f Artigo O presente t r a b a l h o busca d i s c u t i r u m tema a t é então p r e v a l e c e n t e no c a m p o da p s i c o l o g i a e p r o f u n d a m e n t e a r r a i g a d o a u m a concepção g e n é t i c a e d e t e r m i n i s ta de h o m e m - a s u p e r d o t a ¬ ção. N u m c o n t r a p o n t o , propomos uma leitura psicanalít i c a d o t e m a , e n f o c a n d o prep o n d e r a n t e m e n t e casos de n e u r o s e , p a r t i n d o da h i p ó t e s e de q u e a c o n s t i t u i ç ã o c o g n i tiva se e n c o n t r a em estreita relação com a constituição p s í q u i c a do s u j e i t o . A p a r t i r dessa p r e m i s s a , p r o p o m o s uma a r t i c u l a ç ã o entre o desejo de saber em Freud e em L a c a n , t e n d o c o m o pressuposto q u e as q u e s t õ e s referentes à i n t e l i g ê n c i a , neste referencial, sofrem u m deslocam e n t o dos a s p e c t o s b i o l ó g i co, a m b i e n t a l i s t a e / o u interac i o n i s t a , estabelecendo-se sob p r i m a d o da s e x u a l i d a d e , e s t a n d o , em m u i t o , a s s o c i a d a ao m o d o c o m o o s u j e i t o se e n c o n t r a referido à c a s t r a ç ã o e à d e m a n d a do Outro. Superdotação; psicanálise; desejo; saber; sexualidade A SUPERDOTAÇÃO NA NEUROSE: UMA ARTICULAÇÃO ENTRE O DESEJO DE SABER E O GOZO 1 Elizabeth "O THE GIFTED CHILD ON THE NEUROSIS: AN ARTICULATION BETWEEN THE WISH OF KNOWING AND THE JOUISSANCE This work seeks for a discussion on a prevailing issue — until now, at least — in the field of Psychology, which is deeply rooted on a genetic and deterniinist concept of man: the gifted. On the other hand, we propose a Psycho-analytic reading on the issue focusing on the neurosis cases since the hypothesis that the cognitive constitution is closely related with the Psychic constitution the subject. Starting from this premise, we propose an articulation between the wish of knowing on Freud and Lacan, presupposing that the issues concerning to intelligence, in this reference, suffer a displacement of the biologic, environmental and/or interactional factors, setting itself under the primacy of sexuality, and being strongly associated to the way the subject is referred to castration and the Other's demand. Gifted child; Psycho-analysis; wish; knowing; sexuality uma sujeito maneira repetindo dos R e i s é levado Sanada a comportar-se essencialmente indefinidamente propriamente de significante, algo que lhe falando, é, mortal." Jacques Lacan O presente trabalho busca discutir psicana¬ l i t i c a m e n t e u m t e m a até e n t ã o p r e v a l e c e n t e n o c a m po da psicologia e p r o f u n d a m e n t e arraigado a u m a concepção genética e determinista de h o m e m superdotação. T e n d o e m vista que a cognitiva se e n c o n t r a constituição em estreita - a constituição relação com a psíquica, t e n t a r e m o s d e m o n s t r a r a ne- c e s s i d a d e d e e s t a b e l e c e r u m a n o v a l e i t u r a p a r a a sup e r d o t a ç ã o , c a p a z d e a b o r d a r as q u e s t õ e s referentes à s i n g u l a r i d a d e d o sujeito, apresentando-se para u m estudo n o referencial psicanalítico isso lacaniano. Doutoranda e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da U S P . É a p a r t i r d e s t a p r o p o s i ç ã o q u e d i s c u t i r e m o s a c o n c e p ç ã o psic a n a l í t i c a d o p r o c e s s o de e s t r u t u r a ç ã o p s í q u i c a , d a n d o ênfase e x c l u sivamente à constituição neurótica, buscando abordar, entre outros, c o n c e i t o s c o m o o de d e m a n d a , desejo, a l i e n a ç ã o , s e p a r a ç ã o , traço u n á r i o e metáfora paterna; a fim de circunscrever de q u e m a n e i r a o s u j e i t o se e n c o n t r a referido ao significante s u p e r d o t a d o e como i s s o se r e f l e t i r á e m s u a r e l a ç ã o c o m o s a b e r e o g o z o . A s s i m , p a r a i n i c i a r , nos r e m e t e m o s ao i n s t a n t e e m q u e a c r i a n ç a c o m e ç a a i n t e r r o g a r d e o n d e v ê m os b e b ê s , n a t e o r i a freudiana, p a r a d i z e r q u e e m L a c a n esse m o m e n t o questiona- eqüivaleria a u m m e n t o d o s u j e i t o s o b r e o l u g a r q u e ele o c u p a n o d e s e j o d o Outro - " O q u e ele q u e r de m i m , a l é m d o q u e m e d e m a n d a ? " Essa p a s s a g e m c o r r e s p o n d e ao m o m e n t o te, a o m o m e n t o da a l i e n a ç ã o s i g n i f i c a n - d a c a r ê n c i a d o s u j e i t o , n o q u a l este a p a r e c e a p a g a - d o s o b o s i g n i f i c a n t e S . A d e s a p a r i ç ã o dar-se-á a p a r t i r d o s u r g i 2 m e n t o d e Sj n o c a m p o d o O u t r o q u e , p o r s u a v e z , r e p r e s e n t a r á sujeito para outro significante - S sob o 2 -, condenando-o o a desaparecer mesmo. Desta operação resulta o saber. Saber e s c a n d i d o pelo significante, m a r c a n d o a divisão do V e j a m o s de que m o d o sujeito. essa l ó g i c a se d e s e n v o l v e n o processo de e s t r u t u r a ç ã o do sujeito; para isso, c o m e c e m o s por pensar como se d á a e n t r a d a d e s s e s u j e i t o n o c a m p o d a l i n g u a g e m . C a l l i g a r i s ( 1 9 8 6 ) a b o r d a essa q u e s t ã o c o l o c a n d o q u e o q u e se encontra, a p r i n c í p i o , no processo de estruturação é u m a hetero¬ geneidade entre o q u e ele d e m a r c o u como sendo o campo do O u t r o , o c a m p o da l i n g u a g e m , e o c a m p o do sujeito - n a q u i l o e m q u e este se a p r e s e n t a c o m o r e a l d o corpo. N o p r i m e i r o c a s o , e s t a r í a m o s frente a o c a m p o d a l i n g u a g e m , d o q u a l se p o d e d i z e r q u e "Isso fala". N o s e g u n d o c a s o , se-ia o s u j e i t o a i n d a n ã o c o n s t i t u í d o , dendo-se designá-lo c o m o O puro corpo, encontrar- objeto a, p o - significante, ao campo nada. q u e fará o sujeito a c e d e r à o r d e m d a l i n g u a g e m ? U m a questão sobre o desejo d o Outro. S e esse O u t r o , se e s s e I s s o f a l a , Isso d e s e j a . N o entanto, o fato de q u e "Isso d e s e j a " n ã o s i g n i f i c a a i n d a q u e deseje a l g u m a coisa. O desejo não i m p l i c a em n e n h u m objeto c o m o a l v o a ser a l c a n ç a d o : p a r a q u e h a j a o b j e t o é p r e c i s o q u e o d e s e j o se t r a n s forme em demanda. É p r e c i s o q u e esse O u t r o se c o n s t i t u a n o l u g a r d a fala q u e , ao ser e n u n c i a d a p e l a p r i m e i r a v e z , v e n h a a l e g i f e r a r , c o n f e r i n d o , o u t r o real, s e g u n d o Q u i n e t ao ( 1 9 9 8 ) , sua o b s c u r a a u t o r i d a d e e pro- vocando o fantasma ( f a n t ô m e ) instala a d e m a n d a do sujeito. d a o n i p o t ê n c i a d o O u t r o e m q u e se Assim, diríamos que a simples suposição d e s a b e r (S ) a c e r c a desejo Outro 2 do já r e s u l t a do numa mesmo do ato de n o m e a ç ã o , o permite ao sujeito que reconhecer-se c o m o n ã o - t o d o , c o m o b a r r a d o , e as- operação crucial para a constituição sim, expor sua carência. O subjetiva. e n t a n t o , n ã o s i g n i f i c a c o n d i ç ã o sufi- É essa s u p o s i ç ã o de saber que do s u r g i r o sujeito. É nesse to lógico estrutural fazen- momen- - situado Lacan em diversos m o m e n t o s obra um por de sua no ciente para que ocorra a separação. permitirá u m a ligação entre o c a m p o do O u t r o e o real do corpo, que, O q u e se o b t é m , c o m o resultado dessa p r i m e i r a operação, é u m suposto - S 2 saber - q u e se s u p e r p õ e ao desejo d o O u t r o , d e m o d o q u e o sujeito que era n a d a - a - para esse dese- - , q u e se p o d e d i z e r q u e há jo p o d e c o n s t i t u i r - s e c o m o u m a s i g n i - significante ( S ) que produz su- f i c a ç ã o p a r a esse s a b e r . D e 1 jeito ($) para u m outro significante qualquer f o r m a , trata-se de u m desejo q u e é in- (S ) , o p r i m e i r o s i g n i f i c a n t e e x i s t i n - d e t e r m i n a d o , s e n d o essa p r o p r i e d a d e o do somente q u e irá d e f i n i r a s i g n i f i c a ç ã o d o sujei- 2 por um efeito retroati- vo deste ú l t i m o . to t a m b é m c o m o E, n e s s e s e n t i d o , p o d e - s e falar Em indeterminada. outras palavras, poder-se-ia desse p r i m e i r o s i g n i f i c a n t e , desse S dizer que o sujeito que resulta dessa como primeira metáfora 1 aquele como que se constituirá t r a ç o u n á r i o , t e n d o seu s i g n i - ficado pautado no desejo materno, processo rio -, embora metaforizado pelo ao c a m p o Nome-do-Pai em torno do qual se c o n s t i t u i c o m o 1 desse originá- se e n c o n t r e e encontrando-se - S - produto