PESQUISA Construção de uma ferramenta de suporte à decisão para formulação de políticas públicas voltadas à melhoria do processo de ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa no ensino básico RELATÓRIO 3 (set 2012) Luzia Cristina Araújo, Luiza Portes, Katia Puente, Lucia Barbosa1 1 INTRODUÇÃO O fundamento para avaliar o desempenho educacional brasileiro na língua portuguesa está na complexa relação entre a proposta política pedagógica nacional para o tema e a sua execução num universo de grande amplitude social e cultural. Na análise dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de língua portuguesa para o Ensino Fundamental pode-se observar um duplo caminho propositivo de implantação da disciplina no âmbito escolar: a primeira, dirigida aos anos iniciais, que se ocupa da apresentação da área de língua portuguesa, em que se discutem questões sobre a natureza da linguagem, bem como a relação texto oral-escrito/gramática; e a segunda, no terceiro e no quarto ciclos (anos finais), em que aparecem os objetivos e conteúdos específicos dessa fase, divididos em prática de escuta de textos orais / leitura de textos escritos, prática de produção de textos orais e escritos e prática de análise linguística. Vale a ressalva que os PCN, tanto para os anos iniciais quanto para os finais, ainda elucida que o ensino de português deve ser fundamentado na interdisciplinaridade, para que o aluno considere a língua em uma perspectiva mais ampla, e na relação da disciplina aos temas transversais (ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo). Resguardados os supracitados posicionamentos político-educacionais, a pesquisa se ocupa em buscar possíveis soluções à superação das problemáticas relacionadas à materialização efetiva dos contextos preconizados em relação ao ensino 1 Coordenação da pesquisa Anderson Amendoeira Namen. Colaboração das bolsistas Beatriz Rollas Nogueira e Ana Carolina Soares e Soares. da língua portuguesa, que embora venha sendo alvo de investigação a longa data, emerge, ainda, a necessidade de se buscar novos caminhos na busca da qualidade educativa. Neste bojo, surgem inquiatações que nos faz pensar sobre: o que acontece com alguns alunos que, após uma trajetória de no mínimo nove anos de escolaridade, chegam ao final do Ensino Fundamental apresentando sérias dificuldades em se expressar por escrito e ler com fluência? A questão é que não estamos nos referindo somente àqueles alunos oriundos de uma vida social carregada de dificuldades, com pouquíssimo acesso à leitura e a escrita. Estamos também nos referindo a alunos que, de alguma maneira, interagem constantemente com essa e tantas outras formas de expressão, e que são acompanhados por professores defensores de concepções pedagógicas diversas, variando suas práticas pedagógicas que se configuram entre as posturas mais tradicionais até as mais progressistas. São alunos que, teoricamente, deveriam concluir o Ensino Fundamental escrevendo e lendo com fluência. O que acontece com a aprendizagem desses alunos entre o primeiro e o último ano dessa etapa de escolarização? Um bom começo à superação destas inquietações é nos debruçarmos sobre as relações de construção teórico-práticas do processo ensino-aprendizagem da tríade diretor-professor-aluno. Para isso estaremos, primeiramente, utilizando as estatísticas do INEP de 2007 e 2009 referente à formação desses agentes e as matrizes curriculares de instituições de ensino direcionadas a formação de pedagogos, agentes da promoção do ensino da língua portuguesa nos anos iniciais, na perspectiva de buscarmos alguns indícios que nos direcionem a busca de parâmetros para a pesquisa de campo. O presente relatório irá abordar essas questões, tendo como recorte a dimensão de análise ensino-professor com ênfase na formação/capacitação conhecimento das diretrizes de ensino, articulado com a dimensão de análise ensinoestrutura-gestão. O primeiro aspecto a considerar são as competências exigidas nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino da língua portuguesa e que fundamenta os processos de avaliação nacional. Nessa linha será que o perfil, a formação e a capacitação dos professores e gestores estão vinculados à implantação de tais diretrizes? 