1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I CURSO DE PEDAGOGIA ESCOLA: ESPAÇO ONDE AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS E PEDAGÓGICAS ACONTECEM JAMINE KRAUSE DE SOUZA SALVADOR 2010 2 FICHA CATALOGRÁFICA : Sistema de Bibliotecas da UNEB Souza, Jamine Krause de Escola: espaço onde as relações interpessoais e pedagógicas acontecem/ Jamine Krause de Souza . – Salvador, 2010. 93f. Orientadora: Profª. Drª. Isa Maria Faria Trigo. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Educação. Colegiado de Pedagogia. Campus I. 2010. Contém referências e apêndices. 1. Sociologia educacional. 2. Ambiente escolar. 3. Estudantes - Atitudes. 4. Professores e alunos - Relações. 5. Educação de crianças. 6. Prática de ensino. I. Trigo, Isa Maria Faria. II. Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação. CDD: 370.19 3 JAMINE KRAUSE DE SOUZA ESCOLA: ESPAÇO ONDE AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS E PEDAGÓGICAS ACONTECEM Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção da graduação em Pedagogia do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia, sob orientação da Professora Dra. Isa Maria Faria Trigo. SALVADOR 2010 4 JAMINE KRAUSE DE SOUZA ESCOLA: ESPAÇO ONDE AS RELAÇÕES INTERPESSOAIS E PEDAGÓGICAS ACONTECEM Monografia apresentada como requisito parcial para obtenção da graduação em Pedagogia do Departamento de Educação da Universidade do Estado da Bahia, sob orientação da Professora Dra. Isa Maria Faria Trigo. Salvador, 03 de setembro de 2010. 5 Dedico esse trabalho a minha família e a Valnier, pessoas fundamentais na minha vida, que sempre me apoiaram para a realização dessa e de muitas outras conquistas. 6 AGRADECIMENTOS A Deus por me conceder a sabedoria e a força de vontade para conquistar meus objetivos. A Valnier, que a todo o momento, esteve presente, me apoiando e sendo um excelente companheiro. Aos meus pais e irmãos que me deram todo suporte necessário para a realização desse trabalho. A professora Isa Maria Faria Trigo pela contribuição de seus ensinamentos nas orientações e pela sensibilidade em discutir o tema, servindo de aprendizado para toda vida. 7 “(...) abrir o espaço escolar e construí-lo como lugar de um modo tal que não restrinja a diversidade de usos ou sua adaptação a circunstâncias diferentes. Isso significa fazer do mestre ou professor um arquiteto, isso é, um pedagogo e, da educação, um processo de configurações de espaços. De espaços pessoais e sociais, e lugares”. Antônio Viñao Frago 8 RESUMO Este trabalho buscou refletir sobre a importância do espaço escolar para as relações interpessoais e pedagógicas, definindo categorias de análise que revelem aspectos que proporcionaram ou não essas relações. Foram realizadas visitas e observações que nortearam o trabalho. A pesquisa foi realizada no Colégio Estadual Professor José B. de A. Bastos, em Salvador-BA com alunos, professores e funcionários, teve cunho qualitativo e abrangeu o reconhecimento e a observação participante do objeto da pesquisa. Diante dos fatos foi constatado que os espaços do colégio estudado constroem as relações, apresentando-se de diversas maneiras, significativas para os sujeitos atuantes nesses espaços de aprendizado e vivências. A escola é considerada um lugar de oportunidades e de limites, projetada para a prática de ensino-aprendizagem que abriga as relações. O indivíduo age sobre este e determina como ele será utilizado e a depender dessa ação pode gerar momentos de inclusão ou exclusão. Palavras – Chave: Espaço Escolar. Relações Interpessoais. Relações Pedagógicas. 9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ------------------------------------------------------------------------------1 1.0 – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ---------------------------------------------6 1.1 – A IMPORTÂNCIA DO ESPAÇO ESCOLAR --------------------------------7 1.2 – A ESCOLA, O ESPAÇO, O LUGAR E AS RELAÇÕES ---------------10 1.3 – A (IN)DISCIPLINA NO ESPAÇO ESCOLAR -----------------------------15 1.4 – A INCLUSÃO E A EXCLUSÃO NOS ESPAÇOS DA ESCOLA -----18 1.5 – A ESCOLA E O CURRÍCULO ------------------------------------------------21 2.0 – PERCURSOS METODOLÓGICOS ------------------------------------------24 2.1 – PRIMEIRAS INCURSÕES -----------------------------------------------------26 2.2 – A INSTITUIÇÃO -------------------------------------------------------------------30 3.0 – ANÁLISE DOS ESPAÇOS DO COLÉGIO JOSÉ BARRETO DE ARAÚJO BASTOS ----------------------------------------------------------------------48 3.1 – CENAS QUE CHAMARAM ATENÇÃO ------------------------------------48 3.1.1 – Cenas da sala de aula ------------------------------------------------------ 48 3.1.2 – Cenas do pátio -----------------------------------------------------------------57 3.1.3 – Cenas da biblioteca ----------------------------------------------------------62 3.1.4 – Cenas da sala de dança ----------------------------------------------------69 3.1.5 – Cenas do refeitório -----------------------------------------------------------72 CONSIDERAÇÕES FINAIS -----------------------------------------------------------78 REFERÊNCIAS ---------------------------------------------------------------------------82 APÊNDICE 1 INTRODUÇÃO O trabalho intitulado Escola: Espaço onde as Relações Interpessoais e Pedagógicas Acontecem, visa analisar a importância do espaço escolar para as relações entre alunos, professores e funcionários. Nesse, relato os aspectos que o embasaram, que vão desde a curiosidade em estudar o tema, a partir de uma atividade acadêmica, até a realização da pesquisa de campo, entrevistas e questionários, baseados na importância do espaço escolar para as relações estudadas. Levo em consideração o conceito de espaço e, vinculado a este, o de lugar; para que se entenda porque a escola pode ser considerada um espaço; um lugar. No primeiro capítulo discuto idéias e reflexões dos autores pesquisados, colocando minha contribuição sobre o tema. Os autores referenciais neste estudo são: Augustin Escolano (2001), Antônio Viñao Frago (2001), Edward Twitchell Hall (2005), Milton Santos (1988) e Michel Foucault (2008). No segundo capítulo faço uma análise de alguns espaços do colégio, eleitas por mim a partir de algumas relações interpessoais e pedagógicas frequentes e observadas nesse estudo. Estas relações assinalam e caracterizam o uso desse espaço escolar, e são por ele também influenciadas. Para esta análise utilizei observações de campo participantes, através da aplicação de questionário diretamente aos sujeitos, através de entrevistas, para conhecer os alunos e saber de suas opiniões, idéias e impressões acerca dos espaços que utilizam e a caracterização desses espaços, destacando os aspectos ambientais, arquitetônicos e pedagógicos do colégio estudado. Como estratégia de compreensão e análise, denominei de cenas a alguns dos momentos de convivência e de utilização dos espaços pelos envolvidos; para assim, caracterizar estas relações neste ambiente específico que considero de importância para a 2 compreensão acerca de usos e práticas de poder e de socialização dentro da escola, invisíveis no cotidiano, mas viabilizadas através do recurso da análise desses eventos. No terceiro capítulo descrevo os resultados alcançados, fazendo um link entre as idéias dos autores, dos depoimentos dos alunos e a situação in loco, chegando assim a algumas reflexões sobre o problema da pesquisa. Para realizar esse trabalho, escolhi o Colégio Estadual Professor José Barreto de Araújo Bastos1, localizado no bairro de São Caetano, pois tenho livre acesso ao colégio, já que minha mãe, J.K, trabalha neste. Por conta disso, conheço boa parte dos funcionários e professores, desde o ano de 2002 que o colégio era denominado de “papelão” (divisórias em Eucatex e estrutura metálica). Relato esta minha inserção, pois ela explica e define meu interesse e minha relação com a escola e com várias das suas partes funcionais. Não sou uma estranha, tendo com este espaço esta relação próxima. Assim, pude transitar e me colocar, muitas vezes, no lugar dos alunos para poder perguntar sobre algo que também vivenciei. Esta posição traz a possibilidade de perceber e de propor categorias de análise que outro que não conhecesse o lugar não traria. Em suma, não se pode dizer que seja uma observação participante no sentido que não estou nas atividades que observei. Mas tenho uma visão e uma inserção participante e comprometida com o objeto e com o percurso do que estou estudando. Meu intuito foi pesquisar a importância do espaço no ambiente educacional; e, a partir daí, definir como pergunta de partida: Qual a importância do espaço escolar para as relações interpessoais e pedagógicas entre alunos da 5ª série, professores e funcionários do colégio José Barreto de Araújo Bastos? Vinculado à pergunta vem o objetivo geral, que é justamente refletir sobre essa importância nas suas especificidades. Durante esta reflexão, criei algumas categorias de análise que também podem ser compreendidas como objetivos específicos; elas 1 Durante a minha vida acadêmica, no curso de pedagogia, realizei outros trabalhos na escola, são alguns deles: a respeito do papel social da escola na comunidade, da sua organização administrativa e espacial, sobre a participação dos professores na organização da escola (atividades educacionais), utilização das TIC’s (Tecnologias de Informação e Comunicação) pelos alunos e de que forma, sobre a aplicação da Lei nº 11.645 de 10 de março de 2008 que garante o ensino de história afro-brasileira e indígena, entre outros. 3 revelam aspectos que proporcionam - ou não as relações interpessoais no colégio. Também utilizei a minha experiência como arquiteta para levantar questões sobre o espaço físico da escola, e consequentemente, defini as categorias referidas. Para a coleta de dados, fui a campo no intuito de realizar uma pesquisa qualitativa, de caráter reflexivo, descritivo e exploratório; isso porque não abarquei o conjunto total dos sujeitos das séries escolares. A abordagem a estes variou em função da oportunidade que eles me deram, dos meus dias na escola e dos interesses que tinha ligados aos espaços diversos da escola. Neste sentido realizei as entrevistas e fiz os registros das observações de campo, relatando no meu diário de pesquisa as situações que mais me chamaram a atenção e que nortearam o trabalho. É de cunho qualitativo pelos tipos de escolha que fiz, a começar pelas situações e sujeitos; porque fui a campo, fiz uma observação participante dos espaços do colégio e das relações existentes; os conheci, trabalhei com as falas dos estudados, através dos questionários, coletando dados úteis aos objetivos da pesquisa. Têm caráter exploratório porque estimulei os entrevistados a pensar e falar livremente sobre o tema, sendo uma pesquisa aberta e coletiva, mas inicial, ou seja, uma introdução ao tema. Reflexivo porque o objetivo foi de analisar estas relações, promovendo a discussão sobre o tema. E por fim, é descritivo, pois eu coletei as informações para analisá-las, relatei no diário de pesquisa, os dados das observações, histórias e relatos de vida e as respostas das entrevistas de modo a identificar o que seria essencial para o trabalho. A vontade de estudar o espaço escolar se deu a partir de uma atividade realizada na disciplina Currículo e Educação, no 4º semestre, no curso de graduação em Pedagogia, da Universidade do Estado da Bahia, ministrada pela professora Elizabete Santana. Esta pediu que fizéssemos um memorial descritivo, relatando nossas experiências durante o período escolar, no que mais nos tinha marcado nesse tempo. Isso foi feito em grupo e, ao final dos relatos, os componentes de cada equipe deveriam escolher a história mais interessante; foi assim que a minha equipe escolheu a história da colega A.L. Em seu relato, ela conta sua experiência no ensino fundamental I, como aluna da Escola Municipal Santa Rita de Cássia, localizada em Jaguará, distrito de Feira de 4 Santana, em 1989. A suposta “escola”, na verdade, era uma casa, na qual um dos cômodos foi cedido para funcionar como espaço educacional. Era uma escola adaptada para meninos e meninas do meio rural e de baixa renda. Não possuía condições mínimas de conforto ambiental, a casa em si era grande, mas a área destinada à escola era pequena para o número de alunos, pois se resumia a um cômodo, sem áreas livres para recreação e circulação. Além disso, o material de uso dos estudantes era guardado dentro de caixas sem legendas que as nomeassem ou mesmo à turma a que pertencia e nas paredes ficavam dependuradas todas as produções (desenhos, pinturas, textos, o quadro de giz, o calendário, parlendas, histórias, cartazes dentre outras coisas). Ela estudou nessas condições: uma sala de aula multisseriada; sem material escolar adequado; condições de higiene precária; sem banheiro e conseqüentemente, sem saneamento básico; sem espaço para o lazer; não possuía refeitório, biblioteca e nem sala de leitura e os livros ficavam na casa da professora, não possibilitando o acesso aos alunos. Depois a professora Elisabete Santana pediu que, a partir desse memorial, criássemos um tema que estivesse relacionado à disciplina Currículo e Educação. Com isso, tive a idéia de falarmos sobre: O Espaço Escolar como parte Integrante do Currículo, pois ele também educa. A partir daí, senti a necessidade de estudar o espaço escolar, pois é um dos lugares em que as relações entre os indivíduos se fazem presentes de maneira revelante para sua constituição enquanto indivíduos e sujeitos sociais. Trata-se de alunos de diferentes níveis de escolaridade, de personalidades, atitudes e comportamentos diferentes, que convivem entre si e com funcionários e professores que também possuem suas características peculiares, dividindo os mesmos espaços do Colégio; compondo-os e transformando-os em lugares de semelhanças e diferenças, de preconceitos, de ocultamentos e questionamentos, de limites e possibilidades, de revelações, de sensações e de sentimentos variados. O importante é que os espaços abrigam e reproduzem todas essas manifestações. É importante reconhecer o papel da escola na sociedade; ela é considerada um estabelecimento de ensino que deve priorizar a formação pessoal do indivíduo e 5 proporcionar seu desenvolvimento cognitivo e social. Além disso, é vista como lugar de reconhecimento e de ascensão social, pois o indivíduo que estuda se torna conhecedor dos fatos que acontecem na sociedade, a ponto de opinar, de expor suas idéias, assumindo uma postura crítica diante dos fatos. Isso é um diferencial no mercado de trabalho; o indivíduo instruído consegue alcançar seus objetivos mais facilmente e acaba se destacando ante os demais. É desejo de muitos poderem estudar, adquirir conhecimentos, tornarem-se sujeitos conhecedores dos problemas que assolam a sociedade e serem respeitados por esta. Isso se torna mais desejável para aqueles mais necessitados, que vêem no ensino gratuito e laico uma fonte de conhecimento e esperança por dias melhores. E a escola é um dos espaços que o indivíduo aprende a conviver com o outro, a ser sociável, a adquirir valores e significados a partir da vivência deste e neste espaço com outros indivíduos. Com o oferecimento de atividades e instalações adequadas ao ensino e aprendizagem o aluno poderá ter boas recordações dessa época, tendo orgulho e satisfação de ter convivido num espaço de oportunidades e de aprendizado. A escola além de ser bem estruturada e precisa desempenhar funções que atendam às necessidades de seus alunos. Para confirmar essa idéia, Edward T. Hall diz que: “O que é realmente desejável é que exista flexibilidade e congruência entre projeto e função para que haja uma variedade de espaços e as pessoas possam se envolver ou não, como exijam a ocasião e a disposição de espírito.” (2005, p.139). Então, entendo que o projeto de uma escola deve ser flexível, disponibilizando ambientes diferenciados e variados, destinados a atividades educativas, culturais, de esporte e de lazer. E além dessas características, o espaço escolar é palco e constrói algo muito valioso; as relações. Estas dão sentido ao espaço a partir do momento que se criam e se apresentam neste, das mais variadas maneiras. O que, no caso deste trabalho, é priorizado nas relações interpessoais e pedagógicas. Observar e refletir sobre os espaços convenientes para essas relações, que acontecem com frequência e são significativas para as aprendizagens e para a formação do aluno, eis o eixo fundante desse trabalho. 