revista comemorativa Missão de angola anos de presença franciscana | 25 anos | FIMDA | 1 sumário 06 PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola 26 Revista comemorativa do Jubileu de 25 anos da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil Ministro Provincial: Frei Fidêncio Vanboemmel Vigário Provincial: Frei Estêvão Ottenbreit Textos e fotos: Frei Gustavo Medella Revisão: Frei Walter de Carvalho Júnior Edição e textos: Moacir Beggo Colaboração: Frei Ermelindo Francisco e Elisabete Barbero (Arquivo da Província da Imaculada Conceição) Diagramação: Jovenal Pereira Sede da Província: Rua Borges Lagoa, 1209 3º andar – Vila Clementino São Paulo – Brasil Tel.: 55-11-5576-7900 Sede da FIMDA: Rua do Sanatório, s/n, Bairro Palanka, Luanda, Angola Tel.: 244- 946.232.288 2 | FINDA | 25 anos | editorial “O lhar o passado com gratidão, viver o presente com paixão e abraçar o futuro com esperança”. A mesma proposta que o Papa Francisco apresentou à Igreja para a celebração do Ano da Vida Consagrada está norteando esta publicação comemorativa pelos 25 anos da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA). Queremos, nas páginas que seguem, traçar um breve panorama da presença da Ordem dos Frades Menores em terras angolanas, construída à base de esforço e entrega de muitos frades que deixaram o nome escrito nesta história, sem contar o grande número de benfeitores que sempre estiveram juntos, pelas orações e pelo apoio material a esta iniciativa missionária e o povo angolano, razão de ser desta presença evangelizadora na África. É lógico que uma publicação limitada pelo número de páginas e também pelo olhar daqueles que a produziram nunca daria conta de transmitir a grandeza e a beleza desta história em sua integralidade. Para além de toda a limitação, nosso desejo é que todos se sintam incluídos, porque cada um, a seu modo, é pedra viva desta construção, que tem como alicerce Jesus Cristo Pobre, Humilde e Crucificado, o mesmo que tocou o coração de Francisco e transformou a sua vida. 14 06 08 13 14 30 23 A África nos chama Trechos da carta do Ministro Geral Frei John Vaughn motivando para a Missão na África. O 1º envio para a Missão Há 25 anos, no dia 16 de setembro de 1990, os três primeiros missionários foram enviados para Angola na Missa de Agudos. Frei Plínio, Frei Pedro e Frei José chegaram a Malange no dia 25 de setembro de 1990. 26 30 35 Frei Lotário Neumann O missionário gaúcho escreveu para sempre o seu nome na Missão. Ele foi levado pela Irmã Morte no dia 4 de janeiro de 1993. 41 História Frei Estêvão Ottenbreit, o então Ministro Provincial em 1990, fala nesta entrevista das dificuldades, alegrias e desafios para criar a Missão em Angola. Abadessa Fabíola 46 Angola desperta O frade angolano Frei Ermelindo Francisco escreve sobre o seu belo país. No coração da Missão Frei Gustavo Medella, que viajou no final de julho e começo de agosto para Angola, traça um panorama da Fundação Imaculada Mãe de Deus hoje. O atentado A presença em Kibala foi interrompida durante um período da guerra devido ao atentado sofrido por Frei Valdir Nunes Ribeiro Os frutos da Missão Em 25 anos, a Missão de Angola colhe os frutos deste trabalho missionário: 30 frades angolanos. Seminário com casa cheia e 13 postulantes para o noviciado de 2016. Presença dos leigos: fermento que fez crescer a missão Segundo Frei Estêvão, ela pode ser chamada mãe da Fundação Imaculada Mãe de Deus. apresentação C omo todos sabemos, há 25 anos, mais exatamente, no dia 25 de setembro de 1990, pisavam o solo angolano os três frades fundadores da atual missão franciscana em terras angolanas. De lá para cá muitas coisas foram feitas. Muitas delas deixaram fortes marcas no jeito de ser da nossa missão em Angola. Muitas dificuldades foram suportadas, sobretudo pelos irmãos que por primeiro vieram e, com certeza, essas dificuldades fazem parte dos alicerces que construíram esta missão. Muitas coisas boas também têm sempre acontecido. Sinais de ressurreição prometida a todos os que se dispõem a carregarem, pacientemente, a cruz em meio às dificuldades do dia a dia. Hoje, vivemos um momento propício para dar graças. A tão sonhada, rezada e cantada paz chegou e, mais importante, não somente chegou mas ficou. Como Fundação vivemos também um bom momento vocacional, com nossas casas de formação cheias de formandos e, melhor ainda, com um excelente índice de perseverança. Nossa missão evangelizadora tem se expandido, de maneira especial, em nossas paróquias e missão. O amparo social aos mais necessitados tem sido realizado, desde o atendimento de porta até serviços mais elaborados como o Projeto “Nossos Miúdos”, o Projeto “INZO de Inserção Digital”, o Projeto “Bola da Paz” e as Escolas Paroquiais. Portanto, temos motivos de sobra para dar graças ao Senhor. E que essa ação de graças solene seja também o momento de revermos nossa caminhada e, sempre de novo, nos dispormos a dar passos firmes para que os próximos 25 anos sejam vividos debaixo da graça do Senhor. Que assim nossos confrades neste futuro, agora distante, possam também eles ter motivos de dar graças ao Senhor! Frei José Antônio dos Santos presidente da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola mensagem Frei Michael Anthony Perry, OFM Ministro Geral C aros Irmãos, Com alegria e gratidão uno-me a vocês nesta celebração dos 25 anos da Fundação Missionária em Angola. Quero agradecer a Deus pelo dom do carisma missionário dado a São Francisco de Assis que impulsiona nossa Ordem para viver e anunciar o Evangelho pelo mundo afora. O mandato de Jesus a seus discípulos ainda ressoa em nossos ouvidos: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15). Nesta ocasião agradeço de modo especial a todos os confrades que deixaram tudo em seu país e colocaram-se à disposição do projeto de Deus para viver e anunciar o Evangelho em Angola. Há 25 anos, quatro confrades chegaram a esta missão cheios de entusiasmo por saber que estavam concretizando um gesto significativo da Província da Imaculada por ocasião das celebrações do 1° centenário da restauração. Hoje todos podem ver os frutos do esforço dos confrades missionários e angolanos que, juntamente com outros religiosos e leigos, fizeram e fazem tanto para que mais pessoas tenham vida em abundância e conheçam o Evangelho de Jesus Cristo, fonte de vida eterna. As dificuldades que surgiram, especialmente pelos momentos de conflitos e guerras, certamente não foram poucas. Contudo, o Mestre e Senhor que nos chama à vida consagrada e à missão nunca nos abandona. A missão pertence a Ele. Obrigado a todos os missionários que resistiram e não abandonaram as ovelhas diante do perigo! Sabemos que durante os 25 anos houve muito empenho na evangelização, foram realizados muitos trabalhos, construções e organização de comunidades. Muitos jovens angolanos sentiram o chamado de Deus para serem 4 | FINDA | 25 anos | franciscanos e alguns já se consagraram a Ele. Tudo isso é fruto da presença significativa da vida franciscana. Quero recordar-lhes os valores centrais de nossa vida. Primeiro a nossa relação com Deus, que deve ser sempre cultivada com atenção e amor. Depois a nossa relação fraterna: a pertença à fraternidade vem antes de qualquer outra categoria de pertença e também a fraternidade precisa de dedicação total e de empenho evangélico e absoluto; não se contentem nunca com uma qualidade de vida medíocre em fraternidade. Ainda, coloquem em prática a simplicidade de vida e sobriedade para dar um maior testemunho possível ao povo angolano. Enfim, como nos sugere também o Papa Francisco, cuidado para não caírem na armadilha do clericalismo, que não tem nada a ver com a nossa identidade franciscana. Esperamos que todo o empenho dos missionários continue produzindo frutos para o Reino de Deus e que o povo angolano tenha sempre mais vida em abundância. Que a reconstrução depois da guerra seja principalmente de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Esperamos também que o Senhor da messe continue chamando jovens angolanos para se consagrarem a Ele e anunciarem Jesus Cristo, único Salvador, com a vida e a palavra. Com toda gratidão invocamos as mais copiosas bênçãos sobre esta fraternidade. Roma, 08 de setembro de 2015. Ministro Provincial C aros Irmãos, Tomás de Celano, ao narrar os inícios da conversão de São Francisco de Assis, relata que num determinado dia, ao ser assaltado por ladrões que lhe pediram uma identificação, ouviram do jovem Francisco esta resposta: “Sou um arauto do grande Rei” (1Cel 16). E com o passar dos meses, na inquietante busca da vontade do Senhor, ele descobre no livro dos Evangelhos o real significado do ser arauto do grande Rei. Revestido com as vestes do Evangelho, na gratuidade e a exemplo de Cristo e de seus discípulos, Francisco caminha por entre o povo para simplesmente levar a paz e fazer o bem a todos. Esta forma de vida atraiu outros ‘arautos’ que, com e como Francisco, abraçaram a mesma vida identificada como ‘expressão’ viva do santo Evangelho (cf. 1Cel 32). E quando chegam ao número de 12 ‘irmãos’’, vão a Roma e se encontram com o Papa Inocêncio III e dele recebem o mesmo mandato evangélico: “Ide, com o Senhor, irmãos, e pregai a todos a penitência” (1Cel 33). A Ordem Franciscana, desde os seus primórdios, se entende como irmãos enviados pelo Senhor para darem “testemunho da sua voz pelo mundo universo” (CtOr 9). Este espírito missionário, tão vigoroso e heroico nas origens da Ordem Franciscana, é fundamental para compreender e justificar a presença dos 25 anos da nossa Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil em terras angolanas. Jamais podemos nos esquecer de que esta Missão foi abraçada em tempos de dificuldades extremas, de carências e de muitas dores. Contudo, não faltaram aos nossos primeiros confrades enviados a esta nova frente missionária a fé, a ousadia profética e a coragem do testemunho. Como também não podemos nos esquecer de que estes primeiros irmãos eram o dom mais precioso do nosso singelo ofertório, da nossa ação de graças e do nosso gesto concreto de ‘res- mensagem Frei Fidêncio Vanboemmel, OFM tituição’ ao Senhor pelos missionários alemães que haviam restaurado a nossa Província, a partir de 1891. Esta singela revista quer ilustrar a vida dos 25 anos desta nossa Missão, hoje presente na Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola e na alma do querido povo angolano com quem partilhamos nossa vocação e missão. Uma ilustração que é acima de tudo um único e grande hino de Ação de Graças! Se a Missão persistiu nestes 25 anos, primeiro agradecimento se dirige ao Onipotente e Bom Senhor, o Doador de todos os dons, e à sua Mãe Santíssima, a Imaculada Virgem Maria, a “Mamã Muxima”, Mãe protetora da Missão. Nesta ação de graças a Deus está também nosso agradecimento à Igreja de Deus que está em Angola: Bispos, sacerdotes, missionários, religiosos, religiosas e ao povo angolano. Uma Igreja que nos acolheu, compreendeu, incentivou e nos perdoou nas nossas fragilidades humanas. Neste mesmo hino de ação de graças se encontram todos os confrades que se fizeram presentes na missão, tanto os da nossa Província como os das outras Entidades: muito obrigado pelo vosso “SIM” missionário. No mesmo hino de louvor estão presentes todos os benfeitores e benfeitoras, os voluntários e todas as pessoas de boa vontade que, no mesmo espírito e unidade, compartilham a vida e a generosidade como verdadeiros missionários. Enfim, neste mesmo hino de ação de graças, já cantado no som e ritmo de Angola, estão os confrades, os postulantes, os aspirantes e os seminaristas da Fundação Imaculada Mãe de Deus: irmãos dados pelo Senhor, com alma e rostos angolanos! “Louvai e bendizei o meu Senhor, e dai-lhe graças, e servi-o com grande humildade”. | 25 anos | FIMDA | 5 Documento A ÁFRICA NOS CHAMA T Transcrevemos os principais trechos da Carta “A África nos chama”, apresentada pelo Ministro Geral Frei John Vaughn, OFM, por ocasião do oitavo centenário de nascimento de São Francisco. Este jovem continente foi escolhido pela Ordem Franciscana para dar continuidade à fraternidade que Francisco iniciou na pequena cidade de Assis. Oferecimento franciscano O irmão missionário será, primeiramente e antes de mais nada, um hóspede e um discípulo na Igreja local; mas ele não vem com as mãos vazias; seu dom à Igreja local é a espiritualidade franciscana, que está viva na Igreja universal. Cremos que esta espiritualidade é um aspecto particular da vida total da Igreja, à qual os africanos têm direito, como qualquer outro membro da Igreja universal. Nós procuramos compreender este novo modo à luz dos sinais dos tempos hoje, e estamos muito animados, neste sentido, pelas respostas dos Bispos, encontradas numa recente viagem de orientação pela África. Resposta africana Esperamos que este novo modo de enfrentar as coisas clarifique outro aspecto daquilo que a missão é na Igreja hoje. A evangelização é um processo com duplo sentido: no sentido em que se dá e se recebe. Portanto, em nosso caso deveria existir uma resposta africana ao nosso oferecimento da espiritualidade franciscana. Até agora, a vida e o trabalho de Francisco foram interpretados 6 | FINDA | 25 anos | quase exclusivamente em termos de cultura ocidental, especialmente na cultura de Assis e da Itália. Cremos que a experiência africana dos valores humanos e religiosos possa dar-nos, a nós todos, novas intuições dos valores, tão importantes para nós, como a oração, a pobreza, a minoridade, a alegria, a simplicidade, a vida fraterna, o estilo