Órgão da Associação Brasileira de Psicanálise
Ano IX
c a r t a d o e d ito r
Adalberto A. Goulart
Encerramos 2004.
Naquele momento, o momento da virada...
Fogos de artifício! Champanhe! Abraços, sorrisos (algumas lágrimas). Festa! Orações, desejos e promessas
para brindar o novo ano que se inicia, assim de mansinho.
Pular sete ondas de costas e flores para Iemanjá. Roupa
nova, branquinha como manda a tradição. Roupa íntima
então, tem que estar novinha em folha. Amarela trará dinheiro, vermelha sorte no amor e etc, etc, etc...
Toda a virada de ano é a mesma coisa, todo mundo
já sabe. Então, sopa de lentilhas para dar mais um
pouquinho de sorte, não custa nada.
Nada. Nada de realmente novo. Depois janeiro, verão, Carnaval... E os dias parecem os mesmos de sempre. Ficamos mais velhos, claro. Viramos a página, trocamos os calendários e agendas, afinal não queremos saber do que passou. Agora é tudo novo. Novo ?
Guerras, violência, miséria, injustiça, egoísmo, mentiras
e auto-enganos. Esta última, aliás, encontra-se entre as maiores habilidades do ser humano: enganar a si mesmo, não
há nada que possamos fazer melhor, nisso somos experts !
Não é possível esquecer se não pudermos lembrar.
Lembrar sempre, muito, de tudo e tentar, com esforço
aprender com a experiência vivida. Assim ter a chance de
transformar a si mesmo e, aos poucos, contribuir para
transformar a realidade que nos cerca e, um dia, quem
sabe, o mundo inteiro. Só então o novo se apresentará, o
novo que se constrói a cada dia, a cada momento vivido,
sempre como se fosse o único. Poder se dedicar por inteiro, colocar o melhor de si em cada gesto, em cada intenção, em cada palavra dita ou não dita. Abrir-se em direção
ao que ainda não existe, ao que nunca foi vivido e ter a
verdade como meta. Sempre.
Este é o nosso maior desejo. Aos nossos familiares e
não familiares. Aos nossos amigos e não amigos. Aos
nossos colegas e não colegas. Aos nossos clientes e não
clientes. Mas este não é um desejo, é uma convocação:
precisamos construir!
Então construamos:
Sonhos e realizações !
Saúde e Paz. Muita Paz !
Tudo novo, bem novinho.
Esta edição do ABP NOTÍCIAS traz, no PERFIL, uma
entrevista com Antonio Bento Mostardeiro, da SBPdePA,
que nos conta um pouco da sua enorme experiência, tendo sido integrante da primeira turma de psicanalistas formada no Rio Grande do Sul. Elie Cheniaux, da SPRJ,
coordenador e um dos fundadores do Grupo de Estudo e
Pesquisa em Neuro-Psicanálise do Rio de Janeiro
(GENPSA – Rio) fala sobre a finalidade do grupo e convida os interessados a se associarem. Theodor Lowenkron,
João Frayze-Pereira e Fabio Herrmann dedicam-se a
problematizar as questões relativas à pesquisa em psicanálise, com a colaboração de Iliana Horta Warchavchik,
Luciana Saddi e Magda Guimarães Khouri no livro
“Pesquisando com o Método Psicanalítico”, lançamento
da Casa do Psicólogo. Teresa Haudenschild (SBPSP) e
Renata Aleotti (Candidata da SBPSP) nos informam sobre a COWAP. Sônia Carneiro Leão (SPRJ) escreve sobre
“O Vazio da Representação e o Autismo”. Sônia Curvo de
Azambuja (SBPSP), tece, com bastante atualidade “Considerações sobre o Pensamento de Armando Ferrari”. Em
entrevista ao ABP NOTÍCIAS, Telma Barros (SPR), nos
fala sobre o DPPT e sobre o Evento Preparatório para o
44º IPAC, a ser realizado no mês de abril, em Recife. Nossos parabéns ao colega Juarez Guedes Cruz (SPPA) pela
conquista do Prêmio Açorianos, o maior da literatura no
Rio Grande do Sul. Noticiamos, com pesar, o falecimento
da Dra. Susana Lustig de Ferrer, Membro honorário da
Asociación Médica Argentina, vice-presidente para América Latina da Associação Psicanalítica Internacional, cofundadora do Departamento de Crianças e Adolescentes
da Associación Psicoanalítica Argentina, e integrante do
Comitê de Formação de Novos Grupos Psicanalíticos na
Europa do Leste. Completando a edição, Notícias e Programação das Federadas e o Calendário de Eventos.
Que a sua leitura seja muito prazerosa!
Até breve.
Nº25 Rio de Janeiro Fevereiro/2005
Mostardeiro destaca as barreiras vencidas pela psicanálise
Da vergonha ao reconhecimento. Para Antônio Mostardeiro, membro fundador e analista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto
Alegre (SBPdePA), houve uma mudança de visão das pessoas e avanços significativos nos campo psicanalítico. Formado pela primeira turma
de psicanalistas no Rio Grande do Sul, Mostardeiro diz que problemas clínicos, causados por situações traumáticas, jamais serão explicados
sem o estudo da mente. Este tema e outros assuntos polêmicos estão em Perfil. (pág.3)
Telma Barros mobiliza analistas para eventos antes do 44º congresso da IPA.
Em entrevista ao ABP Notícias, Telma Barros, analista didata da Sociedade Psicanalítica do Recife e organizadora do evento preparatório
para o 44º Congresso da IPA, fala sobre a oportunidade de mostrar a produção científica brasileira aos convidados de outros países. A
psicanalista também conta como conseguiu aprovar um projeto para disponibilização de recursos junto a IPA e ressalta a importância da
realização simultânea da Assembléia de delegados da ABP. (pág. 5)
O olhar do pintor espanhol Francisco Goya
Grupo de estudo em Neuro-Psicanálise é formado no Rio de Janeiro
Com o objetivo de tornar-se uma ponte entre a psicanálise, a neurociência, as psicologias cognitivas e a psiquiatria biológica, o Grupo de
Estudo e Pesquisa em Neuro-Psicanálise (Genpsa) é constituído no Rio. Seu objetivo é promover cursos, simpósios, e outras atividades para
estimular o estudo na área. Com ênfase no estudo da metapsicologia freudiana, o Grupo recebeu recentemente o reconhecimento da Sociedade Internacional de Neuro-Psicanálise. (pág. 12)
Comitê Mulher e Psicanálise da IPA faz intercâmbio sobre psicossexualidade
A relação entre pais e filhos, o poder, a aceitação e o lugar da mulher na escala social são alguns dos temas recorrentes do Comitê Mulher
e Psicanálise da Associação Psicanalítica Internacional (COWAP, na sigla em inglês). Criado em 1998, o Comitê promove intercâmbio científico
internacional e já tem 12 livros publicados. (pág.12)
Livro questiona formas de pesquisa em psicanálise
O livro “Pesquisando com o método psicanalítico”, de Fábio Hermann e Theodor Lowenkron, está sendo relançado. A obra apresenta
questionamentos sobre as formas de pesquisa e traz um retrato da produção da SBPSP. Os autores procuram mostrar que a psicanálise pode
ser reinventada, se métodos tradicionais foram revistos. (pág.16)
Apoio:
Casa do Psicólogo® Livraria e Editora Ltda.
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E xpediente
2
Órgão da Associação Brasileira de Psicanálise
Conselho Diretor
Presidente – Carlos Gari Faria
Secretário – Pedro Gomes
Tesoureiro – Regina Lúcia Braga Mota
Diretor do Conselho Científico –
Cláudio Rossi
Diretor do Conselho Profissional –
Mário Lúcio Alves Baptista
Diretor do Deptº.de Publicações e Divulgação – Adalberto Antônio Goulart
Diretor da Comissão de Relações Exteriores – Maria Eliana Mello Helsinger
Diretor Superintendente – Maria de San
Tiago Dantas Quental
Secretária Administrativa – Lúcia
Lustosa Boggiss
Eduardo Afonso Júnior
José Luiz Meurer
Sylvain Nahum Levy
José Alberto Florenzano
Jacques Zimmermann
Leila Tannous Guimarães
Vera Lúcia Costa de Paula Antunes
CarlosGariFaria
Comissão de Psicanálise e Cultura
Leopold Nosek (Coordenador)
Comissão de Psicanálise da Criança e
do Adolescente
Rute Stein Maltz (Coordenadora)
Comissão de Psicanálise e Pesquisa
Theodor Lowenkron (Coordenador)
Deptº. de Publicações e Divulgação
Editor da Revista Brasileira de Psicanálise Comissão de Psicanálise e a Universidade
Leopold Nosek
Sérgio de Freitas Cunha (Coordenador)
Editora Associada
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Comissão de Documentação, Comunicação e Internet
Rosa Maria Carvalho Reis (Coordenadora)
Delegados
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Comissão de Ligação com Entidades
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Médicas
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Jair Rodrigues Escobar (Coordenador)
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Wilson Amendoeira
Comissão de Ligação com a Psicologia
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Inúbia Duarte (Coordenadora)
Raul Hartke
Jair Rodrigues Escobar
Comissão de Difusão da Psicanálise
Telma Gomes de Barros Cavalcanti
Maria Olympia França (Coordenadora)
Humberto Vicente de Araújo
Bruno Salésio da Silva Francisco
Comissão de Estudos sobre Formação
José Francisco Rotta Pereira
Psicanalítica
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Suad Haddad de Andrade (Coordenadora)
Leonardo A. Francischelli
José Cesário Francisco Júnior
Comissão de Núcleos filiados à ABP
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Regiões: Norte, Nordeste e Sudeste até Rio
Regina Lúcia Braga Mota
de Janeiro
Sylvain Nahum Levy
José Fernando de Santana Barros (CoorLeila Tannous Guimarães
denador)
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Regiões: Sudeste a partir de São Paulo, Sul
Neilton Dias da Silva
e Centro Oeste
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Paula Fiorito
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Redatora:
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A ABP vem encontrando uma
receptividade significativa e, por extensão, estimulante também, ao trabalho para a realização de nosso próximo Congresso em novembro do ano
que está começando.
Em Brasília, temos recebido manifestações de muito boa acolhida e
interesse maior advindos de vários
setores.
De parte do Poder Público, em 4
de outubro, a mensagem do Governador do Distrito Federal, Joaquim
Roriz, que junto com algumas outras
está publicado nesta edição do nosso Jornal.
Do Senado Federal, as recebemos
através de ofícios; em 29 de setembro, assinado pelo Senador Paulo
Otávio e, em 5 de outubro, assinado
pelo Senador Cristóvão Buarque.
O Secretário de Segurança Pública e Defesa Social do Distrito Federal, dr. Athos Costa de Faria e também o Grupamento Especializado de
Policiamento Turístico (que atua em
parceria com a Secretaria de Turismo) este sob o comando de Sérgio
de Albuquerque Melo Neto, vem colocar os recursos humanos de suas
esferas respectivas à disposição deste Congresso.
De outra parte, existe também o
“Brasília Convention & Visitors
Bureau”, entidade que se dedica ao
fomento da atividade turística no segmento de Eventos. Em uma carta, seu
presidente, Elydio Santoro de Barros,
nos apresenta Brasília, em suas palavras “a única cidade do século XX
inscrita na lista da UNESCO como
Patrimônio da Humanidade” e formaliza seu apoio ao nosso XX Congresso repassando à ABP, informações e
dados básicos (num espectro que vai
desde os espaços físicos até a dimensão cultural) visando facilitar a sua
realização na capital federal.
Em visita ao Congresso Nacional,
em companhia de colegas membros
da comissão local, recebemos a grata notícia sobre a possibilidade (a ser
confirmada em função do calendário daquela Casa) de realizarmos a
Sessão de Abertura do XX Congresso na sala Petrônio Portella, o espaço do Senado Federal reservado
para a realização de algumas cerimônias solenes.
Neste contexto e junto com seu valor intrínseco, vemos refletir-se também a presença e engajamento de
psicanalistas que compõem a Sociedade de Psicanálise de Brasília e dos
candidatos em formação no seu Instituto. São eles, em parte, nossos representantes locais na cidade que
será sede de um Congresso que por
ser nacional é feito pela presença e
participação de todas as Sociedades
que compõem a ABP. É um ponto de
encontro e ao mesmo tempo produto
do pensamento, da técnica e da prática psicanalítica, fundamentos que
são preservados, desenvolvidos,
atualizados e aplicados pelas Sociedades que fazem a Psicanálise existir no Brasil com o reconhecimento e
presença da Associação Psicanalítica Internacional.
Perfil
3
Existe algo inexplicável no ser humano:
Os males da alma
Antônio Mostardeiro, membro fundador e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de
Porto Alegre, fez parte da primeira turma de psicanalistas formados no Rio Grande do Sul. Atualmente,
dirige seminários clínicos sobre o idoso, fundamentos da psicoterapia e supervisiona alunos do curso
de especialização em Psiquiatria e Psicoterapia do Instituto Mário Martins. Nesta entrevista, fala sobre
o início da psicanálise no estado, sua carreira e sobre temas polêmicos dentro do segmento, como a
regulamentação da psicanálise, a existência de duas entidades em Porto Alegre ligadas à IPA e o uso
de medicamentos dentro da profissão.
3 – Quem fazia parte
desta primeira turma?
Mostardeiro – Eu me
lembro de alguns que estavam naquela turma. Acho
que o Carlos Knijnik, a
Beatriz Piccoli, o Marcelo
Blaya Peres, entre outros.
Antônio F. Bento Mostardeiro
1- O sr fez parte da primeira turma de
psicanalistas formados no Rio Grande
do Sul. Mas, recentemente, participou do
grupo que deu origem à SBPdePA. Na
sua opinião, o que mudou na psicanálise ao longo desses anos, que vão da sua
formação à criação da SBPdePA? O sr
consegue perceber mudanças na sociedade em relação à Psicanálise?
Mostardeiro – Na década de 60, havia
uma objeção grande à psicanálise e ao tratamento psicanalítico, ainda era algo estranho em nosso meio, as pessoas que se analisavam escondiam isto, ocultavam que estavam em análise. Eu me lembro que algumas pessoas costumavam estacionar seus
carros em ruas transversais para não mostrar que estavam se dirigindo para um consultório de psicanalista. Hoje em dia estar
em análise é motivo de conversas sociais.
2 – Quando o sr começou a formação na SPPA, esta já tinha sido reconhecida como sociedade?
Mostardeiro – Não, foi reconhecida no
ano em que eu comecei a formação.
4 – Como o sr afirmou,
era uma época em que as
pessoas se envergonhavam
de fazer psicanálise. O que
o levou a pensar em fazer
formação analítica, vindo de
uma formação médica onde
esta ciência nem fazia parte
do currículo?
Mostardeiro – Eu me
formei em medicina em
1953. Na época, nem mesmo a psiquiatria
existia dentro da faculdade. O curso era
extracurricular e durava um semestre, com
uma aula por semana. O que o professor
fazia era mostrar alguns pacientes
psicóticos durante esse período, maiores
estudos não existiam. Era uma disciplina só
de presença, não tinha prova.
