A fraseologia ligada aos conceitos de vida e de morte no dicionário bilingue: registo e função numa abordagem contrastiva M. Celeste Augusto Universidade de Utreque [email protected] 0. Introdução Nas últimas décadas, os trabalhos de John Sinclair abriram um novo rumo à lexicografia, quer monolingue quer bilingue. Presentemente, o dicionário bilingue já não se pode reduzir a listas de palavras: à esquerda, em coluna, a palavra da língua de que se parte, seguida pelo rol de prováveis equivalentes na língua de chegada. Isto porque, como Moon (2008) diz, Sinclair mostrou com eficácia, ao longo dos seus textos, que as palavras se interligam, não vivem isoladas e que o seu significado é gerado no e pelo contexto em que se inserem. Para Sinclair, é pela e na combinação das palavras que se alcança o significado destas, sendo ‘collocation’, enquanto “the frequent and significant co-occurrence of two or more words within a textual environement” (Williams (2008: 259), a palavra chave. Com esta ideia em mente, dispusemo-nos a considerar, em paralelo, algumas estruturas formadas por mais de um elemento lexical, servindo-nos para esse fim de um dicionário bilingue bidireccional. Como objecto de trabalho escolhemos o Dicionário Neerlandês/Português e Português/Neerlandês (2004) que, para além de ter dado uma grande importância ao registo e tradução deste género de estruturas, exemplifica vários tipos de registo lexicográfico, em parte resultantes da especificidade de cada uma das línguas em questão. A selecção de estruturas linguísticas formadas por vários componentes (proverbiais, comparações fixas, locuções, etc.) e o seu registo num dicionário nunca foram nem serão um tema pacífico da lexicografia, particularmente da bilingue, como adiante se verá. Nesta exposição, propomo-nos tratar de alguns aspectos da fraseologia que veicula um conteúdo semântico decorrente dos conceitos de vida e de morte, em português e em neerlandês. Como são conceitos multifacetados, originam uma gama enorme de segmentos, que vão dos que se apresentam semanticamente transparentes, do tipo morrer aos poucos, aos mais opacos como ser letra morta, passando ainda por aqueles que, para além de obscuros, se apresentam bizarros como morrer de morte macaca. Estes últimos, expoentes específicos do sistema que representam, são, por este mesmo motivo, os que maior problema levantam na selecção de um equivalente na passagem de uma língua para outra. Sendo vários os verbetes e longas as micro-estruturas que concernem os dois conceitos apurados, optaremos por uma análise dos segmentos que se apresentem mais pertinentes do ponto de vista quer lexicográfico, quer semântico. Assim, abordar-se-ão sequências linguísticas do género: à boa vida; cair na má vida; pensar na morte da bezerra; um silêncio de morte; estar morto e enterrado; zijn leven hangt aan een zijde, in levende lijve, doodgaan van de kou, duizend doden sterven, cujos equivalentes são em português [tem a vida presa por um fio], [em carne e osso], [ estar a morrer de frio] e [morrer de medo] respectivamente. Considerando que um estudo contrastivo visa salientar não apenas diferenças mas igualmente semelhanças, o nosso objectivo será, através de uma abordagem de tipo contrastivo, pôr em paralelo um elenco significativo de enunciados do português e do neerlandês, a fim de se verificar: 1- se as sequências portuguesas assinaladas têm equivalente em neerlandês e vice versa e, em caso negativo, ver a solução adoptada pelo redactor 1 2- se, entre as sequências portuguesas e as neerlandesas, há semelhanças ou diferenças ao nível do seu registo lexicográfico e do seu conteúdo semântico. Uma vez que se trata de duas línguas de origem muito distinta e servindo comunidades diferentes em muitos aspectos mas sobretudo sócio-culturais, prevêem-se, consequentemente, algumas diferenças significativas quer ao nível da estrutura quer ao nível semântico. A comunicação será organizada do seguinte modo: após a Introdução serão feitas algumas considerações breves de carácter teórico e metodológico e será delimitado o objecto em análise para, de seguida, se proceder a uma análise contrastiva das sequências seleccionadas. Algumas reflexões concluirão o trabalho. Como ilustração do exposto inserir-se-ão sob a forma de anexo alguns exemplos de verbetes. 