Saúde Coletiva ISSN: 1806-3365 [email protected] Editorial Bolina Brasil DE SOUZA SANTOS, GERSON; MANFREDO, RICARDO; DA SILVA SANTOS, ÁLVARO Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF Saúde Coletiva, vol. 1, núm. 1, 2004, pp. 8-14 Editorial Bolina São Paulo, Brasil Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=84226088001 Como citar este artigo Número completo Mais artigos Home da revista no Redalyc Sistema de Informação Científica Rede de Revistas Científicas da América Latina, Caribe , Espanha e Portugal Projeto acadêmico sem fins lucrativos desenvolvido no âmbito da iniciativa Acesso Aberto pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 8 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF GERSON DE SOUZA SANTOS Enfermeiro Sanitarista RICARDO MANFREDO Enfermeiro Sanitarista ÁLVARO DA SILVA SANTOS Doutor em Ciências Sociais. Professor na disciplina Enfermagem em Saúde Coletiva Universidade Nove de Julho e Universidade Anhembi Morumbi. sta investigação, de caráter quantitativo, exploratório e descritivo, realizado em julho de 2003, teve por objetivo conhecer o perfil dos Auxiliares de Enfermagem do PSF, na Coordenadoria de Saúde Moóca. A análise dos dados demonstra: 54% destes profissionais possuem idade entre 41 e 50 anos, 92% do sexo feminino, 61,5% casados, 70% possuem ensino médio completo, 46% possuem renda familiar acima de 10 salários mínimos, 46% desempenham a função de auxiliar de enfermagem há mais de 10 anos, 69% atuam no PSF entre 2 e 4 anos; vêem o PSF como uma nova proposta de assistência à população; sobre as diferenças de práticas entre o PSF e os hospitais, apontam a criação de vínculos; destacaram a visita domiciliar como principal atividade no PSF; entre as dificuldades destacou-se o relacionamento entre profissionais e como principal sugestão a oferta de ações de capacitação. E Descritores: Perfil profissional, Auxiliar de enfermagem, Programa de Saúde da Família his investigation of quantitative, exploratory and descriptive character was accomplished in July, 2003 and aimed to know the nursing assistant’s profile in PSF, at Coordenadoria de Saúde da Moóca. The analysis of the data demonstrates: 54% of these professionals are between 41 and 50 years old, 92% feminine, 61,5% are married, 70% possess complete medium teaching, 46% possess family income above 10 minimum wages, 46% carry out the nursing assistant function over 10 years, 69% act in PSF between 2 and 4 years; they see PSF as a new proposal of attendance to the population; concerning the differences in practices between PSF and the hospitals, they point the creation of entails; they detached the domiciliary visit as the main activity in PSF; among the difficulties it was saliented the relationship among professionals, as main suggestion for offering training actions. T Descriptors: Professional profile, Nursing assistant, Family health program n Julio de 2003 fué hecha una investigación de caracter cuantitativa, exploratoria y descriptiva, desarollada en julio de 2003 con el objectivo de conocer el perfil de los auxiliares de enfermería de lo PSF en la coordenadoría de Saúde da Moóca. El analisis de los datos demuestra que: 54% de estos profissionales tienen entre 41 y 50 años de edad, 92% son del sexo feminino, 61% son casados, 70% poseen la enseñanza media completa, 46% poseen el ingresso familiar sobre 10 salarios minimos, 46% desempeñam la función de auxiliar de enfermeria hace más de 10 E 8 Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 9 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF años, 69% actuam en el PSF entre 2 y 4 años, ellos vem él PSF como una nueva propuesta de asistencia a la población. En las diferencias de practicas del PSF y los hospitales, apuntam la creación de vinculaciones; destacarón la visita domiciliar comp la principal actividad de PSF; entre las dificuldades destacaron la relación entre lo profesionales como principal sugestión a la oferta de acciones de capacitación. Descriptores: Perfil profesional, Auxiliar de enfermaria, Programa de salud de la familia INTRODUÇÃO sta investigação se realizou no bairro da Mooca na Zona Leste da Cidade de São Paulo. A primeira citação encontrada referente ao bairro da Mooca é de 1556, quando a governança de