A FOTOGRAFIA COMO FACILITADOR NO ENSINO DE GEOMETRIA NA ESCOLA – UMA POSSIBILIDADE PARA ALUNOS E PROFESSORES CLEANE APARECIDA DOS SANTOS (UNIVERSIDADE SÃO FRANCISCO- ITATIBAMESTRADO EM ED.). Resumo As constatações sobre as carências de pesquisas sobre o ensinar e o aprender Geometria nas séries iniciais do Ensino Fundamental garantem a importância dessa pesquisa. Acrescente–se, ainda, a necessidade de problematização da prática pedagógica de professores que, durante a formação inicial e continuada, não se apropriam dos conceitos geométricos, os quais terão que ser ensinados na escola básica. Neste trabalho, o objeto de estudo será a construção das noções espaciais pela criança, na prática docente com foco no ensino de Geometria nas séries iniciais, a partir da hipótese de que a máquina fotográfica pode ser um elemento/instrumento facilitador para a visualização dessas noções, além de outros conteúdos geométricos. A pesquisa será de abordagem qualitativa, partindo da questão sobre como os alunos das séries iniciais, utilizando a máquina fotográfica como registro de seus saberes, compreendem os conteúdos de Geometria, utilizando o espaço escolar como referência. Seus objetivos são: 1) Analisar as estratégias de utilização da máquina fotográfica pelos alunos nas aulas de Matemática, quando esses buscam registrar os espaços escolares; 2) Analisar as imagens produzidas pelos alunos do ponto de vista da Geometria; 3) Analisar o movimento de produção de conceitos geométricos pelos alunos, a partir das imagens produzidas e retratadas em narrativas orais e escritas. A pesquisa será realizada na sala de aula da própria pesquisadora. Trata–se de uma pesquisa em andamento. Os estudos teóricos que favorecerão inicialmente a compreensão da formação docente e do ensino de Geometria nas séries iniciais pautar–se–ão em Nacarato (2000), Nacarato e Passos (2003), Fiorentini e Nacarato (2005), entre outros. Ciente de que, como professora–pesquisadora, as transformações das práticas pedagógicas emergirão, é notório que esta pesquisa trará contribuições para os docentes que atuam nesse segmento. Palavras–chave: ensino de Geometria; uso da fotografia; a construção das noções de espaço pela criança. Palavras-chave: ensino de Geometria; , uso da fotografia; , a construção das noções de espaço pela criança.. A fotografia como facilitador no ensino de Geometria na escola - uma possibilidade para alunos e professores Cleane Aparecida dos Santos (USF / SME Jundiaí-SP) O presente trabalho refere-se a uma pesquisa de mestrado - em fase inicial - no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação da Universidade São Francisco. O trabalho está sendo realizado pela autora, professora do 5º ano de uma escola pública municipal de Jundiaí/SP. Trata-se de uma pesquisa-ação de abordagem qualitativa. O foco está centrado na utilização da fotografia como elemento facilitador no ensino de Geometria e tem como objetivos: 1) Analisar as potencialidades de utilização da máquina fotográfica pelos alunos nas aulas de Matemática, quando estes buscam registrar os espaços escolares; 2) Analisar as imagens produzidas pelos alunos do ponto de vista da Geometria; 3) Analisar o movimento de elaboração de conceitos geométricos pelos alunos, a partir das imagens produzidas e retratadas em narrativas orais e escritas; 4) Analisar as percepções e a força que o espaço escolar pode revelar e ocultar aos alunos, quando este é reproduzido em imagens fotográficas. Assim, esta pesquisa tem como foco a geometria escolar, particularmente as noções de espaço e forma e as noções das relações que os alunos estabelecem com o espaço escolar - espaço que revela, que constitui, mas que também silencia e oculta. É inegável a importância do trabalho com Geometria nas séries iniciais. Tal importância tem sido destacada pelos documentos curriculares, como os PCN (1997): A Geometria é um campo fértil para se trabalhar com situações-problema e é um tema pelo qual os alunos costumam se interessar naturalmente. O trabalho com noções geométricas contribui para a aprendizagem de números e medidas, pois estimula a criança a observar, perceber semelhanças e diferenças, identificar regularidades e vice-versa. (BRASIL, 1997: 55-56) Compreende-se que