Nessa época eu ainda não tinha me resolvido pela psiquiatria. Comecei a me interessar mais no momento em que eu fui fazer
clínica, cardiologia. O Rubens Maciel talvez
fosse o mais importante cardiologista da época, em Porto Alegre, e ele dizia assim: “se
um médico fosse manter em seu consultório
somente os pacientes de problemas cardíacos reais, perderia 80% de sua clínica”.
Outras coisas que eu fui encontrando
no meu trabalho foram uma porção de situações que me chamaram a atenção para o
sofrimento psíquico do homem. Talvez para
outro médico não fosse relevante, mas para
mim era vital.
Pessoas com problemas clínicos, na
maioria das vezes, tinham uma relação com
situações traumáticas. Por exemplo: um
homem procurou tratamento porque estava com problema de úlcera gástrica, ou
gastrite, provavelmente os gastroenterologistas dariam até outros diagnósticos.
Ele chega e diz assim: “eu comecei com
esses meus problemas depois que eu ia
indo pela rua com a minha filhinha de três
anos, ela escapou da minha mão, correu
para o meio da rua, foi atropelada e morreu”. Havia neste relato algo que estava
além do sofrimento físico, da alteração na
mucosa gástrica e que não podia ser expressado. Outra paciente que dizia: “comecei com uma artrite reumatóide quando tive
que sair num dia de inverno para buscar
água no poço para lavar o corpo do meu
irmão que tinha se suicidado”.
Eram situações que eu percebia a relação entre a patologia orgânica, com uma
situação traumática importante, de outra
natureza, um sofrimento emocional. Outra
paciente buscou consulta por lupus
eritematoso sistêmico. Na anamnese pude
constatar que o lupus apareceu depois que
ela foi assaltada e estuprada.
dela, ela vai crescer ao meu lado, vou
educá-la, por fim, ela vai ter filhos e eu vou
ajudá-la com meus netos. De repente, isso
tudo vai por água abaixo. Eu pertenço a uma
família, principalmente, pelo lado da minha
mãe, que tinha inúmeros médicos, e meu
pai, tinha um irmão médico também. Então, acho que meu interesse pela medicina
esteve sempre presente. Entretanto, acho
que algo intrinsecamente meu contribuiu
para que minha atenção se voltasse para
este tipo de problema.
Essas coisas têm relação com o que a
gente acredita que vai sanar os males. E o
que estamos falando, são os males do corpo em primeiro lugar e, aos poucos, vamos
percebendo que existe algo inexplicável no
ser humano: os males da alma.
6 – O sr. participou da criação da
SBPdePA. O que o levou a fazer parte
do novo grupo e mudar para outra instituição?
Mostardeiro – Muitas decisões tomadas
na vida são ditadas pela necessidade de se
achar espaço para trabalhar. Quando eu fazia parte do Departamento de Psiquiatria e
Medicina Legal, houve uma cisão lá dentro
que me levou a me afastar do grupo. Como
em todo agrupamento humano, as sociedades psicanalíticas também sofrem deste mal,
houve um grupo que tomou para si as principais tarefas institucionais e um outro que ficou em parte alijado das decisões. Este foi
um dos motivos que me levaram a me afastar de minha sociedade e me unir a um grupo que pensava em criar uma nova instituição psicanalítica, ligada à IPA, em Porto Alegre. A busca por um lugar para trabalhar e
também para poder ensinar psicanálise esteve no centro de minha decisão.
5 – É interessante, porque o sr. resgata a questão do trauma, que será o
tema do próximo congresso da IPA.
Mostardeiro – O trauma é de suma importância para a compreensão do sofrimento psíquico. Mas, o que eu considero como
uma situação traumática relevante para o
psiquismo de uma pessoa? Acredito que sua
importância está configurada quando ela
desmonta uma fantasia de vida que pode ser
uma coisa simples: eu casei, minha vida de
casado vai ser assim e assado, e eu levando minha vida desse jeito, vai dar tudo certo.
Por uma razão qualquer, não dá, algo interfere; pode ser uma doença orgânica, pode
ser uma doença psicológica, pode ser en7 – A existência de duas instituições
fim, esse homem, por exemplo, cuja filha é
em Porto Alegre ligadas à IPA, contribuatropelada e ele se culpa por isso.
Seu projeto de vida se desmonta, deixa em para o crescimento e a expansão da
de ser: eu tenho essa filha, eu vou cuidar psicanálise ou atrapalham?
Perfil
4
continuação
Mostardeiro – Não acho que atrapalhe.
Os motivos que uniram as pessoas que fundaram a SBPdePA eram variados. Alguns
vieram de formações na Argentina, outros
no Rio de Janeiro e buscavam espaço em
nosso meio para divulgar seu conhecimento, isso é muito positivo. Uma sociedade
obriga a outra a refletir sobre seus critérios
de formação. A SPPA era fechada em relação aos psicólogos e hoje a formação psicanalítica para psicólogos está aberta em
várias instituições. Na cidade também existem instituições sérias, não ligadas à IPA
como o Instituto Mario Martins que contribuem de maneira importante na divulgação
da psicanálise, como quando trouxe a Porto Alegre o dr. Sandler, presidente da IPA,
para fazer conferências e palestras para
estudantes de psicologia e medicina. Estas
instituições durante um tempo se mostraram mais abertas que as instituições oficiais. Estavam mais dispostas a estudar outros psicanalistas, suas abordagens teóricas eram menos ideológicas. No momento
que existem conceitos teóricos diferentes,
a técnica da interpretação, a maneira de
entender o material mudam. Entretanto algumas coisas permanecem em comum,
como acreditar na existência do inconsciente. Como fazer isto é outra história, mas
acho que isso sempre existiu, desde os
primórdios da psicanálise. Eu, por exemplo,
terminei ontem uma disciplina em que o último autor que nós vimos foi Ferenczi, e o
último trabalho que nós vimos foi “Confusão de Línguas entre adulto e criança”. Acho
que é algo presente na psicanálise.
8 – A psicanálise, aos poucos, foi se
afastando da comunidade científica, se
isolando, se afastando das universidades, isso não nos isolou em relação às
outras ciências?
Mostardeiro – Creio que a psicanálise
sempre foi isolada. Durante um tempo se
aproximou das artes, melhor seria dizer que
os artistas é que se aproximaram da psicanálise, porém, isso é uma coisa, outra coisa é a ciência. Freud, quando escreveu
“Moisés e o monoteísmo”, “Totem e tabu”,
ou seu trabalho sobre Leonardo Da Vinci,
procurou fazer uma aproximação da história, da antropologia, da cultura e das artes
com a psicanálise, afinal ele era um homem
da cultura, o que foi chamado de psicanálise aplicada. Isso tem um risco bastante
grande, porque quando olho com meus
olhos e meus conhecimentos de psicanalista para alguma manifestação cultural,
observo os fenômenos por este prisma e
isto pode nos levar a distorções. É uma
busca da relação da psicanálise com outras coisas. Mesmo na época do Freud, a
psicanálise não era plenamente aceita no
mundo acadêmico. Uma série de coisas na
psicanálise é assim porque os analistas não
querem a sua inserção nas universidades.
Atualmente está em discussão a regula-
mentação profissional. Por que os analistas nunca quiseram isto? Acredito que não
quiseram porque a normatização implica dar
o poder para os que não são da área se
meterem. Se eu, por exemplo, vou para uma
universidade, o MEC tem direito de se meter no que eu faço, e se eu não seguir à
risca o que eles mandam ou pelo menos
aproximadamente, eles me põem pra rua.
Vão se meter no currículo e na avaliação,
na aprovação, na seleção.
9 – A psicanálise tem procurado se
aproximar da população que precisa de
atendimento psicoterápico?
Mostardeiro – O que o Abraham fazia
em Berlim na sua época? Ele tinha uma clínica de atendimento, não era um consultório. Naquela época já se apresentava esta
necessidade. A psicanálise, em sua forma
clássica, realmente exige determinado tipo
de pessoa interessada em alcançar maior
conhecimento sobre si mesmo. Por este
vou querer continuar com essa situação,
mas não vou querer te transformar em meu
analista, saber de mim”. No momento em
que ele estava relatando esta história, relatava a história de todo o tipo de atuação
que acontece no consultório de alguns analistas, seja homem ou mulher. Quando me
sinto incapaz de tratar uma coisa, faço algo
que me devolva a capacidade, nem que seja
só a capacidade fálica.
11 – Hoje, estamos divididos entre
partidários das psicoterapias e da
psicofarmacologia. Parecemos estar divididos entre ser humano ou serotonina.
Como o sr. avalia o uso quase indiscriminado de medicação?
Mostardeiro – Vou te dar uma resposta paralela. Existem trabalhos feitos por residentes e a variação do uso de medicamento com os pacientes. Então tem uma
coisa assim: se tu tens um paciente deprimido que sofreu uma perda por morte e é
“O trauma é de suma importância
para a compreensão do sofrimento
psíquico.”
ângulo ela pode ser considerada elitista,
antes de mais nada, pela exigência de ser
uma busca pela verdade pessoal, assim
poucas pessoas podem tirar proveito deste
tipo de tratamento, ou melhor, de
autoconhecimento.
10 – A sociedade mais permissiva,
como a que a gente vive hoje em dia,
mudaram os pacientes que buscam atendimento. Os analistas, mudaram também?
Mostardeiro – Esta é uma situação
complicada porque estamos falando sobre
permissividade da atuação. Vivemos, hoje,
como se a atuação não tivesse maior importância. Essa permissividade vem de alguns analistas. Acho que isso tem a ver,
com os sentimentos de perda de capacidade. Penso que alguns perderam a fé em seu
instrumental analítico. Tem um livrinho de
ficção que é escrito por aquele mesmo homem que escreveu “O dia em que Nietzsche
chorou”. É um terapeuta americano e acho
que ele faz uma abordagem, no início do
livro, de onde sai todo o resto do livro. É um
psiquiatra velho que faz um pacto com uma
paciente, ela diz para ele assim: “se tu tiveres relações comigo, depois eu digo para ti
o que tu queres saber de mim”. Ele embarcou nessa, e depois que isso aconteceu ela
disse assim: “não vou te contar nada, eu
sujeito bonzinho, vou ser um homem que
vai ganhar méritos diante de Deus, eu posso sofrer aqui, posso ter uma vida ruim,
mas com isso vou ganhar a eternidade em
que eu vou ter tudo o que desejo. Não tenho a eternidade da carne, mas a eternidade do espírito, e acho que é assim porque não queremos essa finitude. Quanto
a isto nada podemos fazer, a medicação
não pode alterar este estado de coisas mas
pode interferir nos estados de consciência, nos afetos. Não é por estar deprimido
ou não estar deprimido, que vou pensar
que vou morrer ou não. Agora, a maneira
como eu vou me sentir diante disso é que
vai ser diferente.
13 – Um conceito que aos poucos foi
transformado, dentro da psicanálise, foi
o conceito de contratransferência. Hoje,
é visto como instrumento importante na
compreensão do inconsciente. A necessidade de o analista conhecer o seu próprio inconsciente não aumenta a responsabilidade das análises didáticas? Por
que houve uma época em que analistas,
que fizeram somente a análise didática,
tinham menos tempo de análise do que
o paciente consultado?
Mostardeiro – É que nós estamos falando de uma coisa que envolve uma porção de histórias. O que significa um analista-didata chegar na sociedade e dizer assim: fulano não serve para ser analista. Isto
significa Poder, com maiúscula. Como ele
poderia reconhecer um fracasso, uma impossibilidade, uma limitação da análise,
sem que isso significasse perder prestígio
entre os seus pares? Qual é o maior erro
que está havendo atualmente na seleção
de candidatos? Na minha opinião, é a seleção de pessoas com distúrbios de personalidade, com problemas graves de caráter. Talvez a contratransferência, em certo
sentido, seja uma das coisas que mais ferem o analista. Em uma apresentação que
fiz, disse que todas as regras que, nós analistas, seguimos têm uma finalidade única:
nos prevenir contra este mal, nos prevenir
contra a atuação de nossa contratransferência.
visto como se esse fator fosse desencadeante da depressão, o uso que os residentes fazem de um antidepressivo com
esses pacientes é diferente da dose usada
em outros pacientes deprimidos, eles usam
doses maiores.
É como se dissesse assim: eu não vou
deixar que te entristeças, não vou deixar
que passes pelo sofrimento do luto. Magicamente, resolvo o teu luto. Na verdade,
não vai resolver a elaboração do luto, vai
resolver uma parte do sofrimento, vai resolver o sintoma. Os antidepressivos não
resolvem a ideação neurótica do
depressivo, resolvem o sintoma da depressão. O ideal dos homens parece ser não
14 – Ainda vale a pena fazer formasentir nada, ter uma droga para cada emoção analítica?
ção para não ter emoção nenhuma.
Mostardeiro – Para quem tem determinados objetivos, valores e acredita que
12 – Não é um ideal mortal?
Mostardeiro – Estamos falando em alguns sofrimentos partem da alma humasentir que vai morrer. Quando falamos em na e não só do biológico, vale a pena. Se
depressão: qual é a vivência mais relacio- não quero me incomodar com pacientes, se
nada com ela? A morte. Nossa compreen- quero resolver com uma pílula, se quero
são psicanalítica é que é destruição. Qual fazer uma feitiçaria e assim magicamente
é o problema do homem desde o início da terminar com a história, vou fazer outra coisua existência? A morte, é o maior golpe sa. A melhor profissão deve ter relação com
que nós temos em nosso narcisismo. Po- a identidade da gente, sabe? Eu não me
demos resolver qualquer coisa, mas tem entenderia não sendo um psicanalista, não
uma questão que não podemos fugir, en- saberia ser comerciante, um industrial, estão buscamos afastá-la da consciência. tes são os fatos da vida e não temos como
Quando fico dizendo assim: vou ser um escapar.
Entrevista
5
Coordenadora de evento preparatório destaca
importância do 44º Congresso da IPA
Telma Barros Cavalcanti é analista didata da Sociedade Psicanalítica do Recife, onde foi diretora
científica em 2001/2002 e presidente na última gestão, 2003/2004. Além disso, é coordenadora
geral do evento preparatório para o 44º Congresso da IPA a se realizar em abril, em Recife. Em
entrevista ao ABP Notícias, ela conta como se deu o reconhecimento da SPR pelos governos
estadual e federal e a importância do Brasil sediar o Congresso da IPA pela primeira vez.
Telma Barros
ABP NOTÍCIAS - No final de 2004, um
projeto de sua autoria elaborado para o
Development of Psychoanalytical
Practice and Training (DPPT), foi aprovado pela IPA com disponibilização de
recursos para a SPR. Qual foi sua motivação para realizar o projeto?
