a los SILVOLA, 2008; KAPLAN, 2006; MAIGA; métodos de contabilidad de gestión, sin embargo JACOBS, ninguno de estos estudios fue dirigido a Pequeñas SANGSTER, 2011; PIKE; TAYLES; MANSON, y Medianas Empresas (PYME´s); esto justifica una 2 0 1 1 ; R I V E RO ; E M B L E M S VA G , 2 0 0 7 ; investigación que permita concluir si estas variables SCHOUTE, 2011; STOUT; PROPRI, 2011). 2007; 2008; INNES; M I TC H E L L ; NASSAR; HUSAM; contingenciales ya consolidadas en la teoría, As práticas de contabilidade de gestão das también se encuentran al analizar empresas de organizações são muito pouco divulgadas em Por- pequeñas dimensiones. Los objetivos de este tugal, devido ao caráter facultativo desse tipo de estudio se relacionan con la identificación de las contabilidade, o que justifica a realização de estu- relaciones entre el método de valoración de los dos empíricos no referido país como contributo productos utilizado por las PYMEs y tres variables para a teoria da contingência, na medida em que contingenciales: la dimensión de las empresas; esta reconhece que as diferenças culturais entre os el tipo de producción y la detención del capital. diversos países são um fator de diferenciação dos Se han encontrado relaciones estadísticamente métodos de contabilidade de gestão utilizados significativas entre la dimensión de las empresas (MACARTHUR, 2006; YANG, H.; YANG, G.; y los métodos de valoración de los productos. Los WEI, 2006). Os atuais problemas de financiamen- datos recabados también indican que existe una to dos países da Europa Mediterrânica exigem uma Maria João Cardoso Vieira Machado maior capacidade de gestão nas empresas, o que 2 REVISÃO DE LITERATURA também confere relevância ao estudo das práticas de contabilidade de gestão das empresas Portu- 2.1 Teoria da contingência guesas. Restringiu-se o universo a estudar às PMEs, devido ao seu elevado peso no tecido empresa- Diversos autores, nomeadamente Chua rial nacional. Um estudo realizado em Portugal (1986), defendem que o processo de investigação (IAPMEI, 2008), refere que 99,6% das empresas é condicionado por três fatores sequenciais. O pri- nacionais são pequenas e médias, o que confere meiro refere-se aos pressupostos assumidos pelo relevância ao estudo desse tipo de empresas para investigador acerca da natureza da realidade do caracterizar a situação do país. No entanto, o ele- fenômeno, os quais caracterizam a sua posição vado número de PMEs em Portugal, 297.000 ontológica. O segundo é a forma como o investi- empresas em 2005 (IAPMEI, 2008) exige uma gador considera que pode adquirir conhecimen- maior restrição do universo a estudar. Desta for- to sobre o fenômeno a estudar, a qual caracteriza ma, delimitou se este estudo às empresas classifica- a sua posição epistemológica. O terceiro é a meto- das como excelência-indústria, pelo fato de consti- dologia que o investigador considera mais adequa- tuir uma selecção de empresas já realizada com da para recolher evidência válida sobre o fenôme- objetivos convergentes a este trabalho, uma vez no. Com base nestes três fatores, vários autores que a referida classificação avalia os desempenhos classificam a investigação em contabilidade por econômico-financeiros e de gestão das empresas meio da identificação de grandes paradigmas candidatas (IAPMEI, 2002). O universo em aná- (BHIMANI, 2002). lise é constituído pelas 163 empresas classificadas Uma das classificações mais utilizadas para de forma consistente, no atual século, como PMEs caracterizar os paradigmas de investigação em con- excelência indústria. Foram realizadas entrevis- tabilidade é a de Burrell e Morgan (BELKAOUI, tas com responsáveis pela contabilidade de gestão 2000) que se baseia em dois critérios. O primeiro de 58 empresas, localizadas em 11 Distritos de define a posição do investigador sobre a natureza Portugal, o que gerou uma taxa de resposta de das ciências sociais, que se deve colocar entre dois 36%. Foi realizado o tratamento da não resposta, extremos: a objectividade e a subjectividade. O o qual permitiu concluir não existirem diferenças segundo critério traduz a perspectiva que o inves- estatisticamente significativas entre as empresas tigador tem sobre a sociedade, que pode ir desde respondentes e as não respondentes. a mudança radical até à regulação. O cruzamento Com base na revisão de literatura foram desses dois critérios dá origem a quatro paradigmas formuladas as seguintes questões de estudo: a de investigação (BELKAOUI, 2000): o funcio- detenção do capital é uma variável contingencial nalismo, também conhecido por positivismo, que aos métodos de valoração dos produtos? O tipo se caracteriza por uma visão objetiva da realidade de produção é uma variável contingencial aos méto- e pela procura constante da estabilidade social dos de valoração dos produtos? A dimensão das no sentido de manter a ordem; o interpretativis- empresas é uma variável contingencial aos méto- mo, que se baseia no mesmo equilíbrio social mas dos de valoração dos produtos? apresenta uma visão mais subjectiva da realidade; O presente trabalho tem por objectivo con- o humanismo radical, que se caracteriza por tribuir para o conhecimento sobre os métodos de uma visão subjetiva da realidade, pressupondo, valoração dos produtos utilizados pelas pequenas no entanto, a existência de transformações e médias empresas (PMEs) industriais portugue- sociais; o estruturalismo radical que se baseia na sas. Como objetivos mais específicos é possível mesma visão da sociedade que o humanismo, ape- identificar os seguintes: caracterizar os métodos nas se distingue pela perspectiva mais objectiva utilizados; Identificar fatores contingenciais que da realidade. O humanismo radical e o estrutura- expliquem a utilização de diferentes métodos em lismo radical são normalmente agregados numa diferentes empresas. única categoria, a investigação crítica (BAXTER; Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas CHUA, 2003; BHIMANI, 2002; COVALESKI; MOERS, 1999, 2003). No entanto, este tipo de DIRSMITH, 1996). críticas é efetuado sobre estudos que procuram Segundo Barrachina, Ripoll e Gago (2004), relações contingenciais a partir do tratamento as teorias mais utilizadas na investigação positivista estatístico de grandes bases de dados e não sobre em contabilidade de gestão são a teoria da agên- estudos de campo. cia e a teoria da contingência. A teoria da agência