1. Enquadramento teórico-metodológico Como se sabe a micro-estrutura de qualquer dicionário de língua oferece informação, de um modo geral, relativamente a três níveis: ao da forma, ao do significado e ao do contexto, sendo este último, no dizer de Fraser (2008:71), de dois tipos - extra-linguístico e intra-linguístico. No último caso, a informação é dada no eixo sintagmático e através das estruturas formadas pelo segmento em análise e pelas palavras que o acompanham. A exposição que pretendemos apresentar insere-se neste terceiro nível e, mais concretamente, aborda os segmentos com mais de um componente. Estes têm sido objecto de uma série de definições, sendo difícil escolher uma que inclua todos os seus traços definidores. Todavia, quase todas assentam no seguinte: são sequências plurilexicais, fixas ou semi-fixas, se bem que os seus constituintes possam ser pluri-semânticos elas não o são e o seu significado decorre não da soma do significado individual dos seus componentes mas do seu concerto. Em certos casos, pode haver uma determinada variação lexical1, desde que o sentido global não seja modificado. Corpas Pastor (2003, p. 131) define, grosso modo, estas estruturas como uma combinação de pelo menos duas unidades lexicais, caracterizada por uma alta frequência, institucionalizada, fixa e estável, semanticamente especializada e potencialmente idiomática e dá-lhes o nome de fraseologismo (FRA) ou unidade fraseológica (UFR). Na linha de Corpas Pastor e doravante, empregar-se-á esta nomenclatura e entender-se-á por fraseologia quer o conjunto de fraseologismos de uma determinada língua quer o ramo da linguística que trata deste tipo de construções. Muito embora por vezes se empregue ‘abordagem contrastiva’ e ‘abordagem comparativa’ para salientar as diferenças e as semelhanças respectivamente, uma tal distinção não nos parece operante2. Julgamos que uma análise de tipo contrastivo de dois sistemas linguísticos implica o salientar quer de diferenças quer de semelhanças, até porque é geralmente a partir do semelhante que o diferente melhor se manifesta (Augusto, no prelo). Posto isto, a análise que a seguir se apresenta vai seguir um modelo contrastivo (Dobrovol’skij, 1998; Fisiak, 1980, 1984), tendo em vista o objectivo proposto e acima indicado. Além do mais, decidiu-se incluir nesta análise algumas UFRs construídas sobre os verbos viver e morrer, ligados semanticamente aos conceitos de vida e de morte, mas excluiram-se modismos, que são de carácter passageiro, e locuções interjectivas como ‘ora viva!’ou ‘leve de koningin!’ [Viva a rainha!] de forte feição discursiva. 2. Função do fraseologismo no dicionário bilingue 1 2 Cf. ‘fazer / dar para as despesas’. Malmkjaer (1999) diz que esta distinção é habitual. 2 Mesmo que o dicionário bilingue não seja de tipo pedagógico, impõe-se o registo de o maior número possível de UFRs, para se poder apresentar os diferentes sentidos de uma unidade lexical e, se se conseguir ilustrar o fraseologismo com um exemplo, melhor ainda. Como anteriormente se afirmou, é apenas no convívio com outras palavras que os significados se geram. O dicionário bilingue bi-direccional, de onde se extraíram as UFRs a serem analisadas, dá, repetimos, uma particular atenção ao seu registo e equivalência, na medida em que foi elaborado partindo de bases de dados concebidas para a produção de dicionários bilingues, ou seja considerando o seu uso contrastivo. Por um lado, como se trata de duas línguas geneticamente diferentes, houve ainda um especial cuidado em ilustrar certas construções, diferentes de uma língua para a outra, com um exemplo, como ‘doodgaan aan kanker’ e ‘doodgaan van honger’ cujos equivalentes são ‘morrer de cancro’ e ‘morrer de fome’, respectivamente. Por outro lado, sabendo-se que é através da fraseologia que as singularidades de uma língua e a maneira de pensar de uma comunidade melhor se reflectem, é natural que qualquer verdadeiro dicionário bilingue se esforce por incluir estes enunciados e por dar-lhes um possível equivalente na língua com que emparceira. 