TELMA BARROS - A oportunidade de
partilhar com os colegas as idéias que me
levaram a investir nesse projeto e as reflexões que surgiram ao longo de sua elaboração e execução, certamente constituem
uma etapa importante. Sempre acompanhei
de forma atenta os comentários e referências feitas à psicanálise assim como as críticas e os problemas apontados como causadores das dificuldades que são alvo das
queixas de tantos analistas.
Temos o hábito de fazer queixas e apontar os possíveis culpados para nossas dificuldades e limites. Entretanto, qualquer um
que tenha vivenciado um processo analítico razoavelmente bem sucedido e que, através dele, tenha alcançado um funcionamen-
to emocional menos regredido,
descobriu que a origem de suas
dificuldades e as possibilidades
de superação, residem em si
próprio.
Nessa perspectiva, creio
que cabe a nós, modificar a atitude passiva de apenas nos
queixar e passarmos a utilizar
as oportunidades que surgem
como a proposta da IPA para o
DPPT. Com empenho e
criatividade certamente podemos contribuir para tornar mais
efetiva a expansão da psicanálise, preservando sua estrutura.
Muitas dificuldades decorrem
da prática inadequada do método psicanalítico e das falhas
nos processos de seleção, avaliação e demais aspectos de
uma formação analítica. O trabalho sério,
ético, comprometido e consistente de cada
analista, é sem dúvida, o melhor instrumento que temos para enfrentar os desafios.
A proposta da IPA para o DPPT, tem
objetivo claro de aprovar projetos e dar suporte à pesquisa ou plano de ações que favoreçam o incremento da prática e da formação analítica. As sociedades psicanalíticas da América Latina, com raras exceções,
enfrentam dificuldades financeiras que limitam o seu raio de ação e melhoria dos serviços prestados. Quando surgiu a oportunidade do envio de projetos, não relutei em
investir todo o tempo possível e trabalhar
durante o ano de 2004, no projeto e na realização das ações nele previstas.
Para elaboração do projeto utilizei o
aprendizado acumulado nos meus dois
anos como diretora científica e na experiência que a presidência da Instituição me
possibilitou ter, que foi a de conhecer o funcionamento de outras sociedades e principalmente a oportunidade de conhecer internamente a minha própria Sociedade.
Essas reflexões me levaram a elaborar estratégias que pudessem atender ao objetivo de fortalecer o nome de nossa Instituição, divulgar a psicanálise e a formação
psicanalítica por nós oferecida. Para esse
fim, foi efetuado um investimento no sentido de incrementar a interlocução com os
profissionais, estudantes e a população em
geral, procurando identificar por um lado,
os temas abordados em todos os eventos
psicanalíticos locais, nacionais e internacionais e por outro, pesquisar e tratar temas
que afligem e mobilizam o ser humano na
atualidade.
Vivemos uma época cujos valores caminham na direção oposta ao movimento
natural da análise. A psicanálise como lugar, tempo e espaço para pensar a subjetividade humana, tem sido pressionada a
seguir caminhos que podem conduzi-la para
longe da sua essência, para longe de seu
método. É preciso abrir novos caminhos e
realizar, tanto individual como
institucionalmente, as transformações que
assegurem a manutenção de nossa identidade psicanalítica.
Diferentes formas de pressão chegam a
nós de várias direções. Estamos inseridos
no contexto da atualidade. Somos
freqüentemente atingidos pelas características e pela cultura de nossa época. Em algumas ocasiões me surpreendi com o fato de
ouvir de pacientes, cujas profissões diferem
da nossa, testemunhos de crença na importância e eficácia da psicanálise e em
contrapartida, ouvir de alguns analistas frases que expressam desconfiança, decepção
e pouco compromisso em relação à psicanálise. Assim como a sociedade em que vivemos, nossas instituições têm também as
suas enfermidades, as quais são responsáveis em parte, pela propagação de distorções
na prática e na formação analíticas.
A tendência a obter o que chamo de “bônus sem ônus”, instalou-se na sociedade
em que vivemos e com um olhar atento
podemos identificar as marcas de tendências como esta, em nosso meio. O
imediatismo, a fuga ao pensar e o culto ao
hedonismo, têm contribuído para um movimento que traduz o “vale tudo” e “no limits”,
e que seduzem na direção de práticas não
terapêuticas e pouco éticas, em relação às
quais precisamos estar alertas. Como seguidores de Freud, temos a responsabilidade e o compromisso de cuidar da herança que dele recebemos e usufruir de seu
legado com todos os bônus e ônus, o que
inclui a vocação da psicanálise de provocar reações, resistências e suscitar críticas
e ataques. Os desafios que enfrentamos
não constituem um fato novo na história da
psicanálise. Temos por exemplo, a existência de outros grupos e formas de tratamento
que passaram a ocupar espaços que deixamos de ocupar, ou ocupamos de forma
insuficiente ou inadequada.
É preciso que existam analistas cuja
prática, produção teórica e atitudes, constituam um estímulo e um referencial coerente e consistente, em relação ao qual pessoas possam estabelecer uma identificação.
ABP NOTÍCIAS - Quais as características do trabalho e da atitude do analista que
fomentariam o fortalecimento da
credibilidade no trabalho analítico e o interesse na formação analítica?
TB - Na minha maneira de ver, somos
trabalhadores que prestamos um serviço e
utilizamos a nós mesmos como instrumento de trabalho. Como trabalhadores, creio
que em nosso ofício, nos assemelhamos a
profissionais tais como os pianistas, os bailarinos e outros que constroem sua profissão desenvolvendo a si mesmos, às suas
condições, através de anos de experiência
profissional, treinamento diário, muito estudo, contato com as emoções e conhecimento técnico. Há que adquirir um repertório, como um alfabeto, seja de sons ou pas-
6
continuação
sos, que permitem após anos de experiên- no conhecido conto infantil “O traje novo do Estado e pelo Governo Federal. Qual a
cia, combinações infinitas e em alguns mo- do Imperador”, penso que a natureza do importância e o significado desse reconhementos a possibilidade de criar. Mesmo o nosso trabalho analítico, é semelhante à cimento?
mais exímio pianista ou bailarino tem que, função da criança no referido conto. Semno momento de sua apresentação, contar pre, em qualquer época, existirá uma criTB - Para os colegas de todas as sociecom todo esse repertório, mas ao mesmo ança a apontar a nossa nudez, a precari- dades, é importante destacar o significado
tempo, há que “esquecer” tudo isso e inte- edade de nossas defesas, os nossos sin- de cada uma dessas certidões, no momengrar corpo, mente e emoção e buscar con- tomas, a falsidade de uma imagem to em que o tema da regulamentação da
tato com seu interior. Só assim poderá al- construída para manter os aspectos Psicanálise como profissão, é alvo de decançar um desempenho pessoal, capaz de narcísicos da estrutura humana.
bates. Essas certidões constituem o recosensibilizar quem o ouve ou quem o vê.
É preciso que, através de uma presen- nhecimento do trabalho e determinam gaApós cada encontro com o seu “público”, ça sensível, o analista possa vivenciar essa nho significativo nas relações com as instihá que ter a consciência e a humildade de experiência com seu paciente, sabendo ser tuições governamentais, abrindo portas
retornar todos os dias ao seu treinamento, ele próprio também humano e, ao mesmo para outras conquistas.
procurar contatos ainda não alcançados tempo, ser capaz de prescindir das atituObjetivamente, esse reconhecimento
consigo mesmo, com as possibilidades de des de julgamento, crítica, humilhação, ar- coloca a SPR em posição de receber oficiseu corpo e de sua alma,
como se fosse um iniciante.
Esse processo envolve
tempo, paciência, introspeção, frustração, investimento e afeto. Ao mesmo
tempo que permite maior
conhecimento de si, de
seus limites e possibilidades, a consciência da responsabilidade em superar
as dificuldades e sobretudo
o prazer em consegui-lo. Ao
meu ver, esse paralelo, embora como todo paralelo
seja limitado e falho, me
parece ilustrativo de como
concebo o processo e a função analítica.
Precisamos ter a consciência de sermos instrumentos de nosso trabalho
e portanto, de que a nossa condição emocional de
acesso e comunicação
com nós mesmos e com o
paciente, deve manter-se
em contínua renovação. Analistas posam para foto durante Congresso da IPA, em Haia, no ano de 1920
Sobre este aspecto o Dr.
Antonino Ferro comenta que “o limite da rogância, preconceito e vaidade que se as- almente doações de pessoas, empresas e
Psicanálise é dado pelo limite do modelo semelham “à roupa nova do Imperador”, e entidades, assim como desfrutar de parceteórico de que dispomos, pelo limite da que tantos relutam em abandonar. De uma rias com os órgãos públicos e receber apoio
mente do analista, e das angústias que forma ou de outra, em um momento ou ou- e proposta de participação em projetos e/
ele pode suportar.
tro, em nossa vida, nos flagramos nus. Po- ou prestação de serviços. Os benefícios
Creio que precisamos resgatar a pai- dermos conviver com essa nossa condição, podem incluir ainda, a disponibilização de
xão pela psicanálise em muitos de nós e constitui uma luta diária e envolve um certo espaço físico para o desenvolvimento das
alimentá-la com a dedicação ao trabalho grau de humildade e aceitação. Certamen- atividades da Instituição.
que realizamos. É preciso renunciar à fan- te não somos tão bons como desejamos
O reconhecimento que obtivemos nos
tasia de auto-suficiência e da onipotên- nem tão maus como tememos. Então que torna ainda mais responsáveis e comprocia de ser tudo e poder tudo. Só assim se possa almejar apenas SER. E com essa metidos com o nosso dever de cidadãos,
poderemos acompanhar nossos pacien- consciência exercermos a nossa função e de profissionais da área da saúde e em
tes no processo de desnudar-se, de olhar termos a coragem de dizermos que “O Rei especial, como psicanalistas. Ser psicanapara si mesmo e deixar-se ver por um está nu”.
lista significa ter interesse pelo ser humaoutro, expor suas marcas, cicatrizes, inno, valorizar a subjetividade e trabalhar no
timidade, desejos e fantasias, dores, feABP NOTÍCIAS - Em 2004 uma de suas sentido de auxiliar o indivíduo em seu proridas, sentimentos, limites e ações como presidente da SPR, foi o de- cesso de vida, com atenção ao sofrimento
potencialidades, medos e destrutividade, senvolvimento de processos que culmina- psíquico.
enfim, tudo o que uma “roupagem” pode ram com a obtenção da Certidão de UtiliDo ponto de vista da coletividade, nosesconder, mas nunca eliminar. Tal como dade Pública da Sociedade, pelo Governo so compromisso não é menor. Vivemos
Entrevista
uma época na qual somos convocados a
dar a nossa contribuição e oferecermos o
nosso saber psicanalítico, para juntos com
outros saberes, pensarmos as questões
que afligem o ser humano na atualidade e
que condicionam transtornos que a cada
dia se avolumam na sociedade. Precisamos refletir, debater esses temas, e criar
formas de abordagem que venham a se
mostrar eficientes.
ABP NOTÍCIAS - Como coordenadora
geral de um dos eventos preparatórios
para o 44º Congresso Internacional da IPA,
qual a expectativa gerada em torno desses eventos?
TB - O ano de 2005
constitui um marco importante, sobretudo para nós
analistas brasileiros. Pela
primeira vez teremos um
Congresso da IPA em nosso país, durante o qual um
brasileiro, o Dr. Cláudio
Eizirik, assumirá também
pela primeira vez, a presidência da IPA, fundada por
Sigmund Freud em 1910.
A organização dos eventos preparatórios tem como
objetivo motivar a participação de um maior número de
pessoas no Congresso e
possibilitar que o tema central possa ser amplamente
investigado e debatido, contribuindo assim para que a
produção científica alcance
grande êxito.
A escolha de Recife para
a realização do evento atesta o reconhecimento da nossa capacidade de organização e execução, a partir de
experiências como o último Congresso Brasileiro aqui sediado. Outro fator diz respeito ao fato da SPR patrocinar quatro núcleos psicanalíticos (Aracaju, Fortaleza,
Maceió e Natal) e de ser uma Sociedade
que funciona como pólo difusor da psicanálise no nordeste.
A oportunidade de conciliar a realização
de uma Assembléia de Delegados da ABP,
durante esse evento, irá possibilitar a presença de analistas de todas as sociedades
e grupos de estudo vinculados à nossa associação.
O apoio obtido da ABP, FEPAL e IPA
contribuirá significativamente para que a
população do nordeste, possa ter acesso
também aos analistas convidados de outros países e será uma oportunidade para
que possamos mostrar a nossa produção
científica.
Artigo
7
O vazio da representação e o autismo
Sonia Carneiro Leão*
Não há bebê sem sua mãe. Como essa
dupla interagirá? Esse é o grande desafio
da vida. A mãe é um sujeito determinado
por uma falta, a falta do objeto que a completaria. O bebê ainda não é um sujeito e
necessita irremediavelmente da mãe para
sobreviver.
Da mesma forma, mães muito deprimi- da linguagem. Sem o recalque, o autista não
das podem induzir seu filho ao autismo por tem acesso ao um. Ele fica à deriva, num
causa da falta de uma identificação adequa- universo indiferenciado onde não há o ouda a ele, impossibilitando à criança a tro porque não há o sujeito, restando o essubjetivação de suas vivências. Mães que paço do vazio da representação.
também se apropriam de seus filhos como
objeto de sua carência não permitem a evoTornar-se um, individualizar-se, é frelução e a maturação dos processos inatos qüentar o mundo das representações, na
A boa mãe identifica-se a este recém- do bebê, aprisionando-os num mundo busca infinita de sentido, ser idêntico ao
nascido a tal ponto que pode conhecer aqui- fantasmático sem saída.
outro, não naquilo que, supostamente, o
lo que ele necessita. Mas, antes de tudo, a
completaria, mas ser idêntico porque submãe deverá ter sempre introjetada a idéia
A criança está destinada a separar-se e metido à mesma falta.
de que seu bebê é uma outra pessoa. A individualizar-se relativamente a seu meio,
identificação da mãe com o seu bebê vai a sua mãe. Ela parte do desconhecimento
O autismo é uma esquizofrenia muito preao ponto desta perceber e aceitar a exis- absoluto do meio-mãe, na fase do autismo coce, ocorrida antes mesmo de haver qualtência de seu filho como um sujeito a devir. primário, para, em seguida, fundir-se a ele quer organização egóica. As manifestações
e, posteriorautistas são
Não se trata de uma identificação maci- mente, sepaexpressas por
ça da mãe com seu bebê, pois isso impos- rar-se. Parece
descargas
sibilitaria, de saída, a experiência do pro- simples o
oriundas de
cesso fusão – separação, único modo de t r a n s c u r s o
angústias inium desenvolvimento emocional satisfatório. deste procesmagináveis,
so, mas não é
não simboliO bebê precisa viver no início de sua tanto assim.
zadas. Não
vida um autismo primário. Isso significa que A c i d e n t e s
havendo o ina transição da passagem do útero ao mun- nesta fase poconsciente
do externo deve ser vivida com o mínimo dem ocorrer
recalcado
de frustração possível para evitar o rompi- desviando a
como lugar
mento da linha da vida, ou seja, da conti- criança daquidas represennuidade do ser. O autismo primário é uma lo que poderia
tações incomfase normal no desenvolvimento do indiví- ser uma evopatíveis e disduo e, perturbação nesta fase da vida, pro- lução normal.
poníveis para
voca danos irreversíveis à estruturação do
o retorno do
psiquismo.