Covaleski e Dirsmith (1996) apresentam baseia-se numa relação entre dois ou mais indiví- uma crítica aplicável a qualquer estudo baseado duos, em que são delegadas responsabilidades por na teoria da contingência. Os autores consideram meio de um contrato em que se definem os direi- que esta constitui uma visão determinística e his- tos e os deveres de cada uma das partes. A teoria tórica das organizações. Todavia, mesmo a aplica- da contingência é baseada na premissa de que ção dessa critica depende dos objetivos do estudo. não há um sistema de contabilidade ideal que se Essa perspectiva de investigação pode ser válida aplique da mesma forma a todas as organizações, para conhecer uma realidade, mesmo que seja está- tudo depende de diversos fatores contingenciais tica, sobre a qual existe muito pouca informação, (OTLEY, 1980). como é o caso das práticas de contabilidade de Os objetivos do presente trabalho estão rela- gestão utilizadas pelas PMEs industriais portu- cionados com a identificação de relações entre guesas. Outros estudos mais dinâmicos poderão o método de valoração dos produtos e aspectos ser posteriormente desenvolvidos em Portugal, específicos de cada empresa em particular, pelo depois de se conhecer essa realidade. que a teoria da contingência foi considerada a mais adequada para atingir estes objetivos. Apesar das críticas, a revisão de artigos mostra que essa teoria continua a ser utilizada na inves- A utilização desta teoria na investigação em tigação empírica em contabilidade de gestão. contabilidade de gestão deveu-se, segundo Otley Foram encontrados vários artigos recentes com- (1980), à influência simultânea de três fatores. O patíveis à teoria da contingência. Importa, assim, primeiro foi o fato de nas décadas de 1960/1970 analisar quais as principais variáveis contingenciais a investigação nesta área estar a apresentar resul- que emergem desses artigos. Para isso, analisam-se, tados contraditórios para o mesmo problema em em primeiro lugar, cinco artigos de diferentes perío- diferentes organizações. O segundo foi o próprio dos temporais (CHAPMAN, 1997; CHENHALL, desenvolvimento da perspectiva da contingência 2003, GERDIN; GREVE, 2004; LANGFIELD- na teoria das organizações, na qual se estabeleceu SMITH, 1997, OTLEY, 1980), que fazem uma como a abordagem dominante na década de revisão e classificação dos fatores contingenciais setenta. O último fator foi o fato dos próprios abordados em estudos empíricos realizados até essa investigadores começarem a tomar consciência da data. A seguir analisam-se as variáveis apresenta- importância do contexto organizacional no estu- das nos estudos empíricos mais recentes. do dos sistemas contabilísticos. Todos estes Otley (1980) identificou três factores con- factores em simultâneo levaram a que ocorresse a tingenciais perfeitamente estabelecidos na inves- passagem de uma abordagem universal para uma tigação em contabilidade de gestão, o tipo de pro- abordagem contingencial na investigação em con- dução, a estrutura organizacional e o ambiente tabilidade de gestão. externo. Relativamente à variável tipo de produ- No entanto, a sua utilização não é pacífica. ção, o autor considerou que o fato de a produção Encontram-se diversos artigos com uma perspec- ser contínua ou descontinua influencia o mon- tiva crítica, quer relativamente aos pressupostos tante de custos indiretos, para os quais se terá de teóricos necessários à formulação das hipóteses encontrar um critério adequado de repartição, (DUNK, 2003), quer relativamente à metodolo- influenciando assim o sistema de valoração dos gia estatística utilizada para o teste dessas mesmas produtos. Na produção descontínua um elevado tecnologias, a qual pode alterar de forma significa- montante de custos totais pode ser diretamente tiva os resultados da investigação (HARTMANN; associado a um produto particular, enquanto a Maria João Cardoso Vieira Machado produção em massa exige uma grande repartição tão, nos quais encontra as mesmas variáveis contin- de custos, pois uma parte significativa do custo genciais referidas por Otley (1980) e Chapman total é comum a diversos produtos. Relativamente (1997) e ainda dois novos fatores, a dimensão das à estrutura organizacional, considerou que os arti- empresas e a cultura dos países. Relativamente ao gos já publicados mostraram que essa afeta, pelo primeiro, Chenhall (2003) concluiu que a uma menos, um aspecto dos sistemas de contabilidade, maior dimensão está associada uma maior for- a forma como a informação orçamental é tratada. malização dos procedimentos, uma maior ênfase Relativamente ao ambiente externo, considerou no orçamento e mecanismos mais sofisticados de que os trabalhos realizados mostram que deter- controlo. Esse autor apresentou diversas alter- minados aspectos ambientais como o nível de nativas para medir a dimensão das empresas, o competição a que a empresa está sujeita influen- número de trabalhadores, o volume de vendas e o ciam os sistemas de controlo de gestão utilizados. valor do capital social. Relativamente ao fator con- Mais tarde, Chapman (1997) reviu um con- tingencial estratégia, reportou já alguns resultados junto de artigos que considerou os de maior ao referir que os estudos realizados relacionam sucesso na análise de variáveis contingências que certas características dos sistemas de controlo de influenciam os sistemas de contabilidade de ges- gestão com determinadas estratégias em particu- tão. Desta revisão, o autor encontrou dois dos lar. Relativamente ao último fator contingencial fatores contingenciais referidos por Otley (1980), revisto, Chenhall (2003) concluiu que a cultura nomeadamente os ambientais e o tipo de produ- própria de cada país influencia a forma como fun- ção. No entanto, o estudo de Chapman (1997) cionam os sistemas de controlo de gestão. reportou a utilização de um novo fator contin- A literatura revista permite concluir que a gencial, a estratégia, para o qual considerou que teoria da contingência é utilizada há mais de qua- os resultados obtidos não eram ainda satisfatórios. tro décadas na investigação em contabilidade No mesmo ano, Langfield-Smith (1997) de gestão, sendo o seu contributo confirmado e reviu nove estudos que analisavam a relação entre expandido por meio da realização de estudos siste- os sistemas de controlo de gestão e a variável con- máticos que confirmem a existência de