UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE NÚCLEO DE TECNOLOGIA EDUCACIONAL PARA A SAÚDE MESTRADO EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E SAÚDE ANA CARLA DOS SANTOS BEJA SOMOS QUEM PODEMOS SER... Um estudo das identidades docentes em construção no curso de Licenciatura em Química do IFRJ Rio de Janeiro 2013 Ana Carla dos Santos Beja Somos quem podemos ser... um estudo das identidades docentes em construção no curso de licenciatura em química do IFRJ Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação Ciências e Saúde, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requesito parcial à obtenção do título de Mestre em Educação em Ciências e Saúde. Orientadora: Dra. Flavia Rezende Valle dos Santos, Doutora em Educação /PUC-Rio. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde. Rio de Janeiro 2013 B423s Beja, Ana Carla dos Santos. Somos quem podemos ser... : um estudo das identidades docentes em construção no curso de Licenciatura em Química do IFRJ / Ana Carla dos Santos Beja. – Rio de Janeiro : NUTES, 2013. 118 f. ; Il. color. : 21 cm. Orientadora: Profa. Flavia Rezende Valle dos Santos. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Saúde) -- UFRJ, NUTES, Rio de Janeiro, 2013. Bibliografia: f. 114-119. 1. Formação de professores. 2. Identidade social. 3. Análise do discurso. I. Título. II. Siqueira, Vera Helena Ferraz de. CDD 371.3 Ficha elaborada pela Biblioteca de Recursos Instrucionais/NUTES Ana Carla dos Santos Beja SOMOS QUEM PODEMOS SER... um estudo das identidades docentes em construção no Curso de Licenciatura em Química do IFRJ Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação Educação em Ciências e Saúde, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do Título de Mestre em Educação em Ciências e Saúde. Aprovado em __________________________________ ______________________________________________________ Profa. Dra. Flavia Rezende Valle dos Santos – UFRJ ______________________________________________________ Profa. Dra. Alcina Maria Testa Braz da Silva – IFRJ ______________________________________________________ Prof. Dr. Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho – UFRJ Dedico a todos aqueles que reconhecem a complexidade do ato de ensinar. Agradeço... À professora Flavia Rezende, minha orientadora e co-autora nesse trabalho, por todo o aprendizado, pelas intermináveis horas de orientação e, principalmente, pela paciência, parceria e incentivo. Aos meus alunos, razão desse estudo, pelas interlocuções que contribuem para a construção da minha identidade docente. À professora Alcina Maria Testa, por acompanhar desde o começo essa trajetória, trazendo sempre valiosas contribuições. Ao professor Luiz Rezende, pelas contribuições no exame de qualificação e por aceitar participar dessa etapa final. Aos professores Alexandre Maia e Guaracira Gouvêa por aceitarem participar dessa etapa final. Aos meus colegas de mestrado, especialmente, Rachel Mariano, Denise Andrade, Juliana Dias e Anderson Nunes pelas trocas riquíssimas, risos e lanches especiais. À minha companheira de pesquisa e amiga Mara Lúcia, pelos diálogos sempre produtivos, pelo carinho e apoio. Ao amigo Aroaldo Veneu, pelas inspiradas e valiosas interlocuções e apoio nas horas mais difíceis. Ao amigo Armando Maia, pelos valiosíssimos conselhos, pela torcida e apoio. Às amigas do grupo de dança por compartilhar momentos especiais que me ajudam a crescer e a ser mais feliz. À amiga Gabriela Salomão, companheira de lutas e projetos, pelas trocas e parcerias nos embates discursivos. Às amigas Tatiana Leite e Theresa Picorelli, pela escuta, amizade, incentivo e os necessários encontros musicais e etílicos. Ao meu irmão Luis Beja, por todo o seu carinho. Obrigada por ter me achado! À minha pequena e amada Isa, luz da minha vida, por todo o seu amor, alegria e compreensão pelas intermináveis horas de estudo. Ao meu amado Giulliano Hoehne, por rechear a minha vida com amor, paixão e filosofia. O lado bom da vida! RESUMO O presente estudo teve como objetivo investigar o processo de construção identitária que vem sendo vivenciado por licenciandos em química do IFRJ campus Duque de Caxias. O corpus analisado corresponde às narrativas produzidas por quatro alunas do curso em dois momentos da trajetória formativa. O estudo tem como base teórica um diálogo entre aportes que concebem a construção da identidade – e, por conseguinte, da identidade docente – como fruto da criação linguística (Hall, 2011; Silva, 2011) e a filosofia da linguagem (Bakhtin, 1995). Um dispositivo analítico para análise bakhtiniana do discurso foi o instrumento utilizado para analisar as narrativas. A partir do quadro teórico adotado e da problemática da formação de professores das ciências da natureza, procuramos analisar a construção identitária, no discurso das licenciandas, a partir: das vozes presentes; do habitus pedagógico revisitado; da experiência prática vivenciada no PIBID e no estágio supervisionado; e dos processos de identificação vivenciados na trajetória formativa. A análise das construções discursivas e identitárias das licenciandas indicam uma aproximação entre os processos vivenciados por Marie e Irène, que significam o papel do professor como mediador do processo de ensino e uma aproximação entre os processos vivenciados por Ada e Dorothy, que identificam o papel do professor como um guia e missionário. As construções discursivas de Marie e Irène dialogam predominantemente com os conhecimentos pedagógicos ensinados no curso, enquanto as construções de Ada e Dorothy dialogam com o discurso oriundo das disciplinas específicas e com as práticas pedagógicas de professores anteriores ao curso. A experiência prática é valorizada em todos os enunciados e identificada como um momento privilegiado de relacionar teoria e prática. Procurando aprender sobre a construção da identidade docente a partir da singularidade dos processos encontrados, percebemos que: o discurso de Irène não nos dá pistas sobre o quanto o curso vem contribuindo para sua formação, visto que não traz marcas de embates enfrentados; o discurso de Marie interage com experiências anteriores quando reconhece a possibilidade atual de superação das falhas no ensino médio; os discursos de Ada e de Dorothy nos ensinam o quanto o processo de formação pode enfrentar a resistência a modelos de professores anteriores ao curso. Assim, os resultados da investigação confirmam a compreensão teórica de que identidade docente é construída no embate entre as teorias e as práticas, na avaliação sistemática das práticas desenvolvidas à luz das teorias, na elaboração e reelaboração de teorias. Avançamos em relação à revisão teórica mostrando como as experiências vivenciadas no âmbito da formação inicial são re-significadas em função da rede discursiva a qual estão mais ligadas, a experiências passadas e outras influências extraformação, que vão sendo colocadas em xeque, atualizando o modo de olhar a profissão e moldando a construção da identidade docente. Palavras-chave: Identidade, discurso, formação de professores de ciências da natureza, análise bakhtiniana. ABSTRACT The present study aimed to investigate the process of identity construction that has been experienced by undergraduates in chemistry in IFRJ, campus Duque de Caxias. The corpus analyzed corresponds to the narratives produced by four students in two moments of the formative trajectory. The study is based on a dialogue between theoretical contributions that conceive the construction of identity - and therefore the teaching identity - as a result of linguistic creation (Hall, 2011; Silva, 2011) and the philosophy of language (Bakhtin, 1995). An analytical device for Bakhtinian analysis of the speech was the instrument used to analyze the narratives. From the theoretical framework adopted and the problematization of science teachers’ education, we analyzed the identity construction in the students’ speech, examining: the voices brought to the discourse; the revisited pedagogic habitus; the practical experience they had in Pibid and in the pre-service teaching training; and the identification processes experienced in the formative path. The analysis of the students’ discursive and identity constructions indicates an approximation between the processes experienced by Marie and Irène, which signify the role of the teacher as facilitator of the teaching process and an approximation between the processes experienced by Ada and Dorothy, identifying the role of teacher as a guide and missionary. Marie’s and Irène’s discursive constructions predominantly dialogue with pedagogical knowledge taught in the course, while Ada’s and Dorothy’s constructions dialogue with the discourse arising from specific content disciplines and the pedagogical practices of teachers prior to the course. Practical experience is valued in all utterances and identified as a privileged moment to relate theory and practice. Seeking to learn about the construction of teacher identity from the uniqueness of the processes found, we realize that: Irène's speech gives us no clues about how the course has contributed to her formation, since there is no marks of struggles in it; Marie interacts with past experience when she recognizes the possibility of overcoming the current shortcomings in secondary education; Ada's and Dorothy’s speeches teach us how the training process may face resistance to previous models of teachers. Thus, the research results confirm the theoretical understanding of teacher identity that is built in the conflict between theories and practices, in the systematic evaluation of the practices developed in the light of theories, in the development and redevelopment of theories. We move in relation to theoretical review showing how the experiences within the training are re-signified as a function of discursive network which are more linked to past experiences and other influences extra training, which will be placed in check by updating the way of looking at the profession and shaping teacher identity construction. Key-words: Identity, discourse, science teachers’ training, Bakhtinian analysis. SUMÁRIO Introdução..........................................................................................................12 .Capítulo 1: Problematização 1.1 A formação de docentes das ciências naturais............................................15 1.2 Formação de professores de química em um novo lócus............................22 1.3 Formação de professores de ciências e a identidade docente....................26 Capítulo 2. Referencial teórico 2.1 A identidade em questão ............................................................................42 2.2 Identidade profissional docente...................................................................47 2.3 A construção da identidade nas interações verbais ...................................55 2.4 Objetivos geral e específicos.......................................................................60 Capítulo 3. Metodologia 3.1 Contexto do estudo.....................................................................................62 3.2 Sujeitos do estudo.......................................................................................65 3.3 Coleta de dados..........................................................................................66 3.4 Procedimentos de análise...........................................................................68 Capítulo 4. Análise das narrativas 4.1 Análise do primeiro momento de coleta de dados......................................72 4.1.1 Primeiras etapas do dispositivo analítico..................................................72 4.2 Análise dos enunciados...............................................................................74 4.2.1 Análise do enunciado de Marie.................................................................74 4.2.2 Análise do enunciado de Irène ................................................................76 4.2.3 Análise do enunciado de Ada...................................................................78 4.2.4 Análise do enunciado de Dorothy.............................................................81 4.3 Análise do segundo momento de coleta de dados......................................84 4.4 Análise dos enunciados...............................................................................86 4.4.1 Análise do enunciado de Marie.................................................................86 4.4.2 Análise do enunciado de Irène.................................................................90 4.4.3 Análise do enunciado de Ada...................................................................91 4.4.4 Análise do enunciado de Dorothy.............................................................94 Capítulo 5. Síntese das análises, discussão e considerações finais 5.1 Síntese das análises....................................................................................99 5.1.1. Síntese das análises do primeiro momento.............................................99 5.1.2. Síntese das análises do segundo momento..........................................101 5.1.3. Análise do processo de construção identitária......................................104 5.2 Discussão dos resultados..........................................................................107 5.3 Considerações finais..................................................................................111 Referências bibliográficas................................................................................114 12 Introdução (...) E aprendi que se depende sempre De tanta, muita, diferente gente Toda pessoa sempre é as marcas Das lições diárias de outras tantas pessoas E é tão bonito quando a gente entende Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá E é tão bonito quando a gente sente Que nunca está sozinho por mais que pense estar (Gonzaguinha) Este estudo nasceu da experiência que venho desenvolvendo como professora de Didática, Metodologia do Ensino de Química e Estágio Supervisionado no curso de licenciatura em química do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro desde março de 2010. A minha atuação como professora de disciplinas pedagógicas de um curso de formação de professores de química em uma Instituição marcada pela formação profissional e técnica tem, desde o início, suscitado em mim muitas reflexões e inquietudes. Muitas delas relacionadas ao processo formativo de meus alunos e, sobretudo, sobre o papel das disciplinas que leciono na formação do professor de química dentro de uma Instituição que possui uma forte tradição na formação técnica de químicos. Desta forma, no presente estudo buscamos investigar o processo de construção identitária que vem sendo vivenciado, ao longo do curso, por licenciandos em química do IFRJ campus Duque de Caxias. Essa investigação baseou-se em uma análise bakhtiniana do discurso das narrativas produzidas por quatro licenciandas em dois momentos distintos do percurso formativo. Essa dissertação está estruturada em cinco capítulos, além dessa introdução. O primeiro capítulo traz a problematização do estudo e está dividido em três seções. A primeira seção apresenta um panorama histórico da 13 formação de professores de ciências naturais e, mais especificamente, professores de química no Brasil. Nesse levantamento histórico são abordados os problemas vivenciados nessa formação ao longo dos anos, apontadas algumas ações legais que buscam reformar essa formação e alguns caminhos indicados nas pesquisas da área de formação de professores de ciências. Na segunda seção é abordada a criação dos Institutos Federais e a forma que esses espaços vêm se configurando como um novo lócus para a formação docente na área de ciências da natureza. Na última seção, apresentamos um levantamento sobre as pesquisas da área que tratam da identidade docente. O segundo capítulo também está dividido em três seções. Na primeira apresentamos o referencial teórico por meio do qual vamos refletir sobre a questão da identidade. Na segunda seção discutimos como a identidade profissional é compreendida em alguns estudos sobre formação docente e na última seção procuramos mostrar como os estudos da enunciação, numa perspectiva bakhtiniana, podem contribuir para a investigação sobre o processo de construção das identidades docentes. O terceiro capítulo está dividido em quatro seções. Na primeira seção apresentamos o contexto no qual a pesquisa foi desenvolvida. A segunda seção traz a caracterização dos sujeitos do estudo. Nas duas últimas seções descrevemos a forma como foram coletados os dados e apresentamos o dispositivo analítico que nos auxiliou na análise dos dados da pesquisa. O quarto capítulo traz a análise das narrativas produzidas pelas licenciandas nos dois momentos de coleta, organizada de acordo com as etapas do dispositivo analítico utilizado. O quinto e último capítulo está dividido em três seções. A primeira seção traz uma síntese das análises das narrativas de cada licencianda destacandose processos de identificação e a relação entre os dois momentos de coleta de dados, destacando-se o processo (mais longo) de construção identitária. Na segunda seção buscamos discutir os resultados encontrados à luz do referencial teórico apresentado no capítulo 2 e das contribuições da revisão bibliográfica apresentada no primeiro capítulo. Na última seção tecemos algumas considerações sobre os resultados encontrados e buscamos apontar possíveis contribuições da pesquisa realizada. 14 Capítulo 1: Problematização “A docência não é um estado ao qual se chega, e sim um caminho que é feito.” Juan Manoel Alvarez 15 Capítulo 1. Problematização Neste capítulo será apresentado um panorama histórico da formação de professores de ciências naturais, em especial professores de química, bem como os problemas vivenciados nessa formação, apontados nas pesquisas da área. Serão abordadas ainda, algumas ações governamentais que buscam promover mudanças na formação desses professores e como a questão da identidade docente vem sendo investigada dentro da área de ensino de ciências. 1.1 A formação de docentes das ciências naturais As discussões acerca da formação de professores têm ocupado bastante espaço no debate educacional brasileiro. Segundo Schnetzler (2000), nos últimos tempos tem-se produzido vasto material sobre a formação docente em geral e, particularmente, sobre a formação de professores das ciências naturais. Tais trabalhos abordam problemas relativos ao desempenho profissional desses professores e “expressam constatações de que geralmente os professores têm sido mal formados e que, por isso, não são/estão preparados para darem ‘boas aulas’ em quaisquer níveis de escolaridade” (p. 13). A autora nos alerta para o fato de que, embora essa vasta produção tenha trazido inúmeras contribuições, por meio de pesquisas que buscam melhorar a formação docente, ao longo dos anos poucas modificações foram alcançadas. Grosso modo, parece que a formação de professores nessa área não sofreu alterações significativas em seu modelo desde o início da década de 1930, quando foi iniciada. Ciríaco (2010) afirma que os primeiros professores da disciplina escolar química eram autodidatas e/ou profissionais liberais, principalmente aqueles relacionados à área de saúde, que não possuíam formação pedagógica. O ensino dessa disciplina se desenvolveu com base no modelo pedagógico 16 tradicional, abordando conteúdos clássicos, tendo como referência livros produzidos na França. Em 1931, a denominada Reforma Francisco Campos sancionou decretos que organizavam o ensino secundário e superior no Brasil e ainda, regulamentava questões relacionadas às licenças concedidas aos professores que atuariam na educação secundária. De acordo com as disposições dessa reforma, o ensino secundário, que na ocasião era divido em dois ciclos (fundamental e complementar), deveria contemplar o ensino de química nas três últimas séries. Conforme destaca Ciríaco (2010) a década de 1930 representou: [...] um grande avanço na presença do ensino Química na escola de nível Secundário (atual ensino Médio), com a disciplina Química sendo um dos pré-requisitos para o ingresso em cursos superiores nas áreas de saúde e ciências exatas e da natureza. (...) Nesse período foram implantados os gabinetes de demonstrações para as aulas de Química, onde os alunos assistiam a ilustração de experiências manipuladas pelos docentes e/ou laboratorista. (p. 40) Dentro dessa Reforma, o decreto n.º 19.852 agregou à Universidade do Rio de Janeiro a Escola de Belas Artes, o Instituto Nacional de Música e a Faculdade de Educação, Ciências e Letras. De acordo com os artigos 196 e 199 a Faculdade de Educação, Ciências e Letras estava incumbida de ministrar: [...]o ensino superior de diversas disciplinas com os objetivos de ampliar a cultura no domínio das ciências puras; de promover e facilitar a prática de investigações originais; de desenvolver e especializar conhecimentos necessários ao exercício do magistério; de sistematizar e aperfeiçoar, enfim, a educação técnica e científica para o desempenho profícuo de diversas atividades nacionais. À Faculdade de Educação, Ciências e Letras coube ainda, a organização de três seções: a seção de Educação, que compreendia disciplinas consideradas fundamentais e de ensino obrigatório para os que pretendiam ter a licença nas ciências da educação; a seção de Ciências, que compreendia disciplinas pertinentes à Matemática, à Física, à Química e às Ciências Naturais, as quais, para os efeitos da expedição de diplomas, seriam distribuídas em séries de estudo obrigatório, para os que pretendiam possuir a 17 licença em Ciências Matemática, Física, Química ou Naturais. E, por fim, a seção de Letras compreendia as disciplinas julgadas essenciais e de ensino obrigatório para os que pretendiam ter a licença em Letras, Filosofia, História, Geografia e Línguas Vivas. No entanto, a função de formar professores destinada a Faculdade de Educação, Ciências e Letras não chegou a ocorrer de fato até 1939. Em 1937 a Universidade do Rio de Janeiro passou a se chamar Universidade do Brasil com a Lei n.º 452, que reorganizou a Instituição. No ano de 1939 foi criada nessa universidade a Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) que tinha entre outras finalidades preparar candidatos ao magistério do ensino secundário e normal. A FNFi era formada por quatro seções: filosofia, Ciências, Letras e Pedagogia e uma seção especial de Didática. De acordo com Massena (2010), o curso de Química pertencia a seção de ciências, poderia ser feito em três séries e ao final o estudante seria bacharel em Química. Para receber a habilitação ao magistério bastava que o estudante concluísse posteriormente o curso de didática para que fosse conferido o diploma de licenciado no grupo de disciplinas referentes ao seu curso de bacharelado. Essa modalidade de formação para o magistério ficou conhecida como três-mais-um. Voltada também para a formação de professores secundários a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) vinculada à Universidade de São Paulo (USP), criada em 1934, adotou a mesma estrutura de curso baseado no modelo três-mais-um, bem característico de uma formação calcada na racionalidade técnica. Como afirma Schnetzler (2000) esse modelo privilegia um sólido conhecimento teórico e concebe o professor como um técnico, pois compreende a sua atividade como essencialmente instrumental, direcionada para a solução de problemas por meio da aplicação de teorias e técnicas previamente trabalhadas. Em março de 1946 foram publicados os Decretos 9.092 e 9.053 indicando, pela primeira vez, preocupação com a necessidade da prática de ensino nos cursos de licenciaturas. Esses decretos estabelecem a criação de Ginásios de Aplicação nas Faculdades de Filosofia do país, tornando obrigatória aos licenciandos a formação didática, teórico-prática nesses ginásios. 18 Em 1962 o Conselho Federal de Educação (CFE) por meio do Parecer n.º 292, procura acabar com o esquema três-mais-um; modificando as denominações Geral e Especial da Didática, substituindo a Didática Especial pela Prática de Ensino com o caráter de Estágio Supervisionado. Esse mesmo parecer, desobriga a utilização dos Ginásios de Aplicação como campo de estágio para os licenciandos e determina a diminuição da carga horária da parte pedagógica das licenciaturas de 1/4 para 1/8 do total de horas do curso, o que equivalia a um semestre letivo. De acordo com Dall’orto (1999) a Reforma Universitária de 1968, tinha como um de seus objetivos fortalecer a iniciativa de superação do modelo de formação três-mais-um, modificando a estrutura do curso, onde as disciplinas pedagógicas deveriam ser oferecidas concomitantes as de conteúdo específico ao longo dos quatro anos de graduação. Segundo a autora esse objetivo não foi alcançado na prática. A separação teórica antes existente (conteúdo específico x formação pedagógica) acabou sendo mantida após a reforma estrutural feita no interior da Universidade separando os Institutos Básicos, responsáveis pelos conteúdos específicos, e a Faculdade de Educação, responsável pela formação pedagógica. (p. 13) Dessa forma, as medidas estabelecidas por essa reforma contribuíram apenas, para reforçar o isolamento das disciplinas específicas em relação às pedagógicas e vice-versa. Produzindo uma grade curricular dividida em dois trajetos paralelos e incomunicáveis (SCHNETZLER, 2000). Ainda no período da ditadura foi promulgada a segunda LDB 5.692/71 que na tentativa de atender a demanda por formação de professores, provocada pela expansão do ensino obrigatório para oito anos, condiciona a preparação para o magistério de 1º e 2º graus às possibilidades formativas de cada região. Para Mesquita e Soares (2010) nesse período foram tomadas outras iniciativas governamentais voltados para solucionar a carência de professores para o ensino secundário, em especial nas áreas das Ciências como a química e a física, como a formação por meio dos chamados Esquemas I e II e as licenciaturas curtas. Normatizados pelos Pareceres do Conselho Federal n.º 111 e 151 de 1970, foram criados os cursos de formação rápida conhecidos como Esquema 19 I, para profissionais de nível superior, e Esquema II, para profissionais de nível médio. Nesse modelo o profissional de nível superior seria habilitado como professor após uma complementação pedagógica de 600 horas. Para os portadores de diplomas de técnico de nível médio, o Esquema II oferecia uma complementação de 1.080 a 1.480 horas. Mesquita e Soares (2010) chamam a atenção para o fato desse modelo de formação ter alcançado grande abrangência nacional, especialmente nas regiões nas quais não havia cursos de licenciatura capazes de atender as demandas locais, como previa o texto da LDB de 1971. A vigência desses cursos foi estendida, de modo geral, até a década de 1980, e, no caso do Esquema I, até a década de 1990. A outra alternativa implementada na tentativa de resolver a escassez de licenciados para o magistério do ensino médio foi a legalização, através do Parecer 895/71 do CFE, do modelo de formação das licenciaturas curtas, já praticadas nas instituições privadas desde 1965. Esse modelo sustenta a ideia, segundo Mesquita e Soares (2010), do professor polivalente, habilitado a atuar no 1º e 2º graus e em disciplinas diferentes. Embora esse modelo tenha recebido críticas no meio acadêmico e científico, em 1975 a resolução n.