6 1.0 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Esse capítulo reuniu um conjunto de idéias e reflexões acerca do objeto de estudo que é o espaço da escola, destacando alguns autores que contribuíram para a compreensão e análise da importância desse espaço para as relações interpessoais e pedagógicas entre os alunos, professores e funcionários. A partir disso, dei sequência à discussão e compreensão das idéias que me deram embasamento teórico, mostrando que o espaço, de fato, é importante para essas relações, pois as possibilita ou as limita; e para que isso aconteça, existem vários aspectos discutidos no capítulo seguinte. Enfatizo o conceito de espaço, pois afirmo que a escola é um espaço, considerando tudo aquilo que o compõe e, em paralelo a esse, discuto sobre a exclusão dos sujeitos nos espaços da escola e suas significações, que são um fator determinante, em alguns casos, para a utilização e permanência nestes. Refiro-me ao espaço como dimensão integrante do currículo; refiro-me aqui também ao chamado currículo oculto, porque estou considerando que este promove as relações, comportando-as; consequentemente está impregnado de significados, ou seja, de representações, que transmitem sensações e valores aos que convivem na escola, a partir da relação com o outro. Estas relações normalmente não são percebidas pelos sujeitos que as sofrem e protagonizam. Dessa forma, fica registrado na sua vivência tudo que ocorreu neste espaço, porque eles experimentaram, em determinado período escolar, situações determinantes para sua aprendizagem. Mas nem sempre este registro fica como consciência ou se organiza para que o sujeito se entenda melhor e ao meio que o cerca. Pretendo aqui considerar a localização do Colégio José Barreto de Araújo Bastos, sua comunidade, seus diferentes usos e funções, sua organização espacial, no sentido de observar as relações interpessoais e pedagógicas nos diferentes espaços. Minha maneira de trabalhar essas questões foi através do que chamo aqui de “cenas”. São as situações que escolhi por evidenciarem algum aspecto que considero importante, garantindo uma riqueza de detalhes no momento em que se processou a análise do colégio, o que será visto no capítulo seguinte. Neste capítulo também introduzo idéias que revelam a importância que a configuração espacial da escola tem 7 para o aprendizado do aluno, considerando sua localização, seus acessos e suas atividades educativas. Antônio Viñao Frago contribui para essa análise, dizendo: Para analisar a dimensão espacial dos centros docentes [...]. Em primeiro lugar deve-se considerar sua localização ou adequações em relação a outros espaços e lugares; depois o local ou território ocupado e a distribuição, no mesmo, das zonas edificadas e não edificadas e, assim, seguir progressivamente, desde essas últimas até a sala de aula, passando pelo edifício em seu conjunto e sua distribuição interna em diversos espaços e usos. Além disso, entre um espaço e outro será necessário considerar áreas de transição – pórticos, corredores, áreas de espera. (FRAGO, 2001, p.75). As características da escola são evidenciadas na sua arquitetura, que abriga e proporciona as mais variadas relações, condicionadas a partir de seu uso; por exemplo, o que acontece num refeitório geralmente é diferente do que acontece numa sala de aula, ou seja; espaços com finalidades diferentes estimulam e se destinam a atividades diferentes; por isso, são setorizados. Com isso, as pessoas e os objetos se relacionam através de sua separação no e pelo espaço. 1.1 A IMPORTÂNCIA DO ESPAÇO ESCOLAR No ano de 1985, na Espanha, começou os estudos sobre a escola com Jaime Trilla que escreveu o livro: Ensayos sobre La escuela. El espacio social y material de La escuela. Um dos enfoques dado pelo autor foi sobre a análise do espaço escolar em sua perspectiva histórica com intuito de investigar o caráter ou a natureza da instituição escolar. Mais adiante, na história da educação, aqueles que se interessavam por questões organizativas, didáticas e curriculares, começaram a voltar-se ao estudo do uso, da distribuição do espaço escolar e de sua transformação em lugar. Segundo Viñao Frago (2001, p.11): Apesar da importância da dimensão espacial da atividade humana em geral, e da educativa em particular, essa última é uma questão não estudada nem a fundo nem de modo sistemático. Quando a atenção se dirigiu a essa questão, foi para centrar-se mais [...] propostas efetuadas 8 em relação a distribuição e usos do espaço escolar e nas regulações dos aspectos tecnoconstrutivos, higiênicos e pedagógicos dos edifícios escolares, do que nos aspectos de índole antropológica e relacionados com a história da escola como lugar e de sua realidade material. (FRAGO, 2001, p.11). Isso porque, segundo Viñao Frago (2001, p.12): [...] antes, os historiadores da educação se preocupavam com os aspectos ideológicos e legais, com os conflitos de lutas e poder, os processos de decisão política e com o papel do Estado na educação, esquecendo de considerar as instituições educacionais como centros de decisão e poder, por isso, de conflitos pessoais e intergrupais. Além disso, pouco se importavam com o espaço escolar devido à dificuldade de integrar profissionais, como o arquiteto, o pedagogo, o médico-higienista e o políticoadministrativo, pois são áreas específicas que, integradas, podem analisar a escola na sua dimensão espacial, humana e educativa. E por último, o espaço escolar não tem lugar no programa normal de ensino curricular ou não é um tema que surge em tal programa, sendo difícil à possibilidade de ser objeto de investigação científica. Mas a partir dos novos campos de estudo, como a história do currículo e a história da escola como instituição, dentro da história da educação, tornou-se viável a ênfase na dimensão espacial da atividade educativa e da escola como realidade social material e cultural. Sendo assim, a questão do espaço adquiriu importância nos últimos tempos. Com o passar dos anos, a escola, em termos espaciais, passou a ser vista mais além da sua dimensão geométrica para assumir também uma dimensão espacial, no sentido de analisar sua localização, seu entorno, sua relação com outros espaços e lugares, o território ocupado, a localização e os acessos das áreas edificadas e nãoedificadas até chegar à sala de aula. Foi na metade do século XIX, segundo Célia Dórea (2000, p.151), que, no Brasil, se iniciou a preocupação com a estrutura física de prédios escolares. Com a República brasileira, a escola passou a ser um instrumento de progresso histórico, com caráter regenerador, sendo única teoricamente capaz de transformar o homem comum. 9 Mas seria a única mesmo? Contesto essa idéia de Célia Dórea com a reflexão de Libâneo que diz: A escola está precisando rever os processos, os métodos as formas de educar, de ensinar e de aprender. Os professores e professoras precisam compreender que a escola não é mais, na atualidade, a única forma de transmissão do saber, o qual pode ser obtido em vários lugares, tais como, nos meios de comunicação, nas empresas, nos clubes, no dia-a-dia de qualquer pessoa. (CAVALIERE, 2009, apud LIBÂNEO, 2003, p.23). A escola é um dos lugares nos quais aprendemos através da relação com o outro e com o meio; é um dos mais importantes ambientes de aprendizagem dos signos, das normas e dos valores, apreendidos através da convivência em sociedade. Augustin Escolano (2001) contribui dizendo que: A arquitetura escolar é também por si mesma um programa, uma espécie de discurso que institui na sua materialidade um sistema de valores, como os de ordem, disciplina e vigilância, marcos para a aprendizagem sensorial e motora [...]. (2001, p. 26). Atualmente investe se mais na estrutura física das escolas. Isso pode ser constatado na estrutura de algumas escolas mais recentes, a exemplo, o colégio em estudo, o José Barreto de A. Bastos. Este possui parâmetros de acessibilidade, atende aos mínimos requisitos de conforto ambiental em quase todos os espaços, e é uma edificação projetada especificamente para funcionar um colégio e de porte especial; pois, além da extensa área edificada e de área verde, abrange duas modalidades de ensino: Fundamental II e Ensino Médio. A arquitetura, mais do que abrigar variadas funções da atividade humana, é suporte de conteúdos simbólicos. Através de suas formas os edifícios caracterizam-se como símbolos destas mesmas funções. É por isso que ao longo da história aprendeu-se a decodificar a imagem da igreja, da mesquita, do prédio dos correios, da agência bancária e das escolas, entre tantas outras tipologias arquitetônicas que se forem consolidadas. (WOLFF, 1996, p.105). Além disso, a escola é vista como referência nas cidades, levando em consideração a sua importância no contexto social. Na época da República a 10 arquitetura escolar representava um ideal de modernidade, tornando-se um ambiente organizado, higienizador e ordenado que ajudasse a configurar o espaço físico da cidade. Segundo Julio Groppa Aquino (1996, p.37): O papel de escola é de fermentar a experiência do sujeito perante a incansável aventura humana de desconstrução e reconstrução dos processos imanentes à realidade dos fatos cotidianos, na incessante busca de uma visão mais dilatada de suas múltipas determinações e dos diferentes pontos de vista sobre eles. Isso, a meu ver, define o conhecimento no seu sentido lato. É nesse espaço que o indivíduo deve estar predisposto a aprender, a exercitar e a desenvolver suas habilidades, a conhecer sobre os fatos da história da humanidade e sobre o conhecimento de si mesmo como cidadão; ser pensante que adquire informações e saberes para pô-los em prática na sociedade a favor do seu desenvolvimento. Pois um ser sábio é capaz de tomar decisões, de buscar seus objetivos, de ter atitude e de ser livre para assumir responsabilidades. Além de pensar a escola como local de formação do cidadão, é preciso equipá-la com mobília e material escolar adequado para atender as necessidades dos alunos, principalmente a rede pública, que mesmo na era da República não se investia nelas. O que o mobiliário representa no espaço escolar; essa pergunta pode ser entendida por outra: Se um grupo de alunos estivesse em um laboratório de Ciências, esperando o professor e, ao chegar, ele precisasse utilizar as mesas para demonstrar tal aparelho, mas se não houvesse cadeiras com alturas adequadas e uma quantidade suficiente para a turma, será que os alunos iriam se sentir bem? Essa pergunta mostra um pouco os meandros desse trabalho. 1.2 A ESCOLA, O ESPAÇO, O LUGAR E AS RELAÇÕES É preciso que se entenda o conceito de espaço e de lugar. E no caso do espaço escolar, na sua estrutura física, este está repleto de signos e valores que são expressos através das relações e atitudes dos envolvidos na sua exploração. 11 Para afirmar que o espaço abrange o conjunto desses elementos, Milton Santos diz: [...] o espaço deve ser considerado com um conjunto indissociável de que participam de um lado, certo arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais, e, de outro, a vida que os preenche e os anima, seja a sociedade em movimento. O conteúdo (da sociedade) não é independente, da forma (os objetos geográficos), e cada forma encerra uma fração do conteúdo. O espaço, por conseguinte, é isto: um conjunto de formas contendo cada qual frações da sociedade em movimento as forma, pois têm um papel na realização social. (SANTOS, 1988, p.10). A escola compõe-se desses objetos e pelas pessoas que a utilizam e se apropriam das suas instalações; que em sua materialidade, expressa e reflete discursos e ações destas, tornando-se assim, um ambiente das relações. Segundo Milton Santos (idem, p.25): [...] espaço é um conjunto de objetos e de relações que realizam estes objetos; não entre eles especificamente, mas para as quais eles servem de intermediários. Os objetos ajudam a concretizar uma série de relações. O espaço é resultado da ação dos homens sobre o próprio espaço, intermediados pelos objetos naturais e artificiais. Para confirmar isto, Ribeiro (2004, p.103) diz que “Ao longo do tempo, a noção de espaço foi sendo reconstruída, ressignificada, enriquecida, deixando de ser vista apenas em sua dimensão geométrica, para assumir também a dimensão social”. Então, entendo que a escola pode ser vista pela sua aparência, como também pela sua dinâmica, saber de fato o que acontece nesse espaço, se as relações sociais acontecem, se há práticas educativas e se são interessantes e significantes para os alunos, assim como é sua aparência. Segundo Viñao Frago, o espaço quando é ocupado e utilizado constitui-se num lugar. Lugar é onde se desenvolve a vida em várias dimensões; é onde o homem habita e se apropria dos espaços através dos diferentes modos de uso. Ele considera que o espaço é projetado e imaginado e o lugar é construído e é através da ação humana sobre os objetos que se referiu Milton Santos. Considero essa idéia relevante, pois o último se faz presente quando se tem o espaço como suporte, estando disponível para converter-se em lugar para ser construído. A escola como instituição é um espaço projetado para um determinado uso e também um lugar, por ser um espaço utilizado, ocupado e sentido de determinada forma. 