de r e c a l c a m e n t o referido da l i n g u a g e m , a i n d a um não sujeito dese- o sujeito articulará a cadeia signifi- jante. Encontra-se enlaçado à d e m a n - cante -, da como sujeito d i v i d i d o . sendo marcado por ele É desse trajeto q u e n a s c e a l g u m a coisa, definida por Lacan c o m o perda - o objeto absoluta e indeterminada Outro materno. (1970) surge a partir Demanda do próprio Em s u m a , é dessa o p e r a ç ã o que que efeito i m a g i n á r i o , a d v i n d o da operação r e c a l c a m e n t o , e frente a. do esta j e i t o se c o l o c a c o m o de à q u a l o suobjeto imagi- o sujeito extrai u m a significação mí- n á r i o i n d e t e r m i n a d o , cuja significa- nima ção é simbólica. c a p a z de i n t r o d u z i - l o na lin- g u a g e m . S e n d o essa p a s s a g e m c o r r e s p o n d e n t e a o efeito afânise, descrito Como d e c o r r ê n c i a , a i n d a , desse p r o c e s s o , tem-se a a r t i c u l a ç ã o d e um p o r L a c a n ( 1 9 6 4 ) , e q u e se refere a o supereu, que v e m falar do l u g a r des- m o m e n t o da alienação significante, sa d e m a n d a i n d e t e r m i n a d a d o m o m e n t o da c a r ê n c i a do sujeito, n o - supereu arcaico, representado pela q u a l este a p a r e c e a p a g a d o s o b o sig- figura materna -, e que é b e m dife- nificante r e n t e d a q u e l e q u e se e s t a b e l e c e S . 2 E m b o r a se c o n s t i t u a e m a l i e n a ç ã o , c a b e m a r c a r q u e esse efeito pressupõe a intervenção da função signi- ficante meio do Nome-do-Pai, por ocasião do partir do Complexo Outro por de É d i p o , a pai. Apreende-se, no primeiro caso, u m m a n d a t o de gozo, m a s que dife¬ re d o " G o z a ! " tomar do segundo o próprio tempo e d í p i c o . Tratar-se-ia, antes, de corpo da criança c o m o pertencente ao corpo m a t e r n o , n ã o tendo o sujeito outra saída senão atender à exigência d e g o z o e n d e r e ç a d a p e l a m ã e . O u seja, n o l u g a r d e "Goza!", e n c o n ¬ trar-se-ia o i m p e r a t i v o " M e faça g o z a r c o m seu corpo!". Nesse p o n t o , s e g u n d o C a l l i g a r i s ( 1 9 8 6 ) , o q u e se e s t a b e l e c e p o r p a r t e d o s u j e i t o s ã o defesas e m p r e e n d i d a s n o s e n t i d o d e p r o t e g ê - l o da d e m a n d a terrificante do O u t r o . S e g u n d o o autor, defesas a u t í s ¬ ticas, neuróticas, psicóticas, e d i r í a m o s t a m b é m perversas, a partir d a s q u a i s p o d e r á se p o s i c i o n a r frente a tal demanda. N o c a s o d a n e u r o s e , p o r e x e m p l o , p a r a q u e se d ê a t r a n s p o s i ç ã o d a a l i e n a ç ã o à s e p a r a ç ã o faz-se n e c e s s á r i o q u e se p r o d u z a o recobrimento - de d u a s c a r ê n c i a s - a do sujeito e a do O u t r o s e n d o esta a s a í d a n e u r ó t i c a i d e a l . A s s i m , p a r a q u e o s u j e i t o p u d e s s e se ver l i v r e d e s s a condição a l i e n a n t e , e constituir-se e f e t i v a m e n t e c o m o sujeito d o desejo, h a v e r i a que entrar em cena u m a segunda operação de recalque, u m a nova m e t á f o r a . A p a r t i r d a q u a l u m t e r c e i r o viesse a se i n t e r p o r n a relaç ã o d u a l m ã e - c r i a n ç a , s e n d o c a p a z de d e l i m i t a r a d e m a n d a indetermi- n a d a do O u t r o . A l g u é m suposto saber sobre o desejo da m ã e . Estamos a falar do recalque s e c u n d á r i o , n o q u a l o pai surgirá c o m interditor, v e i c u l a d o pelo desejo m a t e r n o , a fim de instituirlhe limites, que p e r m i t i r ã o ao sujeito reconhecer sua p r ó p r i a através da constatação da i n c o m p l e t u d e do D i t o de o u t r o m o d o , paterna, função trata-se aqui da função da limite se e s t e n d e r á à d e m a n d a d o O u t r o . Esta, a p a r t i r d e e n t ã o , se t o r n a r á u m a d e m a n d a d e t e r m i n a d a , pelo saber do metáfora que irá circunscrever o saber, dar-lhe u m que, conseqüentemente, falta, Outro. dominada pai. A p a r t i r dessa i n t e r v e n ç ã o , m u d a n ç a s se v e r i f i c a r ã o t a m b é m nível do supereu que, u m a vez alicerçada a metáfora paterna, t i n u a r á a consistir n u m i m p e r a t i v o de gozo, m a s , c o m o anteriormente, no con- falávamos d e s t a feita, será u m i m p e r a t i v o e n d e r e ç a d o a o pró- p r i o s u j e i t o , c o m o a l h e d i z e r " G o z a ! " . J á n ã o se r e f e r i r á m a i s a o gozo do O u t r o , m a s s i m ao g o z o fálico. É por m e i o da intervenção da metáfora paterna que o sujeito p o d e r á a p r e e n d e r a f a l t a d o O u t r o e, a s s i m , s u a p r ó p r i a falta. S e g u n d o L a c a n ( 1 9 6 6 ) , será a o i n t r o d u z i r s u a q u e s t ã o - a c e r c a da o r i g e m dos bebês, por e x e m p l o - que o sujeito atacará a cadeia s i g n i f i c a n t e d o O u t r o , n o seu p o n t o m a i s d é b i l , o d o entre os s i g n i f i c a n t e s de sua d e m a n d a , entre S 1 e s c o n d e sua falta, e n c o n t r a n d o - s e , intervalo e S , ali onde 2 assim, c o m o desejo d o se Outro. E n c o n t r a r esse d e s e j o n o O u t r o e c o l o c a r - s e n e s s e l u g a r , e n quanto f a l o i m a g i n á r i o (- φ, é c o n d i ç ã o p a r a q u e se p r o d u z a a s e p a r a ç ã o . É nesse m o m e n t o q u e se p a s s a d o efeito d a a l i e n a ç ã o s i g n i f i c a n t e - p a r a a função afânise, afânise - efeito q u a n d o o sujeito se faz o b j e t o d a f a l t a d o O u t r o , e se l i b e r a d o p e s o a f a n í s i c o do S , excluindo-se da cadeia significante e e n t r a n d o a. 2 c o m o objeto V e j a m o s , p o r t a n t o , c o m o esse m o m e n t o c r u c i a l d a psíquica do sujeito pode contribuir constituição p a r a os e n l a c e s d e s u a consti- tuição cognitiva. O c o n c e i t o de i n t e l i g ê n c i a , n u m r e f e r e n c i a l p s i c a n a l í t i c o , so- fre u m d e s l o c a m e n t o de ênfase n o s a s p e c t o s b i o l ó g i c o s , a m b i e n t a i s e/ou i n t e r a c i o n i s t a s p a r a c e n t r a l i z a r - s e n a s q u e s t õ e s r e f e r e n t e s à se- x u a l i d a d e e ao desejo, i n t r o d u z i n d o questões relacionadas à lin- g u a g e m e ao e s t a b e l e c i m e n t o de u m a o r d e m fálica, que p e r m e i a o ser f a l a n t e . S e n d o assim, p a u t a d o s n o processo de e s t r u t u r a ç ã o do sujeito na neurose, passamos à discussão das vicissitudes da s e x u a l i d a d e infantil, começando por circunscrever a dimensão do falo nesse processo. N e s s e s e n t i d o , L a c a n ( 1 9 5 7 ) c o l o c a q u e " o f a l o só p o d e ser p o s t o e m j o g o n a m e d i d a e m q u e seja n e c e s s á r i o , n u m dado mo- m e n t o , s i m b o l i z a r a l g u m a c o n t e c i m e n t o , seja este a v i n d a t a r d i a d e u m a c r i a n ç a p a r a a l g u é m q u e esteja e m r e l a ç ã o i m e d i a t a c o m ela ou, ainda, para o p r ó p r i o sujeito, a questão levantada sobre a sua m a t e r n i d a d e e a posse de u m a c r i a n ç a " (p. 9 9 ) . P a r a e x p l i c a r m o s , m a i s d e t a l h a d a m e n t e , esse m o m e n t o , recorre- r e m o s a o s textos de F r e u d n o s q u a i s ele se p õ e a f a l a r d a s i n v e s t i g a ç õ e s s e x u a i s i n f a n t i s , a b r i n d o e s p a ç o p a r a a f o r m u l a ç ã o d o desejo d e s a b e r e p e r m i t i n d o situar a superdotação a l i d a d e , n a q u i l o q u e esta c o m p o r t a É a p a r t i r d o texto s o b r e as Teorias em 1908, que u m qual Freud caminho em r e l a ç ã o à sexu- de desejo e de g o z o . diferente c o l o c a o fator s e x u a l c o m o sexuais infantis, publicado c o m e ç a a se c o n s t r u i r , a mola propulsora no do de- senvolvimento intelectual. Nesse t e x t o , F r e u d ( 1 9 0 8 ) c o m e ç a a d i s t i n g u i r o q u e constitui o c a m p o b i o l ó g i c o e p s í q u i c o n o q u e c o n c e r n e à s e x u a l i d a d e , des¬ v i n c u l a n d o - a de u m fator meramente d e s e n v o l v i m e n t i s t a , e ad- m i t i n d o sua influência decisiva - sobretudo no que corresponde teorias sexuais infantis -, para a formação dos às sintomas. A c u r i o s i d a d e s e x u a l se e s t a b e l e c e , s e g u n d o F r e u d ( 1 9 0 8 ) , não p o r " a l g u m a n e c e s s i d a d e i n a t a de c a u s a s e s t a b e l e c i d a s ; s u r g e s o b o a g u i l h ã o dos instintos egoístas que d o m i n a m é surpreendida de u m a criança, quando - t a l v e z a o f i m d o seu s e g u n d o a n o - p e l a c h e g a d a n o v o bebê" (p. 2 1 5 ) . A o se i n t e r p o r um terceiro