Novas Mídias o Ensino animam de Artes Visuais Universidade Federal do Rio de Janeiro Reitor Aloísio Teixeira Vice-reitora Sylvia da Silveira de Mello Vargas Pró-reitor de Graduação José Roberto Meyer Fernandes Pró-reitor de Ensino para Graduados e Pesquisa José Luiz Fontes Monteiro Pró-reitor de Planejamento e Desenvolvimento Carlos Antonio Levi da Consceição Pró-reitor de Pessoal Luiz Afonso Henriques Mariz Pró-reitor de Extensão Laura Tavares Ribeiro Soares Centro de Filosofia e Ciências Humanas Decano Marcelo Macedo Corrêa e Castro Colégio de Aplicação Diretoria Geral Celina Maria de Sousa Costa Vice-Diretora JORNALISTA RESPONSÁVEL Maira da Costa ...... EDITOR Beto Pimentel ...... ASSISTENTES DE PRODUÇÃO Maria Cecília Cardoso Maria de Fátima Galvão ...... PRODUÇÃO GRÁFICA Raphael Borges Jandê Saavedra Farias Bruna Provenzano Isabel Xavier ...... FOTOGRAFIA Silmar Marques ...... REVISÃO Teresa Andrade ...... APOIO Sandra Bragatto, Malu Rocha e Fábio Garcez (DALPE) Márcia Carnaval e Patrícia Perez (Assessoria de Comunicação da Reitoria da UFRJ) Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB) ...... IMPRESSÃO Gráfica Cruzada ...... CONSULTORES TÉCNICOS José Augusto Fialho (Artes Visuais) Maria Lucia Pupo (Artes Cênicas) Rosa Gens (Literatura) 5 11 Aloísio Teixeira Artes Visuais Novas Tecnologias e o Ensino de Artes Visuais por Fátima Vollú 17 História Histórias em Curso por Américo Freire 19 Construindo Pontes “O Convidado”: Anotações de um percurso por Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor, Andrea Pinheiro e Brunella Provvidente 23 Opinião Filosofia no Ensino Médio por Lia Guarino 27 Miriam Abduiche Kaiuca Sem Fronteiras O Cérebro em Transformação por Suzana Herculano-Houzel resenha por Filipe Porto Diretores Adjuntos de Ensino Ângela Alves da Fonseca Marcelo da Silva Bueno Mario Jacinto Ferraro Junior Rowilson Aparecido da Silva Entrevista 34 Diretores Adjuntos de Licenciatura, Pesquisa e Extensão Memória Histórico de Criação do CAp-UFRJ por Izabel Goudart Fábio Garcez de Carvalho Maria Luiza Mesquita da Rocha 39 Notas Aconteceu no 1º semestre Caro Leitor Este é o primeiro número de PERSPECTIVA. Mais do que uma revista, é um sonho antigo do CAp-UFRJ que se realiza. Com PERSPECTIVA nasce um veículo para registrar a inventividade e as realizações de nossos profissionais e estudantes, resgatar a história do CAp-UFRJ, sua relação com a universidade e com a comunidade, trazendo novas abordagens a temas de interesse para o corpo acadêmico da escola. Neste número inaugural você encontrará um artigo da professora Fátima Vollú, do Setor Curricular de Artes Visuais do CAp-UFRJ, traçando uma retrospectiva dos resultados alcançados por um dos projetos pedagógicos mais interessantes e menos divulgados do colégio, o projeto Meios de Comunicação Audiovisuais: Novas Tecnologias e Educação, que usa recursos multimídia e animação para trabalhar a leitura de imagens em movimento e o uso de novas tecnologias em vários níveis com alunos de diferentes faixas etárias. O professor Américo Freire, do Setor Curricular de História do CAp-UFRJ, fala sobre os desenvolvimentos de seu projeto História em Curso. Nesse texto você vai acompanhar as preocupações em construir e manter atualizado um material didático de qualidade numa área sujeita a constantes revisões em função da pesquisa mais atual, e a atenção do autor em manter o contato com os professores que usam o material em sala de aula. Aloísio Teixeira Grandes estruturas, grandes problemas. O lema não deve ser estranho ao professor de economia Aloísio Teixeira, desde 2003 à frente da maior universidade federal brasileira. Sereno e bem-disposto o suficiente para descartar o elevador e subir os dois lances de escada do prédio da Reitoria no campus da ilha do Fundão, Aloísio recebeu PERSPECTIVA em seu gabinete e conversou sobre a sua gestão, a UFRJ e o papel do CAp. A seção Construindo Pontes é inaugurada pelo relato da costura de teatro e literatura feita dentro do projeto “Arte e Saúde”, em parceria com a FIOCRUZ. Assinam o texto as professoras do CAp-UFRJ Andrea Pinheiro e Ana Lucia Soutto Mayor, respectivamente dos Setores Curriculares de Artes Cênicas e Língua Portuguesa, bem como Brunella Provvidente, graduanda do curso de direção teatral da UFRJ. Na seção Opinião, um ensaio da professora Lia Guarino, de Filosofia, não nos deixa escapar à questão – atualíssima – das aulas de filosofia no Ensino Médio. Afinal, por que nossos alunos precisam aprender filosofia? PERSPECTIVA: Como é que o Sr. avalia a sua gestão na reitoria da UFRJ até agora? Já a seção Sem Fronteiras traz como autora convidada a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, que discorre sobre as transformações que acontecem no cérebro no período da adolescência. Aparentemente, nem só de hormônios vive o adolescente. E, por incrível que pareça, é ótimo e essencial que os adolescentes sejam do jeito que são. Acompanha uma excelente resenha do último livro da pesquisadora sobre o tema, feita pelo professor Filipe Porto, do Setor Curricular de Biologia do CAp-UFRJ. Aloísio Teixeira: Acho que algumas coisas na universidade melhoraram nesse período. Talvez a coisa mais importante que todos nós tenhamos conquistado nesse período é um clima de paz. Quem viveu a universidade nos últimos vinte anos há de se lembrar que nós vivíamos enredados em conflitos, em diferenças que não se resolviam, e que isso muitas vezes criava um ambiente prejudicial ao desenvolvimento das idéias e à discussão dos problemas. O agravamento desses conflitos no período de 1998 a 2002 levou a universidade a tomar uma consciência mais aguda e mais clara de que era preciso superar aquela situação. Hoje, nós podemos conviver com as nossas diferenças, sabendo que elas são apenas diferenças de opinião, e do embate entre essas diferenças deverá resultar uma universidade melhor. É claro que parte disso se deve ao trabalho que a gente está fazendo, e parte eu acho que se deve ao esforço que a própria universidade faz. A professora Izabel Goudart, do Setor Curricular de Química, nos leva de volta ao final da década de 1940 e às pessoas e idéias que levaram à criação do CAp-UFRJ, na seção Memória. A seguir a seção Notas, uma espécie de memória de curto prazo, busca registrar alguns dos eventos importantes que aconteceram na escola ao longo do primeiro semestre de 2006. Finalmente, a seção Entrevista debuta com um bate-papo com Aloísio Teixeira, atual reitor da UFRJ. Aloísio fala sobre a universidade, a sua administração e, como não podia deixar de ser, sobre como ele vê o papel do CAp na universidade. Agora, leitor, é com você. Leia, escreva, mande sua contribuição para a gente. Veja também o seu trabalho em PERSPECTIVA. Beto Pimentel editor [email protected] agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 PERSPECTIVA: Como isso foi conseguido? Aloísio: Isso se deve, em grande medida, à busca de um novo modelo de gestão e ao esforço que nós temos feito de tornar absolutamente regular a vida institucional da universidade. Os conselhos superiores da universidade têm se reunido com absoluta regularidade. Nós não perdemos nenhuma reunião do Conselho Universitário que, ao contrário do que fora no período de 1998 a 2002, se tornou um órgão de deliberação superior da universidade. O Conselho Superior de Coordenação Executiva (CSCE), que reúne os pró-reitores e decanos, durante muitos anos sequer se reunia. Temos também, como reza o regimento, reunido o CSCE de 15 em 15 dias. Ele cumpre as suas funções regimentais e tem funcionado como um conselho consultivo da reitoria. Todas as principais questões políticas e administrativas da universidade são levadas à discussão no CSCE para que o reitor possa decidir, apoiado num conjunto de opiniões mais amplo. O CEG e o CEPEG regularizaram sua vida institucional e têm funcionado normalmente. “ Talvez a coisa mais importante que todos nós tenhamos conquistado nesse período é um clima de paz. ” Também nessa linha, acho que é uma conquista o fato de a gente ter aberto espaços novos de debates. Um deles é o que a gente chama de Fórum de Decanos e Diretores. Ele não é um órgão ou uma instância regimental da universidade, mas nós o temos reunido na última segunda-feira de cada mês – todos os meses praticamente, desde a posse. Todas as questões importantes da universidade são discutidas nesse fórum. Ele não delibera, mas obviamente influi poderosamente na formação da opinião da reitoria sobre os problemas da UFRJ. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Outra iniciativa é a reitoria itinerante. Duas vezes por mês o reitor, a vice-reitora, pró-reitores e superintendentes vão às unidades para conhecer ao vivo os problemas que a comunidade enfrenta. O objetivo é resolver o que for possível e compartilhar a angústia dos problemas que não podem ser resolvidos. Isso gera uma aproximação muito maior entre a administração central e as unidades. Outra coisa importante nessa linha de novo modelo de gestão é o orçamento. O estatuto da UFRJ estabelecia como atribuição do Conselho aprovar o orçamento e isso nunca ocorreu. Eu fui membro do Conselho Universitário durante quatro anos e jamais se discutiu o orçamento. Hoje nós temos um orçamento que é discutido nas unidades, nos centros, no CSCE, na plenária de decanos e diretores e aprovado pelo Conselho Universitário. Esse ano, ainda provavelmente na próxima reunião do Conselho Universitário, nós levaremos a prestação de contas do orçamento de 2005. Isso é inédito, nunca foi feita uma prestação de contas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Essa é uma obrigação do gestor público, porque a gente lida com recursos públicos, se compromete a usá-los dentro de um orçamento que é aprovado e temos que prestar contas do que fazemos. Nós tivemos outras iniciativas importantes: criamos o Colégio de Altos Estudos da UFRJ, que está sendo implementado. Retomamos também um programa amplo de conservação e manutenção dos nossos imóveis. Apesar da escassez de recursos várias obras estão sendo feitas. Ainda na área de gestão financeira, eu acho auspicioso que nós tenhamos praticamente dobrado nosso orçamento de custeio. Quando eu assumi em 2003 o orçamento era de 47 milhões de reais, e em 2006 ele vai ser de 92 milhões de reais. Isso é uma conquista da universidade e uma prova da força e do prestígio que a universidade hoje tem na sociedade como um todo. Na área de pessoal, nós tínhamos uma herança maldita: centenas de processos que dizem respeito à situação funcional de nossos servidores estavam parados na UFRJ. Nós temos limpado essa pauta, restabelecendo direitos que haviam sido usurpados de nossos funcionários, e estamos lutando para resolver aqueles que ainda estão pendentes. E uma coisa também muito importante é o novo papel que a extensão tem na universidade. Nos últimos anos os programas de extensão eram quase que iniciativas isoladas nas unidades, e hoje nós temos, ou estamos construindo, uma política de extensão na UFRJ, envolvendo ou gerando sinergia entre as várias unidades. Então eu diria que em tudo quanto é frente tem novidade; nós estamos avançando. São pequenas conquistas que mostram que a universidade está se movendo. “ ...deliberamos recriar uma outra modalidade de bolsa que atinge particularmente o CAp, que são as bolsas de licenciatura. ” PERSPECTIVA: Como tem sido o desafio de gerir a UFRJ com todas as suas idiossincrasias? Aloísio: É extremamente cansativo, porque a universidade é muito grande, ela é dispersa geograficamente, os problemas acumulados ao longo das últimas décadas são enormes. Apesar de ter a consciência de que resta muita coisa a fazer, eu estou satisfeito com o trabalho que nós temos feito na reitoria. É claro que falando pessoalmente há um preço a pagar. Não dá para ter uma vida acadêmica normal e ser reitor. Estou afastado da pesquisa e sem conseguir dar um curso por ano, e isso me faz falta. Eu gosto de dar aula, é um momento em que você troca, oxigena a cabeça; então é um preço a pagar. Mas eu acho que pelo menos por enquanto tem valido a pena pagar esse preço. PERSPECTIVA: Que melhorias a sua gestão trouxe para os alunos da universidade? Aloísio: Eu destacaria, no âmbito das políticas voltadas para os estudantes, a expansão do programa de bolsas da UFRJ. A universidade no passado chegou a ter um programa mais amplo de bolsas de graduação, mas nos últimos anos esse programa foi se desconstituindo, e as únicas bolsas que nós ainda tínhamos eram as bolsas de iniciação científica. Quando o Lessa foi reitor, ele criou um programa de bolsas de apoio aos estudantes de famílias de renda mais baixa, e nós expandimos isso. Hoje, nós triplicamos o valor que nós desembolsamos a cada ano para os estudantes e a imensa maioria dos recursos está sendo encaminhada para os estudantes de graduação. Além das bolsas de iniciação científica, nós recriamos o programa de bolsas de iniciação artística e cultural e as bolsas de monitoria, que já não existiam mais, além de bolsas para os estudantes alojados e bolsas para os alunos de baixa renda. Também deliberamos recriar uma outra modalidade de bolsa que atinge particularmente o CAp, que são as bolsas de licenciatura. Podemos nos orgulhar hoje de ter o maior e mais abrangente programa de bolsas das universidades federais brasileiras. Também na área da pós-graduação e da pesquisa eu acho que nós temos feito alguns avanços. A pesquisa e a pós-graduação da UFRJ são de excelente qualidade. Nós temos 25 programas de pós-graduação de conceito 6 e 7 na CAPES, o que nos dá uma posição de vanguarda no contexto das universidades brasileiras. A UFRJ tem concorrido numa posição institucional, reunindo