Santo André da Borda do Campo, comunicava que todos estavam "obrigados a participar da construção da ponte do Rio Tameteai (Tamanduateí)". Esta ponte se fazia necessária para a ligação entre zona leste e a freguesia eclesiástica da Sé. A região leste era habitada pelos índios da tribo Guaiana (Tupi Guarani), que deixaram algumas marcas tradicionais no bairro, inclusive seu próprio nome. Segundo historiadores, o vocábulo é oriundo do Tupi Guarani e possui duas versões, MOO-KA (ares amenos, secos, sadios) e MOO-OCA (fazer casa), expressão usadas pelos índios da Tribo Guarani para denominar os primeiros habitantes brancos, que erguiam suas casas de barro.1 O desenvolvimento urbano da Mooca está associada à história econômica de São Paulo e as rápidas transformações que nas décadas finais do século XIX e primeira metade do século XX, fizeram da capital paulistana uma grande metrópole industrial. Fator importante para a evolução da Zona Leste foi à instalação de duas ferrovias: em 1868 a São Paulo Railway (Estrada de Ferro Santos Jundiaí) que ligava São Paulo ao porto de Santos. Entre os novos bairros surgidos, destacam-se Belém e Mooca que atraíram numerosas fábricas. As áreas próximas das ferrovias foram preferidas pelas indústrias, já que o transporte de matérias primas e combustíveis importados, bem como a produção para fora de São Paulo dependia dos trens. Estas Indústrias utilizavam a mão de obra imigrante que aportava em Santos e era trazida para a Casa da Imigração (hoje Museu dos Imigrantes), que depois de estarem trabalhando nestas Indústrias, instalavam-se nas proximidades. Após a primeira guerra mundial, a industrialização de São Paulo ganhou novo impulso, acarretando a ampliação do parque industrial desta região. Esta região que era considerada periférica na épo- E ca da sua formação já estava densamente povoada na década de 1960. A região como todo a cidade de São Paulo acompanhou todas mudanças nas políticas de saúde, bem como as ocorridas em todas as áreas sócias. Em 2002, foi aprovada a lei das Subprefeituras, que agregou, à Mooca, os distritos do Brás e de Pari, de onde está alocada a Coordenadoria de Saúde da Mooca. A vivência da prática do Auxiliar de Enfermagem (AE) do modelo hospitalocêntrico/biologicista, levounos a refletir sobre a formação e papel deste profissional, onde a prestação dos cuidados de enfermagem são voltados principalmente para a cura de doenças. Tal experiência mostra que diferente do que se repetiu ao longo da história, a perspectiva da saúde coletiva e mais especificamente o da proposta Saúde da Família, (SF), prevê que espaços de saúde onde tradicionalmente focavam a promoção/prevenção (Atenção Primária à Saúde - APS), necessitavam por vezes atender até situações de emergência/urgência, e o contrário também poderia ser verdadeiro; ou seja, a área hospitalar pode muitas vezes fazer ações de promoção/prevenção. A nova saúde coletiva tenta abandonar a dicotomia que distancia as ações de promoção e prevenção nas práticas voltadas aos cuidados das doenças. É nesta perspectiva que vemos a inserção do AE ou dos vários profissionais de saúde com ações que busquem a qualidade de vida das famílias e comunidades. Durante o sexto semestre do curso de graduação, mais especificamente nas aulas da disciplina Enfermagem em Saúde Coletiva, nossa reflexão direcionouse dentre outras, para o conhecimento da Estratégia Saúde da Família, bem como algumas questões ligadas à equipe de saúde nesta proposta. Percebemos que há a intenção de que o AE da Equipe de Saúde da Família (ESF), preste assistência visando à promoção da saúde e prevenção das doenças, levando em conta a qualidade de vida das famílias e comunidades. E em contra partida, o AE do modelo hospitalar, presta os cuidados de enfermagem visando somente à cura. Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 9 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 10 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF Compreender a Estratégia Saúde da Família torna neEsta pesquisa baseia-se na importância deste processário o entendimento do próprio Sistema Único de fissional na prestação de serviços de saúde à popuSaúde (SUS). lação, já que o AE que atua na ESF tem grande resA partir da promulgação da Constituição Federal ponsabilidade no cumprimento de suas atribuições, em 1988, foram definidas como diretrizes do SUS: a fazendo parte do elo entre os profissionais de saúde universalização, a eqüidade, a integralidade, a descene a comunidade que usufrui deste serviço. Para a sotralização, a hierarquização e a participação da comuciedade é importante conhecer mais sobre o perfil nidade. Ao ser desenvolvido sobre esses princípios, o do AE em saúde da família, uma vez que, este não processo de construção do SUS visa reduzir o hiato está limitado somente a prestar cuidados de enferainda existente entre os direitos sociais garantidos em magem visando somente a cura da doença, mas eslei e a capacidade efetiva de oferta de ações e servipecialmente a promoção da saúde e a prevenção de ços públicos de saúde à população brasileira.2,3 agravos em busca da qualidade de vida da família e A Estratégia Saúde da Família vem para facilitar a imcomunidade. Para a categoria profissional, é fundaplementação do SUS, e pode ser em determinado momental conhecer mais sobre o desempenho do AE mento, Programa dos Agentes Comunitários de Saúde em saúde da família, pois este alcança maiores re(PACS) e em outro, Programa de Saúde da Família sultados no exercício de sua função, desde que te(PSF). É importante destacar que um dos pressupostos nha consciência que os indivíduos devem ser analimais importantes do PSF é promover sados em seu contexto geral de o trabalho de equipe, o que requer o “ A NOVA SAÚDE COLETIVA onde estão inseridos. estabelecimento de respeito profisTENTA ABANDONAR A sional entre todos os membros e a OBJETIVOS DICOTOMIA QUE DISTANCIA • Descrever o perfil do AE da ESF; percepção de que a formação dos demais profissionais não é subalterAS AÇÕES DE PROMOÇÃO E • Demonstrar a diferença da prática na à formação médica.4 AE da Saúde da Família com a PREVENÇÃO NAS PRÁTICAS do A Equipe que compõe o PSF é: área hospitalar; VOLTADAS AOS CUIDADOS um médico, um enfermeiro, um au• Mostrar dificuldades e sugestões xiliar de enfermagem e quatro a na prática do AE no PSF. DAS DOENÇAS.” seis agentes comunitários de saúde; o ACS por sua vez deve residir no local onde atue, traMETODOLOGIA balhando em dedicação exclusiva.5 rata-se de uma pesquisa de campo, do tipo quantiO AE é um dos membros importantes na ESF, que tativo, descritivo e exploratório, de caráter amosjunto a outros profissionais busca a melhoria da qualitral, com uso de entrevistas semi estruturadas, tendo dade de vida da comunidade que assiste. A equipe como referencial teórico metodológico Tobar e Yadeve atender a situações sócio-sanitárias na comunilour.7 Os entrevistados foram os Auxiliares de Enferdade, demanda espontânea e ainda visitar as famílias magem da Coordenadoria de Saúde Móoca, inseridos com a periodicidade necessária ao fornecimento de em nove Equipes de Saúde da Família, formando um informação de várias naturezas, detectando ainda pretotal de 15 profissionais. Os dados foram coletados cocemente os riscos e agravos existentes.6 através de um instrumento de coleta de dados com Ao nosso ver, no panorama das pesquisas ligadas à 15 questões das quais 8 eram fechadas, 2 semi abertas Estratégia Saúde da Família, sobretudo no que diz rese 5 abertas. O período foi de 01 a 15 de julho de peito à avaliação dos profissionais de saúde, o AE é 2003, e os dados foram tabulados e analisados a partir possivelmente o menos pesquisado/avaliado. É neste daqueles de maior relevância, seguidos por comentácontexto que este trabalho se insere, na medida que rios dos pesquisadores. busca compreender este ator social, nesta nova forma de fazer saúde. Com base nas atribuições do AE exigiAPRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO das pelo Conselho Regional de Enfermagem (CODOS RESULTADOS REN), levantou-se um questionamento: Existe um gruos entrevistados, 54% tem idade compreendida po de práticas definidas, que diferenciam o AE no entre 41 e 50 anos, seguido de 31% de 31 a 40 hospital com relação à Unidade Básica de Saúde anos. Possivelmente o PSF é um cenário ideal para (UBS) e/ou Unidade de Saúde da Família (USF)? atuação de pessoas maduras, por outro lado nossa ex- T D 10 Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 11 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF periência tem mostrado também a inserção de indivínova proposta de assistência à população; 2°) prevenduos jovens como Auxiliares de Enfermagem. A poção de agravos à saúde; 3°) visão da família como um pulação pesquisada é predominantemente feminina todo; 4°) oferece educação em saúde; 5°) mudança 92%, parece-nos que existe uma procura maior do que demorará adequar-se à realidade; 6°) assistência a sexo feminino em relação ao PSF, ou possivelmente acamados; e 7°) forma de promoção da saúde. Somos existe maior facilidade deste sexo com as famílias; toadeptos de que o PSF é uma nova proposta de assisdavia o gênero feminino é historicamente predomitência à população, pois este funciona em conforminante na área da enfermagem. Em relação ao estado dade com o SUS. Em outras palavras, é a possibilidade civil, 61,5% são casados e 15% são solteiros. Se de um de efetivação do SUS. A prevenção de agravos à saúlado a condição de solteiro possibilita maior disponide, além de prevenir conseqüências às famílias e cobilidade ao Programa, a condição casado, possivelmunidades, otimiza os gastos com a saúde, pois esta mente oferece maior experiência em relação à quesação está focada no sentido de prevenir complicações tão familiar. Quanto ao grau de instrução 70% e até invalidez. Só não entendemos porque a promopossuem ensino médio completo, seguido de 15% ção da saúde não é focada logo no início e sim no fique possuem ensino superior incompleto e 7,5% sunal. Quanto à visão da família como um todo é uma perior completo. De modo geral, os entrevistados novidade que precisa ser amadurecida, pois, a atenpossuem um nível de formação elevado. Se por um ção á saúde sempre esteve voltada para o tratamento lado isto mostra boa formação, de individual. Por outro lado, a educaoutro pode haver dificuldade de in- “ A EDUCAÇÃO EM SAÚDE É O ção em saúde visa entender o inditerpretação da realidade da comunivíduo a partir do seu contexto amCONJUNTO DE ATIVIDADES dade, dada à distância que estes biental e posteriormente buscar TENDENTES A INFLUENCIAR estratégias para facilitar o cuidado AEs possam ter devido ao seu nível de escolaridade. de sua saúde. Estamos começando a OU MODIFICAR De acordo com a distribuição do ambiente individual para a CONHECIMENTOS, ATITUDES, sair da renda familiar, 23% possuem família, esta é uma evolução e noviVISANDO A MELHORIA DA renda familiar de 5 a 7 salários mínidade do PSF. Dentre os entrevistamos e 46% possuem renda familiar dos existe um baixo percentual dos SAÚDE DO INDIVÍDUO.” acima de 10 salários mínimos. Veque acreditam que o PSF é uma mumos com isto, que os entrevistados possuem excelendança que demorará em adequar-se à realidade. Esses te remuneração, mas ao mesmo tempo, seu trabalho possivelmente o confundem com serviço de assistêntem a maior parcela de renda no PSF. cia a acamados, mas que ao nosso ver, o PSF não tem Quanto ao tempo de profissão, 46% desempenham principalmente este foco de atenção, embora esta a função de AE há mais de 10 anos; este fato possivelseja uma de suas ações. mente está ligado à idade, como visto anteriormente. Quando questionados sobre as diferenças de prátiVemos indivíduos com experiência profissional, mas cas entre o PSF e os hospitais, os entrevistados aponnão necessariamente no PSF. 69% dos entrevistados tam que no PSF o AE em 10 lugar desenvolve vínculos. Somos de acordo, porem, sabemos que não é apenas atuam como AE no PSF entre 2 e 4 anos. Supomos o AE que desenvolve vínculos com as famílias e coque esta realidade está ligada à história do PSF em São munidades, mas toda ESF busca alcançar este objetiPaulo que é recente, com exceção do QUALIS que vo, em especial os ACSs. De qualquer forma, no PSF, existe desde 1996; 38,5% dos entrevistados tem outro o AE desenvolve vínculo, o que é incomum em hospivínculo empregatício com outras Instituições de Saútais. Em 20 lugar que no PSF o AE realiza procedimende. Vemos com isso que não existe dedicação exclusitos. Sabemos que, tal ação não pode caracterizar esta va ao programa, fato que possivelmente está ligado à estratégia, embora o PSF tenha como parte de suas necessidade de complementação salarial; 77% dos enações a assistência domiciliar terapêutica. Também, é trevistados possuem filhos. Se pensarmos