na r e l a ç ã o entre a c r i a n ç a e os p a i s , coloca-se a a m e a ç a de p e r d a d o a m o r p a r e n t a l , o q u e l h e d e s ¬ perta uma gama de sentimentos agressivos e de c i ú m e s e m relação ao recém-chegado. É nesse m o m e n t o c r u c i a l d e s u a constituição que a criança verá aguçarem-se suas emoções e t a m b é m c a p a c i d a d e de p e n s a m e n t o , sua o que lhe permitirá empreender-se em direção à busca de u m sentido para sua exis- tência - a princípio, através da m u l a ç ã o das teorias sexuais e, p o s t e r i o r m e n t e , por m e i o d a su¬ b l i m a ç ã o , através de seu vimento desenvol- intelectual. Freud "sob (1908) descreve a instigação desses tos e p r e o c u p a ç õ e s , começa for- infantis que a refletir sobre a o é criança primeiro grande problema da vida e tar 'De a si m e s m a : que sentimen- pergun- onde vêm os bebês?'" (p. 2 1 6 ) . Ao introduzir essa q u e s t ã o endereçá-la aos a d u l t o s , aos pais a q u e m supõe e sobretudo um saber, a criança n ã o almeja apenas resolver o enigma do nascimento Trata-se antes de u m dos bebês. momento q u a l e l a se vê c o n f r o n t a d a no como su- jeito ao desejo do O u t r o parental, o que significa estender a questão cial para: 'O que você quer de inimim além d a q u i l o que d e m a n d a ? " , ou aind a , " D e q u e d e s e j o eu n a s c i ? " . Trata-se de u m nente ao próprio tuição do criança ponto concer- processo de sujeito. Processo passaria de um constionde a primeiro m o m e n t o de p u r o n a r c i s i s m o dual, de c o m p l e t a a l i e n a ç ã o a o O u t r o ma- t e r n o , p a r a u m s e g u n d o e s t á d i o , caracterizado pelo C o m p l e x o de Édipo, o que instituiria u m a relação triádi¬ ca, h a v e n d o a a t u a ç ã o de u m terceiro elemento interditor da m ô n a d a mãe- criança, p o s s i b i l i t a n d o , assim, a instauração do desejo. É na passagem do primeiro mo- m e n t o desse p r o c e s s o à c o n c l u s ã o de seu s e g u n d o t e m p o , q u e i r á se c o l o car por parte da criança u m a de p e r g u n t a s endereçadas ao série adulto e que refletem que o sujeito barrou, de a l g u m a forma, o l u g a r d o Outro até e n t ã o a b s o l u t o . Nas p a l a v r a s de V i d a l ( 1 9 9 9 ) , "está aí a m a r c a de origem do inconsciente como u m saber b a r r a d o " (p. 22). Freud nos traz a questão da origem dos bebês, acerca mas outras p e r g u n t a s p o d e m ser c o n t a d a s como e q u i v a l e n t e s s i m b ó l i c o s dessa p r i m e i ra. A s r e s p o s t a s o b t i d a s p e l a c r i a n ç a , p o r s u a vez, r e s u l t a m f a l h a s , do quando colocam fronte de sua p r ó p r i a sobretu- o adulto de- falta e m ser, d i a n t e d e s u a p r ó p r i a d i v i s ã o e m rel a ç ã o a o saber. Q u a n d o n ã o s ã o evasivas, são repressivas ou a i n d a lógicas, gerando decepção e com mito- fazendo que aquela prossiga cada vez m a i s e m s u a i n v e s t i g a ç ã o , só q u e desta feita de m o d o v e l a d o . No que diz respeito, m a i s dire- t a m e n t e , às q u e s t õ e s a c e r c a da s e x u a lidade, Freud (1908) coloca que, a p a r t i r d e s s a " p r i m e i r a d e c e p ç ã o , as crianças começam a desconfiar dos a d u l t o s e a s u s p e i t a r q u e estes l h e s escondem algo proibido, passando como resultado a manter em segre- do suas investigações posteriores" (p. 2 1 7 ) . S e g u n d o L e m é r e r ( 1 9 9 9 ) , as respostas d a d a s pelos a d u l t o s às questões dirigidas pelas crianças resultam satisfatórias, por não fazerem in- outra c o i s a q u e r o d e a r e escavar o l u g a r d e uma falta, a falta de resposta que o f e r e c e r i a a o s u j e i t o o a c e s s o a o sa- frontamento com a incompletude ber e ao gozo O u t r o , por sua vez, o que lhe susci- sexuais. Resultam insatisfatórias quanto porque, sibilidade de saber produzindo-se, fechamento, com a impossobre o sexo, a cada tentativa u m furo de de saber. ções e d ú v i d a s tornam-se, entretanto, o p r o t ó t i p o de todo trabalho lectual posterior de p r o b l e m a s , fracasso um efeito primeiro cerceante sobre t o d o o futuro da c r i a n ç a " (p. 2 2 2 ) . Em 1907, no texto sexual da O esclareci- criança, Freud a s s i n a l a v a os e f e i t o s d e v e r d a d e se vez produzem sobre decorrência dessa opera- a atividade intelectual da criança n ã o se l i m i t a r á s o m e n t e a der ao desejo do sobretudo, correspon- Outro, à imagem o sujeito já que Conforme que, nesse caso, o levarão a sua pri- saber. Lacan (1970) mencio- n a a o d i s c u t i r O poder síveis: dos impos- "O efeito de v e r d a d e é a p e n a s uma queda que faz produto de saber. É essa produção" podemos (p. queda 178), cujo verificar, por exemplo, através das teorias sexuais infantis. Essas t e o r i a s se c o n s t i t u e m cada q u e a l g o de seu saber fracassa e e n c o n t r a r - s e - á a g o r a a ser- viço do desejo de inte- aplicado à solução t e n d o esse Como ção, esperada pelas figuras parentais, mas, Para Freud (1908), "essas hesita- mento tará u m a insaciável sede de saber. m a i s a c r i a n ç a b u s c a esse sa- b e r , m a i s se d e f r o n t a do camente basi- na crença das crianças na indiferenciação sexual anatômica, que m e i r a tentativa de a u t o n o m i a intelec- traz c o m o conseqüência a atribuição tual a partir da c r i a ç ã o das teorias da Quanto a isto, Nobre (1999) acrescenta que, na insuficiência um saber, o desvelamento verdade sujeito se i m p õ e , a buscar posse de u m pênis tanto para h o m e n s c o m o p a r a m u l h e r e s ; n a teo- sexuais infantis. no de uma empurrando Outro, de o ria c l o a c a l , a p a r t i r d a q u a l os b e b ê s seriam expelidos como numa excremento, e v a c u a ç ã o e, a i n d a , n a da concepção sádica do Segundo Freud pelas crença coito. (1908), embora vias da suposição de u m saber todo, essas t e o r i a s s e j a m f a l s a s , " c a d a a r e s p o s t a q u e l h e falta. delas contém Assim, segundo Lemérer (1999), as i n v e s t i g a ç õ e s s e x u a i s i n f a n t i s efetivamente dirigidas a o saber p r o i b i d o supostamente conquistar d e q u e os podem adultos desfrutar. s a m a o g o z o , i s t o é, à c o n q u i s t a um saber que viria conjugar jeito com são o Vide su- s e u ser s e x u a d o , o q u e é E n t r e t a n t o , a o d e p a r a r c o m essa fragmento dade". Donde podemos uma de ver- concluir que é dessa a r t i c u l a ç ã o entre um saber não-todo c o m u m a verdade - verdade d a i m p o s s i b i l i d a d e , d o impossível d o s e x o e, p o r t a n t o , m e i a - v e r d a d e que se f a z prossiga em possível que sua busca o sujeito de saber que daí possa, inclusive, vir a duzir impossível. um e pro- conhecimento. Começa-se a perfazer o caminho i m p o s s i b i l i d a d e , a c r i a n ç a se m a n t é m que marca o sujeito - e n a e x p e c t a t i v a d e q u e a l g u m d i a esse q u e a q u i se t r a t a d o s u j e i t o s a b e r l h e seja c o n c e d i d o . c o - , a p a r t i r d o m o m e n t o q u e este E é o de¬ lembramos neuróti- é inserido no campo da l i n g u a g e m e n a d i a l é t i c a d a c a s t r a ç ã o , e q u e se constitui na prevalência da tisfatoriamente suas hipóteses acerca da concepção dos ordem bebês. A esse r e s p e i t o , f á l i c a . O q u e p o d e ser v i s t o , p r i n c i - descreve que p a l m e n t e , se r e c o r r e r m o s criança respeita, c o m o à primeira teoria a r t i c u l a d a pelas crianças, isto têm o pênis por é, a a t r i b u i ç ã o ela, ser m u l h e r mo de n ã o de u m pênis a to- d o s os s e r e s . Essa q u e s t ã o se e n c o n t r a da, de m o d o por Freud ainda mais (1923) em organização genital coloca- enfático, seu infantil, texto ao dizer que, "em relação à organização fantil, para ambos em consideração genital, ou A os s e x o s , in- entra apenas um lheres p o d e m somente em 1908 que Freud nesse período prazer auto-erótico turbação, menção de u m to uma de de t o d a não ter o falo após de 1 9 1 0 , Leonardo da e m seu da tex- Vinci sua e infância, permane- a dissolução Édipo, como o do pivô a r t i c u l a ç ã o da s e x u a l i d a d e q u e e s t a se a s s o c i a ao interesse pela p e s q u i s a e p e l o conhecimento. de q u e i r á se r e p e t i r m o d o diferente lembrança à busca a d v i n d o da mas¬ perde Essa q u e s t ã o d a d i a l é t i c a f á l i c a , e, i n c l u s i v e , n o É ainda nascimento, a mãe seu p ê n i s " (p. 183). Complexo sociada dar-lhes então também tanto, m e n c i o n a a a m e a ç a d e c a s t r a ç ã o , as- probledos mesmo falo" tarde, os mu- ce, 180). Para e nascimento a c r e