12 Como homem percebe o mundo? É através de seu corpo de seus sentidos que ele constrói e se apropria do espaço e do mundo. O lugar é a porção do espaço apropriável para a vida – apropriada através do corpo – dos sentidos – dos passos de seus moradores, [...] (CARLOS, 2007, p.17). Através do corpo e dos seus modos de uso, o homem consegue perceber e habitar o espaço, estabelecendo relações sociais. E o lugar só é percebido se houver um sujeito sensível; é algo que também é construído por um sujeito perceptivo, o qual vê sentido nas coisas. Por exemplo, os alunos na escola fazem parte da comunidade de São Caetano; a escola não é apenas uma instituição de ensino e sim um ponto de encontro, onde as relações acontecem. O espaço escolar é formado por vários subespaços, utilizados a depender das atividades desenvolvidas; por exemplo, no colégio estudado, o auditório é destinado à apresentação teatral, para palestras e reuniões ou qualquer outro tipo de evento que reúna uma grande quantidade de pessoas; já a sala de dança é destinada as atividades ligadas à dança que estimulem a expressão corporal e o desenvolvimento motor e sensorial. A respeito dessas diferenças, Hall afirma que “levando em conta a existência de enormes diferenças individuais e culturais no que diz respeito às necessidades espaciais, ainda há certas generalizações que podem ser feitas sobre o que diferencia um espaço de outro.” (2005, p.66). Esta diferenciação está no uso que se faz desses lugares, na disposição dos elementos estruturais e simbólicos que os compõem; outro exemplo seria comparar o lugar da sala de aula com a área do pátio, pois são distintos, e os alunos os utilizam de maneiras diferentes. A sala de aula é destinada, tradicionalmente, à aprendizagem das disciplinas curriculares e para a prática da leitura e escrita; já o pátio destina-se, essencialmente, às atividades recreativas, de contemplação e de lazer, e, no caso do Colégio José Barreto, o pátio tem o outro destino, que é o momento da espera dos alunos pelos professores; para daí então, subirem para os pavimentos superiores para assistirem às aulas. Essas atividades contribuem para a compreensão sobre espaço como um “constructo humano” e logo, não pode haver sem a existência (não só a presença) humana. Essa presença modifica os usos dos espaços, recriando e tendo todo um significado, uma finalidade para os alunos; e, se as atendem, precisam de um espaço 13 para acontecer, e este também reproduzirá um significado para os mesmos. Afirmo isto com base na análise de Viñao Frago sobre o espaço escolar, que diz: Qualquer atividade humana precisa de um espaço e de um tempo determinados. Assim acontece com o ensinar e o aprender; com a educação. Dessa forma entende-se que a escola é pensada para ser um espaço para as práticas de ensino-aprendizagem, tendo um programa específico de necessidades destinadas a prática do educar. (FRAGO, 2001, p.61). A escola sendo um espaço em que aprendemos através da relação com o outro e com o meio, é um dos meios mais importantes de aprendizagem dos signos, dos valores, das regras e normas da convivência em sociedade. Assim, afirma Ribeiro, (2004, p.103) que “O espaço não é neutro e está impregnado de signos, símbolos e marcas de quem o produz, organiza e nele convive, por isso, tem significações afetivas e culturais”. Então, entende-se que o homem age sobre o espaço, modifica-o e se apropria dele e consequentemente, este espaço refletirá e irá retratar as manifestações, ações, discursos, atitudes e comportamentos dos que vivem nele, constituindo-se um lugar. Edward T. Hall coloca que “Não importa o que aconteça no mundo dos seres humanos, acontecerá num cenário espacial (...)” (HALL, 2005, p.XI, prefácio), ou seja, toda ação humana acontece num determinado espaço e em momentos. Hall vai mais além, afirmando que “o espaço é um dos sistemas organizacionais básicos que dão sustentação a todos os seres vivos – especialmente às pessoas”. (HALL, 2005, p.XII, prefácio). Dá sustentação a partir do momento em que condiciona, “propõe” e oferece recursos variados para que as atividades aconteçam e, a partir destas, as relações entre os indivíduos se realizem. O indivíduo age sobre o lugar, consegue percebê-lo através dos sentidos, aquilo que conhecemos como sentidos ou “sistemas receptores”. A depender do sentido em questão, variam basicamente a quantidade e a qualidade de informações processadas. E também, a depender do indivíduo, um destes sistemas pode ser mais desenvolvido que outros, a exemplo dos deficientes visuais que, por ter a visão parcialmente ou totalmente comprometida, aprimoram os outros sentidos, como o tato, para perceber o espaço e os objetos que o compõem, para fazer uso deste. 14 Utilizando estes sistemas é que o homem consegue perceber e viver de diferentes modos o espaço, produzindo sensações subjetivas e proporcionando experiências espaciais distintas. É interessante ressaltar também que o indivíduo percebe o lugar pelos movimentos do corpo que realiza, por exemplo, ao se atravessar um laguinho, pisando em pedras dispostas a intervalos irregulares; ao pisar na grama em um jardim; sendo estes últimos, objetos presentes nos espaços, identificados e percebidos pelo homem a partir do momento em que este se apropria do mesmo. É isso que acontece com a escola; o contato, a vivência dos alunos nos espaços do colégio permitida pelas atividades educativas que produzem sensações, estímulos, impressões e comportamentos por parte dos envolvidos, levando-os a uma determinada experiência espacial. Esse contato e essa vivência se constatam na comunicação entre o ser humano e o espaço, através do movimento corporal. Por exemplo, o que se espera que os alunos façam na biblioteca? Que eles promovam o hábito da leitura e o estudo sistemático daquilo que, na maioria das vezes, estão motivados a aprender. E, ao permanecer nesta, eles irão vivenciar e perceber tudo aquilo que compõe a mesma. Sucintamente, o que se pode fazer no espaço revela sua vivência nele. O sujeito dentro da escola e em ação nesta, poderá identificar sua dimensão, sua organização e suas características espaciais e ambientais, a disponibilidade dos objetos e recursos destinados à leitura e pesquisa, a relação entre todos os que a frequenta e, ao final, eles produzirão impressões acerca desta, através do seu conhecimento. Estas impressões serão mais ou menos conscientes em alguns momentos, alguns aspectos ambientais da escola são percebidos apenas quando se observa o comportamento humano. Então não basta analisar a estrutura (arquitetura) do Colégio; é preciso perceber, basicamente, quem ocupa esse espaço, de que forma é feita essa ocupação, o que se faz neste, quais as relações e comportamentos notáveis ao utilizá-lo. Isso significa falar sobre quais as relações que o espaço abriga e proporciona. 15 1.3 A (IN)DISCIPLINA NO ESPAÇO ESCOLAR Muitos professores se queixam da desobediência dos alunos em sala de aula, da falta de compromisso com as atividades, da falta de postura e de silêncio nas aulas, da bagunça, dos maus comportamentos e desrespeito, entre outros. Isso são sinais de indisciplina, mas antes é preciso entender o conceito de disciplina, pois a primeira seria a sua negação. Abordo este tema aqui, pois ele remete ao uso do espaço; restrições e permissões, destruição do patrimônio publico, descaso e mau uso são alguns fenômenos ligados a ele e às suas relações. A disciplina é vista como o uso de bons modos de comportamento que permitam a convivência harmônica. Mas se procurarmos os reais motivos pelos quais os alunos apreendem esse tipo de comportamento, verificaríamos que muitos se mostram disciplinados porque têm medo do castigo, ou se conformam em achar mais vantajoso ficar quieto a ter que conflitar com o professor. E Julio Groppa Aquino comenta em seu livro que: Para o filósofo, Kant, por exemplo, a disciplina é condição necessária para arrancar o homem de sua natureza selvagem. Não se trata, portanto, apenas de “bons modos”: trata-se de educar o homem para ser homem, redimi-lo de sua condição animal. Permanecer parado e quieto num banco escolar é, para Kant, necessário, não para possibilitar o bom funcionamento da escola, mas para ensinar a criança a controlar seus impulsos e afetos. (AQUINO, 1996, p.10). Então, Kant via a possibilidade de educar e “humanizar” o indivíduo se ele fosse quieto e pacífico, sendo reflexo do ensino tradicional. Kant foi um dos primeiros teóricos a formular e discutir a idéia de disciplina e a Escola surge dessa função: disciplinar os corpos. Entendo que a idéia de Kant pressume que a educação torna o homem mais humano e a disciplina tira a sua condição de “selvagem”, para alcançar a humanidade. Já Foucault (2008, p.118) dizia que “Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. 16 Comparando as duas idéias, vejo que no meio escolar, existe uma cultura em que os alunos precisam obedecer às regras impostas pela direção do colégio e pelo professor em sala, para que haja trabalho educativo. Mas nem sempre, essas normas surtem resultados na aprendizagem dos alunos, pois eles se tornam indisciplinados por não concordarem, muitas vezes, no que estar sendo proposto ou pela forma que são condicionados a ficarem: quietos, calados, sem opiniões ouvidas. Deve sim, estabelecer uma ordem, respeito e tolerância na sala, para que todos possam ser ouvidos e que haja discussão sobre o tema e a forma que ele pode ser trabalhado. Nem sempre o aluno quieto, calado dentro da sala consegue aprender algo, pois ele precisa dizer o que aprendeu dar sua opinião sobre o assunto explanado em sala, falar das suas dificuldades sobre a abordagem em questão, questionar as atividades propostas pelo professor, assim ele se torna autônomo nas suas decisões e se torna um ser livre e pensante. A indisciplina é um tema delicado para discutir, pois temos várias razões em considerar que um indivíduo cometeu atitudes indisciplinares na sala de aula. Pode ser pela perda de certos valores que conduzem a moral do indivíduo, ou por infringir as normas estabelecidas pelo grupo por não concordar com elas, entre outras. São justamente essas atitudes e comportamentos que são questionados no ambiente escolar. E o que acontece no interior do ambiente escolar também tem articulação com os movimentos exteriores a ele. Segundo Julio Groppa Aquino (1996, p.33) “a indisciplina apresenta-se como sintoma de relações descontínuas e conflitantes entre o espaço escolar e as outras instituições sociais.” Isso porque os alunos vêem de realidades diferentes, enfrentam problemas de todo o tipo. Essa é uma realidade de alunos, a exemplo do colégio José Barreto, muitos oriundos da periferia, marginalizados pela sociedade, tornando-se revoltados que não vêem perspectivas de dias melhores. São esses indivíduos que vão para sala de aula e, a depender de seu estado de humor, ficam intolerantes a qualquer atividade ou à ordem do professor. Isso acaba ocasionando conflitos em sala de aula, precisando a direção intervir com punições. Esse é um dos perfis de alunos indisciplinados que, a depender de sua faixa etária, de 17 sua atitude, de seu comportamento e vivência exigem punições cabíveis. Para Michael Foucault: [...] as medidas punitivas não são simplesmente mecanismos “negativos” que permitem reprimir, impedir, excluir, suprimir; mas que elas estão ligadas a toda uma série de efeitos positivos e úteis que elas têm por encargo sustentar (e nesse sentido, se os castigos legais são feitos para sancionar as infrações, pode-se dizer que a definição das infrações e sua repressão são feitas em compensação para manter os mecanismos punitivos e suas funções. (FOUCAULT, 2008, p.25). Em certos momentos as punições são recursos previstos e inevitáveis para conter atos de desobediência e vandalismo, fatos estes, que ocorrem no colégio estudado. Isso prevê uma correção às infrações cometidas, no desejo que elas não ocorram mais. Essas punições, atualmente, no ambiente escolar, são sutis e muitas vezes eficazes para o fim a que se destina, qual seja, o de apenas controlar e minimizar vandalismos na escola. Não há castigos nem o uso da violência e sim uma conversa séria e rígida que se utiliza de recursos que mexem com o psicológico do aluno. Por exemplo, o aluno que agrediu o colega, será suspenso, deixará de assistir as aulas durante certos dias e só voltará na presença dos pais. E antes disso o vice-diretor tem uma conversa séria com ele ameaçando expulsá-lo se isso acontecer novamente. Diante dessa “ameaça”, ele se sente coagido e para evitar a expulsão e o julgamento negativo do “outro”, procura não cometer mais essa infração. Nesse caso, ele se mostrou um indivíduo que reconheceu o erro, pois por um lado, não ignorou e nem desprezou o juízo do outro (o vice-diretor) e, por outro, considera condenável sua atitude, esta, condenável pela moral. Mas há casos que nem toda disciplina é moral, pois ficar sentado, quieto e atendo às aulas do professor não traduz a moral e nem toda indisciplina é condenável moralmente, pois o aluno que é humilhado e injustiçado se sentirá no direito de se revoltar contra o agressor. E, também, nem sempre o aluno que segue as normas disciplinares da escola tem em mente as virtudes; muitas vezes, é pelo medo do castigo ou por achar mais vantajoso não enfrentar o professor. Então, antes de condenar certos 18 atos como indisciplinados, temos que conhecer a razão de ser das normas e dos comportamentos esperados. O professor tem uma grande e difícil tarefa que é resgatar e reconhecer as diferentes raízes morais da moral dos discentes, através da sua proposta de trabalho fundamentada no conhecimento, pois através deste irá resgatar noções das regras, de semelhanças e diferenças, irá proporcionar a regulação das ações e operações humanas, norteando para o comportamento moral. Isso porque se o aluno é estimulado a pensar, a produzir seu próprio conhecimento, irá, consequentemente, transformar as suas inquietações e desobediências, segundo Augustin Escolano (1996, p.36) “em ciência”, ou seja, em conhecimento, buscando respostas para os questionamentos e às dúvidas. Escolano (1996, p.37) propõe a “nova ordem pedagógica” que é convocar e instigar os alunos à descoberta, a ultrapassarem o óbvio, a buscar respostas para os problemas. No ensino tradicional, a disciplina era vista como obediência, resignação, mas nos tempos atuais, deveria significar movimento, vontade de ultrapassar barreiras, de questionar sobre algo, tornando-se, segundo Julio Groppa Aquino (1996, p.38) “vetor de rebeldia para consigo mesmo e de estranhamento para com o mundo – qualidades fundamentais do trabalho humano de conhecer.” E o diálogo entre o professor e o aluno é fundamental porque o educador precisa entrar em negociação com os discentes a respeito de suas estratégias de ensino, das formulações e aplicações das avaliações, dos objetivos e dos conteúdos preconizados, preocupando-se com seu desempenho futuramente e com sua aprendizagem. 1.4 A INCLUSÃO E A EXCLUSÃO NOS ESPAÇOS DA ESCOLA Além de moldar comportamentos e de proporcionar um ambiente favorável à realização das atividades e das relações, os espaços escolares podem ser considerados aglutinadores, em termos sociais, sendo mais visíveis os que costumam reunir as pessoas; ou desagregadores, em termos sociais, aqueles que tendem a afastar as pessoas. Mas essas últimas denominações vão depender do constructo em 19 que elas são utilizadas, pois nem sempre o que é aglutinador numa cultura será do mesmo modo em outra. Em relação às atividades da escola estas têm o seu valor, seu significado e quem as produz pode criar situações que gerem inclusão ou exclusão, ressaltando-se que muitas vezes não são explícitas, mas transmitidas pela escola, naquilo que compõe o chamado currículo oculto; o qual é constituído por todos aqueles aspectos que não fazem parte do currículo oficial, mas que contribuem para aprendizagens sociais relevantes. Por exemplo, no colégio analisado, existe uma biblioteca; nesta acontecem atividades destinadas basicamente à leitura e pesquisa. Para serem realizadas é preciso objetos que lhe dêem todo suporte, que são basicamente, dentre outros, os livros, revistas e jornais. Assim, os alunos podem ocupar e utilizar o espaço a depender das suas necessidades, que são atendidas na biblioteca. Seja uma leitura silenciosa, seja para pesquisar sobre algum tema ou simplesmente ler sobre as notícias do dia. Isso evidencia a relação entre o espaço físico que, neste caso, foi projetado, voltado para as atividades educativas e os alunos que frequentam esse espaço, porque as atividades que ocorrem neste suprem as suas necessidades ou os induzem a permanecerem nesse espaço, espontaneamente ou não. Consequentemente ocorrem às relações interpessoais e pedagógicas entre os envolvidos. Isso porque muitas vezes, como no caso desse estudo, o indivíduo é obrigado ou proibido de permanecer, ou até mesmo, de transitar por um determinado espaço da escola, refletindo assim, sinais de exclusão, neste caso, praticado pela direção da escola aos alunos. Já inclusão é um desafio que implica mudar a escola como um todo; no projeto pedagógico, na postura diante dos alunos, dentre outras. O intuito é valorizar as particularidades de cada aluno, atender a todos na escola e incorporar a diversidade, pois o interessante é que se inclua pela diferença. Ao conhecer e respeitar as diferenças sociais, étnicas, físicas, sexuais, religiosas e intelectuais do outro e tirar proveito positivamente delas, o aluno estará contribuindo para sua aprendizagem. Isso porque, a partir do momento em que conhece e lida com as diferenças, desconstrói a idéia preconceituosa sobre os fatos e aceita o outro com suas particularidades, as quais fazem parte do nosso cotidiano, das suas vivências e dos 20 espaços que frequenta e dos quais se apropria, sendo protagonistas também dessa ação humana. O ato de incluir dá idéia de aprendizado. Ser inclusivo é aprender a viver com o outro, é a participação das pessoas (da família, da comunidade, dos órgãos públicos, do governo) em uma nova e rica proposta educacional que celebre a diversidade e as diferenças. Mas, infelizmente, nem todos estão preparados para lidar com as diferenças, e, desde sempre, as desigualdades sociais foram manifestadas de diferentes tipos de exclusão, em diferentes segmentos sociais, seja no lar ou na escola. No ambiente escolar, é comum a exclusão, seja entre professores e alunos, entre alunos e alunos, entre professores e professores, entre professores e funcionários, etc. A inclusão pode ser notada nas instalações do colégio, em relação às adaptações no edifício, previstas pelo Plano Nacional de Educação para a educação no ensino fundamental, estabelecendo que isso acontecesse gradativamente, num prazo de cinco anos, obedecendo às normas técnicas ABNT (NBR 9050/94) sobre os requisitos básicos de acessibilidade em edificações públicas, espaços e equipamentos urbanos. O Colégio já foi projetado prevendo adaptações rumo ao desenho universal, como a utilização de rampas, sanitários para deficientes físicos, sinalizações pelo colégio, as circulações largas, o dimensionamento das aberturas dos espaços adequadas, entre outras. A educação como direito de todos e obrigação do Estado, deve ser ofertada de modo a atender toda a população infanto-juvenil que se encontra em condições de freqüentá-la, ou seja, a educação deve contemplar toda a clientela que necessitar, incluindo assim os portadores de deficiência. Como decorrência deste princípio, há necessidade, por parte do poder público, de garantir recursos humanos e físicos para atender a toda esta demanda. (PNE, 2006, p. 1-2). 