que o PSF destacado em 30 que o hospital prioriza-se o tratamenexige dedicação exclusiva, a possibilidade de filhos to individual. Somos de acordo que o modelo biomépode trazer relativa sobrecarga, já que estes precisam dico de assistência, além de focar o tratamento individe atenção. dual, exclui uma parcela importante da população, Em relação ao ponto de vista do AE sobre o PSF, pois este sistema utiliza alta tecnologia (com baixa os entrevistados destacam os principais pontos: 1°) Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 11 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 12 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF resposta no coletivo), que são usufruídos por uma pementos. Sabemos que a visita domiciliar faz parte das quena parcela da população. Não há garantia de acesatribuições do AE, embora deveria ser realizada em so; o olhar coletivo e a integração com a atenção priperíodo trimestral (a todas as famílias independente mária são baixos por parte do hospital. Em 40 os AEs da presença de doença), esta ação contribui para o destacam que o PSF é um novo jeito de fazer saúde. controle de saúde das famílias e comunidades. TodaAo nosso ver, este novo jeito é a diferença do atual via, esta colocação reafirma a realidade onde possivelmodelo hospitalocêntrico/biologicista. Lembramos mente os AEs fazem mais VDs para realizar procedique este novo jeito de fazer saúde está alicerçado em mentos e assim sendo, para indivíduos já doentes, bases e princípios, tais como: promoção da saúde, ficando de fora as famílias que não tiverem pessoas prevenção de agravos, ambos na busca da qualidade doentes; nestes casos só os ACSs visitariam. de vida. Curiosamente, em 50 lugar aparecem as Quanto às atividades desenvolvidas pelo AE no ações de promoção e prevenção que deveriam ser PSF, foi citado em 1° lugar a realização de visita domidestacadas em primeiro e/ou segundo lugar, que acaciliar, seguida de 20) procedimentos nos domicílios, bam ficando por último, o que possivelmente nos 30) identificação de fatores de risco e 40) educação leva a acreditar que o AE ainda não consegue comem saúde. Como discutido anteriormente, a visita dopreender na totalidade o alcance que a atenção primiciliar é realizada cotidianamente pelos ACSs para mária à saúde pode proporcionar. Por último, em 60 garantir o vínculo e acesso ao contexto familiar e solugar é destacado que o PSF instrucial. A este respeito concordamos mentaliza as famílias a cuidarem da que as visitas domiciliares realiza“PARA A CATEGORIA sua saúde. Ao nosso ver, este item das pelos AEs, estão ligadas diretaPROFISSIONAL, É parece ser um diferencial do PSF, e mente à realização de procedimenFUNDAMENTAL CONHECER que deveria ter maior importância, tos. Na verdade a visita domiciliar em relação a outros itens citados MAIS SOBRE O DESEMPENHO deveria ocorrer independente da anteriormente. DO AE EM SAÚDE DA FAMÍLIA, presença ou não de doença, como Quanto à percepção do AE sojá referido. Ficamos surpresos quanPOIS ESTE ALCANÇA MAIORES do o AE destaca a identificação de bre o desenvolvimento de sua prátiRESULTADOS NO EXERCÍCIO fatores de risco como parte das ca direcionada ao atendimento e a criação de vínculo com a comunisuas atividades no PSF, pois de cerDE SUA FUNÇÃO.” dade, foi destacado em primeiro luta forma sabemos que é impossível gar a educação em saúde. Concordamos que a saúde para o AE realizar esta ação isoladamente, já que esta não se resume apenas na existência de serviços de requer planejamento e até mesmo operação conjunta saúde; mas pode ser resultado de diversos fatores tais de toda equipe. Ainda é destacada pelo AE, a educaquais: ambiente, condições de vida, capacidade de ção em saúde. Se pensarmos na educação em saúde mobilização, utilização de recursos que podem ser como a mudança de hábitos, atitudes e comportamentos de saúde em indivíduos, acreditamos que o transformados em serviços de saúde, decisões das faAE esteja ligado à educação em saúde de forma indivimílias e comunidades no tocante ao estilo de vida, dual, já que em grupos na maioria das vezes é um dentre outros. A educação em saúde é o conjunto de profissional de nível superior, que coordena ou ao atividades tendentes a influenciar ou a modificar conhecimentos, atitudes, crenças