DIMENSÕES DA ÉTICA NA DOCÊNCIA 1ª Edição - 2008 SOMESB Sociedade Mantenedora de Educação Superior da Bahia S/C Ltda. William Oliveira Presidente Samuel Soares Superintendente Administrativo e Financeiro Germano Tabacof Superintendente de Ensino, Pesquisa e Extensão Pedro Daltro Gusmão da Silva Superintendente de Desenvolvimento e Planejamento Acadêmico André Portnoi Diretor Administrativo e Financeiro FTC - EAD Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância Reinaldo de Oliveira Borba Diretor Geral Marcelo Nery Diretor Acadêmico Roberto Frederico Merhy Diretor de Desenvolvimento e Inovações Mário Fraga Diretor Comercial Jean Carlo Nerone Diretor de Tecnologia Ronaldo Costa Gerente de Desenvolvimento e Inovações Jane Freire Gerente de Ensino Luis Carlos Nogueira Abbehusen Gerente de Suporte Tecnológico Osmane Chaves Coord. de Telecomunicações e Hardware João Jacomel Coord. de Produção de Material Didático MATERIAL DIDÁTICO Produção Acadêmica Produção Técnica Jane Freire Gerente de Ensino Ana Paula Amorim Supervisão João Jacomel Coordenação Carlos Magno Brito Almeida Santos Revisão de Texto Jorge Bispo Mariucha Silveira Ponte Jailson Costa Mariucha Silveira Ponte Coordenação de Curso Autoria Editoração Ilustrações Equipe André Pimenta, Antonio França Filho, Angélica de Fátima Jorge, Alexandre Ribeiro, Amanda Rodrigues, Bruno Benn, Cefas Gomes, Cláuder Frederico, Francisco França Júnior, Herminio Filho, Israel Dantas, Ives Araújo, John Casais, Márcio Serafim, Mariucha Silveira Ponte, Tatiana Coutinho e Ruberval da Fonseca Imagens Corbis/Image100/Imagemsource copyright © FTC EAD Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/98. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, da FTC EAD - Faculdade de Tecnologia e Ciências - Educação a Distância. www.ead.ftc.br SUMÁRIO ÉTICA: ASPECTOS CONCEITUAIS E SUAS RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO ____________________________________________________ 7 ÉTICA: O QUE É? ___________________________________________________ 7 ÉTICA: REFLEXÕES INTRODUTÓRIAS ___________________________________________ 7 ÉTICA E HISTÓRIA: PRINCIPAIS DOUTRINAS ÉTICAS (ÉTICA GREGA E ÉTICA MEDIEVAL ____ 10 ÉTICA E HISTORIA: PRINCIPAIS DOUTRINAS ÉTICAS (ÉTICA MODERNA E ÉTICA CONTEMPORANEA _______________________________________________________ 14 ÉTICA, CONSCIÊNCIA MORAL, DETERMINISMO E LIBERDADE. ________________________ 22 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 25 ÉTICA E EDUCAÇÃO ________________________________________________ 26 EDUCAÇÃO, ÉTICA E SOCIEDADE ______________________________________________ 26 EDUCAÇÃO E OS PILARES PROPOSTOS PELA UNESCO ______________________________ 28 O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE EDUCAR PARA A DEMOCRACIA _____________________________________ 31 _______________________________________________ 35 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 39 ÉTICA NA PRÁXIS PEDAGÓGICA E NA PESQUISA ______________ 40 ÉTICA E OS SUJEITOS DA PRÁXIS PEDAGÓGICA ______________________ 40 A PRÁXIS PEDAGÓGICA: DO SENSO COMUM À POSTURA CRÍTICA. ____________________ 40 O EDUCADOR SUA PRÁTICA REFLEXIVA E DE AGENTE POLÍTICO _____________________ 43 A RELAÇÃO EDUCADOR-EDUCANDO ___________________________________________ 47 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 49 SUMÁRIO ÉTICA NA PESQUISA ________________________________________________ 50 ÉTICA E CIÊNCIA ___________________________________________________________ 50 ÉTICA NAS CIÊNCIAS HUMANAS _______________________________________________ 54 ÉTICA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E HISTÓRIA _______________________________________ 55 ATIVIDADE COMPLEMENTAR _________________________________________________ 61 GLOSSÁRIO _____________________________________________________________ 62 REFERÊNCIAS ___________________________________________________________ 64 Apresentação da Disciplina Olá, caro (a) estudante Estamos dando início aos nossos estudos acerca das Dimensões Ética na Docência, que tem como objetivo geral, como já sugere a própria nomenclatura da disciplina, discutir sobre a atitude profissional do educador quando imbuída da ética e, por outro lado, quando essa atitude se comportar de forma aética. Procuraremos refletir criticamente sobre os valores morais do mundo e da sociedade contemporânea com a orientação do arcabouço de idéias filosóficas e doutrinas éticas que formam o pensamento humano e orientam a ação pedagógica, para elevar o nível de consciência crítica da relação dialética eu-mundo que todo indivíduo estabelece, cotidianamente, como ser político-social. Para tal, a disciplina desdobrar-se-á em 72 horas divididas em dois blocos temáticos e cada bloco é composto de dois temas e se propõe a discutir o conceito, o campo e o alcance da ética no trabalho educacional e na pesquisa histórica, bem como refletir e debater acerca das relações éticas que permeiam a vida como um todo e o campo profissional. No primeiro Bloco, trataremos, em termos gerais, sobre a ética como disciplina filosófica que discute os valores morais ao longo da história da humanidade ocidental e de como esses valores foram pensados sob o crivo de grandes pensadores e filósofos. Traremos discussões, também nesse bloco, sobre as relações entre ética, educação e sociedade e de como o educador deve se preparar como profissional da educação que educa o indivíduo para a democracia nesse novo milênio. No segundo Bloco, faremos uma análise reflexiva sobre a formação do educador como um profissional politizado e que compreenda contextos para que possa, na sua relação com o educando, despertar e desenvolver atitudes semelhantes. Nesse mesmo bloco, estaremos a debater como o educador deve se comportar em relação à pesquisa científica e as relações que devem ser estabelecidas com a postura ética nessa atividade. Por fim, a idéia da ética como salvaguarda da dimensão humana nos atores da educação e como um meio de preservar o que há de sensível, criativo e crítico-reflexivo no educador e sua ação pedagógica e no educando, alvo dessa ação, será o farol de nossas discussões. A disciplina foi pensada e organizada de forma a instigar você estudante a refletir sobre sua ação pedagógica e científica. Nesse sentido, leia atentamente o material que aqui está, realize as atividades propostas com dedicação e zelo em cada momento que seja solicitado a realizar. Bons estudos! Prof. Jailson Costa ÉTICA: ASPECTOS CONCEITUAIS E SUAS RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO ÉTICA: O QUE É? ÉTICA: REFLEXÕES INTRODUTÓRIAS A sociedade contemporânea se confronta com a exigência de valores morais que dignifiquem e priorizem o homem em todos os âmbitos do viver humano, sejam eles científicos, políticos, econômicos e, principalmente, educacionais. Certamente, essa situação não se dá por acaso, basta observarmos que ela surge no mesmo momento em que a nossa sociedade passa por uma grave crise de valores, em que a falta de sentido da vida e das relações que o ser humano estabelece consigo, com os semelhantes e com o ambiente, resultando em atitudes convenientes e utilitaristas destituída de senso ético e estético. Esse cenário de nossa sociedade revela como nós entendemos a vida e o nosso próprio conceito antropológico que estão implícitos em todos os modos de viver de nossa sociedade ocidental, isto é, a maneira como conceituamos o homem impregna nosso modo de organizar, nosso viver e as nossas instituições. Como vivemos numa sociedade do conhecimento científico que prioriza o homem como ser racional e capaz de executar tarefas técnicas como profissional, que produz e engrandece a economia e o mercado, as instituições pensadas e criadas pelo homem ocidental terminam por se organizarem sem se ocuparem da dimensão ético-moral que permeia todo viver humano. Esse jeito de entender o homem e de educá-lo sob o foco do adestramento, exime-o de internalizar valores morais que o eleve à condição de organismos vivos que pensam racionalmente, mas que sentem, pensam e agem no meio produzindo valores. Para refletir e responder! Como você vê o mundo e os valores que nossa sociedade escolheu para se estruturar? Ética e Moral O modo de filosofar contemporâneo lega-nos a constatação que o homem é um ser eminentemente prático. A maneira como ele sente, pensa e age no mundo (consigo, com o outro e com a natureza) vai contruindo seu modo ser, vai construindo sua humanidade e seu ser social. No entanto, é nessa prática que o homem produz valores por ser uma prática intencional e marcada por objetivos e fins. Dessa forma, na ação o homem está sempre mergulhado num mar de valoração diante da realidade com a qual se confronta na ação, além da representação conceitual e simbólica. Severino (1994) afirma que na ação somos levados a conhecer e saber sobre os dados envolvidos, como também, somos levados avaliar se há validade e legitimidade nesses dados e na ação que estão baseados em valores estabelecidos. Essa atitude diante dos valores estabelecidos aciona a nossa consciência moral: nossa sensibilidade aos valores éticos. Então, o homem é um ser moral que produz valores. (Mais tarde, em outro capítulo, trataremos desse tema Consciência Moral). Dimensões da Ética na Docência 7 Nesse sentido, o que é ética e como demarcar sua diferenciação quanto à moral? Etmologicamente, as duas palavras possuem origens distintas e significados idênticos. Moral vem do latim mores, que quer dizer costume, conduta, modo de agir; enquanto ética vem do grego ethos e, do mesmo modo, quer dizer costume, modo de agir. No entanto, fica demarcada a diferenciação quanto ao papel normatizador de uma (moral) e examinador de outra (ética). A moral, enquanto norma de conduta, refere-se às situações particulares e cotidianas, não chegando à superação desse nível, limitando a direcionar a prática das pessoas Logo, a moral é o conjunto de normas que orientam o comportamento humano que tem suas bases os valores de uma dada sociedade em deteminado contexto histórico, então ela é relativa às condições socio-históricas. Já a ética consiste na reflexão, na investigação e teorização sobre os sistemas morais, nesse caso, sobre a conduta humana, estudando as concepções que dão suporte à moral. Então, pode-se dizer que a ética é a disciplina filosófica que investiga os sistemas morais procurando compreender a sua fundamentação e de como intervir em cada sistema moral. São, pois, dois caminhos diferentes que resultam em dois status também diferentes; o primeiro, o da moral, de objeto de investigação, e o segundo, o da ética, de ciência. Logo, a Ética é a ciência da Moral. Como afirma Vasquez (1985, p.l3): “A ética é a ciência da moral, isto é, de uma esfera do comportamento humano. Não se deve confundir aqui a teoria com o seu objeto: o mundo moral.” A ética, nesse sentido, é uma disciplina teórica com preocupações práticas. A ética é uma atitude que procura conhecer e saber acerca dos dados envolvidos na ação, sem perder de vista a capacidade humana de nessa atitude reflexiva propor novos valores e, dessa maneira, novas ações. A atitude ética, então, sugere a dinamização das normas e valores morais estabelecidos, caso esses não veham a favorecer a humanidade no próprio homem. Em outras palavras, a atitude ética exige a não estagnação do mundo e a instauração de novs formas de pensar e agir que favroeçam ao desenvolvimento das potencialidades humano-sociais, revelando dois aspectos dos valores morais: um social e outro dialético. Como vimos nos parágrafos anteriores, o aspecto social da moral demanda um equilíbrio entre os anseios individuais e os interesses da sociedade, que descamba e se assentam nos valores dominantes; e o aspecto dialético que procura dinamizar os valores, logo dinamizar ao modo humano de pensar e agir e, por sua vez, dinamizar a própria sociedade, pois aqui entende-se a ética como morada do homem, como abrigo protetor do ser humano; ou seja, como a condição de sobrevivência e de convivência social. Apesar do comportamento moral se articular com as condições históricas do agente moral, isto não impede que ele possa fazer escolhas e se responsabilizar por elas. Isto porque, ele reflete sobre o seu agir, e busca orientar a sua prática de forma consciente para o que lhe seja significativo, útil e funcional. Logo, o homem não é um ser que se contenta em conhecer a natureza e explorá-la. Antes, ele é um ser que necessita conhecer a si mesmo, compreender as suas múltiplas relações, a fim de encontrar sentido para a sua existência e de tomar decisões e de realizar ações conscientes. O ato moral é exclusivo do ser humano porque é o único dotado de consciência, de liberdade e de poder de decisão (trataremos sobre essas relaçoes entre consciência, ação moral e liberdade em outro capítulo). Esta condição do ser humano ter consciência da existência do mundo e da sua própria existência, proporciona-lhe capacidade de manter com o mundo (consigo mesmo, com os semelhantes e com natureza) um vasto número de relações, que se estendem desde a ação sobre a realidade física com a intenção de transformá-la em seu benefício ou em proveito coletivo; bem como, as relações humanas. Logo, suas relações não se limitam àquelas mantidas com o mundo material, mas se estendem àquelas que envolvem os indivíduos entre si, tais como: relações econômicas, jurídicas e morais em que a educação tem um papel preponderante como mediadora entre o sujeito real e concreto e o mundo, impregnados de valores que por vezes condicionam e estagnam ao próprio homem e à sociedade. 8 FTC EAD | HISTÓRIA FT Para refletir e responder! Até que ponto você sente ter sido educado, formal e informalmente, como agente moral? Valores: Moral relativa x Ética objetiva Na contemporaneidade, a filosofia moral elegeu como problema filosófico as discussões acerca da ética e da moral e dos valores. Esses três eixos são imbricados de tal forma que o debate sobre esse assunto gira em torno da possibilidade da construção de valores universalmente válidos que se tornem regras morais para todos os homens, em todo lugar e em qualquer tempo. Um outro ponto que se avizinha dessa primeira intenção de debate é a capacidade de julgar, através da consciência moral, se certas normas são corretas ou incorretas: como definir o certo e o errado, o justo do injusto. E, ainda, qual seria o critério para esse julgamento. O que não se pode perder de vista é que a pluralidade cultural e a diversidade de grupos humanos significam uma multiplicidade de sistemas morais. Então, como responder àquelas questões indicadas no início desse capítulo? Os debates filosóficos morais atuais apontam duas correntes de discussões em torno dessa problemática: os que defendem a moral como algo relativo diante da pluralidade cultural e a diversidade dos grupos humanos; e os que sustentam a possibilidade de se eleger valores universais mesmo que se considere a pluralidade cultural e a diversidade dos grupos humanos. Os que entendem a moral como relativa e, portanto, a impossibilidade de se estabelecer valores universalmente válidos, sugerem que: a) a consciência moral do indivíduo é formada pelo conjunto de princípios eleitos pelo grupo; b) e que esses valores variam no tempo e no espaço; c) e, por isso mesmo, a dificuldade de se propor normas para todos os homens em qualquer tempo e lugar. Nesse sentido, eles apontam como virtude dos grupos humanos o desenvolvimento da tolerância em forma de respeito pelos diferentes sistemas morais para a convivência pacífica entre si. Já os que sustentam a possibilidade de uma ética objetiva, isto é, da capacidade de se estabelecer valores universalmente válidos, indicam que o conhecimento da natureza ou da condição humana deve ser o farol que orienta a arte de conviver em sociedade sem perder a individualidade. Os sistemas de valores que os grupos humanos adotam não podem ser definidos em favor de subjetivismo e desejos arbitrários de um determinado grupo social diante da possibilidade de serem desejos irracionais e destrutivos. Por isso, é preciso eleger valores humanistas, além daqueles pertinentes à tradição cultural. Para tanto esses pensadores defensores indicam que valioso e bom é o que contribui para o desenvolvimento das faculdades do homem e o que favorece à vida; é o que auxilia o homem a transcender aos medos irracionais, ao fanatismo e à ignorância; o conhecimento a guiar a vida e aos homens. O que equivale a entender que os valores devem ser construídos sob uma base dialógica fundados em argumentos válidos e coerentes e não impostas culturalmente porque a própria tradição assim legou e assim será. Dimensões da Ética na Docência 9 Diante dessas duas posições algumas considerações em torno de algo que muito se discute nos dias atuais quando se fala de conduta moral e atitudes éticas: o resgate da alteridade. Repensar a alteridade, não como o outro que aparece para me usurpar o lugar e que eu posso mensurar a partir de minha própria cultura e valores e julgá-lo com os mesmos critérios, procurando hierarquizá-lo num mapa referencial de meus próprios valores. Mas, e se assim procedermos, a capacidade de resgatar a alteridade como o diferente que se assoma para nos levar a refletir sobre nossa própria atitude ética e conduta moral, aponta para a direção de repensar essas questões não mais tomando como base nossos próprios valores e normas. Mas, e acima de tudo, que debatamos essas questões a partir de uma postura filosófica, o que equivale dizer uma postura que busca, através da argumentação dialética, os princípios que norteiam aquele determinado sistema moral, sem macular esse debate com nossos próprios valores. Antes, os nossos valores devem ser colocados em xeque no momento em que buscamos compreender a ação do outro e as normas que orientaram essa ação e os princípios que estão por trás dessa orientação. Dessa forma, tentaremos compreender o modo como o outro grupo humano se organizou culturalmente em torno dos valores morais escolhidos e, ao mesmo tempo, estaremos repensando a nossa cultura e os valores que elegemos para nos organizar e suas conseqüências. ÉTICA E HISTÓRIA: PRINCIPAIS DOUTRINAS ÉTICAS (ÉTICA GREGA E ÉTICA MEDIEVAL) Como vimos no capítulo anterior a moral é uma construção humana e histórica e, portanto, pertencente a uma determinada época e lugar e a determinado povo. E, por isso mesmo, a moral possui um caráter relativo, não são sistemas estagnados, uma vez que estão ligados diretamente ao modo como o homem produz seus valores e sua cultura, o que equivale dizer que os sistemas morais estão relacionados com as transformações histórico-sociais. Dessa forma, vamos revisitar a história e procurar entender como se deram as dicussões em torno do tema em questão e como o pensamento humano pensou a ética e a moral de seu tempo. Discutiremos sobre o tema a partir dos grandes pensadores em cada período histórico, a saber: Os Sofistas e Sócrates, Platão e Aristóteles; Epicuristas e Estóicos (Ética na Grécia Antiga); A ética Cristã no Mundo Medieval; Kant (Ética Mundo Moderno). Ética Grega Os problemas éticos são objetos de uma atenção especial na filosofia grega exatamente quando se democratiza a vida política da antiga Grécia e particularmente de Atenas, à época de Sócrates, filósofo considerado o “pai da moral”, por suas atitudes em consonância com as leis da cidade – representação maior da moral e da ética de um povo. As primeiras reflexões filosóficas, nos idos do século VII a.C., ocupavam-se em elaborar teorias cosmológicas (teorizações racionais e lógicas sobre o cosmos) e é com Sócrates e seus contemporâneos, os Sofistas, que a ocupação filosófica passa a girar em torno da vida social e do homem com seu pensar e agir. A democratização da vida política, a criação de novas instituições eletivas e o desenvolvimento de uma intensa vida pública deram origem à filosofia política e moral. As idéias de Sócrates, Platão e Aristóteles neste campo estão relacionadas com a existência de uma comunidade democrática limitada e local (a Cidade-Estado ou polis). 10 FTC EAD | HISTÓRIA FT Os Sofistas x Sócrates Os sofistas reagem contra o saber a respeito do mundo (cosmos) porque o considera estéril e se sentem atraídos por um saber a respeito do homem como ser político. Mas não ambiciona um conhecimento gratuito e especulativo (postura de todo saber filosófico), mas prático, tendente a influir na vida pública. Por esta razão, os sofistas se transformam em mestres que ensinam, principalmente, a arte de argumentar para convencer, a arte da persuasão, ou retórica. Numa sociedade em que o cidadão intervém ativamente e é muito importante ter êxito na vida política, a arte de expor, argumentar ou discutir ensinada pelos sofistas não deixa de ter uma aceitação excepcional, até o ponto de convertê-los numa verdadeira força social. Mas, esta arte de persuadir é desenvolvida e transmitida pondo em dúvida não só a tradição, mas a existência de verdades e normas universalmente válidas. Não existe nem verdade nem erro, e as normas - por serem humanas - são transitórias. Os Sofistas caem, assim, no relativismo ou subjetivismo: tudo é relativo ao sujeito, ao “homem, [que é a] medida de todas as coisas”. Isto é, o que convém e o que não convém, o que é certo ou errado depende do julgamento pessoal de cada um. Já Sócrates (469-399 a.C.) mesmo compartilhando o desprezo dos sofistas pelo conhecimento da natureza, bem como sua crítica da tradição, rejeita, porém, o seu relativismo e o seu subjetivismo. Para Sócrates, o saber fundamental é o saber a respeito do homem (daí a sua máxima: “conhece-te a ti mesmo”), que se caracteriza como um conhecimento universalmente válido e prático (conhecer para agir retamente). A ética socrática é racionalista e a questão central de sua ética é o bem supremo da vida humana: a felicidade (eudemonia) que consiste em proceder bem e ter uma alma boa. Portanto, na ética socrática encontramos uma concepção do bem (como felicidade da alma) e do bom (como o útil para a felicidade). Sócrates, ainda, entende que felicidade e boa conduta são sinônimas, uma vez que sua teoria da virtude como conhecimento e do vício como ignorância revela isso: quem age mal é porque ignora o bem; por conseguinte, ninguém faz o mal voluntariamente, o que equivale dizer que a virtude pode ser ensinada na ação virtuosa. Protágoras 490 B.C.–420 B.C. Em outras palavras, bondade, conhecimento e felicidade se entrelaçam estreitamente na doutrina ética socrática. O homem age retamente quando conhece o bem e, conhecendo-o, não pode deixar de praticá-lo; por outro lado, aspirando ao bem, sente-se dono de si mesmo e, por conseguinte, é feliz. Sócrates 470 B.C.–399 B.C. Platão (427-347 a.C.) Ateniense e discípulo de Sócrates a teoria ética de Platão se relaciona intimamente com a sua filosofia política, porque para ele - como para Aristóteles - a polis é o terreno próprio da vida moral que tem como foco central a felicidade. Por outro lado, a teoria de Platão sobre a ética está intimamente ligada a sua forma de entender a realidade: uma concepção dualista. O mundo sensível (acessado pelos sentidos e que produz a ilusão por ser o reflexo do mundo das idéias) e o mundo das idéias (acessado pela essência racional do homem e que gera conhecimentos universais e válidos por constituir a verdadeira realidade, perfeita e imutável). Platão 428 A.C.–347 A.C. Dimensões da Ética na Docência 11 O corpo, por ser a sede dos sentidos, desejos e paixões desvirtua o homem de seu caminho para o bem e o impede de acessar o mundo da perfeição, o das idéias. Daí Platão sugere a purificação do mundo material (sensível) para se alcançar a idéia do Bem pela postura racional do homem. Para tal, é preciso entender a doutrina de Platão sobre a alma: esse princípio que anima o homem. A alma consta de três partes: razão, vontade ou ânimo, e apetite; a razão que contempla e quer racionalmente é a parte superior, e o apetite, relacionado com as necessidades corporais, é a inferior. Para alcançar esta purificação, é preciso praticar várias virtudes, que correspondem a cada uma das partes da alma e consistem no seu funcionamento perfeito: a virtude da razão é a prudência; a da vontade ou ânimo, a fortaleza; e a do apetite, a temperança. Estas virtudes guiam ou refreiam uma parte da alma. A harmonia entre as diversas partes constitui a quarta virtude, ou justiça. Como o indivíduo por si só não pode aproximar-se da perfeição, torna-se necessário o Estado ou Comunidade política. O homem é bom enquanto bom cidadão. A Idéia do homem se realiza somente na comunidade. A ética desemboca necessariamente na política: o homem se forma espiritualmente somente no Estado e mediante a subordinação do indivíduo à comunidade. Aristóteles (384-322 a.C.) Discípulo de Platão, escreveu obras como Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo, e Magna Ética que revelam a importância do tema para esse autor/pensador. No entanto, opõe-se ao dualismo ontológico do mestre. Para ele, a idéia não existe separada dos indivíduos concretos, que são o único existente real; a idéia existe somente nos seres individuais. Contudo, no ser individual, é preciso distinguir o que é atualmente e o que tende a ser (ou seja, o ato e a potência). Aristoteles 384 A.C-322 A.C. Exceto para Deus que é Ato Puro sem potência, a mudança universal é passagem incessante da potência ao ato (a semente é árvore em potência, e a árvore - como ato – é a realização definitiva da potência). Também o homem deve realizar com seu esforço o que é potência, para realizar-se como ser humano. O homem, portanto, é atividade, passagem da potência ao ato. Mas qual é o fim desta atividade? Com esta indagação já se entra no terreno moral. E, para Aristóteles, o fim da atividade humana é a felicidade que é alcançada, não pelo simples prazer das sensações, da vida material ou dado pelas riquezas, mas o prazer proporcionado pela vida teórica ou contemplação, como atividade humana guiada pelo que há de mais característico e elevado no homem: a razão. O bem moral consiste em agir de forma equilibrada e guiada pela razão. A felicidade é composta de sabedoria (o bem de maior valor), a virtude e o prazer. O equilíbrio, “o meio termo”, levaria à felicidade, a uma vida boa e bela. Esse termo médio seria a virtude entre dois extremos instáveis (o valor está entre a temeridade e a covardia; a liberalidade, entre a prodigalidade e a avareza; a justiça, entre o egoísmo e o esquecimento de si). Como visto, a vida boa e bela só era alcançada por ações e atitudes virtuosas (intelectuais ou dianoéticas; e práticas e éticas) que se adquirem ou conquistam pelo exercício. O homem comum incapaz de viver a vida racional (teórica e contemplativa) aprenderia as virtudes e a agir corretamente, através do hábito. As virtudes intelectuais ou dianoéticas operam na parte racional do homem, isto é, na razão e as virtudes práticas ou éticas operam naquilo que há nele de irracional, ou seja, nas suas paixões e apetites, conduzindo-os racionalmente. Logo, para Aristóteles, a felicidade se alcança pela postura virtuosa, o que exige do homem maturidade intelectual e pessoal, liberdade e essas condições só se alcançam na vida citadina, como propunha seu mestre Platão, a vida na cidade. A vida citadina quer dizer sobre a filosofia política de Aristóteles: isto é, a comunidade social e política é o meio necessário da moral. Somente nela pode realizar-se o ideal da vida teórica na qual se baseia a felicidade. 