.EMO DELOU TEMpc> CRITliRIO DE VENDA CR, ETMI, JDE E SPACO . ACro PtA ANUNCIAFK NÅ -TEMPC> TÅ 4o ALC^NcE LiýDE TODO-S. i2 N 0, 05,50 L l C i D^DE MAO SC p Up riB Lo Is- _ ENTENr>E: como um INvasTimWNTO PA RA OSTER.QRANDEs.Lucen( ýE L-A. F- A rARAAJ TIý '\p ISTRIJSUtCÅo JP05 ,-,pFODUTO.s pel-o rov A PRODucÄ0 F- -sr,^ A<=> SE R v i co jpo* Po vo 64 1), m. n40. po. IEDA Nbc Q) Alp@ 09 MVULökÄ9 Edtoria ......... 0 PAlI Biblioteca do Semana Nacional ..... .... .... . Educar é urna tarefa para todos ...... .... .... C Oc a ............. Ciclo de cinemna africano cm Moambique. 1............. 0 Conselhos de ProdutIo: Trabalhadores exemplarOs visitaram Inhambane .... 12 Tallios: disciplinar o trabalho ................................18 Como se choma? .................. .......................24 O ladráo .................. ....... .... ............... 25 O velho e os barcos ................ .................... 26 Cozinha mocambicana urna questa. culturai 0 «Descolonizar» as papilas gostativas. 0 Os sucessos do Matchedje. 0 S6 mulheres é que podem cozinhar. * E so saber ajeitar. (Pág. 28) Saúde: a reabilita4io secial e profissional do& leprosos ........ .. 34 INTERNACIONAL Timor-Leste: apesar de tudo a Iuta continua!... .................. 41 Argentina: Videla na defensivo ............................... 45 Internacional IMAGENS .................................... 51 .Cartas dos leitores ................................... 54 Data histórica: 1 de Junho dia internacional da crianca .............. 60 Conto: a visita .............................. ........ 02 adioi «Em humilde submissão a Deus Todo Poderoso que controla o destino das nações e consciente da lealdade e dedicação constantes que o povo da Rodésia dedicam a sua Majestade a Rainha (...) adoptamos, promulgamos e entregamos, através desta proclamação, a constituição soberana ao povo da Rodésia.» Com estas palavras Ian Douglas Smith proclamava unilateralmente a «independência da Rodésia,,, há 14 anos atrás. Na tarde de 11 de Novembro de 1965 os aparelhos de rádio em Salisbúria e nas restantes localidades da colónia britânica da Rodésia do Sul radiodifundia a mensagem «solene» dos colonos em rebelião. Um jornalista britânico que se encontravn, na altura em Salisbúria narrava, desta maneira, os acontecimentos <Naquele dia os únicos brancos que se encontravam junto do monumento a Cecl Rodhes eram jornalistas, alguns fotógrafos e vários polícias. O Primeiro-Ministro Ian Smith começou a falar com voz rouca e áspera, de gripe Quando terminou, a Rodésia era independente». Para dar maior solenidade ao texto da proclamação unilateral da «independência,,. Ian Smith cita o escritor Shakespeare: «Quem não tiver fígados para esta luta Que parta. receberá o seu passaporte E dinheiro para a viagem». A farsa política que representava a declaração dos colonos insubordinados constitui a outra face de um tragédia secular que pesa sobre o povo zimbabweano. Dias depois da proclamação, o colono promovido a Ministro do Interior ,assegura :»a Rodésia é actualmente o fulcro da defesa da civilização ocidental em África». Mais do que um apelo moral aos colonos era uma advertência à Grã-Bretanha. Era um apelo de um filho bastardo ao colonialismo que o gerou. Desde então, a potência colonizadora respeitou o apelo para a defesa da «civilização ocidental», mantendo-se firme na sua ambiguidade para com a rebelião dos farmeiros. Na realidade, e conforme avançava a luta organizada do povo zimbabweano, os colonos foram perdendo «fígados para a luta». E, sem esperar receber dinheiro para a «viagem» foram abando.nando a colónia. Progressivamente, a farsa iniciada em 1965 ameaça terminar. E antes que, impelidas pela violência popular, as cortinas se fechem sobre o palco, novos actores são apresentados e encarregues de acrescentar à encenação do crime e da selvajaria colonial, o gosto amargo da traição. Em 1965, Ian Smith discursava: «aqueles que desejam. viver sob um governo negro têm vários países de África por onde escolher - deixai-nos manter um governe branco na Rodésia.,, Mas o progresso da luta armada trouxe novas exigências e um tão declarado racismo tornou-se ínconveniente para a potência colonizadora. Se os exploradores têm memória curta, os ambiciosos estão prontos a tudo esquecer, se em troca da traição, receberem títulos e privilégios. Catorze anos depois, Ian Smith convida Muzorewa, Sithole e Chirau a compartilharem da cruzada terrorista dos plantadores dc tabaco. Os capitalistas britânicos, que patrocinam o espectáculo, respiram de alivio mas mantêm um receio: a sala em que novos e velhos actores representam, tem as suas paredes a estalar como se uma força incontrolável fizesse da solide? da construção uma aparência ilusória. Amanh., sob fogo da luta popular, cai rá em ruínas- a velha sala de espectáculos. TEMPO N.- 450 - pág, 2 semana nacional MINISTRO DA DEFESA DA RDA EM MOÇAMBIQUE * Reforço da solidariedade militar O Comissdrlo Político Nacional das FPLM e Vice.Ministro da Defesa Nacional Armando Guebuza saúda o Ministro da Defesa .da RDA, general Heinz Hofjmann, momentos após a sua chegada a Maputo Zona Libertada da Humanidade», disse a dada altura o Comissário Político das FPLM, acrescentando que o vosso apoio mancomunado tem-nos permitido criar condições objectivas no fortalecimento desta retaguarda segura para os movimentos de libertação na África Austral. A visita, que se enquadra nas relações de amizade que unem as forças armadas de ambos os países desde a i-,ta armada de libertação nacional em Moçambique, virá 4 reforçar, disse ainda, os laços de solidariedade militantes entre nós e marcar um salto qualitativo nas nossas relações. O Ministro da Defesa da RDA reiterou, na altura, a disposição do seu pais em continuar a apoiar as lutas de libertação nacional, saliciais entre delegações da R PM e da RDA, chefiadas respectivamente pelo Comisário Político Nacional das FP LM e Vice-Ministro da Defesa Nacional, Armando Emilio Gtuebuza e pelo Ministro da Defesa da RDA, General Heinz Hoffmann. Durante a sua estadia de uma semana no nosso pais, a delegação ministerial alemã depôs uma coroa de fiores no monumento aos Heróis Moçambicanos e efectuou visitas à Cometa-Mometal, ao Museu da Revplução e à 1." brigada das FP LM na província do Maputo. Numa curta deslocação à província de Nampula, a delegação visitou ainda a Escola Militar e a Praia das Chocas. Para reforçar os laço. de solidariedade entre a RoQpblica Popular de Moçambique e a República Oemocrática Alem, no campo militar chegou a MIputo, no passado dia 22 uma delegação ulemi de alto nível chefi ada pelo Ministro da Defesa da RíA, -general Helnz HoS at n. A visita efectua-se a convite do Ministro da Defesa Nacional, Alberõ Joaquim Chipande. Armndo Emílio Guebuza, membro do Comité Político Permanent* do Comité Centr1 do Partdo FreUkmo, Comúsásrio Político das FPLM e Vice-Ministro da Defesa Nacional deu as boas-vindas ao general Hoffmann, membro do <ýBureau» Político do Com Central do Partido Socialta Unificado Alemão o Ministro da Defesa da RDA, mom:entos após a sua chegada a Maputo. A noite, ofereceu ao ilustre visitante, em nome do Ministro da Defesa Abertura das conversações ofictais entre delegações da RPM e da RDA chefiadas respectivamente pelo Coinissádrio Político Nacional das FPLM e Vice-Ministro da Defesa Nacional, Armando Guebuza e pelo Ministro da Delesa da RDA, general Heinz Hoffmann Nacional, Alberto Chipande, um jantar que se realizou nas instalações do Clube Militar. «Apreciamos o apoio que a RDA e os demais países socialistas têm prestado às forças progressistas e revolucionárias do mundo, contribuindo para a extensão da entando que a RDA faz tudo o que pode para ajudar os povos em luta, nos campos político, económico, diplomático e também militar. Estamos prontos - frisou - a ajudar na defesa da Revolução. Na manhã do dia 23, iniciaram-se conversações oiAntes da partida da delegação ministerial alemã, de regresso ao seu país foram pssinados documentos ofidais no termo das conversações. (Em próxima edição roferir-nos-emos mais detaIhadamente a esta importante visita). TEMPO N.o 450 - pág. 3 ALFABETIZAÇÃO: TRABALHADORES EM FORMAÇÃO NO C. F. M.- SUL No desencadeamento d a Campanha Nacional de Alfabetização, o Presidente da Fre. limo, definiu a alfabetização como um factor base para o aumento da produção e produtividade. Na materialização desta orientação os C.F.M. - Sul, têm em funcionamento, desde o mês de Fevereiro, aulas de Edu versidade Eduardo Mondane, têm dado apoio pedagógico aos cursos de Educação de Adultos em curso nos CFM - Sul. Dois mil cento e seis trabalhadores estão a ser alfabetizados por 105 trabalhadores pre-parados durante o primeiro trimestre. Está também em vista haver no segundo trimestre uma de produtividade parece ter atingido os 15 por cento sem que grandes investimentos em equipamentos ou força de trabalho tenham sido feitos. Segundo o referido Departamento, o recente índice de aumento de produção e produtividade industrial, deve-se principalmente à actual reorganização centralizada dos vários centros de produção inO. M.S. dustrial no país que vinham até aqui sendo alvos de sabotagem económica ou abandono por parte das si'ras administrações e direcções técnicas, e ainda às perspectivas que este novo tipo de organização do sector industrial oferece em termos de racionalização de meios materiais e humanos. o PONTO- DE PARTIDA PARA RECONSTRUÇÃO DA AFRICA PREVISTO AUMENTO DE 23 POR CENTO NA PRODUÇÃO INDUSTRIAL Estima o Gabinete de Pianificação do Ministério da Indústria e Energia, que a nossa produção indstrial venha a re gistar este ano um aumento de cerca de 23 por cento. Os cálculos deste Gabinete de Planificação dizem-nos que de 1977 para 78 o aumento de produção registado no sector industrial. foi de 20 por cento, enquanto a evolução do índice Reforçar o apoio aos movi- balhõs realizados em todo mantos de Ubertação Nacional Mundo, para que toda a poda Africa Austral ou seja, aos pulação mundial possa benefiPovos de Zimbabwe, da Na- ciar de uma assistência mémíbia e da África do Sul. cons- dica decente no ano 2000. titui um ponto de partida na Antes da sua partida para b-sca da paz e da recons- Genebra, Hélder Martins, distrução africa -, este o apelo se no aeroporto de Mavalane, do Ministro Moçambicano de em Maputo, que antes do aní Saúde, Hélder Martins, em Ge2000 o Povo moçambican1 nebra, numa reunião da Orgã beneficiaria de uma assistência nização Mundial de Saúde e saúde decentes uma vez que (OM.S.). na RPM a prioridade foi dad à Medicina Preventiva no cani Esta reunião teve como ebjec ~poe nas cidades. tivo passar a revisão dos traEDUCAÇÃO POLITICA NAS ESCOLAS ! Realizou-se durante a se- do Comité Político Permanen1. mana passada em Maputo uma te Jorge Rebelo. reunião nacional de professores Usando da palavra na ses-ý que, representando os secto- são de abertura da reuniãa res de educação de todo o Jorge Rebelo chamou a atenpaís, discutiu problemas ligação para o facto de depender dos à aprovação do projecto em grande parte da formação de inclusão na3 aulas da dis- de quadros polit!cos a nível ciplina de «Eduação Política». da educação a formação do ho A sessão de abertura contou mem novo, - elemento dina com a presença do Secretário mizador para a criação da sodo Trabalho Ideológico do ciedade socialista Partido Frelimo e membro TEMPO N., 450 - pág. 4 FESTEJADO 50.0 ANIVERSARIO DE MARCELINO DOS SANTOS «Saudamos, o homem, o poeta, e intelectual revolucionário. Saudamos em ti o humanismo, o carinho e o amor na relação humana de delicadeza, respeito pela criança. pela pessoa idosa independentemente de quem é» - estas algumas das palavras proferidas pelo Presidente Samora Machel no dia 20 de Maio último durante um brinde em homenagem a Marcelino dos Santos que nesse dia completou 50 anos de idade. Na cerimônia estiveram presentes dirigentes do Partido, quadros, parentes e amigos de Marcelino dos Santos. Veterano da luta pela libertação africana. particularmente de Moçambique, Marcelino dos Santos é hoje membro do Comité Político Permanente, Secretário do Comité Central para a Política Económica do Partido, Secretário da Comissão Permanente da Assembleia Popular e Ministro do Plano. «Saudamos hoje o dirigente - diria o Presidente da FRELIMO - a grandeza da humildade de quem foi pai fundador da FRELIMO sabendo-se tornar filho do Partido Frelimo. Em ti, Camarada Marcelino, saudamos o militante que soube viver e ver, ver claro os momentos de crise, o militante que soube ver os caminhos correctos e deles ser alavanca,» Referindo-se depois à fase em que Marcelino dos Santos viveu no exílio, o Presidente Samora Machel afirmou: «Ao saíres para Portugal, para França, ias à busca de conhecimentos- Entretanto des cobres novo sentido de conhecimento, novos valores, novo mundo: a luta: Este é que é o novo mundo: a luta!» E em contacto com este novo mundo, a palavra ciência feita pelos operários, a ciência feita pelos trabalhadores, a ciência feita pelos oprimidos - o marxismo! E nessa luta enriqueceste o conhecimento. Mas não é suficiente. Mas com a vitória regressas ao teu País, ao teu povo, para dele te tornares aluno, para dele aprenderes e veres o que é o verdadeiro sentido do conhecimento, E orgulhis-te de ser alunol Aí, admiramos-te» GOVERNADOR DE SOFALA VISITA DISTRITO DE, BUZI «Ê preciso organizarmo-nos para aplicarmos as decisões do Partido Frelimo construindo as aldeias comunais» disse o primeiro secretário do Parado Frelimo e Governador de Sofala Fernando Matavele, numa reunião realizada com os trabalhadores da açucareira do Búzi e com as populações da localidade. Neste encontro estiveram também presentes elementos das estruturas distritais do Partido Frelimo e Governo; O responsável máximo da província apelou às estruturas do distrito de Búzi para que planifiquem e controlem adequadamente as suas actividades. Mais adiante, Fernando Matavele disse que é necessária a neutralização , de todos os agentes do inimigo, sejam eles quais forem, incluindo aqueles com quem tenhamos laços familiares, para impedir a destruição das conquistas populares da revolução moçambicana. Foi por isso, explicou, qiie se criou o Tribunal Militar Revolucionário, instrumento que reprime violentamente os inimigos do povo e do Estado Popular, Neste encontro foi apontada a necessidade de combate aos vestígios coloniais. No que diz respeito aos abastecimentos de primeira necessidade cada distrito, disse o governador deve contar com as suas próprias forças. Antes da intervenção do responsável máximo da Província, as populações locais e trabalhadores da Companhia do Búzi leram mensagens, nas quais salientavam uma determinação em aplicarem as orientações do Partido Frelimo e do Governo, impedirem a infiltração do inimigo e apoiar a justa luta dos povos oprimidos de todo mundo particularmente do Zimbabwe, Namíbia e Africa do Sul, Os trabalhadores da Companhia do Búzi e populações locais entregaram um donativo' aoí Governador Fernando Matavele no valor de 96.938$00 para apoio à capacidade defensiva do nosso País. Fernando Matavele agradeceu a determinação destes trabalhadores recordando depois as razões 'que levam os imperialistas a agredirem a República Popular de Moçambique 0 ESCOADO POR NACALA Uma delegação do Governo cabido Provincial de Nampula chefiada Zambé pelo Primeiro Secretário Pro- a segu vincial do Partido e Governa- visita dor da província de Nampula EMOC Daniel Mbanze, acaba de vi- rué. C sitar a província da Zambézia insufici para discutir problemas ligados do por ao escoamento do chá produ- problen zido na Zambézia pela EMO- a provi CHÁ, através do porto de Na- vessa cala na província de Nampula. CHÁ e No distrito de Alto-Molócué, mento no norte da província da Zambézia, Daniel Mbanze foi repelo seu homólogo na zia Osvaldo Tazama que iir o acompanhou numa ás duas fábricas da HÁ io distrito do Guomo consequência das ências de escoamento to de Qkelimane e dos nas de transportes que ncia da Zambézia atraos armazéns da EMOrncuntram-se neste mocompletamente cheios 'TEMPO N.o 450 - pág. 5 CONTACTOS INTERPROVINCIAIS: CHA DA ZAMBÉZIA INDÚSTRIA AÇO'CAREIRA: MOÇAMBIQUE INDEPENDENTE EM 80 POR CENTO DA MAQUINARIA A empresa metalo-mecánica nacional CIFEL-SMP acaba de informar, através do seu administrador técnico, a garantia na fabricação, manutenção e recuperação de 80 por cento da maquinaria necessária ao funcionamento de toda a indús tria açucareira nacional. Portanto a indústria metalúrgica nacional encontra-se a partir de agora preparada para produzir, recuperar e assistir cilindros de oito a quinze toneladas, entra outro equipamento para a indústria açucareira como, por exemplo, trituradores e transportadores de cana para alimentação das caldeiras e diverso material de rega. Em 29 de Agosto de 1978 foi, pela primeira vez, fabricado em Moçambique um cilindro de ferro fundido de oito toneladas. Até agora já foram fabrisé Moiane, afirmou que aquela gesto militante demonstra que «os trabalhadores assumiram já a responsabilidade de que cada cidadão deve amar a sua Pátria». Entretanto, no decorrer de uma reunião realizada no Micados, com projecto, mão-de- nistero dos Negocios r.s=an-obra e material nacional, 20 geiros, com o objectivo de cocilindros deste tipo. Mais 30 memorar o Dia Internacional destas peças serão ainda fa- dos Trabalhadores, foi apresenbricadas este ano destinando- tada um proposta, unanime. -se à utilização das fábricas mente aceite, segundo a qual açucareiras nacionais durante os trabalhadores daquela Mia campanha de 1980. nistério resolveram dedicar Entretanto, dum novo tipo meio-dia de trabalho em apoio de triturador inventado e pro- à nossa capacidade defensiva. duzido pelos trabalhadores da CIFEL-SMP, surgiu um au- CR mento no índice de produçãoCEIFA UE ARROZ NO de cerca de 50 por cento em relação ao processo utilizado Iniciou-se no dia 25 do corcom a máquina anterior, rente, a campanha para a caiA fabricação de todo este la do arroz no -Vale do Limequipamento para a indústria popo -onde em 35 dias cerca açucareira em território nacio- de 40000 pessoas proveniennal a partir de material velho tes das Províncias de Maputo reconvertido e matéria-prima e Inhambane e todos os disimportada, vai poupar ao pais tritos de Gaza, deverão colher cerca de 50 mil contos em di- com a ajuda de 164 autocomvisas de material que seria até binadas mecânicas e 230 caaqui importado do estrangeiro. e Na Província de Sefala, as Forças Policiais io estacionadas procederam entrega da importãncia de 99 220$00 ao Primeiro Secretõrio Provincial do Partido e Governador da Província, igualmente para apoio da nossa capacidade de;ensiva. Ainda na mesma Província, a população do Distrito de Clibavava, no âmbito das comemorações do Dia Internacional dos Trabalhadores contribu com 109000 para o mesmo fim. VALE DO LIMPO[ campanha do arroz de 19' /79 em Gaza aproxima-se das 60 000 toneladas fixai pelo III Congresso da FREUI para o Vala do Umpopo e siderado o «Celeiro da P ção». Os trabalhos da ceifa se distribuídos da seguinte ma: No Complexo Agro-Ind CONTRIBUTOS PARA REFORÇO DA CAPACIDADE DEFENSIVA * Casal de cooperantes dinamarqueses entrega 60 mil escudos Após dois anos de trabalho no nosso Pais, um casal de cooperantes dinamarqueses decidiu oferecer a quantia de 60 mil escudos para reforço da nossa capacidade defensiva. Com idêntico objectivo, os trabalhadores da Imprensa Nacional fizeram a entrega de 27 mil escuidos. Ao agradecer a contribuição do casal dinamarquês, que trabalhou nas Províncias de Maputo e Gaza, o Primeiro Secretário do Partido e Governador da Província, José Moiane, disse que desde a Luta Ar- mada de Ubertação Nacional, os países escandinavos, entre os quais a Dinamarca, vinham apoiando a luta pela libertação do -Povo moçambicano. Ainda durante o acto, Peder Pedersen e sua mulher, Bodil Moltesen, afirmaram que «a República Popular de Moçambique é um farol e estímulo no caminho para a liberdade, paz e desenvolvimento social, económico e político, rumo ao socialismo». No encontro com os trabalhadores da Imprensa Nacional, representados pelo Grupo Dinamizador, o Governador Jomiões, um total previsto de 56415 toneladas de arroz. Os participantes e as máquinas serão distribuídos pelo Complexo Agro-Industrial do Limpopo, pela Unidade de Pro dução do Baixo Limpopo e pelas várias cooperativas agrícolas da Provincia de Gaza onde se realizará a campanha. De uma área total cultivada de 22566 hectares de onde serão ceifadas as 56 416 toneladas de arroz, a produção da trial do Umpopo as 149 at combinadas aí existentes farão 6000 hectares enqUa 24.000 pessoas deverão far os 9000 hectares restli Na Unidade de Produção Baixo Umpopo 15 autocon nadas irão colher 1500 he res enquanto 11900 pess ceifarão 3 500 hectares. 