variáveis tingencial estratégia. A evidência recolhida é com- que influenciam os métodos de contabilidade de patível à de Chapman (1997). A autora concluiu gestão utilizados pelas empresas. que a investigação realizada nesta área se encontrava muito fragmentada devido à existência de uma grande diversidade de metodologias, nomea- 2.2 Variáveis contingenciais damente na medição da variável estratégia. Posteriormente, Gerdin e Greve (2004) A abordagem contingencial continua a ser acrescentaram uma nova crítica ao reportado por utilizada nos estudos empíricos mais recentes. O Langfield-Smith (1997) ao defenderem que é quadro 1 sintetiza os fatores contingenciais encon- necessário analisar um novo problema metodo- trados e as variáveis com que são analisados em lógico, a forma como os diversos estudos anali- cada um dos artigos. sam a relação contingencial entre a estratégia e o Libby e Waterhouse (1996) realizaram sistema de contabilidade de gestão. Por meio da entrevistas telefônicas a gestores de vinte e quatro revisão de dez artigos sobre tal problemática, os médias empresas industriais do Canadá, para ana- autores concluíram que a relação entre as duas lisar a relação entre a capacidade organizacional variáveis foi analisada recorrendo a modelos esta- para aprender e o seu impacto na mudança dos tísticos diversificados, o que faz com que os resul- sistemas de contabilidade de gestão. Os resultados tados obtidos nos diversos estudos não possam obtidos concluem que existe uma forte relação ser muitas vezes comparados. positiva entre as duas variáveis. Os autores anali- Chenhall (2003) analisou 20 anos de estu- sam, ainda, em que medida três fatores contingen- dos empíricos sobre os sistemas de controlo de ges- ciais, o ambiente, a descentralização e a dimensão, Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas são relevantes para o processo de mudança nos estratégicas de negócio de empresas-indústriais sistemas de contabilidade de gestão. Para o efeito canadianas. As conclusões mostram que existe utilizaram as variáveis nível de competitividade uma associação positiva entre os dois fatores con- do ambiente, nível de descentralização e número tingenciais e a utilização de métodos de gestão de trabalhadores. baseados nas atividades. Chong (1996) realizou inquéritos a qua- Chenhall e Langfield-Smith (1998b) rea- renta e dois gestores de empresas-indústriais austra- lizaram um inquérito postal a setenta e oito gran- lianas por meio dos quais analisou a relação entre des empresas industriais australianas e analisaram a variável incerteza das tarefas e o nível de utilização o impacto da estratégia nas técnicas de contabi- dos sistemas de contabilidade de gestão, reportan- lidade de gestão utilizadas. Os autores provam do também a existência de uma relação positiva que as estratégias de baixo preço estão associadas entre as duas variáveis. fundamentalmente a técnicas de contabilidade Gosselin (1997) analisou os efeitos da postura estratégica e da estrutura organizacional na de gestão tradicionais como os orçamentos e o controlo de desvios. forma como as empresas adoptam a gestão basea- Chong (1998) realizou inquéritos a sessen- da nas atividades. O estudo foi realizado por meio ta e três gestores de empresas-indústriais australia- de inquéritos em cento e sessenta e uma unidades nas, analisando a relação entre uma nova variável (VWXGRVHPStULFRV Libby e Waterhouse (1996) $PELHQWH Nível de competitividade (VWUXWXUD RUJDQL]DFLRQDO - Nível de descentralização - Capacidade para aprender Chong (1996) Haldma e Lääts (2002) Chang, R.-D., Chang, Y. e Paper (2003) Jermias e Gani (2004) Gerdin (2005) Tipo de estratégia Tipo de estratégia Tolerância à ambiguidade Nível de competitividade - Nível de competitividade Incerteza, - Cultura nacional - Falta de profissionais qualificados - Normas de contabilidade financeira - Falta de profissionais qualificados - Detentores do capital Tipo de estratégia Contínua ou descontínua Nível de descentralização Nível de descentralização Interdependência organizacional Volume de vendas Incerteza das tarefas Quadro 1 Factores contingenciais aos sistemas de contabilidade de gestão . Fonte: dos autores. (VWUDWpJLD Nº de trabalhadores Nível de descentralização Chenhall e LangfieldSmith (1998b) Chong (1998) Luther e Longden (2001) 'LPHQVmR Incerteza das tarefas Gosselin (1997) Anderson e Lanen (1999) 7LSRGH SURGXomR Tipo de estratégia Maria João Cardoso Vieira Machado relacionada com um aspecto particular da perso- empresas industriais da Estónia e analisaram se nalidade, o nível de tolerância à ambiguidade, e o três fatores contingenciais, o ambiente, a dimen- nível de utilização dos sistemas de contabilidade de são das empresas e o tipo de produção, afetam a gestão. Os resultados obtidos concluem que quan- práticas de contabilidade de gestão. Para além do o nível de tolerância dos gestores à ambigui- desses, introduziram, ainda, um novo fator contin- dade é elevado estes utilizam menos os sistemas de gencial, os detentores do capital das empresas. contabilidade de gestão para tomar decisões. Quan- Relativamente ao fator ambiente, os autores ana- do o nível de tolerância é baixo os gestores utili- lisam o impacto de duas variáveis nas práticas de zam mais os sistemas de contabilidade de gestão. valoração dos produtos. Tratam-se da influência Anderson e Lanen (1999) analisaram o das normas da contabilidade externa e da falta de impacto da liberalização da economia indiana, em profissionais qualificados na área da contabilida- 1991, sobre os sistemas de contabilidade de ges- de de gestão. Concluem existir uma associação tão utilizados pelas empresas. Os autores consi- positiva entre estas duas variáveis e o método de deram que essa liberalização gerou um aumento valoração dos produtos, e que as normas da con- de competitividade no ambiente externo e uma tabilidade externa estão a condicionar o desen- alteração na estratégia das empresas. Por meio da volvimento dos métodos de contabilidade de ges- realização de inquéritos a catorze empresas e de tão. Estes autores referem, ainda, que as empresas entrevistas em sete delas, concluíram que os siste- não dispõem de profissionais qualificados nesta mas de contabilidade de gestão se alteraram, área, o que condiciona os próprios métodos utili- nomeadamente ao nível do processo de orçamen- zados. Relativamente à variável tipo de produção, tação