12 FTC EAD | HISTÓRIA FT O homem é um animal político e deve, necessariamente, viver em sociedade. Consequentemente, não pode levar uma vida moral como indivíduo isolado, mas como membro da comunidade. Por outro lado, a vida moral não é um fim em si mesmo, mas condição ou meio para uma vida verdadeiramente humana: a vida teórica na qual consiste a felicidade. Assim, o homem que se desenvolve no plano teórico-contemplativo tem a condição de compreender a essência da felicidade e realiza-la conscientemente. Estóicos e Epicuristas O Estoicismo, escola filosófica fundada por Zenão (324-263 a.C.) tendo como outros representantes Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio; e o Epicurismo pensamento filosófico atribuído a Epicuro (341-270 a.C.) tendo como outros representantes Tito Lucrécio (dentre outros), surgem no processo de decadência do Mundo Antigo Greco-Romano, que se caracteriza pela perda de autonomia dos Estados gregos e pela organização, desenvolvimento e queda dos grandes impérios: primeiro o macedônico, e depois o romano. Para ambos, a moral não mais se define em relação à vida comunitária, a polis, mas ao universo. O problema moral é colocado sobre o fundo da necessidade física, natural, do mundo. Por isto, tanto no estoicismo quanto no epicurismo, a física é o ponto de partida da ética. Zenão 495 A.C. - 430 A.C. Epicuro 341 A.C. - 271 A.C. Para os estóicos, o mundo ou cosmos é um único grande ser que tem Deus como princípio, alma ou razão, sendo Aquele o seu animador ou coordenador. No mundo acontece somente o que Deus quer, e, assim, domina nele uma fatalidade absoluta; não existe nem liberdade nem acaso. Praticando a apatia (aphatéia) e a imperturbabilidade do ser, o homem sábio se firma contra as suas paixões ou contra os reveses do mundo exterior, e conquista a sua liberdade interior bem como sua autonomia absoluta. Ser virtuoso é não se deixar perturbar pelo mundo externo ou interno. O homem sábio, assim, define-se moralmente sem necessidade da comunidade como cenário necessário da vida moral. Os seguidores do estoicismo indicam que o homem vive moralmente como cidadão do cosmos, não da polis, guiado por uma razão universal que a tudo abrange. Para os epicuristas não há nenhuma intervenção divina nos fenômenos físicos nem na vida do homem. Libertado, assim, do temor religioso, o homem pode buscar o bem neste mundo (o bem, para Epicuro, é o prazer). Ora, a vida humana é afetada pelo prazer e pela dor, sendo o primeiro (o prazer) a inclinação natural da vida humana e, dessa forma, a dor deveria ser evitada. O prazer identificado com a ausência de sofrimento seria a própria felicidade. Mas, há muitos prazeres, e nem todos são igualmente bons. É preciso escolher entre eles para encontrar os mais duradouros e estáveis, que não são os corporais (fugazes e imediatos e que sugerem movimento e mudança, logo desprazer), mas os espirituais; isto é, os que contribuem para a paz da alma (que sugerem repouso, tranqüilidade – a ataraxia). Para tanto, é importante minimizar a influência do mundo exterior sobre o bem estar espiritual. O que significa que para garantir o máximo de prazer ao indivíduo seria necessário desenvolver certas virtudes sociais como amizade, simplicidade e nobreza. Assim, pois, o epicurista alcança o bem, retirado da vida social, sem cair no temor do sobrenatural, encontrando em si mesmo, ou rodeado por um pequeno círculo de amigos, a tranqüilidade da alma e a auto-suficiência – o homem virtuoso é aquele que sabe as formas de chegar ao máximo de prazer com o mínimo de sofrimento físico e moral. Dimensões da Ética na Docência 13 Ética Cristã Medieval A ética cristã se assenta em um conjunto de Verdades Reveladas a respeito de Deus, das relações do homem com o seu criador e do modo de vida prático que o homem deve seguir para obter a salvação no outro mundo. O cristianismo não é uma filosofia, mas uma religião com seus dogmas e alicerçada na fé. Logo, aqui a Filosofia estava subordinada à Teologia e a Razão submissa à Fé. E toda elaboração conceitual, proposta e imposta pelo pensamento medieval, dos problemas filosóficos em geral, e ético-morais em particular, revela uma cristianização do pensamento grego. Este processo está presente principalmente na doutrina ética de Santo Agostinho (354-430) e de São Tomás de Aquino (1226-1274). No entanto, a despeito dessa cristianização do pensamento dos gregos, a ética e a moral cristãs se diferenciam radicalmente da ética grega quanto ao abandono do racionalismo como meio para se alcançar a perfeição moral e a colocação desse meio no amor e na boa vontade. Outro ponto de diferenciação é quanto à subjetividade. Enquanto nos gregos a virtude e a moral eram construídas na vida comunitária entre os sujeitos da pólis, na ética e moral cristãs era acentuada a tendência estritamente pessoal e na relação individual com Deus como criador onipresente e onipotente, isolando o indivíduo de sua condição social e política. O que o homem é e o que deve fazer definem-se essencialmente não em relação com uma comunidade humana, mas, antes de tudo, em relação a Deus. O homem vem de Deus e todo o seu comportamento - incluindo a moral - deve orientar-se para Ele como objetivo máximo de felicidade. A essência da felicidade (a beatitude) é a contemplação de Deus. Aquela nova ordem mundial de então, o cristianismo, pretendia elevar o homem de uma ordem terrestre para uma ordem sobrenatural, na qual possa viver uma vida plena, feliz, e verdadeira, sem as imperfeições, as desigualdades e injustiças terrenas. O comportamento dos homens tem o seu fim ou valor supremo fora do homem, isto é, em Deus. Stº Agostinho 354 - 430 D.C. A vida moral alcança a sua plena realização somente quando o homem se eleva à ordem sobrenatural – representada em Deus. Os mandamentos supremos, que têm para o homem um caráter imperativo absoluto e incondicionado, regulam o seu comportamento e procedem de Deus e apontam para Deus como fim último. S. Tomás de Aquino 1225-1274 D.C. ÉTICA E HISTÓRIA: PRINCIPAIS DOUTRINAS ÉTICAS (ÉTICA MODERNA E ÉTICA CONTEMPORÂNEA) A organização social estabelecida no Mundo Moderno contribuiu para que a ética passasse a ter o seu centro e fundamento no homem (antropocêntrica) e livre do teor teológico, embora o homem ainda seja concebido de uma maneira abstrata, dotado de uma natureza universal e imutável. A ética moderna se cultiva nessa nova sociedade que sucede à sociedade feudal da Idade Média que começou a ser desenhada pela retomada do humanismo com o Renascimento. Esse momento histórico se caracterizou por uma série de transformações, principalmente na organização dos Estados modernos. Outras mudanças se deram na área econômica, onde as forças produtivas em relação com o desenvolvimento científico se consolidam na constituição da ciência moderna; as relações capitalistas de produção também começam a se compor nesse período; na área social a burguesia começa uma aparecer como nova classe social que procura estender o seu poder econômico e luta para impor a sua hegemonia política; na área espiritual, a explicação e justificação teocêntrica para o homem 14 FTC EAD | HISTÓRIA FT e o mundo perde força, principalmente com os movimentos de reforma protestante, que destroem a unidade cristã medieval. Nessa sociedade moderna que começara a se configurar, então, consolidou-se um processo de apartamento daquilo que a Idade Média e a proposição cristã sugeriram. A Filosofia começa a se desvencilhar da Teologia, nesse sentido a razão separa-se da fé, o que equivale dizer que o homem foi separado de Deus e o Estado da Igreja; começa-se a entender a natureza sem nenhum teor divino, o que impulsiona a construção de métodos de investigação das ciências naturais. Como processo central desse período histórico e que impulsionou todas as transformações está o homem que adquire um status além do proposto pela cristandade: status de indivíduo espiritual, como também dotado de razão e de vontade e, evidentemente, um ser possuidor de um corpo sensível. Logo, a natureza humana não se limita apenas à dimensão espiritual contemplativa, mas também da ação. O homem passou a afirmar o seu novo status em todos os campos: política, da ciência, da arte e também da moral. O campo da ciência caracteriza-se pela capacidade do homem de agir sobre a natureza (a ciência) para atender as necessidades humanas; a natureza é, então, considerada como objeto de transformação ou produção humana e não divina. O homem aparece, portanto, no centro de tudo e ao se transferir o centro de Deus para o homem, este acabará por apresentar-se como o absoluto legislador em diferentes domínios, incluindo-se aí a moral. A doutrina ética de Kant (1724-1804) é a concepção mais expressiva da ética moderna, pois sua concepção ética revela melhor a natureza humana que começou a ser redescoberta nesse período histórico. Rosa dos Ventos Diante dessa razão é que vamos tratar, a seguir, de sua doutrina ética visando a situa-la - pela mudança decisiva que representa - dentro da evolução do pensamento ético que culminará na nossa contemporaneidade. Kant e sua doutrina ética Para falar da ética kantiana é necessário compreender como ele entendia a possibilidade do conhecimento. Nesse terreno, Kant sustenta que não é o sujeito que gira no entorno do objeto, mas ao contrário. O que o sujeito conhece é o produto de sua consciência. A mesma coisa se constata na moral (Kant escreveu obras sobre o tema, tais como: Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785) e Crítica da razão prática (1788) que sintetizaram bem o espírito de sua época): o sujeito - a consciência moral - dá a si mesmo a sua própria lei. O homem como sujeito cognoscente ou moral é ativo, criador e está no centro tanto do conhecimento quanto da moral. Kant toma como ponto de partida da sua ética o fato da moralidade: o homem se sente responsável pelos seus atos e tem consciência do seu dever. Mas esta consciência força a supor que o homem é livre e que possui uma natureza racional universal que legisla, logo capaz de gerar normas morais universais. O problema da moralidade exige que se proponha a questão do fundamento da bondade dos atos: o único bom em si mesmo, sem restrição, é uma boa vontade, isto é, aquela vontade que age por puro respeito ao dever, sem razões outras a não ser o cumprimento do dever ou a sujeição à lei moral. A noção kantiana de dever se confunde com a própria concepção de liberdade, posto que um indivíduo que obedece a uma norma moral atende à liberdade da razão. O uso livre de sua razão determinou tal norma como correta e se sujeita a ela, ou seja, reconhece que ela é legal e legítima, porque confiada pelos próprios indivíduos racionais. Dessa forma, para Kant, o único bem em si mesmo é a boa vontade. A vontade é boa quando age sem nenhum interesse que não seja o cumprimen- Immanuel Kant 1724 - 1804 Dimensões da Ética na Docência 15 to do dever pelo dever. O que a boa vontade ordena é universal por sua forma e não tem um conteúdo concreto: refere-se a todos os homens em todo o tempo e em todas as circunstâncias e condições. Kant denominou de imperativo categórico a esse mandamento, formulando-o assim: “Age de maneira que possas querer que o motivo que te levou a agir se torne uma lei universal”. Esse princípio maior proposto por Kant em sua doutrina moral sugere que o homem deve ser o fim de toda ação moral e que esta consciência de que o homem não deve ser tratado como meio, e sim como fim, tem um conteúdo humanista, moral. Por isto, tomar o homem como meio seria imoral, porque todos os homens são fins em si mesmos e, como tais, isto é, como indivíduos morais, formam parte do mundo da liberdade moral. A condição de ser uma ética formal, a ética kantiana é idealista e obriga em demandar um dever para todos os homens, independente de sua situação social e seja qual for a sua realidade concreta. A condição de uma ética autônoma proposta por Kant sugere que essa conduta ética opõe-se às normas morais nas quais a lei que governa a consciência vem de fora, como acontecia no Mundo Medieval. Essa condição, ainda, opôs-se ao modo como os Gregos entendiam a ética e a moral a partir do eudemonismo e do Bem supremo e que levou Kant a erguer uma doutrina moral mais sólida, assentada no puro dever que no princípio universal da boa vontade direcionaria toda a ação humana. A Ética Contemporânea: a ética do homem concreto. As doutrinas éticas posteriores a Kant surgem num mundo social que não só se apresenta conforme à natureza racional do homem, mas também uma sociedade na qual surgem contradições profundas. A ética contemporânea surge numa época de contínuos progressos científicos e técnicos como forma de proporcionar aos seres humanos uma vida de abundância material e de felicidade e de um imenso desenvolvimento das forças produtoras, que acabarão por questionar a própria existência da humanidade, dada a ameaça que o uso destruidor desse progresso científico acarreta. O seu avanço fez com que os indivíduos experimentassem poderes nunca vistos. Entretanto, a condução que o próprio ser humano lhes deu, transformou-A em ameaças para a própria vida do homem e do planeta. Um outro resultado dessa condução dada pelo próprio homem à ciência e à tecnologia é que devido ao fato de elas não serem colocadas a serviço de todos acentuou as divisões sociais; e também, porque elas, escravizaram os homens contrariamente às suas promessas e, ainda, transformaram-se em possibilidades de perigos ecológicos, de guerras nucleares, entre outras. Evidentemente que esses resultados e falhas que se está discutindo aqui acerca do processo científico e tecnológico atual são frutos do uso que o ser humano tem feito deles como agente sociais, políticos e morais. Isto nos leva a crer que elas, se voltadas para melhorar a vida planetária e para todos os homens sem distinção, só seriam motivos de benefícios em todas as áreas. Nesse sentido, exige-se uma ética que tenha o ser humano como sua origem e fim e que essa ética, diante dessa nova sociedade plural, configure-se em regras de convivência, tais como igualdade e liberdade para garantir o cumprimento de deveres e direitos. No plano filosófico, a ética contemporânea se apresenta em suas origens como uma reação contra o formalismo e o racionalismo abstrato kantiano, principalmente contra a forma absoluta que este adquire em Hegel. Isso equivale dizer que a ética contemporânea se configura numa tentativa de salvar o concreto em face do formal (ideal), ou seja, a ética contemporânea se recusa a aceitar uma fundamentação exterior, transcendental para a moralidade centrando no próprio homem e sua autonomia a origem dos valores e das normas morais. 16 FTC EAD | HISTÓRIA FT É justamente procurando resgatar essa autonomia e a condição concreta do viver humano como indivíduo que as doutrinas éticas contemporâneas se desenharam, combatendo o racionalismo e o formalismo que constituíram as doutrinas éticas do Mundo Moderno. Trataremos, então, das posições ético-morais de Kierkergaard, Nietzsche, Marx, Peirce e Sartre. O Existencialismo de Kierkegaard, Nietzsche e Sartre Kierkegaard, considerado o pai do Existencialismo, opôs-se ao racionalismo universal como forma de orientar a ação humana. Esse racionalismo proposto no pensamento filosófico da modernidade integra o homem como um elemento a mais no desenvolvimento universal da razão e é indiferente à existência concreta do indivíduo; o que vale é o que o indivíduo possui de abstrato e universal: a razão. Kierkegaard 1813 - 1855 Enquanto que para Kierkegaard, ao contrário, o que vale é o homem concreto, o indivíduo como tal, isto é, a sua subjetividade. O racionalismo absoluto pretende explicar tudo, mas não é possível uma explicação racional, objetiva, da existência individual porque essa só pode ser vivida. Ao lançar mão de seu irracionalismo absoluto e do seu individualismo radical, cria um subjetivismo total, porque o indivíduo só é e existe unicamente na sua conduta plenamente subjetiva: ou seja, autenticidade. Para refletir e responder! O ponto crucial da filosofia moral de kierkergaard (o subjetivismo total) nega a razão como fundamento do homem em que sentido? Nietzsche, herdeiro dessa posição existencialista, escreveu livros como Para Além do Bem e do Mal (1886); A Genealogia da Moral (1886). Criticou o racionalismo ético porque possuía um elemento repressor na moral, oriunda daí, que impede o pleno desenvolvimento da liberdade. A civilização moderna desenvolveu uma moral de escravos (disciplina e moderação) apontados pela razão (natureza humana) para conter as paixões e as emoções. Essa moral da modernidade, ainda, teria criado as noções de pecado, de culpa, de castigo como um meio de impedir o desenvolvimento da força vital do homem. Nesse sentido, Nietzsche criticou o sentido do conceito de Bom ensinado pela sociedade, então impregnada de cristianismo, que acomodava os indivíduos, principalmente os fracos num moralismo doentio que desqualifica o que há de mais humano no homem: sentimentos, instintos. E somente o indivíduo que conseguir livrar-se das regras morais impostas pelos costumes é independente e possui a si mesmo: o indivíduo soberano que se orienta por sua consciência e responde por si mesmo. A ética de Nietzsche é uma ética aristocrática fundadas nos desejos e na vontade de poder (por isso tinha restrições à democracia, esta que produzia valores e regras que garantia direitos iguais). Antes, sua ética queria se fundar no modelo das virtudes guerreiras dos gregos antigos. Nietzsche 1844-1900 Para refletir e responder! O fato de a democracia produzir valores e regras que garantia direitos iguais levou Nietzsche a lhe ter restrições. Nietzsche tinha razão? Por quê? Dimensões da Ética na Docência 17 O existencialismo de Jean-Paul Sartre renova em nossos dias a orientação individualista e irracionalista de Kierkegaard embora se distancie dele por seu ateísmo: para Sartre, Deus não existe, e é preciso deduzir desta verdade todas as conseqüências tanto para o homem quanto para o mundo. Sartre 1905-1980 Revogado Deus, o fundamento metafísico último dos valores, já não se pode falar em valores, princípios ou normas que possuam objetividade ou universalidade. Resta somente o homem como fundamento dos valores. Sartre reconhece a necessidade de levar em consideração os outros, onde dois componentes fundamentais se articulam na sua filosofia: o seu individualismo radical e o seu libertarismo. O homem é liberdade e o mundo não tem sentido: cada um de nós é absolutamente livre e mostra a sua liberdade sendo o que escolheu ser. A liberdade, além disto, é a única fonte de valor. O indivíduo escolhe livremente e, ao escolher, cria o seu valor dando sentido ao mundo. Assim, na medida em que não existem valores objetivamente fundados e universalmente válidos, cada um deve criar ou inventar os valores ou as normas que guiem o seu comportamento. O indivíduo e seu comportamento vale moralmente não por sua submissão a uma norma ou a um valor estabelecido – posto que abdicaria à sua própria liberdade -, mas pelo uso que faz da própria liberdade. Se a liberdade é o valor supremo e absoluto, o valioso é escolher e agir livremente. Mas existem os outros, e eu só posso tomar minha liberdade como fim se tomo também como fim a liberdade dos outros. Ao escolher, não só me comprometo pessoalmente, mas comprometo toda a humanidade. O ser humano tem o direito de escolher o seu destino e a sua vida e, por essa escolha, é totalmente responsável. Logo, não existindo Deus e não existindo valores transcendentes e universais absolutos, e admitindo-se somente a liberdade como valor supremo, a vida consiste em um compromisso constante, um ininterrupto escolher p por parte do indivíduo. Contudo uma escolha livre e responsável onde caberia toda a humanidade. Para refletir e responder! Os outros têm um papel fundamental na filosofia moral de Sartre: discuta. Ch. S. Peirce e o Pragmatismo. O progresso científico e técnico nos Estados Unidos, bem como mercantilização das várias atividades humanas, oportunizaram o surgimento e difusão de uma filosofia anti-especulativa, isto é, não reflexiva e acrítica, como o pragmatismo. C. S. Peirce 1839-1914 A filosofia do pragmatismo, que vem do grego pragma e significa ação e, depois, prática, situa-se afastada dos problemas filosóficos abstratos propostos pela tradição metafísica e vinculada às questões práticas e utlitaristas. O que equivale dizer que o pragmatismo caracteriza-se pela sua identificação da verdade com o útil, no sentido daquilo que melhor ajuda a viver e a conviver. Por isso é entendido mais como método e não como uma teoria. No terreno da ética, dizer que algo é bom equivale a dizer que conduz eficazmente à obtenção de um fim, que leva ao êxito. Dessa forma, os valores, princípios e normas são esvaziados de um conteúdo objetivo, e o valor do bom - considerado como aquilo que ajuda o indivíduo na sua atividade prática - varia de acordo com cada situação a partir da conveniência de cada indivíduo. 18 FTC EAD | HISTÓRIA FT O ato moral limita-se às atitudes que levem ao êxito pessoal, nesse sentido, o pragmatismo se transforma numa linha de pensamento e atitude marcada pelo egoísmo e pelo individualismo; ao mesmo tempo p em que refuta a existência de valores ou normas objetivas e universais. Para refletir e responder! Confronte com o mundo contemporâneo a seguinte afirmativa: o ato moral limita-se às atitudes que levem ao êxito pessoal. K. Marx A teoria marxista da moral ocupa-se da recuperação do homem concreto, uma vez que ele, o homem, tinha-se transformado numa série de abstrações a partir da condição que a tradição nos legou: a que o homem é um ser racional e a razão seria a ferramenta transcendental que apontaria a ação moral correta. Vejamos, então, como Marx estabelece sua teoria moral: o homem é práxis, isto é, um ser que produz e transforma ao mesmo tempo em que cria e, com o trabalho, transforma a natureza externa, nela se modela e, ao mesmo tempo, cria um mundo à medida de sua natureza humana para atender suas necessidades. Por outro lado, segundo Marx, o homem é um ser social e histórico. Uma vez que produz, produzindo ao mesmo tempo determinadas relações sociais sobre as quais se elevam as demais relações humanas, sem recusar as que constituem a superestrutura ideológica da qual faz parte a moral. A moral, como toda forma de superestrutura ideológica, cumpre a função social de regular as relações e condições de existência de acordo com os interesses da classe dominante. Por isso não pode existir um sistema moral válido para todos os tempos e para todas as sociedades. A moral na sociedade serve, então, de justificação às relações materiais e sociais que os homens estabelecem entre si. No entanto, o homem como ser histórico e as várias relações que assume numa determinada época constituem uma unidade econômico-social que muda historicamente sob o impulso de suas contradições. Mudando a base econômica, muda também a superestrutura ideológica e, consequentemente, a moral. Os homens necessitam da moral como necessitam da produção; a necessidade da moral se explica pela função social que ela cumpre, de acordo com a estrutura social existente. Entretanto, segundo Marx, a moral é relativa porque está condicionada às condições históricas e de classe que sempre querem atender e fazer valer seus interesses em detrimento de outras classes. Isso ocorre porque o sistema de produção, geralmente, está em poder da classe dominante que impõe e estende seus interesses pessoais a todo o grupo social, fazendo-o acreditar serem os seus interesses. Contudo, são os homens que fazem a sua própria história, seja qual for o grau de consciência com o qual a realizam e de sua participação consciente nela. Nesse sentido e com esse grau de participação consciencial, uma nova moral impõe-se necessária para regular as relações dos indivíduos. A necessidade da moral na transformação radical da sociedade não significa cair num moralismo que deseja esta transformação mediante uma via moral, apelando para princípios de justiça ou para sentimentos morais. Karl Marx 1818-1883 Isso porque, uma vez que se toma consciência de que o homem é o ser vital para o homem, e de que este está humilhado e abandonado, a transformação das relações sociais, que o retém neste estado, converte-se, como quer Marx em seus pensamentos ético-morais, num imperativo categórico. O homem deve intervir na transformação da sociedade de forma dialética, porque, sem a sua intervenção prática e consciente (práxis), a possibilidade de um retorno à barbárie, ou de que o homem não possa subsistir como homem torna-se uma possibilidade assustadora. Dimensões da Ética na Docência 19 Saiba Mais! Pesquise sobre o existencialismo e o pragmatismo, e amplie sua compreensão. TEXTO COMPLEMENTAR O individual e o coletivo na moral VÁZQUEZ, A. S. Ética. 8ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985, p. 56-60. O caráter social da moral implica numa particular relação entre o indivíduo e a comunidade ou entre o individual e o coletivo. Já assinalamos que os dois termos, longe de se excluirem, pressupõem-se necessariamente; por isso, o indivíduo pode agir moralmente somente em sociedade. De fato, desde a sua infância, encontra-se sujeito a uma influência social que lhe chega através de vários caminhos e à qual não pode subtrair-se: através dos pais, do meio escolar, dos amigos, dos costumes e tradições, do ambiente profissional, dos meios de comunicação de massa (cinema, imprensa, rádio, etc.), etc. Sob esta variada influência, formam-se aos poucos as suas idéias morais e os seus modelos de comportamento moral. Os indivíduos vivem numa atmosfera moral, na qual se delineia um sistema de normas ou de regras de ação. Em todas as partes aspira os miasmas da moral estabelecida e a sua influência é tão forte que, em muitos casos, o indivíduo age de forma espontânea, habitual, quase instintiva. Uma parte do comportamento moral — precisamente a mais estável — manifesta- se na forma de hábitos e costumes. Esta forma de regulação do comportameito predomina, particularmente, nas fases mais antigas do desenvolvimento histórico-social da humanidade, isto é, nas sociedades primitivas. Nelas, o costume representa o que deve ser. Quer dizer, verifica-se aqui uma fusão do normativo com o fatual; o que foi ao longo de gerações e o que é — pela exigência de seguir o caminho traçado pelos antepassados — é, ao mesmo tempo, o que deve ser. Mas, também nas sociedades posteriores, já mais desenvolvidas, o costume não desaparece completamente como forma de regulamentação moral. As normas que assim vigoram na sociedade, às vezes, sobrevivem por muito tempo; sobrevivem a mudanças sociais importantes e estão escudadas pelo peso da tradição. As normas morais que já se integraram nos hábitos e costumes chegam a ter força que sobrevivem até mesmo quando, depois de surgir uma nova estrutura social, domina outra moral: a mais adequada às novas condições e necessidades. Assim acontece, por exemplo, com aspectos da moral feudal — a atitude 20 FTC EAD | HISTÓRIA FT com respeito ao trabalho físico — que sobrevivem na sociedade burguesa, ou elementos da moral dominante no passado que subsistem às vezes em sociedades socialistas (individualismo egoísta, influência dos estímulos materiais na atitude para trabalho, etc.). Toda nova moral deve romper com a velha moral que tenta sobreviver como costume; mas, por outro lado, o novo do ponto de vista moral tende a consolidar-se como costume. No nível da regulamentação moral consuetudinária — e tanto mais quanto maior é a sua autoridade na vida humana — o indivíduo sente sobre si a pressão do coletivo. O costume opera como um meio eficaz de integrar o indivíduo na comunidade, de fortalecer a sua socialidade e de fazer com que seus atos contribuam para manter — e não para desagregar — a ordem estabelecida. O indivíduo age então de acordo com as normas aceitas por um grupo social ou por toda a comunidade, sancionadas pela opinião e sustentadas pela fiscalização atenta dos demais. Quando isso acontece nas sociedades primitivas, nas quais o costume se transforma em instância reguladora suprema, o indivíduo encontra-se de tal maneira ligado a esta instância que lhe sobra bem pouca margem para dissentir dela. Apesar disto, ainda que esta forma de regulamentação da conduta não seja senão expressão daquilo que sempre foi — e daí a sua autoridade para o indivíduo — o costume possui um caráter moral — inclusive nas sociedades primitivas — desde o momento em que se apresenta com uma intenção normativa. Esta convicção íntima — por indefinida e obscura que seja — de que o que foi ontem, deve ser também hoje, dá à regulamentação consuetudinária ou habitual do comportamento seu significado moral. Mas este tipo de regulamentação moral, dominante nas sociedades primitivas, está muito longe de abranger todo o domínio da moral. Já dissemos antes que o progresso moral se caracteriza, entre outras coisas, por um aumento do grau de consciência e de liberdade e, por conseguinte, de responsabilidade pessoal no comportamento moral. Isso implica, portanto, numa participação mais livre e consciente do indivíduo na regulamentação moral do seu comportamento e numa diminuição do papel do costume como sua instância reguladora. Mas sempre, em toda moral histórica, concreta, muitas das normas que prevalecem constituem parte dos hábitos e costumes. E nesta sujeição do indivíduo a norrnas morais impostas peIo costume, que não pode deixar de tomar em consideração — cumprindo-as ou violando-as —, evidencia-se mais uma vez o caráter social da relação entre indivíduo e comunidade e do comportamento moral individual. Pois bem; o sujeito do comportamento propriamente moral — tanto mais quanto mais aumenta o seu grau de consciência e de liberdade, bem como sua responsabilidade — é uma pessoa singular. Por mais fortes que sejam os elementos objetivos coletivos, a decisão e o ato respectivo emanam de um indivíduo que age livre e conscientemente e, portanto, assumindo urna responsabilidade pessoal. O peso dos fatores objetivos — costumes, tradição, sistema de normas estabeIecidas, função social deste sistema, etc. — não nos podem fazer esquecer o papel dos fatores subjetivos, dos elementos individuais (decisão e responsabilidade pessoal), ainda que a importância deste papel varie historicamente de acordo com a estrutura social existente. Mas, inclusive quando o indivíduo pensa que age em obediência exclusiva à sua consciência, a uma suposta “voz interior”, que em cada caso lhe indica o que deve fazer, isto é, inclusive quando pensa que decide sozinho no santo recesso da sua consciência, o indivíduo não deixa de acusar a influência do mundo social de que é parte e, a partir de sua interioridade, tampouco deixa de falar a comunidade social à qual pertence. A consciência individual é a esfera em que se operam as decisões de caráter moral, mas, por estar condicionada socialmente, não pode deixar de refletir uma situação social concreta e, por conseguinte, diferentes indivíduos que, numa mesma época, pertencem ao mesmo grupo social, reagem de maneira análoga. Desta maneira, mais uma vez se evidencia como também a individualidade é um produto social e que são as relações sociais dominantes numa época determinada que determinam a forma como a individualidade expressa a sua própria natureza social. Assim, nas sociedades primitivas, a coesão da comunidade se conserva absorvendo quase totalmente o individuo no todo social. Na sociedade capitalista tende-se a fazer do indivíduo o suporte ou a personificação de determinadas relações sociais, ainda que o seu comportamento individual não se possa esgotar na forma social (como operário ou capitalista) que o sistema lhe impõe. Numa sociedade superior a esta, o indivíduo — como sujeito dotado de consciência e vontade — deve ser superar essa condição de suporte ou efeito passivo de uma estrutura social para integrar-se livre e conscientemente na comunidade e desenvolver, mais do que nunca, sua responsabilidade pessoal e, com isso, a sua própria natureza moral. Mas, em todos estes casos, é exatamente um determinado tipo de relações sociais que determina o gênero de relações entre o indivíduo e a comunidade e, com isso, o grau de consciência moral individual. Desta maneira, portanto, quando se sublinha o caráter social da moral, e a decorrente relaço entre o individual e o coletivo, está-se muito longe de negar o papel do indivíduo no comportamento moral, embora este varie histórica e socialmente de acordo com a forma que assume, em cada sodedade, sua qualidade social ou socialidade. No plano moral, esta qualidade social pode fazer-se sentir limitando, até quase afogála, sua “voz interior”, como sucede nas sociedades primitivas nas quais a moral se reduz às normas ou prescrições estabelecidas pelo costume; pode também revelar-se, como na sociedade moderna, na divisão do indivíduo entre o que há nele de mero elemento do sistema (na medida em que o comportamento do indivíduo é perfeitamente substituível pelo de outro), e o que nele há de verdadeiramente individual; o que produz, por sua vez, a cisão entre a sua vida pública e a sua vida privada, e a afirmação desta última como a verdadeira esfera da moral, mas de uma moral particular e necessariamente egoísta e individualista. No quadro de novas relações sociais, a socialidade pode tomar as. feições, de uma coordenação dos aspectos da vida humana que antes vimos dissociados: o privado e o público, o individual e o coletivo; a moral aparecerá enraizada nós dois planos, isto é, com os seus dois lados inseparáveis: o pessoal e o coletivo. Em conclusão: o moral implica sempre — inclusive nas suas formas mais primitivas — numa consciência individual que faz suas ou interioriza as regras de ação que se lhe apresentam com um caráter normativo, ainda que se trate de regras estabelecidas pelo costume. Mas, tanto na maneira como a consciência individual reage diante delas e se afirma, quanto no modo como o pessoal e o coletivo relacionam-se no comportamento moral, evidencia-se a influência das relações e das condições sociais dominantes. Em rigor, como o indivíduo não existe isolado, mas enquanto ser social, também não existe uma moral estritamente pessoal. Os agentes dos atos morais são somente os indivíduos concretos, quer atuem separadamente, quer em grupos sociais, e os seus atos morais - em virtude da natureza social dos indivíduos- sempre têm um caráter social. Dimensões da Ética na Docência 21 ÉTICA, CONSCIÊNCIA MORAL, DETERMINISMO E LIBERDADE. Os sistemas morais da diversidade de grupos humanos são construídos ao longo do tempo e de acordo com os valores eleitos por um determinado grupo como importantes e significativos para as relações de convivência social que terminará por consolidar a cultura do grupo. As regras morais que sustentam um grupo humano não são decididos voluntariamente por sujeitos individuais; eles emergem da própria experiência do grupo humano e vão se consolidando. Ao serem socializados, vão se tornando consenso entre os membros da sociedade. E é através da cultura que o grupo transmitirá seus valores e regras morais de conduta (do certo e do errado; do que é bom e do que não é bom; do justo e do injusto) para as novas gerações que as assimila desde a mais tenra infância, com as quais julgará seus próprios atos e dos outros homens. Os valores que dirigem a sociedade atual limitam-se ao culto pelo prazer (o hedonismo). Isso exarcebou o isolamento do homem e seu individualismo, gerando uma crise de valores existenciais e a falta de perspectiva para o futuro. Um outro ponto acerca dos valores morais de nossa sociedade é a veneração pelo poder, em que o poder econômico ganhou o mais alto alcance, fazendo o ser humano voltar-se totalmente para a procura dos meios que possibilitem o crescimento do seu poder econômico. Essa postura em torno do poder de nossa sociedade capitalista hedonista acentuou a divisão entre classes antagônicas: uma que desfruta dos benefícios do poder, e outra que sofre as consequências do poder. Todas desejam o bem-estar material, mas apenas alguns o conseguem e desfrutam dele. Esse modelo social que os seres humanos de nosso tempo estabeleceu terminou por eleger uma concepção moral também orientada na exploração do ser humano pelo ser humano, onde o egoísmo, a hipocrisia e o individualismo são os valores mais incentivados e até mais venerados. Desta forma, o homem passa a ser entendido como parte do proceso do sistema de produção: uma máquina produtora e ele passa a valer pelo seu potencial produtivo, a sua possibilidade de se tornar útil aos interesses do capital em detrimento de ser entendido como um ser dotado de consciência, de sentimentos, sonhos, de desejos, ou seja, o homem passa a ser entendido não pelo que é e pelo que pode vir a ser, mas pelo que ele pode produzir e consumir. O seu eu interior, vazio diante da crise de valores ético-morais que priorizem o homem e sua individualidade, leva o cidadão a preencher-se e identificar os seus interesses com os interesses do próprio sistema. Isso significa que o sistema moral só é legítimo se a nossa conduta moral estiver em consonância com as regras e valores estabelecidos por ele. Mas essa conduta precisa ser consciente e livre, isto é, é imprescindível que a nossa consciência moral (essa sensibilidade aos valores éticos que todos nós possuímos) e a nossa liberdade determinem a legitimidade do sistema moral. É importante dizer isso em outras palavras: por mais que o indivíduo herde de sua cultura os valores e as normas morais estabelecidas e se alinhe a elas através da educação, formal e informal, o indivíduo deve ter uma postura ativa diante desses valores culturais. Essa postura ativa do indivíduo é necessária, pois, é ela quem reciclará os valores do grupo, estabelecidos como verdades, modificado-os a partir das novas condições histórico-sociais que se apresentam na conformação do grupo humano. Como critério dessa postura ativa, que é sinônimo de postura ética, o indivíduo precisa ter claro para si se os valores eleitos pelo seu grupo são valores que favoreçam à vida e à dignidade humana: valores esses que devem ser prioridades em toda sociedade que se diz democrática. 22 FTC EAD | HISTÓRIA FT No entanto, essa postura ética só é possível à medida que se teoriza sobre essa moral, tomando-se consciência da mesma. Acionar a consciência moral significa dispormos de nossa capacidade de avaliar as próprias ações e condutas e nessa análise e avaliação formular juízos sobre as ações e as intenções futuras. Dessa forma, a nossa consciência de sujeitos e agentes morais, deve se debruça sobre os valores morais estabelecidos por nossa sociedade para saber-lhes as conseqüências tanto para o próprio indivíduo, como para a sociedade constatando como afetam a condição de vida e da dignidade humana. Essa atitude ativa de sujeitos conscientes e morais diante dos valores que orientam o grupo se dá para porque é necessário refletir eticamente sobre eles para lhes saber a necessidade de transformação através de nossas escolhas visando qualidade de vida humana. No entanto, para que essa condição de sujeito com consciência moral que avalia e escolhe caminhos e constrói história se estabeleça é imprescindível que se entenda que só com a liberdade. A liberdade e a consciência moral estão intimamente relacionadas, uma vez que só somos sujeitos morais quando agimos e essa ação se dá com liberdade. É justamente nessa possibilidade de ação com base na liberdade de escolha que nos tornamos responsáveis pelas nossas atitudes. Uma outra questão que se avizinha dessas nossas reflexões é: existe a liberdade? O ser humano é livre? Em quais condições? Para refletir e responder! A liberdade é atributo do homem ou ela só existe em determinadas condições e circunstâncias? Os debates filosóficos em torno dessa temática da liberdade se processam no âmbito das contribuições dos filósofos e pensadores que trataram do tema com a propriedade que lhes é peculiar. E as proposições filosóficas se planificam no cenário dos que defendem que o que existe é liberdade absoluta cujo maior defensor é Sartre; dos que sustentam que o que há é o determinismo absoluto– teoria que permeia o pensamento de Holbach (1723-1789) dentre outros; dos que abrigam a idéia de uma relação dialética entre determinismo e liberdade presente no pensamento de Karl Marx e dos filósofos que trataram da dialética como fundamento da realidade em suas teorias. Vamos refletir juntos aos que defendem a idéia de que o que existe é a liberdade absoluta, pois “o homem está condenado a ser livre”. O ser humano é livre em qualquer tempo e lugar, mesmo diante das determinações da ordem dominante e dos valores eleitos pelo grupo, ele é livre. Mesmo diante de seus valores arraigados que modelam sua personalidade, ele é livre. Os que defendem essa concepção entendem que o ser humano possui uma liberdade moral que está acima dessas determinações externas e internas. E, dessa forma, a possibilidade de escolha emerge de sua autodeterminação. E sua autodeterminação deve revelar o uso da liberdade com responsabilidade. Reflitamos, por hora, sobre a tese da liberdade que defende que o ser humano é um ser escravo em qualquer tempo e lugar, pois ele é sempre determinado. O ser humano é uma síntese resultante e determinada pela herança biológica e pelos valores histórico-sociais e culturais. Dessa forma, o homem não é livre. Toda e qualquer ação do homem seria um resultado das determinações biológicas e sócio-culturais. O homem é o produto da natureza e da cultura. Isto é, as ações do homem são determinadas e causadas por fatores naturais ou compressões sócio-culturais. A liberdade seria apenas uma ilusão. Consideremos agora a posição dos que salvaguardam uma relação dialética entre determinismo e liberdade e as implicações que essa concepção da liberdade traz para o homem e a sociedade. Dimensões da Ética na Docência 23 O primeiro passo é entender o que é dialética para compreender o que propõe essa relação. Dialética é o método de compreensão da realidade, seja ela histórica e social, seja ela natural; que tem em conta o dinamismo dos fenômenos ou da história e que se mostra sensível às contradições que estes apresentam. Então, vamos, agora, entender o que propõe essa relação dialética entre determinismo e liberdade. O homem é um agente moral que produz os valores e a cultura e, também, interfere na natureza modificando-a para atender as suas necessidades ao mesmo tempo em que é um produto da natureza e dos valores sócio-culturais. Logo, segundo essa concepção, o homem é produto e produtor. Ele é um resultado cultural e biológico (produto), mas também é um ser capaz de interferir e humanizar a natureza (produtor, portanto). Somos, enfim, uma síntese biológica e cultural com a capacidade de dominar a natureza mesmo sendo resultado dela; de criar cultura e modificá-la mesmo sendo parte dela; capaz de elaborar saberes que deveriam favorecer à vida humana, mas que podem destruir toda a vida planetária; capaz de acumular saberes sobre si e a vida, mas ser assolado por dúvidas profundas. Desse modo, nessa concepção de liberdade, não faz sentido pensar em liberdade absoluta, pois a liberdade é uma liberdade concreta sempre sujeita a um conjunto de condições objetivas de vida. Por outro lado, embora a nossa liberdade seja restrita às condições externas concretas, temos a capacidade de usar a nossa consciência reflexiva e moralmente a respeito dessas condições determinantes, para ampliar esse horizonte da nossa liberdade. Nesse sentido, essa concepção de liberdade sugere que somos seres moralmente livres para pensar e produzir valores que organizem nossa vida sócio-cultural em todos os âmbitos do nosso viver, mesmo correndo o risco de, mais tarde, sermos determinados e escravizados por esses mesmos valores. O que não podemos perder de vista é a nossa capacidade de repensar esses valores com nossa consciência reflexiva e moral, perceber até que ponto esses valores começam a afetar negativamente a vida humana e sua dignidade e, então, propor novos valores. A dialética é justamente essa relação de interferência do homem no mundo (produtor de valores e possibilidade de intervir na natureza) e do mundo no homem (os valores que nos orientam as ações cotidianas) que não devem ser entendidas absolutamente e, sim, relativamente. Isso é, enquanto os valores favorecem a vida e dignifiquem a vida humana devem ser seguidos, mas a partir do momento que nossa consciência reflexiva e moral constatarem que isso não acontece, devemos exigir mudanças e propor novos valores que voltem a favorecer a vida e a dignificar a vida humana. Entretanto, precisamos estar cientes de que, com o passar do tempo, outras condições históricosociais serão estabelecidas e, certamente, esses novos valores caducarão e a nossa consciência reflexiva e moral deve estar atenta para repensar-lhos e inovar propondo outros novos valores, tendo sempre como critério dignificar a vida humana e favorecer à vida. Essas posições, então, sobre a liberdade nos ferramenta para nos posicionarmos diante do mundo dos valores e tomarmos atitudes, conscientemente, sabendo qual o resultado que nos aguarda na construção de nossa sociedade a partir de nossas ações, pois o mundo é aquilo que pensamos e agimos. É aqui que a consciência moral tem um papel muito importante, pois é ela quem nos indica o caminho da virtude que seria usar a nossa liberdade com responsabilidade, uma vez que virtude procede do latim virtus e quer dizer ação digna do homem como uma disposição para a prática do bem. Nesse sentido, a virtude equivale às ações humanas que busquem o bem em consonância com o uso da liberdade com responsabilidade moral, isto é, a virtude exige que sejamos responsáveis pelos atos praticados. Essa questão sugere que se o homem é um sujeito moral e que ele produz valores e que pode ser subjugado por esses valores é mister que sua liberdade e sua responsabilidade moral sejam a base da sua ação moral, uma vez que essa ação não se dá mecanicamente. 24 FTC EAD | HISTÓRIA FT Portanto, a consciência moral como produto da condição histórico-social está sujeita a um processo de desenvolvimento e mudanças contínuos, sem se esquivar da responsabilidade de que essa faculdade de avaliar e julgar tem conseqüências tanto para si quanto para os outros. Saiba Mais! Pesquise sobre determinismo para compreender melhor essa discussão. Atividade Complementar 01. Considerando os textos complementares desse tema, analise reflexivamente a condição do ser humano ser um agente moral cuja ação sobre si e o mundo (o outro, a alteridade) se dá dialeticamente. 02. Ainda acerca dos textos complementares, reflita de que forma a proposição central (mensagem dos autores) de cada texto contribui (ou não) para sua formação docente. Argumente usando raciocínios sustentados e fundamentados. 03. A qualidade de ser um ser moral significa que o homem pensa nos valores de sua sociedade a partir de seus interesses pessoais? 04. O imperativo categórico kantiano: até que ponto é aplicável na vida cotidiana? 05. A consciência filosófica proposta por Marx sugere uma relação dialética homem-mundo: o que significa? Dimensões da Ética na Docência 25 ÉTICA E EDUCAÇÃO EDUCAÇÃO, ÉTICA E SOCIEDADE As relações entre educação e sociedade são muito complexas e envolve uma boa dose de compreensão da ética como pressuposto básico para que ambas, educação e sociedade, estabeleçam um diálogo permanente de reavaliação de uma de outra e de suas condutas em relação aos indivíduos que se quer formar. Para entendermos melhor, partamos do seguinte: o que é educação? Qual o princípio mais amplo que deve direcionar as ações e planejamentos da educação? Como isso afeta a sociedade? Qual o papel da escola e seus atores (educadores e educandos) nesse processo? Veja bem: são questões que a princípio parecem já respondidas. Todavia, a nossa postura de profissionais da educação deve estar sempre a problematizar a questionar e a investigar buscando novas respostas a partir das demandas da própria sociedade e dos membros que a compõem. Para refletir e responder! Você mesmo já se perguntou seriamente sobre essas questões? A que respostas chegou e como essas respostas se confrontaram com a realidade estabelecida? E como foram implementadas essas respostas? Lembre-se: as perguntas são mais importantes que as respostas, uma vez que as indagações permanentes são desencadeadoras do processo crítico-reflexivo que nos faz reciclar as nossas próprias posturas pedagógicas, bem como colocar em xeque a própria educação que estamos a fazer em nosso cotidiano escolar. É nesse sentido que essas categorias (educação, ética e sociedade) se imbricam, isto é, no sentido de se questionar as regras e valores estabelecidos na educação e de como essas regras e valores afetam o indivíduo e a própria sociedade. Para tanto, cabe relembrar aqui o que é educação e qual o seu papel diante dos membros de uma dada sociedade, para que possamos desvendar quais as relações entre educação e sociedade. Educação é modo pelo qual o homem aperfeiçoa, através da tradição e da herança cultural, sua capacidade laboral para transformar a natureza e a si mesmo, como forma de humanização e de socialização. Como você viu no módulo “Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação” o homem é um ser histórico-social que efetiva suas relações mediante práticas culturais complexas ocorridas em determinado contexto sócio-cultural. É nesse sentido que a educação se estabelece como meio de manutenção ou transformação social. E é dessa maneira que ela, a educação, aparece como uma atividade humana que deve ser submetida constantemente ao crivo da tríade ação-reflexão-ação. 26 FTC EAD | HISTÓRIA FT A educação se configura como ferramenta imprescindível às transformações teórico-educativas, bem como às mudanças sócio-culturais. Mas para tal, ela deve se posicionar e se planejar sempre voltada para o indivíduo e sua dignidade e para a sociedade e sua responsabilidade para com os membros que a compõem. Assim, a educação é o processo permanente de desenvolvimento do homem, da cultura e da sociedade. Quanto ao homem quer-se dizer aquele aperfeiçoamento de suas capacidades física e mental, intelectual e moral; quanto à cultura é a educação que se encarrega de transmitir e repensar-lha; quanto à sociedade é a educação junto às políticas públicas quem deve legitimar tais políticas em sua atuação pedagógica. Então, pergunta-se: o que é sociedade? Como se constitui e qual sua função perante os membros que a compõem? Ora, é preciso que se tenha claro que o homem só homem porque é um ser que vive em sociedade, uma vez que ela é, e nela estão, os resultados da ação humana sobre a natureza, humanizando-a: os modos de produção econômica, a tecnologia, a política (a arte de viver em sociedade), as normas jurídicas, os sistemas morais e de conhecimento, as crenças religiosas, as criações artísticas, etc. É com esse amplo leque de categorias dispostos na formação da sociedade que a educação e seus atores têm que lidar sempre colocando em questão o que ela mesma, a educação e seu planejar-se, e a sociedade têm feito dos homens sob suas responsabilidades. É aqui que se discute a dimensão ética na educação: quando ela começa a entender que o modo como ela se planeja desde seu projeto político-pedagógico, passando pelas orientações pedagógicas para a atuação do professor/educador até a formação e devolução do educando para a sociedade, exige dela a compreensão de seu papel na manutenção das verdades e regras estabelecidas, legitimando a estagnação social; ou na transformação desses valores tendo como critério a dignidade da vida e do homem, dinamizando ao homem e, por sua vez, o social. Uma outra questão que perpassa essa discussão é o conceito de homem com o qual a educação se defronta cotidianamente a partir dos valores sociais dominantes e em torno dos quais a educação propõe se planejar e se organizar ou a discutir e transformar. Os conceitos de homem com os quais a educação se defronta a partir dos valores sócio-culturais são na atualidade são: a concepção metafísica de homem; a concepção naturalista de homem. Na concepção metafísica, o conceito de homem é compreendido a partir de uma natureza imutável, mesmo que sejam constatadas diferenças entre os homens. Essa natureza imutável (capacidade de inteligir e raciocinar) é o que deve ser atingido à proporção que o homem vai amadurecendo. Aqui, a educação se limita a transmitir a cultura geral mensurando o nível de inteligência de cada indivíduo, levando-os a ocupar a posição social à qual está destinado. Bem se vê que essa concepção é a trabalhada pela escola com perfil tradicional que vê homogeneamente os educandos, não em suas realidades individuais. Na concepção naturalista, o conceito de homem é firmado a partir da influência científica que estabelece uma relação causal entre os fenômenos e a regularidade deles. Logo, esse modelo científico é estendido ao homem procurando saber-lhe sobre seu comportamento, uma vez que o corpo é um fenômeno submetido às leis da natureza tal como os outros fenômenos naturais. Aqui, a educação se limita a transmitir os conhecimentos técnicos científicos por serem os conhecimentos tecnológicos pertinentes para o bem viver humano, uma vez que eles possibilitam uma formação profissional. Bem se vê que essa concepção é a trabalhada pela escola com perfil tecnicista que vê o educando como produto do meio e submisso a ele, e não como indivíduo histórico-social ativo e participativo. É fato que ao organizarem-se socialmente os homens tendem a uma hierarquização das funções sociais que cada indivíduo deve exercer na sociedade. Isto porque a organização da vida em sociedade termina por ser marcada pelo poder e pelas relações políticas. Dimensões da Ética na Docência 27 E por mais que as relações de poder sejam predominantes na vida social, o indivíduo não pode deixar de viver a vida em sociedade. E é na prática da educação informal que os valores dessa sociedade são transmitidos acriticamente e é na prática da educação formal que esses valores devem ser submetidos à critica e à reflexão. Se não for assim, a educação passa a ser mais um instrumento do poder que aliena e impõe a sua ideologia seus valores e seus interesses – como você viu no módulo “Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação”. Contudo, a educação deve se conceber a si mesma como uma instituição que deve levar aos indivíduos a refletirem criticamente sobre as normas vigentes que organizam a sociedade, nesse sentido a educação se estabelece como fator de mudança social. É preciso que o