21 Existe a necessidade de realizar diagnósticos das condições de acessibilidade nas edificações escolares. Para isso, o diretor tem o papel de identificar as necessidades de reformas e manutenção de escola, definir as prioridades e fazer o encaminhamento do pedido de verbas aos órgãos competentes, usando da sua autonomia como gestor, desde que não contrarie os princípios da administração central. 1.5 A ESCOLA E O CURRÍCULO Existem muitos tipos de currículo e aqui destaco dois tipos; um conhecido como currículo oficial ou formal que é o oferecido pela escola, estruturado, basicamente, pela relação de conteúdos e atividades correspondentes a cada disciplina ensinada em determinado grau de ensino; pela carga horária dos professores; pela quantidade de disciplinas divididas em cada série e seu tempo de duração, divididas comumente em dias e semanas; pelas normas relativas às instituições de ensino. Outro em construção ou oculto, àquele que reúne as experiências de vida dos alunos nos diferentes espaços, contendo significados e valores que foram construídos, através do convívio e da ação do indivíduo na sociedade, tornando-se aprendizagens significativas. Ambos, o aluno aprende no currículo oculto são os comportamentos, as atitudes, as normas, valores e orientações que se ajustam às estruturas da sociedade. O currículo tem significados que vão muito além daqueles aos quais as teorias tradicionais nos confinaram. O currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forma nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade. (SILVA, 2003, p. 150). O currículo é um instrumento para o professor, pois o ajuda na prática pedagógica, que deve fortalecer o processo de ensino e aprendizagem. Isso porque ele elabora estratégias de ensino para abordar os conteúdos, já selecionados, propostos pela disciplina, os chamados métodos de ensino e formule avaliações que estimulem o desenvolvimento cognitivo do aluno. Portanto, um dos papéis do docente é direcionar e 22 comandar o processo de ensino e aprendizagem, e, se for preciso, modificando o próprio currículo de acordo com as aptidões, os interesses e as características culturais dos alunos; essas são questões propostas para acontecer no ambiente escolar. Nota-se que a escola é um espaço de aprendizagens possibilitadas através das relações sociais estabelecidas pelos envolvidos e dirigidas a eles. Essas relações são representativas para os alunos, refletindo valores essenciais para o desenvolvimento cognitivo, para as habilidades e para a formação da sua identidade. A depender de como a escola está planejada e organizada, as atividades podem ser limitadas ou possibilitadas para eles, isso se realmente forem realizadas ou não, refletindo-se assim no currículo oculto dos mesmos. Os espaços educativos estão dotados de significados e transmitem uma importante quantidade de estímulos, conteúdos e valores do chamado currículo oculto, ao mesmo tempo, em que impõem suas leis como organizações disciplinares. (ESCOLANO, 2001, p.27). É currículo oculto é importante, pois ele está implícito no cotidiano escolar. Ele expressa as atitudes, os comportamentos e os valores que fazem parte da vida dos alunos internamente e externamente ao ambiente escolar, são aprendizagens sociais relevantes. Imaginemos um aluno que, depois de muito tempo, retorna a escola que estudou na sua infância e verificou que houve mudanças na sua estrutura construtiva e começa a recordar aqueles espaços e o que se fazia antes neles, identificando que lugares de hoje, com certas diferenças, contemplava o mesmo cenário de sua infância, e os lugares que observava correspondiam aos seus primeiros esquemas perceptivos. Segundo Augustin Escolano, (2001, p.23) “A escola havia sido, para ele, uma experiência decisiva na sua aprendizagem das primeiras estruturas espaciais e na formação de seu próprio esquema corporal”. Essa formação dos primeiros esquemas cognitivos e motores no indivíduo tornam-se um elemento significativo do currículo, pois é fonte de vivência e aprendizagem. Para Agustin Escolano, (2001, p.27) “Os espaços educativos, como lugares que abrigam a liturgia acadêmica, estão dotados de significados que transmitem uma importante quantidade de estímulos, conteúdos e valores do chamado currículo oculto [...]”. O currículo escolar é o conjunto das vivências do aluno dentro e fora da 23 escola, seu cotidiano, suas experiências de vida, suas relações sociais compartilhadas e acumuladas ao longo dos anos, as quais contribuem para sua formação intelectual e pessoal, e que não estão escritos ou legalmente instituídos, mas têm força dentro do contexto. O currículo escolar, nas sociedades, é ajustado às suas estruturas, e por esse motivo, é considerado como um processo de socialização. Em, outras palavras, condicionado aos ideais da sociedade capitalista de produção e consumo, com a idéia de sair da escola, completar os anos escolares e se inserir no mercado de trabalho; isso vale para os indivíduos das classes menos favorecidas. Célia Dórea afirma em seu artigo, que, segundo Anísio Teixeira, sem instalações adequadas não poderia haver trabalho educativo; assim o prédio, estrutura física e preliminar para qualquer programa educacional, torna-se indispensável para as práticas e planos de ensino propriamente ditos. (DÓREA, 2000, p.151). Como exemplo, o relato de A.L., que comentarei no próximo capítulo, que expôs suas sensações, suas angústias, suas dificuldades e superações durante o período que marcou sua vida, sobretudo escolar. Isso traduz uma formação negativa, no sentido da falta de infra-estrutura da escola, que era mal adaptada para seu uso, pois não atendia às necessidades básicas do aluno, como: saneamento básico, tornando-se experiências vividas. Momentos ruins ou, pelo menos, desconfortáveis, nessa escola; só de imaginar que as crianças, para fazerem suas necessidades fisiológicas tinham que sair da casa e ir para “dentro dos matos” isso incomoda e reflete o descaso total das autoridades da região com a educação básica. Foi essa impressão que ela teve da escola e desse período escolar, em que sobressaíram as dificuldades dos alunos e os serviços básicos, mas que são de direito de maneira eficaz e de qualidade que é a educação e as instalações para o ensino, ficando registrado em sua memória. 24 2.0 PERCURSOS METODOLÓGICOS Este capítulo é destinado a descrever, discutir e analisar as cenas de alguns espaços do Colégio, as quais demonstram que as atividades e as relações interpessoais e pedagógicas são reveladas através das atitudes, discursos e comportamentos de cada um. E o escolhido, já citado, foi o Colégio Estadual Professor José Barreto de Araújo Bastos, localizado em São Caetano, Salvador/BA. O trabalho tem como objeto de estudo a educação e está vinculado à área de ciências humanas e Sociais, e tem como foco a concepção do espaço escolar e sua importância para as relações interpessoais e pedagógicas entre alunos, professores e funcionários O objeto central da pesquisa é o espaço escolar, observando algumas classes de alunos e os protagonistas que destaco nas cenas são os alunos das 5ª séries A, C e D. Identifiquei algumas atividades que, por enquanto, estão apenas disponíveis para eles, as quais acontecem no turno oposto de suas aulas; e, por passarem maior tempo na escola, mais do que os outros alunos, se relacionam mais com e nos ambientes do colégio. Estas atividades são chamadas de oficinas; são atividades extracurriculares e complementares que pretendem desenvolver no aluno a coordenação motora, o raciocínio lógico, habilidades na leitura e na escrita, a expressão corporal, a arte de representar e estimular a produção do conhecimento. Atividades que compõem o currículo da escola e trazem para eles diversão, interação com o grupo, conhecimento de si e do que são capazes de fazer que eles internalizem e aprendam. Algumas foram criadas pelo Governo Federal, no projeto chamado “Mais Educação” e outras criadas por professores que serão comentadas no decorrer deste capítulo. Atividades lúdicas, de dança, teatro, capoeira, karaté, xadrez e literatura que, basicamente, promovem o convívio do indivíduo com o grupo, tornandose importantes para sua a formação pessoal. Esse tema foi escolhido, depois de muitas leituras que enfatizam a relevância do espaço escolar para o aluno. Ele está incutido no currículo oculto e, o mais importante; possibilita, ou não, que o sujeito se relacione com outros indivíduos, dependendo das atividades que lhe são proporcionadas. A pergunta de partida, já enunciada na 25 introdução, aborda: qual a importância do espaço escolar para as relações interpessoais e pedagógicas entre alunos da 5ª série, professores e funcionários do colégio Estadual Professor José Barreto de Araújo Bastos? Depois do tema escolhido e da delimitação e formulação do problema, passei ao objetivo geral, qual seja, o de refletir sobre a importância do espaço escolar para as relações interpessoais entre os alunos da 5ª série, professores e funcionários do Colégio José Barreto de A. Bastos. Os objetivos específicos foram: 1- Analisar o espaço escolar: a) com base na estrutura arquitetônica; b) no conforto ambiental dos ambientes; c) na observação da forma com que os alunos utilizam e ocupam os espaços (se eles freqüentam ou não, se destroem ou conservam as instalações do colégio, quais as atividades que eles realizam que possibilitam o uso dos espaços), d) na observação dos acessos a estes e sua funcionalidade em relação ao pretendido explicito; e) na identificação das características e adequação do mobiliário escolar que os compõem e sua conservação por parte dos alunos. Além disso, 2 - na caracterização da organização espacial do colégio; 3 - na observação das relações que acontecem entre os alunos da 5ª série, professores e funcionários no cotidiano escolar e 4 Destacar as atividades desenvolvidas nos espaços e sua procedência. Nesse processo, realizei 17 visitas ao colégio, nos dias: 27/04 e 28/04; 03/05, 07/05, 10/05, 14/05, 17/05, 18/05, 21/05, 24/05, 25/05, 28/05, 02/06, 07/06, 11/06, 14/06 e 17/06; alternados, entre manhã e tarde. Nessas visitas fiz registros fotográficos e escritos de testemunhos. O último, primeiramente, foi com duas turmas de alunos do primeiro ano do ensino médio, em média de 30 alunos por turma, com idades entre 16 a 22 anos. Ainda não tinha estabelecido contato com os alunos da 5ª série. Mas foquei as entrevistas em seis alunos da 5ª série, das turmas A, C e D, de 10 a 13 anos, particularidades da escolha dos sujeitos questionados; professores e funcionários, elaborando questionários. Por fim, coloquei as respostas deles que tiveram a ver com os espaços escolhidos para o estudo. 26 2.1 PRIMEIRAS INCURSÕES Primeiro fiz o contato com a vice-diretora da tarde A.S, no dia 27 de abril, falei sobre a possibilidade de realizar a minha pesquisa no colégio; e ela autorizou. Já no dia seguinte, pela manhã, às 07h30min, comecei a fotografar os espaços e a perceber a chegada dos alunos ao colégio e a sua disposição no e pelos espaços. O mesmo aconteceu no dia 03/05. Além disso, conversei com duas funcionárias R.C. e B.F. que ficam no corredor, que dá acesso às salas de aula, sobre o assunto e me falaram um pouco dos alunos e do colégio. Ainda estava inquieta, pois não tinha escolhido a turma de alunos para entrevistar e estudar. E foi assim, que no dia 07/05, minha mãe, J.K, me levou até uma das salas em que acontecia a aula de artes, da professora A.C e me apresentou a ela. Falei do propósito da minha visita e, consequentemente, expliquei o meu tema de pesquisa e lhe pedi para assistir a aula. Era uma turma de primeiro ano que estava apresentando seminário sobre arte impressionista. A professora parou a aula para me apresentar ao grupo, falou do intuito da minha visita e me passou a palavra. Comecei a falar com eles sobre o tema da pesquisa e fiz perguntas sobre os espaços da escola, tais como: o que eles achavam dos espaços da escola, quais eles mais frequentavam, sobre os acessos, a limitação a algum deles, entre outros. Eles foram bem receptivos e responderam todas as perguntas, revelando suas opiniões, suas idéias, seus sentimentos e suas impressões sobre a escola. Já no dia 10/05 fui à escola pela manhã e fiquei sabendo das oficinas, já mencionadas, para alunos da 5ª série e o que me incomodou foi saber que eram “apenas” para eles; por que disso? Foi assim que a coordenadora das oficinas, professora L.P. me disse que, por enquanto, só está disponível para eles, mas que no próximo ano estenderá às demais séries. Diante disso, decidi direcionar a pesquisa para os alunos da 5ª série, porque com essas oficinas eles passam maior parte do tempo no colégio do que os outros alunos, já que as oficinas acontecem em período oposto ao das aulas. 