problematizar os conceitos geométricos por meio da fotografia pode possibilitar que o trinômio das práticas cotidianas - açãoreflexão-ação - se faça presente em sala de aula, num ambiente pautado na investigação, conforme defendem Onuchic e Allevato (ONUCHIC; ALLEVATO, 2004): O primeiro momento pressupõe que o professor se assegure de que a situação a ser proposta aos alunos seja ao mesmo tempo desafiadora, mas não gere a frustração da incapacidade de resolvê-la. No momento da resolução da situação proposta - ou durante - o professor acompanha o trabalho dos alunos e avalia para si se a escolha foi ou não adequada ao contexto. No último momento, "o professor aceita a solução dos alunos sem avaliá-las e conduz a discussão enquanto os alunos justificam e avaliam seus resultados e métodos. Então, o professor formaliza os novos conceitos e novos conteúdos construídos" (p.221) É nesse ambiente, pautado pela problematização e pela investigação, que a presente pesquisa está sendo realizada. Neste texto, trazemos alguns resultados deste trabalho. A fotografia como processo facilitador no ensino de Geometria Elegeu-se a fotografia como foco do estudo, partindo do pressuposto de que se faz necessário incorporar também na escola novas alternativas de registro, instigando à mudança das concepções da prática docente. A produção dos registros fotográficos dos alunos tem a finalidade de proporcionar a reflexão e a problematização entre professor e alunos sobre as imagens - do ponto de vista geométrico ou não. Essas reflexões têm a intenção de provocar um movimento constante de busca pela ampliação do conhecimento da professora-pesquisadora e, paralelamente, a essa dinâmica, analisar as potencialidades do uso de imagens fotográficas no ensino de Geometria. Compartilha-se a posição de Lopes (LOPES, 2000), quando este afirma que: Tanto a documentação verbal quanto a escrita ou fotográfica são objetos de estudo que apresentam limitações, mas estas limitações podem ser trabalhadas quando articulamos os conteúdos que nos chegam por esses diferentes caminhos. Esses caminhos constituem diferentes trajetórias que nos conduzem ao encontro da palavra pela imagem, e, na imagem, de volta à palavra. (p.145) Assim, a fotografia, além de representar um registro de um determinado evento, torna-se um meio de comunicação, de documentação e, sobretudo, de reflexão tanto para alunos quanto para professor. No entanto, ela, sozinha, poucas contribuições traz para a prática em sala de aula. Outros recursos precisam complementá-la, como os diálogos e as produções escritas dos alunos e da professora sobre o material produzido. Para este trabalho, considera-se a premissa de que a fotografia é um elemento facilitador da pesquisa do espaço escolar no campo da Geometria e que colabora com o repensar das práticas vividas pelo professor. Trata-se, portanto, de adotar uma metodologia de trabalho em sala de aula que possa oportunizar para alunos e para professores novas formas de aprender-ensinar Geometria, entendendo que ambas as ações são indissociáveis. Essa metodologia propicia a dimensão colaborativa entre os pares, fator este que contribui para o crescimento de todos os envolvidos. Para tanto, idealizando uma mudança na prática pedagógica, buscam-se alternativas para que o aluno se torne capaz de desenvolver o conhecimento utilizando a produção de registros fotográficos, fazendo o uso de narrativas orais e escritas e, a partir de suas impressões, avance em suas hipóteses sobre o conhecimento geométrico presente nas aulas de Matemática. Dessa forma, concebe-se que as imagens produzidas pelos alunos tomarão o caráter exploratório e investigativo em sala de aula. Para os alunos, será a oportunidade de fazer constatações, ter voz e encorajar-se diante dos desafios propostos; para a professora-pesquisadora, a possibilidade residirá em reflexão sobre a sua prática e em busca de novas alternativas de trabalho. Pesquisadores como Passos (2003), Grando (2008), Nacarato (2003), Freitas (2006) e Fiorentini (1999) têm divulgado estudos que evidenciam a necessidade e a importância de um movimento reflexivo nas práticas cotidianas. Diante desse contexto, acredito que conhecer o que os alunos captam do e no espaço escolar, (des)construir essas