ELLEN OLÉRIA: seu disco chega ao mercado oito longos meses após a estreia no reality show ALÉM DA VOZ Q Por José Flávio Júnior Diego Bresani – Estúdio Califórnia Vencedora do programa The Voice, Ellen Oléria lança disco solo na luta contra suposta maldição dos reality shows musicais brasileiros uando o segundo álbum de Ellen Oléria chegar às lojas, na última semana de maio, terão passados exatos oito meses desde sua estreia no programa The Voice Brasil. Favorita desde que fez os quatro jurados virarem suas poltronas com uma interpretação de “Zumbi”, de Ben Jor, a cantora brasiliense de 30 anos sagrou-se vencedora do reality show da Rede Globo. Ganhou carro zero, R$ 500 mil, e um contrato com a gravadora Universal, que está bancando o lançamento do disco. No pop atual, cada vez mais frívolo, oito meses equivalem a oito anos antigos. Há oito meses, ninguém dançava o “Harlem Shake”, nem imaginava que David Bowie poderia lançar um álbum de inéditas. E, daqui a dois meses, a Globo deve começar a exibir os novos episódios do segundo The Voice. Estaria Ellen condenada à fama passageira, resistente apenas ao período em que sua imagem foi exibida na TV nas tardes de domingo? A cantora, assim como vários concorrentes selecionados, chegou ao programa com uma vistosa bagagem. Na última década, Ellen venceu vários festivais de música em sua região, lançou o CD Peça, que gerou o semi-hit “Testando” (regravado agora no registro pela Universal), lotou apresentações em SESCs, e dividiu palcos com rappers conceituados, como Emicida e Edi Rock, do Racionais MC’s. Com o projeto paralelo Soatá, grupo que funde hard rock com ritmos paraenses, ela rodou por vários eventos indies, muitos deles organizados pelo coletivo Fora do Eixo. Em 2007, formou-se em artes cênicas pela UnB, desenvolvendo a partir de então um trabalho teatral de respeito. Por causa desse background, a aparição de Ellen no programa de calouros causou surpresa em seus admiradores. Será que uma artista em nítida ascensão precisaria se expor num programa do tipo, correndo o risco de ser reprovada ou de ouvir comentários desagradáveis sobre sua performance? A própria cantora titubeou ao ser sondada para participar. “Hesitei porque acredito que a TV não é o único meio de se chegar às pessoas. Mas é inegável o poder da telinha como formadora de opinião”, diz. “Reuni família, amigos e equipe para discutir a possibilidade, e decidimos investir no formato, acreditando na arte que fazemos. Acabou sendo a melhor coisa para a minha carreira.” Mas há quem acredite que vencer esse tipo de competição tele- “Lidar com pressões é algo que faço desde que me entendo por gente. Farei o melhor que minhas forças me permitirem” Ellen Oléria visiva não seja a melhor coisa para o competidor. Carlos Eduardo Miranda, jurado nas duas primeiras edições do programa Ídolos, e que até hoje atua em atrações do SBT (é jurado de Astros), está neste time. “Ficar em segundo ou terceiro lugar pode ser até melhor”, defende. “O artista não cai no redemoinho que é o primeiro lugar, quando o prêmio é contrato com gravadora, [e produção de] disco. Quem não ganha pode usar a exposição para começar a construir a carreira. Contrato com gravadora chega a ser mais um castigo do que um prêmio. E, quando o vencedor é definido por voto popular, os melhores candidatos são sempre espirrados. É raro acontecer um caso como o da Ellen, que realmente era a melhor ali.” Miranda demorou um pouco até ser convencido pelo talento de Ellen. “Eu a achava sem personalidade, a típica candidata para o The Voice, muito boa cantora, mas sem saber exatamente a que veio”, analisa. “Ela precisa achar os seus formatos. Se tivesse uma banda tipo Black Keys para acompanhá-la, seria um veneno do inferno.” O disco, que chega ao mercado neste mês, contou com produção de Alexandre Castilho (Marjorie Estiano, Sandy & Junior) e Torcuato Mariano (guitarrista nascido em Buenos Aires que acompanhou Cazuza e Lobão nos anos 80, entre outros). Carlinhos Brown, mentor de Ellen no reality show, participou da regravação de “Aqui É O País Do Futebol”, sucesso de Milton Nascimento também registrado por Simonal e Elis Regina. Outra regravação do álbum é “Jack Soul Brasileiro”, de Lenine, que Ellen interpretou nas semifinais do The Voice. Quando se pergunta a ela se já pensou em gravar um álbum acessível, para não perbillboard.br.com 23 Famoso quem? Desde 2002, o Brasil tem em média um ídolo lançado por ano. Você se lembra de todos – ou de algum? 