de vida evangélica ... Prioridade sobre o trabalho Nossa decisão de sublinhar o valor da fraternidade sobre o trabalho implica numa nova escolha importante. Também o nosso método missionário deve assumir um caráter diferente. O primeiro objetivo é a realização destes valores da fraternidade em nosso estilo de vida. A própria experiência da fraternidade se converte num objetivo. Para nossos irmãos será um passo essencial para o momento em que todo o peso da missão estará sobre os ombros deles. No passado os irmãos andaram pelas regiões mais afastadas do mundo para levar o Evangelho e, muitas vezes, estiveram a sós por muito tempo. E muitos ainda vivem assim. Isto não é contrário ao franciscanismo e temos o maior respeito e admiração por seu espírito de sacrifício e pelos resultados obtidos. É uma opção pelo bem da missão. Pensamos que esta escolha deva ser cedida aos próprios irmãos africanos. Mas, deveriam ter, sobretudo, a plena experiência da fraternidade franciscana; somente mais tarde, e com esta experiência, poderão decidir o que a vocação missionária parece exigir deles, uma cultura particular, num tempo particular. Novas estruturas jurídicas A interprovincialidade deste Projeto-África terá também uma particular estrutura jurídica para a nossa presença franciscana. Uma vez que muitas situações só podem ser previstas de maneira muito genérica, parece aconselhável que as estruturas devam ser simples e flexíveis. Para ser eficaz, o grupo internacional e interprovincia1 dos irmãos fará bem reduzindo ao mínimo a quantidade de estruturas que agora tem e, por outro lado, assumindo uma atitude aberta para a integração na cultura africana, já desde o princípio. Ao mesmo tempo, visto que serão necessárias algumas estruturas, para formar as Comunidades, para determinar as responsabilidades, para manter os laços com a Cúria Generalícia e com as Províncias de origem, já se começou, na Cúria Geral, um estudo para um esquema de estruturas provisórias adaptadas. Preparação adequada A cuidadosa preparação de uma iniciativa como está é uma exigência justa da prudência e do interesse fraterno. De fato, muitos bispos africanos e missionários nos aconselharam tomar muito a sério esta preparação. As diferenças culturais e as sensibilidades nacionalistas são hoje muito mais aguçadas do que eram no passado. Além disso, cada grupo levará consigo as próprias dificuldades, causadas pela posição interprovincial e internacional. O compromisso missionário põe-se em discussão, já desde o princípio, pela prioridade da inculturação e da exposição transcultural. Os membros de qualquer grupo que vá à África deverão conhecer-se bem entre si. Estes receberão uma primeira introdução na cultura para a qual estão sendo designados e começarão o estudo da língua. Neste estágio, a Secretaria Geral das Missões e uma comissão consultiva terão um trabalho importante. MOTIVAÇÕES DO PROJETO-ÁFRICA Devemos reconhecer a importância que o Terceiro Mundo está assumindo no atual desenvolvimento mundial. Sua riqueza em matérias primas, a explosão demográfica e a sucessiva emigração de milhões de pessoas, está produzindo efeitos políticos e econômicos duradouros. No entanto, o atual sistema de assistência econômica não poderá conter, por longo tempo, a energia potencial que está escondida nestes países. Os peritos creem que a nova fase dos anos 80 poderia ser a crescente tomada de consciência do Terceiro Mundo a respeito de suas potencialidades. Tendências semelhantes virão à luz na própria Igreja, e é importante que a Ordem esteja preparada para enfrentar estes desenvolvimentos. A África certamente desempenhará o seu papel neste crescimento de autoestima. Também no campo religioso a África oferece oportunidades únicas. Ao contrário da Ásia, onde as religiões mundiais já há muito tempo são de casa, a África poderá converter-se em cenário de encontro entre as religiões mundiais, como o Cristianismo e o Islã e as antigas culturas africanas. Isto daria uma oportunidade às duas para encontrar novas respostas na integração cultural e para uma atitude mais aberta para com as novas situações. Tanto o Islamismo como o Cristianismo não deveriam perder a ocasião de um novo modo de valorizar-se reciprocamente. Em lugar de fazer-se a guerra, a nova situação deveria ser vista como um convite para uma colaboração mais íntima em objetivos e projetos comuns. As perturbações, que estão acontecendo na África, tocam profundamente a muitos africanos. As mudanças políticas, econômicas e sociais privaram a muitos africanos de sua segurança e da proteção de sua tradicional comunidade social. Muitos deles estão isolados e marginalizados e em busca de uma nova comunidade. É sobre este tema da comunidade que os esforços missionários do Islã e da Cristandade poderão atingir aqueles africanos que escutam atentamente e que estão em busca de identidade e segurança. Não devemos aproveitar esta ocasião e oferecer-lhes o carisma da fraternidade franciscana como resposta às suas necessidades? Finalmente, teremos um número maior de irmãos africanos. Isto nos ajudará a compreender melhor o Terceiro Mundo africano e qual poderia ser a nossa colaboração franciscana. Então, os franciscanos africanos serão os missionários de seu continente. Esta seria uma notícia agradável até para as pequenas entidades já existentes na África. Com o tempo, os reforços para eles deverão chegar dos próprios africanos. A autonomia do Terceiro Mundo em geral, e da África em particular, tem assim uma aplicação para aquilo que diz respeito ao futuro de nossas fraternidades africanas. Mas o nosso motivo para estabelecer mais solidamente a Ordem na África vai mais além. A África e todo o Terceiro Mundo estão ansiosos para sair de si mesmos. Não se recusam apenas a fazer o papel do necessitado, mas desejam compartilhar suas riquezas, que não são riqueza econômica ou superioridade tecnológica, mas uma rica experiência de formas de vida alternativa e de interação humana. Podem ainda oferecer valores e intuições religiosas. Aqui encontramos a Missão como processo com duplo sentido: naquele em que o Primeiro Mundo assume o papel de quem recebe com agradecimento. Em nosso caso, esperamos com ansiedade saber mais do Francisco africano e dos pontos de vista e da experiência africana daqueles valores que reconhecemos como parte de nossa identidade franciscana. Este novo contato com o mundo africano pode, pois, abrir nossos olhos ao sempre crescente número de asiáticos e de africanos no Primeiro Mundo, milhões dos quais representam uma tradição não cristã. Poderia dar nova energia ao nosso modo de ser missionário com eles e a tantas outras situações não cristãs de nosso ambiente. Uma presença mais intensa na África nos faz estarmos presentes, de um modo positivo e de fato, entre os povos que passam fome, que não têm casa, entre os enfermos, os analfabetos, as vítimas da guerra e da tirania. São Francisco e seus seguidores podem dar uma ajuda, mas sobretudo muita esperança, alegria e principalmente paz. Queira Deus conceder-nos a graça de sermos hoje grandes pacificadores, especialmente entre os terríveis perigos dos armamentos nucleares. Muitos irmãos preocupam-se em promover a paz, o que é uma coisa ótima. Oxalá o nosso Projeto-Franciscano-África possa ser um projeto de paz!!! Frei John Vaughn, OFM Ministro Geral Roma, 16 de janeiro de 1982 | 25 anos | FIMDA | 7 envio “E PELO MUNDO EU VOU...” Há 25 anos, no dia 16 de setembro de 1990, na Missa solene no Seminário de Agudos foram enviados os primeiros missionários O bispo de Malange recepciona os primeiros missionários na chegada a Malange. À direita , a celebração do envio em Agudos. 8 | FINDA | E “ 25 anos | pelo mundo eu vou, cantando o teu amor, pois disponível estou para servi-te, Senhor!” O canto ecoou solene na bela igreja do Seminário Santo Antônio de Agudos no dia 16 de setembro de 1990, já Festa das Chagas de São Francisco de Assis, festa que fala diretamente da Cruz do Senhor, quando era celebrada a Missa de Envio dos primeiros missionários a Angola. Na celebração presidida pelo Ministro Provincial, Frei Estêvão Ottenbreit, estavam os três missionários, que abririam as trilhas da Missão: Frei Plínio Gande da Silva, Frei José Zanchet e Frei Pedro Caron. Eles representavam os 550 frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição, que naquela momento dava o seu “sim” à convocação do Ministro Geral, Frei John Vaughn, com o pedido “A África nos chama”. Antes de entregar a Cruz Missionária, o Ministro Provincial lhes fez três perguntas, em que estava embutido o programa da Missão: - Diante de representantes de mais de 20 Fraternidades de nossa Província, eu lhes pergunto se, de fato, estão dispostos a partir e a perseverar frei plínio A MAIOR EXPERIÊNCIA DE DEUS NA MINHA VIDA em todas as adversidades e, na alegria franciscana, dar testemunho de total entrega à Missão, incluída a própria vida? - Partindo para a missão na África, vocês deverão – como o Cristo fez quando veio ao mundo – encarnar-se no povo a quem vão servir. Estão dispostos a renunciar a seus modos culturais de viver, fazendo todo o esforço para levar a paz e o bem na convivência plena com a nova cultura que vocês vão encontrar? - Vocês irão à Missão não para satisfazer a própria vontade. Vocês irão em nome de todos os confrades da Província. Vocês irão como se o próprio Pai São Francisco refizesse sua Missão na África. “De São Francisco se disse que levava sempre Jesus no coração, Jesus na boca, Jesus nos ouvidos, Jesus nos olhos, Jesus nas mãos, Jesus em todos os membros do seu corpo”. É exatamente isto que vocês querem fazer na Missão? Naquele dia, Frei José revelou que havia dentro dele um fogo que teimava em não se apagar, já que em 1967 partiu para o Chile e, em 1984, partiu para o Mato Grosso. Agora, definindo-se como “louco”, viajava a Angola para “o que der e vier”. Frei Plínio confessou: “Parto feliz – acrescentou – de uma felicidade nunca antes experimentada por mim”. Já Frei Pedro revelou que nunca tivera coragem de se apresentar para a Missão no Mato Grosso, por ser muito longe. E não sabia explicar por que partia naquele momento. Para ele, era a vontade de Deus: “Deus escolhe os mais simples e tolos. Coloca-se entre eles para dizer, como Isaías: ‘Eis-me aqui, enviai-me’.” Os três missionários embarcaram no dia 24 de setembro de 1990 e chegaram em Angola no dia 25. N atural de Divino, em Minas Gerais, Frei Plínio Gande da Silva vestiu o hábito franciscano em 11 de fevereiro de 1962. Ele professou como Irmão Leigo na Ordem dos Frades Menores em 7 de julho de 1969. Para Frei Plínio, ser missionário na África foi a realização de um sonho e que ele classifica “como a maior experiência de Deus” em sua vida. “Desde pequeno via os missionários verbitas e redendoristas e dizia que um dia seria missionário”, explica o frade, contando como foi a chegada a Angola. “Encontramos um país em guerra. Inclusive ao chegarmos no aeroporto estava à nossa espera o Bispo Dom Eugênio, que nos saudou com a seguinte frase: ‘Se vocês estão pensando em Teologia de Libertação, podem pegar o mesmo avião de volta para casa’. Logo após, começou um tiroteio entre UNITA e MPLA, pois a UNITA queria conquistar o aeroporto. Todos ficaram deitados no chão até que a MPLA tivesse o controle da situação”. “Achava que era uma guerra isolada e que não nos prejudicaria tanto. Mas a realidade foi outra e chegamos a ficar dois anos isolados do mundo em Kibala (93-95). Para mim foi a maior experiência de Deus na minha vida, pois a todo momento sentia sua presença em meio à guerra que não tinha fim”. Frei Plínio, que reside na Fraternidade Nossa Senhora Aparecida de Nilópois, ficou em Angola oito anos e agora volta para celebrar os 25 anos. “Espero encontrar um País sem guerra, sem fome, onde as crianças tenham o direito à educação, saneamento básico, hospitais. Nossos confrades em evangelização com o povo, acolhendo novos vocacionados. E o direito de ir e vir do povo”. Para quem quiser fazer a experiência missionária, Frei Plínio recomenda: “Vá com muita fé , esqueça toda sua cultura e procure se inculturar com o povo”. | 25 anos | FIMDA | 9 FREI PEDRO “Procurava dar a melhor mensagem à luz do Evangelho” N Em pé, da esq. para dir: Frei Evaldo, Frei Plínio, Frei Lotário e Frei José. Agachados, Frei Pedro e Frei Juvenal Sansão. 