º 37 obrigou a implantação do novo currículo, nos moldes da licenciatura curta, nas instituições que formavam professores nas áreas de Ciências. Para Ciríaco (2010), essa política educacional produziu uma formação precária de professores na área de Ciências naturais, uma vez que, ao fim de dois anos apenas de estudos, esse estudante estaria “pronto” para lecionar. Mesmo sendo vista como precária essa proposta de formação sobreviveu até a promulgação da atual LDB 9.394/96 que exige a licenciatura plena como habilitação necessária ao magistério na educação básica. Para Schnetzler (2000, 2008), os cursos de licenciatura em química do presente apresentam praticamente os mesmos valores e os mesmos padrões observados no passado. A superação do modelo três-mais-um não foi de fato alcançada, de acordo com a autora “o fato de, nesse âmbito, serem incluídas algumas disciplinas pedagógicas na ‘grade curricular’ não confere (...) a necessária preparação docente” (2000, p.14). De acordo com a autora, os cursos de licenciatura em química são, na verdade, “um bacharelado 20 ‘contaminado’ com algumas disciplinas pedagógicas”, e estas, sozinhas, não são capazes de transformar um bacharel em licenciado (2000, p.22). Dessa forma, Schnetzler (2000; 2008) destaca que a formação oferecida na maioria dos cursos de licenciatura em química ainda está atrelada a uma visão simplista que concebe o ato de ensinar como algo fácil, que necessita apenas de conhecimento do conteúdo específico e algum domínio técnicopedagógico. A autora afirma que ao fim do curso de licenciatura o que vemos são professores incapazes de lidar com a complexidade do ato pedagógico, o que nos leva à triste constatação da grande ineficácia dos cursos de licenciatura. Para Silva e Oliveira (2009), nos cursos de Licenciatura em Química oferecidos pelas universidades, de modo geral, o que ganha relevância é a formação do químico em detrimento a formação do professor de Química ou educador químico, uma vez que a formação pedagógica é considerada no âmbito universitário como algo menor. Esses autores argumentam que a formação de um professor de Química deve ser baseada na garantia de um bom conhecimento sobre a Química e sobre como se ensinar Química, apontando assim a complexidade dessa formação. Para o desempenho competente de sua função o docente deverá estabelecer um diálogo profícuo entre a área de Química e a área de Ensino de Química. No entanto, o que ocorre na maioria dos cursos de Licenciaturas em Química é um enfoque maior na área do conhecimento específico, a fim de garantir que ao licenciando um forte embasamento teórico e prático na área de Química. Se pararmos para analisar como são as aulas dos conteúdos específicos, isto é, as aulas de Físico Química, Orgânica, Analítica, Inorgânica, Bioquímica, em algumas universidades (com a sensação de ser a maioria!), notaremos um grande enfoque na racionalidade técnica. Parece que os docentes da universidade se esquecem de que estão formando (ao menos no papel!) professores de Química para a educação básica, e que estes necessitam de outros fundamentos para que possam atuar nas escolas, durante suas aulas. A articulação entre conhecimento específico (químico) e conhecimento pedagógico parece não ser responsabilidade dos docentes das disciplinas de conteúdo específico (Silva e Oliveira, p. 46). Em pesquisa realizada sobre um curso de Licenciatura em Química de uma universidade pública paulista, Silva e Oliveira (2009) destacam como uma 21 característica marcante da instituição investigada a grande ênfase na formação de pesquisadores nas áreas tradicionais da Química, relegando a formação de professores à segundo plano e desprezando a pesquisa em Ensino de Química, fato que para os autores é comum em outras instituições. O foco dos cursos de licenciatura em química é, sem dúvida, a formação de professores para o magistério na educação básica. Sendo assim, esses cursos devem ofertar uma formação capaz de abranger diferentes conhecimentos e/ou saberes relacionados ao exercício adequado da docência, como os saberes específicos (relacionados à área de formação), os saberes pedagógicos (relacionados ao processo ensino –aprendizagem) e os saberes práticos ou da experiência. Para que isso ocorra, de acordo com Almeida e Biajone (2007 apud SILVA e OLIVEIRA, 2009), é preciso que os cursos de licenciatura e seus professores formadores implementem práticas e instrumentos de formação inovadores “como estudos de caso e práticas, estágios de longa duração, memória profissional, análise reflexiva, problematizações etc.” (p.43) No entanto, o que observamos é que o perfil profissional desejável para o professor de química não é de fato alcançado, e os motivos apontados pelas pesquisas sobre formação inicial de professores evidenciam o descaso com a formação docente e a desvalorização do magistério no interior das próprias instituições formadoras. Nesse contexto, os cursos de química, bem como seus professores formadores, voltam todas as atenções muito mais para a formação de um bom químico do que para a formação de um professor de química competente e consciente do seu papel social. Os cursos de licenciaturas são encarados dentro das universidades como inferiores e são considerados como incapazes de construir um conhecimento próprio, “versões empobrecidas dos bacharelados e com algum recheio didático-operatório apenas, como se educar não exigisse um saber próprio, rigoroso e consistente” (MARQUES, 2003, p.172). Dessa forma, torna-se patente a necessidade de se discutir o processo de formação dos professores das ciências naturais. Nos últimos anos, um dos caminhos apontados pelas pesquisas sobre a formação inicial de professores traz à tona a discussão sobre a identidade profissional do professor. De acordo 22 com Pimenta e Lima (2011), a investigação sobre a identidade docente nos indicará quais os significados que cada professor atribui a sua atividade profissional, significados esses que se encontram carregados de valores, conceitos, representações e saberes a respeito do ato pedagógico. Este caminho pareceu-nos apropriado para compreender a formação inicial no contexto institucional em que este estudo será realizado na medida em que claramente estão em jogo diferentes valores e concepções de formação docente, nos interessando saber como essas diferenças se colocam na construção da identidade docente. 1.2 Formação de professores de química em um novo lócus Paralelamente à necessidade de revisão do modelo de formação de professores das ciências naturais apontada por inúmeras pesquisas, outro problema que vem sendo enfrentado é a escassez de professores dessa área. Embora Mesquita e Soares (2010) afirmem que a ampliação da oferta de cursos de licenciatura em química teve continuidade “nas décadas de 1990, 2000 e 2010 em decorrência, principalmente, da promulgação da Lei 9394/96 que determina a formação em licenciatura plena como requisito mínimo para o exercício do magistério na Educação Básica,” (p. 173) a carência de professores nessa área ainda é muito grande. Conforme atesta o relatório Escassez de professores no Ensino Médio: propostas estruturais e emergenciais (RUIZ; RAMOS; HINGEL, 2007), elaborado por uma comissão instituída na Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, os casos mais preocupantes de falta de professores estão relacionados às áreas de Física, Química e Matemática. Esse relatório destaca que a necessidade de professores de Química para atuarem no ensino médio, entre os anos de 1990 e 2011, era de cerca de 55 mil professores, no entanto, pouco mais de 15 mil licenciados em Química conseguiram concluir seus cursos nesse período. Esse documento apresenta ainda um dado que merece atenção: o alto índice de evasão dos cursos de Licenciatura em Química (75%) é o maior apresentado entre os cursos de licenciatura. 23 O relatório aponta, entre outras coisas, a necessidade de se instituir uma política nacional de formação de professores, com prioridade para as licenciaturas em Ciências da natureza e Matemática. Esse documento apresenta como proposta de superação da escassez de docentes: a formação de professores por licenciaturas polivalentes, estruturação curricular envolvendo a formação pedagógica, criação por parte do MEC de programas de incentivo às licenciaturas, concessão de bolsa de incentivo à docência e ampliação e supervisão da qualidade da oferta de cursos de licenciatura à distância. Dentre as soluções emergenciais, o relatório indica a contratação de profissionais liberais para atuarem como docentes no Ensino Médio, mediante a realização de complementação pedagógica. O documento sugere, também, o aproveitamento emergencial de alunos da licenciatura para a docência, das disciplinas com déficit de professor, nas escolas públicas. Em resposta às demandas apresentadas no relatório, o Governo Federal, entre outras medidas, cria em 2007 o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). A proposta desse programa é oferecer bolsas de iniciação à docência a alunos de cursos de licenciatura presenciais que tenham interesse em se dedicar ao estágio nas escolas públicas e que, quando graduados, se comprometam com o exercício do magistério na rede pública. Outra medida adotada pelo Governo Federal foi a criação em dezembro de 2008 dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFETs). A criação dos IFETs ocorreu através da transformação de 31 centros federais de educação tecnológica (CEFETs), 75 unidades descentralizadas de ensino (UNEDs), 39 escolas agrotécnicas, 7 escolas técnicas federais e 8 escolas vinculadas a Universidades, somadas a novas unidades a serem construídas até 2010, em 38 Institutos Federais, distribuídos em todos os estados brasileiros. (BRASIL, 2008) Os IFETs são definidos como: [...]instituições de educação superior, básica e profissional, pluricurriculares e multicampi, especializados na oferta de educação profissional e tecnológica nas diferentes modalidades de ensino, com base na conjugação de conhecimentos técnicos e tecnológicos com as suas práticas pedagógicas (BRASIL, 2008, Art. 2º - Parágrafos 1º e 2º). 24 Esses Institutos nascem com a missão de oferecer, de acordo com suas peculiaridades locais: educação profissional técnica de nível médio; cursos de formação inicial e continuada para trabalhadores na educação básica e profissional; atividades de pesquisa e extensão; e, no ensino superior, cursos superiores de tecnologia e de bacharelado em engenharias, cursos de licenciatura e de formação pedagógica para professores da educação básica e ainda cursos de pós-graduação. A Lei 11.892/2008 que cria os IFETs define que pelo menos 20% das vagas devem ser ofertadas em cursos de licenciaturas para a educação básica, com prioridade para as áreas de ciências e matemática e para a educação profissional. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ) criado pela referida Lei possui uma longa trajetória na formação técnica na área de Química, tendo se originado com o Decreto-Lei nº 4.127, de fevereiro de 1942, em seu artigo 4, que previa a criação de uma Escola Técnica de Química, cujo funcionamento só teve início em 6 de dezembro de 1945, com a criação, pela Escola Nacional de Química da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Curso Técnico de Química Industrial (CTQI), através do Decreto-Lei nº 8.300. Este curso funcionou nas dependências da Universidade do Brasil de 1945 a 1946, logo em seguida, mesmo mantendo a vinculação administrativa com essa Universidade, o curso passou a funcionar em espaço cedido pela Escola Técnica Nacional (ETN), atual Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ). Apenas em 16 de fevereiro de 1956, quando foi promulgada a Lei nº3.552, segunda Lei Orgânica do ensino Industrial, foi criada a Escola Técnica de Química (ETQ), autarquia que tinha como missão a oferta do Curso Técnico de Química Industrial. Mais tarde a ETQ passou a ser denominada Escola Técnica Federal de Química (ETFQ) e Escola Técnica Federal de Química do Rio de Janeiro (ETFQ-RJ). Durante 40 anos a Instituição permaneceu funcionando nas dependências da ETN oferecendo o Curso Técnico de Química. Em 1981, a ETFQ-RJ, em sintonia com o processo de desenvolvimento industrial e tecnológico do país, criou o Curso Técnico em Alimentos. Somente em 1986 a Instituição conquista a sua sede própria no bairro do Maracanã, e em 1988 é criado o curso Técnico em Biotecnologia com o 25 objetivo de formar técnicos qualificados para o novo e promissor mercado de trabalho. Na década de 90, a ETFQ-RJ fundou uma Unidade de Ensino Descentralizada no Município de Nilópolis, com oferta de cursos técnicos em Química e Saneamento. Em 1999 a ETFQ-RJ teve sua sede transferida para Nilópolis quando foi transformada em Centro Federal de Educação Tecnológica de Química – CEFET Química/RJ. Como Instituição de nível superior, o CEFET Química/RJ assumiu novas responsabilidades e passou a oferecer cursos de graduação e de pós-graduação. Em 2002 ocorreu a implantação dos primeiros cursos superiores da Instituição, o Curso Superior de Tecnologia (CST) em Produção Cultural, no município de Nilópolis e o Curso Superior de Tecnologia em Processos Industriais, no Rio de Janeiro. O IFRJ começou a atuar na formação de professores em 2004, ainda como CEFET Química/RJ, quando foram criados os cursos de Licenciatura em Química e Licenciatura em Física no município de Nilópolis. Posteriormente, em 2007, foi iniciado o Curso de Licenciatura em Matemática, também em Nilópolis. Em 2009, já como IFRJ, ocorreu a expansão dos cursos de licenciatura, com a implantação do Curso de Licenciatura em Química no Campus Duque de Caxias e os Cursos de Licenciatura em Matemática e Física no Campus Volta Redonda. No que se refere ao aumento de vagas nas licenciaturas de Química, especialmente as recém criadas em algumas Instituições de ensino superior, Rossi e Ferreira (2008) destacam a importância de uma reflexão cuidadosa “sobre a organização curricular desses cursos, pois há peculiaridades que remetem à discussão do perfil dos professores a serem formados e ao impacto das IES em questões que envolvem a qualidade do ensino”. (p.131) Dessa forma, é preciso estar atento para que essa ampliação quantitativa dos cursos de Licenciatura seja acompanhada de uma significativa melhoria no ensino. Com o objetivo de estabelecer critérios mínimos para o funcionamento dos cursos de licenciatura o Conselho Nacional de Educação publicou em fevereiro de 2002 a Resolução n.º 01/02 que institui as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores da Educação Básica, estabelecendo 26 que o tempo destinado a dimensão pedagógica não deve ser inferior a quinta parte da carga horária total do curso. Esse dispositivo legal prevê também que a prática deverá permear toda a formação do professor, desde o início, não se restringindo ao momento do estágio no final do curso. O estágio supervisionado, de acordo com a resolução, deverá ter início a partir da segunda metade do curso. No entanto, estudos recentes destacam que embora o documento indique que todas as disciplinas devem ter a sua dimensão prática, o que ocorre de fato é que essa prática acaba ficando limitada à disciplina Didática e as Didáticas específicas. Sendo assim, as práticas instituídas nos cursos de formação inicial permanecem as mesmas de outrora. O processo de mudança histórica pelo qual passam essas instituições, cuja finalidade original foi a formação técnica de nível médio e que possuem, por isso, uma forte tradição na formação de técnicos na área de química, para atender à necessidade de formação de professores das ciências naturais no país, juntamente com a necessidade de revisão dos cursos de formação inicial de professores de ciências, apontada por diversas pesquisas da área, torna bastante relevante o estudo sobre o processo de construção identitária na formação inicial de professores de química nos cursos de licenciatura oferecidos nos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. Antes da ampliação do escopo destas instituições, o conhecimento técnico era o objetivo e o sentido de sua existência. Recentemente, com a incorporação da formação pedagógica visando à formação de professores de química, pode-se perceber que há a convivência de pelo menos dois discursos circulando entre professores e alunos. A compreensão da construção da identidade de professores que estão se formando neste contexto pode nos indicar qual o valor atribuído pelos licenciandos à formação docente, como cada um se posiciona frente à prioridade dada ao conhecimento específico em detrimento do conhecimento pedagógico, e como vêm se preparando para o enfrentamento da complexidade do ato de ensinar. 1.3. Formação de professores de ciências e a identidade docente 27 Com o objetivo de realizar uma análise da produção científica sobre a identidade docente na formação de professores na área de educação em ciências, foi realizada uma busca com a expressão “identidade docente” em cada um dos oito periódicos nacionais recomendados no site da Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (ABRAPEC) e nos resumos indexados no banco de teses da CAPES. A pesquisa foi feita nas produções publicadas no período de 2001 à 2010 com as expressões: “identidade docente” e “formação de professores de ciências”. Dentre os periódicos consultados, apenas dois retornaram resultados para a pesquisa efetuada. Os periódicos Ciência e Educação apresentou um artigo e Investigações em Ensino de Ciências apresentou como resultado da busca 34 artigos dos quais apenas um apresentava no seu resumo e/ou nas palavras-chave a expressão “identidade docente”. Dessa forma, os demais artigos foram descartados. Dentre os dois artigos encontrados nos periódicos da área, apenas um aborda o tema identidade docente relacionando-o com professores da área de ciências especificamente. No artigo “Os discursos produtores da identidade docente”, Loguercio e Del Pino (2003) apresentam um estudo sobre a identidade docente realizado através da análise do discurso de inspiração foucaultiana. O trabalho busca pôr em evidência os diferentes discursos que compõem a identidade docente, bem como os desafios enfrentados pelos novos/as professores/as em sua chegada à escola. Como referencial teórico metodológico, os autores se utilizam das ideias de Hall (apud LOGUERCIO e DEL PINO, 2003) para discutir a identidade e a cultura escolar e Foucault (apud LOGUERCIO e DEL PINO, 2003) como orientação metodológica para a análise do discurso. Monteiro e Teixeira (2004), no artigo “O ensino de física nas séries iniciais do ensino fundamental: um estudo das influências das experiências docentes em sua prática em sala de aula” discutem a influência que singularidades relacionadas à identidade docente possuem sobre a forma pela qual professoras das séries iniciais do ensino fundamental conduzem atividades de conhecimento físico com seus alunos em suas aulas de ciências. SCHON , NÓVOA , ZEICHNER e PIMENTA (apud MONTEIRO e TEXEIRA, 2004) foram utilizados pelos autores como referencial para discutir a identidade 28 docente e para a análise das narrativas produzidas pelos professores participantes da pesquisa. Na pesquisa realizada no banco de teses da Capes foi possível identificar 12 resumos de trabalhos que abordam o tema identidade docente relacionado à formação de professores de ciências. Sendo 10 trabalhos em nível de mestrado e dois em nível de doutorado. A partir dessa pesquisa foi possível verificar que as produções realizadas no âmbito dos programas de pós-graduação scricto sensu estão distribuídas de forma equilibrada entre quatro das cinco regiões do país. A região nordeste é a única que não apresenta nenhuma pesquisa realizada sobre o tema identidade docente, na área de educação em ciências, no período compreendido entre o ano de 2001 ao ano de 2010. Pudemos perceber que a partir do ano de 2006, o tema foi tratado com maior freqüência e que oito dos 12 trabalhos foram desenvolvidos em universidades federais. Dentre os 12 resumos encontrados, três se referem a estudos desenvolvidos em programas de pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática (UEL e UFPA); um resumo está relacionado a um estudo desenvolvido no programa de Ciências Biológicas (UFRGS), na linha de pesquisa de estudos em educação em ciências e um resumo apresenta o estudo realizado na linha de pesquisa em educação e ciências vinculada ao programa de pós-graduação em Educação da UFMG. Os demais resumos apresentam pesquisas realizadas em programas de pós-graduação em Educação (seis) e em Psicologia (um) em diversas linhas de pesquisa sem relação direta com a educação em ciências. Dentre os trabalhos analisados, três abordam o tema identidade relacionado à formação continuada, sete tratam da formação inicial e um trabalha com dados referentes às duas modalidades de cursos de formação de professores. O exame das dissertações e teses defendidas no período de 2001-2010 mostra que a produção discente nos programas de pós-graduação ainda se apresenta de forma muito discreta em relação ao tema identidade docente. Lopes (2001) aborda, na dissertação “Ciências naturais e química: saberes epistemológicos na construção das identidades docentes”, aspectos da identidade e dos saberes docentes. Essa investigação foi realizada com um 29 grupo de professores de química e ciências, em atuação na Escola Básica, participantes de um curso de formação continuada. No curso, foram abordadas questões referentes à constituição da identidade docente, tendo como ponto de partida as representações de ciências e química que estes professores constroem/construíram e sua integração com as representações do ser professor e professora. Estas representações foram analisadas a partir dos textos (falados e escritos) produzidos pelo grupo em situações de debate, entrevistas, produção textual e outras situações vivenciadas no decorrer do curso. O autor se apoia nos estudos de Hall e Tardif (apud LOPES, 2001) como referencial teórico para o desenvolvimento da pesquisa. Na tese de doutorado “Re-significação do papel da psicologia da educação na formação continuada de professores de ciências e matemática”, Almeida (2001) investigou as possibilidades de re-significação do papel da Psicologia da Educação na formação continuada de professores de Ciências e Matemática, através de pesquisa desenvolvida no período de realização do projeto inscrito no programa de aperfeiçoamento para docentes do ensino médio. A pesquisa teve como sujeitos os professores de Biologia, Física, Matemática e Química, do ensino médio do Distrito Federal, matriculados nos Cursos realizados em 1997 e 1998. Em 1997, a amostra foi composta de 98 sujeitos e em 1998 de 281 sujeitos. A metodologia adotada foi a pesquisa-ação e os procedimentos utilizados foram: questionário semi-estruturado, memória educativa, registros da prática docente, seminários temáticos, resenha de livro, análise crítica de filmes e questionário de avaliação final do módulo. Nesse trabalho os elementos objetivos e subjetivos do processo de formação ou (de) formação e da construção identitária do ser professor foram investigados, apoiando-se em pressupostos epistemológicos e princípios norteadores inspirados no paradigma da complexidade (da inter para a transdisciplinaridade), no compromisso social (relações ciência, tecnologia e sociedade), na profissionalização (para além da reflexão e pesquisa da prática) e nas competências e habilidades pessoais e profissionais. Morin, Nóvoa e Candau (apud ALMEIDA, 2001) foram usados como referência nessa pesquisa. O estudo realizado por Pandolpho (2006),“O ensino de biologia em questão: os vazios e as referências da graduação na atuação docente na voz dos egressos”, teve como objetivo conhecer a eficácia da formação inicial, 30 proporcionada pelos cursos de graduação em Ciências Biológicas, para a docência em Biologia, através dos olhares e experiências de professores dessa disciplina em exercício no Ensino Médio em escolas da Rede Pública de São Paulo. A pesquisa buscou reconhecer e analisar traços identitários construídos e reconstruídos ao longo do processo de profissionalização desde a escolha da profissão, formação inicial, inserção profissional e práxis educacional por meio de questionários com os egressos, oriundos de diferentes Instituições de Ensino Superior. Trata-se de um estudo com abordagem quantitativa e qualitativa, cujos sujeitos da pesquisa são professores de Biologia que atuam no ensino público. Os dados empíricos foram coletados através de questionários que abrangem questões fechadas e semi-estruturadas. Os resultados apontam a relevância da formação inicial como um dos requisitos básicos para a profissionalização docente articulada com a formação continuada e as condições de trabalho na construção de um ensino de qualidade. Tardif, Pimenta e Nóvoa (apud PANDOLPHO, 2006) são os referenciais teóricos que orientam a pesquisa. A dissertação “A prática do professor guarani e kaiowá: o ensino de ciências a partir do projeto Ara Verá”, produzida por Ferreira (2006),analisa por meio de estudo de caso as práticas dos professores formados pelo “Projeto Ara Vera – Curso Normal em Nível Médio Formação de Professores Guarani e Kaiowá”, implantado pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul em 1999. Os dados para essa pesquisa foram coletados por meio de entrevista semi-estruturada. Os conceitos de habitus e de transposição didática foram referenciados para conduzir reflexões acerca do projeto como uma instância de transposição e de formação de habitus de professor. Como resultado, a pesquisa aponta algumas contribuições do projeto quanto à formação do professor para a transposição didática de saberes tradicionais e de saberes da ciência ocidental, seja na organização e seleção dos conteúdos e metodologias, seja na percepção de seu papel na construção da interculturalidade como forma de fortalecimento de sua identidade e autonomia. O trabalho de Tavares (2007), intitulado “Profissão docente: visões de licenciandos de ciências biológicas em diferentes contextos”, buscou identificar e descrever as concepções acerca da profissão docente e do trabalho docente construídas por licenciandos no contexto da sala de aula de uma disciplina de 31 estágio supervisionado no curso de licenciatura em ciências biológicas. Além disso, a pesquisa preocupou-se em contrastar tais concepções sobre a profissão e o trabalho docente com aquelas construídas em contextos “externos” à sala de aula da disciplina, após o mapeamento e descrição das ideias centrais apresentadas em um episódio e em entrevistas individuais. A análise das entrevistas e do episódio foi realizada sob a perspectiva de autores que discutem a argumentação, sendo eles Billig, McKerrowe Kuhn (apud TAVARES, 2007). O estudo destaca que dentro do paradigma dos saberes docentes, deram ênfase ao saber relativo ao contexto, permeando aspectos como as interações professor-aluno bem como o conhecimento sobre esse aluno. O conhecimento de conteúdo assumiu uma posição secundária dentro do universo dos professores. A desvalorização do professor é um aspecto que emerge em ambos os contextos, entrevistas e episódio em sala de aula. Lopes (2007) investigou a formação inicial de professores na pesquisa intitulada “Identificação e a construção da identidade docente na formação inicial de professores de Biologia”. Esse trabalho teve como objetivo analisar os saberes elaborados no período de estágio e também identificar elementos que constituem o processo de construção da identidade docente. A investigação se caracteriza como uma pesquisa qualitativa e a análise textual discursiva foi a metodologia empregada para tratar os dados coletados em entrevistas semiestruturadas. Os pressupostos de Tardif (apud LOPES, 2007) e alguns conceitos da teoria psicanalítica foram utilizados como referencial teórico da pesquisa. A pesquisa “Ensino de ciências em Cabinda/Angola: condições da prática docente, ideias de professores e desafios”, produzida por Buza (2007), foi desenvolvida com professores de ciências do ensino médio da província de Cabinda, em Angola, no contexto de uma escola de formação de professores para o magistério da educação básica. Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada através da análise das narrativas desenvolvidas pelos professores sujeitos da pesquisa. Os resultados da pesquisa apontaram as seguintes questões: a maioria dos professores que atuam no ensino médio não tem formação para tal; foram motivados por várias razões para a docência; a sua constituição, como professores de ciências, ocorre por esforço próprio, ao longo da docência; as condições de trabalho são muito deficitárias, havendo 32 falta de material bibliográfico e dificuldades de acesso à informação; há inexistência de cursos de licenciatura em biologia, física e química para formar professores em nível superior para o ensino médio; não há programas regulares de formação continuada para professores de ciências. No entanto o estudo indica que os professores acreditam ser um desafio ensinar a juventude, sentem-se honrados por serem docentes em Cabinda e manifestamse otimistas e esperançosos em continuar seus estudos em nível superior. Melo (2007), na tese “Tornar-se professor: a formação desenvolvida nos cursos de Física, Matemática e Química da Universidade Federal de Uberlândia”, discute a formação de professores a partir da análise de três cursos da área de ciências exatas. O estudo teve como objetivo destacar e analisar as principais dificuldades enfrentadas no decorrer do processo formativo dos estudantes; identificar os saberes docentes produzidos nos cursos, assimilados e utilizados na prática cotidiana pelos licenciandos ao assumirem a docência no período de estágio; compreender se os conteúdos específicos, do modo como são trabalhados, possibilitam a transposição didática; identificar as práticas formativas predominantes nos cursos que mais contribuem para o desenvolvimento da identidade profissional dos licenciandos. A pesquisa teve como fundamentação teórica autores que discutem a formação docente como Pimenta, Pereira, Guimarães, Linhares e Silva, Veiga, Candau, Brzezinski, Cunha, Freitas, Gatti (apud MELO, 2007) e os dados foram obtidos por meio de entrevistas e por grupos focais realizados com os alunos. A análise aponta principalmente para a sólida formação da área específica nos cursos, com ênfase no domínio dos saberes disciplinares, no entanto, sem desdobramentos para a atuação na docência, o que evidencia a distância entre o conhecimento acadêmico e o conhecimento escolar. A pesquisa de Paixão (2008), “Narrativa autobiográfica de formação: processo de vir a ser professor de ciências”, se refere a experiências formadoras desenvolvidas no âmbito da prática antecipada à docência, no Clube de Ciências da UFPA. Esta investigação se desenvolve em uma modalidade narrativa, de natureza autobiográfica e memorialista. A pesquisadora recorre, portanto, à reconstituição da própria história de vida, objetivando analisar o seu percurso de formação e as experiências formadoras que caracterizam diferentes momentos deste percurso, que são organizados 33 em episódios narrativos distintos, mas relacionados. De acordo com a autora, os resultados encontrados na análise permitiram formular quatro princípios de formação docente. Estes princípios estão centrados na liberdade e oportunidade para criar, experimentar e refletir sobre a própria prática; no caráter de auto-conhecimento das experiências de formação; na necessidade de levar em consideração a complexidade dos processos formativos e de assumir a pesquisa como eixo de articulação das práticas de formação, no âmbito das licenciaturas. A autora recorreu a autores como Josso e Nóvoa (apud PAIXÃO, 2008) para discutir a formação docente e Souza e Morin (apud PAIXÃO, 2008) como referencial para a pesquisa (auto)biográfica. Braz (2009), na dissertação “Como vão se formando os professores em física e química: embates entre o ser, o ter e o fazer na formação de licenciandos da UFRN”, teve como objetivo acessar e compreender as representações sociais sobre “Física” e “Química” para os grupos de licenciandos destes cursos, como também suas Representações Sociais sobre o “Ensinar”. O estudo parte do princípio de que o acesso a tais representações possibilita articular seus conteúdos simbólicos, a fim de compreender como os grupos de licenciandos em Física e Química no percurso de formação inicial, vão-se tornando professores, sob uma ótica psicossocial. Esta pesquisa utilizou os conceitos propostos por Moscovici (apud BRAZ, 2009) como referencial teórico e as manifestações discursivas dos licenciandos foram analisadas pela análise de conteúdo proposta por Bardin (apud BRAZ, 2009) e Franco (apud BRAZ, 2009). O estudo realizado por Felden (2009),“A Universidade e as aprendizagens significativas: contribuições possíveis”, constitui-se num estudo qualitativo em que foram utilizados questionários (narrativas escritas) com os alunos concluintes dos cursos de licenciatura em Letras, Pedagogia, História e Ciências Biológicas da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões-URI, Campus de Santo Ângelo-RS e entrevistas semi-estruturadas (narrativas orais) com professores que atuam nesses cursos. As análises das narrativas se apoiaram nos estudos de autores que discutem a formação de professores como Sacristán, Cunha, Pérez Gómez, Tardif, Nóvoa, Pimenta, Schön (apud FELDEN, 2009). De acordo com a autora, a pesquisa revelou que os alunos em formação reconhecem que a universidade contribui, de forma 34 relevante, para a construção de aprendizagens significativas, advindas de temáticas estudadas, teorias pesquisadas e atividades vivenciadas, ressaltando os projetos construídos na universidade e aplicados nas escolas e comunidade. A pesquisa “Saberes docentes de licenciandos e a busca da identidade profissional”, desenvolvida por Santos (2009), buscou identificar e interpretar os saberes sobre a docência construídos pelos licenciandos do curso Ciências Biológicas, no decorrer de suas experiências realizadas no estágio e o papel desses saberes na identificação com a profissão docente. Trata-se de uma investigação, de natureza qualitativa e naturalística, onde foram selecionados seis licenciandos e foram utilizados os diários de campo, as narrativas de Histórias de Vida e depoimentos de cada um deles como fonte de dados. A análise dos resultados foi baseada em uma rede de referências, utilizando o conceito de saberes docentes proposto por Tardif, os trabalhos sobre formação docente de Sadalla e Zabalza (apud SANTOS, 2009) e a dimensão da subjetividade no processo de aprendizagem da docência usando alguns referenciais da Psicanálise, como Villani & Barolli e Lacan. O estudo permitiu concluir que os licenciandos não constroem uma identificação mais permanente com a carreira docente neste momento. No entanto, eles estabelecem algumas marcas em sua atuação, que vão perdurar por toda a sua vida profissional. Também incluímos nesta revisão dois trabalhos elaborados pela autora em co-autoria com o grupo de pesquisa, recentemente apresentados em eventos acadêmicos da área de ensino de ciências. O Trabalho intitulado “Traços identitários de professores de Física representados por imagens” apresentado no VIII ENPEC investigou traços identitários de um grupo de professores de física que participaram de um curso de formação continuada a distância. O corpus analisado no trabalho corresponde às imagens enviadas por 12 participantes do curso para que os representassem como professor e um comentário com os motivos que o levaram a escolher tais imagens. A partir da análise semiológica (PENN,apud COSTA, 2011), observamos que apenas três imagens remetiam explicitamente ao conteúdo das Ciências Naturais (P1, P5 e P8). 35 P1 P5 P8 As outras nove imagens se remetiam a aspectos sociais da profissão docente, apresentando diferentes traços identitários: de heroísmo (P2, P4 e P6), de sacerdócio (P7 e P12) e de sacrifício ou sofrimento (P3, P9, P10 e P11). Heroísmo P6 P4 P2 Sacerdócio P7 Sacrifício ou sofrimento P12 36 P3 P9 P10 P11 Procuramos relacionar os diferentes traços identitários encontrados ao habitus profissional desenvolvido nos ambientes profissionais em que os professores exercem a docência, distinguindo, tentativamente, como esses podem ser influenciados pelas realidades educacionais do ensino privado e do ensino público. No trabalho apresentado no XVI ENEQ, “A construção da identidade de professores de química no contexto de um instituto federal de educação”, buscamos investigar como a identidade docente vem sendo construída por licenciandos em química através do significado que atribuem ao “ser professor” e a forma como compreendem o seu processo formativo. Observamos traços de formação da identidade docente pautados no habitus pedagógico somente no discurso de uma das duas licenciandas estudadas. Os trabalhos do grupo de pesquisa tinham como hipótese que seria possível encontrar traços comuns à identidade docente considerando que se tratava de dois grupos homogêneos, o primeiro, de professores de física de nível médio e o outro, de licenciandas em química. Em ambos encontramos uma pulverização de identidades, o que complexificou a abordagem do problema em estudos futuros. Neste momento, o grupo ainda não dispunha de referenciais teóricos adequados que pudessem servir de apoio à interpretação destes resultados. O levantamento da produção científica brasileira na área de educação em ciências relacionada ao tema identidade docente indica que esse tema não foi muito explorado, sobretudo nos periódicos da área, no período de 20012010. Dentre os 14 trabalhos analisados, percebeu-se uma maior concentração de estudos referentes à identidade docente no âmbito da formação inicial de professores do ensino médio. 37 A articulação entre a questão da identidade e os saberes da docência está presente em seis trabalhos, (LOPES, 2001; LOGUERCIO E DEL PINO, 2003; TAVARES, 2007; LOPES, 2007; MELO, 2007 E SANTOS, 2009), embora nem todos deixem claro o referencial teórico utilizado. Essa articulação evidencia a influência dos estudos de Tardif (1991), Nóvoa (2007) e Pimenta (2000) sobre o tema. A análise de narrativas se apresenta como procedimento metodológico em cinco trabalhos. A compreensão da identidade docente por meio das representações sociais do ser professor e/ou da disciplina específica é tratada em dois trabalhos. Apenas um trabalho (LOGUERCIO E DEL PINO, 2003) utiliza a análise do discurso como recurso metodológico. Em linhas gerais, é possível notar que apesar de figurar de forma tímida no panorama da produção científica da área de educação em ciências, a identidade docente se apresenta como um tema emergente nos últimos anos, que pode ser tratado por diferentes enfoques e que abre possibilidades para investigações de questões de grande interesse e atualidade, como a relação do professor com as práticas culturais, a influência dos cursos de formação inicial no desenvolvimento de sua prática pedagógica, organização profissional e sindical e questões de gênero. Observamos que a maioria dos trabalhos alimentam suas análises e discussões sobre a identidade docente baseados apenas nos estudos da área de formação de professores. Apenas cinco trabalhos (LOGUERCIO E DEL PINO, 2003; FERREIRA, 2006; TAVARES, 2007; BRAZ, 2009; SANTOS, 2009) buscam estabelecer um diálogo com autores de outras áreas, como sociologia, psicologia social e psicanálise. Consideramos que o diálogo com a sociologia foi profícuo por ter permitido compreender que o “ser professor” se constitui na cultura, que a escola possui uma cultura específica que é tão produtora de identidades como qualquer outro espaço de convivência social. Braz (2009), Ferreira (2006) e Santos (2009) abordam a questão da identidade a partir de uma perspectiva estruturalista, enquanto Loguercio e Del Pino (2003) apresentam um referencial teórico-metodológico pós-estruturalista, principalmente, pela ênfase na construção identitária por meio do discurso. Assim como Loguercio e Del Pino, pretendemos explorar a análise do discurso, embora nossa inspiração não seja foucaultiana, como exporemos mais adiante. 38 Consideramos que o caminho seguido por esses autores permitiu chegar a uma compreensão relevante da relação entre identidade e discurso. A fim de ampliar as referências sobre os estudos que tratam da identidade docente, realizamos uma pesquisa sobre a abordagem do tema no âmbito da Educação. Utilizamos a expressão “identidade docente” na busca realizada em cinco periódicos e em três anais de congresso da área. Dentre os periódicos consultados, a busca retornou 22 títulos, dos quais, apenas oito tinham como objeto de estudo a identidade docente. A busca realizada nos anais retornou 15 títulos, destes somente quatro tratavam o assunto como o tema principal e não periférico do trabalho. Os resultados dessa nova pesquisa trazem trabalhos que em sua maioria abordam a identidade docente a partir dos estudos de Stuart Hall, Claude Dubar e Zigmunt Bauman, fazendo a relação da mesma com a identidade do sujeito (LOPES, SOUZA e DEL PINO, 2004; CANEM e SANTOS, 2006; CARDOSO, 2010; GOMES, DIAS e GALIAZZI, 2009; PEREIRA E ENGERS, 2009; SILVA, 2009; WESTPHAL, 2009; PROENÇA e TENO, 2011; FERREIRA, 2011; FARTES e SANTOS, 2011; CHRISTINO e FERREIRA, 2012). Os autores pesquisados compreendem a identidade docente como uma das dimensões da identidade social e traçam um paralelo entre os processos identitários sociais e profissionais, salientando que a identidade docente deve ser vista como uma construção ao mesmo tempo individual e social. Para esses autores, a identidade docente não pode ser encarada como algo restrito, relacionado exclusivamente ao trabalho. Como destacam Proença e Teno (2011), a identidade docente “abarca o pessoal, o profissional, a interação com as situações da profissão enquanto sujeito do conhecimento, capaz de construir saberes que o levam a identificar-se” (p.137). Esses trabalhos estão relacionados à pesquisas qualitativas desenvolvidas com professores em formação inicial e continuada e buscam, de forma geral, compreender os processos de identificação vivenciados por esses profissionais e como estes processos podem ser afetados pela desvalorização do magistério associada à chamada “crise da identidade docente”. As pesquisas citadas defendem a necessidade de trazer à tona as vozes desses sujeitos e enfatizam que as identidades são constituídas por meio dos 39 discursos que as produzem “em determinados grupos de indivíduos, só que elas são várias e estão sempre disputando para ver qual se sobressai a cada momento” (FERREIRA, p.107, 2011). Essa posição está de acordo com as ideias de Silva (2009), que, dentro da perspectiva cultural contemporânea, concebe a identidade e a diferença como elaborações sociais mediadas pela linguagem: “A linguagem produz narrações culturais sobre sujeitos e objetos, passando a classificá-los” (p. 46). Os teóricos que servem como referências nessas pesquisas tratam a questão da identidade a partir de sua dimensão sociológica, compreendendo-a sempre como um processo que é fruto das interações vividas pelo indivíduo ao longo de seu processo de socialização. Esses autores também destacam os impactos das mudanças históricas do século XX no cotidiano dos sujeitos, nas interações com o outro e no processo de construção de identidades sociais e profissionais. Selecionamos deste conjunto, o estudo de Christino e Ferreira (2012), por ter características próximas ao estudo que pretendemos desenvolver. Esses autores analisaram os discursos de professores de Química recémformados, associados à sua formação acadêmica e a sua prática pedagógica na escola. Para o desenvolvimento da pesquisa os autores realizaram entrevistas nas quais buscaram localizar nas falas dos entrevistados a proliferação de discursos característicos da formação acadêmica e os discursos que estão marcando sua identidade profissional, no cotidiano escolar. Os autores destacam que esses discursos se aproximam, se contrapõem ou se reforçam, indicando a hibridização de discursos que forjam as identidades docentes. Essa pesquisa chama a atenção para o hibridismo cultural e discursivo presente na formação de professores, salientando que os discursos que circulam no âmbito das instituições formadoras relativos ao trabalho docente não perdem a validade quando os professores passam a exercer a profissão, mas sim que esses discursos são ressignificados diante do embate com os discursos que circulam na escola. Por meio desse confronto discursivo, que fomenta muitas dúvidas sobre a atividade docente, os professores vão construindo a sua identidade profissional. 40 Christino e Ferreira (2012) afirmam que apesar das modificações na estrutura curricular dos cursos de licenciatura, propostas a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores para a Educação Básica (BRASIL, 2002), a formação inicial de professores continua se desenvolvendo em meio a diferentes discursos, os validados pelos professores da área específica e os validados pelos professores da área de ensino. Os autores alegam que é recorrente nos cursos de licenciatura em Química um descompasso entre o discurso dos professores das disciplinas específicas e o das disciplinas didático-pedagógicas. Esses diferentes discursos vão instituindo modos de ser nos professores de Química, influenciando do modo diferenciado a subjetividade de cada sujeito. É neste sentido que identificamos a presença do hibridismo nos discursos dentro da própria academia, etapa importante na constituição das identidades docentes (p. 9). Nessa pesquisa pretendemos, assim como no estudo de Christino e Ferreira (2012), e na maioria das pesquisas realizadas no âmbito da educação, buscar o diálogo com os autores que abordam a identidade pelo viés da sociologia e analisar o discurso dos professores em formação inicial. Assim, considerando que os processos identitários se forjam em um determinado contexto social e cultural, esta investigação tem como foco a formação da identidade docente no contexto específico de um curso de licenciatura em Química que, atendendo às demandas políticas, se desenvolve em um instituto de educação profissional e tecnológica. O problema de pesquisa vai ser refinado ao final do capítulo 2, que traz subsídios teóricos sobre o conceito de identidade e sobre a formação da identidade docente. 41 Capítulo 2: Referencial teórico Uma parte de mim é todo mundo Outra parte é ninguém Fundo sem fundo Uma parte de mim é multidão Outra parte estranheza e solidão Uma parte de mim, pesa Pondera Outra parte, delira Uma parte de mim almoça e janta Outra parte se espanta Uma parte de mim é permanente Outra parte se sabe de repente Uma parte de mim é só vertigem Outra parte, linguagem Traduzir uma parte noutra parte Que é uma questão de vida ou morte Será arte? Será arte? (Fagner e Ferreira Gullar) 42 Capítulo 2. Referencial teórico Neste capítulo apresentamos o referencial teórico que nos permite refletir sobre a questão da identidade, discutimos como a identidade profissional é compreendida em alguns estudos sobre formação docente e ainda defendemos como os estudos da enunciação, numa perspectiva bakhtiniana, podem contribuir para o estudo das identidades docentes. 2.1 A identidade em questão Hall (2011) distingue três concepções diferentes de identidade, associadas ao sujeito do Iluminismo; ao sujeito sociológico e ao sujeito pósmoderno. A identidade no sujeito do Iluminismo é uma noção unificada, baseada em um núcleo interior, algo que nasce com o sujeito e que se desenvolve ao longo de sua vida mantendo a essência. O núcleo essencial do eu era compreendido como a identidade da pessoa, trata-se portanto, de uma visão extremamente individualista do sujeito e de sua identidade. A concepção de identidade relacionada ao sujeito sociológico é de algo formado na interação entre o sujeito e a sociedade. O sujeito sociológico ainda mantém um núcleo interior, denominado “eu real”, no entanto esse núcleo ou essência é construído ou modelado na relação permanente com as culturas exteriores. No sujeito sociológico a identidade se localiza entre o interior e o exterior, entre o que é individual e o público. A identidade é o que liga o sujeito à estrutura. Essa noção de identidade pode ser relacionada com o conceito de habitus de Bourdieu (1997). Por habitus compreendem-se os princípios geradores de práticas distintas e distintivas que nos permite apreender a unidade de estilo que relaciona as práticas e os bens de determinado indivíduo ou de uma classe de indivíduos. Para Bourdieu (1997), o habitus é uma espécie de senso prático que orienta a ação dos agentes em determinadas situações. As experiências de vida dos indivíduos funcionam a cada momento como matriz de percepções de apreciações e de ações, e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências 43 analógicas de esquemas. Setton (2002) esclarece alguns aspectos dessa noção: Habitus é uma noção que me auxilia a pensar as características de uma identidade social, de uma experiência biográfica, um sistema de orientação ora consciente ora inconsciente. Habitus como uma matriz cultural que predispõe os indivíduos a fazerem suas escolhas (SETTON, 2002 p. 61). Dentro dessa perspectiva, a constituição das identidades sociais seria fruto de uma relação dialética que há entre as estruturas objetivas e práticas e as disposições estruturadas nas quais elas se atualizam e tendem a reproduzilas, num duplo processo de interiorização de exterioridades e exteriorização da interioridade. A terceira concepção de identidade definida por Hall é a do sujeito pósmoderno. Para o autor, o sujeito, antes compreendido como tendo uma identidade unificada e estável, vem se tornando fragmentado; sendo constituído não por uma identidade fixa, mas de várias identidades, por vezes contraditórias. Para o autor, a identidade não pode ser compreendida como característica biológica, mas sim como historicamente definida. Assim, cada um de nós traz consigo identidades contraditórias que se encontram em conflito, fazendo com que nossas identificações se encontrem em deslocamento constante. Esse processo constitui o sujeito pós-moderno, compreendido como não tendo uma identidade fixa ou imutável. Como o autor afirma, “somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao menos temporariamente” (p.13). Dentro dessa perspectiva, a noção de identidade é entendida como algo culturalmente forjado, e por isso, relacionada diretamente a discussão das identidades coletivas, compreendidas como um conjunto de significados partilhados. Stuart Hall agregou aos estudos sobre a identidade diversos outros aspectos que passaram a ser amplamente discutidos, como questões de raça, etnia e outras identificações sociais. Hall (2011) adverte para a necessidade de relacionar as discussões sobre identidade aos processos e práticas que vêm trazendo desconforto ao caráter razoavelmente “estabelecido” de diversas populações e culturas, 44 chamando a atenção especialmente, para os processos de globalização e os processos de migração forçada. As identidades parecem invocar uma origem que residiria em um passado histórico com o qual elas continuariam a manter uma certa correspondência. Elas têm a ver, entretanto, com a questão da utilização dos recursos da história, da linguagem e da cultura para a produção não daquilo que nós somos, mas daquilo no qual nos tornamos. Têm a ver não tanto com as questões “quem nós somos” ou “de onde nós viemos”, mas muito mais com questões “quem nós podemos nos tornar”, “como nós temos sido representados” e “como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios”(p.109). A concepção de identidade está relacionada tanto com a invenção da tradição, quanto com a tradição propriamente dita, que será revisitada e transformada continuamente, não como um retorno às origens, mas como uma negociação com os caminhos percorridos. Para Hall (2011), as identidades são construídas nas narrativas pessoais e é justamente por serem construídas dentro e não fora do discurso que necessitam ser compreendidas como produzidas em espaços “históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas.” (109). O autor salienta ainda, que as identidades emergem em meio aos jogos de poder, e por isso mesmo, são marcadas pela diferença e pela exclusão muito mais do que por uma unidade idêntica, como no seu significado tradicional. Acima de tudo, e de forma diretamente contrária àquela pela qual elas são constantemente invocadas, as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com Outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta, com aquilo que tem sido chamado de exterior constitutivo, que o significado “positivo” de qualquer termo – e, assim, sua “identidade” - pode ser construído (HALL, 2011 p. 110). Dessa forma, a identidade só pode ser compreendida como aquilo que é forjado na diferença ou por meio dela e que é constantemente reelaborado pelos processos de exclusão/diferenciação. Talvez sintetize essa discussão a ideia de que as identidades são, para Hall (2011), “pontos de apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós” (p.112). 