imagens, interpretá-las, ou seja, desvelar o que o registro fotográfico traz, possibilitam trazer à tona um ensino de Matemática prazeroso e eficaz, rompendo as barreiras enfrentadas pelos alunos, marcadas pelo ensino "partido", "solitário" e "amargo" das aulas de Geometria. O trabalho em sala de aula A escola em que a pesquisa está sendo realizada localiza-se na cidade de Jundiaí, no Estado de São Paulo, e é vinculada à rede municipal de ensino. Ela atende a cerca de 700 alunos no Ensino Fundamental, do 2º ao 5º ano (de acordo com a nova legislação). A pesquisa iniciou-se no ano letivo de 2009 com uma turma de 5º ano (antiga 4ª série) na qual a pesquisadora atua como docente. No geral, esses alunos não possuem amplo acesso aos meios de comunicação, especialmente às tecnologias. Isso pode ser percebido pela fala dos alunos e também por meio de questionários que são respondidos na escola, em virtude de mapeamentos e de provas externas. Para dar início ao projeto de pesquisa em sala de aula foi programada uma aula por semana dedicada aos estudos de Geometria. As tarefas propostas fazem parte de uma sequência de atividades elaboradas em conjunto com a orientadora do Mestrado. Vale salientar que em alguns momentos é necessária uma retomada das tarefas[1] na mesma semana para que estas não se distanciem do percurso que está sendo realizado pelos alunos e pela professora-pesquisadora. Como ponto de partida para a pesquisa, foi sugerido, como primeira tarefa, que os alunos escrevessem individualmente sobre as suas lembranças das aulas de Geometria durante a sua trajetória escolar. Essa tarefa revelou que grande parte dos alunos nomeia as figuras planas: quadrado, círculo, retângulo e triângulo; porém, que, ao darem alguns exemplos de objetos que os rodeiam que se assemelham a essas figuras, os seus conhecimentos demonstram alguns equívocos. Para exemplificar, trago os escritos da aluna Li[2]: A mesa é um retângulo, o relógio é um círculo, a bola é um círculo. Apoiada em Pavanello (apud SOARES; TORICELLI; ANDRADE, 2008: 63), observa-se que os registros feitos pela aluna confirmam os estudos realizados pelo autor acerca dos jargões geométricos: "ao longo da escola básica, com a classificação de figuras" o que está diretamente relacionado a nossa experiência- "apresentada em geral pelo professor ou pelo livro didático, sem que os alunos tenham a oportunidade de procurar as semelhanças e diferenças entre elas". As conseqüências desse tipo de abordagem no melhor dos cenários são alunos "familiarizados com termos do jargão geométrico", sem, no entanto conseguir "identificar figuras simples ou com idéias erradas quanto ao significado das palavras usadas para designá-las". (grifos dos autores) Durante a tarefa acima mencionada, um dos alunos questionou o que era Geometria, de onde ela havia surgido. A partir dessa inquietação, foi dito que seria estudado um texto informativo sobre o assunto na aula seguinte. A intenção dessa tarefa preliminar - de escrever sobre as lembranças - era, posteriormente, permitir que os alunos pudessem reler o texto produzido e verificar se seria possível fazer alguma mudança sobre o percurso já estudado em Geometria, em virtude do projeto de pesquisa em andamento. A segunda tarefa tratou da leitura de um texto sobre o surgimento da Geometria e da ilustração desse texto. Essa tarefa teve o objetivo de dar a devolutiva para o aluno que a havia solicitado na aula anterior, e ainda oportunizar para todos os outros uma informação - creio que necessária para o estudo proposto pela professora-pesquisadora. Durante essa proposta, muitos alunos solicitaram que fosse relido o texto informativo novamente e explicado o significado de algumas palavras desconhecidas. Acredita-se que disponibilizar esse texto para os alunos torna-se imprescindível, na medida em que estes não haviam tido contato anterior com o assunto. A próxima tarefa sugerida para os alunos foi a realização de um passeio pela escola e a realização de uma fotografia sobre o que mais lhes havia chamado a atenção. Para tal, foi disponibilizada uma máquina fotográfica para cada grupo de alunos. Sem dúvida, foi uma proposta diferente daquela que os alunos estavam acostumados a desenvolver em sala de aula. O que diferenciava