3 pessoas serão distribuídas las diferentes cooperati agrícolas TEMPO N.O 450 -pág. 6 Faleceu, na semana passada, Inicio de lousa. conhcido agricultor e industrial portuguis. Residente em Moçambique desde 1937, desenvolveu iniciativas válidas nos sctores agrícola e industrial na área do distrito da Manhiça. Após a proclamação da Independência Nacional deu uma contribuição válida para a recuperação da economia nacional integrando-se nas directivas traçadas pelo Governo moçambicano. Destaou-se nas acções de salvamento das populações atingidas pelas cheias ocorridas no Vaie do Umpopo, tendo também sido dos primeiros a preocupar-se pela recuperação das áreas afectadas por aquela calamidade natural, dando ao mesmo tempo um apoio activo aos desalojados. Ofereceu-s deste modo para construir uma ascola numa das aldeias que se formaram na sequncia das cheias. Esta contribuição para a reconstrução nacional granjeou para Inácio de Susa uma grande estima entre as populações da região. No seu funeral, representando o Presidente da RPM, estiveram presentes o governador de Maputo, José Moiane e o director do gabinete da Presidência da República, Luis Bernardo Honwana. Incorporaram-se no acto, numerosos habitantes do distrito da Manhiça, trabalhadores das empresas a que Inácio de Sousa estava ligado e ainda do Ministério da Agricultura, além dos seus familiares e amigos o NIASSA: DISTRITOS DE MECANHELAS E MANDIMBA CONSTROEM E PRODUZEM Quinhentas famílias constroem nova vida no distrito de M sanhelas.-na aldias comnais 1.o de Maio, Insaca e Caronga- A primeira nasceu em 1977 e as duas últimas no ano passado. Este distrito reúne condições para o desenvolvimento da agricultura. Alguns camponeses da aldeia comunal 1.° de Maio relataram ao «Noticias da Beira» algumas das suas experiências de vida colectiva: - No princípio éramos poucos. Éramos apenas 10 famílias. Muitos dos nossos companheiros não tinham ainda nenhuma ideia do que é uma aldeia comunal, da vida em colectividade e das suas vantagens. Mas logo que se aperceberam de que podiam molho rar as suas condições, que podiam dispor da escola para os seus, filhos, centro de saúde, loja, o que não passariam mais Lrna vida de miséria, vieram e juntaram-se a nós». As estruturas distritais, apoiaram com algumas máquinas para o cultivo das terras. Em menos de dois anos a população desta aldeia dispõe de escolas ,e postos sanitários. Sa lienta-se que já está em funcionamento uma Loja do Povo, uma Cooperativa de Consumo, e está em organização uma cooperativa de pesca. Em relação à água está prevista a abertura de poços para garantirem o abastecimento. FALECEU M DE SOUSA No distrito d Mandimba. em Mitande e Naucheche desenvolvem-se duas cooperativas agríicolas. Nestas unidades de produção cerca de setenta camponóss s empSnham diariamente no trabalho para melhorar a sua vida. - Para nós, esta é uma nova experiência. Não conhecamos o trabalho colectivo e muito menos as vantagens que nos traz. Durante o tempo colonial, nós víamos estes terras fnas não podíamos trabalhar nelas. Os colonos tnham-nos empurrado para os locais onde a terra é pouco produtiva ficando eles com as melhores das VENDA DE PÃO NO HULENE Rectificação Na nossa anterior edição, na reportagem dedi cada à venda de pão, reproduzimos dados errado, referentes ao bairro do Hulene. O exemplo do bairro Hulene não ilustra eficien temente o problema abordado porque efectivamen te, na Loja do Povo do Hulene são recebi dos diariamente 1. 500 a 2 000 pães. Breve mente o posto de venda da cooperativa de consu mo passará igualmente a comercializar pão. LE cerca de seis meses, antes de se ter iniciado a ofen siva do Departamento do Trabalho Ideológico na. -quele bairro, praticamente não se vendia pão. Hoje, graças à organização da própria popula ção em torno de uma Comissão de Abastecimentos, criada no quadro da ofensiva piloto, a venda de pão no conjunto dos estabelecimentos atinge nove mil unidades por dia. Trata-se de uma relevante vitória da organização da comercialização e distribuição de um produto da primeira necessidade. Mais do que os nú. meros, a experiência piloto do bairro do Hulene aproveita para a maneira correcta e eficaz de resolver os problemas, de abastecimento. Os dadàos referidos na nossa reportagem resultaram de informações erradas recolhidas no local, pelo que apresentamos desculpas aos nossos leitores. TEMPO N., 450 -pág. 7 nossas terras - disse um dos cooperativistas de Mitando. Estes camponeses introduziram* aulas de alfabetização nas quais participam todos. Alguns já frequentavam aulas antes de formar a cooperativa. Foram estes q;e sensibilizaram os restantes. Os .cooperativistas de Mitende na presente campanha agrícola, cultivaram uma área d setenta hectares, onde semearam milho, girassol e amen doim. Na colheita do ano passado os cooperativistas conseguiram obter dezasseis toneladas de girassol que deram um total de 130 contos 1 ) EDUCAR E'ý TAREFA DE TDDS Decorre o Ano Internacional da Criança. Melhor altura não pode haver para se discutirem as questões ligadas à Educação. Uma entrevista com um professor da Escola Secundária de Nampula levanta algumas questões delicadas que podem servir de ponto de partida para a análise da educação da criança. Naturalmente o tema não fica esgotado, de (ío vasto que 6. Mas é um ponto de partida. A entrevista foi realizada por Isménia Sacramento do Emissor Provincial de Nampula (RM) o nela se afirma, a dado passo, que uas crianças de hoje serão os nossos juizes» e, por isso, devemos estar conscientes «de que o futuro de Moçambique está nas suas mãos,, e nós, pais, irmãos e restantes familiares não querendo ser desonestos «é necessário que mostremos na prática, pela nossa preocupação com as .crianças, com os continuadores, que nos preocupamos com a nossa Juventude». Era manhã alta e os pátios de recreio da Escola Secundária de Nampula estavam repletos de juvertude. Depois de termos contáctado a secretaria da Escola, depressa fomos introduzidos na sala da direcção onde prontamente, um professor acedeu a travar connosco o diálogo' que lhe propusemos. O professor Sousa Santos, que lecciona a disciplina de Português, começa por nos 'dizer que «a educação em casa é essencial». E, prossegue: «Realmente a criança quando chega àescola, já traz uma bàse que foi adquirida no seio da família. Se os pais, os familiares não tiverem para com as crianças uma atitude correcta, elas ficarão marcadas para o resto.da vida. Nós, adultos, sabemos que os princípios, que regem a vida do homem, começaýn a adquirir-se desde o berço. í, claro que, depois na escola, essa criança que, em casa, teve um tratamento familiar incorrecto, vai ý:ser uma «criança problema». Ela é, normalmente, revoltada, passiva-nas aulas, indolente no trabalho prático e, então, a tarefa dos profesSS-«Sim. A Comissão de Ligação Escola-Comunidade é uma necessidade urgente. Ela integrará os pais e as Organizações Democráticas de Massa,, (O.D.M.). Porque, se a es1 cola não estiver ligada às O.D.M. que, já por si, têm uma certa organização, n á o conseguirá, NUNCA, atingir os seus objecti vos de Ligação à Comunidade. Ela terá, simplesmente, uma ligação :que não é completa, terá uma ligação só com os pais e se os pais não estiverem integrados numa sociedade onde as Organizações *de Massas lhes falem também de educação, onde tudo lhes fale de 'educação, eles nunca se preocuparão com esses problemas. Doutro, modo os pais vêm à escola, assistem à nossa reunião, dizen! duas ou três palavras e vão-se embora muito satisfeitos porque «vieram à escola». E, depois, só voltam no outro trimestre... É claro que isto não basta. sores será muito difícil e, muitas vezes, podemos quase considerar que, essas crianças, dificilmente se integrarão no processo de educação, na escola. Reportando-me ao meu tempo de criança, recordo-me que tinha medo do professor.... O professor era «grande »e eu era pequeno; o professor tinha uma voz «grossa,, e eu.... ; o professor tinha um pau, em cima da secretária.... Ora, muitas vezes, em minha casa, quando eu praticava 'algum acto. incorrecto, havia um familiar que dizia: «Deixa estar que lá na escola, o professor ajusta contas contigo». Este tipo de procedimento é antipedagógico. Provoca grandes dissabores às crianças. Criam situações muito difíceis.... Eu ainda hoje sinto que, algumas deficiências de carácter, foram fixadas nessa fase, eum que fui vítima de uma educação incorrecta.» RM - Aí está um exemplo concreto que nos prova que, de facto, a criação de Comissões de Ligação Escola-Comunidade deve ser, o mais depressa possível, intensificada. TEMPO N.- 451)- Pág. 8 É necessário que os pais contactem com os professores dos filhos, com o director de turma do filho, para que se faça um acompanhamento da criança mais completo - em casa e na escola. É necessária uma ligação muito estreita entre a escola e, as Organizações de Massas. Penso que a criança de Bairros Comunais será um reforço à função da Comissão de Ligação Escola-Comu,tão, na fábrica, onde já existem trabalhadores' organizados, onde há uma condição que facilitaria o trabalho dos professores ou responsáveis de educação que lá se dirigissem para sensibilizar os trabalhadores do problema da educação das crianças. Todos os dias, -nós assistimos, nar ruas, no meio da cidade, nas festas, assistimos a um completo desprezo, por parte dos adultos, em relação às crianças. É claro que, a fábrica já era um lugar, um dos locais de trabalho onde as pessoas estão organizadas e podiam ser melhor atingidas pela sensibilização feita pelas estruturas da educação e da escola. Outro local seria a zona residendal. Quando há reunião do Grupo Dinamizador, far-se-iam deslocar brigadas constituidas por professores e alunos que, colocassem os problemas que a escola tem: problemas com alunos que roubam os companheiros, probemas de alunas que, embora crianças, fazen! uma vida de adultas.-. Assim, essas pessoas, nos locais de trabalho e de residência, sentiriam esses problemas e ficariam sensibilizadas para a sua resolução. As pessoas, hormalmente, vêem uma criança acompanhada de um velho, numa situação duvidosa ou po pessoas que se vê que têm um comportamento duvidoso e, não chamam à atenção, não alertam. Essas pessoas estão passivaý:. Elas assistem, mas não sentem aquele problema como' seu, porque aquela eriança não é o seu filho, o seu parente, o seu amigo. Elas não sentem responsabilidade com aquela criança, que corre perigo. Isto é muito mau! É evidente que a escola não pode fazer guarda nas ruas. Os pais, por seu lado, também não têm possibilidade de guardar as crianças, nas'ruas. Mas existem, na, ruas, pessoas adultas que devenm sentir-se responsáveis pela educação das crianças, de forma espontânea. » E, a terminar o seu depoimento, o professor Sousa Santos, acrescentou: «Todos os adultos devem saber que o mundo de amanhã, o Moçambique de amanhã, vai ser dirigido pelas crianças de hoje. Aquilo que os adultos fazem l4oje, às crianças, será aquilo que elas farão amanhã. Penso que se não nos capacitar. mos, que se não estivermos perfeitamente conscientes, de que o futuro de Moçambique está nas mãos das nossas crianças, então estamos com certeza a enganá-las e, elas amanhã, serão os nossos juizes e dirão de nós que fomos desonestos. É claro que nós, professores, pais, irmãos e restantes familiares, não queremos ser desonestos, mas, para que não nos chamem tal nome, é necessário que mostremos, na prática, pela nossa pre ocupação com as crianças, com os continuadores, que nos preocupamos com a nossa Juventude.» Texto de Ismlénia Sacrainento Emissor P. de Nampula unlos aevemr sa0er que o mundo de amanhã, o amanhã vai ser dirigido pelas crianças de hoje» CICLO DE CJNEMA AFRICANO EM MOi "OS EMBAIXADORES" DE: NACEUR KTARI TUNISIA/FRANÇA 1976 OS EMBAIXADORES fala-nos da migração da Africa do Norte para a Europa, muito particularmente da migração árabe semilegal para França à procura de uma situação de subemprego. Quando Salah deixa a suaaldeia na Tunísia para ir trabalhar para Paris eie pensa que vai enriquecer, que vai tirar a sua família da miséria. Quando integrado num grupo de emigrantes Salah está prestas a embarcar para França, os MIQUE oficiais dos serviços de migração tunisinos pronunciam um pequeno discurso onde lhes chamam a atenção para o facto de serem novos embaixadores do seu país na metrópole europeia. Quando estes novos embaixadores da fome chegam a Paris não há aposentos diplomáticos à sua espera mas uma dura luta para conseguirem um infecto quarto para dormir e uma bucha para comer. O seu orgulho, é agora o escárnio e a humilhação de serem estrangeiros, para uns uma força de trabalho barata que nunca faltará, enquanto que para outros a razão do mal estar e dos problemas sociais que os afectam. Os patrões, os senhores capitalistas utilizam a sua presença para os apontarem como causadores da situação de desemprego que afecta o seu país e a sua classe tra.balhadora, para que estes últimos mal informados os vejam como seus principais inimigos. E assim nascem as provocações racistas e toda uma guerra fria que envolve a classe trabalhadora local e os emigrantes deixando a classe dominante isenta de qualquer ataque ou conflito. Os «EMBAIXADORES» é um filme político, que constitui uma arma para a desmistificação da imagem que os africanos por vezes transportam de uma Europa farta e maravilhosa, desse paraíso metropolitano que para eles nunca poderá existir. "AS REDES" DE: GHOUTI BENDEDDOUCHE ARGÉLIA <AS REDES» é um filme que faz um retrato da evolução das relações entre um homem e uma mulher de uma aldeia de pescadores argelinos. No início, o homem um pescador pobre e proprietário de um velho barco sem grandes horizontes na sua profissão, é um revoltado em potência. Sua mulher, uma servil doméstica. Um casual contacto com uma mulher da cidade leva-o a sonhar com outra vida e parte para a capital deixando a aldeia e sua mulher que uma vez só e sem quaisquer recursos se emprega numa fábrica de conservas da adeia. Desiludido com a vida da cidade, três anos depois volta o pescador à sua aldeia cheio de novas ideias cooperativistas e de colectivismo. Trava-se então um autocombate do pescador para reconquistar sua mulher que já não é mais a servil dona de casa, e que só o volta a aceitar quando descobre que ele também havia mudado e trazia novas ideias. TEMPO N.. 450 - pág. 11 TRABALHADORES EXEMPLARE Uma deslocação a Inhambane, para visita e troca de experiências com trabalhadores daquela Província, foi um estímulo para 50 trabalhadores do Ramo de Confecções e Indústria Têxtil, ao nível de Maputo, distinguidos como os melhores pelos seus próprios companheiros de trabalho, no âmbito da Campanha de Estruturação do Partido «Os operários de lá perguntaram-nos como eram feitas as camisas, como eram feitas as calças. Nós pedimos-lhes que nos explicassem como se fazia sabão, como era embalado o caju. E compreendemos que, embora com diferentes tarefas, trabalhamos como se fosse numa mesma fábrica, numa fábrica onde construímos o futuro do País» - disse um operário. A forma como foram escolhidos, como decorreu a viagem, o que viram, o que aprenderam e ensinaram durante as visitas efectuadas na província de Inhambane, foram temas de conversa com alguns dos trabalhadores istinguidos. Os 50 trabalhadores que agora se deslocaram a Inhambane, foram os que mais se distinguiram nas diversas empresas do Ramo, a nível de Maputo, no decorrer da Campllanha que decorreu entre 1978/79, e esta experiência de fazer deslocar trabalhadores a cen-trrO,, de produção por si desconhecidos foi a segunda do género. 0 processo de escolha dos melhores trabalhadores foi semelhante em cada uma das empresas, como, nos referiram os operário, contactados. Por exemplo, na Fábrica de Confecções Soberana, para sermos escolhidos como bons trabalhadores primeiro h o u v e uma reunião em cada secção e depois uma reunião geral com to dos os trabalhadores, que con. cordaram com as pessoas que mereciam ser distinguidas, afirmou Lourenço Nunguiça Banze. Da empresa onde trabalha foram treze elementos a Inhambane, tendo sido escolhidos um ou dois por secção, consoante se tratasse de secções com mais ou menos opý rãrios. Na Levis Moçambique, em pr melro lugar foi feita uma reuniã dos responsáveis políticos que ir dicaram os melhores trabalhad( res de cada secçko e de toda a enr presa - começou por esclarece Lucinda Berta Muianga, que acre centou: O melhor trabalhador é o con panheiro Dinis Sial. Eu fiquei ex segundo lugar. Na secção de cal ças escolheram-me a mim e na se( TEMPO N.o 450 - pág. 12 VISITARAM INHAMBANEreuniões de secção com responsáveis do Grupo Dinamizador e dos Conselhos de Produção, em que foram escolhidos alguns trabalhadores, acrescentou que depois em reunião geral houve rejeições porque alguns não podiam ser tra1 balhadores exemplares. Um caso concreto, foi descrito por Tomás Tembe nos seguintes termos: Numa secção de calças, houve um rejeitado. É certo que ele vinha sempre ao trabalho, não faltava, mas era um bocadinho indisciplinado e por isso não podia ir a Inhambane. Para ser trabalhador exemplar não significa cumprir apenas o horário e trabalhar sem conhecer o sentido do trabalho. Este elemento quando chegava, sentava-se à máquina, depois ia à casa de banho, saía. Quando entendia trabalhava, trabalhava quando queria. Este trabalhador foi criticado em reuniã3 geral e ele já se emendou. APRENDER E ENSINAR ção de calções escolheram outra camarada. Depois, numa reunião geral fomos apresentados e fomos apoiados. Foi desta maneira que fomos escolhidos. TRABALHADOR EXEMPLAR Para se ser um trabalhador exemplar nao basta chegar a horaj ao serviço, ser pontual, não ter faltas. Além destas qualidades, o trabalhador exemplar distingue-se pelas relações que estabelece com os seus colegas pela sua higiene, pela forma como trabalha e como transmite os seus conhecimentos aos outros trabalha. dores. Isto mesmo foi dito por um responsável dos Conselhos de Produção e viria a ser confirmado por um operário da Manufactos, onde se registou um caso de rejeição. Referindo-se ao assunto, Tomás Tembe, depois de dizer que na sua empresa começou por haver Sobre a viagem, a forma com 'o foram recebidos e as visitas efectuadas em Inhambane, os seis trabalhadores foram unânimes em afirmar qe tudo decorreu da melhor maneira. Alberto Rafael, operário da Soberana, afirma que os trabalhadores em Inhambane receberam-nos de boa for-ma. Visitámos vários sectores de trabalho, o primeiro dos quais foi a Cooperativa de Pesca 25 de Setembro. Aprendemos muito-e ensinámos muito. Em segundo lugar - continuopi - fomos visitar a Romos onde também fomos biem recebidos e vimios a sua organização. Em terceiro lugar, visitámos a Fábrica TEMPO N.O 450 - pág. 13 1 sabão. £ uma coisa muito maravilhosa e nunca tinhamos visto. Sabão, é um produto que ultimamente tem faltado em Maputo. Mas, em Inhambane a situação é melhor embora a fábrica não esteja a produzir de acordo com a sua capacidade. Isto, devido a avarias nas máquinas. Têm produtos para trabalhar, mas devido à avaria nas máquinas há dificuldades, nãe estão a produzir em quantidade, acrescenta o mesmo operário. Para Adelina Murace, da Manufactos, a viagem também correu bem. Eu nunca tinha ido a Inhambano e agora já sei onde fica. Para além de salienta a forma como foram recebidos os operários de Maputo, destaco'i a visita à praia do Tofo e à Maxixe onde, na Romos, há carros parados por falta de material. Aliás, este facto viria a ser confirmado po r Tomás Tembe que referiu o facto de dos CERIMONIA NACIONAL PARA ENTREGA DE DISTINÇõES Esta deslocação a Inhambane, foi um estimulo concedido a trabalhadores do Ramo de Confecções e Indústria Têxtil. No âmbito do processo de Emulação em curso, está prevista a realização, durante o corrente ano, de uma cerimónia nacional, no decorrer da qual os melhores trabalhadores do País em cada sector. de actividade,. serão distinguidos pelas estruturas superiores com flâmulas, medalhas e bandeiras. Para o efeito, está a decorrer, a nível nacional, o processo de Emulação que se estende a todos os sectores de produção. 