27 A partir do dia 14/05 comecei a tirar mais fotos em períodos distintos; de manhã e a tarde, para verificar as diferenças das utilizações dos espaços focados. No dia 17/05 comecei a elaborar o questionário da pesquisa, finalizando com a professora Isa Trigo no dia 21 de maio, para aplicá-lo no dia 24/05 com os alunos. Antes disso, no dia 21/05 fui até a biblioteca, pela manhã, para conversar com a bibliotecária A.P. A conversa foi bastante proveitosa: ela me revelou informações importantes para o trabalho como a respeito do funcionamento, as normas e as instalações da biblioteca, o perfil dos alunos que a frequenta, opiniões sobre os espaços do colégio, relatos de vida e sua relação com os alunos. Chegando no dia 24/05, pela manhã, tirei mais fotos dos espaços e assisti à primeira aula de dança, ministrada pela aluna da UNEB, do primeiro semestre, do noturno, estagiária do projeto “Mais Educação”, C. No mesmo dia, estive também com o professor de teatro, J., que também é estagiário do Programa Mais Educação; que dá aula de teatro como hobby. Os dois se juntaram para darem aulas na sala de dança, para ensaiar com os meninos a apresentação da quadrilha junina para o dia do encerramento das atividades; 17/06. Ao final da aula, na saída, chamei um grupo de quatro alunos e falei do meu tema; sendo auxiliar dos professores da oficina, solicitei a eles que me respondessem a um questionário sobre os espaços da escola. Eles aceitaram em fazer a entrevista; com isso fomos até a biblioteca, pois era um dos lugares mais tranquilos para conversar, naquele momento, pois estava no horário do intervalo. Foram duas meninas, L. e H. e dois meninos; E. e A., todos da 5ª A e com 12 anos. Eles responderam todas as perguntas (ver apêndices), demonstraram suas impressões e sentimentos que tem da escola, seus encantos e desencantos sobre o que enfrentam na mesma. No dia 25/05 observei os espaços e os alunos, além de entrevistar a vice-diretora da manhã J.M. No dia 28/05 realizei mais entrevistas, agora, com duas alunas da 5ª D; E. e C., ambas com 10 anos e uma da 5ª D, L. com 13 anos. Depois comecei a relatar sobre a minha primeira impressão como pesquisadora, ou seja, como sujeito atuante, 28 consciente e participante das percepções e das ações e experiências dos indivíduos da pesquisa, procurando compreender a significação social por eles atribuída ao ambiente escolar e aos atos e comportamentos que realizam nesse ambiente, a partir das análises das respostas aos questionários e às observações. No dia 02/06, no colégio, encontrei E. e L., que me deram um forte abraço e ficaram no pátio comigo, sentadas conversando. E em conversa eu perguntei a elas se estavam gostando das oficinas e E., me respondeu: “Sim, eu gosto de ficar aqui na escola, porque de manhã eu tenho oficina, meio-dia eu almoço; descanso e de tarde eu tenho aula”. Já L. falou: “Sim! A gente não se preocupa em se sujar, porque aqui tem chuveiro e quando a gente termina a oficina, antes de almoçar, a gente toma banho.” Nos dias 07 e 11/06 visitei o colégio pela tarde e reencontrei os meninos que participaram das entrevistas, me abraçaram e conversaram um pouco comigo das atividades que estavam fazendo. No dia 14/06, pela manhã, assistir a aula de xadrez com a professora regente, formada em educação física, I.M. que me explicou sobre o que foi ensinado nas aulas e que foi ela quem criou essa oficina na escola, porque gosta da atividade e achou bem interessante aplicar com os alunos. E por fim, no dia 17/06 foi à realização da festa junina do colégio, tanto de manhã quanto a tarde; e nesse dia fiquei apenas observando a organização da festa, ajudando na distribuição da merenda (com comidas típicas) na cozinha e tirando fotos da confraternização entre professores, alunos e funcionários que teve direito a música ao vivo, sendo esta realizada no refeitório; mais uma vez esse espaço sendo palco e proporcionando as relações. Com as visitas pude participar das cenas com os alunos para conhecê-los e perceber, observar e registrar o que acontecia no espaço. Utilizei “cenas”, porque se referem às situações em cada espaço que aconteceram no decorrer do período; buscava observar como os espaços da escola promovem as relações; escolhi locais estratégicos dentro do colégio que fossem relevantes a observação dos fatos e a 29 constatação do problema. Locais que eu percebi a frequência e a utilização pelos alunos, professores e funcionários, sendo estes, basicamente, o refeitório, o pátio, a biblioteca, as salas de aula, o auditório e a sala de dança, claro que em situações diferentes. Com as perguntas, eu coletei explicações e informações sobre comportamentos, opiniões sobre os ambientes da escola, sobre as atividades educativas, o convívio entre os envolvidos nesses ambientes, as relações que se constroem durante as atividades, as impressões que se têm do espaço, o nível de satisfação dos alunos em estar nos ambientes, a sua permanência nestes; e quais as características negativas e positivas que vivenciam nos espaços. E como foi isso? Eu me aproximei deles, ganhei a sua confiança, estimulando neles a curiosidade em realizar uma entrevista, de sentar e conversar sobre sua escola, lugar de aprendizagens. E o meu intuito era verificar se a escola atendia, em termos de espaço, a realização das relações estudadas, identificadas também nas atividades extracurriculares. Deixei claro a eles que precisava realizar a entrevista com quem realmente frenquentava as oficinas, conhecendo o perfil desse aluno e seu desempenho nas atividades, sendo um dos artifícios que eu usei para ganhar ainda mais a confiança deles. Eu entrevistei alunos da 5º série a respeito dos espaços do colégio e fiz uma associação do que eu percebi, nestes, com os depoimentos dos alunos, constatando assim nas questões já levantadas. Junto às entrevistas analisadas, foquei o estudo nos espaços separadamente, ou seja, por setores, pois, segundo Agustin Escolano (2001, p.28) “as pessoas e os objetos se relacionam precisamente através de sua separação no e pelo espaço.” Para isso a seleção todo material coletado, organizando-o conforme o grau de relevância para o tema. A partir daí comecei a descrever tudo que aconteceu em determinados espaços, caracterizando-os, sendo associados às imagens para melhor compreensão e visualização dos mesmos. 30 2.2 A INSTITUIÇÃO O Colégio Estadual Professor José Barreto de Araújo Bastos está localizado na Rua do Bambuí, s/n, São Caetano, Salvador/BA. Este foi inaugurado no dia 24 de Agosto de 2004 pelo então Governador César Borges, acompanhado pelo então Secretário da Educação Eraldo Tinoco e pelo ex-presidente do Congresso Nacional, na época, Antônio Carlos Magalhães. (ver localização do colégio nos mapas 01, 02 e 03). 31 32 33 34 O mapa 02, p.32, mostra a proximidade do colégio com a Estação Pirajá e com o Final de Linha de São Caetano, atendendo à comunidade do bairro e de bairros vizinhos como: Marechal Rondon, Pirajá, Castelo Branco, Calabetão, Fazenda Grande do Retiro, entre outros; próxima a este também fica a BR-324. A via principal que dá acesso ao colégio é denominada Rua do Bambuí que dá acesso ao final de linha do São Caetano. Esta via é de mão única, com cinco empresas de ônibus que rodam no bairro que atende a demanda da população em termo de transporte coletivo. A Ronda escolar também se faz presente na redondeza para garantir a segurança de todos. (ver foto 33). Foto 33 – Planta de localização do Colégio José Barreto, Fonte: Google Earth. Data: 28/04/2010 No mapa 03, p.33, temos uma vista aérea do Colégio, mostrando a dimensão da edificação no terreno e das construções vizinhas, constituídas em sua maioria por residências, mostrando o entorno da escola e também destacando os principais espaços do colégio. A existência do colégio se deu devido ao fechamento de outra escola, particular, em São Caetano, denominada Cônsul S. S. Schindler que tinha convênio com o Estado 35 e a Prefeitura de Salvador e atendia alunos da pré-escola ao ensino fundamental II. Com a extinção desta, os alunos tiveram que ser alocados em escolas estaduais e municipais do bairro. Uma parte dos alunos do fundamental I foi para a Escola Barbosa Rodrigues e os do ensino fundamental II para a Escola Moura Bastos, ambas, localizadas no São Caetano. Para suprir a demanda dos alunos do bairro e de localidades vizinhas, foi pensada a construção de um colégio que atendesse além o ensino fundamental I e o II, também o ensino médio. Foi assim que em 2002 começou a primeira instalação do colégio, de caráter provisório, sendo denominada “escola de papelão”, pois a sua estrutura física não era em alvenaria e sim, em Eucatex. Finalmente em 2004 o Colégio foi inaugurado, denominado Colégio Estadual Professor José Barreto de Araújo Bastos, projetado pelo arquiteto Eduardo Brandão. (ver foto 34). Foto 34 – Entrada do Colégio, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Já a foto 35 corresponde à fachada principal do colégio, marcada por traços horizontais; que é uma das características da arquitetura moderna do século XX. Este foi construído com novos materiais, como o concreto armado, edificação com formas geométricas simples, sem ornamentação e com grandes aberturas envidraçadas. Segundo Edward Hall, “O uso do termo fachada é por si mesmo revelador. Ele indica o reconhecimento de níveis a serem penetrados e sugere as funções desempenhadas 36 pelas características arquitetônicas que fornecem proteção, atrás das quais as pessoas podem se recolher de quando em quando.” (HALL, 2005, p.131). Foto 35 – Fachada principal do Colégio, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 A fachada do edifício revela sua funcionalidade, pois se diferencia uma arquitetura escolar de uma religiosa, de uma militar, entre outras. Isso porque possui elementos simbólicos que estão em destaque na fachada que a caracteriza. No caso da escola, o seu nome, em letras grandes, fica na entrada principal a edificação. A entrada é controlada pela guarita, munida de muros ou grades altas. A fachada do colégio, imponente, com eixos simétricos, com aberturas e varandados que possibilitam a contemplação da paisagem e de edificações vizinhas. A partir da observação dos espaços, identifiquei as atividades educativas e as relações interpessoais e pedagógicas acontecendo no mesmo. Sendo assim, levo em consideração todo significado que o espaço pode carregar consigo e influenciar na formação pessoal dos alunos. Antes da implantação da escola, o terreno baldio era utilizado como campo de futebol e para reunião de marginais. A vizinhança temia pelo que eles pudessem fazer a seus familiares e as suas residências, praticando assaltos, invasões domiciliares, enfim, 37 com uso da violência. Isso porque o São Caetano é um bairro popular que enfrenta os problemas sociais de desigualdades, drogas, violência e criminalidade. Minha mãe é quem ficava sabendo desses relatos e como morávamos próximo a escola, na década de 80, ela também presenciava assaltos no local, até hoje, indo para o colégio. Depois de inaugurada, a escola mudou a rotina nesse lugar; isso se deve à oferta e a realização de atividades educativas e sociais que acontecem no local, em prol da melhoria da qualidade de vida dos que frequentam. A edificação do colégio contribui para a organização do espaço urbano, possuindo características que revelam a sua funcionalidade, bastante representativa para o bairro. Atualmente o colégio tornou-se um ponto de referência para o bairro de São Caetano pela sua horizontalidade, pela simétrica e formas geométricas regulares, bem como pela importância educacional que tem ao atender este grande numero de alunos. (ver foto 36). Foto 36 – Vista da varanda de uma das salas de aula, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Na atual administração encontra-se o Pedagogo e diretor, G.B, com mais de dez anos de formação acadêmica; está no comando da escola há mais de quatro anos. Segundo ele, o Colégio é de porte especial, pois atende cerca de 1.679 alunos, funcionando os três turnos, possuindo auditório, biblioteca, laboratório de ciências e de informática. Dispõe de 18 salas de aula, nove no 1º andar e nove no 2º andar, além das 38 salas de dança, de artes, com 59 professores formados em áreas específicas do conhecimento, todos, com graduação e alguns com pós-graduação. Além disso, os ambientes são mantidos limpos, exigência do diretor, pois reflete um espaço higienizado, ventilado e iluminado. A escola é composta por pavimentos que se dividem em setores (A, B e C). O primeiro pavimento constitui-se por esses três setores; o setor “A” refere-se à guarita, o Estacionamento o auditório e a biblioteca; o setor “B” a área administrativa que engloba as circulações (corredores), Área da Escada, Secretaria, Mecanografia, Coordenação, Sala para guardar Equipamentos Eletrônicos e Áudios-visuais, Almoxarifado, Vice Diretoria, Diretoria, Sanitários dos professores e dos funcionários, Copa, Sala dos professores, Arquivo, Laboratório de Ciências, Cozinha, Cantina; e o setor “C” corresponde aos Sanitários para os alunos, Refeitório, Vestiários, Depósito de Material de Limpeza (DML), Área da Rampa, Quadra Poliesportiva e o Estar dos porteiros. Já o segundo e terceiro pavimentos possui a mesma divisão de setores que é: no setor “B” ficam: A área da escada, circulações, as salas de aula. Já o setor “C” corresponde a área das rampas, sanitários e mais salas. A última sala, que fica no final do corredor, no segundo pavimento corresponde à sala de dança e no terceiro pavimento ao laboratório de informática. (ver mapas 04, 05, 06, 07, 08, 09 e 10). 39 40 41 42 43 44 45 46 TABELA 1 – Equipamentos da Escola: Lousa Ar condicionado Computador Retroprojetor Televisão DVD Duplicadora Impressora Equipamentos para o Aparelho de som Laboratório de Ciências Data-show Xerox Fax Vídeo Todos os equipamentos estão funcionando. O retroprojetor, o data-show, vídeo, DVD e o aparelho de som ficam guardados numa sala, próxima a coordenação (foto 127) e toda vez que o professor precisa utilizá-los procura a vice-diretora ou a secretária para abrir a sala e pegá-los. A duplicadora e a Xerox ficam na mecanografia a serviço interno da administração, como provas e documentos. Os equipamentos para o laboratório de ciências ficam no próprio laboratório, com portas fechadas, só são abertas quando tem aula. Fax, impressora, televisão, ar condicionado e computador são distribuídos nos espaços administrativos do colégio e a lousa e televisão nas salas de aula. Foto 127 – Sala que guarda os equipamentos eletrônicos, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 47 O colégio funciona com as seguintes modalidades de ensino: Turno matutino: Ensino Médio; são sete turmas de 1º ano; quatro turmas de 2º ano e três turmas de 3º ano. Turno vespertino: Ensino Fundamental II são cinco turmas de 5ª série; três turmas de 6ª série; três turmas de 7ª série; uma turma de 8ª série. Já o Ensino Médio é uma turma de 1º ano; uma turma de 2º ano e uma turma de 3º ano. Turno Noturno: Ensino Médio são seis turmas de 1º ano; quatro turmas de 2º ano e quatro turmas de 3º ano. OBS: Todas as turmas em média com trinta alunos matriculados 48 3.0 ANÁLISE DOS ESPAÇOS DO COLÉGIO ESTADUAL PROFESSOR JOSÉ BARRETO DE A. BASTOS 3.1 CENAS QUE ME CHAMARAM ATENÇÃO A partir daqui, passo a descrever, em formato de quadros que denomino de cenas, os eventos e espaços que observei. Divido-os em cenas de pátio, cenas da sala de aula, do pátio, da biblioteca, da sala de dança e do refeitório, porque observei as relações pedagógicas e as relações interpessoais sendo propostas e realizadas. A seguir, relato e analiso essas cenas; associadas às estas, as entrevistas que realizei com alunos da 5ª série, como também as conversas que tive com alunos do primeiro ano, professores e funcionários do colégio. 