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Semana Nacional ..... ....
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Educar é urna tarefa para todos ......
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Ciclo de cinemna africano cm Moambique.
1............. 0
Conselhos de ProdutIo: Trabalhadores exemplarOs visitaram Inhambane .... 12
Tallios: disciplinar o trabalho ................................18
Como se choma? ..................
.......................24
O ladráo .................. .......
.... ............... 25
O velho e os barcos ................
.................... 26
Cozinha mocambicana urna questa. culturai
0 «Descolonizar» as papilas gostativas.
0 Os sucessos do Matchedje.
0 S6 mulheres é que podem cozinhar.
* E so saber ajeitar.
(Pág. 28)
Saúde: a reabilita4io secial e profissional do& leprosos ........ .. 34
INTERNACIONAL
Timor-Leste: apesar de tudo a Iuta continua!... .................. 41
Argentina: Videla na defensivo ............................... 45
Internacional IMAGENS .................................... 51
.Cartas dos leitores ................................... 54
Data histórica: 1 de Junho dia internacional da crianca .............. 60
Conto: a visita ..............................
........ 02
adioi
«Em humilde submissão a Deus Todo Poderoso que controla o destino das nações
e consciente da lealdade e dedicação constantes que o povo da Rodésia dedicam a
sua Majestade a Rainha (...) adoptamos, promulgamos e entregamos, através desta
proclamação, a constituição soberana ao povo da Rodésia.»
Com estas palavras Ian Douglas Smith proclamava unilateralmente a
«independência da Rodésia,,, há 14 anos atrás. Na tarde de 11 de Novembro de
1965 os aparelhos de rádio em Salisbúria e nas restantes localidades da colónia
britânica da Rodésia do Sul radiodifundia a mensagem «solene» dos colonos em
rebelião. Um jornalista britânico que se encontravn, na altura em Salisbúria
narrava, desta maneira, os acontecimentos <Naquele dia os únicos brancos que se
encontravam junto do monumento a Cecl Rodhes eram jornalistas, alguns
fotógrafos e vários polícias. O Primeiro-Ministro Ian Smith começou a falar com
voz rouca e áspera, de gripe Quando terminou, a Rodésia era independente».
Para dar maior solenidade ao texto da proclamação unilateral da «independência,,.
Ian Smith cita o escritor Shakespeare:
«Quem não tiver fígados para esta luta
Que parta. receberá o seu passaporte
E dinheiro para a viagem».
A farsa política que representava a declaração dos colonos insubordinados
constitui a outra face de um tragédia secular que pesa sobre o povo zimbabweano.
Dias depois da proclamação, o colono promovido a Ministro do Interior ,assegura
:»a Rodésia é actualmente o fulcro da defesa da civilização ocidental em África».
Mais do que um apelo moral aos colonos era uma advertência à Grã-Bretanha. Era um apelo de um filho bastardo ao colonialismo que o gerou. Desde
então, a potência colonizadora respeitou o apelo para a defesa da «civilização
ocidental», mantendo-se firme na sua ambiguidade para com a rebelião dos
farmeiros.
Na realidade, e conforme avançava a luta organizada do povo zimbabweano, os
colonos foram perdendo «fígados para a luta». E, sem esperar receber dinheiro
para a «viagem» foram abando.nando a colónia. Progressivamente, a farsa
iniciada em 1965 ameaça terminar. E antes que, impelidas pela violência popular,
as cortinas se fechem sobre o palco, novos actores são apresentados e encarregues
de acrescentar à encenação do crime e da selvajaria colonial, o gosto amargo da
traição.
Em 1965, Ian Smith discursava: «aqueles que desejam. viver sob um governo
negro têm vários países de África por onde escolher - deixai-nos manter um
governe branco na Rodésia.,, Mas o progresso da luta armada trouxe novas
exigências e um tão declarado racismo tornou-se ínconveniente para a potência
colonizadora. Se os exploradores têm memória curta, os ambiciosos estão prontos
a tudo esquecer, se em troca da traição, receberem títulos e privilégios. Catorze
anos depois, Ian Smith convida Muzorewa, Sithole e Chirau a compartilharem da
cruzada terrorista dos plantadores dc tabaco. Os capitalistas britânicos, que
patrocinam o espectáculo, respiram de alivio mas mantêm um receio: a sala em
que novos e velhos actores representam, tem as suas paredes a estalar como se
uma força incontrolável fizesse da solide? da construção uma aparência ilusória.
Amanh., sob fogo da luta popular, cai rá em ruínas- a velha sala de espectáculos.
TEMPO N.- 450 - pág, 2
semana nacional MINISTRO DA DEFESA DA RDA EM MOÇAMBIQUE
* Reforço da solidariedade militar
O Comissdrlo Político Nacional das FPLM e Vice.Ministro da Defesa Nacional
Armando Guebuza saúda o Ministro da Defesa .da RDA, general Heinz
Hofjmann, momentos após
a sua chegada a Maputo
Zona Libertada da Humanidade», disse a dada altura o Comissário Político das
FPLM, acrescentando que o vosso apoio mancomunado tem-nos permitido criar
condições objectivas no fortalecimento desta retaguarda segura para os
movimentos de libertação na África Austral.
A visita, que se enquadra nas relações de amizade que unem as forças armadas de
ambos os países desde a i-,ta armada de libertação nacional em Moçambique, virá
4 reforçar, disse ainda, os laços de solidariedade militantes entre nós e marcar um
salto qualitativo nas nossas relações.
O Ministro da Defesa da RDA reiterou, na altura, a disposição do seu pais em
continuar a apoiar as lutas de libertação nacional, saliciais entre delegações da R PM e da RDA, chefiadas respectivamente pelo
Comisário Político Nacional das FP LM e Vice-Ministro da Defesa Nacional,
Armando Emilio Gtuebuza e pelo Ministro da Defesa da RDA, General Heinz
Hoffmann.
Durante a sua estadia de uma semana no nosso pais, a delegação ministerial alemã
depôs uma coroa de fiores no monumento aos Heróis Moçambicanos e efectuou
visitas à Cometa-Mometal, ao Museu da Revplução e à 1." brigada das FP LM na
província do Maputo.
Numa curta deslocação à província de Nampula, a delegação visitou ainda a
Escola Militar e a Praia das Chocas.
Para reforçar os laço. de solidariedade entre a RoQpblica Popular de Moçambique
e a República Oemocrática Alem, no campo militar chegou a MIputo, no passado
dia 22 uma delegação ulemi de alto nível chefi ada pelo Ministro da Defesa da
RíA, -general Helnz HoS at n. A visita efectua-se a convite do Ministro da Defesa
Nacional, Alberõ Joaquim Chipande.
Armndo Emílio Guebuza, membro do Comité Político Permanent* do Comité
Centr1 do Partdo FreUkmo, Comúsásrio Político das FPLM e Vice-Ministro da
Defesa Nacional deu as boas-vindas ao general Hoffmann, membro do <ýBureau»
Político do Com Central do Partido Socialta Unificado Alemão o Ministro da
Defesa da RDA, mom:entos após a sua chegada a Maputo. A noite, ofereceu ao
ilustre visitante, em nome do Ministro da Defesa
Abertura das conversações ofictais entre delegações da RPM e da RDA chefiadas
respectivamente pelo Coinissádrio Político Nacional das FPLM e Vice-Ministro
da Defesa Nacional, Armando Guebuza e pelo Ministro da Delesa da RDA,
general Heinz Hoffmann
Nacional, Alberto Chipande, um jantar que se realizou nas instalações do Clube
Militar.
«Apreciamos o apoio que a RDA e os demais países socialistas têm prestado às
forças progressistas e revolucionárias do mundo, contribuindo para a extensão da
entando que a RDA faz tudo o que pode para ajudar os povos em luta, nos campos
político, económico, diplomático e também militar.
Estamos prontos - frisou
- a ajudar na defesa da Revolução.
Na manhã do dia 23, iniciaram-se conversações oiAntes da partida da delegação ministerial alemã, de regresso ao seu país foram
pssinados documentos ofidais no termo das conversações. (Em próxima edição
roferir-nos-emos mais detaIhadamente a esta importante visita).
TEMPO N.o 450 - pág. 3
ALFABETIZAÇÃO: TRABALHADORES EM FORMAÇÃO
NO C. F. M.- SUL
No desencadeamento d a Campanha Nacional de Alfabetização, o Presidente da
Fre. limo, definiu a alfabetização como um factor base para o aumento da
produção e produtividade.
Na materialização desta orientação os C.F.M. - Sul, têm em funcionamento, desde
o mês de Fevereiro, aulas de Edu
versidade Eduardo Mondane, têm dado apoio pedagógico aos cursos de Educação
de Adultos em curso nos CFM - Sul. Dois mil cento e seis trabalhadores estão a
ser alfabetizados por 105 trabalhadores pre-parados durante o primeiro trimestre.
Está também em vista haver no segundo trimestre uma
de produtividade parece ter atingido os 15 por cento sem que grandes
investimentos em equipamentos ou força de trabalho tenham sido feitos.
Segundo o referido Departamento, o recente índice de aumento de produção e
produtividade industrial, deve-se principalmente à actual reorganização
centralizada dos vários centros de produção inO. M.S.
dustrial no país que vinham até aqui sendo alvos de sabotagem económica ou
abandono por parte das si'ras administrações e direcções técnicas, e ainda às
perspectivas que este novo tipo de organização do sector industrial oferece em
termos de racionalização de meios materiais e humanos.
o
PONTO- DE PARTIDA PARA RECONSTRUÇÃO DA AFRICA
PREVISTO
AUMENTO DE 23 POR CENTO NA PRODUÇÃO INDUSTRIAL
Estima o Gabinete de Pianificação do Ministério da Indústria e Energia, que a
nossa produção indstrial venha a re gistar este ano um aumento de cerca de 23 por
cento.
Os cálculos deste Gabinete de Planificação dizem-nos que de 1977 para 78 o
aumento de produção registado no sector industrial. foi de 20 por cento, enquanto
a evolução do índice
Reforçar o apoio aos movi- balhõs realizados em todo mantos de Ubertação
Nacional Mundo, para que toda a poda Africa Austral ou seja, aos pulação
mundial possa benefiPovos de Zimbabwe, da Na- ciar de uma assistência
mémíbia e da África do Sul. cons- dica decente no ano 2000. titui um ponto de
partida na Antes da sua partida para b-sca da paz e da recons- Genebra, Hélder
Martins, distrução africa -, este o apelo se no aeroporto de Mavalane, do Ministro
Moçambicano de em Maputo, que antes do aní Saúde, Hélder Martins, em Ge2000 o Povo moçambican1 nebra, numa reunião da Orgã beneficiaria de uma
assistência nização Mundial de Saúde e saúde decentes uma vez que (OM.S.).
na RPM a prioridade foi dad
à Medicina Preventiva no cani
Esta reunião teve como ebjec ~poe nas cidades.
tivo passar a revisão dos traEDUCAÇÃO POLITICA NAS ESCOLAS !
Realizou-se durante a se- do Comité Político Permanen1. mana passada em
Maputo uma te Jorge Rebelo. reunião nacional de professores Usando da
palavra na ses-ý que, representando os secto- são de abertura da reuniãa res de
educação de todo o Jorge Rebelo chamou a atenpaís, discutiu problemas ligação para o facto de depender dos à aprovação do projecto em grande parte da
formação de inclusão na3 aulas da dis- de quadros polit!cos a nível ciplina de
«Eduação Política». da educação a formação do ho A sessão de abertura contou
mem novo, - elemento dina com a presença do Secretário mizador para a criação
da sodo Trabalho Ideológico do ciedade socialista Partido Frelimo e membro
TEMPO N., 450 - pág. 4
FESTEJADO 50.0 ANIVERSARIO DE MARCELINO DOS SANTOS
«Saudamos, o homem, o poeta, e intelectual revolucionário. Saudamos em ti o
humanismo, o carinho e o amor na relação humana de delicadeza, respeito pela
criança. pela pessoa idosa independentemente de quem é» - estas algumas das
palavras proferidas pelo Presidente Samora Machel no dia 20 de Maio último
durante um brinde em homenagem a Marcelino dos Santos que nesse dia
completou 50 anos de idade.
Na cerimônia estiveram presentes dirigentes do Partido, quadros, parentes e
amigos de Marcelino dos Santos. Veterano da luta pela libertação africana.
particularmente de Moçambique, Marcelino dos Santos é hoje membro do
Comité Político Permanente, Secretário do Comité Central para a Política
Económica do Partido, Secretário da Comissão Permanente da Assembleia
Popular e Ministro do Plano.
«Saudamos hoje o dirigente
- diria o Presidente da FRELIMO - a grandeza da humildade de quem foi pai
fundador da FRELIMO sabendo-se tornar filho do Partido Frelimo.
Em ti, Camarada Marcelino, saudamos o militante que soube viver e ver, ver claro
os momentos de crise, o militante que soube ver os caminhos correctos e deles ser
alavanca,»
Referindo-se depois à fase em que Marcelino dos Santos viveu no exílio, o
Presidente Samora Machel afirmou:
«Ao saíres para Portugal, para França, ias à busca de conhecimentos- Entretanto
des cobres novo sentido de conhecimento, novos valores, novo mundo: a luta:
Este é que é o novo mundo: a luta!»
E em contacto com este novo mundo, a palavra ciência feita pelos operários, a
ciência feita pelos trabalhadores, a ciência feita pelos oprimidos
- o marxismo!
E nessa luta enriqueceste o conhecimento. Mas não é suficiente. Mas com a
vitória regressas ao teu País, ao teu povo, para dele te tornares aluno, para dele
aprenderes e veres o que é o verdadeiro sentido do conhecimento, E orgulhis-te de
ser alunol
Aí, admiramos-te»
GOVERNADOR DE SOFALA VISITA DISTRITO DE, BUZI
«Ê preciso organizarmo-nos para aplicarmos as decisões do Partido Frelimo
construindo as aldeias comunais» disse o primeiro secretário do Parado Frelimo e
Governador de Sofala Fernando Matavele, numa reunião realizada com os
trabalhadores da açucareira do Búzi e com as populações da localidade.
Neste encontro estiveram também presentes elementos das estruturas distritais do
Partido Frelimo e Governo; O responsável máximo da província apelou às
estruturas do distrito de Búzi para que planifiquem e controlem adequadamente as
suas actividades.
Mais adiante, Fernando Matavele disse que é necessária a neutralização , de todos
os agentes do inimigo, sejam eles quais forem, incluindo aqueles com quem
tenhamos laços familiares, para impedir a destruição das conquistas populares da
revolução moçambicana. Foi por isso, explicou, qiie se criou o Tribunal Militar
Revolucionário, instrumento que reprime violentamente os inimigos do povo e do
Estado Popular, Neste encontro foi
apontada a necessidade de combate aos vestígios coloniais.
No que diz respeito aos abastecimentos de primeira necessidade cada distrito,
disse o governador deve contar com as suas próprias forças.
Antes da intervenção do responsável máximo da Província, as populações locais e
trabalhadores da Companhia do Búzi leram mensagens, nas quais salientavam
uma determinação em aplicarem as orientações do Partido Frelimo e do Governo,
impedirem a infiltração do inimigo e apoiar a justa luta dos povos oprimidos de
todo mundo particularmente do Zimbabwe, Namíbia e Africa do Sul,
Os trabalhadores da Companhia do Búzi e populações locais entregaram um
donativo' aoí Governador Fernando Matavele no valor de 96.938$00 para apoio à
capacidade defensiva do nosso País.
Fernando Matavele agradeceu a determinação destes trabalhadores recordando
depois as razões 'que levam os imperialistas a agredirem a República Popular de
Moçambique 0
ESCOADO POR NACALA
Uma delegação do Governo cabido Provincial de Nampula chefiada Zambé pelo
Primeiro Secretário Pro- a segu vincial do Partido e Governa- visita dor da
província de Nampula EMOC Daniel Mbanze, acaba de vi- rué. C sitar a
província da Zambézia insufici para discutir problemas ligados do por ao
escoamento do chá produ- problen zido na Zambézia pela EMO- a provi CHÁ,
através do porto de Na- vessa cala na província de Nampula. CHÁ e No distrito
de Alto-Molócué, mento no norte da província da Zambézia, Daniel Mbanze foi
repelo seu homólogo na zia Osvaldo Tazama que iir o acompanhou numa
ás duas fábricas da HÁ io distrito do Guomo consequência das ências de
escoamento to de Qkelimane e dos nas de transportes que ncia da Zambézia atraos
armazéns da EMOrncuntram-se neste mocompletamente cheios
'TEMPO N.o 450 - pág. 5
CONTACTOS INTERPROVINCIAIS: CHA DA ZAMBÉZIA
INDÚSTRIA AÇO'CAREIRA: MOÇAMBIQUE INDEPENDENTE EM 80 POR
CENTO DA MAQUINARIA
A empresa metalo-mecánica nacional CIFEL-SMP acaba de informar, através do
seu administrador técnico, a garantia na fabricação, manutenção e recuperação de
80 por cento da maquinaria necessária ao funcionamento de toda a indús tria
açucareira nacional.
Portanto a indústria metalúrgica nacional encontra-se a partir de agora preparada
para produzir, recuperar e assistir cilindros de oito a quinze toneladas, entra outro
equipamento para a indústria açucareira como, por exemplo, trituradores e
transportadores de cana para alimentação das caldeiras e diverso material de rega.
Em 29 de Agosto de 1978 foi, pela primeira vez, fabricado em Moçambique um
cilindro de ferro fundido de oito toneladas. Até agora já foram fabrisé Moiane, afirmou que aquela gesto militante demonstra que «os trabalhadores
assumiram já a responsabilidade de que cada cidadão deve amar a sua Pátria».
Entretanto, no decorrer de uma reunião realizada no Micados, com projecto, mão-de- nistero dos Negocios r.s=an-obra e material
nacional, 20 geiros, com o objectivo de cocilindros deste tipo. Mais 30 memorar
o Dia Internacional destas peças serão ainda fa- dos Trabalhadores, foi
apresenbricadas este ano destinando- tada um proposta, unanime.
-se à utilização das fábricas mente aceite, segundo a qual açucareiras nacionais
durante os trabalhadores daquela Mia campanha de 1980.
nistério
resolveram dedicar
Entretanto, dum novo tipo meio-dia de trabalho em apoio de triturador inventado
e pro- à nossa capacidade defensiva. duzido pelos trabalhadores da
CIFEL-SMP, surgiu um au- CR mento no índice de produçãoCEIFA UE
ARROZ NO de cerca de 50 por cento em
relação ao processo utilizado Iniciou-se no dia 25 do corcom a máquina anterior,
rente, a campanha para a caiA fabricação de todo este la do arroz no -Vale do
Limequipamento para a indústria popo -onde em 35 dias cerca açucareira em
território nacio- de 40000 pessoas proveniennal a partir de material velho tes das
Províncias de Maputo reconvertido e matéria-prima e Inhambane e todos os
disimportada, vai poupar ao pais tritos de Gaza, deverão colher cerca de 50 mil
contos em di- com a ajuda de 164 autocomvisas de material que seria até binadas
mecânicas e 230 caaqui importado do estrangeiro.
e
Na Província de Sefala, as Forças Policiais io estacionadas procederam entrega
da importãncia de 99 220$00 ao Primeiro Secretõrio Provincial do Partido e
Governador da Província, igualmente para apoio da nossa capacidade de;ensiva.
Ainda na mesma Província, a população do Distrito de Clibavava, no âmbito das
comemorações do Dia Internacional dos Trabalhadores contribu com 109000 para
o mesmo fim.
VALE DO LIMPO[
campanha do arroz de 19' /79 em Gaza aproxima-se das 60 000 toneladas fixai
pelo III Congresso da FREUI para o Vala do Umpopo e siderado o «Celeiro da P
ção».
Os trabalhos da ceifa se distribuídos da seguinte ma: No Complexo Agro-Ind
CONTRIBUTOS PARA REFORÇO DA CAPACIDADE DEFENSIVA
* Casal de cooperantes dinamarqueses
entrega 60 mil escudos
Após dois anos de trabalho no nosso Pais, um casal de cooperantes dinamarqueses
decidiu oferecer a quantia de 60 mil escudos para reforço da nossa capacidade
defensiva. Com idêntico objectivo, os trabalhadores da Imprensa Nacional
fizeram a entrega de 27 mil escuidos.
Ao agradecer a contribuição do casal dinamarquês, que trabalhou nas Províncias
de Maputo e Gaza, o Primeiro Secretário do Partido e Governador da Província,
José Moiane, disse que desde a Luta Ar- mada de Ubertação Nacional,
os países escandinavos, entre os quais a Dinamarca, vinham apoiando a luta pela
libertação do -Povo moçambicano.
Ainda durante o acto, Peder Pedersen e sua mulher, Bodil Moltesen, afirmaram
que «a República Popular de Moçambique é um farol e estímulo no caminho para
a liberdade, paz e desenvolvimento social, económico e político, rumo ao
socialismo».
No encontro com os trabalhadores da Imprensa Nacional, representados pelo
Grupo Dinamizador, o Governador Jomiões, um total previsto de 56415 toneladas de arroz.
Os participantes e as máquinas serão distribuídos pelo Complexo Agro-Industrial
do Limpopo, pela Unidade de Pro dução do Baixo Limpopo e pelas várias
cooperativas agrícolas da Provincia de Gaza onde se realizará a campanha. De
uma área total cultivada de 22566 hectares de onde serão ceifadas as 56 416
toneladas de arroz, a produção da
trial do Umpopo as 149 at combinadas aí existentes farão 6000 hectares enqUa
24.000 pessoas deverão far os 9000 hectares restli Na Unidade de Produção Baixo
Umpopo 15 autocon nadas irão colher 1500 he res enquanto 11900 pess ceifarão 3
500 hectares. 3 pessoas serão distribuídas las diferentes cooperati agrícolas
TEMPO N.O 450 -pág. 6
Faleceu, na semana passada, Inicio de lousa. conhcido agricultor e industrial
portuguis. Residente em Moçambique desde 1937, desenvolveu iniciativas válidas
nos sctores agrícola e industrial na área do distrito da Manhiça. Após a
proclamação da Independência Nacional deu uma contribuição válida para a
recuperação da economia nacional integrando-se nas directivas traçadas pelo
Governo moçambicano.