Primeiro a
recalcado,
criança busca
sem este reAs crianças autistas foram vítimas de matar a fome,
curso, a anterrores primitivos causados pela interrup- depois degústia não enção da linha da vida em função da não ade- mandar amor.
contra mediaquação dos cuidados maternos às neces- Esse é o cação possível
Man
with
Arms
Crossed,
1909
(Pablo
Picasso)
sidades vitais? E quais são essas necessi- minho que se
capaz de condades vitais? Nutrição e sossego, proporci- deve percorter e dar suonadas pelo bom holding e manejo como rer. Primeiro o bebê bebe o leite, depois, ao porte aos impulsos instintivos.
também a necessidade que o bebê tem de beber o leite, o bebê está incorporando o obcontar com o envolvimento desejante de jeto-mãe. Lingüisticamente falando, equivaNo autismo há um inconsciente primário insua mãe, fator essencial para a constitui- ler o leite à mãe já é uma primeira represen- capaz de colonizar as moções pulsionais. Não
ção de um ego saudável.
tação metafórica desta, já é uma primeira há realidade compartilhada e, tudo o que vier a
identificação que o bebê conseguiu fazer. Es- pressionar alguma representação, será radicalEstá provada a grande incidência de ses são um tempo “zero”, anterior ao mente negado e expulso do aparelho psíquico,
crianças autistas quando são internadas em recalque originário.
pois a realidade tornou-se fonte de perigo. O
instituições hospitalares ou de acolhimento
nexo. Esta palavra significa junção entre duas
quando recém-nascidas. Apesar dessas
Compreender o autismo é tentar enten- ou mais coisas, ligação vínculo, união. Nexum,
crianças, muitas vezes, serem atendidas der quais os acidentes que surgiram e im- do latim, significa atar, ligar, prender.
satisfatoriamente a nível biológico, alimen- possibilitaram a efetivação do recalque oriA linguagem é uma rede de signifitadas a intervalos regulares, cuidadas fisi- ginário, ou seja, o surgimento do sujeito da cantes, de palavras que se remetem umas
camente, elas não conseguem fazer laços falta, falta oriunda da percepção da impos- às outras na busca incessante de sentido.
emocionais significativos com o pessoal que sibilidade da fusão com a mãe. O recalque Na psicose há um discurso sem nexo, um
as atende, tornando-se meros corpos a se- originário é o marco “um” do psiquismo hu- discurso que não ata, como se a rede linrem tratados e manipulados.
mano, possibilidade única para o advento güística tivesse explodido.
Quem fala em nós? Há um sujeito que
se apresenta na fala, o sujeito que surgiu
no momento do recalque e que possibilitou
o advento da linguagem. No autismo há uma
fala sem sujeito, meros enunciados de palavras, destinadas a ninguém já que não
representam quem as enuncia.
Como pensar um mundo sem nexo e,
ainda, como pretender um tratamento para
a criança autista? Os autistas, vivendo em
estado de angústia inimaginável, batem-se,
mordem-se, estão sempre inquietos. Se quisermos ensinar-lhes bons modos, educarlhes, transmitir-lhes valores, eles nos agredirão com violência. Eles não querem aprender porque não têm desejo. Desejar é algo
muito sofisticado.
Por isso fracassam os tratamentos baseados em técnicas psicopedagógicas que
acabam acentuando a angústia da criança
ou, pior, levando-a a uma total submissão
ao desejo do outro. Como conduzir um tratamento para o autismo? Como lidar com o
vazio da representação?
Quando
estagiei
na
École
Experimentale de Bonneuill, em Paris, lugar destinado ao tratamento de crianças e
adolescentes autistas e psicóticos, aprendi
que o que pode mudar o estado mental
desses pacientes decorre da identificação
deles ao desejo do outro. Para que isso
ocorra, a escola oferece às crianças ateliers
de arte, música, literatura, teatro, entre outros, conduzidos, cada um, por profissionais
das respectivas áreas, como, por exemplo,
era um saxofonista de jazz que conduzia o
atelier de música. Para ele, a música representava como que sua própria razão de
viver, sua criatividade.
Havia, então, um setting, numa sala
adaptada para a execução de músicas, num
dia e numa hora determinados para esse
ritual mágico onde eram convidados os “alunos”, os estagiários e o professor de sax. A
música passava a ser o suporte para esse
nosso encontro. Comunicávamo-nos uns
com os outros num mais além de nós mesmos através da música e nos encontrávamos com aquilo que, talvez, tivéssemos em
comum: nosso amor pela música. Dessa
forma poderíamos quem sabe, um dia, fazer laço, fazer nexo.
*
Membro Efetivo da SPRJ
Artigo/Homenagem
8
1
Trauma do lar invadido
Adalberto A. Goulart2
N
Nestes cento e poucos anos de existência, a psicanálise tem nos ensinado muito a
respeito do ser humano e de como ele funciona ou reage diante das mais diversas situações. E, especialmente, nos dias de hoje, nós
como psicanalistas, somos solicitados constantemente a opinar e contribuir para o esclarecimento das mais variadas situações, desde os conflitos internos que assolam a alma
humana, até os conflitos entre gerações, entre povos, entre religiões, entre nações (existe uma Comissão da Associação Psicanalítica Internacional que funciona diretamente ligada à Organização das Nações Unidas), enfim, conflitos interpessoais de qualquer natureza.
De maneira particular, a psicanálise nos
mostra a importância dos primeiros anos de vida
na estruturação do psiquismo, da subjetividade
humana, que cria um modelo que persistirá por
toda a vida.
Mas, ensina também a respeito do comportamento dos povos ou nações excluídas e dos
excluídos das grandes cidades, aqueles que por
qualquer razão não podem compartilhar da porção de estabilidade social, financeira, bem-estar e cidadania que uma pequena parcela desfruta. E, discriminados sem saberem o porque,
movidos pela necessidade, pela inveja e pelo
ódio que tal situação desperta, passam a invadir as nossas cidades, as nossas casas, os
nossos carros, as nossas vidas, a nossa intimidade. Algumas vezes em busca de uma parcela de algo que injustamente não lhes coube receber. Outras tantas vezes apenas movidos
pela necessidade de destruir, veiculando o ódio
que não pode ser mais contido. São os marginalizados pela injustiça de um “pai” que não
sabe contemplar a todos os seus filhos com a
mesma quota de amor.
Se nos indignamos, com o conjunto dos fatos que torna explícita esta realidade, por outro
lado vemos o pânico, que as pessoas que são
vítimas diretas dessa violência, são obrigadas
a conviver. E, após o trauma concretamente
vivido, recebem como herança o medo, a insegurança, e não raramente a doença, que se instala nas suas mais diversas configurações, sejam de ordem física ou emocional.
Com a alma estilhaçada, o ego enfraquecido e assustado, muitas vezes essas pessoas
recorrem, inconscientemente, a formas de funcionamento emocional mais primitivas, como
um recurso de defesa contra o transtorno da
realidade, intolerante, insuportável.
Assim, podem lançar mão de fantasias oni-
potentes de negação da realidade interna
e externa, se expondo ainda mais a riscos
e perigos. Ou desenvolverem comportamentos paranóides, desconfiando de tudo
e de todos, também como uma atitude de
defesa primitiva, projetando para o mundo externo o ódio e a agressividade
ativados pela vivência da invasão violenta
das suas intimidades. Há pessoas, ainda,
que passam a desenvolver sintomas
psicossomáticos, retornando para o corpo
físico o que não pode ser elaborado psiquicamente. De qualquer maneira, são situações que exigem e merecem cuidado
e atenção. Amparo para a situação de desamparo. E respeito.
Mas, sem deixar de considerar a urgência em compreendermos que, se a nossa
sociedade não puder oferecer respeito, cuidados e amparo à grande massa de excluídos, todos seremos vítimas e algozes ao
mesmo tempo. Como temos sido.
1
Parte deste texto foi publicado pelo
Jornal do Brasil, edição de 06/10/2004.
2
“Saturno devorando seus filhos” (Goya)
ME e Analista Didata da SPR e do NPA.
Susana Lustig de Ferrer
Sower with Setting Sun (Vincent van Gogh, 1888)
Dor e tristeza são as palavras que melhor
descrevem as sensações produzidas pelo falecimento da dra. Susana Lustig de Ferrer, na sexta-feira, 8 de outubro.
Sua partida inesperada obriga a uma forçada despedida de quem escreveu algumas das
páginas pioneiras e mais importantes da história
da psicanálise da família no país e deixa nos que
a conheceram a lembrança inesquecível de uma
pessoa cuja vida foi caracterizada por uma imensa generosidade e total dedicação ao próximo.
Susana Lustig de Ferrer nasceu em Viena,
em 1934. De mãe austríaca e
pai Romeno, a turbulenta Europa nazista a obrigou a radicar-se com sua família na
Romênia, antes de atravessar
o continente para embarcar,
em Portugal, rumo à América
do sul, em 1942.
Chegou com seus pais à
Argentina em 1944 e dez anos
mais tarde formou-se em Medicina, na Universidade de
Buenos Aires, profissão que
exerceu com paixão. Só uma década depois
descobriria, já radicada na Suíça, o amor pela
atividade a que dedicou sua vida: a psicanálise.
Em 1955, passou a viver na Argentina novamente, trabalhando como pediatra no Hospital
Infantil Ricardo Gutiérrez, ainda disposta a dar
orientação psicossomática a sua prática. Assim,
em 1956 começou a cursar os seminários do Instituto de Psicanálise da Associação Psicanalítica Argentina (APA). Este foi o ponto de partida
para o que se converteu em sua especialidade:
a psicanálise de crianças e adolescentes.
Dois anos mais tarde, em 1958, casou com
quem foi o companheiro inseparável de toda a
sua vida, o economista Aldo Ferrer, com quem
teve três filhas: Carmen, a mais velha, em 1960;
Amparo, que nasceu em 1961, em Washington
DC – onde se radicou por dois anos, já que seu
marido ocupava um importante cargo no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) –
, e Lucinda, em 1966. Nos Estados Unidos,
Lustig de Ferrer trabalhava com uma das celebridades da psicanálise infantil no país – a dra.
Arminda Aberastury –, com quem investigava
tratamentos para a neurose e psicose de crianças, e se esforçava para introduzir as teorias
da escola inglesa de psicanálise, liderada por
outra celebridade, a sra. Melanie Klein. Foram
aqueles tempos em que também freqüentava a
disciplina de odontopediatria da faculdade de
Odontologia da UBA, em que oferecia uma importante colaboração, desde a psicanálise, para
tratamento da boca, uma área sempre complicada para as crianças.
Descrever com minúcia sua incansável tarefa é todo um trabalho em si mesmo. Entretanto, os que a conheceram preferem desta-
car, entre outros aspectos, sua função visionária como co-fundadora e docente da Escola
Argentina de Psicoterapia para graduados, uma
instituição destinada a formar em psicanálise
os psicólogos que não podiam ingressar na APA
por não serem médicos. Daquela instituição
modelo surgiram as primeiras gerações de grandes psicanalistas do país.
Membro de honra da Associação Médica Argentina, vice-presidente para América Latina da
Associação Psicanalítica Internacional, co-fundadora do departamento de crianças e adolescentes da APA, integrante do Comitê de Formação
de Novos Grupos Psicanalíticos na Europa do leste, atrás de seus pergaminhos, títulos, numerosos livros e trabalhos publicados - valiosas contribuições para a compreensão dos conflitos familiares - estará para sempre na memória de seus colegas aquela profissional que em cada reunião os
agasalhava com seu entusiasmo.
Foi sepultada no domingo, 10 de outubro
no Cemitério Britânico em Buenos Aires, junto
de seus pais.
La Nación - terça-feira 19-10- 2004
Notícias & Programação
Em Assembléia Geral ocorrida em sua
Sede, no último dia 24 de novembro, foi eleito o novo Conselho Diretor do NPA para o
biênio 2004/2006. A nova Diretoria foi eleita com os seguintes colegas: Adalberto A.
Goulart (presidente), Marisilda Barros Nascimento (diretora financeira), Márcia Barros
de Oliveira (diretora administrativa), Maria
Stela Menezes Santana (diretora científica),
Carlos de Almeida Veira (coordenador de
formação psicanalítica), José Fernando de
Santana Barros, Maria Cristina Borja Gondin
recebeu a visita dos colegas Telma Barros
e Adalberto Goulart, que realizaram as primeiras entrevistas de seleção para a primeira turma de formação analítica do NPM.
Dos 19 postulantes inscritos, nove foram selecionados para a etapa seguinte das entrevistas, que ocorrerá após um ano e meio.
Em março, os colegas Eduardo Afonso
Jr. (SPR/NPN/NPM) e Carlos Alberto Fone Carlos de Almeida Vieira (conselho conseca (SPR/NPM) darão início ao Curso de
sultivo), Angélica Hermínia de Oliveira
Serôa (comitê Mulher e Psicanálise), Bráulio
Costa Neto (Psicanálise e Cinema),
Petruska Pereira Passos (Clínica
Psicossocial e Biblioteca dr. Robson Cabral
Mendonça), Márcia Barros de Oliveira (editora do Boletim de Notícias), Isabela Costa
Pena (divulgação) e José Rita Martins Lara
(representante ABC).
O NPA prepara-se para, em abril próximo, dar início aos seminários teóricos da
Bion, que ocorrerá às primeiras segundasfeiras de cada mês, das 20 às 22h, na sede
do Núcleo. No mesmo mês também terá
início o curso Teoria dos Campos, que será
ministrado por Fernando Santana (SPR/
NPA), um sábado ao mês, das 10 às 12h.
As reuniões científicas permanecem às
primeiras terças-feiras de cada mês, às 20h
e o evento Psicanálise e Cinema ocorre aos
últimos sábados de cada mês, às 17h.
Em 17 de novembro, a SPR realizou
uma cerimônia seguida de um coquetel em
comemoração a algumas conquistas
alcançadas, como a aprovação do projeto
idealizado e desenvolvido por Telma Barros, durante o ano de 2004. O projeto, enviado a partir da proposta da IPA para o DPPT
(Development of Psychoanalytical Practice
and Treining), irá contemplar a SPR com a
disponibilizando de recursos, por parte da
IPA, no valor de 15 mil dólares, a serem
pagos através do reembolso das despesas
efetuadas, conforme plano de ações do projeto. Esse suporte financeiro irá possibilitar
a ampliação das ações desenvolvidas pela
sociedade, sobretudo nos eventos de difusão, cumprindo assim um importante papel
no trabalho de fortalecer a imagem da Psicanálise e das instituições psicanalíticas.