s c e n t a : " O q u e está p r e s e n t e , por- (p. pênis. Mais origem ter o u genitais, mas u m a primazia do ter mas do órgãos longo tempo. ainda não é sinôni- b e b ê s e a d v i n h a q u e a p e n a s as E não é a p r i m a z i a dos a s u a m ã e , re- a criança retoma da (1923) a quem quando órgão seja, o m a s c u l i n o " . Freud "mulheres Em Leonardo lembrança plo, da Vinci da sua infância, e uma por exem- Freud ( 1 9 1 0 ) busca d e l i m i t a r de que maneira o contato privilegiado de Leonardo com sua mãe e seu provável e m p r e e n d i m e n t o em investi- q u a n d o a a m e a ç a d e c a s t r a ç ã o se en- gações sexuais durante a infância, contrará mostraram-se mais claramente dissociada cruciais para o desen- d o ó r g ã o g e n i t a l e m si, e r e l a c i o n a - v o l v i m e n t o de sua g e n i a l i d a d e artísti- da ao caráter de p o t ê n c i a fálica ca e c i e n t í f i c a . lhe que é atribuído. É nesse texto p r e c i s a m e n t e Freud (1908) situa que, no caso que Freud estreita a questão da sexualida- da m e n i n a , se estabelece u m a equivalên- de e d a i n t e l i g ê n c i a , o q u e n o s cia n a p i s t a de a l g o q u e p o s s a se c o l o c a r entre pênis e clitóris, sendo este último o que "produz excitabilidade, como conferindo perdotação. à atividade sexual da me- n i n a u m caráter m a s c u l i n o " (p. 2 2 0 ) . É i m p o r t a n t e m a r c a r q u e a crian- peculiaridade no caso da põe su- Ele n o s d i z q u e " a p e s - q u i s a p s i c a n a l í t i c a oferece-nos a e x p l i cação completa m o s t r a n d o que a mai- ça, e m b o r a j á t e n h a d e p a r a d o c o m a oria das crianças, ou pelo m e n o s diferenciação sexual, acredita que sua mais mãe ainda é possuidora r í o d o de p e s q u i s a s sexuais i n f a n t i s " nis, de u m pê- o q u e a i m p e d e d e c o n c l u i r sa- (p. inteligentes, 72 - grifo atravessam u m nosso). as pe- Freud (1910) acrescenta que, por o c a s i ã o d a s i n v e s t i g a ç õ e s s e x u a i s , as crianças "já têm u m a noção do ato s e x u a l , q u e l h e s p a r e c e ser a l g u m a coisa hostil e violenta. M a s c o m o a sua própria constituição sexual a i n d a n ã o a t i n g i u o p o n t o d e fazer b e b ê s , sua investigação sobre o p r o b l e m a o r i g e m d o s bebês a c a b a t a m b é m solução, sendo finalmente da sem abandona- da" (p. 73). Entretanto, h a v e r i a a i n d a nesse processo a transformação das forças psíquicas instintivas, o que possibilit a r i a à c r i a n ç a se e n v e r e d a r p e l o s caminhos do desenvolvimento intelec- tual, agora por m e i o de investigações a c e i t a s s o c i a l m e n t e . A essa Freud denomina operação sublimação, o que c o n s i s t i r i a n a " s u b s t i t u i ç ã o d o objetivo i m e d i a t o da p u l s ã o por outros d e s p r o v i d o s de caráter s e x u a l e que p u d e s s e m ser m a i s a l t a m e n t e v a l o r i z a d o s " (p. 72). Nesse sentido, ainda o que Kupfer cabe-nos (1990) citar discute a c e r c a d a a s s o c i a ç ã o d a p u l s ã o d e saber à p u l s ã o de d o m í n i o e à p u l s ã o de ver, a m b a s c i t a d a s p o r Freud seu em texto. Kupfer (1990) coloca que, final da época do conflito ao edipiano, parte da i n v e s t i g a ç ã o sexual cai sob o domínio da repressão, sendo restante sublimado em pulsão domínio e p u l s ã o de ver. o de Enfatiza, a i n d a , q u e essas p u l s õ e s s e r ã o os i n s trumentos fundamentais p a r a o de- senvolvimento intelectual da criança, a partir do m o m e n t o em que, transformados tam-se no pela s u b l i m a ç ã o , manifesprazer de pesquisar, no interesse p e l a o b s e r v a ç ã o d a n a t u r e z a , no gosto pela leitura, entre outros. Sobre a pulsão escópica, ( 1 9 1 0 ) n o s d i z q u e e l a se atuante antes m e s m o Freud encontra que a criança seja d o m i n a d a p e l o c o m p l e x o de castração, o que a impele a mover sua curiosidade para o órgão sexual materno, que supõe gundo Freud, ser u m "com a leva, m u i t a s vezes, a colocar-se desde u m a posição masculina no quadro sexuação, b u s c a n d o de a l g u m a v e l a r s u a falta, s e n d o esse m e c a n i s m o bastante presente nos casos de m e n i nas superdotadas. p ê n i s . Sedescoberta da forma É já a p a r t i r d o t e x t o A lução do Complexo disso- de Édipo, que q u e f a r á , m a i s t a r d e , d e q u e as m u - Freud (1924) começa a i n t r o d u z i r l h e r e s n ã o p o s s u e m p ê n i s , esse desejo especificidades m u i t a s v e z e s se t r a n s f o r m a o r g a n i z a ç ã o sexual f e m i n i n a . Se, por oposto, dando no origem a um seu senti- m e n t o de repulsa..." (p. 89). Freud um no que as se r e f e r e l a d o , a a u s ê n c i a de u m à pênis coloca a questão da castração para a ( 1 9 1 0 ) situa essa r e p u l s a menina como a p r e s e n t a a c o n s t a n t e a m e a ç a frente à do o órgão, por menino outro se não é s e m r e s i s t ê n c i a s q u e a m e n i n a se de- gura masculina. N o e n t a n t o , t o m a m o s esse m a t e rial c o m o u m i m p o r t a n t e analisar perda para consumado, p o t ê n c i a ou m e s m o de h o m o s s e x u a l i n e s s e p o n t o à fi- que fato ao dade, referindo-se passo um c o m o a causa futura de casos de im- os c a s o s de fator fronta para superdotação a c o m p a n h a d o s nessa p e s q u i s a , o n d e o c o m a falta de u m pênis. N a s p a l a v r a s de F r e u d ( 1 9 2 4 ) , " a renúncia ao pênis não é tolerada pela m e n i n a sem a l g u m a tentativa de conhecimento s u r g e c o m o u m a espé- c o m p e n s a ç ã o . Ela d e s l i z a - a o cie tamponador da l i n h a de u m a e q u a ç ã o s i m b ó l i c a , de objeto empreendida a partir m e n t o c o m castração do da falta defronta¬ materna. poder-se-ia d i z e r - d o p ê n i s p a r a bebê. Seu C o m p l e x o Nesse processo, v e m o s que m u i - longo mina em um um de É d i p o cul- desejo, m a n t i d o por tas v e z e s se a r t i c u l a u m a a t i t u d e rei¬ muito t e m p o , de receber d o pai um v i n d i c a t ó r i a ou m e s m o de confronto bebê c o m o presente - de dar-lhe um por relação à filho" (p. 2 2 3 ) . parte mãe, nas. da criança em sobretudo no caso das Embora, nos textos até o m o m e n t o , Freud meni- abordados privilegie a especificidade da estruturação edípica Num trecho seguinte, suir u m pênis e u m filho - consciente namento criatura do sexo f e m i n i n o s u a o b r a . E m textos c o m o A lidade, minina, de femini- 1 9 2 3 , e a Sexualidade de 1931, b e m c o m o de fe- n o s es- pos- perma- necem fortemente catexizados no in- m a s c u l i n a , s a b e m o s q u e seu d i r e c i o se m o d i f i c a r á a o l o n g o Freud c o l o c a q u e esses " d o i s d e s e j o s - e ajudam papel posterior" (pp. a preparar a seu 223-4). Essa c i t a ç ã o de F r e u d situar a questão para permite da superdotação a tudos lacanianos, obtemos dados que p a r t i r de d o i s vieses d i s t i n t o s . nos p e r m i t i r ã o verificar de que ma- m e i r a m e n t e , p e l o l a d o d o s u j e i t o su- neira contra a menina também a figura materna se rebela a partir da c o n s t a t a ç ã o de s u a c a s t r a ç ã o . O q u e a perdotado. No caso, a m e n i n a , Pripara a qual acrescentaríamos a posse um conhecimento como um de possível substituto d o p ê n i s . E, e m s e g u n d o l u g a r , far-se-ia n e c e s s á r i o con- s i d e r a r o q u e está e m j o g o n a d i a l é t i c a d o d e s e j o d e u m a m ã e q u e concebe u m filho superdotado, e que o toma de a l g u m m o d o o b j e t o s u t u r a d o r d e s u a falta. Trata-se d e u m a m a n e i r a m u i t o por pecu- l i a r d e a f i r m a r s u a s u p r e m a c i a fálica e q u e , p o r s u a v e z , n ã o é s e m conseqüências para a criança. Freud ( 1 9 1 0 ) c i r c u n s c r e v e essa q u e s t ã o a o a b o r d a r a relação mãe-criança, dizendo que "sua natureza é a de u m a relação amoro- sa p l e n a m e n t e s a t i s f a t ó r i a q u e n ã o s o m e n t e g r a t i f i c a t o d o s os desejos m e n t a i s , m a s t a m b é m t o d a s as n e c e s s i d a d e s físicas; e se i s s o re- presenta u m a das formas possíveis da felicidade h u m a n a , em será d e v i d o à p o s s i b i l i d a d e q u e oferece de satisfazer, sem ção, desejos i m p u l s i v o s há m u i t o ser c o n s i d e r a d o s como tempo um m e n t e a o desejo reprimidos e que podem perversos" (p. 106). C a b e acrescentar que, ao usufruto corresponde parte reprova- desse a m o r preço - o de r e s p o n d e r também incondicional, incondicional- materno. Esse efeito q u e o desejo m a t e r n o p o d e a c a r r e t a r à c r i a n ç a é passível de ser v e r i f i c a d o , p o r e x e m p l o , ao a b o r d a r a s e x u a l i d a d e de Leonardo da Vinci - análise que Freud tece a p a r t i r d a proximidade e x a c e r b a d a de L e o n a r d o c o m s u a m ã e - , c o l o c a n d o tal p r o x i m i d a d e c o m o u m d o s p o s s í v e i s fatores r e l a c i o n a d o s à p r i v a ç ã o d e s u a v i d a sexual e à d e d i c a ç ã o , a i n d a q u e p l a t ô n i c a , a a m o r e s h o m o s s e x u a i s . por Lacan ( 1 9 5 7 ) , que a p o n t a , de m a n e i r a m a i s enfática, p a r a o m o d o A n o s m a i s t a r d e , esse t e x t o d e F r e u d como Leonardo p ô d e se c o l o c a r f r e n t e é retomado ao desejo de u m a c o m o t a m b é m sua g e n i a l i d a d e constituiu-se n u m m ã e fálica e m o d o de resposta a esse d e s e j o . N o q u e se refere a i n d a à q u e s t ã o d a s u b l i m a ç ã o , c a b e - n o s retomar o q u e F r e u d ( 1 9 1 0 ) a c e n t u a a o d i z e r q u e essa "transforma- ç ã o d a força p s í q u i c a i n s t i n t i v a , d a m e s m a m a n e i r a q u e a m a ç ã o d a s forças físicas, transfor- n ã o p o d e r i a se r e a l i z a r s e m p r e j u í z o " ( p p . 