45 Para Silva (2011), identidade e diferença possuem uma relação de estreita dependência, são inseparáveis e partilham uma característica importante: ambas são fruto de atos de criação linguística. Identidade e diferença não são criaturas do mundo natural ou de uma dimensão transcendental, mas elas são constantemente produzidas pelo universo cultural e social. São, por tanto, elaborações construídas nas relações culturais e sociais por meio de atos de linguagem. O autor alerta que por ser um ato linguístico, a identidade e a diferença estão sujeitas a determinadas características da linguagem em geral. Dessa forma, a identidade e a diferença não podem ser analisadas, destacadas dos sistemas de significação nos quais ganham sentido, uma vez que são fruto da cultura e dos sistemas simbólicos que as configuram. De acordo com Silva (2011), a identidade e a diferença são governadas pela estrutura da linguagem, no entanto o autor afirma que essa estrutura é caracterizada pela indeterminação e pela instabilidade. Ou seja, “a identidade e a diferença são tão indeterminadas e instáveis quanto a linguagem da qual dependem” (p. 80). Para Silva (idem), identidade e diferença estão diretamente vinculadas as relações de poder não podendo nunca ser compreendidas como inocentes. Afirmar uma identidade é como estabelecer fronteiras, fazer distinções entre quem está incluído e quem está excluído, afirmando e reafirmando relações de poder. A identidade está relacionada a uma forte diferenciação entre “nós” e “eles”. Como destaca o autor, “os pronomes “nós” e “eles” não são, aqui, simples categorias gramaticais, mas evidentes indicadores de posições-desujeito fortemente marcadas por relações de poder” (p.82). A identidade e a diferença são o resultado de um processo de produção simbólica e discursiva. O processo de adiamento e diferenciação linguísticos por meio do qual elas são produzidas está longe, entretanto, de ser simétrico. A identidade, tal como a diferença, é uma relação social. Isso significa que sua definição – discursiva e linguística – está sujeita a vetores de força, a relações de poder. Elas não são simplesmente definidas; elas são impostas. Elas não convivem harmoniosamente, lado a lado, em um campo sem hierarquias; elas são disputadas (grifo nosso p.81). 46 A construção da identidade é fruto de um processo que oscila entre dois movimentos: por um lado, os processos que buscam a fixação e a estabilização da identidade; por outro, os processos que visam subverter e desestabilizar a identidade. Da mesma forma que na linguagem, a tendência natural da identidade é a busca da fixação. No entanto, assim como acontece com a linguagem, a identidade tende a escapar. No que diz respeito a produção da identidade, a fixação é ao mesmo tempo uma tendência e uma impossibilidade. O hibridismo ou processo de hibridização é identificado por Silva (2011) como um processo que busca complicar e subverter a identidade. O hibridismo é caracterizado pela mistura, a combinação ou o diálogo entre diferentes grupos, colocando em xeque os processos que buscam caracterizar as identidades de forma essencialmente desconectadas, segregadas. O autor argumenta que o processo de hibridização ocorre entre identidades localizadas assimetricamente em relação ao poder. Esses processos vistos pela ótica dos estudos culturais nascem de relações conflituosas entre diferentes grupos. De acordo com a teoria cultural contemporânea, a identidade é um significado construído cultural e socialmente e assim como a diferença está diretamente relacionada a sistemas de representação. Dentro da perspectiva cultural o conceito de representação não é jamais uma representação mental ou interior, mas incorpora características atribuídas a linguagem, como indeterminação, ambiguidade e instabilidade. A representação não é simplesmente um meio transparente de expressão de algum suposto referente. Em vez disso, a representação é como qualquer sistema de significação, uma forma de atribuição de sentido. Como tal, a representação é um sistema linguístico e cultural: arbitrário, indeterminado e estreitamente ligado a relações de poder (p. 91). Vale salientar que a identidade e a diferença são diretamente dependentes da representação. E é justamente por meio da representação que a identidade e a diferença ganham sentido. Para Silva (2011), no núcleo da discussão sobre a identidade é possível identificar um debate sobre as formas de representação. Dessa forma, “questionar a identidade e a diferença significa, nesse contexto, questionar os sistemas de representação que lhe dão suporte e sustentação” (p.91). 47 Silva (2011), sintetiza a forma como compreende a identidade afirmando que: (...) a identidade não é uma essência; não é um dado ou um fato – seja da natureza seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. A identidade está ligada a sistemas de representação. A identidade tem estreitas conexões com relações de poder (p.97). 2.2. Identidade profissional docente No levantamento da produção científica sobre identidade docente, apresentado anteriormente, notamos que 10 trabalhos da área de educação em ciências (LOGUERCIO E DEL PINO, 2003; MONTEIRO E TEIXERA, 2004; LOPES, 2001; PANDOLPHO, 2006; TAVARES, 2007; LOPES, 2007; PAIXÃO, 2008; FELDEN, 2009 E SANTOS, 2009) e 11 trabalhos da área de educação (LOPES, SOUZA e DEL PINO, 2004; CANEM e SANTOS, 2006; CARDOSO, 2010; GOMES, DIAS e GALIAZZI, 2009; PEREIRA E ENGERS, 2009; SILVA, 2009; WESTPHAL, 2009; PROENÇA e TENO, 2011; FERREIRA, 2011; FARTES e SANTOS, 2011; CHRISTINO e FERREIRA, 2012) recorrem aos estudos de Nóvoa (2007) e Pimenta (2000) para abordar a identidade docente. De acordo com os estudos desses autores, os docentes são compreendidos como sujeitos socioculturais que constroem a sua identidade profissional a partir de inúmeras referências. Essas referências possuem raízes no início da formação escolar elementar, nas relações estabelecidas com diferentes professores. É ao longo da trajetória escolar, nas experiências vivenciadas enquanto alunos, que começa a se forjar o conceito “ser professor”. Para Pimenta (2000; 2008), essa ideia inicial sobre o trabalho docente vai contribuir para a construção da identidade profissional tanto quando as experiências vividas ao longo de sua trajetória como professor. No entanto, a autora salienta a importância dos cursos de formação inicial, compreendendo- 48 os como um espaço onde são consolidadas as opções e intenções da profissão que o curso pretende validar. A autora destaca os cursos de formação inicial como lócus privilegiado de construção e fortalecimento da identidade, por possibilitarem a reflexão e a análise crítica das variadas representações construídas e praticadas historicamente no desenvolvimento da profissão. Será no embate com essas representações e com as necessidades sociais que a identidade será forjada. Neste processo, são fundamentais os conhecimentos, os saberes, as habilidades, os posicionamentos e o comprometimento profissional. De acordo com Libâneo e Pimenta (1999), é possível observar duas dimensões da identidade profissional do professor: O desenvolvimento profissional envolve formação inicial e contínua articuladas a um processo de valorização identitária e profissional dos professores. Identidade que é epistemológica, ou seja, que reconhece a docência como um campo de conhecimentos específicos configurados em quatro grandes conjuntos, a saber: 1) conteúdos das diversas áreas do saber e do ensino, ou seja, das ciências humanas e naturais, da cultura e das artes; 2) conteúdos didático-pedagógicos, diretamente relacionados ao campo da prática profissional; 3) conteúdos relacionados a saberes pedagógicos mais amplos do campo teórico da prática educacional; 4) conteúdos ligados à explicitação do sentido da existência humana (individual, sensibilidade pessoal e social). E identidade que é profissional. Ou seja, a docência constitui um campo específico de intervenção profissional na prática social - não é qualquer um que pode ser professor (p. 41). De acordo com Pimenta (2000), a identidade profissional do professor é construída a partir da significação social da profissão; da reelaboração contínua dos significados sociais da profissão; da revisão das tradições. E ainda, da ratificação de posturas e práticas há muito estabelecidas e que continuam significativas. Práticas essas que não cedem a modismos ou novidades porque se encontram calcadas em saberes legítimos às necessidades do cotidiano educacional. Do embate entre o conhecimento teórico e a prática vivenciada, da reflexão e da construção de uma práxis. A identidade docente é construída também, pelo significado que tem para cada um, ser professor. Dessa forma, a identidade docente não pode ser compreendida como algo inexorável ou que possa ser adquirido (PIMENTA, 2000; NÓVOA, 2007), mas sim como um espaço de conflitos e embates, como um processo de 49 construção situado sócio-historicamente. Nóvoa (2007) afirma que a construção da identidade é sempre um processo complexo e esse é sustentado em pelo menos três dimensões: pela adesão, porque ser professor significa aderir a determinados princípios e valores; pela ação, na medida em que o docente necessita escolher a melhor maneira de desenvolver a sua prática pedagógica; e pela autoconsciência, uma vez que é no processo de reflexão sobre a sua prática que o professor vai construindo a sua identidade. Oliveira (2010), apoiada nos estudos de Perrenoud (apud OLIVEIRA, 2010), argumenta que o conceito de habitus pode contribuir para a reflexão sobre a ação pedagógica. A autora salienta que o habitus pedagógico é forjado nas instituições de ensino, de forma independente de sua intenção. O habitus medeia costumes, gestos, atos observáveis, e também percepções e emoções, influenciando o funcionamento psíquico no tratamento de informações, na análise de situações, nas tomadas de decisão a partir da ajuda de esquemas de pensamento previamente incorporados pelos agentes. Os esquemas são uma base para que o sujeito possa coordenar suas ações às demandas que lhe são impostas em uma dada situação (OLIVEIRA, p. 31, 2010). Dessa forma, o habitus pedagógico seria o que governa a forma como os professores lidam com as necessidades impostas na sua rotina de trabalho. Perrenoud (apud OLIVEIRA, 2010) defende o desenvolvimento de estratégias que tornem os professores cientes do seu habitus pedagógico a fim de que possam modificar os seus esquemas de percepção, de pensamento, de análise e de ação. Nas ideias desses autores, é possível perceber que a construção da identidade docente está intimamente relacionada a processos de socialização. Esses processos incluem a aprendizagem e interiorização de saberes, valores, atitudes normas, necessidades e expectativas dentre outros necessários à construção da identidade profissional e se dão na formação inicial, na formação continuada, na escola como instituição de exercício da atividade profissional, nas interações com a comunidade, com outros grupos profissionais e as organizações profissionais. É nesses espaços que se dá a socialização significativa para a identidade. No entanto, alguns destes textos, mencionam uma “crise da identidade” na profissão docente (NÓVOA, 2007; GUIMARÃES, 2005; LIBÂNEO, 2004; 50 TAVARES, 2007). Para Nóvoa (2007), essa crise seria fruto de um processo de desprofissinalização do professor. O autor argumenta que a produção científica na área de formação de professores passou a considerar a possibilidade de investigar o ensino para além do trabalho docente, desconsiderando o saber pedagógico e reduzindo a profissão docente a um conjunto de competências técnicas. A transferência dessa postura do âmbito científico para âmbito institucional contribuiu para aumentar o controle sobre o trabalho docente, favorecendo um processo de desprofissionalização e, por consequência, uma crise identitária. Guimarães (2005) chama a atenção para as inúmeras mudanças pelas quais os vários setores da atividade humana passam e que se concretizam em novas configurações da ordem econômica e política referente ao conhecimento, às relações pessoais, às comunicações, dentre outras, trazendo consequências bastante diretas para a educação escolar. O autor salienta que essas mudanças atingem de forma significativa a formação de professores, por entender que essa área se localiza não só no âmbito do conhecimento, como também da ética, colocando em jogo compreensões, crenças e posturas que constituem o processo de formação de crianças e jovens. Essa avalanche de mudanças, ao mesmo tempo em que aproxima, distancia, torna similar, diferencia e reconfigura características, disposições de nações, instituições e profissões. A chamada “crise de identidade” das várias profissões e de profissionais torna-se uma realidade amplamente posta (GUIMARÃES, p.27, 2005). Guimarães (2005) salienta que é justamente por se encontrar em crise que as investigações sobre a identidade docente têm conquistado cada vez mais espaço nos debates acadêmicos. A questão da identidade, em especial da identidade profissional, é complexa, relativamente nova e compreendida de forma diferenciada para a sociologia, psicologia e outras ciências. Para Guimarães (2005) os aspectos mais notórios da noção de profissionalidade docente são aqueles relacionados diretamente aos requisitos profissionais da profissão do professor. Dessa forma, para o autor: [...] o conceito de profissionalidade se aproxima mais de “identidade para os outros”, das maneiras mais externas e “objetivas” como a profissão é representada, distanciando-se 51 um pouco da “identidade para si”, da identificação com a profissão, da adesão profissional (p.29). Libâneo (2004) relaciona os conceitos de profissionalidade e identidade profissional ao destacar que o processo de desvalorização social e econômica da profissão docente compromete a imagem que se tem da profissão. Para o autor as condições precárias de trabalho e a desvalorização social da profissão podem prejudicar a construção da identidade do futuro professor. Isso acontece porque a identidade com a profissão diz respeito ao significado pessoal e social que a profissão tem para a pessoa. Se o professor perde o significado do trabalho tanto para si próprio como para a sociedade, ele perde a identidade com a sua profissão. O mal-estar, a frustração, a baixa autoestima são algumas consequências que podem resultar dessa perda de identidade profissional (LIBÂNEO, 2004 p. 74). O autor ressalta que somente por meio da luta por melhores salários e pela melhoria na formação será possível ressignificar a identidade docente, recuperando o seu significado social. Libâneo (2004) defende a adoção de estratégias que possibilitem a construção e o fortalecimento da identidade docente nos cursos de formação inicial e continuada por compreender que a qualificação e a competência profissional do professor está diretamente relacionada a qualidade dos resultados da aprendizagem e da formação dos alunos da educação básica. Tavares (2007) também chama atenção para uma crise no magistério que, segundo a autora, é atravessada pela precarização do trabalho docente e que consequentemente possui repercussões na identidade profissional. A autora traz dados de alguns estudos que apontam as causas da precarização do trabalho docente, assim como os elementos que contribuem para a desconstrução da identidade profissional. Tavares (2007) destaca um como um dos aspectos apresentados no estudo de Lüdke e Boing (apud TAVARES, 2007) o fato de a concepção de trabalho como um todo está se modificando. “Atualmente, entra em vigor o “modelo de competências” e o indivíduo sofre uma grande pressão ao ser identificado como o próprio responsável por sua manutenção no mercado de trabalho” (p.14). Apoiada no estudo de Lüdke e Boing, Tavares (2007) afirma a existência de uma: 52 “desprofissionalização”, um recuo no processo de profissionalização dos professores que perpassa vários aspectos, como por exemplo, aqueles que impõem limites à autonomia dos docentes como grupo ocupacional, por exemplo, a subordinação ao Estado; a divisão da ocupação docente que acaba por representar culturas diferentes (professores do Ensino Fundamental I, professores do ensino Fundamental II), já que para cada um desses segmentos observam-se currículos próprios, tetos salariais e até mesmo, em algumas escolas, espaços de convivência diferenciados, o que, de certa forma, leva a uma fragmentação da categoria (p.15). Guimarães (2005) destaca o papel dos processos de formação inicial e continuada na busca pela profissionalidade docente. Para o autor, esses processos contribuem para a elaboração de novas práticas e são, justamente, as práticas profissionais que delimitam a profissionalidade. A formação de professores vem ganhando grande destaque na produção acadêmica e também num conjunto de documentos normativos, como diretrizes e programas especiais, que focam na formação e na atuação profissional docente. De acordo com Guimarães (2005), uma característica presente na produção científica dessa área desenvolvida a partir dos anos 90 é o foco na formação de professores baseada no “ensino com pesquisa”. A defesa desse modelo formativo, em consonância com estudos internacionais, coloca a pesquisa como princípio educativo, compreendendo que há uma indissociabilidade do ensino e da pesquisa. Essa tendência torna-se cada vez mais presente nos projetos de cursos de formação, norteando especialmente o desenvolvimento dos estágios supervisionados. Guimarães (2005) argumenta que essa busca pela mudança de paradigma na formação do professor é uma tentativa de superação de uma racionalidade técnica por uma racionalidade prática, onde se valorizam modelos de formação diretamente relacionados com os contextos de trabalho, provocando a construção de novos saberes profissionais no interior de uma atividade ao mesmo tempo “artesanal” e “reflexiva” em detrimento de uma visão de formação “de natureza cumulativa e linear em que é dominante a racionalidade técnica” (Amiguinho e Canário, 1994 apud Guimarães, 2005). Esse enfoque formativo desloca a referência da formação dos aspectos estritamente acadêmicos e curriculares para a prática profissional, para a profissão, e, nesse sentido, defende a 53 construção de práticas formativas que privilegiam o desenvolvimento da competência profissional para atuar em contextos de incerteza, marcados por múltiplas interações, em vez do simples desenvolvimento de qualificações formais e cumulativas (Guimarães, 2005, p. 39). Pimenta e Lima (2011) em acordo com Guimarães (2005) propõem que a formação dos professores supere o modelo de um currículo normativo, onde primeiramente se apresenta a ciência, em seguida a sua aplicação e por fim um estágio onde se espera que os alunos apliquem os conhecimentos técnicoprofissionais. Pimenta e Lima (2011) afirmam que: o profissional assim formado não consegue dar respostas às situações que emergem no dia a dia profissional, porque estas ultrapassam os conhecimentos elaborados pela ciência e as respostas técnicas que esta poderia oferecer ainda não estão formuladas (p.48). A forte valorização de uma prática reflexiva na formação de professores tem sido denominada de “epistemologia da prática” termo utilizado por Schön (apud Pimenta e Lima, 2011) que defende a prática profissional como um momento privilegiado de elaboração de conhecimentos “por meio de reflexão, análise e problematização dessa prática e a consideração do conhecimento tácito, presente nas soluções que os profissionais encontram no ato” (p.48). A proposta da epistemologia da prática traz consigo uma forte valorização da prática na formação dos professores, mas se baseia numa prática refletida, pois considera teoria e prática como indissociáveis. Para Pimenta e Lima (2011), o papel da teoria é proporcionar aos docentes possibilidades de análise que os permita compreender os contextos sociais, históricos e institucionais nos quais atuam profissionalmente, para que tenham condições de intervir e transformá-los. Pimenta e Lima (2011) alertam que a fragilidade teórica e prática, observada frequentemente nos cursos de formação inicial de professores, é uma das limitações para o desenvolvimento de uma formação docente reflexiva. As autoras identificam o estágio como um tempo/espaço propício para operacionalizar a ideia de professor reflexivo e pesquisador. Compreendendo a educação como uma prática social complexa e impossível de ser generalizada, posto que se trata de um fenômeno imerso num contexto específico em um dado tempo e espaço, se faz necessário 54 pensar uma organização curricular que permita a reflexão teórica a partir do real. Dentro dessa premissa, Pimenta e Lima (2011) propõem que o estágio deixe de ser visto somente como um dos componentes ou, até mesmo, como um apêndice do currículo, e passe a integrar o corpo de conhecimentos do curso de formação de professores. Podendo se fazer presente em todas as disciplinas, além de seu espaço específico de análise e síntese ao final do curso. Schnetzler (apud Pimenta e Lima, 2011) defende a articulação entre teoria e prática a fim de alcançar o objetivo primeiro da investigação educativa, ou seja, para a autora o desenvolvimento da pesquisa no decorrer da prática de ensino nas ciências naturais contribui para a resolução de problemas educacionais, melhora a prática pedagógica e o desenvolvimento profissional docente. A autora enfatiza a importância de “aliar a formação na área científica específica aos conhecimentos da área pedagógica, o que constitui um significativo desafio aos professores da universidade” (p.74). De acordo com Pimenta e Lima (2011), no movimento do licenciando entre a instituição formadora e a escola onde se desenvolve a prática de ensino é preciso estar atento as culturas específicas de cada espaço. As autoras destacam a importância do conceito de habitus quando se compreende o estágio como um campo de conhecimento. Argumentando que o habitus funciona como um mediador entre o indivíduo e a prática social, as autoras afirmam que “seu estudo possibilita que se compreenda a cultura objetivada nas práticas escolares como marcas sociais e ao mesmo tempo individuais” (p.108). Nessa perspectiva, o conhecimento e a compreensão da cultura escolar no desenvolvimento da prática de ensino exigem o estudo e a análise das negociações que se colocam nas práticas cotidianas e que trazem a tona os movimentos inversos e as resistências às culturas e práticas organizacionais dominantes, como também, os movimentos de adesão às mesmas. O trânsito entre a instituição formadora e a escola permite ao professor em formação inicial construir uma rede de relações, conhecimentos e aprendizagens, que não possuem como objetivo a cópia ou apenas a crítica de um modelo, mas sim a compreensão da realidade para que futuramente tenha condições enfrentá-la. “Aprender com professores de profissão como é o 55 ensino, como é ensinar, é o desafio a ser aprendido/ensinado no decorrer dos cursos de formação e no estágio” (Pimenta e Lima, 2011, P. 112) Para Pimenta e Lima (2011) o significado social que os professores atribuem a sua profissão e a educação escolar possui um papel preponderante nos processos de construção da identidade docente. A identidade docente se forja baseada no embate entre as teorias e as práticas, no exame sistemático das práticas desenvolvidas à luz das teorias, na elaboração e reelaboração de teorias, o que possibilita identificar o estágio como um lugar de mediação reflexiva entre a instituição formadora, a escola e a sociedade. 2.3 A construção da identidade nas interações verbais Hall (2012) e Silva (2011) destacam o papel das interações discursivas no processo identitário, sendo então o mesmo mediado pelos signos, pelos atos, pelas trocas, pela comunicação entre os indivíduos. Aproximamos assim o processo de formação da identidade à formação linguística do sujeito e complementamos o quadro teórico com as ideias de Bakhtin. Uma vez que nos definimos levando em conta o outro e a coletividade, por meio da palavra, é justamente nela que podemos perceber as construções identitárias. De acordo com Freitas (2010), é possível afirmar que os estudos sobre a identidade cultural pertencem à esfera do discurso. A própria ideia de identidade cultural revela um constructo de práticas históricas e conjunção/dispersão de discursos sobre a cultura e sobre a identidade, sendo que o sujeito marca, da forma que for, seu lugar na cultura, ou no próprio discurso sobre a cultura (p. 322). O conceito de dialogismo defendido por Bakhtin pode ajudar na compreensão dos enunciados elaborados pelo sujeito cuja identidade se quer investigar. O dialogismo pode ser compreendido como o elemento que estabelece a condição interdiscursiva da linguagem, uma vez que está relacionado ao diálogo permanente, nem sempre harmonioso e proporcional, presente nos diferentes discursos que caracterizam uma comunidade, uma cultura e uma sociedade, bem como elemento significativo das relações discursivas instauradas entre o eu e o outro no interior dos processos 56 discursivos configurados historicamente pelos indivíduos, processos esses que também configuram os indivíduos em “contextos que não estão simplesmente justapostos, como se fossem indiferentes uns aos outros; encontram-se numa situação de interação e de conflito tenso e ininterrupto” (Bakhtin, 1981, p. 96). Essa concepção dialógica da perspectiva bakhtiniana, em que todos os enunciadores e enunciados se encontram num contexto mais amplo, está em consonância com a noção de identidade defendida por Hall (2011) e referida como “jogo de identidades”. Freitas (2010) aproxima a identidade, na modernidade tardia, do conceito de enunciação de Bakhtin. Para o autor, os processos de identificação são construídos na enunciação, posto que a identidade não é definida previamente, não é um dado acabado, mas sim uma celebração móvel e elaborada/negociada na e pela linguagem de forma relacional e sempre motivada pela diferença. De acordo com a teoria bakhtiniana, não são as unidades da língua, as palavras que são dialógicas, mas sim os enunciados. Dessa forma, as investigações sobre a identidade devem se voltar para os estudos enunciativos, pois esses podem revelar as identidades construídas pelos sujeitos no mundo que os cerca, e não objetivados ou apartados do seu contexto social. A obra de Bakhtin (1995) e seu círculo colocam o sujeito como um agente com constituição sócio-histórica, constituição esta que não pode ser o resultado de um determinismo mecânico da estrutura, tampouco fruto de uma individualidade livre de coerções e autoconsciente. A constituição dos sujeitos ocorre no sentido do social para o individual, pela incorporação de disposições originadas através de regularidades objetivas, situadas na lógica de um determinado campo (família, classe social, ciência, religião, etc.) e que, ao mesmo tempo, são redimensionadas de acordo com a trajetória do indivíduo, bem como da posição que ele ocupa na esfera/ no campo. Segundo Bakthin (1995), a consciência só se torna consciência quando é impregnada de conteúdo ideológico, isto é, somente no processo de interação social. Para ele, “a consciência adquire forma e existência por meio dos signos criados por um grupo organizado, no curso de suas relações sociais” (p. 35). 