3.1.1 Cenas da sala de aula O Colégio José Barreto, para muitos alunos, é maravilhoso. Isso porque quem está acostumado a utilizar espaços pequenos, sem comodidade, sem instalações adequadas, ao se deparar com um ambiente escolar confortável, espaçoso, com atividades interessantes, com recursos audiovisuais, atendendo as suas necessidades; se sente privilegiado. Isso eu constatei nas entrevistas com os alunos da 5ª série, que foi o foco da pesquisa. Uma das perguntas que fiz a eles, do questionário foi: Quais os espaços que sua escola tem? Para que servem? Um dos espaços que a aluna H., 12anos, da 5ª A considera importante é o da sala de aula: “serve para aprender, a gente não seria nada sem a sala de aula, a gente não iria saber nada”. Do jeito que ela falou, com gestos e entonações, reflete sua satisfação com a sala de aula e o mais importante, o reconhecimento desta, como espaço de transmissão dos conteúdos essenciais para sua formação pessoal. Ela revela ser um sujeito sensível que consegue perceber e qualificar o espaço, neste caso, a sala de aula, enquanto ambiente de aprendizado. Mas este precisa estar acessível a todos, a qualquer momento, pois é um dos espaços destinados aos conteúdos pedagógicos que o qualifica. Este espaço também deve ser analisado na perspectiva espacial, em relação aos aspectos de iluminação, ventilação, disposição do 49 mobiliário escolar, da conservação, da acústica e do dimensionamento, pois também o qualifica. Com base nisso, trago o relato do aluno E., 12 anos da 5ª A que discorda de H.: “ah! toda vez tem que buscar cadeira em outra sala, não gosto”. - “as portas estão quebradas, quadro riscado, fechadura quebrada”. Essa insatisfação de E. foi motivada pela atitude de alguns de seus colegas que quebraram as carteiras e com isso, as funcionárias da limpeza tiveram que retirá-las das salas. Mas até o momento não foram substituídas, forçando atitudes como a de E. de ter que buscar carteira em outra sala. E quando essa outra sala está em aula, onde pegar essas carteiras? Geralmente, nem todas as salas têm aula ao mesmo tempo por isso, é possível que os alunos possam utilizar as carteiras das salas vazias. Mas isso causa um desconforto para eles; e o que fazer diante dessa atitude de vandalismo de alguns alunos, que segundo E. “são os maiores”, ou seja, alunos do ensino médio? Eu perguntei aos entrevistados se eles já presenciaram esses alunos realizando atos de vandalismo e eles responderam que “sim!”. Chamo de vandalismo porque destroem algo que é de todos; um bem material que supri a necessidade deles; é uma ação injustificável. Além das carteiras, segundo funcionários e professores, se eles permanecerem na sala, sem professor, eles arrombam as portas destas, quebram as carteiras, levam a lixeira, entre outros. Para evitar atitudes como essas, a Direção adotou um sistema que controla a entrada dos alunos nos pavimentos superiores que ficam as salas. A vice-diretora, da manhã, J.M. relatou que esse sistema foi implantado desde a penúltima administração, há quatro anos, mas só se efetivou, no ano de 2009, sendo adotado o conceito de “sala ambiente”. Este conceito consiste na permanência do professor, em uma única sala, à espera das turmas que ele leciona no dia. A turma ao terminar de assistir a aula, sai, para que outra turma ocupe. Isso faz com que os alunos não se sintam possuidores da sala de aula, tornandose um incômodo para eles, pois têm que parar a tarefa, o raciocínio do que estava 50 sendo elaborado, ou a relação que procedia naquele momento, porque não podem ficar em sala. Mas como disse J.M.: “Com esse sistema melhorou e evitou mais a bagunça, o quebra-quebra, a confusão lá em cima”. - “Mas mesmo assim temos que fazer sempre comunicados de conscientização com os alunos.” J.M. disse também que: “Em relação às carteiras, quando eles só danificam a parte de madeira, ou seja, o assento e o encosto dão para consertar, mas quando danificam a estrutura de ferro da cadeira, não; aí temos que devolver para secretaria de Educação, que manda um caminhão vir buscar”. Com essa atitude todos os alunos “pagam o preço” da falta de liberdade de permanecer nas salas, como era no início do funcionamento da escola, em 2004, pois a direção não tem como identificar, ao certo, quais são os responsáveis por essas atitudes e aplicar a devida punição, servindo de exemplo para a turma. Eu perguntei a J.M: qual o tipo de punição que é aplicada aos alunos ao cometerem infrações? Ela disse: “Para a Secretaria de Educação não existe mais o termo expulsão nem suspensão ao pé da letra. O que fazemos, nesses casos, é chamar os pais dos alunos para conversar; no caso de uma infração grave, o melhor seria que o aluno fosse para outro colégio e, inclusive, procuramos outro colégio que, no consentimento dos pais, ele possa ser transferido”. A foto 128 mostra os danos na estrutura física da sala de aula, tais como: carteiras quebradas, paredes riscadas, a televisão fora do suporte, pois está em manutenção por causa de suposto ato de vandalismo. É também nítida a má conservação do mobiliário, dos objetos que compõem a sala. 51 LOUSA RISCOS DANIFICADA DE PELOS OBJETOS CORTANTES E DE CANETAS SUPORTE DA TELEVISÃO QUE ESTÁ QUEBRADA IMPRÓPRIAS PARA RISCÁ-LA, PORQUE NÃO SAEM COM FACILIDADE, MANCHANDO-A A DESORGANIZAÇÃO DAS CADEIRAS; ALGUMAS ESTÃO RISCADAS E QUABRADAS Foto 128 – Caracterização da Sala de aula, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Não são compreensíveis atitudes como essas. Os alunos deveriam conservá-lo, já que o mesmo possui boas instalações, é bem ventilado e iluminado naturalmente e a sensação térmica agradável; características que facilitam a permanência do indivíduo no espaço, propiciando a convivência neste. (ver fotos 129 e 130). Quantos alunos não gostariam de um espaço adequado para estudar? 52 SANITÁRIOS A ESCOLA POSSUI ESPAÇOS COM VÃOS ACESSO ALTOS QUE ÀS SALAS FACILITAM NA DE AULA VENTILAÇÃO PELAS E NA RAMPAS ILUMINAÇÃO NATURAL CORREDORES AMPLOS, VENTILADOS E ILUMINADOS Fotos 129 e 130 – Corredores de Acesso às Salas de Aula, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Eu relembro o relato de A.L. que estudou numa escola mal adaptada e sem instalações adequadas. Já os alunos do Colégio José Barreto dispõem de espaços bem estruturados, mas alguns não têm consciência disso e acabam danificando-os. Com a má conservação do espaço dificulta a ocorrência das atividades e das relações se efetivarem. O espaço foi oferecido, existe e deve ser cuidado para que haja trabalho educativo. E o convívio no espaço através das relações e das atividades pedagógicas corresponde na produção de significados, através das representações que transmitem valores e sensações aos que o utiliza. Um exemplo é a sala de aula que se constitui num espaço de conivência entre alunos e professores, na produção de discursos, em atitudes e comportamentos dos envolvidos, traduzindo-se como formas de aprendizados. O controle para as salas de aula pode até funcionar para evitar as situações desagradáveis, já citadas acima, mas limita os alunos de ficarem em um espaço que lhes é de direito. Diante dessas considerações, senti a necessidade de saber deles sobre isto. Acabei conversando com alunos do primeiro ano, na hora da aula da professora de artes, A.C. Ela dá aula nas segundas-feiras, terças-feiras e quintas-feiras, nos dois turnos: pela manhã (aos alunos do ensino médio) e a tarde (aos alunos do 53 fundamental II). Como mencionei, no início, foi o meu primeiro contato com os alunos do colégio, turma do primeiro ano, mas não tinha ainda definido a turma que iria pesquisar. A maioria é alunos de baixa renda que moram principalmente no próprio bairro. São bastante agitados e comunicativos que possuem comportamentos diversos. No total, são 30 alunos por turma com idades que variam de 16 a 22 anos. Em conversa com a turma, comentei sobre o controle da permanência em sala de aula. A maioria, apenas confirmou o fato, mas não parecia se incomodar, mas um aluno pediu a palavra e disse: “não gosto desse sistema, porque, às vezes, preciso estar em sala para estudar, ou copiar algum assunto na mão do colega ou algo parecido e não posso”. Isso evidencia a necessidade desse aluno de utilizar o espaço para a realização de atividades educativas e sociais, mas não lhes é permitido, gerando momentos de exclusão. Ainda em relação ao controle ao acesso as salas de aula, uma aluna falou: “em relação ao controle da nossa entrada na sala, eu concordo, porque evita a bagunça, o “quebra-quebra” e se acontece isso todos saem prejudicados, inclusive quem não tem nada a ver com a bagunça”. A aluna demonstra se conformar com esse sistema para evitar mais depredações às instalações do colégio, mesmo que isso ocasione na falta de liberdade de estar num espaço que proporciona aprendizados e vivências. Se os alunos deixam de ocupar esse espaço, este perde a sua importância educativa, pois, em alguns momentos, as relações deixam de acontecer. O interessante é que os alunos entendam que a sala de aula é um espaço de aprendizado que precisa ser conservado, pois é um bem comum e deve ser explorado da melhor maneira possível. O que estar precisando é valorizar a funcionalidade que foi proposta para esse espaço, considerando sua dimensão espacial como também sua dimensão social, para evitar que relações e atividades deixem de acontecer por conta da falta de utilização do mesmo. Em relação à estrutura física do colégio, esta possibilita o controle aos espaços. Isso porque o pátio fica na área central, dando acesso para outros espaços e os andares independentes e controlados por portões de ferro. (ver fotos 131 e 132). 54 Fotos 131 e 132 – Escada de acesso aos Pavimentos Superiores, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Depois das escadas, para se chegar as salas de aula, os alunos passam por corredor. É um espaço de circulação que em determinados horários abriga concentrações de pessoas e essas concentrações são evidenciadas na hora do intervalo de uma aula para outra. Como mostra a planta baixa das salas de aula do segundo pavimento; que, assim como o terceiro pavimento possui esse corredor de acesso. (ver mapa 11). 55 56 Outro motivo da implantação do sistema de controle para as salas de aula é para evitar os alunos no corredor, pois incomoda quem está nas salas, mesmo com portas fechadas. Isto é por causa do barulho das conversas e brincadeiras, revelando que a acústica das salas está comprometida. Para isso, Edward T. Hall afirma que “A percepção espacial não é uma questão apenas do que pode ser percebido, mas do que pode ser excluído.” (HALL, 2005, p.55). Por exemplo, quando o indivíduo estar num determinado espaço que possui algo que lhe incomoda isso, ocasiona-se em um mal-estar e situações desagradáveis e se não faz bem, deve ser excluído para que o ele possa utilizar de maneira eficaz e prazerosa o espaço. No exemplo das salas do primeiro e segundo andar, do Colégio José Barreto, a acústica está comprometida nos momentos em que há alunos no corredor fazendo zoada então, para excluir, pelo menos por alguns instantes esse desconforto, controlase o acesso deles nesse espaço, consequentemente, o nível de ruído irá diminuir. Na foto 133, percebe-se que próximo a porta, em cima na parede, há combogós que ajudam na ventilação cruzada da sala, mas que comprometem a acústica desta, pois da sala pode-se ouvir o que se passa no corredor e vice-versa. COMBOGÓS QUE AJUDAM NA VENTILAÇÃO DA SALA, MAS COMPROMETEM A ACÚSTICA DA MESMA Foto 133 – Sala de Aula, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 57 3.1.2 Cenas do pátio O que me chamou atenção, de início, quando eu passava em frente ao colégio, de ônibus ou então a pé para ir para casa, era o fato de que, quase sempre, havia uma boa parte dos alunos no pátio, uma quantidade considerável, a mesma se eles estivessem no horário do intervalo. (ver fotos 134 e 135). Era cedo ainda para o intervalo e eu não entendia o porquê de tantos alunos fora da sala. Só depois que comecei a frequentar o colégio, para realizar a pesquisa, fiquei sabendo por funcionários e professores que se tratava do sistema de controle, já mencionado. Fotos 134 e 135 – Área do Pátio, Autoria da Organizadora. Data: 14/06/10 Além disso, percebia que eles se acomodavam nesse espaço tranquilamente, ficando geralmente reunidos em grupos de acordo com a série; sentados; conversando a espera de suas respectivas aulas. Da forma como eles estavam no pátio pareciam aceitar essa permanência, não criando nenhuma resistência sobre isto. Mas será que era isso mesmo? O que eles acham dessa permanência? Será que eles preferiam ficar na sala de aula ao invés de ficar no pátio? Quais são suas sensações o pátio proporcionava para eles? 58 Para constatar isso, uma das perguntas que fiz aos entrevistados foi à seguinte: O que o espaço do colégio significa para vocês? Suas sensações e sentimentos. E. de 12 anos, da 5ª A, falou: “tem lugar que eu gosto e tem lugar que não gosto” e perguntei quais são eles e por quê? Ele disse: “Eu não gosto de ficar no pátio, gosto de ficar em lugar que tenha atividade”. - “acho legal ficar na quadra para jogar, conversar e praticar capoeira”. Então, percebi que essa permanência, muitas vezes, não é bem vinda, no caso de E., que quer se exercitar, ocupar o tempo e os espaços com atividades úteis ao seu aprendizado. Além disso, tem também a satisfação de estar realizando atividades e reunindo os grupos para essa realização, tornando-se uma diversão para eles. E. associa o gosto por um espaço a partir do que se faz neste; se for algo proveitoso, será visto com “bons olhos”, consequentemente, vai passar a identificá-lo com interessante e o frequentará sempre que puder. A estrutura física do pátio favorece a permanência dos alunos, pois eles não ficam enclausurados em um lugar fechado, sem iluminação e ventilação e sim, numa área a céu aberto, espaçosa, tendo uma parte coberta (cobertura em pilotis) onde ficam os bancos; é um espaço centralizado que possui áreas verdes e o anfiteatro. Além disso, dá acesso direto (centralizado) de um lado, a guarita, ao auditório, a biblioteca e secretaria e do outro ao refeitório e as quadras. (ver mapa 12). 59 60 A permanência, obrigatória em alguns momentos, se tornava amena porque o espaço proporciona comodidade e os livres acessos a outros espaços. É um local de encontros, onde ocorre às conversas, os namoros, os conflitos, os desabafos, os conselhos, as saudações, as expressões diversas, o momento de descanso, de reflexão, entre outros. Mas a exemplo de E, não adianta o espaço ser bem estruturado se não é bem utilizado. Assim, como dizia Marcus Vitruvius, uma edificação para ser considerada uma arquitetura deve ser firme, funcional e bela. O importante é dar sentido “àquele estar no lugar” não é apenas estar no pátio à espera do professor e sim, além da espera, ter o convívio com os colegas; e associado a isto poderia realizar atividades que tornassem significativas. No pátio, a disciplina é mantida, são sempre vistos, seja pela Direção, seja pela vizinhança, pois o Colégio não tem muros, são grades de ferro que fica de frente a rua. Na área administrativa, das janelas, a Direção do colégio vê quem está presente, o que estão fazendo, quais as turmas que têm aula, sendo possível controlar desentendimentos entre os alunos. (ver figura 136 e 137). Diante disso, Foucault afirma que: Importa estabelecerem-se as presenças e ausências, saber onde e como encontrar os indivíduos, instaurar as comunicações úteis, interromper as outras, poder a cada instante vigiar o comportamento de cada um, apreciá-lo, sancioná-lo, medir as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar. A disciplina organiza um espaço analítico. (FOUCALT, 2008, p. 123). 61 Fotos 136 e 137 – As janelas dos espaços da Administração, Autoria da Organizadora. Data: 28/05/10 Segundo Foucault “a regra das localizações funcionais vai, pouco a pouco, nas instituições disciplinares, codificar um espaço que a arquitetura deixava geralmente livre e pronto para vários usos.” (FOUCAULT, 2008). Isso é verificado no pátio; espaço que foi projetado para os momentos de recreação e lazer dos alunos, e agora ganhou uma nova roupagem que além de satisfazer essas funções, se torna um espaço de vigilância e controle implicitamente. Neste pátio também existem algumas áreas verdes, espalhadas, com bancos de cimento para os alunos contemplarem a paisagem. As gramas que fazem parte da decoração da área não estão sendo cuidadas e nem conservadas, como mostra a foto 138. Na foto, estão nítidas três alunas sentadas em um dos bancos, pisando na grama. É uma atitude errônea, porque a área destinada ao assento está pavimentada e a fundo estar à grama que compõem as áreas arborizadas, importantes para o equilíbrio térmico do ambiente, proporcionando sombra e ventilação natural. 