e comportamentos, vimenos se responsabiliza. Por outro lado, acreditamos sando a melhoria da saúde do indivíduo. Ser elo de lino potencial do AE para realização de seções de edugação é destacado em segundo lugar pelos AEs como cação em saúde em grupo. parte de sua prática. Sabemos que é responsabilidade Quanto às dificuldades encontradas pelo AE no de toda ESF, desenvolver elo de ligação com as famíPSF, os entrevistados destacaram: 10) relacionamento lias e comunidades. Sendo o AE integrante desta equicom profissionais; 20) falta de recursos materiais e 30) pe, vemos preocupação deste profissional em ser um problemas com a comunidade. Se considerarmos o elo de ligação com as famílias, supomos que esta histórico do PSF na região onde este trabalho foi realipreocupação não existia quando estes profissionais zado, e ainda, que os entrevistados trabalham no PSF trabalhavam no modelo hospitalocêntrico de assistênentre dois e quatro anos, e que 38,5% estão na função cia. Ainda nesta seqüência, o AE aponta em terceiro de AE há mais de dez anos, é possível entender as difilugar a realização de visita domiciliar para procediculdades citadas acima. Possivelmente os AEs encon12 Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 13 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF tram dificuldades na pessoa do ACS ou do médico, e que possivelmente pode estar havendo alguma interferência nas atribuições de cada membro da equipe, o que pode levar à geração de conflitos. Quanto à falta de recursos materiais, possivelmente os entrevistados estão referindo-se aos materiais utilizados em procedimentos terapêuticos, como foi visto anteriormente. Os problemas com a comunidade devem ser analisados e posteriormente melhor estudados, pois nessa questão os entrevistados não deixam claro, quais os tipos de problemas enfrentados com a comunidade. Supomos, que tais problemas estejam relacionados com a falta de adesão das famílias ao PSF, falta de vínculo e ainda falta de percepção por parte das famílias em relação à figura do AE como parte da ESF. Por último os entrevistados apontam as seguintes sugestões para melhorar sua prática no PSF: 10) maior oferta de ações de capacitação. Esta sugestão a nosso ver precisa ser considerada, avaliada e encaminhada. De modo geral o desempenho do AE está prejudicado por falta de capacitação, enfatizamos que estes profissionais são provenientes de um modelo de assistência oposto ao qual ele está inserido no momento (seja de formação ou de trabalhos anteriores). Em 20 lugar temos melhores condições de trabalho sugerido pelos AEs, somos de acordo que nesta questão os AEs fazem referências às dificuldades específicas da UBS e não do PSF, ou possivelmente estão referindo-se ao estresse, carga horária ou até mesmo demanda excessiva. que ele pede para capacitação? Procedimentos, já que é o que ele mais faz? Ou será que há dificuldade de compreensão de outros pontos como: SUS, o próprio PSF, papel de cada profissional dentro do programa, como entrevistar e/ou abordar uma família e outros? Trabalhar com Agentes Comunitários é uma novidade para toda a equipe de saúde, não seria diferente para o AE. É possível que as dificuldades de relacionamento sejam maiores com o ACS. Nossa experiência na realização deste trabalho levou-nos a uma reflexão mais abrangente em relação ao Auxiliar de Enfermagem e sua prática no PSF. Ficamos surpresos pelo fato de que em algumas situações, o AE do PSF ainda traz consigo características marcantes do modelo hospitalocêntrico. Por outro lado, compreendemos que este ator possivelmente não foi preparado para atuar nesta proposta de saúde. Este trabalho não teve a pretensão de esgotar o estudo sobre o AE atuante no PSF. Dado a isto pensamos que algumas questões que esta investigação levantou, gerou hipóteses que podem ser melhor estudadas por outros pesquisadores que se sintam desafiados pela temática advindas deste estudo. Esta investigação pretendeu trazer conhecimento deste ator tão importante (e ao mesmo tempo pouco conhecido), a fim de viabilizar sua prática e fazer com que "este novo jeito de fazer saúde" alcance dentro dos objetivos propostos, as famílias e comunidades na busca da qualidade de vida. COMENTÁRIOS FINAIS Auxiliar de Enfermagem