3. Análise contrastiva de fraseologismos portugueses e neerlandeses ligados aos conceitos de vida e de morte Passa-se a fazer a análise de algumas UFRs inseridas em quadros para facilitar a leitura, sendo a tradução literal dos enunciados neerlandeses dada entre parênteses rectos, sempre que necessário. Para além dos conceitos de vida e de morte/morto optámos, como já se referiu, por seleccionar também enunciados registados nos verbetes viver e morrer por se incluírem no mesmo universo conceptual que vida e morte. Fig. 1. Fraseologismos portugueses no volume Português-Neerlandês ligados ao conceito vida (incluindo viver) 1 Fraseologismo Verbete <à boa vida> vida 2) Fraseologismo base igual equivalente base diferente Paráfrase in ledigheid [sem fazer nada] 2 <mulher da vida> vida 3) Vrouw die in het leven zit [mulher que está na vida] 3 4 <vida de cão> vida 3) <para a vida e para vida 3) a morte> 5 <ir desta vida p’ra melhor> hondenleven totdat de dood [morte] ons scheidt [até que a morte nos separe] vida 3) de pijp aan Maarten geven [dar a Maarten o cachimbo] 6 < viver à grande e à francesa > viver 5) grande 5) leven als God in Frankrijk [viver como Deus em França] 3 Fig. 2. Fraseologismos neerlandeses no volume Neerlandês - Português ligados ao conceito vida [leven] (incluindo viver [leven]) 1 Fraseologismo Verbete <zijn leven hangt aan een zijde > leven 3) Fraseologismo equivalente base igual base diferente Paráfrase tem a vida presa por um fio [a (sua) vida está pendurada num fio de seda] 2 <in levende lijve> leven 4) em carne e osso [em vida viva] 3 4 5 <zich van het leven beroven> [roubar-se a vida] <een mens leeft niet van brood alleen> <wie dan leeft wie dan zorgt> [quem leven 3) leven 4) suicidar-se nem só de pão vive o homem leven 4) quem cá fica que se amole leven 4) estar mortinho para / por algo ainda viver que se preocupe] 6 <ergens naartoe leven > [viver para algo] Fig. 3. Fraseologismos portugueses no volume Português-Neerlandês ligados ao conceito morte (incluindo morrer) Fraseologismo Verbete Fraseologismo equivalente base igual base diferente 1 <à beira da morte > morte 1) 2 <havia ali um silêncio morte 1) de morte> morte 3) < pensar na morte da bezerra > het was doodstil <estar às portas da morte > op sterven na dood zijn [só Paráfrase aan de rand van het graf [à beira da sepultura] 3 4 morte 3) tobben, peinzen [matutar, pensar] falta morrer para estar morto] 5 <morrer de morte macaca> een vreemde dood sterven morte 3) [morrer de uma morte estranha] 6 <estar morto e enterrado > morto 3) zo dood als een pier [tão morto como um molhe] 4 Fig. 4. Fraseologismos neerlandeses no volume Neerlandês - Português ligados ao conceito morte [dood] (incluindo morrer [dood gaan]) Fraseologismo 1 Verbete Fraseologismo equivalente base igual base diferente <het is de dood of de dood 1) gladiolen > [é a morte Paráfrase ou vai ou racha ou os gladíolos] 2 <duizend doden dood 1) sterven> [morrer mil 3 <doodeenvoudig> morrer de medo mortes] [simples de morte] 4 <doodgaan van verdriet> [morrer de doodeenvo udig doodgaan óbvio morrer de tristeza tristeza] 5 <doodlachen> doodlachen 6 <doodgemoedereerd > [imperturbável como doodgemoe dereerd 2) morrer de riso / rir a sangue frio a morte] 7 <doodstil > doodstil [silêncio de morte] em silêncio absoluto Breve leitura das figuras. Construíram-se figuras de 6 colunas, sendo as 3 últimas dedicadas às possíveis soluções no processo de atribuição de um equivalente. A segunda coluna oferece a UFR e a negrito indica-se sob que constituinte a UFR aparece registada no dicionário. A terceira coluna esclarece em que verbete a UFR está registada, isto é, se no primeiro, no segundo ou em outro. A diferente estrutura das duas línguas em contraste está ilustrada na fig. 4, sobretudo através dos FRAs 3, 5, 6 e 7; estes, devido ao seu processo de formação (justaposição), recebem uma entrada própria no dicionário enquanto um segmento como o equivalente