essa tarefa das outras era a possibilidade de os alunos se locomoverem para a sua realização; o uso de um instrumento pouco utilizado pelos mesmos, no caso, a máquina fotográfica; a negociação entre os membros do grupo para a utilização da máquina; e, ainda, a autonomia dada aos alunos para a sua realização. Após o desafio proposto, o primeiro grupo saiu a campo. Logo depois de alguns minutos, uma aluna do grupo retornou para a classe e solicitou que fosse verificado se as fotos tiradas por eles estavam sendo armazenadas corretamente. A preocupação da aluna e sua ida até a sala de aula sugere que o grupo havia estabelecido uma preocupação e um comprometimento com a tarefa. Tanto para os alunos quanto para a professora era um desafio, o clima estava envolto por incertezas, curiosidade e descobertas. Pode-se dizer que os alunos estavam até mesmo emocionados diante da tarefa, como externalizado pela aluna S, quando disse: A aluna L quase caiu na escada com a máquina na mão. (Diário de campo, 7 de abril de 2009). O aluno C, do segundo grupo, comentou: Encontramos com a diretora durante o trajeto e tiramos mais fotos do que a prô pediu. (Diário de campo, 7 de abril de 2009). Esses depoimentos podem ser um indicativo de que os alunos estavam envolvidos com a proposta. Afinal, tudo era novidade para eles. O fato de o grupo encontrar a diretora durante o percurso, enquanto realizava uma tarefa, significava uma quebra de um paradigma na escola, pois sabe-se que os alunos atravessam grande parte dos dias letivos restritos apenas ao uso da sala de aula. Essa tarefa se estendeu por dois dias, pois não foi possível que todos os grupos a concluíssem no mesmo dia. Dando continuidade à tarefa de fotografar o espaço escolar, foram disponibilizadas as fotografias tiradas pelos alunos na sala de informática e, com a utilização de um data show, foi solicitado que os alunos justificassem as suas escolhas por meio de narrativas orais - as quais foram gravadas - e que, posteriormente, produzissem um texto. Seguem algumas fotos realizadas pelos alunos e suas respectivas narrativas escritas. As fotos estão numeradas e se encontram no anexo. Eu escolhi essa foto, pois nas gavetas estão guardados muitos documentos importantes da escola. São os nossos registros, o comportamento e também outras coisas. (Aluna G) Inserir Foto 1 Foto 1 - Tarefa: Justifique a escolha de sua foto. O espaço fotografado é a secretaria da escola e o texto produzido pela aluna sugere que esse local tem como enfoque principal a organização dos documentos da escola. A aluna reporta-se também às técnicas de controle existentes na escola, especialmente em relação aos alunos. A Foto 2 refere-se a um espaço de transição do prédio 1 para o prédio 2, mais especificamente de passagem dos alunos para a merenda, de movimentação de entrada e saída de alunos. Pode também ser considerado como um ponto de referência da escola e/ou ainda um lugar de escape de toda essa espacialidade fragmentada da escola. Refletindo sobre esse espaço, pensa-se em um lugar que aprisiona e que liberta ao mesmo tempo. Eu escolhi essa foto porque representa um lugar onde a gente pode brincar e fazer várias coisas. Nós podemos ir para a merenda, entrar na sala e também ir embora. (Aluna E) Inserir Foto 2 Foto 2 - Tarefa: Justifique a escolha de sua foto. Em virtude da reforma na escola, o espaço representado na fotografia apresenta uma pintura uniforme, nova, e uma opacidade, em virtude da cor, que não passou despercebida aos olhos de quem a fotografou. Dando sequência à pesquisa, foi proposta para os alunos a tarefa denominada Percepções, que consistia na manipulação dos sólidos geométricos sem a intenção de nomeá-los corretamente, mas estabelecer regularidades e as suas respectivas propriedades. Em seguida, foi pedido que produzissem um texto sobre essa experiência. A tarefa foi realizada com todos os grupos e cada grupo tinha disponível uma caixa com oito sólidos geométricos e os seus respectivos números. Pautando-se em Pais (1996) e Pais (2000), ressalta-se a importância do contato com o objeto real, que possibilita que as imagens mentais se estabeleçam e propiciem a abstração. Inserir Figura 1 Figura 1 - Sólidos geométricos utilizados na tarefa Percepções Os