Destaou-se nas acções de salvamento das populações atingidas pelas cheias
ocorridas no Vaie do Umpopo, tendo também sido dos primeiros a preocupar-se
pela recuperação das áreas afectadas por aquela calamidade natural, dando ao
mesmo tempo um apoio activo aos desalojados. Ofereceu-s deste modo para construir uma ascola numa das aldeias que se
formaram na sequncia das cheias.
Esta contribuição para a reconstrução nacional granjeou para Inácio de Susa uma
grande estima entre as populações da região. No seu funeral, representando o
Presidente da RPM, estiveram presentes o governador de Maputo, José Moiane e
o director do gabinete da Presidência da República, Luis Bernardo Honwana.
Incorporaram-se no acto, numerosos habitantes do distrito da Manhiça,
trabalhadores das empresas a que Inácio de Sousa estava ligado e ainda do
Ministério da Agricultura, além dos seus familiares e amigos
o
NIASSA:
DISTRITOS DE MECANHELAS E MANDIMBA CONSTROEM E
PRODUZEM
Quinhentas famílias constroem nova vida no distrito de M
sanhelas.-na aldias
comnais 1.o de Maio, Insaca e Caronga- A primeira nasceu em 1977 e as duas
últimas no ano passado. Este distrito reúne condições para o desenvolvimento da
agricultura.
Alguns camponeses da aldeia comunal 1.° de Maio relataram ao «Noticias da
Beira» algumas das suas experiências de vida colectiva:
- No princípio éramos poucos. Éramos apenas 10 famílias. Muitos dos nossos
companheiros não tinham ainda nenhuma ideia do que é uma aldeia comunal, da
vida em colectividade e das suas vantagens. Mas logo que se aperceberam de que podiam molho rar as suas condições, que podiam dispor da escola
para os seus, filhos, centro de saúde, loja, o que não passariam mais Lrna vida de
miséria, vieram e juntaram-se a nós».
As estruturas distritais, apoiaram com algumas máquinas para o cultivo das
terras. Em menos de dois anos a população desta aldeia dispõe de escolas ,e
postos sanitários. Sa lienta-se que já está em funcionamento uma Loja do Povo,
uma Cooperativa de Consumo, e está em organização uma cooperativa de pesca.
Em relação à água está prevista a abertura de poços para garantirem o
abastecimento.
FALECEU M DE SOUSA
No distrito d Mandimba. em Mitande e Naucheche desenvolvem-se duas
cooperativas agríicolas.
Nestas unidades de produção cerca de setenta camponóss s empSnham
diariamente no trabalho para melhorar a sua vida.
- Para nós, esta é uma nova experiência. Não conhecamos o trabalho colectivo e
muito menos as vantagens que nos traz.
Durante o tempo colonial, nós víamos estes terras fnas não podíamos trabalhar
nelas. Os colonos tnham-nos empurrado para os locais onde a terra é pouco
produtiva ficando eles com as melhores das
VENDA DE PÃO NO HULENE
Rectificação
Na nossa anterior edição, na reportagem dedi cada à venda de pão, reproduzimos
dados errado, referentes ao bairro do Hulene.
O exemplo do bairro Hulene não ilustra eficien temente o problema abordado
porque efectivamen te, na Loja do Povo do Hulene são recebi dos diariamente 1.
500 a 2 000 pães. Breve mente o posto de venda da cooperativa de consu mo
passará igualmente a comercializar pão. LE cerca de seis meses, antes de se ter
iniciado a ofen siva do Departamento do Trabalho Ideológico na.
-quele bairro, praticamente não se vendia pão.
Hoje, graças à organização da própria popula ção em torno de uma Comissão de
Abastecimentos, criada no quadro da ofensiva piloto, a venda de pão no conjunto
dos estabelecimentos atinge nove mil unidades por dia.
Trata-se de uma relevante vitória da organização da comercialização e
distribuição de um produto da primeira necessidade. Mais do que os nú. meros, a
experiência piloto do bairro do Hulene aproveita para a maneira correcta e eficaz
de resolver os problemas, de abastecimento.
Os dadàos referidos na nossa reportagem resultaram de informações erradas
recolhidas no local, pelo que apresentamos desculpas aos nossos leitores.
TEMPO N., 450 -pág. 7
nossas terras - disse um dos cooperativistas de Mitando.
Estes camponeses introduziram* aulas de alfabetização nas quais participam
todos. Alguns já frequentavam aulas antes de formar a cooperativa. Foram estes
q;e sensibilizaram os restantes.
Os .cooperativistas de Mitende na presente campanha agrícola, cultivaram uma
área d setenta hectares, onde semearam milho, girassol e amen doim.
Na colheita do ano passado os cooperativistas conseguiram obter dezasseis
toneladas de girassol que deram um total de 130 contos 1 )
EDUCAR
E'ý TAREFA DE TDDS
Decorre o Ano Internacional da Criança. Melhor altura não pode haver para se
discutirem as questões ligadas à Educação.
Uma entrevista com um professor da Escola Secundária de Nampula levanta
algumas questões delicadas que podem servir de ponto de partida para a análise
da educação da criança. Naturalmente o tema não fica esgotado, de (ío vasto que
6. Mas é um ponto de partida.
A entrevista foi realizada por Isménia Sacramento do Emissor Provincial de
Nampula (RM) o nela se afirma, a dado passo, que uas crianças de hoje serão os
nossos juizes» e, por isso, devemos estar conscientes «de que o futuro de
Moçambique está nas suas mãos,, e nós, pais, irmãos e restantes familiares não
querendo ser desonestos «é necessário que mostremos na prática, pela nossa
preocupação com as .crianças, com os continuadores, que nos preocupamos com a
nossa Juventude».
Era manhã alta e os pátios de recreio da Escola Secundária de Nampula estavam
repletos de juvertude.
Depois de termos contáctado a secretaria da Escola, depressa fomos introduzidos
na sala da direcção onde prontamente, um professor acedeu a travar connosco o
diálogo' que lhe propusemos.
O professor Sousa Santos, que lecciona a disciplina de Português, começa por nos
'dizer que «a educação em casa é essencial».
E, prossegue: «Realmente a criança quando chega àescola, já traz uma bàse que
foi adquirida no seio da família. Se os pais, os familiares não tiverem para com as
crianças uma atitude correcta, elas ficarão marcadas para o resto.da vida.
Nós, adultos, sabemos que os princípios, que regem a vida do homem, começaýn
a adquirir-se desde o berço. í, claro que, depois na escola, essa criança que, em
casa, teve um tratamento familiar incorrecto, vai ý:ser uma «criança problema».
Ela é, normalmente, revoltada, passiva-nas aulas, indolente no trabalho prático e,
então, a tarefa dos profesSS-«Sim. A Comissão de Ligação Escola-Comunidade é uma necessidade
urgente.
Ela integrará os pais e as Organizações Democráticas de Massa,, (O.D.M.).
Porque, se a es1 cola não estiver ligada às O.D.M. que, já por si, têm uma certa
organização, n á o conseguirá, NUNCA, atingir os seus objecti vos de Ligação à
Comunidade. Ela terá, simplesmente, uma ligação :que não é completa, terá uma
ligação só com os pais e se os pais não estiverem integrados numa sociedade onde
as Organizações
*de Massas lhes falem também de educação, onde tudo lhes fale de 'educação,
eles nunca se preocuparão com esses problemas.
Doutro, modo os pais vêm à escola, assistem à nossa reunião, dizen! duas ou três
palavras e vão-se embora muito satisfeitos porque «vieram à escola». E, depois,
só voltam no outro trimestre...
É claro que isto não basta.
sores será muito difícil e, muitas vezes, podemos quase considerar que, essas
crianças, dificilmente se integrarão no processo de educação, na escola.
Reportando-me ao meu tempo de criança, recordo-me que tinha medo do
professor....
O professor era «grande »e eu era pequeno; o professor tinha uma voz «grossa,, e
eu.... ; o professor tinha um pau, em cima da secretária.... Ora, muitas vezes, em
minha casa, quando eu praticava 'algum acto. incorrecto, havia um familiar que
dizia: «Deixa estar que lá na escola, o professor ajusta contas contigo». Este tipo
de procedimento é antipedagógico. Provoca grandes dissabores às crianças. Criam
situações muito difíceis.... Eu ainda hoje sinto que, algumas deficiências de
carácter, foram fixadas nessa fase, eum que fui vítima de uma educação
incorrecta.»
RM - Aí está um exemplo concreto que nos prova que, de facto, a criação de
Comissões de Ligação Escola-Comunidade deve ser, o mais depressa possível,
intensificada.
TEMPO N.- 451)- Pág. 8
É necessário que os pais contactem com os professores dos filhos, com o director
de turma do filho, para que se faça um acompanhamento da criança mais
completo - em casa e na escola.
É necessária uma ligação muito estreita entre a escola e, as Organizações de
Massas. Penso que a criança de Bairros Comunais será um reforço à função da
Comissão de Ligação Escola-Comu,tão, na fábrica, onde já existem trabalhadores' organizados, onde há uma
condição que facilitaria o trabalho dos professores ou responsáveis de educação
que lá se dirigissem para sensibilizar os trabalhadores do problema da educação
das crianças.
Todos os dias, -nós assistimos,
nar ruas, no meio da cidade, nas festas, assistimos a um completo desprezo, por
parte dos adultos, em relação às crianças. É claro que, a fábrica já era um lugar,
um dos locais de trabalho onde as pessoas estão organizadas e podiam ser melhor
atingidas pela sensibilização feita pelas estruturas da educação e da escola.
Outro local seria a zona residendal. Quando há reunião do Grupo Dinamizador,
far-se-iam deslocar brigadas constituidas por professores e alunos que,
colocassem os problemas que a escola tem: problemas com alunos que roubam os
companheiros, probemas de
alunas que, embora crianças, fazen! uma vida de adultas.-. Assim, essas pessoas,
nos locais de trabalho e de residência, sentiriam esses problemas e ficariam
sensibilizadas para a sua resolução.
As pessoas, hormalmente, vêem uma criança acompanhada de um velho, numa
situação duvidosa ou po pessoas que se vê que têm um comportamento duvidoso
e, não chamam à atenção, não alertam. Essas pessoas estão passivaý:. Elas
assistem, mas não sentem aquele problema como' seu, porque aquela eriança
não é o seu filho, o seu parente, o seu amigo. Elas não sentem responsabilidade
com aquela criança, que corre perigo. Isto é muito mau!
É evidente que a escola não pode fazer guarda nas ruas. Os pais, por seu lado,
também não têm possibilidade de guardar as crianças, nas'ruas. Mas existem, na,
ruas, pessoas adultas que devenm sentir-se responsáveis pela educação das
crianças, de forma espontânea. »
E, a terminar o seu depoimento, o professor Sousa Santos, acrescentou:
«Todos os adultos devem saber que o mundo de amanhã, o Moçambique de
amanhã, vai ser dirigido pelas crianças de hoje. Aquilo que os adultos fazem
l4oje, às crianças, será aquilo que elas farão amanhã.
Penso que se não nos capacitar. mos, que se não estivermos perfeitamente
conscientes, de que o futuro de Moçambique está nas mãos das nossas crianças,
então estamos com certeza a enganá-las e, elas amanhã, serão os nossos juizes e
dirão de nós que fomos desonestos.
É claro que nós, professores, pais, irmãos e restantes familiares, não queremos ser
desonestos, mas, para que não nos chamem tal nome, é necessário que mostremos,
na prática, pela nossa pre ocupação com as crianças, com os continuadores, que
nos preocupamos com a nossa Juventude.»
Texto de Ismlénia Sacrainento
Emissor P. de Nampula
unlos aevemr sa0er que o mundo de amanhã, o amanhã vai ser dirigido pelas
crianças de hoje»
CICLO DE CJNEMA AFRICANO EM MOi
"OS EMBAIXADORES"
DE: NACEUR KTARI TUNISIA/FRANÇA 1976
OS EMBAIXADORES fala-nos da migração da Africa do Norte para a Europa,
muito particularmente da migração árabe semilegal para França à procura de uma situação de
subemprego. Quando Salah deixa a suaaldeia na Tunísia para ir trabalhar para
Paris eie pensa que vai enriquecer, que vai tirar a sua família da miséria. Quando
integrado num grupo de emigrantes Salah está prestas a embarcar para França, os
MIQUE
oficiais dos serviços de migração tunisinos pronunciam um pequeno discurso
onde lhes chamam a atenção para o facto de serem novos embaixadores do seu
país na metrópole europeia.
Quando estes novos embaixadores da fome chegam a Paris não há aposentos
diplomáticos à sua espera mas uma dura luta para conseguirem um infecto quarto
para dormir e uma bucha para comer. O seu orgulho, é agora o escárnio e a
humilhação de serem estrangeiros, para uns uma força de trabalho barata que
nunca faltará, enquanto que para outros a razão do mal estar e dos problemas
sociais que os afectam. Os patrões, os senhores capitalistas utilizam a sua
presença para
os apontarem como causadores da situação de desemprego que afecta o seu país e
a sua classe tra.balhadora, para que estes últimos mal informados os vejam como
seus principais inimigos. E assim nascem as provocações racistas e toda uma
guerra fria que envolve a classe trabalhadora local e os emigrantes deixando a
classe dominante isenta de qualquer ataque ou conflito.
Os «EMBAIXADORES» é um filme político, que constitui uma arma para a
desmistificação da imagem que os africanos por vezes transportam de uma
Europa farta e maravilhosa, desse paraíso metropolitano que para eles nunca
poderá existir.
"AS REDES"
DE: GHOUTI BENDEDDOUCHE
ARGÉLIA
<AS REDES» é um filme que faz um retrato da evolução das relações entre um
homem e uma mulher de uma aldeia de pescadores argelinos. No início, o homem
um pescador pobre e proprietário de um velho barco sem grandes horizontes na
sua profissão, é um revoltado em potência. Sua mulher, uma servil doméstica. Um
casual contacto com uma mulher da cidade leva-o a sonhar com outra vida e parte
para a capital deixando a aldeia e sua mulher que uma vez só e sem quaisquer
recursos se emprega numa fábrica de conservas da adeia.
Desiludido com a vida da cidade, três anos depois volta o pescador à sua aldeia
cheio de novas ideias cooperativistas e de colectivismo. Trava-se então um
autocombate do pescador para reconquistar sua mulher que já não é mais a servil
dona de casa, e que só o volta a aceitar quando descobre que ele também havia
mudado e trazia novas ideias.
TEMPO N.. 450 - pág. 11
TRABALHADORES EXEMPLARE
Uma deslocação a Inhambane, para visita e troca de experiências com
trabalhadores daquela Província, foi um estímulo para 50 trabalhadores do Ramo
de Confecções e Indústria Têxtil, ao nível de Maputo, distinguidos como os
melhores pelos seus próprios companheiros de trabalho, no âmbito da Campanha
de Estruturação do Partido «Os operários de lá perguntaram-nos como eram feitas
as camisas, como eram feitas as calças. Nós pedimos-lhes que nos explicassem
como se fazia sabão, como era embalado o caju. E compreendemos que, embora
com diferentes tarefas, trabalhamos como se fosse numa mesma fábrica, numa
fábrica onde construímos o futuro do País» - disse um operário.
A forma como foram escolhidos, como decorreu a viagem, o que viram,
o que aprenderam e ensinaram durante as visitas efectuadas na província de
Inhambane, foram temas de conversa com alguns dos trabalhadores istinguidos.
Os 50 trabalhadores que agora se deslocaram a Inhambane, foram os que mais se
distinguiram nas diversas empresas do Ramo, a nível de Maputo, no decorrer da
Campllanha que decorreu entre 1978/79, e esta experiência de fazer deslocar
trabalhadores a cen-trrO,, de produção por si desconhecidos foi a segunda do
género.
0 processo de escolha dos melhores trabalhadores foi semelhante em cada uma
das empresas, como, nos referiram os operário, contactados. Por exemplo, na Fábrica de Confecções Soberana, para sermos
escolhidos como bons trabalhadores primeiro h o u v e uma reunião em cada
secção e depois uma reunião geral com to dos os trabalhadores, que con.
cordaram com as pessoas que mereciam ser distinguidas, afirmou Lourenço
Nunguiça Banze.
Da empresa onde trabalha foram treze elementos a Inhambane, tendo sido
escolhidos um ou dois por secção, consoante se tratasse
de secções com mais ou menos opý rãrios.
Na Levis Moçambique, em pr melro lugar foi feita uma reuniã dos responsáveis
políticos que ir dicaram os melhores trabalhad( res de cada secçko e de toda a enr
presa - começou por esclarece Lucinda Berta Muianga, que acre centou:
O melhor trabalhador é o con panheiro Dinis Sial. Eu fiquei ex segundo lugar. Na
secção de cal ças escolheram-me a mim e na se(
TEMPO N.o 450 - pág. 12
VISITARAM
INHAMBANEreuniões de secção com responsáveis do Grupo Dinamizador e dos
Conselhos de Produção, em que foram escolhidos alguns trabalhadores,
acrescentou que depois em reunião geral houve rejeições porque alguns não
podiam ser tra1 balhadores exemplares.
Um caso concreto, foi descrito por Tomás Tembe nos seguintes termos:
Numa secção de calças, houve um rejeitado. É certo que ele vinha sempre ao
trabalho, não faltava, mas era um bocadinho indisciplinado e por isso não podia ir
a Inhambane.
Para ser trabalhador exemplar não significa cumprir apenas o horário e trabalhar
sem conhecer o sentido do trabalho. Este elemento quando chegava, sentava-se à
máquina, depois ia à casa de banho, saía. Quando entendia trabalhava, trabalhava
quando queria.
Este trabalhador foi criticado em reuniã3 geral e ele já se emendou.
APRENDER E ENSINAR
ção de calções escolheram outra camarada. Depois, numa reunião geral fomos
apresentados e fomos apoiados. Foi desta maneira que fomos escolhidos.
TRABALHADOR
EXEMPLAR
Para se ser um trabalhador
exemplar nao basta chegar a horaj ao serviço, ser pontual, não ter faltas. Além
destas qualidades, o trabalhador exemplar distingue-se pelas relações que estabelece com os seus colegas pela sua higiene, pela
forma como trabalha e como transmite os seus conhecimentos aos outros trabalha.
dores. Isto mesmo foi dito por um responsável dos Conselhos de Produção e viria
a ser confirmado por um operário da Manufactos, onde se registou um caso de
rejeição.
Referindo-se ao assunto, Tomás Tembe, depois de dizer que na sua empresa
começou por haver
Sobre a viagem, a forma com 'o foram recebidos e as visitas efectuadas em
Inhambane, os seis trabalhadores foram unânimes em afirmar qe tudo decorreu da
melhor maneira.
Alberto Rafael, operário da Soberana, afirma que os trabalhadores em Inhambane
receberam-nos de boa for-ma. Visitámos vários sectores de trabalho, o primeiro
dos quais foi a Cooperativa de Pesca 25 de Setembro. Aprendemos muito-e
ensinámos muito.
Em segundo lugar - continuopi
- fomos visitar a Romos onde também fomos biem recebidos e vimios a sua
organização. Em terceiro lugar, visitámos a Fábrica
TEMPO N.O 450 - pág. 13
1
sabão. £ uma coisa muito maravilhosa e nunca tinhamos visto.
Sabão, é um produto que ultimamente tem faltado em Maputo. Mas, em
Inhambane a situação é melhor embora a fábrica não esteja a produzir de acordo
com a sua capacidade. Isto, devido a avarias nas máquinas. Têm produtos para
trabalhar, mas devido à avaria nas máquinas há dificuldades, nãe estão a produzir
em quantidade, acrescenta o mesmo operário.
Para Adelina Murace, da Manufactos, a viagem também correu bem. Eu nunca
tinha ido a Inhambano e agora já sei onde fica. Para além de salienta a forma
como foram recebidos os operários de Maputo, destaco'i a visita à praia do Tofo e
à Maxixe onde, na Romos, há carros parados por falta de material. Aliás, este
facto viria a ser confirmado po r Tomás Tembe que referiu o facto de dos
CERIMONIA NACIONAL
PARA ENTREGA DE DISTINÇõES
Esta deslocação a Inhambane, foi um estimulo concedido a trabalhadores do
Ramo de Confecções e Indústria Têxtil.
No âmbito do processo de Emulação em curso, está prevista a realização, durante
o corrente ano, de uma cerimónia nacional, no decorrer da qual os melhores
trabalhadores do País em cada sector. de actividade,. serão distinguidos pelas
estruturas superiores com flâmulas, medalhas e bandeiras.
Para o efeito, está a decorrer, a nível nacional, o processo de Emulação que se
estende a todos os sectores de produção.
12 autocarros apenas quatro se encontrarem em funcionamento, encontrando-se os
restantes oito parados por falta de pneus.
A Fábrica de Castanha de Caju foi, dos sectores visitados, aquele que mais
impressionou Lourenço Nuzguiça Banze. Tenho visto empresas de Maputo, mas
aquela é muito diferente. Com as máquirias
ios muito e ensinamos muito» - Alberto Rafael, trabalhador da Se berana
que estão lá, nem dava vontade de nos deslocarmos para outro sector. Entrámos
oram quatro horas e vinte minutos e saimos já passava das sete horas.
No que se refere a troca de experiências, a visita também foi muito útil:
Os operários de lá perguntaram-nos como eram feitas as camisas, como eram
feitas as calças. Os companheiros da Indústria Têx til explicaram como era feito o
algodão e os do vestuário explicaram como eram feitas as calças e as camisas.
Tivemos que dizer
que o pano era estendido em folhas de corte e que depois vinha, o desenhador
fazer o desenho e depois o elemento do corte.
Gostei muito de visitar a fábrica de castanha de caju. No final da visita tivemos
uma reunião em que a administração da fábrica disse que era preciso serem
distinguidos os melhores trabalhadores.