profissional de educação se conscientize do papel social que a educação exerce, pois, aliar-se às forças dominantes (poder político) e ao sistema de produção (poder econômico), equivale a se limitar a reproduzir o já instituído por tratá-lo como verdade absoluta a ser transmitida aos indivíduos. Por outro lado, entender-se como uma construção histórico-social, a educação tende a se comportar (organizando-se e planejando-se) como uma instituição comprometida com valores que dignifiquem a vida e ao homem, sempre colocando sob suspeição as regras sociais estabelecidas. Essa postura equivale a procurar articular conteúdos (conhecimentos) com o mundo circundante, confrontando-os. O que significa que a educação se empenhará em estar não simplesmente adequando os indivíduos ao mundo e seus valores, mas a levá-los a pensar com liberdade sobre os valore sociais, legitimando-os. O que nos leva a resgatar um outro conceito de homem: a concepção histórico-social. Nessa concepção o ser do homem vai se formando pelas relações sociais e sociais que estabelece cotidianamente. Sua maturidade intelectual, sua formação vai se dando nos embates humano-sociais com os quais se defronta ao longo da vida. Destarte, a educação é, ao mesmo tempo, uma produção e um fenômeno histórico-social, bem como uma mediadora da sociabilidade do homem, isto é, através dela, a educação, o homem situa-se no mundo conformando-se ou transformando-o e a si mesmo. EDUCAÇÃO E OS PILARES PROPOSTOS PELA UNESCO Na atulidade, diz-se da crise de valores éticos-morais que vivemos em todos os setores e a educação não foge a ela. O descomprometimeto com valores que coloquem o homem em primeiro plano e, assim, tornem-no fim de toda ação humana (seja ela econômica, política,educativa), tem causado danos quase irreversíveis para o próprio homem e o planeta. É por isso que a educação deve se preocupar e se ocupar em transmitir saberes e saber-fazer evolutivos que correspondam à sociedade do conhecimento em que vivemos, isto é, à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro. Ao mesmo tempo a educação deve capacitar os indivíduos a usarem e posicionarem-se diante desses sabres para não serem tragados pelo volume de informações e pela complexidade do mundo e suas demandas e saibam converter essas informações em resultados para melhoria da vida e da dignidade humana. Educar limitando-se ao quantitativo já não satisfaz em nossa sociedade contemporânea. É necessário primar pela qualidade. Qualidade em educação significa transmitir saberes e saber-fazer que possibilitem ao homem a condição de sujeito agente de sua formação histórico-social. Essa condição equivale a entender e educar o homem de forma a que seja capaz de usar e posicionar-se diante do conhecimento constatando a possibilidade de ser um ser aprendente (aprender a apren28 FTC EAD | HISTÓRIA FT der e a apreender), permanentemente, saber atualizar, aprofundar e enriquecer estes conhecimentos, e de se adaptar a um mundo em mudança. A Comissão Internacional Sobre Educação em seu relatório para Unesco sugere como a educação do século XXI deve se planejar e se organizar. Segundo essa comissão as quatro aprendizagens fundamentais sobre as quais a educação deve se assentar são: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser. A seguir, propomo-nos a fazer uma breve reflexão acerca desses pilares. Quanto ao aprender a conhecer, segundo Delors e outros autores (2003) essa forma de aprendizagem não se limita a simples aquisição de conhecimentos, antes ela propõe que a educação crie condições para que o indivíduo domine os instrumentos do conhecimento. Logo essa aprendizagem indica aumento de saberes, que permite compreender a complexidade do mundo, e fomenta a capacidade para o desenvolvimento intelectual, motiva o sentido crítico e permite compreender o real, mediante a aquisição de autonomia e do discernirmento. Quanto ao aprender a fazer, ainda segundo Delors e outros autores (2003), essa aprendizagem rerfere-se à questão da formação profissional: isto é, a eduação deve se preocupar em como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos. O primeiro passo para entender essa aprendizagem é entender que aprender a fazer não é sinônimo de preparar alguém para execuar tarefas técnicas simplesmente: transcende, dessa forma, a noção de qualificação profissional, chegando à noção de competência. O progresso técnico começa a demandar mudanças das tarefas puramente físicas, substituindo-as por tarefas de produção mais intelectuais. A automação no sistema de produção exige do inivíduo a capacidade do comando de máquinas, bem como a sua manutenção e vigilância. A partir dessa automação, e considerando a noção de competência, exige do homem a execução de tarefas de concepção e de estudo, que aumentam a capacidade intelectual do indivíduo à medida que as máquinas se tornam, também, mais “inteligentes” e que o trabalho se “desmaterializa” no mundo informatizado e automatizado. O que significa que os empregadores e o mercado na contemporaneidade vêm procurando substituir a exigência de uma qualificação de competência exclusivamente material, pela exigência de uma competência que alie, dentre outras, a formação técnica e profissional, a competência social, a habilidade para o trabalho em grupo, iniciativa, etc. E é aqui que se exige o ajuntamento do comprometimento pessoal do indivíuo trabalhador que deve se entender como sujeito agente de mudanças tanto em si quanto no mundo, um sujeito agente de sua formação histórico-social e profissional. Ou seja, esse compromentimento demonstra que as qualidades subjetivas do homem se juntam ao saber e ao saber-fazer para compor a competência exigida. Ora, isso evidencia que a educação deve manter uma relação de interdependência entre os ditos pilares da aprendizagem. Dessa forma, qualidades como a capacidade de comunicar (saber propor, formular ter iniciativa), capacidade de trabalhar e grupo, capacidade de administrar e de solucionar conflitos (comptência social), tornam-se cada vez mais importantes. Essa aprendizagem aliada às outras exigem, também, que a educação se ocupe em ensinar e a despertar no indivíduo a aptidão para as relações interpessoais. O mundo econômico demanda, nesse senido, o desenvolvimento de qualidades humanas que a educação tradicional e tecnicista não transmitem, e que correspondem à competência humano-social, isto é, a capacidade de estabelecer relações estáveis e eficazes entre as pessoas. Delors e outros autores (2003) alertam que a aprendizagem do aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros constitui-se num dos maiores desafios da educação na atualidade. Isto porque, o mundo atual, embriagado de violência, se opõe a um mundo de esperança para a evolação da humanidade. Dimensões da Ética na Docência 29 Esse mundo de violência, embora sempre tenha existido na história da humanidade, hoje se evidencia um novo elemento que assusta: o da autodestruição. A opressão das culturas industrializadas sobre o resto do mundo e a consequente degradação ambiental em torno dessa racionalização que promove um suposto “progresso” da humanidade, refletem esse mundo de violência e de autodestruição. A concorrência que vigora na atividade econômica mundial e dentro de cada país ao redor do mundo tem tendência de dar prioridade ao espírito de competição e ao sucesso individual que resulta tensão entre os privilegiados e os pobres, que divide as nações do mundo e exacerba as rivalidades históricas. No nível micro das relações humanas, passamos a despezá-las em louvor ao êxito pessoal a qualquer custo em detrimento dessas relações que deveriam ser entendidas como meios de crescimento humano (pessoal, profissional e espiritual) a partir do contato com o diferente que sempre traz algo novo. No entanto, o preconceito que sempre gera conflitos imiscui-se como anteparo para julgar o diferente e desprezá-lo como parte das relações interpessoais para o crescimento humano e vivemos o lema de que os fins justificam os meios. Então, para a educação se planejar e se organizar para desenvolver essa aprendizagem se constitui uma missão árdua porque os seres humanos têm tendência a supervalorizar as suas qualidades e as do grupo a que pertencem, e a sustentar preconceitos em relação aos outros. Dessa forma, à educação cabe, ao menos, começar a criar espaço e tempo para que o indivíduo descubra progressivamente a alteridade (o outro) e a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres, ecossistemas e seres humanos do planeta, a partir da descoberta de si mesmo. Aulixiar ao homem a descobrir e se relacionar com o semelhante diferente e a entendê-lo como o portador do novo e do desconhecido que sempre se avizinha em todas as nossas relações para a descoberta de si mesmo e o crescimento pessoal, social e profissional. Por fim, os métodos de ensino não devem ir contra este reconhecimento do outro. Desse modo, o espírito crítico e reflexivo dos alunos deve ser estimulado para que a capacidade de abertura à alteridade e de enfrentar as inevitáveis tensões entre pessoas, grupos e nações através do diálogo e da troca de argumentos seja o ponto cucial dessa educação. Essa postura critico-rflexiva que dará ao estudante a capacidade de perceber a importância de se viver em sociedade e de buscar conhecimentos e atitudes que melhorem a vida do grupo e, ainda, de participar em projetos comuns para o bem da comunidade a que pertence. O pilar do aprender a ser, sustenta que a educação deve se planejar e se organizar para contribuir com o desenvolvimento integral do indivíduo (espírito e corpo, cognição e intelecto, sensibilidade, senso ético e estético, competência humano pessoal e social, espiritualidade, formação técnico-profissional). O que significa que a educação deve preparar o indivíduo para a autonomia intelecutal e crítica e para o enfrentamento dos diferentes desafios da vida, segundo Delors e outros autores (2003). A educação, então, deve se programar de forma a possibilitar referências intelectuais que proporcionem ao estudante a compreensão do mundo e de si mesmo, para que se tornem sujeitos agentes de seu tempo e de sua história e sociedade com responsabilidade e justiça. É mister, desse modo, que a educação equalize cognição e postura científica com experienciações no campo da ética, estética, desportiva, cultural e social.Todos esses âmbitos do viver humano deveriam ocupar espaço e tempo no planejamento escolar e na atitude do profissional de educação para fomentar essa aprendizagem. O aprender a ser exige que a educação compreenda que o desenvolvimento do ser humano é um processo dialético que começa pelo conhecimento de si mesmo para se abrir, em seguida, à relação com o outro. 30 FTC EAD | HISTÓRIA FT O PARADIGMA EDUCACIONAL EMERGENTE As tendências pedagógicas na prática escolar na nossa sociedade têm se fundado nos modelos tradicional e tecnicista de educação que estabelece uma ação educativa oposta aquela proposta pelo Relatório da Comissão Internacional sobre Educação para Unesco. Ora, se você recordar bem, caro (a) estudante, as relações que mantínhamos com o conhecimento limitava-se ao papel de o absorvermos e aplicá-lo sem maiores preocupações com a confrontação entre conteúdo e realidade. Isso porque essas tendências pedagógicas, bases das teorias educacionais e práticas do profissional de educação de nosso tempo, respaldam-se no ideário do Liberalismo (doutrina para justificação do sistema capitalista que garante os interesses individuais da sociedade a partir do senso de propriedade privada do sistema de produção). Bem se vê que as práticas pedagógicas assentadas nesse princípio Liberal ignoram o homem como indivíduo histórico-social, antes o vê como parte de uma engrenagem à qual deve ser adequado e a educação tem um papel preponderante nesse processo. A pedagogia tradicional e a pedagogia tecnicista que assola o nosso sistema educacional são as marcas das práticas escolares: ou voltadas para legitimar status quo (tradicional) ou para preparar o indivíduo para executar tarefas técnicas (a profissionalização). Em ambas as práticas a uma redução do homem a simples peças de algo maior mais importante que ele e sua dignidade: a economia e o mercado. Estes devem ser engrandecidos sob a justificativa de se manter a ordem e o progresso da nossa sociedade. O foco não é o homem e seu desenvolvimento integral e, sim, a transmissão da cultura e a aquisição de conhecimentos técnico-científicos que apontam a melhor forma de viver. Logo, nesses modelos a educação não parte das necessidades do homem como ser cognitivo e intelectual, afetivo e sensível, ético-moral, mas do que se exige em nossa cultura tecnológica e industrializada. Dessa forma, o centro dessa pedagogia é a cultura geral, preparando os indivíduos para desempenhar papéis sociais de acordo com as aptidões individuais. Vejamos, então, como cada uma dessas tendências ligadas à doutrina Liberal se comportam em relação ao conhecimento, como se dá a relação professor-aluno; qual o papel social da Escola; e o que se espera do processo ensino-aprendizagem. A pedagogia liberal tradicional e os profissionais de educação que a professam, consciente ou inconscientemente, entendem que o conhecimento deve ser transmitido como os valores acumulados pela cultura geral sem levar os estudantes a confrontarem esses conteúdos com a realidade circundante para legitimá-los. Os problemas sociais são ignorados por esse modelo educativo, uma vez que a Escola deve se ocupar em se planejar e se organizar de forma que a cultura seja transmitida e que os estudantes, por seus esforços, vão assimilando-a e ocupando sua posição social. Assim, a divisão social entre sábios e ignorantes, fortes e fracos, ricos e pobres é ratificada por essa prática educacional. Vale ressaltar que essa tendência não discute a relação professor-aluno, uma vez que o aluno é visto homogeneamente pelo professor, logo, acentua-se a verticalização dessa relação, pois o professor é o detentor da cultura geral que deve ser absorvida e assimilada pelo estudante para vir a ocupar sua posição social. Como os alunos são vistos homogeneamente, a aprendizagem acontece sob a forma de transferência da cultura geral a partir do treino e do esforço do aluno que desde criança possui a mesma capacidade de assimilação do adulto apenas menos desenvolvida, mas que a maturação vai desenvolvendo. Dimensões da Ética na Docência 31 Fazendo uma relação desse modelo pedagógico com o outro tema de nossos estudos podemos perceber que o conceito de homem a ser modelado nesta educação tradicionalista é a concepção metafísica. Considerando a pedagogia tecnicista, esta se volta para a preparação do estudante garantindo sua formação técnica-profissional para um mundo industrializado onde a economia e o mercado são mais importantes. Logo, essa tendência pedagógica se compromete em desenvolver habilidades técnicas e conhecimentos específicos (científicos) com os quais os estudantes poderão executar tarefas técnicas e profissionais. A função da Escola se articula com o sistema social vigente sem problematizá-lo, antes, a escola tecnicista legitima o modelo capitalista de sociedade por se planejar e se organizar para preparar mão de obra qualificada para o mercado de trabalho. Isso significa que essa escola valida como mais importante o sistema que o homem e suas necessidades. A relação professor-aluno também é verticalizada. O professor por ser o especialista e o detentor dos conhecimentos científicos específicos para a formação do estudante comporta-se como um elo de ligação entre esses conhecimentos científicos e o aluno. Logo, tanto o professor quanto o aluno aceitam como verdade os conhecimentos científicos e os assume como modo de viver. Já conseguimos perceber que a relação com o conhecimento que essa pedagogia estabelece é uma relação de acolhimento da verdade científica que profissionaliza. Aqui a verdade é o útil e o útil é o que nos ajuda a viver melhor. E viver melhor é ter condição de estar bem colocado na sociedade capitalista competitiva com uma formação científica sólida: a formação técnico-profissional. Fazendo uma relação desse modelo pedagógico com o outro tema de nossos estudos podemos perceber que o conceito de homem a ser modelado nesta educação tecnicista é a concepção naturalista. Como dissemos no início desse tema, ambas as tendências pedagógicas, bem como todas as outras que seguem a doutrina Liberal, ignoram que o homem seja um ser histórico-social, um sujeito agente de sua própria formação e da sua história. Antes, nessas tendências o homem é entendido como produto do meio a ser modelado e adequado à ordem estabelecida. Os teóricos críticos-reprodutivistas, Bourdieu (1930-2002) e Passeron, denunciaram que esse modelo de escola são modos de infligir a violência ao homem por não considerá-lo como ser autônomo e, portanto, planejar-se e organizar-se para desenvolver essa autonomia no homem. Com esses modelos a escola exerce uma violência simbólica quando impõe os interesses dominantes através da prática pedagógica, dentre outros meios. Então, nesses modelos (tradicional e tecnicista) a escola funciona como aparelho ideológico dos interesses dominantes como sugere Althusser (1918-1990). Ainda como denúncia desses teóricos críticos-reprodutivistas, temos Baudelot e Establet que apontam a Escola como uma instituição com postura dualista, isto é, a escola tende a se planejar e se organizar para legitimar a sociedade de classes: ricos e pobres. Portanto, a escola não democratiza, mas reproduz a divisão de classes. Bem, caro (a) estudante é diante desse cenário que planifica a educação de nosso tempo que propomos para sua formação de um outro paradigma para a educação e para sua prática pedagógica. Evidentemente, um paradigma que respeite o ser humano de forma integral, conforme sugere os novos pilares para a educação proposto pela Unesco. Um modelo pedagógico que ensine o estudante a aprender a conhecer, a aprender a fazer, a aprender a viver juntos e com os outros, a aprender a ser. Esse paradigma que sugerimos, e que a própria sociedade demanda, tem suas bases epistemológicas nas teorias interacionistas (como você pôde ver no módulo “Fundamentos Histórico-Filosóficos da Educação”) de pensadores clássicos como: Hegel (1770-1831), Kant (1724-1804), Marx (1818-1883), Piaget (1896-1980). 32 FTC EAD | HISTÓRIA FT São as pedagogias progressistas que se portam considerando finalidades sociopolíticas da educação levando seus atores a refletirem e analisarem criticamente sobre as realidades sociais circundantes e concretas. Dessa forma, essa tendência sugere que a Escola deve difundir conhecimentos não sem antes problematizá-los e confrontá-los com o sistema social vigente, devendo servir aos interesses populares. Isto é, a Escola é parte da sociedade e ela se compromete em conscientizar seus alunos acerca dos condicionantes histórico-sociais que subjugam a própria sociedade e seus membros sob valores e interesses dos segmentos dominantes. Então, a relação professor-aluno nessa pedagogia desarticula a verticalização tão comum nas tendências pedagógicas liberais e propõe a horizontalização dessa relação, isto é, o professor se comporta como orientador da elevação do nível de consciência crítico-reflexiva do estudante. O conhecimento e a aprendizagem se estabelecem na interação Eu-Mundo (estudante - realidade social em que está inserido), dialeticamente. E o professor aparece como mediador dessa interação através da confrontação dos conteúdos com a realidade. Quanto aos conteúdos que essa pedagogia trata refere-se aos conhecimentos universais acumulados pela humanidade, contudo sempre reavaliando-os, ou seja, na confrontação desses conhecimentos com a realidade social vigente perceber os seus limites e superá-los. O aluno aprende reconhecendo-se nos conteúdos e nos modelos sociais estabelecidos, ampliando sua própria percepção do mundo e de si mesmo, numa aprendizagem significativa de superação de uma visão parcial que possuía para uma visão mais clara e sintética do mundo e de si mesmo. Desse modo, esse modelo pedagógico evoca a concepção histórico-social de homem tratado em outro tema dessas nossas discussões e reflexões. E é essa postura da educação e dos profissionais da educação que precisamos resgatar, posto que o comprometimento com valores ético-morais que favoreçam à vida e dignifiquem o homem como ser histórico-social e politizado deve ser o farol de toda a prática educativa nas sociedades democráticas. Pois, uma sociedade democrática exige instituições voltadas para o interesse público, inclusive, e principalmente, o sistema educacional que deve eleger práticas de ensino-aprendizagem que prepare o estudante para uma vivência plena como cidadão. E é sob esse farol da dimensão ética na docência que a educação em si mesma e os profissionais da educação devem nortear suas práticas, valorizando uma aprendizagem crítico-reflexiva e a compreensão do estudante como ser que se constrói nas interações Eu-Mundo que deve fundar o seu ser e ao próprio mundo. A seguir, caro (a) estudante, leia atentamente o texto complementar fragmento do capítulo 7 Pedagogia crítica, política cultural e o discurso da experiência da obra Os professores como intelectuais de H.A. Girouxque trata dessa questão acerca da pedagogia crítica. TEXTO COMPLEMENTAR Educação e os discursos de produção, análise de texto e culturas vividas GIROUX, H.A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. (trad. Daniel Bueno). Porto Alegre: Artmed, 1997, p. 138-142. O discurso da produção na teoria educacional tem se concentrado nas formas pelas quais as forças estruturais fora da vida escolar imediata constroem as condições objetivas dentro das quais as escolas funcionam. Neste discurso encontram-se análises elucidativas do estado, locais de trabalho, fundações, empresas de publicação, e outros interesses políticos que direta ou indiretamente influenciam a política escolar. Além disso, as escolas são compreendidas dentro de uma rede de conexões mais amplas, o que permite sua análise enquanto construções históricas e sociais, incorporações de formas sociais que travam uma relação com a sociedade mais ampla. Em seus melhores casos, o discurso da produção nos alerta para a necessidade de compreender-se a importância das estruturas ideológicas e materiais como conjunDimensões da Ética na Docência 33 tos particulares de práticas e interesses que legitimam representações públicas e estilos de vida específicos. É inconcebível analisar o processo de escolarização sem compreender como estas formas mais amplas de produção são construídas, manifestadas e contestadas dentro e fora da escola. Um exemplo óbvio disso é analisar as formas pelas quais as política governamentais incorporam e promovem práticas particulares que legitimam e privilegiam algumas formas de conhecimento e não outras, ou alguns grupos e não outros. Igualmente significativa seria uma análise de como as formas dominantes de discurso na prática educacional são construídas, sustentadas e postas em circulação fora das escolas. Por exemplo os educadores críticos precisam fazer mais do que identificar a linguagem valores das ideologias corporativas manifestas no currículo escolar; eles precisam também desconstruir os processos através dos quais eles são produzidos e postos em circulação. Um outro aspecto importante do discurso de produção é que ele aponta para a forma na qual o trabalho é objetivamente construído, isto é, ele fornece uma análise das condições sob as quais a pessoas trabalham e da importância política destas condições tanto par limitar quanto para permitir o que os educadores podem fazer. Esta questão é especialmente importante para analisarem-se as possibilidades críticas que existem para que professores e estudantes da escola pública dentro de condições específicas de trabalho atuem e sejam tratados como intelectuais. De maneira simples, caso professores e estudantes estejam sujeitos a condições de saturação, falta de tempo para trabalharem coletivamente de maneira criativa, ou a regras e regulamentações que os desautorizem, as condições técnicas e sociais de trabalho devem ser compreendidas e abordadas como parte do discurso de reforma e luta. Ao mesmo tempo, o discurso da produção tem que ser suplementado com análises de formas textuais. Neste caso, é necessário obter um discurso que possa questionar de maneira crítica as formas culturais como produzidas e usadas em salas de aula específicas. O que é importante a respeito deste tipo de discurso é que ele fornece a professores e estudantes os instrumentos críticos necessários para analisarem-se aquelas representações e interesses socialmente construídos que organizam e enfatizam leituras particulares dos materiais curriculares. Este é um modo de análise particularmente importante porque argumenta contra a idéia de que os meios de representação nos textos são simplesmente transmissores de idéias. 