os vários programas de pós-graduação para que eles disputem juntos a obtenção de recursos. PERSPECTIVA: E o futuro da UFRJ? Aloísio: Nós estamos abrindo uma discussão sobre um plano de desenvolvimento estratégico da UFRJ para um horizonte de 5 anos. Nesse plano nós fazemos um diagnóstico dos nossos problemas e propomos linhas de ação que buscam superar essas dificuldades. PERSPECTIVA: Como foi a história da sua gestão com relação ao CAp? Aloísio: O CAp tem uma história, e eu olho essa história com um olhar de quem quer tornar o CAp cada vez mais parte integrante da nossa universidade. No passado, o CAp não tinha sequer orçamento. Em agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 7 2005, ele conseguiu não só ajudar na elaboração do orçamento participativo, como, dentro da escassez de recursos desse momento, ser aquinhoado com uma parcela razoável de recursos. Esse ano, foi um momento de felicidade quando vimos que o CAp era uma das unidades que ia receber um dos maiores volumes de recursos. PERSPECTIVA: Como o Sr. analisa a atuação do CAp? Aloísio: Qual é o problema que a gente tem? O CAp foi criado no âmbito da antiga Faculdade Nacional de Filosofia. A Faculdade Nacional de Filosofia foi um projeto interessante dos anos 40. A proposta era que a Faculdade pudesse ser o grande elemento integrador de uma universidade que já naquela época que tinham – e muitos ainda têm – uma visão proprietária de seus espaços, impediu que desse certo. As pessoas acham que são proprietárias dos espaços, das salas, dos professores e dos alunos, desde que fazem o vestibular até que recebem o canudo, e não queriam essa estrutura mais integrada. De qualquer forma, a Faculdade Nacional de Filosofia ficou sendo apenas mais uma unidade nesse contexto, com a função de formação de professores. O CAp foi criado no âmbito da Faculdade Nacional de Filosofia para ser uma espécie, digamos assim, de laboratório das licenciaturas. Você teria ali os licenciandos fazendo os seus estágios, a sua prática de ensino, se envolvendo com as atividades didáticas e com novos métodos pedagógicos. Novas técnicas e novas concepções de ensino seriam desenvolvidas. Quando a Faculdade Nacional de Filosofia acabou e foram criados os institutos, o CAp ficou inicialmente ligado à Faculdade de Educação. Enquanto isso, os institutos foram “ Pensar o CAp é, na verdade, pensar a UFRJ naquilo que é uma de suas atividades mais importantes: a formação de professores. – e até hoje – era extremamente fragmentada. Todos os estudantes que ingressavam na Universidade do Brasil o fariam pela Faculdade Nacional de Filosofia. Ali eles receberiam uma formação básica e seriam, alguns, encaminhados para as escolas de formação profissional, enquanto outros permaneceriam lá para se formarem professores de ensino secundário. Aqueles que tivessem vocação para a pesquisa permaneceriam ali para fazer seus bacharelados e depois suas pósgraduações. Esse projeto não deu certo. A visão restrita dos dirigentes universitários daquela época, agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 ” cada um para um lado, criaram as suas licenciaturas, geraram suas pedagogias específicas, com didáticas específicas de suas áreas de conhecimento. Nos anos 80 o CAp se tornou ele mesmo uma unidade independente. Recuperar essa história é importante para nós pensarmos o que é que a gente quer do CAp. Imaginar que se possa voltar à Faculdade Nacional de Filosofia é impossível. Eu lembro que, quando eu entrei na universidade, a Faculdade Nacional de Filosofia tinha 700 alunos. Hoje, nenhum instituto que tenha licenciatura tem 700 alunos. Todos têm duas vezes, três vezes isso. Como é que a gente pode imaginar que o CAp, com suas limitações atuais, de quadro de professores, de espaço físico, de equipamentos, etc., possa dar conta desse universo? Então está posto um desafio, para a universidade e para o CAp, que é pensar o seu futuro numa universidade nova. Pensar o CAp é, na verdade, pensar a UFRJ naquilo que é uma de suas atividades mais importantes: a formação de professores. Eu imagino que a gente deva caminhar para ter uma instância na universidade para conversar, deliberar, planejar e implantar as práticas didáticas e pedagógicas reunindo saberes que hoje estão dispersos na Faculdade de Educação, nos institutos e no CAp. E nesse sentido o CAp se reintegra, num espírito de convergência, em um nível superior áquele que a gente tem vivido até hoje. “ Uma questão subjacente a esta integração é acabar com a separação que hoje opõe os professores do CAp aos professores do nível superior. ” PERSPECTIVA: O Sr. mencionou o papel do CAp na formação de professores e a necessidade de integração. Algumas pessoas da escola defendem a idéia de que se possa fazer uma pós-graduação ligada a ensino no CAp. Você vê isso como um papel também dentro da formação continuada? Aloísio: Eu nunca pensei nisso, nem a questão foi trazida, mas eu acho que a gente pode pensar nisso. Claro que pode pensar. E isso seria extremamente facilitado se a gente encontrasse uma outra configuração para a questão. Eu acho que é uma proposta que a gente vai ter que discutir, se ela vier a ser formulada. Já há envolvimento dos professores do CAp em algumas práticas, experiências e iniciativas de formação continuada de qualificação de professores. PERSPECTIVA: Nesse quadro qual seria o papel do CAp? Aloísio: É claro que ele tem que ter um papel, ele tem que se expandir. E eventualmente o espaço em que ele está localizado é limitado para isso. A gente pode imaginar realocá-lo para um espaço melhor, pode imaginar que a partir do CAp possamos ter outros CAps. Uma rede de CAps com coordenações interligadas, para que não se perca a imensa qualidade do trabalho que se faz no CAp. Ele tem que dar conta dessa missão em relação às nossas licenciaturas, que a gente quer que se expanda, e ser um laboratório de ensino de nível básico. Ele tem que ser parte do esforço da universidade se integrar na nova concepção do que seja a formação de professores de nível básico, inclusive da formação continuada. Não se trata apenas da licenciatura, mas também de manter um contato permanente com os professores que exercitam sua profissão para que eles possam se capacitar continuamente. Há uma questão subjacente a esta integração que é acabar com a separação que hoje opõe os professores do CAp, os professores do nível básico, aos professores “da universidade”, os professores do nível superior. Eu acho que a gente acabar com essa dicotomia pode ser útil nesse esforço de integração. Os professores do CAp são, em sua maioria, Dedicação Exclusiva, isto é, têm uma inserção completa na universidade, são qualificados, titulados, fazem pesquisa. É bem-vinda esta integração. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 9 PERSPECTIVA: O Sr. vê a chance de realmente algum dia ter um prédio do CAp, ou vários prédios do CAp? Essa é uma questão eterna para a escola. Aloísio: Eu acho que a pergunta é cabível. A história da universidade é uma história de fragmentação, que faz com que nós valorizemos muito esta cultura proprietária. Eu tenho que ter o meu prédio. No caso do CAp é até compreensível pela especificidade do trabalho que se faz. Mas não é só o CAp que quer ter um prédio só dele. Várias unidades que acham que são apenas hóspedes em prédios que não são delas almejam possuir prédios próprios. Eu acho que a gente devia avançar na universidade para superar essa cultura proprietária e desenvolver, digamos, uma cultura comunitária. Os prédios e salas de aula podem ser comuns. É benéfico que os estudantes de letras, de matemática, de história convivam. É benéfico que os professores dessas áreas convivam entre si. É importante que a gente tenha espaços comuns. Os projetos que nós estamos discutindo buscam integração e convergências. Antes do prédio e da localização do prédio é mais importante “ Estamos dispostos a considerar a questão do espaço do CAp no âmbito de um projeto acadêmico, e não como um projeto imobiliário. ” discutir o projeto acadêmico do CAp. Se a gente for se contentar em ter o CAp como um apêndice, um pequeno apêndice, ele pode estar ali, pode estar na Praia Vermelha, ele pode estar em qualquer lugar, ele é apenas um pequeno apêndice. Se o projeto for integrar e expandir o CAp como parte das atividades essenciais da universidade a questão já muda de figura. A reitoria está decidida a examinar essa questão. Nós estamos agora inclusive numa batalha para conseguir um volume significativo de recursos para investimentos. Isso pode dar certo e pode não dar certo. Se der certo, nós estamos dispostos a considerar a questão do espaço do CAp. Mas nós queremos considerá-la no âmbito de um projeto acadêmico, e não como um projeto imobiliário, digamos. 10 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 PERSPECTIVA: Ainda assim, a reitoria está investindo na recuperação do prédio em que a gente está agora. Aloísio: Investir naquele prédio era necessário pelos efeitos de curto prazo. Não é porque um dia vai ter um prédio que a gente vai deixar aquele lá cair. Então, isso era importante. Agora, nós entendemos que aquele espaço tem limitações. Não é possível imaginar um crescimento do CAp, uma expansão do CAp nos limites daquele prédio: você não pode construir novos andares, você não pode construir novos pavilhões ali dentro, então uma questão está posta. PERSPECTIVA: Como você vê o final do seu mandato? Aloísio: Eu acho que tem duas coisas importantes, e que estão interligadas. Se é verdade que nós conseguimos conquistar um ambiente de paz, em que as nossas diferenças podem ser explicitadas sem que isso gere qualquer tipo de receio, perseguição ou coisa semelhante, então este é o momento para nós discutirmos a UFRJ. Para isso inclusive nós estamos distribuindo o PDI, que é um plano de desenvolvimento estratégico, para os próximos cinco anos, em que a gente procura formular um diagnóstico e uma proposta, ou algumas diretrizes para uma proposta para a UFRJ. A reitoria está acertando um calendário para ir a todas as congregações para discutir o PDI. Nós queremos que a discussão seja feita. Talvez seja possível nós obtermos recursos adicionais para investimentos que só serão obtidos e só serão eficazes se nós tivermos uma proposta acadêmica. A discussão pode nos fornecer os subsídios para a formulação de um pedido de recursos adicionais para investimentos com os quais a gente pudesse mudar a cara da UFRJ efetivamente. A prioridade da reitoria nesses próximos meses será nessas duas direções. Claro, consolidar as conquistas que já fizemos, reforçá-las, mas abrir essa discussão sobre a universidade que queremos, e também, baseados nisso, tentar obter recursos adicionais para investimentos. Se a gente conseguir isso, aí pode ser que nós tenhamos um horizonte melhor para a UFRJ nos próximos anos. Aloísio Teixeira é doutor em economia e professor titular do Instituto de Economia da UFRJ desde 1993 Novas Tecnologias e o Ensino de Artes Visuais C Fátima Cristina Vollú omo as novas mídias podem contribuir para o ensino de Arte a partir dos códigos visuais da modernidade? Como novas formas de produção de imagem podem ser trabalhadas na escola? De que forma desenvolver o conteúdo de Artes Visuais no Ensino Fundamental e Médio a partir da observação e produção de filmes de animação? Questões como estas, que enfatizam novas abordagens e metodologias no ensino da Arte, impulsionaram o desenvolvimento, no Colégio de Aplicação da UFRJ, do projeto Meios de Comunicação Audiovisuais: Novas Tecnologias e Educação, cujos resultados são apresentados neste artigo. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 11 Anteriormente à criação do projeto Meios de Comunicação Audiovisuais: Novas Tecnologias e Educação em 1998, algumas experiências foram feitas com turmas de 8ª série do Ensino Fundamental em 1997. Um dos conteúdos do programa desta série é “Tempo - Movimento e Ritmo”, envolvendo o movimento real e o ilusório na obra de arte. Foi desenvolvida, então, a unidade de ensino “Imagem em movimento”, tendo como ponto de partida a observação do filme de animação “Monalisa”, no qual pinturas do século XX ganham movimento e se transformam. Após o conhecimento de como se consegue o movimento de imagens que a princípio são estáticas, os alunos escolheram uma ou duas pinturas de algum artista e o desafio era colocá-las em movimento. O resultado foi muito bom, por ter possibilitado a compreensão de como é realizado um filme de animação. A partir dos resultados obtidos, o projeto começou a ser estruturado pelas professoras Fátima Cristina Vollú da Silva Brito e Maria Cristina Miranda, do setor curricular de Arte Visuais, do Colégio de Aplicação da UFRJ. diferentes linguagens das artes plásticas, como pintura, escultura, gravura e desenho, a primeira aborda também outras formas de expressão artística, como a fotografia, o cinema, o cinema de animação, a vídeo-arte e a computação gráfica. Artes Visuais aborda obras de museus e galerias de arte, passando pela estética do cotidiano (filmes, outdoors, espaço urbano, entre outros), possibilitando o desenvolvimento intelectual, social, cultural e estético a partir de avanços tecnológicos mais recentes. A educação estética está ligada à educação da visão, à observação das imagens, o que permite a leitura do mundo através dos elementos das artes visuais. O envolvimento estético é um dos fatores relevantes na construção do conhecimento do aluno. Por este motivo, ele deve ser estimulado a apreciar esteticamente e refletir sobre a arte produzida por artistas, bem como por ele e pelos colegas. A informação codificada através de imagens faz parte do