português do FRA 7 da fig. 4 se regista no interior dos verbetes ‘silêncio’ ou ‘morte’. Em qualquer dos quadros foi necessário recorrer às perífrases, devido à não existência (ou desconhecimento do redactor) de uma UFR equivalente. Alguns enunciados (fig.1: 2 e 3; fig.2: 1 e 4; fig. 3: 2 e fig. 4: 4, 5 e 7) encontraram na língua alvo equivalência sob a forma de fraseologia assente no mesmo conceito, diferindo alguns apenas na estrutura (morfo-sintática) com o seria de esperar; entre estes últimos encontram-se : fig 1: 3; fig. 3 : 2; fig. 4: 5 e 7. Constata-se igualmente nos enunciados apresentados que o conteúdo semântico do FRA provém da combinação dos seus componentes e que o conteúdo semântico da palavra se gera no eixo sintagmático, isto é, resulta dos seus co-ocorrentes (Cruse, 1986). Os enunciados de origem clássica ou bíblica como o número 4 da fig. 2 não oferecem geralmente dificuldade e recebem invariavelmente um equivalente também de cariz bíblico. As UFRs ‘pensar na morte da bezerra’, ‘morrer de morte macaca’, ‘morrer de morte matada’ ou ‘morrer de morte morrida’, ‘het is de dood of de gladiolen’ [é a morte ou os gladíolos], ‘de pijp aan Maarten geven’ [dar a Maarten o cachimbo], devido ao seu carácter bizarro e até insólito, dificilmente 5 encontram um equivalente ao mesmo nível, devendo nesse sentido receber uma paráfrase que lhes clarifique o sentido. 4. Reflexões finais Do exposto pode concluir-se: 1- que é no enunciado fraseológico que o conteúdo semântico das palavras se produz e melhor ilustra. 2- que o registo de UFRs no dicionário monolingue ou bilingue, pedagógico ou não, é essencial para se apreender as especificidades linguísticas (semânticas e estruturais) e ainda culturais dos sistemas que representam. 3- que o objectivo do lexicógrafo será encontrar um equivalente semântico do segmento a traduzir para a língua alvo e nunca dar uma tradução palavra a palavra, para não correr o risco de desvirtuar a sua mensagem. 4- que apesar de o português e o neerlandês serem geneticamente distintos se encontram bastantes semelhanças, não ao nível da estrutura linguística, mas ao nível do universo conceptual em volta da ‘vida’ e da ‘morte’. 5. Referências AUGUSTO, Maria Celeste / ECK, Karolien van. Grote Woordenboek Portugees-Nederlands en Nederlands-Portugees. Utrecht: Spectrum / Lisboa: Verbo, 2004. AUGUSTO, Maria Celeste. Phraséologies de l’œil en portugais et en néerlandais dans un cadre lexico-sémantique - une approche contrastive. In: Proceedings of the International Conference Europhras 2008. Helsinki, (no prelo). CORPAS PASTOR, Gloria. Diez años de investigación en fraseología: Análisis sintácticosemánticos, contrastivos y traductológicos. Madrid: Iberoamericana / Frankfurt am Main: Vervuert, 2003. CRUSE, David Alan. Lexical Semantics. Cambridge: University Press, 1986. DOBROVOL’SKIJ, Dmitrij, Russian and German Idioms from a Contrastive Perspective. In: WEIGAND, Edda (Org.). Contrastive Lexical Semantics. Amsterdam: John Benjamin’s, 1998. p. 227-242. FISIAK, Jacek (Org.). Theoretical Issues in Contrastive Linguistics. Amsterdam: John Benjamin’s, 1980. FISIAK, Jacek (Org.). Contrastive Linguistics – Prospectsand Problems. Amsterdam: Mouton Publishers, 1984. FRASER, B.L. Beyond definition: organizing semantic information in bilingual dictionaries. In: International Journal of Lexicography, v. 21, n.1, p. 69-93. 2008. MALMKJAER, Kirsten. Contrastive Linguistics and Translation Studies: Interface and Diffferences. Utrecht: Platform Vertalen & Vertaalwetenschap, 1999. MOON, Rosamund. Sinclair, Phraseology and Lexicography. International Journal of Lexicography, v. 21, n. 3, p. 243-254. 2008. WILLIAMS, Geoffrey. A Multilingual Matter: Sinclair and the Bilingual Dictionary. International Journal of Lexicography, v. 21, n.3, p. 255-266. 2008. 