2 CONTEXTO POLÍTICO PARA O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA 2.1 A orientação legal dos PCN do ensino de português dos ANOS INICIAIS (resumo) O ensino de português nos anos iniciais do Ensino Fundamental declarados nos Parâmetros Curriculares Nacionais enfatiza que ao longo de nove anos espera-se que os alunos adquiram competências quanto à linguagem “possibilitando resolver problemas cotidianos, tendo acesso aos bens culturais e alcançar participação plena no mundo letrado e para isso serem capazes de” (BRASIL-PCN, 1997): ÁREA DE LÍNGUA PORTUGUESA OBJETIVOS GERAIS • • • • • • • • • Expandir o uso da linguagem em instâncias privadas e utilizá-la com eficácia em instâncias públicas, sabendo assumir a palavra e produzir textos – tanto orais como escritos – coerentes, coesos, adequados a seus destinatários, aos objetivos a que se propõem e aos assuntos tratados; Utilizar diferentes registros, inclusive os mais formais da variedade linguística valorizada socialmente, sabendo adequá-los às circunstâncias da situação comunicativa de que participam; Conhecer e respeitar as diferentes variedades linguísticas do português falado; Compreender os textos orais e escritos com os quais se defrontam em diferentes situações de participação social, interpretando-os corretamente e inferindo as intenções de quem os produz; Valorizar a leitura como fonte de informação via de acesso aos mundos criados pela literatura e possibilidade de função estética, sendo capazes de recorrer aos materiais escritos em função de diferentes objetivos; Utilizar a linguagem como instrumento de aprendizagem, sabendo como proceder para ter acesso, compreender e fazer uso de informações contidas nos textos: identificar aspectos relevantes; organizar notas;elaborar roteiros; compor textos coerentes a partir de trechos oriundos de diferentes fontes; fazer resumos, índices, esquemas, etc. Valer-se da linguagem para melhorar a qualidade de suas relações pessoais, sendo capazes de expressar seus sentimentos, experiências, ideias e opiniões, bem como acolher, interpretar e considerar os dos outros, contrapondo-os quando necessário; Usar os conhecimentos adquiridos por meio da prática de reflexão sobre a língua para expandirem as possibilidades de uso da linguagem e a capacidade de análise crítica; Conhecer e analisar criticamente os usos da língua como veículo de valores e preconceitos de classe, credo, gênero ou etnia. Primeiro ciclo Escrita • fazer correspondência entre segmentos falados e escritos; • aprender a escrever um texto separando as palavras; • dividir o texto escrito em reses (uso de maiúsculas, pontuação) • conhecer regularidades ortográficas e irregularidades (regras ou não regras) • usar dicionário, evitar uso de conectivos como e, aí, em excesso, separar discurso direto do indireto. Linguagem oral • Ouvir com atenção, formular, responder perguntas e manifestar-se; • Acolher opiniões; • Fazer exposição oral; • Narrar fatos respeitando a temporalidade e registrando relações de causa e efeito; • Contar historias; • Descrever cenários, Objetos e personagens, • Relatar experiências, sentimentos, ideias e opiniões claras e ordenadamente Avaliação narrar historias com sequências, respeitando ordem temporal, lógica e compreensão, demonstrar que compreendeu ao escrever, preocupar-se com segmentos de texto ortográfico. 2.º ciclo escrita • usar critérios pra selecionar leituras, acentuar palavras e usar regras de tonicidade; • explorar diferentes modalidades de leitura; • desenvolver estratégicas de escrita (planejar textos, redigir, rascunhos, usar esboços) ; • compor textos coerentes, com pontuação, uso de conectivos, tempo verbal e expressões temporal e causal adequados; • usar regências verbais e concordâncias verbal e nominal; • fazer resumos Linguagem oral • produzir textos simular meios de comunicação; • perceber elementos intencionais (sons e inflexões de voz); identificar elementos não verbais (gestos, tons); • usar linguagem com maior nível de formalidade, m • manter um ponto de vista coerente. Avaliação Saber resumir ideias centrais, seja oral ou escrito. Leitura clara; Encontrar elementos e significados de palavras no dicionário; Escrever textos com falhas de pontuação e ortografia; Conhecer regras ortográficas; Respeitar características de gênero, pontuação, escrever textos auto explicativos. Deve ter por ponto de partida os usos que o aluno já faz da língua ao chegar à escola. (BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: 1.ª a 4.