ESCOLA SUPERIOR DE ENSINO ANÍSIO TEIXEIRA PEDAGOGIA LILIANE BARBOSA DOS SANTOS MIRIAN GONZAGA DA SILVA OLÍVIA DO ROSARIO PORTELA BULLYING: A INTERVENÇÃO DO PEDAGOGO NO AMBIENTE ESCOLAR SERRA 2011 1 LILIANE BARBOSA DOS SANTOS MIRIAN GONZAGA DA SILVA OLÍVIA DO ROSARIO PORTELA BULLYING: A INTERVENÇÃO DO PEDAGOGO NO AMBIENTE ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Programa de Graduação em Pedagogia da Escola de Superior de Ensino Anísio Teixeira, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciatura Plena em Pedagogia. Orientador: Dr. Davis Moreira Alvim SERRA 2011 2 LILIANE BARBOSA DOS SANTOS MIRIAN GONZAGA DA SILVA OLÍVIA DO ROSARIO PORTELA BULLYING: A INTERVENÇÃO DO PEDAGOGO NO AMBIENTE ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Programa de Graduação em Pedagogia da Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira, como requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciatura Plena em Pedagogia. Aprovada em 11 de Julho de 2011 COMISSÃO EXAMINADORA _________________________________________________ Prof° Dr. Davis Moreira Alvim Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira Orientador _________________________________________________ Prof° Mestre Rosimar Macedo Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira Membro 1 _________________________________________________ Prof° Mestre Vânia Rosa Rodrigues Escola Superior de Ensino Anísio Teixeira Membro 2 3 Dedicamos a nossa família, com todo amor. 4 A Deus, pela vida, pela capacidade de aprendermos e pela persistência para continuarmos acreditando nos nossos desejos. Aos nossos maridos e familiares pela compreensão e a todos que acreditaram direta e indiretamente em nosso sucesso. Aos nossos mestres pelo ensino e persistência durante todos os dias que passamos juntos. 5 “Amor é a única força capaz transformar um inimigo num amigo.” (Martin Luther King) de 6 RESUMO Quando confrontados com situações que são humilhantes e constrangedoras no ambiente estudantil, local, que em sua gênese, pressupõe aprendizagem, o desconhecimento das pessoas, incluindo profissionais da educação, poderia conduzir a uma abordagem insatisfatória para a questão do bullying. Bullying não é o fruto de imaginação da vítima, tanto que vem ganhando os meios de comunicação de maneira consistente, despertando a família e a sociedade, bem como educadores, para discutirem o tema. Apontam os psicólogos que na sociedade contemporânea, muitas crianças e jovens desconhecem as diferenças exatas entre o bem e mal, o certo e errado. Os estudiosos, em suas várias conceituações sobre o fenômeno bullying, não divergem ao afirmar que atos repetitivos, disfarçado de "brincadeiras", que, pela sua repugnância, atinge a honra, o brio e a dignidade da vítima, escolhida sempre, em razão de um diferencial que apresenta, sejam estes físicos, intelectuais ou comportamentais, sendo assim, de fato, um modal de violência que precisa ser abordada de maneira sistemática, envolvendo os principais intervenientes desse contexto, como vítima, agressor, suas famílias, escola e sociedade. Surge assim, a importância de entender o papel do pedagogo mediante a esse fenômeno, por meio de observações diárias como um pesquisador de seu ambiente escolar tendo sua principal característica conscientizar educadores, alunos e pais como constatamos no trabalho de campo desenvolvido, sendo utilizadas pesquisas bibliográficas e entrevistas com três pedagogas. PALAVRAS-CHAVE: Vítima. Agressor. Escola. Família. 7 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO..............................................................................................8 2. BULLYING: SERÁ SÓ IMAGINAÇÃO?...............................................11 3. BULLYING E SUAS ORIGENS.............................................................20 3.1 BULLYING: UMA VISÃO GERAL................................................................20 3.2 BULLYING E SUA HISTÓRIA NO BRASIL.................................................21 4. ESTUDO DE CASO: O ENCONTRO COM A REALIDADE......................25 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................31 6. REFERÊNCIAS..........................................................................................32 6.1 BIBLIOGRAFICA.........................................................................................32 6.2 WEBGRAFIA...............................................................................................32 6.3 MULTIMEIOS..............................................................................................32 7. APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO DE PESQUISA.....................................33 8 1 INTRODUÇÃO Na busca de identificar e compreender as repercussões do bullying na vida dos atores dessa relação de perversidade, este fenômeno vem sendo objeto de estudo de diversos educadores. Mas o que leva crianças e adolescentes a prática de atos de crueldade com seus próprios colegas? Para Psicólogos e Psicanalistas estamos num momento em que a adolescência, principalmente de classe média, vive um conflito grave sobre o certo e errado. Surge então a escola, com seu papel fundamental na formação intelectual e moral da pessoa, para fazer a interação com a família e sociedade e, juntos construírem ferramentas para enfrentar essa barbárie que destrói pessoas ainda em formação, as crianças e os adolescentes. Importante destacar que o algoz dessa relação de perseguição nasce dentro da família e, sendo assim, questiona-se os comportamentos e valores éticos das crianças. Com efeito, os ensinamentos dos valores iniciam-se no berço familiar estendendo-se ao ambiente escolar, onde as crianças passam a maior parte de seu tempo. A considerar o ambiente social dos atores desse cenário de perseguição, a escola, temos que o bullying se inclui no conceito sociológico de fato social. Estudos demonstram as repercussões desse fenômeno nas diversas áreas da vida da pessoa, levando, inclusive a suicídios e homicídios, nos casos mais extremos. Portanto, ao ponto que o tema ganha dimensão na imprensa, nas Secretarias de Educação e até no âmbito escolar, eficientes serão os mecanismos de proteção às vítimas a serem adotados pelos órgãos competentes. Este trabalho foi edificado também para a busca de algumas respostas e, via de conseqüência, cooperar de forma proficiente para erradicação do bullying nas relações escolares. O presente Trabalho de Conclusão de Curso, foi realizado na Região Metropolitana da Grande Vitória, especificamente na cidade de Serra – ES, com pesquisa de 9 campo em Escolas Estaduais de Ensino Fundamental e Médio, sendo a pesquisa focada