PONTÍFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Marie-Océane Gazurek Consumo de luxo em São Paulo: um estudo sobre o Shopping Cidade Jardim Mestrado em Ciências Sociais São Paulo 2011 PONTÍFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Marie-Océane Gazurek Consumo de luxo em São Paulo: um estudo sobre o Shopping Cidade Jardim Mestrado em Ciências Sociais Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais, sob a orientação da Professora Doutora Marisa do Espírito Santo Borin. São Paulo 2011 Consumo de luxo em São Paulo: um estudo sobre o Shopping Cidade Jardim Marie-Océane Gazurek Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais, sob a orientação da Professora Doutora Marisa do Espírito Santo Borin. Aprovada em: Banca Examinadora ____________________________________________________ Professora Doutora Marisa do Espírito Santo Borin ____________________________________________________ Professora Doutora Marcia Cristina Consolim ____________________________________________________ Professora Doutora Mônica de Carvalho À Papa et Maman, merci pour tout. Ao Felipe... À Edwige, minha irmã, À Ladislas & Anne-Victoire, meus sobrinhos lindos; À Corine, a irmã que escolhi. AGRADECIMENTOS À professora Marisa, pelas preciosas orientações, indicações bibliográficas e acolhimentos. À professora Mônica de Carvalho, a quem devo a minha iniciação no mundo da pesquisa acadêmica, pela ajuda e apoio em diversos momentos da minha vida acadêmica. À professora Gisela Black Taschner, pelas contribuições que trouxe a esta pesquisa na ocasião da arguição na banca de qualificação. A Cecília Russo e Jaime Troiano, por tudo que me ensinaram em minha vida profissional e pelo incentivo incondicional nesta empreitada. A Sandra, que sempre me encorajou, me apoiou e me entendeu em todas as esferas da minha vida. Por último, mas não menos importante, a todos os consumidores do Shopping Cidade Jardim que entrevistei, com um agradecimento especial a Paulinha. RESUMO A presente dissertação de mestrado tem como objetivo entender o significado do consumo de luxo praticado no Shopping Cidade Jardim, centro de consumo localizado em um condomínio de alto padrão na zona sudoeste de São Paulo. Neste sentido, as perguntas que permeiam este estudo se referem ao conhecimento das razões pelas quais se busca o consumo no referido lugar. A hipótese inicial é que o público que busca consumir nesse espaço o faz em função do desejo de ali estabelecer e/ou reforçar relações sociais visando à distinção. O estudo inicia com um confronto bibliográfico sobre os significados do ato do consumo a partir, principalmente, de obras dos seguintes autores: Pierre Bourdieu, Jean Baudrillard, Grant McCracken, Baron Isherwood, Mike Featherstone, Heitor Frúgoli Jr., Valquíria Padilha e Gilles Lipovestky, e de conceitos como ‘capital cultural’, ‘novo intermediário cultural’, ‘construção de identidade’, ‘hedonismo’ e ‘experiência’. Na sequência, constrói-se uma discussão sobre a dinâmica do consumo de luxo através os tempos. Após contextualizar o surgimento do Shopping Cidade Jardim nas mudanças de centralidade da cidade de São Paulo, realiza-se uma descrição etnográfica do shopping, uma análise da revista Cidade e das entrevistas realizadas com consumidores. Estas análises permitem afirmar que, ao frequentarem o Shopping Cidade Jardim, seus consumidores reivindicam o pertencimento a um determinado grupo – a elite paulistana – e a um estilo de vida idealizado nas páginas da revista Cidade, pautado por luxo, eventos e viagens. A distinção é buscada não só entre grupos diferentes, mas também dentro do próprio grupo, através da demonstração da posse de capital cultural incorporado. Palavras-chave: Consumo de luxo. Shopping Cidade Jardim. Estilo de vida. Capital cultural. ABSTRACT This dissertation has for objective to investigate the meaning of luxury consumption in Shopping Cidade Jardim, a shopping center located in an affluent condominium in the western district of São Paulo. The initial working hypothesis states that those who seek to consume there do so as a means of establishing, and/or reinforcing, relations based upon social distinction. The study begins with a bibliographical debate over the meaning of consumption, led by the following authors’ opuses: Pierre Bourdieu, Jean Baudrillard, Grant McCracken, Baron Isherwood, Mike Featherstone, Heitor Frúgoli Jr., Valquíria Padilha and Gilles Lipovestky, while such concepts as “cultural capital” “new taste maker”, “identity construction”, “hedonism” and “experience” are also reviewed and debated. In a second moment, a discussion over the dynamics of luxury consumption through time is then presented. After contextualizing the construction of Shopping Cidade Jardim within the changes in the city of São Paulo, an ethnographic observation of the shopping, a series of consumer interviews, as well as an analysis of the Cidade magazine are henceforth presented. This analysis affirms that those who consume at Shopping Cidade Jardim go there to claim their belonging to the Paulistana elite and to a lifestyle - that is idealized in Cidade magazine – characterizing a world of luxury goods, events and travel. Social distinction is not only sought after between varying groups, but also within their own group, by demonstrating the ownership of incorporated cultural capital. Key words: Luxury consumption. Shopping Cidade Jardim. Lifestyle. Cultural capital. LISTA DE ILUSTRAÇÕES E QUADROS Figura 1 Vista da marginal Pinheiros a partir do Shopping Cidade Jardim 67 Figura 2 Mapa dos shoppings da Marginal Pinheiros 69 Figura 3 O condomínio Parque Cidade Jardim visto da Marginal Pinheiros 73 Figura 4 O jardim interno do Shopping Cidade Jardim, visto do térreo 80 Figura 5 O jardim interno do Shopping Cidade Jardim, visto do primeiro andar 80 Figura 6 O jardim interno do Shopping Cidade Jardim, visto do segundo andar 80 Figura 7 Balcão do concierge 85 Figura 8 Casal folheando a revista Cidade na sala de espera do cinema 89 Figura 9 Capa da revista Cidade- agosto de 2011 96 Figura 10 Desenho do Condomínio Parque Cidade Jardim 136 Figura 11 Mapa do empreendimento 139 Figura 12 Planta do piso térreo do Shopping Cidade Jardim 140 Figura 13 Planta do primeiro piso do Shopping Cidade Jardim 140 Figura 14 Planta do segundo piso do Shopping Cidade Jardim 141 Figura 15 Planta do terceiro piso do Shopping Cidade Jardim 141 Figura 16 Planta do quarto e quinto piso do Shopping Cidade Jardim 142 Quadro 1 Tipo de Entrevista e Perfil dos Entrevistados 105 SUMÁRIO 10 INTRODUÇÃO Definindo o luxo 14 A escolha do tema 17 O percurso metodológico 20 A estrutura do trabalho 23 Capítulo I - Para uma compreensão do ato do consumo 24 Capítulo II - A dinâmica do consumo de luxo 38 2.1 Nos países com tradição histórica em produção e consumo de luxo 38 2.1.1 O surgimento do consumo de luxo e seu papel de marcador social 38 2.1.2 A institucionalização do luxo 41 2.1.3 O consumo do “luxo-negócio” 46 53 2.2 No Brasil Capítulo III - O Shopping Cidade Jardim: produto de uma nova centralidade 60 61 3.1 Mudanças de centralidade 3.1.1 Do “centro histórico” para o “centro Paulista” 61 3.1.2 Do “centro Paulista” para o “centro Berrini” e as margens do rio Pinheiros 3.2 A Marginal Pinheiros 63 65 Capítulo IV - Conhecendo o Shopping Cidade Jardim: a etnografia como experiência 72 4.1 O entorno do shopping: o Parque Cidade Jardim, um condomínio para poucos 72 4.2 Um olhar “de perto e de dentro” do shopping 77 Capítulo V - Consumir para pertencer 5.1 A revista Cidade: a construção de um estilo de vida 95 95 5.1.1 As colunas sociais: a intimidade com a elite 102 5.2 O estilo de vida dos consumidores entrevistados 104 5.2.1 Perfil dos entrevistados 104 5.2.2 Atividades de lazer 107 5.2.3 O luxo segundo os entrevistados 110 5.3 O Shopping Cidade Jardim pelos seus consumidores 112 5.3.1 Segurança e praticidade: os chamarizes do consumo em espaço fechado 114 5.3.2. A Arquitetura e “algo a mais” 116 5.3.3 Frequentar o Shopping Cidade Jardim: significados 118 O desejo de não se misturar 118 Consumo de luxo e capital cultural 122 Considerações finais 125 Referências bibliográficas 129 ANEXOS 135 ANEXO A - O Parque Cidade Jardim: descrição 136 ANEXO B – Plantas do Shopping Cidade Jardim 140 ANEXO C - Roteiros das entrevistas 143 INTRODUÇÃO O tema do consumo no Brasil, tratado em matérias que pretendem desvendar o comportamento do consumidor e/ou entender suas práticas, tem sido manchete recorrente dos principais jornais e revistas já há algum tempo. Isso pode ser explicado em parte graças ao acesso recente das chamadas classes C e D, ou do que se convencionou chamar “a nova classe média”, a bens de consumo outrora reservados a camadas mais elevadas da população.1 Mas não é só o consumo popular que está aumentando e despertando o interesse da mídia no Brasil; o contínuo crescimento do consumo de luxo no país tem sido noticiado com regularidade tanto em veículos especializados2 das áreas do marketing e do comportamento do consumidor como, também, em jornais e revistas de grande circulação. Algumas dessas revistas inclusive lançaram edições especiais sobre consumo de luxo.3 É nesse contexto que São Paulo, capital econômica do país, tem sediado cada vez mais eventos sobre o consumo de luxo. Em um espaço de duas semanas, entre maio e junho de 2011, a cidade foi palco de dois grandes acontecimentos ligados ao tema; o primeiro foi o Atualuxo nos dias 24, 25 e 26 de maio, uma “Conferência Internacional da Gestão do Luxo” com palestrantes brasileiros e estrangeiros, conforme anunciado pelo site do evento4, em sua terceira edição. O segundo, o curso “Gestão de Marcas de Luxo”, ocorreu entre os dias 6 e 10 de junho, pela segunda vez no ano, trazendo o conteúdo do curso do London College of Fashion, ministrado por um professor francês especialista em design e gestão de marcas de luxo.5 1 Por exemplo, em novembro de 2009, a revista Época Negócios anunciava em sua capa: “Descobrimos o que as pesquisas de mercado ainda não revelam sobre o estilo de vida, os hábitos e os sonhos de consumo dos protagonistas da maior revolução social do Brasil contemporâneo: a ascensão da classe C”. 2 Para citar alguns: Revista Giro do Ibope, The Elite Consumers, 15 ed., ano 4, out/nov/dez 2009; GRINOVER, P. “Setor desacelera, mas continua a crescer” In: Revista Meio& Mensagem, 18/05/2009; WELLING, J. “Pesquisa mostra relevância do luxo” In: Jornal Propaganda & Marketing, 21/12/09. 3 Época São Paulo Luxo (que se define como edição “especial dedicada ao que há de mais seleto na maior e mais cosmopolita cidade do Brasil”) e Veja São Paulo Almanaque são edições especiais e anuais dessas revistas semanais; Isto é Platinum é bimestral e promete apresentar “os mais novos, raros e caros objetos de desejo”. No entanto, a revista ressalta que “não se trata apenas de consumo. ISTOÉ Platinum apresenta tecnologia, arte, cultura, turismo e moda de forma espontânea e agradável, sempre destacando o que há de mais atual, moderno e sofisticado em cada área, no Brasil e no mundo”. In: http://editora3.terra.com.br/istoe_platinum.php. Consultado em 15/03/2011. 4 http://www.atualuxo.com.br 5 Disponívelem:<http://www.maisonduluxeeventos.com/#/Eventos&Projetos>. Consultado em: 14/03/2011. ͳͲ A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa – ABEP – ofereceu, em 26 de maio, a palestra “O Universo do Luxo”. Destinada a profissionais de pesquisa, de marketing ou de agências de propaganda, a palestra se propôs a “apresentar conceitualmente os padrões que regem o mercado do luxo: como este se origina, se mantém e se perpetua (...)”6. Neste caso, não se tratou tanto de “fazer negócios” como nos dois outros eventos, mas sim de entender como o universo do luxo se organiza. O consumo de luxo, portanto, está, em diferentes âmbitos, no centro das atenções. Vem sendo discutido pela grande imprensa e pela imprensa especializada, e debatido por especialistas e homens de negócios em conferências e palestras. Pois é justamente do consumo de luxo, e mais particularmente daquele praticado em uma “catedral das mercadorias”7 situada na zona sudoeste de São Paulo, o Shopping Cidade Jardim, que trata essa dissertação. Se, hoje, o tema do consumo do luxo é um assunto constante na imprensa brasileira e tem suscitado cada vez mais o interesse do mundo dos negócios, o campo acadêmico nacional não parece ter lhe dedicado a mesma importância. De fato, um levantamento nas bases de dados da Associação Nacional de PósGraduação e Pesquisa e Ciências Sociais – ANPOCS – e da Associação Nacional de PósGraduação e Pesquisa em Administração – ANPAD –, bem como nas bases de dados on-line das bibliotecas de teses e dissertações da PUC-SP e da USP, revela que o número de trabalhos acadêmicos sobre consumo de luxo, até o fim da década de 1990, é praticamente nulo.8 O assunto parece ganhar relevância a partir de meados de 2000, com um aumento de trabalhos sobre o tema, mas quase sempre no âmbito do marketing, do comportamento do consumidor ou da administração9 (às vezes no da comunicação e semiótica, ou até no da psicologia clínica), mesmo que em suas bibliografias esses trabalhos recorram a autores da sociologia ou da antropologia.10 6 Disponívelem:<http://www.abep.org/novo/Content.aspx?ContentID=637> Consultado em: 14/03/2011. Termo usado por Padilha (2006) para se referir aos shopping centers. 8 A dificuldade parece não se restringir ao tema do consumo de luxo, mas ao consumo em geral. Barbosa (2010), em livro publicado pela primeira vez em 2004, constata a dificuldade de encontrar trabalhos acadêmicos sobre o consumo no Brasil. 9 São ainda essas áreas as pioneiras na promoção de cursos especializados no tema, como o MBA em gestão de luxo na FAAP ou ainda o curso de marketing para produtos e serviços de luxo da ESPM. 10 A título de exemplo, podemos citar algumas publicações na base de dados on-line da Anpad, como: Brunelli, M.Q.B. et al. Shopping experience no mercado de luxo: o caso H. Stern, 2010; Alonso, L.S. e Marchetti, R.Z. Atributos, benefícios e valores associados ao consumo de perfumes de luxo, 2008; Scaraboto, D. Pequenos luxos, grandes prazeres - significados do consumo e valores dos consumidores de joalheria e vestuário de luxo, 2006. Strehlau, S. A teoria do gosto de Bourdieu aplicada ao consumo de marcas de luxo falsificadas, 2005, etc. 7 ͳͳ Taschner situa nos anos 1980 o aparecimento, na área das Ciências Sociais, dos estudos sobre o consumidor e a autonomização do campo do consumo, desvinculando-o da lógica da produção. 11 Contudo, podemos afirmar que o estudo do consumo de luxo, em 2011, nas ciências sociais, é ainda incipiente, pois os artigos, dissertações e teses que tratam do tema o fazem de maneira periférica. O consumo de luxo não é objeto central dos estudos, mas é referido de forma indireta em suas análises.12 Na busca por trabalhos diretamente relacionados ao consumo de luxo, ficou claro que não somente o estudo deste tema ainda é muito marginal no país, como o é igualmente o estudo sobre as classes de alto poder aquisitivo. Conforme constata Pochmann, “os estudos e pesquisas sobre a riqueza no Brasil não são muito frequentes”, embora exista, no entanto, “um conjunto diverso de análises sobre a temática da riqueza, sobretudo acerca das chamadas classes superiores” (2004, p. 25).13 Dito de outra maneira: as classes altas brasileiras e suas práticas ainda não são objeto frequente de estudo no país. Parece, pois, haver uma ausência de análises nas ciências sociais sobre o tema em questão.14 Assim sendo, na falta de dados acadêmicos concretos, devemos nos apoiar em fontes oriundas de pesquisas de mercado para termos uma dimensão das proporções do cenário brasileiro atual do consumo de luxo e estabelecermos o pano de fundo para o nosso trabalho. Dessa forma, nossa principal fonte de informações a respeito do consumo de luxo nacional é a pesquisa Mercado de Luxo, publicada anualmente desde 2006. É fruto da parceria 11 “[...] a pesquisa mudou o tratamento dispensado ao consumo em mais um aspecto além do referencial teórico e da ênfase na produção. Nos enfoques tradicionais, vindos da economia, prevalecera o tratamento do consumo em sua materialidade, independentemente de se tratar de bens ou de serviços [...] Já nas novas abordagens desenvolvidas a partir da década de 1980, grosso modo, vindas da Sociologia e da Antropologia, o consumo não apenas se tornou foco (em vez de apêndice) da análise, como também a dimensão simbólica desse consumo passou a ser privilegiada em relação a seus aspectos materiais.” (TASCHNER, 2009, p. 17). 12 Ver, por exemplo, Pulicci, C. O charme (in)discreto do gosto burguês paulista: estudo sociológico da distinção social em São Paulo, FFLCH, USP, 2010; e Guimarães, D.A.F. A decoração nas residências de elite: a produção material e simbólica dos espaços da casa, FFLCH, USP, 2010. 13 No entanto, os sociólogos franceses Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot também comentam sobre a “fraqueza das investigações sociológicas” referentes à riqueza. Escrevem que “a maioria dos sociólogos, cuja origem social é popular ou média , não ficam à vontade na presença dos dominantes, apesar de terem atingido uma posição social relativamente elevada, como pesquisadores ou professores-pesquisadores. Não gostam de se demorar nessas técnicas de sociabilidade que temem acima de tudo […] No entanto, tentar a sorte na grande burguesia permite viver pessoalmente a distância social, e essa experiência por si mesma justifica enfrentar as dificuldades particulares a esse meio. A reticência em entrevistar os poderosos é antes de tudo consequência da dominação simbólica e uma bela demonstração da força desse tipo de violência nas relações sociais, já que pode ocorrer antes mesmo de qualquer contato direto” (2007, pp.57-58, tradução nossa). 14 Em tempo: em 7 de setembro de 2011, a revista Carta Capital trazia uma matéria de capa intitulada “Ricos e ignorados”. A matéria cita o pesquisador Rafael Guerreiro Osório: “Cientistas sociais, não só os brasileiros, se pelam por um pobre. Não deve existir um sem-terra, um catador de lixo ou morador de rua no país que chegue à velhice sem responder um questionário extenso. Mas nunca vi, num congresso de sociologia, algo do tipo ‘as representações sociais sobre a riqueza dos frequentadores do Fasano’. O Fasano é um dos restaurantes mais badalados e caros do Brasil.” MARTINS, R. e VIEIRA, W. “Privilegiados. E incógnitos.” In: Carta Capital, 7 de setembro de 2011. ͳʹ da consultoria de marketing MCF, especializada no mercado de luxo (responsável pela organização do evento Atualuxo) e da empresa de pesquisa de mercado GFK. Juntas, publicam anualmente extensos relatórios sobre o assunto, amplamente veiculados tanto pelas mídias especializadas como pela grande imprensa. Desde a sua primeira publicação, a pesquisa vem registrando um aumento do consumo de luxo no país. Em 2007, o setor teria aumentado 17% em relação ao ano anterior; em 2008, cresceu em um ritmo menos acelerado, com um percentual de aumento de 12,5%. Mas, em 2009, mesmo ainda sob o impacto da crise, a pesquisa registra que as empresas brasileiras deste mercado faturaram, juntas, R$ 12,3 bilhões, o que corresponderia a 12% de incremento em relação a 2008.15 Os números previstos para 2010 foram superados; ainda segundo pesquisa da MCF Consultoria, a previsão para o ano de 2010 16 era de que o mercado brasileiro de luxo aumentaria 23% – o triplo do que os mais otimistas apontavam para o crescimento do PIB: 7% –, faturando R$ 15,1 bilhões. Carlos Ferreirinha, presidente da MCF, explicou que “o crescimento recorde esperado se deve em parte ao fato do Brasil ter sofrido de forma menos intensa os reflexos da crise mundial. Ele é resultado ainda de investimentos feitos há dois anos (por indústria, varejo e setor de serviços) e do aumento de consumidores nesse segmento”17. E, de fato, números anunciados na edição de 2011 do Atualuxo apontam um faturamento do mercado de luxo brasileiro de R$ 15,7 bilhões, e projeções de uma expansão de 33% para 2011.18 Já uma matéria publicada na Folha de S.Paulo em 201019 noticiava uma pesquisa da consultoria estratégica internacional Bain & Company, a qual previa um crescimento de 20% para o mercado brasileiro, chegando a US$ 1,5 bilhão. Fica clara, pois, a falta de dados exatos quantificando este mercado. No entanto, se os números não são iguais, ambas as fontes enxergam um crescimento grande do consumo brasileiro de luxo. 15 MCF CONSULTORIA, Panorama do luxo em 2010. Disponível em: <http://www.mcfconsultoria.com.br/>. Consultado em: 29/01/2011. 16 Para a realização desta pesquisa, foram entrevistados representantes de 95 empresas nacionais e internacionais. 17 Em entrevista à Folha de S.Paulo para a matéria “Mercado de luxo espera crescer o triplo do PIB”, 01/08/2010. 18 Disponível em: <http://mundodomarketing.com.br/cobertura-atual-luxo-2011-26demaio>. Consultado em: 28/05/2011. 19 FAGUNDES, A.; FORNETTI, V. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/mercado/830480-mercadode-luxo-cresce-com-emergentes.shtml>.Consultado em 28/05/2011. ͳ͵ Definindo o luxo A palavra “luxo” vem do latim luxus, que significa abundância, refinamento. O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa apresenta as seguintes definições para “luxo”: 1. Modo de vida caracterizado por grandes despesas supérfluas e pelo gosto da ostentação e do prazer; fausto, ostentação, magnificência; 2. Caráter do que é custoso e suntuoso; 3. Bem ou prazer custoso e supérfluo; superfluidade, luxaria; 4. Viço, vigor, esplendor; 5. Bras.Fig. Dengues, melindres; 6. Bras. Recusa fingida de alguém a fazer ou aceitar alguma coisa; negação afetada, afetação; 7. Cabo-verd. Cuidado, esmero, aplicação. Com exceção dos regionalismos brasileiros e cabo-verdenses, a palavra luxo conota sempre a ideia de algo que não é essencial (“supérfluo”), que é caro (“grandes despesas”; “custoso”) e que é feito para ser visto e para impressionar (“ostentação”, “esplendor”). O termo é comumente associado à noção de prazer, sendo o luxo um prazer per se (definição 3) ou algo que dá prazer (definição 1). Para alguns dos autores que discutem a temática do consumo de luxo, não há consenso sobre como defini-lo. Segundo Diderot, na Enciclopédia (apud Ortiz, 1991, p. 123), o luxo é o “uso que se faz das riquezas da indústria para se procurar uma existência agradável”. Sombart (1967, p. 59) discrimina dois aspectos do luxo que, às vezes, podem se combinar; um quantitativo, sinônimo de prodigalidade, e outro qualitativo, caracterizado pelo uso de bens de qualidade superior. Campbell (2001, p. 88) também vê duas conotações para a palavra: “um item supérfluo, algo que é desejado, mas é adicional à carência” e “a referência à experiência sensorial e agradável”. Para D’Angelo (2006, p. 26), “nada é intrinsecamente luxuoso, é preciso que assim seja chamado”. Castarède (2005, p. 23) concorda quanto à atribuição subjetiva da noção de luxo, mas resolve abordá-la no seu “sentido lato, isto é, na acepção menos elitista: luxo é o que não é corriqueiro e que está relacionado ao talento, ao garbo, à magnificência e à celebração”. Já para o filósofo francês Gilles Lipovetsky20 (2005, p. 83), “o luxo hoje é hibridação da tradição e da moda, reestruturação do tempo da tradição pelo tempo da moda, reinvenção e reinterpretação do passado pela lógica-moda do presente”. Para este 20 Lipovetsky se transformou, no decorrer dos últimos 20 anos, em uma sumidade do luxo no âmbito da vulgarização acadêmica. Professor de filosofia, escreveu um livro e inúmeros artigos sobre o conceito de luxo; é entrevistado por revistas ou jornais que procuram uma visão que não seja “de negócios” sobre o tema. ͳͶ autor, as noções de temporalidade e de hedonismo são fundamentais na caracterização do luxo. Perante a multiplicidade de sentidos atribuídos à palavra “luxo”, e até frente a algumas definições subjetivas que surgiram durante a nossa pesquisa – relacionando o luxo a “algo interno, a bem-estar”, por exemplo –, é necessário estabelecermos uma definição clara para o termo. Assim, o termo “luxo”, tal como o entendemos e utilizamos ao longo dessa dissertação, refere-se a um produto ou serviço que se diferencia por ser associado a um padrão superior (tradição, qualidade mais elevada etc.) ao de outros produtos ou serviços que poderiam preencher as mesmas funções e, por isso, beneficia-se de uma distribuição seletiva e limitada, sendo dirigido a um público disposto a pagar um preço mais elevado por ele. O produto ou serviço de luxo é sempre associado a uma marca, ou “grife”, e abrange uma diversidade de segmentos. O comitê Colbert 21 , associação criada para defender a “excelência e o savoir-faire franceses”, reconhece os dez seguintes segmentos, denominados de métiers: x Métiers de la Couture et de la Mode (Costura e Moda) x Métiers du Cristal (Cristal) x Métiers de l´Édition et de la Décoration (Edição e Decoração) x Métiers de la Faïence et de la Porcelaine (Faiança e Porcelana) x Métiers de l´Accueil, de l´Hôtellerie e de la Gastronomie (Recepção, Hotelaria e Gastronomia) x Métiers de l´Argent et du Bronze (Prata e Bronze) x Métiers du Cuir (Couro) x Métiers de l´Or et des Matières Précieuses (Ouro e Matérias Preciosas) x Métiers du Parfum (Perfume) x Métiers de la Vigne (Vinhedo) Mas existem outras maneiras de segmentar o mercado de produtos e serviços de luxo. Castarède (2005), por exemplo, inclui, em sua “tipologia das atividades do luxo”, o setor de transportes (automóveis, iates e aviões particulares), de lazer (cruzeiros, clubes, esportes como polo, caça, golfe), da habitação (residências, compra ou reforma de palácios, decoração de luxo) e, ainda, da alimentação (vinhos e destilados, comidas finas e restaurantes de luxo). 21 O Comitê Colbert é uma associação francesa fundada em 1954 por Jean-Jacques Guerlain. O seu nome homenageia Jean- Baptiste Colbert (1619-1683), figura marcante da história econômica francesa, que encorajou a criação de manufaturas do Estado (Gobelins, Beauvais, laSavonnerie) ou privadas (Saint Gobain), produzindo bens destinados à exportação (artigos de luxo, metais...) Encorajou a exportação francesa, a melhoria dos portos, criou a Companhia das Índias Orientais, participando ativamente da difusão do renome do savoir-faire francês. Fonte: <http://www.comitecolbert.com>.Consultado em: 28/11/2010. ͳͷ No entanto, nem todos esses setores são abordados particularmente nesse trabalho. Pelo fato do nosso objeto ser um shopping center, o consumo de luxo ao qual nos referimos é constituído mais especificamente pelos segmentos disponíveis nesse espaço: relojoaria, perfumaria, lazer, gastronomia e vinhedos, couro (bolsas e sapatos) e moda. Até mesmo a habitação é abordada em função do projeto peculiar do Shopping Cidade Jardim, cujo formato envolve, conjuntamente, um condomínio composto de torres de moradia e escritórios. Compreende-se que as palavras “alto padrão” e “grife” serão empregadas no decorrer dessa dissertação como sinônimas de “luxo”, ou seja, do mesmo modo como são frequentemente usadas pela imprensa. Durante a pesquisa, pudemos perceber o quanto a moda é frequentemente ligada ao setor do luxo, criando-se muitas vezes certa confusão entre os dois mundos.22 Estima-se que a moda nasceu em meados do século XVI (McCracken, 2003). Seja entendida como autoafirmação (Lipovetsky, 2005) ou como vontade de ostentar e distinguir-se (McCracken, 2003; Taschner, 2009), a moda vem sendo, desde então, uma das maiores protagonistas e “vitrines” do universo do luxo. Outrora, nas cortes, as mulheres lhe davam este destaque, ao usarem, por exemplo, toaletes suntuosas; hoje em dia, os desfiles das casas de alta costura, transformados cada vez mais em acontecimentos, superproduções milionárias, ratificam este papel da moda como uma das principais expoentes do universo do luxo. No entanto, nem toda moda é luxo, e conforme já indicamos acima, o setor do luxo compreende muito mais do que simplesmente moda. 22 Pude perceber isso já durante a minha pesquisa de Iniciação Científica, quando com frequência fui intitulada como a “menina que estuda a moda”. ͳ A escolha do tema Meu interesse pelo tema do consumo de luxo surgiu no curso de graduação em Ciências Sociais, na PUC-SP, durante o qual desenvolvi uma pesquisa de Iniciação Científica intitulada Daslu: a construção da identidade de classe por meio do consumo de luxo. O objetivo principal dessa pesquisa era identificar o público da Villa Daslu23, loja que já foi definida em artigo no cotidiano francês Le Monde como “lugar único, que entrou para a lenda do luxo, e que mereceria, ele sozinho, uma tese de sociologia”24. A ideia inicial da pesquisa surgiu quando, em 2005, a loja Daslu se mudou da Vila Nova Conceição, onde estava instalada desde sua fundação em 1958, para a zona sudoeste de São Paulo. Com entrada na avenida Chedid Jafet, e vista para a Marginal Pinheiros, a Daslu passou a se chamar Villa Daslu, nome que busca reforçar o semblante italiano da arquitetura do projeto.25 Numa primeira visita à Villa Daslu, em junho de 2005, o contraste da imponência do prédio neoclássico com a sua vizinha favela Coliseu me chamou a atenção. Considerei discutir essas disparidades então amplamente exploradas pela mídia 26 , mas, a partir das primeiras entrevistas com consumidores da Daslu, reelaborei o trabalho, focando o estudo no público consumidor da loja. As entrevistas realizadas durante o período da pesquisa me fizeram diferenciar dois tipos de consumidores: os que eu chamei de tradicionais, que já tinham o hábito de frequentar a loja quando esta ainda tinha o seu endereço na Vila Nova Conceição, e os que denominei de 23 Hoje, a Daslu, que sempre se orgulhou de ser uma empresa familiar, está prestes a mudar de rumo, após uma trajetória de cinquenta anos, dos quais os dez últimos foram particularmente conturbados. A Daslu nasceu em 1958 da parceria de duas amigas; Lourdes Aranha e Lucia Piva de Albuquerque. Localizada na casa da Lucia, na então Chácara Maria, hoje Vila Nova Conceição, a boutique ficou conhecida como a loja “das Lu”. A loja, segundo o seu site, era “pequena, porém exclusiva e luxuosa”. No decorrer das décadas seguintes, foi ampliada até ocupar uma área de quatro mil metros quadrados. Ficou então no meio da polêmica sobre a votação do Plano Diretor. Enfrentou problemas devido à sua localização, uma região onde somente imóveis residenciais eram permitidos. Em junho de 2005, mudou-se para a avenida Chedid Jafet e esteve então em outra polêmica: a Operação Narciso, que envolveu Polícia, Receita e Ministério Público Federais e desmontou um esquema de irregularidades nas importações da loja. Em 2008, foi aberta uma segunda Daslu, no recém-inaugurado Shopping Cidade Jardim. Em 2009, a marca esteve novamente envolvida em escândalo de importação fraudulenta. Em março de 2011, com dificuldades financeiras, foi comprada por R$ 65 milhões pela gestora de recursos Laep. O seu dono anunciou que sua meta era expandir a Daslu para fora do Brasil. 24 LANGELLIER, J.P.: “Une vie de riche” In: Le Monde, 28/09/2010. 25 “O prédio foi praticamente “desenhado” por Eliana, que é artista plástica. Ela [...] montou a Daslu projetos, uma empresa com 12 arquitetos que trabalharam madrugadas a fio [...] para transformar o “esqueleto” em um palazzo neoclássico de 20 mil metros quadrados [...]” MELLO E MOTTA, 2005. 26 “Vizinhos de fundos da nova Daslu, aberta ontem ao público, moradores da favela Funchal, localizada na rua Coliseu, na Vila Olímpia (zona sul da capital), esperam que o local receba melhorias com a chegada da loja à região [...] Ontem, na rua principal da favela, cheia de desníveis, o esgoto corria a céu aberto em razão de um entupimento na rede [...]” BALAZINA, 2005. ͳ consumidores recentes, que passaram a ir à loja quando esta mudou-se para o seu endereço atual.27. Este movimento de deslocamento da loja e a chegada de novos consumidores despertaram a minha curiosidade, assim como a construção de empreendimentos do mesmo ramo de comércio de luxo, que foram anunciados no eixo sudoeste da cidade enquanto eu realizava a minha pesquisa. De fato, até 2005, somente os shoppings Morumbi, Market Place e Iguatemi28 (que neste meio tempo contaram com obras de ampliação ou repaginação) e, um pouco mais à frente, na mesma Marginal Pinheiros, o Shopping Villa Lobos, atendiam o grande fluxo de consumidores abastados que circulavam entre a avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, o Itaim, a Vila Olímpia e Pinheiros. Nos anos após a mudança da Daslu, foram inaugurados o Shopping Cidade Jardim e o Shopping Vila Olímpia29, respectivamente em 2008 e em 2009. Outro empreendimento ainda promete reforçar a aura de luxo da região, o Shopping JK Iguatemi, que tem inauguração prevista para 2012 30 , ao lado das atuais instalações da Villa Daslu. Com a consolidação do eixo Marginal Pinheiros-Berrini como polo de consumo de luxo, novas inquietações surgiram. Assim, entender as mudanças ocorridas nessa região e o porquê da sua consolidação como um novo centro de consumo de luxo constituíram o foco inicial de meu projeto ao ingressar no mestrado em Ciências Sociais na PUC-SP. No entanto, no decorrer dos semestres iniciais, repensei o objetivo principal da minha pesquisa. Nesse período, iniciei um trabalho em um instituto de pesquisa de mercado. O consumo e a possibilidade, através dele, de construção da identidade, temas que me interessavam desde a graduação, passaram a fazer cada vez mais parte do meu cotidiano. Leituras nas áreas de sociologia e antropologia do consumo e sociologia do gosto colaboraram para que eu desse 27 “Portanto fica aqui evidente a cisão existente entre consumidores tradicionais, que se consideram como tais e assim também o são pelos consumidores recentes, e estes últimos, que não têm o reconhecimento dos consumidores tradicionais (que os veem como “turistas” ou consumidores ocasionais) e nem consideram a si próprios como consumidores autênticos da loja. Nestes termos, há um sentimento comum, entre consumidores tradicionais e consumidores recentes, de que há um consumidor típico da loja Daslu, o qual pode ser definido pelas características enunciadas pelos consumidores tradicionais. Portanto, o imaginário que alimenta a percepção de pertencer a um grupo distintivo não é mera produção subjetiva dos consumidores tradicionais, mas se constrói por meio de uma configuração somente possível quando interagem simbolicamente os consumidores tradicionais e os consumidores recentes. É por meio do conflito entre consumidores tradicionais e recentes, só possível quando a Daslu migra para a Marginal Pinheiros, que se define a identidade de classe que a loja pretende representar. É neste embate que se configura a identidade da elite paulistana, por meio da evidência do consumidor típico da loja Daslu.” (GAZUREK, M-O., 2008). 28 Esse, na avenida Brigadeiro Faria Lima. 29 Este shopping pretende atingir o mesmo público elitizado que caracteriza a região, porém focando menos os seus moradores e mais os clientes que trabalham nos escritórios das redondezas. 