62 SÃO PEQUENAS ÁREAS DE CONTEMPLAÇÃO QUE INTEGRAM ESTETICAMENTE A PARTE PAVIMENTADA, MAS NÃO COMO ÁREA DE CIRCULAÇÃO DE PESSOAS. ÁREA VERDE MAL CONSERVADA Foto 138 – Área do Pátio, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 3.1.3 Cenas da biblioteca Os alunos quando entram na escola aguardam no pátio o professor chegar; e com sua chegada, próxima ao horário da aula, eles começam a se concentrar nessa circulação, próxima ao portão da escada. (ver foto 139). Foto 139 – Acesso interno principal do Colégio, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 63 O acesso pela escada é controlado por um funcionário que tem como suporte uma grade de correr. Isso é para atender o regimento da escola que determinou o controle da entrada dos alunos para os andares superiores. (ver fotos 140 e 141). Fotos 140 e 141 – Portão interno principal e escada de acesso aos andares superiores, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Enquanto os alunos aguardam a autorização para subir, se concentram no corredor, ali eles conversam, verificam as atividades destinadas para aquele dia, se informam com as funcionárias da direção sobre documentações e avisos, dentre outros. Há sempre relações acontecendo entre os indivíduos, basta que o espaço abrigue-os e os objetos de sua ação. (ver foto 142). 64 Foto 142 – Secretaria, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Esse corredor dar acesso também à biblioteca e para compensar esse tempo de espera para a sala de aula, os alunos aproveitam e concentram-se nesta, ocasionando uma agitação, por alguns minutos, no seu interior. A bibliotecária, A.P, me relatou alguns aspectos positivos e negativos da biblioteca, inclusive, esse citado acima. “Ah! A biblioteca é mal localizada, muita zoada, ela deveria estar um local mais reservado”. “É muita zoada, porque fica próximo da secretaria e do pátio, que é a área de recreação dos alunos”. Segundo as normas e os parâmetros arquitetônicos se prevêem que as instalações da biblioteca sejam em locais mais reservados, livres de barulho para proporcionar um ambiente calmo, silencioso, propício para leitura e pesquisa. Como também a utilização de materiais acústicos para controlar a zoada no entorno do recinto. Mas no caso da biblioteca do colégio, não há tal investimento e devido a isso e à sua localização, próxima a entrada principal, o barulho incomoda em certos horários, principalmente, no horário do intervalo, pois os alunos se concentram nesse corredor, passam para o pátio ou ficam no balcão da secretaria, pedindo informação. Mas dentro da biblioteca, os alunos respeitam o silêncio e se acomodam tranquilarmente no espaço. Inclusive na entrevista eu perguntei aos alunos da 5ª série quais os espaços do colégio que eles sentem-se melhor e por quê? 65 H., da 5ª A de 12 anos, respondeu: “na biblioteca porque a gente pode refletir, é um lugar calmo, eu gosto de ir mais no 1º horário e no intervalo”. É justamente nesses dois horários, que existe pouca movimentação de alunos no recinto. Com isso, ela pode utilizar melhor o espaço e se apropriar com determinadas atividades pedagógicas. A biblioteca se divide em área dos sanitários, da administração, do balcão, das prateleiras e das mesas e das prateleiras para os livros, divididos por área de indicações das áreas do conhecimento. (ver fotos 143 e 144). O espaço da biblioteca é fiscalizado e organizado para proporcionar maior comodidade aos alunos. Além de ser um espaço limpo, climatizado e iluminado. O controle de saída e entrada dos alunos nesta não é rigoroso, mas tem o intuito de manter o espaço sempre organizado e silencioso. Fotos 143 e 144 – Espaços da Biblioteca, Autoria da Organizadora. Data: 14/05/10 Mas a quantidade de mesas não supre a demanda dos alunos, considerando o número de salas, 18 salas e a quantidade de alunos, em média 30 alunos por sala. Em conversa, A.P. diz: “Alguns alunos se queixam da falta de espaço, mas não temos muito 66 que fazer, inclusive, eu e as outras funcionárias da biblioteca estamos propondo um novo layou2 para a biblioteca, mas nada concreto ainda”. Isso porque existem apenas cinco mesas com quatro cadeiras cada, num total de 25 cadeiras, sendo o máximo de unidades cabíveis nesse espaço. Com isso, para manter o silêncio no ambiente e a mobilidade desses 25 alunos no espaço de forma a acessarem, sem problemas, as prateleiras, ultrapassa-se só mais 5% desse número de alunos quando se trata de pesquisa rápida, proporcionado mobilidade os alunos ao transitarem pelo espaço nas atividades desempenhadas. Isso proporciona um espaço útil que possa distribuir as atividades sem prejuízo na sua eficiência na prestação dos serviços a comunidade. (ver fotos 145 e 146). Fotos 145 e 146 – Espaços da Biblioteca, Autoria da Organizadora. Acervo. Data: 14/05/10 Independente da quantidade de mesas, os alunos frequentam significativamente a biblioteca, vão por conta própria, pesquisar, estudar ou simplesmente ler. Constatei isso nas entrevistas, pois quando eu perguntei: Quais os espaços do colégio que vocês mais frequentam e que se sentem melhor? 2 Layout – é uma opção de desenho da disposição dos objetos que compõem um determinado ambiente. 67 A aluna H. da 5ª A de 12 anos respondeu: “A biblioteca, porque eu me divirto, leio livro para desenvolver mais a mente, eu fico naquele cantinho ali perto do ar condicionado, ali eu fico conversando baixinho com minhas colegas ou vou sozinha pra ler”. Interessante que ela associa o espaço da biblioteca a diversão, tornando-se um lugar prazeroso de estar para ler e brincar. A expressão “eu fico”, utilizada por ela, revela que nesse espaço existem aspectos que favorecem e proporcionam sua permanência de forma harmônica, possibilitando também a sua relação com outros colegas. Porque ali ela senta, conversa, interage com o colega, brinca, escolhe o que vai ler, ou seja, pratica várias atividades em um mesmo espaço. Vinculado a essas atividades estão às relações interpessoais; quando ela fala “eu”, deixa claro que é um sujeito atuante, que age sobre os espaços da forma que lhe convir. Quando ela diz: “eu vou”, demonstra a sua autonomia para se relacionar com os colegas (o outro), para ocupar o espaço, para realizar determinada tarefa, de acordo evidente as normas da escola, estabelecendo a convivência e os laços afetivos. A interação com o espaço se dá também quando ela diz: “eu fico ali perto do ar condicionado”, pois mostra que o espaço da biblioteca tem elementos que fazem parte de suas instalações que favorecem a permanência do indivíduo de maneira agradável, possibilitando a prática das ações citadas; é um lugar de escolhas, de momentos que ficam registrados na vida do indivíduo, favorecendo no seu aprendizado. Entendo que a aluna gosta desse espaço, porque é acessível, como ela mesma disse: “eu me sinto incluída em qualquer atividade, a biblioteca mesmo posso chegar a qualquer hora”. Em seu depoimento, observei que ela procura explorar o espaço, usufruir dos objetos que o compõe, voltados para o conhecimento. Portanto ele é significativo para sua aprendizagem, porque além dos conteúdos escolares ela aprendeu as vivências que acontecem naquele espaço que são internalizadas por ela, fazendo parte do seu currículo. E. de 10 anos, da 5ª D, falou: “A biblioteca; a gente aprende a ler e estudar”. - “Eu me sinto bem por causa do silêncio”. Com esses relatos, percebi primeiramente; que ela reconhece que a biblioteca atende as suas necessidades no que diz respeito, basicamente, a leitura. Além disso, 68 no oferecimento de um diversificado material didático, proporcionando sua permanência, na comodidade estabelecida através do mobiliário, no atendimento e orientação prestada pela bibliotecária, na possibilidade de se reunir em grupo para trabalhar as atividades pedagógicas e na obtenção de informações. L., de 13 anos, da 5ª D, respondeu: “biblioteca, para estudar” - “Utilizo quase todo dia e vou com minhas colegas”. Nas suas respostas também identifiquei que ela identifica a biblioteca como espaço de aprendizagens, de aquisição de conhecimento e cultura. Por isso mesmo que não deixa de frequentá-la. É interessante perceber que o espaço é bem utilizado, produzindo, assim, significações e valores aos alunos, favorecendo na sua formação pessoal e cognitiva. Outro fator importante é que o problema da falta de espaço é amenizado quando os alunos estabelecem determinados horários de visita ao local; isso também traduz numa forma de aprendizagem, estabelecendo estratégias para o uso do espaço. Uma atividade interessante que também aconteceu na biblioteca foi o jogo de xadrez. Essas aulas, para a aprendizagem dos alunos, são importantes porque os estimulam a pensar, a ter atenção e a se concentrar. (ver fotos 147 e 148). Acredito que se a professora continuar com essas aulas que priorizam essas atitudes, eles irão se apropriar delas, levando-as para outras atividades que irão realizar. Fotos 147 e 148 – Aula de Xadrez na Biblioteca, Autoria da Organizadora. Data: 14/06/10 69 A professora I.M, graduada em educação física, disse que foi a criadora dessa oficina na escola, pois joga xadrez e pensou em levar essa temática para o José Barreto e por sinal, foi muito bem aceita pelos alunos. Em cada aula, ela, de início, faz uma retrospectiva das aulas passadas, fazendo uma espécie de revisão com eles a respeito de cada regra do jogo e eles respondem todas as suas perguntas, mostrando já conhecer o jogo. Notei a participação entusiasmada dos alunos na aula, na convivência afetiva com a professora, na organização em grupos para realização da atividade que estimula a ocorrência das relações interpessoais e pedagógicas, além do uso do espaço. 3.1.4 Cenas sala de dança Os alunos do José Barreto são privilegiados, comparados a alguns alunos de escola pública, pois o colégio foi projetado com ambientes amplos, destinados às atividades culturais e artísticas. Por exemplo, uma sala de dança destinada ás aulas de dança, o auditório e o anfiteatro para as apresentações teatrais, salas destinadas à oficina de literatura, estas, realizadas no turno oposto das aulas curriculares. Mas, por enquanto, estas oficinas só privilegiam os alunos da 5ª série e isso, reflete um descontento de alguns alunos por não terem acesso a estas, ou pelo desconhecimento dessas atividades. Segundo a professora responsável pelas oficinas, L.A, elas se estenderão aos demais alunos, mas não sabe a partir de quando. Essas oficinas são do projeto chamado “Mais Educação”, do Governo Federal que incentiva essas atividades para os alunos do ensino fundamental e médio. No colégio já começaram as primeiras aulas dadas por estagiários. No início, os alunos se mostraram entusiasmados com a novidade e disseram gostar muito delas, principalmente as meninas. - “eu gosto muito de dança, principalmente arrocha” Notei o interesse da aluna em praticar uma dança que ela gosta que faz parte do seu cotidiano social, que se praticada no ambiente escolar, esta terá certo entusiasmo 70 em participar das aulas, de dar sua contribuição ao que sabe sobre a dança e aprender muito mais. Assistir às primeiras aulas de dança e de Teatro e sentir os alunos satisfeitos com as aulas. Estas acontecem em turno oposto ao das aulas, proporcionando o tempo integral desses alunos na escola. Percebo o empenho dos envolvidos, tanto dos professores que estão dispostos em proporcionar diversão, cultura e aprendizado, quanto dos alunos, que gostam do que estar sendo proposto nas oficinas, participando das atividades, cumprindo os horários, estabelecendo relações e adquirindo experiências. Na primeira aula de dança a professora C. reuniu os alunos em círculo na sala. Apresentou instrumentos que irá trabalhar com eles nas aulas, conheceu um pouco de cada um e aplicou uma atividade de desenho. Segundo ela, isto serviu para dar uma introdução de como serão as aulas durante esse ano e para conhecer a turma. (ver fotos 149 e 150). Fotos 149 e 150 – Atividades na Sala de Dança, Autoria da Organizadora. Data: 24/05/10 A atividade foi lançada e os meninos ocuparam o centro da sala, se reuniram em volta do cartaz e começaram a desenhar. À medida que ia aparecendo um desenho, surgia palpites, conversas e risadas e consequentemente as relações se revelavam. A maioria desenhou a si própria dançando, revelando o gosto pela dança e de seu 71 reconhecimento como agente dessa ação, mostrando-se disposta a praticar e desenvolver ações que levem ao conhecimento da dança como atividade pedagógica. No decorrer das aulas, constatei que eles ocupavam todo o espaço da sala com atividades diferentes, seja para pintar um cartaz no centro da sala, seja para fazer um círculo e assistir a apresentação da professora, alguns alunos sentavam-se por cima dos livros para perceber o que os demais faziam, seja para brincar, seja para conversa em grupo, enfim, as relações interpessoais e pedagógicas aconteceram. A sala tornou-se um espaço útil, no qual as pessoas se distribuíram, agindo sobre este, vivenciando-o e percebendo-o através dos sentidos. Tornou-se palco de representações, um ponto de encontro, de discursos, insatisfações, alegrias, entre outros. Isso tudo, graças a sua estrutura física que facilitou a permanência dos envolvidos, pois é um espaço amplo, ventilado, iluminado; seu piso é tablado em madeira, facilitando a locomoção dos alunos. Uma de suas paredes é revestida de espelho da base até a certa altura para que eles possam se ver enquanto dançam. (ver fotos 151 e 152). Fotos 151 e 152 – Sala de Dança, Autoria da Organizadora. Data: 24/05/10 No período junino, quase todas as escolas realizam a festa de São João e no Colégio José Barreto não foi diferente. Ficou sob a responsabilidade da professora de dança C. e do professor de teatro J. em prepararem uma apresentação com os alunos 72 para o dia da festa. A festa estava marcada para acontecer no dia 17/06 e os meninos estavam ensaiando em ritmo acelerado. Com isso os professores juntaram as turmas e resolveram ensaiar na sala de dança. (ver fotos 153 e 154). Mais um indício que houve cooperação e convívio entre os envolvidos, a utilização e apropriação do espaço na realização de uma atividade artística e a afetivação de relações interpessoais e pedagógicas num ambiente comum a todos. Fotos 153 e 154 – Ensaios na Sala de Dança, Autoria da Organizadora. Data: 14/06/10 3.1.5 Cenas do refeitório Em todo momento, nas visitas, constatei que o refeitório é um dos espaços mais frequentado. Isso, porque os alunos passam a maior parte do tempo neste, a espera pelo início das aulas. Este espaço possui elementos que estimulam essa permanência, como a televisão, o DVD, caixas de som, além de ser um lugar bastante ventilado, iluminado, amplo, com o acesso direto ao pátio, à rampa para os pavimentos superiores e a área administrativa. (ver fotos 155 e 156). 73 Fotos 155 e 156 – Refeitório, Autoria da Organizadora. Data: 14/06/10 Esses objetos proporcionam a convivência dos alunos nesse espaço, seja para sentar-se próximo ao colega e assisti a um filme, seja para cumprimentar e conversar com o colega, para jogar, para ensaiar apresentações artísticas e culturais, sendo estas, relações interpessoais que são possíveis através de atitudes e comportamentos que geram o convívio social, revelando-se experiências de vida ao indivíduo. Além disso, esse espaço atende ao número de alunos, estimado por turno, devido as suas características espaciais que possibilitam a realização de diversas atividades, estimulando as relações, seja na hora das refeições, da espera pelas aulas, das idas aos vestiários e sanitários, ao pátio e a cozinha; todos, locais que se comunicam com o refeitório. A entrada do refeitório é um vão aberto de um lado a outro, sem portões, somente grades que facilitam a entrada de luz natural e ventilação. Essas grades permanecem abertas boa parte do tempo, facilitando a permanência dos alunos neste, abrigando situações de vivências e de relações dos envolvidos. Esse espaço se comunica diretamente com o pátio, através dessa entrada, diferente do que acontece com sua comunicação com a rampa que dá acesso aos pavimentos superiores, pois é feita por meio de grades que permanecem sempre fechadas. 