24 BILLBOARD brasil | maio 2013 CARLOS EDUARDO MIRANDA, jurado do programa Astros, do SBT: contrato com gravadora não é prêmio, é castigo 2002 2004 2005 “Esses programas são feitos para divertir no dia a dia: envolvem o espectador e fazem com que ele curta assistir. O objetivo não é fazer o vencedor explodir. Até porque artista de verdade não se forma da noite para o dia” Fotos Linha do tempo: divulgação Além da morosidade em estúdio, que costuma impedir que o álbum do vencedor chegue logo ao mercado, existem outras questões que atrapalham o caminho de um novo ídolo forjado na TV. A principal é a natural resistência de canais rivais em dar espaço para os revelados. Mas Edu K, músico do grupo DeFalla que acaba de apresentar uma atração similar no canal Spin, o Breakout Brasil, joga luz em outra direção. “Os programas no Brasil têm muita música popular, como sertanejo e samba. Falta uma abertura maior para o rock, algo que lá fora rola muito mais. Meus amigos gringos assistem e torcem por candidatos em todas as edições”, comenta, também puxando a brasa para o Breakout, que teve uma banda de rock na final (a Paranoika, de Curitiba) e o rapper baiano Mr. Ameng como grande vencedor. A missão de Ellen Oléria agora é mostrar que ela não é uma vencedora tradicional de reality show. Em nenhuma das vezes Adriano vizoni der os fãs conquistados a partir do programa, a cantora responde não crer na existência de músicas de fácil ou de difícil digestão. “Acredito em afetos e vínculos. A formação de um público não se restringe a tocar o que é fácil. Eu sempre dei o melhor de mim, e neste disco não será diferente. Está bem bonito”, garante. A questão é que Ellen agora terá de remar sem a sustentação contínua do reality. E é assim que tem de ser, como explica Miranda. “Esses programas são feitos para divertir no dia a dia: envolvem o espectador e fazem com que ele curta assistir. Esse é o foco. O objetivo não é explodir o vencedor. Até porque o artista de verdade não se forma da noite para o dia, mas num trabalho cotidiano, que o programa não acompanha.” Thaeme Mariôto, vencedora do segundo Ídolos, e que hoje integra a dupla Thaeme & Thiago, demorou a entender essa lógica. “A gente sai do programa achando que virou o grande ídolo do Brasil. Ganhei um carro, uma viagem, a Sony me contratou. Pensei, ‘meu Deus, é minha chance mesmo, vou tocar em todas as rádios, e o sucesso virá’. Mas ninguém tem a fórmula mágica”, relata a cantora de 27 anos. “O período com a gravadora passou voando, e nada aconteceu. As pessoas te enxergam como ‘vencedor de reality’, então você tem a obrigação de fazer sucesso. Vem aquele peso, os fãs cobrando. Passei por poucas e boas”, confessa. Thaeme tentou lançar um segundo álbum depois que a poeira baixou, quando seus shows se restringiram ao circuito de bares. O CD nunca saiu. “Para não ficar parada”, fez o curso de teatro de Wolf Maia e apresentou o programa Viver Sustentável, na Rede Vida. Acabou voltando para a academia, concluindo a pós-graduação em Indústria Farmacêutica. Chegou até mesmo a trabalhar como representante nesta área, antes de ser encontrada pelo sertanejo Sorocaba integrando uma banda de baile. O cantor propôs a dupla com Thiago, devolvendo Thaeme para os holofotes. Após dois álbuns e alguns singles exitosos, a dupla está lançando Perto De Mim, pela Som Livre, trabalho gravado em 17 dias. “O disco que lancei depois do Ídolos demorou quatro meses para ficar pronto. Aí já tinha esfriado, as pessoas nem lembravam quem tinha ganhado o programa. Não