ª série – Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1997. v.1. Disponível em http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&i d=293&Itemid=358. Acesso em 21/ maio /2012) 2.2 A orientação legal dos PCN do ensino de português dos ANOS FINAIS (resumo) Os objetivos de ensino nos PCN para orientar o trabalho com os conteúdos previstos nas diferentes práticas dos anos finais estão assim pautados: No trabalho com os conteúdos previstos nas diferentes práticas, a escola deverá organizar um conjunto de atividades que possibilitem ao aluno desenvolver o domínio da expressão oral e escrita em situações de uso público da linguagem, levando em conta a situação de produção social e material do texto (lugar social do locutor em relação ao(s) destinatário(s); destinatário(s) e seu lugar social; finalidade ou intenção do autor; tempo e lugar material da produção e do suporte) e selecionar, a partir disso, os gêneros adequados para a produção de texto, operando sobre as dimensões pragmática semântica e gramatical. No processo de escuta de textos orais, espera-se que o aluno: • amplie, progressivamente, o conjunto de conhecimentos discursivos, semânticos e gramaticais envolvidos na construção dos sentidos do texto; • reconheça a contribuição complementar dos elementos nãoverbais (gestos, expressões faciais, postura corporal); • utilize a linguagem escrita, quando for necessário, como apoio para registro, documentação e análise; • amplie a capacidade de reconhecer as intenções do enunciador, sendo capaz de aderir a ou recusar as posições ideológicas sustentadas em seu discurso. No processo de leitura de textos escritos, espera-se que o aluno: • saiba selecionar textos segundo seu interesse e necessidade; • leia, de maneira autônoma, textos de gêneros e temas com os quais tenha construído familiaridade: *sele cionando procedimentos de leitura adequados a diferentes objetivos e interesses e as características do gênero e suporte; *desenvolvendo sua capacidade de construir um conjunto de expectativas (pressuposições antecipadoras dos sentidos, da forma e da função do texto), apoiando-se em seus conhecimentos prévios sobre gênero, suporte e universo temático, bem como sobre saliências textuais; • recursos gráficos, imagens, dados da própria obra (índice, prefácio etc.); *confirmando antecipações e inferências realizadas antes e durante a leitura; *articulando o maior número possível de índices textuais e contextuais na construção do sentido do texto, de modo a: a)utilizar inferências pragmáticas para dar sentido as expressões que não pertençam a s eu repertório linguístico ou estejam empregadas de forma não usual em sua linguagem; b)extrair informações não explicitadas, apoiando-se em deduções; c)estabelecer a progressão temática; d)integrar e sintetizar informações, expressando-as em linguagem própria, oralmente ou por escrito; e)interpretar recursos figurativos tais como: metáforas, metonímias, eufemismos, hipérboles etc.; *delimitando um problema levantado durante a leitura e localizando as fontes de informação pertinentes para resolvê-lo; • seja receptivo a textos que rompam com seu universo de expectativas, por meio de leituras desafiadoras para sua condição atual, apoiando sem marcas formais do próprio ou em orientações oferecidas pelo professor; • troque impressões com outros leitores a respeito dos textos lidos, posicionando-se diante da crítica, tanto a partir do próprio texto como de sua prática enquanto leitor; • compreenda a leitura em suas diferentes dimensões; • o dever de ler, a necessidade de ler e o prazer de ler; • seja capaz de aderir ou recusar as posições ideológicas que reconheça nos textos que lê. No processo de produção de textos orais, espera-se que o aluno: planeje a fala pública usando a linguagem escrita em função das exigências da situação e dos objetivos estabelecidos; considere os papéis assumidos pelos participantes, ajustando o texto à variedade linguística adequada; saiba utilizar e valorizar o repertório linguístico de sua comunidade na produção de textos; monitore seu desempenho oral, levando em conta a intenção comunicativa e a reação dos interlocutores e reformulando o planejamento prévio, quando necessário; considere possíveis efeitos de sentido produzidos pela utilização de elementos não-verbais.No processo de produção de textos escritos, espera-se que o aluno: redija diferentes tipos de textos, estruturando-os de maneira a garantir: *a relevância das partes e dos tópicos em relação ao tema e propósitos do texto; *a continuidade temática; *a explicitação de informações contextuais ou de premissas indispensáveis à interpretação; *a explicitação de relações entre expressões mediante recursos linguísticos apropriados (retomadas, anáforas, conectivos), que possibilitem a recuperação da referência por parte do destinatário; realize escolhas de elementos lexicais, sintáticos, figurativos e ilustrativos, ajustando-as às circunstâncias, formalidade e propósitos da interação; utilize com propriedade e desenvoltura os padrões da escrita em função das exigências do gênero e das condições de produção; analise e revise o próprio texto em função dos objetivos estabelecidos, da intenção comunicativa e do leitor a que se destina, redigindo tantas quantas forem as versões necessárias para considerar o texto produzido bem escrito. No processo de análise linguística, espera-se que o aluno: constitua um conjunto de conhecimentos sobre o funcionamento da linguagem e sobre o sistema linguístico relevante para as práticas de escuta, leitura e produção de textos; aproprie-se dos instrumentos de natureza procedimental e conceitual necessários para a análise e reflexão linguística (delimitação e identificação de unidades, compreensão das relações estabelecidas entre as unidades e das funções discursivas associadas a elas no contexto); seja capaz de verificar as regularidades das diferentes variedades de português, reconhecendo os valores sociais neles implicados e, consequentemente, o preconceito contra as formas populares em oposição às formas dos socialmente favorecidos. (BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Terceiro e Quarto ciclo do ensino fundamental – Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=articl e&id=293&Itemid=358. Acesso em 21/maio/2012) Ao analisar os PCN de língua portuguesa para o ensino fundamental observa-se que todo sistema de ensino e avaliação orienta-se no modelo de construção e execução contextual da linguagem. Nesse sentido, o professor, principal agente do processo precisa ter como ferramenta básica o entendimento do processo cognitivo do sujeito que está ensinando (PORTES, 2003). Mas será que a formação de professores de pedagogia, responsáveis pela fase inicial de construção da linguagem contempla em sua estrutura curricular essas necessidades de formação do aluno nos parâmetros da estrutura construtivista interdisciplinar? Os profissionais que estão executando o ensino da língua portuguesa conhecem, tanto na fase infantil, como no fundamental I e II, as leis e matrizes de avaliação que delimitam sua ação em sala de aula? A capacitação dos professores que estão em campo se destina a reforçar essas competências necessárias ao profissional e/ou mesmo suprir a ausência das mesmas? Uma análise inicial dos questionários do INEP sobre o desempenho na língua portuguesa destinados a diretores e professores e das matrizes curriculares das principais instituições de formação de pedagogos indicam que não. 3 ESTATÍSTICAS DO INEP A partir da mineração no banco de dados no INEP, viabilizado pelo data mart2 O primeiro questionário analisado foi referente à formação – a preparação para exercer o papel social indicado – e a capacitação – processo contínuo de qualificação para melhor adequação às necessidades efetivas e dinâmicas da função - do professor em cruzamento direto com o questionário do diretor que contempla a vinculação com a capacitação e interação pedagógica, cuja ambiguidade das perguntas foi determinante para o levantamento de suspeitas quanto à legitimidade das respostas quando se pretende analisar a qualidade da educação dos profissionais. Em exemplo destaca-se: Q4: Pergunta - Nível máximo de escolaridade até a graduação do professor- Dentre as possíveis respostas inclui-se: Ensino Superior- outros (23,60%). Quem seriam estes outros? 