30 Segundo site da Associação Brasileira de Shopping Centers, consultado em 11/09/2011. Disponível em: <http://www.portaldoshopping.com.br>. ͳͺ continuidade à minha pesquisa de Iniciação Cientifica sobre o consumo de luxo, agora analisando o significado de consumir no Shopping Cidade Jardim em São Paulo. Dessa forma, nossa escolha pelo Shopping Cidade Jardim não foi casual. Este centro comercial não deve ser entendido de forma isolada, mas como inserido no contexto das mudanças de centralidade que vêm ocorrendo na cidade de São Paulo desde o começo do século XX, e mais especificamente a partir do fim dos anos 1970, com uma intensificação nos anos 1990. Se alguns dos shoppings do mesmo eixo foram reformados em meados dos anos 2000 para atingir a clientela em busca de grifes, o Shopping Cidade Jardim já foi projetado para atender a esse público. É o primeiro shopping da cidade a ter sido criado nesse intuito, já que o Iguatemi, após a sua inauguração em 1966, demorou alguns anos para se firmar como centro de consumo de luxo (D’Angelo, 2006). Assim, o Shopping Cidade Jardim configura-se hoje como um importante representante do polo de consumo de luxo na cidade, o que nos possibilita a análise dos significados presentes na prática desse tipo de consumo. O nosso interesse não é por um setor de atividades específico do shopping, mas pelo shopping em seu conjunto e seus diferentes consumidores: os da academia Reebok, dos restaurantes de alto padrão (como, por exemplo, Due Cuochi ou Pobre Juan), das salas de cinema Cinemark, ou das lojas de grifes (entre elas, Chanel ou Louis Vuitton). Consumidores que preferem o Shopping Cidade Jardim a outros lugares onde esses segmentos também estão presentes, como o Shopping Iguatemi ou as ruas de bairros de elite, como Itaim Bibi e Jardins. Perante esse cenário, as questões que permeiam esse trabalho buscam apreender: quem é o publico frequentador do Shopping Cidade Jardim? Quais são os motivos que o levam a buscar esse local para consumo? Quais são os significados de ser consumidor nesse local de luxo? As respostas a essas perguntas nos ajudarão a conhecer os fatores predominantes que influenciam o consumidor que busca o espaço do referido shopping. A hipótese inicial de trabalho é que o público que busca consumir nesse espaço o faz em função do desejo de ali estabelecer e/ou reforçar relações sociais, visando à distinção. ͳͻ O percurso metodológico O início do trabalho se deu através de um levantamento e uma revisão bibliográfica nacional e estrangeira nas áreas da sociologia e antropologia do consumo, da sociologia do gosto, da sociologia urbana, da filosofia, da administração e do marketing. Também foi realizada pesquisa em sites, jornais e revistas brasileiras e estrangeiras sobre as transformações na região sudoeste de São Paulo, sobre o consumo de luxo, bem como a respeito do Shopping Cidade Jardim. O site do Shopping Cidade Jardim foi frequentemente consultado; a revista do shopping foi analisada. Foram realizadas entrevistas com consumidores do Shopping Cidade Jardim. Em função do objeto a ser investigado e da opção por dar voz aos sujeitos envolvidos em nosso estudo, esta pesquisa tem um cunho qualitativo. Acredita-se que essa metodologia possibilite uma maior aproximação com as concepções, significados, percepções e sentimentos dos consumidores do luxo. Os estudos de Chizotti (1991) reforçam nossa escolha. Segundo o autor, essa abordagem pressupõe a existência de uma relação dinâmica entre o mundo real e o sujeito. Além disso, a pesquisa qualitativa igualmente presume uma interdependência ente o sujeito e o objeto, gerando um vínculo indissolúvel entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito. Assim, a pesquisa deve estar atenta aos significados que os indivíduos imputam aos seus atos, ou, nas palavras do autor, a pesquisa qualitativa deve ser o “desvelamento do sentido social que os indivíduos constroem em suas interações cotidianas” (CHIZZOTTI, 1991, p. 79). O passo inicial foi realizar entrevistas semiestruturadas com os consumidores que estivessem dispostos a participar da pesquisa. Os entrevistados foram selecionados a partir da pergunta: “Você se considera consumidor do Shopping Cidade Jardim?” Não foram estipulados parâmetros de frequência para que a pessoa fosse considerada consumidora. Desta maneira, conversamos com pessoas com diferentes graus de envolvimento com o shopping (uns vão ao Shopping Cidade Jardim diariamente porque estão matriculados na academia ou são assíduos do cinema; outros, que moram fora de São Paulo, têm o Shopping Cidade Jardim como referência ou ponto de encontro quando estão na cidade, entre outros), mas possuidoras de um ponto em comum: autodenominam-se consumidores do Shopping Cidade Jardim. Alguns dos entrevistados foram indicados por amigos em comum e me concederam a entrevista com facilidade. Estes, por sua vez, me indicaram outros consumidores – conforme a ʹͲ técnica da “bola de neve”, seguindo Lincoln e Guba apud Alves Mazzotti e Gewandsznajder ( 2000) –, aos quais eu me apresentei por e-mail ou telefone antes de marcar um encontro ou de enviar meu roteiro de perguntas. Houve, no período da pesquisa, algumas tentativas frustradas de entrevistas: pedidos não respondidos, e-mails não retornados, mas, na maioria das vezes, quando conseguia o contato de um consumidor, não havia objeção à concessão da entrevista. A maior dificuldade foi encontrar homens que se dispusessem a participar. Dos 15 entrevistados, apenas um é do sexo masculino. (O perfil desses consumidores pode ser melhor visualizado no quadro 1). Pulici, em sua tese de doutorado em sociologia, na qual pesquisou o gosto burguês paulista, diz acreditar que, não tivesse vivido e estudado na capital francesa, muito provavelmente não teria conseguido reunir um conjunto de informantes. Ela relata que muitos dos entrevistados foram logo no primeiro contato inquirindo sobre a temporada na França, e sempre de forma admirativa. Num certo momento, também me dei conta de que os próprios amigos aos quais recorri na busca de informantes me apresentavam como alguém que fazia um doutorado “na USP e na França”, como se isso fosse aumentar a disposição em me conceder uma entrevista. Eu pude ver com bastante clareza o quanto o estágio no exterior era o que me credenciava junto à quase totalidade dos entrevistados, o que quebrava os gelos e desarmava os informantes mais arredios, sendo assunto sobre o qual gostavam de especular (onde morei, se meu namorado ou marido era francês, “que privilégio ter vivido num lugar tão interessante”, etc., de modo que a entrevista, não raro, se interrompia em digressões sobre a França). No frigir dos ovos, pode-se dizer que se por um lado as historietas sobre a França acabavam por estabelecer certa relação de condescendência, de outro elas cumpriam a função bastante preciosa de atenuar as distâncias entre entrevistador e entrevistado, suscitando um clima mais espontâneo e participativo na interação. (Pulici, C. 2010, pp. 23-24). Sendo francesa, e estabelecida no Brasil há 11 anos, senti como Pulici o quanto minha história de vida, e no caso a minha nacionalidade, me ajudaram nas entrevistas com pessoas desconhecidas, consumidoras do Shopping Cidade Jardim. Em todas as entrevistas com pessoas que eu encontrei pela primeira vez, houve inevitavelmente perguntas a respeito da minha procedência e da minha escolha de residência no Brasil. Pulici ainda relata que sentiu, através do cuidado indumentário e da ostentação da ainda tão prestigiada vivência na Europa e nos Estados Unidos, [a necessidade de fazer] com que meus interlocutores retivessem a impressão de que eu não era assim tão estranha ao mundo que interrogava. Essa foi uma condição sine qua non para conseguir entrevistar, já num primeiro encontro, representantes de grupos socialmente privilegiados da cidade de São Paulo que, com raríssimas exceções, não tinham a menor ideia de quem eu fosse. (Idem) ʹͳ Como Pulici, muitas vezes procurei demonstrar familiaridade com algumas das práticas discutidas durante as entrevistas, a fim de “instaurar um acordo mínimo para que a interação se efetivasse, [emitindo] declarações que fizessem referência a valores que todos estivessem em condições de homenagear.” (Idem). Pulici ainda cita o caso de entrevistados que começavam a conversa em francês. Durante minha pesquisa, o entrevistado n° 1, que me fora indicado por um amigo e com quem a entrevistada foi realizada por skype, iniciou a conversa com um “bonjour” e sugeriu na sequência: “Se for mais fácil pra você, pode me enviar as perguntas em francês que eu respondo em português.”31 Em função da dificuldade de se realizar pessoalmente as entrevistas, oito delas foram conduzidas por e-mail e uma por skype, sempre precedidas por um texto no qual eu me apresentava e introduzia brevemente o tema da pesquisa, informando que o entrevistado estaria livre para responder apenas às perguntas que desejasse ou, ao contrário, para adicionar comentários caso julgasse necessário. 32 Sempre que precisei retomar contato para uma pergunta adicional, obtive pronta resposta. Na maioria das entrevistas, todas as perguntas foram respondidas, sendo que a única pergunta para a qual houve alguma dificuldade de obter resposta foi a sobre faixa de renda. Também foram realizadas cinco entrevistas com funcionárias e vendedores do shopping que se dispuseram a responder às nossas questões durante as nossas visitas ao shopping. Igualmente, foram feitas 11 visitas de caráter etnográfico ao Shopping Cidade Jardim. A etnografia é uma “forma especial de operar em que o pesquisador entra em contato com o universo dos pesquisados e compartilha horizonte, não para permanecer lá ou mesmo para explicar ou interpretar a lógica de sua visão de mundo, mas para segui-los até onde seja possível” ( Latour, 2005 apud Fortuna, C. e Leite. R. P, 2009, p. 104) e, numa relação de troca, contrastar suas próprias teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento ou, ao menos, com uma novas possibilidades antes não contempladas. Essas etnografias nos possibilitaram realizar uma descrição detalhada do shopping e conhecer os lugares citados pelos consumidores nas entrevistas, bem como observar os diálogos e os comportamentos em suas dependências (lojas, restaurantes etc.). 31 32 As falas ou mensagens escritas dos entrevistados são aqui transcritas tal como foram emitidas. Ver Anexo C- Roteiros das entrevistas. ʹʹ A estrutura do Trabalho No Capítulo I - Para uma compreensão do ato do consumo, constrói-se um confronto bibliográfico a partir da discussão de diversas tendências de análise sociológica e antropológica do consumo. No Capítulo II - A dinâmica do consumo de luxo, procura-se estabelecer o cenário para o consumo de luxo atual, por meio de uma apresentação da dinâmica das formas de consumo de luxo ao longo do tempo. Primeiramente, nos países com tradição histórica em produção e consumo de luxo e, em um momento posterior, no Brasil. O Capítulo III - O Shopping Cidade Jardim: produto de uma nova centralidade, apresenta um breve histórico das mudanças de centralidade na cidade de São Paulo com um enfoque na zona sudoeste e na importância que esta ganhou nos últimos 25 anos como polo de economia global. Este cenário nos permite contextualizar o surgimento do shopping Cidade Jardim. Os dois últimos capítulos são resultantes da nossa pesquisa de campo: No Capítulo IV - Conhecendo o Shopping Cidade Jardim: a etnografia como experiência, apresenta-se uma descrição detalhada do shopping, baseada nas etnografias realizadas como contexto para as análises do quinto capítulo. Por fim, o Capítulo V - Consumir para pertencer fornece, a partir da análise da revista Cidade, dirigida aos frequentadores do shopping, e das entrevistas com consumidores, uma discussão sobre “estilo de vida” e uma interpretação do significado do consumo de luxo no shopping Cidade Jardim, baseando-se nas referências teóricas que fundamentam esse trabalho. Esse trabalho encerra-se com as Considerações finais. ʹ͵ Capítulo I - Para uma compreensão do ato do consumo “Oh, não discutam a “necessidade”! O mais pobre dos mendigos possui ainda algo de supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam a natureza às necessidades da natureza e o homem ficará reduzido ao animal: a sua vida deixará de ter valor. Compreendes por acaso que necessitamos de um pequeno excesso para existir?” Rei Lear, Shakespeare, W. apud Baudrillard, 2005, p. 51. Em seu livro La consommation et ses sociologies, o semiólogo francês Benoît Heilbrunn constata que “queiramos ou não, vivemos em uma sociedade de consumo” (2010, p. 7) e desenvolve a discussão a respeito do sentido que o ato de consumir adquiriu: O consumo, pois, não é mais ligado a uma resposta estrita a necessidades naturais (vestir-se, comer, ter um teto), mas constituiu-se como um sistema pelo qual os indivíduos manipulam coletivamente e individualmente sentido e valores, e mobilizam recursos importantes em termos de tempo, de esforços, de energia psíquica, etc. (HEILBRUNN, 2010, p. 7, tradução nossa) No mesmo sentido, Livia Barbosa ressalta o fato de que “apenas a nossa [sociedade] tem sido caracterizada como uma sociedade de consumo”. E explica: Isto significa admitir que o consumo está preenchendo, entre nós, uma função acima e além daquela de satisfação de necessidades materiais e de reprodução social comum a todos os demais grupos sociais. Significa admitir, também, que ele adquiriu na sociedade moderna contemporânea uma dimensão e um espaço que nos permitem discutir através dele questões acerca da natureza da realidade. Entretanto em que consiste a natureza dessa realidade e sua essência vai ser justamente o centro dos debates entre os diferentes autores sobre o que é uma sociedade e/ou uma cultura de consumo e de consumidores. (BARBOSA, 2010, p. 14) Se, nesse início de século XXI, há efetivamente inúmeros debates e discussões a respeito dos significados do ato do consumo, foi somente a partir do século XIX que o tema passou a ser objeto de estudo de autores hoje considerados clássicos, como Marx ou Veblen. ʹͶ O primeiro, como bem observa Taschner (2009), trata do consumo produtivo e não dos significados do ato do consumo. Conforme sintetiza Rocha (In: Douglas, Isherwood, 2009, p. 12): Existe uma espécie de superioridade moral da produção e os seus temas – trabalho, empresa, profissão – quando comparada ao consumo e seus temas – marca, gasto, compra. É como se a produção tivesse algo de nobre e valoroso, representando o mundo verdadeiro ou a vida levada a sério, e o consumo, no polo oposto, tivesse algo de fútil e superficial, representando o mundo falso e inconsequente. (Grifos no original) Já na análise de Veblen, o consumo sempre visa a uma competição por status e não é pensado como podendo ter outros significados: Mas a inclinação humana para a emulação se apossou do consumo de bens como instrumento de comparações invejosas, e em consequência revestiu os bens consumíveis com uma utilidade secundária: a prova da relativa habilitação para pagar. (VEBLEN, 1987, p. 71) Contudo, é somente no século XX, e mais particularmente a partir dos anos 1970, que o tema do consumo ganha relevância no campo das ciências sociais. É nesta época que se inicia uma busca, do ponto de vista da sociologia e da antropologia, do entendimento do ato de consumo além do tratado no século anterior. Entre os primeiros trabalhos produzidos na sociologia a tratar do tema, podemos citar A Sociedade de consumo, de Jean Baudrillard. A expressão que deu ao livro seu título foi cunhada pelo sociólogo francês no início dos anos 1970 e passou a designar a sociedade do pós-guerra, sobretudo as sociedades americana e europeia, em que o boom do capitalismo parecia anunciar a sociedade de abundância.33 Diante da lembrança de escassez decorrente dos tempos de guerra, a estabilidade econômica alcançada em meados do século XX nos países desenvolvidos criou a sensação de que o igualitarismo promovido pelo consumo alcançaria até mesmo os países que, apesar de um franco desenvolvimento no período, como era o caso do Brasil, ainda apresentavam situações dramáticas de exclusão social. Baudrillard (2005) evidencia o mito da sociedade de abundância em torno do qual se opõem os que a defendem ou a criticam e sugere, nos mesmos moldes da análise de Marx, que o intelectual se projete para além da reificação e busque as relações sociais que deram 33 “Durante os anos 50, sobretudo nos países ‘desenvolvidos’ cada vez mais prósperos, muita gente sabia que os tempos tinham de fato melhorado, especialmente se suas lembranças alcançavam os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial. Um primeiro-ministro conservador britânico disputou e venceu uma eleição geral em 1959 com o slogan ‘Você nunca esteve tão bem’, uma afirmação sem dúvida correta.” (Hobsbawm, 1995, p. 253). ʹͷ origem ao mito da sociedade de abundância e, por decorrência, à sociedade de consumo. Para ele, o crescimento é uma função da desigualdade, porque é produzido para manter as diferenças estruturais entre as classes e não para superá-las. Em suas próprias palavras: Na ordem dos factos, não existe, nem nunca existiu “sociedade de abundância” ou “sociedade de penúria”, já que toda sociedade, seja ela qual for e seja qual for o volume dos bens produzidos ou da riqueza disponível, se articula ao mesmo tempo sobre um excedente estrutural e sobre uma penúria estrutural (...) A sociedade de consumo, no seu conjunto, resulta do compromisso entre princípios democráticos igualitários, que conseguem aguentar-se com o mito da abundância e do bem estar, e o imperativo fundamental de manutenção de uma ordem de privilégio e de domínio. (BAUDRILLARD, 2005, p. 52) Em debate com intelectuais da época, os quais chegavam a sugerir a democratização do consumo decorrente da abundância econômica como tendência ao igualitarismo e até ao subconsumo das classes mais ricas, Baudrillard evidencia o consumo como forma de distinção, de discriminação e de poder, e não mais decorrente da mera posse do dinheiro, do entesouramento, mas transferido para outras esferas da vida.34 Não há dúvida, o homem rico que conduz o 2 CV35 não ofusca, mas é subtil: superdiferencia-se, intensifica a distinção pela maneira de consumir, pelo estilo. Conserva absolutamente o seu privilégio ao passar da ostentação para a distinção do dinheiro para a cultura. (Baudrillard, 2005, p. 53). Portanto, diferente da visão idealista – segundo a qual o crescimento é abundância e a abundância é democracia, como se houvesse uma relação causal mecanicista entre esses termos, dispondo em lados opostos os que têm acesso ao consumo e aqueles que não têm, mas tendem a ter –, para Baudrillard, o crescimento é decorrente da incessante necessidade, diante de uma sociedade que expandiu suas possibilidades de consumo, de criar formas cada vez mais novas de distinção e diferenciação. Tal lógica não é a da apropriação individual do valor de uso dos bens e dos serviços – lógica de produção desigual em que uns têm direito ao milagre e outros apenas às migalhas do milagre – também não é a lógica da satisfação, mas a lógica da produção e da manipulação dos significantes sociais. (BAUDRILLARD, 2005, p. 59). 34 “A discriminação social, o poder etc., que permanecem o essencial, transferiram-se para esferas diferentes do rendimento ou da riqueza pura e simples. Em tais condições, importa pouco que todos os rendimentos sejam, no limite, iguais, podendo até o sistema dar-se ao luxo de avançar a passo largo nessa direção, porque não se encontra aí a determinação fundamental da ‘desigualdade’.” (BAUDRILLARD, 2005, p. 53). 35 Carro popular da Citroën. ʹ Se o consumo é meio de distinção social, nos termos de Baudrillard, jamais será possível atingir-se, por meio dele, a igualdade social, mesmo que a sociedade tenha produzido a massificação dos produtos desde o início do século XX. Isto porque a desigualdade tem antes a sua determinação na estrutura social que o consumo tenderá a reforçar esta diferença, ainda mais quando, na sociedade contemporânea, o consumo conspícuo, por oposição às épocas em que este só era permitido às classes altas, passou a ser possível àqueles que antes se viam reduzidos ao consumo dos bens de primeira necessidade (Taschner, 1996-1997). Assim como em Baudrillard, para Bourdieu a diferença estrutural de classe existente na sociedade capitalista ocidental configura objetivamente a intenção subjetiva de distinção social. Segundo ele, os indivíduos se esforçam para melhorar suas posições no espaço das posições sociais através de uma lógica da prática e através da manipulação de bens e das representações culturais da sua posição no campo social. (Heilbrunn, 2010) As possibilidades de escolhas do indivíduo decorrem de uma herança sociocultural internalizada pelos indivíduos, de um habitus de classe, do aprendizado que os indivíduos obtêm no convívio social e escolar, também eles decorrentes da posição social em que já se encontram.36 Assim, Bourdieu, em La Distinction, analisa os mecanismos de reprodução social que retratam a maneira pela qual as sociedades mantêm, no tempo, estruturas de ordem entre os grupos sociais e relações de poder de um grupo para o outro. Conforme Heilbrunn, Nessa perspectiva, o gosto é considerado um mecanismo chave para organizar a distribuição dos recursos simbólicos e por isso tem um papel crucial na reprodução social. Partindo da observação de uma concordância entre as diferentes práticas e obras do indivíduo, Bourdieu encarrega-se de explicar como cada escolha ou gosto, alimentar ou de vestuário, artístico ou esportivo, parece ser coeso aos outros e parece confirmar os traços distintivos ligados a uma pessoa, e designar um estilo de vida particular. (HEILBRUNN, 2010, p. 71, tradução nossa). Desta forma é que, diante de alguns signos distintivos, como a música erudita e a obra de arte, os indivíduos de classes populares tendem a manter uma reverência sacralizada, porque aprenderam a relevância de consumirem a cultura dita erudita, ao passo que, para os 36 “As práticas e as propriedades constituem uma expressão sistemática das condições de existência (aquilo que chamamos estilo de vida) porque são o produto do mesmo operador prático, o habitus, sistema de disposições duráveis e transponíveis que exprime, sob a forma de preferências sistemáticas, as necessidades objetivas das quais ele é o produto: a correspondência que se observa entre o espaço das posições sociais e o espaço dos estilos de vida resulta do fato de que condições semelhantes produzem habitus substituíveis que engendram, por sua vez, segundo sua lógica específica, práticas infinitamente diversas e imprevisíveis em seu detalhe singular, mas sempre encerradas nos limites inerentes às condições objetivas das quais elas são o produto e às quais elas estão objetivamente adaptadas. (BOURDIEU, 1994, p. 82-83). ʹ membros das classes superiores, o contato familiar com essa cultura, aprendida de “berço”, pode levá-los, inclusive, a desprezar seu consumo como signo distintivo.37 Neste sentido, para Bourdieu, para além daquilo que se consome, a maneira como se consome é essencial para identificar no consumo um signo de distinção. A reverência das classes populares pelos objetos consumidos pelas classes dominantes é essencial para reforçar a capacidade que esses objetos possuem de emprestar distinção àquele que o consome. Isto é, uma forma de reconhecimento dos valores dominantes. O que separa as classes populares das outras classes é menos (e, sem dúvida, cada vez menos) a intenção objetiva do seu estilo que os meios econômicos e culturais que elas podem colocar em ação para realizá-la. Esse desapossamento da capacidade de formular seus próprios fins (e a imposição correlativa de necessidades artificiais) é, sem dúvida, a forma mais sutil da alienação. É assim que o estilo de vida popular se define tanto pela ausência de todos os consumos de luxo, uísque ou quadros, champanhe ou concertos, cruzeiros ou exposições de arte, caviar ou antiguidades, quanto pelo fato de que esses consumos nele estão, entretanto, presentes sob a forma de substitutos tais como os vinhos gasosos no lugar do champanhe, ou uma imitação no lugar do couro, indícios de um desapossamento de segundo grau que se deixa impor a definição dos bens dignos de serem possuídos. (BOURDIEU, 1994, p. 100). Por outro lado, a aproximação desses bens “substitutos” daqueles “originais” pode ser o que mobiliza a crescente necessidade das classes superiores de buscar sempre novos signos de distinção. Quanto mais se popularizam os bens antes exclusivos das classes dominantes, mais estas exigem que outros produtos sejam constituídos de forma a emprestarem ao seu consumo o mesmo signo de distinção. (Alléres, 2006; Baudrillard, 2005; Bourdieu, 1994; Slater, 2001; Strehlau, 2008; Veblen, 1987). É o que Simmel denomina de efeito trickle-down 38 (McCracken, 2003) e Hirsch de “perseguição infinita” (Featherstone, 1995). Por isso, diante da impossibilidade de diversificação infinita de produtos, a marca do produto, o lugar e a forma com que são consumidos também são, em si mesmos, o que distingue uma classe da outra. Essas escolhas são orientadas pelo gosto, que em Bourdieu torna-se “um dos mecanismos fundamentais de diferenciação, inclusão e exclusão social” (Barbosa, 2003, p. 23) Este conjunto de escolhas governadas pelo gosto é o que Bourdieu chama de ‘estilo de vida’: 37 “Assim, o que a ideologia do gosto natural opõe, através de duas modalidades de competência cultural e de sua utilização, são dois modos de aquisição da cultura: o aprendizado total, precoce e insensível efetuado desde a primeira infância no seio na família, e o aprendizado tardio, metódico, acelerado, que uma ação pedagógica explícita e expressa assegura.” (BOURDIEU, 1994, p. 97). 38 Efeito “bola de neve”. Tradução nossa. ʹͺ O gosto, propensão e aptidão à apropriação (material e/ou simbólica) de uma classe determinada de objetos ou de práticas classificados e classificadores, é a formula geradora que está na raiz do estilo de vida, conjunto unitário de preferências distintivas que expressam, na lógica específica de cada um dos sub-espaços simbólicos, móveis, vestuário, linguagem ou hexis corporal, a mesma intenção expressiva. (BOURDIEU, 2003, p. 193). Se em Bourdieu o consumo não pode ser visto como mera escolha individual com vistas a uma satisfação pessoal (posicionamento que será em parte defendido por uma literatura mais recente sobre consumo de luxo, a qual será analisada mais adiante), também em Baudrillard a escolha subjetiva está articulada objetivamente à estrutura social e é, para ele, o que confere sentido à própria distinção promovida pelo consumo. Não fosse pela inserção social que o consumo distintivo provoca, a própria distinção atrelada ao consumo sequer existiria. A distinção é decorrência da capacidade que determinado produto possui de localizar o indivíduo no interior de uma hierarquia social. É o seguinte o princípio de análise: nunca se consome o objecto em si (no seu valor de uso) – os objectos (no sentido lato) manipulam-se sempre como signos que distinguem um indivíduo, quer filiando-o no próprio grupo tomado como referência ideal, quer demarcando-o do respectivo grupo por referência a um grupo de estatuto superior. [...] Diferenciar-se equivale sempre a instaurar a ordem total das diferenças que constituem sem mais o facto da sociedade total e ultrapassa inelutavelmente o indivíduo. Ao distinguir-se na ordem das diferenças, o indivíduo restabelece-a, condenando-se, portanto, a inscrever-se nela só de modo relativo. [...] No entanto, é este condicionamento de relatividade que é determinante na medida em que é por referência a ele que a inscrição diferencial jamais terá fim. Só ele explica o carácter fundamental do consumo, o seu carácter ILIMITADO – dimensão inexplicável por meio de uma teoria das necessidades e da satisfação já que, se fosse calculada em balanço calórico, energético, ou em valor de uso, depressa se atingiria o limiar de saturação. Ora, a verdade é que assistimos precisamente ao contrário – à aceleração das cadências consumidoras, ao ‘forcing’ da procura que provoca a abertura do fosso entre uma produtividade gigantesca e uma consumptibilidade ainda mais enlouquecida (a abundância, considerada como sua equação harmoniosa, recua indefinidamente). Tal facto não tem explicação a não ser que se abandone radicalmente a lógica individual da satisfação para restituir à lógica da diferenciação a sua importância decisiva. (BAUDRILLARD, 2005, pp. 60-61). Desta forma é que retomamos o argumento inicial de Baudrillard, segundo o qual a abundância não leva à mera democratização do consumo, mas ao desejo sempre crescente de gerar novos produtos que venham a substituir aqueles que antes emprestavam às classes superiores signos de distinção, desejo quase sempre ilimitado e gerador de novas ʹͻ insatisfações. Por isso, o crescimento não é condição de igualdade, mas, como apontado anteriormente, função da desigualdade, e, nestes termos, abundância inverte seu sinal e transforma-se em desperdício. O valor de uso perde o seu sentido original e passa a ser consumido exclusivamente por aquilo que pode conferir distinção. Puro signo, portanto. A lógica do consumo – segundo vimos – define-se como manipulação de signos. Encontram-se ausentes os valores simbólicos de criação e a relação simbólica de interioridade; funda-se toda a exterioridade. O objecto perde a finalidade objectiva e a respectiva função, tornando-se o termo de uma combinatória muito mais vasta de conjuntos de objetos, em que seu valor é de relação. Por outro lado, desaparece o seu sentido simbólico e o seu estatuto antropomórfico milenário, tendendo a esgotar-se num discurso de conotações, também elas relativas umas às outras no quadro de um sistema cultural totalitário, isto é, que pode integrar todas as significações, seja qual for a respectiva origem. (BAUDRILLARD, 2005, p. 120) Baudrillard ainda aponta o papel da mídia e, mais especificamente, da publicidade, que, segundo ele, em vez de transmitir eventos, faz acontecer eventos que de outra maneira não teriam existido. Da mesma maneira, para o autor, os indivíduos endossam estilos de vida que correspondem aos bens que eles compram, e não o contrário. (BAUDRILLARD, 2005, pp. 131-136) Se em Baudrillard a publicidade “transforma o objecto em acontecimento, construindoo como tal por meio das suas características objectivas” (2005, p. 134), para McCracken, ela é, junto com o sistema de moda e os rituais de consumo, um dos meios através dos quais o significado é extraído e transferido entre o mundo culturalmente constituído, o bem de consumo e o consumidor individual. O livro de McCracken, Cultura e Consumo (2003), insere-se na corrente que entende o consumo como parte do processo de construção identitária, em que os objetos viram suportes fundadores de laços comunitários. Este livro é um dos diversos trabalhos de cunho antropológico que reforçam a importância da apropriação de objetos pelo indivíduo. Contrapõe-se ao discurso de Baudrillard, segundo o qual o indivíduo torna-se quase escravo do objeto e a liberdade e a soberania do consumidor não passam de mistificação, e também ao de Bourdieu, para quem as escolhas de consumo do indivíduo estão determinadas pelo habitus. Aqui, como resume Taschner, ͵Ͳ [...] o consumo; especialmente o de certos itens, torna-se um meio de construção e expressão de identidades dos sujeitos individuais que vivem nas cidades, especialmente nas metrópoles. Eles passam a precisar de um novo meio para projetar suas identidades no espaço social. Tal fenômeno decorre da dissolução, no anonimato da vida metropolitana, das referências típicas da vida em pequenas localidades, nas quais as famílias fincavam raízes ao longo das gerações e eram a matriz das identidades individuais [...]. Subjacente ao prazer de consumir, o objetivo do indivíduo que assim age é ser reconhecido como membro legitimo de uma comunidade ou da sociedade mais ampla. Novas formas de expressão e reconhecimento das identidades começam a se fazer, a partir do consumo de bens e de serviços, com suas respectivas grifes, reais e falsificadas. (TASCHNER, 2009, p. 18) Um dos livros mais influentes nessa corrente é O mundo dos bens, para uma antropologia do consumo, da antropóloga Mary Douglas e do economista Baron Isherwood. Os autores defendem a ideia de que o consumo integra dimensões culturais e econômicas. Partindo do pressuposto da etnografia de que “todas as posses materiais carregam significação social” e são comunicadoras (2009, p. 105), sua tese é a de que a utilidade de um bem é sempre determinada por um quadro cultural; assim, qualquer objeto da vida cotidiana está impregnado de um significado cultural e o consumo é “um processo ritual cuja função primária é dar sentido ao fluxo incompleto dos acontecimentos” (2009, p. 112). Nesse sentido, McCracken destaca a importância da relação entre cultura e consumo: [...] o consumo é moldado, dirigido e constrangido em todos os seus aspectos por considerações culturais. O sistema de design e produção que cria os bens de consumo é uma empreitada inteiramente cultural. Os bens de consumo nos quais o consumidor desperdiça tempo, atenção e renda são carregados de significado cultural. Os consumidores utilizam esse significado com propósitos totalmente culturais. Usam o significado dos bens de consumo para expressar categorias e princípios culturais, cultivar ideias, criar e sustentar estilos de vida, construir noções de si e criar (e sobreviver a) mudanças sociais. O consumo possui um caráter completamente cultural. (MCCRACKEN, 2003, p. 11). O autor destaca que “o significado cultural carregado pelos bens de consumo é enormemente mais variado e complexo do que a atenção vebleniana ao status era capaz de distinguir” (2003, p. 121). Da mesma maneira, para Baron e Isherwood, o significado do consumo vai além da corrida ao status motivada pela inveja: ͵ͳ Dentro do tempo e do espaço disponíveis, o indivíduo usa o consumo para dizer alguma coisa sobre si mesmo, sua família, sua localidade, seja na cidade ou no campo, nas férias ou em casa. A espécie de afirmação que ele faz depende da espécie de universo que habita, afirmativo ou desafiador, talvez competitivo, mas não necessariamente. (2009, p. 116, grifo nosso). No mesmo movimento, Featherstone sugere ir além da “concepção mais estritamente sociológica [pela qual] a relação entre a satisfação proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente estruturado é um jogo de soma zero, no qual a satisfação e o status dependem da exibição e da conservação das diferenças em condições de inflação” (1995, p. 31). O autor retoma discussões de Bourdieu, quando ressalta a importância do gosto e do capital cultural39, ou enfatiza o papel dos “novos intermediários culturais” 40 (“taste makers” no original de Bourdieu), temas amplamente desenvolvidos pelo sociólogo francês. Mas Featherstone também sugere ir além da teoria de Bourdieu e postula que o estilo de vida pode sim ser uma escolha e não algo imposto estruturalmente: Os novos heróis da cultura de consumo, em vez de adotarem um estilo de vida de maneira irrefletida, perante tradição ou o hábito, transformam o estilo num projeto de vida e manifestam sua individualidade e seu senso de estilo na especificidade do conjunto de bens, roupas, práticas, experiências, aparências e disposições corporais destinados a compor um estilo de vida. (1995, p. 123). Para Featherstone, o estilo de vida não é um conjunto fixo de disposições, mas uma escolha ativa: 39 “Nas sociedades ocidentais contemporâneas, a tendência é para esta segunda situação, na qual um fluxo constantemente renovado de mercadorias torna mais complexo o problema da leitura do status ou da posição hierárquica do portador das mercadorias. É nesse contexto que se tornam importantes o gosto, o julgamento discriminador e o conhecimento ou capital cultural, que capacitam grupos ou categorias especificas para a compreensão e classificação adequada das mercadorias novas, bem como para a maneira de usá-las.” (FEATHERSTONE, 1995, p. 36). 40 Apesar de as definições da nova classe média frequentemente incluírem gerentes, empregadores, cientistas e técnicos, o setor que gostaria de focalizar é o grupo dos “novos intermediários culturais” em expansão (Bourdieu, 1984). Essas pessoas dedicam-se à oferta dos bens e serviços simbólicos aos quais já nos referimos – profissionais de marketing, publicitários, relações públicas, produtores e apresentadores de programas de rádio e televisão, jornalistas, comentaristas de moda e profissionais ligados a atividades de caráter assistencial [...]. Se atentarmos para os hábitos, esquemas classificatórios e disposições desse grupo, deveríamos observar que Bourdieu designou-os como “novos intelectuais que adotam uma atitude perante a vida. São pessoas fascinadas com a identidade, a apresentação, a aparência, o estilo de vida e a busca incessante de novas experiências. (1995, pp. 70-71). ͵ʹ [...] passou da concepção de estilos de vida como conjuntos relativamente fixos de disposições, gostos culturais e práticas de lazer que demarcam fronteiras entre os grupos, para a suposição de que, na cidade contemporânea, os estilos de vida formam-se de maneira mais ativa. Em decorrência, deixa-se de focalizar o estilo de vida com base nas relações de classe ou de vizinhança e passa-se a ver o estilo de vida como a estilização ativa da vida, onde a coerência e a unidade dão lugar à exploração lúdica das experiências transitórias e dos efeitos estéticos superficiais. (1995, p. 136). E exemplifica: [...] os indivíduos são estimulados a adotar uma atitude não-utilitária em relação às mercadorias, escolhendo com cuidado, arranjando, adaptando e expondo os bens – seja o mobiliário, a casa, o carro, as roupas, o corpo ou as atividades de lazer – de modo a produzir uma afirmação estilística específica, capaz de exprimir a individualidade do proprietário. (1995, p. 160). Essa abordagem do consumo como mediação para a construção de identidade pode ser resumida pela seguinte colocação do antropólogo brasileiro Heitor Frúgoli Jr.: Tendo tudo isso em vista, é possível avançar por novos enquadramentos conceituais sobre o consumo que ultrapassem a forma costumeira de encarálo como uma dimensão apenas residual, imoral, individual ou utilitária e que busquem compreendê-lo [...] como uma espécie de facilitador ou propiciador de certas relações sociais. Assim, a ideia de um consumo no plano simbólico implica atrelar aos significados da compra de certos bens ou serviços (no caso, especialmente aqueles destinados ao reforço da construção de certas identidades sociais por meio do vestuário, de preparos corporais, de bens culturais, etc.) (In: Bueno e Camargo, 2008, pp. 242-243) Uma perspectiva oposta àquela defendida por Baudrillard e Bourdieu (que sem dúvida alguma são influenciados pela tradição crítica do pensamento estruturalista francês, de matriz marxista) e pelos autores da antropologia do consumo é apresentada por Gilles Lipovetsky em suas análises. A determinação estrutural na configuração do consumo – mais especificamente, o consumo de luxo e a construção de identidade – cede lugar aos desejos subjetivos de satisfação pessoal ligada diretamente à intencionalidade de negar a efemeridade do mundo contemporâneo. Já Baudelaire chamava a atenção para a característica efêmera do mundo moderno e apontava para o desejo que impunha aos homens a busca de meios de se alcançar a eternidade. Mas se em Baudelaire essa eternidade se projetava nas obras de arte que os homens eram capazes de produzir, em Lipovetsky (2005) a eternidade é buscada nos artigos de luxo e no exato instante de sua fruição. Neste sentido, o esbanjar, para ele, não se confunde ͵͵ com o desperdício de Baudrillard, mas é a condição mesma de superar o efêmero que a sociedade contemporânea impõe aos homens. Do mesmo modo, o consumo de luxo não pode ser simplesmente identificado a uma necessidade de obter distinção social, em razão de uma pressão social, mas em função dos momentos e dos desejos, do prazer que se espera, muito menos para mostrar a riqueza ou o status do que para desfrutar de uma relação qualitativa com as coisas ou serviços. Até a relação com as marcas psicologizou-se, desinstitucionalizouse, subjetivou-se. (LIPOVETSKY, 2006, p. 45, tradução nossa). Analisando o que considera ser a terceira idade do “capitalismo de consumo”, nomeada por ele de sociedade do hiperconsumo, Lipovetsky (2006), em obras marcadas por um estilo ensaístico, não descarta os elementos distintivos que caracterizaram a sociedade de consumo de massa (segunda idade), localizada a partir dos anos 50, mas evidencia que, na sociedade contemporânea, a intencionalidade do consumo está menos relacionada aos interesses de distanciamento entre classes e mais a um desejo, próprio ao extremado narcisismo contemporâneo, de obter uma imagem positiva de si por si. Atualmente, a admiração pelas marcas se alimenta do desejo narcísico de desfrutar do sentimento íntimo de ser uma ‘pessoa de qualidade’, de comparar-se vantajosamente com os outros, de ser diferente da massa, sem que sejam mobilizados, no entanto, à corrida pela estima e o desejo de provocar a inveja de seus semelhantes. (LIPOVETSKY, 2006, p. 44, tradução nossa). Embora mantenha os mesmos referenciais que marcaram a interpretação de Baudrillard e Bourdieu, o que diferencia Lipovetsky é sua compreensão de que o consumo não deve mais ser somente associado à distinção de classe. Em oposição a esses autores e também aos da antropologia do consumo, o consumo para Lipovetsky assume uma característica subjetiva e pessoal no momento em que a sociedade contemporânea alterou a sua forma de organização social. O distanciamento entre as classes sociais, sobretudo na Europa e EUA, diminuiu, com uma maioria de classe média, como bem demonstrou Morin (1997) já a respeito os anos 50. Essa realidade seria suficiente, portanto, para a conclusão de que a busca do consumo de luxo carrega consigo menos um sentido de pertencimento a uma classe e mais uma necessidade de busca de prazer pessoal, de destacar-se individualmente e agregar um signo qualitativo à sociedade marcada pela quantidade. Assim, para o autor, são o hedonismo e a busca de experiências que motivam o indivíduo moderno a consumir. Ainda que o estudo de ͵Ͷ Lipovetsky seja relevante por alterar a ênfase para os aspectos subjetivos do consumo, é preciso não esquecer que este também estava presente nos outros dois autores. Para citar apenas Baudrillard: Contudo, o processo de diferenciação estatutária, que surge como processo social fundamental por cujo intermédio cada qual se insere na sociedade, apresentam um aspecto vivido e um aspecto estrutural; um consciente e outro inconsciente; um ético (é a moral do ‘standing’, da concorrência estatutária e da escala de prestígio), o outro estrutural – a inscrição num código cujas regras e condicionamentos de significação (por exemplo, as da língua) escapam no essencial aos indivíduos. O consumidor vive as suas condutas distintivas como liberdade e como aspiração, como escolha, e não como condicionamento de diferenciação e de obediência a um código. [...] Cada indivíduo vive os próprios lucros sociais diferenciais como lucros absolutos e não o constrangimento estrutural que está na origem da permuta das posições e da permanência da ordem das diferenças. (BAUDRILLARD, 2005, pp. 60-61, grifos no original) Ainda dentro de um estudo do consumo por uma perspectiva subjetiva, Campbell, em sua análise da revolução do consumo ocorrida na Inglaterra do século XVIII, também concede papéis centrais no ato do consumo ao indivíduo e ao hedonismo. Para ele, A atividade fundamental do consumo, portanto, não é a verdadeira seleção, a compra ou o uso dos produtos, mas a procura do prazer imaginativo a que a imagem do produto se empresta, sendo o consumo verdadeiro, em grande parte, um resultante desse consumo “mentalístico” [...] A prática visível do consumo, portanto, não é mais do que uma pequena parte de um modelo complexo de comportamento hedonista, cuja maior parte se dá na imaginação do consumidor. (CAMPBELL, 2001, pp.130-131) Assim, Campbell refuta a ideia de um consumo distintivo e atribui ao devaneio41 que antecede o ato do consumo, e ao prazer provocado por esse devaneio, a razão pela qual os indivíduos buscam sempre consumir mais. Há de ser óbvio, também, que essa dinâmica deve pouco ou nada à atividade dos outros consumidores, e que nem a imitação, nem a emulação são requeridas para assegurar que o impulso seja mantido. (2001, pp.132-133) Não são poucos os autores que se afastam da análise do consumo pela categoria da distinção. 