12 autocarros apenas quatro se encontrarem em funcionamento, encontrando-se os restantes oito parados por falta de pneus. A Fábrica de Castanha de Caju foi, dos sectores visitados, aquele que mais impressionou Lourenço Nuzguiça Banze. Tenho visto empresas de Maputo, mas aquela é muito diferente. Com as máquirias ios muito e ensinamos muito» - Alberto Rafael, trabalhador da Se berana que estão lá, nem dava vontade de nos deslocarmos para outro sector. Entrámos oram quatro horas e vinte minutos e saimos já passava das sete horas. No que se refere a troca de experiências, a visita também foi muito útil: Os operários de lá perguntaram-nos como eram feitas as camisas, como eram feitas as calças. Os companheiros da Indústria Têx til explicaram como era feito o algodão e os do vestuário explicaram como eram feitas as calças e as camisas. Tivemos que dizer que o pano era estendido em folhas de corte e que depois vinha, o desenhador fazer o desenho e depois o elemento do corte. Gostei muito de visitar a fábrica de castanha de caju. No final da visita tivemos uma reunião em que a administração da fábrica disse que era preciso serem distinguidos os melhores trabalhadores. LEMBRANÇA DO 1. DE MAIO Puxando de um pequeno bloco onde tomara alguns apontamenTEMPO N.O 450 -pág. 14 Dinis Ramadan Sial, tra. balhador da Levis Moçam bique, um dos 50 melhores operários do Ramo de Con. lecções e Indústria Têxtil que recentemente se deslo. caram a Inhambane no dmbito da Campanha de Emu. lação Socialista j «Na Romos, na Ma xize, tivemos uma pe quena reunido e procurámos saber se ha via trabalhadores dis tinguiãos. Em pri. metro lugar, pusemos aquele trabalha. dor que fez uma escultura lembrando um esqueleto» Lucinda Berta Muianga, operária da Le vis Moçambique tos, Tomás Tembé informa que a fábrica de descasque de castanha de caju tinha 475 trabalhadores mas que devido ao aumento da produção, aquele número subu para 679, dos quais 304 são mulheres. A meta de produção também foi ultrapassada. Os trabalhadores trabalham com vontade e não há contradições com os responsáveis. Neste momento, têm seis CélUlas do Partido. Sobre os aspectos que mais o im pressionaram durante a visita, o mesmo operário apontou a Cooperativa 25 de Setembro que foi fundada em 1975 com 30 cooperativistas e que hoje tem 36. Mas, I houve problemas por falta de ma-' térias-primas e de iscas. Por isso a produção baixou um bocadinho. Têm dois barcos, sendo um a motor e outro à vela. Perguntámos também para onde ia o peixe e disseram que era vendido à PESCOM. Outra preocupação dos operários que se deslocaram a Inhambane -foi a de saberem junto da Romos, na Maxixe, se quando se perde uma encomenda ela.é paga ou não. Foi-lhes dito que, no caso de haver justificação, essa encomenda é paga. SAinda no que se refere ao tre ba!ho desenvolvido pelos trabalh dores daquela empresa de cami( nagem, Lucinda Berta Muiang ficou admirada por ver ali um escultura lembrando um «esquelet humano». Aquela escultura foi feita ii teiramente com peças de viatura: e i tema serviu de motivo para n decorrer da reunião realizada apç a visita, os trabalhadores de M, o puto proporem que o seu autc fosse colocado em primeiro luga nas distinções a atribuir no ân bito da Emulação Socialista. Inhambane, foi classificada pel mesma operária como uma cidad bonita e que «não têm mau che ro» Ela preocupou-se tambén com o problema das bichas e te como resposta que também há b chas mas que ali não há muit 1~, gente, como em Maputo e qu Amuita gente de Inhambaae est 'em Maputo. Outra questão que procurámc saber foi se estes trabalhadores 1: gados à confecção de vestuário t nham verificado se os artigos pc «Na dsi feitos chegavam àquela cidad «NáIbrica de ca .. ju, um trabalhador trabalha de livre vontade e não há contradições com os responsáveis. T e m seis Células dò Partido»-Tomás Tembe, o"erário da Manufactos " «Da nossa empresa foram 13 ele-. mentos a inhambane. Nas secções grandçs foram es colhidos dois elú. mentos e nas secções mais pequenas um»- Lou. renço Nunguiça Banze, operdrio das Confecções Soberana em quantidades suficientes e se os preços correspondiam aos praticado< em Maputo. Na visita que efectuámos ao Bazar - diz Dinis Sial - reparei que os sacos plásticos eram vendidos a nove escudos. Por sua vez. Lourenço Nunguiça Banze tentou ver CONTRATEMPOS Na. opinião dos trabalhadores contactados, a visita correu bem, tudo como estava previsto e programado. Houve apenas dois contratempos. O primeiro, foi a impossibilidade de visitarem Homoíne, devido a doença do motorista do autocarro. O segundo, foi um colega nosso que na manhã de sexta-feira, quande. ia a tomar banho escorregou e caiu. Baixou ao hospital o não chegou a andar na visita. Mas, no sábado falámos com o doutor para pedir a sua transferéncia e já veio connosco para Manas montras se havia artigos feitos na nossa empresa e não vi nada. Sobre os preços não posso dizer que haja especul çêo, mas roupa há emgrande quantidade. Fara além do estimulo e do en-riquecimento dos seus conhecimen tos sobre a realidade do Pais, por parte dos trabalhadores -de Maputo, também os -operários da Província de Inhambane que foram. visitados ficaram mais sensibilizados sobre a importância da Emulação. Nas reuniões realizadas com estruturas e trabalhadores, no final de cada visita, a pre3 cupação deles foi de dizerem que iam estudar a forma de escolher os locais que irão visitar. Quanto à realização de reuniões nos locais de trabalho dos operários que se deslocaram a Inhambane para transmitirem o resul. correu muito bem. Não sabia onde era Inhamban4 e visitámos a Administracõc e a Romos onde há ca; de material» - Adelina Murace. operária da Man tado das suas experiências; contarem aquilo que viram e o que mais os impressionou, ainda não tiveram lugar. Contudo, afirma Lourenço Banze, nos nossos ,bairros e mesmo quando vamos no machimbombo muitas pessoas nos têm pedido para falar sobre a viagem e sobre as visitas. Mesmo nos locais de trabalho, a nível individual, tem havido muito interesse. Texto de Luís David Fotos de Danilo Guimarães TEMPO N.o 450 - pãg. 17 1-1r SCIPLNAR'0 TEMPO N.- 450- påg. 18 *Matadouro também deve mudar horário «Os talhos devem abrir às 4.30 horas da manhã» - disse o Presidente Samora Machel, entre outras orientações que traçou nos festejos do 1.1 de Maio Esta orientação está sendo cumprida pelos trabalhadores dos talhos que, apesar das dificuldades que se lhes deparam, procuram soluções para melhor disciplinarem o seu trabalho. É nesse contexto que elaboramos o presente texto, no qual abordaremos também a nova organização do trabalho nos talhos, o açambarcamento o favorit¤smo e as deficiências ainda existentes na distribuição de carne. A maior parte dos talhos da cidade do Maputo e arredores, passaram a abrir as suas portas às 4.30 horas da manhã. Nos talhos cor.trolados pela Divisão de Carnes, estrutura dependente do Ministério do Comércio Interno, essa medida foi posta em prática logo no dia 2 de Maio. uNo mesmo dia que o Presidente Samora Machel deu essa orientação avançámos imediatamente e criámos as condições necessárias para que no dia seguinte de manhã os talhos fossem abertos ao público às 4.30 horas. Foi um pouco dificil organizar isso, mas foi poss:vel devido ao interesse demonstrado pelos trabalhadores» - palavras de Hélder Baptista, da Divisão de Carnes. As dificuldades encontradas logo no início e que ainda hoje existem são, entre outras, a falta de transporte para os trabalhadores dos talhos. Como forma de solucionar essa dificuldade, a Divisão de Carnes opta por duas alternativas: «Ou as estruturas dos transportes nos põem à disposição dois autocarros para o transporte dos nossos traBicha para compra de carne num dos talho., da cidade do Maputo. A. maior parte já abre as suas portas às 4.30 horas da manhã TEMPO N.- 450 - pág, 19 o balhadores logo de madrugada e nós pagamos, ou então nos facilitam a aquisição de carros próprios.» Esta questão já foi colocada junto às estruturas competen tes e espera-se que muito brevemente seja solucionada. A Divisão de Carnes tem sobre o seu controlo 38 talhos em funcionamento Privados há 10 a 12 no Maputo e na Matola. Alguns destes ainda não cumprem integralmente as referidas orientações. Por exemplo, a nossa reportagem constatou junto ao talho «Império» que este estava, no passado dia 16 de Maio, a vender carne de frango a partir das seis e meia da manhã. Quer dizer, nesse dia o talho abriu a essa hora. Acerca disso o responsável do talho disse que «para a venda de carne de frango não há nenhuma orientaçÇão em como devemos abrir o talho às 4.30 horas. Isso é só para a carne de vaca». Sem dúvida, esta pessoa está enganada ou faz que interpreta mal as coisas, pois, a orientação traçada pelo Presidente Samora Machel é de abrir os talhos ás 4.30 horas sem discriminação do tipo de carne \a vender, o que, aliás, foi reafirmado pela Divisãn de Carnes. ORGANIZAÇÃO NO TRABALHO Face às orientações traçadas pelo Presidente Samora Machel, a Divisão de Carnes tomou certas medidas no sentido de melhorar a organização do trabalho dos talhos. Um exemplo do reforço dessa organização encontramo-lo no talho n.0 17 das Lojas do Povo. Num ambiente que revela dedicação e higiene, o responsável daquele talho diz-nos: «Nós aqui entramos às 3.00 horas da manhã. Começamos logo a preparar a carne, cortar e separar. Entretanto as pessoas começam <i fazer bicha. Pouco antes das 4.30 horas, saímos lá para fora e dizemos a essas pessoas a quantidade de carne que temos para vender nesse dia e perguntamos qual a quantidade que acham que devemos'dar a cada pessoa. Daí surgem contribuições e nós optamos pela decisão da maioria. É claro que nem sempre é possível satisfazer as decisões, mas é sempre melhor e mais funcional. Com o andar do tempo as próprias pessoas ficam habituadas a fazer melhor os cálculos e deixam de resmungar, como dantes acontecia.» Indagado sobre quais as dificuldades existentes no seu talho, o mesmo trabalhador diria que, apesar do problema de transporte para os trabalhadores, eles acham que o seu trabalho decorre bem e que apenas lamentam a falta de carne e o modo como o Matadouro faz a distribuição. «É um pouco duro ficarmos aqui toda a manhã até às doze ou treze'horas sem sabermos se a carne vem ou não. Temos que esperar porque se não vier a carne temos de colocar um avis» na vitrina do talho a dizer que não haverá carne no dia seguinte. Assim evitamos que as pessoas venham cá ficar de madrugada à espera em vão.» Este meio de informar ao público sobre se haverá ou não carne, Interior do talho «Império». Abre as portas às seis e meia da manhã para vencier carne de frango. Por ignorãncia ou não, a responsável do talho diz que não há nenhuma orientação para abertura do estabelecimento quando se trata de vender aquele ti"o de carne TEMPO N., 450 - pág. 20 «Nos começamos a trabalhar às 3.30 horas da manhã para preparar, cortar e separar a carne» - responsável do talho 17 das Lolas do Povo «Este novo horário dos talhos vem-nos beneficiar muito, porque assim pode. mos ir ao taho e depois ter tempo para ir trabalhar» - opinião do grupo de pessoas que a foto reporta Este aviso não está posto de uma forma correcta, pois quem o lé fica sem saber quando será esse «depois de amanhã» funciona quase em todos os talhos. Todavia nem em todos isso está bem organizado, devido à forma como são redigidos os avisos. Por exemplo, num deles o letreiro diz «Não há carne, só depois de amanhã.» Não vem a data do dia em que o aviso foi colocado. Aliás, do modo como está, dá a entender que fica sempre ali colado. Daí que o transeunte fique sem saber quando é esse»depois de amanhã.»Faz lembrar aqueles «avisos» que aparecem em certos restaurantes, sempre fixos na parede, a dizer cHoje nao se fia, só amanhã.» AÇAMBARCAMENTO E FAVORITISMO Muito recentemente, nos talhos n." 4 e 20, uma brigada de fiscalização detectou o açambarcamento de duzentos e tal quilos de carne em cada um deles. Não obstante os responsáveis desses talhos não quiseram concordar que se tratava de açambarcamento, alegando que essa carne tinho sido reservada para certas estruturas. Sobre essa situação, Hermínio Lopes, da Divisão de Carnes, disse: «Os nossos talhos têm sido alvos TEMPO N.o 450 - pág. 21 1AIONVO IISTõRlCO DE MOÇAMBIQUt. "CONVERSA" PARA AMANHÃ... f As atitudes de corrupção praticadas por certos trabalhadores dos talhos, é outra ferida a referir. A tardinha, acontece em certos talhos, quando os trabalhadores dos mesmos fazem a limpeza ou outro trabalho, há mulheres que vão lá «conversar». Essa conversa é para amanhã. Como essas mulheres não se querem dar ao trabalho de acordar muito cedo, vão «pedir favores» ao trabalhador simpático para lhe guardar carne. E da melhor! A conversa estâ feita. Nela há certos acordos.... E amanhã é só ir buscar a carne e mais umas horas de confraternização, Outro exemplo é do homem do talho que gosta de «beber». Cria confiança com o dono de uma cervejaria ou vice-versa e dessa confiança chega-se a um pacto entre eles: o do talho pode ir beber quando quiser, num canto da cozinha do restaurante, e o do bar passa a ter sempre carne em quantidade e qualidade que desejar. Outra coisa que todos conhecem, é a dificuldade em arranjar casas na APIE. Acordos como os anteriormente focados dão-se também entre certos funcionários daquele organismo e trabalhadores dos talhos. A nova forma de arrendamento de casas não dá campo * a esta troca de «favores». A solução para estes casos de corrupção é a intensificação da vigilância que deve começar no interior dos talhos, isto é, entre os trabalhadores daquele sector. Porque ninguém mais do que eles estão em melhores condições de o fazer. «Alguns talhos ainda fazem açambarcamento de zarne. Pcnsam que nos enganam, mas' nós estamos vigilantes. Aqui no talão Império aconteceu um caso desses no sábado antepassado» - diz a mulher do centro TEMPO N. 450 - pág. 22 de pessoas que lá vão, intitulando-se de elementos responsáveis e ainda alguns elementos das forças policiais fardados e aproveitam-se disso para exigir que lhes seja reservada carne, por vezes em grandes quantidades.u A Divisão de Carnes organizou a distribuição de forma a existirem, dois talhos especificamente para servir entidades e organismos do Governo, bem como para hospitais, botéis e restaurantes. Por isso não há razão para outros talhos, sem serem esses (Talho n.o 2 e «Socarnes») açambarcarem carne em nome ou sob o nome das estruturas. Outros casos de açambarcamento são detectados pela prSpria população que vai à compra de carne nos talhos. Por exemplo, no 'talho «Império», há dias registouse barulho. «Os trabalhadores deste talho disseram que já tinha acabado a carne, mas nós sabía. mos que lá dentro havia muita carne ainda. Depois de muita discussão acabam por dizer que essa carne tinha sido reservada para alguém que queria fazer uma «missa» - contam-nos pessoas que presenciaram'a tal discussão. Junto delas estava Silvestre Machava, das milícias do bairro da Urbanização, que disse: «,Fiquei admirado porque cheguei aqui às 3.30 da manhã para fazer o controlo da bicha, como faço todos os dias. Vi que eles cortaram a carne e puseram alguma de lado. Deviam ser mais de cem quilos. Eles esconderam isso para flguém. Mas como eu estava sózinho e não tinha telefone para chamar a polícia, o assunto ficou assim.» DEFICIINCIA NA DISTRIBUIÇÃO «O Matadouro não entrega a carne a horas convenientes para que o novo horário de abertura dos talhos possa ser integralmente cumprido» - diz-nos Hélder Baptista, da Divisão de Carnes. Esta situação deve-se ao facto de o Matadouro estar ainda a funcionar com o horário antigo, o que faz com que os trabalhadores dos talhos se vejam na necessidade de fazerem maiores esforços do que o horário de trabalho no Matadouro ainda continua a ser o nesmo. Istocria problemas no abastecimento de carne aos talhos, para que estes curppraín in. - tearalmente com o novo hordro deviam. «As vezes ficamos até às oito horas da noite ou nove, depois de termos esperado todo o dia desde a madrngada.» - Afirmou um trabalhador do talho n.,. 16. Informaram-nos na Divisão de Carnes que já foi proposto ao Matadouro e este concordou alterar os seus horários, «mas eles ainda con.tinuam na mesma. Esperamos que eles alterem rapidamente isso». Antes do nosso contacto com a, Divisão de Carnes, o responsável do Matadouro disse que todo o processo de distribuição está sob a inteira responsabilidade da Divisão de Carnes e que portanto não nos podia fornecer qualquer informação, razão porque .incidimos mais sobre as informações prestadas pela referida estrutura. .Não obstante, população e trabalhadores dos talhos têm* a esperança de que tud 'o venha a melhorar, pois estão sendo encontradas soluções para isso, apesar da falta de carne que se faz sentir nesta fase que o nosso pais atravessa. Para já, a questão- central reside em disciplinar o trabalho dos talhos, o que muito contribui para que a carne que há seja consumnida, por igual, pela população. Narciso Castanheira (texto) Danilo, Gulmaries (fotos) TEMPO N.~ 450 -'Pág. 23 COMO SE CHAMA? ...E A MEMÓRIA SE ABRE AO VENTO Como é que se chama?\ Resposta - Baptista Maivene Mandlate. Trabalho na' Direcção Previncial da A gr icu 1 t u r a de Gaza. MandIate, você acaba agora de participar no desfile e também participou no comício. Tem alguma coisa a dizer sobre esta festa? A festa do 1.° de Maio é uma coisa que nunca vi. Eu nunca antes havia pensado que um moçambicano tem direito a coisas destas que vi aqui: desfile de trabalhadores e máquinas agrícolas, incluindo quinze autocombinadas que no próximo dia vinte irão começar a ceifa do arroz na Unidade de Produção do Baixo Limpopo. Até certa altura eu pensava de que nós, moçambicanos, sóo fomos nascidos para servir os colonialistas. Hoje, penso que po demos dispor de nós, trabalhar para nós e, com esta festa, ýinto ndmiração e orgulho de- ser livre e independente. Estou satisfeito pcr ver estes festejos todos e por ver o povo a participar no dia mundial do trabalhador que, afinal. é o nosso dia. Quantos anos tem? Tenho .,. bom, posso dizer que nasci em Fevereiro de mil 'novecentos e dezanove. Desde a sua nascença até hoje, estou em crer que trabalhou em muitos lugares. Pode dizer-me alguma coisa da-sua vida como trabalhador? Sim, posso dizer alguma coisa en bora não tudo. Eu comecei a trabalhar era ainda miúdo, em 1932, como «mõleque» aqui no Xai-Xai e ganhava vinte e cinco escudos por mês. Mais tarde saí com os meus patrões para Maputo, então Lourenço Marques, e lá tive que arranjar outro patrão e passei a ganhar cinquenta escudos. Isto para mim já era muito Idiuheii,). Com o andar do tempo vi que afinal não chegava porque tinha que sustentar os meus pais e assim emigrei para a África do Sul, em 1938. Nas minas, ganhava oito escudos por dia. Também era pouco mas como precisava de sobreviver voltei lá várias vezes. No entanto, a minha vida lá atrás foi esta mas além daquilo que sofri, também assisti a muitas coisas que a lembrar, posso verter lágrimas. Penso que reunindo a coragem pc erá contar-me e reviver esse passado, que além de ser interessante para a juventude moçambicana, também é importante para outros traba,.ltadores. Esta pequena entrevista foi realizada por Rodrigues Bila, repórter da Rádio Moçambique, aquando dos festejos do 1.0 de -Maio em Xai-Xai; capital da Província de Gaza. "Falou com um velho nascido em 1919. Não diríamos como se diz na abertura de um conto publicado neste número que «há sonhos antigos que acordam como pássaros,, mas que há, na verdade, realidades antigas que despertam como pássaros movidas por simples perguntas: Como é que se chama? Quantos anos tem?.... TEMPO N., 450 - pág. 24 Sim posso dizer: Na abertura destas estradas que nós vimos -hoje, é uma coisa que ao pensar nã. consigo detalhar, porque faltam-me palavras. 