sólidos geométricos foram identificados pela professora-pesquisadora da seguinte maneira: Número de identificação Sólido geométrico 1 2 3 4 5 6 7 8 Prisma de base quadrangular Cilindro Cubo Prisma de base triangular Pirâmide de base quadrangular Cone Pirâmide de base triangular Esfera Tabela 1: Identificação dos sólidos geométricos Essa tarefa Percepções trouxe para a professora-pesquisadora, num primeiro momento, muita angústia e medo, pois os alunos começaram a disputar os sólidos geométricos, a simular construções e a derrubar no chão. Como controlar tal situação? Como garantir a "normalidade" de uma aula? A forma círculo, não tem nenhum lado, portanto rola muito fácil. O quadrado e o triângulo formam uma casa. O quadrado tem quatro lados iguais e o triângulo tem três lados. A forma triângulo pode formar o telhado de uma casa. O grupo não sabe o nome de uma forma, mas ela é comprida e grande. Com ela e o retângulo, formamos uma casa de passarinho. Essa tarefa gerou a produção de um texto, conforme exemplificado a seguir. Inserir Foto 3 Foto 3 - Tarefa: Percepções Nesse primeiro contato com os sólidos geométricos, pode-se observar que esse grupo traz um conhecimento alicerçado na nomeação das figuras planas e que os alunos começam a apontar algumas características dos sólidos como, por exemplo: o rolar e o número de lados. Em relação à percepção, Gálvez (GÁLVEZ, 1996) aponta: Quando se pede às crianças que identifiquem objetos somente mediante o tato (percepção estereognósica), a sistematicidade dos movimentos exploratórios constitui um bom índice da qualidade da imagem que o sujeito forma do objeto. A motricidade (seja perceptiva ou manual) aparece como um componente necessário na elaboração das imagens, já que a criança reconhece só as formas que é capaz de construir com sua própria atividade. (p.242) A próxima tarefa teve como objetivo separar por regularidades os sólidos geométricos. Segue um dos registros fotográficos e o texto produzido por esse grupo: Nós achamos que os objetos números 1,5 e 3 combinam porque a base é quadrada. Escolhemos os objetos 6 e 2 porque os dois têm a base redonda. Também os objetos 7 e 4 têm a base triangular. O objeto 8, o círculo, não tem base porque ele é redondo. Inserir Foto 4 Foto 4 - Tarefa: Separando os sólidos geométricos por regularidades Evidencia-se, no registro desse grupo, a introdução do vocabulário geométrico, utilizando a palavra base para os objetos 7 e 4, embora um sólido seja um prisma de base triangular e outro uma pirâmide de base triangular. O mesmo pode ser apontado para os sólidos 1, 5 e 3 também em relação à base, e ainda a justificativa para o objeto 8 não ter base, pois trata-se de uma esfera. Segundo o modelo Van Hiele[3], acredita-se que os alunos desse grupo se encontram no segundo nível (nível 1: análise), em que o aluno consegue destacar propriedades e elementos da figura, mas não estabelece ainda uma relação entre elas. A tarefa seguinte consistiu na leitura dos registros escritos realizados na aula anterior e na verificação se seria necessário realizar alguma mudança em relação ao que já haviam vivenciado, tendo como enfoque as regularidades e as propriedades. O mesmo grupo acima mencionado propôs algumas alterações: Nós, desse grupo, achamos que as formas 5, 4 e 7 são semelhantes, porque suas bases são triangulares. Também juntamos os números 1 e 3 porque suas bases são quadrangulares. Para finalizar, achamos que as formas 8, 6 e 2 combinam, pois os três são corpos redondos. Inserir Figura 2 Figura 2 - Registro de alunos Pode-se dizer que oportunizar para o grupo esse espaço de reflexões permitiu que os alunos revissem os seus escritos e que, na redação de um outro texto, trouxessem a extensão do seu vocabulário geométrico e começassem a estabelecer algumas relações entre as propriedades e os sólidos geométricos que estavam à disposição do grupo. Isso possibilita uma concordância com Santos (SANTOS, 2005), quando este afirma que: Dessa forma, a linguagem escrita nas aulas de matemática atua como mediadora, integrando as experiências individuais e coletivas na busca da construção e apropriação dos conceitos abstratos estudados. Além disso, cria oportunidades para o resgate da auto-estima para alunos, professores