41 O autor define devaneio como “elaboração imaginativa, numa direção agradável, de um evento real por vir ou antecipado […] A esse respeito, o devaneio envolve a introdução do princípio da busca do prazer no processo normal de antecipação imaginativa do futuro, ou da especulação em torno deste.” (CAMPBELL, 2001, p. 122). ͵ͷ Em seu estudo sobre consumo nos shopping centers, Padilha busca responder perguntas a respeito do consumo através de uma análise que passe pelo campo não só da sociologia (e das ciências sociais em geral), mas também da psicologia e da psicanalise, na medida em que partem de uma sociedade que precisa de imagens, de mercadoria e de fetiche para se construir. Portanto tocam a subjetividade. (2006, p. 85, grifos nossos). Conforme a autora, O olhar sociológico para a “sociedade de consumo” [...] se enriquece quando penetra o espaço da subjetividade [...] As análises sobre consumo pelos aspectos subjetivos podem levar à descoberta de que a vida cotidiana e a cultura de consumo fazem emergir novas identificações, algo que ultrapassa as identidades de classe, de gênero ou regionais. Então o consumo deve ser tratado como uma produção da sociedade e do eu, ou seja, como uma apropriação de códigos, estilos e moda feita no interior de cada indivíduo, nos espaços sociais. (2006, pp.133-134). Ao tratar do consumo como “apropriação de códigos, estilos e moda feita no interior de cada indivíduo”, Padilha aproxima-se do habitus tal como conceitualizado por Bourdieu; no sentido da interiorização de valores da sociedade pelo indivíduo. Mas Padilha vai além e produz uma análise que combina autores da sociologia com outros da psicologia e da psicanálise. Portanto, talvez não seja o caso de optar por uma das perspectivas, mas de compreender que, se o aspecto subjetivo é o que pode ser conscientemente expresso por aquele que consome, o aspecto de inserção objetiva em uma estrutura inclusiva, o quanto daquela intencionalidade subjetiva se expressa na constituição de uma objetividade marcada pela distinção de classe, só pode ser formulada pelo analista social. E, considerando que no Brasil o abismo entre as classes ainda é uma realidade que configura objetivamente as relações sociais, estaria incompleta a pesquisa que se ativesse aos aspectos psicológicos ou meramente subjetivos do consumo.42 Dessa maneira, para o caso brasileiro, o consumo parece ser antes 42 Essa análise seria diferente em outro país que não o Brasil. Por exemplo, no artigo “Les nouveaux codes de la distinction” (MOLENAT, X. In: Sciences Humaines, março de 2011), questiona-se a legitimidade da teoria de Bourdieu numa França que teria mudado muito desde que La Distinction foi publicada pela primeira vez: “Trinta anos atras, Pierre Bourdieu demonstrava como as classes superiores se distinguiam ao se apropriar das práticas culturais mais nobres. Será essa análise ainda pertinente agora que a mistura dos gêneros entre cultura legítima e cultura popular parece ter virado regra?” Mais à frente, no mesmo artigo, escreve: “A Distinção por muito tempo subjugou os sociólogos. Foi somente recentemente que o modelo exposto no livro foi submetido a uma crítica aprofundada, particularmente pelos especialistas das práticas culturais. Esses apontaram primeiro as transformações morfológicas que a França conheceu nesses últimos 30 anos: a terciarização da economia, o declínio dos homens do campo e dos operários, o aumento dos empregados, forte crescimento dos executivos… ͵ não apenas uma forma de distinção entre classes mas também, ao reforçar a hierarquia histórica que tem marcado a sociedade brasileira, uma maneira de construir a identidade do indivíduo e seu consequente pertencimento a um determinado grupo de elite. A paisagem social não é mais a mesma. Mas a paisagem cultural também mudou […]” (Tradução nossa). No entanto, o autor reconhece que ainda existe, na França, apesar das mudanças sociais, uma hierarquia dos gostos. ͵ Capítulo II - A dinâmica do consumo de luxo O que se pretende nesse capítulo não é realizar um histórico exaustivo do consumo de luxo através das épocas, nem retomar a discussão teórica, mas apreender a dinâmica do consumo de luxo através dos tempos. Isto nos permite contextualizar de forma mais referenciada o nosso objeto de estudo: o Shopping Cidade Jardim e o consumo (de luxo) ali praticado. 2.1 Nos países com tradição histórica em produção e consumo de luxo 2.1.1 O surgimento do consumo de luxo e seu papel de marcador social Lipovetsky, retomando Baudrillard, retrocede ao Paleolítico para pensar o surgimento do consumo de luxo; assim, para ele, existe a possibilidade de se explicar a dinâmica do consumo de luxo partindo da era pré-histórica passando pela eras grega e romana. Mas, para a maioria dos autores que tratam do assunto, o consumo de luxo comparável ao contemporâneo no Ocidente43 teve seu início na era moderna (Thomas, 2007; Veblen, 1987; Elias, 2001). De fato, se na pré-história há sinais de atitudes de prodigalidade e de desperdício que podem ser comparadas ao consumo de luxo, no sentido de haver uma “abundância material” conforme Lipovetsky (2005), somente se pode começar a falar de um consumo no sentido moderno, quando Em vez do simples conforto físico, buscamos o “conforto social” graças a bens capazes de afirmar a nossa respeitabilidade, graças aos quais obtemos um status social mais elevado ou melhoramos nosso bom gosto. (De Vries, 2011, p. 11, tradução nossa). Para Castarède, o Renascimento marca “a explosão tangível do luxo na França graças à moda da arquitetura clássica de inspiração palladiana, importada da Itália”. (2005, p. 53) O autor ainda cita os móveis, a perfumaria, o fumo, os jardins bem cuidados como manifestações do consumo de luxo. No entanto, ressalta que nesta época o consumo de luxo ainda é restrito à aristocracia e à corte. 43 Em seu artigo “La consommation, une invention occidentale?”, o economista Philippe Norel discute formas de consumo e consumismo na China da dinastia Tang (618-907). No entanto, aqui nos restringiremos ao consumo ocidental. ͵ͺ Isto começa a mudar com a ascensão do poder monárquico e o “desarmamento” da nobreza. Com essas mudanças, surge uma classe ociosa (Veblen, 1987 e Elias, 2001) e a burguesia ascende a um novo lugar. Lipovetsky (2005) descreve essa transição: Despojada de suas antigas prerrogativas militares pela eficácia dos soldados de infantaria e dos arqueiros a pé, mantida em dependência pelo poder real e encerrada no círculo da corte, a nobreza transforma-se em classe de representação e de recreio. (2005, p. 35) O luxo então corresponde a novas lógicas de acumulação, centralização e hierarquização. As relações entre o Rei e os nobres mudam; estes enfraquecem economicamente devido à inflação decorrente do afluxo de metais preciosos, e passam a depender muito mais do soberano. É o surgimento da classe ociosa, teorizada por Veblen. O conceito de ócio aqui não implica indolência ou quiescência. Significa simplesmente tempo gasto em atividade não produtiva. Gasta-se tempo de modo não produtivo, primeiramente, por um sentimento de indignidade do trabalho produtivo, e, em segundo lugar, para demonstrar a capacidade pecuniária de viver uma vida inativa. (VEBLEN, 1987, p. 24) O luxo desta época “se manifesta em diversos espaços da intimidade, nos móveis domésticos, nas decorações, na maneira de dispor a comida sobre a mesa, e implica num processo de refinamento do gosto” (Ortiz, 1991, p. 121). Este processo de refinamento é regido pelas ideias de “civilidade” e civilização que permeiam as cortes e o mundo aristocrático a partir do século XVI. Quem possui um nível social mais elevado tem obrigação de consumir de maneira condizente com sua posição de classe. Gastar não é escolha para o nobre, mas uma regra dentro de uma competição pelo favor real. Só assim poderiam “manter ou melhorar seu rang e [...] seu poder” (TASCHNER, 2009, p. 64). A elaboração meticulosa da etiqueta, do cerimonial, do gosto, das vestimentas, da atitude e até da própria conversa tinha a mesma função. Cada detalhe constituía, então, uma arma na luta por prestígio, de modo que elaborá-los não servia somente para a representação ostentatória e para a conquista de maior status e poder, para a segregação em relação aos de fora, mas também marcava mentalmente as distâncias entre os membros da sociedade. (ELIAS, 2001, p. 126). ͵ͻ O auge desse processo dá-se na corte do rei francês Luís XIV (Elias, 2001; Taschner, 2009). É durante o seu reinado, por exemplo, que se inventa e/ou se difunde o champagne, o conceito de alta gastronomia, e surgem as primeiras butiques elegantes (DeJean, 2010). Thomas (2007) também situa as raízes do luxo moderno “nas antigas cortes reais europeias, principalmente as da França, que definiram as normas de uma vida pródiga”, e dá o exemplo de Madame de Pompadour, amante de Luís XV que encorajou e apoiou pessoalmente artesãos de luxo e ajudou a fundar a fábrica de porcelana de Sèvres. Estamos no século XVIII, diante da ascensão da burguesia. Seu papel cresceu: ela é responsável por movimentar dinheiro e mercadorias nos países. Apesar da sociedade ainda manter uma divisão estrita de estamentos sociais, o Estado depende da burguesia para o enriquecimento da nação. É nessa época que se começa a legitimar o homem como consumidor, conceito que antes não se usava. Entende-se que o luxo contribui para movimentar a economia. E a burguesia passa então a ostentar indumentária e bens que outrora eram somente reservados à nobreza. “Como um ‘consumidor’, o burguês, desde que tivesse meios para isso, podia viver nobremente” (ORTIZ, 1991, p. 128). Para D’Angelo (2006, p. 51), [...] o desenvolvimento econômico atropelava aos poucos a resistência aristocrática e o moralismo contrário a determinadas formas de consumo. Não havia como evitar, a moda era cada vez mais valorizada, e as joias caras, repletas de diamantes, passavam a adornar também os burgueses, não só os aristocratas. Vivia-se a primeira grande revolução dos desejos de consumo. (Grifo nosso). Porém, para o povo, continuam existindo leis suntuárias. Elas não só estabeleciam privilégios indumentários, que diziam respeito ao emprego de cores e materiais de tecidos e jóias, os mais vistosos sendo reservados as classes mais altas, como restringiam até o número de pratos servidos em jantares (D’Angelo, 2006). Regrando o consumo das classes, essas leis tinham por objetivo manter a ordem política e hierárquica vigente. O movimento de expansão dos bens de consumo, seu barateamento e sua acessibilidade reforçam-se durante o século XVIII: Vivia-se a ‘revolução do consumidor’, movimento que dava vazão aos gostos, modas e interesses do indivíduo pelo consumo, e ajudava a remover aos poucos a estrutura social tradicional e dar lugar à moderna. (D’ANGELO, 2006, p. 53). ͶͲ A grande ruptura sociocultural dá-se com a Revolução Francesa em 1789. Barreiras caem; os direitos são iguais para todos. As leis suntuárias são abolidas e “a burguesia deve elaborar um conjunto de normas, uma estética do bom gosto, novo capital simbólico que a diferencia dos outros segmentos sociais” (ORTIZ, 1991, p. 129). De fato, ao mesmo tempo em que ocorre um processo de democratização, no qual monopólios e privilégios são abolidos, reforça-se a vontade de distância das classes superiores, recuperada através das estratégias de distinção (ORTIZ, 1991, p. 131). Nesta dinâmica, possuir capital cultural44 franqueia o acesso a um posicionamento social mais alto pelo viés do consumo; o discernimento cultural faz com que seja possível “comprar” os signos de pertencimento a uma classe social mais elevada. E a classe alta tenta sempre marcar a distância dos segmentos inferiores. Thorstein Veblen (1987, p. 56), referindo-se ao século XIX, escreve que a ampliação da classe alta exigia que critérios de avaliação de consumo conspícuo se refinassem. [Enquanto] a comunidade avança em cultura e riqueza, a aptidão para o dispêndio é posta em evidência por meios que requerem progressivamente uma melhor discriminação do observador. Essa melhor discriminação entre os veículos de propaganda é com efeito um elemento da cultura pecuniária mais alta. Assim, vimos como surge o consumo de luxo, desenhando-se em um primeiro momento como símbolo de distinção e, em seguida, como ferramenta de ascensão social nas mãos da burguesia que, munida de capital cultural, começou a se beneficiar dos mesmos privilégios do que a nobreza. 2.1.2 A institucionalização do luxo O luxo nesse período não deixa de ser socialmente distintivo. Muito pelo contrário, o que acontece nesta época é a institucionalização desta forma de consumo: o luxo vira marca, 44 As classes sociais, para Bourdieu, têm suas estruturas definidas pela distribuição, entre seus membros, dos diferentes capitais (para citar somente alguns, capital económico, simbólico, social) O capital cultural pode ser dividido em três tipos: “no estado incorporado, ou seja, sob a forma de disposições duráveis do organismo; no estado objetivado, sob a forma de bens culturais – quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.; e, enfim, no estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar à parte, porque, como se observa em relação ao certificado escolar, ela confere ao capital cultural – se que é, supostamente, a garantia – propriedades inteiramente originais.” In: Nogueira, M.A.; Catani, A. (Org.) Petrópolis, RJ, Vozes, 1993. Ͷͳ grife e passa a ser vendido em lugares específicos, as lojas de departamento, que McCracken define como o locus da mudança de hábitos do consumidor: Em termos gerais, pode-se dizer que a poderosa dinâmica resultante da relação dialética entre consumo e mudança social encontrou na loja de departamento um locus físico e um lar institucional. Enquanto característica estrutural permanente da sociedade moderna, ela tinha agora um lugar para se instalar. (McCRACKEN, 2003, p. 50). Entre 1852 e 1870, Paris foi remodelada pelo barão Georges-Eugêne Haussmann; acumulando os cargos de prefeito, ministro de obras públicas e planejador-chefe da cidade, ele remanejou a capital francesa sob as ordens de Napoleão III. A cidade foi integralmente transformada; Paris ganhou o status de metrópole e passou a ser considerada a “capital do século XIX” (BENJAMIN, 1985). Grandes avenidas foram abertas, facilitando o deslocamento da população; linhas férreas, hospitais, mercados e diversos prédios urbanos foram construídos nessa época. Junto com essas modificações arquitetônicas, ocorreu a instalação de redes de esgoto, iluminação pública e tubulação de gás nas ruas. Também foram inaugurados novos centros de lazer para a elite, como a ópera, ou o hipódromo de Longchamp no Bois de Boulogne (Durand, 1988). Para Benjamin, essas transformações marcam o início da modernização urbana. Como bem lembra Frúgoli Jr., Deve-se ressaltar, acima de tudo, um novo modo de intervenção urbana, de grande escala para a época, com um papel inédito delegado ao urbanismo, cujo poder de atuação está ligado, no caso, tanto à sua inserção no império napoleônico, quanto à articulação de alianças estratégicas entre o poder público e setores do capital – incluindo o favorecimento da especulação imobiliária e do capital financeiro. (2006, p. 19). Frúgoli Jr. ainda caracteriza este início da modernidade urbana pelas “formas mais sistemáticas de intervenção urbana, aos grupos sociais mais poderosos interessados ou beneficiados por elas, à articulação desses grupos com o poder público, ao papel implementador desempenhado por este último”.45 É no meio das grandes modificações urbanas que surgiram as grandes lojas de departamento ou grands magasins, a partir de 1822. Entre estes estão: Au Bon Marché, Louvre, Bazar de l´Hôtel de Ville, Printemps, Samaritaine (Durand, 1988; Lipovetsky, 2005; 45 Trataremos de alguns destes pontos, na realidade paulistana, em nosso capítulo III. Ͷʹ Padilha, 2006). Nesta época, o luxo transforma-se em desejo de comprar (Lipovetsky, 2005) e o ato de comprar começa a ser enxergado como forma de lazer. [...] o importante é notar que as lojas de departamentos tornaram muito agradável e divertida a experiência de olhar vitrines, zanzar nas lojas e fazer compras, independentemente daquilo que se comprasse ou se deixasse de comprar. Para muitas pessoas, sair para “fazer compras” tornou-se muito prazeroso! Foi assim que o lazer e o consumo se aproximaram na virada do século. (TASCHNER, 2009, p. 86). Enquanto no Antigo Regime adquirir bens em lojas era uma operação complicada – as mercadorias não eram expostas, não havia preços fixos, costumava-se pechinchar (Ortiz, 1991) –, os novos espaços encorajavam o consumo com muitas luzes, cores, dimensões exageradas, profusão de artigos e preços atrativos; transformam o consumo em uma festa. Os magasins de nouveautés, os primeiros estabelecimentos a manterem grandes estoques de mercadorias, começam a aparecer. São os precursores das grandes casas comerciais [...] As galerias são centros comerciais de mercadorias de luxo. Em sua decoração, a arte põe-se a serviço do comerciante. Os contemporâneos não se cansam de admirá-las. Por longo tempo continuaram a ser um local de atração para os forasteiros. Um Guia Ilustrado de Paris afirma: “Estas galerias são uma nova invenção do luxo industrial, são vias cobertas de vidro e com o piso de mármore, passando por blocos de prédios, cujos proprietários se reuniram para tais especulações. Dos dois lados dessas ruas, cuja iluminação vem do alto, exibem-se as lojas mais elegantes, de modo tal que uma dessas passagens é uma cidade em miniatura, é até mesmo um mundo em miniatura.” (BENJAMIN, 1985, pp. 30-31). Ortiz compara a arquitetura dessas lojas a catedrais. [Em um registro também religioso, Baudrillard compara o seu equivalente moderno, os shopping centers, a um “Panteão e Pandemônio, [onde] vêm congregar-se todos os deuses ou demônios do consumo, isto é, todas as actividades, todos os trabalhos, todos os conflitos e todas as estações abolidas por idêntica abstracção.” (2005, p. 21)] Matos cita o romance do autor francês Emile Zola, Au bonheur des dames, no qual é retratada uma grande loja de departamento onde os manequins “sustentavam os preços com números enormes no lugar das cabeças”. E, literalmente, os consumidores perdem a cabeça no delírio do consumo. No romance, o proprietário da loja sabe atrair as multidões pelos “reclames”, sabe “desnortear” os clientes, sabe fazê-los perder o “bom senso” racionalista. (MATTOS, 2004, pp. 287-288). Ͷ͵ Para Padilha, essa “cultura de consumo” que nasce no século XIX na Europa ocidental está intimamente ligada à reconfiguração do espaço urbano e ao declínio do público por causa das crescentes apropriações privadas, bem como ao desenvolvimento galopante do capitalismo. (PADILHA, 2006, p. 43) A autora ainda ressalta que analisando o século XIX e buscando uma compreensão do “processo civilizador” que se desencadeia a partir de então, podemos perceber a existência de uma dimensão simbólica e de uma dimensão cultural que envolvem o consumo. Por isso é possível pensar que as práticas e os hábitos culturais surtem efeitos na vida social, ao mesmo tempo que a refletem. Assim, falamos em “cultura de consumo” quando o consumo passa a significar não apenas a compra de bens materiais para a satisfação das necessidades, mas também o consumo de imagens e de valores para uma grande parte da sociedade. (PADILHA, 2006, p. 43). Este momento pode ser definido como o início do luxo moderno; um compromisso entre o artesanato e a indústria, a arte e a série. É também o início das exportações de peças e de moldes graças à implantação de mais estradas de ferro e ao desenvolvimento da navegação a vapor que facilitaram o comércio internacional especialmente entre a Europa e os Estados Unidos. É também neste momento que são fundadas grandes casas de luxo que existem e são reconhecidas até hoje pela sua tradição, como, por exemplo, a perfumaria Guerlain (1828), os joalheiros Cartier (1847) e Boucheron (1858), o seleiro Hermès (1837) ou o maleiro Louis Vuitton (1854). Na mesma época, surgem as casas de faiança e porcelana Faïenceries de Gien (1821), Bernardaud (1863) e Daum (1875), os hotéis de luxo Ritz (1898) ou du Palais (1893). Marcas de champagne como Ruinart e Veuve Clicquot foram criadas ainda no século XVIII (em 1729 e em 1772, respectivamente), mas foi em 1882 que as marcas de champagne mais prestigiosas se reuniram no Syndicat des Grandes Marques de Champagne46 (ROUX, 2005, p. 118). No entanto, é interessante observar que se produtores de Champagne já se autointitulavam “marcas”, foi somente em 1995 que a maioria das “casas” de luxo aceitaram se definir como “marcas”. (Lipovetsky, Roux, 2005, p. 117-118) Ortiz relata que os críticos e os defensores do luxo distinguem um luxo “bom” e um “mau”, dicotomia que passa a ser expressa através das categorias de utilidade e inutilidade ͶͶ (Ortiz, 1991). Utilidade aqui é entendida como conforto. Dentro deste conforto, encaixam-se diversos elementos que aparecem nessa época: os grands magasins, a energia elétrica, as estradas de ferro, os transportes, a alimentação, a construção das casas, enfim, um conjunto de técnicas (materiais, comerciais, financeiras) que têm uma incidência direta sobre o bem-estar individual. (Ortiz, 1991, p. 138). Já o luxo inútil seria aquele relacionado à criação de necessidades factícias, podendo “ser definido como a má utilização do supérfluo” (Nadault, 1869, p. 28 apud Ortiz, 1991, p. 146). O que distingue o luxo útil do inútil é o tipo de necessidade que motiva cada um: o primeiro é impulsionado por necessidades legítimas; o outro, por necessidades julgadas factícias. Essa facticidade tem a sua representação em manifestações efêmeras tais como a moda. O período compreendido entre o século XIX e os anos que antecedem a segunda guerra mundial pode ser considerado o auge do luxo moderno, e tem o seu apogeu justamente na moda. Como já discutimos, se moda não é sinônimo de luxo, é no entanto é um dos seus grandes protagonistas, sendo um segmento importante da movimentação econômica do setor. O século XIX na França vê, pois, o surgimento da alta-costura, “incontestavelmente o referencial do luxo” (CASTARÈDE, 2005, p. 84). Para Lipovetsky, o nascimento da altacostura foi uma ruptura na trajetória do luxo em dois âmbitos: primeiro, em relação à dominação masculina no luxo, já que agora a mulher passava a ser o centro das atenções; em segundo lugar, em relação ao papel do trabalhador. De fato, desde o Renascimento, com exceção de alguns artistas, a maioria dos trabalhadores do luxo, os artesãos, não se beneficiava de reconhecimento algum. Durand (1988) dá o exemplo do retrato de Madame de Pompadour pintado pelo pintor francês François Boucher em 1745. No quadro, a cortesã usa um vestido visivelmente muito luxuoso que ocupa quase a metade do quadro. Sabe-se hoje quem pintou o quadro, mas não quem concebeu o vestido. Como nota Durand (1988, p. 22), “a indumentária dos poderosos do passado chegou aos nossos dias por intermédio da pintura, esta sim considerada arte maior, onde o autor assina o que faz”. Assim, o criador da roupa não deixou rastro. A mudança se dá com a abertura do ateliê de Charles Frédéric Worth, inglês radicado em Paris. Com ele, surge a figura de um costureiro que confere prestígio à roupa.47 Agora, 47 No entanto, DeJean reconhece o trabalho das couturières do fim do século XVII como precursor da alta costura tal como idealizada por Worth. (2010, pp. 52 e 53). Ͷͷ não basta mais à roupa uma procedência de renome, ela tem que ter uma assinatura, uma marca. Na segunda metade do século XIX, Charles Frédéric Worth assenta os fundamentos [da alta-costura] ao estabelecer uma indústria de luxo consagrada à criação de modelos frequentemente alterados e fabricados nas medidas de cada cliente. A ruptura com o passado é clara. Enquanto os modelos são criados fora de toda procura particular, o grande costureiro aparece como um criador livre e independente. Ele estava à disposição; agora impõe soberanamente seus modelos e gostos às clientes metamorfoseadas em consumidoras despojadas de um real direito de controle. A idade moderna do luxo vê triunfar o costureiro liberto de sua antiga subordinação à cliente e afirma seu novo poder de dirigir a moda. Nasceu a idade de ouro do costureiro demiurgo [...] (LIPOVETSKY, ROUX, 2005, p. 42-43). Esse período foi a magnificência da alta-costura: enquanto, hoje, a alta-costura é reservada a uma parcela muito reduzida da população.48 Na França dos anos 1920, havia 300 mil trabalhadores no setor do luxo, repartidos em diversos métiers, muitos deles ligados à alta-costura. Casas como Chanel, Lesage ou Vionnet produziam centenas de peças fabricadas com esmero a partir de materiais preciosos (Thomas, 2007). Em 1917, havia 64 nomes de couturiers inscritos na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne. Exclusiva, porque feita à mão e sob encomenda, a roupa de alta- costura permitia às suas consumidoras marcar uma clara distinção social. [...] nessa época, a roupa de “elite” se impõe, porque o estilo de vida e os padrões de gosto de quem a veste são invejados e imitados pelos segmentos de pequenos e médios proprietários e dos profissionais de classe média que estão em lugar mais baixo na hierarquia social. (DURAND, 1988, p. 25). 2.1.3 O consumo do “luxo-negócio” O panorama do luxo mudou com a Segunda Guerra Mundial. Durante o conflito, grande parte das casas do setor do luxo foi obrigada a fechar. Os nazis tentaram acabar com a indústria francesa do luxo, planejando mudá-la para Berlim ou Viena, que seriam as novas capitais culturais da Europa. Para sobreviverem, algumas casas escolheram vender seus produtos para as mulheres de oficiais nazis e colaboradores do regime (Thomas, 2007). 48 Em 2006, havia 2 mil clientes recenseados, dos quais 50% eram americanos, 25% do Oriente Médio, 22% europeus (exceto França) e asiáticos, e 3% franceses (ALLÈRES, 2006). Ͷ No entanto, a maioria das indústrias dos países em guerra produzia somente o mínimo necessário. As mulheres usavam uniformes ou roupas reformadas pertencentes a outros membros da família (Durand, 1988). Quando a guerra acabou, a maioria das casas voltou a funcionar; algumas novas abriram; havia certa ansiedade por deixar para trás a tristeza e o sofrimento; um retorno do luxo e da feminilidade seriam as soluções. Apesar disso, a alta-costura foi mudando, até tornar-se obsoleta, o que teve repercuções em toda a indústria da moda, e na do luxo em geral. De fato, durante os anos de crise nos Estados Unidos, no período entreguerras, os impostos sobre bens de luxo foram elevados para frear as importações; o volume de roupas finas importadas da França caiu drasticamente. A solução para os comerciantes americanos não terem que pagar os impostos foi importar os moldes das roupas francesas (Durand, 1988; Thomas, 2007). Havia também o fato de muitas mulheres estarem entrando no mercado do trabalho; as mudanças econômicas e sociais eram grandes e, para a maioria, não se justificava mais pagar preços irrisórios em vestidos que seriam pouco usados. Abria-se assim o espaço do prêt-à-porter (literalmente, “pronto para vestir”), que significava então “uma roupa de luxo feita em série” (Durand, 1988, p. 35), e dos licenciamentos. Grandes nomes, como os dos costureiros Christian Dior, Pierre Cardin e Yves Saint-Laurent, passaram a aplicar sua assinatura em múltiplos tipos de acessórios, fazendo com que grifes reservadas a poucos se tornassem acessíveis também às classes médias. Não havia tanto controle de qualidade, as marcas eram estampadas em todos os tipos de produtos, inclusive em alguns totalmente afastados da sua área de origem, mas os seus donos multiplicavam suas possibilidades de lucro.49 A jornalista americana Dana Thomas, em seu livro How luxury lost its luster 50 , identifica o início da última grande mudança do luxo também no período pós-Segunda Guerra Mundial, quando a França, berço da maioria das marcas de luxo, passou da penúria à 49 “O licenciamento incide sobre a fabricação (caso em que podem ocorrer abusos quando não há controle) ou sobre a distribuição [...] O licenciamento que se concede no caso da Yves Saint Laurent, da Dior ou da Pierre Cardin, por exemplo, é uma maneira de auferir royalties líquidos, que são afetados apenas pelas flutuações do dólar e do iene. As vantagens para a rentabilidade e a exposição da marca são imensas. Mas é preciso ter condições de controlar as licenças (o mais difícil) e, se possível, limitá-las a um país e uns poucos produtos valorizados. Quando a alta-costura concede licença a fabricantes ou promotores de perfumes, é um meio de difundir a marca. Frequentemente, o proprietário tenta, muitos anos depois, recuperar a marca e revogar a licença. Sobretudo, é necessário fazer guerra às chamadas “licenças-caça-níqueis”, que rendem dinheiro mas arruínam a imagem.” (Castarède, 2005, pp. 118, 119). 50 Em português: Como o luxo perdeu brilho. Trata-se de um livro de investigação jornalística sobre as mudanças ocorridas no mundo do luxo. Extremamente crítico, o livro aponta os eventos que, segundo a autora, mudaram a face do luxo, fazendo com que este virasse um negócio acima de tudo. Assim, destaca o surgimento de grandes grupos, o lançamento do conceito de “it bag” (bolsas must have que duram uma temporada) ou a multiplicação de imitações e falsificações. Ͷ abundância. É quando o foco do negócio do luxo, que, segundo a autora, era até então criar as melhores coisas que o dinheiro pudesse comprar, passou a ser o lucro absoluto, conferindo um poder imenso às marcas. De fato, hoje, o luxo, outrora artesanal e pertencente a pequenas famílias, cresceu, virou negócio e globalizou-se. Os negócios familiares foram substituídos por grandes corporações e grandes grupos com cotações na bolsa. Isto, segundo Thomas, teria começado a mudar com a Louis Vuitton. A grife francesa, hoje ícone absoluto do luxo no mundo, com inúmeras lojas e campanhas publicitárias glamorosas veiculadas no mundo inteiro, foi quem começou a operar essa mudança. Da Segunda Guerra Mundial até o começo dos anos 1980, a grife fabricava bagagem sem seguir, e muito menos lançar, moda. As vendas eram feitas à maneira antiga para uma clientela limitada que estava envelhecendo. Em 1977, existiam somente duas lojas da Louis Vuitton. 51 Com uma mudança na direção da marca, a Louis Vuitton foi radicalmente transformada, passou a ser cotada na bolsa e a fazer parte do famoso grupo LVMH, nascido da fusão da Louis Vuitton com a Moët Henessy. Em menos de uma década, Racamier tinha transformado Louis Vuitton de um pequeno negócio familial que vendia para uma clientela elitizada, em uma marca poderosa com vendas substanciais e até mais potencial. Ao fundir-se com uma corporação estável que já existia, e ao adicionar Givenchy para criar uma divisão de moda de luxo, Racamier deu à Vuitton o peso e a organização da qual a marca precisava para conquistar o mundo. Racamier viu a globalização como o futuro do luxo, e usou a sinergia entre as marcas no grupo para mapear e lançar a expansão delas; ele transformou a moda de luxo de um negócio conduzido por um homem ou uma família em uma indústria de corporação. (Thomas, 2007, p. 36-37, tradução nossa). Na mesma época, em 1992, era criado o grupo PPR, outro “gigante” do luxo mundial. Desde então, a maioria das grandes marcas de luxo foi incorporada por grandes grupos; existem diversos grandes conglomerados, como Prada Group, Marzotto ou L´Oréal. A partir deste momento, para a autora, o luxo tem muito pouco em comum com os objetos de alta qualidade confeccionados artesanalmente. 51 Hoje, a marca é vendida em lojas exclusivas espalhadas pelo mundo, de Aruba ao Vietnã, passando pelo Chile, Guam, a República Tcheca e 49 outros países, bem como em lojas de departamento luxuosas e através de ecommerce. Ͷͺ Se tem uma coisa que mudou no luxo nestes últimos trinta anos, é o foco único na rentabilidade. Antes, quando as marcas de luxo eram empresas privadas, os donos se preocupavam com o lucro, mas o objetivo primeiro era produzir os melhores produtos possíveis. Desde que os magnatas assumiram, porém, este objetivo foi substituído por um fenômeno que eu chamo de culto do luxo. Hoje, os artigos de marcas de luxo são colecionados como figurinhas de beisebol, expostos como obras de arte, brandidos como iconografia. Arnault e seus companheiros magnatas mudaram o foco de o que o produto é para o que ele representa. Para conseguir isso, eles “destacam a atemporalidade”, como Arnault gosta de dizer, exibindo a herança da empresa; empregam um jovem designer moderno para dar à companhia um lado moderno; reforçam o branding, reduzindo o nome (Christian Dior virou Dior, Burberry perdeu seu ’s) e estampando o seu logotipo em tudo, de bolsas a biquínis; e anunciam este pacotão obstinadamente para evangelizar as massas. (THOMAS, 2007, p. 41, tradução nossa). Assim, os anos 1980 foram o palco do nascimento de conglomerados de luxo e o auge do “superconsumismo individualista e reivindicado de marcas de luxo” (Lipovetsky, Roux, 2005, p. 118). Já nos anos 1990, criou-se um consenso novo: os produtos não deveriam mais ser apresentados como meros produtos, mas como conceitos. A marca vira experiência, estilo de vida. Trata-se de “um conjunto de valores”, “uma expressão”, “um meio de vida”, “uma atitude” (Klein, 2006). Este é o consumo de luxo tal como o conhecemos hoje. A necessidade de lucratividade massificou o consumo e esta massificação obrigou a que se agregasse à marca outro sentido que não a qualidade do produto. Passou-se a desejar uma marca, uma grife, pelo imaginário que lhe é ligado; pelo que ela representa e definitivamente não mais pela qualidade dos seus produtos, pelo cuidado dedicado ou pela raridade dos elementos empregados no processo da fabricação dos seus produtos; “os produtos anunciados são carregados de significados e de possibilidades, e as emoções são muito mais exploradas que a utilidade do produto propriamente dita” (Padilha, 2006, p. 121). Lipovetsky se refere ao tipo de luxo que se configura nesse momento como “luxo emocional”. Para o autor, nesse contexto, as marcas continuam sendo importantes, mas quem as usa quer menos impressionar os outros ou estabelecer seu rang do que se dar o direito a um prazer, afirmar sua individualidade. Tratar-se-ia, portanto, de um movimento narcísico, de uma vontade de afirmar uma imagem pessoal mais do que uma imagem de classe. Ͷͻ Em um tempo de individualismo galopante, afirma-se a necessidade de destacar-se da massa, de não ser como os outros, de sentir-se um ser de exceção. Assim as motivações elitistas permanecem; mas estão menos baseadas em desígnios de honorabilidade e de ostentação social do que no sentimento da distância, no gozo da diferença proporcionada pelos consumos raros e no afastamento que abrem em relação à maioria. [...] Emerge assim um consumo dispendioso, livre das prescrições sociais, que representa a ascensão das aspirações e das motivações individualistas. [...] A busca dos gozos privados ganhou prioridade sobre a exigência de exibição e de reconhecimento social: a época contemporânea vê afirmar-se um luxo de tipo inédito, um luxo emocional, experiencial, psicologizado, que substitui a primazia da teatralidade social pela das sensações íntimas. (LIPOVETSKY; ROUX, 2005, p. 52-55). A palavra “experiência” passou a ganhar cada vez mais peso no jargão do marketing mundo afora; refere-se à construção do ato da compra que não pode mais ser uma mera aquisição, precisando ser transformada em um momento especial. Entendemos que existe aqui uma tentativa de resgate da época em que o luxo realmente era exclusivo da realeza ou do mundo aristocrata tradicional. Deseja-se manter – ainda que artificialmente – uma aura de singularidade e privilégio no ato da compra, a qual seria tão valorizada pelo consumidor quanto o próprio produto. O consumidor, além de ostentar uma grife, estaria procurando darse prazer, viver um momento especial. No entanto, acreditamos que esse tipo de consumo “emocional” descrito por Lipovetsky ainda não se aplica à realidade da maioria da população brasileira. Ao contrário, concordamos com o D’Angelo (2006) quando escreve: (...) também descarto visões mais recentes que veem o luxo como movido pelo "puro prazer". Essa é uma perspectiva mais recente sobre o consumo de luxo. [...] Entretanto, não a vejo, ainda, como hegemônica – pelo menos não no Brasil. Parece-me que as observações de Lipovetsky e Forbes52 a respeito do luxo emocional e hedônico sejam especialmente pertinentes ao continente europeu, onde o mercado dos bens encontra-se em outro estágio. De fato, o nosso trabalho de iniciação científica sobre os consumidores da Daslu, Daslu, a construção da identidade de classe por meio do consumo de luxo, nos permitiu perceber o quanto consumir bens de luxo ainda é socialmente representativo no Brasil: 52 D’Angelo refere-se ao artigo “A ‘desinstitucionalização’ do luxo”, de Jorge Forbes, psicanalista e médico psiquiatra, publicado na Folha de S.Paulo em 23/02/2004. ͷͲ [...] o que fideliza os consumidores tradicionais e atrai os consumidores recentes é o que este consumo representa, a saber, a inserção em uma determinada classe social, a da elite paulista, e o acesso aos seus ritos e códigos. [...] É isso que explica por que é distintivo comprar na Daslu o mesmo produto que poderia ser comprado em qualquer outra loja da cidade. O que está sendo consumido não é o produto em si, mas o ingresso em uma classe social distintiva, exclusiva e seleta. (GAZUREK, M-O, p. 56-57). Pretendemos verificar isto no decorrer da nossa pesquisa; no momento, voltemos ao nosso panorama. Com a massificação do processo de produção e de distribuição dos produtos de grife, “uma parcela de sonho” ficou acessível a classes que outrora não tinham meios de comprar tais produtos. A maioria das marcas começou a comercializar – de maneira mais controlada do que os licenciamentos do pós-guerra – itens mais baratos (óculos, bijuterias, e especialmente bolsas e perfumes), segundas linhas ou segundas marcas, tendo sempre em mente o crescimento almejado pelos acionistas e executivos. Desse modo, as grandes marcas continuam preservando sua aura de glamour, mas não desperdiçam oportunidades de lucrar. Neste começo de século, as marcas e grifes são objeto de desejo absolutos. Isto ocorre na Europa, berço da maioria das grandes grifes, nos Estados Unidos, onde nasceram marcas também internacionalmente reconhecidas no segmento, como Calvin Klein, Oscar de la Renta ou Ralph Lauren, mas também nos países chamados emergentes. Uma matéria da revista Época, de dezembro de 2008 – no meio da crise financeira que afetou os países chamados de primeiro mundo e marcou o começo de uma recessão –, explica que Não é de hoje que as grifes internacionais estão de olho nos mercados emergentes como forma de catapultar seu crescimento. Cada vez mais pressionadas por resultados, essas marcas – a maioria pertencentes a grandes conglomerados – têm procurado alternativas à estagnação dos seus mercados mais tradicionais na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. (MEYER, C. “O luxo descobre o Brasil” In: ÉPOCA, 17/12/2008). Um bom exemplo é o movimento efetuado por Arnault com o carro-chefe do LVMH, a Louis Vuitton, que já em 1992 abria uma loja na China; esse era o primeiro passo do grupo na busca por mercados não convencionais (em 2010, havia 35 lojas da Louis Vuitton no país; no mesmo ano, era aberta a segunda loja da grife na Mongólia, mercado pouco tradicional quando se pensa em consumo de luxo tal como os ocidentais o entendem). ͷͳ Assim, o luxo continua derrubando barreiras, expandindo suas fronteiras, conquistando novos mercados. Desbravando novos territórios, as empresas do setor continuam lucrando, e muito. Em novembro de 2010, a revista americana Forbes cobriu essa expansão, empregando não por acaso, em seu artigo, termos do vocabulário bélico. Para poder manter a bolha de crescimento de LVMH e sua posição de maior provedor mundial de bens de luxo, Arnault deve conquistar regiões mais remotas do globo terrestre. Entre suas 2.468 lojas, há novos postos avançados em Ho Chi Minh, no Vietnã, em Phnom Penh, no Camboja, em Yekaterinburg, na Rússia, em Macau e em Abu Dabi. (No momento, está considerando Lhasa, no Tibet). “Está claro, hoje, que o mundo é guiado pelo crescimento da Ásia e dos países emergentes, diz Arnault. Vuitton sempre foi um pioneiro [...] (ELLIOTT, H; ADDAMS, S. “Master of the Brand, Bernard Arnault” In: Forbes 22/11/2010, tradução e grifos nossos). Nessa “guerra” pela expansão do setor, o Brasil é um dos principais alvos. A revista Época acima citada explica isso com uma combinação de dois fatores: 1. “A produção em série de novos milionários”: De fato, segundo a publicação, os investimentos em bolsa de valores criaram uma legião de novos-ricos, num ritmo superior a qualquer outro país do mundo. Segundo dados do banco de investimentos Merrill Lynch, ao longo de 2007 surgiram 63 novos milionários por dia no país. O número de pessoas com patrimônio superior a 1 milhão de dólares aumentou de 92.000 em 2002 para 143.000 em 200753, um salto de 55%. Hoje, há mais milionários no Brasil do que na Índia ou na Rússia, famosa por seus oligarcas. (MEYER, C. “O luxo descobre o Brasil” In: ÉPOCA 17/12/2008, p. 30). 