6 9 - 7 0 ) . Essa p e r d a se m a r c a , s o b r e t u d o , no que tange à v i d a sexual d o s u j e i t o , q u e , e m m u i t o s c a s o s , se t o r n a e x t r e m a m e n t e a s s u m i n d o u m caráter s e c u n d á r i o e m prol do fator restrita, intelectual, o q u e se e n c o n t r a v a b a s t a n t e m a r c a n t e n a v i d a d e L e o n a r d o d a V i n c i , e que também dos se e n c o n t r a , de formas v a r i a d a s , presente n a v i d a superdotados. Tendo em vista o que discutíamos há pouco, acerca da ç ã o d a c r i a n ç a frente às figuras parentais, cabe-nos interrogar o que haveria oculto sob o p r e d o m í n i o nho intelectual dos e exacerbação do posiainda desempe- superdotados. Poder-se-ia l e v a n t a r a h i p ó t e s e de h a v e r e m b u t i d o , nesse pro- cesso d e r e c a l q u e d a s e x u a l i d a d e , u m a c a r g a d e a m o r e n d e r e ç a d a à mãe ou ao pai, que não p ô d e ser d e v i d a m e n t e desviada para a e s c o l h a d e u m o u t r o o b j e t o s e x u a l e q u e , p o r t a n t o , afasta o s u j e i t o de todo contato c o m a sexualidade, sob a a m e a ç a de incesto. Essa s u p o s i ç ã o p a r e c e c o n f i r m a r - s e Vinci, quando nor Freud de sua l i b i d o c o n t i n u o u presenta n o caso de L e o n a r d o (1910) nos diz que " u m a orientada para fins o amor t i n h a p e l a m ã e foi r e p r i m i d o , essa p a r t e foi l e v a d a a t o m a r no amor me- s e x u a i s e re- a atrofiada vida sexual do adulto. Porque atitude homossexual e manifestou-se da parte m u i t o ideal por que uma rapazes. A fixação em sua m ã e e nas felizes l e m b r a n ç a s de suas relações com ela c o n t i n u o u porém, inativa por preservada no algum tempo. inconsciente, Desse fixação e a sublimação desempenharam contribuições do instinto modo, permanecendo, a repressão, sua parte absorvendo sexual para a vida mental de a as Leonar- d o " (p. 120). V e j a m o s , p o r t a n t o , d e q u e m a n e i r a F r e u d d e s c r e v e os p o s s í v e i s c a m i n h o s a s e r e m t o m a d o s p e l a p u l s ã o d e saber, a p ó s c a í r e m s o b a repressão sexual, a fim de obtermos m a i s dados para pensar a questão da superdotação. Freud dentre (1910) aponta três d e s t i n o s os q u a i s a b o r d a m o s de Leonardo saber, da para o desejo de saber, o terceiro tipo ao falarmos do caso da Vinci, e que consiste na s u b l i m a ç ã o da avidez de Wissbegierde, que escapa ao recalque, p e r m i t i n d o que a p e s q u i s a i n t e l e c t u a l n ã o repita o fracasso das investigações sexuais i n f a n t i s , j á q u e e l a d e s v i a a p e s q u i s a d e seu f i m s e x u a l . A c o n s e q ü ê n c i a desse processo t a m b é m tamento p ô d e ser a b o r d a d a , i s t o é, o d o s t e m a s s e x u a i s , seja d o c o n t e ú d o prática cotidiana do da pesquisa ou afasda sujeito. U m a o u t r a p o s s i b i l i d a d e q u e se c o l o c a é q u e o p r o c e s s o i n v e s t i g a t i v o d a c r i a n ç a se t o r n e e q u i v a l e n t e à s e x u a l i d a d e , como t a l ser t a m b é m desde então talvez para recalcado. O desejo de saber devendo permanecerá i n i b i d o e a livre atividade da inteligência l i m i t a d a , sempre. H á a i n d a u m a t e r c e i r a s a í d a p o s s í v e l , i s t o é, q u e a a t i v i d a d e i n t e l e c t u a l escape ao r e c a l c a m e n t o , m a s q u e p e r m a n e ç a secretamente l i g a d a à busca do gozo sexual que era objetivo das p r i m e i r a s investigações, l e v a n d o o sujeito a repetir o fracasso quando experimentado da busca de resposta ao e n i g m a de sua e x i s t ê n c i a , e m p r e - endendo-se numa b u s c a s e m f i m d e a l g o q u e se c o l o c a c a d a v e z m a i s d i s t a n t e , m a s q u e p o r o u t r o l a d o se c o l o c a c o m o d e s u a s p e s q u i s a s . Esse p a r e c e ser u m a l g u n s casos de o motor dos destinos adotados em superdotação. S u b l i m a ç ã o , i n i b i ç ã o e c o m p u l s ã o s e r i a m , e n t ã o , as três v i c i s situdes da Wissbegierde após a repressão sexual. D i a n t e do l e v a n t a m e n t o desses d a d o s , c o n s i d e r a m o s c r u c i a l a d e t e n ç ã o m a i s a c u r a d a sobre a l g u n s aspectos a b o r d a d o s anteriormen- te, a f i m d e v i s l u m b r a r m o s u m a p o s s í v e l l e i t u r a a c e r c a d o s p r o c e s sos c o n s t i t u t i v o s q u e e n v o l v e m o " s u j e i t o Para i n i c i a r essa d i f í c i l superdotado". tarefa, p r o p o m o s a a n á l i s e de p o n t o s , a saber: p r i m e i r a m e n t e , a r e s p o s t a i n c o n d i c i o n a l d o três sujeito a o d e s e j o m a t e r n o ; s e g u n d o , a e s c o l h a d e u m o b j e t o s e x u a l e, p o r ú l t i m o , a s u b l i m a ç ã o , s o b r e t u d o n o q u e esta p o d e ser r e l a c i o n a d a à transgressão. Tomaremos, como eixo principal tese de d o u t o r a d o de M . C . K u p f e r de para essa a r t i c u l a ç ã o , a (1990), intitulada O desejo saber. Q u a n d o o p t a m o s p o r enfocar, n o v a m e n t e , a q u e s t ã o d a respos- ta d a d a p e l o s u j e i t o a o desejo d o O u t r o , p r e t e n d e m o s , n a v e r d a d e , (re)instalar a dimensão do p r ó p r i o desejo do sujeito ou, ainda, a b r i r m a r g e m p a r a q u e se c o n j u g u e a l g o d e seu g o z o . A esse r e s p e i t o é importante situar, por conceituai que Lacan (1962-3) introduz Angústia, exemplo, a virada a p a r t i r d o Seminário a o m a r c a r q u e , se a n t e s o s u j e i t o se r e f e r i a temente em relação ao desejo do questionamento O da predominan- O u t r o , a g o r a o cerne de seu se c o l o c a r á frente a o q u e seja o g o z o . que pretendemos, em última instância, é apontar f a t o d e q u e , se o s u j e i t o p e r m a n e c e numa determinada para o posição frente a o O u t r o , isto n ã o se d á s e m q u e h a j a u m g a n h o . S e c u n d á rio por suposto, c o m o já a s s i n a l a v a Freud ao l o n g o de sua n o q u e se r e f e r i a a o s i n t o m a , m a s , d e q u a l q u e r f o r m a , de u m obra tratar-se-ia ganho. E n t r e t a n t o , h á q u e se p e r g u n t a r sobre que g a n h o estamos a f a l a r , u m a v e z q u e o s u j e i t o se e n c o n t r a dividido em relação ao seu s a b e r , s e n d o , p o r t a n t o , t o d a i m p r e s s ã o e c o n h e c i m e n t o s m u l a d o s a p a r t i r d o Eu, p a r c i a i s , e q u i v o c a d o s , d a n d o ao for- sujeito, p a r a d o x a l m e n t e , u m a g a r a n t i a i l u s ó r i a acerca d o q u e seja g a n h a r ou perder em termos de subjetividade. Talvez nessa busca de g a r a n t i a s resida o que é da o r d e m g o z o , esse " t e r m o designado por Lacan (1970) em sentido prio, que necessita a repetição" (p. 43). E que traz à tona estudos freudianos acerca da p u l s ã o de m o r t e e do objeto do próos per- d i d o . A s s i m , p o d e r - s e - i a d i z e r q u e , n a v e r d a d e , o s u j e i t o se e n contra ração d i a n t e de u m a de objeto perdido perda assinalada a partir da própria castração. A busca por um substituto do de prazer é o que a f i r m a a d i m e n s ã o desse objeto para ope- primeiro como sempre. Nesse s e n t i d o , L a c a n ( 1 9 7 0 ) c o l o c a q u e , " e m f u n ç ã o d e ser expressamente - e como tal - r e p e t i d o , d e