no campo pedagógico, priorizando a área de atuação do Pedagogo Escolar. Estudos realizados sobre o bullying foram aprofundados com o intuito de analisar a bibliografia que discute a diferença entre brincadeiras saudáveis das formas pejorativas, cruéis e violentas praticadas pelo agressor que, “se divertindo” com tais atitudes, põe em terra o respeito ao próximo. Dessa maneira surgem algumas perguntas como: • O que é o Bullying? • Quais as características das pessoas que enfrentam esse problema? • Qual o papel do Pedagogo diante da prática do Bullying? • Quais medidas podem ser tomadas diante da detecção do Bullying? O objetivo geral da pesquisa é conhecer como o Pedagogo pode atuar para prevenir, minimizar e erradicar situações de bullying no ambiente escolar. Os objetivos específicos são: • Conhecer o problema bullying por meio de referenciais teóricos; • Evidenciar quais posturas deve ser adotada pelos educadores, em especial os Pedagogos, dentro das instituições de ensino; • Levantar ações e propostas pedagógicas no sentido de reconstruir as relações interpessoais, rumo a um ambiente escolar mais salutar. Estudos levam a crer que o bullying é um mal que acontece em todos os níveis sociais, independente de qual seja o padrão cultural predominante naquele ambiente. Partindo do pressuposto de que vem a ser atos de violência repetitiva, muitas vezes são confundidas por profissionais da área educacional, e até mesmo pelos familiares, que tendem a compreender a situação como algo inocente e sem relevância, mas que poderá repercutir na vida adulta do individuo, bem como na sua vida profissional, sua saúde psicológica e relação social. 10 Daí a importância do papel do Pedagogo para identificar, analisar, discutir e pesquisar formas de prevenção ou amenização dos atos de violência dentro do ambiente escolar. A pesquisa de campo foi utilizada e, feito um levantamento objetivo, para tomar conhecimento da dimensão do fenômeno bullying no ambiente escolar. A par de todo o procedimento empírico adotado, bem como das leituras do material bibliográfico, constata-se que esse fenômeno não escolhe cor, classe social nem tão pouco cultural e econômica, sendo certo os prejuízos que ocasionam às relações interpessoais e à sociedade como um todo. Como fonte bibliográfica recorre-se a textos escritos em revistas como Nova Escola, livros (Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz; Bullying: Mentes Perigosas na Escola; Assédio moral: a violência perversa do cotidiano), textos digitais como o de Cléo Fante em “O fenômeno Bullying e as suas conseqüências psicológicas” e entrevista realizada com três pedagogas pós graduadas de escolas estaduais localizadas no município de Serra, sendo utilizado o modelo de perguntas e respostas. As entrevistas foram desenvolvidas por meio de questionário com sete perguntas com a finalidade de se compreender alguns questionamentos sobre suas práticas pedagógicas frente ao bullying e, as respostas aconteceram de forma clara e direta. Foi possível presenciarmos como que as Pedagogas lidam com o bullying, e ainda conhecer as metodologias adotadas em relação a este fenômeno. 11 2 BULLYING: SERÁ SÓ IMAGINAÇÃO? Os comportamentos agressivos, psicológicos e físicos dos atores envolvidos em situações de perseguição no ambiente escolar não é obra do imaginária da vítima. A discussão conceitual que aqui se busca aprofundar evidenciará este aspecto, bem como o próprio conceito do instituto objeto de investigação, o Bullying. Esta relação de perversidade é um problema que existe em muitas escolas, no entanto, nem todas têm consciência desse fenômeno, representadas por atitudes agressivas, repetitivas, intencionais e travestidas de brincadeiras, mas que, na verdade, trata-se de violência, que pode inclusive conduzir a vítima à morte. Neste sentido, primorosa é a lição de Pereira (2002, p. 31), que define: [...] Bullying é uma forma séria de comportamento antissocial que, pela sua duração, pode prejudicar o desenvolvimento da criança, tanto imediatamente como em longo prazo, sendo contribuinte para o maior envolvimento dos “bullies activos” em comportamentos criminais na vida adulta. Portanto, essas práticas envolvem crianças e adolescentes, restando para estes conseqüências que marcarão toda sua fase adulta; são os reflexos psicológicos que suportam vítimas e algozes. Um estudo mais profundo sobre o bullying possibilitará à família, educadores e sociedade entender e desenvolver um novo olhar sobre o problema, inclusive ensinado-os a lidar com seus filhos, quando envolvido neste cenário. Todos os estudos e pesquisas convergem no sentido de que o bullying é uma realidade, não devaneio ou sentimento de perseguição das vítimas; como querem crer os menos informados ou como argumentam os agressores em suas frágeis teses de defesa. Beira a leviandade e aclaram acentuado grau de desinformação, as colocações que o bullying encontra-se fora da realidade cotidiana. Tanto que os estudiosos convergem no sentido de sua existência, sendo a negação de sua existência incompatível com as pesquisas científicas, bem como com as matérias veiculadas de forma ostensiva nos meios de comunicação hodiernamente. 12 E diferente não foi nossa constatação na pesquisa de campo, que será tratado em específico tópico adiante. Importante destacar que Bullying é uma expressão proveniente do adjetivo em inglês bully que, traduzido, significa tirano, valentão, ou seja, é um termo adotado por pesquisadores, em diversos países para definir a utilização de apelidos maldosos e formas cruéis para intimidar, afastar, perseguir os outros. O fenômeno não escolhe etnia, raça, cor, classe social ou econômica. Ocorre em escolas públicas ou privadas, áreas urbanas ou rurais, ensino infantil ou médio e pode atingir a todos em diferentes culturas e países. Sem correspondência no idioma português, o Brasil, utiliza o termo em inglês bullying, na França é chamado de harcélement quotidien, na Itália prepotenza e/ou bullismo, ijime no Japão, de agressionen unter schülern na Alemanha e em Portugal de maus-tratos entre pares, e para alguns estudiosos o bullying é determinado como violência moral que vem da adequação do francês assédio moral. Pesquisadores de todo o mundo estão antenados para este fenômeno que se torna cada dia mais preocupante, ante seu potencial crescimento. Percebe-se que as consequências do bullying, acabam por ser um caso de saúde pública, pois seus reflexos vão para além das Escolas, conduzindo as vítimas à problemas que inspiram cuidados especializados, como médicos, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais etc. Diante disso Ana Beatriz (2010, p. 25) comenta: Alem de os bullies escolherem um aluno alvo que se encontra em franca desigualdade de poder, geralmente este também já apresenta uma baixa autoestima. A prática de Bullying agrava o problema preexistente, assim como pode abrir quadros graves de transtornos psíquicos e/ou comportamentais que, muitas vezes, trazem prejuízos irreversíveis. Necessário ressaltar que o nome bullying foi designado para atos de violência que ocorra dentro do ambiente escolar, o que não elimina o fato de algumas vezes formas de violência estar presentes em outros lugares como condomínios residenciais, famílias, asilos de idosos, locais de trabalho, mas fora da escola esses atos não podem ser confundidos com bullying. 