e controle que se tornou muito mais des- concluíram que a fabricação de produtos especí- centralizado, e do aumento da preocupação com ficos de acordo com as necessidades dos clientes a redução de custos. exige sistemas de valoração diferentes dos da pro- Luther e Longden (2001) analisaram o dução em massa na qual existem muito mais cus- impacto de três variáveis relacionadas com o tos indiretos. Para observar o fator dimensão, ambiente sobre as práticas de contabilidade de Haldma e Lääts (2002) utilizaram o volume de ven- gestão. As variáveis são o nível de competitivi- das e concluíram que as maiores empresas utilizam dade, de incerteza e a cultura nacional. O estudo métodos de contabilidade de gestão mais sofisti- compara essas variáveis contingenciais em duas cados. Referem, ainda, que a uma maior dimen- amostras, uma da África do Sul, outra do Reino são está associada a uma maior disponibilidade Unido. Trata-se de países com diferentes níveis de recursos financeiros para o desenvolvimento de competitividade e de incerteza no ambiente de sistemas mais sofisticados. Relativamente aos externo das empresas e com diferentes culturas detentores do capital das empresas, o objetivo dos nacionais. A informação foi recolhida por meio autores era identificar se existia pressão sobre os de inquéritos realizados a cento e trinta e nove métodos de contabilidade de gestão quando esse contabilistas da África do Sul e setenta e sete con- é detido por estrangeiros, porém não foi encon- tabilistas do Reino Unido. Os autores concluem trada evidência sobre a influência desta variável. que as práticas de contabilidade de gestão estão Chang, R.-D., Chang, Y.-W., Paper, D. relacionadas com as variáveis ambientais incer- (2003) realizaram inquéritos a cento e vinte e seis teza, competitividade e cultura nacional, e ainda gestores de topo de empresas do Taiwan, por meio com uma nova variável que se tornou clara no dos quais comprovaram o impacto de duas variá- decorrer do estudo, a disponibilidade de profissio- veis nos sistemas de informação contabilística: a nais com competências na área da contabilidade incerteza das tarefas e o nível de descentralização. de gestão, a qual constitui um fator crítico para as empresas da África do Sul. Jermias e Gani (2004) realizaram inquéritos a cento e seis gestores de unidades de negócio Haldma e Lääts (2002) realizaram inqué- de vinte e seis empresas de Jakarta e confirmaram ritos a responsáveis de sessenta e duas grandes o impacto de duas variáveis sobre os sistemas de Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas contabilidade de gestão: o tipo de estratégia e o QUESTÃO A A detenção do capital é nível de descentralização. uma variável contingencial aos métodos Gerdin (2005) analisou a relação entre a de valoração dos produtos? variável interdependência organizacional e o sistema de contabilidade de gestão. O estudo foi rea- QUESTÃO B O tipo de produção é uma lizado por meio de inquéritos a cento e trinta e variável contingencial aos métodos de valo- dois gestores de produção de empresas industriais ração dos produtos? suecas. Os resultados confirmaram que a interdependência organizacional, ou seja, em que me- QUESTÃO C A dimensão das empresas dida cada departamento depende de recursos dos é uma variável contingencial aos métodos outros para realizar as suas tarefas, gera uma pres- de valoração dos produtos? são sobre os sistemas de contabilidade de gestão no sentido de utilizarem mecanismos de planeamento e controlo mais rigorosos. A detenção do capital é uma variável estudada por Ghosh e Chan (1997), Clarke et al. (1999) Os estudos empíricos revistos permitem e Haldma e Lääts (2002). Os dois primeiros arti- concluir que estão estabilizados na teoria cinco gos concluem que existem métodos de contabili- fatores contingenciais: ambiente; estrutura orga- dade de gestão mais sofisticados nas filiais de multi- nizacional; tipo de produção; dimensão; estraté- nacionais, face às empresas da região, sugerindo gia. Apesar de os diversos estudos utilizarem dife- como explicação a imposição desses métodos pela rentes variáveis para medir cada um dos cinco fato- casa-mãe. O terceiro artigo estuda a mesma rela- res descritos, as suas conclusões são convergentes, ção em empresas da Estónia, não encontrando, no sentido de existir uma associação entre a variá- no entanto, qualquer associação entre as duas vel analisada e os métodos de contabilidade de variáveis. Esses resultados contraditórios justifi- gestão utilizados. A única variável não testada cam nova investigação sobre esta eventual relação. empiricamente é uma das propostas por Haldma O tipo de produção é analisado nos arti- e Lääts (2002) que não conseguiram provar a exis- gos de Otley (1980) e Haldma e Lääts (2002). tência de uma relação estatisticamente significa- Ambos os estudos concluíram que o fato de a pro- tiva entre o fato de os detentores do capital das dução ser contínua ou descontínua influencia o empresas serem estrangeiros e a utilização de montante de custos indiretos, para os quais se terá diferentes métodos de contabilidade de gestão. de encontrar um critério adequado de repartição, condicionando assim o método de valoração dos produtos. Na produção descontínua um elevado 3 METODOLOGIA DA PESQUISA montante de custos totais pode ser diretamente associado a um produto particular, enquanto a Os estudos já realizados permitem identi- produção em massa exige uma grande repartição ficar diversas variáveis contingências aos métodos de custos, pois uma parte significativa do custo de contabilidade de gestão. Contudo, nenhum dos total é comum a diversos produtos. estudos se dirigiu a Pequenas e Médias Empresas, A dimensão das empresas é uma variável o que justifica investigação que permita concluir estudada nos artigos de Chenhall (2003), Haldma se essas variáveis contingenciais, já estabilizadas e Lääts (2002), Joshi (2001), Innes, Mitchell, Sinclair. na teoria, também o são se analisarmos empresas (2000), Clarke et al. (1999), Chenhall e Langfield- de pequena dimensão. Os objetivos deste estudo Smith (1998a), Libby e Waterhouse (1996) e Innes estão relacionados com a identificação de relações e Mitchell (1995). Esses artigos concluem que as entre o método de valoração dos produtos utili- empresas de maior dimensão utilizam métodos zados pelas Pequenas e Médias Empresas e três de contabilidade de gestão