dia-a-dia das pessoas. Este processo vem se intensificando cada vez mais com o passar do tempo e com mais facilidade, como presenciamos hoje com as máquinas fotográficas digitais, até mesmo embutidas em telefones celulares. As informações codificadas através de imagens estão presentes na escola, na TV e nos espaços públicos. Mas como os alunos podem se tornar melhor decodificadores dessas imagens, e também produtores? É necessária a apropriação da linguagem da imagem para que seu consumo e sua produção não beirem o limite da passividade. A escola, ainda nos dias de hoje, ignorando o forte apelo das imagens continua priorizando a comunicação verbal e escrita e o ensino quase que exclusivamente por meio dela. A cultura da imagem precisa ser valorizada, relacionandoa à aquisição de códigos. A imagem pode ser vista a partir de dois pontos de vista: de quem a produz e de quem a aprecia. O estudo da imagem O projeto Meios de Comunicação Audiovisuais: Novas Tecnologias e Educação tem o olhar voltado para dois pontos: (1) discussão e investigação de possibilidades de uso das novas tecnologias na educação e, mais especificamente, no ensino de Artes Visuais; (2) produção de filmes de animação. As bibliografias referentes à imagem no ensino da Arte, à tecnologia educacional, ao cinema e ao cinema de animação constituem o embasamento teórico do projeto. Além da pesquisa feita pelos professores do projeto, bolsistas de Iniciação Artística e Cultural (IAC) foram orientados para o desenvolvimento das seguintes pesquisas, dando suporte teórico ao projeto: “Novas Mídias e a Tecnologia na Educação”; “A Imagem no Ensino da Arte”; “Tecnologia da Informação”; “A Linguagem da Animação: Como surgiu e Qual o seu Processo de Criação”; e “O Cinema como Mídia Educativa”. abordado no ensino de artes visuais propicia experiências a partir desses dois pontos. Para ambos é fundamental a construção do olhar do aluno, que se desenvolve a partir da leitura de imagens com base em aspectos estéticos, culturais, formais da arte, entre outros. É incontestável o poder de comunicação de uma imagem, o que faz com que ela seja utilizada muitas vezes com o objetivo de influenciar o comportamento e o consumo das pessoas – são imagens comerciais, com uma linguagem estereotipada, prontas para atingirem a parcela da população desejada. Neste sentido uma educação em arte cumpre o papel de formar um observador mais crítico, que consiga decodificar as imagens às quais está exposto, seja no sentido formal, seja no conceitual. As imagens veiculadas pelos diferentes tipos de mídia com que as pessoas têm contato em seu dia-a-dia trazem em sua essência um discurso conceitual que deve ser trabalhado a partir da estética e dos conteúdos das artes visuais. Um novo tipo de público, que não aceita qualquer produção sem refletir, forçaria uma mudança qualitativa na produção para o cinema, TV, internet, outdoor e livros escolares. A escola também deve ter como objetivo que os alunos não se interessem apenas pelo consumo de filmes e imagens comerciais. Para isso, o aluno deve ser estimulado desde as primeiras séries de escolaridade a observar filmes com uma linguagem não estereotipada, desenvolvendo um olhar crítico. Vários educadores apontam a importância da imagem em movimento (filmes e animações) para a educação. O cinema de animação como elemento educativo enfoca os objetivos do ensino da arte a partir de novas possibilidades e abordagens para se trabalhar a imagem. O desenvolvimento da linguagem artística se apropria dos elementos das artes visuais, da linguagem da imagem em movimento e do conhecimento/domínio da tecnologia do cinema de animação. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) sugerem uma abordagem ampliada em relação ao ensino de Arte na escola, começando pela terminologia Artes Visuais, ao invés de Artes Plásticas. Enquanto a última aborda A escola tem avaliado a atual geração de alunos como totalmente desinteressada e que não faz nada além de assistir TV e de jogar videogames. É percebido no Foto por Fátima Cristina Vollú 12 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 13 cotidiano da escola que os alunos são atraídos pelas imagens em movimento, e esperam da escola também um ritmo intenso. Os alunos estão muito expostos à TV, ao computador, ao videogame, enfim, à tecnologia de mídia como um todo, estabelecendo relações que variam da passividade à interatividade. Como o educador pode tirar proveito desta situação? Será que o caminho de simplesmente negar ou criticar a TV ou o computador faz sentido e traz resultados? Nos dias de hoje a tecnologia se faz cada vez mais presente e necessária, possibilitando o intercâmbio de informação, o acesso e socialização do conhecimento. A escola precisa ficar atenta a esta situação e utilizar estes meios como uma forma de estabelecer uma relação mais efetiva com os alunos. É lógico que não se pode ser simplista, achando que a comunicação possa ser estabelecida somente pela sua utilização, é necessário adequar os conteúdos escolares a uma nova linguagem, e um caminho é o da mídia educativa de qualidade. Não se pode ignorar a enorme presença dos meios eletrônicos e da informática na cultura da humanidade. A escola deve ficar atenta a como pode se preparar para utilizar as novas mídias como ferramenta de ensino e discussão, visto que nossos alunos estão cada vez mais precocemente e mais demoradamente em contato com elas. É importante que o aluno entre em contato com questões que envolvem como a mídia elabora a realidade, o que ela prioriza, e qual o seu olhar e sua abordagem. Se a escola não se modernizar corre o risco de ser omissa na formação desses alunos, permitindo que eles sejam consumidores desses meios, sem reflexão, e sem saber o que fazer com tanta informação que recebem. Estar do outro lado também é importante: como podemos preparar nossos alunos para a produção audiovisual, valorizando o olhar e a análise a partir das questões que a envolvem? Como o professor também pode produzir material didático voltado para a linguagem com que o aluno de hoje tem mais identificação? É fundamental o desenvolvimento de novas metodologias de ensino a partir da aplicação de conhecimentos ligados à tecnologia, não deixando de lado a reflexão a partir da sua utilização e sobre a produção que dela se origina. A abordagem do cinema como elemento educativo vai ao encontro da proximidade do aluno com este tipo de mídia, que está cada vez mais preocupado não só em contar histórias, mas também em contá-las em uma linguagem cada vez mais contemporânea, com ritmo intenso, e imagens impactantes em função da cor, da luz, do enquadramento e reforçadas pela trilha sonora. A animação (em vídeo, cinema, jogos, web) tem crescido muito no Brasil e também no exterior, tanto em relação a sua produção quanto à aceitação como mídia de informação e entretenimento, deixando de ser explorada apenas em seu lado comercial, e longe de ter só as crianças como público-alvo. O cinema de animação surge na escola como um meio mágico de se produzir imagens em movimento. Brinquedos ópticos, considerados experimentos do pré-cinema, como o flip-book, taumatrópio e zootrópio são feitos com os alunos com o objetivo de perceber a construção do movimento em animação. O campo de atuação do projeto envolve aulas do Ensino Fundamental e Médio, de acordo com o programa de cada série; oficina de cinema de animação e o AnimaCAp, um curso de animação fora da grade curricular. Estão previstos, também, a ampliação do animaCAp para toda a comunidade escolar e cursos de extensão para professores, nos quais se pretende discutir a utilização da animação como elemento educativo e também produzir filmes. A aplicação deste projeto busca desenvolver os conteúdos de Artes Visuais através da apreciação e da produção de imagens em movimento (cinema de animação), propiciando novas formas de abordagens estéticas a partir de questões que envolvem a tecnologia e linguagens contemporâneas da Arte. Desta forma, são trabalhados conteúdos como espaço, cor, luz, equilíbrio, composição, movimento, som, ritmo, iluminação, planos de enquadramento, angulação de câmera, observação de imagens, apreciação estética, entre outros. O trabalho também envolve pesquisa de materiais e técnicas artísticas utilizadas em cinema de animação e investigação de possibilidades de aplicá-los nas animações produzidas na escola, assim como a descoberta de novas formas de produção. A produção de uma animação envolve várias etapas, desde a criação do roteiro e a confecção de cenários e personagens até a sua edição. A partir das imagens fotografadas são estudadas formas de montagem e efeitos para que elas tenham mais impacto e desenvolvam melhor o roteiro. Para este trabalho de tratamento das imagens e de edição não-linear (edição de imagem feita em computador), diferentes softwares são utilizados para que as fotos ganhem movimento e se transformem em filme. O uso da tecnologia de manipulação de imagens se mostra como importante recurso para a introdução da computação no ensino de artes visuais, linguagem cada vez mais presente nos dias de hoje e nos tempos que estão por vir. A partir deste trabalho os alunos se apropriam das ferramentas tecnológicas contemporâneas disponíveis e por meio da pesquisa de linguagem as transformam em linguagem artística. A maior parte das escolas que incluem a informática na formação dos seus alunos prioriza a edição de textos e o uso de bancos de dados, em detrimento de programas que enfocam a imagem, o som e o movimento, por exemplo. Assim como a apreciação de imagens estáticas, a apreciação e a produção de imagens em movimento demandam o conhecimento da linguagem, o que envolve a aplicação dos recursos dos softwares de acordo com o resultado que se pretende. Assim, a partir da tecnologia a imagem adquire novas possibilidades de trabalho, envolvendo a imaterialidade, o virtual, e criando novas “realidades”, a partir da imagem digital. Levando-se em consideração a característica dessas novas mídias de permitir uma melhor e mais rápida socialização do conhecimento e da informação, a questão da exibição é muito importante quando se trabalha com produção de filmes. É como se fechasse um ciclo – o da produção –, e abrisse um outro – o do diálogo. No processo de distribuição da Arte, a partir de cada leitura que se faz, é que o produto artístico se define. Neste sentido, é um ponto importante que dois dos filmes já editados feitos no CAp tenham sido selecionados para exibição na Mostra Geração – mostra infanto-juvenil do Festival do Rio, no Programa Vídeo Fórum, que abre espaço para a produção audiovisual realizada por crianças e jovens, além de estimular o debate sobre e a partir dessas produções. Os filmes selecionados foram desenvolvidos na Oficina de Cinema de Animação realizada na Semana de Arte, Ciência e Cultura do CAp de 2004: “A Menina”, realizado Foto por Fátima Cristina Vollú 14 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 15 por alunas da 2ª série do Ensino Fundamental, e “O Pescador e o Peixe”, feito por alunos da 6ª série do Ensino Fundamental e da 1ª série do Ensino Médio. A seleção para a mostra e a possibilidade de exibição para um público fora da comunidade escolar foram motivos para o reconhecimento desses alunos como produtores de um filme. No Vídeo Fórum os alunos tiveram a oportunidade de assistir aos seus filmes e falar para o público presente sobre a sua produção, além de conhecer produções audiovisuais desenvolvidas em outras escolas ou espaços educativos por crianças e adolescentes. Assim que todos os filmes realizados no CAp sejam editados e finalizados, será promovida uma Mostra de Cinema de Animação com o objetivo de incentivar a produção de filmes de animação, além da divulgação no âmbito escolar, não descartando a possibilidade de que seja desenvolvido também um festival, exibindo filmes de animação infanto-juvenis realizados em outras escolas, além da participação em festivais externos. Com a participação de bolsistas de Iniciação Artística e Cultural desde junho de 2004, foi introduzido na escola também o projeto Animando a Arte Brasileira, que tem como objetivo reduzir a lacuna que existe entre a necessidade de se trabalhar a produção artística brasileira no ensino de arte e a pouca oferta de material didático audiovisual. Este projeto procura valorizar e resgatar a cultura e a realidade social registradas por artistas em suas obras. Um dos principais objetivos deste projeto é a produção de filmes de animação a partir da obra de artistas brasileiros. O primeiro filme deste projeto foi produzido a partir de obras de Candido Portinari. Está sendo iniciado um estudo da sua aplicação em sala de aula, assim como o planejamento para o desenvolvimento de um site para a divulgação e o estabelecimento de um canal de comunicação com professores que utilizam a animação ou novas tecnologias como material didático para o ensino da arte ou outra disciplina, estabelecendo um local de troca de experiências. Por ser uma linguagem que tem como característica principal o movimento, a animação desperta grande interesse nos alunos, seja na apreciação ou na produção. Isto faz dela mais um meio para expressão pessoal e crítica, além de promover o desenvolvimento do conhecimento em diversas áreas, estabelecendo um diálogo imediato dos alunos a partir de uma linguagem contemporânea. Fátima Cristina Vollú é mestra em Educação pela UERJ e professora de Artes Visuais no CAp-UFRJ desde 1993, onde desenvolve projetos em animação e uso de novas tecnologias no ensino. Sugestão para leitura: Barbosa, Ana Mae. A imagem no ensino da Arte. São Paulo: Perspectiva; Porto Alegre: Fundação Iochpe, 1991. Barbosa, Ana Mae (Org.). Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte. São Paulo: Cortez, 2002. Fusari, M.F. de R. & Ferraz, M.H.C. de T. Arte na educação escolar. São Paulo: Cortez, 1993. Miranda, Carlos Alberto. Cinema de Animação. Rio de Janeiro: Vozes, 1971. Foto por Fátima Cristina Vollú Lévy, Pierre. As Tecnologias da Inteligência. O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro: Ed.34, 1993. Histórias em curso Américo Freire C aro amigo, Como tem me perguntando por novidades, aqui as envio pelo correio eletrônico. Desde já lhe aviso: não irei me render à maneira telegráfica típica deste novo meio de comunicação. Em nome da velha amizade, peço vênia para lhe escrever como na época dos simpáticos carteiros dos Correios e Telégrafos, quando as frases ainda eram compostas por sujeito, predicado e um bom número de adjetivos. Portanto, trate de arrumar tempo para ler esta carta eletrônica com o devido cuidado e compreensão. Nos dois últimos anos, uma parte do meu tempo tem sido tomado por andanças pelo país, como caixeiro-viajante, em reuniões com professores na apresentação de História em Curso – o livro didático de História do Brasil que escrevi com Marly Motta e Dora Rocha – e que lhe enviei quando do lançamento do mesmo em meados de 2004. Nesses encontros, depois do momento inicial em que – pela undécima vez – apresento o meu “improviso”, começamos a trocar interessantes idéias a respeito de questões variadas sobre livro didático, metodologias, conteúdos, enfim, temas interessantes que passo a dividir com o atencioso amigo. No segundo semestre de 2004, em meio ao tour de viagens, fui visitar, aqui no Rio de Janeiro, a exposição Antes no Centro Cultural Banco do Brasil. Sob o impacto daquela inédita e bela mostra a respeito das histórias da “pré-história” brasileira, pude perceber o quanto o conhecimento arqueológico tinha avançado no país nos últimos anos, e mais: como nós, pesquisadores e professores de história, pouco sabíamos (e continuamos a não saber) acerca destas novas descobertas que, muito provavelmente, deverão produzir mudanças na maneira pela qual este tema tem sido abordado pela historiografia e pelos manuais didáticos. Ao escrevermos História em Curso, não tínhamos a dimensão destas mudanças. Pillar, Analice. O vídeo e a metodologia triangular no ensino da Arte. Porto Alegre: UFRS: Fundação Iochpe, 1992. Pillar, Analice (org.). A Educação do Olhar no Ensino das Artes. Porto Alegre: Mediação, 1999. 16 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 17 “ Bem sabe o amigo que nada é de graça. Pois bem, ao reiniciarmos as rodadas de reuniões com os professores e as professoras, agora em terras paulistas, lá estava uma delas – impávida, com olhar simpático e exigente – a nos cobrar a inclusão desta temática em nosso livro. Por sorte, estava de alguma forma preparado para a ocasião, fato esse que me permitiu, além de registrar minha concordância com a minha interlocutora a respeito da importância do tema, esboçar algumas idéias acerca da possibilidade de se tratar do assunto em futura edição do livro. Veja você que, por mais um desvio da história, um ano depois, ao participar da equipe responsável pela elaboração de material para professores no contexto da exposição Por Ti América – uma grande mostra sobre as sociedades précolombianas –, lá estava eu tomando contato com estudos que levantam hipóteses acerca da possibilidade da formação, em tempos pré-europeus, de sociedades complexas nas terras baixas amazônicas, colocando por terra teses consolidadas quanto ao caráter simples ou “primitivo” dos povos que habitaram aquela vasta região, a qual hoje em dia está em grande parte em terras brasileiras. Por óbvio, o amigo poderá me dizer que estou acometido de uma dessas doenças típicas dos autores de livros didáticos – a paranóia – uma vez que, a cada dia, surgem novas descobertas científicas que refutam o saber estabelecido. De qualquer maneira, o desafio de se buscar incorporar estes novos temas em narrativas de caráter didático voltadas para 18 ” a compreensão da sociedade brasileira aí está, e, mais cedo ou mais tarde, deverá ser enfrentado. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Em meu périplo, tenho tido a oportunidade de conversar com professores de ensino médio em seus locais de trabalho, nas próprias escolas. No caso do universo de algumas das boas escolas públicas e particulares do Rio de Janeiro, pude observar que está em curso uma intensa renovação no professorado de história, com evidentes mudanças na forma pela qual se dá o ensino da disciplina. Por variadas vezes, meus interlocutores eram professores de nova geração – entre vinte e trinta anos – geralmente formados nas melhores universidades públicas ou privadas e com passagem em estudos de pós-graduação. Como o amigo deve ter reparado, este novo perfil em nada, ou quase nada, se identifica com aquele do professor de história típico de décadas atrás, no qual o traço distintivo era a “larga experiência em sala de aula” e o conhecimento pormenorizado de tudo aquilo que girava em torno dos vestibulares. De alguma forma, o saber acadêmico acabou por superar tudo isso... Durante os encontros, os jovens mestres, por educação, me permitem falar à vontade a respeito das minhas vãs filosofias, mas o que querem mesmo é tratar de questões mais práticas, a respeito de como criativamente têm se apropriado do livro. Por vezes, não deixam de dar sugestões para edições futuras ou mesmo apontar algum “problema conceitual”, em atitude franca, aberta, típica de quem foi socializado em um clima acadêmico propenso ao bom debate. Por ora, caro amigo, é só. Meu e-mail está entupido de mensagens do editor me cobrando a entrega de um artigo para Perspectiva Capiana. Como ainda prezo pela vida, acho que terei de atendê-lo. Querendo o amigo ou não, semana que vem lhe envio mais capítulos da série histórias em curso. Abraços do amigo Américo Freire Américo Freire trabalha no CAp-UFRJ desde 1983 e atualmente coordena o setor curricular de História. É professor e pesquisador do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV). “O Convidado”: foto cedida pelo NUTED-FIOCRUZ história ...lá estava uma delas impávida, com olhar simpático e exigente – a nos cobrar a inclusão desta temática em nosso livro. Por sorte, estava de alguma forma preparado para a ocasião... Anotações de um Percurso Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor, Andrea Pinheiro e Brunella Provvidente O projeto de extensão curricular Arte e Saúde, criado em 2004, no âmbito do Colégio de Aplicação da UFRJ, surgiu como um desdobramento do projeto de desenvolvimento tecnológico Arte e Saúde, concebido e organizado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/FIOCRUZ, desde 2003. Pretendeu-se, com a parceria entre as duas escolas, estabelecer uma aproximação sistemática entre docentes e alunos dos dois centros formadores, no intuito de viabilizar a produção de conhecimentos no campo da educação estética, tanto em projetos de ensino quanto de pesquisa. No CAp-UFRJ, o projeto Arte e Saúde, voltado para os alunos do Ensino Médio, consiste numa proposta de integração de duas linguagens artísticas – a Literatura e as Artes Cênicas – tendo como culminância a montagem de um espetáculo teatral. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 19 impostas, por razões religiosas, àqueles que se dispõem a seguir o caminho do sacerdócio. Através da exploração desses três eixos, pretendíamos acionar uma reflexão sobre os lugares do corpo na contemporaneidade e seus impasses e desafios. foto por Bruna Provenzano alunas em cena na edição 2004 do projeto agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Brunella Provvidente (graduanda de Direção Teatral da ECO-UFRJ), Luiz Felipe Andrade Silva (bacharel em Letras pela UFRJ e graduando de Cinema pela UFF) e pelo grupo de teatro Capachos da Arte (formado pelos alunos Isabel Freire, Isabella Almeida, Pedro Pedruzzi e Rodrigo Fernandes) – adotou como estratégia criativa, de saída, a organização de um “laboratório de criação”, a partir do qual seria possível construir a dramaturgia do espetáculo e, em uma etapa posterior, o texto dramático propriamente dito. Entusiasmados com a possibilidade de realização de uma “oficina literária”, de natureza coletiva, pensamos a temática do corpo a partir de três eixos centrais: o corpo decadente, o corpo interdito e o corpo sublimado. A cada um desses eixos corresponderia um aspecto específico relacionado à problemática do corpo, gerando, cada um deles, ricos desdobramentos, tendo em vista a construção de um universo dramático. O corpo decadente apontaria para a discussão dos padrões estéticos esperados na sociedade contemporânea e dos reflexos de uma “tirania de mercado”, a encarcerar os seres humanos dentro de si mesmos. O corpo interdito suscitaria uma reflexão acerca de diferentes limitações físicas – a mudez, a cegueira, a surdez, entre outras – e de suas conseqüências nos processos de interação social dos indivíduos. O corpo sublimado diria respeito às exigências celibatárias Para trazer à luz a problemática do corpo, prismada pelos três eixos já estabelecidos, acordamos – sempre em processo de discussão coletiva – quais seriam nossos três personagens: uma antiga vedete do teatro de revista, um jovem mudo e um monge. Em cada um deles, o corpo em suas inelutáveis verdades; mas como movê-las e entrecruzálas? De que modo tramar os labirintos dramáticos em que os personagens se esbarrariam? Passamos à etapa seguinte de nosso processo de criação coletiva. Organizados em grupos, ocupamo-nos de cada um desses personagens. Nossa tarefa era a de criar uma biografia para cada um deles, ou seja, cada grupo deveria criar uma narrativa na qual o personagem em questão fosse o protagonista. Concluída a tarefa, reunimo-nos para escutar as histórias de nossos personagens. Percebemos que suas “ Desenhados os personagens em seus universos dramáticos específicos, o desafio era superpor esses universos, costurando-os em um texto dramático verossímil e conseqüente. Em cada uma das histórias, construiuse uma figura masculina marcante e decisiva na vida de cada personagem: era “O Convidado”. Além dos corpos que compuseram nossos eixos temáticos – o decadente, o interdito e o sublimado – surgiu um quarto corpo, “invisível”, para promover a interseção entre as três narrativas. A forma final do texto dramático ficou a cargo de Luiz Felipe Andrade Silva que – sempre com o assentimento do grupo – reuniu as cenas resultantes das biografias desenvolvidas e criou outras especialmente destinadas a tecer a relação entre os três personagens. A decisão de ambientar a história num hospital psiquiátrico proporcionou à montagem um compartilhar não apenas do espaço e do material cênico, mas também das biografias, já que cada personagem, além de protagonizar a sua própria história, participa da história do outro: o mudo, por exemplo, atua como o pai na história da vedete; a vedete, por sua vez, é a parteira na história do monge; já o monge é o pai do mudo e assim, sucessivamente, numa intrincada teia que acentua os conflitos e contribui para uma sólida ação dramática. Desenhados os personagens em seus universos dramáticos específicos, o desafio era superpor esses universos, costurandoos em um texto dramático verossímil e conseqüente. ” cena de “O Convidado”, montagem da edição 2006 do projeto agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 foto cedida pelo NUTED-FIOCRUZ 20 A cada ano, o projeto enfoca um tema relacionado à saúde: para a edição de 2004, sob a temática Arte e Peste, partimos do texto dramático “Estado de Sítio”, de Albert Camus; no ano seguinte, cujo tema era Arte e Meio Ambiente, realizamos a adaptação do texto literário “A Desintegração da Morte”, de Orígenes Lessa. No entanto, em 2006, para o tema Arte e Corpo, optamos pela criação coletiva de um texto dramático próprio, sem partir de nenhuma fonte prévia, dramática ou narrativa. Assim, a equipe do projeto no CAp-UFRJ – coordenada por Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor (professora de Língua Portuguesa) e Andrea Pinheiro (professora de Artes Cênicas), e constituída por foto por Bruna Provenzano es construindo pontes professora Andrea Pinheiro dirigindo aluna durante ensaio na edição 2004 do projeto Definidos os eixos temáticos do trabalho, como leválos à cena? Como transformar essas possibilidades de abordagem do corpo em matéria dramática, em exercício cênico? Antes de pensarmos na história propriamente dita ou, ainda, no modo de contá-la, propusemos a criação de personagens. Para dar contornos nítidos, feições particulares e traços específicos aos mesmos, investimos em um exercício bastante freqüente em oficinas de roteiros cinematográficos: o da criação de biografias. Para que o personagem tenha vida no palco, para que não seja uma “marionete em carne-e-osso” – espectro caricato de um ser humano –, é preciso que este se assemelhe, de fato, a alguém que pudéssemos ter conhecido ou que possamos vir a conhecer. A criação de um personagem assume o papel da criação de um pequeno universo dramático em si mesmo, na medida em que ele habita um mundo – aquele em que se encontra com seus hábitos, particularidades, emoções, pensamentos e relações. biografias não foram desenvolvidas do mesmo modo: se, no caso da vedete, sua história foi apresentada por tópicos esparsos, que davam conta de aspectos de sua vida (lugar onde nasceu, características familiares, relacionamentos afetivos, aspirações profissionais), a trajetória do mudo foi narrada de maneira contínua, acompanhando sua existência desde a infância. Já a biografia do monge, por sua vez, ora em diálogo intertextual com “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, ora com “O crime do Padre Amaro”, de Eça de Queirós, apresentou-se como um texto com fortes tintas de um melodrama, em que o riso, às vezes, irrompia de modo surpreendente. 