ser m a r c a d o p e l a r e p e t i ¬ ção, o q u e se r e p e t e n ã o p o d e r i a es- tar de o u t r o m o d o , em relação que repete, senão e m perda. Em da do que quiserem, em ao c o m a mera palavra lúbrica da transgressão" (p. 2 1 ) . per- perda de v e l o c i d a d e , de força - há a l g o q u e é Segundo sa L a c a n , os efeitos "distinção radical tem des- suas con- seqüências ú l t i m a s d o p o n t o de vis- perda. Freud insiste desde a origem, ta d a p e d a g o g i a - o q u e c o n d u z desde a articulação que estou saber mindo pria resu- aqui, nessa perda - na repetição há pró- desperdício de não é o desejo que conduz ao de saber. ao saber é o O discurso da histérica" (p. 2 1 ) . g o z o " (p. 44). D e q u e s a b e r L a c a n está a falar? E Lacan prossegue em sua arti- S a b e m o s que ao l o n g o de sua obra culação entre repetição e gozo, pro¬ o s a b e r se a p r e s e n t a c o m d u p l o sen- pondo-se a introduzir tido, naquilo que uma variante anteriormente Freud colocara. t o m o do lhe um texto de Freud sentido apontado, que a função para lá não do traço - quer dizer, da forma saberes, como Kupfer. E, o r a ao denominado bem sendo àquilo "que designa o conjunto determinações que regem a vida unário propria- sujeito - u m saber, p o r é m sujeito no sentido algum lhe ignorân- a m b í g u a , pois incide sobre o que constitui o tecido, o tudo próprio p o d e r i a s e r d e s c a r t a d o , e v i t a d o , re- ser d o s u j e i t o : o q u e ele e s q u e c e u jeitado pelo psicanalista -, que é no sua traço ele v i v i d o s , d o s p e n s a m e n t o s unário que tem origem tudo mentos como ainda o constituem. É u m a É nesse p o n t o q u e r e c o r r e m o s a cia prefere (1990) acerca de u m a aparen- Kupfer, te d i s s o n â n c i a , c o l o c a d a p o r Lacan, Kupfer entre o que tange ao conceito s a b e r e d e desejo, e q u e n o s de impossi- b i l i t a r i a , a p r i n c í p i o , de f a l a r m o s da Para i n i c i a r m o s essa d i s c u s s ã o , O avesso da psicanálise, seminário n o q u a l La- can (1970) nos diz literalmente "o desejo de saber n ã o tem Se não por e senti- o constituíram e que ignorân- rejeição: o que saber" (Silvestre, ele apud 1990, p. 83). considerarmos definição, somos essa segunda levados, n u m meiro momento a concordar pri- com o q u e L a c a n c o l o c a a c e r c a d o desejo d e s a b e r e d e s u a n ã o - r e l a ç ã o c o m o sa- existência de u m desejo de saber. p a r t i m o s , desta feita, do que ativa, u m a por u m a questão posta anteriormente de história, dos acontecimentos o que nos interessa, a nós analistas, saber" (p. 4 4 ) . do que de q u e ele o ig- cia tex- das e s c a p a (...). É u m saber q u e e s c a p a ao a f i r m o i s s o - q u e n ã o se vê n o m a s de m o d o define dar- n o r a . É, e v i d e n t e m e n t e , u m a de F r e u d , o relacionado mente, a origem do significante. E to conheci- está mais simples d e m a r c a , q u e é, f a l a n d o ora m e n t o e p o d e n d o ser por Q u a n t o a i s s o , ele n o s d i z : " A í referindo-se que ber, s o b r e t u d o se t i v e r m o s e m conta que o saber presente na p e d a g o g i a é da o r d e m do conhecimento tanto, referido ao c a m p o dos E n t r e t a n t o , se o s a b e r qualquer e, p o r saberes. concer- r e l a ç ã o c o m o saber". E acrescenta: " a nente ao inconsciente é o que enreda menos, é claro, que nos o contentemos sujeito em toda a sua história, d e t e r m i n a n d o - o - a i n d a q u e este n ã o o s a i b a c o n s c i e n t e m e n t e - , n ã o estar i a esse s a b e r t a m b é m envolvido ato de a p r e e n d e r , i n c u t i d o na de no busca conhecimento? Vários estudos e trabalhos fo- r a m d e s e n v o l v i d o s v i s a n d o estabelecer as r e l a ç õ e s e n t r e u m c a m p o e o u t r o do saber. Para Vidal (1999), por e x e m p l o , " a a p r e n d i z a g e m se s u s t e n t a na suposição de que o O u t r o sabe. O Outro é o lugar dos significantes que precedem o sujeito. U m sujeito se c o n s t i t u i a p a r t i r d o s s i g n i f i c a n t e s desse c o r p o " . E c o n c l u i : " A p r e n d e r é sempre apre(e)nder o significante do O u t r o ; fazer p r ó p r i a s as p a l a v r a s q u e formam o tesouro de u m a língua" (p. 2 2 ) . Prossigamos, portanto, em nossa leitura do texto l a c a n i a n o para const a t a r m o s q u e , e m b o r a este n o s p a r e ç a contraditório em alguns em outros aponta momentos, p a r a as questões m e s m a s q u e t e n t a m o s l e v a n t a r , sobretudo no que diz respeito à articulação de saber, g o z o e conhecimento. Lacan (1970) coloca que "não há nada em c o m u m conhecimento entre o sujeito e o sujeito do do signifi- cante". E acrescenta: "O significante, e n t ã o , se a r t i c u l a p o r r e p r e s e n t a r um sujeito j u n t o a o u t r o significante. É daí que p a r t i m o s para dar sentido a essa r e p e t i ç ã o i n a u g u r a l , n a medida em que ela é repetição que visa ao g o z o " (p. 4 5 ) . Trata-se de u m gozo proibido, que Lacan insiste em diferenciar da t r a n s g r e s s ã o . Ele n o s r e m e t e à d i m e n são d o Mehrlust, d o mais-de-gozar, q u e se i n s t i t u i a p a r t i r d e u m a p e r d a de gozo e de u m trabalho entrópico do saber a f i m de c o m p e n s a r essa p e r d a . Começa-se a entrever u m de c o n s o n â n c i a , isto porque ponto se-ia m e s m o Lacan muito de u m upokeimenon, do sujeito dividido descreve que é por m e i o do mais-de- da psicanálise. No entanto, se c o n s i - gozar que podemos derarmos distinguir o que diferente o processo na contramão, se dá n o n í v e l " d o s saberes h a r m o n i ¬ olhando justamente para aquilo zantes que ligam c a u s a r i a a n e c e s s i d a d e d e se p r o d u z i r nenwelt" o Umwelt (p. 4 8 ) . Ou externo ao ao seja, o In¬ mundo interno. Pensamos só ser possível d i s t i n g u i r o q u e se p a s s a n o s traçar as m a r g e n s , a s b a l i z a s a p a r t i r das interligados, mu- sobredeterminados, brando-nos o modelo lem- da banda de Moebius. que o próprio poderia conhecimento fazer parte desse p l u s duzido entropicamente, por pro- um ber i n c o n s c i e n t e , cujo objetivo tentar Poderíamos que "tal saber su- que há dizer, com é meio Lacan, de gozo. responder a falta e m ser do p r o d u z é e n t r o p i a , esse p o n t o de perda, é o ú n i c o p o n t o , o ú n i c o regular por onde temos ponto acesso ao pertence à incidência do E Lacan "isso pouco a ver c o m nos dúvida a conclui tem dizendo a ver c o m que a fala d o ser f a l a n t e , c o m s u a p a l a v r a . Isso tem "aí está o oco, significante n o d e s t i n o d o ser f a l a n t e " ( p . 4 8 ) . aparelha. O diz que se t r a d u z , se a r r e m a t a e se m o t i v a o q u e C o r r o b o r a n d o e s s e s d a d o s , Lah i â n c i a , que de s a í d a u m E q u a n d o ele t r a b a l h a , r e p i t o , o q u e se sa- seria sujeito. can veremos q u e está e m j o g o n o g o z o . N i s s o É d e s s a s u p o s i ç ã o q u e se d e p r e ende entificado, algo de u m o u t r o saber ali presente. dois campos, como, principalmente, tuamente i n d i v í d u o desse p a d r ã o , u m jeito não q u a i s se e n c o n t r a m um que nada a estrutura, ser h u m a n o , é assim chamado mais é que que que o húmus se sem porque da lin- certo nú- m e r o de objetos v e m certamente pre- g u a g e m , só t e m q u e se emparelhar, algum d i g o , se a p a l a v r a r c o m esse apare- o que Vidal encher, objetos q u e s ã o , de m o d o , p r é - a d a p t a d o s , feitos p a r a servir lho" Retomamos de t a m p ã o " (p. 4 8 ) . O conhecimento nesse c a s o b e m se a d e q u a a essa d e f i n i ç ã o de Trata-se, no mundo algo veiculado por uma objeto. moderno, t o d o s os de acesso ao sujeito, sendo rado das fórmulas de meios conside- para obter gem da e de sua r e l a ç ã o ao incompletude questionar do ferentes à c o g n i ç ã o t ê m s i d o aborda- realmente n ã o d e i x a m a r g e m p a r a q u e se p o s s a a p r e e n d e r o q u e se p a s s a s o b o i m p é r i o , s o b a p r e v a l ê n c i a d o Eu. To- m a d o e m seu s e n t i d o e s t r i t o , t r a t a r ¬ apre(e)nder Outro, para se n ã o se t r a t a r i a d e m e s m o p o n t o d e e s t r u t u r a , tal um como Lacan o marca acima. De q u a l q u e r forma, A m a n e i r a c o m o as q u e s t õ e s rena contemporaneidade aqui ( 1 9 9 9 ) c o l o c a v a ao falar d a a p r e n d i z a - sucesso e poder. das (p. 4 8 ) . sário voltarmos (1990) a fim faz-se neces- ao texto de de p r e c i s a r m o s Kupfer ainda algumas questões, sobretudo no diz respeito ao desejo de que saber. Nesse