Através da aquisição de equipamentos de
som e imagem, por exemplo, será possível
oferecer à população um serviço de melhor
qualidade a um custo reduzido.
A proposta de envio de projetos, oferecida pela IPA a todas as regiões, é extremamente importante, sobretudo para a
América Latina. É a oportunidade de apresentar o trabalho desenvolvido pelas nossas instituições e de obter o reconhecimento
de nossa capacidade de realizações no
meio psicanalítico e junto à comunidade.
Na cerimônia também foi comemorado
fato recém ocorrido: o reconhecimento da
SPR como Órgão de Utilidade Pública pelo
Governo do Estado de Pernambuco. No ano
de 2004, a SPR já havia recebido a certidão
de Órgão de Utilidade Pública pelo Governo
Federal. Na ocasião, a Diretoria homenageou
os políticos, através dos quais esses processos foram viabilizados, e traduziu o merecido agradecimento através da entrega de uma
placa simbólica. Homenageados foram também alguns membros, candidatos e funcionários da Instituição, que de forma direta ou
indireta contribuíram para que a Sociedade
alcançasse o referido reconhecimento.
Em primeiro plano: Fernando Santana, Sheila Bastos, Luciene Tavares, Stela Santana, Vanda Pimenta,
Angélica Hermínia e José Lara. Em segundo plano: Adalberto Goulart, Lucivânia Rodrigues, Aldo
Christiano, Valéria Coelho, Marta Hagenbeck, Márcia Barros, Marisilda Nascimento e Bráulio Neto.
sua I turma de formação psicanalítica, da
qual fazem parte 15 candidatos, aos quais
desejamos muito sucesso.
Além da formação de novos psicanalistas, o núcleo também desenvolve, dentro
de sua programação científica, os cursos
de Psicoterapia Psicanalítica (coordenado
por Adalberto Goulart), o Método Psicanalítico (coordenado por Fernando Santana),
Seminários Clínicos de Bion (coordenado
por Carlos Vieira), Introdução ao Pensamento Psicanalítico (coordenado por Vanda
Pimenta), o grupo de estudos do Comitê
Mulher e Psicanálise (coordenado por Angélica Hermínia Serôa) e o grupo de estudos das hipóteses do prof. Armando Ferrari.
Foi reeleita a diretoria do NPM para o
próximo biênio 2004/2006, que ficou constituída por Maria Inês Rocha de Mendonça
(presidente), Rosinete Maria de Mendonça
Melo (secretária), Vera Lúcia Fernandes
Maia Barbosa (diretora científica) e Maria
9
Cumprindo uma função cultural, social e
de intercâmbio com a comunidade, o NPA
desenvolve o Projeto Psicanálise & Cinema
(coordenado por Bráulio Costa Neto) e a
CPSI – Clínica Psicossocial (coordenada por
Petruska Passos), oferecendo atendimentos
em psicoterapia e psicanálise a pessoas com
baixo poder aquisitivo. A CPSI está firmando uma série de convênios com instituições
de apoio a pacientes com câncer e a portadores de HIV, além de universidades.
Em mais uma merecida homenagem, o
NPA inaugurou em novembro a Biblioteca Dr.
Robson Cabral de Mendonça, que está aberta para receber doações e desde já agradece à generosidade de colegas e instituições.
Crisales Lima Rezende (tesoureira).
O núcleo concluiu o ano com um evento
aberto ao público, intitulado “Espaço Aberto - Conversando com Psicanalistas”, ocorrido no dia 7 de dezembro.
Nos dias 26 e 27 de novembro, Maceió
RECIFE SEDIA EVENTOS PREPARATÓRIOS PARA O
44o CONGRESSO DA IPA
Será realizado em Recife, no Mar Hotel
(palco do último Congresso Brasileiro de Psicanálise) nos dias 14, 15 e 16 de abril de 2005,
um dos eventos preparatórios para o próximo
Congresso Internacional. Uma vez que o tema
do IPAC deste ano será “Trauma – Novos
Desenvolvimentos em Psicanálise”, o evento
terá como tema central “Trauma – Diferentes
Sentidos e Abordagens em Psicanálise”. Os
membros das sociedades componentes e grupos de estudo estão convidados a participarem e apresentarem trabalhos. O evento é coordenado por Telma Barros e conta com o
apoio da ABP, da FEPAL e da IPA. Serão ao
todo quatro eventos preparatórios, o primeiro
foi realizado no Rio de Janeiro, em junho passado. Os próximos acontecerão em São Paulo e Buenos Aires, além do Recife.
Através da ABP foi viabilizado o
agendamento da assembléia de delegados
a ser realizada no mesmo período do evento. Por este meio teremos uma amostragem
representativa do pensamento e do trabalho psicanalítico de diferentes regiões do
país, através da presença dos membros da
diretoria da ABP, dos presidentes de sociedades e grupos de estudo e demais delegados que se dispuserem a participar e
Notícias & Programação
10
apresentar suas idéias. Os colegas da SPR
e dos núcleos de Aracaju, Fortaleza, Maceió
e Natal, irão participar e expor a experiência psicanalítica desenvolvida na região
nordeste. Mais informações poderão ser
obtidas através do e-mail: [email protected]
O apoio da IPA irá possibilitar a presença neste evento, do dr. Stefano Bolognini
(Sociedade Psicanalítica Italiana). A FEPAL
custeará a vinda de uma outra convidada,
a dra. Tereza Lartigue (Associação Psicanalítica Mexicana). Também estarão presentes o dr. Aloysio D’Abreu, representan-
te regional da IPA e coordenador geral dos
eventos preparatórios e o dr. Cláudio Eizirik,
presidente eleito da IPA.
Para reservas de hotel e passagens foi contratada a empresa Taruman – Viagens e Turismo Ltda, que pode ser contatada através dos
telefones (81) 3301-3480, fax (81) 3301-3487,
do e-mail: [email protected] ou
[email protected]. Os que desejam colaborar com a divulgação do evento, poderão
entrar em contato com a assessora de imprensa Eduarda Antunes (81) 9934-7902, e-mal:
[email protected].
Maria Bonini Vassimon de Figueiredo (te- soais íntimos e uma sexualidade aprisionasoureira), dra. Mércia Maranhão Fagundes da nas experiências sensoriais.
(diretora científica), dra. Martha Maria de
Nos dias 4 e 5 de dezembro a diretoria
Moraes Ribeiro (diretora do Instituto) e dr. científica da SBPRP(prov.) promoveu a I JorMiguel Marques (secretário do Instituto).
nada “Psicanálise no Divã”, aberta para o púEstava presente na posse o dr. Cláudio Laks blico de profissionais interessados. Os psiEizirick (membro efetivo da SPPA e presi- canalistas da SBPSP Antonio Sapienza e
dente eleito da IPA) quando proferiu a con- Luiz Carlos Junqueira Filho apresentaram a
ferência: “Sexualidade e a prática Psicanalí- conferência: ‘Fatores de Conjunção e
tica Contemporânea”. O psicanalista descre- Disjunção no Relacionamento de Parceria
veu as dificuldades para os atendimentos dos Fértil e Criativa”. Houve, ainda, apresentapacientes narcísicos que procuram análise ções de materiais clínicos coordenados pena atualidade e ilustrou a conferência com los dois didatas.
um relato de caso clínico e a história do livro
Uma videoconferência com dr. Antonino
“A Marca Humana” de Philip Roth. Eizirick Ferro será realizada no dia 5 de março. Haainda ressaltou a importância das habilida- verá possibilidade de transmissão do sinal
des exigidas na formação proposta pela IPA para outras sociedades participantes da ABP.
NÚCLEO DE PSICANÁLISE DE GOIÂNIA
para o atendimento dos pacientes com difi- As sociedades interessadas podem entrar
O NPG se reuniu para um debate sobre ficou acordada nova distribuição de funções culdades para realização de vínculos pes- em contato com a Diretoria Científica.
o livro Metamorfose, de F.Kafak, dando pros- dentro do NPG. A Coordenação permaneseguimento ao programa “Psicanálise e Li- ceu com a sra. Ambrozina Amália C. Saad
teratura”, no dia 20 de novembro. O público e a Tesouraria, com o sr. Antônio M. Jardim
participante, já acostumado com o ritual es- e a Secretaria passou para a dra. Selma
tabelecido, demonstrou sentir-se muito à von- Porto. A Comissão Científica e Cultural foi
tade para emitir opiniões e se enriquecer com composta da seguinte maneira: sra. Marísia
os acréscimos trazidos pelo convidado es- Abrão (diretora), dra. Lúcia H. Meluzzi
pecial professor Heleno Godoy, doutor em Xavier e sra. Luciane G. Gilfford Carneiro
Literatura e professor da Universidade Ca- (membros). A Comissão de Divulgação fica
tólica de Goiás e da Universidade Federal sob responsabilidade das sras Luciane CarA nova Diretoria da Sociedade Brasi- Fernanda Medeiros de Arruda Marinho
de Goiás, que o fez com competência e sim- neiro (diretora), Delza Araújo e da dra Lú- leira de Psicanálise do Rio de Janeiro - (diretor do Instituto), Márcia Botelho
patia e foi muito aplaudido.
cia Meluzzi (membros). A dra. Selma O SBPRJ para o biênio 2005-2006 foi eleita Antunes (secretário do Instituto), Maria
Já em 18 de dezembro, houve a reu- Barros Porto continuou encarregada da Bi- em Assembléia Geral Extraordinária no ia Helena Rego Junqueira (Diretor do Connião administrativa do NPG com o comitê blioteca. Foi criado o cargo de vice-coorde- 13 de dezembro de 2004 com a seguinte selho Científico), Miriam Fichman
patrocinador designado pela SPB para nador, assumido pelo sr. Álvaro A.Velloso. constituição: Jane Kezem (presidente), Fainguelernt (diretor do Conselho Profisacompanhar as atividades desenvolvidas
No momento os membros do NPG estão Geny Talberg (vice-presidente), Carlos sional) e Anna-Maria de Lemos Bittencourt
pelo núcleo em Goiânia. Estiveram presen- empenhados na elaboração do programa de Tamm Lessa de Sá (1º secretário), Wania (diretor da Clínica Social e Centro de Estes o dr. José V. Nepomuceno Filho e o dr. atividades a serem realizadas no novo ano, Peçanha de Oliveira (1º tesoureiro), tudos Psicanalíticos).
Sylvain Levy, em quatro reuniões, nesta que inclui a vinda da professora didata da
ordem: com a diretoria, com os candidatos, SBP sra. Regina Lúcia B. Mota para dar inícom todos os membros e novamente com cio à análise dos candidatos interessados na
a diretoria. Além das discussões rotineiras, formação psicanalítica em Goiânia.
NÚCLEO PSICANALÍTICO DE CURITIBA
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE DE
RIBEIRÃO PRETO – SBPRP
O Conselho Diretor do Núcleo Psicana- dos Santos (presidente), Elizabeth Andrade
lítico de Curitiba, para o biênio 2005/2006, e Silva (secretária) e Márcio Antônio
ficou constituído por Solange Luiz Caldas Johnsson (tesoureiro).
Em 2004, a IPA disponibilizou recursos,
através do DPPT, para sociedades que enviassem projetos de trabalho para difusão
da psicanálise. O projeto elaborado pela Sociedade foi aprovado e através do recebimento de fundos será ampliado o trabalho
de divulgação e inserção na comunidade.
Realizado há muitos anos, o objetivo é fortalecer o reconhecimento da efetividade da
psicanálise como método de investigação
e tratamento. Algumas atividades são eventuais, como palestras proferidas junto a esAntônio Sapienza, Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, José Américo Junqueira de Mattos, Martha Maria
colas universidades, instituições de saúde,
de Moraes Ribeiro, José Cesáreo Francisco Jr., Mércia Maranhão Fagundes, Sandra Abadia Gomes de
Andrade, Miguel Marques, Silvana Maria B. Vassimon de Figueiredo e Pedro Paulo Azevedo Ortolan.
psiquiátricas e psicoterápicas e participações em atividades da mídia, sempre que
A diretoria eleita da SBPRP (prov.) to- componentes são: dr. José Cesáreo Fran- possível. Outras são sistemáticas, constimou posse, em 17 de setembro, para um cisco Jr. (presidente), dr. Pedro Paulo de tuindo um trabalho continuado que conquismandato com duração de dois anos. Os Azevedo Ortolan (secretário), sra. Silvana tou reconhecimento da comunidade. Entre
essas estão: Centro de Atendimento Psicanalítico; promoção de cursos de fundamentos de psicanálise e de temas atuais;
homepage; boletim da SPPA; atividades
conjuntas com entidades ligadas ao atendimento da população; feira do livro; Bienal
do Mercosul; Ciclos de cinema e psicanálise e atividades na SPPA com convidados
de outras áreas para ministrar cursos para
os psicanalistas.
A SPPA acredita que é através desse
intercâmbio, contatos e esforços é possível alcançar o objetivo maior; manter a
psicanálise viva e reconhecida enquanto
disciplina e método terapêutico, estimulando o interesse e a procura por esse
valioso instrumento, de tantas possibilidades.
Notícias & Programação
Pesquisa na área da Psicanálise da
Infância e Adolescência
Do documento enviado ao DPPT da IPA
faz parte um projeto de pesquisa na área de
Psicanálise da Infância e Adolescência que
já está em execução. A pesquisa intitula-se
Focos de Ansiedade e a construção de ideais em crianças e adolescentes e parte de
uma concepção de que diferentes focos de
ansiedade caracterizam diferentes momentos do desenvolvimento infantil e adolescente. Esses momentos são envolvidos na constituição de ideais - ligados à instituição do
superego- que promovem ansiedades particulares (Freud, 1913; Klein, 1945).
O objetivo da pesquisa é o de investigar o que crianças e adolescentes estão
vivenciando em nossos dias, na difícil tarefa de crescer. Questionamentos como: o
que vemos em nossos consultórios tem alguma correspondência na população que
não é levada a tratamento? O quotidiano
pode nos fornecer algum subsídio para com-
preendermos melhor o que se passa nos
tratamentos de crianças e adolescentes?
visam ampliar nosso conhecimento sobre
essas questões e serviram para a realização de uma pesquisa qualitativa com 180
crianças e adolescentes de ambos os sexos, de idades variando entre 3 anos e 15
anos e 11 meses, que estão cursando escolas públicas e privadas.
Os entrevistados completarão três frases semi-abertas sobre o tema proposto.
Os dados serão examinados através de
análise de conteúdo por juízes independentes. Um estudo preliminar, onde são relatados os resultados da pesquisa com oito
entrevistados será apresentado como tema
livre no congresso da IPA em 2005. Desta
forma será possível ampliar e estimular o
diálogo com outras instituições dedicadas
ao trabalho com essas faixas etárias,
disponibilizando a abordagem psicanalítica
possível, aprofundamento de conhecimentos e aproximação com a comunidade.