2 A definição oficial, dada por Bill Inmon, um dos criadores do conceito, diz que um data warehouse é Uma coleção de dados históricos e temporais, integrados em torno de um assunto, de forma não volátil, visando o auxílio ao processo de tomada de decisão (INMON, 1997). Um data mart, por sua vez, é um subconjunto de um data warehouse, no qual uma porção resumida ou altamente focalizada dos dados é colocada em um banco de dados separado, destinado a uma população específica de usuários. Como sugestão as pesquisadoras indicaram que deveria ser acrescentada em futuro questionário de coleta maior especificidade: Professor magistério + graduação. Desta forma teríamos a noção que pelo menos este profissional iniciou sua formação no magistério. Isso é um fator relevante tendo em vista a dificuldade de formação necessária para atender a demanda posta nos PCN expostos na seção 2 e confirmados na seção 3 deste relatório. Se os profissionais já oriundos do magistério médio e pedagogia apresentam dificuldades de construir uma identidade profissional vinculada às novas demandas da profissão neste âmbito, o que se pode esperar desses outros? Vale destacar que eles têm a mesma representatividade nas séries iniciais. Os PCN demonstram que no primeiro e segundo ciclo a demanda por capacitar um aluno em organizar uma estrutura de linguagem, já contextualizada, requer do professor amplo conhecimento do desenvolvimento cognitivo desse aluno, bem como a identificação de transtornos psiconeurofuncionais (dislalia, dislexia, etc.) necessários ao entendimento dos impeditivos de desempenho. O mesmo acontece na necessidade de construir instrumento avaliativo condizente com as competências postas. Tabela 1: Q4 2007 Q4 Nível máximo de escolaridade até a graduação Professor Ensino Médio – Magistério (antigo 2.º grau) 4ª Série 8ª Série Total ProfessorSerie4 MediaSerie4 Total Professor Serie8 MediaSerie8 27,49% 174,56 0,36% 224,81 2,65% 176,42 0,62% 233,14 Ensino Superior – Escola Normal Superior 2,89% 183,11 0,30% 228,80 Ensino Superior – Licenciatura em Letras 14,31% 177,81 81,89% 231,49 Ensino Médio – Outros (antigo 2.º grau) Ensino Superior – Licenciatura em Matemática 5,04% 176,42 5,07% 231,36 Ensino Superior – Outros 23,60% 176,91 10,82% 231,62 Ensino Superior – Pedagogia 23,83% 178,55 0,89% 225,96 0,19% 178,34 0,06% 100,00% 176,92 100,00% Menos que o Ensino Médio (antigo 2.º grau) Total geral 231,42 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Q7: Qual a natureza desta instituição (refere-se à pergunta anterior sobre se o professor estudou em instituição privada ou pública). Com as seguintes respostas: centro universitário; faculdades isoladas; não se aplica; resposta nula; universidade. As pesquisadoras entendem que esta pergunta não corresponde ao objetivo proposto, ou seja, torna-se inócua quanto se discute a qualidade da educação do professor. Q5: Há quantos anos obteve o nível de escolaridade assinalado na questão 4. Esta questão traz variedades de respostas que vão de 2 até 20-ou mais. No entanto não esclarece se estes profissionais continuaram sua formação, ou seja, se de alguma forma investiram em sua capacitação. Tabela 2: Q5 2007 Q5 Há quantos anos obteve o nível de escolaridade assinalado na questão Q4 Professor Até-2 4ª Série Total Professor Serie4 8ª Série MediaSerie4 Total Professor Serie8 MediaSerie8 17,53% 176,63 4,89% 229,16 3- 7 29,85% 177,26 23,25% 226,98 8-14 17,13% 176,21 19,81% 231,21 15- 20 14,36% 177,33 22,16% 231,88 21,13% 177,21 29,90% 234,74 Total geral 100,00% 176,97 100,00% FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) 231,42 20 –Ou Mais Q11: Isso porque em Q11 os professores, respondendo a questão da participação de alguma atividade de formação continuada, não há indicativo de temporalidade, visto que a pergunta apenas indica sim ou não. Seria necessário indicar por quanto tempo realizou a capacitação. Ou seja, se é um profissional que, como indica em Q5, tanto nas séries iniciais como finais, está formado a mais de 20 anos, qual a utilidade de saber se ele se capacitou ou não, tendo em vista a não especificidade de que tipo de capacitação e há quanto tempo. Se um professor se formou a mais de 20 anos e se capacitou com frequência nos últimos 10 anos seria mais significativo em comparação a um profissional que apesar de estar formado a 3-7 anos não se atualizou na área de atuação com frequência. O fato de ter ser capacitado é fator positivo, mas com que frequência? Tabela 3: Q5-Q11 Q11 Participou de alguma atividade de formação continuada Professor Sim 2007 Q5 Há quantos anos obteve o nível de escolaridade assinalado na questão Q4 Professor Não Total geral Total Prof S4 Tota Prof S8 Total Prof S4 Tota Prof S8 Total Prof S4 Tota Profr S8 Até-2 83,84% 65,85% 16,16% 34,15% 100,00% 