e para as interações da sala de aula. Esse processo favorece a transparência de emoções e afetividade, não só de aspectos negativos, como o medo, a frustração e a tristeza, mas também da coragem, do sucesso, da alegria e do humor. (p.129) Dando sequência às tarefas, foi proposto que os grupos realizassem um percurso na escola e no seu entorno com o intuito de identificar prismas, pirâmides, corpos redondos, e que os fotografassem. De certa forma, essa tarefa apontaria como está sendo o caminho percorrido pela professora e pelos alunos até o presente momento, tendo a máquina fotográfica como elemento facilitador do ensino de Geometria. Certamente, seria mais um momento fundamental para o que se propõe essa pesquisa. São apresentadas, abaixo, as imagens produzidas pelo grupo 1 e as suas justificativas: Inserir Fotos 5-a; 5-b; 5-c Foto 5-a Foto 5-b Foto 5-c Inserir Fotos 5-d; 5-e; 5-f Foto 5 - fotos do grupo 1 O texto produzido pelo grupo foi o seguinte: A foto 5-a se parece com um prisma. A foto5-b se parece com uma pirâmide porque tem a ponta em cima. A foto 5-c se parece com um prisma quadrangular. A foto 5-d se parece com um cone, ou seja, um corpo redondo. A foto 5- e é um corpo redondo. A foto 5-f também é um corpo redondo. Nesse sentido, acredita-se que, a partir dos estudos da Educação Matemática e das pesquisas com enfoque no ensino de Geometria, utilizar o caráter exploratório e investigativo propicia aos pesquisadores uma reflexão sobre os saberes docentes e discentes. Para Grando, Nacarato e Gonçalves (GRANDO; NACARATO; GONÇALVES, 2008): emergem, assim, novas formas de conceber e produzir conhecimentos geométricos em sala de aula, principalmente com dinâmicas de maior dialogicidade entre professor e aluno, numa perspectiva de negociação e produção de significados. Nesse contexto, buscam-se ressignificações para os processos de validação e verdade em Matemática. (p. 43) Algumas reflexões diante desse percurso... O professor tem um papel desafiador, o que requer entrar na zona de risco[4] para manter-se atualizado em uma sociedade em constante mutação. Dessa forma, o professor tem papel decisivo nas questões que tangem à formação dos alunos, para que estes possam desenvolver leituras acerca do mundo no qual estão imersos. Pautando-se em Charlot, pode-se dizer que a aprendizagem se dá por meio da relação professor e aluno e esta, por sua vez, precisa ser dialógica. Diz o autor: "Uma aprendizagem só é possível se for imbuída de desejo (consciente ou inconsciente) e se houver um envolvimento daquele que aprende" (CHARLOT, 2005: 76). Como relatado no início deste texto, trata-se de uma pesquisa em andamento que ainda sofrerá movimentos de idas e voltas, certezas, incertezas e muitas reflexões. Bibliografia BORBA, M. C.; PENTEADO, M. G. Pesquisa em Informática e Educação Matemática. Educação em Revista, Belo Horizonte/UFMG, n.36, dezembro, p. 239-253, 2002. BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Matemática. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. CHARLOT, B. 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[1] O termo será utilizado neste trabalho segundo o significado encontrado no dicionário Houaiss, em que se compreende que se trata de propor algo para alguém, portanto, realiza-se uma tarefa. [2] Nesta pesquisa, os nomes dos alunos estão sendo preservados. [3] Consiste em um modelo que pode orientar a construção do pensamento geométrico e estabelece níveis hierárquicos de raciocínio. Para mais informações, ver o texto de Crowley (1994). [4] Termo utilizado por Borba e Penteado (2002). Refere-se a enfrentar riscos, abre-se à possibilidade de processos de negociação com os alunos e com os outros que atuam no cenário escolar. Foto 1 – Tarefa: Justifique a escolha de sua foto. Foto 2 – Tarefa: Justifique a escolha de sua foto. Figura 1 – Sólidos geométricos utilizados na tarefa Percepções Foto 3 – Tarefa: Percepções Foto 4 – Tarefa: Separando os sólidos geométricos por regularidades Figura 2 – Registro de alunos Foto 5-a Foto 5-d Foto 5-b Foto 5-e Foto 5-c Foto 5-f Foto 5 – fotos do grupo 1 A fotografia como facilitador no ensino de Geometria na escola – uma possibilidade para alunos e professores Cleane Aparecida dos Santos (USF / SME Jundiaí-SP)