10 | FINDA | 25 anos | atural de Água Doce (SC), Frei Pedro Caron esteve na Missão por doze anos e meio, em três períodos. “Numa conversa com Frei Estêvão Ottembreit, então ministro provincial, sobre missão ad gentes, ele me desafiou: você não quer ir para missão? (Guiné Bissau era a primeira proposta). Eu falava da China. Admirava o país, mas o problema era a língua. Diante do desafio, fui rápido: ‘topo’! Mais tarde, Frei Estêvão me falou que havia sido o primeiro a se apresentar e que a missão seria em Angola”, recorda o missionário, hoje residindo em Concórdia. Frei Pedro, que ingressou na Ordem Franciscana em 19 de dezembro de 1964, não esquece duas experiências que viveu ali. “Numa ocasião, em Kibala, Frei José Zanchet, eu e mais alguns homens fomos enterrar cadáveres que jaziam ao sol numa espécie de rotatória de car- ros, junto à vila. Estavam ali insepultos há duas semanas devido à guerra civil. Eram quatro defuntos. Foi uma experiência de fé. Eu propus fazer essa obra de misericórdia num domingo. Em outra ocasião, devido à gravidade da guerra, tivemos a oportunidade de voltar para casa com passagem paga pelo governo brasileiro. Mas nós, frades, nos reunimos e decidimos continuar junto do povo”. Segundo Frei Pedro, esses anos vividos em Angola marcaram sua vida: “Aprendi a virtude da paciência, da alegria, a valorizar o canto, a dança, a família, os símbolos religiosos e a comunhão com os mais sofridos. Procurava dar a melhor mensagem à luz do Evangelho”. Para os novos missionários, Frei Pedro recomenda: “Acredite de verdade no Cristo! Viva a espiritualidade de São Francisco, seja simples, acolhedor, enfim, frade menor!” Frei José Zanchet C ompletando 80 anos em 2015, (ele nasceu no dia 27 de outubro de 1935), Frei José Zanchet é a história viva da Missão Franciscana em Angola. Componente do primeiro grupo enviado pela Província da Imaculada ao país africano, viveu em Malange e Kibala, em sua primeira passagem pela missão, que durou cinco anos (entre 1990 e 1995) e hoje vive em Viana, em sua segunda experiência na missão (desde dezembro de 2013), quando foi transferido da Fraternidade São Francisco Solano, de Curitibanos, SC. Com quase 60 anos de vida religiosa, Frei José tem como marcas a disposição missionária (esteve no Chile, no Sertão da Bahia, no Mato Grosso e em Angola) e aptidão para atividades práticas, ligadas à eletricidade, pequenos reparos, etc.). Gaúcho de Três Arroios, RS, animou-se em partir para terras angolanas depois que participou de um encontro realizado para os interessados em conhecer um pouco mais da proposta de presença da Província em Angola, realizado entre 22 e 24 de junho de 1990, no Convento São Francisco, em São Paulo. Na época Frei José trabalhava em uma paróquia de Dourados, MS, e relata que a partir daquele encontro em São Paulo se sentiu chamado a seguir para a África: “Eu cheguei na Paróquia em Dourados e logo me sentei para escrever uma carta ao Provincialado, dizendo que estava pronto para partir. Uns quinze dias depois, Frei Estêvão Ottenbreit (Ministro Provincial da época) me telefonou perguntando se eu estava ELO VIVO ENTRE O PASSADO E O PRESENTE disposto mesmo, e eu respondei: ‘Claro, mande-me’”, conta Frei José, mostrando que desde o início estava inteiramente à disposição para integrar este projeto missionário. Diante da resposta positiva de Frei José, foram realizados os encaminhamentos necessários. A celebração de envio ocorreu no dia 16 de setembro de 1990, no Seminário Santo Antônio, em Agudos, e o embarque dos missionários, entre eles Frei José, foi no dia 24 de setembro do mesmo ano, sendo que no dia seguinte já estavam em Luanda e, depois, Malange, lugar onde ficariam instalados. Angola estava em guerra civil e Frei José conta que as dificuldades deste conflito já puderam ser sentidas na chegada. “Quando desembarcamos em Malange, a primeira coisa que vimos do avião foram sete ou oito soldados com as metralhadoras apontadas. Descemos e tivemos que fazer novamente todos os papéis – mesmo já tendo passado por todos os trâmites em Luanda – como se estivéssemos chegando a um país estrangeiro. Como não havia nenhuma mesa para nos apoiarmos, pedi ao Frei Plínio Gande, outro missionário do primeiro grupo, para me ‘emprestar’ as costas e, assim, preenchemos os papéis um nas costas do outro”, recorda. Por conta das dificuldades de comunicação, a comunidade da Missão em Malange também não tinha informações precisas sobre a hora de chegada dos missionários, mas mesmo assim, | 25 anos | FIMDA | 11 Duas gerações: o angolano Frei António abraça Frei José Zanchet, o primeiro missionário. 12 | FINDA | 25 anos | dentro das possibilidades, fomos muito bem recebidos.” “A recepção foi muito carinhosa. Mais ou menos uma hora e meia de cantos e homenagens, até que seguimos para casa, já pelas 16h do dia 25 de setembro, para almoçar e descansar um pouco da viagem. O primeiro trabalho dos frades em Malange foi a visita às comunidades da missão, que eram cerca de 135, muitas delas de acesso muito difícil. Frei José Zanchet destaca e menciona a importância da figura dos catequistas para a sobrevivência em Angola. De acordo com o frade, nas aldeias, que recebiam a visita esporádica de missionários, eram estes homens que mantinham acesa entre o povo a chama da fé. Os catequistas organizavam os trabalhos pastorais e também conduziam as celebrações de domingo. Com frequência se entusiasmavam e as celebrações ficavam longas, fato do qual Frei José se recorda com certo humor. Frei José e os outros dois missionários permaneceram em Malange até o fim de agosto de 1992, quando foram transferidos para a cidade de Kibala, na Província do Kwanza Sul, a convite do então bispo da Diocese de Sumbe, Dom Zacarias. Eles ocuparam as instalações dos Padres Espiritanos, que haviam deixado a área por conta da guerra. O início da Missão em Kibala foi no dia 31 de agosto de 1992. Os trabalhos principais eram a assistência às Irmãs Clarissas, que na época moravam naquela cidade, e o acompanhamento das aldeias. As dificuldades eram muitas, principalmente por conta da guerra. Num momento de grande tensão, Frei José relata que os frades chegaram a ver a morte de perto: “O mais triste foi quando invadiram nossa casa e nos levaram pre- sos para o Centro de Kibala. Praticamente íamos ser fuzilados. Entraram em nossa casa, perguntaram quem eu era e logo me deram um bofetão no rosto que quebrou meus óculos. Fui me defender com o cotovelo e levei outro tapa”, conta Frei José, segundo o qual, naquele dia, os frades só não foram mortos porque um dos chefes da Unita os reconheceu. Esta ofensiva contra os frades ocorreu por dois motivos: o primeiro porque naquela ocasião Kibala estava sob o domínio da Unita e alguns helicópteros do governo pousaram no terreno da missão, o que levou os dominadores da cidade a imaginarem que os frades estivessem dando apoio às tropas rivais. E a outra motivação foi o fato de os frades abrigarem alguns meninos e jovens, pois, a partir dos 11 anos, eles eram pegos à força para trabalhar pelos combatentes. Conseguir comida também era uma verdadeira aventura. O pouco que obtínhamos de alimentos era através de Frei Plínio Gande da Silva que, a partir da troca de peças de roupa, cartelas de remédio ou outros artigos que levava até a praça (espécie de mercado informal a céu aberto), conseguia algo para se comer. Outra grande dificuldade era para se comunicar. Os frades em Kibala ficaram mais de um ano sem nenhuma comunicação com os demais confrades. A única maneira que tinham para se informar era um pequeno radinho improvisado que funcionava movido a energia gerada por uma roda de bicicleta. “Nós improvisamos um gerador com uma bicicleta que colocamos de cabeça para baixo. Enchemos o pneu com pedaços de pano velho e ali girávamos para ter energia para o radinho e assim conseguíamos ficar minimamente informados. Frei José retornou de Kibala para o Brasil em 1995. Em 1998, depois de Frei Valdir Nunes Ribeiro sofrer um atentado, os frades se retiraram de lá, retornando àquela localidade em 2008, bem depois do fim da guerra. Perguntado sobre o que o levou a querer retornar à missão às vésperas de completar 80 anos, Frei José aponta dois motivos: o carinho que ele adquiriu pela missão na primeira vez em que lá esteve e também a curiosidade sobre como estaria o país depois do fim da guerra. Frei José declara que se sente feliz nesta nova etapa na missão, mas revela que, conforme se propôs para esta segunda etapa, pretende solicitar à Província seu retorno ao Brasil no mês de maio de 2016. FREI LOTÁRIO, MISSIONÁRIO PARA SEMPRE O gaúcho Frei Lotário Neumann não ficou muito tempo em terras angolanas, mas escreveu para sempre o seu nome na história da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola. Ele partiu em missão no dia 21 de março de 1992, junto com Frei Evaldo Melz, e foi levado pela Irmã Morte no dia 4 de janeiro de 1993. “Você parecia vender saúde, forte, disposto, resoluto e dedicado, transpunha com relativa facilidade muitos obstáculos e dificuldades, enquanto os outros companheiros se viram imediatamente nas garras do paludismo, minando a saúde e o estado psicológico. De repente, você em poucos dias recebeu o convite da Irmã Morte para despedir-se de nós, deixar tudo como prometeu no dia de sua profissão religiosa e ‘possuir’ unicamente Deus”, escreveu Frei Estêvão Ottenbreit, então Ministro Provincial, em carta se dirigindo a Frei Lotário após o seu falecimento. O missionário gaúcho nasceu em Arroio do Meio (RS) e ingressou na Ordem Franciscana em 1966 pela Província São Francisco de Assis, onde professou solenemente no dia 2 de abril de 1972. Ordenou-se presbítero no dia 27 de dezembro de 1975. Trabalhou na formação, foi procurador vocacional e foi eleito duas vezes Definidor. Em Angola, foi nomeado guardião da Fraternidade de Malange e guardião da Missão. “Você muito bem sabia da minha preocupação constante a respeito da situação precária de nossa missão em Angola (precariedade material e necessidade de pessoal). Em diversos momentos partilhamos esta preocupação. Por isso suas palavras de despedida calaram tão fundo em mim. Suas últimas palavras foram: ‘Conte sempre comigo na missão de Angola!’ Frei Lotário, quem de nós poderia imaginar que estas palavras tão depressa adquiririam importância definitiva? Agora, sim, elas se cumpriram! A África o acolheu para sempre. Em seu chão banhado de sangue dos que morrem vítimas da guerra fratricida e de suas funestas consequências, nós o deitamos como se deita um grão de trigo na terra”, acrescentou Frei Estêvão na carta de despedida. | 25 anos | FIMDA | 13 entrevista FREI ESTÊVÃO OTTENBREIT GRATIDÃO E ALEGRIA A Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil celebrou em 1991 o centenário de sua restauração graças aos missionários alemães. Esse momento de alegria e gratidão ganhou da Fraternidade Provincial uma corajosa decisão de enviar missionários brasileiros para Angola. À frente desta nova empreitada estava um missionário alemão, Frei Estêvão Ottenbreit, um dos responsáveis – senão o responsável – personagens deste primeiro capítulo da história de 25 anos da presença franciscana em Angola. Incansável, destemido, Frei Estêvão estava à frente da Província da Imaculada no segundo mandato como Ministro Provincial quando iniciou o processo para o envio dos missionários. Natural de Grosswallstadt, na Alemanha, onde nasceu no dia 6 de setembro de 1942, Frei Estêvão veio para o Brasil ainda jovem, onde recebeu o hábito franciscano no Noviciado de Rodeio em 1963. Ordenado presbítero em 1969, em 1982 era eleito Vigário Provincial e, de 1985 a 1994, Ministro Provincial. Nesses dois mandatos, não poupou esforços para ver a Missão de Angola se tornar uma realidade, mesmo em meio às enormes dificuldades, especialmente no período da guerra. Hoje, fala com emoção e alegria dos frutos que a Missão colhe. Para ele, este jubileu tem que ser festejado com gratidão e muita alegria! Por Moacir Beggo Por que a Província decidiu abrir uma frente missionária? Frei Estêvão – A primeira resposta deveria ser – e deve ser – porque a Ordem Franciscana é missionária. Somos chamados para sermos enviados. Logo, devemos ser missionários lá onde estamos. Concretamente aqui, no Brasil, nos cinco estados – Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, mas também em lugares além do território da Província. 14 | FINDA | 25 anos | A ideia de partir em missão na África surgiu por ocasião do Centenário de Restauração da nossa Província por missionários franciscanos alemães. Como sabemos, a antiga Província franciscana esteve muito próximo de se extinguir. A partir de 1855 não podia mais acolher novos membros, noviços. Então, bastaram quarenta anos para reduzir uma Província em decadência - também por outras causas - a um único sobrevivente em 1889, ano da proclamação da República. Nessa mesma época, os católicos alemães sofriam perseguição por parte do chanceler Otto von Bismarck, cujo sonho era transformar a Alemanha num país protestante (já que a reforma protestante teve seu início na Alemanha). Encorajados pelo superior da Ordem em Roma, os franciscanos tomaram a decisão de partirem em missão ao Brasil e reerguer a nossa Província em vias de extinção. Chegaram em 1891. Cem anos depois, em 1991, preparando esse centenário da chegada dos primeiros missionários alemães, refletimos sobre como poderíamos celebrar este evento. Uns achavam que seria interessante escrever um livro, outros que deveríamos fazer uma grande celebração, outros ainda que poderíamos construir um monumento para comemorar esta data significativa. Foi neste clima que apareceu a ideia de repetirmos o gesto dos missionários alemães | 25 anos | FIMDA | 15 O centenário nos deu o motivo e a carta, a direção e o modo de como deveríamos estar presentes em Angola quando vieram para restaurar a nossa Província. Em outras palavras: assim como eles vieram, nós vamos partir. Era uma forma de a Província retribuir a gratidão com o mesmo gesto? Frei Estêvão – Sim, exatamente. Queríamos imitá-los indo a um lugar onde a Ordem ainda não estava presente. Na época tínhamos bem presente uma carta que o então Ministro Geral, John Vaughn, escrevera em 1982 com o título “A Da esq. para dir.: Frei Alexandre Magno e Frei Luís Iakovacz celebrando na aldeia. 