trabalho, a autora situa o m o m e n t o de defrontação da criança em relação ao desejo do O u t r o não a partir de " u m tuito, u m a acontecimento percepção imposta realidade, o nascimento mãozinho..." forpela de u m (p. 86). M a s a ir¬ partir Para M a s o t t a (1986), c i t a d o Kupfer (1990), não haveria d ê n c i a entre o saber, e m seu do estrito, e o que Freud senti- propõe a d o desejo de ver, da p u l s ã o de ver respeito da q u a l a c r i a n ç a deveria estar fantil. "A criança, que é u m im- por coinci- da investigação sexual in- investi- b u í d a . U m a v e z c o l o c a d o esse d e s e j o g a d o r i n c a n s á v e l de coisas s e x u a i s , para n a d a quer saber sobre a q u i l o a c r i a n ç a , e s t a se diante de u m a carência, diante u m a ignorância do de saber. Assim, segundo cobrimento encontraria mesmo que m o t i v a sua i n v e s t i g a ç ã o : a diferença dos sexos" (p. 89). Kupfer, o des- d a c r i a n ç a n o q u e se re- E c o n c l u i : "... o s u j e i t o fere à a u s ê n c i a d e p ê n i s a l e v a , n o r - a estrutura m a l m e n t e , "a atravessar o se a c e i t á - l a , t e r á t a m b é m complexo nada q u e r s a b e r (e p o r i s s o r e c a l c a ) s o b r e m e s m a da pulsão, pois, de admitir de c a s t r a ç ã o , a r e c o n h e c e r a ' c a r ê n c i a ' q u e seu o b j e t o é l á b i l , i n d e f i n í v e l e, como p o r t a n t o , i n a l c a n ç á v e l " (p. 89). Mas c a u s a de seu desejo sexual. t a m b é m a leva a r e c o n h e c e r ' c a r ê n c i a de saber' c o m o sua causa do Deparamos, m a i s u m a vez, c o m a noção de objeto desejo de ver que a levou a desco- funda brir". Desse pulsional. modo, ela c o n c l u i , ci- t a n d o C l a v r e u l ( 1 9 6 8 ) , "o desejo ver e de saber n ã o é de estruturalmente d i s t i n t o do desejo s e x u a l " (p. 87). Como é q u e "o perdido, o desejo objeto E, n e s s e s e n t i d o , K u p f e r aponta direção do q u e se m a r c a v a que emerge da o p e r a ç ã o de castração do um furo do se t r a n s f o r m a desejo que o objeto seria e n c o n t r a d o . procurado uma jamais E, a i n d a q u e o fos- E, n e s s e s e n t i d o , L a c a n ( 1 9 7 2 - 3 ) se, i s s o se d a r i a " d e m o d o d i z : " . . . o inconsciente é tório, i n c o m p l e t o , u m a vez que algo implica, s e m p r e estaria s e n d o o c u l t a d o , m a s c a - nos que o ser pense, entanto, como o que não o é que o ser, cento, nada. não falando, goze queira saber r a d o , e m b e n e f í c i o d o p r ó p r i o dese- inconsciente jo d o s u j e i t o d e n ã o s a b e r " ( p . 9 1 ) . e, a c r e s de mais Acrescento que isso quer não de zer - (...) não há saber desejo Wissentrieb coisa insatisfa- na d e l e se d i z ciência tradicional - o moso as i n v e s t i g a ç õ e s s e x u a i s i n f a n t i s se e n c o n t r a r i a m fadadas ao fracasso, de n a d a saber" (p. 87). em que vez no no sen- conhecimento relação ao saber, d i a n t e do é u m desejo de ver ou de saber, que em seguida em que a labilidade do texto freudiano, de 1910, c o m o decorrência dessa equipa- ração o que temos na toda di- alguma. de saber, esse fa- que Freud aponta em a l g u m l u g a r " (p. 143). A p a r t i r dessa p r e m i s s a , c o m o se Traça-se, assim, u m a disjunção entre saber e desejo, no que tange à leitura lacaniana. A fim de dar s u p o r t e à teoria desenvolvida por Freud em relação à sexualidade infantil, Kupfer recorre novamente a Masotta (1986), dizendo q u e se v e r i f i c a n o r e f e r e n c i a l s u s t e n t a r i a m e n t ã o as t e o r i a s s e x u a i s a n o a presença de " u m c h o q u e infantis? desejos: o da criança e o do freudientre Outro simbólico, representado pelos pais reais" (p. 90). Choque que as r e s p o s t a s d a d a s pelos a d u l t o s às p e r g u n t a s i n f a n t i s . ao qual já m e n ç ã o , de o u t r o m o d o , mos sificarmos as r e s p o s t a s fazíamos ao dizer- dadas pelo E, em última q u e se a p r e s e n t a instância, no o desenvolvimento cerne de é o todo da ciência, isto a d u l t o à criança n ã o satisfaziam por- é, u m a total q u e , e l e m e s m o , se e n c o n t r a v a campos d o s a b e r e d a v e r d a d e , se- provido des- de u m saber sobre o gozo. paração disjunção que funda U m a vez que, ao sujeito, é v e d a d o certo m o d o responder sobrepondo-se ponder p o r seu ser s e x u a d o , res- c o m o sujeito do sexo. Trata- se d e u m a i m p o s s i b i l i d a d e da própria estrutura. como sujeito barrado, alienado e m relação saber de absoluto, onisciente ao saber d i v i n o sobre a qual todo o progresso que marca o sujeito os da r e l i g i ã o . S e p a r a ç ã o s o b r e a q u a l repousa, É p o r i s s o , p o r essa f a l t a e s t r u ¬ turante um entre se sustenta científico. Mas, recolocando nossa pergunta, se o sujeito nada quer saber a c e r c a da falta, a c e r c a d a h i â n c i a q u e a o s e u saber, q u e a i n v e s t i g a ç ã o se- o funda, xual da criança tenderá a apagar-se e x p l i c a r seu e m p r e e n d i m e n t o sob o efeito d o recalque, a i n d a n a s q u e s t õ e s s o b r e as o r i g e n s e so- que de que m a n e i r a podemos as q u e s t õ e s s o b r e a s e x u a l i d a d e per- bre a lógica que e n g e n d r a o m a n e ç a m de forma velada. e se a r v o r a n a s c i ê n c i a s , n a s E, n e s s e e n f o q u e , pfer Cristina d i s t i n g u e dois níveis de Kuabor- d a g e m d o s e x u a l : o p r i m e i r o é circunscrito c o m o o referente "às per- guntas objetivas sobre a procriação, entre voraz mundo artes, outros? O que estaria, então, i m p l i c a d o nas investigações sexuais infantis e e m sua relação à atividade intelectual da criança? a n a t o m i a , e até sobre relações s e x u a i s . U m a l u z s o b r e essa q u e s t ã o sur- E, o s e g u n d o , b e m d i f e r e n t e , a r t i c u - ge a p a r t i r d o s t e x t o s de A u l a g n e r lado com as i n t e r r o g a ç õ e s s o b r e sujeito q u e está i m p l i c a d o e m dades como o reali- as d a c a s t r a ç ã o , d o sejo i n c o n s c i e n t e , d a d i f e r e n ç a dedos ( 1 9 6 7 - 8 0 ) , p a r a q u e m " t o d o desejo d e saber é u m desejo de saber sobre Dessa forma, poder-se-ia sexos - t o d o s eles p r o b l e m a s registra- q u e se, n u m dos no c r i a n ç a se d e s c o b r e o b j e t o d o plano do inconsciente" (p. 9 0 ) . S e n d o esses a o s q u a i s se r e f e r e da mãe, n u m tatada a castração, o sujeito rem saber a respeito. Seria importante dizer primeiro momento, a o d i z e r q u e as c r i a n ç a s n a d a que- a no- a desejo segundo tempo, consdepara c o m o fato d e h a v e r u m d e s e j o retomar o desejo". que p r é - e x i s t i a a o seu n a s c i m e n t o e, q u e , ção, colocada p r i m e i r a m e n t e , referida ao m e s m o a u m s e x u a l r e s t r i t o p u r a m e n t e a seu a t u a l i d a d e . Isto é, ele n ã o é o ú n i c o real b i o l ó g i c o , pois o b j e t o c a p a z d e r e s p o n d e r à falta d o falar a partir tempo, o transcende na desse e n u n c i a d o é característico n ã o O u t r o , e, p i o r , n ã o h á o b j e t o só d a s c r i a n ç a s e m s u a s i n v e s t i g a ç õ e s , v e l d e tal f a ç a n h a . S e n d o essa d e s c o - passí- c o m o t a m b é m é p e r t i n e n t e p a r a clas- b e r t a o q u e d e s p e r t a r á seu d e s e j o d e s a b e r s o b r e o d e s e j o d o O u t r o e sobre o que prio fundamenta o seu pró- desejo. E, n e s s e s e n t i d o , v e m o s q u e o s u j e i t o n ã o faz o u t r a c o i s a q u e con- firmar o destino da pulsão, ou seja, o de r e t o r n o ao p r ó p r i o eu. A partir desse p o n t o , fazemos nossa a pergunta da autora: "Como é possível passar do p r i m e i r o desejo, do qual não se q u e r s a b e r , p a r a desejo de saber sobre a ordem o do mundo?" Para responder encontramos a essa questão, referência, no texto au- lagneriano, à demanda de saber, a qual viria e m s u b s t i t u i ç ã o ao desejo d e s a b e r - este i n c o n s c i e n t e - , s e n d o esse o p r o c e s s o a t u a n t e n a s p e r g u n t a s articuladas pela criança e envolvido e m seu d e s e n v o l v i m e n t o i n t e l e c t u a l . S o b r e esse n o v o operador nos é apresentado, Kupfer que se d e t é m e m sua tese, d i z e n d o q u e "é j u s t a m e n te p o r q u e n ã o p o d e h a v e r d e s e j o d e saber sobre o i n c o n s c i e n t e que surgir, e m seu l u g a r , u m a pode demanda d e saberes c o n s t i t u í d o s . O desejo n ã o é e n u n c i á v e l , m a s u m a d e m a n d a o é, e o faz v e i c u l a n d o esse d e s e j o . A n o ç ã o d e d e m