0 certo é que na abertura destas estradas muitas almas se foram embora. Casos de morte presenciei eu na construção da estrada que sai do Chongoene para Manjacaze. Muitos ve. ]hoýý,. muito velhos mesmo, construiram aquela estrada e ali foram massacrados. Quando se ia buscar «saibro» (pedras) para a construção e se por um azar qualquer a areia se soltasse todo o pessoal que no momento se encontrava na cova, morria soterrado, sem ninguém se preocupar. Outra coisa que eu assisti na construcão de estradas é aquela pedra muito grande (cilindro) que hoje está ali nos Caminhos de Ferro de Gaza. Nesse tempo aquilo era puxado por pessoas para nivelar as estradas. Nas descidas era muito frequente que as pessoas que iam a puxar, caíssem mesmo de cansaço e então o cilindro passava por cima. Então os celonialistas diziam: «vão deitar forp esse cão». Para além daquilo que vi, o meu pai contou-me que eles carregavam os colonos desde o Xai-Xai até Manjacaze nas costas. «Eram senhores que ficavam ,ias machilas a ler o jornal mas transportados por pessoas que praticamente serviam de carros, quer dizer: nós os moçambicanos éramos carros deles.» O velho Mandlate é atravessado por um suspiro. Era a memõ ria memória 'adulta, despertada subitamente para a vida... Rodrigues Bíla :~c Não é a primeira vez que nesta cidade de Maputo presenciamos cenas semelhantes. Elas poderão surpreender quem pela primeira vez visite a capital do Pais, mas também poderão servir de exemplo, também poderão servir para se compreender melhor a importância da vigilância. Há dias, não muitos, .um grupo de rapazes perseguia um outro, pouco mais velho do que eles. Era uma correria, acompanhada de gri tos de «agarra, agarra», até que o fugitivo foi mesmo apanhado pelo, perseguidores. Apanhado e bem seguro pela camisola, nas costas, ao mesmo tempo que era mantido num círculo. Quando conlsegui chegar junto do grupo (eu, como outros curiosos que na altura passavam pela rua), já um elemento das Forças Populares procurava saber o que se tinha passado. Reparei, então, numa caixa de cartão com um amplificador e um gira-discos, ao lado de um saco de plástico com duas colunas. Não iRO havia dúvida, que tinham sido estes objectos o motivo da persegui. ção movida àquele rapaz que tremia e suava, enquanto procurava encontrar palavras que convences sem os seus perseguidores a largarem-lhe a camisola e a abrirem o cerco què lhe tinham feito. Mas, ninguém foi convencido de que aqueles artigos não tinham sido roubados, por ai, algures, de uma casa onde o larápio se tinha conseguido introduzir. à medida que conseguia avançar um pouco em direcção ao centre do círculo, fuime apercebendo do que diziamos autores da cena. Pretendiam-os perseguidores saber donde vinham os objectos, no que eram apoiados pelo elemento das Forças Populares, enquanto o ladrão dizia que aquilo não era dele. A discussão durou poucos minutos. Todos compreenderam que o caso não podia ser resolvido ali e que era preciso ir ao posto policial mais próximo, Procuraram então convencer o «dono» da aparelhagem a carregá-la. Este, começou por recusar, dizendo que aquilo não era dele. «Como não é seu-interrogou um coro de vozes - -se ali atrás você trazia a caixa à cabeça?. «Carregue lá a caixa e vamos embora» - decidiu o elemento das F.P.L.M. Nova recusa, acompanhada pelo aviso dos presentes de que «ele vai deixar cair a caixa e partir tudo. Mas não. O renitente convenceu-se e lá foi caminhando, caixa à cabeça, saco na mão, acom panhado pelos seus captores, em direcção ao posto policial, onde o assunto iria ser resolvido. Não é a primeira vez - repito - que quando alguém tenta apoderar-se de bens alheios e é detectado, logo se põe em fuga, logo desata em correria, perseguido por aqueles que o apanharam em flagrante d e l i t o. Raramente, penso, os perseguidores são os do noa dos objectos roubados. E daí, a importância, o significado, que atribuo ao facto: é que não se persegue o ladrão simplesmente porque ele estava a roubar o que «é meu», mas porque estava a roubar o casaco, a pasta ou o rádio que estava dentro de uma viatura, ou a própria viatura; porque estav. a roubar um par de calças em qualquer Loja do Povo. Persegue-se, porque estava a roubar e todos sabemos que é preciso acabar com o roubo. Não se defende apenas a propriedade pessoal mas sobretudo uma ordem social em que'não há lugar para gatunos e ladrões. Outro aspecto, que também já presenciei, é o de uma vez apanhado o gatuno, os seus captcres o irem entregar ao posto policial mais próximo ou de o entregarem à guarda de qualquer elemento das forças de Defesa e Segurança que encontrem pelo caminho. E é correcto que assim seja. Para além de revelar a elevação da consciência política, significa confiança nas estruturas encarregadas de resolverem estes assuntos, significa confiança nos elementos do povo fardados. Luís David TEMPO "N.o 450 - pág. 25 o VELHO E OS BARCOS «Uma cooperativa é a minho maior ambição» TEMPO "Is 450'- pág. 26 O velho JOAQUIM BEN OCUANE, de 70 anos, construtor de barcos que mora no bairro de Xipamanine, conta-nos a sua longa vida no trabalho que exerce há quarenta e oito anos. Não é fácil fazer barcos. É um trabalho que exige muito sacrifício desde o seu esqueleto até à armação de madeira. Antigamente era muito difícil construir barcos porque não havia facilidades de comprar o material adequado; por isso era necessário cortar troncos e talhar a madeira. Uma verdadeira arte que exige prática. O velho Joaquim, começou o seu trabalho em Inhambane. Teve um mestre chamado Martins dos Santos que nos princípios duvidava que ele fosse capaz de desempenhar este trabalho porque era pesado. Após alguns meses já conseguia fazer alguma coisa sem ter que pedir explicações ao mestre. A preocupação era melhorar e adquirir conhecimentos técnicos. Mais tarde veio a Maputo. «Trabalhei na construção de barcos na Polana. Como o vencimento não chegava para me sustentar fui obrigado a abandonar este emprego» diz-nos o velho Joaquim. Ao longo dos anos trabalhou em várias empresas de construção civil. Como já tinha certos conhecimentos trabalhou como carpinteiro e pedreiro. Em 1953 o velho Joaquim, como não consegue suportar o duro trabalho sem rendimento, foge para a Africa do Sul onde arranja serviço de estofador de autocarros. Como este trabalho não era valorizado na empresa em que trabalhava, passa então para uma fábrica de construção de barcos onde recebe uma ninharia. Como último recurso o velho regressa ao seu País. Em colaboração e ajuda dos familiares, começou a montar a sua oficina de construção de barcos no Xipamanine. Diz aquele idoso operário: «instalei-me no Xipamanine porque é uma zona que as pessoas visitam; este bairro é popular por causa do mercado, das lojas e da terminal de autocarros. A ideia de se dedicar à construção de barcos nasceu-lhe do drama das cheias anuais dos rios. Achou que teria mercado se vendesse barcos nessas épocas. Talvez uma ideia muito friamente comercial mas pô-la em prática. A pesca foi também uma actividade a que as pessoas se dedicavam e se dedicam com auxílio de barcos, para além de facilitar o trabalho como meio de transporte em certas zonas. O preço dos barcos fabricados pelo velho Ocuane varia de 15 a Três barcos prontospum em acabamento. No fundo a oficina Joaquim Ocuane: Quarenta e oito anos na construção de barcos 22 contos. Estes podem levar motores, e servem tanto para o mar como para o rio. Algumas pessoas encomendam com as medidas que desejam, e mais tarde não levantam os barcos. São problemas que causam prejuízos. A madeira para construção é umbíla e jambirre. Compra-a em troncos nas serrações e custam de 12 a 18 contos cada, com sete a dez metros de comprimento, embora às vezes tenham nós e gretas que não permitem a sua utilização total. Além de barcos, o velho faz mobílias. As suas instalações estão ao ar livre. Toda a gente que passa aprecia o seu trabalho. Tem nove ajudantes que estão ainda na aprendizagem: «Futuramente diz-nos, serão também mestres em construção de barcos. Isso garanto desde que haja vontade de aprender. Uma cooperativa com boas ins- ., talações e formar. quadros é a minha ambição neste momento. Já pensámos este caso com alguns companheiros da construção civil. Sinto-me novo para realizar este trabalho!» -Quanto às relações de trabalho o Joaquim diz: «DamO-nos bem porque somos pobres. É necessário para ganharmos o nosso pão.» Texto de Haroon Patel Fotos de Danilo Guimarães TEMPO N.o 450 - pág, 27 COZINHA ., MOÇAMBICANA UMA Dona Celeste QUESTAO CULI não tem pfroblemas com comida Já os últimos raios solares minquavam no horizonte, naquela tarde de quinta-feira. Sentada à sombra projectada pela sua pequena cabana de caniço, quarto e sala, aquela mulher, de semblante atento, retirava pacientemente alguns grãos escuros que se misturaram no teijão «nhemba» contido na peneira a seu lado. Estava preparando o jantar do dia. T -Que prato é esse que está a preparar, Dona...? C.M.0-lh a, depois de eu retirar estes grãos escuros, e outros que tenham bichos, vou cozer o feijão em água para depois moê-lo na gamela. E assim começou a conversa que tivemos com uma mulher« de nome Celestç Mwanuel, moradora num bairro de caniço de Maputo. Está a ver esse camarão fresco que está aqui nesta p.aneIa? Diz ela a dado p asso com ar inquiritivo. Prossegue: Comprei agora mesmo, num pescador ambulante que sempre passa aqui, e, como não gosto de coisas com óleos, vou guisar em água com cebola. Depois, vou misturar com o leijão moído para fazer caril. Isto é «Daly»! T -E que tal é? C.M. - Oiça: Se eu lhe sirvo um prato de «Daly», você até é capaz de querer repetir... Muitos dizem que este feijão, como é do ano passado, já não se pode cozer. E num gesto humorístico, Dona Celeste pisca-nos um olho e leva dois dedos ã ponta da orelha, acrescentando: «Mas coze-se tão bem... » «DESCOLONIZAR» A S PAPILAS GOSTATIVAS Sempre que se fala de cozinha moçambicana vem-nos a imagem de um prato cheio de matapa. É uma concepção que nos foi inculcada por um certo folclorismo. Vem-me à ideia a lembrança de um episódio passado num restaurante do Maputo que alguém nos contou: fa mesa, estavam dois amigos a observar a ementa do dia quando um deles optou por um prato de «Bupsa» acompanhado por um caril também moçambicano. É então que'se levanta a voz do outro amigo para dizer: «Você... Você cresceu comendo «Bupsa» e quando vem ao restaurante também quer comer isso?» TEMPO N.- 450 - pág. 28 Os ha.bitos alimentares sáo reflexo da nossa cultura. Nas zonas urbanas, onde a colonizaqío, em todos os aspectos, mais se acentuou, nota-se, como o episódio de h. pouco demonstra, uma persistente aliena-, (- o de hábitos alimentares. O gosto desenfreado por tudo que é ocidental. A cozinha moVambicana que durante muito tempo foi votada ao esquecimento nos grandes restaurantes tende agora a firmar a sua pre" re estaurn eseaesena em vhrios estabelecimentos hoteleiros do país. OS SUCESSOS DO 7 «MATCHEDJE» «Matchejde» é nome do local onde se realizou 9 11 Congresso da FIrelimo. Mas também é nome dum restaurante em Maputo. Está sob orientagáo do Partido Frelimo. Conforme nos disse Luciano Manhiga responsável daquele restaurante, desde a sua fundajào, a 27 de Janeiro de 1977, «Matchejde» dedicou-se sempre à divulgaqáo de pratos mo2 " ambicanos e sáo eles TEMPO N., 450 - pàg. 29 que figuram em maior parte nas ementas diárias daquele restaurante. (Por vezes, 14 a 20 pratos nacionais). Se considerarmos as várias obras que actualmente estão a ser realizadas no sentido de ampliar e melhorar as instalações daquele estabelecimento hoteleiro, cujas despesas rondam à volta de três mil contos, e que serão sustentadas pela receita do próprio restaurante, é notável a rentabilidade 'dos serviços ali levados a cabo. Matchedje tem os seus canais de abastecimento garantidos, por cooperativas de produção agrícola e pecuária. Por isso não tem problemas com os condimentos necessários para a confecção de uma variedade de pratos moçambicanos. «Mas acontece q u e nós chamamos comida moçambicana, mas não é bem isso porque é só comida da zona, sul que nós fazemos aqui esclareceu-nos o mesmo elemento, que para justificar este facto, fez referência à falta de troca de experiências com trabalhadores do ramo da indústria hoteleira de outras províncias. Mas, a experiência do «Matchedje» é a que deveria servir de exemplo para os milhares de restaurantes e estabelecimentos similares q u e abundam nos grandes e pequenos aglomerados populacionais do país. SÓ MULHERES É QUE PODEM COZINHAR? A cozinha moçambicana faz parte da cultura do Povo r:oçambicano. Ela desenvolveu-se também durante as diversas fases da nossa sociedade. Podemos citar o exem plo da acentuada influência árabe que caracteriza os cozinhados de extensas zonas da costa moçambicana, onde os árabes se fixaram antes do século XIV. Ete contacto determinou algumas transformações no modo de vida de várias camadas sociais que habitavam o território que hoje é Moçambique. Essa influência vai-se desvanecendo conforme penetramos no interior. Ai surgem outros hábitos alimentares, Mas então, porque será este «pôr-de-lado» a que parecem estar votados os costumes alimentares do Povo moçambicano em grande, parte dos nossos restaurantes? Vimos anteriormente que a aculturação que nos foi inculcada pelo colonialismo é uma das causas que originaram este facto. Outro, que surge precisamente na sequência dessa alienação, é o facto de em quase todos os restaurantes serem indivíduos de sexo masculino quem trabalham na cozinha. A «formação» culinária dos homens re-duz-se, na generalidade, à sua experiência transitória como empregados domésticos de colonos. São as mulheres, lá em casa, que fazem as comidas moçambicanas. A mulher neste caso é guardiã de uma rica cultura. Para o trabalho de divulgação do nosso rico manancial alimentar para que esse trabalho transcenda as barreiras que lhe foram impostas, é importante a contri«É só saber sjeitar.,.» Celeste Manuel Atmoço no «Matchedje. A1U na ementa diária chegam a Iigurar 14 a 20 pratos moçambicanos TEMPO N.o 450 - pág. 30 Aútónio Muwai é cozinheiro de longa data: <Trabalhei como cozinheiro nos «quintais» (empregado doméstico), no Hotel Universo, na pensão «Guadiana», no «Atstória», e agora aqui no «Atelier», mas nada sei de cozinha moçambicana COZINHA MOÇAMBICANA UMA QUESTÃO CULTURAL Peneirando milho pilado que servird para cozinhar «Upsua», TEMPO W 5a0 pág. 31 ALGUMAS DAS NOSSAS REALIDADES ALIMENTARES No âmbito da divulgação e valorização do nosso rico manancial em variedades alimoentares, o CIT (Centro de Informação e Turismo) divulgou no ano de 1975 o primeiro manual intitulado «COZINHA MOÇAMBICANA», o qual foi elaborado através de contribuições populares. Esse manual foi posto à venda em várias livraias. Tem por objectivo educar os trabalhadores de todos os estabelecimentos hote1975-ANO DA INDEPENDÈNCIA lelros e similares a incluirem pratos, fruFUNDO DE TURISMO LOURECO MARnUES tas ou bebidas moçambicanas nas suas ementas. TFMPO N., 450 -- pg. 32 COZINHA MOÇAMBICANA UMA QUESTÃO CULTURAL buição da mulher moçambicana. A experiência colhida pelo restaurante «Matchedje» é, neste campo, digna de menção: «Eu sou membro da OMM no meu bairro.»É Maria Celeste Maguengue, uma das cozinheiras do «Matchedje», quem assim nos fala. «Quando foi da realização do IIl Congresso, logo abriu este restaurante e nós viemos trabalhar para aqui, a fazer comida moçambicana. Alguns homens que aqui trabalham connosco, que nada sabiam de cozinha moçambicana, e que entretanto sabem fazer pratos de lora, já aprenderam a lazer comida moçambicana. » «É SÓ SABER AJEITAR...» Voltamos para o diálogo que mantivemos com a dona Celeste Manuel, quando, em sua casa, a encontrámos preparando o jantar do dia: «Eu já me habituei a que sempre que há uma coisa, não há outra,» Diz-nos ela fazendo referência aos problemas de abastecimento em géneros de primeira necessidade que por várias vezes se verificam. T -Dona Celeste, como encara a actual situação d o s abastecimentos na cidade de Maputo? C.M.- Eu já lhe disse que estou habituada a estas coisas de haver isto e faltar aquilo. Dona Celeste vira-se para o lado onde, em pé, a sua filha, ia acompanhando o diálogo que mantínhamos com a mãe e manda-lhe buscar alguma coisa que a princípio não entendemos bem o que seria. Enquanto isso, ora debruçando-se sob a peneira que continha feijão nhemba, ora gesticulando como que para dar mais força às suas palavras, dona Celeste continua a falarnos: «Eu, mesmo nos dias em que não consigo arranjar pão, pego na mandioca, ou na, batata-doce, faço chá e tomo com as minhas filhas.» Da pequena abertura que serve de entrada da barraca onde vivem dona Celete e família, sai a filha com um pacote branco nas mãos: «Estes pacotes estão à venda aí em todas as cantinas! Tomara que to da a gente soubesse que coisa é que está escondida aí dentro... Estes pacotes contêm mandioca seca moída (xiguema, designação que se Uze dá numa das línguas Iccais). Isto tanto serve de «arroz», ou de «bupsua». Há quem quando não arranja carne, batata, , sei lá que mais, fica sem saber o que há-de fazer para comer nesse dig. Não morro de fome, não. É só saber ajeitar Nesse mesmo momento, uma motorizada inrompe pelo quintal da casa da dona Celeste. Alguém nos esclarece que é Manuel, irmão mais novo da dona da pasa, que a vem visitar. Manuel só deu as «boas-taraes», q u a n d o uma meia dúzia de colheradas de caril feito com feijão nhemba, acompanhado de arroz, já lhe tinha passado para o fundo da, boca! Texto de Bartomeu Tomé Fotos de Kok Nam TEMPO N.o 450 - pág, 33 SAUDE: REABI LITAÇÃO Entre as doenças existentes em Moçambique, a lepra é luma das mais preocupantes pois afecta ainda uma parte de população e o seu tratamento completo leva muito tempo. Para agravar esta facto, existem também ideias erradas acerca da origem e transmissão da doença. Que fazer para eliminar os tabus sociais? Qual a estratégia correcte de combate e controlo da doença no país? A lepra é uma doença antiga. De acordo com a História já na Idade Média, na Europa, os doentes eram então tratados pela sociedade coii desprézo ou paternalismo. O tratamento dos leprosos quase sempre estava a cargo de religiosos e os doentes viviam em locais isolados, privados do convívio social e familiar. Uma situação degradante porque, durante muito tempo, dizia-se que a lepra era altamente contagiosa e de difícil tratamento; ou era um castigo, ou os' doentes eram diferentes das outras pessoas. Enfim, que era uma doença hereditária.4. Com o avanço da ciência constatou-se que isso não corresponde à realidade' A lepra é uma doença provocada por um mi c r ó b i o e não uma maldição ou suposto espírito mau. Leva muito tempo a desenvolver-se e a desaparecer mas pode ser curada por meio de comprimidos. Quanto à transmissão da doença, as possibilidades são limitadas. Existem três tipos principais de lepra e ape nas uma, a lepra lepromatose, é trarsmissíel. Aparece somente em 10 por cento dos doentes. Mesmo este tipo -'segundo os médicos deixa de ser contagioso passados meses, quando correctamente tra. tado. A LÈPRA EM MOÇAMBIQUE Em Moçambique existe um gran de número de leprosos (65 mil em 1976). A maior parte dos casos verifica-se nas províncias da Zambézia, Nampula e Cabo Delgado. O regime colonial praticou tambéit a segregação dos doentes de lepra, encerrando.os em hospitais, gafarias e leprosarias. Quando tivessem alta, e para que não andassem a mendigar nas ruas das cidades, a «assistência social> construía albergues para os doentes, onde viviam à custa de subsídios e esmolas. Nesta- acção destacavam-se as instituições de caridade e religiosas. Desde modo habituavam-se as pessoas ao parasitismo. Além da prática sanitária retrógrada do colonialismo português em Moçambique, subsistem ideias erradas no seio da população que contribuíam para que a TEMPO N.o 450- pág. 34 SOCIAL E PROFISSIONAL DO LEPROSO própria família marginalizasse o doente de lepra. A POLITICA SANITARIA DA RPM Com base nos princípios políticos que orientam a República Popular de Moçambique e apoiando-se nos progressos feitos pela Ciência, o Ministério da Saúde definiu, em 1977, uma nova estratégia para o combate e controlo da lepra .que teve por objectivo fundamental - transformar os esquemas de tratamento até então existentes e dar um carácter preventivo ao combate como o define um responsável. A definição da política de Cuidados de Saúde Primários permitiu enquadrar devidamente eo problema. Tal estratégia teve em vista ós seguintes aspectos: profilaxia, tra tarmento, destino a dar aos doentes de lepra actualmente existentes ou que venham a afluir futurar.ente às unidades sanitárias; aproveitamento das actuais leprosarias; recuperação física e social; apoio social durante o tratamento; doentes de lepra como marginais nos centros urbanos., Constatou-se que não são necessárias instalações especiais para o acolhimento dos, doentes de lepra. Elas são até perniciosas para a sua reabilitação social. Enquanto que no tempo colonial havia um hospital especial para leprqsos, definiu-se que os Centros de Saúde passariam a controlar o tratamehto regular dos doentes - tratamento diário - numa fase; bissemanal, noutra. O controlo desse tratamento é feito com o apoio do Partido e das organizações democráticas de massas. Mas, tal como noutros casos de doenças frequentes como a tuberculose e as chamadas parasitoses vesiculares (bilharziose) ou intestinais (ancilostomia), a solução reside fundamentalmente na melhoria do saneamento do meio, melhoria das condições dos locais ondi vive a população (construção de latrinas, abastecimento correcte de água, depósito correcto de lixo), além da melhoria dosi hábitos gerais de higiene. PAPEL DA EDUCAÇÃO SANITARIA Com base nesta estratégia cabe à educação sanitária um papel' fundamental para a reintegração: familiar e social dos doentes de lepra. Apenas um número míninúo de casos, em condições especificas, é internado, devendo os restantes doentes permanecer junto da família. A melhor forma de evitar, qualquer espécie de contágio nos casos em que a lepra é transmissível - é praticar a higiene corporal, da casa e do meio; ter um cuidado especial com as roupas e utensílios do doente de lep .ra. Quer dizer, os doentes fazem> tratamento em regime ambulatória, inseridos na comunidade. Esta política sanitária é uma conquista revolucionária. Não se co-; nhecem, em África, experiências semelhantes, pois segundo diz o director nacional de medicina preventiva, dr. Inussi, em muitos paises continua a recorrerse aos chaTEMPO N.o 450 - pág. 35 T (1114 o aparelhos de rådio mados serviýos verticais: hospi '4ý tals s6 para dQentes de lepra, com r pessoal tambéin especializado para 7W d' _<as da lepra, etc. Äý UM PROCESSO LONGO Contudo a realizagäo pråtica desta estratégia é um processo. Ainda existem alguns doentes per inanecendo desnecessariamente em R7:1 Å , regime de internamento, enquanto se criam condi,öes para a sua efee tivc reintegraigäo na comunidade, quer regressando parajunto da familia ou aldeia de örigem, quer indn para uma instituieåo para dimiruldos fisicos caso seja necessårio ou fazendo um trabalho produtivo de maneira a ýenquadrar-se na sociedade. Nä mWor parte das vezes, o doeftte de lepra näo necessita de ficar internado. Faz tratamento ambu4 'T latörio permarecendo integrado itu contunidade IPO N.