13 Portanto, sendo um conceito peculiar definido, não há como confundi-lo com outras formas de violência, ou seja, pela consequência grave que este fenômeno traz ao psiquismo de suas vítimas e de seus envolvidos. É neste diapasão que se pode afirmar, como fazem todos os pesquisadores, que o perverso fenômeno bullying não se trata de mera imaginação das vítimas, sendo, inegavelmente, uma triste realidade nas escolas de ensino fundamental e médio. Sendo assim é preciso entender que na realidade do bullying tem vítimas, agressores e expectadores, ou seja, nesse enredo de violência cada um tem seu papel e isso é um fato importante para que o ciclo de maldades seja cada vez mais cruel causando marcas profundas em todos os envolvidos. Manter em funcionamento este processo vai depender de que cada um faça sua parte sem questionamento, pois a partir do momento em que um deles quebrar esta corrente de agressividade os caminhos para as mudanças acontecerá, dando alternativa para que ressurja uma nova história para os envolvidos. Porém para que isso aconteça precisamos conhecer de fato quem é vítima, agressor e espectador e qual a sua função nesta história. Logo, relevante é entender como cada um exerce seu papel dentro desse contexto, começando pelas vítimas, que se divide em: vítima típica, vítima provocadora e vítima agressora. As vítimas típicas geralmente são pessoas acanhadas, não costuma ter muitos amigos e tem características físicas marcantes como ser magro ou gordo, utilizam óculos ou aparelhos ortodônticos ou até mesmo ser portador de algumas deficiências físicas. Percebe-se que é importante para os estudantes esta engajado na cultura escolar, como vestir-se de forma imposta por determinado grupo falar o dialeto da moda, ouvir certas músicas, porém as vítimas típicas geralmente não se encaixam nestes padrões e acabam se tornando alvos fáceis de chacotas, agressões psicológicas e até físicas. As vítimas provocadoras costumam não ser tão tímidas e caladas como as vítimas típicas, geralmente elas atraem atenção dos agressores com suas atitudes espontâneas, elas agem no impulso sem pensar nas conseqüências acarretando 14 para si os ataques dos bullies, de forma camuflada que agem sem levantar suspeitas de suas atitudes. Segundo Silva (2010) um exemplo típico de vítima provocadora são os alunos hiperativos, agitados, explosivos que costumam deixar o ambiente escolar agitado mesmo sem intenção previa por isso acabam chamando a atenção dos agressores que por serem espertos incitam as ações impensadas dos mesmos ocasionando a troca de papeis de vítima para um falso culpado. Porém a vítimas agressoras costuma devolver os atos de violência que recebem geralmente nas vítimas mais fracas do que elas para se vingar das atitudes de violência sofrida. E assim o bullying não atinge apenas uma ou duas pessoas mais o grupo, ou seja, estende a toda a escola. Fante (2005, p. 71) relata que as vitimas tem tais características: [...] ‘vítima típica’, como aquele que serve de bode expiatório para um grupo; ‘vítima provocadora’, como aquele que provoca determinadas reações contra as quais não possui habilidades para lidar; ‘vítima agressora’, como aquele que reproduz os maus-tratos sofridos. O agressor tem a fama de ser popular dentro da escola, é um valentão nato, não costuma seguir regras e normas e só consegui conviver bem com pessoas que concordam com as suas atitudes, ou seja, o agressor precisa e gosta de ser admirado. Ele pode agir só ou em grupo e geralmente ele é o líder e os outros fazem tudo que ele manda. Os agressores têm uma personalidade forte o que faz dele um ser obstinado, que não aceita ser contrariado. Ainda pequeno pode vir a se envolver em pequenos delitos e arruaça fora do ambiente escolar e muitos repetem esses comportamento em casa respondendo os pais, maltratando irmãos e empregados. Mas estas atitudes acabam sendo camufladas por que estes indivíduos costumam ter bom rendimento na escola, geralmente tem boas notas, são inteligentes e antenados. Por isso que Silva acredita que o que falta para eles é o afeto e respeito pelo próximo, sendo que hoje eles estão dentro de uma sala de aula, mas já crescido eles poderão vir a ser o marido tirano, atear fogo em mendigos ou índios. Em vista disso entende-se que para haver a continuidade desse espetáculo de violência é necessário haver platéia e ai entram os espectadores, eles observam as agressões, mas não fazem nada para impedir, alguns não concordam com os 15 agressores, mas também não defende os agredidos. Existem três tipos de espectadores os passivos, ativos e os neutros. Os espectadores passivos têm a postura de se calar diante das agressões sofridas pelos colegas por medo de se tornarem as próximas vítimas eles até sofrem ameaças para não delatar. Existe a vontade de reagir, de fazer algo para ajudar os colegas e por não fazerem nada acabam sofrendo por arrependimento o que pode ocasionar problemas emocionais. Os espectadores ativos esses não participam dos atos de agressões, porém dão apoio moral para os agressores e em alguns casos eles podem até ser os articuladores para que aconteçam as agressões mas procuram ficar incógnitas, apenas observando o circulo para ver o resultado sem se comprometer. Já os espectadores neutros são indivíduos que não se sensibilizam com o bullying, mediante os atos de violência conseguem ficar inertes sem se comoverem com as vítimas e nem se unem aos agressores. Alguns deles podem vir de uma família desestruturada ou conviver em comunidades violentas o que os deixam menos sensíveis a situação e assim acabam por omitir o bullying. E necessário ressaltar que os comportamentos abusivos são inúmeros e alternados, tendo como causas a ausência afetiva, falta de limite no papel dos pais e o abuso de domínio sobre os filhos. O que leva a crer que tais atitudes, tanto das vítimas quanto dos agressores e espectadores, têm início no seio familiar, pois muitos são vitimas de violência física ou psicológica. Contudo, a identificação dessa forma de violência se torna complicada para a família, escola e sociedade, pois, muitas vezes, as vítimas temem em delatar seus algozes por receio de retaliações e por medo de “perder o moral” e ser desacreditado e humilhado perante a sociedade, o que repercutiria em declaração de temor, fraqueza e medo; com isso os carrascos se protegem na “lei do silêncio” e do pavor que estabelecem sobre as suas vítimas, fazendo se calar os que assistem aos atos de violência por temerem se tornar as próximas vítimas. 