LEMBRANÇA
DO 1. DE MAIO
Puxando de um pequeno bloco onde tomara alguns apontamenTEMPO N.O 450 -pág. 14
Dinis Ramadan Sial, tra. balhador da Levis Moçam bique, um dos 50 melhores
operários do Ramo de Con. lecções e Indústria Têxtil que recentemente se deslo.
caram a Inhambane no dmbito da Campanha de Emu.
lação Socialista
j «Na Romos, na Ma
xize, tivemos uma pe quena reunido e procurámos saber se ha via trabalhadores
dis tinguiãos. Em pri. metro lugar, pusemos aquele trabalha. dor que fez uma
escultura lembrando um esqueleto»
Lucinda Berta Muianga, operária da Le vis Moçambique
tos, Tomás Tembé informa que a fábrica de descasque de castanha de caju tinha
475 trabalhadores mas que devido ao aumento da produção, aquele número subu
para 679, dos quais 304 são mulheres. A meta de produção também foi
ultrapassada. Os trabalhadores trabalham com vontade e não há contradições com
os responsáveis. Neste momento, têm seis CélUlas do Partido.
Sobre os aspectos que mais o im pressionaram durante a visita, o mesmo operário
apontou a Cooperativa 25 de Setembro que foi fundada em 1975 com 30
cooperativistas e que hoje tem 36. Mas, I houve problemas por falta de ma-'
térias-primas e de iscas. Por isso a produção baixou um bocadinho. Têm dois
barcos, sendo um a motor e outro à vela. Perguntámos também para onde ia o
peixe e disseram que era vendido à PESCOM.
Outra preocupação dos operários que se deslocaram a Inhambane -foi a de
saberem junto da Romos, na Maxixe, se quando se perde uma encomenda ela.é
paga ou não. Foi-lhes dito que, no caso de haver justificação, essa encomenda é
paga.
SAinda no que se refere ao tre ba!ho desenvolvido pelos trabalh dores daquela
empresa de cami( nagem, Lucinda Berta Muiang ficou admirada por ver ali um
escultura lembrando um «esquelet humano».
Aquela escultura foi feita ii teiramente com peças de viatura: e i tema serviu de
motivo para n decorrer da reunião realizada apç a visita, os trabalhadores de M, o
puto proporem que o seu autc
fosse colocado em primeiro luga nas distinções a atribuir no ân bito da Emulação
Socialista.
Inhambane, foi classificada pel mesma operária como uma cidad bonita e que
«não têm mau che ro» Ela preocupou-se tambén com o problema das bichas e te
como resposta que também há b chas mas que ali não há muit 1~,
gente, como em Maputo e qu
Amuita gente de Inhambaae est 'em Maputo.
Outra questão que procurámc saber foi se estes trabalhadores 1: gados à
confecção de vestuário t nham verificado se os artigos pc «Na dsi feitos
chegavam àquela cidad «NáIbrica de ca ..
ju, um trabalhador trabalha de livre vontade e não há contradições com os
responsáveis. T e m seis Células dò Partido»-Tomás Tembe, o"erário
da Manufactos "
«Da nossa empresa foram 13 ele-.
mentos a inhambane. Nas secções grandçs foram es colhidos dois elú.
mentos e nas secções mais pequenas um»- Lou.
renço Nunguiça
Banze, operdrio das Confecções
Soberana
em quantidades suficientes e se os preços correspondiam aos praticado< em
Maputo.
Na visita que efectuámos ao Bazar - diz Dinis Sial - reparei que os sacos plásticos
eram vendidos a nove escudos. Por sua vez. Lourenço Nunguiça Banze tentou ver
CONTRATEMPOS
Na. opinião dos trabalhadores contactados, a visita correu bem, tudo como estava
previsto e programado. Houve apenas dois contratempos.
O primeiro, foi a impossibilidade de visitarem Homoíne, devido a doença do
motorista do autocarro.
O segundo, foi um colega nosso que na manhã de sexta-feira, quande. ia a tomar
banho escorregou e caiu. Baixou ao hospital o não chegou a andar na visita.
Mas, no sábado falámos com o doutor para pedir a sua transferéncia e já veio
connosco para Manas montras se havia artigos feitos na nossa empresa e não vi
nada. Sobre os preços não posso dizer que haja especul çêo, mas roupa há
emgrande quantidade.
Fara além do estimulo e do en-riquecimento dos seus conhecimen tos sobre a
realidade do Pais, por parte dos trabalhadores -de Maputo, também os -operários
da Província de Inhambane que foram. visitados ficaram mais sensibilizados
sobre a importância da Emulação. Nas reuniões realizadas com estruturas e
trabalhadores, no final de cada visita, a pre3 cupação deles foi de dizerem que iam
estudar a forma de escolher os locais que irão visitar.
Quanto à realização de reuniões nos locais de trabalho dos operários que se
deslocaram a Inhambane para transmitirem o resul.
correu muito bem. Não sabia onde era Inhamban4 e visitámos a Administracõc e a
Romos onde há ca; de material» - Adelina Murace. operária da Man
tado das suas experiências; contarem aquilo que viram e o que mais os
impressionou, ainda não tiveram lugar. Contudo, afirma Lourenço Banze, nos
nossos ,bairros e mesmo quando vamos no machimbombo muitas pessoas nos
têm pedido para falar sobre a viagem e sobre as visitas. Mesmo nos locais de
trabalho, a nível individual, tem havido muito interesse.
Texto de Luís David
Fotos de Danilo Guimarães
TEMPO N.o 450 - pãg. 17
1-1r
SCIPLNAR'0
TEMPO N.- 450- påg. 18
*Matadouro também deve mudar
horário
«Os talhos devem abrir às 4.30 horas da manhã» - disse o Presidente Samora
Machel, entre outras orientações que traçou nos festejos do 1.1 de Maio Esta
orientação está sendo cumprida pelos trabalhadores dos talhos que, apesar das
dificuldades que se lhes deparam, procuram soluções para melhor disciplinarem o
seu trabalho.
É nesse contexto que elaboramos o presente texto, no qual abordaremos também a
nova organização do trabalho nos talhos, o açambarcamento o favorit¤smo e as
deficiências ainda existentes na distribuição de carne.
A maior parte dos talhos da cidade do Maputo e arredores, passaram a abrir as
suas portas às 4.30 horas da manhã. Nos talhos cor.trolados pela Divisão de
Carnes, estrutura dependente do Ministério do Comércio Interno, essa medida foi
posta em prática logo no dia 2 de Maio.
uNo mesmo dia que o Presidente Samora Machel deu essa orientação avançámos
imediatamente e criámos as condições necessárias para que no dia seguinte de
manhã os talhos fossem abertos ao público às 4.30 horas. Foi um pouco dificil organizar isso, mas foi poss:vel devido ao interesse demonstrado pelos
trabalhadores» - palavras de Hélder Baptista, da Divisão de Carnes.
As dificuldades encontradas logo no início e que ainda hoje existem são, entre
outras, a falta de transporte para os trabalhadores dos talhos.
Como forma de solucionar essa dificuldade, a Divisão de Carnes opta por duas
alternativas: «Ou as estruturas dos transportes nos põem à disposição dois
autocarros para o transporte dos nossos traBicha para compra de carne num dos talho., da cidade do Maputo. A. maior
parte já abre as suas portas às 4.30 horas da manhã
TEMPO N.- 450 - pág, 19
o
balhadores logo de madrugada e nós pagamos, ou então nos facilitam a aquisição
de carros próprios.» Esta questão já foi colocada junto às estruturas competen tes
e espera-se que muito brevemente seja solucionada.
A Divisão de Carnes tem sobre o seu controlo 38 talhos em funcionamento
Privados há 10 a 12 no Maputo e na Matola. Alguns destes ainda não cumprem
integralmente as referidas orientações. Por exemplo, a nossa reportagem
constatou junto ao talho «Império» que este estava, no passado dia 16 de Maio, a
vender carne de frango a partir das seis e meia da manhã. Quer dizer, nesse dia o
talho abriu a essa hora. Acerca disso o responsável do talho disse que «para a
venda de carne de frango não há nenhuma orientaçÇão em como devemos abrir o
talho às 4.30 horas. Isso é só para a carne de vaca». Sem dúvida, esta pessoa está
enganada ou faz que interpreta mal as coisas, pois, a orientação traçada pelo
Presidente Samora Machel é de abrir os talhos ás 4.30 horas sem discriminação do tipo de carne \a vender, o que, aliás, foi reafirmado pela Divisãn de
Carnes.
ORGANIZAÇÃO
NO TRABALHO
Face às orientações traçadas pelo Presidente Samora Machel, a Divisão de Carnes
tomou certas medidas no sentido de melhorar a organização do trabalho dos
talhos.
Um exemplo do reforço dessa organização encontramo-lo no talho n.0 17 das
Lojas do Povo. Num ambiente que revela dedicação e higiene, o responsável
daquele talho diz-nos: «Nós aqui entramos às 3.00 horas da manhã. Começamos
logo a preparar a carne, cortar e separar. Entretanto as pessoas começam <i fazer
bicha. Pouco antes das 4.30 horas, saímos lá para fora e dizemos a essas pessoas a
quantidade de carne que temos para vender nesse dia e perguntamos qual a
quantidade que acham que devemos'dar a cada pessoa. Daí surgem contribuições
e nós optamos pela decisão da maioria. É claro que nem sempre é possível
satisfazer as decisões, mas é sempre melhor e mais funcional. Com o andar do
tempo as próprias pessoas ficam habituadas a fazer melhor os cálculos e deixam
de resmungar, como dantes acontecia.»
Indagado sobre quais as dificuldades existentes no seu talho, o mesmo trabalhador
diria que, apesar do problema de transporte para os trabalhadores, eles acham que
o seu trabalho decorre bem e que apenas lamentam a falta de carne e o modo
como o Matadouro faz a distribuição. «É um pouco duro ficarmos aqui toda a
manhã até
às doze ou treze'horas sem sabermos se a carne vem ou não. Temos que esperar
porque se não vier a carne temos de colocar um avis» na vitrina do talho a dizer
que não haverá carne no dia seguinte. Assim evitamos que as pessoas venham
cá ficar de madrugada à espera em vão.»
Este meio de informar ao público sobre se haverá ou não carne,
Interior do talho «Império». Abre as portas às seis e meia da manhã para vencier
carne de frango. Por ignorãncia ou não, a responsável do talho diz que não há
nenhuma orientação para abertura do estabelecimento quando se trata de vender
aquele ti"o de carne
TEMPO N., 450 - pág. 20
«Nos começamos a trabalhar às 3.30 horas da manhã para preparar, cortar e
separar a carne» - responsável do
talho 17 das Lolas do Povo
«Este novo horário dos talhos vem-nos beneficiar muito, porque assim pode. mos
ir ao taho e depois ter tempo para ir trabalhar» - opinião do grupo de pessoas que
a foto reporta
Este aviso não está posto de uma forma correcta, pois quem o lé fica sem saber
quando será esse «depois de
amanhã»
funciona quase em todos os talhos. Todavia nem em todos isso está bem
organizado, devido à forma como são redigidos os avisos. Por exemplo, num
deles o letreiro diz «Não há carne, só depois de amanhã.» Não vem a data do dia
em que o aviso foi colocado. Aliás, do modo como está, dá a entender que fica
sempre ali colado. Daí que o transeunte fique sem saber quando é esse»depois de
amanhã.»Faz lembrar aqueles «avisos» que aparecem em certos restaurantes,
sempre fixos na parede, a dizer cHoje nao se fia, só amanhã.»
AÇAMBARCAMENTO E FAVORITISMO
Muito recentemente, nos talhos n." 4 e 20, uma brigada de fiscalização detectou o
açambarcamento de duzentos e tal quilos de carne em cada um deles. Não
obstante os responsáveis desses talhos não quiseram concordar que se tratava de
açambarcamento, alegando que
essa carne tinho sido reservada para certas estruturas.
Sobre essa situação, Hermínio Lopes, da Divisão de Carnes, disse: «Os nossos
talhos têm sido alvos
TEMPO N.o 450 - pág. 21 1AIONVO IISTõRlCO DE MOÇAMBIQUt.
"CONVERSA" PARA AMANHÃ... f
As atitudes de corrupção praticadas por certos trabalhadores dos talhos, é outra
ferida a referir.
A tardinha, acontece em certos talhos, quando os trabalhadores dos mesmos
fazem a limpeza ou outro trabalho, há mulheres que vão lá «conversar». Essa
conversa é para amanhã. Como essas mulheres não se querem dar ao trabalho de
acordar muito cedo, vão «pedir favores» ao trabalhador simpático para lhe
guardar carne. E da melhor! A conversa estâ feita. Nela há certos acordos.... E
amanhã é só ir buscar a carne e mais umas horas de confraternização,
Outro exemplo é do homem do talho que gosta de «beber». Cria confiança com o
dono de uma cervejaria ou vice-versa e dessa confiança chega-se a um pacto entre
eles: o do talho pode ir beber
quando quiser, num canto da cozinha do restaurante, e o do bar passa a ter sempre
carne em quantidade e qualidade que desejar.
Outra coisa que todos conhecem, é a dificuldade em arranjar casas na APIE.
Acordos como os anteriormente focados dão-se também entre certos funcionários
daquele organismo e trabalhadores dos talhos. A nova forma de arrendamento de
casas não dá campo * a esta troca de «favores».
A solução para estes casos de corrupção é a intensificação da vigilância que deve
começar no interior dos talhos, isto é, entre os trabalhadores daquele sector.
Porque ninguém mais do que eles estão em melhores condições de o fazer.
«Alguns talhos ainda fazem açambarcamento de zarne. Pcnsam que nos enganam,
mas' nós estamos vigilantes. Aqui no talão Império aconteceu um caso desses no
sábado antepassado» - diz a mulher do centro TEMPO N. 450 - pág. 22
de pessoas que lá vão, intitulando-se de elementos responsáveis e ainda alguns
elementos das forças policiais fardados e aproveitam-se disso para exigir que lhes
seja reservada carne, por vezes em grandes quantidades.u A Divisão de Carnes
organizou a distribuição de forma a existirem, dois talhos especificamente para
servir entidades e organismos do Governo, bem como para hospitais, botéis e
restaurantes. Por isso não há razão para outros talhos, sem serem esses (Talho n.o
2 e «Socarnes») açambarcarem carne em nome ou sob o nome das estruturas.
Outros casos de açambarcamento são detectados pela prSpria população que vai
à compra de carne nos talhos. Por exemplo, no 'talho «Império», há dias registouse barulho. «Os trabalhadores deste talho disseram que já tinha acabado a carne,
mas nós sabía. mos que lá dentro havia muita carne ainda. Depois de muita
discussão acabam por dizer que essa carne tinha sido reservada para alguém que
queria fazer uma «missa»
- contam-nos pessoas que presenciaram'a tal discussão. Junto delas estava
Silvestre Machava, das milícias do bairro da Urbanização, que disse: «,Fiquei
admirado porque cheguei aqui às 3.30 da manhã para fazer o controlo da bicha,
como faço todos os dias. Vi que eles cortaram a carne e puseram alguma de lado.
Deviam ser mais de cem quilos. Eles esconderam isso para flguém. Mas como eu
estava sózinho e não tinha telefone para chamar a polícia, o assunto ficou assim.»
DEFICIINCIA
NA DISTRIBUIÇÃO
«O Matadouro não entrega a carne a horas convenientes para que o novo horário
de abertura dos talhos possa ser integralmente cumprido» - diz-nos Hélder
Baptista, da Divisão de Carnes.
Esta situação deve-se ao facto de o Matadouro estar ainda a funcionar com o
horário antigo, o que faz com que os trabalhadores dos talhos se vejam na
necessidade de fazerem maiores esforços do que
o horário de trabalho no Matadouro ainda continua a ser o nesmo. Istocria
problemas no abastecimento de carne aos talhos, para que estes curppraín in.
- tearalmente com o novo hordro
deviam. «As vezes ficamos até às oito horas da noite ou nove, depois de termos
esperado todo o dia desde a madrngada.» - Afirmou um trabalhador do talho n.,.
16. Informaram-nos na Divisão de Carnes que já foi proposto ao Matadouro e este
concordou alterar os seus horários, «mas eles ainda con.tinuam na mesma.
Esperamos que eles alterem rapidamente isso».
Antes do nosso contacto com a, Divisão de Carnes, o responsável do Matadouro
disse que todo o processo de distribuição está sob a inteira responsabilidade da
Divisão de Carnes e que portanto não nos podia fornecer qualquer informação, razão porque .incidimos mais sobre as informações prestadas pela referida
estrutura. .Não obstante, população e trabalhadores dos talhos têm* a esperança
de que tud 'o venha a melhorar, pois estão sendo encontradas soluções para isso,
apesar da falta de carne que se faz sentir nesta fase que o nosso pais atravessa.
Para já, a questão- central reside em disciplinar o trabalho dos talhos, o que muito
contribui para que a carne que há seja consumnida, por igual, pela população.
Narciso Castanheira (texto) Danilo, Gulmaries (fotos)
TEMPO N.~ 450 -'Pág. 23
COMO SE CHAMA? ...E A MEMÓRIA SE ABRE AO VENTO
Como é que se chama?\
Resposta - Baptista Maivene Mandlate. Trabalho na' Direcção Previncial da A gr
icu 1 t u r a de Gaza.
MandIate, você acaba agora de participar no desfile e também participou no
comício. Tem alguma coisa a dizer sobre esta festa?
A festa do 1.° de Maio é uma coisa que nunca vi. Eu nunca antes havia pensado
que um moçambicano tem direito a coisas destas que vi aqui: desfile de
trabalhadores e máquinas agrícolas, incluindo quinze autocombinadas que no
próximo dia vinte irão começar a ceifa do arroz na Unidade de Produção do Baixo
Limpopo. Até certa altura eu pensava de que nós, moçambicanos, sóo fomos
nascidos para servir os colonialistas. Hoje, penso que po demos dispor de nós,
trabalhar para nós e, com esta festa, ýinto ndmiração e orgulho de- ser livre e
independente. Estou satisfeito pcr ver estes festejos todos e por ver o povo a
participar no dia mundial do trabalhador que, afinal. é o nosso dia.
Quantos anos tem?
Tenho .,. bom, posso dizer que nasci em Fevereiro de mil 'novecentos e dezanove.
Desde a sua nascença até hoje, estou em crer que trabalhou em muitos lugares.
Pode dizer-me alguma coisa da-sua vida como trabalhador?
Sim, posso dizer alguma coisa en bora não tudo. Eu comecei a trabalhar era ainda
miúdo, em 1932, como «mõleque» aqui no Xai-Xai e ganhava vinte e cinco
escudos por mês. Mais tarde saí com os meus patrões para Maputo, então
Lourenço Marques, e lá tive que arranjar outro patrão e passei a ganhar cinquenta
escudos. Isto para mim já era muito Idiuheii,). Com o andar do tempo vi que
afinal não chegava porque tinha que sustentar os meus pais e assim emigrei para a
África do Sul, em 1938. Nas minas, ganhava oito escudos por dia. Também era
pouco mas como precisava de sobreviver voltei lá várias vezes.
No entanto, a minha vida lá atrás foi esta mas além daquilo que sofri, também
assisti a muitas coisas que a lembrar, posso verter lágrimas.
Penso que reunindo a coragem pc erá contar-me e reviver esse passado, que além
de ser interessante para a juventude moçambicana, também é importante para
outros traba,.ltadores.
Esta pequena entrevista foi realizada por Rodrigues Bila, repórter da Rádio
Moçambique, aquando dos festejos do 1.0 de -Maio em Xai-Xai; capital da
Província de Gaza. "Falou com um velho nascido em 1919. Não diríamos como
se diz na abertura de um conto publicado neste número que «há sonhos antigos
que acordam como pássaros,, mas que há, na verdade, realidades antigas que
despertam como pássaros movidas por simples perguntas: Como é que se chama?
Quantos anos tem?....
TEMPO N., 450 - pág. 24
Sim posso dizer: Na abertura destas estradas que nós vimos
-hoje, é uma coisa que ao pensar nã. consigo detalhar, porque faltam-me palavras.
0 certo é que na abertura destas estradas muitas almas se foram embora. Casos de
morte presenciei eu na construção da estrada que sai do Chongoene para
Manjacaze. Muitos ve. ]hoýý,. muito velhos mesmo, construiram aquela estrada e
ali foram massacrados. Quando se ia buscar «saibro» (pedras) para a construção e
se por um azar qualquer a areia se soltasse todo o pessoal que no momento se
encontrava na cova, morria soterrado, sem ninguém se preocupar.
Outra coisa que eu assisti na construcão de estradas é aquela pedra muito grande
(cilindro) que hoje está ali nos Caminhos de Ferro de Gaza. Nesse tempo aquilo
era puxado por pessoas para nivelar as estradas. Nas descidas era muito frequente
que as pessoas que iam a puxar, caíssem mesmo de cansaço e então o cilindro
passava por cima. Então os celonialistas diziam: «vão deitar forp esse cão».
Para além daquilo que vi, o meu pai contou-me que eles carregavam os colonos
desde o Xai-Xai até Manjacaze nas costas.
«Eram senhores que ficavam ,ias machilas a ler o jornal mas transportados por
pessoas que praticamente serviam de carros, quer dizer: nós os moçambicanos
éramos carros deles.» O velho Mandlate é atravessado por um suspiro. Era a
memõ ria memória 'adulta, despertada subitamente para a vida...
Rodrigues Bíla
:~c
Não é a primeira vez que nesta cidade de Maputo presenciamos cenas
semelhantes. Elas poderão surpreender quem pela primeira vez visite a capital do
Pais, mas também poderão servir de exemplo, também poderão servir para se
compreender melhor a importância da vigilância.
Há dias, não muitos, .um grupo de rapazes perseguia um outro, pouco mais velho
do que eles. Era uma correria, acompanhada de gri tos de «agarra, agarra», até que
o fugitivo foi mesmo apanhado pelo, perseguidores. Apanhado e bem seguro pela
camisola, nas costas, ao mesmo tempo que era mantido num círculo.
Quando conlsegui chegar junto do grupo (eu, como outros curiosos que na altura
passavam pela rua), já um elemento das Forças Populares procurava saber o que
se tinha passado.