34 FTC EAD | HISTÓRIA FT Este discurso aponta para a necessidade de análises sistemáticas da maneira pela qual o material é usado e ordenado nos currículos escolares e de como seus “significantes” registram pressões e tendências ideológicas particulares. Em seus melhores exemplos, este discurso permite que professores e estudantes desconstruam os significados que estão silenciosamente embutidos nos princípios que estruturam os vários sistemas de significado que organizam a vida cotidiana nas escolas. Com efeito, ele acrescenta uma nova virada teórica para a análise de como o currículo oculto funciona nas escolas. Este tipo de crítica textual pode ser usado, por exemplo, para analisar como as imagens ou convenções técnicas dentro de formas diversas, tais como a narrativa, formas de tratamento, e referência ideológica, tentam construir uma gama limitada de posições a partir das quais elas devem ser lidas. [....] Aliado a formas tradicionais de crítica ideológica do conteúdo dos materiais escolares, o discurso da análise de texto fornece urna compreensão valiosa de como as subjetividades e formas culturais funcionam nas escolas. O valor deste tipo de trabalho foi demonstrado na análise dos princípios estruturados usados na construção de pacotes prontos de materiais curriculares, na qual se argumentou que tais princípios utilizam uma forma de tratamento que coloca os professores em uma posição de meros implementadores de conhecimento. Tal posicionamento está evidentemente em discordância com o tratar professores e estudantes como intelectuais. [....] Eu gostaria de concluir argumentando que, a fim de desenvolver uma pedagogia crítica em torno de uma forma de política cultural, é essencial desenvolver um discurso que não suponha que as experiências vividas possam ser inferidas automaticamente a partir de determinações estruturais. Em outras palavras, a complexidade do comportamento humano não pode ser reduzida à simples identificação de determinantes, quer sejam eles modos econômicos de produção ou sistemas de significação textual, nos quais tal comportamento é moldado e segundo os quais ele constitui a si mesmo. A forma pela qual os indivíduos e grupos tanto medeiam quanto habitam as formas culturais apresentadas por tais forças estruturais é por si mesma uma forma de produção e precisa ser analisada através de um discurso e tipo de análise relacionado, porém diferente. Neste caso, gostaria de apresentar de maneira sucinta a natureza e implicações pedagógicas do que chamo de discurso das culturas vividas. Essencial para o discurso das culturas vividas é a necessidade de desenvolver-se o que pode ser genericamente chamado de teoria da autoprodução. Em seu sentido mais geral, isto exigiria uma compreensão de como os professores e estudantes dão significado a suas vidas através das complexas formas históricas, culturais e políticas que tanto incorporam como produzem. Diversas questões precisam ser desenvolvidas dentro de uma pedagogia crítica em torno desta preocupação. Primeiramente, é preciso reconhecer as formas subjetivas de vontade e luta política. Isto é, o discurso das culturas vividas precisa questionar como as pessoas criam estórias, memórias e narrativas que postulam um senso de determinação e agência. Iste é o conteúdo cultural da mediação, o material consciente e inconsciente através do qual membros de grupos dominantes e subordinados oferecem visões de quem são e apresentam diferentes leituras do mundo. Também é parte daquelas ideologias e práticas que nos permitem compreender as locações sociais, histórias, interesses subjetivos e mundos particulares que entram em jogo em qualquer pedagogia escolar. Se tratarmos as histórias, experiências e linguagens de grupos culturais diferentes como formas particularizadas de produção, torna-se mais fácil compreender as diversas leituras, respostas e comportamentos que, digamos, os estudantes apresentam para a análise de um texto particular. Na verdade, uma política cultural precisa que seja desenvolvido um discurso que esteja atento às histórias, sonhos e experiências que tais estudantes trazem para as escolas. É somente partindo destas formas subjetivas que os educadores críticos poderão desenvolver uma pedagogia que confirme e envolva as formas contraditórias de capital cultural que constituem a maneira como os estudantes, produzem significados que legitimam formas particulares de vida. A procura e elucidação dos elementos de autoprodução que caracterizam os indivíduos que ocupam culturas vividas diversas não é simplesmente uma técnica pedagógica para legitimar as experiências daqueles estudantes que muitas vezes são silenciados pela cultura dominante da escolarização; é também parte de um discurso que questiona como o poder, a dependêneia e a desigualdade social estruturam as ideologias e práticas que capacitam e limitam os estudantes em torno de questões de classe, raça e gênero. Dentro desta perspectiva teórica, o discurso das culturas vividas torna-se valioso para os educadores porque pode servir não apenas para elucidar como o poder e o conhecimento interseccionam-se para deslegitimar o capital cultural dos estudantes de grupos subordinados, mas também para elucidar como este pode ser traduzido em uma linguagem de possibilidade. Isto é, ele pode ser usado também para desenvolver uma pedagogia crítica do popular, a qual inclua o conhecimento da experiência vivida através do método dual de confirmação e questionamento. O conhecimento do “outro” é incluído não apenas para exaltar sua presença, mas também porque ele deve ser questionado criticamente com respeito às ideologias que contém, os meios de representação que utiliza, e as práticas sociais subjacentes que ele reitera. Aqui está em jogo a necessidade de desenvolver-se um laço entre conhecimento e poder, o qual sugira possibilidades praticáveis para os estudantes. Isto é, o conhecimento e o poder interseccionam-se em uma pedagogia de política cultural para dar aos estudantes a oportunidade não apenas de compreender mais criticamente quem eles são como parte de uma formação social mais ampla, mas também para ajudá-los a apropriarem-se de maneira crítica daquelas formas de conhecimento que tradicionalmente lhes foram negadas. Em conclusão, cada um dos discursos que apresentei e analisei de forma sucinta envolve uma visão diferente da produção cultural, análise pedagógica e ação política. E embora cada uma destas formas de produção envolva um certo grau de autonomia tanto em forma quanto em conteúdo, é importante que se desenvolva uma pedagogia crítica em torno das conexões internas que elas compartilham dentro do contexto de uma política cultural, pois é dentro destas interconexões que uma teoria tanto de estrutura quanto de agência pode construir uma nova linguagem, apontar para novas questões e possibilidades, e permitir que os educadores enquanto intelectuais transformadores lutem pelo desenvolvimento de escolas como esferas públicas democráticas. EDUCAR PARA A DEMOCRACIA Nesse tema, “Ética e Educação“, temos discutido as relações entre educação e sociedade como forma de identificar o que seria essa postura ética que a educação e os atores a ela ligados devem ter para que o ato de educar seja consciente e comprometido. Dimensões da Ética na Docência 35 Para demonstrar como seria o comprometimento e o ato de educar consciente centrado numa ética, valemo-nos dos eixos fundamentais que a Unesco, através de uma Comissão Internacional sobre Educação, apontou como direção para a constituição de um currículo e de práticas pedagógicas voltadas para o indivíduo e sua formação integral. Discutimos sobre as pedagogias franqueadas em nossa cultura e o quanto elas ignoram as realidades individuais representadas pelos estudantes e o quanto elas não se ocupam em refletir sobre a realidade social onde os estudantes estão inseridos como atores sociais. Nesse sentido, a educação postulada em nossa cultura dispensa a preocupação com uma postura ética sobre a qual deve se assentar como forma de salvaguardar os indivíduos de uma sociedade procurando se organizar e se planejar para desenvolver neles a capacidade de pensar a si mesmo e ao mundo que o rodeia. Ao mesmo tempo apontamos um outro modelo pedagógico mais compatível com a nossa cultura social democrática que deve zelar pelos membros que a compõem: o modelo pedagógico progressista. O fato é que vivemos numa sociedade democrática e a eleição de valores ético-sociais democráticos como norteadores de nossas instituições, inclusive e, principalmente, a educação, significa que precisamos criar um sistema educacional eixado em uma formação integral do estudante. Essa formação integral do estudante equivale a superar o padrão educacional vigente que se limita a desenvolver a formação técnica-profissional dele, sem considerá-lo como ser ativo, integrante e participativo do mundo como sujeito agente. Antes, essa formação vigente ocupa-se em dar condição ao estudante de viver a vida adulta apenas como executor de tarefas técnicas profissionalizantes como se esta fosse já cidadania. Todavia, essa é uma formação para uma sociedade que elegeu valores ético-sociais capitalistas simplesmente, significando que a técnica e a profissionalização ao invés de fazer do estudante um cidadão pleno, dissimula a própria condição cidadã. A condição cidadã exige da educação uma formação que vai além da técnica profissionalizante que dá poder de executar tarefas técnicas e de consumir, isto é, essa formação possibilita o acesso aos bens materiais produzidos pela nossa sociedade. No entanto, quanto ao acesso a conhecimentos que nos possibilitam desenvolver a nossa subjetividade e a nossa sócia-politização ficam defasados, uma vez que o estudante, em sua maioria, ingressa a vida adulta sem saber ao certo quais são seus deveres e direitos. Essa formação educativa dentro de uma sociedade democrática termina por degradar o próprio indivíduo como sujeito de sua história e a própria sociedade que se diz democrática. Então, a condição da cidadania numa sociedade democrática perpassa pela formação técnico-profissional (como proposto pelos pilares da educação para o século XXI, no aprender a conhecer e aprender a fazer) e se soma a uma formação humano-social (no aprender a viver junto e com os outros, e a aprender a ser). Essa formação possibilita ao estudante o acesso aos bens materiais com sua capacitação para executar sua profissão a partir dos conhecimentos científicos adquiridos, ser remunerado em troca da sua força de trabalho e ter condições de consumir para atender suas necessidades básicas, gerando riquezas para a sociedade. Por outro lado, essa formação permite ao estudante se descobrir como um ser ativo e participativo do mundo em que vive e está inserido, uma vez que os conhecimentos serviram, também, como recursos para esquadrinhar sua realidade sócio-cultural com fins de legitimar o mundo conscientemente. Essa capacidade de desenvolver uma postura crítico-reflexiva do estudante diante de si mesmo e do mundo onde está inserido sugere o acesso mínimo aos bens simbólicos de sua cultura. 36 FTC EAD | HISTÓRIA FT De outra forma, reconhecer os valores que orientam a prática cotidiana de seus pares e de como intervir nesses códigos de forma a dinamizá-los para o bem da comunidade sugere o acesso a conhecimentos que possibilitaram o desenvolvimento sócio-político do estudante. Diante disso, significa que precisamos formar educadores com a mesma preocupação: a formação integral do estudante. Para tanto é preciso que na sua formação, o educador saia do espontaneismo para uma prática sistematizada e consciente. Embora tratarmos desse tema no próximo bloco, daremos uma pincelada no que seria a formação desse profissional da educação considerando uma práxis pedagógica voltada para a democracia. Para que essa prática docente seja sistemática e producente no respeito a si mesmo como profissional; no respeito ao estudante como sujeito agente de uma sociedade; e no respeito à própria condição de se viver em uma sociedade democrática, é necessário se focar em certas dimensões dessa formação do educador. São elas (dentre outras): a dimensão da qualificação profissional, a dimensão da formação pedagógica, a dimensão da formação ética e política. Quanto à dimensão da qualificação, quer-se enaltecer que a aquisição de conhecimentos técnicocientíficos são deveras importante para a construção sistematizada de conteúdos que darão suporte à práxis pedagógica na transmissão desses conhecimentos específicos. A dimensão da qualificação permite que o educador a partir de suas escolhas axiológicas e categoriais selecione os conteúdos que quer transmitir e que entende como importantes para o estudante em formação. Quanto à dimensão da formação pedagógica, deve-se buscar elementos que levem ao professor em formação a superar o senso comum e do agir imediato para que sua práxis seja efetivamente significativa e promova mudanças no modo de pensar e agir do estudante. Quanto à dimensão da formação ética e política significa que o professor desenvolve a capacidade de perceber que a sociedade é constituída de valores que orientam as ações dos seus membros em qualquer âmbito do viver humano. Essas dimensões sendo trabalhadas em sua formação darão ao professor um arcabouço de conhecimentos teórico-práticos que proporcionará atitudes educativas mais significativas tanto para si mesmo como profissional da educação, como para o estudante sob sua responsabilidade. Diz-se isso porque esse educador, como veremos a seguir na análise de cada uma das dimensões, sentir-se-á gabaritado a pautar sua prática na tríade ação-reflexão-ação sem perder de vista que o centro de sua práxis é o indivíduo que vive com outros indivíduos numa realidade social, no mundo. Essa capacidade desenvolvida no professor possibilita-lhe a constatação de que esses valores precisam ser desvelados, questionados e modificados se afrontarem a dignidade da vida humana, comprometendo a convivência entre os membros da sociedade. Considerando a convivência nas sociedades democráticas significa nas relações pluriculturais e pluriétnicas, isto é, nas relações com as diferenças e, mais especificamente, com o diferente. Discutimos em outro momento de nossa disciplina que o diferente deve ser entendido como o portador do novo e do inusitado que nos fará reavaliar nossos próprios valores, renovando-nos a nós mesmos e, portanto, a nossa própria realidade sócio-cultural. Nesse sentido, educar para a democracia significa que devemos desenvolver a tolerância como virtude para termos a capacidade de dar tempo e espaço para compreendermos a nós mesmos e aos nossos valores no encontro com a alteridade, com o outro, com o diferente. Então, a educação para a democracia, também, significa educar para a convivência em paz a partir de um enfoque sócio-afetivo procurando conscientizar o estudante da necessidade de mitigar o fosso social que nos separa em privilegiados e desafortunados. Dimensões da Ética na Docência 37 A equalização dessas posturas na formação do educador dará condições de que esse profissional da educação, em sua práxis, desenvolva as mesmas potencialidades no estudante o que equivale dizer educar para a democracia. TEXTO COMPLEMENTAR Educação, cidadania e democracia SEVERINO, A.J. Filosofia da educação: construindo a cidadania. São Paulo: FTD, 1994, p. 98-101. 1-Sob o signo da cidadania e da democracia O sentido político da educação pode ser colocado sob a perspectiva das relações entre educação, cidadania e democracia. Essas três dimensões estão tão profundamente ligadas que acabam se implicando mutuamente. Cabe à Filosofia da Educação questionar até que ponto esta vinculação é pertinente e pode se viabilizar. Trata-se de esclarecer qual a contribuição que a educação pode efetivamente dar para a construção da cidadania e da democracia. Quando falamos de cidadania estamos nos referindo a uma qualificação da condição de existência dos homens. Trata-se de uma qualidade de nosso modo de existir histórico, O homem só é plenamente cidadão se compartilha efetivamente dos bens que constituem os resultados de sua tríplice prática histórica, isto é, das efetivas mediações de sua existência. Ele é cidadão se pode efetivamente usufruir dos bens materiais necessários para a sustentação de sua existência física, dos bens simbólicos necessários para a sustentação de sua existência subjetiva e dos bens políticos necessários para a sustentação de sua existência social. Por outro lado, quando falamos de democracia, estamos nos referindo à mesma exigência, vista agora a partir da perspectiva da sociedade. A democracia é também uma qualidade da vida dos homens, baseada no reconhecimento e no respeito mútuos, ou seja, é modalidade de convivência social, em que as relações entre os homens não sejam relações de dominação, opressão, exploração ou alienação. Na verdade, é a condição de uma sociedade que garanta a todos os seus membros o usufruto efetivo dos bens materiais, simbólicos e políticos. É a qualidade da sociedade que assegura a seus integrantes a condição de cidadania. Ainda que diferentes entre si, por tantos outros aspectos, numa sociedade efetivamente democrática, os homens tornam-se iguais sob o ponto de vista da condição comum de cidadãos. É sempre bom lembrar: as exigências das relações entre cidadania e democracia não se situam apenas no plano dos princípios abstratos mas, ao contrário, implicam práticas e situações bem concretas, pois são essas que tecem a vida real das pessoas. 38 FTC EAD | HISTÓRIA FT Não basta dizer que a escola pública é livre, gratuita e aberta a todas as crianças brasileiras para que nossa educação pública seja efetivamente democrática e avalizadora da cidadania. É preciso ainda que ocorra a tomada de decisões e medidas concretas para que esses princípios se realizem historicamente e que a escola pública garanta efetivamente uma boa educação a toda a população, sua destinatária. Não basta, pois, considerá-la como uma possibilidade. Assim também, para que haja relações democráticas entre as pessoas, não é suficiente que elas sejam, em tese, contra o racismo, assumindo no discurso teórico posições inflamadas contra ele; é preciso combatê-lo na prática cotidiana, onde ele se disfarça e se camufla. É necessário promover ações e situações em que as pessoas não sejam, de fato, prejudicadas e discriminadas por causa de suas peculiaridades raciais. 2-A educação mediando cidadania e democracia Como é possível entender a educação numa sociedade historicamente determinada? Como prática humana intencionalizada e fecunda pela significação simbólica, fruto da subjetividade. A educação efetiva-se como mediação para a construção dessa condição de cidadania e de democracia, contribuindo para a integração dos homens no tríplice universo do trabalho, da simbolização subjetiva e das relações políticas. Mas, atenção! Não estamos diante de um processo automático, mesmo quando as mediações históricas estão presentes. É que essas mediações são profundamente ambíguas e contraditórias. Ao mesmo tempo em que constituem o lugar da humanização, da personalização, são também o lugar privilegiado da desumanização. Como vimos, o trabalho pode degradar o homem, as formas concretas de sociabilidade podem oprimi-lo, e a cultura simbólica pode aliená-lo. A vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva podem estar efetivando, não uma forma mais adequada de existência, mas formas de despersonalização individual e coletiva. Por isso mesmo, a educação só pode contribuir para a instauração da cidadania e da democracia se seu investimento se der na dimensão construtiva dessas mediações. O desafio essencial que a educação enfrenta é o de como preparar as novas gerações para o trabalho, para a vida social e para a cultura da subjetividade, sem degradá-las, sem submetê-las à opressão social ou aliená-las. Isso porque vivemos numa sociedade concreta, historicamente determinada, em que as relações de produção, as relações políticas e as simbolizações culturais são particularmente alienadoras. A cidadania é uma qualificação do exercício da própria condição humana. O gozo dos direitos civis, políticos e sociais é uma expressão concreta desse exercício, mas não é a única. O homem, afinal, só é plenamente humano se for cidadão, o que significa poder fruir de todos os elementos das mediações objetivas de sua existência. Não tem, pois, sentido falarmos de humanização, de humanismo, de liberdade, se a cidadania não estiver lastreando a vida real dos homens. A humanização não é um atributo intrínseco que qualifica os homens só pelo fato de eles pertencerem à espécie humana. É, antes de tudo, uma construção histórica. A educação é parte desse processo histórico à medida que investe na consolidação e na universalização das mediações existenciais. Este é o esforço que a educação contemporânea vem buscando implementar, por terem os seus agentes se dado conta dessas exigências. Na Antiguidade, dominada por uma visão metafísica do homem, a educação buscava a perfeição do educando na atualização da potencialidade de sua essência. No início da época moderna, dominada por uma visão cientificista do homem, ela buscava a plenitude da vida, a saúde vital das pessoas. Hoje, imbuindo-se de uma concepção praxista, busca implementar a cidadania. Para a educação, o ideal a ser perseguido não é um estado de perfeição previamente contido numa essência ou num código genético, mas um estado que se poderá atingir mediante um processo intencional de construção. Atividade Complementar 01. A forma como o sistema educacional brasileiro tem educado/formado os homens, respeitaos em sua humanidade ou limita-se à condição profissionalizante? Explique argumentando. 02. Até que ponto a educação tem levado os homens em formação profissional a desenvolver o aspecto dialético dos valores morais? 03. Com base no texto complementar Educação, cidadania e democracia de Severino, reflita de que modo educação e sociedade se entrelaçam na formação cidadã dos indivíduos. 04. Explique e discuta com argumentos fundamentados a seguinte assertiva: a educação pode se planejar de modo a manter as estruturas sociais estabelecidas ou de modo a contribuir para a transformação social. Dimensões da Ética na Docência 39 05. Discuta reflexivamente como as formas dominantes de discurso na prática educacional são construídas, sustentadas e postas em circulação fora das escolas e qual o papel do profissional da educação diante desses discursos. ÉTICA NA PRÁXIS PEDAGÓGICA E NA PESQUISA ÉTICA E OS SUJEITOS DA PRÁXIS PEDAGÓGICA A PRÁXIS PEDAGÓGICA: DO SENSO COMUM À POSTURA CRÍTICA. No bloco anterior, quando tratamos do tema Ética e educação, o conteúdo educar para a democracia, começamos uma discussão reflexiva sobre a formação do educador que nesse bloco e tema precisamos ampliar e consolidar para dar ao futuro professor a capacidade de discernir como profissional. O primeiro passo para a compreensão de uma postura pedagógica em que envolve a práxis é a constatação de uma conduta profissional que se lastreia no espontaneismo, isto é, uma prática pedagógica que não consegue superar o agir imediato e, por isso mesmo, uma prática carregada de senso comum. Para entendermos melhor, vamos explicar cada uma das categorias descritas no parágrafo anterior, a começar pelo termo práxis. O termo foi denominado por Marx para demonstrar a necessidade de relacionar teoria e prática como partes complementares de um mesmo processo, isto é, um conjunto de práticas que permitem ao homem, pelo seu trabalho, transformar a natureza, transformando-se também a si mesmo, numa relação dialética. No contexto da prática pedagógica, significa que o professor deve agregar conhecimentos e aplicar esses conhecimentos na realidade, ou seja, na sala de aula que é um universo composto de várias realidades representadas na singularidade de cada estudante. Essa utilização técnica dos conhecimentos para resolver ou solucionar os problemas enfrentados na realidade da sala de aula deve ser submetida ao crivo da reflexão e da crítica do professor a partir dos resultados que se apresentam. Submeter os conhecimentos (teoria) aplicados na sala de aula (prática) à uma atitude crítico-reflexiva dos resultados equivale a compreender os limites da teoria e a necessidade de mudança dela (a teoria) para melhor atendermos a realidade e seus desafios cotidianos. Ora, essa atitude demonstra que o professor saiu do conforto teórico para confrontá-lo com o mundo vívido da prática para atender às necessidades do alunado e, ao mesmo tempo, transformou os 40 FTC EAD | HISTÓRIA FT conhecimentos que orientaram a prática e, também, mudou a própria prática. A tríade ação-reflexão-ação potencializada dialeticamente. Um outro termo a ser desvendado é o espontaneismo que seria uma prática não sistematizada com suas bases num conhecimento acrítico que leva ao profissional de educação a atitudes inconscientes sem perceber os resultados dessa ação, salvo aqueles que lhe convém. Quanto ao senso comum, um tipo de conhecimento ingênuo, assistemático, acrítico que não foi, minimamente, submetido à reflexão nem à investigação científica, logo um conhecimento que orienta o profissional que se vale do espontaneísmo. O senso comum proporciona uma visão fragmentária da realidade, da teoria e da prática à qual nos acostumamos sem pensar mais apropriadamente, questionando sobre ela e nas suas conseqüências tanto para nós como profissionais da educação que possui conhecimentos e os aplica no mundo, quanto para o estudante que sofre a ação desses conhecimentos e dessas práticas. Para que o profissional da educação saia do espontaneismo e abandone o senso comum, assumindo a postura de educador, de fato, é imprescindível a constatação desses tipos de atitudes no fazer pedagógico para alcançar uma prática crítico-reflexiva. Diagnosticar essas práticas espontaneistas exige do professor uma compreensão de sua prática, isto é, exige que o professor problematize permanentemente a ação pedagógica cotidiana no ambiente escolar. Ora, problematizar a ação pedagógica requer do profissional de educação um caráter filosófico na atitude para colocar sempre em suspeição sua própria prática com vistas a uma re-elaboração de seus conhecimentos e da renovação de seu exercício profissional. O professor que busca a conscientização de sua ação pedagógica procura descobrir o que determina essa re-elaboração dos conhecimentos e da renovação do seu exercício profissional, a saber: a realidade da sala de aula com a qual se defronta cotidiana e ininterruptamente. Logo, a sala de aula é o laboratório onde o professor que procura sair do senso comum e desenvolva uma atitude crítica. Essa idéia da sala de aula como laboratório alude a uma compreensão de professor investigador. O professor investigador se comporta como um profissional preocupado com sua prática e com os conhecimentos que possui e que orientam sua ação, procurando saber-lhes limites e necessidades de ampliação e renovação para atender melhor às necessidades do estudante e do social. Mas quem é o estudante nesse contexto em que discutimos uma práxis pedagógica que deve se afastar do agir imediato, proporcionado pelo senso comum, problematizando-o e, nesse sentido, uma prática que deve despertar para ações conscientes. Como pistas para se constatar o que ele é, diremos, aqui, como ele não pode ser visto: um ser passivo e incapaz que deve absorver a cultura geral e os conhecimentos técnico-científicos para viver melhor. Compreendê-lo dessa forma, leva-nos a entendê-lo como um ser dependente do professor com sua prática e com seus conhecimentos, independentemente da sua realidade vívida. Por outro lado, não procurar entender sua realidade vívida é desprezar e ignorar sua natureza sócio-histórica e pertencente a uma cultura. Elevar-se do senso comum a uma postura crítica sugere, dessa forma, uma formação ético-filosófica do professor. A atitude ético-filosófica impele ao profissional de educação uma atitude investigativa no sentido de se reciclar como profissional e como pessoa e de respeitar a si mesmo como profissional e pessoa e ao estudante como futuro profissional e como pessoa. Essa atitude de se reciclar como profissional e como pessoa aponta pra uma formação que deve se ocupar dos seguintes aspectos: humano-social; técnico-profissional; político-cultural. Esses aspectos serão discutidos com mais propriedade e mais detidamente nos próximos conteúdos e temas. Dimensões da Ética na Docência 41 TEXTO COMPLEMENTAR O lugar da ética no trabalho do (a) professor (a) Revista espaço acadêmico, nº 40, setembro de 2004. Disponível em: www.espacoacademico.com.br/040/40pc_meksenas.htm Muitas são as reflexões acerca do papel social do professor(a) na modernidade. Em número crescente surgem os artigos; os ensaios e as teses, que buscam indicar os caminhos necessários ao exercício desta profissão. Assim, se escreve sobre como é ou deve ser a relação do professor com os pares e com os seus alunos; a respeito das relações didáticas e inerentes à socialização do conhecimento; das lutas à democratização do ensino; da violência e da crise da instituição escolar; dos modos e das formas da gestão em políticas públicas na educação. Por outro lado, ao mergulhar na discussão da prática docente no cotidiano institucional poderíamos indagar: como os professores se posicionam diante das noções de bem e mal; do justo ou injusto; do que é ou não correto? Ou, em outros termos, como os aspectos de uma moralidade profissional podem constituir-se em posturas éticas no exercício da profissão? Assim, a presente reflexão busca formular algumas questões sobre o lugar da ética no trabalho do professor(a). Definições sintéticas indicam o início da discussão do tema em questão e, nesse aspecto, a moral pode ser um ponto de partida desejável se entendida como um corpo de regras e normas, socialmente aceitas como as mais adequadas para a vida de uma coletividade. Sejam as normas e regras sancionadas juridicamente e na forma de leis ou, os costumes e hábitos sociais que se impõem ao grupo ao longo de sua história. A moral, ao constituir-se como um fenômeno que regula a vida social e que julga o agir considerado correto ou errado, coloca a questão da tensão/conflito que se estabelece entre o sujeito e a esfera social. Nesse ponto da discussão, podemos afirmar que o indivíduo define-se pela sua capacidade de pensar; julgar e querer, levando-o a posicionar-se frente ao mundo e frente aos outros: compreendendo; escolhendo e desejando. Por outro lado, essa tríade afirma-se na sua relação com uma outra: de contexto; de organização do trabalho; de história, isto é, emerge no campo das necessidades; da produção e reprodução da materialidade humana e, ainda, constitui-se como ações no mundo. Tais ordens estão em tensão porque nem sempre o compreender; o escolher e o desejar coincidem com as delimitações inerentes ao contexto; à organização do trabalho e à história. Trata-se do velho conflito indivíduo – sociedade e em meio a tal, os prepostos da moral modelam as escolhas individuais frente às necessidades sociais. 