16 Por isso que os profissionais que atuam nas escolas e os responsáveis devem estar atentos a certos sinais que as vítimas, agressores e espectadores têm quando estão envolvidos em situação de bullying. As vítimas dentro da escola costumam se isolar, são abatidos, não costumam falar muito e nem tem muitos amigos. E em momentos como recreio, educação física onde estão fora de sala de aula procuram estar ao lado de um adulto para fugir dos valentões. Em sala são calados e tem problemas de expressar suas opiniões e até mesmo de tirar certas dúvidas relacionadas ao conteúdo escolar. Podem ter problemas com a freqüência e se tornar desinteressada e descuidada pelos estudos. Podendo chegar a apresentar ferimentos causados por agressões físicas. Em casa há algumas mudanças de comportamentos no humor, hora estão muito alegres hora estão tristes, sonolência, dores de cabeça constantes, náuseas, perda ou aumento de apetite. Eles não costumam levar muitos amigos em casa e até apresentam algumas desculpas para não irem à escola. Partindo dessa visão, os pais detectando que a criança ou adolescente encontra-se em estado de isolamento, devem escutá-los, dar atenção e, conforme o caso, procurar acompanhamento com Especialistas, Psicólogos ou Psiquiatras. Os agressores são os que costumam colocar apelidos nos colegas, expor as vítimas por causa de sua aparência, são maldosos e cruéis quando fazem certas ”brincadeiras“, são brigões costumam intimidar, tomam os materiais escolares dos colegas e se desentender com professores e até funcionários da escola. Em casa são agressivos com os pais, não obedecem às regras e conseguem se livrar de punições de maneira inteligente e esperta. Os espectadores são mais difíceis de serem identificados e para isso é necessária muita observação já que os mesmos costumam se manter em silêncio na escola e em casa e os mesmos não expressam no seu dia a dia a pressão que tem vivido. Alguns até relatam algumas coisas quando indagado, porém nem sempre de forma clara. O que justifica a afirmação da autora Cléo Fante (2005), de que “o Bullying tem como característica principal a violência oculta” e por estar camuflado é que para 17 sociedade pode parecer algo novo, e nos dias atuais está se tornando realidade na vida de algumas pessoas, porém, este fato acontece há muito tempo, causado pela intolerância e preconceito que existe na sociedade e que tem ultrapassado os muros da escola. Portanto Rouanet define: Intolerância e preconceito são, assim, conceitos muito próximos. Na verdade, pode se pensar que o preconceito diz respeito às raízes psíquicas de uma atitude que, quando manifestada, surge como intolerância. E não obstante ser a manifestação do preconceito individual, isso não equivale a dizer que suas raízes sejam puramente psicológicas – uma vez que ele surge no processo de socialização de cada sujeito (ROUANET apud ALBINO, 2010). Segundo Silva, o contexto social em que estamos inseridos, hoje somos capazes de chegar à conclusão de que o bullying já fez, ou faz, parte da vida de todos, ora como vítimas, agressor ou espectador. Isso se dá por causa da necessidade humana de viver em sociedade e essas relações interpessoais nos levam a procura de status, liderança e poder. É necessário ressaltar que para as relações interpessoais tenham um bom êxito, muitas vezes é imprescindível ter um líder que ajude a organizar normas e regras que visem o bem estar de todos. Porém o que constatamos com o decorrer do desenvolvimento da história da humanidade é que muitos não conseguem lidar com o poder, visando o bem estar do próximo o que induzem a atos de tirania, de abusos de autoridade. Esses tipos podem ser encontrados em vários lugares, tais como nas escolas, clubes, ambientes de trabalhos, repartições públicas, nas esferas religiosas e no seio familiar. Por isso, pode-se verificar que ação de agressividade, de violência e de humilhação pode acontecer em vários ambientes e para esses atos existem denominações especificas, que descriminaremos a seguir. Mobbing é o termo usado para designar assédio moral no Brasil, sendo assim, é classificado como abuso de poder entre adultos no ambiente de trabalho. Por isso, esse tipo de comportamento é antigo, pois vem desde a época da escravidão, que continuou na Revolução Industrial. E mesmo depois, de alguns direitos trabalhistas conquistados, alguns atos de humilhações na jornada de trabalho ainda são notórios. 18 Logo, nada mais real, nada mais cotidiano na sociedade escolar contemporânea, muito embora, o bullying não seja instituto novo, somente explorado – estudado com mais proficiência nas últimas décadas. Importante destacar, dentro deste contexto de realidade, que os professores também tem sido alvo de violência escolar, muitos têm vivido uma realidade de medo e terror, sendo coagidos por alunos, colegas de trabalho e até por parte dos responsáveis dos alunos. Esse fenômeno tem acarretado para o professor diversos sintomas como tonturas, insônia dores de cabeça entre outros, impossibilitando o seu desempenho profissional. Silva (2010) descreve que pode ocorre dentro das escolas atos de violência contra alunos ou professores que assumem a sua homossexualidade o que designa como bullying homofóbico. A homossexualidade é vista na sociedade de forma preconceituosa, basicamente, por causa da religião e da educação conservadora de seio familiar, que passados de geração para geração traz valores negativos e princípios morais distorcidos, tratados como comportamentos transgressores e indecorosos. Portanto, nesse grupo os alunos que, de alguma forma, fogem dos padrões ditos normais para a sociedade sofrem de forma mais rigorosa a exclusão dos mais diversos grupos de estudantes, assim como por parte dos professores e demais funcionários da escola. O despreparo e o preconceito dos adultos no ambiente escolar e/ou familiar tendem a perpetuar e agravar o problema, além de contribuir para a ocorrência de suas cruéis e indesejáveis conseqüências; sobretudo, um desrespeito à liberdade e à individualidade de cada ser humano (SILVA, 2010, p. 149). Sendo assim podemos entender que o bullying é um surto que tem atingido a todas as esferas sociais, e que essas atitudes não são simples brincadeiras inocentes e as implicações que estes atos produzem na sociedade são desastrosos, sendo descabida qualquer ilação no sentido de comparar estes fatos com devaneio ou imaginação das vítimas. O bullying ainda é fomentador da evasão escolar, baixo rendimento, depressão, baixa auto-estima e desestrutura familiar, social e outras conseqüências diversas. 