16 | FINDA | 25 anos | África nos chama”. Esta carta foi motivada pela constatação que a Ordem estava espalhada pelo mundo inteiro, mas muito reduzida no continente africano. Inicialmente até voltamos nossos olhares para Guiné Bissau, onde já estavam franciscanos italianos e portugueses. Depois se achou melhor ir para Angola onde ainda não havia uma presença OFM. Então, juntaram-se as duas coisas: o motivo do centenário e o apelo da carta “A África nos chama”. O centenário nos deu o motivo e a carta, a direção e o modo de como deveríamos estar presentes em Angola. O Ministro Geral, nesta carta, indica que se de um lado, como diz o Evangelho, devemos ir sem levar nada, por outro lado, “não vamos de mãos vazias”. Em outras palavras, quem vai deve ir com a consciência de ser portador do carisma franciscano a ser partilhado com nossos irmãos africanos. Uma presença, portanto, como irmãos e menores, partilhando o carisma franciscano com jovens dispostos a abraçá-lo e dando-lhe um rosto africano. A missão era, então, tornar conhecido o carisma franciscano? Frei Estêvão – Sim. A nossa missão seria antes de tudo esta. Pode soar um pouco forte o que vou dizer agora: não fomos para resolver os problemas sociais da África ou para resolver os desafios da Igreja em Angola, mas para a “implantatio ordinis” (fazer surgir uma nova entidade franciscana em Angola). Evidentemente, quando fomos, queríamos nos tornar úteis também nestes dois sentidos, seja em obras sociais, seja em serviços pastorais. Basta dizer que nos foram confiadas três paróquias, nas quais há obras sociais atendendo a diversas necessidades. Mas a principal “tarefa” da nossa ida era e continua sendo fazer conhecido o carisma franciscano, entusiasmar jovens angolanos para abraçarem esse carisma e ajudar a constituir uma entidade angolana na perspectiva da carta “A África nos chama”. Nela encontramos as principais referências para o porquê e o como estarmos presentes nesta missão. Por isso é sempre bom lembrar essa carta aos atuais e futuros frades brasileiros e angolanos – da missão em Angola para que possam, cada vez mais “dar um rosto angolano” aos enfoques franciscanos, assumindo valores da cultura local. Ao completarmos 25 anos de presença em Angola temos que manter viva essa memória. O que levou a Província a optar por Angola se temos no Brasil muitos descendentes africanos? Frei Estêvão – Essa pergunta foi a que mais ouvi quando nos decidimos por Angola. Por duas vezes viajei na companhia do então secretário da Província, Frei Anacleto Gapski (1989 e 1990), para preparar a nossa presença. Por que Angola? Num resumo breve de uma longa história devo mencionar que houve um pedido do bispo de Sumbe, Dom Zacarias Kamuenho, enviado à Curia Geral da Ordem em Roma. Pedia assistência para as irmãs clarissas mexicanas que fundaram um mosteiro na diocese. Esta carta não obteve resposta positiva. Alguns anos mais tarde, porém, um outro bispo, desta vez o bispo de Malange, Dom Eugênio Salessu, escreveu ao Ministro Geral da Ordem pedindo pelo mesmo motivo a presença de frades em Malange (para o mosteiro de clarissas que vieram da Espanha). Ele teve mais sorte porque seu pedido coincidiu com a nossa manifestação de querer partir em missão para a África. Assim acabamos indo para Angola e, a rigor, estamos lá por causa do pedido das irmãs cla- rissas. Mais tarde elas até se tornariam decisivas para que pudéssemos consolidar a nossa presença em Angola. Voltando à pergunta feita com frequência, até num certo tom de crítica: realmente, temos muitas situações semelhantes e desafiadoras na sociedade e na Igreja no Brasil. Mas como já estava tentando explicar: nossa inspiração e tarefa explícita vinha da carta “A África nos chama”, que nos pedia uma presença em países onde a Ordem ainda não estava presente e, principalmente, para compartilhar com outras culturas o carisma franciscano. Lembro-me também que, neste contexto, se questionava a entrega de conventos. Concretamente, o convento de Ipanema na cidade do Rio de Janeiro. Tive até certa dificuldade de encontrar uma resposta para as Irmãs Clarissas do mosteiro do Rio de Janeiro que insistiram em dizer que “Ipanema, também era terra de missão”. Enfim, observações deste tipo vinham de A principal ‘tarefa’ da nossa ida era e continua sendo fazer conhecido o carisma franciscano todas as partes. Para não sair, facilmente se encontra mil e bons argumentos... Mas, nós queríamos colocar um sinal claro (no ano jubilar) de partilha do pouco que tínhamos para quem não tinha nada. De abrir-nos, de ser “uma Igreja em saída” como nos diz o Papa Francisco hoje. Sem esquecer o tema da restituição à África pelo tanto que nos deu no passado. Confesso que estas perguntas e críticas nos deram oportunidade de refletir sobre o verdadeiro sentido de partir em missão. Em algum momento, o Sr. teve medo de não dar certo este projeto missionário? Frei Estêvão – Como estava envolvido pessoalmente na celebração do centenário e no envio dos primeiros missionários, devo dizer que algumas vezes tive realmente receio de não dar certo. De um lado, simplesmente pelo fato de que, quando partimos, Angola ainda estava em plena guerra civil. Só para lembrar, na primeira viagem, eu e Frei Anacleto só conseguimos chegar a Luanda. Era impossível chegar a Malange por causa dos combates. Nessa primeira viagem encontramos o bispo de Malange em Luanda, de tal modo que a viagem não foi em vão. Já na segunda viagem conseguimos ir até Malange. Levamos literalmente dois dias para fazer uma viagem que hoje se faz em pouco mais de 4 horas. As estradas estavam muito esburacadas e, a cada dez ou quinze quilômetros, havia o perigo das minas bloqueando a estrada. Então, o medo estava presente sim. Além do mais, os primeiros missionários viveram lá em condi- Da esq. para dir.: Frei Simão Laginski; Frei Piaia, Frei Angelo José, Frei Angelo Vanazzi, Frei Márcio, Frei Ivair, Frei José e Frei Paulo. | 25 anos | FIMDA | 17 Quando fomos aconselhados a sair de Angola, os frades foram categóricos: ‘Não vamos sair! O povo sofre. Vamos sofrer com eles’. ções muito precárias (de alimentação, de conforto e de segurança). Por muito tempo, tomar banho só era possível de “canequinha”. Havia falta de água e de comida. Eu me recordo que Frei Plínio (Frei Plínio Gande da Silva), um dos primeiros missionários, às vezes saia de manhã com uma peça de roupa para ver se conseguia trocá-la na praça (feira) por alguma comida para a fraternidade. Hoje, graças a Deus, tudo é diferente. O primeiro destino foi Malange, a paróquia e missão de Katepa? Da esq. para dir.: Frei Laurindo, Frei Odorico e sua gaita. 18 | FINDA | 25 anos | Frei Estêvão – Sim, inicialmente nos estabelecemos em Malange por causa do convite do bispo de darmos assistência ao mosteiro das Clarissas. Atendendo, porém, a conselhos de missionários experientes, procuramos não ficar na dependência de uma diocese e de um só bispo. Sabendo que o bispo de Sumbe havia feito o primeiro pedido aos franciscanos para acompanhar as Clarissas mexicanas, fizemos contato com ele e nos fixamos em Kibala na casa da “Missão” (mas sem padres na época). No dia 31 de agosto de 1992, fiz a primeira visita à nova residência dos frades em Kibala. Frei Plínio e Frei José Zanchet já tinham chegado no dia 28 de julho. O problema é que Kibala estava no território dos adversários do governo. O conflito era basicamente entre o governo (Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA) e a oposição (União Nacional de Independência Total de Angola – UNITA). Inicialmente fomos bem acolhidos no território nas mãos da UNITA. Um belo dia, porém, pousou um helicóptero no terreno amplo e plano da “Missão”. Bastou para que os homens da UNITA desconfiassem dos frades, suspeitando da colaboração dos frades com as forças do MPLA. Por causa disso, quase foram mortos no paredão. Por sorte escaparam pelo reconhecimento da parte de um dos soldados. Sem exagero, se pode dizer que os frades foram muito estimados pelo povo porque eram os únicos, durante os duros anos de guerra civil, sempre dispostos a ajudar, ainda que fosse só para dar um comprimido para dor de cabeça. A mesma sorte não teve o Frei Valdir? Frei Estêvão – Frei Valdir Nunes Ribeiro, em outra ocasião, foi baleado por um soldado. Teve muita sorte ao ser levado de helicóptero para a ca- pital Luanda para ser tratado a tempo. Seria longo demais contar todas as peripécias da missão nesse período de guerra. Mas gostaria de lembrar ao menos uma que aconteceu com este primeiro grupo de frades em Kibala por causar grande preocupação por mais de um ano. Perdemos o contato com eles por estarem incomunicáveis em território da UNITA. Por duas vezes viajei a Luanda, mas não consegui comunicar-me com eles. E para retomar a pergunta a respeito do receio e do medo relacionados com a nossa presença em Angola, quero dizer que a atitude dos frades missionários foi decisiva. Quando a situação ficou realmente muito difícil em todos os sentidos e até os respectivos bispos nos aconselharam a retirada, a resposta categórica dos frades foi esta: “Não vamos sair. O povo sofre. Vamos sofrer com eles”. Mas não foi a guerra que causou a morte de um dos primeiros missionários? Frei Estêvão – O nosso projeto missionário nasceu aberto para a participação de outras entidades brasileiras. A Província que imediatamente demonstrou interesse de participar foi a Província de São Francisco, de Porto Alegre. De modo que, na segunda leva, em março de 1991, fui ao Rio Grande do Sul para participar do envio de dois confrades gaúchos: Frei Lotário Neumann e Frei Evaldo Melz. Frei Lotário estava muito preparado em espiritualidade franciscana e era homem indicado para ser o coordenador do grupo dos frades em Angola. Faleceu, porém, em 4 de janeiro de 1993, vítima de várias complicações, agravadas ainda por um paludismo. Frei Lotário foi a primeira semente que caiu na terra angolana para frutificar. Imaginem o impacto que sua morte causou a todos nós. Qual foi o momento mais difícil da missão? Frei Estêvão – O mais difícil foi uma boa ideia que tive, mas da qual me arrependo até hoje. Na mesma época em que decidimos enviar os primeiros missionários para Angola, o Definitório Provincial chegou a liberar um confrade para a Pastoral Afro no Brasil. Então pensei: “Ninguém melhor do que ele para acompanhar os primeiros missionários a Angola, para ter um contato direto com a cultura afro, em um país de onde vieram pessoas na condição de escravos para o Brasil, etc”. Assim ele embarcou junto com os três primeiros missionários, com a licença de permanecer por um tempo para adquirir conhecimentos e experiência em vista da Pastoral Afro no Brasil. Pessoa inteligente como ele é, imediatamente detectou pontos discutíveis, principalmente olhando a realidade do país e da Igreja a partir da experiência eclesial latino-americana. Não quero e não posso julgar o fundamento das suas críticas. Frei Lotário foi a primeira semente que caiu na terra angolana para frutificar. Imaginem o impacto que sua morte causou a todos nós O problema é que as fez publicamente e as críticas que mais nos dariam trabalho e preocupação foram as dirigidas em carta aberta aos bispos da Conferência Episcopal Angolana. Esta carta se transformou imediatamente num incêndio de grandes proporções. Por causa deste “incêndio”, tive que viajar por diversas vezes a Angola, sempre na iminência de ouvir a ordem dos respectivos bispos, principalmente do cardeal de Luanda: Voltem para casa! O cardeal de Luanda, Dom Alexandre de Nascimento, não podia nem ouvir a palavra “teologia da libertação”. Na mesma épo- ca que nós fomos para Angola, foram também os frades conventuais da Província de Santo André, SP. Por causa das suas críticas tiveram que retirar-se de Angola. Assim nós estávamos também na iminência de sermos mandados de volta ao Brasil. Nem consigo descrever meu estado de espírito e emocional viajando a Luanda na expectativa de ouvir do Cardeal: “Saiam daqui!” Mas houve um “anjo” que veio em nosso socorro. Como foi isso? Frei Estêvão – Falando da nossa missão em Angola e do jubileu de 25 anos de presença, não podemos nos esquecer daquela que eu chamo de mãe da Fundação Franciscana em Angola: a então abadessa das Clarissas, Fabíola Horga Ruiz. Espanhola de origem e abadessa do mosteiro de Malange. O cardeal Dom Alexandre é natural de Malange. Como cardeal de Luanda viu o mosteiro de Malange prosperar em vocações, queria que Da esq. para dir.: Freis em Assembleia em 2013 e Frei Evaristo, muitos anos à frente da Missão. | 25 anos | FIMDA | 19 O jubileu deverá intensificar este apelo para que realmente possamos celebrar a festa na certeza de estarmos fazendo ‘a nossa parte’! elas fundassem também um mosteiro em Luanda. Muito bem. Fizeram as tratativas necessárias. A abadessa Fabíola, conhecendo e participando da nossa aflição acima mencionada, convidou-nos para falar com o Sr. Cardeal. Eu tenho a cena ainda bem clara diante dos meus olhos: Eu e Frei Anacleto, secretário da Província, fomos com a abadessa ao encontro do Cardeal Dom Alexandre. A abadessa, ao entrarmos no palácio episcopal em Luanda, nos disse: “Vocês ficam de boca fechada. Eu é que vou falar!” (Ela era realmente uma mulher resoluta, lutadora, destemida). E Da esq. para dir.: a Família Franciscana de Angola e o Definidor Frei Germano. 20 | FINDA | 25 anos | assim fizemos. Eu e Frei Anacleto, sentados no sofá no fundo da sala e a abadessa e o cardeal ao redor da mesa tratando do novo mosteiro em Luanda. A certa altura, a irmã Fabíola colocou como condição para a fundação do mosteiro em Luanda a garantia da presença dos frades franciscanos para a devida assistência. Ele não gostou desta exigência da abadessa e imediatamente, até em tom bastante elevado, refutou: “Mas, tem que ser brasileiros?”