Reparei, então, numa caixa de cartão com um amplificador e um gira-discos, ao
lado de um saco de plástico com duas colunas. Não
iRO
havia dúvida, que tinham sido estes objectos o motivo da persegui.
ção movida àquele rapaz que tremia e suava, enquanto procurava encontrar
palavras que convences sem os seus perseguidores a largarem-lhe a camisola e a
abrirem o cerco què lhe tinham feito. Mas, ninguém foi convencido de que
aqueles artigos não tinham sido roubados, por ai, algures, de uma casa onde o
larápio se tinha conseguido introduzir.
à medida que conseguia avançar um pouco em direcção ao centre do círculo, fuime apercebendo do que diziamos autores da cena.
Pretendiam-os perseguidores saber donde vinham os objectos, no que eram
apoiados pelo elemento das Forças Populares, enquanto o ladrão dizia que aquilo
não era
dele.
A discussão durou poucos minutos. Todos compreenderam que o caso não podia
ser resolvido ali e que era preciso ir ao posto policial mais próximo, Procuraram
então convencer o «dono» da aparelhagem a carregá-la. Este, começou por recusar, dizendo que aquilo não era
dele. «Como não é seu-interrogou um coro de vozes - -se ali atrás você trazia a
caixa à cabeça?.
«Carregue lá a caixa e vamos embora» - decidiu o elemento das F.P.L.M. Nova
recusa, acompanhada pelo aviso dos presentes de que «ele vai deixar cair a caixa
e partir tudo. Mas não. O renitente convenceu-se e lá foi caminhando, caixa à
cabeça, saco na mão, acom panhado pelos seus captores, em direcção ao posto
policial, onde o assunto iria ser resolvido. Não é a primeira vez - repito
- que quando alguém tenta apoderar-se de bens alheios e é detectado, logo se põe
em fuga, logo desata em correria, perseguido por aqueles que o apanharam em
flagrante d e l i t o. Raramente, penso, os perseguidores são os do noa dos
objectos roubados. E daí, a importância, o significado, que atribuo ao facto: é que
não se persegue o ladrão simplesmente porque ele estava a roubar o que «é meu»,
mas porque estava a roubar o casaco, a pasta ou o rádio que estava dentro de uma
viatura, ou a própria viatura; porque estav. a roubar um par de calças em qualquer
Loja do Povo. Persegue-se, porque estava a roubar e todos sabemos que é preciso
acabar com o roubo. Não se defende apenas a propriedade pessoal mas sobretudo
uma ordem social em que'não há lugar para gatunos e ladrões.
Outro aspecto, que também já presenciei, é o de uma vez apanhado o gatuno, os
seus captcres o irem entregar ao posto policial mais próximo ou de o entregarem à
guarda de qualquer elemento das forças de Defesa e Segurança que encontrem
pelo caminho. E é correcto que assim seja. Para além de revelar a elevação da
consciência política, significa confiança nas estruturas encarregadas de
resolverem estes assuntos, significa confiança nos elementos do povo fardados.
Luís David
TEMPO "N.o 450 - pág. 25
o
VELHO
E
OS BARCOS
«Uma cooperativa é a minho maior ambição»
TEMPO "Is 450'- pág. 26
O velho JOAQUIM BEN OCUANE, de 70 anos, construtor de barcos que mora
no bairro de Xipamanine, conta-nos a sua longa vida no trabalho que exerce há
quarenta e oito anos. Não é fácil fazer barcos. É um trabalho que exige muito
sacrifício desde o seu esqueleto até à armação de madeira. Antigamente era muito
difícil construir barcos porque não havia facilidades de comprar o material
adequado; por isso era necessário cortar troncos e talhar a madeira. Uma
verdadeira arte que exige prática.
O velho Joaquim, começou o seu trabalho em Inhambane. Teve um mestre
chamado Martins dos Santos que nos princípios duvidava que ele fosse capaz de
desempenhar este trabalho porque era pesado. Após alguns meses já conseguia
fazer alguma coisa sem ter que pedir explicações ao
mestre. A preocupação era melhorar e adquirir conhecimentos técnicos. Mais
tarde veio a Maputo.
«Trabalhei na construção de barcos na Polana. Como o vencimento não chegava
para me sustentar fui obrigado a abandonar este emprego» diz-nos o velho
Joaquim. Ao longo dos anos trabalhou em várias empresas de construção civil.
Como já tinha certos conhecimentos trabalhou como carpinteiro e pedreiro.
Em 1953 o velho Joaquim, como não consegue suportar o duro trabalho sem
rendimento, foge para a Africa do Sul onde arranja serviço de estofador de
autocarros. Como este trabalho não era valorizado na empresa em que trabalhava,
passa então para uma fábrica de construção de barcos onde recebe uma ninharia.
Como último recurso o velho regressa ao seu País.
Em colaboração e ajuda dos familiares, começou a montar a sua oficina de
construção de barcos no Xipamanine. Diz aquele idoso operário: «instalei-me no
Xipamanine porque é uma zona que as pessoas visitam; este bairro é popular por
causa do mercado, das lojas e da terminal de autocarros.
A ideia de se dedicar à construção de barcos nasceu-lhe do drama das cheias
anuais dos rios. Achou que teria mercado se vendesse barcos nessas épocas.
Talvez uma ideia muito friamente comercial mas pô-la em prática.
A pesca foi também uma actividade a que as pessoas se dedicavam e se dedicam
com auxílio de barcos, para além de facilitar o trabalho como meio de transporte
em certas zonas. O preço dos barcos fabricados pelo velho Ocuane varia de 15 a
Três barcos prontospum em acabamento. No fundo a oficina
Joaquim Ocuane: Quarenta e oito anos
na construção de barcos
22 contos. Estes podem levar motores, e servem tanto para o mar como para o rio.
Algumas pessoas encomendam com as medidas que desejam, e mais tarde não
levantam os barcos. São problemas que causam prejuízos.
A madeira para construção é umbíla e jambirre. Compra-a em troncos nas
serrações e custam de 12 a 18 contos cada, com sete a dez metros de
comprimento, embora às vezes tenham nós e gretas que não permitem a sua
utilização total. Além de barcos, o velho faz mobílias.
As suas instalações estão ao ar livre. Toda a gente que passa aprecia o seu
trabalho. Tem nove ajudantes que estão ainda na aprendizagem: «Futuramente
diz-nos, serão também mestres em construção de barcos. Isso garanto desde que
haja vontade de aprender.
Uma cooperativa com boas ins- ., talações e formar. quadros é a minha ambição
neste momento. Já pensámos este caso com alguns companheiros da construção
civil. Sinto-me novo para realizar este trabalho!»
-Quanto às relações de trabalho o Joaquim diz: «DamO-nos bem porque somos
pobres. É necessário para ganharmos o nosso pão.»
Texto de Haroon Patel
Fotos de Danilo Guimarães
TEMPO N.o 450 - pág, 27
COZINHA ., MOÇAMBICANA
UMA
Dona Celeste
QUESTAO CULI
não tem pfroblemas com comida
Já os últimos raios solares minquavam no horizonte, naquela tarde de quinta-feira.
Sentada à sombra projectada pela sua pequena cabana de caniço, quarto e sala,
aquela mulher, de semblante atento, retirava pacientemente alguns grãos escuros
que se misturaram no teijão «nhemba» contido na peneira a seu lado. Estava
preparando o jantar do dia.
T -Que prato é esse que está a preparar, Dona...?
C.M.0-lh a, depois de eu retirar estes grãos escuros, e outros que tenham bichos,
vou cozer o feijão em água para depois moê-lo na gamela. E assim começou a
conversa que tivemos com uma mulher« de nome Celestç Mwanuel, moradora
num bairro de caniço de Maputo. Está a ver esse camarão fresco que está aqui
nesta p.aneIa? Diz ela a dado p asso com ar inquiritivo. Prossegue: Comprei agora
mesmo, num pescador ambulante que sempre passa aqui, e, como não gosto de
coisas com óleos, vou guisar em água com cebola. Depois, vou misturar com o leijão moído para
fazer caril. Isto é «Daly»!
T -E que tal é?
C.M. - Oiça: Se eu lhe sirvo um prato de «Daly», você até é capaz de querer
repetir... Muitos dizem que este feijão, como é do ano passado, já não se pode
cozer. E num gesto humorístico, Dona Celeste pisca-nos um olho e leva dois
dedos ã ponta da orelha, acrescentando: «Mas coze-se tão bem... »
«DESCOLONIZAR» A S PAPILAS GOSTATIVAS
Sempre que se fala de cozinha moçambicana
vem-nos a imagem de um prato cheio de matapa. É uma concepção que nos foi
inculcada por um certo folclorismo.
Vem-me à ideia a lembrança de um episódio passado num restaurante do
Maputo que alguém nos contou: fa mesa, estavam dois amigos a observar a
ementa do dia quando um deles optou por um prato de «Bupsa» acompanhado por
um caril também moçambicano. É então que'se levanta a voz do outro amigo para
dizer: «Você... Você cresceu comendo «Bupsa» e quando vem ao restaurante
também quer comer isso?»
TEMPO N.- 450 - pág. 28
Os ha.bitos alimentares sáo reflexo da nossa cultura. Nas zonas urbanas, onde a
colonizaqío, em todos os aspectos, mais se acentuou, nota-se, como o episódio de
h. pouco demonstra, uma persistente aliena-, (- o de hábitos alimentares. O
gosto desenfreado por tudo que é ocidental.
A cozinha moVambicana que durante muito tempo foi votada ao esquecimento
nos grandes restaurantes tende agora a firmar a sua pre"
re estaurn eseaesena
em vhrios estabelecimentos hoteleiros do
país.
OS SUCESSOS DO
7 «MATCHEDJE»
«Matchejde» é nome
do local onde se realizou 9 11 Congresso da
FIrelimo. Mas também é nome dum restaurante
em Maputo. Está sob orientagáo do Partido
Frelimo.
Conforme nos disse
Luciano Manhiga responsável daquele restaurante, desde a sua fundajào, a 27 de
Janeiro de 1977, «Matchejde» dedicou-se sempre à divulgaqáo de pratos mo2
"
ambicanos e sáo eles
TEMPO N., 450 - pàg. 29
que figuram em maior parte nas ementas diárias daquele restaurante. (Por vezes,
14 a 20 pratos nacionais).
Se considerarmos as várias obras que actualmente estão a ser realizadas no
sentido de ampliar e melhorar as instalações daquele estabelecimento hoteleiro,
cujas despesas rondam à volta de três mil contos, e que serão sustentadas pela
receita do próprio restaurante, é notável a rentabilidade 'dos serviços ali levados a
cabo.
Matchedje tem os seus canais de abastecimento garantidos, por cooperativas de
produção agrícola e pecuária. Por isso não tem problemas com os condimentos
necessários para a confecção de uma variedade de pratos moçambicanos.
«Mas acontece q u e nós chamamos comida moçambicana, mas não é bem isso
porque é só comida da zona, sul que nós fazemos aqui esclareceu-nos o mesmo
elemento, que para justificar este facto, fez referência à falta de troca de
experiências com trabalhadores do ramo da indústria hoteleira de outras
províncias. Mas, a experiência do «Matchedje» é a que deveria servir de exemplo
para os milhares de restaurantes e estabelecimentos similares q u e abundam nos
grandes e pequenos aglomerados populacionais do país.
SÓ MULHERES É QUE
PODEM COZINHAR?
A cozinha moçambicana faz parte da cultura do Povo r:oçambicano. Ela
desenvolveu-se também durante as diversas fases da nossa sociedade. Podemos citar o exem plo da acentuada influência árabe que caracteriza os
cozinhados de extensas zonas da costa moçambicana, onde os árabes se fixaram
antes do século XIV. Ete contacto determinou algumas transformações no modo
de vida de várias camadas sociais que habitavam o território que hoje é
Moçambique. Essa influência vai-se desvanecendo conforme penetramos no
interior. Ai surgem outros hábitos alimentares,
Mas então, porque será este «pôr-de-lado» a que parecem estar votados os
costumes alimentares do Povo moçambicano em grande, parte dos nossos
restaurantes?
Vimos anteriormente que a aculturação que nos foi inculcada pelo colonialismo é
uma das causas que originaram este facto. Outro, que surge precisamente na
sequência dessa alienação, é o facto de em quase todos os restaurantes serem
indivíduos de sexo masculino quem trabalham na cozinha. A «formação»
culinária dos homens re-duz-se, na generalidade, à sua experiência transitória
como empregados domésticos de colonos. São as mulheres, lá em casa, que fazem
as comidas moçambicanas. A mulher neste caso é guardiã de uma rica cultura.
Para o trabalho de divulgação do nosso rico manancial alimentar para que esse
trabalho transcenda as barreiras que lhe foram impostas, é importante a contri«É só saber sjeitar.,.» Celeste Manuel
Atmoço no «Matchedje. A1U na ementa diária chegam a
Iigurar 14 a 20 pratos moçambicanos
TEMPO N.o 450 - pág. 30
Aútónio Muwai é cozinheiro de longa data: <Trabalhei como cozinheiro nos
«quintais» (empregado doméstico), no Hotel Universo, na pensão «Guadiana», no
«Atstória», e agora aqui no «Atelier», mas nada sei de cozinha moçambicana
COZINHA
MOÇAMBICANA UMA QUESTÃO CULTURAL
Peneirando milho pilado que servird
para cozinhar «Upsua»,
TEMPO W 5a0 pág. 31
ALGUMAS
DAS NOSSAS REALIDADES ALIMENTARES
No âmbito da divulgação e valorização do nosso rico manancial em variedades
alimoentares, o CIT (Centro de Informação e Turismo) divulgou no ano de 1975 o
primeiro manual intitulado «COZINHA MOÇAMBICANA», o qual foi elaborado
através de contribuições populares. Esse manual foi posto à venda em várias
livraias.
Tem por objectivo educar os trabalhadores de todos os estabelecimentos
hote1975-ANO DA INDEPENDÈNCIA lelros e similares a incluirem pratos,
fruFUNDO DE TURISMO
LOURECO MARnUES tas ou bebidas moçambicanas nas suas ementas.
TFMPO N., 450 -- pg. 32
COZINHA MOÇAMBICANA UMA QUESTÃO CULTURAL
buição da mulher moçambicana.
A experiência colhida pelo restaurante «Matchedje» é, neste campo, digna de
menção:
«Eu sou membro da OMM no meu bairro.»É
Maria Celeste Maguengue, uma das cozinheiras do «Matchedje», quem assim nos
fala. «Quando foi da realização do IIl Congresso, logo abriu este restaurante e nós
viemos trabalhar para aqui, a fazer comida moçambicana.
Alguns homens que aqui trabalham connosco, que nada sabiam de cozinha
moçambicana, e que entretanto sabem fazer pratos de lora, já aprenderam a lazer
comida moçambicana. »
«É SÓ SABER AJEITAR...»
Voltamos para o diálogo que mantivemos com a dona Celeste Manuel, quando,
em sua casa, a encontrámos preparando o jantar do dia:
«Eu já me habituei a que sempre que há uma coisa, não há outra,» Diz-nos ela
fazendo referência aos problemas de abastecimento em géneros de primeira necessidade que
por várias vezes se verificam.
T -Dona Celeste, como encara a actual situação d o s abastecimentos na cidade de
Maputo?
C.M.- Eu já lhe disse que estou habituada a estas coisas de haver isto e faltar
aquilo.
Dona Celeste vira-se para o lado onde, em pé, a sua filha, ia acompanhando o
diálogo que mantínhamos com a
mãe e manda-lhe buscar alguma coisa que a princípio não entendemos bem o que
seria.
Enquanto isso, ora debruçando-se sob a peneira que continha feijão nhemba, ora
gesticulando como que para dar mais força às suas palavras, dona Celeste
continua a falarnos: «Eu, mesmo nos dias em que não consigo arranjar pão, pego
na mandioca, ou na, batata-doce, faço chá e tomo com as minhas filhas.»
Da pequena abertura que serve de entrada da barraca onde vivem dona Celete e
família, sai
a filha com um pacote branco nas mãos:
«Estes pacotes estão à venda aí em todas as cantinas! Tomara que to da a gente
soubesse que coisa é que está escondida aí dentro... Estes pacotes contêm
mandioca seca moída (xiguema, designação que se Uze dá numa das línguas
Iccais). Isto tanto serve de «arroz», ou de «bupsua».
Há quem quando não arranja carne, batata, , sei lá que mais, fica sem saber o que
há-de fazer para comer nesse dig. Não morro de fome, não. É só saber ajeitar
Nesse mesmo momento, uma motorizada inrompe pelo quintal da casa da dona
Celeste. Alguém nos esclarece que é Manuel, irmão mais novo da dona da pasa,
que a vem visitar.
Manuel só deu as «boas-taraes», q u a n d o uma meia dúzia de colheradas de
caril feito com feijão nhemba, acompanhado de arroz, já lhe tinha passado para o
fundo da, boca!
Texto
de Bartomeu Tomé Fotos de Kok Nam
TEMPO N.o 450 - pág, 33
SAUDE:
REABI LITAÇÃO
Entre as doenças existentes em Moçambique, a lepra é luma das mais
preocupantes pois afecta ainda uma parte de população e o seu tratamento
completo leva muito tempo. Para agravar esta facto, existem também ideias
erradas acerca da origem e transmissão da doença. Que fazer para eliminar os
tabus sociais? Qual a estratégia correcte de combate e controlo da doença no país?
A lepra é uma doença antiga. De acordo com a História já na Idade Média, na
Europa, os doentes eram então tratados pela sociedade coii desprézo ou
paternalismo. O tratamento dos leprosos quase sempre estava a cargo de
religiosos e os doentes viviam em locais isolados, privados do convívio social e
familiar. Uma situação degradante porque, durante muito tempo, dizia-se que a
lepra era altamente contagiosa e de difícil tratamento; ou era um castigo, ou os'
doentes eram diferentes das outras pessoas. Enfim, que era uma doença
hereditária.4.
Com o avanço da ciência constatou-se que isso não corresponde à realidade' A
lepra é uma doença provocada por um mi c r ó b i o e não uma maldição ou
suposto espírito mau. Leva muito tempo a desenvolver-se e a desaparecer mas
pode ser curada por meio de comprimidos. Quanto à transmissão da doença, as
possibilidades são limitadas. Existem três tipos principais de lepra e ape nas uma,
a lepra lepromatose, é trarsmissíel. Aparece somente em
10 por cento dos doentes. Mesmo este tipo -'segundo os médicos deixa de ser
contagioso passados meses, quando correctamente tra. tado.
A LÈPRA EM MOÇAMBIQUE
Em Moçambique existe um gran de número de leprosos (65 mil em 1976). A
maior parte dos casos verifica-se nas províncias da Zambézia, Nampula e Cabo
Delgado. O regime colonial praticou tambéit a segregação dos doentes de lepra,
encerrando.os em hospitais, gafarias e leprosarias.
Quando tivessem alta, e para que não andassem a mendigar nas ruas das cidades,
a «assistência social> construía albergues para os doentes, onde viviam à custa de
subsídios e esmolas. Nesta- acção destacavam-se as instituições de caridade e
religiosas. Desde modo habituavam-se as pessoas ao parasitismo.
Além da prática sanitária retrógrada do colonialismo português em Moçambique,
subsistem ideias erradas no seio da população que contribuíam para que a
TEMPO N.o 450- pág. 34
SOCIAL
E PROFISSIONAL DO LEPROSO
própria família marginalizasse o doente de lepra.
A POLITICA
SANITARIA DA RPM
Com base nos princípios políticos que orientam a República Popular de
Moçambique e apoiando-se nos progressos feitos pela Ciência, o Ministério da
Saúde definiu, em 1977, uma nova estratégia para o combate e controlo da lepra
.que teve por objectivo fundamental
- transformar os esquemas de tratamento até então existentes e dar um carácter
preventivo ao combate como o define um responsável. A definição da política de
Cuidados de Saúde Primários permitiu enquadrar devidamente eo problema.
Tal estratégia teve em vista ós seguintes aspectos: profilaxia, tra tarmento, destino
a dar aos doentes de lepra actualmente existentes ou que venham a afluir
futurar.ente às unidades sanitárias; aproveitamento das actuais leprosarias;
recuperação física e social; apoio social durante o tratamento; doentes de lepra
como marginais nos centros urbanos.,
Constatou-se que não são necessárias instalações especiais para o acolhimento
dos, doentes de lepra. Elas são até perniciosas para a sua reabilitação social.
Enquanto que no tempo colonial havia um hospital especial para leprqsos,
definiu-se que os Centros de Saúde passariam a controlar o tratamehto regular dos
doentes - tratamento diário - numa fase; bissemanal, noutra. O controlo desse
tratamento é feito com o apoio do Partido e das organizações democráticas de
massas.
Mas, tal como noutros casos de doenças frequentes como a tuberculose e as
chamadas parasitoses vesiculares (bilharziose) ou intestinais (ancilostomia), a
solução reside fundamentalmente na melhoria do saneamento do meio, melhoria
das condições dos locais ondi vive a população (construção de latrinas,
abastecimento correcte de água, depósito correcto de lixo), além da melhoria dosi
hábitos gerais de higiene.
PAPEL DA EDUCAÇÃO SANITARIA
Com base nesta estratégia cabe à educação sanitária um papel' fundamental para
a reintegração: familiar e social dos doentes de lepra. Apenas um número míninúo
de casos, em condições especificas, é internado, devendo os restantes doentes
permanecer junto da família. A melhor forma de evitar, qualquer espécie de
contágio nos casos em que a lepra é transmissível - é praticar a higiene corporal,
da casa e do meio; ter um cuidado especial com as roupas e utensílios do doente
de lep .ra.
Quer dizer, os doentes fazem> tratamento em regime ambulatória, inseridos na
comunidade. Esta política sanitária é uma conquista revolucionária. Não se co-;
nhecem, em África, experiências semelhantes, pois segundo diz o director
nacional de medicina preventiva, dr. Inussi, em muitos paises continua a recorrerse aos chaTEMPO N.o 450 - pág. 35
T
(1114 o aparelhos de rådio
mados serviýos verticais: hospi '4ý tals s6 para dQentes de lepra, com
r
pessoal tambéin especializado para
7W
d' _<as da lepra, etc.