6 Anexos: excertos de verbetes Português / Neerlandês vida 1 nf 1. Biol leven (het); em vida in leven 2. <existência> leven (het); esperança de vida levensverwachting (de); como vai a vida? hoe staat het leven?; 4. <meios necessários à subsistência> levensonderhoud (het); a vida está cada vez mais cara het leven wordt steeds duurder 7. <animação, alegria, vitalidade> levendigheid (de); sem vida lusteloos, levenloos; criança cheia de vida levendig kind. vida 2 loc adv 1. à boa vida in ledigheid 2. em vida, ninguém lhe ligou toen hij nog leefde, nam niemand notie van hem 3. sem vida levenloos. vida 4 idioom; vida fácil onbezorgd leventje; mulher da vida vrouw die in het leven zit; cair/estar/andar na má vida op het slechte pad raken/zijn; vida de cão hondenleven (het); feliz / contente da vida blij en tevreden; para a vida e para a morte totdat de dood ons scheidt; entre a vida e a morte op het randje van de dood; andar na sua vida in zijn eigen wereldje leven; sinal de vida teken van leven, levensteken (het); levar boa vida een goed/makkelijk leventje hebben/leiden; ter uma boa vida een goed leventje hebben; nunca na vida! nooit van mijn leven!; (uma luta) de vida ou de morte (een gevecht/strijd) op leven en dood; tem a vida presa por um fio zijn leven hangt aan een zijden draadje; fazer a vida negra a alguém iemand het leven zuur/tot een hel maken; uma vida regalada een leven als een luis op een zeer hoofd, een luizenleventje; ir desta vida p'ra melhor de pijp aan Maarten geven, de pijp uitgaan morte 1 nf 1. Biol dood (de), sterfte (de) 2. <fim da vida humana> morrer de morte natural een natuurlijke dood sterven; à beira da morte aan de rand van het graf, op stervens na dood; dia da morte sterfdag (de) 3. <homicídio> dood (de); 5. <acto ou efeito de matar, abate> dood (de); campanha contra a morte das focas actie tegen het slachten van zeehonden 6. Literat Mitol o Anjo da Morte de engel des doods 7. fig <fim, termo de algo> aquilo foi a morte dos seus sonhos dat was het einde van haar dromen 8. fig <destruição, ruína> assiste-se à morte do sector agrícola men is getuige van de afbraak van de agrarische sector 9. fig <ausência de vida, imobilidade> havia ali um silêncio de morte het was er doodstil. morte 2 loc adv 1. de morte dodelijk 2. para a vida e para a morte voor het leven, voor altijd. morte 3 idioom; estar às portas da morte op sterven liggen, op sterven na dood zijn; estar entre a vida e a morte tussen leven en dood zweven; libertar-se da lei da morte zich aan vergetelheid onttrekken; cismar / pensar na morte da bezerra fam tobben, peinzen; estar pela(s) hora(s) da morte vreselijk duur zijn; ser a morte do artista de doodsteek geven; ser caso de vida ou de morte een geval van leven of dood; ter a morte de / por perto met de dood op je gezicht lopen; ver a morte diante de si de dood onder ogen zien, oog in oog met de dood staan; dormir o sono da morte in het graf liggen; ter um ódio de morte een dodelijke hekel/haat hebben aan; morrer de morte macaca een vreemde dood sterven; ter uma morte santa een zachte dood sterven; ter uma morte lenta een langzame dood sterven; ser um morto em pé een slome duikelaar zijn; morrer de morte matada fam een gewelddadige dood sterven; morrer de morte morrida een natuurlijke dood sterven. Neerlandês / Português 7 leven 1 v tr (h) 1. <een leven leiden> viver; geleefd worden não ser senhor da sua vida. leven 2 n (het) 1. <in een bepaalde kring> vida (f), actividade (f); het volle leven a vida real 2. <lawaai> barulho (m); leven in de brouwerij brengen dar animação a, animar-se; een leven als een oordeel um barulho infernal, um barulho dos diabos/infernal/ensurdecedor; een leven dat horen en zien je vergaan um barulho infernal, um barulho de morrer. leven 3 n (het;-s) 1. <v. levende organismen> vida (f), existência (f); nog in leven zijn ainda estar vivo; in leven em vida; in leven blijven sobreviver, continuar a viver, manter-se em vida; losbandig leven leiden levar uma vida desregrada/libertina; hoe staat het leven? como vai a vida?; je geld of je leven! a bolsa ou a vida!; iemand om het leven brengen matar alguém; nooit van mijn leven! nunca na (minha) vida!; (een gevecht/strijd) op leven en dood (uma luta) de vida ou de morte; zijn lust en zijn leven ser a alegria da vida de alguém; zijn leven hangt aan een zijden draadje tem a vida presa por um fio; dat is toch geen