42 FTC EAD | HISTÓRIA FT Na modernidade, a moral não é espelho do contexto; trabalho e história de uma coletividade, mas de uma classe social: a burguesia. Nem de toda ela, mas da fração de classe que se impõem, em determinado momento, como hegemônica. Desse modo, aquilo que é tido como socialmente justo ou injusto; o bem e o mal; o certo e o errado; não corresponde à compreensão; escolha e desejo de cada indivíduo e nem do conjunto dos participantes da vida social. Ao contrário, reflete o contexto; a organização do trabalho e a história da fração dominante e que apresenta as suas particularidades como se fossem as determinações da totalidade social. Tais particularidades de classe também não coincidem de maneira unívoca às concepções da classe que as produziram: trata-se, a moral, de uma concepção invertida do real em que, num mundo povoado de mercadorias, cria a ilusão da qual as coisas/objetos, e não o ser humano, é que determinam as regras da vida social. E assim, seguindo as pistas lançadas por Marx, podemos afirmar que a moral, sob a sociedade burguesa, assume a forma de ideologia. E qual seria o seu cerne? Novamente podemos recorrer a Marx e buscar a explicitação da moral no contexto; trabalho e história da sociedade burguesa e sintetizada em uma máxima: Cada homem especula sobre a maneira de como criar no outro uma nova necessidade para o forçar a novo sacrifício, o colocar em nova dependência, para o atrair a uma nova espécie de prazer e, dessa forma, à destruição (...) quanto menos cada um comer, beber, comprar livros, for ao teatro, ao bar, quanto menos cada um pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, poetar, etc., mais economizará, maior será sua riqueza, que nem a traça nem a ferrugem corroerão, o seu capital. Quanto menos cada um for, quanto menos cada um expressar a sua vida, mais terá, maior será a sua vida alienada e maior será a poupança da sua vida alienada (Marx, 2002: 149 e 152). Em outros termos, a moral como ideologia sedimenta uma práxis que transformou a realização pessoal, promovida entre indivíduos e destes com a coletividade, em mero prazer obtido pela posse do objeto. No lugar de fazer-me indivíduo pela minha interação com os outros, me torno uma particularidade fechada em mim mesmo, pela coleção de mercadorias que possuo e, para tal, vale tudo: quanto menos cada um pensar, amar, teorizar, cantar, pintar, poetar etc., mais economizará [para comprar mercadorias], maior será sua riqueza [de objetos inúteis], que nem a traça nem a ferrugem corroerão... Sob o signo desta moral, tornada historicamente ideologia, é que outras pequenas morais, não de classe e sim de grupo, afirmam-se. Entre elas, aquela correspondente ao exercício da profissão docente, que se constitui por códigos do que é certo ou errado; justo ou injusto; do bem e do mal no exercício da profissão. É óbvio que essa moralidade profissional está imbricada com a ideologia: sempre vemos no cotidiano escolar a defesa que muitos professores fazem a respeito do dever de seus alunos em prepararem-se para o mercado, no lugar da crítica; professores portando e adorando griffes – verdadeiras ou falsas, em vez do questionarem-se a respeito; defendendo, com pouca consciência, que a posse de objetos é mais importante que as interações sociais. Entre professores, o que é certo ou errado; bem ou mal; justo ou injusto acaba determinado pela grande moral ou ideologia. Porém e contraditoriamente, a moralidade do professor pode adquirir formas de maior independência frente à ideologia, pois aquela pequena moral profissional, ao originar-se da prática cotidiana do experimentar a profissão, permite concordar ou discordar com os prepostos da grande moral ou ideologia. Um exemplo tipifica esta última questão. Imaginemos um (a) professor (a) do ensino público, que foi designado a lecionar numa escola situada em região urbana com altos índices de violência. Ao vivenciar as primeiras semanas neste contexto, tal professor (a) percebe as dificuldades na realização do seu trabalho. O que seria correto: continuar lecionando em tal realidade, ou buscar um contexto menos violento para exercer a sua profissão? Caso a escolha seja a de ir ao encontro de uma nova escola em região menos violenta, o professor (a) em questão faria uma escolha moral, pois adotaria a regra socialmente tida como correta: afastar-se do perigo e proteger-se; é bom lembrar que o individualismo faz parte da grande moral moderna. Porém, a escolha poderia ser outra: permanecer na mesma escola, sob todos os riscos e, ainda, engajar-se em movimentos pela paz. Essa outra opção se daria por meio de uma escolha ética. E qual a diferença em ambas? Na primeira o agir profissional está vinculado a uma escolha comum, pois admitir que cada um deve pensar em si mesmo é algo valorizado. Já, na segunda, o agir se aproximaria de uma escolha capaz de interrogar-se e questionadora da validade de um aspecto moral. Neste ponto está o significado da postura ética na profissão: o interrogar-se a respeito da prática profissional na perspectiva da crítica da pequena moral. Deste pequeno exemplo, ainda poderíamos pensar outros, aprendemos que todos os professores são pessoas morais, o que não significa que tenham postura ética em todo momento. A ética situa-se acima da moralidade porque é capaz de questionala. Nesse sentido, é esclarecedora a posição de Nascimento quando afirma: a questão ética não se restringe ao plano da aceitação das normas socialmente estabelecidas nem se reduz ao problema da criação dos valores por uma liberdade solitária. Nasce na existência concreta de cada um, da consciência dos valores envolvidos no reconhecimento da inalienável dignidade da pessoa e do sentido da responsabilidade pessoal diante do outro, cujo rosto é um apelo constante a ser respeitado e promovido (1984:16). Daí a importância em qualificar o trabalho do professor(a) como uma atividade que ultrapasse a dimensão moral na direção da postura ética, pois apenas esta última é capaz de estabelecer os projetos sociais geradores da nova tríade – contexto; trabalho e história. Em suma, a ética permite a crítica à pequena moral e pela crítica é possível questionarmos a ideologia, lançando-nos em diferentes alternativas sociais. O EDUCADOR: SUA PRÁTICA REFLEXIVA E DE AGENTE POLÍTICO Estudamos no outro conteúdo como o profissional de educação tem o dever de sair do senso comum e consolidar uma postura crítico-reflexiva em relação à sua prática pedagógica. Percebemos que abandonar o agir imediato e adentrar as regiões da atitude crítica exige do educador mais do que a simples aquisição e domínio de conteúdos, e mais do que deter técnicas de ensino. Essa ascensão do espontaneísmo ao senso crítico como professor requer desse profissional uma postura de permanente observação e problematização da sua práxis sob o crivo da ação-reflexão-ação. E é em torno desse crivo que o educador deve se orientar para exercer de maneira menos imprecisa e improvisada a sua prática. É preciso que ele comece a nortear suas ações desde o planejamento, pasDimensões da Ética na Docência 43 sando pelos objetivos e escolhas de conteúdos, até à execução e os resultados ali obtidos, e utilize esses elementos como materiais de renovação profissional. Por outro lado, essa atitude de renovação profissional perpassa, necessariamente, pela compreensão de que o professor é aquele mediador entre o estudante a realidade circundante, fazendo-o elevar-se de uma compreensão sincrética a uma compreensão sintética do mundo. Isto é, que uma das funções do professor é fazer com que seu aluno saia de um pensamento/conhecimento difuso e fragmentário originado do senso comum para um pensamento/conhecimento mais sistematizado oriundo de um modo de pensar crítico-reflexivo e investigativo que representaria melhor essa realidade. Para tal, é imprescindível que esse educador tenha claro o tipo de estudante que ele que, co-participativamente, auxiliar na formação. Ou seja, qual o conceito antropológico que está subjacente às suas escolhas: se a concepção metafísica; se a concepção naturalista; ou se a concepção histórico-social. E, ainda, esse profissional da educação deve estar ciente de que a escola é uma representação social e reflete os conflitos estabelecidos na sociedade e que esses conflitos devem ser entendidos como matériaprima de debates e discussão para avaliar a própria função da escola e do educador em relação ao social. Daí, como vimos no conteúdo anterior, que é necessário uma formação do profissional nos aspectos: humano-social; técnico-profissional; político-cultural. Quanto a formação técnico-profissional é já sabido a sua importância, uma vez que ela solicita do educador o domínio de conhecimentos e técnicas de ensino para o exercício de sua ação pedagógica. No entanto, o que queremos evidenciar nesse conteúdo é a necessidade dos outros aspectos para o exercício pleno dessa atitude pedagógica. Exercício pleno que dizer uma ação que priorize o estudante não como simples reprodutor de idéias que o capacite a executar tarefas técnicas. Isso seria aviltante para sua condição de ser um ser humano histórico-social e cultural. Então, além da capacitação profissional, o exercício pleno deve querer proporcionar a ele a capacidade de pensar sobre os valores que orientam sua vida social, cultural e histórica e tecnológica e suas conseqüências para a vida, uma vez que vivemos numa sociedade democrática. Levar, nesse sentido, ao estudante a se descobrir parte de uma comunidade. A perceber a sua condição de ser social que convive com outros humanos e que a vida em sociedade depende da compreensão de que a realidade social se constrói intersubjetivamente. É aqui que do professor é requerida uma formação reflexiva e de agente político. É nesse contexto social que à educação, à escola e ao educador é exigido a compreensão que eles existem para ampliação das capacidades profissionais e cidadãs do educando. Dessa forma, não reduzir a cidadania a uma formação profissional que possibilita o acesso aos bens materiais e legitimá-la como um processo de acesso a bens sócio-político e a compreensão dos direitos e deveres dos homens que vivem em uma sociedade democrática. Limitando-se à prática que se restringe à formação meramente profissional do estudante, significa que professor abdicou de suas outras atribuições e minimizou o seu papel de mediador entre o estudante e a vida adulta em sociedade. Essa minimização equivale a ações pedagógicas alienadas e assentadas, dessa maneira, no senso comum e no agir imediato, sem preocupações com a dignidade do estudante como agente político que deve vir a se tornar para agir conscientemente no mundo em que está inserido com vistas a favorecer a vida em sociedade. É necessário que o educador saia da prática alienante, que não respeita nem a si nem ao estudante e, muito menos, a sociedade em que vive. Então, é preciso que ele assuma em consideração a si, ao estudante e ao mundo onde estão inseridos uma pedagogia que possibilite uma aprendizagem crítica e reflexiva do estudante. 44 FTC EAD | HISTÓRIA FT Logo, é mister ao educador começar a entender que sua formação deve se lastrear nessa pedagogia crítica, valendo-se das disciplinas profissionalizantes (como a Didática, por exemplo) que lhe asseguram técnicas de ensino como ferramentas de um fazer pedagógico autêntico e pleno. Isto é: que eleve o estudante da ingenuidade de que a cidadania está na formação técnico-profissional, meramente, para uma compreensão mais abrangente envolvendo também a sua formação como ser histórico-social e cultural. Ao professor cabe a responsabilidade de compreender que a ação pedagógica representa a capacidade de produzir valores, bens e riquezas (sejam materiais, culturais, simbólicos, sociais e políticos) para sociedade na qual está inserido e onde estão abrigados os indivíduos que sofrem essa ação pedagógica. Quanto mais ciente dessa realidade do ato pedagógico, mais próximo de se perceber como serão os futuros adultos a partir do fazer pedagógico que promove em sala de aula que resvala nos estudantes sob a forma ou de conformismo ou de rejeição ao sistema vigente. O conformismo termina por menosprezar a realidade social de cada estudante e a realidade social circundante como elementos a serem discutidos em busca de superação do modelo estabelecido caso ele não respeite os indivíduos que compõem o tecido social. Por outro lado, a rejeição ao sistema sugere que o ato pedagógico procurou despertar e desenvolver no estudante, a partir de uma pedagogia crítica da aprendizagem, a condição de ser um ser de liberdade aliado aos ideais de justiça e de solidariedade. Esses valores da liberdade, justiça e da solidariedade despertos e desenvolvidos pelo ato pedagógico do professor que se assume como agente político capacita o estudante a se comover com o mundo e a se indignar com a miséria humana e, dessa forma, exigir mudanças no sistema que enobreçam a vida de todos os membros que o compõem, indistintamente. O senso de pertencente a uma comunidade se assoma e promove no estudante o caráter isonômico que deve respaldar toda sociedade democrática. Essa isonomia se impõe seja perante as leis, que representam os valores ético-morais que a orientam política e economicamente, seja perante a condição de seres pertencentes a uma dada sociedade e, como tal, têm o mesmo direito de acessibilidade aos bens de qualquer ordem produzidos por essa sociedade. Nesse sentido, a ação pedagógica é um ato político cuja beleza está em possibilitar mudanças pessoais, psicológicas e sociais sob o critério do enaltecimento de valores que favoreçam a vida e a dignidade humana. Por outro lado, o ato pedagógico como ato político tem a capacidade de embaçar a capacidade de discernimento e crítica do estudante conservando as relações políticas e sócio-econômicas estabelecidas. Então, a formação reflexiva do professor como agente político demanda uma prática consciente. Tal prática requer a compreensão da dialética entre eu-mundo e teoria-prática. Essa relação dialética aponta, como já discutimos em outro conteúdo, uma confrontação entre realidade e conhecimento com vistas a renovar um e outro, caso esse embate revele o menosprezo pelo indivíduo como ser ativo e participativo do mundo – o que equivale a um modelo educativo e uma práxis pedagógica desvinculados da ética. TEXTO COMPLEMENTAR Conseqüências da práxis pedagógica alienada MARTINS, M.A.V. O professor como agente político. 4ª ed. São Paulo: Loyola, 1995, p. 55-57. A alienação pedagógica tem um sentido que tradicionalmente tem a alienação na sua origem, ou seja, o agente educacional, o professor, não se reconhece na atividade pedagógica, pelo contrário, é algo alheio, independente, que se opõe; algo dotado de certo poder próprio, que se volta contra ele mesmo, o qual não pode controlar. O trabalho pedagógico é enigmático, misterioso (fetichismo), porque a relação social decorrente do ato pedagógico e que medeia esse ato passa a ser uma Dimensões da Ética na Docência 45 relação exclusivamente interna do processo em si, no qual seu produtor está sempre de fora. Por força deste individualismo radical acaba estendendo esta relação entre outros homens. Na prática pedagógica alienada o professor realiza um trabalho que não lhe pertence no sentido humano. Há uma diferença humana entre ele e seus alunos, ele não se equivale aos alunos com os quais trabalha. Isto significa que os resultados do seu trabalho não são para ele, ou seja, não pode convertê-los em elementos da sua própria vida. Esta alienação não se dá apenas ao nível da consciência mas trata-se de uma alienação real concreta, que aparece no processo real do trabalho pedagógico. É o que se passa quando o professor vê o aluno fora, desvinculado, longe, à margem do processo pedagógico objetivo, do qual ele participa. Isto é, não identifica no aluno o resultado do seu trabalho, assim como coloca-o à margem deste trabalho. É certo também que esta alienação se dá ao nível da consciência, pela ausência de uma organização efetiva, coerente, total da prática que ele executa. As coisas que ele produz convertem-se para ele próprio em algo cada vez mais alheio, as quais, não são capazes de enriquecer o seu conteúdo humano. Assim ele se converte cada vez mais numa mera mercadoria que é a sua força de trabalho. A alienação converte o trabalho, para o professor, em algo externo no qual ele não se afirma não se sente na atividade prática que realiza, nega-se a si mesmo. O fato de o professor trabalhar é apenas um meio para assegurar a sua existência e afinal acaba realizando o que lhe é encomendado, convertendo-se assim em apenas um instrumento de algo que necessite ser conseguido através de si. Desse modo, o trabalho executado pelo docente “coisifica-se”, isto é, ele, o professor, não é propriamente o criador de sua atividade e este tipo de trabalho é justamente o que tem contribuído para que ele se aliene e assim deixe de fazer a sua história e humanizar-se. Assoberbado pela pedagogia burocratizada, pela necessidade de sobrevivência, pelas múltiplas informações de caráter pedagógico que recebe, pelas tecnologias pedagógicas hipertrofiadas desvinculadas da prática pedagógica a que se referem, manipulado por modismos, flutua entre posições radicais. São elas adesões pré-críticas ou uma atitude romântica, ingenuamente esperançosa até mesmo mágica acerca das possibilidades da educação sistemática, ou a sua retirada do campo de ação do processo pedagógico, acomodando-se aos acontecimentos. Assim esse trabalho alienado destrói o vínculo entre o professor (o homem) e a sua obra obstruindo, com a separação que impõe, a possibilidade de elaboração e reelaboração da sua prática. O que acaba sobrando é somente uma sujeição às próprias necessidades individuais e assim sendo a impossibilidade de participar de objetivos comuns, comuns ao ensino, comuns aos professores. Resta também somente uma atividade que garante a existência, ele produz para viver. Seu trabalho concretamente é cada vez mais um instrumento que garante a luta individual pela existência, e cada vez mais o professor vai se isolando. 46 FTC EAD | HISTÓRIA FT Resulta desse modo a alienação do aluno, pela ausência de relação entre os procedimentos teórico-pedagógicos e a prática e as suas exigências, decorrentes do campo social mais complexo. Aluno e professor situam-se em campos opostos pela falta de vinculação de ambos à práxis que se referem. A relação intersubjetiva, ou a interação professor-aluno não se dá. Há então dois planos de alienação: o da alienanção do professor, em relação direta com seu trabalho, isto é, não se reconhece no produto de seu trabalho, pois a educação sistemática traduz-se objetivamente por resultados no social (social entendido como político-econômico-social) e que interferem no curso da história; e o da alienação do aluno, o que acaba por estender essa relação entre aluno e aluno, porque a alienação não se dá apenas entre o sujeito (professor) e o objeto (aluno) mas entre seres humanos. É assim que a práxis pedagógica se exterioriza, isto é, se concretiza mas no vazio. A história escapa das mãos do professor, pois esta sua práxis não se exterioriza concretamente para produzir e transformar a história e ele, o docente, perde a oportunidade de humanizar-se [...]. A história escapa das mãos do professor, pois a práxis pedagógica é a oportunidade para objetivação do social, é a oportunidade para produzir o homem, objetivá-lo, torná-lo humano, o que afinal só é possível quando o homem está em relação com os demais homens. A alienação pedagógica configura-se então pela impossibilidade de o docente objetivar as circunstâncias, por tornar as práticas pedagógicas como objeto de valor em si, o que redunda num pedagogismo inócuo; por não ter pensado a práxis pedagógica como práxis social, isto é, como práxis que se traduz por resultados no social e da qual ele participa. O professor estabelece, tanto objetivamente como subjetivamente, uma relação de exterioridade com sua atividade (como se ela fosse algo estranho, misterioso, inacessível) e com o produto destá atividade, que acaba por omitir os fins sociais estreitamente vinculados à prática pedagógica. A RELAÇÃO EDUCADOR-EDUCANDO No Bloco 1, tema 2, conteúdo 4 “o paradigma educacional emergente” discutimos um pouco sobre a relação professor-aluno, dentre outras coisas. O ponto de partida foi a análise das teorias pedagógicas e o modo como cada uma delas estabelece essa relação. É justamente aquela discussão que queremos ampliar com você, caro (a) estudante, com fins de compreendermos mais apropriadamente essa relação e como ela deve superar o “conforto” dos modelos vigentes estabelecidos. Vimos, naquele conteúdo, que nas pedagogias sob o viés liberal (tradicional e tecnicista) a relação professor-aluno é estatuída sob a verticalização. Nessa verticalização, o estudante é visto pelo professor como um receptáculo dos conhecimentos (cultura geral) para vir a ocupar sua posição social legitimar seu status quo (pedagogia tradicional) ou para garantir sua formação técnica-profissional para um mundo industrializado onde a economia e o mercado são mais importantes que o próprio ser humano e por isso devem ser engrandecidos (pedagogia tecnicista). Constatado isto, passamos a propor para a formação educativa dos indivíduos um outro paradigma para a prática educação e para sua prática pedagógica que respeitasse o ser humano de forma integral, conforme sugere os novos pilares para a educação proposto pela Unesco. Um modelo pedagógico que ensine o estudante a aprender a conhecer, a aprender a fazer, a aprender a viver juntos e com os outros, a aprender a ser. Então, a relação professor-aluno nessa pedagogia proposta desarticula a verticalização tão comum nas tendências pedagógicas liberais e propõe a horizontalização dessa relação, isto é, o professor se comporta como orientador da elevação do nível de consciência crítico-reflexiva do estudante, além da formação técnico-profissional. Cabe-nos, agora, aprofundar essa relação horizontalizada professor-aluno e suas conseqüências tanto para o estudante e suas vivência técnico-humano-sociais, quanto para o professor e sua prática técnico-profissional, histórico-cultural e político-social. De início vamos tentar definir os termos em questão: educador e educando, embora saibamos das dificuldades de chegar à definição dessas categorias devido às implicações que ambos os termos sugerem numa relação de interferência e na perspectiva de que um e outro assumem, alternadamente, o papel de um de outro. Isso significa que no processo de compreensão da horizontalização da relação professor-aluno ambos começam a entender que a postura que deve ser assumida é de ser aprendente diante das situaçõesproblemas que essas categorias vivem ininterruptamente no cotidiano escolar e fora dele. Devido à condição de ser um ser humano, o educador é um ser que, dialeticamente, constrói o seu eu, a sua história, a sua cultura, e aos valores que orientam sua vida em sociedade, sofrendo as determinações que desses valores. Você pode lembrar caro (a) estudante, como refletimos no conteúdo “Ética, consciência moral e liberdade” que o ser humano é produto e produtor de si mesmo e do meio em que vive a partir de sua interferência na natureza (da qual também herda elementos para sua formação) no intuito de satisfazer suas necessidades. Logo, o ser humano é uma síntese histórico-cultural e biológica. Essa condição de ser um ser humano-social leva o educador a desenvolver certo papel na sociedade e a exercer certa função social: deter e dominar conhecimentos técnico-científicos que o ajude a executar Dimensões da Ética na Docência 47 bem sua profissionalização e a mediação entre os conhecimentos acumulados pelo homem (cultura geral) e o educando. Essa atitude do educador, imbuído da postura ético-educacional, deve se lastrear em um conceito de educação voltado para a elevação do educando como sujeito ativo: integrante, atuante e participativo no mundo que o circunda. Já o educando que deve ser entendido como sujeito ativo, não foge às determinações da realidade, uma vez que ele através de suas escolhas se constrói ou se aliena diante dos valores instituídos. O educando é o indivíduo sedento de conhecimentos que o possibilite desenvolver a capacidade de avanço e crescimento. Mesmo que, às vezes, inconscientemente, ele busca um novo degrau de conhecimentos que o ajude a compreender a realidade circundante para saber agir e intervir nela. E a relação professor-aluno institui-se a partir do instante em que o educando necessita do educador para mediar sua aquisição de conhecimentos e sua capacitação de confrontação desses conhecimentos com a realidade, legitimando-os: tanto a realidade, quanto os conhecimentos, conscientemente. O educador, então, deve estar ciente do fato de que o educando é sujeito ativo e participativo que tende a crescer como sujeito ao longo do processo ensino-aprendizagem. E que ele mesmo, o educador, deve buscar ser um sujeito ativo e participativo, um agente político com formação histórico-cultural, político-social e técnico-profissional. E como essa relação pode ser entendida mais amiúde? Observemos e visualizemos de certa maneira a sala de aula e suas exigência para com a prática docente e a ação discente. Ora, essa relação professor-aluno não pode ser reduzida à execução técnica da profissão educativa que através didática a restringe ao rigor dos conhecimentos científicos profissionalizantes que determinam uma relação puramente pragmática. Cabe ao professor, que se vale da pedagogia indicada nesses nossos estudos – uma pedagogia crítica da aprendizagem –, estabelecer uma relação de confiança e respeito, de companheirismo e parceria com seus alunos. Cabe, ainda, ao professor colocar-se em posição estratégica para reforçar a capacidade cognitiva, crítico-reflexiva, ético-moral e político-social do aluno, impelindo-o a perceber-se parte da vida em sociedade que envolve aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais e morais que devem ser repensados cotidianamente aumentando-lhe a autoconfiança. Ao professor compete compreender que as relações interpessoais marcam resolutamente as condições da aprendizagem, devendo, portanto, criar condições para que essas relações se estabeleçam de modo a produzir o efeito desejado, a saber: a aprendizagem. Dessa forma, criar estratégias de ensino que instiguem a curiosidade, a inteligência e a busca pelo conhecimento como elemento fundamental do processo ensino-aprendizagem. A condição de liberdade do ser humano deve respaldar o entendimento que o aluno deve se sentir livre para errar e aprender sem constrangimentos, uma vez que isto o inibe impedindo o seu avançar rumo à aprendizagem. Nesse caso, o professor deve se preocupar em apoiar a autonomia do aluno. Então, a aprendizagem significativa é aquela em que o aluno participa efetivamente do processo ensino-aprendizagem, junto à qualidade das informações transmitidas, discutidas e confrontadas com fins de auxiliar na sistematização do conhecimento na cabeça do aluno. A relação professor-aluno, por conseguinte, pede posturas ativas e participativas que motivem a ação pro ativa em busca do conhecimento. Do interesse do professor pelo aluno, do seu nível de aprendizagem e de dificuldade e das estratégias pensadas, então, para superar as dificuldades e potencializar a aprendizagem. 