2. As características peculiares do mercado brasileiro de luxo em relação aos países com tradição de consumo no setor: Por aqui, a esmagadora maioria das receitas ainda vem de consumidores de alta renda [...] “No Brasil, o consumo de luxo ainda é restrito ao alto do topo da pirâmide, um grupo pouco suscetível às oscilações no crédito.” (MEYER, C “O luxo descobre o Brasil” In: ÉPOCA 17/12/2008, p. 30). Assim, o movimento de democratização dos verdadeiros produtos de luxo (não estamos falando aqui de perfumes ou acessórios, mas de itens caros que consumidores de classes médias de países historicamente ligados ao consumo de luxo podem esporadicamente comprar) observado em países da Europa e nos Estados Unidos ainda é muito restrito no 53 Segundo dados do jornal francês Le Monde de 28/09/2010, havia 147 mil milionários e 18 bilionários no Brasil em 2009. ͷʹ Brasil, país onde ainda existe um real abismo entre as classes sociais54. Aqui, esse gênero de consumo ainda é apanágio de poucos. Mas o Brasil certamente se inclui entre os mercados mais promissores para os grandes grupos de luxo. No entanto, isso é relativamente recente, como veremos a seguir. 2.2 No Brasil Se o hábito de consumo de luxo pode ser medido no ocidente em séculos, e se na Europa do século XIX já nasciam as famosas maisons que iriam transformar-se nas marcas hoje vendidas em escala global, o Brasil tem uma convivência muito recente com este universo. Para D’Angelo, o luxo no Brasil sempre carregou o sentido de algo “vindo de fora”. Assim, o autor identifica dois momentos importantes na história do luxo no Brasil, ambos relacionados à abertura do país para os produtos estrangeiros. Para ele, “nos dois casos, a permissão de importar bens de consumo significou um previsível estímulo à aquisição de bens de luxo vindos do estrangeiro” (2006, p. 70). O primeiro momento teria sido em 1808 (D’Angelo, 2006; Taschner, 2009), com Dom João VI, primeiro imperador do Brasil; o segundo, em 1991, com Fernando Collor de Mello, então presidente da república. O primeiro momento permitiu que o consumo de luxo fosse introduzido para as elites locais, ficando restrito a elas. O segundo fez com que marcas e grifes consolidadas entrassem de vez não somente nas lojas do país, mas também no cotidiano das classes altas e nas frações altas da classe média. Neste momento, a chegada das grandes marcas de luxo ao Brasil foi amplamente coberta pela mídia. De repente, o mundo do luxo não era mais restrito a uma elite de iniciados que viajavam e sabiam onde e como comprar fora do país. As marcas prestigiosas e consolidadas mundo afora começaram ser vendidas no país, e isto virava noticia. Dito de outra maneira, é nesse momento que o luxo no Brasil começa a ganhar relevância e pode ser problematizado. Comecemos com o primeiro tempo do luxo no país. Durante os três séculos de colônia, a vida cultural do Brasil foi relativamente pobre; não havia moda por exemplo. A mulher ficava reclusa em casa; saía só em procissões religiosas, durante as quais se cobria com xales 54 Em tempo: em entrevista à revista Veja em 25/09/2011, o diretor da grife francesa Hermès explica que, se na França e em países emergentes como Japão e Coreia os artigos da marca são acessívéis à classe média, no Brasil os altos impostos de importação dobram o preço das mercadorias, restringindo-as à elite. Costa, A.C. “Para a Hermès, o luxo é acessível à classe média – menos no Brasil.” Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/economia/para-a-hermes-o-luxo-e-acessivel-a-classe-media-menos-no-brasil>. Consultado em: 30/09/2011. ͷ͵ e mantilhas. A distinção social nesta época dava-se pela posse de escravos. Somente o senhor de engenho tinha riqueza e poder e, desta maneira, algum acesso a joias e vestidos luxuosos para sua esposa, que ele mandava trazer do exterior, junto com condimentos orientais, muito apreciados na colônia, e indicadores de status pela sua raridade (Durand, 1988; D’Angelo, 2006). Por causa do pacto colonial, a importação de produtos para o Brasil era extremamente difícil.55 Em 1808, o pacto foi revogado por Dom João, na sua chegada ao Brasil. Foi a primeira abertura do país aos produtos importados (conhecida como “abertura dos portos”) e o começo do acesso dos artigos e marcas estrangeiras do dito “primeiro mundo” ao Brasil. Assim, por volta de 1830, franceses abriram as primeiras lojas de moda e artigos de luxo na então sede do governo, o Rio de Janeiro (na mesma época em que se desenvolviam os grands magasins na França). Para D’Angelo, a própria vinda da corte portuguesa, a chegada de embaixadas estrangeiras, bem como o desembarque de estrangeiros, sendo esses viajantes ou profissionais vindo se estabelecer no país, foram razões de mudanças de costumes no Rio de Janeiro. “Todos traziam hábitos europeus que rapidamente a elite local procurava incorporar. A convivência entre brasileiros e europeus recém-chegados estimulou a apreciação de produtos importados e levou ao refinamento do gosto das altas classes” (D’Angelo, 2006, p. 73). Depois da substituição da navegação à vela pelo vapor, as importações foram facilitadas, já que a travessia do Atlântico tinha ficado muito mais rápida. A partir de então, lojas da rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e mesmo em Salvador, Recife e outras cidades importantes da época, podiam oferecer às senhoras “de sociedade” tecidos e figurinos de Paris, e mesmo toaletes completas. Os livreiros franceses importavam revistas de moda chegando mesmo, a partir de 1874, a haver uma edição brasileira de La Saison, chamada A Estação [...] Na época, a administração dessas lojas de moda exigia ao menos dois sócios: um para cuidar do atendimento à clientela e da oficina de costura, e outro para atualizar-se no gosto de Paris e repor o estoque de tecidos, vestidos, chapéus, bolsas, etc., viajando com frequência. (DURAND, 1988, p. 64). 55 O pacto colonial estipulava que fossem comprados e vendidos, pelas colônias, somente os produtos de suas respectivas metrópoles, proibindo a comercialização com estrangeiros e países não integrantes do pacto; para não haver esse tipo de atividade comercial, impostos altíssimos foram criados. Dessa maneira, a metrópole mantinha o monopólio legal da importação das matérias-primas mais lucrativas das suas colônias e da exportação dos bens de consumo. ͷͶ O comércio inglês no Brasil era mais importante do que o francês, mas a França era o grande referencial cultural para as elites locais (Mira, 2008), sendo símbolo absoluto de luxo. Assim, costureiras italianas do final do século XIX (os principais imigrantes na época) escolhiam serem chamadas de “madames” e afrancesavam seu nome (Durand, 1988). No entanto, a influência francesa foi aos poucos abrindo espaço para a americana (Mira, 2008). Isto aconteceu nos mais diversos setores, inclusive no da moda. As duas influências passaram a coabitar no imaginário local. As revistas de moda francesas continuavam a chegar, mas a edição no Brasil de revistas ilustradas com secções femininas abriu espaço para um trabalho de adaptação feito por brasileiros. Na época do apogeu de Hollywood, era comum aparecerem desenhos de seus vestidos, ao lado dos croquis da moda da estação lançada na França. (Durand, 1988, p. 67). Fora da capital, cidades como Manaus ou Belém (ricas graças à borracha) e São Paulo (café) também iam se desenhando como centros de consumo de luxo. Nestas capitais, a intenção de reproduzir hábitos e consumos europeus também se manifestava através da moda, da arquitetura, do comércio e das artes. Ocorria o mesmo fenômeno que se dera entre os cariocas, mas com algum tempo em relação à capital. (D’Angelo, 2006, p. 74). E as vitrines também copiavam a moda divulgada nas revistas estrangeiras. Em São Paulo, nas décadas de 1950 e 1960, era na Rua Augusta que se concentravam os comerciantes dos artigos mais refinados. Sucessora da Rua Barão de Itapetininga e da Rua Direita, e precursora da atual Oscar Freire, era ali que se comercializavam nem tanto os importados, mas as suas imitações: os modelos europeus e norte-americanos das revistas eram copiados pelos estilistas locais que os vendiam como reflexo da última moda no exterior. (D’Angelo, 2006, p. 76). O fim dos anos 60 viu a construção do primeiro shopping center brasileiro 56 , o Shopping Iguatemi. Pela sua localização, era visto a princípio como a continuação da rua Augusta; depois, quando as lojas saíram da rua para se instalarem no shopping, ele a substituiu. No decorrer dos anos seguintes, firmou-se como um shopping de luxo. No entanto, nessa época, ainda eram as “casas” que ditavam moda na alta sociedade brasileira; como a 56 Padilha identifica nas lojas de departamento de Paris do século XIX os ancestrais dos shopping centers. Nos Estados Unidos, o primeiro shopping foi inaugurado em 1950. E “no Brasil, a implantação dos shopping centers nos anos 1960 seguiu o padrão norte-americano: é a referência estrangeira como imagem de inovação […]” (2006, p. 68). ͷͷ Casa Canadá, as de “madames” Boriska e Rosita ou, ainda, a Vogue. Todas elas desenvolviam um trabalho de importação e de reprodução de estilos estrangeiros. Organizavam desfiles e vendiam alta-costura e prêt-à-porter. A alta sociedade alternava a compra de roupas entre essas casas e as lojas de Paris, para onde viajava com frequência (Durand, 1986). A Daslu, um dos maiores símbolos brasileiros do luxo [em pesquisa realizada em 2010, era apontada por 5% dos entrevistados como uma “empresa de luxo considerada referência no país”, atrás de Fasano (hotel), com 14%; Osklen (moda), com 13%; e H.Stern (joalheria), com 9%57], nasceu como uma dessas “casas” de clientela seleta no final dos anos 50 antes de transformar-se, em 2005, em uma loja de tamanho comparável ao de uma loja de departamento. Em 2006, D’Angelo identificava três pontos principais de consumo de luxo em São Paulo: os arredores da rua Augusta – mais especificamente a Oscar Freire e suas travessas; a Haddock Lobo e a Bela Cintra –, o Shopping Iguatemi e a própria Daslu58. Cinco anos depois, o Shopping Cidade Jardim, inaugurado em 2008, desenha-se como outro importante polo para esse tipo de consumo. O passo decisivo para que isso acontecesse e São Paulo se tornasse uma cidade relevante no mapa-múndi do luxo foi dado com a chegada de Fernando Collor de Mello ao poder. No dia seguinte à posse, foram anunciadas diversas medidas econômicas voltadas ao controle da inflação [...] A mais dura e importante foi o confisco dos depósitos de poupança [...] As medidas econômicas iam além do congelamento dos depósitos em banco e incluíam a promessa de abertura dos portos brasileiros, fechados há décadas aos produtos estrangeiros. A intenção era tornar o mercado local, protegido por barreiras alfandegárias que estimulavam a acomodação dos empresários, competitivo. (D’Angelo, 2006, p. 78). Essa medida foi fundamental para que a Daslu se tornasse referência entre os centros de compras de luxo no Brasil. Eliana Tranchesi, filha de uma das duas “Lu” que tinham fundado a loja, assumiu parte do controle da Daslu em meados dos anos 1980. Após o anúncio feito por Collor, ela iniciou uma série de viagens à Europa para persuadir as grifes de luxo a se estabelecerem em sua loja. Em uma entrevista à Veja Edição Especial Mulher de agosto de 57 Dados da pesquisa “O Mercado do Luxo no Brasil”, realizada pelas consultorias MCF e GfK Brasil, publicados em ROLLI, C. “Mercado de luxo espera crescer o triplo do PIB”. In: Folha de S.Paulo, 01/08/2010. 58 Em matéria de 1998, sobre a chegada das grifes estrangeiras no Brasil, a jornalista Lilian Pacce escrevia que “a região da Oscar Freire é o porto de entrada mais cotado, seguido pela Vila Nova Conceição e pelo shopping Iguatemi”. Nessa época, a Daslu ainda estava instalada na Vila Nova Conceição. ͷ 2003, ela afirmou: “o mercado brasileiro era totalmente desconhecido. Achavam que aqui não tinha cliente para seu produto, que as compradoras não iam assimilar o alto preço. Foi um duro trabalho de convencimento”. Nos anos seguintes, a maioria das grifes que até hoje simbolizam o luxo pelo mundo se instalaram na Daslu, e a loja transformou-se em um lugar único no Brasil, tendo por muitos anos a exclusividade no país de grandes grifes internacionais. Segundo D’Angelo, Mesmo que a Louis Vuitton já operasse no Brasil havia um ano, pode-se dizer que a Daslu foi a grande pioneira desse novo boom do mercado de luxo, porque saiu a campo tendo em mãos um trunfo: a abertura às importações. As suas seguidoras – outras lojas multimarcas, franquias e lojas próprias das grifes – precisaram de um outro empurrãozinho, que chegaria quatro anos depois, pelas mãos do governo Itamar Franco: a estabilidade da moeda. A combinação abertura dos portos e estabilidade monetária permitiram que, enfim, o mercado brasileiro fosse visto como uma aposta de menor risco – ou de ganhos potenciais maiores. (2006, p. 79). Assim, grifes estrangeiras outrora reservadas aos consumidores que viajavam para fora do Brasil passaram a ocupar espaço nas prateleiras das boutiques brasileiras e viraram notícia na mídia. Uma matéria de O Estado de S. Paulo de dezembro de 199859 com título “Paris e Milão desembarcam em São Paulo” anuncia: Se antes os desfiles internacionais serviam apenas para fazer sonhar o consumidor e para ser copiados pelos menos escrupulosos, hoje eles estão tão próximos da vida brasileira quanto os desfiles do MorumbiFashion Brasil, pelo menos no que se refere a São Paulo, cidade-oásis do consumo de luxo da última década. O circuito de desfiles entre Nova York, Milão, Londres e Paris reúne o lançamento das coleções de cerca de 350 estilistas. Desses, pelo menos metade já está à venda por aqui e dezenas estão de olho nesse mercado. Tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, há um explícito interesse pelo Brasil, cujo potencial comercial ainda pode render muito e ser opção para a Ásia em crise. No ano que vem, a Louis Vuitton amplia seus domínios e começa a vender sua nova linha de roupas femininas [...] Entre as inaugurações previstas para o início de 99 estão a americana Diesel [...], a espanhola Zara [...] e as italianas Iceberg, Gai Mattiolo e Mariella Burani [...] A abertura do mercado para a importação e o boom das grifes de luxo [...] fez renascer o conceito de loja multimarca, abandonado nos últimos anos em benefício das lojas de marca, principalmente nas grandes capitais. Na sequência, a jornalista ilustra a matéria com uma lista das lojas multimarcas então presentes na capital paulista, lideradas pela Daslu. 59 PACCE, L. “Paris e Milão desembarcam em São Paulo” In: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 22/12/98. ͷ Assim, a partir de meados dos anos 1990, o consumo de luxo no Brasil começou a crescer. Os brasileiros de maior poder econômico, fossem eles de famílias de riqueza tradicional ou de fortunas recentes, não precisavam mais ir às compras em viagens para o exterior. E, aos poucos, graças ao parcelamento de compras (seguindo o exemplo das lojas mais populares, esse também passou a ser disponibilizado na maioria das lojas luxuosas), as camadas mais altas da classe média começaram a ter acesso às marcas desejadas. [...] a imprensa mostrava-se atenta a um aspecto importante da febre do luxo nos anos 90: a presença maciça de consumidores de classe média alta entre a clientela das grifes. Aquele estouro de vendas não refletia só a demanda reprimida das camadas mais altas, como também a criação de novos desejos de consumo entre os setores mais afluentes da classe média do Brasil. A abertura da economia e a internacionalização do país contribuíram para sofisticar o consumidor brasileiro. ( D’ANGELO, 2006, p. 82). De lá para cá, o mercado do luxo brasileiro vem se constituindo como um setor econômico forte. Em agosto de 2010, uma matéria da Folha de S.Paulo anunciava: “Mercado de luxo espera crescer o triplo do PIB.” 60 Fonte recente a respeito do mercado de luxo nacional, o relatório da pesquisa Panorama do Luxo de 2010 destaca o papel importante do Brasil para as grifes estrangeiras: O Brasil tornou-se prioridade da análise para investimentos das principais marcas e operações de Luxo mundiais. Não necessariamente para investimentos imediatos, mas definitivamente o mercado brasileiro, a médio e longo prazo, se torna fundamental para o desenvolvimento destas operações. Assim, será constante e crescente este interesse, levando à chegada de marcas de diversas atividades no país, influenciando a alteração do hábito de consumo do brasileiro e elevando o seu padrão de expectativas. O mesmo relatório ainda aponta a área de serviços como o principal foco de desenvolvimento do setor; hotelaria, restaurantes, spas e resorts deverão multiplicar-se. Igualmente, veem-se oportunidades de crescimento, principalmente em Brasília, mas também em Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Belo Horizonte e Ribeirão Preto. Já a cidade de São Paulo definitivamente assume a posição de “capital do Luxo da América Latina”. É mais especificamente na zona sudoeste da cidade que o comércio de luxo vem se desenvolvendo. Desde 2005, ano em que a Daslu mudou-se do discreto conjunto de casas que ocupava na Vila Nova Conceição para um palacete de semblante neoclássico na margem do rio Pinheiros, a região Marginal Pinheiros-Berrini tem atraído cada vez mais 60 ROLLI, C.: “Mercado de luxo espera crescer o triplo do PIB”. In: Folha de S.Paulo; 01/08/2010. ͷͺ empreendimentos do setor. Uma matéria da Folha de S.Paulo de novembro de 200961 fez o levantamento dos centros de compra da região: De um lado, a Daslu. Do outro, o Shopping JK, que ainda está em construção. Pertinho dali, o Iguatemi. E na outra margem do rio Pinheiros, o novato Cidade Jardim. Conhecida na última década por abrigar algumas das mais sofisticadas casas noturnas de São Paulo, a Vila Olímpia ganha hoje mais um shopping, que leva o nome do bairro. A região ainda ganhou o apelido de “boca do luxo” por reunir algumas das mais famosas grifes internacionais. Num raio de 7 km da marginal Pinheiros, percorridos em menos de 10 minutos de carro, a cidade tem agora 11 shoppings. Para entendermos melhor essa reconfiguração da região sudoeste da cidade em um novo polo de consumo de luxo, exploraremos no capítulo III os fatores principais que desencadearam o deslocamento das áreas historicamente consideradas como centros da cidade de São Paulo. 61 GALVÃO; V.Q. “‘Boca do luxo’, Vila Olímpia terá mais um shopping”. In: Folha de S.Paulo, 25/11/2009. ͷͻ Capítulo III - O Shopping Cidade Jardim: produto da nova centralidade em São Paulo La ville est un lieu de sédimentation, voire de fossilisation des inégalités, qui inscrit dans sa structure et ses paysages le produit des rapports sociaux auxquels ele sert de cadre et de miroir. Le pouvoir des classes dominantes est donc aussi un pouvoir sur l’espace. Pinçon, M; Pinçon-Charlot, M. Les Ghettos du Gotha: comment la bourgeoisie défend ses espaces, p. 37. O Shopping Cidade Jardim se localiza no número 12.000 da avenida Magalhães de Castro, uma das avenidas que formam a Marginal Pinheiros, nome dado à via que margeia o rio do mesmo nome, na cidade de São Paulo. A Marginal Pinheiros é um dos principais eixos da região sudoeste da cidade. Esta região vem caracterizando-se desde meados dos anos 198062 como o novo polo comercial e empresarial de São Paulo, tornando-se o novo “centro” da cidade. Para entendermos como se constitui esse novo polo 63 , faremos, nesse capítulo, uma breve reconstituição do processo histórico dos deslocamentos de centralidade ocorridos na cidade de São Paulo, servindo de contexto para o entendimento da localização estratégica do Shopping Cidade Jardim nessa área. 62 Em 1987, Seabra escreve: “Na marginal do Pinheiros começa a esboçar-se uma área de escritórios entre a ponte da Rebouças, na Avenida Euzébio Mattoso, e a Ponte da Cidade Jardim. Contam-se, ainda, os grandes investimentos da SANBRA, na construção do Centro Empresarial, próximo à ponte da Avenida João Dias e os investimentos da empresa imobiliária Bratke-Collet S/C Ltda, entre o canal do Pinheiros e a avenida Luiz Carlos Berrine, nas proximidades da ponte do Morumbi.” (1987, p. 11). 63 Essa ultima mudança está claramente ligada ao crescimento do setor de serviços, ligado ao processo de globalização. Sabemos da relevância, para a sociologia urbana, do debate que visa entender se São Paulo pode ser ou não uma cidade global; no entanto, não cabe nesse estudo discutir essa questão. Para fins que interessam a este estudo, assinalamos que concordamos com Wanderley (2009) quando sugere nomear São Paulo “grande metrópole, por seu alcance geográfico e ponto de referência regional para diversas cidades vizinhas, bem como para a área metropolitana. Como megametrópole [e] como cidade global periférica ou cidade global emergente, ou cidade potencialmente global, porque determinados componentes indicados por Castells e Sassen estão presentes em São Paulo, porém eles comparecem numa situação subordinada e assimétrica, quer como potencialidades em certos aspectos (expansão do terciário, bancos internacionais, comércio mundial, etc.), mas que não podem ser equiparados aos existentes nas cidades de New York, Londres e Tókio [...]”. Ͳ 3.1 Mudanças de centralidade em São Paulo Autores que lidam com a questão urbana (Frúgoli Jr., 2006; Rivière D’Arc, 2006; Rolnik, 1999; Villaça, 2004), consideram que houve dois principais deslocamentos de centros na cidade de São Paulo, sempre em direção para o sudoeste. 3.1.1 Do “centro histórico” para o “centro Paulista”. A cidade de São Paulo, em seus três primeiros séculos de existência, limitava-se à colina histórica, espaço hoje conhecido como centro histórico. Segundo Ab’Saber 64 , foi a partir do fim do século XIX que a cidade começou a crescer, devido à expansão do núcleo original para outras colinas, por meio do loteamento de chácaras e sítios e do desenvolvimento de meios de transporte, como trem e bonde. Dessa maneira, o que por 300 anos fora a cidade mesma, depois passou a ser o seu centro. Segundo Frúgoli Jr., esse centro, no início do século XX, – que englobava espaços como Praça da Sé, Pátio do Colégio, Largo de São Francisco, praça João Mendes, largo da Memória, Largo de São Bento, Ruas XV de Novembro, Direita, Florêncio de Abreu e São Bento, ou seja, toda a área desenvolvida em torno do “Triângulo Histórico” [...] constituía então “local de consumo, comércio e negócio das elites embora apresentando traços de certa ocupação popular. Próximos ao Centro, na direção oeste, desenvolviam-se os primeiros bairros da aristocracia rural, como Campos Elísios, Vila Buarque e Higienópolis. (2006, p. 49). Foi nessa época, no começo do século passado, que o centro sofreu as primeiras intervenções no intuito de facilitar a circulação; marcos foram ligados, praças foram criadas, reformadas, alargadas, ajardinadas e arborizadas (Frúgoli Jr., 2006; Rolnik, 2003). Nos anos a seguir, intervenções continuaram a ser feitas no intuito de “obter um descongestionamento do centro da cidade, sem descaracterizar seu patrimônio histórico [e] assegurar o desenvolvimento da cidade em condições normais e racionais [...]” (Haskel e Gama apud Frúgoli Jr., 2006, p. 52). O centro foi, dessa maneira, constituindo-se como uma área de grande importância na cidade, tanto no âmbito da circulação de veículos e de pessoas quanto no nível cultural e 64 AB’SABER, A. O “sítio embrionário de São Paulo.” In: MALTA CAMPOS ET AL. (Org.) São Paulo, metrópole em trânsito, percursos urbanos e culturais. São Paulo: Editora Senac, 2004. ͳ intelectual, o que se acentuou a partir dos anos 50. Era palco de manifestações culturais e artísticas, graças a lugares como o teatro municipal, a Faculdade de Direito e diversas instituições culturais que por lá se instalaram, e também de compras para a elite (Mappin Store); no entanto, passou a receber cada vez mais membros das classes populares. Com essa “ocupação”, escritórios e bancos começaram a ser deslocalizados para um novo centro: a avenida Paulista. Assim, foi a partir do fim dos anos 60 que São Paulo deixou de ter um único centro (dividido entre o “centro tradicional” e o “centro novo”) e passou a existir o “centro Paulista”. Frúgoli Jr. explica que cada um desses centros corresponde a uma fase da industrialização; sendo o centro tradicional ligado à primeira fase da industrialização (1910-1940), o novo à da Segunda Guerra Mundial, enquanto o centro nascido em torno da avenida Paulista seria decorrente do chamado “milagre brasileiro” (2006, p. 58). Feldman (2004) situa os primórdios da policentralidade 65 de São Paulo já nos anos 1950, quando ocorre a estruturação de diversos subcentros em diferentes bairros (Pinheiros, Lapa, Santo Amaro, Brás) e o primeiro movimento das elites – e consequentemente das atividades financeiras da cidade – já em direção à região sudoeste. Nessa mesma década, quando estavam em plena exuberância a Cinelândia, os restaurantes, os hotéis, e o comércio instalado no Centro Novo, quando a mudança da sede do governo para Campos Elíseos atraía para suas proximidades outras repartições públicas, o comércio de luxo começa a se deslocar do centro Novo em direção à região da Paulista e Jardins. Com essa transferência para outro setor da cidade – o sudoeste –, onde se instalam seus bairros exclusivos, as elites dão um passo decisivo em seu progressivo abandono do centro tradicional de São Paulo, que se inicia no final do século XIX. (Feldman, 2004, p. 124). Para Souza, “[...] a dinâmica da produção do espaço na avenida Paulista (construção/destruição) está diretamente ligada à própria história do desenvolvimento do capitalismo no Brasil” (SOUZA, 1986, p. 137). A partir de 1959, a Paulista passa a ser ocupada por edifícios com fins comerciais. Três anos antes, o Conjunto Nacional, prédio de uso misto, havia sido inaugurado, sendo não 65 A “policentralidade” de Feldman refere-se a uma cidade com diversos centros. Frúgoli Jr. e Fix também vão nesse sentido. Para essa última, “a ‘nova cidade’ pode ser entendida como um momento da expansão do setor sudoeste, que não cancela os anteriores, embora corresponda a uma perda relativa de dinamismo de seus polos mais antigos. Isso porque, apesar do « rompimento » da elite com o Centro, ainda se mantêm ali uma série de características que fizeram da região o principal polo de dinamismo do mercado imobiliário e da actividade econômica num determinado momento. E a avenida Paulista, com localização privilegiada no setor sudoeste, continua concentrando escritórios e atividades financeiras, ladeada por bairros residenciais de alto padrão”. (2007, p. 128). ʹ somente precursor dos shopping centers no país, dez anos antes do Shopping Iguatemi, mas também do modelo residencial-comercial adotado pelo Shopping Cidade Jardim quarenta anos depois. Assim, conforme relata Frúgoli Jr., Tudo até aqui reforça a ideia de que, se a Paulista já detinha um forte prestigio e valor imobiliário, articula-se a isso sua força como polo de concentração do setor terciário, com destaque para o capital financeiro, além de um considerável poder econômico, pela presença também das federações patronais [...] Com isso, ao menos até o início dos anos 80, haveria uma espécie de continuidade histórica de seu prestigio [...] (2006, p. 133). No entanto, no decorrer dos anos 1990, a avenida Paulista, que tinha sido eleita “símbolo da cidade” em 1991, sendo palco regular de manifestações e comemorações, começou a ser alvo de críticas. Falta de segurança e de limpeza estavam entre as principais reclamações, junto com o incômodo provocado pela presença dos camelôs, pela realização de manifestações e pelo seu trânsito difícil. Algumas empresas começaram a sair da avenida em direção às avenidas Faria Lima, Berrini e Marginal Pinheiros (Frúgoli Jr., 2006). 3.1.2 Do “centro Paulista” para o “centro Berrini” e as margens do rio Pinheiros Para Villaça (2004) e Rolnik (2003), o primeiro protagonista dessas mudanças de centralidade foi o automóvel, que, no decorrer das décadas, foi se tornando onipresente entre as classes altas da capital, relegando o transporte público somente aos mais pobres. Era o início de grandes congestionamentos: A minoria econômica e politicamente poderosa da sociedade paulistana reagiu [ao aumento do automóvel] de duas maneiras (dando prosseguimento a um processo iniciado havia décadas), ambas visando otimizar seus tempos de deslocamento físico na cidade: em primeiro lugar, pressionando o poder público no sentido de aprimorar o sistema viário na região de seu interesse (o quadrante sudoeste) pela abertura de novas avenidas, elevados, viadutos e vias expressas. (2004, pp. 149-150). Assim, são abertas, entre os anos 1960 e 1970, diversas vias “perimetrais”, como a avenida Paulista alargada, a Brasil, completada pela Henrique Schaumann, a Faria Lima, a Luís Carlos Berrini e a Marginal do rio Pinheiros, todas na região sudoeste da cidade: ͵ Mesmo no presente, nenhuma outra região da cidade tem um sistema viário principal tão desenvolvido, com tal abundância de perimetrais [...] O sistema viário rico em perimetrais é uma das mais eloquentes manifestações de como o poder público privilegia o quadrante sudoeste. As perimetrais são de especial interesse para o setor imobiliário, que muito se empenha na sua abertura. Rapidamente elas se transformam nas ruas nobres mais nobres da cidade, ao contrario das radiais [...] Exemplos clássicos disso – além da própria avenida Paulista – são as avenidas Faria Lima, a Luís Carlos Berrini e a marginal do rio Pinheiros. Toda avenida altamente valorizada é perimetral, mas é digna de nota uma exceção a essa regra: a rua Augusta foi talvez a única radial que não levava à periferia pobre, e por isso recebeu o comércio de luxo até a década de 1970. (VILLAÇA, 2004, p. 150). Sobre a outra maneira empregada pelas elites da cidade para combater os congestionamentos criados pelo aumento de carros na cidade, Villaça explica que elas foram transferindo cada vez mais suas moradias, empregos, serviços e comércios para o quadrante sudoeste: Nota-se que essa segunda maneira não significa que aquela classe tenha passado a trabalhar mais perto de casa, seja (em números absolutos) em termos de tempo, seja de distância. Certamente isso não ocorreu. Significa apenas que, como a cidade crescia e a burguesia e a alta classe média (como todos) eram forçadas a morar cada vez mais longe, elas reduziam relativamente (embora não eliminassem) o ônus de seus deslocamentos para o trabalho, para a escola dos filhos, para seus profissionais liberais, serviços, lazer, etc. trazendo-os para mais próximo de suas residências [...] Dois notáveis – pelo seu pioneirismo – empreendimentos, emblemáticos desse processo, foram o Shopping Center Iguatemi (de meados dos anos 1960) e o Centro Empresarial, cujo primeiro bloco data dos anos 1970 e localizava-se incrivelmente longe, mas antecipava o crescimento da “cidade das elites” em sua direção. (2004, pp. 150-151, grifos do original) Para Pintaudi, também a generalização do uso do automóvel é em parte responsável por mudanças tanto na localização dos centros de consumo como nos próprios hábitos de consumo das famílias: Ͷ A produção da indústria automobilística, que se implantou no Brasil a partir da década de 50, visava, fundamentalmente, ao abastecimento do mercado interno. Isto não só provocou um sensível aumento do número de famílias com veículos, que, então, deixavam de ser artigo de luxo e de uso restrito, como também ampliou o número de seus usuários entre os membros de uma mesma família. Assim, entre os estratos de rendimentos médios, a presença do segundo veículo tornou-se um fato comum, a partir de meados da década de 60 (por ocasião do “milagre econômico”, quando os estratos de rendimentos médios foram chamados a consumir). Quem vai fazer uso do segundo veículo da família é a mulher, que é quem organiza o cotidiano da unidade familiar, e que, como o automóvel, tem a chance de ampliar territorialmente o raio de alcance dos membros da família. Não é sem razão que a partir dos anos 60, os supermercados se expandem espacialmente, por exemplo, na Grande São Paulo. Por outro lado, as mulheres passaram a integrar o mercado de trabalho numa maior proporção, o que implicou mudanças nos hábitos de consumo [...] O espaço urbano passa, então, a ser concebido de acordo com as pressões do automóvel, certamente um dos principais responsáveis pela redefinição dos locais de compra. (PINTAUDI, 1992). É nesse contexto que o “centro Berrini” e as margens do rio Pinheiros começam a se desenvolver. 