leven! isso não é vida!; zolang er leven is, is er hoop enquanto há vida há esperança; het leven schenken aan een kind dar uma criança à luz; geen teken van leven meer geven já não dar sinal de vida; het leven erbij inschieten perder a vida; je doet er je hele leven mee dura-te a vida toda; het leven wordt steeds duurder a vida está cada vez mais cara; voor iemands leven vrezen temer pela vida de alguém; iemand het leven tot een hel maken fazer a vida negra a alguém; vrienden voor het leven amigos para a vida/sempre; zich van het leven beroven suicidar-se; in het leven zitten ser prostituta, andar na má vida. leven 4 vi (h) 1. <niet dood zijn> viver; hoe laat leven we? inf. scherts. que horas são?; leve de koningin! viva a Rainha!; van zijn lang zal ze leven niet! inf. nunca na vida!; in levende lijve em carne e osso; wie dan leeft wie dan zorgt quem cá fica, que se amole, quem vier depois de mim que feche a porta 3. <zich in leven houden> leven op water en brood viver a/de pão e água; een mens leeft niet van brood alleen nem só de pão vive o Homem 4. <zijn dagen beleven> viver; in angst leven viver com medo;; voor iets/iemand leven viver para algo/alguém;; ergens naartoe leven estar mortinho para/por algo, estar desejoso que aconteça algo; leven en laten leven viver e deixar viver. levend adj/adv (meer/meest) vivo. levenloos 2 adj/adv 1. <zonder leven> morto (adj), sem vida. levensbelang n (het); van levensbelang zijn ser de vital importância. levensgevaar n (het) perigo de morte, perigo de vida; in/buiten levensgevaar em/fora de perigo de vida; in levensgevaar verkeren estar em perigo de vida. levenslang 1 n 1. <levenslange gevangenisstraf> prisão perpétua; levenslang krijgen ser condenado a prisão perpétua. levenslang 2 adj/adv 1. <heel lang> vitalício (adj), perpétuo (adj), por toda a vida, perpetuamente (adv); veroordeeld worden tot levenslange gevangenisstraf ser condenado a prisão perpétua. dood 1 n (de) 1. <toestand na afloop van het leven> morte (f); iemand ter dood brengen executar a pena de morte; de dood vinden encontrar a morte; het is de dood of de gladiolen ou vai ou racha; de dood voor ogen hebben ver a morte de perto, ver a morte diante de si; aan de dood ontsnappen escapar à morte; ten dode opgeschreven zijn estar condenado à morte; het is daar de dood in de pot ali morre-se de tédio; duizend doden sterven morrer de medo; als de dood zijn voor morrer de medo de. dood 2 adj 1. <niet levend> morto (adj); voor dood blijven liggen ficar (deitado) a fazer de morto; half dood zijn van de kou estar morto de frio; meer dood dan levend mais morto que vivo; dood gaan van de kou estar a morrer de frio. doodeenvoudig adj/adv óbvio (adj), simplicíssimo (adj). doodgaan vi (z; ging dood; doodgegaan) morrer, falecer; doodgaan aan kanker morrer de 8 cancro; doodgaan van honger/verdriet morrer de fome/tristeza. doodgemoedereerd 2 adv 1. <alsof het vanzelfsprekend is> impassivelmente (adv), imperturbavelmente (adv), a sangue-frio. doodgewoon 2 adv 1. <gewoonweg, zonder omhaal> simplesmente (adv), pura e simplesmente. doodlachen v refl (h; lachte dood; doodgelachen) morrer a rir, morrer de riso. doodmoe adj/adv exausto (adj), muito cansado; ergens doodmoe van worden estar cansado de algo, ficar farto de algo. doodnormaal adj/adv normalíssimo (adj), vulgaríssimo (adj). doodsbang adj apavorado (adj), morto de medo; doodsbang voor spinnen/ziektes zijn ter muito medo de aranhões/doenças. doodsbenauwd → doodsbang. doodsbleek adj da cor da/como a cal (da parede). doodschamen v refl (h) envergonhar-se muito, morrer de vergonha; zich doodschamen over/voor iets envergonhar-se muito de algo. doodschrikken v refl (z; schrok dood; doodgeshrokken) morrer de susto. doodstil adj/adv <beweging> quietíssimo (adj), <beweging> imóvel (adj), <geluid> silencioso (adj), em silêncio absoluto, silenciosamente (adv). doodvallen vi (z; viel dood; doodgevallen) 1. inf. <vallen en doodblijven> cair morto; val dood! bel. vai-te lixar!; ik mag doodvallen (als het niet waar is) que eu caia aqui morto (se não for verdade). doodziek adj muito doente, doentíssimo (adj). 9