11
para o tema do XX Congresso Brasileiro de
Psicanálise: “Poder, Sofrimento Psíquico e
Contemporaneidade”.A nova diretoria da
SPB, eleita para o biênio 2005-2006, é composta por Cíntia Xavier de Albuquerque
(presidente, Patrícia Tamm Rabello (secretária), Maria Stella do Valle Bezerra Winge
(tesoureira), Márcio Nunes de Carvalho (diretor científico) e José Vieira Nepomuceno
Filho(diretor do Instituto).
Nos dias 4 e 5 de dezembro passado, a
SPB recebeu a diretoria da ABP, dando continuidade ao planejamento do XX Congresso Brasileiro de Psicanálise, a realizar-se em
Brasília, em novembro deste ano. Estiveram
presentes o presidente Carlos Gari Faria, o
secretário Pedro Gomes, a tesoureira Regina Lúcia Braga Mota, o diretor do Conselho
Científico Cláudio Rossi e a secretária executiva Lúcia Boggiss, além de membros da
comissão organizadora local e da Associação Brasileira de Candidatos (ABC).
Em 2004, a Sociedade recebeu a colaboração científica dos seguintes palestrantes:
Luiz Cláudio Figueiredo, Mauro Gus (SPPA),
Myrna Favilli (SBPSP), David Zimermann
(SPPA), Antônio Sapienza (SBPSP),
Roosevelt Cassorla (SBPSP) e Roberto Cardoso de Oliveira (Doutor em Antropologia Universidade de Brasília).
REDE DE REPRESENTANTES LOCAIS - RRL
Uma iniciativa da atual gestão da ABP, que
tem se mostrado muito eficaz, graças à colaboração e compreensão dos colegas, é a RRL.
Cada Sociedade, Grupo de Estudo e Núcleo
componente designou, através de suas Diretorias, um representante local para um contato
mais dinâmico e direto com a Diretoria de Publicações e Divulgação da ABP, tendo a res-
ponsabilidade do envio de notícias e artigos de
suas instituições. Com as últimas eleições, alguns colegas foram substituídos por outros. Os
novos componentes da RRL são os colegas
Alexandre Melo (SBPRP), Cibele Maria Moraes
de Baptista Brandão (Núcleo de Psicanálise de
Marília e Região), Marina Massi (SBPSP) e
Mirian Ritter Bender de Gregório (SPB).
A SBPSP inaugurou a Divisão de Documentação e Pesquisa Histórica da Psicanálise para reunir a história do setor no país.
O Arquivo fez a sua estréia com 15 mil documentos, incluindo a obra do pioneiro
Durvel Bellegarde Marcondes. Mais informações poderão ser obtidas através do site
h t t p : / / w w w.agencia.fapesp.br/
boletim_dentro.php?id2759
Foi eleita a nova Diretoria da SBPSP e do
seu Instituto de Psicanálise para o biênio 2005/
2006, que ficou assim constituída: Luis Carlos
Menezes (diretor presidente), Cláudio Rossi
(secretário geral), Marina Massi (primeiro se-
cretário), Maria Olympia de Azevedo Ferreira
França (diretor científico), Jaques Goldstajn (diretor administrativo), Reinaldo Morano Filho (diretor financeiro), Cecília Maria de Brito Orsini
(diretor de Cultura e Comunidade), Plínio
Montagna (secretário do Interior), Myrna Pia
Favilli (diretor do Instituto), Deodato Curvo de
Azambuja (secretário geral), Bernardo Tanis
(secretário adjunto), Roberto Khedy (secretário de currículo), Lia Rachel Colussi Cypel (secretária de seleção), Maria Cecília Andreucci
Pereira Gomes (secretária de avaliação) e Teresa Rocha Leite Haudenschild (secretária do
Setor de Crianças e Adolescentes).
O Núcleo Psicanalítico do Espírito San- Psicoterapia de Base Analítica, que teve
Leopold Nosek e Maria Aparecida
to agradece a todos os colegas da SBPRJ sua aula de encerramento no último dia 11/ Quesado Nicoletti, da SBPSP, são, respectie SPRJ que viabilizaram o curso de 12 e que contou com onze alunos.
vamente, os novos Editor e Editora Associada da Revista Brasileira de Psicanálise, aos
quais desejamos muito sucesso em suas novas atribuições.
Ao mesmo tempo, o ABP NOTÍCIAS gostaria, em nome de toda a comunidade psica-
nalítica, manifestar o nosso profundo agradecimento ao Dr. João Baptista Novaes França (SBPSP), que durante os últimos sete
anos esteve à frente da Editoria da RBP, num
trabalho incansável, extremamente sério, delicado, competente e democrático.
A nossa homenagem à sua primorosa
dedicação.
GESP-MS
Com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento do Corpo Docente, o Grupo de Estudos de Temas Didáticos e Pesquisa – IP
realizou uma pesquisa com o Corpo Docente. Mais de 60% dos membros participaram.
As informações recebidas estão sendo analisadas qualitativamente e em breve os resultados serão disponibilizados.
Além disso, outras atividades vem sendo
realizadas pelos departamentos do GESPMS. O Departamento Científico, em parceria
com as universidades, promove conferências
voltadas aos acadêmicos. O Departamento de
Assistência Psicológica continua supervisionando as primeiras entrevistas com grupos
de candidatos que atendem pacientes encaminhados pela Clínica de Atendimentos Psicanalíticos (CAP). A Secretaria atualizou a
relação de Membros e Candidatos de acordo
com a solicitação da ABP para o próximo
Roster. A Página do GESP-MS, na Internet,
também está atualizada e pode ser acessada
pelo endereço: www.gesp.ms.
A Biblioteca Galina Schneider conta atualmente com o trabalho de catalogação do
acervo feito por uma estagiária do curso de
Biblioteconomia da UNAES. O GESP-MS
aproveita este espaço na ABP para solicitar Revistas e Artigos como doações para
a biblioteca.
O fim do ano foi bastante movimentado
para o GESP-MS. No dia 10 dezembro, o Instituto de Psicanálise, recebeu a visita do Dr.
Márcio de Freitas Giovannetti, para coordenar seminário para as duas turmas de candidatos. No dia 04, houve mais uma eleição de
Conselho Diretor para o biênio de 2005/2006.
Em Novembro, dia 27, ocorreu a I Jornada Interna: primeiras produções. Este
evento foi organizado pelos Candidatos do
Instituto de Psicanálise do GESP-MS, contando com a participação dos Analistas.
Foram organizadas 4 mesas redondas para
apresentação dos trabalhos de Candidatos,
para cada mesa havia um analista como
comentador.
NÚCLEO PSICANALÍTICO DO ESPÍRITO SANTO
O Instituto de Psicanálise Virgínia
Leone Bicudo, da SPB, inicia o ano com
quatro turmas de formação em andamento, e abre inscrições para seleção de pretendentes à formação em psicanálise em
Brasília e em Goiânia, cidade onde a SPB
é patrocinadora do Núcleo de Psicanálise
de Goiânia (NPG).
A diretoria científica da SPB decidiu
direcionar a programação mensal de 2005
ERRATA
Gostaríamos de reparar uma falha, ocorrida na edição anterior do ABP NOTÍCIAS,
e incluir o nome do Dr. Henrique Honigsztejn, da SBPRJ, entre os autores do livro
“Freud: Cultura e Judaísmo”, organizado por Maria Olympia França (SBPSP). O
livro foi contemplado com o importante Prêmio JABUTI.
Diretoria, Conselhos & Comissões
12
Comitê Mulher e Psicanálise da IPA realiza
intercâmbio científico sobre
psicossexualidade
canálise da Associação Psicanalítica Internacional – foi criado em 1998 com o
objetivo de fomentar o intercâmbio científico internacional sobre a psicossexualidade de gênero. A teoria, a prática e as questões socio-políticas são suas
principais áreas de interesse. Sendo que
a ciência de gênero, procriação e desenvolvimento psicossexual, incluindo o estudo das relações iniciais entre mães e
filhos; as preocupações com a prática psicanalítica e as problemáticas socio-políticas – poder, aceitação e lugar da mulher na hierarquia social, são os temas
que mais se destacam.
Melanie Klein
Embora privilegie o estudo das questões
O COWAP (Committee on Women and referentes à mulher e sua inserção no meio
Psychoanalysis) – Comitê Mulher e Psi- social, o COWAP recebe, em suas confe-
rências, diálogos, publicações e a colaboração de estudiosos de ambos os sexos.
Até hoje, já foram realizados vários
eventos, entre eles, o I Diálogo Intergeneracional entre Mulheres Analistas,
realizado em maio de 1999, em Buenos
Aires/Argentina; o Painel da COWAP sobre “Masculinidade/Feminilidade: Novos
Caminhos Clínicos e Teóricos, em setembro de 2000, em Gramado/Brasil; o II Diálogo Latinoamericano Intergeneracional
entre Mulheres Analistas - As 4 Estações
na Vida da Mulher: Infância, Adolescência, Fase Adulta e Velhice, em fevereiro
de 2001, em Monterrey/México; o III Diálogo Intergeneracional entre Homens e
Mulheres, em maio de 2002, em Porto
Alegre/Brasil; o IV Diálogo Inter-
generacional, em novembro de 2002, em
Guanajuato/México; o 1 o. Simpósio da
COWAP na SBPSP: Pensando o Feminino, em outubro de 2002, em São Paulo/
Brasil; o 2 o. Simpósio da COWAP na
SBPSP: Cenários Femininos: Da
Infertilidade à Criatividade, em outubro de
2003, em São Paulo/Brasil; o V Diálogo
Latinoamericano Intergeneracional: Violência Sexual: Incidências na Construção
da Subjetividade, em outubro de 2004, em
Buenos Aires/Argentina.
Além dos eventos realizados, Teresa
Haudenschild (SBPSP) e Renata Aleotti
(Candidata da SBPSP) informam ao ABP
NOTÍCIAS, que cerca de 12 livros já foram editados sobre o assunto Feminino/
Masculino.
Grupo de Estudo e Pesquisa em NeuroPsicanálise é formado no Rio de Janeiro
Genpsa pretende se tornar um elo de discussão entre a neurociência, a psicanálise, as
psicologias cognitivas e a psiquiatria biológica
Genpsa – Grupo de Estudo e Pesquisa em
Neuro-psicanálise – busca novos integrantes,
com o objetivo de se tornar um canal ágil de comunicação para a discussão entre as neurociências, a psicanálise, as psicologias cognitivas e a
psiquiatria biológica.
Os interessados em estudar e pesquisar
a ligação entre as neurociências e a psicanálise contam com um grupo de estudos, que
começa a ser formar no Rio de Janeiro. O
mais específicos, como por exemplo, a [email protected], explicando porque
metapsicologia freudiana. A adesão ao gru- pretendem fazer parte deste grupo.
po não requer nenhuma obrigação por parte
Tendo recebido recentemente o recodo membro, nem mesmo financeira.
nhecimento oficial da Sociedade InternacioAlém disso, o grupo também será uma nal de Neuro-psicanálise, o Genpsa criará
fonte de estudos para a orientação de uma página para o grupo na internet. Para
monografias de conclusão de cursos de facilitar a troca de informações entre os
graduação, dissertações de mestrado e te- membros, será divulgada internamente uma
ses de doutorado. A realização de investi- lista atualizada com endereço, telefone egações científicas interdisciplinares, articu- mail de todos os integrantes.
ladas com os centros universitários do Rio
de Janeiro e a integração do conhecimento
Membros fundadores:
científico sobre a ligação das neurociências
Altamirando Andrade (SBPRJ); Célia M. Cortez
e da psicanálise que vem sendo produzido (IBRAG/UERJ); Elie Cheniaux (FCM/UERJ; IPUB/UFRJ;
por diferentes universidades e sociedades SPRJ); Giogio Trotto (SBPRJ); José Alberto Zusman
(IPUB/UFRJ; Rio-3); José Cândido Bastos (SBPRJ);
psicanalíticas também fazem parte de suas Luís Alfredo Vidal de Carvalho (COPPE/UFRJ); Marcos
Baptista (UERJ); Marcos Gebara (APERJ); Miguel
atribuições.
Chalub (FCM/UERJ; FM/UFRJ; SPRJ); Monah
Para isso, o grupo irá
promover a realização de
cursos internos, de extensão, simpósios, em parceria com universidades
e sociedades psicanalíticas, entre outras ações que suscitem uma
ampla discussão sobre o tema. O Genpsa
Para fazer parte do grupo, os interessatambém será responsável pela criação de dos (desde que sejam graduandos ou pós
subgrupos voltados para o estudo de temas graduandos) devem enviar um e-mail para
Winograd (PUC – Rio); Paulo César Hermida (SPRJ);
Regina Lessa (SPRJ); Ronald Sérgio Souza (SPRJ);
Rosa Costa (IME/UERJ); Roseli Wedemann (IME/
UERJ); Vera Lemgruber (SCMRJ; APERJ); Victor
Manoel Andrade (SPRJ).
Diretoria, Conselhos & Comissões
Associação Brasileira de
Candidatos lança site
A partir de fevereiro, o site da Associação
Brasileira de Candidatos – ABC, poderá ser
acessado no endereço www.abcnet.org.br. com
o objetivo de quebrar a resistência de alguns
colegas à internet e torná-la um meio eficaz de
integração e discussão de idéias,nos últimos
meses, foram concentrados esforços para a
criação e lançamento desta homepage.
Desde o início, a pretensão não se limitava
a criar um canal de divulgação de fatos e comunicados da Associação. A ABC imaginava
construir um espaço ágil, economicamente viável e acessível a todos, para que os candidatos de todas as regiões do país pudessem discutir questões relativas à formação e à Psicanálise. A intenção é fazer da página um ponto
de encontro virtual, mas com utilidade real,
onde as idéias fossem lançadas, conhecidas e
debatidas.
Além de um fórum de debates, onde qualquer candidato poderá lançar um tema de dis-
cussão ou participar de temas de colegas, o site
terá um espaço onde os psicanalistas poderão
colaborar enviando trabalhos de sua autoria,
que estarão disponíveis na íntegra.
Concurso – A ABC convida os candidatos
a participarem da segunda edição do Concurso Virgínia Bicudo. Lançado em 2002, o concurso tem o objetivo de estimular a produção
de trabalhos científicos pelos candidatos e dá
prêmios aos dois melhores, a serem entregues
em novembro durante o XX Congresso Brasileiro de Psicanálise, em Brasília.
Serão aceitos trabalhos sobre o tema do
Pré-Congresso – “Avaliação dos candidatos,
dos membros que atuam no Instituto (didatas,
professores e supervisores), dos Institutos e dos
Centros de Atendimento ou Clínicas Sociais” –
, bem como o tema do XX Congresso – “Poder,
Sofrimento Psíquico e Contemporaneidade”. O
prazo para entrega é 30 de junho. As regras do
concurso serão divulgadas em breve.