19 Para algumas vitimas, mesmo após a interrupção do bullying, as conseqüências advindas dessa violência tendem a se propagar por toda uma existência, em decorrência das experiências traumáticas difíceis de serem removidas da memória. Em casos mais graves, quando a violência é intensa e continua, a vitima pode chegar a cometer suicídio ou praticar atos desesperados de heteroagressão e autoagressão (homicídio, seguido de suicídio) (SILVA, 2010, p156). Desde modo e possível entender que o bullying é causado pela falta de tolerância com as diferencias e que a sua existência tem criado uma geração de pessoas que visa o estético, o belo e a igualdade que repudia as diferencias, e os menos favorecidos. Portanto este fenômeno não é algo que esta apenas nas mentes das pessoas, ou fatos que acontece com apenas pequenos grupos, mas sim tem estado no dia a dia de cada um começando dentro das escolas e acompanhando suas vitimas, agressores e expectadores por toda vida. 20 3 BULLYING E SUAS ORIGENS Analisa-se, neste capítulo, as diferentes abordagens dos autores sobre o conceito de bullying, onde serão relatados diversos pontos, enfocando também o fenômeno no Brasil. 3.1 BULLYING: UMA VISÃO GERAL Dentre os autores é importante citar Cléo Fante, que define o bullying como qualquer conduta abusiva, praticada de forma repetitiva no ambiente escolar por colegas ou educadores. Neste ponto, esse conceito se assemelha como o da autora Ana Beatriz Barbosa Silva (2010, p. 22), que conceitua o bullying como “termo para explicar todo tipo de comportamento agressivo, cruel, proposital e sistemático inerente as relações interpessoais”. No entanto, o bullying, na visão de Silva passa dos muros da escola. Em sua análise ela afirma que este fenômeno acontece em todo espaço onde se dá as relações sociais. E este ponto de vista também é citado por Marie-France Hirigoien (2002, p. 79) que define o bullying como: Forma de descrever as humilhações, os vexames ou as ameaças que certas crianças ou grupos de crianças infligem as outras. Depois o termo se estendeu as agressões observadas no exército, nas atividades esportivas, na vida familiar, em particular com relação à pessoa de idade, e evidentemente, no mundo do trabalho. Sendo assim, as autoras Silva e Hirigoien defendem que estes atos se vivenciam no dia a dia nas nossas relações sociais, sendo que quem pratica nem sempre tem a noção e nem enxerga que o ato praticado é um mal que causa estrago na vida das pessoas em qualquer ambiente de envolvimento pessoal. Esta análise nos leva ao conceito de Chalita (2008, p. 109), que define bullying como uma violência que cresce com a cumplicidade de alguns, com a tolerância de outros e com a omissão de muitos. Segundo alguns autores como Fante e Silva, em meados de 1972 e 1973 se inicia estudos sobre os problemas de violência escolar. 21 No ano de 1982, “os jornais noruegueses noticiam o suicídio de três crianças com grandes probabilidades de terem sido motivados por situações de maus-tratos a que eram submetidas pelos seus companheiros de escola” (PEREIRA, 2009, p. 32), o que se compara com Chalita (2008, p. 103) que relata um fato espantoso acontecido em 1993 na Noruega, onde “três meninos, com idades entre 10 e 14 anos, cometeram suicídio; tudo indicava que haviam sido pressionados por situações graves de bullying”. 3.2 BULLYING E SUA HISTÓRIA NO BRASIL. No Brasil esse fenômeno começou a ser estudado efetivamente a partir de 1997, sendo que Marta Canfield, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi uma das primeiras a realizar pesquisas sobre esse tipo de comportamento em algumas escolas na cidade de Santa Maria. Mas, ao se analisar a história brasileira encontra se o espanto dos colonizadores com os nativos que aqui existiam, por meio da carta de Pero Vaz de Caminha enviada ao Rei Dom Manuel, 1500 se deixava claro tanto o receio e a aversão, quanto à curiosidade e a estima. A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer e beber. Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar (CAMINHA apud CORTESÃO, 1994, p.191). Portanto, nesta questão histórica encontra-se a dificuldade dos colonizadores do Brasil em conviver com as diferenças deparadas nos nativos da terra, o que leva a prática de um genocídio, onde quem não se tornava como eles eram agredidos até a morte. 22 Sendo assim, apesar de tanta admiração do que havia encontrado, a singularidade de seus aspectos físicos foram a principal causa de tanta estranheza. Por isso, há anos, a sociedade intitula o que deve ser certo ou errado, normal ou anormal, como Chalita expressa em seu livro: A diversidade humana é comumente enfatizada nos aspectos negativos do outro, tendo como parâmetro o olhar de superioridade daquele que observa e identifica o outro com base na diferença. Ser diferente não é um motivo, mas um pretexto para que o autor do bullying satisfaça a sua necessidade de agredir, de humilhar, de marginalizar (CHALITA, 2008. p.130). Em uma sociedade onde homens são confundidos com mendigos e por esse motivos são mortos queimados, mulheres são espancadas e saqueadas por serem confundidas com travestis e prostitutas e por isso merecem esse fim, é retrato de uma sociedade que admite e aceita que jovens e crianças sejam humilhadas e excluídas, e assim, sofram por grupos que os acham diferentes dos padrões estabelecidos por eles. Contudo, por o bullying ser uma manifestação de rejeição de ordem social, privando o indivíduo antes considerado inferior e diferente que passa a perder a dignidade e o direito de participar e existir. É neste contexto que Vera Maria Candau acredita que a existência de um pequeno grupo dominante usufruiu de status social mais alto e maiores privilégios. Privilégios esses que levam esta minoria a acreditar ser portador de uma cultura acertada aqueles que não têm acesso devem se enquadrar ou será punido e excluído. O bullying nasce dessas relações de desigualdades onde o agressor acredita ter em suas mãos o direito de punir aqueles que não se enquadram em seus critérios. Segundo Silva, os agressores têm uma personalidade maldosa que geralmente está associada a um perigoso poder de liderança que é obtido por meio de força física ou por assedio psicológico. Por isso ao se analisar o conceito de agressores temos um grupo de pessoas envoltas em uma cultura de desigualdade ligadas a aparência, ilusões, vaidade, egoísmo, arrogância, inveja e que, na maioria das vezes, são padrões ditados pela sociedade em que se insere que aprisiona vítima, expectadores e agressores. Isso nos leva a expor Platão que no “Mito da Caverna” relata que as normas culturais de alguns podem levar cegueira e a escravidão. 