57 De acordo com Bakhtin (1995), é justamente no meio ambiente dos atos de fala (as conversas de corredor, as trocas de opinião, nas diferentes reuniões sociais) que se acham submersas todas as formas e aspectos de criação ideológica. Para ele, as formas de interação verbal estão fortemente atreladas ao contexto social dado e “reagem de maneira muito sensível a todas as flutuações da atmosfera social” (BAKHTIN, 1995, p.42). Podemos perceber que a linguagem está ligada a um grupo social e se remete ao contexto de determinado grupo. Segundo Bakhtin (1995), “cada época e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. A cada grupo de formas pertencentes ao mesmo gênero, isto é, a cada forma de discurso social, corresponde um grupo de temas (p. 43)”.Assim, entre as formas de comunicação, existiria uma determinada forma de enunciação e um tema, formando uma unidade orgânica e indestrutível. O autor acrescenta que as formas da comunicação verbal são “determinadas pelas relações de produção e pela estrutura sócio política (p. 43)”, havendo assim, uma relação estreita entre as formas de enunciação e o contexto onde está inserida. De acordo com a teoria bakhtiniana, a consciência é forjada nas interações sociais, instauradas pelos sujeitos, por meio da linguagem. Éportanto, nas relações interpessoais que o conhecimento é construído. Essa construção se dá através da apropriação de discursos alheios, mas não se configura na simples transferência de algo externo para um plano interno, preexistente, e sim, num processo de reelaboração interna. È justamente por esse movimento contínuo de internalização e reelaboração do enunciado do outro que a linguagem possui segundo Bakhtin (1981), um caráter heteroglóssico, bem como dialógico, considerando que esses enunciados sempre esperam uma atitude responsiva do outro a quem eles se destinam. Conforme afirma o autor: “nenhuma enunciação verbalizada pode ser atribuída exclusivamente a quem a enunciou: é produto da interação entre falantes e em termos mais amplos, produto de toda uma situação social em que ela surgiu” (p. 324). Dessa forma, a alteridade não é para Bakhtin um destinatário pacífico, o qual tem como função exclusiva compreender o interlocutor, ao contrário, sua atitude em relação ao enunciado do locutor é invariavelmente responsiva ativa 58 e concretizada na sua resposta, seja externa ou interna. É justamente uma resposta e não uma compreensão tácita que o locutor espera do seu destinatário, resposta essa que pode tornar-se concreta sob a forma de uma concordância, adesão, objeção, execução, etc. Amorim (2002) enfatiza o caráter de alteridade na teoria bakhtiniana destacando os desdobramentos infinitos dos lugares enunciativos, a dialogia característica do enunciado que permite chamá-lo de polifônico, uma vez que uma multiplicidade de vozes ecoam no mesmo lugar. De acordo com Amorim (2002): “o destinatário em Bakhtin é uma instância interior ao enunciado, a tal ponto que ele é considerado um co-autor do enunciado; isso traz uma consequência decisiva para o trabalho identitário do discurso pois sua própria estrutura se organiza em razão de sua destinação, o que conduz ao princípio maior do dialogismo, que é o princípio da não coincidência consigo mesmo: do ponto de vista discursivo, ‘A’ não é nunca idêntico a ‘A’” (p. 9). Amorim (2002) acrescenta que no que se refere ao destinatário, é preciso considerar duas vozes que emergem no interior do enunciado: o destinatário suposto e o destinatário real. O destinatário real é aquele que lê efetivamente o texto, uma instância posterior à escrita, que, contudo, participa obrigatoriamente da construção do sentido, uma vez que o ato de interpretação se constitui na elaboração de um segundo texto que dará sentido ao primeiro. E considerando que todo o texto se destina a leitura de alguém e que alguém se ocupará dele e que a existência de um texto tem a função própria de circulação, compreende-se que o destinatário suposto é uma instância posterior, mas ao mesmo tempo interior ao enunciado. Sintetizando as ideias anteriores, é possível dizer que o enunciado reflete as condições específicas e as finalidades da atividade humana e da utilização da língua “não só por seu conteúdo temático e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – lexicais, fraseológicos e gramaticais –, mas também, e, sobretudo, por sua construção composicional” (BAKHTIN, 1997, p. 279). De acordo com o autor, esses três elementos estão integrados de forma indissociável no ‘todo’ do enunciado, e “são marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação (p. 279)”. Em suas palavras, 59 Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico (BAKHTIN, 1997, p. 284). A partir do que foi exposto, compreendemos que para Bakhtin as interações verbais com o outro no mundo social são centrais no processo de constituição da consciência. Nesse sentido, o ser humano constitui-se na e por meio da alteridade, e suas atividades, bem como os papéis desempenhados nas mais diferentes dimensões sociais encontram-se carregados do(s) discurso(s) do(s) outro(s). Dessa forma, podemos tomar os enunciados como diálogos nos quais são travados embates ideológicos e constantemente visões de mundo são confrontadas. Dessa forma, torna-se importante compreender o discurso como o meio pelo qual podemos participar das mais variadas esferas da vida social, determinando quem somos, como analisamos o outro e como imaginamos que esse outro nos avalia, desencadeando um processo contínuo de construção e reconstrução de identidades. O conceito de hibridismo de Bakhtin tem sido ligado ao conceito de cultura como fluxo, de Homi Bhabha (citado por LOPES e MACEDO, 2011), atentando para como Bakhtin (1981) descreve um momento dado da existência histórica da língua como sendo heteroglóssica de cima a baixo. A língua representa, nessa descrição, a coexistência de contradições sócio-ideológicas entre presente e passado, entre diferentes épocas do passado, entre diferentes grupos sócio-ideológicos no presente, entre tendências, escolas, círculos e assim por diante e cada uma dessas “línguas” assumindo uma forma corporal. Além de coexistirem, essas “línguas” se intersectam umas as outras em uma variedade de formas, tipificando socialmente novas “línguas”. Cada uma dessas “línguas” se diferencia das outras pelos princípios de marcação de diferenças (para algumas, o princípio é funcional, para outras, o princípio é o tema e o conteúdo e outros são possíveis). Portanto, para Bakhtin (1981), línguas não se excluem entre si, mas se intersectam em uma variedade de maneiras a ponto da palavra “língua” perder todo o sentido nesse processo – por aparentemente não existir um plano singular sobre o qual todas estas “línguas” pudessem ser justapostas umas às outras. 60 Como propõem Silva (2011) e Hall (2011), as identidades sociais se forjam nas narrativas discursivas consubstanciadas por relações de poder. As identidades docentes, como argumentam Pimenta e Lima (2011) se constroem particularmente nos embates com as teorias e nas reflexões sobre a prática. Assumindo por tanto, o papel fundamental da linguagem nesses processos, entendemos a análise do discurso na perspectiva bakhtiniana como um caminho profícuo para a análise das narrativas de licenciandos e para a compreensão do processo de construção identitária vivenciados por eles. Consideramos que esta construção seja constituída, ela própria, por processos de identificação. 2.4. Objetivos Objetivo Geral: Entendendo que a formação da identidade dos professores está estritamente ligada as relações culturais e sociais produzidas por meio da linguagem, esse trabalho tem como objetivo geral investigar o processo de construção identitária que vem sendo vivenciado, ao longo do curso, por licenciandos em química do IFRJ campus Duque de Caxias. Objetivos específicos: 1. Identificar as vozes presentes no discurso dos licenciandos. 2. Investigar como o habitus pedagógico do curso é revisitado (assumido ou transformado) no discurso dos licenciandos. 3. Investigar como a experiência prática vivenciada no PIBID e no estágio supervisionado marcam a construção narrativa dos licenciandos. 4. Investigar os processos de identificação a partir dos objetivos específicos anteriores. 61 Capítulo 3: Metodologia Diários reflexivos 62 Capítulo 3: Metodologia Neste capítulo apresentaremos o contexto no qual a pesquisa foi desenvolvida, a caracterização dos sujeitos do estudo, a forma como foram coletados os dados e o dispositivo analítico que nos auxiliará na análise dos dados da investigação proposta. 3.1. Contexto do estudo O Campus Duque de Caxias do IFRJ, local onde se desenvolve essa pesquisa, oferece o curso de licenciatura desde março de 2009. Esse campus foi instaurado no Bairro Sarapuí, em 2006, ainda como Núcleo Avançado de Ensino do CEFET Química de Nilópolis – RJ, a partir de uma parceria entre o Governo Federal e a Prefeitura Municipal de Duque de Caxias. As atividades educacionais tiveram início em 12 de setembro de 2006. Em março de 2009 o Núcleo avançado é transformado em IFRJ – Campus Duque de Caxias, em atendimento ao disposto na Lei 11.892 de dezembro de 2008. O Município de Duque de Caxias está situado na Baixada Fluminense e integra a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esse município se divide em quatro distritos: Duque de Caxias, Campos Elíseos, Imbariê e Xerém, com uma população estimada em 855.048 habitantes (IBGE/2010). Nesse campus além do curso de Licenciatura em Química são oferecidos cursos técnicos em Química, Polímeros, Petróleo e Gás, Segurança do Trabalho e Manutenção e Suporte em Informática, esse último é oferecido na modalidade Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). O corpo docente que atua no curso de licenciatura é composto por 11 Doutores, 14 Mestres e 3 Especialistas. Dos 28 professores que atuam na Licenciatura em Química, 19 possuem formação pedagógica e 26 atuam simultaneamente nos cursos técnicos de nível médio oferecidos no campus. É importante destacar que tal configuração não permite um maior envolvimento dos docentes no curso. A missão institucional do IFRJ é “promover a formação profissional e humana, por meio de uma educação inclusiva e de qualidade, contribuindo para o desenvolvimento do país nos campos educacional, científico, 63 tecnológico, ambiental, econômico, social e cultural” (PDI 2009-2013), por meio da oferta de Educação Básica e Educação Superior. De acordo com a Lei nº 11.892/08, que cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, em seu artigo 7º, o IFRJ tem dentre seus objetivos a oferta de cursos de licenciatura, especialmente nas áreas de Ciências e Matemática, com garantia, conforme disposto no artigo 8º, da oferta mínima de 20% do total de vagas para o atendimento dessa demanda. No primeiro semestre de 2012 o curso de Licenciatura em Química do campus Duque de Caxias contava com 152 alunos matriculados nas unidades curriculares. O projeto pedagógico do curso (PPC) destaca o perfil e a vocação institucional do IFRJ, reconhecido como um centro de notória competência na formação de profissionais para o Ensino de Ciências, oferecendo 07 cursos de licenciatura na área, cursos de extensão, pós-graduação lato sensu e pósgraduação stricto sensu. O PPC da licenciatura em Química do IFRJ – Campus Duque de Caxias expõe como principal objetivo a formação de professores “com amplo domínio teórico e experimental do conteúdo específico de Química e da práxis pedagógica, criando profissionais reflexivos, competentes e críticos, capazes de promover o conhecimento científico e a disseminação da ciência” (p. 27). O texto do PPC enfatiza que é necessário priorizar o verdadeiro sentido da licenciatura: A docência, o foco do curso está na formação do professor, privilegiando os fundamentos e teorias de compreensão da realidade educacional para além da área específica da química, visando o combate à fragilidade e simplificação e fragmentação de tal formação. Para isso, precisa-se criar novos significados para os processos de ensino e aprendizagem, não só individuais, mas também coletivos. Desde o início, efetivamente, pretendemos formar professores de Química (p.19). O documento defende que a prática profissional deverá ser compreendida como um espaço didático-pedagógico de responsabilidade de todos os docentes, permitindo que o licenciando construa a sua práxis educativa em cada uma de suas experiências de magistério, interagindo com o espaço escolar. A proposta do curso visa estabelecer relações entre conteúdos 64 e contextos focando o significado do que é ou deve ser aprendido por meio de estratégias metodológicas que relacionam vivência e prática profissional. Segundo o documento, o objetivo do curso é: oferecer uma sólida formação profissional, de base científica e pedagógica, pela articulação de conhecimentos e por metodologias voltadas para uma prática científica de sustentação, com vistas ao desenvolvimento da capacidade de investigação do futuro profissional, de forma a permitir-lhe não apenas compreender os processos de aprendizagem, mas adquirir autonomia, bem como desenvolver práticas inovadoras e adequadas à educação científica (p.20). De acordo com o PPC, esse documento foi elaborado em consonância com as Diretrizes Curriculares Nacionais, com o Projeto Pedagógico Institucional e outros documentos norteadores da profissão buscando atender às necessidades de formação do licenciando. O documento indica que o IFRJ busca um modelo baseado no princípio de que: a formação inicial do professor deve se dar com a articulação dos conhecimentos pedagógicos aos conhecimentos científicos, desde o início da formação, de modo a, efetivamente, formar professores de Química, e não Químicos que possam “dar aulas” (p.25). Assim, a proposta do curso enfatiza que a prática profissional não poderá se caracterizar por um componente a parte, mas sim um espaço didático-pedagógico de responsabilidade de todos os professores formadores: O que se pretende é que o licenciando não somente venha a aprender, por exemplo, o conteúdo de Ligações Químicas, mas que, de forma paralela ao conhecimento científico formado, vivencie boas práticas para o ensino de Ligações Químicas, a partir da utilização, pelo professor formador, de novas metodologias, estratégias e materiais de apoio. Assim, a cada experiência de magistério, vivida desde o início do curso, o licenciando irá construindo a sua práxis, num processo sinérgico e dialético do espaço escolar, com colegas e professores (p.26). O PPC prevê que o estágio supervisionado como parte integrante e obrigatória da formação de professores da Educação Básica, propicie ao licenciando a participação em atividades que articulem ensino, pesquisa e extensão. O estágio ocorre nos cursos de nível médio oferecidos no IFRJ campus Duque de Caxias e em instituições de ensino públicas ou privadas, a partir do quinto período letivo. 65 O aluno-estagiário deverá desempenhar suas atividades numa perspectiva de reflexão na ação e sobre a ação, de modo a formar-se como um professor que paute sua prática em dimensões éticas e políticas, de forma crítica, contextualizada, interdisciplinar e transformadora, onde “o profissional constrói conhecimento em sua prática cotidiana”, visando à formação de um professor como profissional reflexivo e pesquisador de sua própria prática. Com isso, o Curso de Licenciatura em Química busca a formação integral do licenciando dando capacitação nas seguintes vertentes: Ciência que vai ensinar (conhecimentos específicos); Ciência de ensinar (conhecimentos pedagógicos) e Ciência da prática profissional (conhecimentos construídos na reflexão na prática e sobre a prática) (p. 42). Além do estágio supervisionado, alguns alunos do curso de licenciatura tem a oportunidade de vivenciar a prática pedagógica em escolas de Educação Básica do Estado do Rio de Janeiro por meio da participação no PIBID. Atualmente o campus Duque de Caxias possui dois projetos desse programa. O primeiro projeto, com 24 bolsas para licenciandos, teve início em março de 2010 e tem vigência até 2013. O segundo projeto, com 10 bolsas para licenciandos, teve início em março de 2011. 3.2 Sujeitos do estudo Os sujeitos do presente estudo são quatro licenciandas do curso de licenciatura em Química que cursaram o componente curricular Didática no segundo semestre de 2010, que corresponde ao 3º período do curso. O critério de seleção estabelecido foi a participação no PIBID nesse período. Esse critério foi estabelecido por consideramos que os alunos envolvidos nas atividades do PIBID vivenciam suas primeiras experiências no exercício do seu futuro ofício e que esta vivência pode ser assim, um elemento importante do processo de construção da identidade profissional. As quatro licenciandas participantes desse estudo estavam vinculadas ao mesmo projeto do PIBID. A participação dos alunos da licenciatura em Química do IFRJ - campus Duque de Caxias nesse projeto tem como objetivo o desenvolvimento de atividades com os alunos de diferentes escolas, conveniadas do município de Duque de Caxias como, por exemplo, experimentos com materiais de baixo custo e monitoria, sob a coordenação de um docente da licenciatura. Em cada uma dessas escolas, um professor da 66 disciplina supervisiona e acompanha as atividades desenvolvidas pelos licenciandos. Essa experiência, assim como o estágio, promove a presença do licenciando no cotidiano da escola, propiciando o contato com a realidade enfrentada no desenvolvimento do trabalho docente. As licenciandas foram identificadas com nomes fictícios, que fazem uma homenagem as ganhadoras de prêmios Nobel de Química: Marie, Irène, Ada e Dorothy. Descrevemos a seguir, algumas informações pessoais e acadêmicas das licenciandas, coletadas no inicio do terceiro período do curso, dos formulários preenchidos no ato da matrícula. Marie ingressou no curso com 19 anos, foi aluna da rede pública estadual, do curso de ensino médio de formação geral. O curso de licenciatura em química não foi a sua primeira opção no vestibular. Sua primeira opção foi Engenharia Química. Irène ingressou no curso com 23 anos, foi aluna do curso técnico em Química de nível médio no IFRJ, campus Nilópolis. A licenciatura em Química não foi a primeira opção no vestibular. A primeira opção foi o bacharelado em Química. Ada ingressou no curso com 19 anos, cursou o ensino médio técnico em Enfermagem em uma escola da rede pública estadual. A licenciatura em Química foi a sua primeira opção no vestibular. Dorothy ingressou no curso com 20 anos, foi aluna de escola de escola privada, do curso o ensino médio de formação geral. Tentou o vestibular para Farmácia, Química Industrial, Química com atribuições Tecnológicas e por último, licenciatura em Química. 3.3. Coleta de dados A coleta de dados foi realizada em dois momentos, no terceiro e no quinto período do curso. O diário reflexivo foi adotado como instrumento para o registro individual da narrativa (auto)biográfica das situações vivenciadas na trajetória formativa dos alunos da licenciatura no primeiro momento. Ao tomar essas narrativas (auto)biográficas como dados para análise da pesquisa, buscamos trazer à tona a história desses futuros professores considerando-os como portadores de uma identidade pessoal e profissional. Nesse sentido, ao 67 olhar para dimensão profissional é preciso considerar outras dimensões que compõem o professor de química em formação, pois conforme afirma Souza (2006, p. 42), “as histórias de vida, as representações e as narrativas de formação marcam aprendizagens tanto da dimensão pessoal, quanto a profissional e entrecruzam movimentos potencializadores da profissionalização docente”. As narrativas dos professores em formação inicial foram produzidas em dois momentos, ao longo do desenvolvimento do componente curricular Didática que ocorre no 3º período do curso, e ao final do componente curricular Estágio Supervisionado I, que ocorre no 5º período do curso. A ideia de investigar dois momentos tem como objetivo tentar observar um processo mais longo de construção identitária e, possivelmente, movimentos de continuidade ou de ruptura nos processos de identificação. No primeiro momento da coleta de dados, a produção dos enunciados das quatro licenciandas se deu a partir de uma atividade proposta em sala de aula no desenvolvimento do componente curricular Didática. Após a leitura do primeiro capítulo do livro Pedagogia da Autonomia (FREIRE, 1996) foi solicitado aos alunos que procurassem um professor de química em exercício (do curso ou de outros cursos, de nível universitário ou de nível médio) para fazer o seguinte questionamento: Qual ou quais o(s) saber(es) necessário(s) à prática docente? A resposta de cada professor(a) deveria ser registrada no diário reflexivo e apresentada na aula seguinte. Após a apresentação das respostas, foi promovido um debate sobre a profissão do professor, alimentado por questões destacadas dos textos de Nóvoa (2007) e de Pimenta (2000). Em seguida, como tarefa para a aula seguinte, os (as) alunos (as) produziram uma narrativa respondendo às seguintes perguntas: o que é ser professor (a)? Como venho me formando professor(a)? No segundo momento de coleta de dados, foi solicitado às licenciandas que construíssem uma narrativa sobre a experiência vivenciada no desenvolvimento do componente curricular Estágio Supervisionado I. Nessa narrativa as alunas deveriam responder aos seguintes questionamentos: a) Qual o papel do estágio supervisionado para a sua formação docente? b) Foi possível estabelecer alguma relação entre a vivência no estágio e as 68 disciplinas do seu curso? Quais? c) A sua percepção sobre a escola e/ou sobre o trabalho docente sofreu algum impacto e/ou modificação com as experiências vividas no estágio? Por quê? d) Como você relaciona e/ou diferencia as experiências vivenciadas no estágio supervisionado e no âmbito do PIBID? 3.4 Procedimentos de análise As narrativas são os enunciados no qual nos debruçamos para fazer a nossa análise. Para isso adotamos a perspectiva bakhtiniana na qual o enunciado reflete as condições específicas e as finalidades da atividade humana e da utilização da língua, que “efetua-se em forma de enunciados orais e escritos, concretos e únicos” (Bakhtin, 1997, p. 279). Segundo Bakhtin, “o enunciado – oral e escrito, primário (simples) e secundário (complexo), em qualquer esfera da comunicação verbal é individual, e por isso pode refletir a individualidade de quem fala (ou escreve), pois possui um estilo individual. Essa individualidade, segundo Bakhtin (1997), é manifesta pelo sujeito autor da obra por meio de sua visão do mundo, expressa em cada um dos elementos estilísticos contidos nesta. Outra peculiaridade do enunciado é que este apresenta fronteiras que coincidem com a alternância dos locutores. De acordo com Bakhtin (1997, p. 294), “todo enunciado – desde a breve réplica (monoleximática) até o romance ou o tratado científico – comporta um começo absoluto e um fim absoluto: antes do seu início, há os enunciados dos outros, depois de seu fim, há os enunciados- respostas dos outros. [...] O locutor termina seu enunciado para passar a palavra ao outro ou para dar lugar à compreensão responsiva do outro.” A segunda particularidade do enunciado é o seu acabamento. Segundo Bakhtin (1997), o acabamento do enunciado ocorre tanto na fala quanta na escrita quando o locutor disse (ou escreve) tudo o que queria dizer num preciso momento e em condições precisas. Ao ouvir ou ler, sentimos claramente o fim de um enunciado, como se ouvíssemos o “dixi” conclusivo do locutor. É um acabamento totalmente específico e que pode ser determinado por meio de critérios particulares (p. 299). 69 A noção de acabamento desenvolvida por Bakhtin (1997) expressa uma relação entre autor, personagem (herói) e a criação desta última. Nessa perspectiva, podemos pensar nessa noção como um ato estético, ou seja, que o acabamento está relacionado ao agir do sujeito imerso no meio social e histórico. Esse ato estético é uma reflexão elaborada, portanto com acabamento, acerca da ação ética realizada por ele e também reflete a concepção de mundo deste, pois essa concepção ou visão de mundo é transfigurada na construção do seu discurso. Outro ponto no qual nos apoiamos pra fazer nossa análise das narrativas diz respeito à ideia de particularidade da situação em que se dá um enunciado. Nas palavras de Brait (2005, p. 93), “o julgamento da situação que interfere diretamente na organização do enunciado e que, justamente por isso, deixa no produto enunciado as marcas do processo de enunciação”, o que a autora denomina de avaliação social. Tomando as narrativas como enunciados, usaremos um dispositivo analítico para análise bakhtiniana do discurso (VENEU, 2012; FERRAZ, 2012) que compreende os seguintes procedimentos: 1 - Identificação do enunciado: a própria alternância entre os sujeitos falantes já é suficiente para identificar o enunciado, ou seja, o enunciado inicia-se no momento em que o falante toma a palavra para si e finaliza-se no momento em que este termina o que gostaria de dizer, permitindo que o outro também fale. 2 - Leitura preliminar do enunciado: o objetivo desta etapa é o primeiro contato com os enunciados no sentido de: identificar preliminarmente seus elementos linguísticos estilo, construção composicional, unidade temática, relação com o falante/outros participantes, conclusibilidade) e fazer uma articulação prévia entre o material linguístico, o objetivo da pesquisa e os conceitos bakhtinianos. 3 - Descrição do contexto extraverbal: a partir da leitura preliminar e da articulação prévia das questões de pesquisa aos conceitos bakhtinianos, é realizada uma investigação do contexto extraverbal para identificar, dentre os vários elementos, aqueles que mais contribuirão para a análise. Esses elementos são então descritos e articulados com vistas a estabelecer o 70 horizonte espacial comum dos interlocutores, seu conhecimento e compreensão da situação, sua avaliação comum dessa situação, o momento social e histórico em que ocorre, a rede de enunciados a que se relaciona, etc. 4 - Análise do enunciado: Consiste em articular os elementos linguísticos (estilo, construção composicional, unidade temática, relação com o falante/outros participantes, conclusibilidade), o contexto extraverbal e os conceitos bakhtinianos envolvidos para alcançar o objetivo da pesquisa. 71 Capítulo 4: Análise das narrativas Quando eu soltar a minha voz Por favor entenda Que palavra por palavra Eis aqui uma pessoa se entregando Coração na boca Peito aberto Vou sangrando São as lutas dessa nossa vida Que eu estou cantando Quando eu abrir minha garganta Essa força tanta Tudo que você ouvir Esteja certa Que estarei vivendo (Gonzaguinha) 72 Capítulo 4: Análise das narrativas Neste capítulo será apresentada a análise das narrativas das quatro licenciandas, que participaram dos dois momentos de coleta de dados. 