Autoridades endossam
20º Congresso em Brasília
A Associação Brasileira de Psicanálise recebeu ofícios de seis autoridades para que
Brasília seja a sede do 20º Congresso Brasileiro de Psicanálise, que acontece em novembro. Os senadores Cristovam Buarque e Paulo Otávio, o Secretário de Segurança Pública,
Athos Costa e o Governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz destacaram nos ofícios encaminhados à ABP, a importância da realização deste evento na capital nacional. O presidente do Brasília & Região Convention &
Visitors Bureau, Elydio Santoro de Barros e o
comandante do Grupamento Especializado de
Policiamento Turístico também reforçaram o
convite.
Este ano, o tema do Congresso será “Poder,
sofrimento psíquico e contemporaneidade”, no
qual serão discutidas as diversas formas que o
poder se apresenta na sociedade atual e como a
psicanálise pode se posicionar diante disso. Para
o psicanalista Cláudio Rossi, coordenador do
congresso, este será o momento de discutir a
eficácia do exercício do poder nas mais variadas situações. “É interessante a psicanálise se
posicionar diante do tema. E o lugar não poderia
ser outro, Brasília é a capital do poder nacional”.
13
Agenda Científica 2005
MARÇO
Conference of the European
Psychoanalytical Federation
Interpretation and Construction in
Psychoanalysis
17th - 20th March
Vilamoura, Algarve, Portugal
[email protected]
COWAP
2nd European Conference on Incest
21st-22nd March
Lisbon, Portugal
[email protected]
ABRIL
Evento Preparatório para o 44º IPAC
14 a 16 de abril
Mar Hotel, Recife/PE
Sociedade Psicanalítica do Recife
ABP, FEPAL, IPA
[email protected]
JULHO
IX CONGRESO PERUANO DE
PSICOANÁLISIS
PSICOANÁLISIS: PROCESO Y
TRANSFORMACIÓN
15, 16 y 17 de Julio
Lima – Peru
Sociedad Peruana de Psicoanálisis
[email protected]
6 th
Interational
NeuroPsychoanalysis Congress
Dreams and psychosis
24 a 27/07
Rio de Janeiro - RJ
XVIII Congresso - IPSO
“Trauma: Novos Desenvolvimentos
em Psicanálise”
27 a 31/07
Rio de Janeiro – RJ
www.ipso-candidates.org
44Th International Psychoanalytical
Association Congress
MAIO
“Trauma: Novos Desenvolvimentos
65ème Congrès des Psychanalystes em Psicanálise”
de Langue Francaise
28 a 31 de julho
5th - 8th May
Rio de Janeiro – RJ
Paris – France
www.ipa.org.uk
Third International Symposium
Psychoanalysis and Art
The body Image in Psychoanalysis and
Art
6 a 8/05
Florence – Italy
[email protected]
www.scaramuzziteam.com
SETEMBRO
VI JORNADA DE PSICANÁLISE DE
ARACAJU
V Encontro de Psicanálise da
Criança e do Adolescente
22 a 24 de setembro
Aracaju/SE
Núcleo Psicanalítico de Aracaju
[email protected]
JUNHO
VII Jornada do Núcleo Psicanalítico
de Maceió
2 a 4 de junho
NOVEMBRO
Maceió/AL
XX Congresso Brasileiro de
www.npm.com.br
Psicanálise
11 a 14 de novembro
Wilfred Bion Today
“Poder, sofrimento psíquico e
Friday 10 to Sunday 12 June
contemporaneidade”.
London, England
Brasília, DF
h t t p : / / w w w. p s y c h o l . u c l . a c . u k / Associação Brasileira de Psicanálise
www.abp.org.br
psychoanalysis/bion.htm
C ultura
14
Considerações sobre o pensamento de
Armando Ferrari
Sonia Curvo de Azambuja*
Se não eu por mim, quem por mim?
Se não agora, quando?
Armando Bianco Ferrari
-
Esta máxima hebraica, citada por Armando
Ferrari, no capitulo “Só Amanhã”, do seu último
livro “Vida e Tempo” pode ser tomada como um
parâmetro que, como uma linha vermelha,
acompanha todo livro marcando a questão da
desalienação diante da vida e a questão do tempo de vida.
Eu tomarei o capitulo “Só Amanhã” e o
material clinico trazido por Iolanda Angelucci e
Fausta Romano sobre a analise de pacientes
que sofrem de doenças fatais e que podem ter
só amanhã.
Num foco limitado tentarei expandir as muitas interrogações que o pensamento do autor
nos leva a fazer.
Levei esse pungente trabalho nas minhas
férias de inverno. Eu o li inúmeras vezes. Tomei
muitas notas. Ele instigou-me com sua coragem
e generosidade. Era difícil me afastar dele, tomada pela sua veracidade, pois a impressão que
tinha que muito pouco eu conseguia transcender de uma leitura entre o fascínio que o tema
da morte contém e a miséria e desespero que a
experiência real dela nos arrasta. Então pensei
que o melhor que eu poderia fazer é ir seguindo
a associações que ele desencadeava.
Chama a atenção, logo na abertura do trabalho, a citação de Tolstoi onde o autor usa duas
metáforas para se referir a morte.
Em uma o personagem debate-se para não
entrar num “buraco negro” – o “buraco negro”
como representação da morte, do vazio. No
vazio de um buraco negro parece que a atmos-
fera simbólica das relações significativas é esvaziada. É esse brutal corte que faz com que o
homem não cesse de produzir teias representativas que constituem diferentes culturas, religiões e arte, no dizer de Morin no “L´Homme et
la Mort”.
Tolstoi trás também outra metáfora a partir
da idéia do buraco negro, contando-nos como
lá no fundo do buraco a luz se faz e o personagem vive uma viagem, com se estivesse num
trem. É uma experiência onírica. A dor cessa, o
medo da morte cessa porque não havia morte.
Havia luz.
Estas duas metáforas, no meu entendimento, percorrem a vida dos homens: Uma retratando o nosso temor, a nossa agonia diante da
morte (vazio); outra, o desejo de que a morte
traga luz (transformações).
A morte chega de fora
Tomando o trabalho do Ferrari “Só Amanhã”,
encontramos o jovem antropólogo na década de
50, no Brasil Central, fazendo um trabalho junto aos
índios, através do qual, curiosamente, ele é levado
a observar os mitos e rituais de morte instituídos
por essas culturas.
Ferrari traça um paralelo entre essas práticas culturais indígenas e as práticas observadas em comunidades medievais por Áries, 1980
sobre a morte e o morrer: “Nas duas situações
a morte é vista como estranha ao viver ou ao
ser vivo. A idéia é de que a morte chega de
fora, não de dentro. Ela não é imanente, ela
transcende”. Freud diz que o medo dos mortos
que podem voltar como fantasmas, como demônios que nos atacarão de fora de nós, é uma
projeção do medo da própria morte.
Ferrari, me parece, quer fazer o inventário
dessas cicatrizes, dessa ferida narcísica que nos
atormenta desde sempre e que se evidencia nas
formações culturais que mediatizam esse sofrimento . Observa como o índio em sua cultura
constrói catedrais com os elementos cósmicos
que o rodeia. “Os dados coletados concerniam
os rituais de morte e as narrações míticas das
razões da existência dos seres vivos em geral,
dos vegetais, das constelações, dos vínculos
antropomórficos com as estrelas e os planetas
visíveis no céu, sol e lua inclusive, e, principalmente a água...”. Não posso deixar de pensar
nos pré-socráticos e na sua busca da origem do
cosmos. Mas, vamos para o nosso ponto de inserção: a clínica.
Acompanhando o trabalho de Iolanda e
Fausta, vemos que a idéia da análise para pacientes que só tem amanhã é de que a luz, o
foco perceptivo, tem que ser mantido, para que
o binário não esmoreça diante do marasmo que
o uno sofre, submetido à dor e ao esgarçamento
do corpo. Assim, lemos a terapeuta dizer a sua
paciente que vai para uma sessão de
quimioterapia, estando extremamente violenta
com a situação “leve um livro para ler. Escreva, tome nota...”. Poderia soar como um dizer
de Poliana. Na verdade é o norte que tem que
ser mantido para que a paciente não se descuide e se confunda na sua angústia. E o norte
é dado pela teia simbólica que a constitui. Os
livros são a nossa constelação, a nossa água.
Logo no inicio do trabalho, as autoras indicam que o parâmetro que as guia é a hipótese
de Ferrari de que o fulcro do problema com a
morte é a questão do tempo. Na medida em
que nosso corpo tem um destino próprio no qual
ele é submetido à “flecha do tempo”, nesse
momento dramático da existência no qual o
horizonte selará em seguida, é necessário que
os instantes, pequenos fragmentos do aqui e
agora, possam ser expandidos em vivências fecundantes. Num átimo de tempo a imortalidade deve ser possível.
Diálogo entre tempo e morte
Lembrando Ferrari, Iolanda e Fausta se
referem, num momento poético, aos raios do
sol pela manhã. A aurora, momento em que as
sombras da noite se vão e os medos infantis,
os fantasmas que sempre nos acompanham,
representação da morte, se esvaem, é apresentada como o instante em que a paciente C,
paradoxalmente, pode viver em certo sentido
como imortal, ela que vai morrer em breve. Aqui,
o que consubstancia a questão do tempo, de
um tempo pleno, é o significado dessa experiência do prazer de viver.
Penso, em uma das minhas associações, que
inúmeras vezes podemos viver a conquista do
prazer, do usufruir a vida, como nosso passaporte para o onírico, metabolizador do mundo
pulsional. Mas o ponto levantado por Ferrari é o
diálogo entre o tempo e a vida ou, ainda, entre o
tempo e a morte.
Sou levada de roldão pelo texto tão
instigante de Ferrari “Só Amanhã” e, evidentemente, quando estamos nesse estado de espírito tudo parece conspirar magicamente. Che-
go assim ao texto de Marie Bonaparte, “O inconsciente e o tempo”, uma comunicação feita
no XV Congresso Internacional de Psicanálise,
em Paris, de 1938. O próprio Ferrari, em outra
parte do livro Vida e Tempo, também se refere
ao interesse de Freud pela abordagem sobre o
tempo, num diálogo com Marie Bonaparte.
O texto Marie Bonaparte fala justamente
desse pas des deux entre o tempo e a vida - o
tempo da infância, o tempo do relógio, o tempo
da puberdade, o tempo do adulto, o tempo do
velho. Penso ainda no tempo cumulativo, legado da nossa cultura ocidental. Ela fala também
do diálogo entre o tempo e a morte, quando se
evidencia o devir circular do inconsciente, este
tempo cósmico do qual às reflexões de Ferrari
nos aproximam.
O tempo presente
É como se vivêssemos a experiência de um
tempo da Montanha Mágica. Ferrari refere-se
ao tempo do por do sol, quando tudo ganha um
significado mais absoluto, não cumulativo.
Num dado momento, e eu não pude deixar
de sorrir, o texto de Marie associa a magia dos
povos ditos “primitivos” - com seus amuletos e
mitos para exorcizar a morte, que vem de fora
– às práticas mágicas dos italianos de nossos
dias contra o mau olhado. A magia, mostra ela,
também está na medicina, no desejo de salvar
e no desejo de dilatar o tempo de vida, o que
se consegue cada vez mais.
Ferrari propõe no seu trabalho que dilatar o
tempo na psicanálise de pacientes terminais é
utilizar o tempo presente. O terapeuta não deve
deixar assuntos em suspenso. O não ter mais
tempo, resulta na intensificação do tempo que
resta. Não há possibilidade de construir expectativas sobre o passado e projetá-las para o futuro. Isso nos leva a própria essência da vida;
no âmago da morte encontramos o coração da
vida.
Prosseguindo entramos em outro elemento que percorre esse relato: a questão do ódio,
questão essa que na psicanálise tem um percurso bastante curioso.
Em Freud, a questão surge como defesa primordial da hegemonia do narcisismo que constitui o ego e é dele constitutivo. Aquele que é não
eu, o outro, é um estorvo e deve ser odiado. O
ódio não é pura malignidade; esta só surge em
1930, como potência destrutiva, no “Mal Estar
na Civilização”. Freud, então, premido pela evi-
C ultura
dência da potência destrutiva como uma força
autônoma no ser humano enfim se rende. E, ainda em “O Mal Estar na Civilização”, dedica dois
capítulos ao levantamento da culpa que esta essa
potência gera no ser humano.
Iolanda e Fausta referem a questão do ódio
como um elemento presente da máxima importância, quando existe esse desordenamento do
corpo, nos processos enlouquecidos do câncer.
É no registro do ódio advindo do narcisismo que
elas situam a questão.
A ameaça de morte
É esse outro, esse bicho estranho que é
odiado, pois é a ameaça a hegemonia narcísica
do eu, é a ameaça de morte. Assim no combate que se trava contra essa ameaça, Iolanda e
Fausta percebem uma estratégia do paciente,
que às vezes ataca o próprio tratamento, como
se esse fosse a sua condenação e não a sua
possibilidade de salvação. Os médicos, familiares, hospital, amigos são atacados num movimento projetivo que esvazia toda energia do
foco do problema, que é o próprio câncer.
Assim, as autoras trabalham tendo em mente a hipótese que esse ódio necessita encontrar disibilidade na relação uno e binário. Esse
ódio que pode ter a função de defesa do eu
psíquico e corpóreo pode também se infiltrar
como um tumor minando o desejo de viver.
Esta é uma questão bastante controversa
se pensamos no “Além do Principio do Prazer”
em Freud. Se o nosso corpo é inexoravelmente
arrastado pelo tempo, é inevitável que o último
desejo possa ser morrer, a morte que virá como
o repouso, à volta ao inanimado onde toda dor,
todo conflito, toda disputa cessam. Ferrari nos
diz: “Sabemos que o tema da morte desejada é
inevitável (...) hoje é uma das liberdades que
podemos dispor.(...)A morte é, as vezes, bem
mais do que gostaríamos de admitir algo muito
semelhante ao suicídio. O suicídio não é um
simples ato de morte; pode ser também um
aspecto extremo de testemunho de amor e respeito a vida.
Ferrari faz a sua leitura da questão do conceito de pulsão de morte ou instinto de morte
contida no Além, seguindo de perto o movimento pendular do pensamento freudiano, no qual
os temas são repetidos e incorporados em espiral, com os novos elementos da experiência
clinica e autobiográfica pressionando o desenvolvimento de novos horizontes.
Agressividade e frustração
Como já vimos o ódio pode ser entendido
inicialmente como uma defesa da hegemonia
narcísica. O sadismo e até mesmo o masoquismo podem ser entendidos nesta chave. Quando Freud cria o conceito de pulsão de morte no
Além, ele cria uma nova chave. Como Ferrari
afirma com propriedade, tem como objetivo
manter a idéia de dualidade pulsional como fonte do nosso psiquismo, contrária a concepção
de Yung, que no meu entendimento abortou da
sua teoria aquilo que de mais revolucionário
existia na psicanálise: o campo das pulsões em
conflito.
15
Evidentemente, e Ferrari nos alerta para esta
questão, podemos, levados pela nossa subjetividade, ser parciais quanto a qual chave privilegiar na controvérsia que se criou entre os analistas com o trabalho de 1920.