100,00% 3- 7 83,42% 65,85% 16,58% 34,15% 100,00% 100,00% 8-14 82,43% 74,55% 17,57% 25,45% 100,00% 100,00% 15- 20 83,45% 70,38% 16,55% 29,62% 100,00% 100,00% 20 -OuMais 80,80% 70,93% 19,20% 29,07% 100,00% 100,00% Total geral 82,78% 70,10% 17,22% 29,90% 100,00% 100,00% FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Nessa linha, como fica o apoio da direção ao processo de capacitação do professor? Com base no cruzamento de Q4 diretor e Q11 professor: É interessante observar que em média os diretores que indicam ter nível máximo de escolaridade em Pedagogia e outras licenciaturas não influenciaram de forma direta o quantitativo de professores que indicaram se capacitar. Mesmo onde o diretor tem formação não direcionada, ou mesmo formação média, há em todos eles uma média de 60% de professores que buscam a capacitação. Isso pode indicar que não há relação direta entre a formação do diretor com a capacitação do professor. Tabela 4: Q4 2007 Q4 Nível máximo de escolaridade até a graduação Diretor Total Diretor MediaSerie4 MediaSerie8 Total Diretor MediaSerie4 Ensino Médio – Magistério (antigo 2º grau) 8,68% Ensino Médio – Outros (antigo 2º grau) 1,57% Ensino Superior – Escola Normal Superior 1,72% Ensino Superior – outras Licenciaturas Ensino Superior – Outros Ensino Superior – Pedagogia 2009 MediaSerie8 227,97 6,45% 182,79 240,99 173,92 225,33 1,35% 179,33 243,27 187,30 233,70 1,79% 184,62 242,79 175,52 31,25% 175,72 231,94 28,91% 188,56 242,18 17,84% 177,32 232,47 18,23% 187,16 244,58 230,66 34,18% 36,87% 188,59 242,04 Menos que o Ensino Médio (antigo 2º grau) 0,03% 0,08% 191,70 233,20 Resposta em branco 1,07% 181,20 233,58 1,26% 187,92 244,65 Resposta nula 0,97% 177,21 224,22 7,74% 180,71 238,86 231,36 100,00% 187,46 242,49 Total geral 100,00% 177,31 176,89 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Q11 – diretor: participação de alguma atividade de formação continuada. No entanto, quando analisada a capacitação do diretor em atividade de formação continuada, independente de sua formação original, o resultado foi significativo. Tabela 5: Q11 2007 Q11 Participou de alguma atividade de formação continuada Diretor Total Diretor MediaSerie4 MediaSerie8 Total Diretor MediaSerie4 MediaSerie8 Não 7,59% Sim 90,94% 177,11 Resposta em branco 0,06% Resposta nula 1,41% Total geral 2009 100,00% 232,23 9,39% 187,67 244,99 231,37 82,02% 187,76 242,27 161,60 0,14% 176,03 241,60 173,36 226,43 8,44% 182,57 240,87 231,36 100,00% 187,46 242,49 174,79 176,89 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Na Q22-diretor: promoveu alguma atividade de capacitação de formação continuada na escola e Q23-diretor: a proporção de docentes da sua escola que participou de formação nos últimos dois anos promovidas pelo diretor, impactou no quantitativo de capacitação do profissional. Isso indica que quando a direção independente de sua formação inicial compreende a relevância da formação continuada como mecanismo de melhoria dos resultados educacionais, o trabalho apresenta significativos resultados. A mesma proporção de 2007 se projetou em 2009. Dos 64,44% dos diretores que fizeram capacitação, e promoveram a formação na escola, em 70,99% dos casos, mais de 51% dos professores realizaram. Tabela 6: Q11-Q12 Q22 Promoveu alguma atividade de formação continuada Diretor Não 2007 Q11 Participou de alguma atividade de formação continuada Diretor Não Sim Resposta em branco Total Diretor MediaSerie 4 Sim MediaSerie8 Total Diretor Total geral MediaSerie4 MediaSerie8 Total Diretor MediaS erie4 MediaSeri e8 74,24% 176,05 234,12 25,76% 172,36 231,13 100,00% 175,00 233,38 35,56% 176,26 232,88 64,44% 177,72 230,74 100,00% 177,24 231,45 100,00% 152,02 ##### 152,02 Resposta nula 51,72% 171,19 232,02 48,28% 171,07 220,46 100,00% 171,13 227,94 Total geral 38,60% 176,16 233,02 61,40% 177,50 230,70 100,00% 177,02 231,54 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Um fator preocupante foi o dado a seguir: Q10 -diretor e Q10-professor: Qual a área temática do curso de Pós-graduação de mais alta titulação que possui o diretor/professor. Dentre as respostas surge: Não se aplica 62,85%, 2007- professor e 35,55%, 2007; 31,38%, 2009- diretor. Número considerável quando se trata em melhoria na educação e se observa que tais profissionais buscam outras especializações que não condizem com sua profissão. Isso pode dificultar um