mais sofisticados. São variáveis contingenciais: a detenção do capital; o apresentadas duas justificações para esse fenôme- tipo de produção; a dimensão das empresas: no: o fato de as maiores empresas exigirem proce- Maria João Cardoso Vieira Machado dimentos mais formalizados para assegurar a coor- de existir enviesamento provocado pelas empre- denação de todas as operações; e a disponibilidade sas não respondentes, por meio da análise de dois de recursos financeiros a elas associada. fatores. O primeiro foi a cobertura geográfica do Relativamente à recolha de dados neces- território português, estando representadas empre- sários para responder às questões de investigação sas de 79% dos distritos do universo, sendo que definidas, optou-se pela realização de entrevistas os três não cobertos tinham apenas uma empresa que permitissem recolher evidência, a mais varia- cada, o que sugere que o fator representatividade da possível, sobre as questões levantadas. Desta geográfica não é indicador de provocar enviesa- forma, pretendeu-se recolher evidência mais fide- mento de resultados. O segundo foi a dimensão digna à medida que os conceitos básicos associa- das empresas, a qual segundo Young, Wim e Chen dos à contabilidade de gestão podem não ser uti- (2005) poder ser medida por meio do número de lizados da mesma forma por todas as empresas trabalhadores. Foi realizada a comparação dos portuguesas. Optou-se pela realização de entre- respondentes com os não respondentes em ter- vistas semiestruturadas nas quais não se utiliza um mos de dimensão, medida por meio da média do questionário de base à entrevista, mas sim um con- número de trabalhadores. O teste t-student obti- junto de tópicos sobre os quais essa tem de incidir do apresenta um valor de 1.165, para 161 graus (BELL, 2005). As entrevistas foram dirigidas ape- de liberdade, com um valor -p de 0.246, o que nas ao responsável pela contabilidade de gestão, revela não existirem diferenças significativas na entre Julho de 2005 e Julho de 2006, por se con- dimensão média dos dois grupos. Esta análise siderar que este tem o domínio da informação permite-nos concluir que os resultados deste tra- sobre a qual se pretendia recolher evidência e, dada balho, embora não sendo válidos para todas as a dimensão das empresas, uma visão global das PMEs industriais portuguesas, podem caracteri- referidas entrevistas. zar a realidade de um subconjunto dessas empre- O presente estudo pretende analisar o sas, as classificadas como excelência de forma con- universo das 163 PMEs industriais classificadas sistente no atual século. Abernethy et al. (1999) como excelência no atual século. Após três fases concluem que independentemente do método de de contato, conseguiu-se a marcação de entrevis- investigação utilizado, a generalização a partir de tas com o responsável pela contabilidade de ges- um único trabalho é necessariamente limitada. Os tão de 58 empresas. Foram analisadas empresas referidos autores consideram que a generalização de onze dos catorze distritos do universo inicial, em contabilidade de gestão tem de ser conseguida pelo que se considera ter obtido uma boa cober- por meio de uma aplicação sucessiva em novas tura geográfica. As 58 empresas que aceitaram populações, locais e períodos temporais. participar deste trabalho correspondem a uma taxa Para o tratamento estatístico da informação de resposta de 36%, o que é comparável à de recolhida nas entrevistas foi criada uma base de outros trabalhos analisados na revisão de literatu- dados no software informático Statistical Package ra, nomeadamente Haldma and Lääts (2002) que for the Social Sciences (SPSS). Um dos objectivos apresentam uma taxa de resposta de 34%, Innes é analisar a eventual relação entre o comportamen- e Mitchell (1995), Innes, Mitchell e Sinclair (2000), to de duas variáveis nominais, com mais de duas Joshi (2001), com taxas de resposta de apenas categorias de respostas, para um máximo de cin- 25%, 23% e 24%, respectivamente. quenta e oito observações. Atendendo às caracte- Sendo assim, a existência de não responden- rísticas das variáveis, o teste de associação aplicá- tes pode provocar um enviesamento dos resulta- vel é o teste de independência do Qui-Quadrado dos, nomeadamente se as empresas que não acei- ou teste do Qui-Quadrado de Pearson (Siegel e taram participar tiverem características homogê- Castellan, 1988). Este teste baseia-se numa tabela neas, definindo assim uma categoria com carac- de cruzamento das diversas categorias de resposta terísticas próprias (YOUNG; WIM; CHEN , de cada variável, em que são calculadas as frequên- 2005). Neste estudo não se encontraram indícios cias absolutas esperadas para cada célula, com base Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas na teoria das probabilidades e na hipótese nula a seguir definida. As hipóteses desse teste são as 4 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS seguintes (MOOD; GRAYBILL; BOES, 1974): hipótese nula as variáveis são independentes; Para a análise das questões de estudo foi hipótese alternativa as variáveis não são inde- construída a variável valoração dos produtos, que pendentes. Para que os resultados do teste sejam reflete o método utilizado pela empresa e que apre- válidos é necessário que não se viole nenhum dos senta três categorias de resposta: em 24% das empre- seus pressupostos (SIEGEL; CASTELLAN, 1988): sas a valoração dos produtos é feita sem se repar- nenhuma das frequências absolutas esperadas pode tirem os custos indiretos; a maior frequência de ser inferior a um; não pode haver mais de 20% de resposta situa-se na utilização de uma única base células com frequência esperada inferior a cinco. de repartição desses custos (48%); em 28% das Comprovada a existência de uma relação entre o empresas utilizam-se múltiplas bases de repartição. comportamento de duas variáveis, por meio da Relativamente à primeira questão de estu- rejeição da hipótese nula do teste do Qui-Qua- do, a detenção do capital é analisada por Ghosh e drado de Pearson, torna-se desejável medir a inten- Chan (1997), Clarke et al . (1999) e Haldma e sidade dessa relação (MURTEIRA, 1990). Dada a Lääts (2002) por meio da natureza dos detento- natureza nominal das variáveis em análise, optou- res do capital das empresas, classificando-as em se pela utilização do coeficiente de Cramer, dado filiais de multinacionais ou