23 Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa elevação, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, do gênero dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles. (...) Veja também ao longo deste muro homens que transportam toda espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados. (...) Pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombras dos objetos. (...) O que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados de sua ignorância, para ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam? – Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam? (...) Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia. (...) Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol? (...) E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam? (PLATÃO, 1956, p. 287). No mito da caverna pessoas vivem sobre a ilusão de falsas imagens, sombras, ou seja, uma falsa realidade. Nos tempos atuais as pessoas têm vivido como no exemplo de Platão, presas em suas cavernas que encobrem a verdade e as tornam habituadas a viver de ilusões, o que leva a humanidade a se acostumar com a 24 exclusão, com as diferenças sociais gerando assim uma sociedade desigual e violenta. Sendo assim, geralmente, essa violência aumenta a passividade e a sociedade se acostumou em ver apenas as sombras e a viver de ilusões dando total legalidade para que essa violência continue a perpetuar nas relações interpessoais, mas toda essa violência depende da cultura em que o individuo está inserido, pois o que pode ser violência para um pode não representar um ato violento para o outro. Portanto, com o decorrer dos anos, os atos violentos vêm se transformando, pois hoje relações familiares, social e escolar, quando maus conduzidos podem gerar violências, ou seja, crimes enquanto aspectos sociais, não somente crimes atos como homicídios, roubos entre outros. Segundo Cléo Fante (2005. p. 157), violência vem a ser “todo ato, praticado de forma consciente ou inconsciente, que fere, magoa, constrange ou causa dano a qualquer membro da espécie humana”. Contudo, é necessário ressaltar que nem todo ato de violência praticado dentro do ambiente escolar pode ser considerado bullying, pois segundo Fante o grau de violência simples ou pontual é aquela que ataca esporadicamente uma vítima, sendo que ato de violência complexa e frequente que geralmente não há motivos prévios vêm a ser denominado bullying. 25 4 ESTUDO DE CASO: O ENCONTRO COM A REALIDADE Discuti-se, neste capítulo, de forma crítica a pesquisa realizada no município de Serra – ES, em três instituições estaduais de ensino. As escolas estão situadas em diferentes áreas da cidade de Serra – ES, na grande Vitória, Estado do Espírito Santo, precisamente no bairro Pitanga, Bairro Residencial Laranjeiras e Carapina. Essas escolas atendem uma clientela, em geral, de classe média baixa, algumas famílias migraram de outros Estados, como Bahia, Minas e Ceará a procura de oportunidades no mercado de trabalho. A maioria dos pais de alunos trabalha nas indústrias, no setor de construção civil e no comércio. Essas instituições têm como meta a busca crescente de formação de cidadãos críticos, autônomos preparados para conviver em uma sociedade competitiva e Industrial, que é o caso do nosso Estado. O questionário foi respondido de forma individual por três pedagogas, todas pós-graduadas (Especialização latu sensu), e que terão suas identidades preservadas neste trabalho. Nesta pesquisa verificamos que as três pedagogas já vivenciaram atos de violência, algumas dentro das instituições citadas acima, outras no decorrer de sua experiência profissional. Esses atos de violência se dividem em verbal: com xingamentos, apelidos maldosos, “a relatos de agressão verbal aos pedagogos por parte dos pais dos alunos por acreditarem que os mesmos são culpados do mau comportamento dos filhos”; moral: denegrindo a imagem do outro (como inventar situações envolvendo funcionários da escola de assedio sexual ou agressões físicas); e a violência física: com socos, pontas-pé, ou até, como foi citado por uma das entrevistadas, onde um “pai agrediu a aluna, que era sua filha, com o capacete e quebrou sua clavícula, e alunos que ficam sem ir à escola por sofrerem agressão dos pais em casa. Percebe-se então que dentro das instituições de ensino pesquisadas é possível identificar a prática de atos de violência verbal, moral e física, o que nos leva a refletir, com ampara nos ensinamentos de Fante e outros autores que definem 26 violência por atitudes consciente ou inconsciente, que machuca, maltrata, aflige e causa prejuízos ao homem. Diante disso, pode-se perceber que atos de violência como esses, acontecem tanto nas instituições de ensino como em suas próprias casas. Segundo as pedagogas entrevistadas, quando atos de violência acontecem dentro das instituições, os procedimentos tomados é seguir o que orienta o Regimento Comum das Escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado do Espírito Santo, que orienta em primeira mão aplicar uma advertência verbal e, caso continue os atos fazse o registro de até três ocorrências, para só então se não houver mudança de comportamento, e se muito necessário, a suspensão das aulas por determinado período. As pedagogas relatam que antes de chegarem a este fator extremo, costuma chamar as famílias para conversarem e aplicar ao aluno outras medidas educativas como, por exemplo: o aluno que soltou uma bomba dentro da escola foi pedido a ele para pesquisar e dar uma palestra sobre o assunto. Essas atitudes nas instituições deixam claro que a violência pode ser contra atacada com dialogo, com medidas que permitem o aluno refletir em seus atos e nas conseqüências delas. Atos de violência podem marcar a vida do ser humano durante toda a sua existência, contudo segundo Fante (2005, p. 157): É comum que as vítimas do comportamento violento ou agressivo vivenciem sentimentos de medo, vergonha, raiva e impotência que rebaixam a auto–estima; e, sendo por um prolongado período de tempo expostas à ação dos seus agressores e aos olhares indiferentes, omissos ou desdenhosos dos seus “espectadores”, é natural que mobilizem