3.2 A Marginal Pinheiros Junto com as avenidas Faria Lima e Luís Carlos Berrini, a avenida Marginal Pinheiros é o símbolo de “uma nova cidade” ; “uma frente de expansão de uma região da cidade que historicamente concentra a maior parte dos investimentos públicos e privados” (FIX, 2007, p. 129). Assim, a avenida Faria Lima (em seu prolongamento) e a Jornalista Roberto Marinho (até 2003 conhecida como Águas Espraiadas), via expressa que corta a Luís Carlos Berrini, são frutos da parcerias do Estado com a iniciativa privada ocorridas nos anos 1990, com a expulsão de milhares de moradores, das quais o Estado assume o papel de “promotor” ou “regulador” (Fix, 2007) A Marginal Pinheiros nasceu de “estratégias de valorização articuladas no interior de um monopólio, constituído sob a proteção do instituto jurídico da concessão e sob a égide de um grande trust do século XIX, o Grupo Light.” Ao contrário do que ocorreu nas margens do rio Tietê, na região do rio Pinheiros não haveria lugar “para uma ocupação de caráter eminentemente industrial. As estratégias de valorização das terras em direção ao Pinheiros, ao ͷ tempo que se realizava a drenagem das várzeas [...] tornaram-nas muito caras para que nelas se generalizassem usos industriais” (SEABRA, 1987, p. 6). Desta maneira, o Grupo Light foi o responsável, nos anos 1920 e 1930, pela retificação do rio Pinheiros e pela inversão do seu curso, através de expropriações. Implantou a Usina Elevatória de Traição, responsável por elevar o nível do rio no trecho em que desaguavam três córregos: Cordeiro, Água Espraiada e Traição. Em consequência disso, foi construído um dreno nas margens do qual foram abertas as pistas de uma avenida que, posteriormente, viraria a Luís Carlos Berrini. Nos anos 1960, as terras nas margens do rio Pinheiros foram outra vez desapropriadas, dessa vez pela própria Light. Assim iniciou-se a construção da Marginal Pinheiros, marcada desde seus primórdios por interesses privados (Fix, 2007; Seabra, 1987). Para Rolnik, O novo polo empresarial, constituído pela região da avenida Luís Carlos Berrini e da marginal Pinheiros, nada mais é do que uma extensão sul do velho vetor sudoeste. Pode-se afirmar, generalizando, que do Centro Histórico à região da Paulista e dali para a Faria Lima-Berrini, trata-se de uma história de perda progressiva de qualidade urbanística. Dos jardins e boulevards de Bouvard, ou calçadas de 15 metros e mistura de usos da Paulista, aos 90 centímetros de calçada e monofuncionalidade da Berrini, ganharam o automóvel e a primazia do privado, perderam o pedestre e a dimensão pública do espaço urbano. (2003, p. 65, grifos nossos). A região começou a crescer a partir do fim dos anos 1970, com a inauguração do Centro Empresarial São Paulo (Villaça, 2004; Fix, 2007) e a construção dos edifícios de escritório da Bratke Collet, na avenida Luiz Carlos Berrini, com arquitetura que se convencionou chamar de pós-moderna: O lançamento de cinquenta novos prédios, com características inovadoras em relação àqueles do Centro e da avenida Paulista, impulsionou o desenvolvimento de um novo polo empresarial [...] Entre os fatores que o levaram a investir na região, o arquiteto Carlos Bratke aponta a facilidade de acesso, a possibilidade de acesso por conta do zoneamento, a ausência de instalações industriais e os baixos preços dos terrenos na época (1974), avaliados em 100 dólares o metro quadrado. (FIX, 2007, p. 15). Se de início o que importava “era fazer a região acontecer”, conforme depoimento de Bratke, aos poucos as exigências para as grandes empresas se instalarem na região aumentaram e os edifícios foram se tornando cada vez mais complexos e elaborados. Fix cita o exemplo do World Trade Center (WTC), que, em um mesmo espaço, concentraria escritórios, shopping, hotel, restaurantes, etc. (Hoje, o Parque Cidade Jardim “supera” o conceito de empreendimento, já que possui torres de moradia, como veremos no capítulo IV). O WTC pertence à WTC Association, cujo objetivo é “fomentar a internacionalização dos negócios das pequenas e médias empresas, fornecendo infraestruturas de informação e telecomunicação avançada, capaz de torná-las mais ‘competitivas’” (FIX, 2007, p. 16). FIGURA 1 - Vista da Marginal Pinheiros a partir do Shopping Cidade Jardim. Fonte: foto da autora Ao mesmo tempo, na margem oposta do rio, desenvolvia-se a região do Morumbi, com numerosos condomínios de casas e prédios, muitos deles financiados por fundos de pensão (FIX, 2007). A respeito desta “nova cidade” que vem se desenhando no vetor sudoeste, Véras escreve: [...] submetidos ao marketing imobiliário, projetos de “renovação” privilegiam os setores ligados ao capital financeiro ou ao mundo dos negócios, investindo em edifícios de escritórios, sedes de multinacionais e bancos, em detrimento de produção habitacional para baixas e médias rendas. Como outrora aconteceu com o Centro Histórico, a Avenida Paulista, símbolo da cidade até os anos 80, começa a perder prestígio para outras áreas. Investimentos na direção sudoeste da cidade – avenidas Faria Lima e Luiz Carlos Berrini – são emblemáticos, como sede das empresas multinacionais e arquitetura pós-moderna. Outrora a cidade grande se afirmava pelas grandes avenidas, pelas radiais, pelos elevados e viadutos e via na velocidade do automóvel seu mais forte motivo; seus símbolos eram a avenida São João, a Radial Leste. Hoje são novos viadutos, novos pontos, novas avenidas em regiões das mais ricas da cidade, agora mais “enobrecidas” ainda, em contraste com imensas áreas ocupadas pela pobreza. (VÉRAS, 1997, p. 140). Grifamos no texto acima as palavras “projetos de renovação”, pois Harvey (2010), ao observar que “é impossível comandar a metrópole exceto aos pedaços”, ressalta o fato de os pós-modernistas projetarem em vez de planejarem. No mesmo sentido, ainda escreve que: Enquanto os modernistas veem o espaço como algo a ser moldado para propósitos sociais e, portanto, sempre subserviente à construção de um projeto social, os pós-modernos o veem como uma coisa independente e autônoma a ser moldada segundo objetivos e princípios estéticos que não têm necessariamente nenhuma relação com algum objetivo social abrangente, salvo, talvez, a consecução da intemporalidade e da beleza “desinteressada” como fins em si mesmas. (2010, p. 69). É dessa maneira, governada por interesses privados, que, conforme escreve Fix, “a Marginal do rio Pinheiros está se transformando num grande eixo de negócios e consumo, cercado nos dois lados por bairros residenciais de alto padrão” (2007, p. 15). De fato, se a concentração de escritórios ao longo dos eixos Marginal, Berrini e Faria Lima é grande, a de centros de consumo e shopping centers também impressiona. Já em 1992, Pintaudi destacava “a estratégia de localização do conjunto dos SC do Munícipio de São Paulo, orientada para as marginais dos rios Tietê e Pinheiros [...], vias expressas de circulação que “aproximaram” setores da cidade até então distantes [...]” Segundo a autora, [...] a disposição da grande maioria [de shopping centers] no espaço da cidade acompanha a linha das marginais. Isso significa dizer que há grande facilidade de acesso aos SC, a partir de diferentes pontos da cidade [e o que] lhes dá um caráter de centros de aglutinação regionais. (PINTAUDI, 1992, pp. 36-37). Com efeito, quem andar de carro na Marginal Pinheiros no sentido Interlagos passará, ao seu lado esquerdo, pelos shoppings Villa Lobos, Eldorado, o futuro JK Iguatemi, a Villa Daslu, o D&D, os shoppings Market Place e Morumbi (este, visível desde a Marginal, fica na esquina da Chucri Zaidan – continuação da Berrini – e da Roque Petroni Jr.) e, enfim, o SP Market. Na avenida Faria Lima, paralela à Marginal Pinheiros, entre os shoppings Eldorado e JK, fica o Shopping Iguatemi; alguns quilômetros à frente, perto da Daslu, está o Shopping Villa Olímpia. Já no lado direito, fica o Parque Cidade Jardim com o shopping do mesmo nome. Ele é o único shopping realmente instalado na beira da avenida, neste lado; um pouco mais em direção ao sul, a quase dois quilômetros da margem do rio, fica o Shopping Jardim Sul. ͺ Assim, a Marginal Pinheiros e seus arredores concentram um total de 12 shoppings numa distância de aproximadamente vinte quilômetros.66 Esse número impressiona quando comparado ao total dos shoppings na cidade de São Paulo em setembro de 2011: 52. Ou seja: quase 25% dos shoppings da cidade são localizados nesta área. FIGURA 2 – Mapa dos shoppings da Marginal Pinheiros. Fonte: da autora. 66 Vide mapa da Figura 2. ͻ Se outros shoppings da capital fazem parte de empreendimentos mistos, o Shopping Cidade Jardim é o único (fora o Conjunto Nacional, que não consta do site da ABRASCE) que reúne escritórios comerciais, apartamentos e lojas em um espaço só. Um espaço de muito luxo, e que vem sendo anunciado como tal desde antes da sua inauguração. De fato, inaugurado em 31 de maio de 2008, o Shopping Cidade Jardim já vinha sendo noticiado pela grande imprensa desde 2005, em geral em pequenas notas a respeito da sua construção. A primeira notícia detalhada que levantamos na imprensa data de 5 de maio de 2006. Com o título “É luxo só” a matéria da Folha de S.Paulo chamava o empreendimento de “novo templo do luxo em São Paulo”, explicando que o projeto da incorporadora JHSF pretende revolucionar o conceito de shopping center no Brasil. Além de estar tentando reunir as principais grifes do mundo e do país, quer dispor as suas 180 lojas num outro tipo de espaço, mais aberto, ligado à natureza e sem os corredores complicados dos velhos shoppings. (LEITE NETO, A.; WHITEMAN, V., 2006). Portanto, desde antes da sua inauguração, o Shopping Cidade Jardim vem sendo apresentado como um espaço diferente e diferenciado, não só pelo tipo de público que deseja atrair e pelas lojas que possui, mas por suas características espaciais e arquitetônicas. Neste sentido, a mesma matéria ainda reforça: Pesquisas encomendadas pelo grupo JHSF indicaram à empresa que os shopping centers tradicionais já não satisfazem as demandas dos novos consumidores [...] [A diretora de mix de lojas da JHSF] conta que antes, se acreditava que os shoppings tinham que ser fechados para que as pessoas perdessem a noção do dia e ficassem mais tempo lá. “É uma cultura antiga, que ninguém mais segue no mundo. Hoje, as pessoas querem algo mais ligado à natureza e ao conforto [...] O formato tradicional de shopping envelheceu. (idem). Em matéria da Veja São Paulo67 de 2007, buscava-se apresentar a localização do Parque Cidade Jardim como quase casual: 67 Disponível em : <http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2023/jose-auriemo-neto-presidente-da-jhsf-novorei-do-luxo-paulistano>. Ͳ Há cinco anos, José Auriemo Neto entrou na sala de seu pai, Fábio Auriemo, então presidente da incorporadora JHSF, com uma novidade. Tinha visto um terreno de 80.000 metros quadrados à beira da Marginal Pinheiros que, em sua opinião, seria excelente para a construção de um complexo de alto luxo. "Disse a ele para esquecer o assunto, que a Marginal Pinheiros não servia para um empreendimento desses", lembra Fábio. No entanto, a localização do empreendimento no endereço 12.000 da avenida Magalhães de Castro, no quadrante sudoeste da cidade, não parece nada casual. Esta região, que, como vimos, se desenvolveu em grande parte graças ao setor privado, concentra, desde seus primórdios, empresas internacionais em edifícios elaborados e condomínios de moradia luxuosos. Se alguns shoppings já estavam instalados no entorno há alguma décadas, houve uma recrudescência desses empreendimentos nos últimos anos. E mais: todos os novos empreendimentos dirigem-se ao público de alto padrão. O movimento iniciou-se com a mudança da Daslu da Vila Nova Conceição para a Marginal Pinheiros em 2005, seguiu com a inauguração do próprio Shopping Cidade Jardim em 2008 e do Shopping Vila Olímpia em 2009, e a construção do JK Iguatemi, enquanto outros shoppings passavam por reformas a fim de conquistar os mesmos clientes (Market Place, Morumbi). O Shopping Cidade Jardim, portanto, desenha-se como um produto emblemático da nova centralidade, ou, citando Mariana Fix, da “nova cidade”; cidade de moradia, trabalho e consumo das elites. Três aspectos, aliás, que o empreendimento consegue concentrar em seu seio, como se ele fosse uma reprodução em miniatura desta região. ͳ Capítulo IV - Conhecendo o Shopping Cidade Jardim: a etnografia como experiência “Creio que a melhor explicação do Centro ainda seria considerá-lo como uma cidade dentro de outra cidade [...] O que há é o mesmo que se encontra numa cidade qualquer, lojas, pessoas que passam, que compram, que conversam, que comem, que se distraem, que trabalham, Queres tu dizer, exactamente como na aldeola atrasada em que vivemos, Mais ou menos, no fundo trata-se de uma questão de tamanho, A verdade não pode ser tão simples, Suponho que há algumas verdades simples, É possível, mas não acredito que as possamos reconhecer dentro do Centro. Houve uma pausa, depois Cipriano Algor disse, E já que estamos a falar de tamanhos, é curioso que de cada vez que olho cá de fora para o Centro tenho a impressão de que ele é maior do que a própria cidade, isto é, o Centro está dentro da cidade mas é maior do que a cidade, sendo uma parte é maior que o todo, provavelmente será porque é mais alto que os prédios que o cercam, mais alto que qualquer prédio da cidade, provavelmente porque desde o princípio tem estado a engolir ruas, praças, quarteirões inteiros.” José Saramago, A Caverna. pp. 258-259 4.1 O entorno do shopping: o Parque Cidade Jardim, um condomínio para poucos O Shopping Cidade Jardim faz parte do empreendimento Parque Cidade Jardim da incorporadora JHSF. Foi construído em um terreno de quase 80 mil metros quadrados na Marginal Pinheiros. Esse terreno foi comprado da Eletropaulo, em 2002, em um local então situado entre a ponte Ari Torres e a ponte do Morumbi.68 Hoje, a ponte mais próxima ao empreendimento é a ponte estaiada.69 O Parque Cidade Jardim conta com três torres comerciais, nove prédios residenciais e o shopping, em um terreno de 72 mil metros quadrados.70 As torres comerciais, com nomes que remetem a um imaginário globalizado (Capital Building; Park Tower e Continental Tower), possuem escritórios com superfície entre 92 e 1824 metros quadrados. 71 Os prédios 68 Vide mapa da Figura 2. Segundo matéria da Veja São Paulo publicada pouco menos de um ano antes da inauguração do shopping e das primeira torres, a construção do shopping e da ponte estão diretamente ligadas: “um lançamento do porte do Parque Cidade Jardim envolve cifras astronômicas em cada detalhe de sua construção. Só para retirar setenta famílias de uma favela próxima, a JHSF gastou 2,8 milhões de reais. Cada barraco saiu por 40.000 reais. Para construir acima do limite permitido para a região, a empresa comprou 50 milhões de reais em certificados de potencial adicional de construção (Cepacs), que estão sendo usados nas obras de uma ponte estaiada sobre o Rio Pinheiros.” (DUARTE, 2007). 70 Fonte: site do empreendimento <www.parquecidadejardim.com.br>. Consultado em: 25/09/2011. 71 Segundo matéria da revista Veja de 13/09/2011, as torres serão inauguradas entre o fim de 2011 e o início de 2012, comportando um total de 10 mil funcionários. 69 ʹ residenciais, batizados com nomes de flores ou plantas tropicais (jabuticabeiras, ipês, magnólias, etc.), têm apartamentos com tamanho compreendido entre 235 metros quadrados (apartamentos do edifício Begônias e Ipês) e 2.036 metros quadrados para a cobertura do edifício Tuias.72 FIGURA 3- O condomínio Parque Cidade Jardim visto da Marginal Pinheiros Fonte: foto da autora Em fevereiro de 2011, um supervisor comercial do stand de vendas da Coelho da Fonseca instalado no próprio shopping garantiu-me que todas as unidades habitacionais tinham sido vendidas.73 Explicou que as unidades “pequenas” (as de 235 metros quadrados) eram compradas como investimento, enquanto quem adquiria as “grandes” o fazia no intuito de morar. Os moradores, segundo ele, “são casais recém-casados ou aqueles de quem as casas ficaram vazias porque os filhos já saíram74”, explicou. Uma matéria da revista Época Negócios75 publicada em meados de 2008, na época da inauguração do shopping, exalta as vantagens desse modelo de empreendimento, chamado por vezes de “3 em 1”, por reunir moradia, trabalho, lazer; e outras vezes de “4 em 1”, sendo 72 Para uma descrição completa dos prédios, vide Anexo A- O Parque Cidade Jardim : descrição. Matéria da Veja de 13/09/2011 afirma que, em setembro de 2011, todos os apartamentos tinham sido vendidos, mas somente metade estava ocupada. COSTA, A.C. “Shopping Cidade Jardim reforça o luxo para ganhar clientes.” Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/economia/shopping-cidade-jardim-reforca-oluxo-para-ganhar-mais-clientes>. Consultado em: 30/09/2011. 74 Entrevista realizada em 05/02/2011. 75 TEIXEIRA, A.; POLONI, G. “Os inovadores do boom imobiliário” In: Época Negócios, junho de 2008. 73 ͵ o quarto elemento o consumo: “Vai permitir morar, trabalhar, fazer compras, cursos e se divertir sem precisar usar o carro, modelo que cai como uma luva em metrópoles onde o trânsito é caótico e falta segurança, como São Paulo.” (Teixeira, A.; Poloni, G., 2008) É o que anunciava também uma matéria da Folha de S.Paulo76 datada da mesma época: Uma minicidade está nascendo dentro de São Paulo. É um pequeno universo de sonhos, com promessa de segurança, espaços arborizados, sem engarrafamento e com todos os serviços à mão [...] O executivo Marcos Quintella, 37, que hoje mora no Morumbi, vai se mudar para um apartamento de 600 m² no edifício Jabuticabeiras [...] Marcos justifica a troca em busca de maior qualidade de vida. “Quero deixar de gastar tempo no trânsito para ficar mais com meus filhos”, afirma, fazendo coro com a mulher. “O que pegou foi poder frequentar a academia e levar as crianças à natação e ao balé sem precisar pegar o carro”, emenda Débora. (BALSEMÃO, R.; NOMURA, L., 2008). Em outra matéria do mesmo jornal77, uma moradora afirmava querer “circunscrever sua vida cada vez mais ao complexo”: “Só vejo vantagem em viver aqui. A bateria do meu carro chegou a descarregar. Faço tudo a pé [...] Vou ao shopping 3 vezes por dia. Faço cabelo, passo no sapateiro e na lavanderia e compro presente de última hora.” A médio prazo, ela quer ter um escritório em uma das torres comerciais que começam a ser entregues em 2011. Seu endocrinologista inaugura em breve uma clínica no spa do Cidade Jardim. (TRINDADE, E., 2010). Assim, conveniência, qualidade de vida e segurança78 parecem ser os principais motivos alegados para justificar uma mudança para o Parque Cidade Jardim, sem esquecer obviamente a proximidade do consumo, praticado desde a adolescência: As colegas de escola de Juliana, 16, adoram visitar a casa da amiga, tendo como “quintal” corredores arborizados onde se perfilam vitrines de grifes como Hermès, Chanel, Louis Vuitton. Com sua bolsas Tod’s (R$ 3.800), Burberry (R$ 2.200) e Chanel (R$ 12 mil) em uma cadeira, as três fazem o lanche da tarde na Lanchonete da Cidade (R$ 118). (Idem). 76 BALSEMÃO, R.; NOMURA, L. “Moradia 4 em 1.” In: Folha de S.Paulo, Revista da Folha, 06/07/2008. TRINDADE, E. “Daqui, ninguém me tira.” In: Folha de S.Paulo, Cotidiano, 27/09/10. 78 O tema “segurança” foi levantado por diversos dos nossos entrevistados ao explicarem por que consomem no Shopping Cidade Jardim, como será visto no capítulo V. No entanto, em um intervalo de 25 dias, entre os dias 16 de maio e 8 de junho de 2010, duas joalherias do shopping foram assaltadas por grupos armados. 77 Ͷ Os inconvenientes de uma vida circunscrita a um perímetro tão reduzido não parecem assustar os moradores: A única preocupação é a superexposição dos filhos, Pietra, 8 meses, Caio, 2 anos, e Luca, 5, ao apelo irresistível das vitrines. “No começo, a ideia de morar tão próxima de um shopping me deixou assustada”, diz [Débora]. “Mas a questão do consumo na vida das crianças depende da educação que os pais dão.” (BALSEMÃO, R.; NOMURA, L., 2008). No entanto, Caldeira refere-se aos condomínios fechados, e também aos conjuntos de escritórios, shopping centers (bem como a escolas, hospitais, parques temáticos e escolas que seguem o mesmo modelo), como “enclaves fortificados” (Caldeira, 2003). Para a autora, esses tipos de espaços estão mudando consideravelmente a maneira como as pessoas das classes média e alta vivem, consomem, trabalham, e gastam seu tempo de lazer. Eles estão mudando o panorama da cidade, seu padrão de segregação espacial e o caráter do espaço público e das interações públicas entre as classes. (CALDEIRA, 2003; p. 258). A socióloga caracteriza esses ‘enclaves fortificados’ da seguinte maneira: São propriedade privada para o uso coletivo e enfatizam o valor do que é privado e restrito ao mesmo tempo que desvalorizam o que é público e aberto na cidade. São fisicamente demarcados e isolados por muros, grades, espaços vazios e detalhes arquitetônicos [...] São controlados por guardas armados e sistemas de segurança, que impõem as regras de inclusão e exclusão [...] Em contraste com formas anteriores de empreendimentos comerciais e residenciais, eles pertencem não aos seus arredores imediatos, mas a redes invisíveis (Cenzatti & Crawford. 1998) [...] Finalmente, os enclaves tendem a ser ambientes socialmente homogêneos. Aqueles que escolhem habitar esses espaços valorizam viver entre pessoas seletas (ou seja, do mesmo grupo social) e longe das interações indesejadas, movimento, heterogeneidade, perigo e imprevisibilidade das ruas. (Caldeira, 2003; pp. 258-259). Reconhecemos nas palavras de Caldeira diversas características do Parque Cidade Jardim, como o isolamento por muros, grades e espaços vazios, o controle por guardas armados e a homogeneidade garantida aos seus frequentadores devido ao alto custo dos apartamentos. 79 Ademais, o Parque Cidade Jardim reúne em um só lugar três tipos de ‘enclaves’ elencados pela autora: um condomínio fechado, um conjunto de escritórios e um shopping center. 79 A homogeneidade dos frequentadores do shopping será amplamente abordada no capítulo V. ͷ Se para Caldeira esses espaços criam um abismo no âmbito social porque “cultivam um relacionamento de negação e ruptura com o resto da cidade e com o que pode ser chamado de um estilo moderno de espaço público aberto à livre circulação” (2003, p. 259), a psicóloga Ana Bock80 vê neles um perigo para o desenvolvimento do indivíduo: Viver em um espaço restrito tem sido uma preocupação importante para a psicologia, pois estudos têm demonstrado que há um empobrecimento psicológico e social quando a vida toda cabe em um espaço delimitado. Seja ele um condomínio, um manicômio ou uma prisão. Parte-se da ideia de que o desenvolvimento psíquico se dá na vida cotidiana. [...] Quanto mais rico é todo esse processo, melhores são os resultados em termos de desenvolvimento pessoal e coletivo. A juventude é um momento rico, pois os sujeitos estão abertos ao novo, exatamente porque estão em busca da identidade adulta. Querem conhecer, experimentar, testar, vivenciar a busca da construção de seus gostos, preferências, hábitos. As metrópoles e seu cotidiano violento restringem o espaço da cidade, e os jovens têm sido as maiores vítimas desse processo. Sejam aqueles que ficam presos nos condomínios e shoppings "seguros"; sejam os que não podem ultrapassar as linhas de entrada destes lugares. Todos perdem. A restrição dos espaços pode ainda obrigar os jovens a uma mesma atividade, que se torna hábito e que repete uma mesmice empobrecida. Por exemplo, consumir artigos supérfluos e consumir sem parar, sem que a necessidade se veja em algum momento satisfeita. (Mercês Bahia Bock, 2010). Já para a moradora do empreendimento que entrevistamos, morar no Parque Cidade Jardim quase não apresenta desvantagens em relação aos benefícios: As principais desvantagens em morar no Parque Cidade Jardim são muitos moradores para pouca área de lazer e apenas uma entrada de veículos. (Entrevistada n° 14). A conveniência é o principal motivo apresentado pela escolha de morar no local: Principalmente o fato de morar em cima de um shopping, o que facilita muitas atividades do dia a dia, principalmente para minha avó que já tem idade. Outra coisa que ajudou foi a academia do spa e a vista que temos. (Entrevistada n° 14). Em relação às principais vantagens consideradas na mudança para o empreendimento: A facilidade de acesso ao shopping quando precisamos comprar algo de última hora, ou comprar um remédio, só precisamos pegar o elevador. (Entrevistada n° 14). 80 MERCÊS BAHIA BOCK, A. “Vida em único espaço atrapalha sociabilização das pessoas.” In: Folha de S.Paulo, Cotidiano, 27/09/2011. É interessante observar que, se aspectos como segurança, praticidade e a consequente qualidade de vida são sempre destacados pela imprensa ou moradores, um aspecto evidente deste tipo de moradia não parece estar em pauta. Este seria, retomando as palavras de Pinçon e Pinçon-Charlot (2007), o aspecto da “agregação dos semelhantes”: É notável que seja no grupo que menos tem restrições econômicas que se constata esta escolha manifesta de viver juntos. Se existe gueto, é de maneira voluntária e desejada [...] Os privilegiados buscam de maneira sistemática a companhia dos seus semelhantes. Agem de maneira a preservar o seu meio social [...]. (Pinçon; Pinçon-Charlot, 2007, pp. 25 e 28, tradução nossa). Assim, aquele que busca um apartamento no Parque Cidade Jardim busca, claramente, um tipo de moradia para poucos: os altíssimos preços praticados no empreendimento, devido à sua localização e ao tamanho dos apartamentos, são uma “garantia” de que ali haverá pessoas de condições financeiras semelhantes. Ainda para Pinçon e Pinçon-Charlot, “os bairros bons são o resultado desta busca frenética do entre-si” (2007, p. 26, tradução nossa). Essa busca de semelhantes será amplamente explorada em nosso quinto capítulo. 4.2 Um olhar “de perto e de dentro” do shopping O nosso intuito, ao realizar a etnografia do Shopping Cidade Jardim, foi, conforme escreve Magnani, “entrar em contato com o universo dos pesquisados e compartilhar seu horizonte” (2009, p. 135). Segundo o antropólogo, ao realizar uma etnografia, o que deseja o pesquisador não é permanecer lá ou mesmo atestar a lógica de sua visão de mundo, mas, seguindo [os pesquisados] até onde seja possível, numa verdadeira relação de troca, comparar suas próprias teorias com as deles e assim tentar sair com um modelo novo de entendimento, ou, ao menos, com uma pista nova, não prevista anteriormente. (2009, p. 135). Para conhecermos e entendermos os consumidores do Shopping Cidade Jardim, é imprescindível adentrarmos e explorarmos o seu universo. Ainda segundo Magnani, na etnografia, o que se propõe é um olhar de perto e de dentro [...] Esta estratégia supõe um investimento em ambos os polos da relação: de um lado, sobre os atores sociais, o grupo e a prática que estão sendo estudados e, de outro, a paisagem em que essa prática se desenvolve, entendida não como mero cenário, mas como parte constitutiva do recorte de análise. (Magnani, 2002, p. 17). É esse olhar “de perto e de dentro” que nos propomos a adotar. Chega-se ao Shopping Cidade Jardim pela pista local da Marginal Pinheiros, sentido Interlagos. Na altura da ponte Cidade Jardim, já é possível perceber a silhueta das nove torres residenciais do condomínio Parque Cidade Jardim. Para o visitante do shopping, a única entrada é pela Marginal Pinheiros. Uma parada de ônibus, logo antes da entrada do estacionamento, permite um tímido acesso a quem não vem de carro. A impressão que se tem é a de que não há qualquer desejo de se facilitar o acesso a quem não dispõe de um veículo próprio, ou estiver de táxi. No qype, (que se propõe a ser um site de “dicas e resenhas dos usuários sobre as melhores opções em São Paulo”), uma usuária escreveu: “[...] o acesso é extremamente limitado para quem não tem carro, não sendo um shopping que sirva ao publico do bairro”.81 Já em agosto de 2008, uma matéria da Folha de S.Paulo anunciava que o Shopping tinha sido “projetado sem praça de alimentação e sem entrada de pedestres para se restringir ao público A”82. De fato, o Shopping Cidade Jardim aparenta, já pelo seu difícil acesso, ter como alvo um público elitizado. Não é lugar de passagem; é exatamente o oposto do Shopping Metrô Tatuapé, do Shopping Metrô Santa Cruz ou do futuro Shopping Metrô Tucuruvi (os dois últimos também da incorporadora JHSF, responsável pelo Shopping Cidade Jardim), cujas localizações (acopladas a estações de metrô) permitem aproveitar o grande fluxo de transeuntes. Diferencia-se também do Shopping Iguatemi, seu principal concorrente. Apesar deste possuir em sua maioria lojas de alto padrão, a sua localização (na avenida Brigadeiro Faria Lima), mesmo que privilegiada, não impossibilita o acesso de pedestres. Lá, pontos de ônibus próximos facilitam o acesso. 81 Disponívelem:<http://www.qype.com.br/place/387219-Shopping-Cidade-Jardim-Sao-Paulo>. Consultado em: 21/02/2011. 82 GALVÃO, V.Q.: “Sem entrada de pedestres, shopping para classe A vira atração para classe D.” In: Folha de S.Paulo, Cotidiano, 03/08/2008. ͺ Essa diferença foi apontada em entrevistas realizadas com frequentadores do Shopping Cidade Jardim. Mas acho [o Shopping Iguatemi] muito povoado... Gosto de menos gente... Aquela coisa privé, né, é gostoso, no seu dia a dia, não ver tumulto... Acho que a própria localização [influencia no fluxo de pessoas], né... (Entrevistada nº 5). Há dois principais acessos ao estacionamento do Shopping Cidade Jardim. Desde os assaltos que ocorreram em 2010, a rampa que era utilizada por taxistas ou por quem desejava ser deixado em frente à entrada principal, está fechada. Agora o acesso é feito somente pelo estacionamento. Existe a possibilidade de se deixar o carro com manobristas. Quem escolher parar o carro sozinho, talvez encontre dificuldades para achar uma vaga – o estacionamento foi alvo de críticas em diversas entrevistas. Quem conseguir achar uma vaga será agradavelmente surpreso pelo seu tamanho generoso. Apesar de não ser oficialmente divulgado83, o tamanho das vagas do Cidade Jardim é aparentemente maior do que o dos demais shoppings de São Paulo. A partir do estacionamento, o acesso ao shopping pode ser feito por escadas rolantes, elevadores ou escadas. O shopping está organizado em cinco andares84. No térreo e nos três primeiros, repartem-se conceituadas lojas de moda e de acessórios nacionais e internacionais, restaurantes, lanchonetes, um complexo de cinemas e diversos serviços. O acesso entre esses andares se dá por escadas normais e rolantes, ou por elevador panorâmico. Para se alcançar o quarto e o quinto andar, o acesso já não é tão fácil; é necessário pegar outro elevador em um lugar recuado do terceiro andar, situado próximo ao complexo de cinemas. O quarto andar é ocupado pela academia Reebok; o quinto, pelo Spa Cidade Jardim. O clima geral do Cidade Jardim difere do da maioria dos shoppings, pelo fato de que a sua arquitetura proporciona um contato direto com a luz do dia. Aqui, ao contrário da maioria dos shoppings, a ideia é não privar o visitante do contato com o mundo real – não, ao menos, no concernente ao tempo que faz do lado de fora. Conforme uma das consumidoras entrevistadas: E ele é mais aberto, não é aquela coisa do Iguatemi, que você entra lá e quando sai ‘tá noite... (Entrevistada n° 11). 83 Matéria da Folha de S.Paulo do dia 29/06/2008 propõe um comparativo das vagas dos shoppings da cidade de São Paulo. No entanto, o tamanho das vagas do Cidade Jardim não é divulgado. “Onde encontrar vagas” In: Folha de S.Paulo, 29/06/2008. 84 Em nossas últimas etnografias no segundo semestre de 2011, observamos que mais um andar estava sendo construído. ͻ FIGURA 4 – O jardim interno do Shopping Cidade Jardim, visto do térreo. Fonte: foto da autora . FIGURA 5 – O jardim interno do Shopping Cidade Jardim, visto do primeiro andar. Fonte: foto da autora. FIGURA 6 – O jardim interno do Shopping Cidade jardim, visto do segundo andar. Fonte: foto da autora. . ͺͲ Assim, a arquitetura e o paisagismo peculiares do shopping parecem ter sido tão planejados quanto a oferta de lojas luxuosas. Esse cuidado é transmitido pelo press release de paisagismo disponível no site do empreendimento85, que anuncia: Paisagismo é destaque do empreendimento. O paisagismo, assinado por Maria João D’Orey, é um dos principais diferenciais do Shopping Cidade Jardim. O verde está presente em todos os pisos, em jardins internos, num jardim suspenso, na fachada e em jardineiras. Não existem corredores fechados: todas as lojas têm frente para os jardins iluminados com luz natural [...] O projeto levou cerca de três anos, desde sua concepção até a implantação. “A JHSF levou muito a sério o paisagismo do Shopping Cidade Jardim”, atesta a paisagista. Outro press release anuncia: Com o Shopping Cidade Jardim, chega a São Paulo um conceito inspirado nas ruas mais elegantes do mundo e nos centros comerciais de maior sucesso no exterior. É o primeiro shopping center aberto da cidade, com luz natural, e lojas de frente para os jardins. Seu projeto arquitetônico e paisagístico apresenta três pisos de lojas voltadas para áreas abertas, num mix que reúne grifes nacionais e internacionais consagradas, muitas delas ainda inéditas em shopping centers e mesmo no Brasil, múltiplas opções de lazer e serviços selecionados para atender a um público exigente. Esses releases, ao que tudo indica, procuram transmitir três ideias principais a respeito do shopping: x É diferente de todos os outros, porque sua arquitetura é única em São Paulo; (“primeiro shopping center aberto da cidade”); x Está alinhado com as tendências internacionais 86 (“inspirado nas ruas mais elegantes do mundo e nos centros comerciais de maior sucesso no exterior”); x É direcionado a um público restrito (“público exigente”) que tem referências de consumo fora do Brasil87 (“grifes [...] internacionais consagradas”). 85 Disponível em: <http://www.shoppingcidadejardimjhsf.com.br/shopping.asp> Consultado em: 07/02/2011. 87 Isto será verificado no capítulo V. ͺͳ Comecemos nossa etnografia pelo piso térreo, 88 comumente chamado de “piso das grifes internacionais”, por concentrar principalmente lojas de marcas estrangeiras. 89 Duas destas lojas, das famosas grifes francesas Louis Vuitton e Hermès, estão separadas somente pelo que foi outrora a entrada do shopping pela rampa, espaço que agora tornou-se o lounge de uma bandeira de cartão de crédito.90 A loja da Hermès foi a primeira unidade da tradicional grife de luxo francesa com raízes no hipismo a abrir no Brasil. Sua inauguração, bem como o preço dos seus artigos no Brasil (partindo de um babador de criança de R$ 500,00 até bolsas de couro de avestruz de R$ 52.900,00 ou de crocodilo de R$ 120.000,00) foram amplamente divulgados pela mídia.91 Ao lado, na vitrine da Louis Vuitton, telas de plasma verticais transmitem imagens do desfile internacional da grife. No fim do corredor, na vitrine da Daslu, o mesmo sistema é utilizado para divulgar filmagens de desfiles da loja. Apesar da nossa etnografia ter sido realizada em pleno verão, a vitrine da Hermès já estava em clima outonal, com folhas secas e tons alaranjados como se veem no outono do hemisfério norte, contrastando com o sol do lado de fora do shopping. Já a vitrine da loja Ellus and Guests anunciava um “preview fall winter 2011” (“prévia outono/ inverno 2011”). O uso de uma língua estrangeira é um recurso comumente empregado pelas lojas do shopping. Nesse dia, reparamos que as liquidações eram anunciadas em italiano, inglês e francês, dependendo da loja. Se algumas lojas divulgavam a liquidação em sua língua original (italiano para Armani), havia também loja brasileira anunciando em inglês. Tem-se a impressão de que existe uma real vontade de se conferir uma aura internacional ao shopping. 88 Durante o período da pesquisa, foram realizadas 11 visitas ao shopping; no entanto, tomamos como base para esse capítulo a etnografia realizada no sábado, 05/02/2011. 89 Em 05/02/2011, foram listadas as seguintes lojas (entre parênteses, destacamos o ramo de atividade e o país de origem de cada marca) no piso térreo do Shopping Cidade Jardim: Louis Vuitton (artigos de couro e moda, França), Hermès (artigos de couro e moda, França), Armani (moda, Itália), Nespresso (café, Suíça), Mont Blanc (canetas e acessórios, Alemanha), Jimmy Choo (sapatos, Grã Bretanha), Rolex (relógios, Suíça), Chanel (moda, França), Daslu (moda, Brasil; conhecida pelos seus artigos importados), Ellus and Guests (moda, Brasil, com marcas nacionais e internacionais), Mickey Home (acessórios para casa, Brasil), Ara Vartanian (joalheria, Brasil), Fogal (meias finas, Suíça) H.Stern (joalheria, Brasil), Petrossian (caviar e comidas finas, França), La Perla (lingerie, Itália) [ambas ainda fechadas no dia da etnografia], Osklen (moda, Brasil), Longchamp (artigos de couro, França), Salvatore Ferragamo (moda, Itália), Carolina Herrera (moda, EUA), Tânia Bulhões (moda casa, Brasil), Chocolat du Jour (chocolates, Brasil), Leica (fotografia, Alemanha), Bose (audio, USA), Carlos Miele (moda, Brasil), Cris Barros (moda, Brasil), Livraria da Vila (Brasil) acoplada à Casa do Saber (cursos livres, Brasil) e Santo Grão (café, Brasil), Juliana Scarpa (joalheria, Brasil), Bonpoint (moda infantil, França), Pucci (moda, Itália), Tiffany (joalheria, EUA). 90 Planta deste andar e dos seguintes, no Anexo B- Plantas do Shopping Cidade Jardim 91 MARTINHO, T. “No galope das loucuras luxuosas”. In: Folha de S.Paulo, Vitrine, 19/09/2009; DIVERSOS, “Coluna Mônica Bergamo”. In: Folha de S.Paulo, Ilustrada, 05/10/2009. ͺʹ A sinalização do shopping é bilíngue; todas as placas são escritas em português e em inglês; os detalhados mapas, situados em cada andar, também dão direções nas duas línguas. Todas as lojas do térreo – à exceção do quiosque da sorveteria Diletto, situado entre um jardim e uma escada – ficam em torno de um espaço com corredores largos. Esse espaço é frequentemente utilizado quando eventos são organizados no shopping. Inaugurações de lojas, mas também lançamentos de coleções, desfiles: os pretextos são numerosos para que os corredores do shopping sejam ocupados por convidados, em geral no período da tarde ou da noite. Essa área é dividida em seu meio por dois jardins onde há plantas e árvores. Essas atravessam os andares, já que a parte central do teto é vazada em todos os pisos, permitindo a entrada de luz natural. Segundo o press release de paisagismo92, Os dois jardins localizados no térreo, no centro do empreendimento, contam com pelo menos duas dezenas de árvores de mais de 18m – tipuanas, sibipirunas, palmito, palmeira barriguda, fênix, entre outras –, cujos ramos chegam até o terceiro andar. Seus troncos são ornamentados com orquídeas, para compor um visual tropical. Estas espécies, nativas do terreno, foram levadas a um viveiro durante as obras, e ao final da construção, foram replantadas. Nota-se, na descrição da vegetação, uma vontade de valorizar o tropical e o nativo. A reportagem “Natal tropical”, da edição de dezembro de 2010 da revista Cidade93, transmite o mesmo desejo: Nada de vermelho, neve artificial, renas ou pinheiros. Para o Natal deste ano, o Shopping Cidade Jardim foi buscar referências na flora e nas riquezas naturais do Brasil, no verão que toma conta do país em dezembro [...] A decoração explora elementos raros nas decorações natalinas dos shoppings de São Paulo e coloca os visitantes e os clientes ainda mais perto da natureza [...] Todas as árvores do shopping foram decoradas com orquídeas e regadores em vez de laços e dos tradicionais enfeites desta época do ano. Tudo para harmonizar as altas temperaturas do mês de dezembro com os elementos do décor natalino do shopping. Entre os dois jardins, no centro do piso térreo, está instalado o restaurante Nonno Ruggero, do grupo Fasano. Em cada uma das duas extremidades do térreo, situa-se uma das chamadas lojas âncoras: a Livraria da Vila, de um lado, acoplada a uma unidade da Casa do 92 Disponível, como os outros releases, no site do shopping: <www.shoppingcidadejardimjhsf.com.br> A revista é publicada pela Editora Trip, com conteúdo do shopping, distribuída gratuitamente no shopping e mandada para um mailing seleto e será abordada mais especificamente no capítulo V. 93 ͺ͵ Saber e a um Café Santo Grão; e a Daslu94, do outro lado. O espaço da loja multimarcas é dividido entre o térreo e o primeiro andar. Entre a Daslu e a Livraria da Vila, há mais de doze lojas de cada lado do jardim, em sua maioria internacionais. O piso do shopping, cor de areia, idêntico em todos os andares, é, segundo o press release de arquitetura, em “fulget, um revestimento de granito lavado cuja textura remete a calçadas”. Os tons predominantes, nesse e nos outros andares, são o bege, o branco e o marrom da madeira, material escolhido para a maioria dos acabamentos do shopping. Ventiladores de teto, também de madeira marrom, estão instalados a cada dez metros nesse e nos demais andares e, segundo o mesmo press release, “contribuem para dar um clima ao mesmo tempo informal e elegante”. Ao redor dos jardins, há bancos de madeira, poltronas e cadeiras de vime que contribuem com a impressão de que se está em um ambiente externo. No dia da etnografia, fazia muito calor e havia diversas famílias ou casais sentados nesses bancos. No inverno, aquecedores a gás estrategicamente posicionados perto dos bancos são ligados, e mantas são disponibilizadas nas mesas dos cafés. Esse clima de jardim é reforçado por pequenos chamarizes situados nas extremidades do térreo, ao lado das escadas rolantes. De frente para as escadas que conduzem ao primeiro andar, há um serviço de concierge; uma grande bancada, com atendentes uniformizadas e computadores. Segundo matéria da Folha de S.Paulo 95 , “o concierge permite fazer reservas nos restaurantes do shopping e [disponibiliza] pessoas para levar as sacolas até o carro enquanto as compras continuam”. A matéria ainda afirma que “os mais assíduos acumularão uma espécie de milhagem para ter acesso a outros serviços exclusivos”. Verificamos, ao entrevistarmos uma das atendentes que 94 Até a inauguração do Shopping Cidade Jardim, existia somente uma loja Daslu, instalada em uma construção de semblante neoclássico, chamada de Villa Daslu, localizada entre a avenida Chucri Zaidan e a Marginal Pinheiros. Inaugurada em junho de 2005 após ter tido que deixar o bairro da Vila Nova Conceição por causa da lei de zoneamento, a loja foi tema de um capítulo inteiro no livro How Luxury lost its luster, da jornalista americana Dana Thomas. Segundo a autora, a Daslu representa o verdadeiro luxo, pois possui excelente serviço e atendimento. A jornalista ressalta também o fato de a loja ser única e não uma unidade de uma série de franquias. Na época de minha pesquisa sobre os consumidores da Daslu, no primeiro semestre de 2008, tive a oportunidade de entrevistar Dana Thomas em Paris. Na minha volta ao Brasil, trocamos diversos e-mails. Em um deles, comentei com ela sobre a abertura de uma segunda “unidade” da Daslu. Ela tinha visitado essa loja; e eis o que ela me escreveu a respeito: “De fato, eu visitei o Cidade Jardim. Fomos ao cinema nesse incrível cinema com as poltronas reclináveis. É um lugar e tanto. E é ali que tem a primeira mini Daslu, o que é interessante. A ideia, me disseram, é ter uma Daslu que seja menos intimadora para o público. As pessoas ficam impressionadas pelo portão com seguranças, etc. da grande Daslu. Nessa mini Daslu, você pode entrar e sair; não tem pretensões. Planejam abrir mais algumas ao redor do Brasil. E vendem principalmente a marca própria da Daslu, que é muito mais em conta do que as marcas de luxo. ( Eu adoro as roupas da marca Daslu e as calças jeans de lá são simplesmente maravilhosas.) Eu acredito que eles estejam dando um passo interessante e inteligente.” (Tradução nossa). 