empresas 100% nacio- que esse não é influenciado pelo número de cate- nais. Como no universo das PMEs portuguesas gorias de resposta de cada variável. O seu valor é não se esperavam encontrar muitas filiais de multi- calculado com base no valor do Qui-Quadrado e nacionais, optou-se por utilizar, também, uma varia entre zero e um. O valor zero obtém-se quan- outra variável relacionada com a detenção do capi- do não existe associação entre as variáveis, todavia tal, a forma jurídica das sociedades. Assim, anali- o valor um, em tabelas quadradas, não significa sam-se neste ponto duas variáveis associadas que exista associação perfeita entre elas (SIEGEL; à detenção do capital: o tipo de sociedade; e a CASTELLAN, 1988). As hipóteses desse teste são natureza dos detentores do capital. as seguintes (SIEGEL; CASTELLAN, 1988): hipó- A primeira relação analisada é entre a cate- tese nula as variáveis são independentes; hipóte- goria jurídica das sociedades e o método de valo- se alternativa as variáveis não são independentes. ração dos produtos. Para o efeito, criou-se uma nova Não foram encontradas referências conclusivas variável denominada tipo de sociedade. Apenas sobre como classificar o resultado obtido pelo coe- foram encontrados dois tipos de sociedades, por ficiente de Cramer quando se rejeita a hipótese quotas e anônimas, sendo a última a forma jurí- nula. Murteira et al. (2002) referem que valores dica adoptada pela maioria das empresas (57%). para este coeficiente de 0,117 e de 0,400 tradu- A associação entre esta variável e a valoração dos zem uma associação fraca e relativamente forte produtos é apresentada no quadro 2, a qual evi- entre as variáveis, respectivamente. dencia alguma homogeneidade nas três categorias 7LSRVRFLHGDGH 4XRWDV Valoração Sem custos indirectos dos produtos Base única Bases múltiplas Total Quadro 2 Valoração dos produtos e tipo de sociedade Fonte: dos autores. 7RWDO $QyQLPD 7 7 14 12 16 28 6 10 16 25 33 58 Maria João Cardoso Vieira Machado de resposta da variável valoração dos produtos, segue provar estatisticamente essa associação, o que sugere não existir relação entre o comporta- devido ao reduzido número de empresas com mento das duas variáveis. O teste do Qui-Quadra- capital estrangeiro. É necessária nova investiga- do de Pearson valida tal informação ao apresentar ção, com maior número de empresas com parti- um valor de 0.477 para dois graus de liberdade, cipação estrangeira no seu capital, que permita com um valor- p de 0.788, o que não permite validar esta variável contingencial. rejeitar a hipótese nula de independência entre o Relativamente à segunda questão de estu- tipo de sociedade e a forma como são valorados do, o objetivo inicial era classificar as empresas de os produtos. acordo com o tipo de produção ser contínua ou A segunda relação analisada é entre o méto- descontínua, seguindo a metodologia de Otley do de valoração dos produtos e os detentores do (1980) e Haldma e Lääts (2002). No entanto, esses capital das empresas. Para tanto, criou-se a variá- conceitos levantaram muitas questões ao longo vel detentores do capital. Apenas foram encontra- das entrevistas, tendo-se gerado dúvidas se esses das 5% de empresas com participação estrangeira mesmos conceitos eram compreendidos pelos no seu capital, sendo em 2% uma participação entrevistados. Por esta razão, optou-se pela utili- minoritária e em 3% uma participação maiori- zação de uma outra variável com a qual os entre- tária. A associação entre essa variável e a valoração vistados não mostraram qualquer dificuldade, o dos produtos é apresentada no quadro 3 e per- objetivo da própria produção: produzir produtos mite observar que todas as empresas com capital standard para stock ou para satisfazer encomendas estrangeiro repartem os custos indiretos. específicas de cada cliente. Foi construída a variável As duas com participação maioritária estran- tipo de produção, a qual apresenta três catego- geira utilizam bases múltiplas, enquanto que a empre- rias de resposta: em 43% das empresas a produ- sa com participação estrangeira minoritária utiliza ção é iniciada para satisfazer encomendas especí- base única. Mas, não é possível validar estatistica- ficas; apenas em 28% das empresas a produção é mente essa observação dado o reduzido número realizada exclusivamente para construir stocks; nos de empresas de capital estrangeiro. O teste do Qui- restantes casos (29%) existem ambas as situações. Quadrado de Pearson resultante desta relação não Inserem-se nesta última categoria: empresas em é válido por violação dos seus pressupostos. que existem produtos fabricados apenas por enco- Os resultados obtidos com a primeira ques- menda e outros para stock; empresas em que o mes- tão de estudo são convergentes com os reporta- mo produto é produzido para stock numa versão dos por Haldma e Lääts (2002), pois embora os standard e pode ser produzido por encomenda dados recolhidos sugiram a existência de uma asso- com alterações a essa versão base; empresas que ciação entre a detenção do capital e os métodos produzem para stock semi-produtos, mas a mon- utilizados na valoração dos produtos, não se con- tagem final do produto só é feita por encomenda. 'HWHQWRUHVGRFDSLWDO 3DUWLFLSDomRHVWUDQJHLUD PLQRULWiULD 3DUWLFLSDomRHVWUDQJHLUD PDLRULWiULD Sem custos indiretos 14 0 0 14 Base única 27 1 0 28 Bases múltiplas 14 0 2 16 55 1 2 58 Valoração dos produtos 7RWDO QDFLRQDO Total Quadro 3 Valoração dos produtos e detentores do capital. Fonte: dos autores. Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas 7LSRSURGXomR (QFRPHQGD Valoração dos produtos Sem custos indiretos Base única Bases múltiplas Total 7RWDO 6WRFN $PERV 7 2 5 14 10 11 7 28 8 3 5 16 25 16 17 58 Quadro 4 Valoração dos produtos e tipo de produção. Fonte: dos autores. A associação entre esta variável e a valoração dos de contabilidade de gestão utilizados, devido à produtos é apresentada no quadro 4. forma com foi medida a variável tipo de produ- O gráfico 1 traduz graficamente a informa- ção, o que constitui uma limitação desse estudo. ção anterior e parece evidenciar alguma diferença Relativamente à última questão de estudo, de comportamento nas empresas que só produ- como medida de dimensão foi utilizada a variável zem para stock. No entanto, essa observação não referida por Chenhall (2003) e Libby e Waterhouse pode ser validada estatisticamente pois o teste do (1996), o número de trabalhadores. Essa variável Qui-Quadrado de Pearson não é válido, por vio- apresenta características diferentes das anteriores lação dos seus pressupostos, devido à baixa fre- devido à sua natureza quantitativa, o que exige a quência de respostas em algumas categorias. prévia descrição do seu comportamento e a sua transformação numa variável categórica para que possa ser cruzada com a variável qualitativa valoração dos produtos. O estudo dessa medida de dimensão inicia-se, assim, com uma descrição do seu comportamento e só depois se procede à análise da sua associação com os métodos de valoração dos produtos. As medidas de localização de tendência central mostram que: as empresas entrevistadas têm em média noventa trabalhadores; a média aparada a 5%, que elimina 5% dos valores mais altos e mais baixos da variável, apresenta um valor próximo do anterior, cerca de oitenta e oito trabalhadores; a mediana desta variável situa se nos oitenta e dois trabalhadores, isto é, 50% das empresas inquiridas têm menos de oitenta e dois trabalhadores. Gráfico 1 Valoração dos produtos e tipo de As medidas de dispersão de tal variável apre- produção. sentam os seguintes valores: o número de trabalha- Fonte: dos autores. dores varia entre um mínimo de dez e um máximo de duzentos e cinquenta, o que gera um intervalo de variação de duzentos e quarenta trabalhado- A segunda questão de investigação não per- res; o intervalo inter-quartis, o qual não conside- mite validar os resultados de Chong (1996), Haldma ra 25% dos valores mais baixos e dos mais altos, é e Lääts (2002) e Chang, R.-D., Chang, Y.-W e de sessenta e oito trabalhadores; o desvio padrão, Paper (2003), relativamente à existência de uma ou seja a dispersão face à média, é de cinquenta e associação entre o tipo de produção e os métodos três trabalhadores. As medidas de dispersão em Maria João Cardoso Vieira Machado valor absoluto poderão ser úteis para comparar Para melhor entender o comportamento duas amostras independentes, mas o seu valor iso- desta variável interessa analisar medidas de locali- lado pouco permite concluir sobre o grau de dis- zação de tendência não central como os quartis: persão do número de trabalhadores. Para o fazer 25% das empresas têm até cinquenta e um traba- é necessário calcular outra medida de dispersão, lhadores, 50% têm até oitenta e dois (mediana) e denominada coeficiente de variação, cujo valor é 75% das empresas têm até cento e dezanove tra- dado pelo quociente entre o desvio padrão e a balhadores. Analisando de outra forma, podemos média, sendo esse valor multiplicado por cem observar que 50% das empresas têm entre cin- (CURTO; PINTO, 1999). O coeficiente de varia- quenta e um e cento e dezanove trabalhadores. ção de tal variável (59%) é superior a 30%, o que Com base nestes indicadores, e com o objetivo de traduz uma elevada dispersão da variável em rela- estudar a simetria da variável, calculou-se o coefi- ção à sua média (PESTANA; GAGEIRO, 2003). ciente G2 de Pearson para estimar o grau de sime- O gráfico 2 apresenta o histograma de fre- tria da distribuição. O valor deste coeficiente (0,09) quências do número de trabalhadores das empresas é superior a zero, o que significa que a variável é entrevistadas, com a normal sobreposta. assimétrica positiva (CURTO; PINTO, 1999). Algumas das estatísticas anteriores podem ser influenciadas pelos outliers. Interessa, assim, estudar a sua eventual existência, o que pode ser feito por meio da caixa de bigodes apresentada no Gráfico 3, a qual permite detectar um outlier: trata-se da empresa número dezanove com duzentos e cinquenta trabalhadores. Gráfico 2 Histograma de freqüências do número de trabalhadores. Fonte: dos autores. Na parte ascendente da curva, o número de trabalhadores apresenta valores mais elevados do que a curva normal, na parte descendente apresenta valores abaixo da curva e na aba final apre- Gráfico 3 Caixa de bigodes número de Traba- senta valores superiores à normal. Foi realizado o lhadores. teste de aderência à normalidade de Kolmogorov- Fonte: dos autores. Smirnov, com a correção de Lilliefors, o qual apresenta um valor de 0.103, para 58 graus de liberdade e um valor-p de 0.191, o que não permite Os outliers podem ser classificados em dois rejeitar a hipótese nula da variável ter distribui- tipos, moderados ou severos. Consideram-se mode- ção normal (PESTANA; GAGEIRO, 2003). rados quando se situam entre 1,5 a 3 amplitudes Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas inter-quartil acima do terceiro quartil ou abaixo do Segundo Hill e Hill (2002), a categoriza- primeiro. Consideram-se severos quando se situam ção de uma variável continua em duas categorias, a 3 ou mais amplitudes inter-quartil acima do ter- a dos valores mais altos e a dos valores mais baixos, ceiro quartil ou abaixo do primeiro (MURTEIRA pode ser feita utilizando a média ou a mediana et al., 2002). Esta empresa representa um outlier como critério de partição. Tratando-se, como neste moderado pois situa-se a menos de três amplitu- caso, de uma variável assimétrica e com outliers des inter quartis acima do terceiro quartil. susceptíveis de influenciar a média, o critério mais A existência de um outlier justifica a aná- adequado será a opção por uma estatística robusta lise do seu impacto nas principais estatísticas des- como a mediana. A nova variável, denominada critivas da variável, sem a observação número trabalhadores, apresenta duas categorias de res- dezanove: o outlier aumenta a média em três tra- posta: a primeira categoria abrange as empresas balhadores, aumenta o desvio padrão em quatro que têm até oitenta e dois trabalhadores; a segun- trabalhadores, mas não altera a mediana. O coe- da as empresas com mais de oitenta e dois traba- ficiente de variação resultante desta alteração é lhadores. A associação entre esta variável e a valo- de 56%, pelo que a dispersão é ainda elevada. ração dos produtos é apresentada no quadro 5. A análise da entrevista da empresa número deza- A maioria das empresas com mais trabalhadores nove permitiu confirmar que não se trata de um reparte os custos indiretos por produtos (82%), erro de introdução de dados, mas sim de um ele- utilizando base múltipla (43%) ou base única mento da realidade estudada e, como tal, não deve (39%); as empresas com menos trabalhadores, ser eliminado do estudo (MURTEIRA et al . , utilizam na