a n d a é, e n t ã o , o n o s s o x, a p o n t e que p e r m i t e a p a s s a g e m de u m d e s e j o d e n a d a s a b e r s o b r e o desejo i n c o n s c i e n t e p a r a u m movimen- t o d e q u e r e r s a b e r t u d o s o b r e a ord e m do m u n d o " (p. 101). O que a d e m a n d a de saber visa é a d o m i n a ç ã o s o b r e o q u e se a p r e s e n t a c o m o d e s c o n h e c i d o p a r a o sujeito, sobre o que lhe escapa, concernente a u m real, q u e conhecimento é c a p a z de sendo nenhum abarcar, m a s a o q u a l se o f e r e c e m o b j e t o s ilu- sórios que, ao m e n o s m o m e n t â n e a ¬ m e n t e , p a r e c e m r e s p o n d e r a o v a z i o , m a s q u e l o g o se r e v e l a m i n s a t i s f a t ó r i o s , l e v a n d o o s u j e i t o a d e m a n d a r m a i s , e m a i s , saber. T r a t a se, p o r isso, d e u m e n c o n t r o fortuito, sempre faltoso. O que carac- teriza, em g r a n d e parte, a busca desenfreada pelo c o n h e c i m e n t o , caso da s u p e r d o t a ç ã o , c o m o u m no sintoma. C a m i n h o tortuoso o n d e o sujeito procura, e m vão, u m a trilha q u e l h e p e r m i t a c o n c i l i a r - s e c o m a v e r d a d e d e seu ser, s e n d o sem- pre dela, e por ela m e s m a , d e s v i a d o . U m a vez d i s c u t i d o s esses p o n t o s , h a v e r í a m o s q u e r e t o m a r d u a s d a s três q u e s t õ e s c o l o c a d a s , a n t e r i o r m e n t e , ainda o u seja, s o b r e a escolha de u m objeto sexual e sobre a s u b l i m a ç ã o . P e n s a m o s q u e , de certa f o r m a , a m b a s se e n c o n t r a m v i n c u l a d a s , intrinsecamente. No q u e d i z r e s p e i t o à s u p e r d o t a ç ã o , j á foi dito, n o i n í c i o deste trabalho, acerca d o a f a s t a m e n t o da s e x u a l i d a d e empreendido p o r esses s u j e i t o s . E q u a n d o m e n c i o n a m o s s e x u a l , a q u i , l o g i c a m e n t e d a m o s ênfase ao que é da o r d e m da s e x u a l i d a d e genital, m a s é s a b i d o q u e , e m a l g u n s c a s o s , esse a f a s t a m e n t o se e s t e n d e p a r a os t e m a s s e x u a i s , de u m m o d o m a i s a m p l o , o u seja, m e s m o no interior das pesquisas intelectuais. O s e x u a l se c o n s t i t u i , dessa f o r m a , c o m o u m t e m a totalmente d e s c o n h e c i d o , q u a n d o n ã o a t e r r o r i z a d o r , p a r a esses s u j e i t o s . A p r ó p r i a p r e v a l ê n c i a d o f a t o r i n t e l e c t u a l já a p o n t a d e se r e s g u a r d a r d e s s e c o n t a t o , cumprir um para u m a tentativa ponto no qual a sublimação vem papel. D i t o n a s p a l a v r a s de Freud (1910), a partir da sublimação " p a r t e d o q u e s e r i a a p u l s ã o d e i n v e s t i g a ç ã o se s u b l i m a e m pulsão de saber", desse processo decorre que há u m a d i v i s ã o entre o m a t e r i a l s u b l i m a d o e a q u e l e q u e sofre a ç ã o d o r e c a l q u e . Entendemos ser esse c o n t e ú d o r e c a l c a d o o q u e se refere a o sa- ber s e x u a l , q u e r e m e t e o s u j e i t o a u m p e r í o d o d e s u a c o n s t i t u i ç ã o , o n d e a i n d a n ã o l h e era v e d a d o o a c e s s o a o p r i m e i r o o b j e t o d e seu a m o r , e, s i m u l t a n e a m e n t e , a o a d v e n t o d a i n t e r d i ç ã o d e s s e a m o r . que "o que o s u j e i t o o b t é m d i a n t e d e s u a d e m a n d a de s a b e r é o N o m e - d o - P a i , Kupfer (1990) aborda esse m o m e n t o d i z e n d o a Lei d o P a i , o ' n ã o t o c a r á s n e s t a m u l h e r ' - c o l o c a d o por Freud. P e d i n d o , o u v e n ã o . Eis a face ' c a s t r a d o r a ' d a Lei q u e o p a i v e i c u l a . Eis a a ç ã o d o r e c a l q u e s o b r e as i n v e s t i g a ç õ e s s e x u a i s i n f a n t i s . Eis o que produz No u m desejo de n a d a saber" (p. 104). e n t a n t o , p a r a q u e o s u j e i t o p o s s a se e n v e r e d a r n o campo d o c o n h e c i m e n t o , torna-se n e c e s s á r i o q u e ele d e s v i n c u l e seus o b j e t o s d e p e s q u i s a d e q u a l q u e r r e l a ç ã o c o m esse s a b e r - c a u s a d e h o r r o r e p r o v i d o de c o n o t a ç ã o incestuosa. É n e s s e i n s t a n t e q u e se vê o p e r a r o f r u t o d a s u b l i m a ç ã o , o u seja, a p o s s i b i l i d a d e d e q u e u m m o v i m e n t o t r a n s g r e s s i v o se a r t i c u l e no sentido de possibilitar ao sujeito aventurar-se no c a m p o saberes, u m a vez tendo subvertido de a l g u m a forma dos a interdição, imobilizadora, do pai. Sendo assim, nosso i n t u i t o , a partir de então, será refletir a c e r c a d o f a n t a s m a q u e p a i r a s o b r e o s u p e r d o t a d o , p a r a q u e m essa questão do saber - a c o m p a n h a d o d a q u i l o q u e ele p o r t a d e t r a n s - g r e s s ã o - está p o s t a d e s d e o p r i n c í p i o . N e s s e c a s o , ser s u p e r d o t a d o corresponderia, m í t i c o d a c o n s t i t u i ç ã o s u b j e t i v a , a ser o o b j e t o num momento tamponador falta m a t e r n a e, c o m o tal, m e r e c e d o r a b s o l u t o d e seu Entretanto, u m a vez ocorrendo P a i , o s u j e i t o se e n c o n t r a r i a tado dessa i n t e r d i ç ã o , u m a por um demanda a intervenção do Nome-do- d i v i d i d o . Instituir-se-ia, c o m o situação bastante resul- c o m p l e x a , a saber: lado o sujeito estaria, de certa forma, resguardado i n d e t e r m i n a d a e absoluta do O u t r o materno, constituir-se como narcísico que isso lhe inflige. sofrimento E, a i n d a - e e s t e é o p o n t o mais complexo -, conviver com u m a marca que o remete a todo àquela primeira posição ocupada, colocando-o a m e a ç a da fúria mo- à mercê da paterna. E m b o r a esteja s a c r a m e n t a d o o i n t e r d i t o , a o r e s p o n d e r superdotado, da podendo desejante. Por outro, d e i x a r i a de o c u p a r o lu- gar de e x c l u s i v i d a d e anterior, t e n d o que arcar c o m o mento da amor. o sujeito n ã o d e i x a de r e s p o n d e r como a u m ideal narcísi- co. S u a i n t e l i g ê n c i a l h e p e r m i t e e n c u r t a r d i s t â n c i a s e n t r e o q u e s ã o seus o b j e t i v o s e os m e i o s p a r a a l c a n ç á - l o , ao c o n f e r i r - l h e u m a c a p a c i d a d e de a p r e e n s ã o e l e i t u r a d o m u n d o , q u e c r i a a i l u s ã o , n ã o só d e q u e seja p o s s í v e l s a b e r a c e r c a d o d e s e j o d o O u t r o , c o m o d e q u e seja ele o d e t e n t o r desse saber. A p a r e n t e m e n t e , n ã o ainda haven- do limites para sua ação. M a s , ao m e s m o t e m p o , p a r a d o x a l m e n t e , será essa m e s m a capac i d a d e q u e o c o l o c a r á frente a frente c o m as q u e s t õ e s concernentes à v i d a e à m o r t e , escavando-lhe cada vez m a i s p r o f u n d a a falta. Esse i d e a l q u e é i m p u t a d o a o s u j e i t o , a p r i n c í p i o p e l a m ã e , se e s t e n d e r á , p o s t e r i o r m e n t e , p a r a o c a m p o s o c i a l , n o q u a l t a m b é m se e n c o n t r a r á p r e s e n t e , s o b a esfera d o sucesso, o r i s c o d e u m a de u m a represália, de u m a perda, punição. Os efeitos dessa a m e a ç a p o d e m se m a n i f e s t a r , n o s u j e i t o , d a s m a i s v a r i a d a s f o r m a s : f o b i a s , r i t u a i s o b s e s s i v o s e, m e s m o , n a i m p o s s i b i l i d a d e de obter êxito u s u f r u i n d o seu p r ó p r i o potencial in- telectual. A i n d a que haja u m m e c a n i s m o de transgressão e n v o l v i d o na b u s c a de c o n h e c i m e n t o , a m a r c a da c a s t r a ç ã o estará s e m p r e p a r a o n e u r ó t i c o . E, o o b j e t o s u p o s t o presente c o m p l e t á - l o j a m a i s s e r á en- c o n t r a d o , p o s t o q u e está p e r d i d o d e s d e s e m p r e . A s s i m , m e s m o que seja i n f i n d á v e l sua d e m a n d a de ber, esgotará busca, ele n u n c a pois nada sua será c a p a z de sa- satisfazê-lo completamente. Em s u m a , s a b e r fazer, s a b e r codificar os m e i o s desvendar de acesso mistérios depara e enigmas que resulta.m, p a r a a g r a n d e m a i o r i a das pessoas, inacessíveis, não ções ao todo. sujeito Pois não de dá que condi- possa é o fato de ser conhe- cer q u e r e s o l v e r á s u a q u e s t ã o acerca d o q u e é ser, d o falasser, d e s u a falt a a ser... P a r a e s s a q u e s t ã o solução. não E prosseguir é outra coisa que de manter-se caminha não nessa uma forma vivo à medida para morte. REFERÊNCIAS há busca que se • BIBLIOGRÁFICAS A u l a g n e r - S p a i r a n i , P. ( 1 9 6 7 - 6 8 ) . 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