. Ao que ela respondeu com toda a calma, mas com firmeza: “Tem que ser esses ou não vai ter mosteiro.” Enfim, o Cardeal concordou, livrando-nos da ameaça de sermos expulsos do país (porque até aquela data nenhum bispo teve coragem de assinar qualquer tipo de contrato para garantir a nossa presença em Angola). Devo dizer que, a partir daquele momento, o Cardeal mudou gradativamente a sua atitude em relação à presença dos nossos frades. Foi ele que nos cedeu um terreno amplo, pertencente à Mitra de Luanda e vizinho do novo mosteiro das Clarissas. Lá está hoje a sede da Fundação e onde estamos construindo a casa para acolher os frades de profissão temporária, estudantes de Filosofia (dada a proximidade da faculdade). Em conversas posteriores, o Cardeal disse aos frades que gostaria de ter no local um tipo de “Centro de Espiritualidade”, onde as religiosas em geral (na época da guerra 24 horas por dia ocupadas para resolver todo tipo de problema), pudessem fazer seu retiro mensal, confessar-se e descansar um pouco num ambiente agradável. Foi e continua sendo uma feliz ideia. Com Frei Hermenegildo Pereira, construímos uma gruta, plantamos algumas árvores e erigimos uma Via Sacra. Hoje, este lugar é conhecido como “Quimbo de São Francisco” e atrai milhares de pessoas para rezar, principalmente às quintas-feiras. Enfim, o mérito é da Irmã Fabíola, já falecida, que agora certamente continua intercedendo por nós junto de Deus. Como é recordar o início deste projeto que agora celebra o seu jubileu de 25 anos? O que mudou nesse país que acolheu os missionários brasileiros? Frei Estêvão – Depois de trinta anos de guerra civil, a gente vê que a cada ano que passa a situação do país melhora. Em termos de infraestrutura muita coisa mudou e está mudando. Antes não tinha luz e água. As estradas eram precárias. O campo, minado. Hoje tanto a comunicação via internet como por telefone celular já cobre grande parte do país. Em toda a parte se planta e se colhe; e as “cicatrizes” que a guerra deixou vão se fechando cada vez mais. Aproveito a ocasião para falar de outra curiosidade. Somos praticamente a última Província da nossa Ordem a assumir uma região como Missão. Era prática durante séculos as Províncias assumirem um território, providenciando missionários e garantindo o seu sustento. É o que estamos fazendo em Angola. Porém, a partir de 1970, mais ou menos, começou a drástica diminuição de vocações na Europa. As Províncias não tinham mais condições de enviar frades em número significativo. Diante disso, a Ordem incentivou os projetos missionários interprovinciais e internacionais, onde ela assume com a ajuda das Províncias um território, enviando pessoal e garantindo os recursos necessários. Exemplo recente disso é o projeto Amazônia que depende da UCLAF e do Definitório Geral e não mais de uma Província. Durante seis anos como Vigário Geral pude acompanhar estes projetos e não escondo que esta nova praxe ainda nos causa muitos problemas e dificuldades. É que nasce- mos “provincianos” e devemos ainda aprender a abrir-nos solidariamente a toda a Ordem e sua missão. Portanto, somos a última Província de uma praxe antiga. Partimos na confiança de encontrar frades para enviar e recursos para sustentar. Celebrar 25 anos de presença para mim significa antes de tudo agradecer a Deus pela disponibilidade de tantos frades que lá trabalharam – alguns já falecidos – e no momento atual trabalham. Agradecer também a Deus pela crescente generosidade das nossas Fraternidades, e do povo ao qual servem, em recolher doações para o sustento dos frades e das construções que se fazem necessárias. Sem querer dizer que somos melhores do que os outros – porque também nós temos as nossas dificuldades e limitações –, digo com profunda gratidão que a nossa Fundação em Angola vai bem. Somos abençoados com vocações que for- Com profunda gratidão, vai a grande preocupação: saberemos devidamente acompanhar e cuidar destes jovens frades? talecem a esperança. Ao celebrar 25 anos de presença, contamos atualmente com 22 aspirantes, 13 postulantes, 6 noviços, 21 frades de profissão temporária (Filosofia e Teologia) e 3 professos solenes. Não tenho explicação para isso. Parafraseando o saudoso Frei Giacomo Bini, digo: Não é certamente por nosso mérito, virtudes e qualidades, mas é São Francisco que continua a entusiasmar jovens e a chamá-los ao seguimento do Cristo pobre e crucificado. Juntamente com a profunda gratidão, porém, vai a grande preocupação: saberemos devidamente acompanhar e cuidar destes jovens frades e vocacionados? Este é o grande desafio: encontrar frades que se disponham a ajudar na formação destes jovens. Creio que o jubileu deverá intensificar este apelo para que realmente possamos celebrar a festa na certeza de estarmos fazendo “a nossa parte”. O sr. consegue vislumbrar um prazo para Angola ser uma Província independente? Quais os desafios? Frei Estêvão – Uma nova entidade angolana é um desejo. Principalmente diante do grande objetivo de dar ao carisma franciscano cada vez mais um rosto caracterizado pelos valores da cultura angolana. A primeira preocupação não deverá ser a “independência” mas o significado da nossa presença cada vez mais inculturada. Podemos dizer, com certeza, que longo será o caminho. Se continuar assim e, principalmente, se conseguirmos Da esq. para dir.: Frades em Assembleia em 2015 e Frei José Antônio, atual presidente da FIMDA. | 25 anos | FIMDA | 21 Assim como se parte em missão para além do território da Província, nós aqui devemos renovar continuamente o espírito missionário Da esq. para dir.: Frei Mário Tagliari e Frei Fidêncio em celebração no Quimbo. 22 | FINDA | 25 anos | Mas, como diz o Papa, o que importa é a qualidade e não a quantidade. Frei Estêvão – Sem dúvida, para vivermos o carisma franciscano não importa a quantidade. Só que tem as consequências. Veja bem, quando eu entrei no noviciado éramos na Província perto de 750 frades. Hoje, somos a metade. E certamente hoje o trabalho é mais exigente do que 50 anos atrás. Então, sem dúvida, podemos ser frades numa Província viva com 300 frades. Só que não poderemos fazer o que fazíamos antes. A redução ou diminuição traz consequências. fortalecer a formação, não tenho dúvidas que um dia chegaremos lá. Uma coisa que “preocupa” os confrades angolanos é quando digo repetidas vezes que “nós não fomos para ficar”. O que quero dizer realmente com isto? Quero advertir que não fomos para “colonizar”. Fomos no espírito da carta “A África nos chama” e certamente estaremos lá e ajudaremos no que for possível até o momento em que se possa dizer: temos todas as condições para assumir e garantir a vida e a missão de uma entidade franciscana angolana. Até lá vivamos em plena “comunhão de bens”. Deixe uma mensagem motivando para esta celebração jubilar. Frei Estêvão – Prefiro fazer um apelo. Nós sempre vimos também a nossa ida a Angola Por que as vocações são mais numerosas do que no Brasil? Frei Estêvão – Hoje, no Brasil, vivemos uma situação quase semelhante à da Europa em termos de vocações. Situação de bem-estar, de mil opções, de muitas possibilidades. Outra causa é certamente também a diminuição do número de filhos nas famílias. Quando eu fiz noviciado – um pouco mais de 50 anos atrás – todos os meus colegas brasileiros provinham de famílias com doze a vinte filhos. Hoje, não é raro encontrar o filho único tornando-se frade. Então, essa realidade é bem diferente da de Angola, onde as famílias ainda têm mais filhos. Creio que a situação pós-guerra da sua infância e juventude, a realidade difícil, vivida e contada pelos pais, alimenta a identificação com os ideais de uma vida simples e compartilhada, vividos e pregados por Francisco de Assis. como paradigma para a nossa “presença missionária” no Brasil. Assim como se parte em missão para além do território da Província, nós aqui devemos renovar continuamente o espírito missionário, lá onde vivemos e servimos. Sinto-me muito identificado com a visão do Papa Francisco: Igreja em saída, Igreja hospital de campanha, Igreja do bom samaritano. Acho muito bonito e gratificante uma Província gerar uma nova entidade franciscana. Não para aumentar o domínio. Não para multiplicar filiais. Não para adquirir maior influência. Mas, como fazem os pais: para dar vida aos filhos. Criar os filhos. Deixar partir os filhos. E a nós cabe unicamente ajudar, com todas as forças, para que se crie esta nova entidade franciscana, e que possa, o quanto antes, assumir o seu caminho e ser uma presença missionária significativa na sociedade e na Igreja em Angola. Madre Fabíola, a Mãe da Missão C omo deixa bem claro Frei Estêvão Ottenbreit, na sua entrevista nesta Revista (ver na pág. 20), os frades permaneceram em Angola devido ao empenho de Madre Fabíola Horga Ruiz, a fundadora do Mosteiro Sagrado Coração de Jesus, em Luanda, onde foi Abadessa por quatro triênios. Segundo Frei Estêvão, ela é a “Mãe da Fundação” que está sob a proteção da Imaculada Conceição. “Quem te conheceu, pode testemunhar o coração maternal e carinhoso que tinhas para com cada um. A juventude, com o teu sorriso e olhar cheio de Deus, sentia-se animada a uma vida comprometida na entrega a Deus. As crianças sentiam-se felizes contigo e quantas mães deram o teu nome às suas filhas. Os adultos viam em ti uma verdadeira mãe, amiga e conselheira”, disse a Abadessa Madre Anuarite durante a Missa de Exéquias de Ir. Fabíola, que faleceu no dia 29 de dezembro de 2010, vítima de leucemia. Tinha, então, 69 anos de idade, sendo 53 de vida religiosa e 28 anos vividos em Angola. Espanhola, ela nasceu em Prádanos de Ojeda em 3 de abril de 1941, sendo a última filha de 13 filhos do casal Horga e Rosa Ruiz. Era ainda uma adolescente quando ingressou na Ordem de Santa Clara de Assis, no Mosteiro de Nossa Senhora dos Anjos, em Astudillo, Palencia. Ali fazia a sua primeira profissão em 13 de agosto de 1957 e ali se entregava a Deus em definitivo na profissão solene, em 4 de abril de 1962, com apenas 21 anos. Sua missão em terras angolanas começou quando o bispo D. Eugênio Salessi, de Malange, pediu a presença das Clarissas na sua diocese. Com mais nove irmãs, ela pisou em solo angolano no dia 20 de fevereiro de 1982 e se tornou uma das fundadoras do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos. “Mulher religiosa, intrépida, valente e sem medo de enfrentar as grandes empresas quando se tratasse da glória de Deus”, acrescentou a Abadessa Madre Anuarite. A pedido de D. Alexandre Nascimento, Cardeal de Luanda, ela fundou o Mosteiro Sagrado Coração de Jesus em 1996. Mas sua incansável luta continuou fora de Angola e, desta vez, com um grupo de 8 irmãs, fundou em 2006 um mosteiro em Moçambique. Foi neste mosteiro que celebrou as bodas de ouro de profissão religiosa. Ir. Fabíola foi sepultada no dia 3 de janeiro e a igreja do Mosteiro ficou pequena para tanta gente que queria se despedir dela. Entre as autoridades, o governador de Luanda. Ela foi a primeira Clarissa a ser sepultada no cemitério do Mosteiro que ela planejou. O enterro de Madre Fabíola, a mãe da Missão, como a chama Frei Estêvão. | 25 anos | FIMDA | 23 OS MISSIONÁRI Pedro Caron (duas vezes) 24/09/1990 José Zanchet (duas vezes) 24/09/1990 Plínio Gande da Silva 24/09/1990 Juvenal Sansão 29/12/1990 Lotário Neumann/RS 25/03/1991 Evaldo Melz 25/03/1991 Odorico Decker 14/10/1991 Simão Laginski (três vezes) 26/10/1993 Dilson Adão Geremia 21/02/1995 Valdir Nunes Ribeiro (duas vezes) 22/09/1995 Hermenegildo Pereira 30/05/1996 Ângelo Vanazzi (duas vezes) 15/03/1999 24 | FIMDA | 25 anos | Genildo Provin 19/09/1995 Samuel Ferreira de Lima 27/06/1996 Antônio Mazzucco 04/06/1997 Dante Bardier Echegaray 04/06/1997 Carlos Alberto Guimarães (duas vezes) 01/03/1998 Márcio de Araujo Terra 15/03/1999 Mário Stein 17/04/2000 José Antônio dos Santos 01/04/2001 Ivair Bueno de Carvalho (duas vezes) 31/05/2001 Evaristo Pascoal Spengler 31/05/2001 Alexandre Magno Cordeiro da Silva 01/03/2002 Ângelo José Luiz 02/08/2004 Júlio César Batista dos Santos 02/08/2004 IOS EM ANGOLA Almir Bonetti 02/08/2004 José Urley López Buitrago 29/12/2005 Laerte de Farias dos Santos 31/03/2006 Aloísio Paulo Agostinho dos Santos 31/03/2006 Sebastião Agostinho Kremer 23/05/2007 Atílio Dalla Costa Battistuz 20/07/2008 André Gurzynski 16/08/2008 Benedito L. Sobrinho (Prov. Goiás) 21/05/2009 Saulo José Duarte (Prov. Santa Cruz/MG) 23/02/2010 Fábio José Gomes 01/12/2010 Ricardo Backes 10/10/2012 Marco Antonio dos Santos 27/11/2014 Alex Ferreira da Silva 23/02/2010 Hélio de Andrade 21/05/2009 Vitalino Piaia 23/02/2010 Robson Luiz Scudela 23/02/2010 Enéas Marcelo Prestes de Oliveira 17/02/2011 Jeferson Palandi Broca 10/11/2011 Alisson Zanetti 10/11/2011 Jandir Pereira da Luz 10/11/2011 Miguel da Cruz 12/12/2012 Gabriel Vargas Dias Alves 12/12/2012 Laurindo Lauro da Silva Júnior 12/12/2013 Jorge Lázaro de Souza 12/12/2013 Luiz Iakovacz 06/03/2015 Antenor Camilo Militão 06/03/2015 Cristiano Aparecido Maciel 06/03/2015 | 25 anos | FIMDA | 25 ANGOLA DESPERTA... C Frei Ermelindo Francisco ertamente nessas poucas linhas não será possível expressar tudo sobre um país rico em história, em cultura, em religiosidade, em recursos naturais. Mas procurarei, a partir da minha experiência pessoal, falar um pouco da situação atual de Angola. Angola é um país grande e belo, situa-se a sudoeste do continente africano. Pela sua extensão de 1.248.700 km, é dos maiores países de África. Angola conta com 18 províncias, sendo Luanda a Capital. Tem grandes florestas, onde a luz do sol não penetra, savanas imensas cobertas de capim, onde só há areia e pedras. Seu mar é abundante em peixes, além de formar lindas e maravilhosas praias. A guerra civil angolana foi um conflito armado que teve início