adiantou fazer Hebe depois. Foi como começar do zero.” A cantora assume que o processo a traumatizou. Ela tinha dificuldade para acompanhar as outras edições do reality. “Eu tinha dó, pois sabia o que os novos candidatos estavam passando, e o que iriam passar na sequência.” Carlos Eduardo Miranda, produtor 2006 2007 2008 que apareceu na TV, a cantora pôde mostrar um de seus maiores dotes, que é o de rimar – como uma autêntica MC – acompanhada por violão, instrumento que domina. Essa habilidade a fez ser admirada pela nata do hip hop muito antes do The Voice receber uma versão brasileira. Quanto à pressão por ter faturado o primeiro lugar, não parece ser algo que intimide a artista. “Todos os expostos no programa tiveram as vidas modificadas, e estão colhendo coisas boas em suas trajetórias. A mostra era competitiva, e a sorte sorriu para mim. Lidar com pressões é algo que faço desde que me entendo por gente. Nesse ponto, nenhuma novidade me cerca. Farei o melhor que minhas forças me permitirem”, promete, revelando que seu mantra atual é um trecho adaptado de “Fé Cega, Faca Amolada”, clássico da MPB: “Deixar a sua luz brilhar e ser muito tranquila. Deixar o seu amor crescer e ser muito tranquila”. 2009 2010 2011 2012 Fama Fama Bis Fama 3 Fama 4 Ídolos Ídolos 2 Ídolos, na Record Ídolos Ídolos Ídolos Ídolos Vanessa Jackson foi a grande vencedora da primeira investida da Globo na área, com um programa inspirado no espanhol Operación Triunfo. A cantora manteve uma agenda de shows movimentada por alguns meses, gravou com os Racionais MC’s, mas hoje não possui tanto cartaz. Tonny Francis, cantor sertanejo eliminado numa das etapas da edição, teve tanto êxito quanto ela, se não mais. Luka, a do hit “Tô Nem Aí”, sequer chegou a ser selecionada pelo programa, apesar de ter tentado. Marcus Vinicius ficou com o primeiro lugar, mas nem de longe teve o reconhecimento de Thiaguinho e Roberta Sá, eliminados antes. Mariana Rios, hoje com um papel na novela Salve Jorge, e Tomate, que integrou o grupo de axé Rapazolla, também passaram pela edição. O premiado foi Tiago, que em seguida formaria dupla com Hugo, eliminado numa fase anterior. Ivo Pessoa chegou a emplacar música em novela. Mas Marina Elali teve mais projeção, e segue pavimentando sua carreira com baladas açucaradas. Foi uma edição tão ruim que o programa não voltou a acontecer. Fábio Souza, o vencedor, assumiu os vocais na banda Pretubom, e a finalista Evelyn Castro tem sido vista em musicais como Tim Maia: Vale Tudo. O vencedor da primeira edição do programa Ídolos, então no SBT, foi Leandro Lopes. O Pica-Pau, apelido motivado por seu moicano vermelho, lançou CD pela Sony, e depois passou três anos no grupo Rapazolla (após a saída de Tomate). Desde 2011, tenta emplacar nova carreira solo. A sul-mato-grossense Thaeme Mariôto também não teve sucesso com o CD que lançou assim que faturou a segunda edição de Ídolos. Tentou soltar um segundo, fez teatro, apresentou programa de TV, e trabalhou como representante farmacêutica, até ser resgatada por Sorocaba, numa banda de baile, para formar a dupla de sucesso Thaeme & Thiago. Em outra emissora, o programa perde com um time menos inspirado de jurados. Rafael Barreto venceu o xará Rafael Bernardo na final, mas nenhum deles brilhou depois. Saulo Roston levou o prêmio, mas a edição do programa é mais lembrada por ter ressuscitado o astro latino Jon Secada, que atuou como jurado em alguns episódios. A estrela foi Chay Suede, que mais tarde integraria o elenco da versão brasileira dos Rebeldes e hoje tem até programa na MTV. Mas ele sequer foi finalista. Israel Lucero ficou em primeiro lugar. Numa edição com enfoque na música sertaneja, o adolescente Henrique Lemes, de 16 anos, sagrou-se campeão. Fã de Alcione, o gaúcho Everton Silva chamou a atenção desde a primeira audição, quando escolheu cantar “Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt. Além do vencedor, Supla e Fafá de Belém foram os destaques, estreando como jurados. billboard.br.com 25