95 MISMETTI, D. “Novo shopping em SP não quer ser tachado de ‘luxuoso’.” In: Folha de S.Paulo, Vitrine, 17/05/2008. ͺͶ trabalhava nesse serviço havia dois anos96, que “o programa de fidelidade ainda está sendo implantado”. Conforme ela explicou, os clientes fiéis são indicados pelos funcionários das lojas do shopping; os moradores do condomínio são automaticamente incluídos no programa e se beneficiam de diversos “mimos”, como, por exemplo, o de terem suas sacolas de compras carregadas do shopping para seus apartamentos. Resumindo o papel do serviço de concierge, a atendente explicou que era um “atendimento ao cliente para um público diferenciado, que exige mais”. Disse que “tudo nesse shopping era diferente”, e que o cliente precisava ser “melhor atendido”. É também na bancada do concierge que são disponibilizadas as revistas Cidade. FIGURA 7 – Balcão do concierge Fonte: foto da autora. 96 Entrevistada realizada em 24/02/2011. ͺͷ Caso escolha subir para o primeiro andar pela escada rolante, o transeunte poderá visualizar anúncios das lojas do shopping em telas de plasma parecidas com as observadas na vitrine da Louis Vuitton ou da Daslu. A planta do primeiro andar é muito parecida com a do térreo. Novamente, há duas lojas âncoras, uma sendo o andar superior da Daslu, outra a Zara, loja espanhola de fast fashion.97 Aqui, no entanto, há pelo menos vinte lojas entre as duas âncoras; todas de alto padrão.98 O fato de não possuir praça de alimentação é uma das características que diferencia o Shopping Cidade Jardim de outros shoppings paulistas. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a diretora do shopping, Sharon Beting, afirmou que “praça de alimentação acaba ficando barulhenta, suja”99. Restaurantes, lanchonetes e quiosques estão espalhados pelos corredores, procurando reproduzir o comércio de rua, mas também evitar aglomerações como normalmente ocorrem nas praças de outros shoppings. Uma dessas lanchonetes, em particular, chama a atenção: uma unidade da rede “popular” Baked Potato. Apesar de alguns dos lanches servidos serem diferentes das outras unidades (batatas recheadas com ovas de salmão, por exemplo) e, por isso, possuírem preços mais altos do que o de outras lanchonetes da rede, o lugar parece ser o ponto de encontro de funcionários do shopping que, em diversas das nossas visitas, foram vistos comendo lá. Durante o dia em que se realizou a etnografia, a música eletrônica tocada por um DJ na loja de moda jovem Gant competia pela atenção do público do shopping com a música ambiente dos corredores. 97 A tradução literal é “moda rápida”. O termo é empregado para se referir ao tipo de moda relativamente barata, sazonal, quase descartável. 98 Em 24/02/2011, foram listadas as seguintes lojas no primeiro andar do Shopping Cidade Jardim: Daslu Homem (moda, Brasil), Lanchonete da Cidade (Brasil), Space Beauty by Fragrance (perfumaria, Brasil), Elisa Atheniense (acessórios em couro, Brasil), Caruso Tabacaria (Brasil), Jogê (lingerie, Brasil), Villebrequin (moda, França), Mara Mac (moda, Brasil), Fit (moda, Brasil), Drogasil (farmácia, Brasil), Alexandre de Paris (acessórios para cabelo, França), Mixed (moda, Brasil), Francesca Romana Diana (joalheria, Brasil), Loeb (acessórios casa, França) Kosushi, (restaurante, Brasil), Noia Carolina (joalheria, Brasil), Brooksfield (moda, Brasil), Centopeia (calçados infantis, Brasil), Alfaiataria Paramount (moda, Brasil), Mundo do Enxoval (moda casa, Brasil), Flor (moda feminina, Brasil), SUB (moda praia, Brasil), Zapalla (moda, Brasil), Reinaldo Lourenço (moda, Brasil), Maison Zank (moda, Brasil), Miss Vittoria (lingerie, Brasil), Valdemar Iódice (moda Brasil), Furla (bolsa e acessórios, Itália), Lacoste (moda, França), Zara, (moda, Espanha), Pati Piva (chocolates, Brasil), Huis Clos (moda, Brasil), Centauro (esportes, Brasil), PB Kids (brinquedos, Brasil), Thorré (moda, Brasil), Pelu (moda, Brasil), Casa Design em papel (papelaria, Brasil), Andréa Saletto (moda feminina, Brasil), Leeloo (moda feminina, Brasil), Isabella Giobbi (sapatos, Brasil), Tigresse (moda, Brasil), Ana Rocha & Appolinário (joalheria, Brasil), HSBC Premier (banco, Hong Kong), Capodarte (sapatos, Brasil), Baked Potato Boutique (lanchonete, Brasil), Constança Basto (moda feminina, Brasil), Sony (eletrônicos, Japão), Gant (moda, EUA), Track&Field (moda/esporte, Brasil), O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (doces, Portugal), Magnum (sorvetes, Suíça), Sia (Moda casa, Suécia), Illy (café, Itália), Superga (sapatos, Itália). 99 MISMETTI, D. Já citado. ͺ O segundo andar do shopping segue a mesma planta que os dois andares inferiores, mas sem loja em suas extremidades, as quais são ocupadas por estacionamentos. São 16 lojas de um lado do vão pelo qual sobem as árvores, e 22 do outro lado. Esse andar foi inaugurado aproximadamente dois anos depois do resto do shopping, em abril de 2010, junto com o spa localizado no quinto e último andar. Conforme editorial da revista Cidade100: a chegada de novos parceiros reforça ainda mais nosso diferenciado mix, consolidando o Shopping Cidade Jardim não apenas como referência de bom gosto, mas também como o principal endereço no Brasil quando se trata de marcas exclusivas. Já em julho de 2009, o presidente executivo da incorporadora JHSF, José Auriemo Neto, declarava à Folha de S.Paulo que a inauguração do segundo andar se devia a uma vontade de atrair mais consumidores.101 Em abril de 2010, a Veja São Paulo, intitulada “Luxo mais democrático”102, anunciava: O movimento está longe de ser intenso em um dos templos de consumo mais luxuosos da cidade [...] A partir da próxima quinta [...], o vaivém de consumidores deve aumentar com a inauguração oficial de uma ala com 38 lojas de segmentos variados: moda masculina, feminina, jovem, infantil, joalherias, brinquedos, eletrônicos, cafés, restaurante e produtos para casa. Marcas mais acessíveis, como Arezzo, M.Officer, Colcci103, Mercearia, VR, Crawford, Siberian e Hering, começam a aparecer no centro de compras da Marginal Pinheiros. No mesmo ano, uma matéria da Folha de S.Paulo, em tom irônico, chamou o andar de “piso possível”: “ aquele que abriga opções também para quem não tem helicóptero”104. De fato, o segundo andar é percebido por alguns dos clientes como o andar “popular”, por 100 Edição março/abril de 2010. BARROS, G.; FERNANDES, F; CUNHA, J.; GAZZONI, M.; WIZIACK, J.; ROLLI, C. “Cidade Jardim X Iguatemi”. In: Folha de S.Paulo, Dinheiro, 26/07/2009. 102 ROMANI, G. “Luxo mais democrático.” In : Veja São Paulo, 28/04/2010. 103 Em visita em 08/08/2011, observou-se que esta loja tinha fechado e estava prestes a ser substituídada pela loja de artigos do mundo do polo La Martina. Segundo matéria da Veja publicada em 13/09/2011, diversas lojas do segundo andar encerraram suas atividades devido a prejuízos. A matéria afirma que a presença de lojas com artigos mais baratos deve-se a um erro de planejamento: “Após inaugurar um primeiro piso com lojas de luxo, como Chanel e Louis Vuitton, em 2008, o shopping não calculou bem sua primeira expansão. ‘O espaço para as lojas do segundo piso era muito pequeno. As grandes marcas estrangeiras não aceitaram vir ao Brasil e ficar em local desprestigiado. Por outro lado, havia dezenas de lojas nacionais dispostas a pagar muito caro para estar ali’, explica um executivo ligado ao setor de shoppings. Foi assim que chegaram ao Cidade Jardim lojas como Hering, Arezzo, Colcci, Calvin Klein e Maria Filó. As três últimas fecharam há poucos meses devido a prejuízos na operação.” In: COSTA, A.C. “Shopping Cidade Jardim reforça o luxo para ganhar clientes.” Em: <http://veja.abril.com.br/noticia/economia/shopping-cidade-jardim-reforca-o-luxo-para-ganhar-mais-clientes> Consultado em: 30/09/2011. 104 MARINHO, T. “Lego não foca as crianças.” In: Folha de S.Paulo, Vitrine, 18/07/2010. 101 ͺ concentrar uma maioria de lojas que, apesar de serem de alto padrão, são nacionais, ou seja, são encontradas com facilidade em outros shoppings.105 O terceiro andar tem poucas lojas 106 ; são principalmente serviços, restaurantes e o cinema – conhecido pelas suas salas “Prime”, da rede Cinemark –, repartidos ao redor de um terraço com plantas chamado de “jardim”.107 A loja Tools & Toys, também localizada nesse andar, inaugurada em julho de 2010, atraiu em diversos momentos a atenção da imprensa pela sua exuberância. 108 Matéria do site do shopping publicada no mês da inauguração faz a seguinte descrição: Com um portfólio de produtos digno de Hollywood, o inédito e recéminaugurado showroom da Tools & Toys reúne todos os tipos de "brinquedos" que encantam gerações de homens. De iates a helicópteros, passando por motos, jet skis e triciclos, o melhor do mundo da velocidade e do luxo está representado na loja comandada por Márcio Christiansen no Shopping Cidade Jardim.109 O complexo do cinema conta com sete salas; entre elas, quatro são chamadas “Cinemark Premier”, nas quais o preço do ingresso é de R$ 49,00. As salas possuem amplas poltronas reclináveis de couro, com mesinhas de apoio para bebidas e beliscos. Estes podem ser comprados em uma das bonbonnières que disponibilizam, em seus cardápios, itens típicos de cinema de grandes redes, e outros menos, como vinho, champagne, pipocas com azeites trufados, sobremesas finas, etc. Uma vez o pedido feito, um garçom o entrega na sala. Os 105 Em 24/02/2011, foram listadas as seguintes lojas no segundo andar do Shopping Cidade Jardim: Lego (brinquedos, Dinamarca), Siberian (moda, Brasil), Kopenhagen (chocolates, Brasil), Minou Minou (moda infantil, Brasil), Maria Filó (moda, Brasil), Espaço Árabe (lanchonete, Brasil), Polishop (eletrônicos, Brasil), Guerreiro (joalheria, Brasil), VR (moda, Brasil), CK Jeans (moda, americana), Empório Central (restaurante/ delicatessen, Brasil), Arezzo (sapatos, Brasil), Alcaçuz (moda, Brasil), Spicy (artigos de cozinha, Brasil), Colcci (moda, Brasil), New Order (acessórios de moda, Brasil), Di Capri (café, Brasil), Missin Clof (moda feminina, Brasil), Ótica Sella (Brasil), Marisa Ribeiro (moda, Brasil), Richards (moda, Brasil), Trousseau (moda casa, Brasil), My Store (eletrônicos, Brasil), Silvia Furmanovitch (joalheria, Brasil), Accessorize (acessórios de moda, Inglaterra), Silmara (moda, Brasil), Grifith (joalheria) Crawford (moda, Brasil), Animale (moda, Brasil), Maria do Rio (moda, Brasil), L´Occitane (perfumaria, França), 1+1 (moda infantil), Santa Lolla (moda, Brasil), Vivara (joalheria, Brasil), Vivara (joalheria, Brasil), Hering (moda, Brasil), M.Officer (moda, Brasil). 106 Conforme a revista Cidade de fevereiro de 2011, são elas: lojas das telefonias Claro, Vivo e Tim, caixas eletrônicos dos bancos Bradesco, Itaú, Real e 24 Horas, restaurantes Due Chuochi Jardim e Pobre Juan, quiosque da Casa do Pão de Quejio, cabelereiro Loft Hair Boutique, “longe de serviços” Gama (com armarinho, bordados, chaveiro, etc.), agências de viagens Agaxtur turismo e Fitta Turismo e câmbio, corretores de imóveis Coelho da Fonseca, Moldura Minuto, Espaço Família, loja Tools & Toys. 107 Em visita em 08/08/2011, foram observadas mudanças nesse andar. Como informado neste dia por um dos seguranças alocados neste andar, este piso não comportaria mais o jardim, que subiria para um andar superior ainda em construção. No lugar, seriam instalados a Daslu e novos restaurantes. 108 KÜCHLER, A. “Avião na sacola.” In: Folha de S.Paulo, 18/07/2010, MASCARO, V. Helicóptero de quase 22 milhões está à venda no Shopping Cidade Jardim e, em entrevista, Márcio Christiansen fala sobre a loja Tools & Toys. Disponível em: <http://colunistas.ig.com.br/vivimascaro>, 05/07/2010 e 12/07/2010. Consultado em: 22/02/2011. 109 GIOBBI, C. “Tools & Toys”, 08/07/2020. Disponível em: <http://www.shoppingcidadejardimjhsf.com.br/interna_news.asp?id=416>. Consultado em: 22/02/2011. ͺͺ braços das poltronas podem ser levantados, formando assim uma espécie de pequeno sofá; são as chamadas love seats. Os intervalos que separam as cadeiras das fileiras da frente e de trás são maiores que os dos cinemas convencionais; há também menos assentos nessas chamadas “salas VIP” do que em outras salas da mesma rede. Tem-se a impressão de que se quis recriar nessas salas o interior de uma casa de elite, com seu conforto (poltronas espaçosas e reclináveis), seus mimos (comidas e bebidas especiais) e, acima de tudo, sua privacidade (poucos lugares) e exclusividade (preços elevados). FIGURA 8 – Casal folheando a revista Cidade na sala de espera do cinema. Fonte: foto da autora. Lojas, serviços e restaurantes ficam em torno de um jardim que, conforme o press release de paisagismo, é “totalmente aberto, com área de cerca de 2 mil m², sendo 1 mil m² de gramado, onde se encontram várias jabuticabeiras”. Ainda segundo o release, “o local funcionará como um parque para as pessoas descansarem e apreciarem a vista”. A conveniência dos diversos serviços disponíveis neste andar é ressaltada em painéis espalhados pelo shopping: Resolver tudo no shopping, isso sim é um serviço charmoso. O Shopping Cidade Jardim oferece serviços especiais para você aproveitar ainda mais o passeio por suas alamedas: armarinho, bordados, chaveiro, costura, gráfica, courrier, revelação de fotos, engraxate, papelaria, sapataria, uniforme, entre outros. ͺͻ Para Padilha, a inserção de serviços nos shopping centers foi, sem dúvida, uma pequena mudança que causou grande impacto, pois esses centros comerciais passaram a configurar verdadeiros centros urbanos, o que, evidentemente, coloca em questão a noção do público e do privado. (2007, p.61) Assim, com a possibilidade de acesso a diversos tipos de serviços e não somente a lojas ou restaurantes, o frequentador do shopping precisa cada vez menos dirigir-se ao comércio de rua, ou mesmo, à rua em geral. O movimento de frequentadores, nesses três primeiros andares, é bem inferior ao que se costuma observar em outros centros comerciais da cidade em um sábado. São poucos adolescentes; não se veem grandes grupos de jovens, já que não há espaços – uma praça de alimentação, por exemplo – que possibilite maiores aglomerações. Veem-se principalmente casais e famílias com crianças.110 No entanto, apesar de observarmos poucos jovens, na edição de agosto de 2011 da revista Cidade foi publicada a matéria “Nova Geração”, com o subtítulo “O Cidade Jardim faz a cabeça dos jovens antenados”. Na matéria, a jornalista afirma : eles andam em turma […] e frequentam, principalmente, os cinemas, a academia Reebok e os restaurantes do shopping. Pelos corredores, é fácil notar um público muito especial que tem feito do Cidade Jardim seu ponto de encontro: os adolescentes. (Grifos nossos). Vale observar que, apesar deste público jovem pertencer às classes altas, seu padrão de consumo dentro do shopping, conforme relatado nesta matéria, se assemelha ao de adolescentes oriundos de classes populares. Como observado por Frúgoli Jr.: Os jovens, em grande maioria, não se incluem no circuito de consumo de mercadorias mais caras. Só fazem pequenos gastos com cinema, lanchonete, etc. São grupos que apontam para uma apropriação mais socializada do espaço […] (FRÚGOLI JR., 1992, p. 86). Em nossas diversas visitas ao shopping, encontramos poucos adolescentes. Seria a matéria citada acima uma tentativa de atrair mais esse público? Uma coisa é certa: os poucos adolescentes com os quais nos deparamos em nossas visitas pertenciam todos à mesma elite. A própria revista, na mesma matéria, destaca o estilo uniformizado desses jovens: “[Eles] 110 No capítulo V, iremos nos aprofundar na descrição do público do shopping. ͻͲ estampam marcas de grifes famosas em bolsas, cintos, tênis e camisas […]” Frúgoli Jr. observara uma frequentação semelhante entre os jovens consumidores do Shopping Iguatemi : […] turmas de jovens do Shopping Iguatemi […] criam redes de socaibilidade bastante seletivas com base em inserções em círculos restritos de escolas particulares, clubes privados, residências em certos bairros ou condomínios fechados, ou tendo em vista os signos presentes nas roupas e nos cuidados corporais ou ainda o tipo de consumo (de vestuário ou cultural) realizado em seus interiores. (Frúgoli Jr. In: Bueno ; Camargo (Org.) 2008, p. 235). No entanto, se Frúgoli observou um movimento de diversificação dos jovens frequentadores do Shopping Iguatemi ou do Morumbi111 nos fins de semana, isto não parece ocorrer entre os jovens frequentadores do Shopping Cidade Jardim, o que pode ser explicado pela já observada dificuldade de acesso ao shopping. Os trajes e acessórios usados pela maioria dos frequentadores (bermudas para homens, saias e roupas decotadas para mulheres, óculos de sol para todos) em um sábado de verão pareciam mais adaptados a um passeio em um lugar externo de que em um centro comercial. Se os trajes são casuais, os acessórios (relógios, bolsas, óculos de sol) ostentam em sua grande maioria grifes internacionais. Uma das entrevistadas, uma adolescente de 17 anos, descreveu “o cliente típico” do Shopping Cidade Jardim da seguinte maneira: O jeitão dessas pessoas é sempre o mesmo: elas se vestem muito bem, com bolsas e relógios de marcas caras. Os seus celulares são principalmente IPhone ou Blackberry. (Entrevistada nº 8; grifos nossos). Outra entrevistada, também de 17 anos, fez uma descrição semelhante: Nesse shopping frequenta a elite de São Paulo. Os frequentadores são principalmente mulheres, de 20 a 60 anos, aproximadamente. Elas sempre estão muito bem vestidas, com roupas, bolsas e óculos de marcas de luxo. (Entrevistada n° 9; grifos nossos). As roupas de passeio dos consumidores contrastam com os uniformes escuros dos numerosos seguranças, homens e mulheres, que circulam pelos andares do shopping. 111 A respeito do Shopping Iguatemi: “Foi possível […] observar um aumento de grupos frequentadores, notadamente entre os jovens, uma relativa aproximação com o padrão de ocupação de outros SC.” E a respeito do Morumbi: “Na época da pesquisa, o Morumbi Shopping também revelou, aos domingos, uma forma surpreendente de apropriação social. Próximo à Marginal do rio Pinheiros e à Av. Luís Carlos Berrini – um novo polo financeiro e importante eixo de expansão urbana – esse SC abrange um público diferenciado […] No caso, é surpreeendente a diferença do público durante a semana (poder aquisitivo elevado, embora inferior ao Iguatemi) e nos fins de semana, quando é tomado por turmas de jovens de camadas populares.” (FRÚGOLI JR., 1992, pp.83 e 88). ͻͳ No quarto e quinto andar, o movimento de consumidores é ainda menor do que no resto do centro. Esses são lugares reservados, ainda mais exclusivos do que o resto do empreendimento. O acesso ao quarto andar dá-se por um elevador em um canto recuado do terceiro andar, perto das salas de cinema. Todo o espaço locável do quarto andar é ocupado pela academia de ginástica da rede internacional Reebok. Ao sair do elevador, dá-se de cara com a recepção da academia. Computadores da marca Apple transmitem uma sensação de despojamento e modernidade. Similares aos painéis que listam os serviços disponíveis no shopping, outros, também espalhados pelo shopping, fazem propaganda para a academia Reebok: No quarto andar, você treina, nos outros, você desfila. No shopping, as melhores marcas. Para ficar bem nelas, conheça a academia Reebok. Em ambos, a complementaridade entre os comércios do empreendimento e a academia é ressaltada; esta é apresentada como o lugar para se atingir o corpo ideal que permitirá vestir as roupas de grifes vendidas nas lojas. Repara-se que, nos dois anúncios, ser cliente do shopping é apresentado como algo conquistado. No primeiro caso, o corpo atingido graças ao treino permite desfilar e não passear. No segundo, vestir as roupas disponíveis nas lojas do shopping é algo que se conseguiu graças à malhação. A academia está aberta de segunda a sexta, das 6 às 23 horas; aos sábados e domingos, das 9 às 17 horas. Logo ao lado da recepção, catracas impedem o acesso a quem não está cadastrado ou acompanhado de uma vendedora (chamada de consultora). Passei-me por uma potencial cliente para poder visitar a academia. Esta possui piscina, sala de musculação para todos os frequentadores, outra mais reservada, “para quem treina com personal trainer”, e ainda um “espaço zen” para a prática de meditação, yoga e pilates. O plano mais barato, que permite frequentar a academia durante dois anos, custa R$ 9.190,00 (quase 17 salários mínimos em março de 2011), pagáveis em 12 parcelas de R$ 765,00 (quase um salário mínimo e meio). Segundo uma vendedora da Reebok, a academia é “familiar” e há movimento durante o dia inteiro. Por conta da instalação das primeiras famílias nas torres do Parque Cidade Jardim, e com a mudança das outras prevista para até a metade de 2011, uma ampliação da Reebok estava prevista para o segundo semestre. “Os condôminos estão começando a reformar e se ͻʹ mudar... A gente sabe que o fluxo vai aumentar até a metade do ano”, explicou-me a vendedora. O mesmo discreto elevador que conduz ao quarto andar dá acesso ao quinto e último: o spa. Enquanto o trânsito pelos andares do shopping é totalmente livre – ainda que haja catracas no andar da academia, o transeunte pode visitá-la, desde que acompanhado por algum dos seus funcionários –, a aura de exclusividade é muito forte no andar do spa. De maneira similar ao que eu tinha feito na academia, apresentei-me no spa como potencial cliente interessada em frequentar o espaço. Contudo, ao verificar que eu não morava em uma das torres do condomínio, a atendente me explicou que eu não poderia conhecer o espaço, “porque estava em uso”. Após um tempo de conversa, ela me disse que o spa tinha sido pensado “para os moradores do condomínio, por isso o acesso para os outros não é facilitado”. A restrição do acesso é caracterizada pelos preços, que começam em R$ 1.200,00 por 30 dias de uso do spa, dando direito a cinco tratamentos, uso da academia e aulas de exercícios físicos. A vontade de manter o spa como um espaço exclusivo para moradores do empreendimento me foi confirmada pelo supervisor comercial do stand da Coelho da Fonseca no shopping. Esse me explicou que o spa foi pensado para ser quase que uma extensão das torres residenciais, como se fizesse parte da área de lazer destas.112 Por isso, há um elevador privativo que permite o acesso dos moradores das torres diretamente para o spa. O Shopping Cidade Jardim foi idealizado para arquitetonicamente se opor radicalmente à maioria dos shoppings da cidade, cujo espaço tipicamente constitui-se de corredores labirínticos, plantas e flores artificiais, praça de alimentação e entrada de ar e de luz artificiais (Padilha, 2006). De fato, ele não possui nenhum desses elementos característicos dos centros de comércio da capital paulista. Percebe-se, também, uma vontade de evitar os artifícios usados até pouco tempo atrás pelo comércio de luxo da cidade, caracterizado pela imponência, por materiais pesados (mármore), brilhos e dourados, a exemplo do Shopping Iguatemi, o maior concorrente do Cidade Jardim. Por sua vez, e ao contrário, por exemplo, da Villa Daslu, onde há uma ligação com o imaginário italiano e uma intenção de se reproduzir uma arquitetura neoclássica, há no Shopping Cidade Jardim uma aparente valorização do “local” e do “nacional”, manifestada no uso de plantas nativas ou de espaços abertos, condizentes com o clima subtropical. 112 Entrevista realizada no plantão de vendas da Coelho da Fonseca do Shopping Cidade Jardim em 05/02/2011. ͻ͵ No entanto, a “natureza” aqui é obviamente calculada, pensada, planejada. Ela é utilizada para valorizar as vitrines impecáveis das lojas de grifes internacionais com as quais contrasta. O despojado e o natural, aqui, são extremamente trabalhados. A natureza vira exótica, suporte para o comércio. Nas palavras de Lipovetsky, ela se torna cenário: Se os artistas, os decoradores e os arquitetos estão cada vez mais integrados nas estratégias das lojas de luxo, é evidente que outros elementos também podem e poderão futuramente desempenhar um papel primordial nesse mesmo sentido. Refiro-me especialmente ao elemento “natureza” (plantas, árvores, água, ar etc.), que, com certeza, ocupará um lugar privilegiado na atualização das lojas experienciais. Uma natureza que funcionará como cenário estético e fonte de emoções estéticas e sensitivas. A natureza “artilizada” será a nova fronteira do luxo emocional: basta comparar, em São Paulo, a Daslu com o mais recente Shopping Cidade Jardim (com seus espaços abertos, suas árvores e sua vegetação) para se convencer disso.113 Se, no âmbito estético, o Shopping Cidade Jardim difere totalmente dos outros centros de consumo da cidade, como todos eles – e mais ainda, pelo público que visa a atingir, pela sua localização, pelo difícil acesso, pelas grifes comercializadas e pelos preços praticados –, ele se configura como um espaço excludente por excelência. 113 Em ensaio para revista ÉPOCA São Paulo Luxo, novembro de 2010. ͻͶ Capítulo V - Consumir para pertencer Esse capítulo se propõe a oferecer uma discussão sobre o significado do consumo de luxo praticado no Shopping Cidade Jardim. Em um primeiro momento, faremos uma análise da revista Cidade, dirigida ao público frequentador do Shopping Cidade Jardim, o que proporcionará uma discussão sobre o estilo de vida dos frequentadores do shopping, tal como idealizado por um grupo de tastes makers ou novos intermediários culturais que escrevem para a revista. Em um segundo momento, examinaremos as entrevistas realizadas com consumidores, o que nos permitirá entender o significado da escolha da prática de consumo no Shopping Cidade Jardim. 5.1 A revista Cidade: a construção de um estilo de vida Durante uma das minhas primeiras visitas exploratórias ao Shopping Cidade Jardim, descobri no balcão do concierge a revista Cidade. Publicada114 bimestralmente pela Editora Trip, a revista é distribuída “para um mailing VIP do Shopping Cidade Jardim”, conforme consta no site da editora, e pode ser encontrada nas dependências do shopping, mas também “nas salas Cinemark Premier, nos hotéis da rede Fasano, nas salas VIP da American Express, da Dinners e da Emirates”115. A primeira vez que levei um exemplar para casa, tinha a intenção de me inteirar dos eventos do shopping, como, por exemplo, aberturas de lojas ou eventos promovidos pela administração ou pelos próprios lojistas. No entanto, descobri rapidamente que, além de um relato da vida no shopping, a revista Cidade poderia fornecer um extenso material para a análise que eu me propunha a realizar. Desta maneira, no decorrer dos meses da minha pesquisa de campo, umas das primeiras preocupações ao chegar no Shopping Cidade Jardim para realizar a etnografia era passar no concierge para retirar a revista Cidade. Depois de algumas visitas, percebi que os exemplares esgotavam com grande rapidez e que, caso não fosse ao shopping nos primeiros dias após a 114 Tiragem de 35 000 exemplares segundo o site da editora. Em: http://revistatrip.uol.com.br/tripeditora/nucleo_trip.php?id=16. 115Conforme informado pelo mídia kit da revista, disponivel em : <http://revistatrip.uol.com.br//midiakit/2011/midiakit_cidade_2011.pdf> ͻͷ publicação, teria que me contentar com um exemplar amassado, abandonado na sala de espera do cinema ou em alguma loja.116 FIGURA 9 - Capa da revista Cidade - agosto de 2011 Fonte: Site do Shopping Cidade Jardim http://www.shoppingcidadejardim.com A revista Cidade é uma “revista customizada”, o tipo de revista produzido para um público bem específico e que, por ser publicada em um número menor, costuma apresentar um cuidado melhor com a arte gráfica, bem como um formato e papel diferenciados.117 O 116 Cheguei a mandar um e-mail para a editora Trip, explicando o objeto da minha pesquisa e pedindo para ser incluída no mailing da revista. Recebi somente uma edição da revista. ͳͳ papel da revista Cidade é de uma gramatura mais espessa do que a de uma revista semanal convencional, assemelhando-se ao papel de revistas de moda conceituadas e de outras publicações segmentadas que se dirigem às elites. Também como as revistas de moda, a Cidade possui lombada quadrada, o que lhe confere mais elegância, além de permitir um melhor acabamento e um aspecto de qualidade superior. Em termos gráficos, a revista trabalha uma mescla de fontes diferentes, para títulos, subtítulos e corpo de texto. Sua diagramação é moderna, composta por um grid de seis colunas que permite layouts diferentes trabalhando para criar movimentos e deixar a mesmice na composição da página. São diversos os elementos gráficos utilizados para compor as reportagens, como linhas de diferentes espessuras, caixas de texto, linhas tracejadas, elementos como esferas e ícones Os tipos de fontes são explorados em todas as suas possibilidades. Ora margem brancas são utilizadas para delimitar o espaço das fotos, ora a fotografia “sangra” a página e o texto se sobrepõe à foto ou entra numa caixa, enquanto linhas dão movimento à reportagem ou servem para separar conteúdos. A dimensão da revista (superior à das revistas clássicas, com 35 cm de altura e 28 cm de largura) ajuda a compor tantos elementos sem que todas as páginas fiquem poluídas. (Agradeço à designer Rebecca Fernandes pela preciosa ajuda). ͻ padrão gráfico da revista tende a um estilo moderno, senão ousado até, diferenciando-se de outras revistas que se dirigem ao mesmo público de elite com um padrão gráfico mais clássico, como a Isto é Platinum ou a Época São Paulo Luxo. Apesar do mídia kit apresentar o foco da revista como sendo “a vida dos paulistas”, seria mais justo dizer que a revista trata da vida de alguns paulistas privilegiados que frequentam os lugares já citados. Afinal de contas, o mesmo mídia kit anuncia que 100% dos seus leitores pertencem à “classe A”. Os numerosos anúncios que estampam as páginas da revista não deixam dúvida quanto ao público que esta pretende atingir: grifes globais, lojas conceituadas e produtos caros (à venda no próprio shopping ou em locais da cidade que almejam também um público de elite). Dirigida a uma parcela reduzida da população, a revista Cidade faz parte das publicações segmentadas que vêm sendo publicadas em número cada vez maior desde os anos 1990 (Mira, 2001). No entanto, não obedece à segmentação mais óbvia, a que divide homens e mulheres; a revista dirige-se a ambos. Apresenta em suas páginas, como informa o mídia kit, “tudo o que acontece de bom na cidade, incluindo moda, turismo, consumo, diversão, arte e cultura”. O sumário da edição de agosto de 2011, por exemplo, anunciava as seguintes matérias: Entrevista. O lifestyle de Ricardo Ferreira, o dono da Richards, se confunde com a filosofia da marca. Jardim. O perfil de Sébastien Bailly, o dono da Alexandre de Paris, a vida do empresário e atleta Amílcar Lopes Jr. e férias na Croácia. Decoração. A casa cheia de bossa do arquiteto Dado Castello Branco. Viagem. Ilha de Páscoa, o lugar habitado mais remoto do planeta. Mapa. A Xangai da stylist Vandinha Jacintho. Inverno desconstruído. Os contrastes de uma elegância poderosa. Prévia de verão. Diretamente das passarelas, as tendências para a próxima estação. Presente único. Para o dia dos pais, produtos que vão surpreendê-los. Trends. A volta da bolsa saco e terno para todas as ocasiões. Minitrends. Roupas para festa, mochilas para a volta às aulas e a linha infantil da Carolina Herrera. Afinidades eletivas. Esportistas x Geeks. Por dentro. A cobertura do Fashion Day, o quiosque da Scarf Me e a linha de joias de Ana Paula Junqueira. Cidade Jardim por Roberto Egydio de Souza Aranha e os filhos, Roberto e Theodoro. A linha editorial da revista mistura diferentes matérias, mas, apesar dela se dirigir tanto a homens quanto a mulheres, apresenta assuntos típicos de revistas femininas, tais como moda ou decoração. No entanto, para Mira (2001, p. 201), temas como decoração ultrapassaram o interesse feminino e mudam seu foco “de conforto doméstico para a busca de uma arte de ͻ viver”. Assim, nesta “busca”, o papel da revista passa a ser o de ensinar passos e transmitir os códigos certos a serem adotados para enquadrar-se em determinado estilo de vida. Nas palavras de Freire Filho: Vivendo numa conjuntura de alto risco e alta ansiedade, em que cada ato de compra ou de consumo expressa seu gosto, seus valores, sua visão de mundo, sua inserção social, sua identidade, as pessoas (com algum dinheiro no bolso) recorrem à opinião dos consultores de moda, ao testemunho das celebridades, aos conselhos dos especialistas em marketing pessoal, às colunas de estilo e etiqueta veiculadas em miríades de revistas femininas, masculinas, de negócios, moda, saúde e mais genéricas. Por intermédio de editoriais, artigos, reportagens, entrevistas, depoimentos, testes, publicidade e dicas de consumo, essas publicações fornecem descrições textuais e visuais daquilo que é conveniente em matéria de personalidade, economia, relacionamento afetivo, comportamento sexual, vestuário e beleza; oferecem, quinzenal ou mensalmente, os modelos e materiais a partir dos quais os leitores podem construir o seu senso do que significa – neste exato momento – ser uma pessoa de sucesso, popular, cool, in, fashion, descolada, atraente, sedutora e, por mais paradoxal que possa parecer, diferente. (2003, p. 75). Dessa maneira, a revista Cidade encarrega-se de “reconfortar” quem realmente pertence às classes altas (e compartilha seus códigos) de que fez as escolhas certas, mas também, e principalmente, ensina esses códigos a quem recentemente ascendeu socialmente e ainda não os domina. De fato, Por sua trajetória, as classes médias não possuem o capital cultural necessário para proceder às suas escolhas estéticas com desembaraço. Por não dominarem o mundo da cultura legítima, estão sempre destinadas, conforme diz Bourdieu, “a fazer demais ou não o bastante, mostrando-se inseguras quanto a suas opções”. (MIRA, 2001, p. 201). A edição de agosto de 2009 da revista, por exemplo, comemora a inauguração da loja Hermès, “uma das mais tradicionais grifes francesas”, com uma matéria de duas páginas sobre a marca.118 Na primeira página, apresenta para as leitoras a história dos dois modelos de bolsas mais famosos da marca: “Símbolo da Hermès, os modelos Kelly e Birkin são mais do que bolsas, são objetos de desejo. Conheça mais sobre elas.” Na edição seguinte da revista, de outubro de 2009, uma matéria de duas páginas119 ensina às leitoras como usar os lenços da mesma marca: 118 119 SARQUIS, K. “Hermès entrada triunfal.” In : Cidade, agosto de 2009. GABRIELLI, C.; RESENDE, F. e FRIEDRICH, K. “Amarre-se nessa ideia.” In: Cidade, outubro de 2009. ͻͺ Então vamos lá – que tal uma listinha de “jeitos de usar”? […] No pescoço os lenços podem ser amarrados justos, com pequenos nós na parte de trás […] No cabelo os lenços podem envolver rabos de cavalo […], podem emoldurar chapéus (chique), podem dar novo significado a um bad hair day quando cobrem todo o cabelo […] Há ainda quem ousa mais e usa pingentes no próprio lenço, como um maxicolar. Ou quem amarre toda essa seda nos pulsos e transforme o lenço em bracelete. Tem que experimentar, tem que se permitir. Ambas as matérias funcionam como anúncios da marca, mas vão além: elas permitem que seus leitores dominem novos códigos; no caso, aprendem a história da Hermès e das suas bolsas mais famosas, e como fazer um uso apropriado dos lenços da grife francesa. Na edição de dezembro de 2010, uma matéria anuncia a instalação, no shopping, da loja francesa de caviar Petrossian 120 , “lendária marca francesa importadora do melhor caviar russo”. Aqui também a revista se propõe a ensinar aos seus leitores não só como a “iguaria mais aristocrática da história” deve ser consumida, mas também como servi-la, e até um breve histórico, sempre com o aval de personalidades históricas ou contemporâneas, que fazem o papel de legitimadoras do consumo. Tradicionalmente degustado com vodka, bebida típica da Rússia, ou champagne, o caviar também merece companhia de; digamos, menor personalidade […] A chef de cozinha Rougui Dia, da filial parisiense da marca define: “Caviar é como um grande vinho: o melhor é degustá-lo do modo mais simples possível”[…]. A origem do caviar como iguaria data da Idade Média, em Constantinopla, quando a Igreja ortodoxa aprovou o alimento para ser consumido em dias santos, quando comer carne estivesse proibido […] Entre os fãs históricos da iguaria estão o bilionário Aristóteles Onassis, Sir Winston Churchill, Charles Chaplin e o estilista Christian Dior. Nas palavras de Featherstone: [...] o conhecimento se torna importante: conhecimento dos novos bens, seu valor social e cultural, e como usá-los de maneira adequada. Esse é, especificamente, o caso dos grupos aspirantes, que adotam uma atitude de aprendizes perante o consumo e procuram desenvolver um estilo de vida. Para esses grupos, como as novas classes médias, a nova classe trabalhadora e a nova classe rica ou alta, são muito importantes as revistas, jornais, livros e programas de rádio e televisão associados à cultura de consumo, que enfatizam o aperfeiçoamento, desenvolvimento e transformação pessoais, como administrar propriedades, relacionamentos e ambições, como construir um estilo de vida realizador. (1995, pp. 38-39, grifo nosso). 