Äý
UM PROCESSO LONGO
Contudo a realizagäo pråtica desta estratégia é um processo. Ainda existem
alguns doentes per inanecendo desnecessariamente em
R7:1 Å ,
regime de internamento, enquanto
se criam condi,öes para a sua efee tivc reintegraigäo na comunidade, quer
regressando parajunto da familia ou aldeia de örigem, quer indn para uma
instituieåo para dimiruldos fisicos caso seja necessårio ou fazendo um trabalho
produtivo de maneira a ýenquadrar-se na sociedade.
Nä mWor parte das vezes, o doeftte de lepra näo necessita de ficar internado. Faz
tratamento ambu4
'T
latörio permarecendo integrado itu
contunidade
IPO N.ý 450 -påg. 36
Um exemplo concreto de como nãc tem sido fácil este processo é nos contado
pelo' dr. Igrejas Cmpos, director do Hospital Geral de Mavalane (antigo Hospital
Dermatológico Firmino Santana). Est(. estabelecimento, construído então «fora da
cidade» era exclusivamente dedicado ao tratamento dos doentes de lepra, vindos
principalmente das províncias de Inhambane, Gaza e Maputo.
Quando se transformou este hos pita] - diz-nos - não havia lepro %os aqui, mas
sim diminuídos físicos. Muitos não havia necessidade de cá ficarem. Uns
regressaram
às províncias de origem ou foram para instituições de diminuídos fisicos ou para
centros de apoio à velhice. Mas apesar das medidas tomadas no sentido de os
centros de saúde da sua área de residência efectuarem o controlo do seu
tratamento, muitos continuam a afluir a este lugar, porque aqui era o hospital dos
leprosos.... Portanto a nossa maior dificuldade é a educação sanitária dos doentes.
Mas em certas zonas do país, os doentes com alta, uma vez mobilizados começam
a participar na edificação'da nova sociedade. A princípio formam aldeias somente
de
leprosos, mas pouco a pouco, com o esclarecimento das populações que vivem à
sua volta, inicia-se a integração. Aliás nas zonas rurais este processo de reabilita.
ção social vai avançar efectivamente com o desenvolvimento das aldeias
comunais.
Em M'condedzi, na província de Tete, os aldeões - a maior par te dos quais
doentes com alta são hoje praticamente auto-suficientes, possuem 50 hectares de
produção e é onde a experiência está mais avançada. - Diz-nos o dr. Inussi.
«Éramos desprezados mesmo pela população do bairro por causa da nossa
doença. Não- podíamos ir à loja nem às reuniões, pois dizia-se que podíamos
contaminar as pes soas...» - Raimundo Salomão MondIane (primeiro à es.
querda) no Hulene
Aproveitando a iniciativa dos doentes com alta que viv no bairro do Hulene é
possível incentivar a criação cooperativas de produção, por exemplo para a
confecc
de cestaria de palha
TEMPO N., 450 - pág. 37
Na capital do país, existe o bairro do Hulene, na chamada cidade do caniço. AI
eram atirados tradicionalmente os leprosos depois de terem alta do hospital
«Firmino Santana», ali próximo. A maior parte vivia de esmolas, farinha de milho
e duzentos escudos mensais dados pela assistência.
Diz o dr. Igrejas Campos: As instituições de caridade decidiram arranjar aquele
lugar para que os leprosos não incomodassem. Para que os doentes de lepra com
alta não fossem à cidade mostrar as suas mazelas - o que indispunha a sociedade
burguesa colonial. Assim construíam essas casas, davam-lhes comida. O leproso que tinha alta e muitas vezes podia voltar a produzir, ficava ali reduzido a
mendigo: A caridade cristã estava associada a uma política de segregação da
sociedade. Era uma espécie de troca. ,Nós damos-vos esmola, mas Vocês deixam
de nos ir incomodar lá na Baixa.. ..
A TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA
Hoje, náo é fácial transformar a situação ali no bairro. Elementos da população
com as ideias erradas de que falámos, não aceitaram de bom grado a presença los
leprosos.
Raimundo Salomão Mondlane, uni dos doentes com alta no Hulene, conta-nos
com mágoa: Nós nem sequer podíamos entrar na loja juntamente com as outras
pessoas. Não podiamos ir às reuniões. Apresentar o problema às estrutura do
bairro? Ninguém queria saber da nossa vida!
Desde que foram iniciadas reuniõeý, de esclarecimento à população do bairro,
promovidas pelas estruturas de Saúde, há perspectiva de a situação melhorar.
Alguns leprosos com alta trabalham como jardineiros do Conselho Executivo da
Cidade, segundo fomos informados; outros fazem tareA educaçdo sanitdria tem um papel fundamental a desempenhar para o combate e
controlo da lepra. Na imagem,
os doentes escutam atentamente uma lição sobre h# mais elementares normas de
higiene
TEMPO N.- 450 -páqg 38
Um caso de lepra em que o doente jd não possuía os de dos dos pés e das mãos.
No entanto não se jutilfca o isolamento do doente da sua famflia e da sociedade.
Para m elhor prevenção da lepra a melhor arma é a higiene corporal, da casa e do
meio,
fas de apoio à população, acarretando água, por exemplo, para as famílias que não
têm tempo: os leprosos têm até certa prioridade nas lojas e nas bichas, como
informou um responsável do bairro, e os seus filhos já vão à escol&.
Como se sabe o bairro de Hulene está a ser estruturado para servir de bairro piloto
a nível de Maputo. Organizadas pelo Partido Frelimo as populações fazem
esforços no sentido de resolverem por si só os problemas políticos, económicos e
sociais que enfrentam
No que respeita ainda aos leprosos com alta, pensa-se aproveitar a sua iniciativa
de feitura de cestos e objectos vários de palha, por exemplo, para se organizarem
em cooperativa de produção. Mas a sua integração total
na comunidade passa por um esclarecimento político da população.
Judite Mutaka e Pedro Munguambe, da Comissão de Saúde do Bairro Hulene,
falaram-nos des ta tarefa: A nossa Comissão disse Judite Mutaka - criada em
princípios de Janeiro do corrente ano, tem a tarefa de fazer a educação sanitária
das populações. Presentemente realizamos tarefas relacionadas com o
sanealnento do meio como, por exemplo, a construção colectiva de latrinas em
locais de concentração pública. Numa fase próxima, está previsto um trabalho de
esclarecimento político sobre as origens de certas doenças, entre as quais a lepra.
Alguns médicos deverão dar palestrãs também sobre doenças parasitárias, mal1uutrição,'ý bilharziose, tuberculose pulmonar. Além das palestras, vamos
promover umi trabalho político de consciencialiTação, e sensibilização das
populações para uma melhor integração dos leprosos no bairro.,
Em todo o Í!caso, o ýapoio social e moral durante a fase de reabilitação ajudará a
que ýo diminuído físico encare :com maior realismo a vida -e se desligue dos
hábitos de mendicidade e de, invalidez a que era injustamente condenado. Esta é
uma tarefa de todo o eidadão.
TEMPO N.o 450 - pág. 39
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TEMPO N.o 450 - Ȍg. 40
Ti or-Leste:
APESAR
DE TUDO.
A LUTA
CONTINUA!
eTEMPO entrevista Mari AIl*tin
No passado dia 20 de Maio comemorou-se a passagem do quarto aniversário da
fundação da FREIILIN, vanguarda revolucionária do povo de Timor-Leste em
luta contra os invasores indonésios.
Em Maputo, entrevistámos Mari Alkatiri, membro do Comité Central da
FRETILIN e Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Demo. crática de
Timor-Leste.
TEMPO - A rendição aos invasores indonésios de um grupo de dirigentes da
FRETILIN, em fins do ano passado, foi interpretada por uma certa imprensa
ocidenta!, como o fim das esperanças de independência da R.D.T.L.
No entanto, a luta continua. Poderá V. Ex., situar politicamente a atitude dessas
deserções no contexto da evolução da luta em Timor-Leste
MARI ALKATIRI - Para nós era perfeitamente natural que essas rendições se
verificassem, na
medida em que a FRETILIN, embora tivesse iniciado o processo procurando
englobar no seu seio todos aqueles que à priori defendessem a independência,
tinha objectivos muito claros a atingir: o objectivo de transformar a luta de
libertação nacional numa revoíução popular. Foi dentro desse con.texto que,
desde a constituição da FRETILIN até à presente data, se verificaram lutas entre
linhas diIerentes no seio do movimentó. Até aqui podemos afirmar que a linha
conservadora, bem como a
linha representativa da resistência tradicional, foram vitoriosamente combatidas.
Xavier do Amaral representava uma linha que além de conservadora era uma
tendência feudal. Em 1977 deu-se finalmente uma ruptura entre o grupo de
Xavier' do Amaral e a FRETILIN numa altura em que Alarico Fernandes ainda se
encontrava entre as fileiras dos combatentes e, den tro das funções que ele
desempenhava, teve um papel positivo no isolamento do grupo de Xavier do
lAmaral. Porém, Alarico FernanI~uIYo UISTOflI~ OE MOÇAMII~ff
TEMPO N.- 450 - pág. 41
h
des representava uma linha não revolucíonária dentro da FRETILIN, diríamos
mesmo uma linha anti-revolucionária e portanto ao ajudar ao «bandeamento» de
Xavier do Amarai, Alanico Fernandes esperava alçar-se a posições chave dentro
da FRETILIN, pelo menos até Vice-Presidente. Isso não sucedeu e quando se
reuniu o Comité Central'e se elegeram os novos diri gentes, Alarico Fernandes
sentiu-se frustrado. Nessa altura Outubro de 1977 - Alarico Fernandes preparava
já a sua acção antirevolucionária para desencadear mesmo um golpe interno
dentro da FRETIIN. Apelidava os camara. das verdadeiramente
revolucionários.de «comunistas» e com isto pretendia obter um leque, o mais lato
possível, de apoio a nível nar cional para se poder lançar contra os camaradas
dirigentes e patriotas. Portanto, nós baseamo-nos no princípio de que o processo
revolucionário, ao mesmo tempo que forja novos dirigentes, ao mesmo tempo que
forja uma direcção mais coesa, repele do seu seio, os elementos que são os
parasitas, os restos mortais do colonialismo. Seria muito mais preocupante para
nós, em termos políticos, se isso não sucedesse. A nossa luta é sobretudo política
e a nossa vitória terá por isso de ser essencialmente politica. Nós nunca
ambicionámos uma simples vitória militar básica sobre o inimigo. O que
queremos alcançar é uma vitória política.
Assim, a nossa interpretação relativamente às deserções referidas, é que tem
havido no seio da FRETlIAII grandes saltos qualitativos em termos políticos;
tem vindo a dar-se uma maior clarificação da linha política e ideológica o que
assegura a continuação da luta bem como uma apxoximação cada vez maior da
vitória final.
T - A morte em combate do Presidente da FRETILIN, Nicolau Lobato, i: passado
dia 31 de Dezembro, constituiu uma dura perda para a luta do povo maubere. A
quem confiou a FRETILIN as responsabilidades de direcção política e militar da
luta?
M.A. - Na verdade a sua morte foi uma dura perda mas foi simultaneamente um
estímulo para os
Mari Alkatiri, Ministro, dos Negócios
Estrangeiros de Timor.Leste
nossos combatentes pois o camarada Presidente Nicolau Lobato deixou-nos a
todos nós uma lição: o facto de depois. da sua morte, nós termos sido capazes de
continuar a luta provou que ele soube cumprir a sua missão. Se o Presidente
Nicolau Lobato tivesse feito com que a luta dependesse totalmente da sua pessoa,
ele teria falhado. Ele soube ir mais longe: com a sua determinação inabalável,
com a sua grande lucidez, ele conseguiu, juntamente com todos os camaradas
dirigentes, forjar uma direcção colectiva constituída por um comité permanente de
seis elementos. Após a morte do Presidente, e de acordo com os estatutos ýda
FRETILIN, o poder foi assumido por um Conselho Presidencial orientado pelo
Vice-Presidente. Cumprindo a palavra de ordem desse órgão do Governo, os
nossos combatentes lançaram gran des ofensivas tácticas para provar aos nossos
inimigos- que não seria ceifando a vida do nosso Presidente que eles iriam obter a
vitória. Mostrámos-lhes que o exemplo do Presidente iria ser seguido por todos
nós.
T -- Após quatro anos de luta contra os invasores indonésios, qual a situação
política e militar em Timor-Leste?
M.A. - Neste momento, e devido à série de traições de que te-
mos sido vítimas, há certos sectores, sobretudo" no Centro-Norte (que foi até
1977 chefiado por Xavier do Amaral) em que a corre, laçäo de forças é mais
favorável ao inimigo. Também Alarico Fernandes e os quatro elementos que
traram em 1978, se encontravam neste sector Centro-Norte. Tudo isto resultou
numa mudança de táctica da nossa parte: entraram em acção as forças especiais de
gueírilha que actuam em pequenos grupos de 5 elementos. Estes grupos, que têm
vindo a infiltrar-se nas zonas controladas pelo inimigo particularmente em Dli e
Bau cau as duas principais cidades, têm vindo a desencadear nos últimos meses,
desde Janeiro e Fevereiro até agora, grandes operações de sabotagem em território
inimigo e nós temos conhecimento que até este momento se vive em Dili ýnum
ambiente muito tenso e que as autoridades indonésias decretaram um recolher
obrigatório por um período que vai das 17 horas às 6 da manhã.
Houve, por isso, uma certa mudança 'de táctica da nossa parte no que diz respeito
ao aspecto militar e isto em primeiro lugar porque há que obrigar o inimigo a
preocupar-se com a defesa das suas bases. Isso permitirá que nas zonas libertadas
se faça uma rectificação geral das nossas fileiras e consequentemente a
reorganização de todas as nossas forças. Em segundo lugar, porque há que
mobilizar, nas zonas controladas pelo inimigo, toda a população lá residente,
operação que tem dado bons resultados. Em terceiro lugar, para' que o inimigo
não avance muito para as zonas libertadas mas sim que se mantenha nas zonas já
por ele ocupadas de modo a agudizar cada vez mais as contradições existentes no
seu seio. Deste modo, não podemos, de modo algum, afirmar que a situação
militar é boa. Ela é realmente difícil pois o inimigo tem utilizado, com abundân
cia, os bombardeamentos por meio de bombas químicas e biológicas, com gazes
tóxicos e outros meios que, entre outras coisas, destroem por exemplo, as culturas.
T - Nas dificeis condições existentes em Timor-Leste, a vitória
EMPO N.o 450 - pág, 42
político-militar está estreitamente ligada ao combate pela produção nas zonas sob
o controlo das forças populares. Como se está a desenvolver esse processo em
Timor.
-Leste?
M.A. - Como já disse acima, o inimigo tem desencadeado, nos últimos meses,
uma grande campanha de destruição das culturas por meio de bombardeamentos
aéreos.
No entanto, desde o início da guerra que verificámos que esses bombardeamentos
atingiam muito mais frequentemente as culturas das zonas planas pelo que
começámos desde logo a definir tais culturas como não estratégicas, conscientes
como estávamos da sua vulnerabilidade. A s s i m, definimos como estratégicas as
culturas das montanhas e as culturas do niato que foram desenvolvidas
activamente desde o principio da guerra. Nesses locais, podem cultivar-se, para
além de tubérculos, milho, algumas qualidades de arroz e outros vegetais. Com
base nessas culturas temos conseguido manter reservas razoáveis para alimentar a
guerra.
T - A invasão da R.D.T.L. insere-se no vasto. plano do expansionismo indonésio.
Poderia V. Ex. sitar si. Inta. do nnva mnhl-
bere no quadro das resistências a esse subnmperiatismo- ?
M.A. - Não há dúvida nenhuma de que o expansionismo indonésio é um facto.
Em 1969, não devemos esquercer-nos, procedeu-se à anexação do Irião Ocidental
até hoje a resistência neste país tem-se mantido activa. Os patriotas iria. neses
continuam a resistir à administração de Jakarta. E, no próprio seio da Indonésia,
encontrámos também vários focos de resistência: nas Molucas do Sul, por
exemplo, existe uma resistência que data de há dezenas de anos e que embora-não
armada se manifesta periodicamente. Na Sumatra há, neste momento, uma
resistência armada e até em Timor Ocidental embora não haja uma resistência
armada manifesta-se uma evidente aversão à presença javanesa.
Mas, no caso de Timor-Leste, não foi apenas devido ao expansionismo indonésio
que se deu a invasão do nosso território, mas também porque isso coincidiu com
uma estratégia global imperialista, porque coincidiu com os desejos do
imperialismo norte-americano. Para que se realizasse a invasão, Suharto teve a luz
verde de Geraid 1'nrti s> Tpnrv Kiqeinsypr- Nýýn
Da esquerda para a direita: Mari Alkatiri; Rosa Bonaparte, dirigente da
Organização Popular das Mulheres de Timor-Leste, fuzilada pelos indonésios em
Dezembro de 1975, em Dili; Presidente Nicolau Lobato, morto em combate em
Dezembro de 1978
nos restam dúvidas sobre o facto. E porque é que se deu tal invasão? Qual a
importância estratégica de Timor-Leste'? O es .to de Ombai-Wetar, que
passa
em frente da nossa capital, Dili, faz a ligaçao mais rápida entre as bases
indonésias do Pacífico ao Indico e vice-versa. Em segundo lugar, temos a gradual
perda de controlo por parte do imperialismo americano do Mar do Sul da China.
Em terceiro lugar, temos a própria situação de Timor-Leste no contexto
geopolítico: a Indonésia representa para o imperialismo -americano um bastião
seguro, um tampão para o avanço das forças revolucionárias. E Timor-Leste fica
situado quase que no coração das ilhas que constituem, hoje em dia, a Indonésia.
Além disso, Timor-Leste fica situado a 600 quilómetros da Austrália que é outro
bastião do imperialismo americano. E é isto que constitui a importância de TimorLeste sob o ponto de vista estratégico e militar, mas há ainda as razões
económicas. Timor-Leste é bastante rico em petróleo embora ainda não
explorado. Sabe-se que tem urânio, cobre e gás natural em quantidades imensas.
Tudo isto são razões mais do que suficientes para que o expansionismo indonésio
encontrasse força e apoio no imperialismo americano. k'oi com o apoio desta
força, que a Indonésia em 1976, quando se encontrava à beira do colapso militar,
recebeu o auxilio técnico - pilotos americanos e material para a ajudar na guerra
contra a FRETILIN. Se o expansionismo é indubitavelmente um perigo para
aquela área, é-o sobretudo porque tem o apoio dos americanos.
T - Poderia V. Ex. fazer o ponto da situação sob o ponto de
vista diplomático?
M.A. - Sim, a situação interna não pode deixar de se reflectir no campo
diplomático. Nesse campo podemos dizer que temos conseguido, apesar de tudo,
algumas vitórias importantes ao nível da O.N.U., do Conselho de Segurança e da
Assembleia Geral, a nível do Movimento dos Não-Alinhados Bureau de
Coordenação e Conse-
TEMPO N.O 450- pãg. 43
lho de Ministros dos Não-Alinhados - e na própria Cimeira dos Chefes de Estado,
a nível de outras organizações internacionais como a OSPAA e o Conselho
Murdial da Paz, entre outros. Mas, este ano, sabemos que vamos ter algumas
dificuldades no campo diplomático: a falta de comunicaçoes regulares com o
interior conjugada com toda uma convulsão internacional e o aparecimento de
outros problemas que atraiem mais a opinião pública, vão criar-nos muitas
dificuldades. Por exemplo, neste momento estamos a fazer um esforço para
chegar junto da opinião pública dos países ocidentais - não dos seus governos
tentando estabelecer relações de amizade com todas as forças democráticas e
progressistas no sentido de encontrarmos destacamentos de apoio. .] dentro desse
conr ULTIMA HORA
já esta entrevista estava composta quando recebemos a. informaÇ0 de que fontes
ligadas à agência noticiosa de Timor-Leste, informaram de Djaikarta, capital da
Indonésia, que o chefe do regime militar fascista indonésio, general Suharto,
designou Xavier do Amaral para o cargo de «-Vice-Governador» em TimorLeste.
As mesmas fontes indicam que o referido traidor tomará posse ainda este mês,
Recorde-se que Xavier do Amaral foi presidente da Fretilin tendo traído a causa
do povo maubere entregando-se aos indonésios. De Dili fontes não ligadas nem à
FRETILIN nem ao regime, informaram que Alarico Fernandes, outro traidor da
Fretilin, e alguns dos seus comparsas, nomeadamente Afonso Redentor e Cornélio
Exposto foram mortos nos arredores de Dili. Especulam-se várias versões sobre as
causas destas mortes tendo sido levantada a hipótese de suicídio ou de terem sido
mortos pelos indonésios. Contudo, parece confirmar-se uma terceira versão
dizendo que os mesmos teriam sido executados pelas forças especiais da
FRETILIN, em Março último.
Contactada a representação permanente da Fretilin no nosso país, sobre os
assuntos em questão, um dos responsáveis afirmou nada mais poder adiantar em
relação à morte de Alarico Fernandes. É de notar, contudo, que logo após as
mortes dos referidos traidores, Xa. vier do Amaral foi transferido de Dili para
Bali, na Indonésia, onde ainda se encontra.
TV' 0 N.- 4
texto que, no próximo dia 20 de. Maio, se irá realizar em Lisboa :o Seminário
Internacional de Apoio à Luta do Povo de T'=or-Leste sob a liderança do partido.
Este seminário é, apenas, o primeiro duma série de muitas outras conferên., cias
mais amplas a serem realizadas daqui para o futuro. Mas nós definimos como
máxima prioridade, a Cimeira do Movimento dos Não-Alinhados que se irá
realizar em Havana no próximo mês de Setembro. Temos feito grandes esforços
no sentido de podermos estar presentes nesta cimeira e partimos do princípio que
o facto de esta Cimeira se realizar em Cuba já é, para nós, um factor muito
positivo e que garantirá a nossa presença. No ano passado não tivemos
autorização do Governo de Sri Lanka para estarmos presentes na 5.a Cimeira, mas
a próxima visita a Cuba foi-nos assegurada aquando duma ida de uma delegação
nossa àquele país no ano passado. Mas sabemos também que esta Cimeira irá
discutir problemas de grande importância, como o problema da Indochina, o do
Médio Oriente com o chamado Tratado de «Paz» Israelo-Egípto, problemas da
África Austral, problemas de grande importância, os mais importantes neste
momento e que obrigarão os participantes da Cimeira a dar-lhes grande atenção.