é um dos profissionais mais antigos da enfermagem no Brasil.2 A nosso ver é ainda um dos principais elementos da enfermagem, e por isto necessitam de atividades de capacitação. No PSF, a ação do Auxiliar de Enfermagem, realmente esta mais ligada ao procedimento, (o que não foi diferente da história), no entanto, o PSF pede ao AE outras possibilidades de prática, daí vem à questão da própria visita domiciliar, visando atividades de educação em saúde, de elo de ligação, ações não especificas só a este profissional, mas novas no corolário geral de suas atividades. Parece evidente a facilidade de que os AEs pesquisados tiveram em identificar a diferença da prática hospitalar para o PSF. Questão que nos deixou surpresos é que a 1ª sugestão colocada pelos AEs é a necessidade de capacitação, que não foi colocada nas dificuldades. Aspectos que precisam ser trabalhados em educação permanente. Daí questiona-se: O que será Referências bibliográficas O 1. www.portaldamooca.br - acessado em novembro de 2003. 2. Ministério da Saúde. Saúde da Família: uma estratégia de organização dos serviços de saúde. Ministério da Saúde, Secretaria de Assistência à Saúde, Brasília 1998, p. 28-37. 3. Cotta, R. M. M.; Mendes, F. F.; Muniz, J. N. O Espírito e a Letra; Descentralização, Universalização e Equidade na Prática do SUS. In: Descentralização das Políticas Públicas de Saúde: do imaginário ao real. Viçosa: UFV, 1998, cap. 8, p. 89-116. 4. Silva, J. A; Dalmaso, A. S. W. Agente Comunitário de Saúde: o ser, o saber, o fazer. Rio de janeiro: Fiocruz, 2002. 240p. 5. Souza, M. F. Agentes Comunitários de Saúde: choque do povo. São Paulo: Hucitec, 2001. 155p. 6. Souza, M. F. A Coragem do PSF. São Paulo: Hucitec, 2001. 127p. 7. Tobar, F. ; Yalour, M. R. Como fazer teses em saúde pública: conselhos e idéias para formular e redigir teses e informes pessoais. São Paulo: Fiocruz, 2001. 170 p. 8. Giovanini, T. et al. História da Enfermagem – Versões e Interpretações. Rio de Janeiro, Revinter, 1995. Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14 13 pág.08/14 Saúde da Família.qxd 3/17/04 14:19 Page 14 Programa de saúde da família Santos, G. de S.; Manfredo, R.; Santos, A. da S. Compreendendo o Perfil e a Prática do Auxiliar de Enfermagem no PSF ANEXO I - INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS 1) Idade: ( ) até 20 anos ( ) 41 a 50 anos ( ) 21 a 30 anos ( ) 51 a 60 anos 2) Sexo: ( ) masculino ( ) feminino 3) Estado civil: ( ) solteiro ( ) casado ( ) amasiado ( ) separado ( ) divorciado ( ) viúvo 4) Grau de instrução: ( ) ensino fundamental ( ) nível médio ( ) nível superior ( ) completo ( ) completo ( ) completo ( ) incompleto ( ) incompleto ( ) incompleto 5) Renda familiar: ( ) 1 a 2 salários mínimos ( ) 3 a 4 salários mínimos ( ) 5 a 6 salários mínimos ( ) 7 ou mais salários mínimos ( ) 31 a 40 anos ( ) 61 anos e mais 6) Há quanto tempo é Auxiliar de Enfermagem? ( ) até 2 anos ( ) de 2 a 4 anos ( ) de 4 a 6 anos ( ) de 6 a 8 anos ( ) de 8 a 10 anos ( ) mais de 10 anos 7) Há quanto tempo esta atuando como Auxiliar de Enfermagem na Estratégia Saúde da Família? ( ) menos de 1 ano ( ) de 1 a 3 anos ( ) de 3 a 6 anos ( ) 6 anos e mais 8) Tem outro emprego ? ( ) sim ( ) não 9) Tem filhos ? 10) No seu ponto de vista, o que significa o Programa Saúde da Família? 11) Que diferenças você destaca na prática do Auxiliar de Enfermagem em Saúde da Família para a área hospitalar? 12) Qual a importância do Auxiliar de Enfermagem para a comunidade? 13) Quais são as atividades que você desenvolve dentro do PSF ? Se for mais que uma, numere em ordem crescente. ( ) grupos de educação em saúde ( ) visitas domiciliares ( ) identificação de fatores de risco ( ) acompanhamento mensal das famílias ( ) realização de procedimentos nos domicílios ( ) outras, especificar: 14) Quais são as dificuldades que você encontra no PSF? Se for mais que uma, numere em ordem crescente. ( ) falta de material ( ) dificuldade de relacionamento com outros profissionais ( ) problemas com a comunidade ( ) dificuldade de relacionamento com a chefia ( ) dificuldade de vínculos com a comunidade ( ) baixa remuneração ( ) outros, especificar: 15) Que sugestões você apontaria para melhorar o seu desempenho no dia-a-dia? 14 Nursing Saúde Coletiva 2004;01(1):08-14