direcionamento das especializações em prol de um trabalho que permita atender as demandas do PCN, por exemplo, dada a fragmentação. Ou seja, apesar de promover capacitações e ter participação, é preciso qualificar essas capacitações para verificar se elas de fato são efetivas e ajudam ao professor colocar em prática as demandas postas na educação dos alunos em língua portuguesa. Realizar uma formação continuada desfocada, não gera qualidade de fato. Tabela 7: Q10- diretor 2007 Q10 Qual a área temática do curso de Pós- Graduação de mais alta titulação que possui Diretor Educação – outras ênfases Total Diretor 8,84% Educação, enfatizando a área pedagógica 14,17% Educação, enfatizando Gestão e Administração Escolar Não se aplica 34,92% 2009 MediaSerie4 MediaSerie8 176,58 234,00 231,42 178,42 176,79 35,55% 176,77 Outras áreas que não seja a Educação 2,16% 176,02 Resposta em branco 0,94% Total Diretor MediaSerie8 8,81% 185,92 244,63 13,63% 187,05 244,31 33,26% 228,75 173,98 MediaSerie4 188,56 241,19 232,24 31,38% 187,83 242,53 251,46 1,85% 187,48 246,25 226,66 1,01% 187,86 241,65 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) Tabela 8: Q10 - professor 2007 Q10 Qual a área temática do curso de PósGraduação de mais alta titulação que possui Professor Tota Professor Serie4 MediaSerie4 22,53% 178,17 48,32% 232,09 Educação, enfatizando alfabetização 2,30% 175,32 1,81% 224,95 Educação, enfatizando educação matemática 0,99% 173,73 1,34% 224,82 62,85% 176,68 37,93% 229,90 2,57% 177,53 7,15% 238,37 8,77% 175,73 3,45% 228,18 100,00% 176,89 100,00% 231,37 Educação – outras ênfases Não se aplica Outras áreas que não a Educação Resposta nula Total geral Tota Professor Serie8 MediaSerie8 FONTE: DATA MART, maio, 2012 (dados INEP, 2007) 4 A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES VIA MATRIZES CURRICULARES DE INSTITUIÇÕES DE ENSINO Paralelamente aos estudos dos questionários, o grupo fez uma revisão de grades curriculares dos cursos de Pedagogia no Rio de Janeiro, no que diz respeito à formação do professor alfabetizador. Nesta revisão constatou-se que a maioria destes cursos oferecem apenas duas disciplinas vinculadas à alfabetização. Surgiram cursos também com uma disciplina, embora ficasse obscuro se nas ementas das disciplinas curriculares houvesse alguma que discorresse a respeito. Em análise o grupo constatou que o tempo (aula) é exíguo para dar conta dos todos os saberes relevantes ao processo de alfabetização. Embora, nesses cursos existam disciplinas que abordem as diversas teorias da aprendizagem e da didática, essas não têm condições de dar conta dos saberes específicos dos métodos e especificidades da alfabetização. Esta observação já nos impulsiona para o questionamento de que à medida que a estrutura organizacional curricular apresenta-se fragmentada e amainada nos cursos de formação, poderá dificultar a clara compreensão teórica do processo educacional como uma possibilidade de atuação eficaz no campo da prática pedagógica. O currículo é uma exigência e surgiu da necessidade de selecionar o conhecimento a ser ensinado, a forma pela qual ele será construído e está atrelado às várias teorias a ele inerentes, tais como as tradicionais, as teorias críticas e as teorias pós-críticas. Segundo Moreira, Silva e Tadeu (2009) As teorias tradicionais tendem a aceitar de forma pacífica os conhecimentos dominantes caracterizados pela neutralidade. As teorias críticas e pós-críticas pretendem questionar as razões para qual são selecionados determinados conhecimentos em detrimento de outros e se preocupam com as conexões entre saber e poder. Cada uma das teorias é definida pela forma que concebem a realidade, organizando-a e estruturando-a com o intuito de influenciar a seleção de conhecimento que vai ser lecionado e a identidade e a subjetividade de quem vai ser ensinado. (MOREIRA; SILVA; TADEU, 2009) O currículo vem evoluindo ao longo da história da educação desde a raiz tradicionalista e tecnocrata proposta por Bobitt, emergindo nos princípios da administração científica de Frederick Taylor, reduzindo à educação a uma questão meramente técnica, desvinculando do currículo clássico humanista do tempo do iluminismo. Posteriormente, o modelo educacional de Dewey, o qual foi influenciado pelo movimento progressista na construção da democracia, pretendia através das disciplinas humanistas, preparar os