Mas, m e s m o assim, nós esforçar-nos-emos pára conseguir algo desta Cimeira:
que o movimento dos Não-Alinhados reconheça mais uma vez a justeza da nossa
luta liderada pelo Comité Central da FRETILIN.
T - Quer enviar alguma mensagem ao povo de Moçambique?
M.A. - Sim nós queríamos apro veitar para dizer ao povo de Moçambique, que
sempre esteve a nosso lado nos momentos mais dificeis que, com o seu apoio,
bem como o de outros povos irmãos, nós saberemos cumprir o nosso papel
histórico na transformação da sociedade de Timor-Leste.
Entrevista conduzida por José Sá
Argentina:
A Jornpda Nacional de Pro.
testo que cfecorreu recentemente na Argentina, marcou, na opinião dos
observadores políticos, a derrocada da ofensiva da dita.
dura contra as massas popula.
re e o Inicio de ofensiva popular.
Independentemente dos retul.
tados (positivos na maior parte dos locais) um facto se evidenciou: foi a primeira
vez desde que a ditadura fascista subiu ao poder há três anos, que se realizou uma
atitude de protesto ao nível nacional. Um facto que Videla não pode mais ignorar.
A Jornada Nacional de Protesto que. decorreu na Argentina é o resultado directo
da situação que se vive naquele país desde que a Junta Militar Fascista de Videla
tomou o poder.
Desde Março de 1976 que a situação económica dos trabalhadores se tem vindo a
deteriorar progressivamente tendo agora atingido um nível sem precedentes.
Neste período, os salários perderam 45% do seu valor, taxa cujo significado
ainda se torna mais claro se recordarmos que a A rgentina tem actualmente a mais
alta taxa de inflação de todo o mundo: O índice inflacionário dos últimos dois
anos atingiu 170%.
Por outro lado, a vida sindical argentina está numa situação em que os sindicatos
de trabalhadores se vêem forçados a actuar na clandestinidade, uma vez que os
sindicatos legais se encontram quase todos dominados por homens de confiança
de Videla. Uma das primeiras medidas da Junta quando subiu ao poder foi
precisamente a publicação de um decreto que
Videla estd só com o olhar perdido. Isolado mesmo daqueles de quem estd junto.
As massas populares realizaram a Jornada Nacional de Protesto. Contra a oZ
tadura. Contra Videla. A pnergia da ofensiva do fascismo terminou. Videla
TEMPO N.o 450 - pág. 45
proibia a actividade sindical, tendo posteriormente sido proibidas as eleições de
delegados sindic desfeitos os núcleos sindicais de fábricas e sido acabada a livre
discussão sobre a contratação colectiva. Isto para além do desaparecimento de
milhares e milhares de pessoas (estimadas em 4500 pela Assembleia Permanente
dos Direitos Humanos na Argentina) e de uma repressão política constante.
Esta situação geral originou, como não podia deixar de ser, uma série de conflitos
laborais durante todo o mês de AbrL Calculamr-se terem existido mais *Ie 50
coliflitos declarados que produziramgre ves de curta duração que' englobaram
mais de 40 mil trabalhadores.
Durante os meses que antecederam esta Jornada Nacional de Protesto as greves
eram realizadas de surpresa de modo a evitar
a concentração de forças repressivas contra os trabalhadores.
A situação foi-se desenvolvendo, os conflitos polarizando-se, até que se chegou
K Jornada Nacional de Protesto.
O PROTESTO NACIONAL CONTRA A DITADURA
FASCISTA
A Jornada foi convocada por uma estrutura sindical denominada uComissão dos
25» que teve de lutar contra a oposição declarada da estrutura sindical
governamental, a «Comissão Nacional de Trabalho», que é formada por dirigentes
próýgovernamentais de sindicatos sob intervenção militar da Junta.
Os membros da Comissão dos 25 (a maior parte dos quais foi, depois, presa pelas
forças do regime) publicaram um comunicado no qual chamavam toda a classe
trabalhadora argentina a efectuar
uma Jornada Nacional de Protestc de vinte e quatro horas, para a mudança da
actual política económica da Junta.
A, reivindicações apresentadas eram a restituição do poder aquisitivo dos
trabalhadores e a aplicação integral da lei das Contratações Colectivas de
Trabalho, a normalização da vida sindical (liberdade de acção e fim da legislaçãc
repressiva), a devolução das obras sociais dos trabalhadores, a liberdade e
aparição dos secrestados e presos e a renúncia do ministro da economia, Martinez
de Hoz.
Recorda-se que estes pontos foram sistematicamente pontos de luta da resistência
sindical argentina desde há três anos.
Os dados colhidos pelos sectores da resistência sindical indicavam que a Jornada
tinha sido vitoriosa. No sector dos transportes houve uma participação massiva,
mesmo apesar de alguns dos
DA RESISTÉNCIA
1CONTRA OFENSIVA POPULAR
Falar de greve ou mesmo de greve geral num pais capitalista e dependente pode
considerar-sC um facto quase normal, dado que se trata de uma das formas de luta
mais comuns com que os trabalhadores que se encontram sob um regime
explorador, defendem os seus direitos. Mas falar numa greve geral nu país como,
a Argentina actual, que se encontra, sob a ditadura militar mais repressiva da
América Latina, com a actividade política e sindical proibida, com mais de 30000
pessoas adesaparecidas», com milhares de mortos e presos, (muitos deles
simplesmente por se manifestarem pelos seus direitos) resulta em algo de
evidentemente distinto.
Não que se trate do primeiro movimento de forca protagonizado pela poderosa
classe trabalhadora Argentina desde o golpe de Estado militar de 24 de Março de
1976. Na realidade, já poucos meses depois desse acontecimento, e apesar da
central sindical (C.G.T. com 6 milhões de membros) e dos mais importantes
sindicatos terem sido militarmente intervencionados, apesar de a greve estar
penalizada aino papel» com oito anos de cadela e «na realidade» com o
desaparecimento,
a tortura e o assassinato dos dirigentes a nível de fábrica, os trabalhadores
argentinos lançaram-se na resistência. Utilizando novos métodos de coordenação,
conseguiram paralisar por meio de greves selvagens praticamente os sectores
chave da
TEMPO N.õ 450 - pág. 46
Martinez de Hoz, Ministro da Eco. nomia do regime que levou a Argen. tina a
possuir a mais alta taxa de
Inflaçáo do mundo
seus subsectores serem tradicionalmente adversos a medidas de força. No cordão
industrial de Buenos Aires, os trabalhadòresý participaram em percentagens que
chegaram aos 90%. Nos estaleiros navais a paralisação foi total.
No interior, principalmente nas províncias de Santa Fé e Córdoba
- províncias que são pólos indus. triais importantes - registaram-se participações
massivas na 'me. talurgia e maquinarias
POSIÇÃO DOS MONTONEROS
O Movimento Peronista Montonero aderiu também à greve tendo o secretáriogeral do movimento, comandante Mário Firmenich, feito uma declaração
através da Rádio Libertação. A Rádio transmitiu também declarações do exgovernador peronista da província de Buenos Aires e do primeiro secretário do
ramo sindical do Mo.
vimento Peronista Montonero, Armando Croatto.....
Na -declaração os responsáveis do MPM apelaram. à reunificação do movimento
peronista e à participacão de todos os sectores nacionais na luta contra -a ditadura
de Videla.
Depois de uma grande período em que a sua tarefa principal foi resistirá ofensiva
política e rilitar da Junta fascista, o movimento operário argentino marcou, com
esta Jornada, Nacional de Protesto, o seu regresso ao primeiro plano da
actividade política do país.
Videla está agora perante a evidência de que não só os seus crimes porão cob-o à
luta operária como esta desencadeou a ofensiva que ele próprio não será capaz,
estrategicamente, de vencer.
Compilado por:
Sol Carvalho
economia (transportes, portos, grandes fábricas) durante mais de uma semana em
Novembro de 1977. E durante 1978 e princípios deste ano as lutas de
trabalhadores foram-se multiplicando, acompanhadas pelo accionar incessante da
resistêncit armada.
O que atribui uma transcendência significativa à paragem geral de 27 de Abril
passado é que, confirmando as previsões para 1979, anunciadas pele, Moviviento
Peronista Montonero, o facto significa uma mudança qualitativa na luta heróica
do povo argentino. Efectivamente, uma greve geral no contexto argentino é já um
acontecimento de carácter ofensivo a nível de massas. Não se trata já de resistir de
forma dispersa à política econóica e aos atropelos repressivos da Junta ilitar, mas
sim de atacar de forma conjunta e contundente. Do mesmo modo, a vanguarda
Mon. tonera, além de fazer fracassar (devido a um duro sacrifício) a campanha de
aniquilamento, não só continua a luta a nível político e militar, como adquire
também uma nova dimensão ao trabalhar para a unificação poltica e organizativa
de todas as lutas sob uma só liderança estratégica.
Essa politica supõe, através das condições favoráveis a nível de massas,
impulsionar a reunificação e transformacão do Movimento Peronista. experiência
nacionalista popular do povo argentino, de modo a convocar a formação duma
Frente de Libertação Nacional com todos os sectores dis. nostos a enfrentar a
ditadura. A nível militar pretende fortalecer-se tanto em número com3 em cua
lidado de armamento apoiando assim o resto das formas de luta.
No meio de toda esta situação, os altos comandos das Forças Armadas da
Argentina, braço armnado da reacção e do imperialismo, debatem-se com
profundas cisões internas, havendo já correntes distintas que disputam entre si
sobre a forma, mais eficaz de conter a maré popular que também eles vislumbram.
Na realidade, e apesar de estarem de acordo quanto à ideia de quebrar o poder dos
trabalhadores introduzindo uma lei sindical que «normalizaria» a actividade desse
sector debilitando-o profundamente, as reatções perante a paragem vieram
somente do sector de Videla. É significativo que os diários argentinos e o
comentário geral se tenham referido insistentemente ao facto de algum sector
militar ter dado «luz verde» aos dirigentes sindicais do «grupo dos 25» para que
avançassem com o movimento de força apesar da srepressão que sobre eles caiu.
Na verdade não seria a primeira vez que as fcrças reaccionárias militares da
Argentina teriam tratado de utilizar um acto popular de massas para debilitar o
sector com que estão em luta.
Resumindo. a paragem significa uma vitória importante na luta Argentina no meio
duma situação de mudança progressiva a favor das forças ,opulares em toda a
América Latina. Nesse contexto a importância da solidariedade internacionalista
para com o povo argentino adquire uma transcendência ainda maior.
Roberto Vandrel
Representante do Movimento Peronista
- Montonero na Ãfrica
Exclusivo TEMPO
TEMPO N.- 450- pág. 47
I
NAMIBIA:
ÁFRICA DO SUL
JOGA O SEU BISPO
Ao promover uma proclamação unilateral de «,independência» na Namibia, a
Africa do Sul' joga na colónia, a mesma carta que o imperialismo jogou na
Rodésia a da africanização do conflito, colocando fantoches no pomité «constituciona» da Aliança Democrática de Turnhalle, dirigido pelo suatricano Dirk Mudge
«Lutaremos até que o inimigo se renda ou até que aceite a implementação total da
resolução 435 do Conselho de Segurança», Foi com estas palavras que o
presidente da SWAPO, Sam Nujoma, acolheu a proclamação feita por Pretória
duma «Assembleia Nacional» e de
um «Governo Interino» na Namíbia.
Preparando o caminho para o lançamento duma campanha nas Nações Unidas que
terá início na próxima semana e que deverá consistir num apelo para que sejam
estabelecidas sanções contra o regime racista, numa tentativa para o fazer aceitar o plano de descolonização
daquela organização internacional, o líder da SWAPO declarou: .as negociações
estão neste momento paradas pois o regime racista da Africa do Sul violou o
plano de descolonização das
TEMPO N.o 450 - pág. 48
Nações Unidas recusando-se a aceitar a implementação da reso. lução 435 do
Conselho de Seguran-,ça e declarando uma independência unilateral na Namíbia.
A proclamação do Administrador Geral sul-africano que trans. formava a
Assembleia Constituin. te fantoche, resultante das eleições ilegais de Dezembro
último numa pseudo Assembleia Nacional é mais um passo na via escolhida por
Pretória para a Namíbia há alguns anos atrás no período que se seguiu às vitórias
da FRELIMO em Moçambique e do MPLA em Angola. Mas Pretória tem tomado
maior cautela em fazer desta «Declaração Unilateral da Independência» um
processo mais gradual do que a dramática declaração de Ian Smith em 1965.
Deste modo, após o dia 21 de' Maio, e na primeira sessão da nova «Assembleia
Nacional», Pretória chama a atenção para o facto
de -a porta estar ainda aberta às negociações,, sobre o plano.
Mas o seu jogo é perfeitamente transparente. O novo Ministro dos Negócios
Estrangeiros britânico, Lord Carrington, afirmou claramente que a Grã-Bretanha
fará «tudo o que estiver ao seu alcance para impedir a interrupção das
negociações» com a África do Sul sobre a Namibia. E isto porquê? Porque
enquanto as negociações estiverem em curso ou enquanto o grupo dos cinco
países imperialistas disser que o estão, esses mesmos países podem opôr-se ao
esta-' belecimento de sanções económicas obrigatórias nas Nações Unidas. Lord
Carrington já tornou isSam Nu oma e Oliver Tambo: A aliança dos povos contra os fantoches
so claro: -o novo (ioverno britâni. co opôr-se-ia a quaisquer tentativas para impor
sanções. «enquanto estiverem a decorrer conversações», disse ele numa
conferência de imprensa em Londres.
UDI NA AGENDA
Não há a menor dúvida que é a «UDI» que está na agenda. O Administrador
Geral, Steyn, disse em Windhoek, que a proclamação é «um momôento histórico
para a Namibia e para a África do Sul no seu conjunto, ao estabelecer a futura
estrutura de estado no Sudoeste Africano-Namíbia» (o novo nome engendrado
pelos racistas e
o sul-africano jogou, na Namíbia, uma perialismo jogou na Rodésia
que tem por fim confundir o povo como Smith tenta fazer com o seu ZimbabweRodésia).
Vários fantoches namíbios saudaram também a proclamação com emoção. O
Ministro Chefe do Bantustão Ovambo nomeado pela África do Sul, o pastor
Kornelius Njoba, declarou entusiasmado: «É outro passo em frente no caminho
da independência política,,. Ele foi indigitado para um posto no regime fantoche.
A proclamação prevê medidas a tomar para o alargamento da àctual Assembleia
fantoche com cerca de 15 lugares extra. 0 objectivo é atrair outros grupos fanto,
ches para que toda a manobra pareça mais «democrática». De momento, 41 dos
50 lugares são ocupados pela Aliança Democrática Turnhalle, principal
instrumento de Pretória no território, sendo os outros ocupados pela Aktur, um
partido exclusivamente de brancos e ultra-racista.
Novas organizações fantoches começam a surgir por toda a parte. Primeiro, houve
a «Frente de Libertação» produzida a tempo par, as eleições fraudulentas de
Dezembro, juntamente com o Partido Namibio Cristão Democráti.
co». Agora apareceu o «Partidc Democrático Relioboth>. Mas ou. tros grupos,
particularmente a Frente Nacional Namíbia, estão preocupados com o que se
passa no Zimbabwe e mantêm uma certa reserva. Recusaram-se a tomar lugar úa
Assembleia Nacional, lugares esses que lhes foram oferecidos pelos racistas e
parecem estar à espera de ver melhor o jogo até estarem absolutamente certos de
que o esquema actual vai resultar.
Se tanto for necessário, Pretória esté, preparada para realizar nova «sessão
eleitoral»' para obter o apoio internacional para a UDI. E tambémü para ludibriar
a opinião pública mundial convencendo-a até ao último momento de que
considera a hipótese de implementar o plano das Nações Unidas. Entretanto, as
forças de defesa sul-africanas estão fazendo novos esforços para organizar um
exércite «nacional» fantoche para o Estado do Sudoeste Africano-Namíbia. Após
as ignominiosas derrotas infligidas pela SWAPO ao seu querido %Batalhão 41»',
constituído por fantoches namibios, e que teve de ser retirado da frente da batalha
algumas semanas -de. pois de ter entrado em acção, o novo documento relativo à
defesa, publicado por Pretória, inclui uma sérip de novas cláusulas que prevêm a
mobilização de recrutas e que terá pelo menos algumas unidades de representação
em preparação para o dia da Independên. cia Unilateral.
A «Assembleia Nacional» por seu lado, segundo se espera, lançar-se-á na
elaboração de várias «reformas» legislativas que visam atrair uma publicidade a
nível mundial, mas que não afectar o a situação dos trabalhadores namibios que
continuarão a ser tão explorados como até aqui. Não se prevê um fim pirra o
sistema de Trabalho. Çmíe a niantém
os traSiiios afastados das Sin pensões
seme"i para individuos
- nas áreas mineiras
- . : : i s mais importantes do pai.
E as cooperações multinacionais em funcionamento no país estão já a adquirir
experiências sobre como instituir uma discriminação raWcia na estrutura salarial a
coberto de um novo nome. Ao mesmo tempo que apregoam estar a instalar o
princípio de salário igual para trabalho igual, afirmam que os trabalhadores negros
não têm habilitações para exercerem as mes-mas funções que os brancos. roi isto
que desencadeou as greves mineiras de Dezembro último e Ja. neiro deste ano. E novas greves nas minas da Namíbia em Março último apesar da severa repressão
racista, demonstram que a determinação da classe trabalhadora está a crescer a
cada momento.
REFORÇO DA LUTA
Contra esta crescente resistência nacional e uma luta armada que está a atingir
alvos importantes com eficácia cada vez maior
-- ataques a acampamentos de forças de defesa racistas, caminhos de ferro,
electricidade e telecomunicações bem como todos os mais importantes
abastecimentos de água das forças racistas - tem havido uma nova onda de
repressão contra os quadros e simpatizartes da SWAPO. Cinquenta e dois
membros do movimento, incluindo líderes tais como Axel Johannes e Lúcia
Hamutenya, foram presos e detidos nas últimas três semanas.
Um assalto aos escritórios da SWAPO em Windhoek, imputado a um misterioso
grupo de vigilância branco que o Administrador Steyn afirma não conseguir
identificar, resultou na destruição de equipamento e instalações,
desaparecimento dos arquivos juntamente com fundos penosamente
amealhados e no corte dos telefones.
Houve também ameaças por
parte de Steyn,: do racisla Dirk Mudge que é presidente da orga nização fantoche
sulafricana, Aliança Democrática Turnhale, e pela própria Africa do Sul de que a
organização política internâ da SWAPO, até aqui legal, teria de ser revista.
O Presidente Nujoma declarou
na conferência de imprensa realizada em Luanda e' ainda referida: «]a provável
que a racista Africá do Sul utilize os seus agentes e fantoches na Namibia para
conseguir que o nosso movimento seja formalmente banido pelos pseudos poderes
legislativos da AssemMeia Nacional: Com este fim estão a ser efectuados, numa
escala até hoje sem precedentes, um intenso trabalho preparatório sob a forma de
assassinatos injustificados e maciços, prisões, detenções e expulsão de quadros
fundamentais da SWAPO dentro da Namiíbia.,,
Perante, a 'planeada Declaração Unilateral de Independência no ter ritório, a
SWAPO decidiu intensificar a luta armada. de libertação. E Nujoma advertiu:
«C>nsideramos o racista Botha e o seu regime responsáveis pela intenSificação
do conflito armado e pelo crescente sofrimento do povo da Namíbia.» E
continuou: «Também as forças imperialistas são respon sáveis na medida em que
cOntinuam a explorar as riquezas naturais da Namíbia com uma crescente falta de
escrúpulos ao mesmo tempo que fornecem aos assas-' sinos racistas de Pretória
bombardeiros a jacto, tanques, carros blindados e outras armas sofisticadas para
massacrar o perpetuar a opressão contra o nosso povo em nome da assim chamada
civilização Ocidental..,0 bombardeamento pela Africa do Sul ao longo de toda a
fronteira da: Namíbia com Angola continua.» - afirmou Nujoma - «,Es tão a tentar
matar e destruir tudo o que é vivo, mas não conseguem encontrar os nossos
guerrilheiros porque eles estão entre o povo.»
Internacional
IMAGENS
Algumas das dezassete pessoas mortas pela polícia fas. cista de São Salvador na
sequência das últimas manifestações que se têm registado naquele pais, contra a
ditadura. A bandeira que se vê à esquerda é do Bloco Popular Revoluciondrio
uma, das orçanizações que luta contra a ditadura
As condições de vida na República Indiana são más e a imagem que ve. mos
(pessoas dormindo na rua por não terem casa) é frequente. Esta situação foi agora
agravada pelo ciclone que devastou alguns distritos e que
matou centenas, de pessoas
TEMPO N.ý 450 - pãg. 51
Saluara: O Ministro dos Negócios Estrangeiros sahariano concedeu recentemente
uma conferência de imprensa na qual indicou que a Frente Polisário repudia a
ideia de um mini-estado sahariano assim como propostas de uma fe. deraçao
sahariana-mauritana. O diplomata denunciou as manobras da França que tenta
encontrar soluções políti. cas depQis de falhadas as militares. Na foto, em cima, à
esqueraa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da RASD, HAKIM IBRAHIM.
Em cima à direita, uma mulher
combatente
Continuam as maifeýstações contra o acordo da traição assinZado entre o Egipto e
Israel. Na foto, uma manifestação de protesto em frente à Casa Branca.