ý 450 -påg. 36 Um exemplo concreto de como nãc tem sido fácil este processo é nos contado pelo' dr. Igrejas Cmpos, director do Hospital Geral de Mavalane (antigo Hospital Dermatológico Firmino Santana). Est(. estabelecimento, construído então «fora da cidade» era exclusivamente dedicado ao tratamento dos doentes de lepra, vindos principalmente das províncias de Inhambane, Gaza e Maputo. Quando se transformou este hos pita] - diz-nos - não havia lepro %os aqui, mas sim diminuídos físicos. Muitos não havia necessidade de cá ficarem. Uns regressaram às províncias de origem ou foram para instituições de diminuídos fisicos ou para centros de apoio à velhice. Mas apesar das medidas tomadas no sentido de os centros de saúde da sua área de residência efectuarem o controlo do seu tratamento, muitos continuam a afluir a este lugar, porque aqui era o hospital dos leprosos.... Portanto a nossa maior dificuldade é a educação sanitária dos doentes. Mas em certas zonas do país, os doentes com alta, uma vez mobilizados começam a participar na edificação'da nova sociedade. A princípio formam aldeias somente de leprosos, mas pouco a pouco, com o esclarecimento das populações que vivem à sua volta, inicia-se a integração. Aliás nas zonas rurais este processo de reabilita. ção social vai avançar efectivamente com o desenvolvimento das aldeias comunais. Em M'condedzi, na província de Tete, os aldeões - a maior par te dos quais doentes com alta são hoje praticamente auto-suficientes, possuem 50 hectares de produção e é onde a experiência está mais avançada. - Diz-nos o dr. Inussi. «Éramos desprezados mesmo pela população do bairro por causa da nossa doença. Não- podíamos ir à loja nem às reuniões, pois dizia-se que podíamos contaminar as pes soas...» - Raimundo Salomão MondIane (primeiro à es. querda) no Hulene Aproveitando a iniciativa dos doentes com alta que viv no bairro do Hulene é possível incentivar a criação cooperativas de produção, por exemplo para a confecc de cestaria de palha TEMPO N., 450 - pág. 37 Na capital do país, existe o bairro do Hulene, na chamada cidade do caniço. AI eram atirados tradicionalmente os leprosos depois de terem alta do hospital «Firmino Santana», ali próximo. A maior parte vivia de esmolas, farinha de milho e duzentos escudos mensais dados pela assistência. Diz o dr. Igrejas Campos: As instituições de caridade decidiram arranjar aquele lugar para que os leprosos não incomodassem. Para que os doentes de lepra com alta não fossem à cidade mostrar as suas mazelas - o que indispunha a sociedade burguesa colonial. Assim construíam essas casas, davam-lhes comida. O leproso que tinha alta e muitas vezes podia voltar a produzir, ficava ali reduzido a mendigo: A caridade cristã estava associada a uma política de segregação da sociedade. Era uma espécie de troca. ,Nós damos-vos esmola, mas Vocês deixam de nos ir incomodar lá na Baixa.. .. A TRANSFORMAÇÃO NECESSÁRIA Hoje, náo é fácial transformar a situação ali no bairro. Elementos da população com as ideias erradas de que falámos, não aceitaram de bom grado a presença los leprosos. Raimundo Salomão Mondlane, uni dos doentes com alta no Hulene, conta-nos com mágoa: Nós nem sequer podíamos entrar na loja juntamente com as outras pessoas. Não podiamos ir às reuniões. Apresentar o problema às estrutura do bairro? Ninguém queria saber da nossa vida! Desde que foram iniciadas reuniõeý, de esclarecimento à população do bairro, promovidas pelas estruturas de Saúde, há perspectiva de a situação melhorar. Alguns leprosos com alta trabalham como jardineiros do Conselho Executivo da Cidade, segundo fomos informados; outros fazem tareA educaçdo sanitdria tem um papel fundamental a desempenhar para o combate e controlo da lepra. Na imagem, os doentes escutam atentamente uma lição sobre h# mais elementares normas de higiene TEMPO N.- 450 -páqg 38 Um caso de lepra em que o doente jd não possuía os de dos dos pés e das mãos. No entanto não se jutilfca o isolamento do doente da sua famflia e da sociedade. Para m elhor prevenção da lepra a melhor arma é a higiene corporal, da casa e do meio, fas de apoio à população, acarretando água, por exemplo, para as famílias que não têm tempo: os leprosos têm até certa prioridade nas lojas e nas bichas, como informou um responsável do bairro, e os seus filhos já vão à escol&. Como se sabe o bairro de Hulene está a ser estruturado para servir de bairro piloto a nível de Maputo. Organizadas pelo Partido Frelimo as populações fazem esforços no sentido de resolverem por si só os problemas políticos, económicos e sociais que enfrentam No que respeita ainda aos leprosos com alta, pensa-se aproveitar a sua iniciativa de feitura de cestos e objectos vários de palha, por exemplo, para se organizarem em cooperativa de produção. Mas a sua integração total na comunidade passa por um esclarecimento político da população. Judite Mutaka e Pedro Munguambe, da Comissão de Saúde do Bairro Hulene, falaram-nos des ta tarefa: A nossa Comissão disse Judite Mutaka - criada em princípios de Janeiro do corrente ano, tem a tarefa de fazer a educação sanitária das populações. Presentemente realizamos tarefas relacionadas com o sanealnento do meio como, por exemplo, a construção colectiva de latrinas em locais de concentração pública. Numa fase próxima, está previsto um trabalho de esclarecimento político sobre as origens de certas doenças, entre as quais a lepra. Alguns médicos deverão dar palestrãs também sobre doenças parasitárias, mal1uutrição,'ý bilharziose, tuberculose pulmonar. Além das palestras, vamos promover umi trabalho político de consciencialiTação, e sensibilização das populações para uma melhor integração dos leprosos no bairro., Em todo o Í!caso, o ýapoio social e moral durante a fase de reabilitação ajudará a que ýo diminuído físico encare :com maior realismo a vida -e se desligue dos hábitos de mendicidade e de, invalidez a que era injustamente condenado. Esta é uma tarefa de todo o eidadão. TEMPO N.o 450 - pág. 39 0 ø 0~ 0 -''i 11 0 -1 ~ u i: ~ 0ø 0~ I ~ .1 i ~0 -~ 0 *0 0 4 ~\\ føv#!~ TEMPO N.o 450 - »åg. 40 Ti or-Leste: APESAR DE TUDO. A LUTA CONTINUA! eTEMPO entrevista Mari AIl*tin No passado dia 20 de Maio comemorou-se a passagem do quarto aniversário da fundação da FREIILIN, vanguarda revolucionária do povo de Timor-Leste em luta contra os invasores indonésios. Em Maputo, entrevistámos Mari Alkatiri, membro do Comité Central da FRETILIN e Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Demo. crática de Timor-Leste. TEMPO - A rendição aos invasores indonésios de um grupo de dirigentes da FRETILIN, em fins do ano passado, foi interpretada por uma certa imprensa ocidenta!, como o fim das esperanças de independência da R.D.T.L. No entanto, a luta continua. Poderá V. Ex., situar politicamente a atitude dessas deserções no contexto da evolução da luta em Timor-Leste MARI ALKATIRI - Para nós era perfeitamente natural que essas rendições se verificassem, na medida em que a FRETILIN, embora tivesse iniciado o processo procurando englobar no seu seio todos aqueles que à priori defendessem a independência, tinha objectivos muito claros a atingir: o objectivo de transformar a luta de libertação nacional numa revoíução popular. Foi dentro desse con.texto que, desde a constituição da FRETILIN até à presente data, se verificaram lutas entre linhas diIerentes no seio do movimentó. Até aqui podemos afirmar que a linha conservadora, bem como a linha representativa da resistência tradicional, foram vitoriosamente combatidas. Xavier do Amaral representava uma linha que além de conservadora era uma tendência feudal. Em 1977 deu-se finalmente uma ruptura entre o grupo de Xavier' do Amaral e a FRETILIN numa altura em que Alarico Fernandes ainda se encontrava entre as fileiras dos combatentes e, den tro das funções que ele desempenhava, teve um papel positivo no isolamento do grupo de Xavier do lAmaral. Porém, Alarico FernanI~uIYo UISTOflI~ OE MOÇAMII~ff TEMPO N.- 450 - pág. 41 h des representava uma linha não revolucíonária dentro da FRETILIN, diríamos mesmo uma linha anti-revolucionária e portanto ao ajudar ao «bandeamento» de Xavier do Amarai, Alanico Fernandes esperava alçar-se a posições chave dentro da FRETILIN, pelo menos até Vice-Presidente. Isso não sucedeu e quando se reuniu o Comité Central'e se elegeram os novos diri gentes, Alarico Fernandes sentiu-se frustrado. Nessa altura Outubro de 1977 - Alarico Fernandes preparava já a sua acção antirevolucionária para desencadear mesmo um golpe interno dentro da FRETIIN. Apelidava os camara. das verdadeiramente revolucionários.de «comunistas» e com isto pretendia obter um leque, o mais lato possível, de apoio a nível nar cional para se poder lançar contra os camaradas dirigentes e patriotas. Portanto, nós baseamo-nos no princípio de que o processo revolucionário, ao mesmo tempo que forja novos dirigentes, ao mesmo tempo que forja uma direcção mais coesa, repele do seu seio, os elementos que são os parasitas, os restos mortais do colonialismo. Seria muito mais preocupante para nós, em termos políticos, se isso não sucedesse. A nossa luta é sobretudo política e a nossa vitória terá por isso de ser essencialmente politica. Nós nunca ambicionámos uma simples vitória militar básica sobre o inimigo. O que queremos alcançar é uma vitória política. Assim, a nossa interpretação relativamente às deserções referidas, é que tem havido no seio da FRETlIAII grandes saltos qualitativos em termos políticos; tem vindo a dar-se uma maior clarificação da linha política e ideológica o que assegura a continuação da luta bem como uma apxoximação cada vez maior da vitória final. T - A morte em combate do Presidente da FRETILIN, Nicolau Lobato, i: passado dia 31 de Dezembro, constituiu uma dura perda para a luta do povo maubere. A quem confiou a FRETILIN as responsabilidades de direcção política e militar da luta? M.A. - Na verdade a sua morte foi uma dura perda mas foi simultaneamente um estímulo para os Mari Alkatiri, Ministro, dos Negócios Estrangeiros de Timor.Leste nossos combatentes pois o camarada Presidente Nicolau Lobato deixou-nos a todos nós uma lição: o facto de depois. da sua morte, nós termos sido capazes de continuar a luta provou que ele soube cumprir a sua missão. Se o Presidente Nicolau Lobato tivesse feito com que a luta dependesse totalmente da sua pessoa, ele teria falhado. Ele soube ir mais longe: com a sua determinação inabalável, com a sua grande lucidez, ele conseguiu, juntamente com todos os camaradas dirigentes, forjar uma direcção colectiva constituída por um comité permanente de seis elementos. Após a morte do Presidente, e de acordo com os estatutos ýda FRETILIN, o poder foi assumido por um Conselho Presidencial orientado pelo Vice-Presidente. Cumprindo a palavra de ordem desse órgão do Governo, os nossos combatentes lançaram gran des ofensivas tácticas para provar aos nossos inimigos- que não seria ceifando a vida do nosso Presidente que eles iriam obter a vitória. Mostrámos-lhes que o exemplo do Presidente iria ser seguido por todos nós. T -- Após quatro anos de luta contra os invasores indonésios, qual a situação política e militar em Timor-Leste? M.A. - Neste momento, e devido à série de traições de que te- mos sido vítimas, há certos sectores, sobretudo" no Centro-Norte (que foi até 1977 chefiado por Xavier do Amaral) em que a corre, laçäo de forças é mais favorável ao inimigo. Também Alarico Fernandes e os quatro elementos que traram em 1978, se encontravam neste sector Centro-Norte. Tudo isto resultou numa mudança de táctica da nossa parte: entraram em acção as forças especiais de gueírilha que actuam em pequenos grupos de 5 elementos. Estes grupos, que têm vindo a infiltrar-se nas zonas controladas pelo inimigo particularmente em Dli e Bau cau as duas principais cidades, têm vindo a desencadear nos últimos meses, desde Janeiro e Fevereiro até agora, grandes operações de sabotagem em território inimigo e nós temos conhecimento que até este momento se vive em Dili ýnum ambiente muito tenso e que as autoridades indonésias decretaram um recolher obrigatório por um período que vai das 17 horas às 6 da manhã. Houve, por isso, uma certa mudança 'de táctica da nossa parte no que diz respeito ao aspecto militar e isto em primeiro lugar porque há que obrigar o inimigo a preocupar-se com a defesa das suas bases. Isso permitirá que nas zonas libertadas se faça uma rectificação geral das nossas fileiras e consequentemente a reorganização de todas as nossas forças. Em segundo lugar, porque há que mobilizar, nas zonas controladas pelo inimigo, toda a população lá residente, operação que tem dado bons resultados. Em terceiro lugar, para' que o inimigo não avance muito para as zonas libertadas mas sim que se mantenha nas zonas já por ele ocupadas de modo a agudizar cada vez mais as contradições existentes no seu seio. Deste modo, não podemos, de modo algum, afirmar que a situação militar é boa. Ela é realmente difícil pois o inimigo tem utilizado, com abundân cia, os bombardeamentos por meio de bombas químicas e biológicas, com gazes tóxicos e outros meios que, entre outras coisas, destroem por exemplo, as culturas. T - Nas dificeis condições existentes em Timor-Leste, a vitória EMPO N.o 450 - pág, 42 político-militar está estreitamente ligada ao combate pela produção nas zonas sob o controlo das forças populares. Como se está a desenvolver esse processo em Timor. -Leste? M.A. - Como já disse acima, o inimigo tem desencadeado, nos últimos meses, uma grande campanha de destruição das culturas por meio de bombardeamentos aéreos. No entanto, desde o início da guerra que verificámos que esses bombardeamentos atingiam muito mais frequentemente as culturas das zonas planas pelo que começámos desde logo a definir tais culturas como não estratégicas, conscientes como estávamos da sua vulnerabilidade. A s s i m, definimos como estratégicas as culturas das montanhas e as culturas do niato que foram desenvolvidas activamente desde o principio da guerra. Nesses locais, podem cultivar-se, para além de tubérculos, milho, algumas qualidades de arroz e outros vegetais. Com base nessas culturas temos conseguido manter reservas razoáveis para alimentar a guerra. T - A invasão da R.D.T.L. insere-se no vasto. plano do expansionismo indonésio. Poderia V. Ex. sitar si. Inta. do nnva mnhl- bere no quadro das resistências a esse subnmperiatismo- ? M.A. - Não há dúvida nenhuma de que o expansionismo indonésio é um facto. Em 1969, não devemos esquercer-nos, procedeu-se à anexação do Irião Ocidental até hoje a resistência neste país tem-se mantido activa. Os patriotas iria. neses continuam a resistir à administração de Jakarta. E, no próprio seio da Indonésia, encontrámos também vários focos de resistência: nas Molucas do Sul, por exemplo, existe uma resistência que data de há dezenas de anos e que embora-não armada se manifesta periodicamente. Na Sumatra há, neste momento, uma resistência armada e até em Timor Ocidental embora não haja uma resistência armada manifesta-se uma evidente aversão à presença javanesa. Mas, no caso de Timor-Leste, não foi apenas devido ao expansionismo indonésio que se deu a invasão do nosso território, mas também porque isso coincidiu com uma estratégia global imperialista, porque coincidiu com os desejos do imperialismo norte-americano. Para que se realizasse a invasão, Suharto teve a luz verde de Geraid 1'nrti s> Tpnrv Kiqeinsypr- Nýýn Da esquerda para a direita: Mari Alkatiri; Rosa Bonaparte, dirigente da Organização Popular das Mulheres de Timor-Leste, fuzilada pelos indonésios em Dezembro de 1975, em Dili; Presidente Nicolau Lobato, morto em combate em Dezembro de 1978 nos restam dúvidas sobre o facto. E porque é que se deu tal invasão? Qual a importância estratégica de Timor-Leste'? O es .to de Ombai-Wetar, que passa em frente da nossa capital, Dili, faz a ligaçao mais rápida entre as bases indonésias do Pacífico ao Indico e vice-versa. Em segundo lugar, temos a gradual perda de controlo por parte do imperialismo americano do Mar do Sul da China. Em terceiro lugar, temos a própria situação de Timor-Leste no contexto geopolítico: a Indonésia representa para o imperialismo -americano um bastião seguro, um tampão para o avanço das forças revolucionárias. E Timor-Leste fica situado quase que no coração das ilhas que constituem, hoje em dia, a Indonésia. Além disso, Timor-Leste fica situado a 600 quilómetros da Austrália que é outro bastião do imperialismo americano. E é isto que constitui a importância de TimorLeste sob o ponto de vista estratégico e militar, mas há ainda as razões económicas. Timor-Leste é bastante rico em petróleo embora ainda não explorado. Sabe-se que tem urânio, cobre e gás natural em quantidades imensas. Tudo isto são razões mais do que suficientes para que o expansionismo indonésio encontrasse força e apoio no imperialismo americano. k'oi com o apoio desta força, que a Indonésia em 1976, quando se encontrava à beira do colapso militar, recebeu o auxilio técnico - pilotos americanos e material para a ajudar na guerra contra a FRETILIN. Se o expansionismo é indubitavelmente um perigo para aquela área, é-o sobretudo porque tem o apoio dos americanos. T - Poderia V. Ex. fazer o ponto da situação sob o ponto de vista diplomático? M.A. - Sim, a situação interna não pode deixar de se reflectir no campo diplomático. Nesse campo podemos dizer que temos conseguido, apesar de tudo, algumas vitórias importantes ao nível da O.N.U., do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral, a nível do Movimento dos Não-Alinhados Bureau de Coordenação e Conse- TEMPO N.O 450- pãg. 43 lho de Ministros dos Não-Alinhados - e na própria Cimeira dos Chefes de Estado, a nível de outras organizações internacionais como a OSPAA e o Conselho Murdial da Paz, entre outros. Mas, este ano, sabemos que vamos ter algumas dificuldades no campo diplomático: a falta de comunicaçoes regulares com o interior conjugada com toda uma convulsão internacional e o aparecimento de outros problemas que atraiem mais a opinião pública, vão criar-nos muitas dificuldades. Por exemplo, neste momento estamos a fazer um esforço para chegar junto da opinião pública dos países ocidentais - não dos seus governos tentando estabelecer relações de amizade com todas as forças democráticas e progressistas no sentido de encontrarmos destacamentos de apoio. .] dentro desse conr ULTIMA HORA já esta entrevista estava composta quando recebemos a. informaÇ0 de que fontes ligadas à agência noticiosa de Timor-Leste, informaram de Djaikarta, capital da Indonésia, que o chefe do regime militar fascista indonésio, general Suharto, designou Xavier do Amaral para o cargo de «-Vice-Governador» em TimorLeste. As mesmas fontes indicam que o referido traidor tomará posse ainda este mês, Recorde-se que Xavier do Amaral foi presidente da Fretilin tendo traído a causa do povo maubere entregando-se aos indonésios. De Dili fontes não ligadas nem à FRETILIN nem ao regime, informaram que Alarico Fernandes, outro traidor da Fretilin, e alguns dos seus comparsas, nomeadamente Afonso Redentor e Cornélio Exposto foram mortos nos arredores de Dili. Especulam-se várias versões sobre as causas destas mortes tendo sido levantada a hipótese de suicídio ou de terem sido mortos pelos indonésios. Contudo, parece confirmar-se uma terceira versão dizendo que os mesmos teriam sido executados pelas forças especiais da FRETILIN, em Março último. Contactada a representação permanente da Fretilin no nosso país, sobre os assuntos em questão, um dos responsáveis afirmou nada mais poder adiantar em relação à morte de Alarico Fernandes. É de notar, contudo, que logo após as mortes dos referidos traidores, Xa. vier do Amaral foi transferido de Dili para Bali, na Indonésia, onde ainda se encontra. TV' 0 N.