120 MAZZEI, F. “Petrossian da Rússia ao Cidade Jardim.” In: Cidade, dezembro de 2010. ͻͻ Estilo de vida parece ser um termo-chave na revista Cidade. Tal como visto no primeiro capítulo, Bourdieu (2003, p. 93) definiu o estilo de vida como o “conjunto unitário de preferencias distintivas que expressam, na lógica específica de cada um dos subespaços simbólicos, móveis, vestuário, linguagem ou hexis corporal, a mesma intenção expressiva”. O conceito adquire, no entanto, um novo sentido quando apropriado pela área da comunicação, conforme exposto por Freire Filho: Já a origem da aplicação da categoria estilo de vida, dentro da área da comunicação, parece estar ligada às tentativas de pesquisadores e publicitários de definir segmentos de mercado numa maneira mais refinada do que aquela oferecida pelos levantamentos demográficos. A partir da década de 50, apelos a estilos de vida particulares se tornaram progressivamente relevantes na propagada e na cultura do consumo em geral. Os especialistas haviam convencido-se de que os estilos de vida influenciavam tanto os padrões de consumo como o processamento de diferentes formas de ação de marketing […] Em linhas gerais, o estilo de vida reflete a sensibilidade (ou a “atitude”) revelada pelo indivíduo na escolha de certas mercadorias e certos padrões de consumo e na articulação desses recursos culturais como modo de expressão pessoal e distinção social […] (2003, p. 73). Assim, a ideia de “estilo de vida” (ou “lifestyle” em inglês) é central na revista Cidade. Vejamos alguns exemplos. Localizado no último andar do shopping, o Spa Cidade Jardim reúne o que há de melhor entre os melhores spas ao redor do mundo. Centro de lifestyle, oferecerá mais do que tratamentos para a pele e o corpo [...] Sua qualificada equipe multidisciplinar contará com fisioterapeutas, professores de educação física, lifestyle coachs (sic), entre outros especialistas [...] (Março/Abril de 2010, grifos nossos). Um casal em sintonia, Daniela Norbert e Luciano Burti selecionaram durante um passeio pelo Shopping Cidade Jardim os produtos que têm ligação com seu estilo de vida. (Março/Abril de 2010, grifos nossos). Em maio de 2010, o título de uma matéria anuncia: “O Spa Cidade Jardim chega para fazer do bem-estar um estilo de vida”, e explica: Para ajudar cada pessoa a colocar em prática o trabalho pela busca do bemestar, o spa conta com espaços de massagem e relaxamento, salas de fitness e também uma clínica médica com profissionais, como o endocrinologista Filippo Pedrinola, especialista em controle do stress, e o dermatologista Nuno Osório. Além disso, fisioterapeutas, orientadores de estilo de vida, especialistas em beleza, instrutores de corpo e mente e concierges de spa compõem uma equipe multidisciplinar de 18 profissionais envolvidos em criar um planejamento personalizado para cada membro. (Grifos nossos). ͳͲͲ O termo continua sendo empregado no decorrer das edições: Símbolo do lifestyle glamoroso da Côte d’Azur, a marca francesa Villebrequin, criada por Fred Pryskel, surgiu meio que por acaso. (Agosto de 2010, grifos nossos). O lifestyle de Ricardo Ferreira, o dono da Richards, se confunde com a filosofia da marca. (Agosto de 2011, grifos nossos). Assim, são apresentados, no decorrer das páginas de cada edição, estilos de vida diversos – mas sempre pautados pelo luxo –, que devem servir de inspiração aos seus leitores. São por exemplo matérias com dicas de consumo de viagens (sempre em lugares pouco comuns, como por exemplo a Ilha de Páscoa ou a Croácia121), restaurantes, produtos de beleza ou artigos de esportes, dadas por atores, cantores, designers, modelos ou socialites, que, ao ensinarem como usar determinados bens simbólicos, cumprem o papel de taste makers ou novos intermediários culturais (Bourdieu, 2003). Conforme Featherstone: É aqui que, mais frequentemente, encontramos a consciência de si do autodidata, preocupado em transmitir sinais adequados e legítimos por meio de suas atividades de consumo. Esse pode ser particularmente o caso do grupo que Bourdieu (1984) designa como “os novos intermediários culturais”, que atuam na mídia, design, moda, publicidade e em outras ocupações “paraintelectuais” de informação, cujas atividades profissionais envolvem o desempenho de serviços e a produção, comercialização e divulgação de bens simbólicos. Nas condições de uma oferta cada vez maior de bens simbólicos (Touraine, 1985), cresce a demanda por especialistas e intermediários culturais capazes de vasculhar diversas tradições e culturas para produzir novos bens simbólicos e, além disso, fornecer as interpretações necessárias sobre seu uso. Seus habitus, disposições e preferencias de estilo de vida são tais que eles acabam por se identificar com os artistas e intelectuais; todavia, nas condições de desmonopolização dos redutos de mercadorias artísticas e intelectuais, eles têm os interesses aparentemente contraditórios de sustentar o prestígio e o capital cultural desses redutos e, ao mesmo tempo, popularizá-los e torná-los acessíveis a públicos maiores. (1995, pp. 38-39, grifos nossos). Podemos observar que não é unicamente nas matérias da revista que o estilo de vida é central. De fato, os anúncios publicados na revista Cidade muitas vezes não apresentam produtos, mas também buscam comunicar e vender um determinado estilo de vida. A propaganda da rede de supermercados Pão de Açúcar, por exemplo, não anuncia produtos, mas indaga: “Um jantar com a companhia perfeita faz você feliz ?”, junto à foto de uma mão 121 Na revista Cidade de agosto de 2011. ͳͲͳ de homem servindo uma taça de vinho. Propagandas da grife francesa Louis Vuitton colocam em cena celebridades do mundo das artes, moda ou música; nas fotos, as bolsas da marca não têm o papel de destaque, e há legendas como: “A jornada de uma estrela, capturada em uma fração de segundos. Estúdio de Annie122, Nova York.” Em outras páginas, muitos anúncios de grifes europeias apelam para conceitos como tradição ou autenticidade. Por exemplo, os anúncios da Mont Blanc não vendem uma caneta, mas “a mais duradoura expressão de uma lenda” ou, no lugar de um relógio, “um tributo ao inventor do primeiro cronógrafo”. A propaganda da Hermès ressalta, brincando com as palavras, que a marca é “ artesão contemporâneo desde 1837”. Já a propaganda do relógio Cartier enfatiza que o calibre 1904 MC é o resultado de um século de paixão e busca da excelência técnica pela Cartier. Integrando um mecanismo automático criado, desenvolvido e fabricado pela maison, o relógio calibre de Cartier eleva a tradição relojoeira a um patamar mais exigente de sofisticação e perfeição.123 Como constata Lipovetsky, [...] numerosas campanhas publicitárias estão se afastando da encenação repetitiva do produto, privilegiando o espetacular, o lúdico, o humor, a surpresa e a sedução dos consumidores. A publicidade denominada « criativa » é a expressão desta mudança. Não se trata mais tanto de vender um produto, mas sim um estilo de vida, um imaginário, valores que provocam uma emoção. (2006, p. 86, grifos nossos). 5.1.1. As Colunas Sociais: a intimidade com a elite A revista não é feita exclusivamente de matérias sobre moda, decoração ou comportamento. Alternadas com os diferentes tipos de matérias, diversas páginas intituladas “Aconteceu” fazem a crônica das festas, lançamentos ou desfiles que ocorrem com regularidade nos corredores do shopping. Nessas páginas, aparece um breve resumo descritivo do evento, com as fotografias e os nomes das personalidades que dele participaram. Por exemplo: 122 123 Fotógrafa americana Annie Leibovitz. Anúncios da revista Cidade dos meses de outubro de 2010, maio e agosto de 2011. ͳͲʹ Made in Brazil A Tiffany & Co. rende-se ao charme brasileiro e inova. Pela primeira vez, a Tiffany & Co. produziu um editorial no Brasil, estrelado por Marina Sanvicente, para o lançamento da linha Tiffany Locks Collection. O projeto é da F*Clicks, criado com as blogueiras de moda especialmente para o shopping.124 O texto é emoldurado por retratos de diversas pessoas, posando para a foto, com seus nomes: Donata Meirelles e Giuliana Romano; Martha Veríssimo, Karen Pimentel, Camila Moura, Helô Gomes e Marina Sanvicente. Ou ainda, na página anterior: Cabeça feita. A loja Alexandre de Paris acaba de ser inaugurada e já é um sucesso. A mulherada enlouqueceu na abertura da primeira loja Alexandre de Paris na América Latina. Os acessórios incríveis para os cabelos, como favelas e tiaras montadas artesanalmente com pedras e acabamentos Swarovski. De novo, fotografias com nomes ilustram a matéria; Sébastien Bailly, Isabella Settanni, Ana Racy e Bel Pimenta Camargo Lati, Lelê Saddi, Roberta Whately, Isabel e Marcela Cimino, Izabella Nader Yunes, Sophia Alckmin. Observa-se que: x O nome e o sobrenome das pessoas fotografadas bastam como legenda para a foto, não havendo referência maior a quem são as pessoas, sua profissão, etc., dando a entender que o leitor da revista saberá identificar quem são, seja porque essas pessoas realmente são famosas, seja porque quem lê a revista é íntimo delas; x A sensação de intimidade é reforçada pelo emprego de apelidos e outros diminutivos como Bel Pimenta Camargo Lati; Lelê Saddi; Helô Gomes; x Esses diminutivos/apelidos são misturados a sobrenomes conhecidos, como, por exemplo, o de Sophia Alckmin. É possível fazermos uma analogia entre as colunas “Aconteceu” e a análise das colunas sociais da revista L’éventail, conforme descritas por Monique de Saint Martin em seu estudo sobre a nobreza francesa: 124 Edição de agosto de 2011. ͳͲ͵ O que muitos leitores da revista L’éventail, oriundos de famílias da nobreza ou da grande burguesia, buscam nessa revista lançada em 1986 é menos talvez completar a sua cultura geral lendo artigos sobre pintores, obras de arte ou escritores pouco conhecidos do que reconhecer parentes próximos, amigos ou conhecidos fotografados durantes recepções mundanas [...] O prazer de ser reconhecido é sem dúvida grande, pois são vistos em boa companhia e podem pensar que foram reconhecidos como importantes o suficiente para aparecer em fotografias que serão vistas e comentadas somente por uma elite restrita. (SAINT MARTIN, 1993, p. 40). Podemos supor que o leitor da revista Cidade tem, de maneira parecida ao da L’éventail, tanto (ou mais) interesse em tentar localizar, nas páginas da revista, pessoas conhecidas (sejam elas conhecidas pessoalmente ou “famosas”) como em ler matérias sobre viagens ou moda. Ver nas páginas da revista Cidade as fotos de um evento é uma maneira de se aproximar de quem lá estava presente e de sentir que pertence ao mesmo universo. Já quem aparece nessas fotos é legitimizado como verdadeiro porta-voz do estilo de vida do shopping e tem, nas palavras de Saint Martin, “o prazer de ser reconhecido”. Assim, por meio das suas matérias, colunas sociais e numerosos anúncios, a revista Cidade retrata – e ensina – um estilo de vida que tem, como principais pilares, o luxo, as viagens, as grifes, a gastronomia e os eventos. Será esse estilo de vida realmente o de quem frequenta o Shopping Cidade Jardim? 5. 2. O estilo de vida dos consumidores entrevistados Partindo do princípio que o Shopping Cidade Jardim hoje se configura como um dos polos de consumo de luxo mais importantes da cidade de São Paulo, espera-se encontrar ali consumidores com um estilo de vida condizente com este padrão luxuoso. E, de fato, apesar da análise revelar diferenças entre os diversos entrevistados, eles estão, nas palavras de Bourdieu (2003), unidos por “um conjunto unitário de preferências distintivas”, pautado por renda elevada, consumo de viagens nacionais e internacionais frequentes e, claro, marcas de luxo. 5.2.1. Perfil dos entrevistados O quadro I apresenta o perfil dos entrevistados: ͳͲͶ QUADRO-1. Tipo de Entrevista e Perfil dos Entrevistados Entrevistado 1 Tipo de entrevista Skype Sexo Idade Local de moradia Campinas Com quem mora M 56 anos 2 Pessoal F 3 Pessoal F Não informou 26 anos São Paulo/ Morumbi São Paulo/ Bela Vista São Paulo/ Real Parque São Paulo/ Real Parque São Paulo/ Jd. Paulista Fortaleza Marido 4 Pessoal F 5 Pessoal F Não informou 23 anos 6 Pessoal F 30 anos 7 E-mail F 59 anos 8 E-mail F 17 anos São Paulo/ Alto de Pinheiros Pais Estudante 9 E-mail F 17 anos Barueri/ Aldeia da Serra Pais e irmão Estudante 10 E-mail F 50 anos Sozinha 11 Pessoal F 25 anos 12 E-mail F 24 anos 13 E-mail F 23 anos 14 E-mail F 23 anos 15 E-mail F 27 anos São Paulo/ Morumbi São Paulo/ Vila Nova Conceição São Paulo/ Jardim Guedala São Paulo/ Cidade Jardim São Paulo/ Cidade Jardim São Paulo/ Alto de Pinheiros Esposa Marido Marido e filhos Pais e irmão Formação/ Ocupação Economista aposentado Psicóloga/ não exerce mais Publicitária Decoradora aposentada Estilista Marido Estilista Sozinha Empresária Empresária Faixa de renda pessoal Mais de R$ 15.000 Não respondeu125 Não respondeu Não respondeu126 Não respondeu Não respondeu Não respondeu Usa cartão de crédito ligado à conta dos pais Usa cartão de crédito ligado à conta dos pais Até R$ 15.000 Pais Administradora Não respondeu Pais Administradora Pais Advogada Entre R$ 5.000 e R$ 10.000 Até R$ 5.000 Mãe Estagiária restaurante Até R$ 5.000 Engenheira civil Entre R$ 5.000 e R$ 10.000 Pais e irmão A renda é a primeira variável que se coloca quando se pensa em consumo de luxo, já que, historicamente, o luxo esteve sempre associado às classes abastadas. É uma variável 125 126 Não quis informar renda pessoal, mas disse possuir renda familiar mensal de R$ 200.000,00. Não quis informar renda pessoal, mas declarou gastos familiares mensais de R$ 50.000,00. ͳͲͷ difícil de ser obtida e, por isso, decidimos organizá-la por faixas. Mesmo assim, alguns entrevistados recusaram-se a responder. Apesar do elevado padrão de vida, não há entre os entrevistados nenhum herdeiro ou pessoa que não necessite trabalhar. Todos eles pertencem a uma classe alta que assim se constituiu graças ao trabalho e depende dele (ou da aposentadoria) para manter-se. Exceto duas adolescentes, uma única entrevistada (nº 2) informou não depender de uma receita de trabalho próprio para viver, e citou a fazenda própria no Paraná como fonte de renda pessoal. Mesmo assim, ela contou que o casal dependia também da renda do marido, um empresário. Todos os entrevistados possuem nível superior de escolaridade, exceto uma empresária do ramo da moda (entrevistada n° 10). Três disseram ter pós-graduação e outras duas tinham planos de cursar uma. Duas entrevistadas acabaram de terminar o ensino médio e ambas manifestaram o desejo de entrar “em uma boa faculdade”. Exceto essas duas estudantes, todos trabalham ou já exerceram uma atividade profissional anteriormente. Entre as entrevistadas mais novas, o trabalho parece representar um meio de alcançar reconhecimento e independência financeira, muitas vezes sem que se dependa de um empregador: Meu objetivo de vida é ser bem-sucedida, isso é fato... Eu fico um pouco ansiosa porque tem gente da minha idade mais avançada... Mas eu corro atrás... Não quero deixar que ninguém pague minhas contas: meu pai me passou isso. Eu quero poder entrar numa loja e pagar com meu dinheiro, um anel, uma roupa, um sapato... Qualquer coisa, sem depender de homem... Sou uma pessoa um pouco consumista... (Entrevistada n° 9). Acho que, como a maioria das pessoas, sonho em crescer cada vez mais no meu trabalho e ser reconhecida pelo que eu faço. (Entrevistada n° 15). [Sonho em] virar empreendedora e fundar uma empresa de serviços. (Entrevistada n° 12). Quero abrir meu próprio negócio, provavelmente um restaurante. (Entrevistada n°14) Dessa maneira, entendemos que, nos termos de Bourdieu, foi por meio de um “investimento escolar” que os entrevistados (aqueles já na idade de trabalhar) tiveram acesso a uma boa profissão e, consequentemente, tornaram-se possuidores de “capital econômico” (1993, 2003). Por sua vez, este capital econômico permite que a próxima geração também se dedique aos estudos para alcançar o sucesso profissional e econômico, como é o caso das duas estudantes. Como observa Bourdieu: ͳͲ [...] o tempo durante o qual determinado indivíduo pode prolongar seu empreendimento de aquisição depende do tempo livre que sua família pode lhe assegurar, ou seja, do tempo liberado da necessidade econômica que é a condição da acumulação inicial (tempo que pode ser avaliado como tempo em que se deixa de ganhar). (1993, p. 76). 5.2.2 Atividades de Lazer Todos os entrevistados, sem exceção, têm o hábito de viajar com frequência, seja para fora da cidade onde moram (13 dos 15 entrevistados residem em São Paulo), seja para fora do Brasil. A frequência das viagens no Brasil, fora da cidade de residência, varia entre duas vezes por mês a duas vezes por semestre. Essas viagens têm muitas vezes como destino uma casa da família, que, por vezes, é uma segunda residência mantida para fins de lazer (diversas entrevistadas citaram uma “fazenda da família”), ou então é a residência de um parente (caso da entrevistada n° 11, que com regularidade visita a mãe e a avó em Belo Horizonte). Os destinos mais citados entre os entrevistados que moram em São Paulo (capital) são, em alguns casos, outro estado brasileiro (Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais) e, mais frequentemente, o “interior” e o litoral norte do estado de São Paulo. O “interior” – seja de São Paulo ou de outro estado, muitas vezes é apresentado como o lugar do reencontro com a família; “tenho fazenda no interior da Bahia, onde moram meus avós e sempre que posso também dou um pulinho lá, me faz muito bem os ares da fazenda e andar a cavalo é outra paixão que eu tenho.” (Entrevistada n° 13). Ou de reencontro com “um outro Brasil”, como no caso da entrevistada n° 2: Lá [uma fazenda no Paraná] é uma realidade completamente diversa... Lá, 50 reais é muito dinheiro para as pessoas que moram lá... As pessoas são carentes de absolutamente tudo [...] na fazenda, eu vivo com pessoas que são daquela área, que têm um nível cultural absolutamente crítico; são da terra, têm outro tipo de sabedoria, de modus operandi da vida. É muito interessante, eu não sei se eu gostaria daquilo para minha vida, mas para ir lá ver e conviver, eu acho o máximo. A maioria dos entrevistados disse viajar para fora do Brasil em média duas vezes por ano. O seu destino de predileção parece ser os Estados Unidos, que, em certos casos, devido à proximidade, é destino para “feriados curtos” até. Miami e Nova Iorque são os destinos ͳͲ favoritos. A Europa também é citada, mas com menor freqüência.127 Viagens mais “exóticas” não fazem parte da vida dos entrevistados, no máximo como sonhos ou planos, como no caso da entrevistada n° 13: “Quero fazer uma viagem pela Ásia, mais especificamente, Laos, Camboja, Vietnã e Tailândia. Estou me programando para que isso ocorra em julho de 2012.” Como vimos, as matérias sobre viagens publicadas na revista Cidade tratam de destinos como Tóquio, Jerusalém ou Xangai 128 , sempre introduzidos por brasileiros que, pela sua vivência, configuram-se em especialistas no assunto: Xangai, por Vandinha Jacintho. A stylist perdeu a conta de quantas vezes visitou a China quando comandava no país a produção de biquínis para a marca de fast fashion TopShop [...] Vandinha chegou a passar três meses em Xangai, tempo suficiente para estudar mandarim e conhecer de perto a cultura e a culinária locais. Jerusalém, por Sharon Weissman Beting. A empresária já visitou Jerusalém diversas vezes [...] Sharon, proprietária da marca SUB, fez questão de apresenta-la ao marido, Gianfranco Beting, e a seus filhos [...] em 2008. Dessa forma, Vandinha Jacintho, Sharon Weissman Beting e todos os demais empresários ou artistas que dividem suas dicas ao longo das edições da revista Cidade podem ser alçados a novos intermediários culturais, pelas suas vidas distantes da realidade dos entrevistados, suas escolhas e sua postura de “sustentar o prestígio e o capital cultural desses redutos (artísticos e intelectuais) e, ao mesmo tempo, [de] popularizá-los e torná-los acessíveis a públicos maiores”129. Fora as viagens, as atividades de lazer mais citadas pelos entrevistados são a leitura de livros, mas, com maior freqüência, de jornais – sobretudo O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo – e de revistas – mais especificamente, Veja, Exame, IstoÉ e Vogue, o cinema, a malhação e “os prazeres da mesa”; sair para restaurantes, receber ou ir à casa de amigos ou da família para almoços ou jantares. A atividade de lazer mais citada, sem dúvida, foi “fazer compras” ou “passear no shopping”: 127 Segundo a entrevistada n°3 : « Europa é para ir para museu, para igreja, para conhecer cidades… » e a entrevistada n°4 : « Cultura é Europa, e viagem de não fazer nada é Miami ! » 128 Nas revistas Cidade n°14, 21 e 23. 129 Featherstone, 1995, pp. 38-39 ͳͲͺ O consumo de luxo não é minha rotina. É um lazer, um lazer muito prazeroso, ver o que está usando, o que acontece... (Entrevistada n° 2, grifos nossos). Gosto de fazer compras, ir ao cinema, jantar/almoçar em restaurantes. (Entrevistada n° 8, grifos nossos). Gosto de ir ao shopping passear, fazer compras, olhar as vitrines. (Entrevistada n° 9, grifos nossos). Além disso, sou fascinada por moda, quando morei em Paris fiz um curso de styling na Parsons [...] invisto muito no guarda-roupa! (Entrevistada n° 13, grifos nossos). Lipovetsky lembra que o tempo dedicado ao lazer – sob suas mais diversificadas formas – vem crescendo sem parar e que, cada vez mais, o ato de comprar se configura como lazer. A atividade de consumo concebida como modo de vida e fonte de prazer nasceu no século XIX, com os Grands Magasins. Hoje esse etos universalizou-se e passou a abranger não somente as mulheres burguesas, mas também as camadas populares e os mais jovens; o ato de comprar passando a ser uma ocupação lúdica, um divertimento para todos. São faces inteiras do consumo que viraram experienciais, semelhantes a uma shopping party [...] Já se falou muito do quanto a publicidade erotizava a mercadoria, criava um meio festivo, um clima de sonhos acordados e de estímulo permanente dos desejos. Isto continua. O momento é o da teatralização dos pontos de venda, das animações diversas, ao “marketing experiencial” que procura criar um ambiente de convívio e de desejos, de introduzir prazer no ato de frequentar pontos de venda. (Lipovetsky, 2006, tradução nossa). Se os entrevistados raramente revelam viajar no intuito de fazer compras, o consumo de roupas e também de acessórios de moda, ou de maquiagem – todos de grandes grifes – e, às vezes, de eletrônicos, é sempre parte do roteiro da viagem; um momento de lazer.130 Porque Nova Iorque é incrível, a nightlife, o número de museus lá... Mas também é incrível para comprar... (Entrevistada n° 3, grifos nossos). No 1º encontro com minhas amigas em Miami, a gente ia fazer um chá de lingerie para a minha amiga, aquelas brincadeiras de adivinhar o presente... A gente aproveitou para ir num outlet, né... Fez totalmente parte do roteiro, porque o preço de lá é imbatível, IM-BA-TÍ-VEL... Comprei uma bolsa de couro por US$ 19... É assim, ridículo! O dólar tá muito baixo, então... Você vê muita gente voltando com carrinho de bebê, babá eletrônica, vi muitas famílias voltando com essas coisas de Miami... (Entrevistada n° 5). Comprar no Brasil, a coisa boa é a facilidade de poder dividir... Quando tô fora, sinto uma diferença muito grande, você se sente quase na obrigação de comprar [...] (Entrevistada n° 11, grifos nossos). 130 A única exceção é a entrevistada n° 2, que vai a Nova Iorque com regularidade especificamente para comprar roupas ou acessórios de grife que vende aos seus conhecidos no Brasil. ͳͲͻ Nas compras fora do país, os entrevistados buscam grifes internacionais, em sua maioria de luxo. Muitas destas já estão hoje disponíveis no Brasil, mas a um custo superior. Em Nova Iorque, fui em lojas que existem aqui no Brasil, que tenho acesso nos Jardins ou no Cidade Jardim, mas que não tenho acesso a comprar... Não compro... só se eu precisar muito, até porque não sou idiota, sabendo quanto custa lá fora, vou me sentir assaltada. (Entrevistada n° 3, grifos nossos). Em Nova Iorque, tem umas marcas que eu tenho preferência... Sapatos, eu gosto de Miu Miu, Prada, então eu vou sempre dar uma olhada [...] Calças jeans, eu sempre compro da Seven, aqui é um absurdo, lá é muito barato. (Entrevistada n°11, grifos nossos). Quando viajo, gosto muito de comprar calças da Seven for all Mankind, bolsas e sapatos (e todas as marcas, LV, Gucci, Prada, Marc Jacobs, Balenciaga...), roupas baratinhas e descoladas na H&M e na Top Shop, e outras marcas que aparecerem pela viagem, mas nada muito especifico. Ah, fico horas fazendo compras nas farmácias (La Roche, Avene) e Sephora (maquiagens de todas as marcas), pois os produtos são muito mais baratos do que no Brasil. (Entrevistada n° 15, grifos nossos). As viagens internacionais são referência na formação do gosto dos entrevistados em matéria de consumo. É nessas viagens que conhecem as marcas internacionais de luxo vendidas no Brasil e obtêm uma referência de preços. Devido à frequência das suas viagens fora do país, costumam comprar determinados produtos fora do Brasil, revelando, apesar do seu padrão de vida elevado, terem consciência do dinheiro que gastam. 5.2.3 O luxo segundo os entrevistados A maioria dos entrevistados atribui seu gosto pelo consumo de luxo a influências familiares. Este gosto vindo “de casa”, natural, que não necessitou de contribuição externa para ser apreendido, insere-se naquilo que Bourdieu chama de ideologia do gosto natural: Como todas as estratégias ideológicas geradas na luta de classes cotidiana, a ideologia do gosto natural naturaliza as diferenças reais, convertendo em diferenças de natureza as diferenças nos modos de aquisição da cultura e reconhecendo como sendo única legítima a relação com a cultura (ou com a língua) que deixa transparecer o menos possível os rastros de sua gênese, não tendo nada de “aprendido”, “afetado”, “estudado”, “escolar” ou “livresco”, manifesto na facilidade (...) que a verdadeira cultura é natural, novo mistério da Imaculada Conceição. (Bourdieu, 2003, grifos do original, tradução nossa). ͳͳͲ Quando se trata de luxo, a figura da mãe mostra-se bastante presente131 na fala dos entrevistados em seu processo de formação do gosto: Tem uma boa parte que é influência da minha mãe, uma pessoa superantenada em moda, o que inclui grifes de luxo. (Entrevistada n° 3). A minha mãe sempre me passou essa ideia de andar com elegância... (Entrevistada n° 11). Sem dúvida [meu gosto por marcas de luxo vem] da minha mãe e da minha madrinha, elas são superelegantes e clássicas – diria que, pra mim, são o exemplo de “chic”. (Entrevistada n° 13). Ademais, apesar do extenso rol de marcas de luxo que dizem comprar, quando indagados a respeito de uma definição da palavra “luxo”, os entrevistados desvinculam o termo da ideia de consumo e procuram relacioná-lo a algo mais subjetivo, menos concreto, quase simples e até sem relação com dinheiro: É estar bem com você mesma, não importa onde você esteja, com quem [...] Luxo pessoal é você estar bem... Você pode estar com uma camiseta branca, mas, se você está se sentido bem, tá ótimo... (Entrevistada n° 2). Para mim, é educação e cultura, mais do que exibir marcas pelo corpo. Ingênuo aquele que acha que ostentar que tem grana é luxo. Gastar à toa é desperdício de tempo e de energia. (Entrevistada n° 10). Luxo? É tudo aquilo que afaga de alguma forma o seu estado de espírito. (Entrevistada n° 13). Luxo para mim é poder ter ou poder fazer aquilo que você gosta, aquilo que te faz bem e feliz. (Entrevistada n° 15). A ideia de “experiência”, no sentido de “momento especial”, tão cara aos executivos do marketing e à qual Lipovetsky refere-se constantemente, também é frequentemente associada ao luxo pelos entrevistados: 131 Somente a entrevistada n° 12 disse que seu gosto por marcas de luxo vinha das suas viagens e de revistas e blogs. Os blogs de moda/estilo têm se constituído como importantes intermediários culturais ; as blogueiras postam neles fotografias das roupas que vestem, o nome dos cosméticos/perfumes que usam, e dos lugares que frequentam. O blog da Lala (http://lalarudge.com.br/), de duas irmãs da elite paulistana, citado pela entrevistada n° 11, apresenta diariamente looks cuidadosamente descritos bem como dicas de beleza e comportamento. ͳͳͳ [Luxo é] conforto principalmente... quando você vai para o aeroporto, você pode pegar um táxi especial, é um luxo, você paga mais por isso... Uma viagem, você poder viajar em uma classe executiva... É a qualidade também... Quando você vai ficar num hotel cinco estrelas, você espera um tratamento especial... É uma questão de ser especial, sabe... Tem aquela coisa de te encanta [...]. Tem a questão da experiência... (Entrevistada n° 11, grifos nossos). O que se presencia é um desejo da parte dos entrevistados de desvincular o luxo de uma esfera puramente material e de atrelá-lo a noções mais subjetivas. Apesar de todos os entrevistados levarem uma vida materialmente confortável e em que o consumo faz parte das suas atividades de lazer, poucos foram os que relacionaram o termo ao mundo mais concreto do dinheiro e do consumo. Esta tentativa de “desmaterializar” o luxo, de não o relacionar a status ou mesmo a marcas, parece ligada à vontade de demonstrar um tipo de consumo “adequado”, como veremos à frente. 5. 3 O Shopping Cidade Jardim pelos seus consumidores Ao contrário de que eu pude observar em minha pesquisa sobre a loja Daslu, nenhum dos entrevistados precisou ser introduzido ao Shopping Cidade Jardim por um conhecido, como ocorria com a loja. O fato de a Daslu ter iniciado suas atividades em um espaço fechado de casas da Vila Nova Conceição, e depois ter se mudado para uma loja na Marginal Pinheiros que simulava uma mansão de estilo neoclássico, parecia intimidar os consumidores, que precisavam de um “tutor” que os encaminhasse à loja pela primeira vez. Enquanto os consumidores “tradicionais” eram em geral apresentados à loja por um membro da família e a frequentavam “desde sempre”, os recentes eram levados por um conhecido já “iniciado”: Eu trabalhava num escritório de consultoria de moda, e sempre falavam na Daslu, Daslu, Daslu, e começou a me despertar a curiosidade [...] E aí, um sábado, combinei e fui com uma amiga [...] Todo mundo tem medo de ir à Daslu a primeira vez sozinha... Precisa de alguém que já tenha ido! (GAZUREK, 2008, p. 52). Já no caso do Shopping Cidade Jardim, se a comunicação direta entre as pessoas (o boca a boca) foi um fator determinante em sua divulgação, não parece ter havido necessidade dos consumidores novos serem levados por conhecidos em sua primeira visita ao shopping. Isto se deve muito provavelmente ao fato do shopping ter sido inaugurado recentemente e, ͳͳʹ portanto, ter colocado todos os seu potenciais frequentadores em pé de igualdade – não havendo um grupo de consumidores tradicionais – e também ao fato dele não ser, ao contrário da Daslu, o espaço de uma loja só. Assim, a maioria dos entrevistados dizem ter conhecido o shopping porque pessoas conhecidas comentavam, e pelas numerosas matérias em jornais e revistas que anunciavam a inauguração de “um shopping de luxo”132: [...] A primeira coisa foi o boca a boca... Um amigo que me contou, ou a minha mãe... Depois eu vi os anúncios, mas quando estava vendo os anúncios da Sarah Jessica Parker133, já sabia o que era... Mais pelo boca a boca [...] (Entrevistada n° 3). Assim que inaugurou, acho que tinha dois meses de inaugurado, eu estava aqui, o [meu irmão] também estava aqui... Eu estava de passagem antes de ir para Itália... Um dia saímos juntos e falamos, “vamos conhecer o shopping novo, está todo mundo falando, o Shopping Cidade Jardim”. (Entrevistada n° 6). [...] Fizeram uma máster divulgação, como shopping de luxo: “Vai ter várias lojas legais, vai ser meio aberto, vai ter sala Premier Bradesco.” Aí ficou todo mundo meio curioso... (Entrevistada n° 11). Duas entrevistadas contaram ter ficado sabendo do shopping porque foram avisadas na época do lançamento dos apartamentos. Uma delas mora em um apartamento do empreendimento junto com a mãe, e a avó mora no mesmo prédio. Todos os entrevistados, antes da inauguração do Shopping Cidade Jardim, já eram consumidores de um dos centros de consumo do circuito do luxo de São Paulo134: as lojas da rua Oscar Freire e arredores, nos Jardins, e o Shopping Iguatemi foram os mais citados; o Shopping Morumbi e o Market Place também foram destacados por alguns dos entrevistados. Se o Cidade Jardim não foi a porta de entrada para os centros de consumo de luxo na cidade, hoje ele é o preferido. E isso apesar de diversos entrevistados apontarem o fato dele possuir uma variedade menor de lojas em relação a outros centros do consumo. Se o sortimento de lojas é menor no Cidade Jardim, e se diversas das lojas ali presentes existem nos centros já citados, o que faz com que ele seja o locus preferido pelos entrevistados para a prática de consumo de luxo? 132 Já no levantamento de matérias que fiz em minha pesquisa sobre consumidores da Daslu, pude perceber que a Daslu começou a ser noticiada na mídia com frequência somente a partir da sua mudança para a loja da Marginal Pinheiros, sendo até então reservada a poucos iniciados. 133 Atriz americana e ícone fashion, foi a primeira garota propaganda do shopping. 134 E também, como vimos, de lojas de grife fora do Brasil. ͳͳ͵ 5.3.1 Segurança e Praticidade: os chamarizes do consumo em espaço fechado Apesar de todas as entrevistas terem ocorrido nos meses que se seguiram aos assaltos às lojas do shopping, a questão da segurança proporcionada pelo consumo em um espaço fechado foi uma das razões mais evocadas pelos entrevistados escolherem o Shopping Cidade Jardim. Para Pintaudi, Os SC criam um microambiente de felicidade, onde parece não existirem problemas, o que, aliás, é uma das preocupações da administradora do empreendimento e que tem garantido o afluxo de pessoas. No SC, os indivíduos que têm capacidade de consumo sentem-se mais “protegidos” para realizar suas compras, além de se sentirem num lugar confortável, o que estimula o consumo. No Brasil, particularmente, esta “ilha da fantasia” começa nas portas dos SC, porque a brutal disparidade na distribuição dos rendimentos afasta deles a imensa maioria da população. (1992, p. 28, grifos nossos). Percebe-se que o medo de assalto é comum entre os entrevistados e que, em função disso, diversas medidas de segurança são tomadas. Entre elas, por exemplo, frequentar um shopping em vez de lojas de rua. Não ando na rua aqui... Morro de medo... Somos uma família um pouquinho medrosa... Aconteceram coisas assim, não conosco, graças a Deus, mas aconteceram coisas com amigos nossos... E um deles, foi com as filhas... Então a gente tem medo, não anda a pé, a nossa vida é de carro... na Europa é muito bom, a gente anda mesmo... Você está em Paris, vai correr de manhã, anda de manhã, no centro... Isso é uma das coisas que eu tenho muita dó do nosso país... É uma das coisas que a gente ponderou bastante... [Meu filho] ia fazer residência lá nos Estados Unidos por conta desse problema... Pela segurança, eu até toparia que meu filho fosse embora... [...] Eu tenho bastante medo, meu marido tem medo... O motorista fez curso de segurança, de direção segura... a gente aprendeu a não seguir do mesmo lado do prédio... Se vê uma pessoa estranha, não entra... Semáforo, você fica de olho... E aí tem que ter carro blindado... A gente tem medo mesmo, eu morro de medo... de uma bala perdida (risos...) (Entrevistada n° 4). Portanto, segundo a fala dos entrevistados, andar na rua é uma atividade que praticam unicamente em suas viagens fora do Brasil. Aqui, não consideram a possibilidade: A Oscar Freire é rua e não shopping. Eu não ando na rua em São Paulo, em nenhuma [...] por segurança. (Entrevistado n° 1). ͳͳͶ Mas eu acho que andar na rua em São Paulo... em todo lugar do Brasil, mas em São Paulo é muito pior. Eu não ando na rua, a não ser nos Jardins, porque lá tem bastante segurança. (Entrevistada n° 2). Os assaltos às duas joalherias do shopping, amplamente divulgados pela mídia, foram lembrados em diversas entrevistas. Apesar do ocorrido, a sensação de segurança conferida pelo espaço fechado e vigiado não parece ter sido abalada: Acho que aqui tem segurança, apesar de todos os assaltos que aconteceram... (Entrevistada n° 2). Esse discurso das classes altas a respeito da (falta de) segurança na metrópole foi analisado, como já vimos no capítulo IV, por Caldeira, para quem esta fala reforça a desigualdade e, ao criar “diferenças sociais e [...] meios para a afirmação de distância e desigualdade sociais”135 , se opõe francamente aos princípios da cidadania democrática. O desejo de estabelecer fronteiras entre grupos sociais, presente de forma explícita no discurso dos entrevistados, será analisado no decorrer deste capítulo. Outro aspecto que, na fala dos entrevistados, caminha ao lado da preocupação com a segurança é o da praticidade proporcionada pelo shopping, pelo fato deste concentrar em um espaço único diversos tipos de serviços e lojas. Tomamos como exemplo o entrevistado n° 1, que não mora em São Paulo, mas vem com frequência à capital: Quando vou a São Paulo, tento concentrar todas as minhas atividades lá no Cidade Jardim. Almoços, jantares, cafés com amigos, com pessoas de negócios, compras, lanches com a mulher, amigos ou filhos [...] É de fácil acesso, gostoso, evito o trânsito de São Paulo, tem boas opções. Não é parada obrigatória, mas tento ficar lá ou por perto o máximo possível. (Entrevistado n° 1). Em seu texto Os shoppings de São Paulo e a trama do urbano: um olhar antropológico, de 1992, Frúgoli Jr. já observava como a segurança e a praticidade estavam presentes na fala dos consumidores que entrevistou: “Olha, o shopping é um lugar protegido, com lojas concentradas, e que oferece todas as opções para quem está na cidade a passeio, e mesmo para quem mora em São Paulo”, comenta uma professora universitária, de 41 anos de idade. “Aqui é um ponto de referência para encontros, com várias possibilidades: cinema, café, compras etc. É um lugar onde a gente pode vir só, numa boa, sem se sentir inibida”, esclarece outra entrevistada, uma vitrinista de 27 anos. (1992, pp. 79-80). 135 2000, p. 259. ͳͳͷ 5. 3.2. A Arquitetura e “algo a mais” Outro ponto frequentemente apontado pelos entrevistados para justificar sua preferência pelo Shopping Cidade Jardim é a sua arquitetura peculiar. Como já foi observado no capítulo IV, diferentemente da maioria dos shopping centers, o Cidade Jardim é construído em torno de jardins interiores, possuindo uma abertura a qual permite que sejam percebidas as variações do tempo e da luz do dia. O fato de não se tratar de um espaço totalmente fechado – no sentido de deixar penetrar a luz natural – é apontado como uma grande vantagem. A arquitetura dele é bem incomum... Essa coisa de ter a árvore no meio... Não tem em nenhum outro... Os shoppings no Brasil, eles todos seguem o mesmo modelo, o mesmo padrão... uma lojinha atrás da outra, um circuito que você tem que fazer, com praça de alimentação... Esse daqui não, é tudo mais integrado... O cinema fica em um lugar específico, mas é tudo integrado... Seu passeio não fica cansativo... e tem verde... Acho ele bem agradável... Eu gosto, para mim ele não tem problema nenhum, acho ele ótimo... (Entrevistada n° 2). [O que eu mais gosto do shopping] é a luz, o projeto arquitetônico, é um lugar sem muita circulação. (Entrevistada n° 10). Quando descrevem o shopping, os entrevistados recorrem facilmente a referências oriundas das suas viagens internacionais; muitos comparam o Cidade Jardim ao Bal Harbour Shops, em Miami, conforme a fala de uma entrevistada: “Eu me sinto em Miami! É a cópia fiel do Bal Harbour, né... O [meu marido] fala, ‘me sinto viajando’...” (Entrevistada nº 4). O fato do Shopping Cidade Jardim ser um centro de compras de luxo arquitetonicamente diferente da maioria dos outros shoppings faz com que, aos poucos, vá se tornando parte do roteiro “de passeio” não somente para quem mora em São Paulo, mas também para quem está de passagem pela cidade, como o seria, por exemplo, um museu136. A entrevistada n° 7, empresaria que mora no Nordeste, disse vir para São Paulo entre duas e três vezes por ano. Nessas oportunidades, busca shows, concertos, exposições, e sempre vai ao Shopping Cidade Jardim. Lá, seu lugar preferido é o terraço, com seus restaurantes e “jardim” com vista para a Marginal Pinheiros. 