em 1975, e continuou, com alguns intervalos, até 2002. A guerra começou imediatamente após Angola se tornar independente do domínio de Portugal, em 11 de novembro de 1975. Antes dessa guerra interna, houve o conflito de descolonização e a guerra pela independência do país (1961-1974). A guerra civil angolana foi essencialmente uma luta pelo poder entre três antigos movimentos de libertação: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). Ao mesmo tempo, a guerra serviu como um campo de batalha para a Guerra Fria e o forte envolvimento internacional, direta e indiretamente, de forças opostas como União Soviética, Cuba, África do Sul e Estados Unidos. Foi 26 | FIMDA | 25 anos | uma característica importante deste conflito. Durante a guerra civil, não foram poucos os missionários e missionarias que doaram a sua vida por amor ao Evangelho. Muitas cidades destruídas e muitas famílias separadas; muitos sonhos frustrados e muitas vidas ceifadas prematura e inocentemente; quantas mães não choraram ao verem seus filhos levados para a guerra sem qualquer preparo! Quantas famílias não viram seus membros sendo executados à sua frente pelo fato de resistirem em ir para a frente do combate ou por ter em sua posse algum símbolo do partido adversário! Quantas vezes a população e isso eu pude constatar - ficava durante o dia inteiro na praça ouvindo (obrigatoriamente) um comício (espécie de assembleia) que, geralmente, terminava com execução pública. Foi num cenário como esse que a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil abriu a Missão em Angola, que está celebrando 25 anos. Aqui vale ressaltar a coragem do Governo Provincial da época e dos primeiros três missionários que se apresentaram - Frei Plínio Gande da | 25 anos | FIMDA | 27 Silva, Frei Pedro Caron e Frei José Zanchet - e dos outros que vieram em seguida. O testemunho de muitos missionários, e não apenas dos nossos confrades, era a alegria e a esperança que o povo carregava dentro de si, mesmo em meio às dificuldades. Por conta da guerra, Luanda, por ser a capital, era o local mais seguro para se morar. Portanto, muitas famílias emigraram do interior, o que faz dessa cidade a mais populosa do país. Para termos uma ideia, a cidade foi projetada para quinhentos mil habitantes, mas hoje ela conta com mais de sete milhões de habitantes. Aqui dispensamos comentários sobre as turbulências urbanas de Luanda (trânsito, falta de saneamento básico em muitas regiões, marginalidade...). Depois da conquista da paz, em 4 de abril de 28 | FINDA | 25 anos | 2002, nota-se um acelerado crescimento econômico, social, político, tecnológico... Muitas infraestruturas destruídas pela guerra estão sendo reformadas; muitas famílias estão se reestruturando; muitos campos voltaram a ser cultivados e muitas missões religiosas foram reabertas; muitas crianças, jovens e adultos, retomaram os estudos; muitos hospitais e escolas foram reabilitados e reconstruídos; muitos aeroportos, linhas férreas e estradas voltaram a funcionar. Tudo isso e muito mais, sim, são benefícios da paz. Mas, em minha humilde compreensão, constato que os elevados escândalos de corrupção fazem com que a dignidade humana esteja em segundo plano. Quando não se promove o ser humano, compromete-se seriamente o futuro do país. Portanto, Angola precisa de uma verdadeira reforma política e social. Isso só será possível na medida em que cada cidadão tomar consciência de que é extensão do país, é parte do país. Jonas Savimbi, primeiro presidente de UNITA, num dos seus discursos dizia: “... Não defino o angolano como preto, como mulato ou como branco, mas defino o angolano como aquela que ama e luta por Angola...” O governo angolano é democrático, mas é uma democracia que precisa ser bem pensada. A economia está centralizada essencialmente no petróleo. Hoje, em Angola, constatamos uma emigração massiva dos chineses que trabalham nas empresas de construção civil. Se isso é positivo ou negativo, não sei, mas é uma questão que deveria ser bem compreendida. Além destes, ainda no que diz respeito à construção civil, encontramos também um bom número de empresas brasileiras, portuguesas, alemãs, norte-americanas ... Angola, portanto, é menina dos olhos de muitas potências mundiais, pois, não são poucas as multinacionais que operam em terras angolanas. Se o país for bem administrado, segundo a Unicef, em pouco tempo será uma potência africana, e por que não mundial?! Todos os problemas sociais, políticos, culturais…, sejam lá chamados como quiserem, são, na verdade, problemas teológicos. Portanto as Igreja local de Angola tem a grande missão de dar voz aos sem-voz e vez aos sem-vez. Desse modo estará promovendo o ser humano e restituindo a dignidade àqueles que a perderam por várias circunstâncias da vida. | 25 anos | FIMDA | 29 30 | FIMDA | 25 anos | NO CORAÇÃO DA MISSÃO N Frei Gustavo Medella estes 25 anos de história, 52 frades estiveram em Angola como missionários, sem contar outros tantos que passaram pela Missão para um período mais curto de ajuda na formação de frades, leigos e das Irmãs Clarissas e outras atividades. Hoje, compõem a Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA) 17 frades de profissão definitiva, sendo dois angolanos e um irmão professo temporário em período de estágio, divididos em cinco fraternidades. Os trabalhos realizados pelos frades da FIMDA se distinguem pela diversidade manifestada no atendimento a paróquias, na formação, no atendimento aos necessitados, na educação escolar, na assistência às Irmãs Clarissas, na produção e apresentação de programas de rádio, nos trabalhos sociais, no serviço da escuta cristã, nas celebrações, nas visitas a aldeias e lugares de difícil acesso, no acompanhamento vocacional dos candidatos à Vida Religiosa Franciscana. Para além de tantas atividades, nota-se um esforço dos frades em cultivar uma grande proximidade com o povo. Visitando as fraternidades, não é raro ver o afluxo de pessoas que vêm ao encontro dos irmãos, seja quando estão em casa ou quando andam pelas ruas e vielas das localidades onde estão presentes. São muitos os cumprimentos, os sorrisos e a demonstração de carinho àqueles que abraçaram o seguimento de Cristo ao modo de Francisco e se esforçam para serem esta presença evangélica e evangelizadora entre os irmãos e irmãs de Angola. | 25 anos | FIMDA | 31 Malange O “PRIMEIRO AMOR” A Paróquia dos Santos Mártires, no alto, foi um antigo cinema. 32 | FIMDA | E 25 anos | Existe um jargão na vida religiosa que identifica o primeiro lugar de transferência de um religioso que concluiu a formação inicial como o “primeiro amor”. Aplicando esta linguagem à presença franciscana em Angola, pode-se dizer que Malange foi o “primeiro amor” da Ordem dos Frades Menores em terras angolanas. Capital da Província de mesmo nome, localizada na região Centro-Norte do país, com população aproximada de 968 mil habitantes, (segundo o Censo de 2014) sendo que 486 mil pessoas vivem na região da capital. Em Malange, a presença dos frades se localiza no bairro chamado Katepa, onde estão duas fraternidades: São Damião e Seminário Monte Alverne. Sob os cuidados da Fraterni- dade São Damião, estão a Paróquia dos Santos Mártires de Uganda, a Missão em Kangandala e a assistência às Irmãs Clarissas. A Paróquia dos Santos Mártires tem sua sede junto à residência dos frades e a igreja funciona em um antigo cinema. O pároco é Frei Afonso Katchekele Quessongo, primeiro frade angolano professo solene da Fundação. Além do trabalho na Paróquia, Frei Afonso também é professor no Seminário Monte Alverne e leciona ainda em algumas escolas da região. Na condução da paróquia, ele conta com a assistência direta de Frei Luiz Iakovacz, que também é o assistente das Irmãs Clarissas do Mosteiro de Malange. O outro integrante da Fraternidade São Damião é Frei Alisson Luís Zanetti, responsável pela coordenação dos frades e animador da Missão em Kangandala. Frei Alisson se reveza entre a presença na sede da missão e passa temporadas visitando aldeias de difícil acesso, às Seminário Monte Alverne JOVENS DE DIVERSAS REGIÕES quais consegue chegar de moto ou a pé. Nestas idas e vindas, Frei Alisson já colecionou alguns tombos. “Por conta das condições do clima, o trabalho de visita às aldeias é sempre concentrado na época de seca”, explica. “É impressionante o carinho com que somos acolhidos na aldeia. Há casos em que a família deixa a própria casa para o missionário e se dividem por outras moradias. Preparam um lugar especial para o banho, às vezes uma tapera construída com capim. Querem oferecer o melhor para nós”, destaca. Este carinho a que se refere Frei Alisson é expressão da fé viva e atuante do povo angolano, o verdadeiro protagonista da evangelização Atualmente com um grupo de 63 seminaristas, divididos nas três classes que equivalem ao Ensino Médio no Brasil, o Seminário Monte Alverne iniciou suas atividades em 2005, num terreno adquirido pela Província praticamente ao lado da Missão em Malange. Ali, os jovens candidatos à vida religiosa recebem, além da formação escolar convencional, a formação própria para a vida religiosa franciscana e têm uma rotina de oração, estudo, trabalho (horta, plantação de mandioca, limpeza da casa etc.), atividades pastorais e esportes. Na condução dos trabalhos desta fraternidade estão Frei Jeferson Palandi Broca, guardião; Frei Laurindo Lauro da Silva Junior, reitor do Seminário; Frei Antenor Camilo Militão, que também é responsável pela orientação dos seminaristas; e Frei Cristiano Maciel, frade professo temporário que concluiu os estudos de Filosofia e faz o seu ano de estágio pastoral em Angola. No seminário, os frades também atuam como professores de diferentes disciplinas. Em Malange, as duas fraternidades trabalham em profunda sintonia, num espírito de entre ajuda e proximidade. Destaca-se também a convivência muito próxima com as diversas congregações religiosas femininas que ali se fazem presentes, como as Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, as Irmãs Franciscanas de São José e as Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. | 25 anos | FIMDA | 33 Kibala O PASSO SEGUINTE DA MISSÃO K No alto, a capela do Postulantado e, abaixo, Frei André mostra destroços da guerra 34 | FINDA | 25 anos | ibala é um município da Província de Kwanza Sul e conta atualmente com cerca de 135 mil habitantes. Localiza-se a 194 Km de Sumbe, a capital da Província e a 323 km de Luanda, capital do país. No período da guerra, Kibala, apesar de se localizar no Interior, era um ponto estratégico, pois por ali passava a ligação entre o Norte e o Sul do país. Por este motivo, era alvo de grandes disputas, ora estando sob o domínio do governo (MPLA), ora sob o comando da UNITA. Até hoje chamam a atenção de quem anda pelo centro da cidade alguns prédios em ruínas, por conta dos bombardeios da época, e também tanques e carros de guerra estão abandonados. No terreno onde se localiza atualmente a Fraternidade Santo Antônio, Frei André Gurzynski, atual guardião da fraternidade, explica que, com fre- quência, eram encontrados restos de projéteis deflagrados e também armas abandonadas. O lugar é montanhoso, rico em belas paisagens, e com muitas grandes pedras que conferem uma especial beleza à cidade. A ida dos frades para esta localidade se deu logo no início da Missão por conta do atendimento ao Mosteiro de Irmãs Clarissas, de fundação mexicana, que ali se instalara. Devido à guerra, em 1998, quando os frades também interromperam a presença em Kibala, as irmãs clarissas se transferiram para Lubango, na Província de Huíla, ao Sul de Angola. Fazem parte da Fraternidade Franciscana Santo Antônio: Frei André Gurzynski, guardião; Frei Marco Antônio dos Santos, mestre dos Postulantes; Frei Ricardo Backes, vice-mestre; e Frei Manoel Tchincocolo Ramos, frade de profissão temporária que concluiu o curso de Filosofia e faz o seu período de estágio. O trabalho principal dos frades é acompanhar a formação dos postulantes, jovens formandos provenientes do seminário de Malange. Neste ano, são 13 candidatos que se pre- param para virem ao Brasil no próximo ano, quando ingressarão no Noviciado. O terreno onde a fraternidade se localiza é extenso e por isso também o espaço é aproveitado para a criação de animais (cabras e porcos), horta, fabricação de tijolos e outras atividades. Entre as curiosidades da casa, as construções erguidas em contêineres (quartos, sala de aula dos postulantes), o abrigo das cabras, um contêiner completamente perfurado por balas, e a famosa “Pedra da Oliva”, localizada na frente do terreno, onde está encravado o símbolo de uma empresa fabricante de máquinas de costura. Na região onde se localiza a fraternidade ainda não há rede de energia elétrica, havendo a necessidade de um gerador movido a óleo diesel, chamado “gasóleo” em Angola. Assim como em Malange, a presença em Kibala tem um envolvimento pastoral bastante intenso, pois os frades têm atuação efetiva na Missão Nossa Senhora das Dores, de responsabilidade dos padres diocesanos. Em comunhão com a Igreja local, os freis de Kibala celebram nos bairros e aldeias e também os postulantes têm diversas atividades pastorais. Conquista recente da fraternidade do postulantado é a Capela Santo Antônio, uma construção simples, porém bastante expressiva da espiritualidade franciscana. Presença interrompida pela guerra A presença dos frades em Kibala tem duas etapas: a primeira, de 1991 a 1998, e a segunda, a partir de 2009 até os dias atuais. O fato decisivo para a retirada dos frades e