No cartaz, lê,se, «Liberdade para a Palestina»
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Uma imagem do Gana, país situaao na costa ocidental de África. As autori. dades
fizeram abortar, na semana pas sada um golpe de estado no qual estavam
empenhados elementos da força
aérea
O regime do apartheid sobrevive em virtude da ajuaa que lhe é fornccida pelo
imperialismo internacional, Mais de 350 indústrias norte-americanas tem
ligações com a África do Sul e mais de 6000 firmas estabeleceram rela çÕes
comerciais com o regime racista. Na foto, vê-se a relação económica que existe e
que mostra o controlo existente: Indústria eléctrica, 70 por cento. Minas de Ouro,
50 por cento. Combustível, 43 por cento. Comércio
de Peças 23 por cento £/V
Uma das instituições oficiais sul-afri. canas: O edifício do Senado na cidade do
Cabo. Foi numa instituição seme. lhante a do Supremo Tribunal, que rebentou
uma bomba, na semana
passada
U. S. CONTROL
IN SOUTH AFRICA
Motor Tradep
Electrical Gold Industrv Minina
Fuel Sunniv
TEMPO N-o 450 - p4g. 53
dos leitores
HOSPITAL-DE XAI-XAI ESCLARECE
A propósito da carta do Senhor Ananias Massinga, publicada na revista «Tempo»
n." 441 de 25 de Março de 1979, gostaria mos de esclarecer'algumas situações
frequentes no Hospital Provincial de Gaza.
A primeira, refere-se às chamadas urgentes da ambulância. Ultimamente, o
Hospital tem tido em circulação 2 carros das 7h às 17.00h Entre as 17.00h e as
7.00h, apenas um. Frequentes vezes, deslocamos um carro ao Maputo
transportando doentes, ficando apenas um em serviço durante todo o dia. Os
nossos carros, têm feito o transporte de doentes do distrito de Gaza, distrito do
Bilene (que só recentemente adquiriu uma viatura), e actualmente também
apoiando Manjacaze, cuja viatura se encontra em reparação.
£ claro que isso leva a que por vezes, chamadas simultâneas, levam a que alguém
tenha de esperar. Por exemplo, no dia 21/ /2/79, tivemos uma chamada à Mracia,
3 chamadas a- Chicumba. ne, e muitas outras a outros pontos do distrito de Gaza.
Por ve. zes, a residência do doente nem sempre é de fácil acesso, e depois de
deixar o carro na estrada é preciso ir a pé até ao local,
NÃO ESTA CERTO
Fomos certo dia ao talho de Caia para irmos comprar carne. O meu colega trazia
uma nota de cem escudos e pediu 2 quilos de carne de 2.' limpa. O vendedor disse
logo que não tinha começado a vender, por isso deveríamos esperar.
A seguir apareceu urna outra pessoa, conhecida do ventransportando a Macia, o que leva tempo. E não podemos deixar de relatar as
frequentes chamadas «urgentes» que recebemos, e que se tratam de simples
indisposições, dores de cabeça, dores de dentes, etc., óu até situações,
infelizmente não raras, em que o carrc chega e não encontra ninguém, ou alguém
dizendo ,que afinal já está melhor não preci.ýo ir ao Hospital. Brincadeiras de
mau gosto, inconsciência, ao mesmo provocações, qm prejudicam e fazem esperar
aqueles que realmente precisam e por vezes esperam 40 minutos ou até mais.
Outro problema é o das chaniadas das parteiras. Têm sido também frequentes.
Não é por acaso que se fazem maternidades, e se apela às futuras mães, para que
se tenha os partos nas maternidades. Que condições pode haver, na Sede ,u
Partido ou em qualquer residência, para fazer um parto? Que cuidados de
assépcia? E se o bcbé nasce em morte aparente e necessita de reanimação urgente,
oxigénio, etc., e se surgem as tantas complicações possíveis, quer com a mãe
quer com o filho? O tempo que leva a parteira a deslocar-se ao local, é o mes mo
para levar a parturiente para um local com condições - a maternidade. Para além
disso, a des locação da parteira para fora do Hospital significaria que a
Maternidade do Hospital, ficaria sem parteira durante aquele es-
dedor, que comprou carne e depois saiu. Mais tarde o talho ficou cheio de
pessoas. Pensámos logo que não haveríamos de ter carne e assim resolvemos ficar
os dois na bicha para ver quem havia de ter sorte.
Quando o meu colega se apre sentou e disse o que queria o vendedor respondeulhe: «Nós aqui não vendemos carne de 2.' limpa, pois toda a carne sem osso évendida ao' preço da carne de primeira. Foi isto que não compreendemos:
primeiro, apepaço de tempo (à noite é uma só parteira em serviço.
Por isso definimos como norm' de trabalho, que nenhuma parteira sai do Hospital
para ir fazer partos fora do Hospital.
Para nós, isso não é burocracia, mas sim desempenhar conscientemente o nosso
trabalho, procurando salvar vidas, e evitar cemplicações que podem ser fatais.
Estas normas, são do conhecimento dos nossos trabalhaderes.
Quanto ao caso concreto apresentado pelo Senhor Ananias Massinga, sucedido
em 21/2/79, lamentamos dele só tomar conhecimento na revista «Tempo» de
25/3/79. O Hospital tem um ser,viço de sugestões e reclamações do Povo.
O Hospital tem estruturas que nunca se recusaram a receber ninguém. Se o caso
nos tivesse sido canalizado na devida altura, teria sido possível detectar até que
ponto ele se enquadrava dentro dos problemas apresentados anteriormente, ou se
se tratava de mau trabalho, do qual havia que apurar responsabilidades. Mas agora
é difícil, e os dados que nos dá são poucos.
Ao terminar, queremos apelar a uma maior proximidade e colaboração com o
Hospital, através da crítica construtiva, apresentada na devida altura, quer junto
das estruturas do Hos¿pital quer junto das estruturas do Par tido.
O Director do Hospital
sar de termos chegado primeiro, fomos atendidos depois das pessoas conhecidas;
segundo é o preço da carne.
Perguntamos: será que naquele talho servem primeiro aos conhecidos? Quais são
as normas por que se rege uma vez que não é isso que estamos a seguir em toda a
República Popular de Moçambique?
João Fernando e Patrício
Manuel Mutala
(Zambézia)
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QUEM
SE RESPONSABILIZA
PELA FALTA DE-AGUA?
Sou inquilino da APIE, moro na Rua Comandante Augusto Cardoso n.,, 126.
Recebi no dia 17/4/79 um aviso de débito da Electricidade de Moçambique n.o
136154 do período de 20 de Março de 1979 da seguinte guan tia: Água 111$00;
Electricidade 439$00; total 550$00, a pagar desde 25/4/79 até 6/5 79.
O que me leva a escrever esta carta não é só reclamar a quantia a pagar pois, já
paguei há meses ou há anos atrás cerca de 800$00 a 900$00 mensais que era o
custo ou consumo de água e electricidade; portanto 'não é com 550$00 que ia
retlamar. Reclamo a falta de água, porque no mês de Março só tivemos água no
prédio durante uma semana (7 dias) com o débito de 111$00, se não -tivesse
faltado água como há meses atrás não reclamava.
Desde os meados do mês de Março até ao momento nunca tivemos água no
prédio. O Piquete da Electricidade de MoPEDIDOS
DE CORRESPONDÊNCIA
Deseja relações de amizade, troca de correspondência, fotos, relações culturais e
revolucionárias com jovens de ambos os sexos dos seguintes países: Angola,
Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Prina
a
a
~1. - çambique veio arranjar o contador e disse que a água tem potência de subir até
aos tanques, portanto cabe à APIE. A APIE, por sua vez diz que o serviço de água
é só com a Elec tricidade de. Moçambique. Agocipeý, e com moças moçambicanas das ýdiversas províncias e distritos.
Geraldo Timókwo Bulaque
Caixa Postal, 302
Nacala-Porto
Nampula R.P.M.
Jovens combatentes das F. P.L.M. desejam corresponder-se com jovens de
Angola, Guiné e Moçambique, ambos os sexos, e com idades compreendidas
entre os 17 e 27 anos.
Abílio Jaime, Cuinica
Mateus Xai-Xaimanjate
Gabriel José António
ra pergunto à APIE e à Electricidade de Moçambique: quem é que vai resolver o
nosso problema da-falta de água?
Mário F. Langa
Maputo
Nelson José dos Santos Ernesto José da Conceição
Ananias Subino Matondo
3.o Batalhão de Cuamba
Caixa Postal, 101 Niassa
Jovem das F.P.L.M. deseja corresponder-se com j o v e n's moçambicanos,
angolanos e guineenses de ambos os sexos, com idade compreendida entre os 17
e 23 anos.
Adelino Alberto Vale
Morrumba&,t - Zambézia
Caixa Postal, 33
T
africanas veio a consolidar fornas de expressão artísticas que, sob a capa da
negritude, nada tinham a ver com as manifestações culturais populares dos países
de origem.
MúSICA LIGEIRA MOÇAMBICANA: QUE MúSICA?
1. A análise da forma e do conteúdo da música ligeira moçambicana deve
clarificar alguns pontos de partida, a sa ber:
- Sob a designação de música ligeira, existem várias tendêrícias musicais
diferentes na qualidade, forma e conteúdo. A denominação engloba desde canções
de excelente qualidade até música apropriada para «partys», música que apesar de
recheada de chavões e slogans «políticos» não consegue disfarçar o seu conteúdo
reaccionário.
- Evidentemente, qualquer debate minimamente sério exige um estudo profundo
sobre as origens e as actuais tendências da música ligeira. Esse estudo; tanto
quanto saiba, não está ainda realizado.
O debate que proponho corre o risco de levantar falsas questões e, portanto,
discussões artificiais. Penso ser aceitável esse risco se concorrer para, no decurso
do debate, se clarificar questões ligadas à natureza da música hoje praticada, de
forma dominante.
2. SOBRE A ACEITAÇÃO DA NOVA MUSICA LIGEIRA
- Tem aceitação, popular a nova música ligeira? É verdade que sim. Mas também
não é 'menos verdade que ela constitui o delírio dos «Joes» e das «Pitas»,
daqueles que vivem em Moçambique apenas porque têm cá os pés. Saber quem
aceíta a nova música ligeira não é contudo decisivo para conhecer o seu conteúdo
de classe. Quando se diz que ela tem aceitação popular não se deve deduzir
automaticamente que
é revolucionária. O facto da pequena burguesia gostar dos conjuntos ligeiros nada
diz sobre o carácter político da música por eles interpretada. A pergunta a ser
formulada é outra: «como contribui a música ligeira para a formação de um
pensamento e de um gosto no~os?» Será que o conteúdo destas canções conduz à
transformação revolucionária dos gostos típicos da pequena burguesia ou, pelo
contrário, consolida valores culturais alienantes?
3.' SOBRE A ORIGEM E INFLUÊNCIA - Penso que a produção da actual
música ligeira «moçambicana» 'está decisivamente marcada pela influência da
música ligeira dos países vizinhos e ainda dos vários «jazz bands» dos regimes
neocolonizados africanos. A música ligeira que nestes países se produz reflecte o
domínio, ao nível da cultura, da classe burguesa no poder. As músicas que até nós
chegam em discos foram seleccionadas pelas editoras de acordo com critérios
eminentemente comer ciais.
São mercadoria de exportação, rotulada como produto genuíno da «cultura
africana»... Mas que cultura africana? Será que se pode falar de uma cultura
africana universal, flutuando acima dos conflitos de classe? Efectivamente, num
determinado contexto histórico (sob a dominação estrangeira) valores culturais da
pequena burguesia e das massas trabalhadoras foram igualmente reprimidos.
Contudo, a emancipação política das burguesias
]É necessário, em suma, criar armas para que os nossos artistas resistam contra a
assimilação passiva da música ligeira de outros países (sejam ou não africanos).
A. principal arma é a valorização daquilo que sabemos nosso, das manifestações
musicais que constituem tradições do nosso povo, do Rovuma ao Maputo. Dai, a
validade da experiência promovida pela Rádio Moçambique na recolha, pelos
próprios artistas, das canções e ritmos populares. Essa experiência, que implica a
vivência no seio das massas populares, será decisiva para a transformação da
música ligeira e dos próprios artistas. Contudo a questão essencial reside não no
enquadramento profissional mas no enquadramento político dos artistas.
A perspectiva desse. enquadramento foi traçada pelo Partido Frelimo, no III
Congresso. Será essa a base para o desenvolvimento mental dos nossos artistas e
da ruptura organizada com os modelos da música ligeira burguesa. De outra
maneira, continuaremos a manter o divórcio burguês entre a música «folclórica» e
os restantes géneros musicais.
De outra maneira, não poderemos falar de 'música ligeira realmente popular e
moçambicana.
Um leitor
Maputo
PEIXE E TROCOS
Ao ler a carta da Sr,. M.M. Magremussa, inserida na págína dos leitores do último
número dessa tão conceituada revista (n." 446) não pude evitar que me viesse à
memória um facto presenciado por mim, no mesmo estabelecimento. Embora
tenha sido há uns dois ou três meses, não deixa de ser oportuno lembrar. Fui para
a bicha do peixe pouco depois das 6 horas da manhã e até às 9 horas continuava
praticamente no mesmo sítio, o que me levou a prestar atenção à forma como
estava sendo feito o serviço. Verifiquei que a distribuição das senhas era feita de
um modo bastante estranho. Com efeito, a entrega não obedecia à ordem da bicha
e algumas pessoas que estavam atrás recebiam primeiro as senhas que as da
frente. Pouco antes das 10 horas chegou a minha vez e o encarregado da
distribuição das senhas pergunta-me se trazia dinheiro trocado. Ao responder que
apenas tinha uma nota de 100$00 disse-me: «Então espera» e continuou
percorrendo a bicha perguntando por dinheiro trocado. Informei aquele Sr. que
pretendia comprar 4 quilos de carapaus e mesmo assim não consegui obter dele a
tão almejada senha que me facultaria o ingresso no estabelecimento. Vi outras
pessoas com notas de 50$00 «mendigando» a senha, porém o Sr. encarregado
manteve-se inflexível, repetindo sempre qual disco partido. «Quem não tiver
moedas tem que esperar». Dificuldades de trocos? Se a peixaria abriu as suas
portas às 6 horas, seria que até às 10 horas não possuía troco nem para uma nota
de 50$00? Donde viria esse troco?. Pensando que talvez fossem orientações,
desisti da bicha depois de 4 horas de espera. Todavia, por me parecer estranha
aquela atitude, resolvi informar-me junto da
administração da Empresa para onde telefonei expon'do o que acabava de
presenciar. A senhora que me atendeu afiançou-me que nem eram orientações
nem tão pouco estavam a par do que se passava e que se iriam tomar medidas para
se pôr cobro a essa situação. Mas pelos vistos a história dos trocados continua.
Seria bom que realmente se tomassem as providências devidas contra esta e outras
irregularidades que se verificam naquele posto de venda, não só quanto a trocos
mas também pela ausência da mais elementar regra de boa educação e
consideração pelo público que tem necessidade de ali se ir abastecer. Para
terminar propunha:
1: Que as estruturas da
Empresa promovessem reuniões no sentido de sensibilizar os trabalhadores que a
sua missão é servir o Povo, mas servir com delicadeza e respeito.
2., Que fosse colocado um livro de reclamações e sugestões onde todas as pessoas
pudessem denunciar comportamen.
tos «Xiconhocas» que só servem para criar confusão no seio do POvo e também
fazer propostas concretas que ajudassem a Empresa a melhorar os seus métodos
de trabalho para bem cumprir a sua tarefa.
Uma dona de casa Maputo
TEMPO N.o 450 - pág. 57
DISCIPLINAR A FORMA DE VESTIR NOS SERVIÇOS E ESCOLAS
Há poucos dias li no jornal um artigo que nos advertia acerca de atitudes
reaccionárias, em relação aos portadores de gostos decadentes, e que aconselham
a entrega dessas pessoas às estruturas competentes.
Isto está correcto. Contudo eu gostaria de fazer uma análise acerca das atitudes,
dos oportunistas e dos portadores dos gostos acima citados e dar sugestões sobre
as mesmas.
Podemos solucionar o problema nos dois casos duma maneira fácil. Para os que
trabalham, acho que cabe às estruturas da empresa (direcção Conselhos de
Produção e Célula ,do Partido) determinar, a forma de fazer cumprir as
.orientações do Partido Frelimo e do Governo. Aquele que aparecer ao trabalho
com cabelo grande ou calças apertadas (homens e mulheres) ou com vestidos do
mesmo género não os deixar trabalhar e que a ausência dessas pessoas para se
irem arranjar seja motivo de falta ao trabalho, com todas as consequências de uma
falta.
Para os que estudam, cabe a Direcção da escola, ao Director da turma bem como
ao seu representante, mandar voltar essas pessoas com aplicação de falta de
comparência e não justificável.
Penso assim que estariam também entregues às estruturas competentes e resolvido
o problema para os dois tipos de reaccionários.
Cabe aos companheiros leitores ajudarem-me na solução para o terceiro caso.
Para finalizar, chamo atençao aos companheiros à situação dos funcionários dos
Bancos que eram autênticos «Tedy Boys e Tedy Girls» e hoje não são.
Inácio Adriano Cossa Maputo
ENGRAÇADINHOS NOS MACHIMBOMBOS DE MAPUTO
Venho através desta para expor o seguinte:
Várias' foram as vezes que tenho notado nas paragens dos autocarros (T.P.U.),
mais concretamente no MUSEU, a falta de respeito manifestado por alguns alunos
para com os cobradores. Por três vezes no re. ferido lugar, depois de muitas horas
de espera, assisti a cenas lamentáveis tais como; alunos que não formam bicha
ficam de lado como se não quisessem apanhar o machimbombo, e em voz alta,
contam piadas e outras coisas do género das pessoas um pouco desmioladas.
Assim, logo que o primeiro carro aparece, entram logo aos empurrões (onde
alguns menos honrados aproveitam para sacar as carteiras), e coitados dos que
ficam na bicha à espera do cobrador para fazer a respectiva cobrança, e, assim o
carro parte deixando em terra as pessoas muito revoltadas pelo facto, contudo, não
desis.
CASAMENTOS
PREMATUROS
Sou um Jovem estudante de 16 anos.
Nos tempos do colonialismo o casamento no distrito de Mocuba no Bairro de
Mugongola, que se situa a 10 quilómetros da cidade de Mocuba, era sempre
casamento prematuro.
Quando Moçambique ficou independente houve tini htervalo de tempo até 2 anos,
e no 3. ano recome a com o
TEMPO N.o 450 - pág. 3,L
tem continuam na bicha seguindo as regras que rezam na placa dos ex-S.M.V.,
(formem a bicha).
No segundo carro tudo foi péssimo. Como o carro tinha portas fechadas, não
conseguiram entrar de rompante mas ficaram apinhados em frente da porta da
entrada e nem quiseram ouvir os apelos do cobrador - que solicitava para que,
duma forma organizada formassem bicha. Como eles se mostraram renitentes, não
tiveram outro remédio e arrancaram (com justa razão) com o carro vazio sem
levar ninguém. São tantos °os casos que se os quisesse contar encheria as páginas
de um jornal.
Os nossos estudantes, a. Ãndo estão dentro dos me nmbombos não respeitam
ninguém e têm um uso sistemático de nunca ficarem em cadeiras seguidas para
poderem conversar à vontade. Separammesmo tipo de casamento anterior.
As meninas que são casadas são de 9 a 14 anos e casam com senhores de 22 a 29
anos. Quando andam Juntos com a mulher no meio das pessoas apresentam-na
como irmã.
Ouvi um senhor de Mocuba dizer que foi convidado, por uma mulher para ir casar
com a filha dela menor de 12 anos. O senhor é de 23 anos.
Esse senhor começou a namorar quando trabalhava em Nampula em 1974. Vendo
que a menina não crescia estava para deixar. tima vez que foi convidado tal
senhor disse-me
-seem grupos e logo que o carro arranca começam a falar em grandes gritarias
como se estivessem numa cena de pancadaria. Até podemos comparar o barulho
que fazem com o dos macacos enfurecidos. Para cúmulo alguns deixam o carro
ficar cheio e só depois é que entram e ficam pendurados nos estribos desafiando a
morte.
Para quem tenha a infelicidade 41e os chamar atenção, recebe em -troca, uma data
de piadas até chegar ao seu destino. Os nossos estudantes (alguns) precisam de
uma boa mobilização. DW contrário, continuaremos r, ter as cadeiras dos autocxros com riscos, com nor.As de «JOE», João, Maria. «XiCONHOCA», e por ai
f;.a.
., portanto, nossa tarefa em casa, nas escolas, mesmo dentro dos autocarros
travarmos uma grande batalha de mobilização (recuperação). Mas esta tarefa
exige esforço, coragem. De certeza que os que sempre se servem dos autocarros
sabem que não é tarefa fácil como parece à primeira vista. Mas nós não devemos
toleque ia casar em Novembro. Além desse homem há mais de 10 que casaram com
as meninas de 9 a 14 anos ~naquele bairro. Até vi um senhor de 30 anos
chamado Gonçalves que casou com uma menina de 12 anos chamada Madalena.
Isto aconteceu no mesmo bairro. Este senhor casou com a filha do tio. O mesmo
assunto, as mulheres de idade superior a 20 e a 30 anos, querem casar com
meninos de 14 a 18 anos. Até o meu primo abandonou a escola por causa duma
mulher de 5 filhos.
rar mais actos de indisciplina nos nossos autocarros.
Na minha maneira de encarar as coisas, talvez se fosse dada uma ordem aos
cobradores no sentido de arrancarem os escolares aos Indisciplinados (caso sejam
estudantes) ou então expulsar.
A fhalr digo: Travemos esta batalha para que os nosses filhos sejam estudantes
exemplares quer em casa, na escola e onde quer que estejam sejam realmente
pessoas dignas de elogios (seiva da Nação) e não de meninos com man a de que
sabem muito porque têm a sétima classe, sabotadores, e outros nomes que talvez
não figurem num dicionário decente. Pois, aqui fica a minha contribuição na
esperança de que muitos concordem em neutralizar os engraçadinhos que cortam
os estofos das cadeiras. «VAMOS VALORIZAR AS NOSSAS CONQUISTAS»
educando os nossos continuadores.