- 4 texto que, no próximo dia 20 de. Maio, se irá realizar em Lisboa :o Seminário Internacional de Apoio à Luta do Povo de T'=or-Leste sob a liderança do partido. Este seminário é, apenas, o primeiro duma série de muitas outras conferên., cias mais amplas a serem realizadas daqui para o futuro. Mas nós definimos como máxima prioridade, a Cimeira do Movimento dos Não-Alinhados que se irá realizar em Havana no próximo mês de Setembro. Temos feito grandes esforços no sentido de podermos estar presentes nesta cimeira e partimos do princípio que o facto de esta Cimeira se realizar em Cuba já é, para nós, um factor muito positivo e que garantirá a nossa presença. No ano passado não tivemos autorização do Governo de Sri Lanka para estarmos presentes na 5.a Cimeira, mas a próxima visita a Cuba foi-nos assegurada aquando duma ida de uma delegação nossa àquele país no ano passado. Mas sabemos também que esta Cimeira irá discutir problemas de grande importância, como o problema da Indochina, o do Médio Oriente com o chamado Tratado de «Paz» Israelo-Egípto, problemas da África Austral, problemas de grande importância, os mais importantes neste momento e que obrigarão os participantes da Cimeira a dar-lhes grande atenção. Mas, m e s m o assim, nós esforçar-nos-emos pára conseguir algo desta Cimeira: que o movimento dos Não-Alinhados reconheça mais uma vez a justeza da nossa luta liderada pelo Comité Central da FRETILIN. T - Quer enviar alguma mensagem ao povo de Moçambique? M.A. - Sim nós queríamos apro veitar para dizer ao povo de Moçambique, que sempre esteve a nosso lado nos momentos mais dificeis que, com o seu apoio, bem como o de outros povos irmãos, nós saberemos cumprir o nosso papel histórico na transformação da sociedade de Timor-Leste. Entrevista conduzida por José Sá Argentina: A Jornpda Nacional de Pro. testo que cfecorreu recentemente na Argentina, marcou, na opinião dos observadores políticos, a derrocada da ofensiva da dita. dura contra as massas popula. re e o Inicio de ofensiva popular. Independentemente dos retul. tados (positivos na maior parte dos locais) um facto se evidenciou: foi a primeira vez desde que a ditadura fascista subiu ao poder há três anos, que se realizou uma atitude de protesto ao nível nacional. Um facto que Videla não pode mais ignorar. A Jornada Nacional de Protesto que. decorreu na Argentina é o resultado directo da situação que se vive naquele país desde que a Junta Militar Fascista de Videla tomou o poder. Desde Março de 1976 que a situação económica dos trabalhadores se tem vindo a deteriorar progressivamente tendo agora atingido um nível sem precedentes. Neste período, os salários perderam 45% do seu valor, taxa cujo significado ainda se torna mais claro se recordarmos que a A rgentina tem actualmente a mais alta taxa de inflação de todo o mundo: O índice inflacionário dos últimos dois anos atingiu 170%. Por outro lado, a vida sindical argentina está numa situação em que os sindicatos de trabalhadores se vêem forçados a actuar na clandestinidade, uma vez que os sindicatos legais se encontram quase todos dominados por homens de confiança de Videla. Uma das primeiras medidas da Junta quando subiu ao poder foi precisamente a publicação de um decreto que Videla estd só com o olhar perdido. Isolado mesmo daqueles de quem estd junto. As massas populares realizaram a Jornada Nacional de Protesto. Contra a oZ tadura. Contra Videla. A pnergia da ofensiva do fascismo terminou. Videla TEMPO N.o 450 - pág. 45 proibia a actividade sindical, tendo posteriormente sido proibidas as eleições de delegados sindic desfeitos os núcleos sindicais de fábricas e sido acabada a livre discussão sobre a contratação colectiva. Isto para além do desaparecimento de milhares e milhares de pessoas (estimadas em 4500 pela Assembleia Permanente dos Direitos Humanos na Argentina) e de uma repressão política constante. Esta situação geral originou, como não podia deixar de ser, uma série de conflitos laborais durante todo o mês de AbrL Calculamr-se terem existido mais *Ie 50 coliflitos declarados que produziramgre ves de curta duração que' englobaram mais de 40 mil trabalhadores. Durante os meses que antecederam esta Jornada Nacional de Protesto as greves eram realizadas de surpresa de modo a evitar a concentração de forças repressivas contra os trabalhadores. A situação foi-se desenvolvendo, os conflitos polarizando-se, até que se chegou K Jornada Nacional de Protesto. O PROTESTO NACIONAL CONTRA A DITADURA FASCISTA A Jornada foi convocada por uma estrutura sindical denominada uComissão dos 25» que teve de lutar contra a oposição declarada da estrutura sindical governamental, a «Comissão Nacional de Trabalho», que é formada por dirigentes próýgovernamentais de sindicatos sob intervenção militar da Junta. Os membros da Comissão dos 25 (a maior parte dos quais foi, depois, presa pelas forças do regime) publicaram um comunicado no qual chamavam toda a classe trabalhadora argentina a efectuar uma Jornada Nacional de Protestc de vinte e quatro horas, para a mudança da actual política económica da Junta. A, reivindicações apresentadas eram a restituição do poder aquisitivo dos trabalhadores e a aplicação integral da lei das Contratações Colectivas de Trabalho, a normalização da vida sindical (liberdade de acção e fim da legislaçãc repressiva), a devolução das obras sociais dos trabalhadores, a liberdade e aparição dos secrestados e presos e a renúncia do ministro da economia, Martinez de Hoz. Recorda-se que estes pontos foram sistematicamente pontos de luta da resistência sindical argentina desde há três anos. Os dados colhidos pelos sectores da resistência sindical indicavam que a Jornada tinha sido vitoriosa. No sector dos transportes houve uma participação massiva, mesmo apesar de alguns dos DA RESISTÉNCIA 1CONTRA OFENSIVA POPULAR Falar de greve ou mesmo de greve geral num pais capitalista e dependente pode considerar-sC um facto quase normal, dado que se trata de uma das formas de luta mais comuns com que os trabalhadores que se encontram sob um regime explorador, defendem os seus direitos. Mas falar numa greve geral nu país como, a Argentina actual, que se encontra, sob a ditadura militar mais repressiva da América Latina, com a actividade política e sindical proibida, com mais de 30000 pessoas adesaparecidas», com milhares de mortos e presos, (muitos deles simplesmente por se manifestarem pelos seus direitos) resulta em algo de evidentemente distinto. Não que se trate do primeiro movimento de forca protagonizado pela poderosa classe trabalhadora Argentina desde o golpe de Estado militar de 24 de Março de 1976. Na realidade, já poucos meses depois desse acontecimento, e apesar da central sindical (C.G.T. com 6 milhões de membros) e dos mais importantes sindicatos terem sido militarmente intervencionados, apesar de a greve estar penalizada aino papel» com oito anos de cadela e «na realidade» com o desaparecimento, a tortura e o assassinato dos dirigentes a nível de fábrica, os trabalhadores argentinos lançaram-se na resistência. Utilizando novos métodos de coordenação, conseguiram paralisar por meio de greves selvagens praticamente os sectores chave da TEMPO N.õ 450 - pág. 46 Martinez de Hoz, Ministro da Eco. nomia do regime que levou a Argen. tina a possuir a mais alta taxa de Inflaçáo do mundo seus subsectores serem tradicionalmente adversos a medidas de força. No cordão industrial de Buenos Aires, os trabalhadòresý participaram em percentagens que chegaram aos 90%. Nos estaleiros navais a paralisação foi total. No interior, principalmente nas províncias de Santa Fé e Córdoba - províncias que são pólos indus. triais importantes - registaram-se participações massivas na 'me. talurgia e maquinarias POSIÇÃO DOS MONTONEROS O Movimento Peronista Montonero aderiu também à greve tendo o secretáriogeral do movimento, comandante Mário Firmenich, feito uma declaração através da Rádio Libertação. A Rádio transmitiu também declarações do exgovernador peronista da província de Buenos Aires e do primeiro secretário do ramo sindical do Mo. vimento Peronista Montonero, Armando Croatto..... Na -declaração os responsáveis do MPM apelaram. à reunificação do movimento peronista e à participacão de todos os sectores nacionais na luta contra -a ditadura de Videla. Depois de uma grande período em que a sua tarefa principal foi resistirá ofensiva política e rilitar da Junta fascista, o movimento operário argentino marcou, com esta Jornada, Nacional de Protesto, o seu regresso ao primeiro plano da actividade política do país. Videla está agora perante a evidência de que não só os seus crimes porão cob-o à luta operária como esta desencadeou a ofensiva que ele próprio não será capaz, estrategicamente, de vencer. Compilado por: Sol Carvalho economia (transportes, portos, grandes fábricas) durante mais de uma semana em Novembro de 1977. E durante 1978 e princípios deste ano as lutas de trabalhadores foram-se multiplicando, acompanhadas pelo accionar incessante da resistêncit armada. O que atribui uma transcendência significativa à paragem geral de 27 de Abril passado é que, confirmando as previsões para 1979, anunciadas pele, Moviviento Peronista Montonero, o facto significa uma mudança qualitativa na luta heróica do povo argentino. Efectivamente, uma greve geral no contexto argentino é já um acontecimento de carácter ofensivo a nível de massas. Não se trata já de resistir de forma dispersa à política econóica e aos atropelos repressivos da Junta ilitar, mas sim de atacar de forma conjunta e contundente. Do mesmo modo, a vanguarda Mon. tonera, além de fazer fracassar (devido a um duro sacrifício) a campanha de aniquilamento, não só continua a luta a nível político e militar, como adquire também uma nova dimensão ao trabalhar para a unificação poltica e organizativa de todas as lutas sob uma só liderança estratégica. Essa politica supõe, através das condições favoráveis a nível de massas, impulsionar a reunificação e transformacão do Movimento Peronista. experiência nacionalista popular do povo argentino, de modo a convocar a formação duma Frente de Libertação Nacional com todos os sectores dis. nostos a enfrentar a ditadura. A nível militar pretende fortalecer-se tanto em número com3 em cua lidado de armamento apoiando assim o resto das formas de luta. No meio de toda esta situação, os altos comandos das Forças Armadas da Argentina, braço armnado da reacção e do imperialismo, debatem-se com profundas cisões internas, havendo já correntes distintas que disputam entre si sobre a forma, mais eficaz de conter a maré popular que também eles vislumbram. Na realidade, e apesar de estarem de acordo quanto à ideia de quebrar o poder dos trabalhadores introduzindo uma lei sindical que «normalizaria» a actividade desse sector debilitando-o profundamente, as reatções perante a paragem vieram somente do sector de Videla. É significativo que os diários argentinos e o comentário geral se tenham referido insistentemente ao facto de algum sector militar ter dado «luz verde» aos dirigentes sindicais do «grupo dos 25» para que avançassem com o movimento de força apesar da srepressão que sobre eles caiu. Na verdade não seria a primeira vez que as fcrças reaccionárias militares da Argentina teriam tratado de utilizar um acto popular de massas para debilitar o sector com que estão em luta. Resumindo. a paragem significa uma vitória importante na luta Argentina no meio duma situação de mudança progressiva a favor das forças ,opulares em toda a América Latina. Nesse contexto a importância da solidariedade internacionalista para com o povo argentino adquire uma transcendência ainda maior. Roberto Vandrel Representante do Movimento Peronista - Montonero na Ãfrica Exclusivo TEMPO TEMPO N.- 450- pág. 47 I NAMIBIA: ÁFRICA DO SUL JOGA O SEU BISPO Ao promover uma proclamação unilateral de «,independência» na Namibia, a Africa do Sul' joga na colónia, a mesma carta que o imperialismo jogou na Rodésia a da africanização do conflito, colocando fantoches no pomité «constituciona» da Aliança Democrática de Turnhalle, dirigido pelo suatricano Dirk Mudge «Lutaremos até que o inimigo se renda ou até que aceite a implementação total da resolução 435 do Conselho de Segurança», Foi com estas palavras que o presidente da SWAPO, Sam Nujoma, acolheu a proclamação feita por Pretória duma «Assembleia Nacional» e de um «Governo Interino» na Namíbia. Preparando o caminho para o lançamento duma campanha nas Nações Unidas que terá início na próxima semana e que deverá consistir num apelo para que sejam estabelecidas sanções contra o regime racista, numa tentativa para o fazer aceitar o plano de descolonização daquela organização internacional, o líder da SWAPO declarou: .as negociações estão neste momento paradas pois o regime racista da Africa do Sul violou o plano de descolonização das TEMPO N.o 450 - pág. 48 Nações Unidas recusando-se a aceitar a implementação da reso. lução 435 do Conselho de Seguran-,ça e declarando uma independência unilateral na Namíbia. A proclamação do Administrador Geral sul-africano que trans. formava a Assembleia Constituin. te fantoche, resultante das eleições ilegais de Dezembro último numa pseudo Assembleia Nacional é mais um passo na via escolhida por Pretória para a Namíbia há alguns anos atrás no período que se seguiu às vitórias da FRELIMO em Moçambique e do MPLA em Angola. Mas Pretória tem tomado maior cautela em fazer desta «Declaração Unilateral da Independência» um processo mais gradual do que a dramática declaração de Ian Smith em 1965. Deste modo, após o dia 21 de' Maio, e na primeira sessão da nova «Assembleia Nacional», Pretória chama a atenção para o facto de -a porta estar ainda aberta às negociações,, sobre o plano. Mas o seu jogo é perfeitamente transparente. O novo Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Lord Carrington, afirmou claramente que a Grã-Bretanha fará «tudo o que estiver ao seu alcance para impedir a interrupção das negociações» com a África do Sul sobre a Namibia. E isto porquê? Porque enquanto as negociações estiverem em curso ou enquanto o grupo dos cinco países imperialistas disser que o estão, esses mesmos países podem opôr-se ao esta-' belecimento de sanções económicas obrigatórias nas Nações Unidas. Lord Carrington já tornou isSam Nu oma e Oliver Tambo: A aliança dos povos contra os fantoches so claro: -o novo (ioverno britâni. co opôr-se-ia a quaisquer tentativas para impor sanções. «enquanto estiverem a decorrer conversações», disse ele numa conferência de imprensa em Londres. UDI NA AGENDA Não há a menor dúvida que é a «UDI» que está na agenda. O Administrador Geral, Steyn, disse em Windhoek, que a proclamação é «um momôento histórico para a Namibia e para a África do Sul no seu conjunto, ao estabelecer a futura estrutura de estado no Sudoeste Africano-Namíbia» (o novo nome engendrado pelos racistas e o sul-africano jogou, na Namíbia, uma perialismo jogou na Rodésia que tem por fim confundir o povo como Smith tenta fazer com o seu ZimbabweRodésia). Vários fantoches namíbios saudaram também a proclamação com emoção. O Ministro Chefe do Bantustão Ovambo nomeado pela África do Sul, o pastor Kornelius Njoba, declarou entusiasmado: «É outro passo em frente no caminho da independência política,,. Ele foi indigitado para um posto no regime fantoche. A proclamação prevê medidas a tomar para o alargamento da àctual Assembleia fantoche com cerca de 15 lugares extra. 0 objectivo é atrair outros grupos fanto, ches para que toda a manobra pareça mais «democrática». De momento, 41 dos 50 lugares são ocupados pela Aliança Democrática Turnhalle, principal instrumento de Pretória no território, sendo os outros ocupados pela Aktur, um partido exclusivamente de brancos e ultra-racista. Novas organizações fantoches começam a surgir por toda a parte. Primeiro, houve a «Frente de Libertação» produzida a tempo par, as eleições fraudulentas de Dezembro, juntamente com o Partido Namibio Cristão Democráti. co». Agora apareceu o «Partidc Democrático Relioboth>. Mas ou. tros grupos, particularmente a Frente Nacional Namíbia, estão preocupados com o que se passa no Zimbabwe e mantêm uma certa reserva. Recusaram-se a tomar lugar úa Assembleia Nacional, lugares esses que lhes foram oferecidos pelos racistas e parecem estar à espera de ver melhor o jogo até estarem absolutamente certos de que o esquema actual vai resultar. Se tanto for necessário, Pretória esté, preparada para realizar nova «sessão eleitoral»' para obter o apoio internacional para a UDI. E tambémü para ludibriar a opinião pública mundial convencendo-a até ao último momento de que considera a hipótese de implementar o plano das Nações Unidas. Entretanto, as forças de defesa sul-africanas estão fazendo novos esforços para organizar um exércite «nacional» fantoche para o Estado do Sudoeste Africano-Namíbia. Após as ignominiosas derrotas infligidas pela SWAPO ao seu querido %Batalhão 41»', constituído por fantoches namibios, e que teve de ser retirado da frente da batalha algumas semanas -de. pois de ter entrado em acção, o novo documento relativo à defesa, publicado por Pretória, inclui uma sérip de novas cláusulas que prevêm a mobilização de recrutas e que terá pelo menos algumas unidades de representação em preparação para o dia da Independên. cia Unilateral. A «Assembleia Nacional» por seu lado, segundo se espera, lançar-se-á na elaboração de várias «reformas» legislativas que visam atrair uma publicidade a nível mundial, mas que não afectar o a situação dos trabalhadores namibios que continuarão a ser tão explorados como até aqui. Não se prevê um fim pirra o sistema de Trabalho. Çmíe a niantém os traSiiios afastados das Sin pensões seme"i para individuos - nas áreas mineiras - . : : i s mais importantes do pai. E as cooperações multinacionais em funcionamento no país estão já a adquirir experiências sobre como instituir uma discriminação raWcia na estrutura salarial a coberto de um novo nome. Ao mesmo tempo que apregoam estar a instalar o princípio de salário igual para trabalho igual, afirmam que os trabalhadores negros não têm habilitações para exercerem as mes-mas funções que os brancos. roi isto que desencadeou as greves mineiras de Dezembro último e Ja. neiro deste ano. E novas greves nas minas da Namíbia em Março último apesar da severa repressão racista, demonstram que a determinação da classe trabalhadora está a crescer a cada momento. REFORÇO DA LUTA Contra esta crescente resistência nacional e uma luta armada que está a atingir alvos importantes com eficácia cada vez maior -- ataques a acampamentos de forças de defesa racistas, caminhos de ferro, electricidade e telecomunicações bem como todos os mais importantes abastecimentos de água das forças racistas - tem havido uma nova onda de repressão contra os quadros e simpatizartes da SWAPO. Cinquenta e dois membros do movimento, incluindo líderes tais como Axel Johannes e Lúcia Hamutenya, foram presos e detidos nas últimas três semanas. Um assalto aos escritórios da SWAPO em Windhoek, imputado a um misterioso grupo de vigilância branco que o Administrador Steyn afirma não conseguir identificar, resultou na destruição de equipamento e instalações, desaparecimento dos arquivos juntamente com fundos penosamente amealhados e no corte dos telefones. Houve também ameaças por parte de Steyn,: do racisla Dirk Mudge que é presidente da orga nização fantoche sulafricana, Aliança Democrática Turnhale, e pela própria Africa do Sul de que a organização política internâ da SWAPO, até aqui legal, teria de ser revista. O Presidente Nujoma declarou na conferência de imprensa realizada em Luanda e' ainda referida: «]a provável que a racista Africá do Sul utilize os seus agentes e fantoches na Namibia para conseguir que o nosso movimento seja formalmente banido pelos pseudos poderes legislativos da AssemMeia Nacional: Com este fim estão a ser efectuados, numa escala até hoje sem precedentes, um intenso trabalho preparatório sob a forma de assassinatos injustificados e maciços, prisões, detenções e expulsão de quadros fundamentais da SWAPO dentro da Namiíbia.,, Perante, a 'planeada Declaração Unilateral de Independência no ter ritório, a SWAPO decidiu intensificar a luta armada. de libertação. E Nujoma advertiu: «C>nsideramos o racista Botha e o seu regime responsáveis pela intenSificação do conflito armado e pelo crescente sofrimento do povo da Namíbia.» E continuou: «Também as forças imperialistas são respon sáveis na medida em que cOntinuam a explorar as riquezas naturais da Namíbia com uma crescente falta de escrúpulos ao mesmo tempo que fornecem aos assas-' sinos racistas de Pretória bombardeiros a jacto, tanques, carros blindados e outras armas sofisticadas para massacrar o perpetuar a opressão contra o nosso povo em nome da assim chamada civilização Ocidental..,0 bombardeamento pela Africa do Sul ao longo de toda a fronteira da: Namíbia com Angola continua.» - afirmou Nujoma - «,Es tão a tentar matar e destruir tudo o que é vivo, mas não conseguem encontrar os nossos guerrilheiros porque eles estão entre o povo.» Internacional IMAGENS Algumas das dezassete pessoas mortas pela polícia fas. cista de São Salvador na sequência das últimas manifestações que se têm registado naquele pais, contra a ditadura. A bandeira que se vê à esquerda é do Bloco Popular Revoluciondrio uma, das orçanizações que luta contra a ditadura As condições de vida na República Indiana são más e a imagem que ve. mos (pessoas dormindo na rua por não terem casa) é frequente. Esta situação foi agora agravada pelo ciclone que devastou alguns distritos e que matou centenas, de pessoas TEMPO N.