formandos daquela localidade foi o atentado sofrido por Frei Valdir Nunes, no dia 13 de novembro de 1998. O clima na cidade estava muito tenso. Ao anoitecer, Frei Valdir ouviu alguns latidos dos cachorros do lado de fora da casa e foi verificar o que acontecia. Ao sair, encontrou um soldado armado, que veio em sua direção, tomou-lhe a lanterna e, em seguida, vieram outros três, já com violência. Pegaram Frei Valdir à força e o levaram para o meio da estrada que passava em frente à missão. “Levei tapas no rosto e uma coronhada tão forte que quase desmaiei. Eles queriam dinheiro, que nós não tínhamos, e também levar os seminaristas para servirem à tropa. Como nada conseguiram, disseram-me para ir embora e quando virei as costas, ouvi um tiro e percebi que uma bala havia me acertado”, conta. Na perspectiva de escapar dos soldados, Frei Valdir jogou-se no chão e fingiu agonizar. Quando eles foram embora, dirigiu-se com muito sacrifício para casa, segurando a perfuração na barriga, onde se misturavam sangue e fezes. Chegou cheio de lama e com o intestino perfurado em quatro pontos, o que lhe causou uma grande infecção no ventre. Uma irmã que era enfermeira foi chamada e prestou-lhe os primeiros socorros. “Eu recebi os sacramentos de Frei Simão Laginski, deitei-me no chão do meu quarto onde, imaginava, teria meu encontro com a irmã morte. Imaginei que fosse morrer porque à noite não se podia sair. Os caminhos eram todos minados”, lembra. Frei Valdir resistiu e, no dia seguinte, foi levado a Gabela, onde havia um pequeno hospital. Por coincidência, estava ali um cirurgião colombiano, que de tempos em tempos percorria os hospitais para prestar assistência. “Ele retirou as faixas que a irmã havia colocado e viu que estava tudo inchado e infeccionado. Com os poucos meios que tinha, fez uma operação de limpeza e fechou o ferimento de forma rudimentar. No dia seguinte, já no domingo, chegou o helicóptero que me levou até Luanda, onde passei pelos procedimentos necessários”, recorda. Frei Valdir destaca que, apesar do ocorrido, tem grande apreço pela Missão em Angola. Atualmente trabalhando em Curitibanos, SC, como guardião e pároco, sonha em voltar para África, e, “se Deus permitir, gostaria de morrer e ser enterrado naquele chão” , complementa. | 25 anos | FIMDA | 35 Luanda A MISSÃO CHEGA À CAPITAL L A sede da Missão acima e a construção (ao lado) da nova residência para acolher 18 frades estudantes de Filosofia 36 | FINDA | 25 anos | uanda é a menor Província de Angola, mas também a mais populosa, com 6,5 milhões de habitantes, sendo cerca de 2,1 milhões apenas no entorno da capital, segundo o censo de 2014. É um lugar de intensa movimentação, tanto de pessoas quanto de veículos. O trânsito é bastante pesado e pouco organizado, o que torna demorados deslocamentos razoavelmente curtos. Dentre os principais desafios estão a melhoria da qualidade dos serviços públicos, o saneamento básico e a coleta de lixo. Depois de estarem em Malange e Kibala, com o caminhar da missão, os frades foram percebendo que também seria necessária a constituição de uma presença em Luanda. Frei Estêvão Ottenbreit, que na época era Ministro Provincial, explica que era frequente a demanda por recursos que só podiam ser obtidos na capital. “Qualquer coisa de que precisávamos, tínhamos que vir a Luanda. Fomos por muito tempo acolhidos de maneira fraterna e generosa pelos frades capuchinhos em Luanda. Mas, por outro lado, percebemos o quanto era necessário termos também ali uma presença”, contextualiza Frei Estêvão. E, desta forma, assim como chegaram a Malange por conta do atendimento às Irmãs Clarissas, em 1990, seis anos mais tarde, acompanhando as Clarissas deste mesmo mosteiro, de fundação espanhola, os frades se instalaram em Luanda e passaram a morar ao lado do mosteiro construído para as Clarissas, no Bairro do Palanca, em Luanda, em terreno cedido pela Arquidiocese de Luanda. Hoje, a sede da Fundação é a Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda, e ali os frades se dedicam ao atendimento da Paróquia São Lucas, que tem como pároco Frei Sebastião Kremer, o acompanhamento formativo dos frades professos temporários, o atendimento ao Quimbo São Francisco, o Projeto Nossos Miúdos, que se ocupa da acolhida de meninos que foram abandonados pela família. Além de Frei Sebastião, compõem a fraternidade Frei José Antônio dos Santos, presidente da Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA) e mestre dos professos temporários do tempo da Filosofia; Frei Márcio de Araújo Terra (Projeto Nossos Miúdos e Paróquia) e Frei Aloísio Paulo Agostinho dos Santos (animação vocacional e outros trabalhos). Também faz parte da missão da fraternidade a assistência espiritual ao Mosteiro das Irmãs Clarissas de Luanda. Em Palanca, moram seis frades de profissão temporária que cursam Filosofia na Universidade Católica de Angola, situada a cinco minutos de caminhada da Fraternidade São Francisco. Em termos de instalações físicas, está sendo construído, junto ao Convento do Palanca, uma residência para acolher 18 frades estudantes de Filosofia. Por questões práticas, especialmente pela proximidade com a Faculdade de Filosofia, a proposta é que todos os frades desta etapa de formação morem naquele mesmo local. Atualmente, eles estão divididos em dois grupos: os seis que vivem no Bairro do Palanca e outros nove que estão na Fraternidade da Porciúncula, em Viana, município da periferia de Luanda, e que diariamente demoram quase duas horas para fazer um percurso de pouco mais de dez quilômetros, por conta do trânsito carregado e das más condições das vias. No alto, a sede da Paróquia São Lucas e, ao lado, o Mosteiro das Irmãs Clarissas de Luanda. | 25 anos | FIMDA | 37 Quimbo São Francisco SANTUÁRIO A CÉU ABERTO C hão de terra batida a céu aberto. Árvores sob as quais as pessoas se abrigam à sombra. Muita gente! Mulheres com roupas coloridas, grande número delas com crianças, que são trazidas junto às costas, amarradas por um tecido também de cor bem marcante. Crianças muito pequenas deitadas no chão, sobre um lençol e sob o olhar cuidadoso da mãe. Para sentar, uma pedra, a poeira do chão ou um banquinho colorido, de plástico, simples, leve e fácil de carregar. À frente, num pequeno palco, que também é al- 38 | FINDA | 25 anos | tar, algumas mammás (termo típico angolano para designar mulher) rezam, cantam, louvam e agradecem, incentivando a multidão a fazer o mesmo. Isso desde o começo da manhã, totalmente dedicada à oração e, com a fidelidade ao modo angolano de se expressar, também na fé, com cantos e danças que dão som e movimentos a pedidos, agradecimentos, súplicas, dúvidas, medos, alegrias e todos os outros sentimentos e atitudes que povoam o coração humano. Esta seria, em breves palavras, a descrição da manhã de uma quinta-feira no chamado Quimbo São Francisco. O lugar, localizado no terreno da Fraternidade São Francisco, em Luanda, se firmou como um verdadeiro santuário, para onde grande número de fiéis acorre semanalmente em busca de um momento de oração, reflexão, louvor e celebração. O espaço surgiu a partir de um pedido do cardeal arcebispo de Luanda na época da chegada dos frades, Dom Alexandre Nascimento. Preocupado com a movimentada rotina dos religiosos por conta dos desafios da guerra e com medo que caíssem num ativismo exagerado, o cardeal pediu aos frades que criassem naquele espaço, junto à fraternidade, um lugar de cultivo espiritual, onde o religioso ou a religiosa que desejasse pudesse ter um momento de recolhimento, meditação, leitura da Palavra de Deus, enfim, de oração pessoal. E foi nesta perspectiva que surgiu o Quimbo São Francisco. Hoje em dia, a utilização do espaço foi além daquela sugerida pelo arcebispo e pensada pelos frades e, também com a aproximação da Renovação Carismática Católica, o Quimbo se tornou um lugar de peregrinação em massa. Ali as pessoas chegam de manhã para participar de orações, pregações, momentos de louvor, novenas. Às 11 horas, celebra-se a Missa, sempre com a presidência de um dos frades e animada com canto e dança. Para quem deseja, existe ainda no Quimbo São Francisco um serviço de escuta cristã, onde um voluntário e também algum dos frades estão à disposição para uma conversa pessoal e particular. E assim mais uma quinta-feira se vai... Embora seja este o dia de maior movimento, sempre há naquele espaço pessoas em oração, sozinhas ou em grupo, revelando que o Quimbo São Francisco mora no coração do povo e pertence ao povo de Angola. Projeto Nossos Miúdos SONHOS A JOVENS ABANDONADOS Na cultura angolana, aparece de forma bastante forte a crença em torno do que se denomina “feitiço”. Sempre que alguém morre de maneira inesperada ou repentina, ou algo de ruim acontece de uma hora para outra, acredita-se que o ocorrido foi obra de um “feiticeiro”, quase sempre alguém próximo ou conhecido da vítima, com frequência alguém de sua própria família. Uma vez acusada de feiticeira, a pessoa passa a correr risco de morte, pois acredita-se que, uma vez eliminado aquele que causou o mal, a justiça terá sido feita. Esta breve e superficial explicação de um dos elementos da cultura em Angola serve para contextualizar o surgimento do Projeto Nossos Miúdos, iniciado há vários anos por Frei Márcio de Araújo Terra e que faz parte da Fraternidade São Francisco de Assis, em Luanda. O trabalho veio como resposta ao drama de meninos que eram expulsos da família por serem acusados de feitiçaria. Sensível a este drama, Frei Márcio passou a acolher alguns destes jovens, e esta iniciativa deu origem ao trabalho. Hoje, a casa acolhe 13 meninos que estão entre a adolescência e a juventude. Além de oferecer todo o apoio material, o Projeto também tem a preocupação de possibilitar uma formação profissional a estes jovens, com o treinamento para a profissão de padeiro. Na padaria, além de aprender as habilidades próprias do ofício, os jovens conseguem gerar renda, pois a produção é vendida na vizinhança, e ajuda na manutenção da casa. Ao comentar os resultados do Projeto Nossos Miúdos, Frei Márcio não esconde a satisfação: “Fico muito feliz quando, por exemplo, um jovem que passou por aqui me procura anos depois para contar de sua vida, para me apresentar a família e os filhos e me dizer que está bem encaminhado na vida”, comemora o Frei. | 25 anos | FIMDA | 39 Viana A FRATERNIDADE MAIS JOVEM V No bairro da Estalagem está a residência dos frades. Abaixo, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima. 40 | FINDA | 25 anos | iana é um município pertencente à Província de Luanda. Tem 1,5 milhão de habitantes. Os frades estão aí instalados desde 2000. Moram ali Frei António Boaventura Zovo Baza, guardião e pároco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Frei Ivair Bueno de Carvalho, vice-mestre dos frades em formação e responsável pelos projetos sociais, e Frei José Zanchet, com quase oitenta anos e membro do primeiro grupo de missionários, que atua como vigário paroquial. Compõem também a fraternidade seis frades professos temporários do tempo da Filosofia. O bairro da Estalagem, onde se localiza a Fraternidade, é muito populoso, e por isso a casa dos frades também é muito movimentada. As crianças desejam entrar no terreno para colher as pequenas frutas, as quais elas chama de figos. Há também muitos meninos que vêm treinar futebol no Projeto Bola da Paz, que busca a socialização através do esporte. Responsável pelo trabalho social da casa, que também oferece um projeto de inclusão digital, Frei Ivair Bueno se sente muito à vontade entre o povo e trata as pessoas de modo muito próximo, sempre com sorrisos e brincadeiras. Devido à superpopulação do bairro, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima também tem movimentação intensa. Para se ter uma ideia, são três mil crianças na catequese, que se reúnem no entorno da igreja matriz, sentadas sobre banquinhos coloridos de plástico e sob a sombra das árvores. O grande empenho da comunidade paroquial agora é a construção da igreja matriz sob a coordenação do pároco, Frei António. Lideranças e todos na comunidade estão bem focados nesta missão. Em Viana, os frades mantêm também convivência muito próxima com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, de quem são vizinhos de terreno. Num espírito de integração e interajuda, a celebração da Eucaristia diária, com a presença dos frades e das irmãs, se reveza semanalmente entre as duas casas: ora os freis vão até as irmãs e vice-versa. os frutos da missão Q uando completou dez anos da presença franciscana em Angola, Frei Atílio Abati, de saudosa memória, era o Coordenador do Departamento de Evangelização Missionária e lançou um livreto de 34 páginas sobre a Missão, onde imprimia seu otimismo sobre o futuro. “Há sinais de vida e esperança, também para o futuro da Missão e algumas coisas vão se clareando e ganhando corpo. Por exemplo, as muitas vocações e as duas casas de formação em Malange e Kibala são os frutos da cruz plantada que vai virando árvore da vida. A cruz de Cristo vai se apresentando como forte símbolo da nossa Missão em Angola, que aponta para o Ressuscitado e garante que o sentido último é a vida”. A Missão deu os primeiros passos na formação franciscana com a abertura do Aspirantado em 1996, admitindo quatro jovens: Domingos, Nélson, Cândido e Adão. Em 27 de junho de 1996, Frei Samuel Ferreira de Lima, o atual mestre de noviços da Província da Imaculada, foi tranferido para Malange como formador dos primeiros aspirantes. Ficou nove anos em Luanda e cinco meses em Malange até