4.1 Análise do primeiro momento da coleta de dados Será apresentada uma única descrição para as três primeiras etapas do dispositivo analítico, referente às quatro licenciandas. Optamos por essa forma de apresentação por termos considerado que se trata de descrições semelhantes para todas as participantes da pesquisa. A última etapa, referente à análise propriamente dita, será apresentada para cada aluna, separadamente. 4.1.1- Primeiras etapas do dispositivo analítico a) Identificação dos enunciados No primeiro momento, foram dirigidas duas perguntas às licenciandas, porém, sem chance de alternância com a professora, já que foram respondidas por escrito uma imediatamente após a outra. Assim, as duas respostas foram consideradas um único enunciado. Os quatro enunciados coletados no primeiro momento são reproduzidos por inteiro na seção de análise. b) Leitura preliminar Uma característica que observamos na leitura preliminar dos quatro enunciados referentes ao primeiro momento é que todos dialogavam de alguma forma com as disciplinas pedagógicas. Isso pode ser percebido nos seguintes trechos: “De início me dediquei a pelo menos conhecer um pouco sobre psicologia” (Marie); “Ser professor é ser alguém capaz de ser um mediador entre o conhecimento e o aluno.” (Irène); “Venho aprendendo as formas de abordagem mais eficazes” (Ada); e “Estamos aprendendo que há várias maneiras de avaliarmos um aluno.” (Dorothy). Também foi possível perceber, que dentre as quatro estudantes que tiveram suas narrativas 73 selecionadas por estarem participando do PIBID, apenas duas fizeram menção a este programa. Foi possível notar ainda, que há uma nítida diferença na extensão dos enunciados: Os enunciados de Marie e Irène são mais curtos e os de Ada e Dorothy são mais longos. Em termos do conteúdo, notamos que os mais curtos apresentam maior influência do curso enquanto os enunciados mais longos parecem ser marcados pelo senso comum, sem uma influência explícita do curso. Dentre estes, é possível notar que há momentos em que as autoras se distanciam da pergunta e trazem referências do passado e modelos anteriores ao ingresso no curso. Verificamos que as narrativas de Marie e de Irène são marcadas pela compreensão do papel do professor como um mediador do processo de ensino, visão que dialoga com os objetivos expressos na proposta pedagógica do curso. Já os enunciados de Ada e de Dorothy narram experiências anteriores ao curso de formação e trazem as vozes de professores desse período. Essas narrativas influenciam diferentes processos de identificação: Ada vê o professor como um guia e Dorothy identifica o professor com um missionário. c) Contexto extraverbal As narrativas analisadas nesse estudo foram produzidas a partir das discussões realizadas em sala de aula sobre o tema “Saberes necessários à docência”. Como descrito no capítulo três, o objeto de análise desse primeiro momento diz respeito às repostas das licenciandas aos questionamentos: o que é ser professor (a)? E como venho me formando professor (a)? Vale destacar que as narrativas foram produzidas após a leitura e debate sobre a opinião coletada dos professores de química a respeito dos saberes necessários à docência. Um ponto relevante do debate foi a observação sobre o discurso dos docentes do curso, professores das disciplinas de conteúdo específico, que em geral valorizam mais o conhecimento específico do que o pedagógico, considerado apenas como conjunto das formas de “transmitir” o conteúdo. Dado esse contexto específico, a avaliação comum da situação entre as alunas e a pesquisadora seria a valorização da reflexão sobre a formação 74 docente, o suposto diálogo com elementos trazidos das aulas anteriores, das leituras e da atividade proposta e a relação com as experiências pedagógicas vivenciadas até aquele momento. É importante salientar que nos debates realizados em sala de aula no desenvolvimento do componente curricular didática, questionamentos sobre as posturas de alguns professores com os quais os alunos convivem no interior do curso e nas escolas do PIBID são constantes. Esses questionamentos se baseiam em reflexões críticas alimentadas pelas leituras realizadas e pela incoerência observada entre a proposta do curso e o que de fato é vivenciado no percurso formativo. Por exemplo, é comum nos relatos dos alunos a referência a discursos dos professores formadores que desvalorizam os saberes pedagógicos considerando-os como um conhecimento fácil e desnecessário à prática pedagógica. No entanto, este discurso está em conflito com o PPC do curso, que defende que a formação inicial oferecida pelo IFRJ deve ocorrer a partir da articulação dos conhecimentos pedagógicos e os conhecimentos específicos, desde o início da trajetória formativa, possibilitando assim, a formação de professores de química e não de químicos capazes de dar aulas (PPC, p.25). Essa circulação de discursos diferentes no interior da instituição formadora certamente conforma o contexto extraverbal e a construção da identidade dos docentes em formação inicial. A adesão ou a hibridização de determinados discursos vai forjar diferentes construções identitárias. 4.2. Análise dos enunciados Nesta seção apresentamos a análise dos enunciados de cada uma das licenciandas, levando em consideração os elementos levantados nas etapas anteriores. 4.2.1 Análise do enunciado de Marie O que é ser professor (a)? O professor é um auxiliador quando ciente que seu papel é educar, ensinar, compartilhar, aprender, respeitar e se encaixar na realidade e se adaptar com a história individual de cada aluno. Como venho me formando professor (a)? 75 Para formar minha conduta como professora, de inicio me dediquei a pelo menos conhecer um pouco sobre psicologia. A entender que cada mente é diferente, dificuldades mentais, déficits de atenção, entre outros. Para como consequência saber detectar a dificuldade de meus alunos. Em segundo passo quando aprendo penso na forma de como se ensina. E quando ensino penso na forma de se aprender. Como terceiro item, sei que uma matéria só fica fixada na memória estabelecendo um aprendizado quando é possível de perceber a sua importância. Por exemplo, aprender química não serve somente para ser químico, muito menos só para passar no vestibular. Serve para entender certos fenômenos como o porquê da pasta dental com flúor ser bom para os dentes ou como saber química pode ajudar na química na cozinha. Despertar a curiosidade, dar sentido à matéria. Ser um mediador que pode talvez não mudar o futuro, mas ajudar a melhorar a vida de muitas pessoas. Na composição do enunciado de Marie chamou à atenção a repetição de verbos para se referir ao papel do professor, como no trecho “O professor é um auxiliador quando ciente de que seu papel é educar, ensinar, compartilhar, aprender, respeitar e se encaixar na realidade e se adaptar...” recurso utilizado provavelmente para enfatizar a diversidade e complexidade das habilidades que constituem o todo do ser professor. O conteúdo das ações relacionadas ao papel do professor também parece ser um recurso para sublinhar uma característica central da docência, que aparece nas duas partes do seu enunciado: a necessidade de levar em conta o aluno. Marie compreende o professor como alguém que auxilia o outro e que é capaz de se adaptar à individualidade do aluno. A segunda parte do enunciado complementa a primeira na medida em que ela vai explicitar como vem procurando se formar para adaptar-se ao aluno. Relata que foi buscar na Psicologia, fundamentos para poder exercer este papel. Ela dá valor à relação professor-aluno no sentido de reconhecer que cada um é um e isso vai demandar que ela conheça cada realidade para poder desenvolver melhor o processo de ensino. Além de dar ênfase à relação professor-aluno, traduz essa relação de uma forma específica: é preciso se aproximar do aluno, entendê-lo, se adaptar à sua individualidade. Assim, Marie parece ver o aluno no centro do processo de ensino. Esta postura possivelmente está relacionada a conteúdos trabalhados anteriormente no curso, na aula em que foram abordadas as tendências pedagógicas e no 76 próprio livro Pedagogia da autonomia, de Paulo Freire, leitura realizada antes da produção da narrativa. Em sua narrativa, Marie não apresenta um posicionamento dicotômico em relação aos conhecimentos específicos e pedagógicos, ao contrário, ela busca fazer a articulação entre esses conhecimentos, destacando a importância da contextualização para o ensino de Química. No discurso de Marie, se faz presente as vozes oriundas de várias disciplinas pedagógicas. Essas vozes são notadas não só quando a aluna cita explicitamente o componente curricular Psicologia, mas também quando mostra sua apropriação de conhecimentos que são discutidos nestas disciplinas. Por exemplo, quando afirma ser necessário “entender que cada mente é diferente, dificuldades mentais, déficits de atenção, entre outros. Para como consequência saber detectar a dificuldade de meus alunos”, está fazendo referência aos conhecimentos relativos à Psicologia da Aprendizagem. Mais adiante, quando fala que “a matéria só fica fixada na memória estabelecendo um aprendizado quando é possível de perceber a sua importância”, está se apropriando do conceito de aprendizagem significativa, tema tratado na aula de Didática. Quando dá destaque à importância de trabalhar a função social da química como estratégia para melhorar o desenvolvimento do processo ensinoaprendizagem, está se apropriando de um tema trabalhado na disciplina Metodologia do Ensino de Química. Percebe-se, assim, na narrativa de Marie, que a sua compreensão da docência, a forma como vê a profissão, está fortemente influenciada pelo curso de formação, em especial, pelo discurso oriundo das disciplinas pedagógicas. Observamos também que há coerência entre as duas partes do enunciado de Marie. Ou seja, o modo como a aluna descreve o seu processo formativo está em consonância com a forma como identifica o papel do professor. 4.2.2. Análise do enunciado de Irène O que é ser professor (a)? Ser professor é ser alguém capaz de ser um mediador entre o conhecimento e o aluno. Ser professor é ser capaz de formar pessoas para a vida. 77 Como eu venho me formando professor (a)? Tenho tentado me preparar da melhor forma para ser uma boa professora. Já tive algumas experiências na profissão dando aulas em casa e no projeto PIBID. Através dessas experiências pude perceber que o ato de ensinar traz com ele o aprender. Tenho procurado aprender com bons modelos de professores para sempre melhorar meu conceito sobre ensino. Irène compreende o professor como um mediador na construção do conhecimento do aluno. Embora não faça menção explícita a nenhum componente disciplinar do curso em seu enunciado, podemos identificar a voz dos conhecimentos pedagógicos em sua narrativa, em especial, dos textos discutidos no decorrer da disciplina didática. Seu posicionamento parece bastante influenciado pelo pensamento de Paulo Freire, autor lido antes da realização da atividade. Essa influência fica clara ao observamos que ela destaca que o professor deve ser capaz de formar pessoas para a vida e também quando afirma que o ato de ensinar traz com ele o aprender, fazendo referência à proposição de Paulo Freire: “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, p. 24). O PIBID é mencionado no enunciado como uma experiência pedagógica importante para a construção de “uma boa professora”, enfatizando a experiência prática, desenvolvida nesse contexto, como um componente favorável para uma boa formação pedagógica. Além da experiência prática a licencianda dá destaque ao papel da interação com outros professores na construção da sua identidade docente, conforme observamos na frase: “tenho procurado aprender com bons modelos de professores para sempre melhorar meu conceito de ensino”. No entanto, o texto não deixa claro se esses “modelos” estão relacionados apenas aos professores com os quais convive atualmente no curso, na escola, ou se também recorre a lembranças de “bons” professores do passado para compor a sua reflexão sobre a atividade docente. Assim como Marie, Irène demonstra que sua compreensão sobre a docência está embasada nas reflexões teóricas e nas experiências práticas desenvolvidas no decorrer do curso. Seu enunciado, apesar de breve, valoriza o discurso oriundo das disciplinas pedagógicas e não apresenta incoerência entre as duas partes. 78 4.2.3 Análise do enunciado de Ada O que é ser professor (a)? Os melhores professores da minha vida foram aqueles que mostraram a matéria, me mostraram pra que aquilo servia, como deveria ser direcionado meu pensamento para entender/desvendar uma dada questão, que me ajudaram nos momentos de dificuldade, me auxiliavam nas minhas decisões profissionais e consequentemente se enchiam de alegria com a minha superação. Eles me mostravam não só que a educação é uma forma de ascensão social, mas também que se obtinha pensamentos lógicos, opiniões fora do senso comum e me ajudavam a amadurecer ideias. Me ensinaram a não me contentar com pouco: pouca informação, pouca explicação, pouca educação, pouca experiência, pouco pensamento, pouco querer. Me ensinaram ver coisas que muitos não veem, me ensinaram a ver o objetivo de cada matéria, o que era proposto. Na verdade, a sinceridade de muitos também foi fundamental para a minha reflexão e poder de discernimento. Quando eu penso o que é ser professor se tem muito a falar, é aquele que educa, te prepara, te passa a informação, que forma cidadãos. Como o próprio Dom Pedro II disse é aquele que direciona os saberes. Tudo começa a partir daí (qualquer profissão), se não tiver bons profissionais, todo o resto estará comprometido. Acho que toda profissão deve ter essa visão independente do nível de escolaridade, tem que se saber o quanto é importante e sem ele (lixeiro, professor, médico, cantor, ator) nada seria igual e que todos somos um exemplo (bom ou ruim). A diferença é que não vejo muito poder de reflexão de quem não estuda, não digo só de reflexão, mas digo de discernimento, de raciocínio através do conhecimento real e não só das experiências vividas ou do que se está vendo. Vejo que quanto menos informações mais levam a vida por tentativa e erro, ou tentativa e arcar com as consequências e viver a vida que nos dão condições de viver (sem direitos). O professor é o único que além da família, pode mudar essa realidade, começa com poucas informações e depois nos “mostra” outras. Mas voltando ao tema central é um profissional que é habilitado para exercer tal função, sendo assim ensinar o que é proposto. Mas deve fazer da melhor forma possível, pois a intenção já é um fator determinante para um bom trabalho. Não sei se serei uma professora tão boa quanto os que já tive, mas a exemplo deles com certeza darei o melhor de mim. Como eu venho me formando professor (a)? Venho tentando compreender as formas de aprendizagem. Venho aprendendo as formas de abordagem mais eficazes. Como bolsista do PIBID, venho acumulando algumas experiências boas e ruins, e refletindo. Pude perceber que mesmo você tendo a melhor forma de explicação, abordagem e um ótimo planejamento e didática, não é um fator que vai despertar o interesse ou entendimento de todos. Na verdade quase nunca o aluno vai se interessar, a única diferença é que você estará fazendo sua parte. Pude perceber a importância do planejamento, pois devemos tratar cada turma/aluno como único e também por que você tem que se lembrar do que tratar, como tratar e sempre tem alguma coisa que a gente esquece. Enfim, eu venho estudando e 79 tentando melhorar a cada dia para ser o melhor de mim sempre nesta profissão. Observando, estudando e acumulando experiências vai ser sempre como eu vou estar me formando professora. Ada inicia o seu enunciado recorrendo a lembranças de professores que foram marcantes na sua trajetória para tentar definir o que é ser professor. Ela recorre aos exemplos de melhores professores para chegar a essa definição que corresponderia ao padrão de qualidade máxima ou o professor ideal. Esse professor tanto era capaz de atuar no sentido pedagógico quando no sentido da orientação da vida pessoal. Ela destaca assim, como melhores professores, aqueles que abordavam o conteúdo de forma contextualizada e direcionavam o processo ensino-aprendizagem ao mesmo tempo em que orientavam e incentivavam o seu crescimento pessoal e profissional. Por meio da repetição do advérbio de intensidade “pouco” em “Me ensinaram a não me contentar com pouco: pouca informação, pouca explicação, pouca educação, pouca experiência, pouco pensamento, pouco querer”, percebemos sua valorização do aspecto quantitativo do que foi oferecido a ela por estes professores. A quantidade aparece no seu enunciado como uma referência de qualidade. Ada identifica o professor como um guia, alguém que vai indicar o melhor caminho a seguir. Sua visão idealizada de professor e de educação como o único caminho para a conscientização e reflexão fica clara quando admite que não vê “poder de reflexão de quem não estuda, não digo só de reflexão, mas digo de discernimento, de raciocínio através do conhecimento real e não só das experiências vividas ou do que se está vendo”. Assim, a licencianda desqualifica o papel do senso-comum e atribui à educação e à informação em grande quantidade, o poder de mudar a realidade e de formar o cidadão. Neste trecho do enunciado, a licencianda dialoga fundamentalmente com sua experiência discente anterior ao curso, que seria como chamam a atenção Pimenta (2000) e Nóvoa (2007), componente importante na construção da identidade profissional. Ao privilegiar este diálogo, deixa de lado referenciais usados nas disciplinas pedagógicas. D. Pedro II é trazido também de sua experiência externa ao curso. No final do trecho, tentando sintetizar o que é ser professor, dá valor extremo à intenção para garantir o desempenho ideal da função docente: “a intenção já é um fator determinante para um bom 80 trabalho”, desqualificando a preparação técnica para o desenvolvimento da prática pedagógica. Notamos também, marcas de um discurso comum no âmbito do conhecimento específico quando, por exemplo, ela menciona que professor é aquele que passa informações e quando valoriza a quantidade de informações que são transmitidas. Ainda, indicando certa adesão ao discurso oriundo dos conhecimentos específicos, Ada alega que determinados conhecimentos pedagógicos são ineficazes diante da realidade da sala de aula. Nesta primeira parte do enunciado, Ada tece suas reflexões baseadas na sua experiência discente anterior ao curso e não demonstra influência do curso na compreensão do papel do professor. É importante notar que a construção desta parte do discurso segue uma reflexão mais livre, ao mesmo tempo extensa, onde ela narra “tudo” o que é importante, que vem de seu passado, de suas memórias, de suas experiências reais. Na segunda parte, quando fala de como vem se formando professora, Ada dialoga inicialmente, com o conteúdo do curso: “venho tentando compreender as formas de aprendizagem. Venho aprendendo as formas de abordagem mais eficazes”. E em seguida, traz a experiência que vivencia no PIBID, reconhecendo, a partir das dificuldades enfrentadas, a complexidade do processo de ensino/aprendizagem. É forçada, pela experiência, a admitir que o poder atribuído antes, ao professor ideal, não está relacionado unicamente a questões pedagógicas e a aprendizagem do aluno não é somente responsabilidade do professor. Ada parece identificar algumas fragilidades no seu processo de formação frente à realidade do cotidiano escolar vivenciada no PIBID. No trecho final, a autora do enunciado muda seu discurso, contrariando o que acabara de mencionar, reconhecendo novamente a importância do planejamento e do estudo na atuação docente. Esta construção pode indicar apropriação do discurso de autores como Nóvoa (2007) e Pimenta (2000), que foram trabalhados no componente curricular Didática. Dado que sua mudança discursiva ocorre ao longo de um mesmo enunciado, seria possível atribuí-la à preocupação com seu destinatário suposto, a professora de Didática. 81 Ada identifica a profissão do professor por meio dos conhecimentos e experiências anteriores ao curso, mas ao sintetizar seu processo de formação, ela dialoga com o somatório de ações das quais participou nos contextos do curso e do PIBID. Este último parece ter sido responsável pelo “acúmulo de experiências” e pelo contato com a realidade escolar. Quando olhamos para as construções discursivas da licencianda nas duas partes do enunciado, observamos que elas se afastam a ponto de nos perguntarmos se sua formação vai ao encontro ou não do ser professor, instaurando uma certa contradição no discurso e no processo de identificação profissional vivenciado por Ada. 4.2.4 Análise do enunciado de Dorothy O que é ser professor (a)? Para mim ser professor é...Dar sem exigir nada em troca. É passar conhecimentos e experiências sem medo de estar preparando um concorrente. É preparar o aluno para o dia-a-dia de sua profissão e para ser um cidadão. É motivar o aluno para que ele conte nos dedos o dia de aula. É gostar do que faz. É você estar disposto a ensinar; mediar; transmitir; compartilhar ou educar; é algo que vai muito além dos limites da formalidade. É respeitar o espaço, a história e o contexto social de cada um. Ser professor não é profissão, é missão, é caminhar sempre de frente para o sol e nunca permitir que sua sombra lhe guie, o afastando do seu objetivo maior; a educação. Sabemos que nos tempos em que vivemos essa profissão está cada vez mais escassa; mas não podemos desistir, temos que pensar no amanhã; vamos ter filhos e quem serão os educadores de nossos filhos? Em quem eles se espelharão? Temos que fazer por onde despertar esse sonho de ser professor nas pessoas, e tentar de alguma forma, mudar o pensamento das gerações futuras. Temos que fazer nosso papel de amigo, conselheiro e não deixar de impor respeito; respeitando o aluno e sendo humilde. Porque ninguém sabe tudo e ninguém é melhor do que ninguém, basta confiança e perseverar que todos somos capazes. Ser professor é um dom! Temos que nos espelhar nos professores que temos hoje, para no futuro não cometermos os mesmos erros que vemos hoje; porque é muito fácil criticar enquanto somos alunos; mas quando formos professores será que vamos gostar de sermos criticados? Esse é o meu maior medo. Estou do outro lado da moeda. Como eu venho me formando professor (a)? Bom, é difícil falar por nós mesmos. Não tenho uma opinião formada ainda muito certa disso. A minha formação está sendo construída aos poucos, pois cada dia que passa aprendemos um pouco com nossos educadores em sala de aula. É claro que nem tudo que vemos eles fazendo concordamos. Mas é através dos erros ou acertos deles que vamos montando e moldando nossos pensamentos de como queremos agir em sala de aula. Estamos aprendendo que há várias maneiras de avaliarmos um aluno. Eu vejo a forma que os meus 82 professores avaliam se eu gosto desse jeito, se gosto da didática dele em sala de aula e através disso vou tendo minhas ideias de como pretendo agir em sala para chamar a atenção dos alunos. O professor tem que saber prender a atenção do aluno, interagir porque se não fica uma aula chata, massacrante para o aluno. Isso eu sei porque passo por isso em determinadas aulas. Essas coisas eu avalio bem, pois é fácil eu falar em quanto sou aluna, mas tenho que aprender a me colocar no lugar do professor que é onde um dia estarei. E o que será que os alunos vão pensar de mim. Tenho que tomar cuidado para não fazer as mesmas coisas com eles, que hoje eu não gosto. Acho que estou tendo uma boa formação e espero de coração ser uma excelente educadora no futuro, com a ajuda de todos os meus educadores de hoje. O enunciado de Dorothy apresenta uma clara identificação da docência com o sacerdócio, com a doação, uma acepção romântica da profissão e da educação em si. Essa identificação pode ser observada em diferentes trechos: “ser professor é dar sem exigir nada em troca”, “ser professor não é profissão, é missão”, “ser professor é um dom”. Além disso, segue destacando em sua narrativa a doação, a humildade e a conduta exemplar, que servirá de modelo para os alunos, como características fundamentais para o professor. A identificação da docência com uma tarefa divina é tão forte que a licencianda não reconhece a docência como profissão, como um ofício que pode ser ensinado/aprendido, como destaca em sua narrativa: “ser professor é gostar do que faz (...) é algo que vai muito além dos limites da formalidade”. Esses “limites da formalidade” podem ser compreendidos como uma referência aos cursos de formação ou, mais especificamente, aos conteúdos pedagógicos trabalhados nesses cursos. É interessante notar que Dorothy inicia o seu enunciado com um pronome pessoal, “Para mim...”. Parece que a aluna utiliza esse recurso para sublinhar que se trata de uma posição particular e descomprometida com qualquer teoria abordada no curso de formação. Focada na vontade e na inclinação divina ela diferencia o professor do educador, indicando que o segundo seria o “missionário” capaz de despertar o sonho de ser professor nas pessoas. Sonho esse que estaria cada vez mais raro entre os jovens que se preparam para o mundo do trabalho. Embora a autora em sua narrativa saliente a escassez de professores e demonstre preocupação com o fato, no seu texto não é estabelecida nenhuma relação com as condições reais, políticas e econômicas, que geram a desvalorização da carreira docente. Esse silêncio se coaduna com a visão sacerdotal da profissão construída pela licencianda. 83 Inicialmente, Dorothy faz reflexões sobre o papel do professor baseada no senso comum e, possivelmente, vinculadas às experiências anteriores ao curso de formação. É interessante notar que o discurso apresenta momentos de distanciamento do da questão proposta, fazendo reflexões mais amplas sobre a educação como um todo. Ao trazer estas vozes para seu enunciado, o processo de identificação de Dorothy parece se alimentar pela visão do “ser professor” anterior ao ingresso no curso. Com relação ao seu processo formativo, Dorothy evidencia em sua narrativa que a observação e reflexão sobre a conduta dos professores formadores possuem um papel fundamental na sua construção identitária. A licencianda elege a sala de aula do curso de licenciatura como o lócus específico de sua formação docente, como podemos observar no trecho: “cada dia que passa aprendemos um pouco com nossos educadores em sala de aula.” Dorothy classifica como “erro” determinadas condutas pedagógicas praticadas pelos professores formadores, com as quais não concorda e demonstra receio em reproduzi-las futuramente. No entanto, a licencianda parece compreender que essa experiência contribui para o seu aprendizado e construção do ser professor, como indica no trecho: “é através dos erros e acertos deles que vamos montando e moldando nossos pensamentos de como queremos agir em sala de aula.” Percebemos, em seu enunciado, que Dorothy acessa o habitus do curso ou de alguns docentes a partir de uma avaliação crítica, mostrando não estar disposta a reproduzi-lo em sua futura prática profissional. A constante crítica indica sua postura madura na construção de sua identidade. Dorothy destaca ainda, o papel de incentivador que o professor deve desempenhar, tornando suas aulas atrativas para que os alunos tenham motivação para aprender e se sintam estimulados a se preparar para uma futura profissão. A aluna encerra a sua narrativa afirmando que considera o seu processo formativo bom e salienta o desejo de tornar-se uma excelente educadora reiterando o papel dos professores formadores nessa construção. Notamos que suas reflexões sobre a relação teoria e prática se concentram na observação da postura dos professores formadores. A experiência prática vivenciada no âmbito do PIBID é silenciada em seu 84 discurso no primeiro momento da coleta de dados. Nas duas partes do enunciado fica claro que a observação e a análise do habitus pedagógico dos professores formadores foram eleitas por Dorothy como o principal caminho trilhado no processo de construção da identidade docente. 