Muitas linhas de abordagem clínica se constituíram resistindo a idéia de irredutibilidade da
pulsão de morte, de uma potência destrutiva,
como uma tendência autônoma em nosso
psiquismo. Na defesa dessa chave, surgem
desenvolvimentos importantes. Estas colocam
que a pulsão de morte como potência destrutiva
seria motivada pela frustração.
Ferrari faz, então, um depoimento pessoal
no qual diz que, na sua experiência clínica, não
é tão somente a frustração que determina a
agressividade e sim a agressividade que determina o limiar de frustração. Testemunhamos junto
aos nossos pacientes, conforme mostra Ferrari,
qual é a intensidade da pulsão de vida e da pulsão
de morte e como muitas vezes há uma fusão
entre elas. Isto é bastante visível nos casos dos
pacientes que enfrentam uma doença terminal
trazidos pelas autoras.
A união pela morte
Podemos pensar que, no limite, o próprio
viver possa se tornar insuportável e a
disibilidade, a linguagem, nossa morada, possa se tornar um ruído intrusivo na existência de
quem necessita partir. Penso que o limite do
poder da palavra como possibilidade de ajuda,
só o terapeuta com capacidade de empatia
poderá decidir. Mas também a possibilidade do
mesmo ser capaz de ter um contato íntimo com
sua própria verticalidade.
Neste momento lembro-me de Simone de
Beauvoir no seu livro “A Cerimônia do Adeus”,
no qual relata os últimos anos de Sartre. Podemos perceber na narrativa de Simone o luto pelo
companheiro que está partindo, mas também a
elaboração da sua própria morte. Adentrando
na sua historicidade, na história do seu tempo
e, podendo então se desprender, Simone desloca-se de uma postura centralizadora. O coração do mundo está nela, mas o seu coração
não centraliza o mundo.
É uma posição hegeliana que ela já trouxera
no seu romance “Todos os Homens são Mortais”.
Esse livro que eu li em 1959, quando fazia uma
monografia do pensamento hegeliano no meu
curso de Filosofia, me marcou profundamente.
Nele observamos as mazelas às quais um ser
imortal é submetido, quando tudo se torna uma
monótona repetição infindável. Somos seres para
a morte e sem ela tudo pode se tornar tedioso. A
vida perde o significado. Nessa perspectiva, é a
morte que cria os laços que unem os homens.
Penso que se o próprio analista não pode ter
esse horizonte para si mesmo, não poderá dosar qual é o seu campo de competência junto ao
paciente e invadirá o campo da dor corpórea,
que deve ser respeitada. E necessário poder dar
lugar aos médicos na batalha que esses travam
com a doença e que, ao final, podem perder.
Iolanda e Fausta aproximam a análise de
pacientes que só tem o amanhã, a auto análise
com testemunha, na qual Ferrari indica como a
dimensão vertical deve ser privilegiada, ou seja,
o analista estará bastante consciente de si mesmo, mas não se colocará como objeto de referência. A referência é o paciente na sua
verticalidade e nas conexões transferenciais que
ele possa fazer dos diferentes registros do seu
psiquismo.
A saturação do espírito
Prosseguindo, as autoras observam como
o analista, na sua percepção fina, poderá ver
que o cansaço que, por vezes, o paciente sente e que ele imagina vir do corpo (uno), que
sucumbe ao tratamento quimioterápico, poderá estar determinado pelo binário (representação do próprio corpo) e que se manifesta através do corpo. Em outras palavras, há como uma
saturação do espírito, que economicamente
manda para o corpo o que não está podendo
assimilar. O corpo, a maior realidade se esvaindo, esvai o espírito. Mas uma mente desamparada não segura a batalha que o corpo trava
com a doença.
O terapeuta nesse caso deve se informar
com os médicos, segundo as autoras, acerca
dos efeitos que o tratamento pode estar tendo
sobre a fisicidade do paciente, pois seria necessário não deixar que se crie confusão no
sistema uno-binário.
Podemos pensar porque Ferrari foi impulsionado para essas fronteiras do psiquismo. Ele
inicia o capítulo Só Amanhã com uma citação
de Hannah Arendt que diz: “... Os homens, ainda que tenham de morrer, não nasceram para
morrer, mas para recomeçar...”.
Pensando deste modo, qual a possibilidade de recomeço para alguém que só tem o
amanhã? É uma aposta que Ferrari faz na alma
humana. Nessa aposta ela se desenvolve, recomeça, se transforma até o fim da vida. Se
pensamos no corpo, nosso destino, podemos
ficar muito deprimidos com o passar do tempo, mas o uso que podemos fazer dos fragmentos do tempo que nos resta pode produzir
a restauração de catástrofes, como a restauração feita dos afrescos de Giotto na cidade
de Assis, quando a mesma sofreu uma catástrofe. Esta é uma bela metáfora usada por
Ferrari e que deu o enigmático nome desse
livro “Vida e Tempo” na publicação italiana: “Il
Pulviscolo de Giotto”, ou numa tradução livre
“A Poeira de Giotto”.
A restauração da vida
O quanto um paciente que só tem o amanhã pode igualmente, como os restauradores
de Assis, usar pequenos fragmentos de tempo
para restaurar uma vida, por vezes, de catástrofe e reviver em outra dimensão ou morrer
mais harmonizado com seu sistema uno-binário. É essa aposta que inspira o trabalho de
Iolanda e Fausta.
Para elas, a batalha travada pelo paciente
com o câncer infiltrante é ajudada com um ganho de energia vital, que vem do processo de
disibilidade, incrementado pela análise na área
vertical, que ajuda a diminuir e a conter a angústia que se apresenta muitas vezes como
desespero e ódio. Dizem as autoras: “Imagina-
mos que tudo que tolhe a representabilidade, a
presença, a palavra e a sensação do uno, na
relação analítica, contribui para realizar e apressar os processos de morte”...
Para B, uma paciente, o problema da invasão, vivida como “sorrateiramente”, assume um
significado especial, principalmente no primeiro período, em que a dor e a angústia predominam, não apenas pelo estado da doença, mas
também pelo tratamento quimioterápico. O tema
do invasivo está presente nesse caso B, tanto
no uno como no binário. As agulhas usadas pela
quimioterapia são inflitrantes, ela mesma a paciente se sente invasiva e infiltrante e teme contagiar o seu câncer. O contágio está fora e está
dentro. Quando ela se coloca totalmente na área
do binário, então é ela que contagia, porque o
corpo é desprezível, adoece de câncer. Quando está inteiramente ocupada com o uno, é o
uno durante a quimioterapia é contaminável. Há
uma desarmonia em seu sistema que se manifesta como numa gangorra.
A bela morte
Nessa situação o analista funciona como
um mediador, que propicia discriminação e calma para enfrentar o tratamento. Freud diz que
o poeta diante da dor de dente perde a poesia
no buraco do dente. Parece que o terapeuta
busca restabelecer a poética de seu paciente,
levando em consideração o seu desamparo e
solidão e tentando realisticamente conduzi-lo a
escuta de si próprio. O analista não pode ceder
a chantagem do sofrimento e morte e deve manter a sua liberdade se quiser ajudar o paciente
a viver seus recursos plenamente e do melhor
modo possível, enquanto a morte, como fato,
não sobrevier.
Ferrari lembra das suas primeiras experiências com pacientes terminais, há mais de trinta anos, quando a maior questão que se colocava era a da dor pungente do corpo e de como
quando essa cessava, voltava a esperança.
Hoje, com o avanço da medicina, é a questão
“estética” que se coloca. A dor não é mais a
maior perseguição. É o feio, o monstruoso, a
deformação, a amputação, as próteses.
Ferrari fala de como, nesse limite de tristeza e de sofrimento, o paciente pode lançar
mão da negação, perdendo o contato com o
processo a que está submetido. Por vezes ele
pode deixar toda responsabilidade do seu corpo aos médicos e toda responsabilidade da
sua mente ao terapeuta. Outras vezes,
Tanatos, satura toda possibilidade de vida enquanto esta ainda dura.
Há um desejo de que, diante da brutalidade da situação, haja uma cerimônia de adeus,
uma cerimônia de passagem e a morte seja
convertida na bela morte. Pensamos, ao ler o
trabalho do Ferrari e o de Iolanda e Fausta, no
restabelecimento da solidariedade e terminamos por lembrar do filme “Invasões Bárbaras”.
Quando todas as ideologias do século XX fracassaram, eles nos trazem a amizade, esse laço
forte que, como já dizia Aristóteles na Ética, é o
mais fecundo dos sentimentos.
*
ME da SBPSP
C ultura
16
“Pesquisando com o método psicanalítico”
Livro sobre a pesquisa psicanalítica será relançado, com debate, em São Paulo
O livro Pesquisando com o método
psicanalítico, editora Casa do Psicólogo,
lançado recentemente em São Paulo, será
relançado no dia 17 de março, às 21h, na
Sociedade Brasileira de Psicanálise de
São Paulo, na Rua Cardoso de Melo,
1450/1º andar.
Na ocasião haverá um debate sobre
Pesquisa e Psicanálise com Fabio
Herrmann, psicanalista da SBPSP e professor do programa de pós-graduação em psicanálise da PUC-SP e com Theodor
Lowenkron, coordenador da Comissão de
Psicanálise e Pesquisa da ABP, membro efetivo da SBPRJ, professor adjunto da Faculdade de Medicina da UFRJ e professor do
programa de pós-graduação em Psiquiatria,
Psicanálise e Saúde Mental do IPUB.
O livro, que apresenta um retrato da produção de pesquisa psicanalítica feita na
SBPSP, está dividido em duas partes. Na
primeira, oferece ensaios que visam o
questionamento no campo da pesquisa em
psicanálise e contribuem com subsídios para
que o pesquisador compreenda e se
posicione criticamente diante dessa prática,
uma discussão relativamente nova no meio.
Seus autores, ligados à Universidade,
Theodor Lowenkron, João Frayze-Pereira
e Fabio Herrmann dedicam-se a problematizar as questões relativas à pesquisa
em psicanálise - que transita entre os fenômenos subjetivos e objetivos. Seus ensaios interrogam a noção de método. Noção
que se caracteriza por levar o psicanalista
a romper com um sentido preestabelecido
e a recriar as idéias psicanalíticas.
Iliana Horta Warchavchik, Luciana Saddi e Magda Guimarães Khouri
Theodor Lowenkron e Fabio Herrmann
Na segunda parte, o livro apresenta 28
trabalhos de pesquisa, em forma de artigos, com o objetivo de traçar um perfil da
produção realizada por analistas da
SBPSP. Os autores selecionaram o processo de investigação, os procedimentos
e os instrumentos utilizados no decorrer
de suas pesquisas, bem como os
impasses encontrados para que o método
psicanalítico ganhasse destaque, sobressaindo-se aos resultados propriamente
encontrados.
O livro serve como referência àqueles
analistas que pretendem fazer um trabalho
investigativo, e que se sentem, de certa forma, insatisfeitos com a pesquisa tradicio-
nal. O leitor poderá encontrar um grande
leque de temas, questões e formas criativas de abordá-las.
Além disso, a publicação atende também às necessidades daqueles que gostariam de ampliar suas noções sobre o debate a respeito da natureza polêmica da
pesquisa em psicanálise: ciência ou arte,
clínica ou teoria? Quais as formas possíveis de transmissão e de publicação do
nosso saber? Como legitimá-lo? Terá o
analista de abandonar completamente sua
prática quando quiser pesquisar, ou haverá uma zona de trânsito entre clínica e
pesquisa? Preocupações que dominam o
analista de hoje.
Durante a maior parte do século XX,
pesquisa e prática analítica foram termos
raramente associados, a não ser na Universidade. Agora, porém, a pesquisa psicanalítica está na ordem do dia. O desafio fundamental é o seguinte: deve o analista abandonar seu procedimento clínico
ao pesquisar o método criado por Freud,
substituindo-o por estatísticas, grupos de
controle, comentário teórico, ou será possível converter em investigação universitária o próprio processo interpretativo?
É do conhecimento de todos que pesquisa é algo que os analistas estão sempre a
fazer: bastaria saber como transformar o trabalho diário em pesquisa comunicável. Neste livro, os autores apresentam uma grande
quantidade de trabalhos práticos, de diferentes ambições e inserções acadêmicas, e de
tamanhos e profundidades diferentes. O objetivo é mostrar como, valendo-se do método
psicanalítico, os analistas conseguem perfazer o caminho que vai da clínica à pesquisa,
do método às novas sugestões teóricas. A
idéia é comprovar que a Psicanálise continuará a existir na medida em que puder ser
reinventada dentro dela mesma.
Pesquisando com o método psicanalítico nasceu da II Jornada de Psicanálise e Pesquisa da ABP, jornada homônima ao seu título, realizada na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, em maio de 2003. O livro foi organizado por Fabio Herrmann e Theodor
Lowenkron, contando com a colaboração
de Iliana Horta Warchavchik, Luciana
Saddi e Magda Guimarães Khouri.
Analista da SPPA recebe o maior prêmio de
literatura do Rio Grande do Sul
J u a r e z
Guedes Cruz,
analista didata
da SPPA, recebeu o primeiro lugar
aior
m
o
u
e
b
do Prêmio
ruz rece
nde
Juarez C rio do Rio Gra
rá
te
Açorianos,
li
prêmio
l
u
na categoria condo S
tos, com o livro “A Cronologia dos Gestos”. O Açorianos é o prêmio literário mais
importante do Rio Grande do Sul.
O autor é conhecido por sua produção psicanalítica sempre erudita, consistente e original. Neste primeiro livro de
ficção, Cruz dá seguimento à conhecida
vinculação entre psicanálise e literatura,
fato que se explica porque tanto na literatura, quanto na psicanálise, a subjetividade humana encontra espaço privilegiado nos sonhos. A seguir um trecho do
livro, cujo tema rendeu o título de membro efetivo da IPA e da SPPA ao autor,
em 1994.
“A Cronologia dos
Gestos”
(Porto Alegre,
editora
Movimento, 2003,
103 páginas)
“Existem, na Natureza, três espécies de pássaros:
os Verdes, os Vermelhos e os Azuis. Os Verdes,
mais numerosos, além de sua reconhecida
capacidade de indicarem o Futuro, também são
protetores das cabeceiras dos pequenos riachos
que, unindo-se ao longo das dobras de terreno,
vão formar os grandes rios como o Nilo, o Eufrates
e o Tigre, o Ganges, o Amazonas, o MississipiMissouri e o Iang-tsé. Os pássaros Vermelhos, que
não gostam da luz do dia, são guardiães dos
eclipses, do entardecer e da aurora. Por isso,
facilitam os encontros, em especial os escondidos
encontros dos amantes. Já os pássaros Azuis, de
índole egoísta, não protegem nem guardam;
apenas alimentam-se das ilusões que as pessoas
vão perdendo pela vida.”
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ABP Notícias 25 – Fevereiro 2005