cadeias de construções de pensamentos, que estimulam reações como ansiedade, irritação, angústia, tristeza, melancolia, além de pensamentos de vingança e suicídio. A violência em suas diversas formas está tão presente no cotidiano das pessoas, que o bullying tem se tornado um termo conhecido. Tanto que a primeira pedagoga entrevistada conceituou o bullying como uma violência contra o outro cidadão; uma falta de respeito; que não leva em conta o ser humano como um todo, atingindo principalmente o físico e o emocional.; levando a traumas, fazendo com que a vítima seja coagida. Já a segunda afirma que sofremos bullying desde pequenos na escola, 27 e de forma não diferente das duas primeiras, a terceira pedagoga diz que é um mal que sempre atingiu a sociedade, mas que somente agora foi classificada. Por isso podemos ressaltar que o bullying já não é visto apenas como um fenômeno que só acontece em países distantes, mais os pedagogos tem tido noção sobre o assunto e como ele tem estado presente nas relações sociais. Isso tem sido tão real que é pacífico entre as pedagogas a ocorrência desse fenômeno maléfico, destacando os relatos de situações de “apelidamentos” negativos, onde o aluno chama a pessoa de “baleia”, por serem gordos, os que usam óculos são chamados de “jacaré de quatro olhos”, salientando a deficiência do colega, como acontece com um aluno Z.N, especial visual. Uma das pedagogas ainda nos relatou que no ano de 2010, houve uma briga na instituição onde trabalha, por causa do preconceito contra os homossexuais; porém ela disse que neste ano isso mudou, pois os homossexuais têm enfrentado esses tipos de preconceito, e agora sem receio de se assumirem a opção sexual. Segundo Fante (2005, p. 155): [...] há violência quando alguém, voluntariamente, usa da força para obrigar uma pessoa ou grupo a agir de forma contrária à sua vontade, ou quando alguém é impedido de agir de acordo com a sua própria intenção, ou, ainda, quando é privado de um bem. Na realidade essa situação tem estado presente na sociedade em todas as classes sociais, o que tem feito com que as famílias se preocupem e procurem ajuda da escola, e assim, o que tem acontecido nas três instituições visitadas são relatos de pais que procuram as escolas, geralmente para relatar casos de bullying que estão acontecendo com seus filhos. Um exemplo é o pai do caso a acima. Outros casos são os de pais reclamando dos apelidos maldosos que colegas costumam alocar, como no caso de pessoas negras que são chamadas de macaco etc. Geralmente os pais procuram as instituições nas reuniões de pais com tais questionamentos. Assim, vimos que algumas famílias estão atentas às mudanças que vem acontecido com os seus filhos e procurado criar um elo junto à escola, o que é de grande valia para diagnosticar estes acontecimentos. 28 Porém sabemos que nem todas as famílias estão atentas ao cotidiano de seus filhos, outras têm sido tolerantes para com as atitudes dos filhos, sem procurar educar de forma correta. Há também as que utilizam da agressividade como forma de ensinar valores, o que geralmente é refletido nas escolas por meio de atos de violência. Segundo Silva (2010, p. 62) “educar é confrontar os filhos com as regras e os limites, alem de fornecer–lhes condições para que possam aprender a tolerar e enfrentar as frustrações do cotidiano”. Dessa maneira, com a tarefa de proporcionar condições para que os filhos aprendam a lidar com as dificuldades do dia a dia e estar preparados para o convívio em sociedade, as escolas visitadas demonstraram que estão buscando informações sobre o bullying, realizando palestras junto com o Conselho Tutelar, abordagens de conscientização em sala de aula e trabalhos de pesquisas com os alunos, que segundo a pedagoga “é para que os mesmos estejam cientes das conseqüências, caso um aluno que sofre de bullying faça um B.O (Boletim de Ocorrência Policial), pois o aluno agressor terá que responder juntamente com a família perante as autoridades”. Uma das escolas está com um projeto de palestras, e no ano passado esse assunto foi trabalhado nas disciplinas de sociologia e filosofia. Assim percebemos que a escola tem abordado o assunto de forma clara e objetiva, fazendo uma ponte entre família e aluno para juntos entenderem melhor o assunto e procurar, por meio de medidas pedagógicas, a mudança para essa realidade, rompendo com uma cultura de comportamento maldoso. Segundo Chalita, a escola reproduz a sociedade em que está inserida e talvez por isso temos vivido tempos de guerra dentro das escolas, porém temos vistos que algumas tem entendido que o seu comprometimento é com uma educação que promova a autonomia, liberdade e amor, e assim educando para uma convivência em sociedade pautada na paz. 29 As instituições de ensino pesquisadas têm buscado esclarecer o que é o bullying, suas características e conseqüências para os alunos e, segundo as pedagogas entrevistadas, a participação dos alunos tem sido grande, pois ficam bastante durante a realização desses trabalhos. Alguns até tem compartilhado as noticias sobre o bullying que vêem nas redes de comunicações. No entanto, para uma das pedagogas, na prática não esta havendo muitas mudanças significativas no seu cotidiano, pois suas atitudes continuam as mesmas, mesmo com a intervenção dos educadores. Contudo, segundo uma das educadoras entrevistadas o bullying acontece desde a pré escola, então no ensino fundamental e médio as ações acontece de forma cautelar, e é por isso que os alunos têm se preocupado, e quando eles tiverem acesso à lei, os que sofrem com isso irão se revelar. Segundo uma das pedagogas “eles têm começado a despertar que isso é bullying e que existe uma legislação, mas até então para eles isso não é muito visível”. Em virtude disso, a escola e a família têm um papel de provocar as mudanças no comportamento dos alunos mesmo quando de primeira instancia não se vê modificações, percebemos que as atitudes de muitos deles tem mudado. Uma das pedagogas nos relatou que neste ano o município de Serra - ES está trabalhando com um projeto que já vem sendo desenvolvido há três anos, que tem como tema “Valores Humanos”, no qual o objetivo principal é trabalhar o amor, a verdade, a paz e a não violência com as crianças, utilizando atividades em sala de aula, palestra entre outros meios, pois a Serra tem o intuito de trabalhar esses conceitos justamente para minimizar a violência, tanto na escola bem como na família. Portanto, assim como as pedagogas relataram, sabe-se que o bullying é um mal que pode atingir a qualquer esfera da sociedade, independente de classe social, no entanto medidas estão sendo tomadas e leis sendo criadas para proteger crianças e adolescentes que sofrem e muitas vezes não têm o apoio da própria família. 