4.3. Análise do segundo momento de coleta de dados: Apresentaremos na primeira seção, uma única descrição, para as três primeiras etapas do dispositivo analítico, referentes às quatro licenciandas, por tê-las considerado semelhantes. A última etapa, referente à análise propriamente dita, será apresentada para cada uma, separadamente. a) Identificação dos enunciados O objeto de análise desse segundo momento são as narrativas produzidas pelas licenciandas ao final do componente curricular Estágio supervisionado I. Nessa narrativa as alunas deveriam responder aos seguintes questionamentos: a) Qual o papel do estágio supervisionado para a sua formação docente? b) Foi possível estabelecer alguma relação entre a vivência no estágio e as disciplinas do seu curso? Quais? c) A sua percepção sobre a escola e/ou sobre o trabalho docente sofreu algum impacto e/ou modificação com as experiências vividas no estágio? Por quê? d) Como você relaciona e/ou diferencia as experiências vivenciadas no estágio supervisionado e no âmbito do PIBID? A opção por produzir um texto único ou textos divididos por questionamento ficou a critério de cada licencianda. De qualquer forma, as respostas a esses questionamentos foram consideradas como um único enunciado, posto que não houve chance de alternância com a professora e foram escritas uma imediatamente após a outra. b) Leitura preliminar Na leitura preliminar dos enunciados podemos perceber que as quatro licenciandas destacam como positiva a participação no estágio, salientando o 85 papel da experiência prática na formação docente. As quatro alunas demonstram ter mais facilidade de relacionar o vivenciado no estágio com os componentes curriculares da área pedagógica e duas assumem ter dificuldade de fazer a ponte entre o conteúdo específico trabalhado no curso de formação e o conteúdo específico ensinado nas escolas de estágio. Um aspecto importante observado na leitura preliminar é o reconhecimento da interação com outros professores como fator importante no processo de construção da sua identidade docente. Duas licenciandas chamam a atenção em seus enunciados para o distanciamento do conteúdo de Química que é abordado no curso em relação ao conteúdo que é desenvolvido nas escolas de Ensino Médio. Dentre as quatro licenciandas, três percebem diferenças entre as experiências vivenciadas no estágio e no PIBID. As licenciandas justificam essa diferença, alegando que apenas no estágio tiveram a oportunidade de vivenciar o cotidiano da sala de aula plenamente, ao passo que no projeto do PIBID a participação no ambiente escolar estava vinculada exclusivamente à realização de experimentos. Apenas Dorothy não diferencia as experiências desenvolvidas no estágio e no PIBID, alegando que nos dois contextos pôde desenvolver atividades junto ao professor e as turmas da escola de educação básica. c) Contexto extraverbal Nesse segundo momento, a coleta de dados se deu a partir de uma atividade de avaliação das alunas sobre a experiência no Estágio I. Todas as licenciandas se encontravam então no quinto período do curso e acabavam de vivenciar a rotina pedagógica de uma escola estadual na qual desenvolveram suas atividades de estágio. Cada aluna desenvolveu o estágio em uma escola diferente em turmas do Ensino Médio. A escola seria a única situação singular para cada uma das alunas, mas como não possuímos acesso à descrição de cada contexto específico, faremos uma descrição única do contexto extraverbal, focalizando os aspectos comuns ao contexto. O desenvolvimento do estágio I era a terceira experiência pedagógica comum entre as alunas e a pesquisadora. Dessa forma, é preciso considerar que a pesquisadora tinha sido, até aquele momento, uma professora bastante 86 presente no percurso formativo dessas alunas, o que pode influenciar na produção dos enunciados. Considerando que as licenciandas produzem a narrativa para a professora e pesquisadora, precisamos estar atentos para movimentos discursivos que irão refletir, ainda que em diferentes graus, a visão da pesquisadora, destinatário suposto das autoras do enunciado. A avaliação comum da situação da coleta dos dados inclui, além dos conhecimentos teóricos compartilhados nas disciplinas anteriores, a visão que atribui importância ao papel da experiência prática na formação docente inicial e de como essa experiência pode servir para a reflexão sobre a futura profissão. Ainda pode ser considerada comum à pesquisadora e às licenciandas, a valorização de uma postura crítica, da prática alicerçada na reflexão e na pesquisa. Além disso, o estágio é visto pelas alunas como um momento para “testar” os conhecimentos pedagógicos, defendidos pelos professores que lecionam as disciplinas pedagógicas e desvalorizados pelos professores que lecionam as disciplinas específicas. 4.4. Análise dos enunciados 4.4.1. Análise do enunciado de Marie Qual o papel do estágio para formação docente? Com o estágio pude obter muito aprendizado, o estágio é muito importante na vida de um futuro educador, pois com ele tem-se a prática da realidade de uma sala de aula. Pode-se ter a vivência de como um professor já formado age diante de uma turma, seja ela agitada e problemática ou uma turma ideal que todos os professores sonham em ter. Toda turma tem suas dificuldades e problemas, depende do professor saber controlar sua turma da melhor maneira possível. Esse contato é muito bom para os alunos, eles podem ter uma atenção maior e o resultado é bem satisfatório, mesmo que seja curta a companhia do estagiário com os alunos, eles acabam se acostumando e gostando da presença, pois eles ficam a vontade para pedir informações. Ter o professor observando foi muito importante, pois com ele foi possível ter a oportunidade de aprender muito, e a chance de poder atuar junto a ele que é gratificante. Ensinar não é muito fácil para quem faz isso pela primeira vez, o nervosismo toma conta, mas depois que se consegue passar o que se deseja, vem o alívio de saber que eles conseguiram entender o conteúdo. Entretanto a experiência e o aprendizado foram muitos, e serão utilizados quando finalmente eu tiver a minha própria turma, e puder colocar todos os ensinamentos em prática tanto nas salas de aula de várias escolas frequentadas, quanto o que foi aprendido pelos professores na faculdade. 87 Foi possível estabelecer alguma relação entre a vivência no estágio e as disciplinas do seu curso? O conteúdo químico aprendido na faculdade não é o mesmo conteúdo a ensinar para meus alunos do ensino médio, aliás, este mesmo conteúdo é desconsiderado na grade curricular, entretanto na faculdade aprendi, a saber estudar e assim posso estudar e aprender para poder dar aula para meus alunos. E que os mesmos possam desfrutar das minhas experiências vividas no ensino falho em projeção com o ensino que funcione. A maior relação que posso fazer é perante as matérias pedagógicas as quais percebi que por muitos é menosprezada, um erro certamente, pois com elas pude detectar as falhas de ensino que não devo reproduzir e as formas de fazer uma aula mais interessante e atrativa a partir de recursos muitas vezes simples. Quais? As matérias que me desenvolveram como professora de acordo com minha grade curricular foi: didática, química em sala de aula I, metodologia no ensino de química, estágio I, escola e sociedade, psicologia da aprendizagem. A sua percepção sobre a escola e ou sobre o trabalho docente sofreu algum impacto e/ ou modificação com as experiências vividas no estágio? Sim e muito Por quê? Eu estudei em colégio público e já sabia de todas as fragilidades no ensino, porque eu as havia presenciado, portanto eu tinha medo de voltar à uma escola pública, embora como professora, e vivenciar este ambiente. Mas, eu recebi um aparato pedagógico nas formas de mudar o destino das aulas, que as mesmas não devem ser como tradicionalmente são em institutos, de forma mecanicistas e somente conteudista, pois este pensamento é muito retrógrado e falho, o segredo de uma boa aula está no aprendizado do aluno, na interdisciplinaridade mostrando a utilidade da matéria na vida do aluno, permeando neste momento certos questionamentos que devem ser o princípio de qualquer aula: O que ensinar de química? Por que ensinar química? Como ensinar química? Como você relaciona e /ou diferencia as experiências no âmbito do PIBID e do estágio? Há grande diferença o PIBID trabalha com experimentos e pelo menos nas vezes que eu trabalhei as turmas eram divididas o que foge da realidade do estágio. E ainda deve-se destacar que as aulas teóricas não são menos importantes que apenas experimentos, fato que muitos alunos acabam por se desinteressarem das aulas teóricas e acharem cansativas. Deve-se trabalhar com os alunos para mostrar que o PIBID é uma complementação e não correção ou substituição das aulas e do professor, ou do próprio professor. Marie inicia seu enunciado destacando como positiva a sua experiência no estágio I e refletindo como o contato com a realidade escolar pode preparar o licenciando para o desenvolvimento de sua futura profissão. A licencianda destaca a importância de observar a forma como o professor lida com as dificuldades e diferenças no cotidiano escolar. Embora mencione em seu enunciado “uma turma ideal que todos os professores sonham em ter” afirma 88 em seguida que todas as turmas apresentam suas dificuldades e problemas e atribui ao professor a responsabilidade do “controle” da turma. Esse “controle”, ao qual Marie faz menção, pode se referir à manutenção da atenção da turma à explicação do professor e ao desenvolvimento da aula como um todo, ou ainda, ao efetivo sucesso no processo ensino-aprendizagem. Em seu enunciado, Marie enfatiza que a participação no estágio é também positiva para os alunos do ensino médio que passado o desconforto inicial, causado pela presença de um estranho em sala, logo se acostumam e tiram proveito dessa convivência. A forma como Marie destaca o contato com o professor da escola de estágio, quando afirma ser positiva a chance de poder atuar junto a ele, nos permite identificar que houve uma relação de cooperação entre eles e que essa cooperação foi importante para aprendizado da licencianda. Marie reconhece em seu enunciado a complexidade do ato de ensinar atribuindo a dificuldade encontrada à sua inexperiência, conforme destaca no trecho “ensinar não é muito fácil para quem faz isso pela primeira vez” dando indícios de que compreende que a experiência prática adquirida pelo professor torna mais fácil o desenvolvimento da atividade pedagógica. Ao relacionar a experiência do estágio com os conhecimentos acadêmicos, Marie afirma não haver correlação entre o conhecimento específico aprendido no curso com o conteúdo a ser ensinado nas escolas de ensino médio. No entanto, destaca que no decorrer do seu curso aprendeu a buscar o conhecimento de forma autônoma e que assim poderá se preparar para ensinar aos seus futuros alunos. A licencianda faz uma crítica ao modelo de ensino por ela vivenciado e compreende que essa experiência pode contribuir para que ela busque desenvolver uma prática pedagógica que julga ser mais adequada, conforme afirma no trecho: “E que os mesmos (futuros alunos) possam desfrutar das minhas experiências vividas no ensino falho em projeção com o ensino que funcione.” Em seu enunciado, Marie identifica o conflito discursivo vivenciado no curso e faz uma crítica à desvalorização do conhecimento pedagógico, por compreendê-lo como instrumentalizador da prática e segue afirmando que é esse conhecimento com o qual pode estabelecer maior relação com a experiência vivenciada no estágio I. Adiante, a aluna afirma que os 89 componentes curriculares que contribuem para a sua constituição como professora são justamente os que trabalham com os conhecimentos pedagógicos, como destaca no trecho: “as matérias que me desenvolveram como professora de acordo com a minha grade curricular foi: didática, química em sala de aula I, metodologia do ensino de química, estágio I, escola e sociedade, psicologia da aprendizagem.” Dentre as disciplinas citadas por Marie, três foram ministradas pela pesquisadora: Didática, Metodologia do ensino de química e Estágio I, as outras três foram ministradas por três diferentes professores. Apenas Química em sala de aula I foi ministrada por um professor com formação na área específica. Apesar disso, na medida em que o enunciado é construído a partir de sua apropriação de conceitos das disciplinas, não encontramos indícios de que estes conhecimentos tenham sido moldados apenas pela direcionalidade do enunciado. No seu enunciado, Marie afirma que por ter sido aluna do ensino médio na rede pública guardava um certo temor em voltar à esse ambiente escolar, no entanto coloca que a formação pedagógica recebida foi responsável por modificar a sua percepção sobre essa realidade educacional. Marie coloca o aluno no centro do processo de ensino e valoriza a interdisciplinaridade e a função social do conhecimento químico como forma de superar as falhas no processo ensino-aprendizagem. A licencianda diferencia a experiência vivenciada no âmbito do PIBID afirmando que essa está focada no desenvolvimento de experimentos para grupos reduzidos de alunos, reconhecendo que esse modelo foge da realidade vivenciada na rotina de sala de aula. Marie faz uma crítica ao projeto desenvolvido no PIBID alegando que os alunos que participam do projeto podem sentir desinteresse nas aulas teóricas por entenderem que o ensino de química está relacionado apenas à realização de experimentos. E finaliza fazendo uma observação: “deve-se trabalhar com os alunos para mostrar que o PIBID (identificado aqui como a realização de experimentos) é uma complementação e não correção ou substituição das aulas e do professor, ou do próprio professor.” O enunciado de Marie nesse momento não apresenta contradições e nos indica que a construção da sua identidade docente vem sendo fortemente 90 influenciada pelo conhecimento pedagógico e pela experiência prática vivenciada no estágio supervisionado. 4.4.2. Análise do enunciado de Irène O estágio I teve um papel fundamental, pois proporcionou uma relação direta com o magistério, nessa relação pude vivenciar alguns aspectos que antes só eram conhecidos na teoria. Dentre estes aspectos posso citar o fato de ter melhorado minha postura em sala de aula, melhorado a entonação da voz ao dar aula, ter vivenciado e ajudado a solucionar conflitos entre alunos etc. Essas experiências me fizeram ver que o desafio de ser professor era maior do que eu esperava. Posso dizer que o estágio I ajudou para conhecer melhor o ambiente escolar e a vivência com os alunos, porém algumas disciplinas como Didática e QSA I, deram uma visão prévia do que encontraríamos nas escolas. Isso proporcionou uma reflexão sobre o processo de ensino aprendizagem durante o estágio, pois através dessas disciplinas pude aplicar conceitos sobre planejamento de aula e métodos de avaliar os alunos. O planejamento de aula foi feito para aplicação de aula teórica seguida de experimento, pude observar que a ausência de um laboratório na escola exigiu que a prática realizada fosse simples e que utilizasse uma quantidade pequena de materiais, tendo em vista que esses eram trazidos de casa. Outros aspectos ruins da escola eram a grande quantidade de alunos, em algumas turmas, a falta de recursos multimídia e ventilação inadequada. Contudo a professora supervisora procurava utilizar recursos como a aplicação de projetos, jogos educativos e práticas simples relacionadas ao conteúdo aplicado. Parte dessas práticas e jogos eram relacionados ao projeto PIBID existente na instituição. Como estagiaria participei da aplicação de algumas práticas como forma de auxílio a alunos com dificuldades. Mesmo participando de algumas práticas do PIBID ou estando presente como observadora considerei minha rotina como estagiaria muito diferente da minha rotina como bolsista PIBID, pois como estagiaria eu tinha de cumprir metas diferentes como observação em sala de aula, aplicação de aulas teóricas, monitorias entre outras atividades. Irène inicia o seu enunciado destacando de forma positiva a sua experiência no componente curricular Estágio I, enfatizando que por meio dessa experiência foi possível estabelecer uma relação entre teoria e prática. Destaca alguns aspectos comportamentais que teriam se modificado ou aperfeiçoado a partir dessa experiência, como por exemplo, a mediação de conflitos em sala de aula. Para Irène, a prática de ensino vivenciada serviu para mostrar a complexidade do cotidiano escolar, fato que salienta ter superado as suas expectativas. No seu enunciado Irène menciona que os componentes curriculares: Didática e Química em sala de aula I como diretamente relacionados com as atividades desenvolvidas na escola de estágio. A licencianda afirma ter lançado mão de conhecimentos trabalhados 91 nessas disciplinas para refletir sobre a realidade encontrada e instrumentalizar a sua prática pedagógica. Irène foca a sua análise da vivência do Estágio supervisionado I nas questões metodológicas, descreve as dificuldades estruturais encontradas na escola e menciona os caminhos pelos quais buscou para contornar essa situação. O enunciado de Irène indica que a licencianda, embora reconheça a existência de limitações na realidade escolar do ensino público, compreende que há sempre uma estratégia metodológica possível de ser aplicada com sucesso. Embora diferencie as atividades desenvolvidas no âmbito do PIBID e do Estágio supervisionado I, Irène não tece críticas a nenhuma das atividades, mas sim as vê como complementares. Irène destaca, porém que a experiência vivenciada como estagiária está mais próxima da rotina de sua futura profissão. O enunciado de Irène indica que a construção de sua identidade docente vem se construindo balizada na reflexão e na tentativa de articular teoria e prática. Percebemos a influência do conhecimento pedagógico nesse processo e não identificamos contradições no seu enunciado. 4.4.3. Análise do enunciado de Ada O Estágio curricular Supervisionado I na Escola Estadual Prof. José de Souza Herdy foi muito proveitoso para a minha formação. As orientações que recebi do professor supervisor e da professora orientadora foram fundamentais para que eu analisasse cada tarefa realizada e o retorno obtido. Este estágio representou muito para a minha formação, pois eu tinha um contato direto com os alunos e com o professor, tive orientação antes e depois de cada tarefa e as discutia com os professores, o que foi bastante diferente do que pude vivenciar no projeto PIBID, pois neste projeto eu juntamente com os outros bolsistas, dava apenas pareceres técnicos sobre a matéria dada em sala de aula, não havia um acompanhamento dos alunos, pois os alunos somente aparecem se tiverem dúvidas ou quando fazíamos intervenções como palestras, experimentos, etc. Nesta escola, o professor tinha como recurso o quadro, poucas vezes usou o multimídia e não fazia experimentos, mas a aula que ele dava, na maioria das vezes era muito contextualizada e se obtinha um retorno bastante positivo por parte dos alunos, apesar das notas no geral não serem altas. No curso de licenciatura em química do IFRJ tem muitas disciplinas que tratam do ensino em sala de aula, das metodologias empregadas, etc. Sendo assim, pude fazer reflexões sobre atividades realizadas, sobre as dinâmicas do professor, da dinâmica empregada nesta escola e pude observar várias limitações e incoerências que a escola tem, mas que no geral, são regidas por políticas e mandamentos externos. Pude observar como alguns profissionais 92 ficam um pouco perdidos na realidade do ensino do Estado, pois pude ter contato com outros professores de química e de outras matérias e observei que muitos professores têm amplos conhecimentos e realmente são bem preparados para a sala de aula, mas quando inseridos na realidade do Estado, estes professores ficam limitados e não sabem como expressar seus conhecimentos de forma que os alunos entendam e consigam refletir sobre as aulas. Esse estágio foi fundamental pois quando eu estiver inserida em uma escola como uma profissional da área talvez não tenha as orientações que tive e não tenha a oportunidade de observar outros profissionais. Também foi importante para que as realidades que os professores de algumas disciplinas do meu curso citavam não ficassem somente no âmbito da teoria ou da imaginação, especialmente porque não sei a realidade em que estarei inserida depois da minha formação e não poderia sair de um curso de licenciatura em química sem esta experiência. Minhas percepções sobre a escola e sobre o trabalho docente estão mais bem definidas e mais amplas, pois felizmente me deram espaço e me inseriram dentro do contexto escolar. Ada inicia o seu enunciado avaliando de forma positiva a sua experiência no Estágio supervisionado I, destaca o apoio recebido pelos professores da escola e do instituto como fator primordial para o desenvolvimento de suas atividades. Em seu enunciado Ada demonstra que conseguiu estabelecer uma parceria bastante produtiva com os professores, fato que ela destaca como um importante diferencial entre a experiência vivenciada no estágio e no PIBID. Ada salienta também que o contato direto com o aluno no contexto da sala de aula só foi vivenciado no desenvolvimento do Estágio supervisionado I, identificando esse fato como mais um ponto positivo na experiência como estagiária. Na sua narrativa, podemos perceber que Ada direcionou o seu olhar para a atuação do professor, para as metodologias por ele utilizadas e as dificuldades enfrentadas no seu cotidiano profissional. Na sua avaliação sobre a metodologia utilizada pelo professor, destaca que não houve, no período observado, a utilização de recursos diferenciados de experimentação e aponta como satisfatória a abordagem utilizada justificando a sua avaliação com a argumentação de que a maioria das aulas eram contextualizadas. Ada segue sua avaliação afirmando que a metodologia do professor apresentava bons resultados, embora não aponte que resultados são esses e ainda sinalize que na avaliação realizada pelo professor o aproveitamento não seja identificado com “notas altas”. 93 Na percepção de Ada, o conhecimento pedagógico parece ser bastante expressivo no curso de formação, como salienta no trecho: “no curso de licenciatura em Química do IFRJ tem muitas disciplinas que tratam do ensino em sala de aula, das metodologias empregadas, etc.” Ao utilizar o advérbio de intensidade “muitas” não fica claro se faz uma avaliação positiva, destacando o que seria uma qualidade do curso, ou ao contrário, se entende que esse corpo de conhecimento ocupa um espaço inadequado e excessivo na organização curricular do curso. Esse “contato” com as disciplinas pedagógicas talvez tenha levado à construção de “professor ideal” como aquele que utiliza recursos diferenciados e estratégias inovadores para ensinar. No entanto, na vivência da escola de estágio, Ada não encontrou esse professor idealizado, o que pode ter influenciado a afirmação da aluna no trecho que diz: “pude fazer reflexões sobre atividades realizadas, sobre as dinâmicas do professor, da dinâmica empregada nesta escola e pude observar várias limitações e incoerências que a escola tem, mas que no geral, são regidas por políticas e mandamentos externos.” As políticas e mandamentos externos citados por Ada parecem dizer respeito ao número excessivo de alunos em sala, recursos precários, baixos salários e demais carências estruturais enfrentadas pela precarização da educação pública. Na avaliação da Ada essas dificuldades são obstáculos que impedem que os professores desenvolvam o seu trabalho de forma adequada. Como fica explicitado no trecho: “pude observar como alguns profissionais ficam um pouco perdidos na realidade do ensino do Estado.” Ada segue afirmando ter observado que esses professores possuem “amplos conhecimentos e realmente são bem preparados para a sala de aula”. Esse conhecimento abrangente mencionado pode ser identificado como o conhecimento específico o que aponta uma compreensão simplista do ato de ensinar, pois o trecho citado anteriormente nos indica que na visão de Ada basta o domínio do conhecimento específico para que o professor esteja bem preparado para desenvolver as suas atividades pedagógicas. Embora Ada afirme que os professores mencionados sejam preparados para a sala de aula, complementa dizendo que no contexto da escola pública estadual “esses professores ficam limitados e não sabem como expressar seus conhecimentos 94 de forma que os alunos entendam e consigam refletir sobre as aulas”. Ou seja, os professores mencionados por Ada só estariam bem preparados para a atuação numa escola ideal, para um aluno que se encaixa num padrão prédeterminado. Essa afirmação evidencia na verdade uma fragilidade na formação pedagógica desses professores. Essa fragilidade parece não ter sido percebida por Ada, apesar de salientar no início do seu enunciado, a importância da formação pedagógica na sua própria atuação. Esse cuidado em identificar o papel dos conhecimentos pedagógicos na sua formação pode estar relacionado à direcionalidade do seu enunciado para a pesquisadora. Esta possibilidade ganha força na medida em que notamos no enunciado de Ada, a adesão a uma postura pedagógica tradicional e uma descrença na validade dos conhecimentos pedagógicos quando ela descreve as características de um bom professor. Ada valoriza a possibilidade de observar a atuação de outros professores indicando como um caminho importante no processo de construção da sua identidade docente. A licencianda finaliza a sua narrativa destacando que a experiência vivenciada no âmbito da prática de ensino foi importante também, por permitir que ela tivesse contato real com os sujeitos com os quais vai trabalhar em breve e que essa vivência permitiu definir melhor suas percepções sobre a escola e o trabalho docente. 