retornar em 2006. Outro momento importante aconteceu em 1997, no dia de São Francisco de Assis, com a abertura do Postulantado em Kibala. Os primeiros noviços da Missão - Adão Gil de Melo, Cândido Gabriel F. Manuel e Nelson Jaime Cristóvão - vieram para Rodeio no dia 20 de janeiro de 2000. Os três, contudo, não perseveraram. No dia 30 de junho de 2007, Frei Afonso Kachekele Quessongo se tornava o primeiro angolano da Missão a professar na Ordem dos Frades Menores. No dia 23 de janeiro de 2011, ele se tornou o primeiro presbítero angolano nesta frente missionária. O segundo professo solene foi António Boaventura Zovo Baza, no dia 30 de agosto de 2009. Ele se tornaria também o segundo sacerdote desta frente no dia 15 de janeiro de 2012. Em 2013 chegaram ao Noviciado São José de Rodeio oito angolanos, o maior grupo até então. Desde então, o Noviciado tem acolhido bom número de angolanos e a perspectiva é de ter treze noviços em 2016. A Missão de Angola, que foi elevada à condição de Fundação, com o nome de Imaculada Mãe de Deus no dia 3 de julho de 2008, viu a profissão solene de Frei Carlos Guimarães e Frei Aloísio Paulo dos Santos; a ordenação sacerdotal de Frei José Antônio dos Santos, em abril de 2001; e a ordenação diaconal de Frei Alexandre Magno, em julho de 2006. Ele foi ordenado sacerdote no Brasil, em janeiro de 2007. No alto, os primeiros professos solenes, Frei Afonso e Frei António, e, abaixo, os noviços de 2015 | 25 anos | FIMDA | 41 Frei Afonso K. Quessongo Nascimento: 03/04/1975 Naturalidade: Huambo Frei João Batista C. Canjenjenga Nascimento: 03/01/1986 Naturalidade: Huambo Frei Gaudêncio C. Choputo Numa Nascimento: 28/02/1983 Naturalidade: Luanda Frei Manuel T. Ramos Nascimento: 07/12/1985 Naturalidade: Cabinda Frei José M. Cambolo Nascimento: 26/01/1989 Naturalidade: Luanda Frei Ermelindo Francisco Bambi Nascimento: 01/03/1987 Naturalidade: Ingombota Frei João Alberto Bunga Nascimento: 05/04/1988 Naturalidade: Kilamba Kiaxi Frei Ananias P. M. Cauanda Nascimento: 11/02/1990 Naturalidade: Ambaca Frei Canga Manuel Mazoa Nascimento: 23/03/1993 Naturalidade: Cazengo Frei João Candongo Muhala Nascimento: 02/05/1992 Naturalidade: Benguela Frei Mário Sampaio Pelu Nascimento: 20/08/1988 Naturalidade: Benguela Frei Mateus M. Ukwahamba Nascimento: 20/03/1991 Naturalidade: Cubal Frei Alberto André António Nascimento: 17/04/1987 Naturalidade: Cazenga 42 | FIMDA | 25 anos | Frei António Boaventura Z. Baza Nascimento: 25/09/1976 Naturalidade: Cabinda Frei Siro Armando J. Luamba Nascimento: 25/11/1989 Naturalidade: Ambaca Frei Alfredo Epalanga Prego Nascimento: 10/06/1990 Naturalidade: Benguela Frei Crisóstomo Pinto Ngala Nascimento: 05/09/1992 Naturalidade: Cubal, Benguela Frei Diogo da Silva Filipe Nascimento: 28/03/1985 Naturalidade: Cazengo, K.Norte Frei Gabriel Sapalo Chico Nascimento: 16/05/1992 Naturalidade: Cubal, Benguela Frei Honorato S. Gaspar Gabriel Nascimento: 26/11/1990 Naturalidade: Malange Frei Mvula Nzaje André Nascimento: 25/01/1978 Naturalidade: Marimba Frei Paulino Kamussamba Sopindi Nascimento: 21/05/1987 Naturalidade: Cabinda Frei Santana S. Cafunda Nascimento: 11/03/1990 Naturalidade: Malange Frei Alberto Victorino Nascimento: 09/07/1987 Naturalidade: Ganda, Benguela Frei Victorino Chico Tchimuku Nascimento: 28/12/1992 Naturalidade: Cubal, Benguela Frei Flaviano José Fernando Nascimento: 26/05/1994 Naturalidade: Catete Icolo e Bengo Frei André dos Santos Sungo Mingas Nascimento: 02/01/1986 Naturalidade: Cabinda Frei José Filipe Muyeye Nascimento: 02/09/1990 Naturalidade: Benguela Frei José João Ganga Nascimento: 13/11/1990 Naturalidade: Caconda, Huíla Frei Miguel Tchiteculo T. Filipe Nascimento: 13/01/1990 Naturalidade: Lobitol, Benguela | 25 anos | FIMDA | 43 entrevista Frei João Baptista Chilunda Canjenjenga O PROFESSO DO JUBILEU Agradeço a Deus por este grande momento em que elevei à plenitude minha consagração batismal dando o sim definitivo ao chamado Deus. Louvo mais ainda por ser justamente no dia em que a Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA) celebrou o seu jubileu. Também é muito bom para a nova geração vivenciar esse momento celebrativo que, de uma forma, contribui para a motivação vocacional. U Moacir Beggo m dos momentos marcantes das celebrações neste ano jubilar da Fundação Imaculada Mãe de Deus foi a profissão solene de Frei João Baptista Chilunda Canjenjenga. Aos 29 anos, ele é o terceiro frade angolano a professar na Ordem dos Frades Menores. Conheça um pouco o novo professo da Missão de Angola e sua caminhada vocacional franciscana até dizer o ‘sim’ definitivo a Deus e à Ordem Franciscana. Como é fazer a profissão solene na terra natal exatamente no ano do Jubileu da Missão? Frei João Baptista - Fazer profissão solene na terra natal foi motivo de grande júbilo, pois tem grande significado na minha caminhada vocacional. Para os meus familiares, acredito que também foi motivo de muita alegria porque tiveram a oportunidade de testemunhar o momento em que dei o meu sim definitivo a Deus, visto que não tiveram a graça de participar na primeira profissão. Também não deixou de ser momento importantíssimo para a Fundação Imaculada Mãe de Deus (FIMDA), que celebrou o jubileu de 25 anos de presença missionária e evangelizadora dos Frades Menores junto ao povo angolano num momento de reflorescimento vocacional. 44 | FINDA | 25 anos | Como se deu seu discernimento vocacional? Frei João Baptista - O meu discernimento vocacional começou desde pequeno, quando comecei a sentir o chamado de Deus em meu coração. Ao longo dos anos fui alimentando o meu sim a este chamado em meu coração todos os dias, mas não manifestava publicamente. Certo dia, a convite de um amigo meu, comecei a frequentar as reuniões do grupo vocacional da paróquia. Passados alguns anos, tive que mudar de um Estado para outro, isto é, de Huambo, terra que me viu nascer, para Luanda, com o propósito de morar com as minhas irmãs. Procurando dar continuidade à minha participação nas reuniões do grupo vocacional, isto no Estado de Luanda, foi quando conversei com a minha irmã mais velha que já era ‘expert’ em assuntos de Igreja na Paróquia São Pedro Apóstolo. Por sua vez, ela dirigiu-me a um vizinho nosso que já frequentava encontros de direção vocacional com os Frades Menores no Palanca, Quimbo São Francisco. No terceiro domingo do mês, dia em que aconteciam as reuniões, o vizinho levou-me à reunião, onde pela primeira vez ouvi a história de Francisco de Assis. Com o passar do tempo fui me identificando com o carisma franciscano e, com ajuda do promotor vocacional, fui amadurecendo o meu Dados pessoais e formação Nome: João Baptista Chilunda Canjenjenga Nascimento: 03 de Janeiro de 1986 Natural de Huambo, província do Huambo Pais: José Pedro Canjenjenga e Ana Maria Chitula Irmãos: Penúltimo filho de treze (13) irmãos Aspirantado: Monte Alverne, Malange, em 2005 Postulantado: Malange, 2008 Noviciado: Rodeio (SC), em 2009 Primeira Profissão: 3 de Janeiro de 2010, em Rodeio Filosofia: de 2010 a 2013, em Luanda Teologia: 2º ano, cursando no ITF discernimento vocacional. Imaginei ser vontade de Deus, pois até então não me havia decidido em que congregação serviria o povo de Deus. Daí continuei a participar dos encontros vocacionais no Palanca com os frades. No momento ,posso afirmar que, com ajuda de Deus e dos confrades, tenho sido perseverante e persistente neste sim a Deus e ao seguimento de Cristo Jesus pobre e crucificado. E sua família, como recebeu a notícia? Frei João Baptista - Quando entrei no grupo de vocacionados, os meus parentes pensavam que tudo fazia parte do meu lazer quando ia para as reuniões nos primeiros e terceiros domingos de cada mês. Passados alguns anos, quando informei a eles que precisava do termo de reponsabilidade para ingressar no aspirantado, a família ficou dividida: alguns eram a favor, outros contra. Apareceu até a ideia de que, como gosto muito da Igreja, poderia me tornar um bom catequista ou ministro da comunhão e não ser frade menor ou padre. Como meus pais sempre foram a favor, o meu pai ordenou que os meus irmãos mais velhos escrevessem o termo de responsabilidade. Ele não o fez porque morava em Huambo e, naquela época, os correios de Angola não funcionavam bem. Assim sendo, acabei indo ao aspirantado. Os irmãos e as irmãs que eram contra o meu ingresso no aspirantado não davam muito crédito na minha perseverança. Somente no final do postulando, quando me preparava para ir ao noviciado, é que todos os membros da família começaram a aceitar e a respeitar a minha opção vocacional. Atualmente é unânime. Todos os membros da minha família aceitam e apoiam a minha opção vocacional, e sempre mandam uma mensagem de incentivo vocacional. Para mim, isso é mais um sinal de que Deus, para além de capacitar os seus chamados, também provê, cuida, protege e conduz. Por que ser franciscano hoje? Frei João Baptista - Para observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade, evangelizando como irmão e menor no nosso tempo. Deixe uma mensagem para os vocacionados angolanos e brasileiros? Frei João Baptista - A mensagem que deixo para os vocacionados angolanos e brasileiros é a de não terem medo de dizer sim ao chamado de Deus, não ignorar os sinais do chamado de Deus. Quando Deus chama, também capacita os seus chamados. É preciso dizer como São Francisco de Assis: “É isso que eu quero, é isso que desejo de todo o meu ser”. SEMINÁRIO MONTE ALVERNE: Nos últimos anos, está de casa cheia. Está com 63 seminaristas, divididos em três classes que equivalem ao Ensino Médio no Brasil. | 25 anos | FIMDA | 45 POSTULANTADO: Abaixo, treze jovens se preparam em 2015, com a orientação do mestre Frei Marco Antonio dos Santos e da Fraternidade, para o ingresso no Noviciado. Presença dos leigos: fermento que fez crescer a missão Catequistas no trabalho de evangelização de Angola. 46 | FIMDA | 25 anos | A lém dos muitos frades que passaram por Angola, a missão também contou com a força da presença leiga. Muitos são até hoje os benfeitores que ajudam com sua contribuição para a manutenção desta frente missionária. Além destes, houve também a participação direta de voluntários que estiveram em Angola, oferecendo seu trabalho em prol da missão. O cearense Adávio Afonso Ribeiro, irmão da Ordem Franciscana Secular, de 62 anos, esteve na missão por três ocasiões, totalizando um período de quatro anos em Angola. O convite foi feito em 2007, por Frei André Gurzynski, atual guardião da Fraternidade Santo Antônio em Kibala, no ano de 2007. Adávio, que já tinha sido missionário na região do Tocantins e do Norte de Goiás, animou-se diante da possibilidade de partir em missão para a África. Vendeu um carro para pagar as despesas da viagem e se preparar com as vacinas e a documentação e, em 2010, embarcou. Ele tinha conhecimentos de mecânica e, por isso, logo que chegou, a ideia era que ficasse em Malange, onde os frades possuíam um caminhão que precisava de reparos. No entanto, por conta de uma mudança nos planos, ele acabou sendo enviado para Kibala, que na época iria acolher a etapa formativa do postulantado. E, nesta fraternidade, o missionário leigo se instalou, passando a conviver com Frei Laerte Farias dos Santos e Frei Valdir Nunes Ribeiro. Para descrever os trabalhos que realizava, Adávio lança mão de uma brincadeira: “Só não celebrava missa”, diz, com bom humor. Com bastante aptidão para serviços práticos, dedicava-se a dirigir os veículos, a cuidar dos geradores, a auxiliar nas compras e também a acompanhar as obras de melhorias e ampliação que estavam sendo realizadas na fraternidade. Para ele, a experiência em terras angolanas foi tão significativa que, até hoje, Adávio sonha em voltar para lá, projeto que tem sido adiado por conta de alguns problemas de saúde recentemente enfrentados. tras províncias. De acordo com dados de 2012, em entrevista concedida pelo então Ministro Nacional, Domingos António da Silva, ao site Franciscanos, a OFS angolana conta com 768 irmãos, presentes em 14 fraternidades erigidas canonicamente, cinco fraternidades emergentes e seis núcleos de formação. Catequistas: fundamentais para a garantia da fé em tempos de guerra Nas aldeias e lugares isolados por conta das dificuldades de acesso e dos problemas da guerra, os catequistas, líderes leigos que garantiam a vivência e a manutenção da fé, tiveram participação fundamental. Assumiam todo o trabalho pastoral, conduzindo as celebrações, instruindo as crianças, fazendo a ponte entre o missionário e a comunidade. Andavam centenas de quilômetros a pé para participar de formações e de momentos celebrativos. Também a esta presença leiga se deve um agradecimento sincero nestes 25 anos da Missão Franciscana em Angola. No alto, o irmão leigo Adávio Ribeiro e, abaixo, o irmão leigo Domingos António. OFS está presente no país há 44 anos Outra parceria fundamental na história da Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola é com a Ordem Franciscana Secular (OFS). Presente no país há 44 anos, a OFS foi instaurada pelos frades capuchinhos (OFMCap), que mantêm até hoje presença em Luanda e em ou| 25 anos | FIMDA | 47 Missão é sempre partir... Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso Eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: A humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros. É sobretudo abrir-nos aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E, se para descobri-los e amá-los, é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo. Dom Hélder Câmara Até o próximo jubileu!