21 Logo após a criação corporal dos personagens, passamos ao levantamento da produção. Se, por um lado, todos os elementos técnicos deveriam estabelecer a distinção entre o espaço do presente (o do hospital psiquiátrico) e o da memória ou do devaneio (o das biografias), havia outras questões de ordem prática. Como estava prevista a apresentação do espetáculo na Tenda do Ciência em Cena/FIOCRUZ, o cenário deveria ser leve, simples e flexível para facilitar o seu transporte. Quanto ao figurino, não seria possível que os atores trocassem de roupa a cada instante. Portanto, optamos pela utilização do mobiliário de que dispomos na escola – uma mesa e quatro cubos de madeira – e um figurino neutro, já que cada ator representava mais de um personagem. grupo de alunos participante da edição 2004 do projeto com as professoras Andrea Pinheiro e Ana Lucia Soutto Mayor, respectivamente quarta e sexta da esquerda para a direita Nossa última etapa de trabalho – a dos ensaios – foi a mais intensa e a que exigiu maior dedicação dos atores. A marcação, inspirada nos exercícios desenvolvidos e nos estilos das biografias criadas, demandou uma constante repetição das cenas uma vez que havia muitos detalhes a serem fixados. Era de suma importância que os diferentes momentos de narração e os de atuação, assim como as mudanças de personagem, fossem “limpos”, ou seja, livres de gestos excessivos. Através da repetição dos gestos e da reflexão sobre os mesmos, construímos uma partitura corporal que levou os atores a compreender a motivação de seus personagens. Ao refletirmos sobre o processo de montagem de “O Convidado”, pusemo-nos a analisar a trajetória percorrida nos três anos do projeto Arte e Saúde. Fruto de uma iniciativa interdisciplinar – pois integra a literatura e as artes cênicas – e com uma perspectiva de extensão curricular, este projeto nos estimula, como profissionais, a uma constante pesquisa de novas metodologias de trabalho, não subordinadas às demandas específicas dos conteúdos programáticos tradicionais de nossas disciplinas. A experiência vivida ao longo destes três anos impõe a necessidade de continuarmos investigando novas possibilidades de trabalho no espaço escolar de forma que a experiência estética ocupe um lugar central no fazer pedagógico, apostando na potência libertadora das linguagens artísticas. Ana Lucia de Almeida Soutto Mayor, professora de Língua Portuguesa e Literatura do CAp-UFRJ, e Andrea Pinheiro, professora de Artes Cênicas do CAp-UFRJ, coordenam o “Projeto Arte e Saúde”. Brunella Provvidente, graduanda de Direção Teatral da ECO-UFRJ e bolsista do projeto, compôs a equipe em 2006. Filosofia no Ensino Médio opinião construindo pontes 22 Nesse território de múltiplas possibilidades, é necessário que os atores transitem por todos os personagens com agilidade e precisão. Procurando enfatizar a tônica corporal, propusemos vários exercícios tais como o da criação de esculturas de personagens, comumente utilizado nas aulas de Teatro. O diferencial, neste caso, é que a pesquisa corporal, assim como a confecção da dramaturgia, também foi coletiva: cada ator criou uma escultura para o seu próprio personagem e também para os outros; logo, a forma final foi uma coletânea – ou síntese – de todas as esculturas produzidas. Constatamos que a participação ativa na confecção das biografias tornou os atores mais disponíveis na hora dos exercícios: eles se sentiram mais aptos a “dar corpo” aos personagens cujos universos eles mesmos ajudaram a criar, embarcando com empenho e liberdade nas atividades propostas. Lia de Oliveira Guarino H á alguns anos se discute no Brasil se a filosofia deve ser incorporada ao currículo do Ensino Médio, como uma disciplina em separado. Muitos suspeitam que o ensino de filosofia seja importante. A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 recomenda-o para o “exercício da cidadania”. Por outro lado, a filosofia é vista com desconfiança por se tratar de uma disciplina um tanto enigmática para a maior parte dos educadores e alunos. Qual é precisamente sua função? Qual a sua real importância? Qual o seu sentido, se não é uma ciência (nem exata, nem humana), não é uma arte, tampouco uma técnica, e muito menos uma religião? Afinal, o que é a filosofia e qual o seu papel no Ensino Médio? agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 23 Mas não são apenas questões epistemológicas que perturbam o pensamento filosófico. Há também problemas de ordem ética. Vivemos num mundo capitalista, moderno, industrial, tecnológico, que muda com uma velocidade assustadora. Valores que ontem eram indestrutíveis são varridos rapidamente no processo histórico. Família nuclear, estabilidade no emprego, sexualidades bem definidas, uma certa tranqüilidade social, para dar alguns exemplos, são formações que foram profundamente abaladas na nova configuração histórica. Outros vínculos sociais foram produzidos, o emprego tornou-se precário (quando não inexistente), novas sexualidades emergiram, a violência se alastrou nas cidades. Tendo em vista este contexto social tumultuado, a depressão, a angústia, o medo e até mesmo o pânico tomaram conta de nossa subjetividade moderna. Como resolver ou minimizar esses sintomas? Como sair do mal-estar que se enraíza na civilização? A decisão rápida que busca nos remédios antidepressivos ou nas drogas a solução para o problema não quer enfrentar de forma corajosa a situação, que exige um trabalho mais elaborado de pensamento. Mas como pensar essa subjetividade atormentada se não temos o instrumental adequado, os conceitos precisos que, esses sim, nos auxiliariam a viver? Eis a tarefa da filosofia no Ensino Médio e fora dele: dar ferramentas conceituais para simbolizar a vida moderna e suas dificuldades afetivas, sexuais, existenciais. Que outra disciplina poderia dar esses instrumentos conceituais senão a filosofia? É bem verdade que a religião também procura dar conforto e auxílio à nossa existência. Mas como o estado brasileiro é laico, a religião não é ensinada na escola pública, então cabe à filosofia o debate em torno dos valores morais. O debate que se instalou ultimamente em torno do ensino da religião na escola pública é um retrocesso. Se se trata de ensinar religião na escola, então será preciso contratar professores que representem todas as religiões: o judaísmo, o catolicismo, o islamismo, o candomblé, o espiritismo, e todas as demais seitas existentes, o que levaria o estado a contratar um número enorme de profissionais. Pois, se apenas uma dessas religiões for contemplada, como justificar que o povo sustente um profissional de uma determinada religião e não de outra? A controvérsia seria instalada. Já o mesmo não acontece com a filosofia. Pode-se objetar que um ensino de filosofia financiado pelo estado, para ser justo, teria também que contemplar as diversas correntes filosóficas: platônicos, tomistas, cartesianos, kantianos, marxistas, nietzscheanos, etc. No entanto, há uma diferença fundamental entre filosofia e religião: a filosofia não é dogmática, ela pode dispor de alguns conceitos e desprezá-los se não mais servirem. Conceitos são ferramentas para pensar e agir, não são dados inquestionáveis. A filosofia é um pensamento sem compromisso com qualquer tipo de conteúdo pensado, ela é livre, seu único compromisso é com a manutenção do exercício de pensar, ao passo que a religião não abre mão de seus conteúdos dogmáticos. A filosofia busca uma orientação para viver, problematizando o modo como vivemos, estranhando práticas tão arraigadas na nossa sociedade: competição, propriedade privada, consumismo, individualismo, trabalho alienado, niilismo. Além disso, a filosofia, diferentemente da religião, vai buscar uma orientação para nossa conduta sem apelar para dogmas, sem partir de dados inquestionáveis, sem buscar uma transcendência. Ao contrário, é de sua natureza não partir de certezas, colocarse na perspectiva imanente da ignorância, do não-saber que busca um saber, mas que não sabe com segurança o que é certo, o que é errado, o que é o bom e o mau, o justo e o injusto. na qual uns exercem o poder e outros são dominados, na qual existe uma divisão de grupos e uma hierarquia entre eles, a tensão política é permanente. A violência ou a iminência dela está em toda parte. Como entender de modo crítico esse jogo de classes, dos interesses contrários que se chocam e como é possível transformar essa situação? Com que ferramentas conceituais podemos pensar (e virar) esse jogo? Eis mais uma vez a tarefa da filosofia: produzir conceitos que funcionem para pensar o mundo político e social, de tal maneira que não haja exclusão de um grupo em detrimento de outro, de tal modo que a sociedade não se divida e que todos sejam contemplados. Assim, a filosofia surge para resolver problemas que o pensamento coloca para si mesmo. Problemas de natureza epistemológica, ética, política e também estética. Pois qual é o sentido da arte que se produz hoje no ocidente? Se a arte em geral não está mais preocupada em imitar a natureza, ou em fornecer um modelo perfeito (belo) opinião opinião Ora, a filosofia surge de uma exigência do próprio pensamento. Ele é quem problematiza as várias formas de pensar, suas diversas possibilidades. Se se faz física, química ou biologia, surge, por exemplo, uma necessidade de se saber o que são estas formas de pensamento que conseguem um grau de objetividade e exatidão tão impressionante para o senso comum. Como funciona a ciência? Como ela pensa? Por que a consideramos como a “guardiã da verdade”? O que é a verdade? Como a distinguimos de uma mera opinião ou de uma estranha magia? Qual é o alcance da ciência e quais são seus limites? Quais são seus perigos e suas conseqüências na cultura, na vida cotidiana das pessoas? Todas essas questões, consideradas epistemológicas, surgem inevitavelmente em nossa cultura ocidental, que aposta todas as fichas na ciência, que investe dinheiro e libido em cientistas, laboratórios e pesquisas. Mesmo o Brasil, que investe menos em ciência do que países do primeiro mundo, está imerso na cultura científica. O aluno do Ensino Médio se vê bombardeado por aulas de matemática, física, química, biologia, sem entender muito bem o sentido dessas disciplinas em suas vidas ou o porquê dessa direção educacional. Ao mesmo tempo que o pensamento formula questões éticas (do sujeito consigo mesmo), coloca também problemas na relação que os homens têm entre eles, ou seja, problemas políticos. Numa sociedade partida em classes, “ A filosofia busca uma orientação para viver, problematizando o modo como vivemos, estranhando práticas tão arraigadas na nossa sociedade 24 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 ” agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 25 opinião “ Mais do que ensinar a história do pensamento, a tarefa de ensinar filosofia no Ensino Médio é estimular o aluno a questionar o mundo em que vive ” para orientar nossos sentidos e nossa vida, qual o seu papel na cultura contemporânea? Como pensar a arte em nossos dias quando esta se tornou hermética, quando se afastou de uma comunicação fácil com o público que a contempla? Tudo indica que sua direção vai na busca de experimentações novas, de outras formas de percepção que produzem uma nova escuta, que fabrica um outro olhar para o mundo. A arte parece ser um pensamento que busca diferir de si mesmo, que quer o estranhamento para que, talvez, nos acostumando com ele, comecemos a achálo familiar e nos tornemos diferentes do que éramos. Uma tal reflexão estética exige outras categorias que aquelas de beleza, harmonia, graça e perfeição. Conceitos como os de sublime, grotesco, trágico, risível, entram em cena na arte contemporânea, mais preocupada com a experimentação do que com a mera imitação da forma perfeita. Isto porque, talvez, a arte esteja buscando outros caminhos para a fabricação do homem ocidental, outra maneira de educá-lo, numa percepção crítica de que a antiga maneira não parece ter dado muito certo. Assim, se este homem nascido na sociedade contemporânea ocidental fizer um mínimo esforço para pensar esse mundo no qual está inserido, ele se verá em algum momento às voltas com todas essas questões estéticas, políticas, éticas e epistemológicas, ou seja, com questões filosóficas. Por que então esperar o Ensino Superior para colocar esses problemas e buscar respondê-los? Por que não abordá-los logo, no Ensino Médio, quando a cabeça do adolescente está mais aberta, mais disponível para o novo, mais apta a tomar decisões que vão orientar seu futuro? Pois o aluno do Ensino Médio já está sendo educado nas ciências, já se vê diante de dilemas morais, já tem um conhecimento político através da história e da geografia, já está de alguma maneira envolvido com as artes. Então por que não levar um pouco mais longe seu poder de abstração e auxiliá-lo na aventura do pensamento conceitual? Mais do que ensinar a história do pensamento, mais do que ensinar a “exercer a cidadania”, mais do que apresentar este ou aquele autor, este ou aquele conteúdo, a tarefa de ensinar filosofia no Ensino Médio é estimular o aluno a questionar o mundo em que vive, é instigá-lo com problemas e motivá-lo a pensar. Lia de Oliveira Guarino formou-se doutora em filosofia pelo IFCS-UFRJ. Leciona filosofia no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (ISERJ) e, desde 2005, no CAp-UFRJ. 26 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 O Cérebro em Transformação Suzana Herculano-Houzel R Ilustrações por Jandê Saavedra Farias econheça que o comportamento é fruto do funcionamento do cérebro, e a conclusão é inevitável: o comportamento adolescente tem que ser produto de um cérebro adolescente. De fato, nos últimos cinco anos as neurociências produziram uma série de evidências que tornam obrigatório o reconhecimento da adolescência como mais uma fase do desenvolvimento cerebral: é a época de transição em que o cérebro da infância se transforma em um cérebro adulto, o que permite o aprendizado e o amadurecimento que transformam o adolescente em um ser independente, sensato e bem ajustado à sociedade. Todas as mudanças no cérebro durante o período – a busca de riscos, o distanciamento da família e a aproximação dos pares, a impulsividade, o raciocínio abstrato, bem como o aprendizado social com os próprios erros, o desenvolvimento da empatia e da capacidade de antecipar as conseqüências dos próprios atos – conspiram para isso. Se tudo der certo, o resultado é mais do que gratificante para os pais, que vêem seus filhos tornarem-se independentes, auto-suficientes, responsáveis, competentes socialmente e – por que não? – ótima companhia. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 27 Uma nova transformação Visões anteriores consideravam que o cérebro já estaria anatômica e funcionalmente pronto ao terminar a infância. Vem daí o mito de que o comportamento típico do adolescente seria resultado de uma inundação por hormônios sexuais – com a implicação de que, caso a desordem hormonal pudesse ser controlada, adolescentes continuariam crianças normais que um dia acordariam adultos perfeitamente ajustados. Caso o cérebro já estivesse mesmo pronto, o que mais explicaria as alterações súbitas no comportamento, senão os hormônios, obviamente em ebulição na adolescência? químicas e estruturais, e todas acabam por amadurecer funcionalmente. O sistema de recompensa do cérebro passa por grandes mudanças, e com isso mudam os gostos, as vontades, os ímpetos, os desejos, e também a vulnerabilidade ao vício e a transtornos do humor, como a depressão. Os núcleos da base do cérebro, que participam do aprendizado de seqüências motoras, sofrem cortes drásticos, e assim as habilidades motoras se cristalizam (o Imagens do cérebro adquiridas através de novos métodos de imageamento como a Ressonância Magnética (esq.) e a Tomografia Computadorizada (dir.) De fato, o cérebro cresce até atingir seu tamanho adulto no início da adolescência, mas daí em diante não cresce mais. As mudanças que transformam o cérebro infantil em adulto, portanto, não são um simples aumento generalizado de peso ou volume cerebral. Enquanto algumas estruturas de fato crescem, outras encolhem, sofrem reorganizações A nova era da pesquisa sobre a “neurociência do adolescente” é fundada essencialmente sobre as técnicas de imageamento cerebral, tanto morfológico quanto funcional, que permitem aos cientistas procurar na reformulação continuada do cérebro as bases para as mudanças cognitivas e comportamentais da adolescência. Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA já reconheceram como a iniciativa é importante, e custeiam atualmente um projeto de 16 milhões de dólares que tem por objetivo escanear regularmente o cérebro de 500 crianças e jovens de 2 a 21 anos de idade e testar suas funções cognitivas ao longo de sete anos, em paralelo ao estudo da sua herança genética. A adolescência começa no cérebro que talvez explique por que os grandes atletas, e os grandes talentos em geral, são feitos até a pré-adolescência). Os feixes que ligam as várias regiões do cérebro adquirem a capa final de mielina, que funciona como isolante elétrico e permite, portanto, a condução mais rápida e eficiente de impulsos. As regiões pré-frontais do cérebro, que permitem o raciocínio abstrato e o aprendizado social, finalmente amadurecem, e com isso surgem os interesses por literatura, filosofia, política, e nasce o jovem adulto responsável (porque é capaz de antecipar as conseqüências de suas ações e assumi-las), empático (porque consegue inferir e prever as emoções dos outros e agir conforme suas previsões), e bem inserido na sociedade. 28 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Hormônios sexuais são meros executores de um programa de desenvolvimento que começa no cérebro, ou mais exatamente no hipotálamo, uma pequena estrutura diencefálica responsável por promover ajustes fisiológicos de vários tipos pelo corpo afora – inclusive ajustes hormonais. Ainda não se conhece o gatilho que faz o hipotálamo iniciar a adolescência, mas é sabido que ele só é apertado quando reservas suficientes de gordura são acumuladas no corpo, o que é comunicado ao hipotálamo através da concentração no sangue do hormônio leptina, produzido pelos próprios adipócitos à medida que eles armazenam gordura. Havendo leptina suficiente, o hipotálamo faz com que a glândula hipófise produza hormônios que agem sobre as “ Hormônios sexuais são meros executores de um programa de desenvolvimento que começa no cérebro. ” gônadas e promovem a secreção de hormônios sexuais. As mudanças no cérebro se seguem, mas acontecem mesmo na ausência de hormônios sexuais. O que os hormônios sexuais fazem, então? Ao contrário da visão popular, sua influência sobre o comportamento adolescente limita-se a tornar o cérebro sensível aos apelos do sexo – e mesmo assim, só porque as estruturas cerebrais envolvidas amadurecem e tornam-se aptas. É aí que, logo no começo da adolescência, manifesta-se e descobre-se a preferência sexual, determinada bem mais cedo, durante a gestação. O sistema de recompensa e a conquista da independência Alguns dos primeiros indícios comportamentais da chegada da adolescência são o tédio e o desapego com as atividades da infância, logo seguidos por uma busca por novidades e pelo comportamento de risco. A razão de todas essas mudanças está na remodelagem logo no início da adolescência do sistema de recompensa do cérebro, o conjunto de estruturas que nos premiam com uma sensação de prazer e nos fazem querer mais de tudo o que parece bom ou dá certo. Logo no início da adolescência há um embotamento do sistema de recompensa, quando ele perde cerca de um terço da capacidade de responder à dopamina, substância essencial à ativação do sistema e, portanto, à sensação de prazer. Ao tornar-se mais difícil de ser ativado pelos agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 29 prazeres antigos, o sistema de recompensa recémembotado do adolescente faz com que o jovem abandone seus velhos hábitos, subitamente tornados insatisfatórios, em busca de novos prazeres. Os resultados aparecem simultaneamente em vários níveis: o tédio, o desinteresse por tudo o que é velho e conhecido, a supervalorização do novo (pois novidades são estímulos naturais para o sistema de recompensa), o surgimento de novos interesses (música, esportes, literatura, filosofia, religião, amparados pela capacidade recém-adquirida de pensamento abstrato, explorada mais adiante), a importância atribuída a novas interações sociais e a novas amizades (e o desinteresse pela companhia dos pais), a impulsividade (conseqüência da necessidade de recompensa imediata) e os comportamentos de risco tão característicos da adolescência. Todas essas alterações comportamentais têm uma conseqüência comum crucial: permitir que o adolescente adquira a experiência que o tornará um adulto independente. O tédio e a conseqüente busca por novidades, e os riscos que vêm com elas, são responsáveis por vários dos feitos necessários para a independência cada vez mais desejada nessa idade: afastar o adolescente da segurança da família; impulsioná-lo a explorar as capacidades físicas do seu novo corpo e as capacidades intelectuais crescentes do cérebro em desenvolvimento; aprender, graças ao convívio com um círculo de amizades cada vez maior, as regras da vida em sociedade; e buscar um(a) parceiro(a) sexual longe da família. Para que tudo isso aconteça, aceitar correr pequenos riscos para O problema, claro, é que se correr pequenos riscos pode ser construtivo ou mesmo necessário para o aprendizado social, excessos colocam em risco a vida do adolescente – e às vezes as daqueles ao seu redor. Além disso, o embotamento do sistema de recompensa torna os adolescentes vulneráveis a drogas, que estimulam diretamente o sistema e levam a uma redução ainda maior do número de receptores dopaminérgicos. Se usadas nessa época, o sistema se cristaliza com um número de receptores menor do que o normal – e o resultado são adultos particularmente propensos a vícios, e a um consumo de drogas mais intenso e duradouro do que se tivessem deixado para experimentar a droga somente mais tarde. Ainda que necessário, o gosto por riscos é perigoso principalmente no início da adolescência, quando o córtex cerebral ainda não passou pelas transformações, provavelmente resultado de limpeza sináptica, que o dotarão de uma das habilidades características dos adultos: a habilidade de controlar seus próprios impulsos e dizer não. “ ” Talvez por isso o gosto por riscos seja norma na adolescência, e há quem julgue que riscos modestos constituem “experimentação apropriada para a idade” nesta fase. A evidência para isso é que adolescentes que se engajam em riscos modestos são mais competentes socialmente tanto na infância quanto mais tarde, na idade adulta, do que jovens que correm riscos demais ou nenhum. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Uma das descobertas mais impactantes da neurociência da adolescência é uma nova onda de produção de um excesso de conexões entre neurônios até a puberdade, seguida de eliminação dos excessos e de expansão da substância branca que interconecta regiões diferentes do córtex. A mudança nessas interconexões permite a transmissão em tempo hábil de sinais nervosos entre regiões cerebrais, e deste modo a integração funcional entre partes diferentes do córtex. As regiões da linguagem, por exemplo, espalhadas nos dois lados do cérebro, conversam melhor entre si – e o domínio de linguagem do adolescente se desenvolve. As respostas motoras, que exigem que o cérebro processe um estímulo, gere e execute uma resposta, se aceleram: o tempo de resposta a estímulos diminui exponencialmente ao longo da infância, e se estabiliza no meio da adolescência, aos 14 ou 15 anos. Além disso, a expansão da substância branca está relacionada à melhora em várias funções básicas do córtex pré-frontal que caracterizam a evolução do comportamento adolescente, como a memória de trabalho, Essas alterações comportamentais têm uma conseqüência comum crucial: permitir que o adolescente adquira a experiência que o tornará um adulto independente. abandonar o conforto do lar e expor-se a novidades é fundamental. Senão, com tudo já ofertado, por que alguém em sã consciência deixaria a casa dos pais para procurar sua turma? 30 Reorganização cortical, controle executivo e vida em sociedade “ A adolescência não é um período ao qual devese apenas sobreviver. Ao contrário, a adolescência é um período desejável e imprescindível de aprendizado intenso. ” agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 31 a capacidade de seleção e inibição de comportamentos, e a supressão de respostas automáticas. É o amadurecimento do córtex pré-frontal na adolescência que permite, por exemplo, o pensamento abstrato, que depende da capacidade exclusiva de neurônios pré-frontais de representar objetos que não estão mais sob os olhos ou ao alcance das mãos. Aliada à necessidade de novos prazeres, a capacidade de lidar com o abstrato permite que o jovem descubra novos tipos de literatura, música, se interesse por filosofia, política, e inaugure a fase idealista, tão necessária, de reconstrução do mundo. A adolescência é também um período de intenso aprendizado social. Depois de termos aprendido em casa o básico sobre as relações interpessoais e as regras da vida em família, aprendemos a aplicar esse conhecimento a um mundo que se torna cada vez maior, à medida que o círculo de relações pessoais e o papel social de cada um se expande, impulsionado pela necessidade do novo. E viver em sociedade requer uma série de talentos. É preciso ter flexibilidade cognitiva – o famoso “jogo de cintura” – para responder de acordo com o contexto e aprender a generalizar sobre experiências passadas para negociar situações novas; é preciso ter iniciativa, planejamento, auto-suficiência e humor. Todas essas habilidades são desenvolvidas graças à combinação de experiência com o amadurecimento das últimas regiões corticais que faltavam: o córtex órbitofrontal e as estruturas associadas do chamado Circuito Social, como o giro temporal superior. São provavelmente essas mudanças a base da transformação comportamental que coroa o fim da adolescência: o tornar-se responsável, moral, e empático. Essas regiões do córtex cerebral são responsáveis pelo uso das emoções como guias de decisões realmente importantes, pelo arrependimento e o aprendizado emocional com os próprios erros, pela antecipação das conseqüências dos próprios atos, pela flexibilidade para parar de fazer algo que era bom mas deixou de ser, e por fim pela relação íntima com o vizinho através do entendimento das suas sensações, intenções e reações que a empatia e a Teoria da Mente – o colocar-se no lugar do outro – permitem. Adolescência é coisa do cérebro. E daí? A nova visão da adolescência como um período perfeitamente normal, obrigatório e na verdade desejável de reorganização do cérebro deve chegar