48 FTC EAD | HISTÓRIA FT Por fim, muito embora seja essa relação horizontalizada, bem se vê que é o professor quem mediará e levará o aluno a re-elaborar seus conhecimentos e sua cultura, fazendo-o galgar degraus que o possibilite a repensar esses conhecimentos e os valores condicionantes de sua própria cultura. Essa conduta das relações que devem ser estabelecidas em sala de aula revela bem o caráter das dimensões da ética na docência, vez que se priorizam os atores do processo ensino-aprendizagem (educador-educando) como seres íntegros e integrados ao mundo em que vivem de forma consciente. Atividade Complementar 01. Id Identifi tifique, em sua prática, áti pelo l menos, 03 situações it õ em que vocêê se valeu l ddo senso comum. Depois, demonstre as conseqüências (positivas e negativas) para sua própria prática e de como essa percepção renovou seus conhecimentos e sua atitude como professor. (Lembre-se: para discutir essas situações, valha-se das categorias discutidas nesse tema). 02. Articule a idéia proposta no texto complementar, cujo autor é MARTINS, com as discussões feitas ao longo dos conteúdos 1 e 2 desse tema, com o fim de compreender a dimensão política como parte imprescindível na formação do professor numa sociedade democrática. 03. Em que sentido pode-se dizer que entre o professor e o aluno, ao se configurar uma relação pragmática, há um aviltamento dos humanos ali envolvidos e um descrédito da relação dialética? 04. Explicite e discuta os graus de formação necessários para o educador cuja prática está voltada, prioritariamente, para o indivíduo que sofre a ação pedagógica e o mundo em que está inserido. 05. Identifique e selecione as idéias chaves do texto complementar “O lugar da ética no trabalho do (a) professor (a)”. Depois, comente-as, reflexivamente, à luz dos nossos conteúdos. Dimensões da Ética na Docência 49 ÉTICA NA PESQUISA ÉTICA E CIÊNCIA Parte da discussão que empreenderemos nesse conteúdo você caro (a) estudante deve ter visto ao longo do curso quando estudou metodologia científica. Porém, essa similaridade é inevitável, uma vez que queremos entender as relações entre Ciência e Ética. O homem sempre empreendeu esforços em busca da verdade, da compreensão do real, da explicação de sua natureza interna e da natureza externa que o cerca, sempre buscando dar conta das questões sobre seu surgimento, seu papel no planeta, enfim a razão da sua existência, a melhor maneira de superar os desafios. Nas diferentes dimensões do conhecimento humano, o homem apresenta respostas e avança na compreensão do mundo. Esse avançar originou-se desde o momento em que a saga humana sobre o planeta configurou-se como a busca do homem em ter uma relação menos insegura e menos temerosa com a natureza procurando controlá-la, mesmo inconscientemente. Essa busca originária inconsciente de controle e domínio da natureza veio desembocar na ciência como nós a conhecemos hoje. Todavia, como fazemos ciência em nossa contemporaneidade desde que ela foi elevada à forma mais sólida de conhecer as nuances da natureza lá pelos idos do século XVIII. Bem, a Ciência pode ser entendida, como uma sistematização de conhecimentos, um conjunto de proposições logicamente correlacionadas sobre o comportamento de certos fenômenos que se deseja estudar. Ou melhor, a Ciência é fruto da tendência humana para procurar respostas e justificações positivas e convincentes.. Nesse sentido, a Ciência é um conjunto de conhecimentos racionais, certos ou prováveis, obtidos metodicamente sistematizados e verificáveis, que fazem referência a objetos de uma mesma natureza, cuja descrição e interpretação se tornam teorias, leis, modelos, visando ao conhecimento de uma parcela da realidade, em contínua ampliação e renovação, que resulta da aplicação deliberada de uma metodologia especial: a científica. Desses conceitos evoca-se a característica de apresentar a ciência como um pensamento racional, objetivo, lógico e confiável que tem como particularidade o ser sistemático, exato e falível, ou seja, não final e definitivo, pois deve ser verificável, isto é, submetido à experimentação para a comprovação de seus enunciados e hipóteses, procurando-se as relações causais. Procuremos compreender, então, qual a natureza da Ciência como meio de desvendar suas imbricações com a responsabilidade ética. Em se tratando de analisar a natureza da ciência, podem ser explicitadas duas dimensões, ou seja, a compreensiva (contextual ou de conteúdo) e a metodológica (operacional), abrangendo tanto aspectos lógicos quanto técnicos. Pode-se conceituar o aspecto lógico da ciência como o método de raciocínio e de inferência acerca dos fenômenos já conhecidos ou a serem investigados; em outras palavras, pode-se considerar que o aspecto lógico constitui o método para a construção de proposições e enunciados, objetivando, dessa maneira, uma descrição, interpretação, explicação e verificação mais próximas da verdade do objeto estudado. Pode-se classificar as ciências em formais e empíricas. As primeiras tratam de entidades ideais e de suas relações, sendo a Matemática e a Lógica as mais importantes. As segundas tratam de fatos e de processos. As ciências empíricas, ainda, podem ser classificadas em naturais e sociais. Dentre as ciências naturais estão: a Física, a Química, a Biologia, a Astronomia. Dentre as ciências sociais, estão: a Sociologia, a Antropologia, a Ciência Política, a Economia, a Psicologia, a História. 50 FTC EAD | HISTÓRIA FT Como dissemos, a Ciência termina por gerar representações conceituais da realidade sobre a qual se debruça. A essas representações chamamos de conhecimento. Sim, mas que é conhecimento e qual sua natureza? O conhecimento é o atributo geral que tem os seres vivos de reagir ativamente ao mundo circundante, na medida de sua organização biológica e no sentido de sua sobrevivência. O homem, utilizando de suas capacidades, procura conhecer o mundo que o rodeia, a informação, a prática de vida resulta em conhecimentos. No dia-a-dia, o ato de conhecer se manifesta tão natural que nós nem nos damos conta da sua complexidade. Assim, entramos na engrenagem do conhecimento do mundo sem colocar em pauta o que significa conhecer. Contudo, à medida que nos defrontamos, na relação com o mundo, com os vários campos e formas de conhecimento, entramos num emaranhado de conceitos. Então percebemos que quase não problematizamos questões básicas como: Quem conhece? Como conhece? Para que conhece? O conhecimento verdadeiro é o conhecimento objetivo? E o conhecimento subjetivo é falso? As instituições escolares lidam com um modelo de conhecimento imposto pela ideologia do sistema tecnocrata, principalmente se o modelo escolar for tradicional e/ou tecnicista, pois, como vimos esses modelos não discutem os problemas sociais nem respeitam as realidades representadas pelos estudantes e o social onde estão inseridos. O fato é que nesse modelo, muitas vezes, há uma deturpação do conhecimento científico. Esse modelo exprime um modo de conhecer e dominar racionalmente a realidade, mas não deveria ser entendida como a única abordagem, uma vez que, esse modelo se acha comprometido muitas vezes com os interesses do sistema. Essa constatação exige do pesquisador uma postura reflexiva e crítica diante do conhecimento e da realidade que o rodeia – o que equivale a uma postura ética perante a condição de se fazer Ciência. E já que existem múltiplas interpretações a respeito do real, diversos são os modos de se enfocar o conhecimento. Só o exame nos possibilita compreender o que está sendo passado de obscuro e de ideológico no meio cultural, e absorvido por nós, na maioria das vezes, sem nenhuma crítica ou reflexão. Esse exame cuidadoso com o conhecimento para legitimá-lo projeta em nós a necessidade de examinar escrupulosamente o objeto da investigação. Uma profunda imersão e observação, e descrição do objeto devem preceder qualquer explicação e interpretação. Logo, apreender os traços gerais essenciais do fenômeno, por meio da auto-reflexão sobre aquilo que vivemos quando falamos do conhecimento, nós o fazemos pelo método fenomenológico que aspira a apreender a essência geral no fenômeno concreto. Ora, no conhecimento encontram-se frente a frente a consciência e o objeto, o sujeito e o objeto. O conhecimento apresenta-se como uma relação entre estes dois elementos, que nela permeiam eternamente separados um do outro. O dualismo sujeito e objeto pertence à essência do conhecimento. A relação entre os dois elementos é ao mesmo tempo uma correlação. O sujeito só é sujeito para um objeto e o objeto só existe para um sujeito. Ambos só são o que são enquanto o são para o outro. Mas está correlação não é reversível. Ser sujeito é algo completamente distinto de ser objeto. A função do sujeito consiste em apreender o objeto, a do objeto em ser apreendido pelo sujeito. Uma outra questão que essa discussão de uma postura científica revestida de ética levanta é a da Verdade. Do ponto de vista epistemológico, nenhum ramo do saber possui a verdade. Esta não se deixa aprisionar por nenhuma construção intelectual. Uma verdade possuída não passa de um mito, de uma ilusão ou de um saber mumificado. Ao invés de vivermos das evidências e das teorias certas, como se fôssemos proprietários da verdade, precisamos viver de aproximações de certeza e da verdade. Porque devemos ser seus pesquisadores, e não seus defensores. Dimensões da Ética na Docência 51 A este respeito torna-se imprescindível uma opção crítica e reflexiva. Esta só pode surgir da incerteza das teorias estudadas. Se estas já fossem certas, não haveria possibilidade de se fazer uma opção. O que precisamos fazer é relativizar as produções intelectuais e os produtores de conhecimento. De forma alguma a processualidade do saber, quer científico quer filosófico, vem infamar a ciência e a filosofia. Pelo contrário, a processualidade vem reconhecer seus verdadeiros estatutos, uma vez que se trata apenas de revelar os limites do conhecimento. O conceito de verdade não é científico, mas filosófico. O cientista pode aceitar como “verdade”, muitas proposições científicas que julga estarem suficientemente corroboradas ou mesmo outros proposições situadas fora da área da ciência. Assim, procedendo, ele não estará, no entanto, usando o critério científico: verdade, evidência e certeza. Todas as áreas do saber (filosófico, teológico, vulgar, científico) querem o mesmo propósito: a verdade sobre o Homem e sobre o Universo, sobre o ser e sobre cada uma das realidades que constituem infinitos segmentos da natureza. A verdade é o encontro do homem com o desvelamento, com o desocultamento e com a manifestação do ser. O ser das coisas se manifesta, torna-se translúcido, visível ao olhar, à inteligência e à compreensão do homem e quando há uma certa conformidade entre o que o homem julga e diz, e aquilo que do objeto se manifesta, produz-se a verdade. Quanto a evidência, ela é manifestação clara, é transparência, é desocultamento e desvelamento do ser. A respeito daquilo que se manifesta do ser, pode-se dizer uma verdade. Mas como nem tudo se desvela do objeto, não se pode falar arbitrariamente sobre o que não se desvelou. A evidência, o desvelamento, a manifestação do ser é, pois, o critério da verdade. A certeza é o estado de espírito que consiste na adesão firme a uma verdade, sem temor de engano. A certeza legítima supõe, de um lado, a firmeza de adesão da mente a determinado enunciado; de outro, supõe que esse enunciado traduza a conformidade da mente com a realidade ou com o seu objeto de conhecimento. Realizar a verdade significa pensar as coisas como elas são. A despeito desses esclarecimentos para se entender a relatividade das produções humanas (dentre elas, a científica) é preciso não perder de vista a compreensão de que a Ciência é uma instituição social e os pesquisadores e cientistas fazem parte de uma sociedade intelectual investigativa que deve consagrar suas verdades e descobertas à melhoria da condição da dignidade humana e devem favorecer à vida e o bem estar social. A importância da pesquisa científica na formação docente é importante porque essa atitude de ser um profissional que investiga faz com que o professor se renove tanto em seus conhecimentos quanto na sua prática. Essa renovação indica que o professor em sua formação deve desenvolver uma prática reflexiva no seu dia-a-dia de sala de aula fazendo com que seus alunos pensem sobre o mundo a partir dos conteúdos, pois o educador reflexivo não separa a educação da realidade social. Esse profissional deve usar as técnicas de ensino como meios para que ele cresça tanto como profissional quanto como pessoa que lida com outras pessoas e o social, uma vez que a força real da práxis pedagógica é a social que ela pode mudar, ou conservar as relações econômicas, políticas e sociais. Outrossim, leia, atentamente, o texto excerto do livro Escritos de Filosofia II: ética e cultura cujo autor Lima Vaz nos faz refletir sobre as relações entre Ética e Ciência de como elas se vinculam. 52 FTC EAD | HISTÓRIA FT TEXTO COMPLEMENTAR O ethos da atividade científica como ethos pedagógico VAZ, H.C. de L. Escritos de filosofia II: ética e cultura. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 1993, p. 213-215. A atividade científica é, reconhecidamente, um exercício efetivo de formação de um determinado estilo de compreensão do mundo e da sociedade. Assim sendo, todas as suas manifestações (enumeremos, por exemplo, o aprendizado escolar da ciência, a formação em nível superior, a formação de pesquisadores, a atividade de pesquisa e a constituição e funcionamento da comunidade dos pesquisadores, o uso dos objetos técnicos, as tarefas múltiplas dos brain trusts científicos, enfim, a vulgarização científica nos seus diversos níveis), acabam por determinar, em medida maior ou menor, o comportamento e a escala de valores dos indivíduos que se situam no raio dessa esfera de atividade extraordinariamente multiforme e em rápida expansão. De resto, não parece excessivo afirmar que toda a humanidade atual acabou sendo abrangida por essa es. fera, sem dúvida mais real e determinante para a sua existência e para o seu destino do que o espaço físico que a envolve. Pela primeira vez, uma forma de cultura a cultura científica — torna-se efetivamente universal na sua estrutura formal e nas obras que produz. O projeto de uma educação universal, segundo a intuição grandiosa de Augusto Comte, torna-se possível. Ora, toda atividade educativa é essencialmente uma atividade ética no sentido de que a cultura como formação (Bildung) é coextenslva ao ethos e, como fruto da educação, ela é não somente forma de conhecimento, mas também forma de vida. Essa a experiência fundadora na qual repousa a tradição pedagógica do Ocidente [...]. Como processo de educação universal, a ciência é indiscutivelmente plasmadora de um ethos universal que é necessário definir nos seus traços originaís e integrar foi ethoi constituídos das sociedades e das culturas históricas. Por outro lado, dadas as características do método científico, não é difícil compreender o formidável impacto pedagógico que a ciência exerce hoje sobre os homens, e sobre cujo alcance ético é necessário refletir. A ciência é, fundamentalmente, educação para a verdade, para esse tipo de verdade que se alcança no respeito à coerência do ponto de vista lógico e na submissão aos fatos do ponto de vista experimental. A verdade como valor ou como bem e a veracidade como virtude: essa a primeira lição da pedagogia ética da ciência, de enorme importância para que a inteligência prática do indivíduo possa estender-se a outros campos guardando as virtudes da coerência e da objetividade, que são as virtudes fundamentais do indivíduo que aceita viver segundo a Razão: do indivíduo que é, por definição, o sujeito possível de uma Ética. Assim, a ciência pode apresentar-se historicamente como uma matriz pedagógica privilegiada de sujeitos éticos, e é talvez aqui que Ética e Ciência encontrarão o terreno da sua vinculação mais profunda. Outros aspectos da atividade científica apresentam, na sua vertente pedagógica, uma dimensão ética cuja importância não é lícito desconhecer. O primeiro é o da atividade científica como criação. Há aqui um extraordinário apelo à liberdade crítica em face da tirania da rotina que não pode deixar de repercutir poderosamente na formação do senso de responsabilidade ética. O outro aspecto é o da atividade científica como jogo — um extraordinário jogo entre o homem e a natureza. Se refletirmos sobre a essencial função educadora e humanizadora que o jogo desempenhou na história da cultura, não é difícil reconhecer que a normatividade lúdica inerente a essa atividade a um tempo gratuita e rigorosamente regrada desempenhou um papel decisivo nessa obra pedagógica do jogo. É justamente nesse aspecto da normatividade lúdica que se manifesta uma profunda analogia entre o jogo e a ciência, sendo a ciência um desafio permanentemente renovado ao homem pela natureza, fonte de enigmas, mas que não pode ser vencido senão através da submissão a um complexo sistema de regras, constituindo assim uma experiência privilegiada tal como o jogo — da síntese entre a liberdade e a norrna, na qual se reconhece a essência da atividade ética. Para refletir e responder! Pesquise sobre o método fenomenológico, o método dialético e os métodos específicos das ciências sociais. Dimensões da Ética na Docência 53 ÉTICA NAS CIÊNCIAS HUMANAS Como você deve estar lembrado (a) caro (a) estudante durante o século XVIII, os princípios da ciência experimental sob o ideário Positivista desenvolvem-se e promovem descobertas por meio de múltiplas aplicações, sobretudo no campo dos conhecimentos de natureza física. As ciências naturais experimentais entram num rítmo acelerado no século XIX e suas descobertas e validação de verdades se avolumam de tal forma que o ideal só a ciência conhece a realidade de forma segura e válida vai se consolidando. As ciências naturais se vertem em tecnologia. Esse processo de dádivas tecnológicas vai encantando o homem devido ao conforto e a segurança que ela promove, bem como inspirando confiança no homem em seus designios: era preciso a comprovação da teoria no fenômeno a partir da experimentação. Essas descobertas e suas aplicações práticas transformam por demais o modelo econômico daquele século. Em quase todos os âmbitos do viver humano lá estavam presentes as descobertas científicas erigidas à guisa de monolito das ciências naturais e a supremacia do poder racionalizante do homem. Diante desse tremendo sucesso que as ciências naturais promovem evidenciado no visível progresso das sociedades humanas, a partir de seus métodos científicos investigativos, uma pergunta se levantava: por que não estender esse modo científico de lidar com os fenômenos naturais, geradores de tecnologias e progresso, a todos os outros âmbitos do viver e do fazer humanos, isto é, do homem como ser cultural, social e histórico? O fato é que os saberes sobre o homem e o social para serem aceitos dentro do paradigma científico (tais como: objetividade, experimentação, neutralidade), precisou-se mirar na ótica das ciências naturais para fazer valer os conhecimentos produzidos sobre esses objetos. O método empregado no campo da natureza parece tão eficaz que não se vê razão pela qual também não se aplicaria ao ser humano e tudo que envolve sua subjetividade, bem como ao social. Então aparecem as ciências humanas na segunda metade do século XIX. Dessa forma, as ciências humanas desenvolvem-se, segundo a concepção Positivista de construção do saber científico, sustentadas em características como: o empirismo, a objtividade, a experimentação, neutralidade, dentre outros. Porém, com o passar das décadas percebeu-se que as ciências humanas ao quererem proceder tal qual as ciências naturais viram-se impelidas a desfazerem-se do mais caro em seu objeto de investigação: o humano nos homens. É preciso lembrar que as ciências naturais e as ciências humanas tratam de objetos em nada idênticos. O objeto das ciências humanas diferem do objeto das ciências naturais por seu grau de complexidade e por sua facilidade de serem identificados e observados com precisão. Depois, os fatos humanos e os fatos sociais são mais complexos que os fatos naturais (os fenômenos da natureza e suas leis invaráveis) e, por isso mesmo, não podem ser considerados coisas, uma vez que estão sempre situados num contexto. E, dentro dos contextos, esquadrinha-se, ainda, a idéia de que o humano, como ator social, é livre e se caracteriza como um ser integrante e atuante, pertencente a uma certa cutura e toda riqueza de seus símbolos e valores: o que faz da natureza humana um cofre de imprevisibilidade – o que já seria uma impossbilidade para se medir, mensurar e classificar (atitudes da ciências naturais positivistas). 54 FTC EAD | HISTÓRIA FT Trabalho Cultura Lazer Uma outra coisa a ser considerada, como certamente você caro(a) estudante viu em disciplinas como “Fundamentos de Metodologia Científica”, é que nas ciências naturais para se produzir conhecimento faze-se necessário a neutralidade científica, já em ciências humanas o pesquisador procede agindo e interferindo no objeto, além de sofrer as reações (pensamentos e ações) do objeto investigado. E é aqui que as ciências humanas se aproximam da ética, uma vez que o procedimento dos atores envolvidos (sujeito pesquisador e objeto pesquisado) procura salvaguadar a objetividade da pesquisa mantendo a integridade do objeto. E a subjetividade do pesquisador fica preservada quando ele conserva a integridade do objeto de forma racional. Então, a objetividade em ciências humanas se assenta na objetivação da subjetividade, isto é, a cabeça pensante do pesquisador que toma metodicamente consciência do que determina e envolve o fato humano e essa conscientização é racionalizada e comunicada e julgada sua validade do conhecimento produzido. Diante disso, o conhecimento produzido pela Ciência começa a ser entendido de forma mais flexível e aproximadamente exato, contrariamente ao entendimento que se tinha no século passado. O fato do conhecimento produzido pela ciência ser considerado aproximadamente exato nos remete constatar que, nas ciências humanas, o centro das preocupações é compreender os problemas que surgem no campo social como forma de buscar intervir nele contribuindo com soluções. E, ainda, que os fatos situados no campo social guardam uma complexidade, posto que são compostos por objetos vivos, atuantes e pensantes que agem e reagem e que, devido a isso, devem ser investigados com cuidado sem deformá-los ou reduzí-lo para que se possa compreendê-los em seu dinamismo. Diante da necessidade de guardar a complexidade dos fenômenos objetos das ciências humanas, a compreensão deles termina por ser relativa, dependendo da postura aguda do pesquisador em determinar, estudar e interpretar o problema escolhido. O fato é que as ciências humanas ao procurarem com seu método investigativo manter a integridade do objeto investigado e representá-lo o mais racional e fielmente possível, sem deturpá-lo ou distorcêlo, significa que valeu-se de uma atitude ética, posto que reconheceu-se o humano no homem como algo a ser resguardado prioritariamente na pesquisa. Por outro lado, as ciências humanas são atitudes de pesquisadores preocupados em atender as necessidades da sociedade com responsabilidade ética, uma vez que as proposições dos especialistas dessa ciência terminam por refletir no meio social interferindo nele, desenhando-o. O mesmo acontece quando a ética está presente em pesquisas de cunho social cujo objeto de investigação é o fato social, os contextos históricos onde estão inseridos os atores/agentes e as instituições que organizam a sociedade. Vejamos, a seguir, no próximo conteúdo como podemos refletir sobre as ciências sociais e sua imbricação necessária com a ética. ÉTICA NAS CIÊNCIAS SOCIAIS E HISTÓRIA Como vimos nos conteúdos que antecederam este que a atividade científica é um exercício de compreensão do mundo de forma rigorosa, analítica e reflexiva. Essa atividade se estabelece através das ciências naturais com seus objetos de investigação e métodos investigativos que com o rigor analítico dos dados/fatos reduz a natureza às teorias e leis científicas. Por outro lado, como vimos também nos conteúdos anteriores, essa atividade se desenha no horizonte das ciências humanas que deve manter a integridade do seu objeto de investigação e toda complexidade que o envolve como forma de se investigar/pesquisar com ética. Dimensões da Ética na Docência 55 Agora, debruçaremos sobre a pesquisa social e mais especificamente sobre a pesquisa em história para desvendar e perceber a relação entre a atitude investigativa nessa ciência e suas consequências éticas tanto para o pesquisador e o objeto de estudo, bem como para o contexto socio-histórico. O primeiro passo que devemos dar é resgatarmos o que é ciência social, qual sua natureza e métodos investigativos, para que tenhamos condição de compreendermos essas relações. Comecemos procurando desvendar ou lembrar a natureza da ciência social. A pluralidade de objetos científicos, demandou o desenvolvimento das ciências particulares. Entre elas figura as ciências sociais. No entanto, é bom lembrar, as ciências sociais não têm as mesmas regalias e prestígio conferido às ciências físicas/naturais e, por vezes, quer-se a sua não-inclusão no relação das ciências legítimas. Vamos relembrar o porquê: Segundo Antonio Carlos Gil (1999), as principais objeções apresentadas às ciências sociais que supostamente impossibilitaria uma atividade científica tal como as ciências naturais são: a) Os fenômenos humanos não são previsíeis ou reguláveis, porque não ocorrem de acordo com uma ordem semelhante à observada no universo físico; b) As ciências sociais, assim como as humanas, lidam com entidades que não são passíveis de quantificação, o que torna difícil a comunicação e o reconhecimento dos resultados obtidos em suas investigações. c) Os pesquisadores sociais, por serem humanos, trazem para as suas