30 E assim foi o caso que uma das pedagogas contou e que foi citado acima, quando o pai bateu com o capacete na filha, ou seja, ao invés de ajudar, há casos em que a família acaba atrapalhando, pois ainda há entendimentos de que as coisas devem ser resolvidas na base da violência. Ora uma criança que sofre violência em seu próprio lar o que se pode esperar dela senão mais violência? Pois segundo Chalita (2008, p. 213) “As relações toscas de uma família doente geram pessoas doentes. E isso dificulta ainda mais o papel da escola”. Segundo Fante as escolas do Brasil têm começado a se preocupar com a questão da violência e assim tem desenvolvido projetos para minimizar e até acabar com o problema. Uma ação pioneira no Brasil é o projeto “Educar pela paz” que conseguiu alcançar mudanças em relação a este fenômeno no estado do Rio de Janeiro o que demonstra que para haver mudança é necessário ação, conscientização e dedicação. Por meio de ações como essa é possível conscientizar, identificar, e assim ampliar metas para combater o problema de forma inteligível. Aumentando práticas que vão despertar em toda comunidade estudantil uma postura solidária, e humanista. “Todos devem reconhecer que a responsabilidade de controlar, dentro do possível, o que se passa entre as crianças e os jovens em uma escola também é sua. Uma forma de exercer essa responsabilidade é o compromisso e a ação” (FANTE, 2005, p.97). Enfim, deve haver também o compromisso e entender que não adianta conscientizar apenas os alunos, como também a instituição precisam assumir de forma clara que o problema existe e é necessário uma nova conduta frente a esse fenômeno. O pedagogo precisa ser um investigador do fenômeno para descobrir as causas, pois só assim poderão traçar metas que levem ao êxito. Com efeito, o que torna o bullying cada vez mais comum e mais cruel é o silêncio, mas para se ouvir a voz das vítimas, dos expectadores e até dos agressores, é necessário que pedagogos, diretores, professores, pais, comunidade estudantil e a sociedade estejam atentos, prontos para ouvir o grito de socorro. 31 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Importa-se frisar que o fenômeno objeto do presente trabalho é, na verdade, uma forma de violência escolar, que desestabiliza de forma contumaz a vítima, com atitudes irônicas. Como percebido durante as pesquisas e trabalho de campo, o bullying é um fato social que precisa ser enfrentado por toda a sociedade, seja por meio de políticas públicas a serem desenvolvidas no ambiente escolar, seja por meio de constante reciclagem de professores, pedagogo e educadores em geral, mas nada disso surtirá o efeito esperado senão tiver como foco central a reorganização dos valores das crianças e adolescentes na célula menor da sociedade. Dessa forma, fácil a constatação da importância da família no processo de combate ao fenômeno denominado bullying. Um problema nem sempre levado a sério, porém com graves consequências. Muitos jovens perdem a vida, cometendo suicídio por não aguentarem a barra. É certo que, a vítima poderá desenvolver problemas de ordem médica, com irradiação para toda sua vida adulta, do outro lado, o agressor estará colocando seu futuro na incerteza, podendo, inclusive, descambar para a esfera jurídico-criminal. Com efeito, é o bullying, ato atentatório à honra, imagem e dignidade da pessoa humana, valores estes constitucionalmente protegidos, que como dito, poderá ensejar ações de reparação por dano moral. Do ponto de vista criminal, a conduta agressora poderá ser engradada nos crime contra a honra, o que poderá conduzir o agressor à prisão. As pesquisas de campo explicitaram certo grau de abandono da família na educação dos filhos, como se a escola pudesse suprir a ausência e distanciamento dos pais, um equívoco. Mas, Pedagogos têm enfrentados os casos concretos compelindo o agressor a desenvolver pesquisas sobre o bullying, levando-o à reflexão, o que denota que quanto mais se discute o problema, mas informa-se a sociedade com um todo, construindo caminhos para minimização e/ou erradicação desse fenômeno social. 32 6 REFERÊNCIAS 1. CANDAU, Vera Maria. Sociedade, Educação e Cultura(s). Rio de Janeiro: Vozes, 2002. 2. CHALITA, Gabriel. Pedagogia da Amizade: Bullying o sofrimento das vítimas e dos agressores. 3. ed. São Paulo: Gente, 2008. 3. CORTESÃO, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha. 3 ed. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1994. 4. FANTE, Cléo. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2. ed. São Paulo: Verus, 2005. 5. HIRIGOYEN, Marie France. Assédio moral: a violência perversa do cotidiano. São Paulo: Bertrand do Brasil, 2000. 6. PEREIRA, Sônia Maria de Souza. Bullying e suas implicações no ambiente escolar. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2009. 7. PLATÃO. A República de Platão: Livro VII – O mito da caverna. 6. ed. São Paulo: Atenas, 1956. (Biblioteca Clássica; 35). 8. SANTOMAURO, Beatriz. Violência Virtual. Nova Escola. São Paulo: n 233, p.66-73, junho/julho. 2010. 9. SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Bullying: Mentes Perigosas na Escola. São Paulo: Fontanar, 2010. 6.1 Webgrafia 1. ALBINO, Priscilla Linhares; TERÊNCIA, Marlos Gonçalves: Considerações critica sobre o fenômeno do Bullying: do conceito ao combate e à prevenção. Disponível em: < http://www.pmf.sc.gov.br/arquivos/arquivos/pdf/18 _03_2010_15.21.10.2af5ca0c78153b8b4a47993d66a51436.pdf >. Acesso em: 09 abr.2011. 2. FANTE, Cleodelice Aparecida Zonato: O fenômeno Bullying e as suas conseqüências psicológicas. Disponível em: < www.psicologia.org.br/ internacional/pscl84.htm >. Acesso em: 09 abr. 2011. 3. SIQUEIRA, Raquel de Arruda: A problemática do Bullying na prática docente. Disponível em:< www.webartigos.com/articles/7301/.../Bullying/ pagina1.html >. Acesso em: 09 abr. 2011. 6.2 Multimeios 1. BULLYING: Provocações sem limites. Direção: Josecho San Mateo. Produção: Ágel Garcia Raldan. Espanha: Els Quatre Gats Audiovisuals, 2010. 1DVD (89 min). 33 APÊNDICE A 34 QUESTIONÁRIO a) Você já presenciou algum tipo de violência dentro da escola? Descreva. b) Qual a sua atitude mediante a um ato de violência dentro da escola? c) Você sabe o que é o Bullying? d) Você já presenciou algum caso de Bullying? Descreva. e) Você já foi abordada por familiares para conversar sobre o Bullying? f) Você como educadora já fez algum tipo de projeto para prevenir que práticas de violência entre alunos, como o Bullying, por exemplo, aconteça? Descreva. g) Como os alunos têm reagido em relação ao tema?