como um alento para aqueles adolescentes que não agüentam mais ouvir 32 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 que “são os hormônios” a causa de seu comportamento. De fato, o cérebro que entra na adolescência não está pronto e perfeito, após todos os cuidados e educação recebidos dos pais, nem é subitamente perturbado e quase “estragado” ao ser invadido pelos hormônios despejados pelo corpo. A adolescência não é um período ao qual devese apenas sobreviver. Ao contrário, a adolescência é um período desejável e imprescindível de aprendizado intenso. Entender que as mudanças de comportamento nascem de mudanças necessárias no cérebro deve ajudar pais e professores a reconhecer e desempenhar seu papel mais importante durante essa época da vida dos adolescentes: ser um “córtex pré-frontal emprestado” para eles. Portanto, à pergunta “adolescentes precisam mesmo se comportar assim?”, a neurociência só tem uma resposta a oferecer: Precisam, sim – mesmo porque não seriam capazes de fazer diferente. O comportamento adolescente é resultado de um cérebro adolescente. Nada mais, nada menos. Sugestões de leitura Herculano-Houzel, S. O cérebro em transformação. Ed. Objetiva, 2005. Strauch, B. Como entender a cabeça dos adolescentes. Ed. Elsevier, 2003. Clerget, S. Adolescência: a crise necessária. Rocco, 2000. Bióloga formada pela UFRJ, Suzana HerculanoHouzel é neurocientista pós-graduada pela Case Western Reserve University (EUA), Universidade de Paris VI (França) e Instituto Max-Planck para a Pesquisa do Cérebro (Alemanha). Professora adjunta do Departamento de Anatomia da UFRJ, pesquisa as diferenças entre cérebros grandes e pequenos, escreveu três livros de divulgação da neurociência e criou o site O Cérebro Nosso de Cada Dia (www.cerebronosso.bio.br). Adolescente: seu cérebro já foi um. Filipe Silva-Porto Professor de Biologia CAp-UFRJ Resenha do livro “O Cérebro em Transformação”, de Suzana Herculano-Houzel, Editora Objetiva, 2005. S e você gosta de música alta, vive um tédio interminável, está fascinado com drogas ou sofre com paixões avassaladoras seus problemas não acabaram. Mas pelo menos estão mais fáceis de serem compreendidos. Você está vivendo sua adolescência. E não se assuste se você já tem 30 anos. Segundo as Neurociências, você pode ser um cara normal. Os anos 90 formaram a década das Neurociências e Suzana Herculano-Houzel soube aproveitar. Nesse período, ela se formou em Biologia pela UFRJ e fez doutorado e pós-doutorado em Neurociências na Europa. Voltou ao Brasil em 1999 e resolveu se dedicar à divulgação científica. Já publicou três livros: “O Cérebro Nosso de Cada Dia”, “Sexo, Drogas, Rock’n’Roll & Chocolate” e “O Cérebro em Transformação” (2005, Editora Objetiva – R$ 27,61 na internet). É sobre este último que vamos falar. Podemos resumi-lo como uma abordagem neurocientífica para explicar o comportamento adolescente, escrito em linguagem densa, porém acessível ao público leigo disposto a digerir a terminologia técnica. Se você acha que as questões envolvendo este feliz – ou não – e certamente agitado período de vida são fruto exclusivamente da educação, das companhias e dos hormônios, errou. Suzana discute, baseada em pesquisas recentes, e em alguns casos bastante controversas, o quanto e como o desenvolvimento do cérebro se prolonga além da infância e, para certas estruturas, só se completa lá pelos 30 a 40 anos de idade. O livro sugere que essas mudanças – dependentes da expressão de genes, da influência de alguns hormônios e das experiências de vida – podem não só ser prazerosas como também necessárias à construção de um adulto saudável. Suzana ainda se aventura a propor formas alternativas para lidar de maneira mais produtiva com adolescentes e, nesse sentido, seu livro traz uma boa contribuição para professores, licenciandos e, claro, estudantes adolescentes. “O Cérebro em Transformação” discute, à luz da evolução, como os programas biológicos – no caso aqueles responsáveis pela construção da arquitetura cerebral humana – interagem com as experiências de vida, facilitando ao animal humano sua sobrevivência e reprodução ao longo de sua passagem pelo planeta Terra. Por isso mesmo, a obra de Suzana representa mais um passo na superação do velho antagonismo entre cultura e natureza. O ser cultural humano não pode ser compreendido na sua totalidade sem considerar sua faceta animal. Aqueles que acreditam que somos uma tábula rasa, à espera dos escritos da experiência, devem tomar cuidado com o “O Cérebro em Transformação”. Sua leitura nos leva a refletir sobre a materialidade da condição humana. Os sentimentos nobres, como o amor e a solidariedade, estão enraizados nos circuitos neurais e na história de nossa evolução. Não há nada de sobrenatural responsável pelo nosso sentido de moral, ou pela nossa empatia. Não há fantasmas na máquina. Como um bom livro deve fazer, ele suscita questões: como diferentes abordagens educacionais podem interferir na estruturação do cérebro do adolescente e, portanto, influenciar o comportamento do futuro adulto? O quanto diferenças genéticas individuais poderiam acarretar diferenças na construção do cérebro e serem responsáveis por diferenças comportamentais? A Ciência será capaz de responder a tudo isso? O livro de Suzana nos leva a crer que sim. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 33 O antigo prédio do CAp-UFRJ na Praia de Botafogo Foto retirada do arquivo do CAp-UFRJ Histórico de Criação do CAp-UFRJ Izabel Cristina Goudart da Silva O Colégio de Aplicação da UFRJ foi o primeiro colégio de aplicação fundado no Brasil. A exposição de motivos do projeto de criação, referência universal para justificar a inserção dos colégios de aplicação na universidade brasileira, expressa uma preocupação de ilustres educadores da época, como Lourenço Filho, Gustavo de Capanema e outros. Identifica-se com a discussão da reforma do Ensino Médio e, principalmente, de como esta reforma se daria a partir da formação de professores. Além disso, teria o objetivo de propiciar um campo de aplicação e desenvolvimento de novas metodologias. Tais argumentos ainda são atuais, tendo em vista que continuamos enfrentando alguns dos mesmos problemas de 60 anos atrás. 34 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 35 O início dos planos de organização de um “colégio de demonstração de ensino”, a ser instalado anexo à Faculdade Nacional de Filosofia, data de 21 de julho de 1944. Segundo o professor Luiz Alves de Mattos, catedrático interino de Didática Geral e Especial da Faculdade Nacional de Filosofia (FNF), devido ao interesse e esforços do então diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INP), doutor Lourenço Filho, o professor Álvaro Neiva foi designado para apresentar um projeto do futuro Colégio de Aplicação em colaboração com os professores das cadeiras pedagógicas da FNF. Convergindo com a opinião do professor Mattos e de docentes da FNF, as finalidades de criação do Colégio são assim enumeradas no relatório do INP: 1. Integrar a Faculdade Nacional de Filosofia na sua legítima função de seminário do novo magistério secundário do país; 2. proporcionar à cadeira de didática um excelente campo para suas demonstrações, aplicações e pesquisas; 3. ser o órgão indicado para abrir novos horizontes à cultura pedagógica brasileira, proporcionando à cadeira de didática efetivar uma reforma profunda no espírito, na orientação e na técnica docente da escola secundária. Este clima de inovação objetivava integrar a escola secundária à corrente educacional progressista da época, colaborando para a constituição de um tipo de ensino ajustado ao meio nacional e à renovação didática que ora se processava. Tal iniciativa veio ao encontro de uma campanha de esforços, decorrente da lei que criou a FNF, de abril de 1939, mas que, por não prever a criação de um colégio de aplicação, conduzia à realização do estágio em classes ginasianas cedidas a título de favor pessoal pelo Colégio Pedro II e por diretores de colégios particulares. Tal estágio, no entanto, como disposto no relatório do INP, não atendia à proposta de formação de professores pretendida pela cadeira de Didática da FNF. Em seu discurso por ocasião da sessão de instalação do Colégio de Aplicação da FNF, em 18 de maio de 1948, o professor Mattos observou que até então os estágios cerceavam “demasiadamente as possibilidades de uma observação sistemática e de uma prática eficaz, tolhendo-nos toda a iniciativa e liberdade de ação, justamente na fase culminante e doce: o eixo de formação para o magistério que é a Prática de Ensino.” Tal espírito não só permeava o pensamento de nossos educadores como também o dos alunos da graduação. A criação do Colégio figurava como um dos principais objetivos a serem atingidos no programa do Diretório Acadêmico da FNF dos anos de 1945 e 46. Assume a reitoria nesta época o doutor Azevedo de Amaral, que expressa seu estranhamento da não existência de um colégio vinculado à universidade e compromete-se com a sua criação. Em 12 de março de 1946, o decreto-lei nº 9053 estabelece a exigência de um Colégio de Aplicação em todas as Faculdades de Filosofia do país. Neste sentido, o diretor da FNF, professor Antonio Carneiro Leão, em estreita colaboração com a cadeira de Didática e com a reitoria, busca a sua concretização, mas o Colégio não é implantado devido a dificuldades orçamentárias. A escola é criada somente dois anos após a promulgação do decreto, graças à colaboração da Fundação Getúlio Vargas, que cede provisoriamente o imóvel situado na Praia de Botafogo n.º 186, com todas as instalações necessárias para o funcionamento do Colégio. Foto cedida pelo arquivo do CAp-UFRJ O relatório do INP também destacava os problemas oriundos da pouca duração destes estágios e da supervisão de professores. A criação do Colégio de Demonstração surge como proposta para atender a preocupação de cercar o estágio inicial da prática do magistério, considerado como o ponto mais alto do Curso de Didática, do máximo de condições favoráveis, através da “criação de um Colégio de Demonstração, convenientemente instalado, superiormente dirigido, servido por um professorado de completa formação pedagógica, integrado na FNF, à falta de uma Faculdade de Educação, e intimamente coordenado com a cadeira de Didática Geral e Especial do seu Curso de Didática”, ainda nas palavras do professor Mattos. 36 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 A antiga fachada do CAp-UFRJ 37 Foto retirada do arquivo do CAp-UFRJ A atual fachada do CAp-UFRJ na Lagoa As atividades do Ginásio de Demonstração da Faculdade Nacional de Filosofia, atual Colégio de Aplicação da UFRJ, iniciam-se em 18 de maio de 1948, estabelecendo como prerrogativas ser um campo para: · análise das classes; · observação sistemática; · prática dirigida; · direção autônoma de classes. “Uma instituição de ensino não é algo que se improvisa com meia dúzia de leis e regulamentos. Uma instituição de ensino é uma planta muito delicada e de lento crescimento que só começa a dar seus frutos excelentes depois de 50 anos de cuidados.” 2. O aperfeiçoamento dos licenciandos regentes a partir de: Após mais de 50 anos , é tempo de colher os frutos. · seminários coletivos; · conferências individuais de orientação metodológica; · participação na crítica e julgamento da prática. 3. A pesquisa psicopedagógica e experimentação metodológica – segundo Mattos esta é a grande função primeira dos colégios congêneres das universidades norteamericanas, que serviram de base para fundamentar o projeto dos colégios de aplicação brasileiros. 38 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Izabel Cristina Goudart é mestra em educação pela UERJ e professora de Química do CAp-UFRJ, onde foi vice-diretora no período de 2002 a 2005. Patrocínio para Música CAp-UFRJ se destaca em avaliações Em julho o Setor Curricular de Música do CAp-UFRJ foi contemplado com o patrocínio da FINEP para o seu projeto Toque e se Toque, coordenado pelos professores Alice Sena e Mario Ferraro, e que consiste no treinamento em diferentes instrumentos – violão, cavaquinho, percussão, flauta doce e voz. O projeto pretende capacitar jovens de comunidades carentes a partir de uma metodologia de educação que parte de sua realidade, com a construção de material didático próprio e especificamente focado na música popular brasileira. Os alunos da 8a série do CAp-UFRJ obtiveram a primeira colocação na Prova Brasil de 2005, exame que avalia o desempenho em Matemática e Língua Portuguesa de alunos do ensino público em todo o país. No total foram avaliados 3.306.378 estudantes, equivalendo a 70% do público alvo do exame, que eram os 4,7 milhões de estudantes de 4a e 8a série matriculados em 40.920 escolas públicas urbanas com pelo menos 30 alunos na respectiva série. Mudanças no SOE foto por Maria Cecília Cardoso 1. A Prática de Ensino dos alunos mestres do curso de magistério em quatro etapas: Ciente de que o sucesso desse empreendimento dependeria em grande parte dos recursos e do apoio que as autoridades superiores da Universidade e da Faculdade dispensariam a esta nova instituição e da colaboração que os colegas do corpo docente prestariam, o professor Mattos preconizava o futuro destas instituições com as seguintes palavras: Aconteceu no 1º Semestre As orientadoras educacionais Rosângela, Cecília e Rosane comemoram suas recentes aposentadorias. De 1990 a 2006 dedicaram seus esforços profissionais ao CAp-UFRJ, onde desenvolveram o projeto de extensão NUCAp, que estende o Setor Curricular à comunidade. Cláudia Ribeiro é a nova concursada do setor de orientação educacional. Os alunos do Ensino Médio colocaram o CAp-UFRJ entre os 10 melhores colégios do Brasil (7º lugar geral e 2º melhor dentre os colégios públicos) de acordo com o ranking do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em 2005. CopaCAp Aproveitando o clima da Copa do Mundo 2006, o Setor Curricular de Educação Física do CAp-UFRJ, em conjunto com seus licenciandos, realizou na escola a CopaCAp: um torneio de futebol que ocorreu nos dias 20 e 27 de maio e 10 de junho, e do qual participaram alunos da classe de alfabetização (CA) ao Ensino Médio. Na abertura foi comemorado o aniversário de 58 anos da escola, com homenagens, abertura oficial do evento e a apresentação do coral sob a orientação da professora Maria Alice, do Setor Curricular de Música. Houve ainda a participação dos licenciandos em Enfermagem do Instituto Ana Nery da UFRJ, que fizeram os atendimentos de primeiros socorros aos nossos atletas. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 39 Ciência Ainda que à Tardinha No primeiro semestre de 2006 aconteceram as primeiras palestras do programa de seminários das Ciências da Natureza do CAp-UFRJ, o Ciência Ainda que à Tardinha. Aberto à comunidade, o programa traz, uma vez por mês, sempre à tarde, pesquisadores convidados de diversas áreas da Ciência para seminários em temas diversos. Os primeiros foram “Átomo: da Grécia Antiga a Dalton”, pelo professor Carlos Filgueiras (IQ-UFRJ), “Som”, pelo engenheiro Marco Nabuco (INMETRO), “Possibilidades de Vida Extraterrestre”, pelo professor Gustavo Porto de Mello (OV-UFRJ), e “Pilhas e Baterias x Meio Ambiente”, pelo professor Julio Carlos Afonso (IQ-UFRJ). O programa, coordenado pelos professores Mariana Villela (Biologia), Guilherme Parreira (Química) e Beto Pimentel (Física), terá continuidade no segundo semestre com as seguintes palestras: “A Polêmica Newton-Huygens sobre a Natureza da Luz”, com o professor Ricardo Barthem (IF-UFRJ); “Recepção do Darwinismo no Brasil”, com o professor Ricardo Waizbort (Casa de Oswaldo Cruz - FIOCRUZ); “Metrologia: a Ciência das Medições”, com o engenheiro José Carlos Valente de Oliveira (INMETRO); “A Seta do Tempo”, com o professor Carlos Aguiar (IFUFRJ) NICJr. 2 Foi realizada no CAp-UFRJ nos dias 29 e 30 de março a VI Jornada de Iniciação Científica Jr. Neste evento, 25 trabalhos foram apresentados em painéis por 38 alunos que desenvolveram suas atividades ao longo do ano de 2005. Oficina de Geometria NICJr. 3 agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 No segundo bimestre o Setor Curricular de Matemática promoveu no CAp-UFRJ a oficina “A Geometria na Era do Movimento”, da qual participaram diversos professores e alunos de Ensino Médio da escola. O trabalho “Reconstrução de Energia de Hádrons Usando Redes Neurais em Experimentos de Colisão de Partículas”, do aluno João Felipe Faria (23A), orientado pelo professor José Seixas, da UFRJ, apresentado na VI Jornada, foi selecionado para representar o Brasil na XIII Conferência Internacional para Jovens Cientistas, ocorrida entre os dias 18 e 23 de abril em Stuttgart, Alemanha. Além de apresentar o trabalho na conferência, João teve a oportunidade de visitar as instalações do Centro Europeu para Pesquisas Nucleares (CERN), em Genebra, Suíça. Dia Nacional do Livro Infantil foto por João Felipe Faria 40 A classe de alfabetização (CA) do CAp-UFRJ vem promovendo cada vez mais a integração de alunos, pais, professores e funcionários no ambiente da escola. Como resultado deste trabalho, foram desenvolvidas algumas propostas, tais como a semana de adaptação das crianças na escola. Durante a primeira semana de aula, os pais ficam na escola participando de atividades com seus filhos. Outra iniciativa decorre do NUCAp, encontro que congrega os pais e alunos da CA e da 1ª série uma vez por mês para interagir com especialistas convidados sobre temas diversos, como “Medo e Violência”. Além disso, os pais participam das festas e lanches coletivos que ocorrem por ocasião das comemorações dos aniversários de cada mês. No primeiro semestre de 2006 o Núcleo de Iniciação Científica Jr. do CAp-UFRJ, sob a coordenação do professor Vicente Batista, encaminhou 62 alunos de Ensino Médio para os programas de iniciação científica júnior de diversos laboratórios de pesquisa de diferentes unidades da UFRJ e de outras prestigiadas instituições de pesquisa da cidade, como o CBPF, a Fiocruz e a PUC. Pesquisa em Ensino de Química No dia 18 de maio, a professora do CAp-UFRJ Rozana Gomes de Abreu participou como convidada de mesaredonda do Ciclo de Palestras Ensino de Ciências-2006, do programa de pós-graduação lato sensu em ensino de ciências do CEFET-Química/RJ. A partir do tema, “Desafios do Ensino de Química na Educação Básica”, Rozana discursou sobre o currículo e o ensino de Química. Seu artigo “Contextualização e Tecnologias em Livros Didáticos de Biologia e Química”, escrito em co-autoria com sua orientadora de doutorado e com a professora Margarida Gomes, pode ser lido online na revista Investigações em Ensino de Ciências (www.if.ufrgs.br/public/ensino/ vol10/n3/v10_n3_a6.html). O artigo faz uma análise de como alguns conceitos divulgados nos PCNEM foram apropriados pelos livros didáticos. Integração e Alfabetização NICJr. 1 João Felipe (esq.) com seus colegas Arber Faslija e Piotr Niedzwiedz, representantes da Alemanha e Polônia, respectivamente, na cerimônia de encerramento. No período de 17 a 20 de abril, a Equipe Multidisciplinar, a Biblioteca e a Direção Adjunta de Ensino organizaram uma série de atividades para os alunos da classe de alfabetização à 4ª série, em comemoração ao Dia Nacional do Livro Infantil. O objetivo do evento foi o estímulo à leitura, à produção de texto e à valorização do livro. Durante a semana, houve atividades como encontro com autores e ilustradores, pantomima literária, histórias com origami, feira de livros, troca de revistas em quadrinhos e doação de livros para outras instituições. Ao final de cada dia, foi aberta a visitação aos pais e responsáveis. Semana de Integração Acadêmica O CAp-UFRJ marcou presença na Semana de Integração Acadêmica promovida pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ (CFCH) entre os dias 22 e 26 de maio. A participação ocorreu em duas sessões, presididas pelo professor do CAp-UFRJ Fábio Garcez (História). A primeira contou com o professor Guilherme Parreira (Química) apresentando o projeto “Ciência Ainda que à Tardinha” e com os professores do Setor Curricular de Matemática “Ensino de Funções no Ensino Médio”. Na segunda, as professoras Ana Lúcia Soutto Mayor (Língua Portuguesa) e Andréa Pinheiro (Artes Cênicas) apresentaram o projeto “Arte e Saúde”; a professora Maria Alice Sena (Música) apresentou seu projeto “Canto, Logo Existo”. Vicente Batista falou sobre os desenvolvimentos do Núcleo de Iniciação Científica Jr. do CAp-UFRJ. NAF reaberto O Núcleo de Atividades em Física (NAF) do CAp-UFRJ, sob a coordenação do professor Beto Pimentel, foi reaberto, após um hiato de três anos e meio. A sétima geração de “nafiosos” é constituída por nove alunos da terceira série do Ensino Médio. Baseado em um sistema de grupos de interesse, seus membros se congregam em pequenos grupos para desenvolver projetos específicos. Um dos projetos mais bem-sucedidos até agora foi a construção do P. U. M. (“Projétil Ultra-Mural”) para barraca do NAF na Festa Junina do CAp. Além disso, o grupo, dividido em três equipes, participou dos desafios conhecidos como Aventuras Científicas, a primeira das quais aconteceu em Junho durante um fim de semana em Arraial do Cabo. agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 41 COMO PUBLICAR EM perspectiva capiana perspectiva capiana é uma revista de divulgação que publica instruções para autores prioritariamente resultados de projetos de ensino, de pesquisa e de extensão feitos no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp-UFRJ), em todas as disciplinas, para um público amplo e heterogêneo. Os leitores da revista são, em geral, professores de ensino fundamental e médio da instituição; professores de outras escolas; licenciandos e alunos de graduação; professores universitários; pessoas que se interessam por educação e pelas disciplinas escolares, mas não dominam necessariamente conceitos básicos de todas as áreas. Os textos da revista exigem, portanto, clareza e simplicidade. Os textos submetidos à publicação como artigos devem conter a contribuição original do(s) autor(es) para o tema tratado e devem ser inéditos – não podem ter sido publicados anteriormente em outro veículo de divulgação para o público em geral (mas podem ter sido veiculados em revistas especializadas, por exemplo). Sempre que possível, os resultados de pesquisa ou do projeto do(s) autor(es) devem ser expostos no texto. AVALIAÇÃO Consultores técnicos indicados pelos setores curriculares são consultados quando da submissão de um texto e orientam a equipe editorial da revista quanto ao que sugerir aos autores para corrigir ou adequar o texto do ponto de vista técnico, quanto à qualidade do trabalho, à linguagem adotada e à conveniência de sua publicação. Os textos aprovados são selecionados para publicação de acordo com a avaliação dos editores, levando em conta a programação editorial e as especificidades de cada edição da revista. Os textos enviados pelos autores são ainda concomitantemente editados pela redação para adequá-los à linha editorial da revista e devolvidos aos autores para aprovação. Em caso de não-aprovação, os editores buscarão atender às solicitações dos autores, dentro do razoável do ponto de vista editorial. A revista não publicará nenhum texto não aprovado por seus autores em sua forma final. Títulos, subtítulos e chamadas de capa ficam a critério dos editores, embora as sugestões do(s) autor(es) sejam levadas em consideração. SEÇÕES DA REVISTA Os textos em perspectiva capiana estão divididos em dois tipos: artigos e seções. Para favorecer a edição, recomenda-se que o(s) autor(es) avalie(m) previamente e indique(m) se seu texto constitui um artigo ou uma seção, e nesse caso qual. — Artigos (por setor curricular): Os artigos devem apresentar trabalhos dentro do quadro da disciplina do(s) autor(es), e devem conter título, nome(s) do(s) autor(es) e pequena apresentação pessoal, abertura (resumo), setor curricular (Geografia, Música, SOE, etc.), sugestões para leitura e ilustrações/ fotos devidamente legendadas e com créditos. Não devem exceder 15.000 caracteres com espaço (aproximadamente 2.400 palavras). Opinião: considerações pessoais sobre temas relacionados à educação ou com o ensino na escola. É importante que os fatos e argumentos sejam descritos com objetividade, permitindo ao leitor contrastar e evoluir sua própria opinião sobre o assunto. Os textos devem conter abertura (resumo), título, nome e breve apresentação do(s) autor(es). Tamanho máximo de 11.000 caracteres com espaço (~1.800 palavras). Memória: textos sobre aspectos pouco difundidos da história do CAp ou da educação. Devem ser pouco técnicos, destacando o contexto da época e as personagens envolvidas. Devem conter abertura (resumo), nome e breve apresentação do(s) autor(es), título e ilustrações. Tamanho ideal: 7.500 caracteres com espaço (~1.200 palavras). Resenhas: apresentação crítica de um livro ou outro produto cultural de interesse. Não deve descrever a obra em detalhes, mas apontar sua relevância no contexto do ensino. Os textos devem conter os dados da obra analisada (título, autor, custo, etc.), bem como o nome e ocupação do(s) autor(es). Tamanho ideal: 3.800 caracteres com espaço (~600 palavras). Entrevista: (a cargo da redação) relato de perguntas e respostas em bate-papo com figuras de destaque sobre temas relevantes para a escola, para o ensino de disciplinas ou para a educação em geral. Notas: eventos de interesse ocorridos ao longo dos seis meses prévios à edição da revista. Devem ser sintéticas e informativas (~90 palavras). OUTRAS INFORMAÇÕES As opções de formatação adotadas pela revista para a edição dos textos e outros detalhes (p. ex., envio de imagens), podem ser obtidas pelo e-mail: [email protected]. Os autores cedem automaticamente os direitos autorais de seus textos para sua publicação na edição correspondente da revista e em eventuais coletâneas posteriores. Após a publicação, sugere-se que quando veiculados em outros meios o(s) autor(es) cite(m) a publicação em perspectiva capiana como fonte primária: ‘Este artigo foi publicado originalmente em perspectiva capiana (v. n, n° n, p. n)’. Todos os autores de artigos e da seção Construindo Pontes recebem 8 edições da revista em que foram publicados seus artigos para distribuição própria. Autores de outras seções recebem 5 edições. ENVIO DE TEXTOS — Seções: Todos os textos e anexos devem ser enviados por e-mail para a redação ([email protected]) dentro dos prazos de fechamento das edições (até 31/5 para as edições ímpares; até 31/10 para as edições pares). Construindo Pontes: artigos publicados por dois ou mais autores de diferentes setores curriculares, com temática interdisciplinar. Seguem a formatação dos artigos. Textos recebidos após a data de fechamento ou fora do formato requerido para publicação possivelmente só serão considerados para publicação na edição seguinte. Sem Fronteiras: textos encomendados pelos editores a autores de fora do CAp-UFRJ para enriquecer as reflexões em curso na escola. 42 Devem conter título, abertura (resumo) e nome, foto e pequena apresentação do(s) autor(es). Tamanho máximo de 11.000 caracteres com espaço (~1.800 palavras). agosto de 2006 perspectiva capiana nº 1 Colégio de Aplicação CAp-UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