jovens para serem desencadeadores da transformação da sociedade vigente na época rejeitando o modelo de uma educação tecnicista e reprodutora de Bobitt. Percebe-se dessa forma, que o currículo há muito deixou de ser um instrumento meramente técnico e passou a ser voltado para as questões sociológicas, epistemológicas culturais e políticas (GIROUX; SIMON, 1984). Com essa nova visão, considera-se o currículo um instrumento mais abrangente no âmbito das relações educacionais onde não existe lugar para a neutralidade na construção do conhecimento. Henry Giroux apresenta uma análise de caráter mais cultural alicerçada nos conceitos da Escola de Frankfurt em relação à emancipação no sujeito. Giroux defende que os professores devem assumir uma relação mais democrática com os estudantes através da participação ativa destes, onde seus desejos, ambições e pensamentos devem ser considerados. Um currículo para a formação de professores deve integrar um conjunto de práticas que possibilitem aos futuros professores desvendar os discursos educacionais articulados a uma teoria social crítica e que permita a construção das subjetividades, compatíveis com a sociedade contemporânea. Dessa forma, revogaríamos uma prática que não mais condiz com a com uma formação de professores onde existe a predominância de interesses mediatizados simplesmente por uma técnica pedagógica atrelada aos pressupostos de uma visão educacional ultrapassada. Assim, um currículo para a formação de professores envolve elucidar uma prática pedagógica que perceba a escola como território de contestação, como uma instância de produção cultural, tendo como recurso a utilização de uma pedagogia problematizadora. Além disso, as novas tecnologias da informação estão promovendo profundas transformações nas formas de ensinar e de aprender, demandando reformulações significativas nas estruturas curriculares dos cursos de formação de professores, bem como a introdução de novas teorias de aprendizagem que estão surgindo como um novo campo de pesquisa na construção do conhecimento. A educação deve se adaptar às mudanças da sociedade sem, todavia, negligenciar a construção do conhecimento decorrentes da experiência e das descobertas da humanidade. A preocupação com o espaço e o tempo deve ser substituída por um compromisso cada vez maior com o aprender e o ensinar, num ciclo que envolve professores e alunos na construção de uma nova concepção de conhecimento. No momento em que as "novas maneiras de pensar estão sendo elaboradas no mundo da comunicação e da informática", uma nova sociedade da informação e da comunicação está assumindo as mudanças e as adequações necessárias. Sacristán (1999, p. 61) afirma que o currículo é a ligação entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre o conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria (ideias, suposições e aspirações) e a prática possível, dadas determinadas condições. No estudo detalhado das matrizes curriculares de diversas instituições de ensino superior, públicas e particulares, dos cursos de Pedagogia, levou a constatação de que as escolas de formação de professores precisam ser reconcebidas para preparar os futuros professores como intelectuais críticos e com conhecimentos desse novo momento em razão do novo contexto da educação. REFERÊNCIAS ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. Rio de Janeiro. Ed. Graal, 1983. ARONOWITZ, S.; GIROUX, H. Education Under Siege. South Hadley: Bergin and Gavey Press, 1985. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: 1.ª a 4.ª série – Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1997. v.1. Disponível em http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=293&Itemid=3 58. Acesso em 21/ maio /2012. GIROUX, H., SIMON, R. Curriculum studies as cultural politics. Boston: University Journal. 1984 INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Estudo exploratório sobre o professor brasileiro com base nos resultados do Censo Escolar da Educação Básica 2007. Brasília: INEP, 2009. INMON, W.H. Como construir o data warehouse. Ed. Campus: Rio de Janeiro, 1997. MOREIRA, A., SILVA, F., TADEU, T. Currículo, Cultura e Sociedade. São Paulo: Ed. Cortez, 2009. SACRISTÁN, J. G. O currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: ArtMed, 1999. SILVA, T. T. Teorias do currículo. Uma introdução crítica. Porto: Porto Editora. 2000