136 Padilha relata os resultados de uma pesquisa orientada por ela, na qual 20% de uma amostra de 88 estudantes universitários apontou o Shopping Iguatemi São Carlos como um “fato histórico marcante da cidade” e 18% como “um importante ponto turístico” (2006, p.79). ͳͳ Em diversas visitas exploratórias ao Shopping Cidade Jardim, deparei-me com estrangeiros; depois do português, o inglês e francês eram as línguas que mais se ouviam nos corredores do shopping. A prática de “turismo” no Shopping Cidade Jardim foi retratada em diversas entrevistas: Trouxe a minha afilhada que veio de Curitiba para passar um fim de semana comigo... Trouxe para o cinema com a poltrona que reclina... Isso é o máximo, só tem aqui. (Entrevistada n° 2). Vem bastante gente de fora, a família toda do meu namorado, os grandes amigos, são todos de fora... A irmã [do meu namorado] mora em Nova Iorque, o irmão mora em Miami... Então, a nossa turma por parte dele é toda de lá... Sempre que vem gente de lá, mesmo o amigo de Miami, que tem o Bal Harbour que [as pessoas] dizem que é o que o Cidade Jardim copiou... Ele diz que não, aqui [o Shopping Cidade Jardim ] é muito mais bonito... (Entrevistada n° 4). A este respeito, Gilles Lipovestky escreveu em ensaio para a revista Época São Paulo Luxo137: O universo das lojas de luxo não é mais o que era: em pouco mais de duas décadas, pode-se dizer que sua fisionomia mudou [...] Neste novo período, as grandes marcas de luxo lançaram-se em novos projetos faraônicos. Multiplicaram-se com rapidez, no mundo inteiro, flagship stores e megastores como “templos” para exaltar as marcas [...] E, nesse contexto, as lojas de luxo se tornaram edificações de arte, sendo ao mesmo tempo polos de atração para um grande público. Transformaram-se, assim, em pontos turísticos de massa: as pessoas vão visitar a Louis Vuitton da Avenue des Champs Elysées como visitam Beaubourg ou a Torre Eiffel, não vão mais a Tóquio sem passar pela loja-conceito Prada.138 Mas, além da arquitetura, há algo mais no Shopping Cidade Jardim que parece seduzir os entrevistados. É, como o descreveu uma das entrevistadas (nº 2), “uma coisa assim de savoir vivre, não é? Tem um charme, o saber viver, sabe... tem uma mantinha, o ventilador, essa parte aberta...” Ou seja, como o definiu a entrevistada n° 11, “uma experiência...” Assim, a tal experiência é incorporada pelos consumidores que, em seus discursos, mostram-se atraídos e seduzidos pelo fato do shopping lhes oferecer algo mais do que um conjunto de corredores com lojas. 137 Edição 02, novembro de 2010. A loja de Tóquio de seis andares da Prada, projetada por de Meuron e Herzog [...] criou um novo tipo de prédio: parte cartaz, parte embalagem de presente arquitetônica [...]. Os arquitetos empilharam a loja quase toda numa torre de cinco lados com o topo pontiagudo que se ergue próximo a uma esquina do local, deixando o resto aberto como uma praça pública. Dado o custo do terreno nessa cidade, trata-se de um gesto generoso, até mesmo extravagante. (SUDJIC, D.; 2010, p. 148-149). 138 ͳͳ Dessa forma, segurança, praticidade, arquitetura e experiência são alguns dos motivos trazidos pelos entrevistados para justificar sua preferência pelo Shopping Cidade Jardim. A segurança, conforme já vimos, é um tema recorrente quando se trata de comunicar às elites os espaços que lhes são destinados. Já a praticidade, a arquitetura diferenciada e a experiência foram amplamente divulgadas nos press releases bem como em diversos materiais de comunicação do Shopping Cidade Jardim.139 Os entrevistados se mostraram sensíveis a essa comunicação. Em sua pesquisa com consumidores do Shopping Iguatemi, Frúgoli Jr. já tinha chamado a atenção para a força daquilo que a propaganda transmite na formação da opinião dos consumidores: Boa parte desse público, predominantemente feminino, responde eficazmente aos apelos a um consumo sofisticado. Na maioria das entrevistas feitas com seus frequentadores, apenas se reitera a imagem veiculada pela propaganda institucional, enfatizando exatamente o que as estratégias de marketing pretendem realçar. Eles tributam a “preferência” pelo SC às facilidades e comodidades oferecidas em meio às grandes campanhas promocionais. (1992, p. 79). Entendemos que a análise feita por Frúgoli Jr. (1992, p. 79) a respeito do consumo no Iguatemi, e a partir da qual conclui que a “eficiência não está apenas na venda do produto, mas encontra-se sobretudo no consumo da imagem por seus frequentadores”, é igualmente válida para o consumo no Shopping Cidade Jardim: além das mercadorias em suas lojas, consome-se claramente a imagem de segurança, praticidade e sofisticação projetada em seus anúncios. 5. 3.3 Frequentar o Shopping Cidade Jardim: significados O desejo de não se misturar Como vimos, centros de consumo como o Morumbi, o Iguatemi ou a rua Oscar Freire e seus arredores já eram frequentados pelos entrevistados antes da inauguração do Shopping Cidade Jardim. Muitos deles ainda frequentam um ou mais desses centros. No entanto, em função das características descritas no capítulo anterior e neste (mais exatamente, a sua localização de difícil acesso sem carro, a sua segurança, a sua arquitetura peculiar e o seu conjunto de lojas de luxo), o Shopping Cidade Jardim configura-se como um espaço de 139 Ver capítulo IV. ͳͳͺ práticas diferentes em relação a esses outros espaços de consumo de luxo. Isto fica claro na fala dos entrevistados. O diferencial [do Shopping Cidade Jardim] é não ser um shopping para comprar... Eu não vou para o Cidade Jardim para comprar: eu vou para o Iguatemi. (Entrevistada n° 3, grifos nossos). Lá [no Shopping Cidade Jardim] eu sempre vou acompanhada, ou com meus pais, ou com [meu namorado], que é mais para aproveitar o shopping do que para comprar. O Shopping Cidade Jardim é mais para passear, comer, dar uma volta... Para comprar, eu vou mais aqui nos Jardins, na Oscar Freire, ou no Iguatemi, porque é o mais perto [de casa]. (Entrevistada n° 6, grifos nossos). Quem vai ao Cidade Jardim está querendo algo mais tranquilo, uma experiência... Se a pessoa realmente estiver procurando luxo, comodidade, tranquilidade, uma experiência de passear... Cada um tem um conceito de passear, para mim passear é andar tranquilo, sem esbarrar nas pessoas... Acho que a pessoa que está procurando isso, ela vai no Cidade Jardim, ela não vai no Iguatemi, que está lotado no fim de semana; você chega lá e não tem vaga para parar o carro... E o shopping lá tem de tudo, tem Almanara, tem praça de alimentação com McDonald’s... No Shopping Cidade Jardim, você não vê isso. No Shopping Cidade Jardim, não rola de ir rápido... Eu vejo o Shopping Cidade Jardim como um “programa” e o Shopping Iguatemi como uma facilidade... Sei que tem tal loja, etc... Quando quero passear, vou no Cidade Jardim. (Entrevistada n° 11, grifos nossos). Assim, enquanto o Shopping Cidade Jardim é descrito pelos entrevistados como “um programa”, um lugar “mais para passear, comer, dar uma volta....”, ou seja, um local no qual tem-se prazer em permanecer, o Shopping Iguatemi, que por muitos anos deteve o monopólio do status de “shopping de luxo”, ainda hoje é visto como um lugar ainda de luxo, mas, acima de tudo, “prático”, pela grande quantidade de lojas que concentra e, especialmente, pelo fato de se localizar em uma avenida de fácil acesso. Assim, ele é o lugar onde se faz compras, mas onde a quantidade e a diversidade de frequentadores chegam a incomodar. Neste sentido, no apêndice do seu livro Shopping Center, a catedral das mercadorias, intitulado “Daslu: a morada dos Deuses”, Valquíria Padilha descreve a então recéminaugurada Villa Daslu e seu esquema reforçado de segurança, e provoca: ͳͳͻ Se no shopping center “comum” da classe média e alta brasileira, a segurança é um dos itens mais lembrados quando se justifica a escolha de ir a esse local, na Daslu a segurança é um luxo necessário, assim como todos os produtos ali vendidos. A Daslu introduziu no Brasil o chamado shoppingbunker, ou um shopping-abrigo, superprotegido. Como sugere Neto 140 , talvez os shopping centers, mesmo os mais sofisticados como o Iguatemi ou o Villa-Lobos, na capital paulista, tenham se tornado “democráticos” demais para o gosto da classe alta paulista. (2006, p. 192) Neste texto, poderíamos certamente substituir “Daslu” por “Shopping Cidade Jardim”: a Villa Daslu não representa mais o mesmo do que na época da publicação do livro de Padilha; devido a numerosos acontecimentos141, perdeu poder, marcas e, consequentemente, glamour. Neste meio-tempo, o Cidade Jardim foi ganhando espaço e, pelas suas caraterísticas, pode ser hoje considerado o mais novo “shopping-bunker” da cidade de São Paulo. Teriam, como sugere Padilha, esses shoppings outrora conhecidos pelo seu público elitizado se democratizado demais e seriam eles não mais exclusivos o suficiente no gosto dos seus frequentadores? As nossas entrevistas apontam para esse sentido, já que a homogeneidade do público do Cidade Jardim é citada com extrema frequência pelos entrevistados como um dos diferenciais do shopping: O Shopping Iguatemi também tem sofisticação, mas como ele é mais central, tem mais gente entrando... Aqui [no Shopping Cidade Jardim] não, é mais restrito [...] É, o Iguatemi fica em uma zona comercial e residencial, tem escritórios ao redor... E também ele é muito mais antigo, muito mais conhecido... Aqui, o acesso é restrito. Você não chega aqui nem a pé, nem de ônibus... Só de táxi ou de carro... Eu acho ótimo [risos] Acho que isso diferencia um pouco o público [...] (Entrevistada nº 2). O que o Shopping Cidade Jardim tem de diferente dos outros shoppings é o público mais selecionado, o leque de lojas igualmente selecionadas e o ambiente mais agradável. (Entrevistada n° 13). A homogeneidade do público elitizado fica ainda mais evidente quando os entrevistados descrevem o “cliente típico” do Shopping Cidade Jardim. 140 A autora refere-se a uma matéria do jornalista Alcino Leite Neto. disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult682u123.shtml. 141 Sobre o histórico da loja Daslu, ver introdução nota 23. ͳʹͲ Tem mais pessoas com idade acima dos 40, mais gente bem apresentada, mais gente melhor educada, mais gente acostumada com produtos e serviços de luxo. Essas pessoas podem ser vistas também em outros shoppings, mas misturadas com muitas outras pessoas de características diferentes. (Entrevistado n° 1) Pessoas mais bonitas... É um lugar onde você vê mais gente selecionada... Tem um pouco mais de seleção (Entrevistada n° 4). Mulher 28/30 anos, chique, dona de casa, casada com empresário ou profissional atuante na área de mercado de capital, banco, corretora etc, bem-sucedido. (Entrevistada n° 13). Assim, entende-se que, mais do que somente um espaço de consumo, como hoje é visto o Shopping Iguatemi, o Shopping Cidade Jardim configura-se por meio de “um pacto seletivo e excludente” 142 como um espaço onde membros das classes altas sentem-se à vontade e sabem que encontrarão seus pares. Isto pode ser resumido na fala de uma das entrevistadas: A frequência também faz muita diferença, você andar em um ambiente com pessoas do seu nível socioeconômico e cultural é mais agradável e você sempre encontra conhecidos, bate um papo... (Entrevistada nº 13). Dessa forma, o que se busca ao escolher o Shopping Cidade Jardim e não outro centro de consumo de luxo da cidade de São Paulo é o afastamento de grupos sociais com os quais não há identificação, e o encontro com pessoas do mesmo meio ao qual se pertence (ou ao qual deseja-se pertencer), as classes média alta e alta paulistana. A noção do shopping como espaço de construção de identidade e de relações sociais é trabalhada por Padilha : o shopping center não é simplesmente espaço de aquisição de coisas – é também um espaço de construção da identidade. Um espaço onde há o imperativo de ser percebido: as pessoas frequentam shopping centers também para serem vistas e percebidas pelos outros [...] O consumo como expressão da solidariedade do grupo torna-se não o mero significado para o ‘estilo de vida’, mas a representação do ‘estilo de vida’. (2006, p. 134). Desta maneira, ao frequentar o Shopping Cidade Jardim, seus consumidores reivindicam o pertencimento a um determinado grupo, o da elite paulistana, e ao estilo de vida desta elite, idealizado nas páginas da revista Cidade. 142 Frúgoli Jr., 1992, p. 80. ͳʹͳ Consumo de luxo e capital cultural Se o Cidade Jardim garante uma homogeneidade de frequentadores superior a dos outros shoppings da cidade, há quem repare nos indivíduos que destoam dos frequentadores costumeiros. Segundo uma das entrevistadas, a exposição de bonecas Barbie organizada pela Mattel entre março e julho de 2009, no espaço que a loja Tools & Toys passaria a ocupar, foi um marco para determinadas mudanças no público frequentador: A Mattel fez trabalho social de levar pessoas de escolas para a exposição, e teve um trabalho de divulgação muito bacana... muita gente ficou sabendo... Eu senti muita diferença: acabou a exposição, o tráfego era outro... E não só em quantidade como estilo. Antes eram só uns gatos pingados, e aí começou a ir gente que não era da “nata nata nata”, e recentemente comecei a reparar que tem muita gente que frequentaria o Jardim Sul... Você vê que a pessoa se arrumou muito, que colocou a melhor roupa para ir [...] Você vê que a pessoa usou a melhor roupa; uma classe C+ vai... Já tem.. Tem uma B-... É muito possível que a pessoa só circule... mas o shopping hoje já tem opção para ela... tem um quiosque de sorvete; tem um quiosque de sucos.... Antes não tinha... Tem uma papeteria... E tem todo esse fetiche de ir pro Cidade Jardim... (Entrevistada nº 2). No mesmo sentido, uma das consumidoras enxerga na inauguração do segundo piso, o que tem a maior concentração de lojas nacionais, o momento da chegada de uma variedade maior de consumidores: Só que desde que abriu o segundo andar, acho que mudou um pouco [...] Mudou, eu acho que sim... porque abriram lojas mais comerciais 143 ... Richard, Siberian, Hering... Tem Animale, VR, Polishop, abriu muita loja infantil. (Entrevistada nº 5). Mas, além dessas pessoas de nível social inferior, os entrevistados identificam dentro do próprio grupo pessoas a quem não desejam se assemelhar. São pessoas que, como elas, possuem excelentes condições financeiras, mas que, na visão dos entrevistados, frequentam o 143 Essa entrevistada é formada em moda e trabalha no estilo de uma rede de lojas de departamentos estrangeira implantada no Brasil. A palavra ‘comercial’, empregada por ela, designa aquilo que é destinado a agradar um público abrangente. Opõe-se ao termo ‘fashion’, utilizado para peças destinadas a públicos seletos, com informações de moda. Nota-se que a maioria das lojas que ela cita não podem ser consideradas lojas de grande público pelos preços que praticam. No entanto, em relação à maioria das lojas do Shopping Cidade Jardim, especialmente do piso térreo, acabam sendo consideradas destinadas a um público maior. ͳʹʹ Shopping Cidade Jardim pelos motivos errados. Tomamos como exemplo a fala da entrevistada n° 2: Acho que quem mora perto vem aqui... e tem [...] uma peruagem, um povo que precisa estar aqui, ser visto aqui, eu não sei se isso é impressão minha? Não é a maioria, mas... Já encontrei com várias pessoas que me disseram: "Ah não, minha academia, só no Cidade Jardim..." Acho que é um “lance” de andar por aqui, porque é um lugar que é elegante... A fala da entrevistada nos conduz à ideia de que ao “povo que precisa ser visto aqui” se opõem os indivíduos que sabem consumir luxo da maneira correta, a saber, aqueles com os quais os entrevistados querem ser identificados. Como vimos na análise das falas a respeito da definição de luxo, o consumo de luxo “certo” é aquele que se aprende desde cedo, dentro da família, que ensinou a reconhecer o que é bom. Nas palavras de Bourdieu: O aprendizado quase natural e espontâneo da cultura se distingue de todas as formas de aprendizado forçado, não tanto como o quer a ideologia do ‘verniz’ cultural, pela profundidade e a durabilidade de seus efeitos, mas pela modalidade da relação com a cultura que ele favorece. Ele confere a certeza de si, correlativa à certeza de deter a legitimidade cultural, verdadeiro princípio do desembaraço ao qual identificamos a excelência; ele produz uma relação mais familiar e ao mesmo tempo mais próxima e mais desenvolta com a cultura, espécie de bem de família que sempre conhecemos e do qual nos sentimos o herdeiro legítimo: a música não são os discos e a eletrola dos vinte anos, graças aos quais descobrimos Bach e Vivaldi, mas o piano da família, ouvido desde a infância e vagamente praticado até a adolescência; a pintura não são os museus, de repente descobertos no prolongamento de um aprendizado escolar, mas o cenário do universo familiar. (Bourdieu, 1994, p. 97). Este tipo de consumo, legítimo porque praticado em decorrência de um capital cultural incorporado desde a tenra idade, opõe-se ao consumo praticado pela mera intenção de ostentação. Conforme Silvio Passarelli144, parte dos consumidores compra por variáveis socioculturais; outra parte por ostentação. São perceptíveis os dois grupos... Um sabe o que está comprando, e o outro não [...] Tem 15, 20 anos que a economia se abriu. Então, muitos dos consumidores são consumidores de um país fechado; eles foram formados no consumo de um país que tinha uma dificuldade muito grande no relacionamento com o resto do mundo. Então isso criava o quê? Criava uma barreira ao entendimento da proposta do produto... 144 Diretor da faculdade de artes da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e idealizador do MBA em Gestão de Luxo da mesma entidade, em entrevista concedida em maio de 2007 durante a minha pesquisa de iniciação científica. ͳʹ͵ Assim, os habitués – que reivindicam consumir no Shopping Cidade Jardim pelas razões certas – reparam nos que aparentam pertencer ao outro grupo; pessoas (que em sua opinião não pertencem à elite paulistana) que, ao se dirigirem ao Shopping Cidade Jardim, buscam acima de tudo o status. Um dia, parei para pensar: um milionário [...] tem acesso a Miami muito fácil. Ele não precisa comprar aqui [...] Agora tem o wannabe, o cara ou é novo-rico, que precisa esbanjar, que precisa falar que foi lá, ou o cara do interior de Goiás, que não vai querer de jeito nenhum viajar, ou que não tem acesso ao custo lá de fora, ou para quem é mais importante falar que comprou no Brasil porque todo mundo sabe que é mais caro. (Entrevistada n° 3). Hoje em dia eu tenho a ideia de dois tipos de clientes do Shopping Cidade Jardim: tem a pessoa super rica, que gosta da ideia de um lugar superexclusivo, que não é lotado, que compra coisas que compraria na Oscar Freire e no Iguatemi. Hoje o Iguatemi ficou lotado também. Mas acho que no Cidade Jardim tem também muito cliente do Interior. Você andando por lá hoje escuta muito sotaque, eu acho que tem uma coisa de status; acho que muita gente vai lá hoje e compra por status... (Entrevistada n° 6). D’Angelo observa que “distinção agora não é ter o produto de luxo, mas adquiri-lo corretamente (pelos motivos ‘legítimos’ e com capital cultural apropriado)” (2006, p. 128). Ou seja, não basta possuir um artigo de grife; tem de saber usá-lo. O mesmo se pode dizer a respeito do consumo no Shopping Cidade Jardim: para as pessoas com quem conversamos, não basta frequentar este local para pertencer ao grupo; tem que estar lá pelas razões certas e saber consumir da maneira correta. ͳʹͶ Considerações finais No Brasil, os trabalhos que buscam entender especificamente o consumo de luxo são quase exclusividade de áreas tais como a administração, a economia ou a psicologia. Nas ciências sociais, ainda há poucos estudos que dão foco a este tema. No entanto, o assunto vem despertando cada vez mais o assunto da mídia. Apesar de ainda ser um fenômeno recente no país (pode se falar do início de um consumo de produtos de luxo após a chamada “abertura dos portões” nos primeiros anos da década de 1990), o consumo de luxo vem crescendo com velocidade, especialmente nas capitais. Na cidade de São Paulo, os precursores foram a loja Daslu e o Shopping Iguatemi, inaugurados respectivamente no final dos anos 1950 e 1960. No entanto, é somente a partir de 2005, e da mudança da Daslu para a Marginal Pinheiros, que o cenário do luxo na cidade se consolidou, com a abertura de diversos shoppings dirigidos a consumidores de produtos e serviços de alto padrão, todos na região sudoeste da cidade, ao longo do rio Pinheiros. Entre eles, o Shopping Cidade Jardim, inaugurado em 2008, destaca-se por nascer como um complexo de luxo, fazendo parte de um empreendimento que incorporava torres residenciais e escritórios. Devido a suas características peculiares, foi ele o escolhido como objeto de estudo deste trabalho. O objetivo desta dissertação de mestrado foi o de entender o significado do consumo de luxo praticado no Shopping Cidade Jardim. A leitura de obras de sociologia e antropologia urbana, discutida no capítulo III, permitiu-nos entender a importância da localização do shopping dentro da região que se configurou como o novo centro da cidade, ou, nas palavras de Fix (2001), “a nova cidade”. Já as visitas feitas ao shopping no intuito de elaborar uma etnografia, relatadas no capítulo IV, nos permitiram constatar as diferenças arquitetônicas e conceituais do Shopping Cidade Jardim em relação a outros shoppings da cidade. A primeira grande diferença é que a maioria dos shoppings, como ressalta Frúgoli Jr., são locais confinados, servidos por uma uniforme climatização ambiental, em que o tempo parece não passar [...] Não há chuvas, nem calor excessivo [...] (1992, pp. 76 e 77.) ͳʹͷ Ao passo que as lojas no Shopping Cidade Jardim são organizadas em torno de um jardim aberto, com plantas e árvores, o que permite aos consumidores terem contato tanto com a luz do dia como com as intempéries. Constatou-se também que os materiais usados em seu interior destoam do que se vê em outros shoppings, sobretudo naqueles de alto padrão com os quais concorre: não se vê mármore, nem colunas, mas um piso cor de areia e numerosas plantas tropicais que conferem relativa simplicidade e “brasilidade” ao local. No entanto, apesar dessas diferenças, o Shopping Cidade Jardim apresenta diversos pontos em comum com outros shoppings de São Paulo e do resto do Brasil, propondo iguais benefícios e “atrações funcionais” (Padilha, 2006) como: conveniência do estacionamento, praticidade de oferecer diversas lojas e serviços em um espaço só, e a segurança de um espaço fechado e vigiado. Se os shoppings “comuns” destinam-se às classes médias, ou, nas palavras de Padilha, àquela “classe privilegiada que entende os códigos dessas ‘ilhas urbanas da pósmodernidade’” (2006), o Shopping Cidade Jardim vai além, dificultando o acesso de quem não tem carro e restringindo o consumo a uma parcela menor da população, a qual não se intimida com a grande quantidade de lojas de grifes nacionais e internacionais. Dessa maneira, a etnografia nos permitiu entender que, pela sua localização, pelo público que visa atingir, bem como pelo fato de ser cercado por equipes de seguranças e pelos muros do condomínio Parque Cidade Jardim (verdadeiro “enclave fortificado”, nas palavras de Caldeira), o Shopping Cidade Jardim configura-se com espaço excludente por excelência. Por sua vez, a análise da revista Cidade, no capítulo V, distribuída nas dependências do shopping e em alguns outros espaços de consumo e de lazer reservados à elite, nos permitiu entender que as pessoas que ali escrevem ou são entrevistadas, pela sua função de ensinarem a usar determinados bens simbólicos, são alçados, nos dizeres de Bourdieu, ao status de “novos intermediários culturais”. Foi possível concluir que a revista, por meio de entrevistas, matérias sobre temas tão abrangentes quanto decoração, viagens, esportes ou culinária, e de colunas sociais, busca representar o estilo de vida da elite que frequenta o Shopping Cidade Jardim. Ainda no capítulo V, analisamos a fala dos entrevistados a respeito de sua renda, ocupação, gostos, preferências e escolhas de atividades de lazer, bem como de sua relação com o luxo; elementos que constituem seu estilo de vida. Apesar de todos os entrevistados demonstrarem possuir um nível de vida mais elevado de que a média dos brasileiros, constatou-se que nenhum deles pertence à tradicional elite ͳʹ paulistana. São oriundos de famílias que enriqueceram graças ao seu trabalho e, se admitem ter o consumo como lazer e expressam gosto por grifes de luxo, por vezes também demonstram preocupação com seus gastos. Deixam por exemplo de consumir determinados artigos no Brasil, pois sabem que os encontrarão a um preço mais baixo em suas viagens para fora do país. Mesmo assim, afirmam que gosto que possuem pelo luxo vem de família, buscando demonstrar a posse de capital cultural incorporado e desvincular o luxo de algo puramente material. Ao contrário de que foi visto na revista Cidade, observa-se que as viagens dos entrevistados costumam ter dois destinos principais: os Estados Unidos, com muita frequência, e a Europa, em alguns momentos; desta maneira, a revista assume o papel de algo claramente idealizado, desejado ao tratar de viagens para lugares exóticos. A nossa hipótese inicial de trabalho era a de que o público que busca consumir no Shopping Cidade Jardim o faz em função do desejo de ali estabelecer e/ou reforçar relações sociais visando à distinção. No capítulo I, a discussão teórica sobre os significados do consumo contrapôs os autores franceses Jean Baudrillard – para quem liberdade e soberania do consumidor não passam de mistificação – e Pierre Bourdieu – para quem as escolhas de consumo do indivíduo estão determinadas pelo habitus e visam à distinção – a autores dos estudos culturais (entre os quais Mary Douglas, Grant McCracken, Mike Featherstone), os quais veem o consumo como parte do processo de construção identitária, em que os objetos viram suportes fundadores de laços comunitários. Examinou-se também uma corrente de pensamento encabeçada pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky: para o autor, o consumo assume uma característica subjetiva e pessoal na qual o hedonismo e a busca por experiências (tema amplamente explorado pelos profissionais de marketing) têm um papel central. Outros autores discutem uma perspectiva subjetiva do consumo, como Colin Campbell, que refuta a ideia de um consumo distintivo e atribui ao prazer decorrente do devaneio que antecede o ato do consumo a razão pela qual se busca sempre consumir mais. Já Valquiria Padilha escreve que “o olhar sociológico para a ‘sociedade de consumo’ [...] se enriquece quando penetra o espaço da subjetividade” e sugere que o consumo seja tratado “como uma produção da sociedade e do eu, ou seja, como uma apropriação de códigos, estilos e modas feita no interior de cada indivíduo, nos espaços sociais” (2006, pp. 133-134). Baseada nessa discussão, a análise da fala dos entrevistados nos permitiu demonstrar que os consumidores que costumam frequentar o Shopping Cidade Jardim, antes da distinção, procuram o encontro com pessoas do meio ao qual pertencem (ou ao qual desejam pertencer); ͳʹ na fala de uma das entrevistadas, “a frequência também faz muita diferença, você andar em um ambiente com pessoas do seu nível socioeconômico e cultural é mais agradável e você sempre encontra conhecidos, bate um papo”. Este meio é o das classes média alta e alta paulistanas, cujo estilo de vida é retratado nas páginas da revista Cidade. A análise das entrevistas ainda revelou que a busca de distinção, mais do que em relação a outros grupos sociais, dá-se dentro do próprio grupo que ali consome, pela posse de capital cultural incorporado. Foi possível entender que, para ser considerado legítimo membro do grupo de consumidores do Shopping Cidade Jardim, não é suficiente consumir os seus produtos. É importante, conforme Bourdieu, saber consumir. Neste sentido, o consumo de luxo visando à ostentação é repudiado; e quem o pratica é discriminado, chamado, conforme uma das entrevistadas, “de peruagem, um povo que precisa estar aqui, ser visto aqui”. Assim, conclui-se que, se o consumo de luxo pode ser praticado em diversos shoppings ou lojas da cidade de São Paulo, busca-se consumir no espaço do Shopping Cidade Jardim para demonstrar o pertencimento a um grupo de elite e afastar-se de outras classe sociais com as quais não se deseja misturar ou ser confundido, o que não seria possível, por exemplo, no Shopping Iguatemi, em função desse estar localizado em um lugar mais central e de mais fácil acesso a um público diversificado em termos de perfil socioeconômico. ͳʹͺ Referências Bibliográficas AB’SABER, A. O sítio embrionário de São Paulo. In: MALTA CAMPOS et al. (Org.) São Paulo, metrópole em trânsito, percursos urbanos e culturais. São Paulo, editora Senac, 2004. ALLÈRES, D. 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Detalhe dos prédios: Manacás Área privativa: 480, 38 m2- 1352, 91 m2. Begônias Área privativa: 235, 26 m2-593, 65 m2. Magnólias Área privativa: 292, 78 m2- 693, 95 m2. Resedá Área privativa: 394, 36 m2- 976, 19 m2. Tuias Área privativa: 749, 34 m2- 1885, 55 m2. Jabuticabeiras Área privativa: 593, 53 m2- 1397, 89 m2. Zíneas Área privativa: 394, 36 m2- 976, 19 m2 Limantus Área privativa: 292, 78 m2- 693, 95 m2; Ipês Área privativa: 235, 26 m2- 593, 65 m2 2) As torres comerciais: Em comum, os prédios têm: ͳ͵ Vista para o bairro mais nobre de São Paulo; Elegante lobby com pé direito duplo; Pé direito livre de 2,75 m; “Business center”; Ar Condicionado tipo VRF; Prumadas hidráulicas extras; Forro modular em panéis termo acústicos; Estacionamento vip com self parking/ vallet; Acesso ao heliponto; Áreas técnicas independentes nos andares; Edifício inteligente com avançada infra estrutura; Elevadores de última geração; Elevadores de serviço com pé direito especial; 4 a 9 vagas por escritório privativo; 4 toilets femininos e 4 toilets masculinos por andar, mas infra-estrutura para toilets adicionais. Detalhe dos prédios: Capital Building Escritórios de 92, 09 m2 a 572, 45 m2 Park Tower Escritórios de 355, 91 m2 a 742, 50 m2 Continental Escritórios de 736, 21 m2 a1824, 10 m2 3) O shopping center: Área Bruta Locável (ABL) total: 36.300 m2; Lojas: 150 ; Total de cinco pisos: x ²Ǣȋ±Ȍ x ȋǡ͵Ȍǡ x ÙǢ x Ǣ x Tráfego de consumidores: 9.000.000 (25 mil/dia); ͳ͵ͺ Tráfego de veículos anual: 1.600.000; Empregos diretos: 1.600; Vagas de Estacionamento: 1.500; Âncoras: Academia Reebok, Spa Cidade Jardim, Daslu, Zara, Livraria da Vila com Casa do Saber, Cinemark. FIGURA 11- Mapa do empreendimento Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/20_EDICAO1 consultado em 03/10/2011 ͳ͵ͻ ANEXO B – Plantas do Shopping Cidade Jardim FIGURA 12- Planta do piso térreo do shopping tal como estava na etnografia em fevereiro de 2011 Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/13_EDICAO+14 FIGURA 13- Planta do primeiro piso do shopping tal como estava na etnografia em fevereiro de 2011 Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/13_EDICAO+14 ͳͶͲ FIGURA 14- Planta do segundo piso térreo do shopping tal como estava na etnografia em fevereiro de 2011. Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/13_EDICAO+14 FIGURA 15 - Planta do terceiro piso do shopping tal como estava na etnografia em fevereiro de 2011 Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/13_EDICAO+14 ͳͶͳ FIGURA 16- Planta do quarto e quinto piso do shopping tal como estava na etnografia em fevereiro de 2011 Fonte: http://www.shoppingcidadejardim.com/revista/13_EDICAO+14 ͳͶʹ ANEXO C - Roteiros das entrevistas 1 Entrevista semiestruturada realizada diretamente com o entrevistado Aquecimento Apresentação da entrevistadora. Explicação sobre o objetivo da pesquisa. Agradecimento pela participação. Explicação da dinâmica da entrevista e pedido de autorização para gravar. Informação de que os dados são confidenciais e que a identidade do entrevistado nunca será informada. Caracterização pessoal Primeiro nome: Idade: Estado civil: Sexo: Estado em que mora Bairro/cidade onde mora: Escolaridade: Ocupação: Faixa de renda mensal individual: Até R$ 5.000 De R$ 5.000 a R$ 10.000 De R$ 10.000 a R$ 20.000 De R$ 20.000 a R$ 30.000 De R$ 30.000 a R$ 50.000 Mais de R$ 50.000 Hábitos de lazer/ consumo O que você gosta de fazer nas horas de lazer? Explorar vida social; programas com amigos; listar os lugares que costuma frequentar; leituras: que tipo (livros, revistas...); cinema: onde, frequência, preferências de filmes; o que ouve, o que vê na TV, etc... Ver se aparece espontaneamente o “passeio no shopping” como opção de lazer Com que frequência viaja a lazer fora de São Paulo? E fora do Brasil? Nas eventuais viagens que faz, costuma fazer compras? (Se sim, onde?) Quais são as marcas internacionais que você procura/consome nessas viagens? ͳͶ͵ Viaja no intuito de fazer compras? Se sim, que tipo de compra? De onde você diria que vem seu gosto por grifes/marcas de luxo? O Shopping Cidade Jardim: Como o conheceu? Há quanto tempo você frequenta o shopping Cidade Jardim? Com que frequência você vai ao Cidade Jardim? Com quem costuma ir ao Cidade Jardim? O que você costuma fazer no Cidade Jardim? Explorar se: compras/ academia/ almoça/ janta/ cinema... Acontece de ir ao Cidade Jardim somente para passear? Quais são os lugares de que você mais gosta no Cidade Jardim? Por quê? O que você mais gosta do shopping? Por quê? O que menos gosta do shopping? Por quê? O que você acha que ele tem de diferente de outros centros de lazer/compras? O que você acha que ele tem de parecido com outros centros de lazer/compras? Como você descreveria o cliente típico do Cidade Jardim? Explorar: Sexo, idade, “jeitão”, profissão. Essa pessoa é diferente de compradores de outros shoppings? Que marcas você consome no Cidade Jardim? Que lojas frequenta? Que outro(s) lugar(es) você costumava frequentar/fazer compras antes de conhecer o Cidade Jardim? Que marcas nacionais procura com frequência? Tem outro(s) lugar(es) onde ainda vai para fazer as mesmas atividades que faz no Cidade Jardim? Pedir para comparar o Cidade Jardim com outros lugares que costuma frequentar. Como seria sua vida se o Cidade Jardim não existisse mais? Definição pessoal da palavra “Luxo.” Agradecer e encerrar. ͳͶͶ 2 E-mail de apresentação e roteiro de entrevista por e-mail __________________, boa noite, tudo bem? Meu nome é Marie-Océane; _____________ me passou seu contato. Como ela talvez tenha lhe falado, sou francesa, socióloga, e sou aluna Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP. O tema da minha dissertação é basicamente o consumo de luxo em São Paulo, e meu objeto o Shopping Cidade Jardim. A parte prática da minha pesquisa consiste, entre outras coisas, em realizar entrevistas com consumidores desse shopping. A _______________, que foi uma das entrevistadas, comentou que você também talvez pudesse responder. Normalmente faço as entrevistas em algum café ou no próprio shopping, mas a _____________ comentou que seria mais fácil realizar essa entrevista por e-mail, por isso encaminho para você o roteiro de perguntas por aqui. Fique à vontade para escrever o quanto quiser, e caso também prefira não responder a alguma pergunta, não há problema. O seu nome não será divulgado e, caso eu use algum depoimento seu em minha dissertação, será feito com um nome inventado. Se aceitar responder, peço para que, por favor, me reenvie esse roteiro de perguntas preenchido dentro dos próximos dez dias. Caso tiver alguma dúvida, estou à disposição. Agradeço pela atenção e a gentileza, você pode ter certeza que sua participação é muito impotante para minha pesquisa! Até logo, Marie-Océane ͳͶͷ Caracterização pessoal Primeiro nome: Idade: Estado civil: Sexo: Estado em que mora: Bairro/cidade onde mora: Escolaridade: Ocupação: Caso ainda não tenha ocupação remunerada, por favor explique como funciona. Ex: recebe mesada dos pais, usa um cartão ligado à conta deles, etc. Faixa de renda mensal individual: Até R$ 5.000 De R$ 5.000 a R$ 10.000 De 10.000 a R$ 20.000 De R$ 20.000 a 30.000 De R$30.000 a R$50.000 Mais de R$ 50.000 Hábitos de lazer/ consumo O que você gosta de fazer nas horas de lazer? (Envolve tanto seu lazer privado, aquilo que gosta de fazer sozinho(a), quanto aquilo que faz com amigos/família.) Você tem o hábito de ler livros? Você lê ou assina algum jornal ou revista? Se sim, qual(is)? Tem o hábito de ver TV? Se sim, quais canais? Tem o hábito de ir ao cinema? Com que frequência? Com que frequência viaja a lazer fora de São Paulo? E fora do Brasil? Nas eventuais viagens que faz, costuma fazer compras? Se sim, onde? Quais são as marcas internacionais que você procura/consome nessas viagens? Viaja no intuito de fazer compras? Tipo de compra? De onde você diria que vem seu gosto por grifes/marcas de luxo? ͳͶ O Shopping Cidade Jardim: Como o conheceu? (Como/quando ouviu falar a primeira vez?) Há quanto tempo você frequenta o Shopping Cidade Jardim? Com que frequência você vai lá? Com quem costuma ir ao Cidade Jardim? (sozinho(a), com família, amigos?) O que você costuma fazer no Cidade Jardim? (compras/ academia/ almoça/ janta/ cinema... etc.) Acontece de ir ao Cidade Jardim somente para passear, sem o intuito de fazer compras? Quais são os lugares que você mais gosta no Cidade Jardim? Por quê? O que você mais gosta do shopping? Por quê? O que menos gosta do shopping? Por quê? O que você acha que ele tem de diferente de outros centros de lazer/ compras? O que você acha que ele tem de parecido com outros centros de lazer/ compras? Como você descreveria o cliente típico do Cidade Jardim? Sexo, idade, jeitão, profissão? Essa pessoa é diferente de compradores de outros shoppings? Que marcas (nacionais e internacionais) você consome no Cidade Jardim/ ou lojas que frequenta? Que outro(s) lugar(es) você costumava frequentar /fazer compras aqui em São Paulo antes de conhecer o Cidade Jardim? Tem outro(s) lugar(es) onde ainda vai para fazer as mesmas atividades que faz no Cidade Jardim, aqui em São Paulo? Se hoje ou Cidade Jardim deixasse de existir, como o substituiria? Para encerrar: qual é sua definição pessoal da palavra luxo? Obrigada! ͳͶ