ý 450 - pãg. 51 Saluara: O Ministro dos Negócios Estrangeiros sahariano concedeu recentemente uma conferência de imprensa na qual indicou que a Frente Polisário repudia a ideia de um mini-estado sahariano assim como propostas de uma fe. deraçao sahariana-mauritana. O diplomata denunciou as manobras da França que tenta encontrar soluções políti. cas depQis de falhadas as militares. Na foto, em cima, à esqueraa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da RASD, HAKIM IBRAHIM. Em cima à direita, uma mulher combatente Continuam as maifeýstações contra o acordo da traição assinZado entre o Egipto e Israel. Na foto, uma manifestação de protesto em frente à Casa Branca. No cartaz, lê,se, «Liberdade para a Palestina» TEMPO N.o 450 -pág. 52 Uma imagem do Gana, país situaao na costa ocidental de África. As autori. dades fizeram abortar, na semana pas sada um golpe de estado no qual estavam empenhados elementos da força aérea O regime do apartheid sobrevive em virtude da ajuaa que lhe é fornccida pelo imperialismo internacional, Mais de 350 indústrias norte-americanas tem ligações com a África do Sul e mais de 6000 firmas estabeleceram rela çÕes comerciais com o regime racista. Na foto, vê-se a relação económica que existe e que mostra o controlo existente: Indústria eléctrica, 70 por cento. Minas de Ouro, 50 por cento. Combustível, 43 por cento. Comércio de Peças 23 por cento £/V Uma das instituições oficiais sul-afri. canas: O edifício do Senado na cidade do Cabo. Foi numa instituição seme. lhante a do Supremo Tribunal, que rebentou uma bomba, na semana passada U. S. CONTROL IN SOUTH AFRICA Motor Tradep Electrical Gold Industrv Minina Fuel Sunniv TEMPO N-o 450 - p4g. 53 dos leitores HOSPITAL-DE XAI-XAI ESCLARECE A propósito da carta do Senhor Ananias Massinga, publicada na revista «Tempo» n." 441 de 25 de Março de 1979, gostaria mos de esclarecer'algumas situações frequentes no Hospital Provincial de Gaza. A primeira, refere-se às chamadas urgentes da ambulância. Ultimamente, o Hospital tem tido em circulação 2 carros das 7h às 17.00h Entre as 17.00h e as 7.00h, apenas um. Frequentes vezes, deslocamos um carro ao Maputo transportando doentes, ficando apenas um em serviço durante todo o dia. Os nossos carros, têm feito o transporte de doentes do distrito de Gaza, distrito do Bilene (que só recentemente adquiriu uma viatura), e actualmente também apoiando Manjacaze, cuja viatura se encontra em reparação. £ claro que isso leva a que por vezes, chamadas simultâneas, levam a que alguém tenha de esperar. Por exemplo, no dia 21/ /2/79, tivemos uma chamada à Mracia, 3 chamadas a- Chicumba. ne, e muitas outras a outros pontos do distrito de Gaza. Por ve. zes, a residência do doente nem sempre é de fácil acesso, e depois de deixar o carro na estrada é preciso ir a pé até ao local, NÃO ESTA CERTO Fomos certo dia ao talho de Caia para irmos comprar carne. O meu colega trazia uma nota de cem escudos e pediu 2 quilos de carne de 2.' limpa. O vendedor disse logo que não tinha começado a vender, por isso deveríamos esperar. A seguir apareceu urna outra pessoa, conhecida do ventransportando a Macia, o que leva tempo. E não podemos deixar de relatar as frequentes chamadas «urgentes» que recebemos, e que se tratam de simples indisposições, dores de cabeça, dores de dentes, etc., óu até situações, infelizmente não raras, em que o carrc chega e não encontra ninguém, ou alguém dizendo ,que afinal já está melhor não preci.ýo ir ao Hospital. Brincadeiras de mau gosto, inconsciência, ao mesmo provocações, qm prejudicam e fazem esperar aqueles que realmente precisam e por vezes esperam 40 minutos ou até mais. Outro problema é o das chaniadas das parteiras. Têm sido também frequentes. Não é por acaso que se fazem maternidades, e se apela às futuras mães, para que se tenha os partos nas maternidades. Que condições pode haver, na Sede ,u Partido ou em qualquer residência, para fazer um parto? Que cuidados de assépcia? E se o bcbé nasce em morte aparente e necessita de reanimação urgente, oxigénio, etc., e se surgem as tantas complicações possíveis, quer com a mãe quer com o filho? O tempo que leva a parteira a deslocar-se ao local, é o mes mo para levar a parturiente para um local com condições - a maternidade. Para além disso, a des locação da parteira para fora do Hospital significaria que a Maternidade do Hospital, ficaria sem parteira durante aquele es- dedor, que comprou carne e depois saiu. Mais tarde o talho ficou cheio de pessoas. Pensámos logo que não haveríamos de ter carne e assim resolvemos ficar os dois na bicha para ver quem havia de ter sorte. Quando o meu colega se apre sentou e disse o que queria o vendedor respondeulhe: «Nós aqui não vendemos carne de 2.' limpa, pois toda a carne sem osso évendida ao' preço da carne de primeira. Foi isto que não compreendemos: primeiro, apepaço de tempo (à noite é uma só parteira em serviço. Por isso definimos como norm' de trabalho, que nenhuma parteira sai do Hospital para ir fazer partos fora do Hospital. Para nós, isso não é burocracia, mas sim desempenhar conscientemente o nosso trabalho, procurando salvar vidas, e evitar cemplicações que podem ser fatais. Estas normas, são do conhecimento dos nossos trabalhaderes. Quanto ao caso concreto apresentado pelo Senhor Ananias Massinga, sucedido em 21/2/79, lamentamos dele só tomar conhecimento na revista «Tempo» de 25/3/79. O Hospital tem um ser,viço de sugestões e reclamações do Povo. O Hospital tem estruturas que nunca se recusaram a receber ninguém. Se o caso nos tivesse sido canalizado na devida altura, teria sido possível detectar até que ponto ele se enquadrava dentro dos problemas apresentados anteriormente, ou se se tratava de mau trabalho, do qual havia que apurar responsabilidades. Mas agora é difícil, e os dados que nos dá são poucos. Ao terminar, queremos apelar a uma maior proximidade e colaboração com o Hospital, através da crítica construtiva, apresentada na devida altura, quer junto das estruturas do Hos¿pital quer junto das estruturas do Par tido. O Director do Hospital sar de termos chegado primeiro, fomos atendidos depois das pessoas conhecidas; segundo é o preço da carne. Perguntamos: será que naquele talho servem primeiro aos conhecidos? Quais são as normas por que se rege uma vez que não é isso que estamos a seguir em toda a República Popular de Moçambique? João Fernando e Patrício Manuel Mutala (Zambézia) TEMPO N.o 450 - pág. 54 QUEM SE RESPONSABILIZA PELA FALTA DE-AGUA? Sou inquilino da APIE, moro na Rua Comandante Augusto Cardoso n.,, 126. Recebi no dia 17/4/79 um aviso de débito da Electricidade de Moçambique n.o 136154 do período de 20 de Março de 1979 da seguinte guan tia: Água 111$00; Electricidade 439$00; total 550$00, a pagar desde 25/4/79 até 6/5 79. O que me leva a escrever esta carta não é só reclamar a quantia a pagar pois, já paguei há meses ou há anos atrás cerca de 800$00 a 900$00 mensais que era o custo ou consumo de água e electricidade; portanto 'não é com 550$00 que ia retlamar. Reclamo a falta de água, porque no mês de Março só tivemos água no prédio durante uma semana (7 dias) com o débito de 111$00, se não -tivesse faltado água como há meses atrás não reclamava. Desde os meados do mês de Março até ao momento nunca tivemos água no prédio. O Piquete da Electricidade de MoPEDIDOS DE CORRESPONDÊNCIA Deseja relações de amizade, troca de correspondência, fotos, relações culturais e revolucionárias com jovens de ambos os sexos dos seguintes países: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Prina a a ~1. - çambique veio arranjar o contador e disse que a água tem potência de subir até aos tanques, portanto cabe à APIE. A APIE, por sua vez diz que o serviço de água é só com a Elec tricidade de. Moçambique. Agocipeý, e com moças moçambicanas das ýdiversas províncias e distritos. Geraldo Timókwo Bulaque Caixa Postal, 302 Nacala-Porto Nampula R.P.M. Jovens combatentes das F. P.L.M. desejam corresponder-se com jovens de Angola, Guiné e Moçambique, ambos os sexos, e com idades compreendidas entre os 17 e 27 anos. Abílio Jaime, Cuinica Mateus Xai-Xaimanjate Gabriel José António ra pergunto à APIE e à Electricidade de Moçambique: quem é que vai resolver o nosso problema da-falta de água? Mário F. Langa Maputo Nelson José dos Santos Ernesto José da Conceição Ananias Subino Matondo 3.o Batalhão de Cuamba Caixa Postal, 101 Niassa Jovem das F.P.L.M. deseja corresponder-se com j o v e n's moçambicanos, angolanos e guineenses de ambos os sexos, com idade compreendida entre os 17 e 23 anos. Adelino Alberto Vale Morrumba&,t - Zambézia Caixa Postal, 33 T africanas veio a consolidar fornas de expressão artísticas que, sob a capa da negritude, nada tinham a ver com as manifestações culturais populares dos países de origem. MúSICA LIGEIRA MOÇAMBICANA: QUE MúSICA? 1. A análise da forma e do conteúdo da música ligeira moçambicana deve clarificar alguns pontos de partida, a sa ber: - Sob a designação de música ligeira, existem várias tendêrícias musicais diferentes na qualidade, forma e conteúdo. A denominação engloba desde canções de excelente qualidade até música apropriada para «partys», música que apesar de recheada de chavões e slogans «políticos» não consegue disfarçar o seu conteúdo reaccionário. - Evidentemente, qualquer debate minimamente sério exige um estudo profundo sobre as origens e as actuais tendências da música ligeira. Esse estudo; tanto quanto saiba, não está ainda realizado. O debate que proponho corre o risco de levantar falsas questões e, portanto, discussões artificiais. Penso ser aceitável esse risco se concorrer para, no decurso do debate, se clarificar questões ligadas à natureza da música hoje praticada, de forma dominante. 2. SOBRE A ACEITAÇÃO DA NOVA MUSICA LIGEIRA - Tem aceitação, popular a nova música ligeira? É verdade que sim. Mas também não é 'menos verdade que ela constitui o delírio dos «Joes» e das «Pitas», daqueles que vivem em Moçambique apenas porque têm cá os pés. Saber quem aceíta a nova música ligeira não é contudo decisivo para conhecer o seu conteúdo de classe. Quando se diz que ela tem aceitação popular não se deve deduzir automaticamente que é revolucionária. O facto da pequena burguesia gostar dos conjuntos ligeiros nada diz sobre o carácter político da música por eles interpretada. A pergunta a ser formulada é outra: «como contribui a música ligeira para a formação de um pensamento e de um gosto no~os?» Será que o conteúdo destas canções conduz à transformação revolucionária dos gostos típicos da pequena burguesia ou, pelo contrário, consolida valores culturais alienantes? 3.' SOBRE A ORIGEM E INFLUÊNCIA - Penso que a produção da actual música ligeira «moçambicana» 'está decisivamente marcada pela influência da música ligeira dos países vizinhos e ainda dos vários «jazz bands» dos regimes neocolonizados africanos. A música ligeira que nestes países se produz reflecte o domínio, ao nível da cultura, da classe burguesa no poder. As músicas que até nós chegam em discos foram seleccionadas pelas editoras de acordo com critérios eminentemente comer ciais. São mercadoria de exportação, rotulada como produto genuíno da «cultura africana»... Mas que cultura africana? Será que se pode falar de uma cultura africana universal, flutuando acima dos conflitos de classe? Efectivamente, num determinado contexto histórico (sob a dominação estrangeira) valores culturais da pequena burguesia e das massas trabalhadoras foram igualmente reprimidos. Contudo, a emancipação política das burguesias ]É necessário, em suma, criar armas para que os nossos artistas resistam contra a assimilação passiva da música ligeira de outros países (sejam ou não africanos). A. principal arma é a valorização daquilo que sabemos nosso, das manifestações musicais que constituem tradições do nosso povo, do Rovuma ao Maputo. Dai, a validade da experiência promovida pela Rádio Moçambique na recolha, pelos próprios artistas, das canções e ritmos populares. Essa experiência, que implica a vivência no seio das massas populares, será decisiva para a transformação da música ligeira e dos próprios artistas. Contudo a questão essencial reside não no enquadramento profissional mas no enquadramento político dos artistas. A perspectiva desse. enquadramento foi traçada pelo Partido Frelimo, no III Congresso. Será essa a base para o desenvolvimento mental dos nossos artistas e da ruptura organizada com os modelos da música ligeira burguesa. De outra maneira, continuaremos a manter o divórcio burguês entre a música «folclórica» e os restantes géneros musicais. De outra maneira, não poderemos falar de 'música ligeira realmente popular e moçambicana. Um leitor Maputo PEIXE E TROCOS Ao ler a carta da Sr,. M.M. Magremussa, inserida na págína dos leitores do último número dessa tão conceituada revista (n." 446) não pude evitar que me viesse à memória um facto presenciado por mim, no mesmo estabelecimento. Embora tenha sido há uns dois ou três meses, não deixa de ser oportuno lembrar. Fui para a bicha do peixe pouco depois das 6 horas da manhã e até às 9 horas continuava praticamente no mesmo sítio, o que me levou a prestar atenção à forma como estava sendo feito o serviço. Verifiquei que a distribuição das senhas era feita de um modo bastante estranho. Com efeito, a entrega não obedecia à ordem da bicha e algumas pessoas que estavam atrás recebiam primeiro as senhas que as da frente. Pouco antes das 10 horas chegou a minha vez e o encarregado da distribuição das senhas pergunta-me se trazia dinheiro trocado. Ao responder que apenas tinha uma nota de 100$00 disse-me: «Então espera» e continuou percorrendo a bicha perguntando por dinheiro trocado. Informei aquele Sr. que pretendia comprar 4 quilos de carapaus e mesmo assim não consegui obter dele a tão almejada senha que me facultaria o ingresso no estabelecimento. Vi outras pessoas com notas de 50$00 «mendigando» a senha, porém o Sr. encarregado manteve-se inflexível, repetindo sempre qual disco partido. «Quem não tiver moedas tem que esperar». Dificuldades de trocos? Se a peixaria abriu as suas portas às 6 horas, seria que até às 10 horas não possuía troco nem para uma nota de 50$00? Donde viria esse troco?. Pensando que talvez fossem orientações, desisti da bicha depois de 4 horas de espera. Todavia, por me parecer estranha aquela atitude, resolvi informar-me junto da administração da Empresa para onde telefonei expon'do o que acabava de presenciar. A senhora que me atendeu afiançou-me que nem eram orientações nem tão pouco estavam a par do que se passava e que se iriam tomar medidas para se pôr cobro a essa situação. Mas pelos vistos a história dos trocados continua. Seria bom que realmente se tomassem as providências devidas contra esta e outras irregularidades que se verificam naquele posto de venda, não só quanto a trocos mas também pela ausência da mais elementar regra de boa educação e consideração pelo público que tem necessidade de ali se ir abastecer. Para terminar propunha: 1: Que as estruturas da Empresa promovessem reuniões no sentido de sensibilizar os trabalhadores que a sua missão é servir o Povo, mas servir com delicadeza e respeito. 2., Que fosse colocado um livro de reclamações e sugestões onde todas as pessoas pudessem denunciar comportamen. tos «Xiconhocas» que só servem para criar confusão no seio do POvo e também fazer propostas concretas que ajudassem a Empresa a melhorar os seus métodos de trabalho para bem cumprir a sua tarefa. Uma dona de casa Maputo TEMPO N.o 450 - pág. 57 DISCIPLINAR A FORMA DE VESTIR NOS SERVIÇOS E ESCOLAS Há poucos dias li no jornal um artigo que nos advertia acerca de atitudes reaccionárias, em relação aos portadores de gostos decadentes, e que aconselham a entrega dessas pessoas às estruturas competentes. Isto está correcto. Contudo eu gostaria de fazer uma análise acerca das atitudes, dos oportunistas e dos portadores dos gostos acima citados e dar sugestões sobre as mesmas. Podemos solucionar o problema nos dois casos duma maneira fácil. Para os que trabalham, acho que cabe às estruturas da empresa (direcção Conselhos de Produção e Célula ,do Partido) determinar, a forma de fazer cumprir as .orientações do Partido Frelimo e do Governo. Aquele que aparecer ao trabalho com cabelo grande ou calças apertadas (homens e mulheres) ou com vestidos do mesmo género não os deixar trabalhar e que a ausência dessas pessoas para se irem arranjar seja motivo de falta ao trabalho, com todas as consequências de uma falta. Para os que estudam, cabe a Direcção da escola, ao Director da turma bem como ao seu representante, mandar voltar essas pessoas com aplicação de falta de comparência e não justificável. Penso assim que estariam também entregues às estruturas competentes e resolvido o problema para os dois tipos de reaccionários. Cabe aos companheiros leitores ajudarem-me na solução para o terceiro caso. Para finalizar, chamo atençao aos companheiros à situação dos funcionários dos Bancos que eram autênticos «Tedy Boys e Tedy Girls» e hoje não são. Inácio Adriano Cossa Maputo ENGRAÇADINHOS NOS MACHIMBOMBOS DE MAPUTO Venho através desta para expor o seguinte: Várias' foram as vezes que tenho notado nas paragens dos autocarros (T.P.U.), mais concretamente no MUSEU, a falta de respeito manifestado por alguns alunos para com os cobradores. Por três vezes no re. ferido lugar, depois de muitas horas de espera, assisti a cenas lamentáveis tais como; alunos que não formam bicha ficam de lado como se não quisessem apanhar o machimbombo, e em voz alta, contam piadas e outras coisas do género das pessoas um pouco desmioladas. Assim, logo que o primeiro carro aparece, entram logo aos empurrões (onde alguns menos honrados aproveitam para sacar as carteiras), e coitados dos que ficam na bicha à espera do cobrador para fazer a respectiva cobrança, e, assim o carro parte deixando em terra as pessoas muito revoltadas pelo facto, contudo, não desis. CASAMENTOS PREMATUROS Sou um Jovem estudante de 16 anos. Nos tempos do colonialismo o casamento no distrito de Mocuba no Bairro de Mugongola, que se situa a 10 quilómetros da cidade de Mocuba, era sempre casamento prematuro. Quando Moçambique ficou independente houve tini htervalo de tempo até 2 anos, e no 3. ano recome a com o TEMPO N.o 450 - pág. 3,L tem continuam na bicha seguindo as regras que rezam na placa dos ex-S.M.V., (formem a bicha). No segundo carro tudo foi péssimo. Como o carro tinha portas fechadas, não conseguiram entrar de rompante mas ficaram apinhados em frente da porta da entrada e nem quiseram ouvir os apelos do cobrador - que solicitava para que, duma forma organizada formassem bicha. Como eles se mostraram renitentes, não tiveram outro remédio e arrancaram (com justa razão) com o carro vazio sem levar ninguém. São tantos °os casos que se os quisesse contar encheria as páginas de um jornal. Os nossos estudantes, a. Ãndo estão dentro dos me nmbombos não respeitam ninguém e têm um uso sistemático de nunca ficarem em cadeiras seguidas para poderem conversar à vontade. Separammesmo tipo de casamento anterior. As meninas que são casadas são de 9 a 14 anos e casam com senhores de 22 a 29 anos. Quando andam Juntos com a mulher no meio das pessoas apresentam-na como irmã. Ouvi um senhor de Mocuba dizer que foi convidado, por uma mulher para ir casar com a filha dela menor de 12 anos. O senhor é de 23 anos. Esse senhor começou a namorar quando trabalhava em Nampula em 1974. Vendo que a menina não crescia estava para deixar. tima vez que foi convidado tal senhor disse-me -seem grupos e logo que o carro arranca começam a falar em grandes gritarias como se estivessem numa cena de pancadaria. Até podemos comparar o barulho que fazem com o dos macacos enfurecidos. Para cúmulo alguns deixam o carro ficar cheio e só depois é que entram e ficam pendurados nos estribos desafiando a morte. Para quem tenha a infelicidade 41e os chamar atenção, recebe em -troca, uma data de piadas até chegar ao seu destino. Os nossos estudantes (alguns) precisam de uma boa mobilização. DW contrário, continuaremos r, ter as cadeiras dos autocxros com riscos, com nor.As de «JOE», João, Maria. «XiCONHOCA», e por ai f;.a. ., portanto, nossa tarefa em casa, nas escolas, mesmo dentro dos autocarros travarmos uma grande batalha de mobilização (recuperação). Mas esta tarefa exige esforço, coragem. De certeza que os que sempre se servem dos autocarros sabem que não é tarefa fácil como parece à primeira vista. Mas nós não devemos toleque ia casar em Novembro. Além desse homem há mais de 10 que casaram com as meninas de 9 a 14 anos ~naquele bairro. Até vi um senhor de 30 anos chamado Gonçalves que casou com uma menina de 12 anos chamada Madalena. Isto aconteceu no mesmo bairro. Este senhor casou com a filha do tio. O mesmo assunto, as mulheres de idade superior a 20 e a 30 anos, querem casar com meninos de 14 a 18 anos. Até o meu primo abandonou a escola por causa duma mulher de 5 filhos. rar mais actos de indisciplina nos nossos autocarros. Na minha maneira de encarar as coisas, talvez se fosse dada uma ordem aos cobradores no sentido de arrancarem os escolares aos Indisciplinados (caso sejam estudantes) ou então expulsar. A fhalr digo: Travemos esta batalha para que os nosses filhos sejam estudantes exemplares quer em casa, na escola e onde quer que estejam sejam realmente pessoas dignas de elogios (seiva da Nação) e não de meninos com man a de que sabem muito porque têm a sétima classe, sabotadores, e outros nomes que talvez não figurem num dicionário decente. Pois, aqui fica a minha contribuição na esperança de que muitos concordem em neutralizar os engraçadinhos que cortam os estofos das cadeiras. «VAMOS VALORIZAR AS NOSSAS CONQUISTAS» educando os nossos continuadores. Monteiro Dias Bairro de Mavalane Maputo ÃO SE COMPRA AÇÚCAR EM SE COMPRAR PEIXE 0 Povo moçambicano do Rovuma ao Maputo tem gritado bem alto contra os oportunistas. Os oportunistas, são Iadrões, provocam a corrupção criam a especulação e outras coisas. .