74 Além disso, o acesso do refeitório a área administrativa, através de um corredor, também permanece fechado, vetando a passagem, principalmente, dos alunos. Isso foi depois que a Direção adotou o sistema de controle para as salas de aula. Há neste caso, uma restrição do acesso para os espaços, pois, segundo a Direção do Colégio, foi para controlar o acesso dos alunos nesse corredor, devido a bagunça e baderna que alguns alunos faziam neste. Para ir à cozinha, da área administrativa, a pessoa precisa sair da área edificada, passando por todo pátio, chegando ao refeitório; e o mesmo percurso a merendeira faz para levar o lanche nas salas dos professores. Mas esse percurso forçado proporcionou também as relações, pois eu observei que quando a merendeira passava, no pátio, alguns alunos a cumprimentava. Achei interessante, porque ela interagia com os meninos no momento do percurso que ela mesma considerava “cansativo”, e para amenizar esse percurso, optou pela descontração com eles que por sinal, gostavam dessa relação. Em que determinada hora do dia, foi servida a merenda escolar, e ao receberem a merenda, os alunos se organizaram no espaço, ocupando as mesas que ficavam dispostas somente na hora do intervalo. Mas a quantidade de cadeiras que são autorizadas a ficar no refeitório não atende a todos os alunos. Isso porque, segundo a merendeira e a Direção, eles danificam as mesas e cadeiras, que são plásticas, e que não resistem aos constantes manejos bruscos e incorretos com isso, eles merendam em pé ou nos bancos do pátio. Mas um caso de má conservação, neste caso, do mobiliário escolar. Já no dia 17/06 aconteceu à festa junina nos dois turnos. Alguns professores participaram da festa, improvisaram uma quadrilha com os alunos. O diretor, as vice-diretoras, coordenadora, alguns professores e funcionários se concentraram tanto na cozinha como no refeitório para acompanhar e participar da festa. Houve um momento que a coordenadora D., a vice diretora J.M. e o professor de história J.S. chamaram os alunos para dançar, formando pares, e em seguida, já tinham vários outros pares já formados pelos alunos no espaço. Foi importante porque houve uma atitude de interagir no e pelo espaço, de ocupá-lo e aproveitar o momento de confraternização. 75 Os alunos chegavam e se concentravam no espaço que promoveu, aos poucos, as relações interpessoais, proporcionando momentos de comunicação, da aproximação dos professores com alunos, de maneira espontânea e afetiva. Sendo constatadas atividades que modificaram a rotina nesse lugar e, este refletiu todas as manifestações, comportamentos, atitudes e discursos ocorridos, tornando-se um ambiente de aprendizado e de convivência. (ver fotos 157, 158, 159 e 160). Fotos 157 e 158 – Festa junina no espaço do Refeitório, Autoria da Organizadora. Data: 17/06/10 Fotos 159 e 160 – Festa junina no espaço do Refeitório, Autoria da Organizadora. Data: 17/06/10 76 Já à tarde, os meninos da 5ª série conseguiram apresentar o que ensaiaram durante dois meses. Eles se programaram para realizar a apresentação da quadrilha que aconteceu também no refeitório, porque em vista aos outros espaços do colégio, é o mais adequado para acontecer esse tipo de atividade, devido suas dimensões espaciais e pela ausência de obstáculos que dificultem a livre circulação dos usuários. No momento da apresentação houve uma interação entre os que estavam dançando e a turma que assistia, traduzindo-se numa atividade que envolveu sentimentos, discursos, valores, desejos e satisfações entre os envolvidos. (ver fotos 161 e 162). Fotos 161 e 162 – Festa junina no espaço do Refeitório, Autoria da Organizadora. Data: 17/06/10 Em outro momento da minha visita, assisti à aula de capoeira que também aconteceu no refeitório. (ver fotos 163 e 164). 77 Fotos 163 e 164 – Aula de capoeira no Refeitório, Autoria da Organizadora. Data: 02/06/10 Esta aula aconteceu a partir das 09h40min, um horário próximo justamente da hora do intervalo dos alunos de manhã, do ensino médio que os da 5ª série chamam-os de “maiores”, que se concentraram próximo à cozinha para receberem a merenda. O momento foi desconfortante, porque o professor de capoeira estava como dificuldades em falar com seus alunos por causa do barulho, da conversa e dos gritos dos “maiores”, dificultando a concentração dos alunos na aula. Nota-se que houve um conflito de atividades nesse espaço, sendo diferentes e com finalidades diferentes que não se enquadravam no espaço, se realizadas ao mesmo tempo. Isso porque se os alunos que estavam à espera da merenda quisessem sentar e comer, assistindo televisão, não poderiam, por causa da ocupação de outro grupo de alunos no espaço com a aula de capoeira. A aula de capoeira exige que o sujeito ocupe e sinta o espaço para a prática dos movimentos que a dança (luta) exige. Neste caso, o espaço se tornou pequeno, devido a diferentes maneiras que se quer ocupar o mesmo que exigem posturas e disposições corporais diferentes. O refeitório pode abrigar essas atividades, mas em momentos diferentes. 78 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com o intuito de estudar o espaço escolar e as relações interpessoais e pedagógicas percebi que o Colégio José Barreto se enquadrava para o mesmo, pela proximidade e vivencia que tive com o espaço durante parte da minha juventude. O objetivo da pesquisa o de refletir sobre a importância do espaço escolar para essas relações. Decidi, a partir dessa história pessoal, me inserir no contexto da escola para identificar essa importância e os sujeitos que utilizavam e se apropriavam desse espaço. A escola é um espaço destinado à prática de ensino aprendizado que está a serviço da população. Segundo o PNE (2006, p.1): A educação como direito de todos e obrigação do Estado, deve ser ofertada de modo a atender toda a população infanto-juvenil que se encontra em condições de freqüentá-la, ou seja, a educação deve contemplar toda a clientela que necessitar (...). Como decorrência deste princípio, há necessidade, por parte do poder público, de garantir recursos humanos e físicos para atender a toda esta demanda. E o espaço escolar, segundo Escolano (2001, p.26) “deve ser analisado como um constructo cultural que expressa e reflete, para além de sua materialidade, determinados discursos (...) é um elemento significativo do currículo, uma fonte de experiência e aprendizagem”. A escola, especialmente neste caso, significa ascensão social, reconhecimento do indivíduo pela sociedade, sendo esperado que esse aluno seja preparado para o mercado de trabalho e para vida social. Sendo assim, um espaço impregnado de representações que transmitem valores e sentimentos aos que habitam neste. Como o próprio aluno A. de 12 anos, da 5ª A disse, quando eu perguntei o que a escola significa para ele: “Aprendo muita coisa, respeito mais as pessoas, modifiquei meu comportamento”; em seguida eu perguntei: quem é responsável por isso? E ele respondeu: “a professora e a família também”. Quando o sujeito utiliza e age sobre esse espaço consegue percebê-lo através dos sentidos, absorvendo o máximo de informações, sendo estas internalizadas e apreendidas com a vivência neste. O espaço possibilita que as relações interpessoais e 79 pedagógicas aconteçam, porque possui instalações que condicionam o seu uso e ocupação e objetos que dão suporte a estas. Como disse a aluna L., de 12 anos da 5ª A quando eu perguntei quais as sensações e sentimentos que ela tem do colégio: “um espaço mais aberto, amplo, que você não precisa sair do colégio”, com base nisso eu perguntei: ele supre as suas necessidades? E ela disse: “sim, eu me sinto bem aqui”. Ela demonstrou que se sente bem utilizando os espaços do colégio porque sua estrutura física contempla sua permanência e convívio com outros alunos. O que está faltando no colégio José Barreto é a consciência de alguns alunos em conservar os espaços, mantendo-os dignos de serem utilizados a qualquer momento, por todos. Para que a Direção não precise limitar o acesso aos ambientes que os alunos possam freqüentar mais os lugares e se sintam possuidores deles de forma harmônica e saudável. Isso é, para o aluno se sentir incluído no ambiente escolar, para E., aluno da 5ª A de 12 anos mude sou discurso que é “eu me sinto excluído, porque tem lugar que eu não posso ir”. Ele demonstrou interesse em poder explorar os espaços, sendo acessível quando precisar. Posso diferenciar esse discurso quando um aluno se sente satisfeito porque freqüenta os espaços do colégio, a exemplo de Helena da 5ª A de 12 anos que diz: “me sinto incluída em qualquer atividade, a biblioteca mesmo posso chegar a qualquer hora”. Assim como L., de 12 anos da 5ª A, também que diz: “eu me sinto incluída, porque participo das atividades da escola.” - “eu gosto da escola toda, ando a cada minuto em cada espaço aqui”. As alunas se sentem incluídas porque a Direção deu-lhes a oportunidade de vivenciar outras atividades que proporcionam o uso de alguns espaços, antes desconhecidos por muitos, como é o caso da sala de dança. Mas, ao mesmo tempo em que a Direção promove essas atividades, ela também proíbe o livre acesso e a permanência dos alunos em sala de aula, sempre que precisarem, ocasionando atitudes de exclusão, porque deixa de oferecer a eles a oportunidade, em alguns momentos, de vivenciar esse espaço de aprendizado, que é lhes é de direito, e consequentemente, as relações deixam de acontecer. 80 Alguns alunos se sentem conformados com isso, não reivindicam, parecem até não ter consciência de que estão sendo proibidos de utilizar um espaço em determinados momentos que é seu direito, mas por causa de atitudes de outros alunos (devido aos atos de vandalismo de alguns alunos) eles deixam de usá-lo. Mas outros alunos acham melhor que seja restrita essa permanência porque não querem ver a escola sendo destruída. Têm alunos também que não têm consciência dessa atitude excludente, principalmente, os alunos da 5ª série, que são os “mais novos” e não estão preparados para reivindicar e analisar sobre essa questão; e ficam submetidos às normas do colégio. Já têm alunos que se sentem conformados e aproveitam essa atitude para não permanecerem em sala, como o aluno que me disse: “Ah! professora, estudar cansa”. Esse, provavelmente, não faz questão em ficar em sala de aula. Inclusive quando terminou a aula e eu fui conversar com a turma dele, ele estava me respondendo, já perto da porta da sala, com a mochila, pronto para sair. Mas para além do querer do aluno, a escola deve ser considerada como espaço de oportunidades e de convivência, de possibilidades de realizar atividades para buscar o conhecimento e de promover as relações. Pode ser que esse último aluno que mencionei não esteja motivado a participar das atividades do colégio e sensível em perceber os espaços, de fazer escolhas e de conviver mais nos espaços a partir destas, como os alunos da 5ª série estão autorizados a fazer. Mais uma vez, evidencia-se aqui a falta de oportunidade para alguns de se apropriar e se relacionar em alguns espaços do colégio. Segundo Viñao Frago (2001, p.63) “Essa tomada de posse do espaço vivido é um elemento determinante na conformação da personalidade e mentalidade dos indivíduos e dos grupos.” Cada indivíduo tem uma noção subjetiva dos espaços a partir das relações que compartilhou e viveu, das atividades que realizou, considerando os seus limites corporais e o espaço construído até onde se imagina agir e se deslocar sobre ele. Portanto a escola é um lugar pensado, projetado, construído e utilizado para a prática do ensino; um lugar estável e fixo, mas o que muda são os tipos de ocupação que se fazem dos seus subespaços. 81 Concluo percebendo que as coisas não são fixas, o que para um é bom, para o outro pode não ser. Há exclusão, causada por fatores externos ao colégio, e estes fatores moldam, mesmo que não se perceba, as relações entre os alunos, suas formas de se reconhecerem e de tratarem uns aos outros e ao ambiente em que estudam. Ambiente este que é em parte estrangeiro, em parte familiar. Em parte seu, em parte contra si. São algumas das idéias que passam por este trabalho que, mesmo findando não está terminado, pois as coisas se processam e mesmo dentro de mim sei que há ainda muito a perceber neste caso. 82 REFERÊNCIAS CARLOS, Ana Fani Alessandri. O lugar no/ do mundo. 1. ed. São Paulo, Ed. LABUR, 2007. FRAGO, Víñao Antônio e ESCOLANO, Augustin. Currículo, espaço e subjetividade: a arquitetura como programa.Tradução: Alfredo Veiga-Neto. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. DP7A, 2001. DÓREA, Célia Rosângela Dantas. Anísio Teixeira e a arquitetura escolar, planejando escolas, construindo sonhos. Revista da FAEEBA. Salvador, n.13, jan./jun. 200, p.151-160. HALL, Edward T. A dimensão oculta. Tradução: Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2005. CAVALEIRE, Gláucia de Cássia M.S: Inter-relação entre espaço escolar e currículo. Disponível em: <http://www.ufjf.br/espaçoeducação/file/2009/11/cc07_3pdf>. Acesso em 20/03/2010. AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina na sala de aula. 6. Ed. São Paulo: Summus, 1996. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução: Raquel Ramalhete. 35. Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2008. SANTOS, Milton. Metamorfoses do espaço habitado, fundamentos Teórico e metodológico da geografia. Hucitec. São Paulo,1988. RIBEIRO, Solange Lucas: Espaço escolar: um elemento (in)visível no currículo. Disponível em: <http:// www.uefs.br/sitientibus/pdf/31/espaço_escolar>. Acesso em 15/03/2010. Site PNE – Plano Nacional de Educação, 2006. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/pne.pdf. Acesso em 10/08/2010. 1 APÊNDICE 2 PERGUNTAS (QUESTIONÁRIO): Quais são os espaços que sua escola tem? Você pode me dizer quais são e pra que servem? Quantas vezes você foi a cada um? usou? Como você esteve em cada espaço? (usou, apenas viu de fora, entrou, mas não sentou, não utilizou, etc.) O que o espaço do colégio significa para você? Suas sensações e sentimentos. Você além da sala de aula, frequenta quais espaços? Por quanto tempo? Quais os períodos em que você os frequenta? Quais os espaços onde se sente melhor? Por quê? E o que você faz nestes? Você já se sentiu meio constrangido em usar algum espaço da escola? Se sim, qual e por quê? Qual sua opinião a respeito da sua permanência no pátio até que o seu professor chegue e você possa subir? Você é obrigado a esperar pelo professor fora da sala de aula, mais precisamente no pátio, proibido de subir e aguardá-lo nesta, qual sua opinião sobre essa proibição posta pela direção da escola? Você sabe ou tem idéia por qual motivo você não pode ficar na sala de aula sem o professor, se sim, justifique-se? Qual sua opinião sobre o espaço da biblioteca? Você utiliza a biblioteca constantemente, por quais motivos? Você se sente estimulado a usar/ocupar os espaços do colégio? Existem pessoas que incentivem você a usar os espaços da escola? Que espaços seriam estes, caso existam? E que funções essas pessoas têm? O que você sente que aprende nas oficinas? As atividades que os professores realizam te satisfazem? O que você esperaria? Você cuida do seu espaço escolar? Se você fosse responsável pelo espaço da escola, o que você cuidaria ou faria primeiro? Por quê? Você utiliza o refeitório em quais momentos? E por quanto tempo/? Você se sente bem lá? Por quê? Como você se sente; incluído ou excluído no seu espaço escolar, por quê?