investigações valores prejudicando os resultados de suas pesquisas. d) O método experimental das ciências físicas/naturais exige o controle das variáveis que poderão interferir no fenômeno estudado. Considerando os fenômenos sociais que envolvem uma variedade tão grande de fatores que tornam inviável, na maioria dos casos, a realização de uma pesquisa experimental. Como você lembra, caro(a) estudante, nós já levantamos questões semelhantes quando tratatmos das ciências humanas e aqui as ciências sociais se choca com as mesmas dificuldades. Mas, é desses impedimentos suscitados pelos cientistas naturais que a ciência social vai se erguer e se firmar como ciência legítima, como veremos a seguir. Certamente, devemos elaborar reflexões também semelhantes sobre essas objeções nos valendo da Filosofia da Ciência para que possamos demonstrar que no seio da própria ciência natural/física instaurou-se o que hoje chamamos de mito da obejtividade e da neutralidade científica, do determinismo científico, bem como do caráter probabilístico de algumas ciências naturais/físicas, tal como a Genética por exemplo. É por isso que essa é a melhor defesa da atividade científica das ciências sociais, uma vez que até nas ciências naturais não se observa a rigorosa observância dos itens considerados. E que as ciências sociais podem ser capazes de fornecer explicações segundo padrões que não se distanciam muito das ciências naturais, apesar de suas dificuldades. A pesquisa científica quantifica, classifica, mensura e objetiva típico das ciências naturais que se norteiam por critérios de cientificidade. Também as ciências sociais têm seus critérios de cientificidade: a coerência (propriedade lógica, ausência de contradição), a consistência (capacidade de resistir a argumentações contrárias), a originalidade (produção inventiva e inovadora), a objetivação (apropriação, ainda que nunca completa, da realidade social como ela é). Esse último critério levanta questões como o entendimento que a realidade social é mutável, a partir dos conflitos socio-políticos e a própria condição subjetiva do homem, portanto, a mudança é 56 FTC EAD | HISTÓRIA FT constitutiva da tessitura interna do social; por outro lado, a realidade social possui estruturas que podem ser reguladas pelo investigador objetivamente. Cabe-nos lembrar que o conhecimento científico em ciências sociais exige um outro critério de cientificidade: a constatação de que as produções e os resultados da pesquisa social devem se expor à validação na intersubjetividade (comparação crítica, reconhecimento): a opinião dominante da comunidade científica em um determinado contexto sócio-histórico. Para tanto, as ciências sociais se valem de métodos específicos tanto de abordagem (indutivo, dedutivo, hipotético-dedutivo, dialético, fenomenológico), quanto de procedimentos (histórico, comparativo, monográfico, estatístico, tipológico, funcionalista, estruturalista, etc.), para observar e investir sobre seu objeto de investigação. Não vamos nos deter na análise desses métodos, porque esse não é o objeto de nossas reflexões nesse tema/conteúdo. Certamente, essa discussão é objeto de disciplinas como Fundamentos de Metodologia Científica, Historiografia e Tópicos de História Social. Aqui nos limitaremos a demonstrar como a pesquisa em ciências sociais envolve necessariamente uma postura ética do pesquisador social tanto em relação ao objeto investigado quanto ao social que será influenciado pelos resultados da pesquisa. Vejamos então como as ciências sociais consolida uma dimensão ética ao evitar os métodos científicos em suas pesquisas, uma vez que esses métodos terminam por desprezar e ignorar a complexidade do objeto social de investigação ao produzir conhecimento científico objetivo. A pesquisa histórica, por exemplo, como pesquisa em ciências sociais, procura a compreensão dos fenômenos sociais contemporâneos desde a comparação relacional entre nações até a compreensão de contextos sócio-históricos de um determinado país, mas para tal ela precisa compreender como o passado está desenhado. O homem e seu passado são também, como já pudemos ver, parte integrante da pesquisa humana e social e, inclusive, histórica. Esta deve se debruçar sobre as provas de forma sistemática e objetiva com fins de estabelecer os fatos e chegar a conclusões que dizem respeito ao passado. Nesse sentido, a pesquisa social em história tem como objetivos principais tanto produzir registros fidedignos ao passado quanto ter uma atitude contribuitiva na procura de soluções dos problemas atuais. Quer dizer, a pesquisa histórica procura coletar dados e informações e descrever o problema em determinado contexto (que os pesquisadores chamam de estudo de corte-transversal), bem como pode tratar de um determinado acontecimento deslocando-se no tempo (que os pesquisadores chamam de estudo longitudinal). Outras considerações propostas na pesquisa histórica é que ela baseia-se em observações e em veemente trabalho bibliográfico-documental que exige do pesquisador uma postura segura e sólida e um esforço tremendo na intencionalidade da pesquisa, na qual a análise dos dados é mais qualitativa que quantitativa. Considerando, também, os critérios de cientificidade nas ciências sociais, essa pesquisa se revela menos quantitativa e mais qualitativa, uma vez que a pesquisa qualitativa é uma designação que abriga correntes de pesquisa que se fundamentam em alguns pressupostos contrários ao modelo experimental e adotam métodos e técnicas de pesquisa diferentes dos estudos experimentais. Os cientistas que partilham da abordagem qualitativa em pesquisa se opõem, em geral, ao pressuposto experimental que defende um padrão único de pesquisa para todas as ciências, baseado no modelo de estudo das ciências físicas/naturais. Estes cientistas se recusam a admitir que as ciências humanas e sociais devam-se conduzir pelo padrão das ciências da natureza e devam legitimar seus conhecimentos por processos quantificáveis que venham a se transformar, por técnicas de mensuração, em leis e explicações gerais. Dimensões da Ética na Docência 57 Antes, as ciências sociais se voltam para orientações filosóficas que afirmam essa relação sempre presente no conhecimento são, principalmente, a fenomenologia e a dialética, para que possam recuperar o objetivo último de suas investigações: os seres humanos com suas crenças e práticas a formar um contexto social. Quanto a fenomenologia, esta considera que a imersão no cotidiano e a familiaridade com as coisas tangíveis velam os fenômenos. É necessário ir além das manifestações imediatas para captá-los e desvelar o sentido oculto das impressões imediatas. O sujeito precisa ultrapassar as aparências para alcançar a essência dos fenômenos. O interacionismo simbólico se inspirando na fenomenologia, rejeita o modelo de pesquisas quantitativas e o rigor mensurável das pesquisas experimentais em ciências humanas para investigar o sentido que os atores sociais dão aos objetos, pessoas e símbolos com os quais constroem o seu mundo social. A etnometodologia, norteada na perspectiva fenomenológica, procura investigar as atividades dos atores sociais e compreender o sentido que os atores atribuem aos fatos e acontecimentos da vida diária. Os métodos quantitativos acabam distanciando o pesquisador do verdadeiro objeto da investigação e se tornam ineficazes para compreender tais ações. A dialética também insiste na relação dinâmica entre o sujeito e o objeto, no processo de conhecimento. Valoriza a contradição dinâmica do fato observado e a atividade criadora do sujeito que observa, as oposições contraditórias entre o todo e a parte e os vínculos do saber e do agir com a vida social dos homens. Nesse sentido, a pesquisa social com teores éticos exige-se qualitativa, ainda que a quantitativa também possa fazê-lo. O fato é que, a própria delimitação e formulação do problema em pesquisa qualitativa decorrem, antes de tudo, de um processo indutivo que se vai definindo e se delimitando na exploração dos contextos ecológico e social, onde se realiza a pesquisa. Também, da observação reiterada e participante do objeto pesquisado, e dos contatos duradouros com informantes que conhecem esse objeto e emitem juízos sobre ele. A identificação do problema e sua delimitação pressupõem uma imersão do pesquisador na vida e no contexto, no passado e nas circunstâncias presentes que condicionam o problema. Todavia, vamos pensar mais detidamente sobre esse pesquisador social que deve se despojar de preconceitos, predisposições para assumir uma atitude aberta a todas as manifestações que observa, sem adiantar explicações nem conduzir-se pelas aparências imediatas, a fim de alcançar uma compreensão global dos fenômenos. Porém, o pesquisador não se transforma em mero relator passivo: sua imersão no cotidiano pesquisado supõe que os sujeitos da pesquisa têm representações, parciais e incompletas, mas construídas com relativa coerência. E quanto aos pesquisados? Estes devem ser reconhecidas como sujeitos que elaboram conhecimentos e produzem práticas adequadas para intervir nos problemas que identificam, por possuírem um conhecimento prático e representações relativamente elaboradas que formam uma concepção de vida e orientam as suas ações individuais. Os dados se dão em um contexto fluente de relações que se manifestam em uma complexidade de oposições, de revelações e de ocultamentos. É preciso ultrapassar sua aparência imediata para descobrir sua essência. Dessa forma, na pesquisa qualitativa todos os fenômenos são igualmente importantes e preciosos: é necessário encontrar o significado manifesto e o que permaneceu oculto. Todos os sujeitos são igualmente dignos de estudo, todos são iguais, mas permanecem únicos, e todos os seus pontos de vista são relevantes: do culto e do iletrado, do delinqüente e do seu juiz, dos que falam e dos que se calam, dos normais e dos anormais. 58 FTC EAD | HISTÓRIA FT Como você pode perceber a ética nas ciências sociais, tal qual nas ciências humanas, parte do princípio de que o seu objeto de investigação (o homem em sua práticas cotidianas configurando seu espaço sócio-cultural) deve ser preservado a todo custo. Uma outra coisa a ser considerada é a responsabilidade do pesquisador em relação ao conhecimento produzido e seus impactos sócio-culturais e as outras dimensões que envolvem a realidade social, tal como as pessoas que a compõe. TEXTO COMPLEMENTAR Pesquisa e ética BOOTH, W.; COLOMB, G.G.; WILLIAMS, J.M. A arte da pesquisa. Trad. Henrique A. Rego Monteiro. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 325-328. Tudo o que dissemos sobre a pesquisa começa com nossa convicção de que essa é uma atividade inteiramente social, que nos une àqueles cuja pesquisa usamos e, da mesma forma, àqueles que usarão a nossa. E também uma atividade não mais limitada ao pequeno mundo social acadêmico. A pesquisa achase agora no centro da indústria, do comércio, do governo, da educação, da saúde, das operações militares, até mesmo do entretenimento e da religião. Ela influencia todos os setores de nossa sociedade e de nossa vida, pública ou privada. Uma vez que a pesquisa e sua divulgação tornaram-se parte da trama de nosso tecido social, nestas poucas últimas páginas apresentamos algumas reflexões sobre um assunto, indo além de sua técnica: a ligação infalível entre a divulgação de sua pesquisa e os princípios éticos da comunicação. • Não destroem fontes nem dados, pensando nos que virão depois deles. Mais do que a maioria das atividades sociais, a pesquisa nos desafia a definir nossos princípios éticos e, então, fazer escolhas que os violam ou os respeitam. A primeira vista, o pesquisador acadêmico pode parecer menos tentado a sacrificar seus princípios em função do lucro, do que, digamos, um pesquisador da Wall Street, que avalia as ações que sua empresa quer vender ao público. Nenhum professor irá lhe pagar para escrever um relatório que sustente um determinado ponto de vista, mas alguns cientistas são pagos para testemunhar que um produto é seguro. Nem é provável que a idéia de alcançar fama internacional venha tentá-lo a comprometer seus princípios, como aparentemente aconteceu com o pesquisador americano que reivindicou ter descoberto um vírus do HIV que, na verdade, “obtivera emprestado” de um laboratório na França. É fácil estabelecer esses princípios e aplicá-los aos infratores — como aquele biólogo que marcou seus ratos com tinta nanquim para fazer parecer que seu experimento genético dera certo, ou o estudante que atribuiu a si mesmo um relatório tirado do arquivo da fraternidade de sua escola, ou o autor que deliberadamente escreve textos empolados para fazer seu pensamento parecer mais profundo. Outros princípios da ética da pesquisa são menos óbvios, mas implícitos: • Pesquisadores responsáveis não apresentam dados cuja exatidão têm motivos para questionar. • Não encobrem objeções que não podem refutar. • Não ridicularizam os pesquisadores que têm pontos de vista contrários aos seus, nem deliberadamente apresentam esses pontos de vista de um modo que aqueles pesquisadores rejeitariam. • Não redigem seus relatórios de modo a dificultar propositalmente a compreensão dos leitores, nem simplificam demais o que é legitimamente complexo. • Os pesquisadores éticos não roubam, plagiando ou reivindicando os resultados de outros. Mais desafiadoras, no entanto, são aquelas ocasiões em que os princípios éticos nos levam além de proibições e exigem que ajamos com espírito de colaboração. Muitos filósofos têm afirmado que o problema ético essencial não reside apenas em evitar a violação de obrigações em relação aos outros, mas, sim, em nos unirmos a eles em um projeto mútuo de desenvolver o que os gregos chamavam de ethos, ou caráter. Ao pensarmos nas escolhas éticas dessa maneira, como uma construção mútua do ethos, já não enfrentamos mais uma escolha simples entre nossos próprios interesses e os interesses dos outros, mas o desafio de encontrar um outro caminho que seja bom para ambos. • Não mentem, adulterando informações das fontes ou inventando resultados. Em situações reais, é claro, tais princípios sempre nos forçam a levantar questões dificeis, às quais Não obstante, já em seu primeiro projeto, você enfrenta escolhas ética. Algumas são os óbvios “Não faça” que discutimos ao longo do livro: Dimensões da Ética na Docência 59 cada uma de nós, os três autores, responderia de modo diferente. Mas uma coisa em que todos concordamos é que a pesquisa oferece a todo pesquisador um convite à ética, que, quando aceito, pode servir aos maiores interesses, tanto do próprio pesquisador, como de seus leitores. Ao tentar explicar aos outros por que os resultados de sua pesquisa devem mudar seu conhecimento, sua compreensão e suas crenças, porque é do interesse deles mudá-los, você precisa examinar de perto não só sua própria compreensão, mas também seus próprios interesses. Quando você cria, ainda que por pouco tempo, uma comunidade de entendimento e interesses comuns, estabelece para o seu trabalho um padrão mais alto do aquele que estabeleceria apenas para si mesmo. Mostrando- se sensível às objeções e reservas de seus leitores, você se ajuda a se aproximar de um conhecimento mais confiável, de uma compreensão melhor e de convicções mais sãs. Ao conduzir sua pesquisa e preparar seu relatório como um diálogo entre iguais, todos trabalhando juntos para alcançar um novo conhecimento e uma melhor compreensão, as exigências éticas a que você se obriga visam o beneficio máximo de todos os envolvidos. Segundo esse ponto de vista, seja o que for que vise os interesses de seus leitores, a melhora de seus hábitos mentais e emocionais será bom para você também. Estabelecendo elevados padrões éticos para sua pesquisa, você não apenas se junta à comunidade dos que estão trabalhando em seu tópico específico —digamos, como Hollywood mudou a história da batalha do Alamo — como também à grande e permanente comunidade de todas as pessoas que alguma vez tiveram curiosidade, trabalharam para satisfazer essa curiosidade e depois compartilharam com outros o novo conhecimento obtido. É essa preocupação com a integridade do trabalho da comunidade que explica por que os pesquisadores condenam o plágio tão violentamente. Quem plagia intencionalmente rouba mais do que simples palavras. Não identificando uma fonte, o plagiador rouba parte da pequena recompensa que a comunidade acadêmica tem a oferecer, o respeito que um pesquisador passa a vida inteira tentando conseguir. O plagiador rouba da comunidade de colegas de classe, fazendo a qualidade do trabalho deles parecer pior em comparação ao dele, e então talvez roube novamente ao receber uma das poucas notas boas reservadas para recompensar os estudantes que fazem um bom trabalho. Quando prefere não aprender as técnicas que a pesquisa pode ensinar, o plagiador não só compromete sua própria educação, como também rouba da sociedade em geral, que investe seus recursos na instrução de estudantes que poderão fazer um bom trabalho mais tarde. Mais importante ainda, o plágio, assim como o roubo entre amigos, transforma em farrapos o tecido da comunidade. Quando o furto intelectual torna-se comum, a comunidade enche-se de suspeitas, depois fica desconfiada e por fim cínica — Quem se importa? Todo o mundo faz o mesmo. Os professores, então, têm de se preocupar tanto com a possibilidade de serem enganados, quanto com ensinar e aprender. Do princípio ao fim, quando visa as necessidades dos leitores, seu conhecimento, seu lugar em uma comunidade, mesmo que essa comunidade seja efêmera ou conflituosa, a pesquisa convida o pesquisador a considerar não apenas sua questão, seu tópico ou problema, como também suas obrigações em relação a suas fontes e seus leitores. Quando você respeita as fontes, preserva e reconhece os dados que possam contrariar seus resultados, quando enuncia apenas afirmações baseadas em fundamentos firmes e admite os limites de suas certezas, você não faz isso só para evitar a violação de regras morais e ganhar crédito. Quando você reconhece o beneficio maior, que vem da construção de uma relação com seus leitores, criada pelos melhores princípios da pesquisa, então descobre que pesquisar pensando no interesse dos outros é servir a seus próprios interesses. Para refletir e responder! Pesquise sobre o determinismo científico; pesquise sobre o mito da neutralidade científica; pesquise sobre o cientificismo. 60 FTC EAD | HISTÓRIA FT Atividade Complementar 01. Disserte acerca das relações entre ciência e ética. Nessa dissertação dissertação, acrescente argumentos próprios sobre ciência aética. 02. Discuta o que significa: “o humano no humano” que as ciências humanas deve preservar e por que deve preservar! 03. O texto complementar Pesquisa e ética revela que “a pesquisa é uma atividade inteiramente social”. Reflita sobre essa afirmativa sem perder de vista a noção de ser educador, de viver num contexto sócio-cultural e de ser um pesquisador e de como essas noções revelariam uma atitude ética na pesquisa. 04. Explique, comentando: na pesquisa histórica, a análise dos dados é mais qualitativa que quantitativa. 05. Enumere e comente quais os critérios que o pesquisador em Ciências Sociais não deve deixar de observar para salvaguardar a objetividade científica. Dimensões da Ética na Docência 61 Glossário ▄ AUTONOMIA ONOMIA – estado d ddo que é autônomo; ô di direito i reconhecido h id a um país í dde se di dirigir i i segundo d suas próprias leis; soberania. Liberdade moral ou intelectual: direito de um indivíduo tomar decisões livremente; liberdade, independência moral ou intelectual: capacidade de se autogovernar. ▄ COMPETÊNCIA – poder detido por um indivíduo, em razão do seu cargo ou função, de praticar atos próprios deste ou desta atribuição, alçada; capacidade que um indivíduo possui de expressar um juízo de valor sobre algo a respeito de que é versado; idoneidade. ▄ CONSUETUDINÁRIA – referente a consueto: acostumado; usual; comum. ▄ DETERMINISMO – conjunto de condições necessárias à determinação de um dado fenômeno; doutrina segundo a qual todos e cada um dos acontecimentos do universo estão submetidos às leis naturais, de tal forma que cada fenômeno está completamente condicionado pelos que o precedem e acompanham, condicionando com o mesmo rigor os que lhe sucedem; doutrina que implica que todas as determinações humanas estão sujeitas à ação providencial, negando o livre arbítrio. ▄ DIALÉTICA – a arte de discutir; arte de raciocinar; arte de argumentar ou discutir; método de compreensão da realidade, seja ela histórica e social (materialismo histórico), seja ela natural (materialismo dialético) (Marx e Engels); todo o pensamento que tem em conta o dinamismo dos fenômenos ou da história e que se mostra sensível às contradições que estes apresentam (séc. XX). ▄ EXISTENCIALISMO – corrente de pensamento, iniciada por Kierkegaard, que, por oposição às filosofias conceituais (essencialismo), cujo modelo é o sistema hegeliano, tem o centro das suas reflexões na existência humana considerada como existência livre, desprovida de normas e de essência abstrata e universal, sendo o homem o responsável pelo seu próprio destino; movimento cultural em torno daquela corrente de pensamento, caracterizado, de uma forma geral, pelo relevo dado à subjetividade e ao método de descrição fenomenológica das realidades existenciais e ao absurdo da existência. ▄ FENOMENOLÓGICO – relativo à fenomenologia: estudo descritivo de um conjunto de fenô- menos. Qualquer formulação teórica (esp. nas ciências humanas, psicologia ou psicanálise) que busque ressaltar descritivamente a experiência vivida da subjetividade, em detrimento de princípios, teorias ou valores preestabelecidos. ▄ HEDONISTA – referente ao hedonismo: antigo sistema filosófico que considerava o prazer como único fim da vida; doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível, princípio e fim da vida moral. ▄ IDEOLOGIA – ciência que trata da formação das idéias e da sua origem; conjunto de idéias, crenças e doutrinas, próprias de uma sociedade, de uma época ou de uma classe, e que são produto de uma situação histórica e das aspirações dos grupos que as apresentam como imperativos da razão;sistema organizado e fechado de idéias que serve de base a uma luta política. ▄ IMPERATIVO – que acentua o caráter de mando, de autoridade, ou que exprime uma ordem; autoritário; categórico; aquilo que se impõe por ser um dever ou uma necessidade irresistível; sentença com forma de ordem ou mandamento, uma exortação veemente que cada espírito racional propõe a si próprio, tendo como objetivo a consecução de um fim prático. ▄ INDIVIDUALIDADE – conjunto de qualidades que constituem o indivíduo; conjunto de atri- butos que constitui a originalidade, a unicidade de alguém ou de algo; qualidade, caráter do que é individual, do que existe como indivíduo. ▄ INDIVIDUALISMO – existência individual; sistema de isolamento dos indivíduos na sociedade, que faz prevalecer os direitos do indivíduo sobre os da sociedade. 62 FTC EAD | HISTÓRIA FT ▄ LABORAL – que diz respeito ao trabalho. ▄ LIBERAL – referente ao liberalismo: doutrina cujas origens remontam ao pensamento de Locke (1632-1704), baseada na defesa intransigente da liberdade individual, nos campos econômico, político, religioso e intelectual, contra ingerências excessivas e atitudes coercitivas do poder estatal. ▄ METAFÍSICA – conhecimento das causas primeiras e dos primeiros princípios; parte da Filosofia que estuda a essência das coisas; conhecimento geral e abstracto; subdivisão fundamental da filosofia, caracterizada pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível, capaz de fornecer um fundamento a todas as ciências particulares, por meio da reflexão a respeito da natureza primacial do ser. ▄ NATURALISTA – referente ao naturalismo, doutrina filosófica e religiosa que considera a Natu- reza como princípio supremo; teoria que nega o sobrenatural como forma de explicar a origem e o desenvolvimento do universo, alegando que toda a Natureza pode ser explicada por leis científicas; estado do que é produzido pela Natureza. Doutrina que, negando a existência de esferas transcendentes ou metafísicas, integra as realidades anímicas, espirituais ou forças criadoras no interior da natureza, concebendo-as redutíveis ou explicáveis nos termos das leis e fenômenos do mundo circundante; doutrina intelectual (p.ex., o marxismo ou a psicanálise) que busca em condicionamentos biológicos, inclinações ou necessidades orgânicas, a origem das manifestações culturais, institucionais ou psicológicas da humanidade. ▄ RETÓRICA – arte de bem falar; conjunto de regras relativas à eloqüência; tratado que expõe essas regras; discurso brilhante de forma, mas pobre de idéias; fala empolada. ▄ PRÁXIS – na filosofia marxista, o conjunto de práticas que permitem ao Homem, pelo seu trabalho, transformar a Natureza, transformando-se também a si mesmo, numa relação dialética; superando e concretizando a crítica social meramente teórica, permite ao ser humano construir a si mesmo e o seu mundo, de forma livre e autônoma, nos âmbitos cultural, político e econômico, dialeticamente. ▄ PROPOSIÇÃO – ato ou efeito de propor; coisa que se propõe; proposta, sugestão. ▄ TECNICISTA – relativo ao tecnicismo: qualidade do que é técnico; tendência a privilegiar a técnica. ▄ TRANSCENDENTAL – que ultrapassa uma ordem de realidades determinadas; de Uma natureza radicalmente superior ou exterior; que dimana imediatamente da razão; Metafísico. ▄ UTILITARISMO – teoria desenvolvida na filosofia liberal inglesa, esp. em Bentham (1748-1832) e Stuart Mill (1806-1873), que considera a boa ação ou a boa regra de conduta caracterizáveis pela utilidade e pelo prazer que podem proporcionar a um indivíduo e, em extensão, à coletividade, na suposição de uma complementaridade entre a satisfação pessoal e coletiva; versão do utilitarismo que leva em consideração prioritariamente as escolhas individuais, no julgamento a respeito do caminho eticamente desejável para a maximização da felicidade; utilitarismo dos atos; versão do utilitarismo que, considerando difícil precisar qual ação individual que levará, de fato, à intensificação máxima da felicidade, prioriza a escolha moral de regras preestabelecidas de conduta, instituições, deveres coletivos etc., capazes de gerar uma satisfação segura, não submetida às incertezas do destino. Dimensões da Ética na Docência 63 Referências Bibliográficas ANDRÉ, M.E.D.A. Etnografia e prática escolar. Campinas: Editora Papirus, 1995 ARANHA, M.L. de A. Filosofia da educação. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 1996. BOOTH, W.; COLOMB, G.G.; WILLIAMS, J.M. A arte da pesquisa. Trad. Henrique A. Rego Monteiro. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 1995. FREITAG, B. Educação, Estado e sociedade. 6ª ed. São Paulo: Moraes, 1990 (Coleção Educação Universitária). GARDNER, H. O verdadeiro, o belo e o bom: os princípios básicos para uma nova educação. R. de Janeiro: Objetiva, 1999. GIL, A.C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5ª ed. São Paulo: Atlas, 1999. GIROUX, H.A. Os professores como intelectuais: rumo a uma pedagogia crítica da aprendizagem. (trad. Daniel Bueno). Porto Alegre: Artmed, 1997. LAVILLE, C.; DIONNE, J. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Trad. 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