- o caso de um senhor, proprietárío da Casa Tulcidá» que fica a seis quilómetros de Moatize e a seis quilómetros da Capital provincial de Tete. AS ORIENTAÇOES E OS OPORTUNISTAS É lamentável que algumas pessoas coma pretensa vontade de dar cumprimento às orientações do responsável máximo do Partido e do Governo, Presidente Samora Machel, e em nome da vigilância popular deturpem o sentido destas orie.ntações, com acções que apenas servem os inimigos da nossa Pátria e da Revolução. Alguns fazem-nas conscientemente, arrastando outros menos esclarecidos, criando descontentamento entre as populações e desmobilizando-as. Não é a primeira vez nem será a última, que este tipo de estratégia é utilizada pelo inimigo. É o caso do que está a suceder a propósito da orientação dada no que se refere ao 'uso das calças apertadas por algumas mulheres. Tomo como exemplo o que aconteceu no passado dia 7 deste mês na bicha da Padaria «Pão Este 'senhor por estar longe das outras cantinas aproveita a oportunidade para especular o nosso povo neste círculo de Chigodzi. Não estou contra esta cantina porque ajuda o nosso povo porque vende coisas a preços especulativos tais como um metro de corte por 400$00 enquanto que na capital provincial está a 300$00. ao tem Nosso», na Avenida Eduardo Mondlane, em frente à <Pandora». Sempre que uma mulher usando calças passasse próximo deste local, era molestada por alguns homens e crianças, chegando ao ponto de rasgar as calças a uma das mulheres, com a intenção de distorcer o que o Presidente Samora Machel disse. Fiquei com a ideia de que havia alguns individuos a agitar a população. Ora isto é o que eu chamo Xiconhocas Não foram estas as orientações dadas. O que foi dito foi que as mulheres não podiam usar calças apertadas e em jeito de provocação à dignidade. Como este exemplo há outros casos, dando origem a histórias e boatos. Antônio Tembe açúcar aproveita vender o seu peixe seco. Vende peixe seco a 20$00 o quilo e 9$50 o quilo k de açúcar. Quer a gente queira ou não tem de comprar um quilo de açúcar e um quilo de peixe. Se não levarmos o peixe também não temos direito; ao açúcar. De onde veio a ordem de que não se pode vender açúcar sem ser acompanhado de peixe? Ainda por cima o peixe nem sempre está bom. Pode provo- 1 car doenças às populações do circulo. Carlos A. Cintura Elemento ~ FPLM - Tete ITEMPO N.O 4[0 - pág. .9 DATAS HISTORICAS1 de Junho DIA INTERNACIONAL DA CRIANÇA O dia 1 de Junho, dedicado às crianças de todo o mundo, surge-nos este ang mn um significado muito mais intenso pois 197 roclamado pela Organização das Nações Uni oo no nal da Criança. I o InternacioCom a proclamação do nacional da C ança a Organização das N nidas p7 tendeu hamar a atenção da opiniã a para a necessi ade de se protegerem todas nças qu nos paýýes capitalistas estão ainda as dos. SU direitos fundamentais e estimul : países socialistas na luta que travam pela cr o p melhores \condiçõs de vida para a criança. Devido à miserável sit que fica am milhóes de crianças na Eu 1945, ap s a se- , gunda guerra mundial, e Junho foi cla mado o Dia Internacion ança. \ Mais tarde, a 20 de N 195 a Nssem-. bleia das Nações Unida < Declaração dos Direitos da Criançap.Z a deede uma série de princípios eitàdos para acabar com o sofri a a e todo o mundo. Apesar destas medida eias ças que não podem goz d mentais como: o direito 1 d// . aos cuidados médicos. à ssas crianças não podem rs d1à ià 1ç' festa. Aqui mesmo ao ., na Africa do Sul e na que sofrem as consecíuên r te nos seus países. Elas m o, não têm casa, não podem ir à esc . Também durante o al, as nossas crianças estavam p1ivad sdireitos.. Com ~ o início da luta armada clamação dãF4, i dependência iniciou-se a 1 ue os nossos Cntinuadores cresçam saud' felizes. Muita' ..das já foram tomadas no-infantil, a campanha abertura de creches e e Este ano de 1979 é poi para todas as crianças e em 4tkub<a para os Continuadores Moçambicanos. D de o início do ano temos assistido à intensificação de iniciativas que têm como objectivo melhorar as condições de vida das nossas crianças: abriram-se novas creches a nível dos bairros e locais de trabalho, estão-se a construir TEMPO N.- 450 pág. 0<> 0 parques de diversões estão a ser exibidos filmes e publicados livros e vão desenvolver-se ainda muitas outras actividades que trarão o bem-estar e a felicidade dos nossos Continuadores. Declaração dos direitos da criança NOTA: Este texto foi-nos enviado pelo Ministério de Educação e Cultura, e enquadra-se nos textos de apoio para as escolas iniciados na Revista n.449. DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA CRIANÇA Poamada pela Assembleia das NaçOes Unidas no-dia 20 de Novembro de 1959 A criança gozará todos os direitos enunciados nesta Declaração. 1." Todas as crianças absolutamente sem qualquer excepção, serão credoras destes direitos, sem distinção ou discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nasci-' mento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família. 2.° A criança gozará protecção especial e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidades e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Na promulgação de leis visando este objectivo levar-se-ão em conta, sobretudo, os interesses superiores da criança. 3. D.sde o nascimento, toda a criança terá direito a um nome e a uma nacionalidade. 4. <,A criança gozará os benefícios de previdência social- Terá direito a crescer, criar-se com saúde e isto, tanto à criança como à mãe, será proporcionada protecção especial, inclusive adequados cuidados prée pós-natais. A criança terá direito a alimentação, habitação, recreação e assistência médica adequadas. 5. à criança incapacitada física ou mentalmente, ou que sofra algum impedimento social, serão proporcionados o tratamento a educação e os cuidados especiais exigidos pela sua condição peculiar. 6.° Para o desenvolvimento completo e harmonioso ds. sua personalidade, a criança precisa de amor e de compreensão. Criar-se-á, sempre que possível, sob cuidados e responsabilidade dos pais e sempre num ambiente de afecto e de segurança moral e material, salvo circunstâncias, excepcionais, a criança de tenra idade não será apartada da mãe. À sociedade e às autoridades caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem família e àquelas que carecem de meios adequados de subsistência. 2 desejável a prestação dc ajuda oficial ou de outra natureza para a manutenção dos filhos de famílias numerosas. 7.1 A criança terá direito a receber educação, que será gratuita e obrigatória pelo menos no grau primário, Ser-lhe-á propiciada, uma educação capaz de promover a sua cultura geral e capacitá-la a. em condições de iguais oportu'idades, desenvolver' as suas aptidões, sua capacidade de emitir juizos e seu senso ,de responsabilidade moral e social e a tornar-se um membro útil da sociedade. Os superiores interesses da criança serão a directriz a nortear os responsáveis pela sua educação e orientação; esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos pais. A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando aos propósitos mesmo da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo desse direito. 8., A criança figurará, em quaisquer circunstâncias, entre os primeiros a receber protecção e socorro. W, A criança deve ser protegida contra quaisquer formas de negligência, crueldade e exploração. Não será jamais objecto de tráfico, sob qualquer forma. Não será permitido à crianca empregar-se antes de uma idade mínima conveniente; de nenhuma for ma será levada a, ou ser-ihe-á permitido, empenharse em qualquer ocupação ou emprego que lhe prejudique a saúde ou a educação, ou que interfira em seu desenvolvimento físico, mental ou moral. 10.° A criança gozará protecção contra actos que possam suscitar discriminação racial religiosa ou de qualquer outra natureza. Criar-se-á num ambiente de compreensão, de tplerncia, de amizade entre os povos, de paz e de fraternidade universal e em plena consciência que o seu esforço e aptidão devem ser postos a serviço dos seus semelhantes. IM.E.C! TEMPO N., 450 - pág. 61 1111,0 m$STORICO DE MOÇÃUqU0 conto A VISITA "Há sonhos antigos que acordam como pássaros" poeta moçambicano A manhã cheirava a animais despertos e a raízes desenterradas durante a noite. No topo do monte via-se a aldeia, dispersa entre as árvores, lá ao fundo, e o vale extenso. O homem respirou fundo e descansou, um instante, ombro de encontro a uma árvore. Olhou o monte por onde des' cera e sorriu. Depois, sempre a sorrir, dirigiu-se à varanda da casa. É claro que a mulher já o vira. embora ela fingisse, como numa brincadeira, que procurava qualquer coisa no chão de terra batida. so, e sempre sorrindo, o olhar fundiu-se nesse ponUma lenta e acinzentada paz foi descendo sobre o to negro onde os ratos tinham entrado. coração do homem. A brisa levantou-se no fim da planície, ali onde «Bom-dia mana! Auée!» disse o homem, como começa o rio. Rolou pela terra dura e negra e, já se a acariciasse. perto da aldeia, transformouse numa grossa nuE ela, desfazendo o jogo, como que recuperan- vem de pó e partículas de capim, folhas de milho, do lentamente a consciência: cheiros tenros e odores húmidos. O homem via o «Auéc, mano! Correu tudo bem?» verde a marulhar, com o vento por cima. Pensou «Tudo bem, tudo muito bem» - disse o ho- também: «A machamba está ainda mais bonita do mem. que então. Daqui a pouco o milho há-de ficar da Então o homem depôs o pequeno saco de pano, altura de um homem.» de muitas viagens, sobre a varanda de terra, pôs- Apanhando o olhar dele, seu brilho bom, a mu-se a olhar de novo o monte por onde descera, as lher disse: outras casas espalhadas entre as árvores, voltou «Isso foi há muito tempo, mano.» a sorrir. Dir-se-ia que tinha uma necessidade ina- «12 sim, mana» - disse o homem. E sorriu diável e muito particular de sorrir sempre que se outra vez. punha a olhar paraa terra e as coisas. Devia amá- A mulher voltou-se e caminhou, segurando as -las muito. pontas da capulana que se haviam soltado, para o Havia uma promessa de chuva na manhã que outro lado da casa. O homem continuou a sorrir o homem já notara quando galgou o outro lado do e a olhar para a terra e as coisas. Por uma linha monte. Assim, nuvens escuras encavalitavam-se no imaginária que apanhava a esquina da palhota, agahorizonte baço, pássaros surpreendidos em pleno chada entre a louça de barro que esfregava lentavoo regressavam, aos gritos, para a copa das árvo- mente, a mulher via o homem, a sua estatura forte res e para esconderijos provisérios, entre o capim e acolhedora. Atirou várias mãos de água às pae os torrões mais grossos. O homem seguiu com nelas e, pegando numa, regressou para o pé do hoos olhos um casal de ratos do campo esgueirando- mem, na varanda. Só depois de dirigiu à porta, -se pelas pedras, até a meio do monte, no sítio gritou: «Randim, vem cá. Randim! onde, disfarçada, se via a reentrância de uma caver- Dentro, sobre a esteira, enrolado numa manta, na. «Refugiámo-nos ali quando começaram os pri- Randim abriu um olho. Estava escuro e frio dentro meiros bombardeamentos», pensou. A pensar nis- da palhota mas, ao abrir o outro olho, ele viu a TEMPO N.° 450 - pág. 62 claridade, uma claridade vaga, por entre as frinchas da porta. Sentiu risos baixos lá fora e foi nesse momento que o cão, surgido não se sabe de que esconderijo nocturno, irrompeu no interior da palhota, aos saltos. Olhou o rapaz como que a querer dizer-lhe qualquer coisa muito importante e, depois, num arranque súbito, atirou-se-lhe hs pernas. «Shuut, cão» - disse, ainda entontecido pelo sono. Mas tudo isso apenas serviu para excitar ainda mais o animal que, arrebatado, latia baixinho, num apelo estranho. Já de pé, Randim pôs a camisa, enfiou os chinelos de borracha e dirigiu-se à porta. O cão, sentado nesse intervalo sobre as pernas traseiras, deu um salto brusco e meteu-se-lhe entre as calças. «Shuut, cão», disse o rapaz, já meio zangado. E veio para a manhã; O cão pôs-se a correr, para o terreiro soltando latidos cada vez mais efusivos. Randim olhou lentamente o vulto ao lado da mãe, alguma coisa na memória se remexeu, mas Pada disse. O homem olhava-o com as pestanas levemente caídas, como que a esconder o brilho irónico das pupilas. Randim pôs-se a estudar a vestimenta esverdeada do homem, as botas cobertas de uma pesada carga de pó, onde se colavam fios de capim. Acocorada, rosto numa nuvem de fumo, a máe enchia nesse momento a boca de ar para soprar o fogo,: ainda débil, no chão de terra, aquecendo e iluminando-lhe, a espaços, as coxas fortes. Ao lado, atento, já calmo, o podengo. A mulher interrompeu o trabalho, olhou-os curiosamente, as pupilas húmidas e como que recolhidas pelo esforço de enfrentar o fumo acre. «Shuut, cão!» -disse, como se estivesse zangada. Mas as faces eram um grande sorriso já impossível de reprimir. «Você é Randim» ,- afirmou o homem. «Sou'», disse o rapaz, engrossando a voz. «E você quem é?» «Hum» - fez o homem. «Hum, hum» - e, apanhando o sorriso da mulher bem no meio dos seus olhos carregados de doce ironia, abriu a boca numa gargalhada alta, cantante, que voou de encontro ao céu cinzento. A brisa tomara-se forte, quase agressiva pela sua insistência entre a copa das árvores, e também pelas nuvens de pó que construía teimosamente lá ao fundo da planície. Um exército de sapos, minúsculos, atravessou em pulos cadenciados o terreiro nu. No horizonte, o céu tomara-se preto e nuvens de chuva, carregadas de água efogo, prepararam-se para o assalto. Semelhavam sombras de guerreiros antes da batalha, com squs instrumentos de luta e morte. 0 homem disse: «Vai chover» - E só nessa altura Randim compreendeu quem era ele, por que motivo estava vestido de verde, de verde coçado, e tinha assim as botas carregadas de matope e de fiapos de capí. Pôs-se a olhar sobressaltadamente para os lados, para o terreiro nu e alongou o exame até ao fim da aldeia, entre as árvores, para o ponto onde começava o carreiro que subia aos ziguezagues pelo monte. Afundou ali os ólhos como que a querer encontrar qualquer coisa de muito importante. O homem mexeu-sé e disse: «Não está ali. Deixei-a na floresta» - e voltou a sorrir. «Lá é mais seguro.» Depois o homem sorriu outra vez, voltou-se e pôs-se a caminhar. O rapaz seguiuo em silêncio, de cabeça baixa, como que concentrado. O homem caminhava como se desde que nascera não tivesse feito outra coisa. Terra, fiapos de capim, minúsculas pedras, rios imaginados, florestas acolhedoras, tandos estratégicos, montanhas inexpugnáveis, tudo isso aquelas botas e aquelas pernas devíam conhecer na intimidade. Eram, por outras palavras, botas experientes, botas históribas. A cinquenta metros da casa, praticamente no meio do terreiro, no sítio onde as nuvens de pó cresciam em tamanho e violência, o homem estugou o passo e o rapaz viu, pernas e botas, a experiência e a invencibilidade, a aguardá-lo sem sobressaltos. Depois, ao raspar incendiado da primeira faísca, o homem aguardou o trovão, esperou que a terra recolhesse o estrondo e que este se repartisse pelos montes e florestas. Antes da segunda faísca, ele voltou-se de súbito para o rapaz, disse calorosamente: «Sabes muito bem quem sou e porque tenho ali, na floresta a arma. Sabes ou não sabes?» E o rapaz: «Sei.» E o homem: <Você é já um homem e viu muito bem a nossa vida, não viu?» O rapaz não respondeu, e o homem continuou com o mesmo calor na voz: «Já não podemos parar as armas. Está decidido, rapaz. Agora já sabes por que vim. Ou não sabes?» E Randim: TEMPO N.o 450 - pág. 63 «Sei. Sei muito bem.» As nuvens abriram-se, a chuva pôs-se naturalmente a chover. Gotas minúsculas primeiro, depois, já engrossadas, formavam nuvens impenetráveis à altura das copas mais altas. A brisa, ainda perto, empurrava-as de mistura com folhas gastas e pequenos arbustos secos. Só quando o homem deixou que a chuva formasse fios de água em ambos os rostos é que voltou a sorrir. Depois, já transformados em cascatas humanas, o homem deixou Randim revolver-se entre os pontós de referência lá para trás. esses pontos que o faziam sentir calor embora estivesse de pé, sob a chuva fria, e que lhe formavam já uma pedra no estômago, o deflagrar de vertigens, náuseas espantosas: «Ontem, a tropa massacrou outra vez», disse o homem, sempre calmo, a água a fazer «uáaa» sobre a sua cabeça. «Três aldeias inteiras, nem uma criança escapou..É por isso quo digo que agora estamos muito mais decididos, estás a perceber?» Randim recorda-se vagamente: «O preto não é gente, o preto é animal.» Algures, dependurada numa janela, a mulher gritava para o velho mainato, debruçado sobre o tanque cheio de roupa. «Preto é pior qxe cão!» O velho lavava, mãos grossas arrepanhando o lençol branco. E a mulher, sempre aos gritos, pendurada na janela. Outros pontos de referência chegaram. E o rapaz sentiu-se transportado aos céus: ali, na areia hýmida da margem, entre as árvores que reflectiam suas tranças escuras nas águas do velho rio, os jacar~és preparavam as armãdinhas para alguns animais espantados pela borrasca; depois, sob o t-cto de palha, sabia que o chá estava pronto; sabia que os pássaros, no sobressalto húmido das copas, se amariam com mais vigor; que lá mais para longe, nas celas, nas plantações, nos quintais Úas cidades, nos porões, homens com séculos de cansaço cumpririam pacientemente, com uma paciênciL carregada de ameaças silenciosas, as tarefas de todos os dias. E sabendo-se tudo isso, era natural que o rapaz se sentisse mais velho. O homem dizia naquele moménto: «Porque há toda essa vida, a arma é necessária. Muitos irmãos também pensam assim. Vens comigo ou não?» O rapaz aferrava-se no entanto aos pontos de referência, com laboriosa obstinação: «Quem disse que cão arda com homem no machimbombo» era o polícia gordo, profissional e estúpido, para ele e para o seu amigo Miguel, carpinteiro de duzentos anos de paciência amargamente repartidos em quarenta de vida, nessa espécie de vida onde o ódio era o único alimento para as noites mal dormidas, quando a pele se inteiriçava de pasmo e inquietamento. Agora era outra coisa: o homem-memória, o gt.errilheiro-inteigêncía, a confirmar, sem raiva, sob a chuva e o céu baixo e escuro, que a arma resolveria tudo, quer dizer, parcialmente tudo. E que, outras coisas, como a experiência, o frémito reprimido na direcção do horror, a raiva alucinante de séculos, completariam a mudança, recomporiam a paisagem humana, transformariam, por outras palavras, aquela absurda integração, aquele paternalismo insultuoso em cálida possibilidade de se ser livre. «Vens comigo, claro que vens comigo» - disse o homem. E só então reparou que os seus olhos, por entre a chuva,' eram vibrantes de amor, e tudo isso, tudo isso mais a frescura da camisa colada à pele, deixavam-no leve, rendido. Era um comício estranho mas necessário. E ambos«eram árvores cujos braços se aproximavar solidariamente. Unida e escuramente, envolveram-se numa gargalhada, sob a chuva tagarela. Voltaram quando a chuva recolheu e dispersou. A mulher fazia devagar o embrulho da roupa. Disse: «Cuida dele, mano.» O homem e o-rapaz beberam o chá em goladas lentas e foram, lascando com os dentes pontas de cana. Pararam onde começava a estrada, com o cão entre eles e a casa, agitaram as mãos a mulher, envolvida agora por nuvens de fumo que, do chão, indicavam o fogo para o almoço. Ambos ainda viram a mulher pegar na enxada e dirigir-se para a pequena machamba, que começava mesmo atrás da casa. Então, mergulharam na floresta. Um casal de macacos, surpreendido a fazer amor, soltou-se aos guinchos. A dupla gargalhada, com inflexões metálicas,.a floresta recolheu um pouco nos seus limites e, só depois, retomando a sua forma, abriu passagens novas aos pés dos homens numa homenagem verde, carregada de certezas grandes. Um avião, no céu ainda baço, voava no habitual trajecto das aves migratórias. «Éi um Fiat» - apontou o homem. O rapaz assentiu, afagando com os dedos trémulos a automática que o outro lhe dera a guardar. A chuva apanhou-os três vezes antes de chegarem à base. Anton Simba - Maputo (1974) TEMF N.o 450 - pág. 64 . ~sTøh] GRAFICA, . SAe R*L, -f f. s~ i~Å par -. É lhetes,accåo