Monteiro Dias
Bairro de Mavalane Maputo
ÃO SE COMPRA AÇÚCAR
EM SE COMPRAR PEIXE
0 Povo moçambicano do Rovuma ao Maputo tem gritado bem alto contra os
oportunistas. Os oportunistas, são Iadrões, provocam a corrupção criam a
especulação e outras coisas.
.- o caso de um senhor, proprietárío da Casa Tulcidá» que fica a seis quilómetros
de Moatize e a seis quilómetros da Capital provincial de Tete.
AS ORIENTAÇOES E OS OPORTUNISTAS
É lamentável que algumas pessoas coma pretensa vontade de dar cumprimento às
orientações do responsável máximo do Partido e do Governo, Presidente Samora
Machel, e em nome da vigilância popular deturpem o sentido destas orie.ntações,
com acções que apenas servem os inimigos da nossa Pátria e da Revolução.
Alguns fazem-nas conscientemente, arrastando outros menos esclarecidos,
criando descontentamento entre as populações e desmobilizando-as. Não é a
primeira vez nem será a última, que este tipo de estratégia é utilizada pelo
inimigo.
É o caso do que está a suceder a propósito da orientação dada no que se refere ao
'uso das calças apertadas por algumas mulheres.
Tomo como exemplo o que aconteceu no passado dia 7 deste mês na bicha da
Padaria «Pão
Este 'senhor por estar longe das outras cantinas aproveita a oportunidade para
especular o nosso povo neste círculo de Chigodzi.
Não estou contra esta cantina porque ajuda o nosso povo porque vende coisas a
preços especulativos tais como um metro de corte por 400$00 enquanto que na
capital provincial está a 300$00. ao tem
Nosso», na Avenida Eduardo Mondlane, em frente à <Pandora».
Sempre que uma mulher usando calças passasse próximo deste local, era
molestada por alguns homens e crianças, chegando ao ponto de rasgar as calças a
uma das mulheres, com a intenção de distorcer o que o Presidente Samora Machel
disse.
Fiquei com a ideia de que havia alguns individuos a agitar a população. Ora isto é
o que eu chamo Xiconhocas
Não foram estas as orientações dadas. O que foi dito foi que as mulheres não
podiam usar calças apertadas e em jeito de provocação à dignidade. Como este
exemplo há outros casos, dando origem a histórias e boatos.
Antônio Tembe
açúcar aproveita vender o seu peixe seco. Vende peixe seco a 20$00 o quilo e
9$50 o quilo k de açúcar. Quer a gente queira ou não tem de comprar um quilo de
açúcar e um quilo de peixe. Se não levarmos o peixe também não temos direito;
ao açúcar.
De onde veio a ordem de que
não se pode vender açúcar sem ser acompanhado de peixe?
Ainda por cima o peixe nem sempre está bom. Pode provo- 1 car doenças às
populações do
circulo.
Carlos A. Cintura
Elemento ~ FPLM - Tete
ITEMPO
N.O 4[0 - pág. .9
DATAS HISTORICAS1 de Junho
DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA
O dia 1 de Junho, dedicado às crianças de todo o mundo, surge-nos este ang mn
um significado muito mais intenso pois 197 roclamado pela Organização das
Nações Uni
oo
no
nal da Criança.
I
o InternacioCom a proclamação do
nacional
da C ança a Organização das N
nidas p7 tendeu hamar a atenção da opiniã
a para a necessi ade
de se protegerem todas
nças qu nos paýýes
capitalistas estão ainda
as dos. SU direitos
fundamentais e estimul : países socialistas na
luta que travam pela cr o p melhores \condiçõs de vida para a criança.
Devido à miserável sit
que fica am milhóes de crianças na Eu
1945,
ap s a se- ,
gunda guerra mundial,
e Junho foi cla
mado o Dia Internacion
ança. \
Mais tarde, a 20 de N
195 a Nssem-.
bleia das Nações Unida
< Declaração
dos Direitos da Criançap.Z
a deede
uma série de princípios
eitàdos
para acabar com o sofri
a a
e todo
o mundo.
Apesar destas medida eias ças que não podem goz
d
mentais como: o direito 1
d//
.
aos cuidados médicos. à
ssas crianças não podem
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d1à ià
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festa. Aqui mesmo ao
.,
na Africa do Sul e na
que sofrem as consecíuên
r
te nos seus países. Elas
m o, não têm
casa, não podem ir à esc .
Também durante o
al, as nossas
crianças estavam p1ivad
sdireitos.. Com ~
o início da luta armada
clamação dãF4, i
dependência iniciou-se a 1
ue os nossos Cntinuadores cresçam saud'
felizes. Muita'
..das já foram tomadas
no-infantil, a campanha
abertura de creches e e
Este ano de 1979 é poi
para todas as crianças e em 4tkub<a para os Continuadores Moçambicanos. D de
o início do ano temos assistido à intensificação de iniciativas que têm como
objectivo melhorar as condições de vida das nossas crianças: abriram-se novas
creches a nível dos bairros e locais de trabalho, estão-se a construir
TEMPO N.- 450 pág. 0<> 0
parques de diversões estão a ser exibidos filmes e publicados livros e vão
desenvolver-se ainda muitas outras actividades que trarão o bem-estar e a
felicidade dos nossos Continuadores.
Declaração dos direitos da criança
NOTA: Este texto foi-nos enviado pelo Ministério de Educação e Cultura, e
enquadra-se nos textos de apoio para as escolas
iniciados na Revista n.449.
DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS DA CRIANÇA
Poamada
pela Assembleia das NaçOes Unidas
no-dia 20 de Novembro de 1959
A criança gozará todos os direitos enunciados nesta Declaração.
1." Todas as crianças absolutamente sem qualquer excepção, serão credoras
destes direitos, sem distinção ou discriminação por motivo de raça, cor, sexo,
língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social,
riqueza, nasci-' mento ou qualquer outra condição, quer
sua ou de sua família.
2.° A criança gozará protecção especial e ser-lhe-ão proporcionadas
oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o
desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social de forma sadia e normal
e em condições de liberdade e dignidade. Na promulgação de leis visando este
objectivo levar-se-ão em conta, sobretudo, os interesses superiores
da criança.
3. D.sde o nascimento, toda a criança terá
direito a um nome e a uma nacionalidade.
4. <,A criança gozará os benefícios de previdência social- Terá direito a crescer,
criar-se com saúde e isto, tanto à criança como à mãe, será proporcionada
protecção especial, inclusive adequados cuidados prée pós-natais. A criança terá
direito a alimentação, habitação, recreação e assistência médica adequadas.
5. Ã criança incapacitada física ou mentalmente, ou que sofra algum impedimento
social, serão proporcionados o tratamento a educação e os cuidados especiais
exigidos pela sua condição peculiar.
6.° Para o desenvolvimento completo e harmonioso ds. sua personalidade, a
criança precisa de amor e de compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, sob
cuidados e responsabilidade dos pais e sempre num ambiente de afecto e de
segurança moral e material, salvo circunstâncias, excepcionais, a criança de tenra
idade não será apartada da mãe. À sociedade e às autoridades caberá a obrigação
de propiciar cuidados especiais às crianças sem família e àquelas que carecem de
meios adequados de subsistência. 2 desejável a prestação dc ajuda oficial ou de
outra natureza para a manutenção dos filhos de
famílias numerosas.
7.1 A criança terá direito a receber educação,
que será gratuita e obrigatória pelo menos no grau primário,
Ser-lhe-á propiciada, uma educação capaz de promover a sua cultura geral e
capacitá-la a. em condições de iguais oportu'idades, desenvolver' as suas aptidões,
sua capacidade de emitir juizos e seu senso ,de responsabilidade moral e social e a
tornar-se um membro útil da sociedade.
Os superiores interesses da criança serão a directriz a nortear os responsáveis pela
sua educação e orientação; esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos
pais. A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando aos
propósitos mesmo da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas
empenhar-se-ão em promover o gozo desse direito.
8., A criança figurará, em quaisquer circunstâncias, entre os primeiros a receber
protecção e socorro.
W, A criança deve ser protegida contra quaisquer formas de negligência,
crueldade e exploração. Não será jamais objecto de tráfico, sob qualquer forma.
Não será permitido à crianca empregar-se antes de uma idade mínima
conveniente; de nenhuma for ma será levada a, ou ser-ihe-á permitido, empenharse em qualquer ocupação ou emprego que lhe prejudique a saúde ou a educação,
ou que interfira em seu desenvolvimento físico, mental ou moral.
10.° A criança gozará protecção contra actos
que possam suscitar discriminação racial religiosa ou de qualquer outra natureza.
Criar-se-á num ambiente de compreensão, de tplerncia, de amizade entre os
povos, de paz e de fraternidade universal e em plena consciência que o seu
esforço e aptidão devem ser postos a serviço dos seus
semelhantes.
IM.E.C!
TEMPO N., 450 - pág. 61
1111,0 m$STORICO DE MOÇÃUqU0
conto
A
VISITA
"Há sonhos antigos que acordam
como pássaros"
poeta moçambicano
A manhã cheirava a animais despertos e a raízes desenterradas durante a noite. No
topo do monte via-se a aldeia, dispersa entre as árvores, lá ao fundo, e o vale
extenso. O homem respirou fundo e descansou, um instante, ombro de encontro a
uma árvore. Olhou o monte por onde des'
cera e sorriu. Depois, sempre a sorrir, dirigiu-se à varanda da casa. É claro que a
mulher já o vira. embora ela fingisse, como numa brincadeira, que procurava
qualquer coisa no chão de terra batida. so, e sempre sorrindo, o olhar fundiu-se
nesse ponUma lenta e acinzentada paz foi descendo sobre o to negro onde os
ratos tinham entrado. coração do homem.
A brisa levantou-se
no fim da planície, ali onde
«Bom-dia mana! Auée!» disse o homem, como começa o rio. Rolou pela terra
dura e negra e, já se a acariciasse.
perto da aldeia, transformouse numa grossa nuE ela, desfazendo o jogo, como que recuperan- vem de pó e
partículas de capim, folhas de milho, do lentamente a consciência:
cheiros tenros e odores húmidos. O homem via o
«Auéc, mano! Correu tudo bem?»
verde a marulhar, com o vento por
cima. Pensou
«Tudo bem, tudo muito bem» - disse o ho- também: «A machamba está ainda
mais bonita do mem.
que então. Daqui a pouco o milho
há-de ficar da
Então o homem depôs o pequeno saco de pano, altura de um homem.»
de muitas viagens, sobre a varanda de terra, pôs- Apanhando o olhar dele, seu
brilho bom, a mu-se a olhar de novo o monte por onde descera, as lher disse:
outras casas espalhadas entre as árvores, voltou «Isso foi há muito tempo,
mano.» a sorrir. Dir-se-ia que tinha uma necessidade ina- «12 sim, mana» - disse
o homem. E sorriu diável e muito particular de sorrir sempre que se outra vez.
punha a olhar paraa terra e as coisas. Devia amá- A mulher voltou-se e caminhou,
segurando as
-las muito.
pontas da capulana que se haviam soltado, para o
Havia uma promessa de chuva na manhã que outro lado da casa. O homem
continuou a sorrir o homem já notara quando galgou o outro lado do e a olhar para
a terra e as coisas. Por uma linha monte. Assim, nuvens escuras encavalitavam-se
no imaginária que apanhava a esquina da palhota, agahorizonte baço, pássaros
surpreendidos em pleno chada entre a louça de barro que esfregava lentavoo
regressavam, aos gritos, para a copa das árvo- mente, a mulher via o homem, a
sua estatura forte res e para esconderijos provisérios, entre o capim e acolhedora.
Atirou várias mãos de água às pae os torrões mais grossos. O homem seguiu com
nelas e, pegando numa, regressou para o pé do hoos olhos um casal de ratos do
campo esgueirando- mem, na varanda. Só depois de dirigiu à porta,
-se pelas pedras, até a meio do monte, no sítio gritou: «Randim, vem cá. Randim!
onde, disfarçada, se via a reentrância de uma caver- Dentro, sobre a esteira,
enrolado numa manta, na. «Refugiámo-nos ali quando começaram os pri- Randim
abriu um olho. Estava escuro e frio dentro meiros bombardeamentos», pensou. A
pensar nis- da palhota mas, ao abrir o outro olho, ele viu a
TEMPO N.° 450 - pág. 62
claridade, uma claridade vaga, por entre as frinchas da porta. Sentiu risos baixos
lá fora e foi nesse momento que o cão, surgido não se sabe de que esconderijo
nocturno, irrompeu no interior da palhota, aos saltos. Olhou o rapaz como que a
querer dizer-lhe qualquer coisa muito importante e, depois, num arranque súbito,
atirou-se-lhe hs pernas.
«Shuut, cão» - disse, ainda entontecido pelo sono.
Mas tudo isso apenas serviu para excitar ainda mais o animal que, arrebatado,
latia baixinho, num apelo estranho. Já de pé, Randim pôs a camisa, enfiou os
chinelos de borracha e dirigiu-se à porta. O cão, sentado nesse intervalo sobre as
pernas traseiras, deu um salto brusco e meteu-se-lhe entre as calças. «Shuut, cão»,
disse o rapaz, já meio zangado.
E veio para a manhã; O cão pôs-se a correr, para o terreiro soltando latidos cada
vez mais efusivos. Randim olhou lentamente o vulto ao lado da mãe, alguma
coisa na memória se remexeu, mas Pada disse. O homem olhava-o com as
pestanas levemente caídas, como que a esconder o brilho irónico das pupilas.
Randim pôs-se a estudar a vestimenta esverdeada do homem, as botas cobertas de
uma pesada carga de pó, onde se colavam fios de capim.
Acocorada, rosto numa nuvem de fumo, a máe enchia nesse momento a boca de
ar para soprar o fogo,: ainda débil, no chão de terra, aquecendo e iluminando-lhe,
a espaços, as coxas fortes. Ao lado, atento, já calmo, o podengo. A mulher
interrompeu o trabalho, olhou-os curiosamente, as pupilas húmidas e como que
recolhidas pelo esforço de enfrentar o fumo acre.
«Shuut, cão!» -disse, como se estivesse zangada. Mas as faces eram um grande
sorriso já impossível de reprimir.
«Você é Randim» ,- afirmou o homem.
«Sou'», disse o rapaz, engrossando a voz. «E você quem é?»
«Hum» - fez o homem. «Hum, hum» - e, apanhando o sorriso da mulher bem no
meio dos seus olhos carregados de doce ironia, abriu a boca numa gargalhada alta,
cantante, que voou de encontro ao céu cinzento.
A brisa tomara-se forte, quase agressiva pela sua insistência entre a copa das
árvores, e também pelas nuvens de pó que construía teimosamente lá ao fundo da
planície. Um exército de sapos, minúsculos, atravessou em pulos cadenciados o
terreiro nu. No horizonte, o céu tomara-se preto e nuvens de chuva, carregadas de
água efogo, prepararam-se para o assalto. Semelhavam sombras de guerreiros
antes da batalha, com squs instrumentos de luta e morte. 0 homem disse:
«Vai chover» - E só nessa altura Randim compreendeu quem era ele, por que
motivo estava vestido de verde, de verde coçado, e tinha assim as botas
carregadas de matope e de fiapos de capí. Pôs-se a olhar sobressaltadamente para
os lados, para o terreiro nu e alongou o exame até ao fim da aldeia, entre as
árvores, para o ponto onde começava o carreiro que subia aos ziguezagues pelo
monte. Afundou ali os ólhos como que a querer encontrar qualquer coisa de muito
importante. O homem mexeu-sé e disse:
«Não está ali. Deixei-a na floresta» - e voltou a sorrir. «Lá é mais seguro.»
Depois o homem sorriu outra vez, voltou-se e pôs-se a caminhar. O rapaz seguiuo em silêncio, de cabeça baixa, como que concentrado. O homem caminhava
como se desde que nascera não tivesse feito outra coisa. Terra, fiapos de capim,
minúsculas pedras, rios imaginados, florestas acolhedoras, tandos estratégicos,
montanhas inexpugnáveis, tudo isso aquelas botas e aquelas pernas devíam
conhecer na intimidade. Eram, por outras palavras, botas experientes, botas
históribas. A cinquenta metros da casa, praticamente no meio do terreiro, no sítio
onde as nuvens de pó cresciam em tamanho e violência, o homem estugou o passo
e o rapaz viu, pernas e botas, a experiência e a invencibilidade, a aguardá-lo sem
sobressaltos.
Depois, ao raspar incendiado da primeira faísca, o homem aguardou o trovão,
esperou que a terra recolhesse o estrondo e que este se repartisse pelos montes e
florestas. Antes da segunda faísca, ele voltou-se de súbito para o rapaz, disse
calorosamente:
«Sabes muito bem quem sou e porque tenho ali, na floresta a arma. Sabes ou não
sabes?»
E o rapaz:
«Sei.»
E o homem:
<Você é já um homem e viu muito bem a nossa vida, não viu?»
O rapaz não respondeu, e o homem continuou com o mesmo calor na voz:
«Já não podemos parar as armas. Está decidido, rapaz. Agora já sabes por que
vim. Ou não sabes?»
E Randim:
TEMPO N.o 450 - pág. 63
«Sei. Sei muito bem.»
As nuvens abriram-se, a chuva pôs-se naturalmente a chover. Gotas minúsculas
primeiro, depois, já engrossadas, formavam nuvens impenetráveis à altura das
copas mais altas. A brisa, ainda perto, empurrava-as de mistura com folhas gastas
e pequenos arbustos secos. Só quando o homem deixou que a chuva formasse fios
de água em ambos os rostos é que voltou a sorrir. Depois, já transformados em
cascatas humanas, o homem deixou Randim revolver-se entre os pontós de
referência lá para trás. esses pontos que o faziam sentir calor embora estivesse de
pé, sob a chuva fria, e que lhe formavam já uma pedra no estômago, o deflagrar
de vertigens, náuseas espantosas:
«Ontem, a tropa massacrou outra vez», disse o homem, sempre calmo, a água a
fazer «uáaa» sobre a sua cabeça. «Três aldeias inteiras, nem uma criança
escapou..É por isso quo digo que agora estamos muito mais decididos, estás a
perceber?»
Randim recorda-se vagamente: «O preto não é gente, o preto é animal.» Algures,
dependurada numa janela, a mulher gritava para o velho mainato, debruçado
sobre o tanque cheio de roupa. «Preto é pior qxe cão!» O velho lavava, mãos
grossas arrepanhando o lençol branco. E a mulher, sempre aos gritos, pendurada
na janela.
Outros pontos de referência chegaram. E o rapaz sentiu-se transportado aos céus:
ali, na areia hýmida da margem, entre as árvores que reflectiam suas tranças
escuras nas águas do velho rio, os jacar~és preparavam as armãdinhas para alguns
animais espantados pela borrasca; depois, sob o t-cto de palha, sabia que o chá
estava pronto; sabia que os pássaros, no sobressalto húmido das copas, se
amariam com mais vigor; que lá mais para longe, nas celas, nas plantações, nos
quintais Úas cidades, nos porões, homens com séculos de cansaço cumpririam
pacientemente, com uma paciênciL carregada de ameaças silenciosas, as tarefas
de todos os dias. E sabendo-se tudo isso, era natural que o rapaz se sentisse mais
velho.
O homem dizia naquele moménto:
«Porque há toda essa vida, a arma é necessária. Muitos irmãos também pensam
assim. Vens comigo ou não?»
O rapaz aferrava-se no entanto aos pontos de referência, com laboriosa
obstinação: «Quem disse que cão arda com homem no machimbombo» era o
polícia gordo, profissional e estúpido, para ele e para o seu amigo Miguel,
carpinteiro de duzentos anos de paciência amargamente repartidos
em quarenta de vida, nessa espécie de vida onde o ódio era o único alimento para
as noites mal dormidas, quando a pele se inteiriçava de pasmo e inquietamento.
Agora era outra coisa: o homem-memória, o gt.errilheiro-inteigêncía, a confirmar,
sem raiva, sob a chuva e o céu baixo e escuro, que a arma resolveria tudo, quer
dizer, parcialmente tudo. E que, outras coisas, como a experiência, o frémito
reprimido na direcção do horror, a raiva alucinante de séculos, completariam a
mudança, recomporiam a paisagem humana, transformariam, por outras palavras,
aquela absurda integração, aquele paternalismo insultuoso em cálida possibilidade
de se ser livre.
«Vens comigo, claro que vens comigo» - disse o homem. E só então reparou que
os seus olhos, por entre a chuva,' eram vibrantes de amor, e tudo isso, tudo isso
mais a frescura da camisa colada à pele, deixavam-no leve, rendido.
Era um comício estranho mas necessário. E ambos«eram árvores cujos braços se
aproximavar solidariamente. Unida e escuramente, envolveram-se numa
gargalhada, sob a chuva tagarela.
Voltaram quando a chuva recolheu e dispersou. A mulher fazia devagar o
embrulho da roupa. Disse:
«Cuida dele, mano.»
O homem e o-rapaz beberam o chá em goladas lentas e foram, lascando com os
dentes pontas de cana. Pararam onde começava a estrada, com o cão entre eles e a
casa, agitaram as mãos a mulher, envolvida agora por nuvens de fumo que, do
chão, indicavam o fogo para o almoço. Ambos ainda viram a mulher pegar na
enxada e dirigir-se para a pequena machamba, que começava mesmo atrás da
casa.
Então, mergulharam na floresta. Um casal de macacos, surpreendido a fazer amor,
soltou-se aos guinchos. A dupla gargalhada, com inflexões metálicas,.a floresta
recolheu um pouco nos seus limites e, só depois, retomando a sua forma, abriu
passagens novas aos pés dos homens numa homenagem verde, carregada de
certezas grandes.
Um avião, no céu ainda baço, voava no habitual trajecto das aves migratórias.
«Éi um Fiat» - apontou o homem. O rapaz assentiu, afagando com os dedos
trémulos a automática que o outro lhe dera a guardar.
A chuva apanhou-os três vezes antes de chegarem à base.
Anton Simba - Maputo (1974)
TEMF N.o 450 - pág. 64
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