sua maioria uma única base de repar- 2002). Contudo, a análise da variável deve ser tição dos custos indiretos (57%), uma parcela feita por meio de estatísticas robustas, ou seja, não significativa destas não reparte esses custos por sensíveis a estes valores aberrantes (PESTANA; produtos (30%). GAGEIRO, 2003). Da aplicação do teste do Qui-Quadrado Após a caracterização da variável, interessa, de Pearson à relação entre as duas variáveis resul- agora, analisar se existe relação entre ela e a forma ta o valor de 6.367, para dois graus de liberdade, como as empresas valoram os produtos. Sendo a com um valor-p de 0.041, o que nos permite rejei- variável dependente qualitativa, a metodologia a tar a hipótese nula de independência e aceitar a aplicar é também o teste do Qui-Quadrado de hipótese alternativa de existência de uma relação Pearson. Neste caso o cruzamento entre as variá- entre o número de trabalhadores e a forma como veis exige a transformação do número de traba- são valorados os produtos. O coeficiente de Cramer lhadores numa variável categórica. Devido ao apresenta o valor de 0.331, com um valor- p de reduzido número de observações, e para que o 0.041, o que nos permite confirmar a rejeição da referido teste não apresente violação dos próprios hipótese nula de independência das variáveis e pressupostos, optou-se apenas pela criação de duas considerar a existência de uma associação mode- categorias desta variável. rada entre elas. 7UDEDOKDGRUHV $Wp Valoração dos produtos Sem custos indiretos Base única Bases múltiplas Total Quadro 5 Valoração dos produtos e trabalhadores. Fonte: dos autores. 7RWDO 0DLVGH 9 5 14 17 11 28 4 12 16 30 28 58 Maria João Cardoso Vieira Machado Relativamente à terceira questão de inves- Foram encontradas relações estatisticamen- tigação, os resultados obtidos são convergentes te significativas entre a dimensão das empresas, com o reportado por Libby e Waterhouse (1996) medida por meio do número de trabalhadores e e Haldma e Lääts (2002). Embora utilizando os métodos de valoração dos produtos. As meno- variáveis diferentes para medir a dimensão das res empresas optam, com mais frequência, pela empresas, os estudos anteriores, tal como o atual, não imputação dos custos indiretos aos produtos permitem concluir que existe associação entre a e, as que o fazem, utilizam maioritariamente o méto- dimensão das empresas e os métodos de contabi- do de base única. As maiores empresas utilizam lidade de gestão utilizados, no sentido das maio- mais frequentemente múltiplas bases para imputar res empresas utilizarem métodos mais sofistica- os custos indirectos. Estes resultados são conver- dos. Haldma e Lääts (2002) referem que a uma gentes com o reportado pelos estudos já realiza- maior dimensão está associada uma maior dispo- dos em médias e grandes empresas, o que permi- nibilidade de recursos financeiros para o desen- te concluir que a variável contingencial dimensão volvimento de métodos mais sofisticados, o que também é válida em PMEs. Os dados recolhidos justifica a realização de nova investigação que con- sugerem, ainda, existir uma relação entre a forma firme a influência dessa variável. como as empresas valoram os produtos e o fato de produzirem para stock ou por encomenda. Contudo, não foi possível validar estatisticamen- 5 CONCLUSÃO te tal evidência devido à forma com foi medida a variável tipo de produção. Relativamente à deten- A teoria da contingência é baseada na pre- ção do capital, a informação recolhida mostra missa de que não há um sistema de contabilidade que não existe nenhuma relação entre o tipo de ideal que se aplique da mesma forma a todas as sociedade e o método de valoração dos produtos. organizações, tudo depende de diversos fatores No entanto, o fato de apenas três das empresas contingenciais. Essa premissa sugere que aspectos terem capital estrangeiro não permitiu verifi- particulares de um sistema de contabilidade apro- car se os detentores do capital influenciam esse priado dependem de circunstâncias específicas em método, o que não permitiu validar esta variável cada organização individual. Isto leva a que o obje- contingencial ainda não estabilizada na litera- tivo dos estudos baseados nesta teoria seja identi- tura revista. ficar a existência de relações entre aspectos espe- Como principais limitações de tal estudo cíficos dos métodos de contabilidade de gestão e reconhece-se: o reduzido número de empresas que circunstâncias particulares de cada organização. aceitaram colaborar; a possibilidade do método Os estudos já realizados permitem identificar as de recolha de informação, as entrevistas, influen- seguintes variáveis contigenciais aos métodos de ciarem as respostas dos entrevistados; a forma contabilidade de gestão: ambiente, estrutura orga- como foi medida a variável tipo de produção. Sen- nizacional; tipo de produção, dimensão; estratégia. do assim, este estudo contribui para o conheci- Entretanto, nenhum desses estudos se dirigiu a mento sobre a contabilidade de gestão, pois os seus Pequenas e Médias Empresas, o que justifica inves- resultados permitem concluir que mesmo num tigação que permita concluir se estas variáveis con- subconjunto de pequenas empresas, a dimensão tingenciais, já estabilizadas na teoria, também o contínua a ser uma variável contingencial aos méto- são se analisarmos empresas de pequena dimensão. dos de contabilidade de gestão. A evidência reco- Os objetivos desse estudo estão relacionados com lhida sugere a necessidade de investigação futura a identificação de relações entre o método de valo- com o objetivo de detectar se, tal como sugerido ração dos produtos utilizados pelas Pequenas e na revisão de literatura, a causa associada à utili- Médias Empresas e três variáveis contingenciais: zação de métodos de contabilidade de gestão mais a dimensão das empresas; o tipo de produção; sofisticados nas empresas de maior dimensão é a detenção do capital. uma maior disponibilidade de recursos financei- Variáveis Contingenciais aos Métodos de Valoração dos Produtos: estudo empírico em PMES industriais portuguesas ros. É necessária nova investigação, com maior science. 4th ed. Buckingham: Open University número de empresas com participação estrangei- Press, 2005. ra no seu capital, que permita validar a detenção do capital como variável contingencial. BHIMANI, A. 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