4.4.4. Análise do enunciado de Dorothy Ao meu ver o papel do estágio supervisionado I para a minha formação docente é mostrar na prática como será o meu dia a dia como futura professora, como posso melhorar a maneira que os professores das escolas, principalmente estaduais e municipais, vêm abordando o conteúdo de química, apesar de saber que o problema não está somente na disciplina de química. Eu fui para o estágio I com um pouco de receio do que poderia encontrar por se tratar de escola pública, me surpreendi, pois dei a sorte de encontrar uma supervisora boa em sala de aula. Tive a oportunidade de ver o outro lado da moeda, quando fui supervisionada por um outro professor da mesma escola só que ele dava aula para o 1º ano do ensino médio. Esse é o famoso "faz de conta que dou aula e os alunos fazem de conta que aprendem", isso me deixou super chateada por ver o descaso dele para com seu trabalho, não digo nem pelos alunos. Ele trabalha por obrigação é totalmente frustrado, um péssimo profissional. Tirando essa experiência que tive com ele, acho que o estágio mostrou a sua realidade e pude perceber também que os alunos se interessam se o professor fizer por onde, tem que haver um comprometimento de ambas 95 as partes. As disciplinas que mais tiveram a ver com o meu curso em relação ao estágio foram as pedagógicas, pois nas específicas, os conteúdos são muito avançados para o ensino médio. Pude relacionar perfeitamente o que era discutido em sala de aula com o que acontecia na escola do estágio. Às vezes acho que falta um pouco mais de comprometimento do professor, o que a gente vivencia na faculdade é um pouco diferente do estágio. Na faculdade a gente aprende como lidar com os alunos, como abordar conteúdos as vezes muito abstratos para os alunos e quando a gente chega no estágio a gente não vê esse tipo de coisa do professor com o aluno. O que vemos são professores cansados, desmotivados e acostumados com a rotina, professores que já se acostumaram com a aula que dá e pra mudar demanda tempo, querer, é trabalhoso e muitos não têm somente aquela escola pra trabalhar, e se torna quase impossível para eles fazerem o diferente. Com relação ao PIBID, eu participei durante um ano, e nesse um ano eu passei por duas escolas. A primeira a supervisora era muito interessada e cobrava da gente resultados, era engajada no que se propôs a fazer embora fosse professora de biologia e não de química, mas como havia uma carência nessa área ela supria a necessidade. E o trabalho fluía tanto da nossa parte quanto da parte dos alunos. Na segunda escola que trabalhei, foi mais complicado, pois a diretora não colaborava muito para o nosso trabalho fluir e muito menos os outros professores, então não conseguimos desenvolver nada nessa escola, os alunos nem sabiam o que era o PIBID e que existia na escola. Mas percebi que nas demais escolas que tinham o PIBID a maioria funcionava bem, os alunos participavam e acho que isso ajuda bastante no entendimento do aluno. E uma maneira também de ajudar o professor que as vezes tem que cumprir um calendário e acaba não tendo espaço para outras atividades e como falei é mais fácil não sair da inércia. Não teve muita diferença do PIBID para o estágio não. Pois tanto no estágio quanto no PIBID eu tive total liberdade de fazer o que eu quisesse dentro do possível junto com a professora supervisora. Ao meu ver é muito válido essa experiência do estágio, pois é nesse momento que a gente encara a realidade e toma a decisão se realmente é o que queremos para nossa vida. Pois não basta querer, tem que gostar e tentar ao máximo fazer a diferença, por mais difícil que seja. Dorothy inicia o seu enunciando considerando que o Estágio supervisionado I tem como função colocar o aluno em contato com a realidade de sua futura profissão e segue afirmando que também é papel dessa disciplina levar o aluno à reflexão sobre como o ensino de química pode ser melhorado. O enunciado de Dorothy indica que ela vê como deficiente o ensino de química, entre outros, especialmente no âmbito da educação pública estadual e municipal, como relata no trecho: “como posso melhorar a maneira que os professores das escolas, principalmente estaduais e municipais, vêm abordando o conteúdo de química, apesar de saber que o problema não está somente na disciplina de química.” Fica muito nítida no enunciado de Dorothy uma visão negativa do ensino público, visão essa que gerou um medo inicial, 96 conforme relata: “eu fui para o estágio I com um pouco de receio do que poderia encontrar por se tratar de escola pública”. Esse medo inicial foi superado, uma vez que, de acordo com a sua narrativa, teve a sorte de encontrar uma boa professora supervisora em sala de aula. O olhar sobre o professor parece ser o centro da análise de Dorothy que segue comparando o trabalho dos dois supervisores com os quais teve contato na escola onde estagiou. O segundo supervisor mencionado na narrativa é identificado por Dorothy como um péssimo profissional, caracterizado por ela como “o famoso faz de conta que dou aula e os alunos fazem de conta que aprendem”. O enunciado de Dorothy demonstra que a postura apresentada por esse professor causou um enorme desconforto na licencianda. Esse desconforto de Dorothy não estava relacionado aos danos que a negligência docente poderia ocasionar nos alunos por ele atendidos, mas sim ao fato de a postura do professor estar em desacordo com a representação da docência aceita por ela, conforme explicita no trecho: “ele trabalha por obrigação é totalmente frustrado, um péssimo profissional.” Dorothy segue sua narrativa afirmando que com exceção da experiência com o professor “ruim”, o “estágio mostrou a sua realidade”, como se a existência de professores como o que ela identificou como ruim não fizesse parte da realidade escolar, indicando uma visão romântica sobre a profissão e o contexto escolar em si. Com o foco no professor, Dorothy atribui a responsabilidade do sucesso ou não no processo de ensino ao comprometimento docente, como destaca: “os alunos se interessam se o professor fizer por onde”. A Licencianda afirma ter conseguido estabelecer relação da prática vivenciada no estágio apenas com as disciplinas pedagógicas, pois argumenta que os conhecimentos da área específica são muito avançados em relação aos conteúdos que são trabalhados na escola de estágio, indicando uma fragilidade na formação. E volta a enfatizar o comprometimento do professor como um diferencial entre o professor ideal, que trabalharia de forma inovadora, utilizando diferentes abordagens metodológicas, e o professor real, encontrado na escola de estágio, impactado pela desvalorização do magistério. O enunciado de Dorothy apresenta claramente a percepção desse conflito no trecho: “na faculdade a gente aprende como lidar com os alunos, como abordar conteúdos as vezes muito abstratos para os alunos (licenciandos) e quando a gente chega no 97 estágio a gente não vê esse tipo de coisa do professor com o aluno. O que vemos são professores cansados, desmotivados e acostumados com a rotina”. Ao avaliar a sua participação no PIBID, Dorothy volta a balizar a qualidade do trabalho pela atuação e comprometimento do professor envolvido e segue destacando um exemplo positivo onde houve mais interesse do professor e outro exemplo negativo, relacionado diretamente a falta de envolvimento do docente supervisor no projeto do PIBID. Na sua construção discursiva, Dorothy não diferencia as atividades desenvolvidas no âmbito do PIBID e do Estágio supervisionado I e avalia como positiva a possibilidade de desenvolver a prática pedagógica no interior das escolas de ensino médio. Dorothy finaliza afirmando que essa experiência é fundamental para que o licenciando possa decidir se está mesmo na profissão certa. Segundo Dorothy, para ser professor “não basta querer, tem que gostar e tentar ao máximo fazer a diferença, por mais difícil que seja.” A docência para Dorothy parece ser compreendida como uma vocação, algo que demanda um esforço, ou sacrifício para alcançar o objetivo final. Embora mencione em seu enunciado a contribuição das disciplinas pedagógicas na sua formação, Dorothy não demonstra no seu discurso uma apropriação dessas vozes. Além de ver a vocação como um fator fundamental na constituição do ser professor, pela a análise do enunciado de Dorothy parece que a licencianda não acredita que os conhecimentos pedagógicos sejam capazes de amenizar as dificuldades enfrentadas no exercício da docência. 98 Capítulo 5: Síntese das análises, discussão e considerações finais Nós Somos quem podemos ser Sonhos que podemos ter Um dia me disseram Quem eram os donos da situação Sem querer eles me deram As chaves que abrem essa prisão E tudo ficou tão claro O que era raro ficou comum Como um dia depois do outro Como um dia, um dia comum. (Humberto Gessinger) 99 Capítulo 5: Síntese das análises, discussão e considerações finais Nesse capítulo buscamos inicialmente, fazer uma síntese das análises do discurso de cada licencianda e compomos o processo identitário vivenciado por elas relacionando os dois momentos de coleta de dados. Em seguida, discutimos os resultados encontrados à luz do referencial teórico e das contribuições da revisão bibliográfica. Ao final, procuramos tecer algumas considerações sobre os resultados encontrados e sinalizar possíveis contribuições do presente estudo. 5.1. Síntese das análises De acordo com a literatura que revisamos no capítulo 2, compreendemos que a construção identitária ocorre por meio de processos de identificação que, em estreita relação com o discurso, são consubstanciados pela revisão e/ou ratificação de antigas práticas, pelos embates com as teorias e nas reflexões sobre a prática, bem como pela forma como cada um significa o “ser professor”. Nessa seção, faremos uma síntese das análises realizadas procurando destacar processos de identificação (Quadros 1 e 2). 5.1.1. Síntese das análises do primeiro momento Quadro1: Processos de identificação no primeiro momento Dialogias Marie Irène Ada estabelecidas Modelo de professor apropria-se do modelo de professor mediador apropria-se do modelo de professor mediador Prática pedagógica não dialoga Disciplinas do curso apropria-se mais do discurso das disciplinas pedagógicas do que das apropria-se da prática dos “bons modelos de professores” (do curso) apropria-se mais do discurso das disciplinas pedagógicas do que das apropria-se do modelo de professor guia / transmissor de conhecimento apropria-se da prática pedagógica de professores anteriores ao curso apropria-se mais do discurso dos conhecimentos específicos do que das Dorothy apropria-se do modelo de professor missionário / doador de conhecimentos dialoga criticamente com a prática pedagógica de professores do curso apropria-se mais do discurso dos conhecimentos específicos do que das 100 Experiência prática do licenciando de de conhecimento conhecimento específico específico não dialoga apropria-se da experiência prática no contexto do PIBID disciplinas pedagógicas disciplinas pedagógicas dialoga com a experiência prática no contexto do PIBID não dialoga Na análise da narrativa de Marie percebemos que ela valoriza a necessidade de levar em conta o aluno e considera o professor como um sujeito que se adapta à individualidade deste, sendo assim, Marie compreende o processo de ensino centrado na figura do educando. Essa postura está em consonância com a função de mediador do processo ensino-aprendizagem que Marie identifica, como papel do professor. As vozes das disciplinas pedagógicas apropriadas por Marie ao descrever o seu processo formativo buscam uma articulação entre conhecimentos específicos e pedagógicos. Tal postura indica um movimento de superação da dicotomia entre estes conhecimentos no seu processo de construção identitária. Irène constrói em seu discurso uma identificação do professor como um mediador do processo ensino-aprendizagem e demonstra apropriação de textos trabalhados na disciplina Didática. Irène valoriza a experiência prática e indica que a reflexão sobre a prática aliada à teoria pode ser um caminho para a construção da sua identidade. Na sua narrativa Irène aponta que a observação sobre atuação de outros professores também se constitui em um elemento importante no seu processo formativo, indicado que dialoga com as práticas pedagógicas de determinados professores para refletir sobre a própria formação. Seu enunciado indica uma apropriação do discurso das disciplinas pedagógicas e não apresenta contradições. Ada desloca o seu olhar para o passado, para as experiências anteriores ao curso para elaborar o seu conceito sobre o “ser professor”. Baseada nessas experiências e no senso comum identifica o professor como um guia. Em alguns momentos de seu enunciado, desvaloriza os conhecimentos pedagógicos destacando que a intenção já basta para que o docente 101 desempenhe o seu papel de forma adequada, parecendo crer que nenhum aparato pedagógico é capaz de influenciar o interesse ou a aprendizagem do aluno. A análise do enunciado de Ada indica uma contradição discursiva, quando menciona a ineficácia dos processos pedagógicos diante da realidade encontrada na escola do PIBID e a seguir, no mesmo enunciado reconhece a importância desses processos na prática pedagógica. Posto que a mudança discursiva ocorre no mesmo enunciado, entendemos que seria provavelmente decorrente da sua preocupação com a direcionalidade do discurso. É possível perceber uma maior adesão ao discurso oriundo das disciplinas específicas, não só pelo não reconhecimento da contribuição dos conhecimentos pedagógicos no processo de formação docente, mas também pela valorização da transmissão de uma grande quantidade de informação no processo de ensino, pensamento característico dos professores que lecionam os conteúdos específicos. A experiência prática vivenciada no PIBID parece confrontar a visão de professor idealizada por Ada, trazendo elementos importantes para as suas reflexões sobre a prática pedagógica. Na perspectiva de Dorothy, a profissão docente tem o sentido de doação. “Ser professor é dar (...) é passar conhecimentos”. Essa visão parece ligada à visão tradicional de ensino, que coloca o estudante como um sujeito receptor de saberes. Sua compreensão sobre o significado da docência está baseada no senso comum e parece ter sido construída a partir de modelos de professores do passado. Seu discurso também mostra uma desvalorização da profissionalidade docente e, consequentemente, dos conhecimentos pedagógicos, defendendo o dom e a vontade como determinantes para a constituição do ser professor. A experiência desenvolvida no projeto do PIBID é silenciada por Dorothy na construção discursiva sobre o seu processo de formação. A licencianda aponta em seu enunciado a avaliação crítica das práticas pedagógicas dos professores do curso como o principal meio pelo qual vem construindo a sua identidade docente. 5.1.2. Síntese das análises do segundo momento Quadro 2: Processos de identificação no segundo momento. 102 Dialogias estabelecidas Marie Irène Ada Dorothy Prática pedagógica Não dialoga Não dialoga apropria-se da prática pedagógica dos professores da escola de estágio Disciplinas do curso apropria-se mais do discurso das disciplinas pedagógicas do que das de conheciment o específico apropria-se da experiência prática e vê o estágio como meio de refletir sobre a relação teoria/prática. apropria-se mais do discurso das disciplinas pedagógicas do que das de conheciment o específico apropria-se da experiência prática e vê o estágio como meio de estabelecer relação entre teoria e prática. apropria-se mais do discurso dos conhecimentos específicos do que das disciplinas pedagógicas apropria-se criticamente da prática pedagógica dos professores da escola de estágio apropria-se mais do discurso dos conheciment os específicos do que das disciplinas pedagógicas apropria-se da experiência prática do estágio e do PIBID e as vê como um meio de refletir sobre a profissão. Experiência prática do licenciando apropria-se da experiência prática e vê o estágio como meio de refletir sobre a relação teoria/prática. A análise do enunciado de Marie indica a forma positiva como a licencianda compreende a experiência prática desenvolvida no estágio, reconhecendo-a como uma importante contribuição na sua formação pedagógica. Marie valoriza os saberes pedagógicos e os saberes da experiência, mas alega não conseguir estabelecer relação entre os conhecimentos específicos tratados no curso de formação e os conteúdos abordados na escola de estágio. Na análise do enunciado de Marie verificamos que a licencianda percebe um embate discursivo que conforma o habitus pedagógico do curso de formação e posiciona-se neste embate, ao fazer uma crítica a desvalorização do conhecimento pedagógico. Marie diferencia as experiências práticas vivenciadas no estágio e no PIBID, afirmando que a experiência no projeto do PIBID não dá conta da complexidade da sala de aula e ainda pode contribuir 103 para uma compreensão equivocada sobre o conhecimento químico por parte dos alunos do Ensino Médio. Na análise da narrativa de Irène verificamos que a licencianda valoriza a experiência desenvolvida no estágio, destacando esse momento como uma forma privilegiada de relacionar a teoria e a prática. A narrativa de Irène indica que o olhar da licencianda nesse momento está voltado para as questões metodológicas, no como fazer, que estratégias são válidas em cada situação. Em seu enunciado Irène argumenta que as vivências do estágio e do PIBID são diferentes, porém complementares e que essas experiências certamente possibilitam reflexões sobre a teoria e a prática que contribuirão para a construção da sua identidade docente. Notamos que o processo formativo de Irène se constrói a partir de uma maior apropriação dos conhecimentos pedagógicos, posto que, além de citar os conhecimentos pedagógicos com os quais dialogou na experiência prática, Irène descreve como os utilizou e a forma como contornou as dificuldades encontradas no contexto escolar. Ada também vê como positiva a experiência desenvolvida no estágio e valoriza o contato estreito com o professor nessa vivência. Na análise do seu enunciado percebemos que o foco da avaliação dessa experiência está no desempenho do professor, nas suas estratégias e dificuldades cotidianas. Verificamos na análise do enunciado de Ada que a licencianda vê como expressiva a presença das disciplinas pedagógicas na estrutura curricular do curso de formação. No entanto, Ada parece acreditar que os conhecimentos pedagógicos são ineficazes diante da realidade do ensino público. Embora Ada faça menção em seu discurso aos conhecimentos pedagógicos, notamos que as vozes da área específica se fazem mais fortemente presentes na sua construção discursiva. As marcas do discurso da área específica ganham contornos mais fortes quando Ada parece valorizar mais os conhecimentos específicos para considerar um professor como bem preparado do que seus conhecimentos pedagógicos. Outra marca significativa é sua adesão a uma postura pedagógica tradicional e a desvalorização dos conhecimentos pedagógicos frente à realidade escolar. Na sua narrativa, Ada indica que a observação e ratificação das práticas pedagógicas de professores da escola de estágio é um dos caminhos pelos 104 quais está construindo a sua identidade docente. Assim como Marie e Irène, Ada também distingue as experiências vivenciadas no estágio e no PIBID e tece críticas ao projeto do PIBID ao qual estava vinculada. Dorothy valoriza a experiência desenvolvida no estágio por considerar importante a participação no contexto no qual vai atuar futuramente. A licencianda demonstra em seu enunciado que considera precário o ensino de química na escola pública e se sente impulsionada a modificar essa realidade. O professor é o foco da construção discursiva de Dorothy que atribui a ele a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso no processo ensinoaprendizagem. Na relação entre teoria e prática, Dorothy aponta que só conseguiu vincular a experiência prática aos conhecimentos oriundos das disciplinas pedagógicas, destacando o descompasso entre o conhecimento específico tratado no curso e os conteúdos abordados na escola de estágio. Diferentemente das demais licenciandas, Dorothy não distingue as experiências práticas ocorridas no estágio e no PIBID. Em ambas, Dorothy afirma ter relacionado os conteúdos pedagógicos com a experiência prática. Contudo, não conseguimos detectar articulação desses conhecimentos em seu discurso. Ao contrário, seus processos de identificação parecem muito mais próximos ao discurso oriundo das disciplinas específicas. Algumas marcas discursivas que indicam essa aproximação dizem respeito à forma como Dorothy coloca o professor como o centro do processo de ensino exaltando a vocação e sacrifício e a crença de que os conhecimentos pedagógicos são ineficazes diante da realidade escolar. A observação de práticas pedagógicas de professores do curso e do estágio e a constante reflexão crítica sobre a conduta dos professores pode indicar o quanto este processo está balizando a construção de sua identidade docente. É interessante notar que o modelo de professor com o qual Dorothy dialoga se distancia do perfil de professor pretendido pelo projeto de formação do curso. 5.1.3 Análise do processo de construção identitária Iniciaremos a nossa discussão tentando visualizar o processo de construção identitária vivenciado por cada licencianda ao longo do curso, relacionando os processos de identificação (Quadros 1 e 2) vivenciados nos dois momentos de coleta de dados. Compreendendo que esses processos são 105 construídos na enunciação de forma relacional, tentaremos apontar movimentos de continuidade e/ou rupturas na construção identitária. a) A construção identitária de Marie A construção discursiva de Marie, no primeiro momento, aponta um processo de identificação com o papel do professor como mediador do processo ensino-aprendizagem, alicerçada pelos conhecimentos trabalhados no curso de formação, sobretudo aqueles relacionados às disciplinas pedagógicas. No segundo momento, a análise do enunciado de Marie indica que ela vê o aluno no centro do processo de ensino, o que está em consonância com o modelo de professor com o qual ela dialoga no primeiro momento, apontando uma continuidade de seus processos de identificação. Também é possível percebe que a forma como Marie compreende o papel do professor está em consonância com o projeto de formação do curso. Em nenhum dos dois momentos de coleta Marie dialogou com as práticas pedagógicas, seja dos professores do curso, do estágio ou mesmo os anteriores ao seu ingresso no curso de formação. Seu processo formativo parece bastante impregnado dos conhecimentos teóricos desenvolvidos no curso, especialmente pelos conhecimentos pedagógicos aos quais ela recorre para construir a sua narrativa nos dois momentos de coleta de dados. No primeiro enunciado, Marie descreve como deve trabalhar o ensino de química, baseada nos conhecimentos adquiridos nas disciplinas pedagógicas, mas não deixa claro se teve a oportunidade de pôr em prática os conceitos elaborados. A licencianda não cita a vivência no PIBID no seu primeiro enunciado e não menciona como relaciona teoria e prática. No segundo enunciado, Marie destaca como positiva a experiência desenvolvida no estágio, elegendo esse como um espaço privilegiado para refletir sobre a relação teoria/prática. A diferença que ela estabelece entre as experiências do PIBID e do estágio, ao argumentar que no desenvolvimento do PIBID a inserção na realidade escolar estava restrita à apresentação de experimentos, provavelmente justifica o silêncio sobre a experiência prática identificado no primeiro enunciado. b) A construção identitária de Irène No primeiro momento de coleta de dados, o discurso de Irène parece apreender o papel do professor como mediador no processo ensino- 106 aprendizagem, recorrendo aos conhecimentos trabalhados na disciplina Didática. No segundo momento, verificamos um movimento de continuidade do processo de construção identitária, quando foca suas reflexões nas metodologias e estratégias adequadas para a mediação do processo ensinoaprendizagem, encarados como meios de se preparar para desempenhar esse papel da melhor forma possível. No primeiro enunciado, Irène destaca o papel da experiência prática na sua formação, salientando que essa experiência, assim como a observação da prática pedagógica dos professores do curso de formação, são importantes para que possa estabelecer relação entre teoria e prática. No segundo momento, Irène continua valorizando a experiência prática, destacando a vivência do estágio como uma contribuição nesse processo, mas não demonstra nenhum movimento dialógico com as práticas pedagógicas de outros professores. A sua construção discursiva indica maior apropriação dos conhecimentos pedagógicos do que dos conhecimentos específicos nos dois momentos de coleta de dados. c) A construção identitária de Ada Ada apresenta no primeiro momento, identificação com o papel do professor como um guia, um transmissor de informações. Uma compreensão diretamente relacionada com a visão pedagógica tradicional, onde o professor é o centro do processo de ensino, sendo responsável por passar ao aluno a maior quantidade possível de conhecimentos. No segundo momento de coleta de dados, verificamos que Ada constrói a sua narrativa com o foco no professor, nas dificuldades encontradas por ele na transmissão do conhecimento, demonstrando que não houve mudança no seu processo de identificação. No primeiro enunciado de Ada verificamos que a compreensão do ser professor é fortemente balizada pela exaltação das práticas pedagógicas dos professores que marcaram a sua trajetória como aluna, anteriormente ao seu ingresso no curso de formação. Já no segundo enunciado percebemos que o movimento de observação e adesão às práticas pedagógicas dos professores continua contribuindo fortemente na sua construção identitária, porém nesse momento, Ada recorre ao diálogo com as práticas pedagógicas dos professores da escola de estágio. Nos dois momentos verificamos na 107 construção discursiva de Ada uma desvalorização dos conhecimentos pedagógicos e uma defesa ao ensino conteudista, mostrando uma compreensão do processo de ensino bastante próxima do discurso oriundo das disciplinas específicas. Nos dois momentos de coleta, o discurso de Ada valoriza a experiência prática e a compreende como um momento de refletir sobre a relação teoria/prática, apesar de argumentar que a experiência do PIBID não é satisfatória no que diz respeito ao que é de fato vivenciado na realidade da sala de aula. d) A construção identitária de Dorothy No primeiro momento, Dorothy apreende o papel do professor como alguém que doa conhecimentos, mostrando uma visão do professor como um missionário. O professor é o centro do processo de ensino. Sua identificação com essa visão é sustentada no segundo momento quando elege novamente o professor como o centro do processo de ensino e continua compreendendo a docência como dom ou missão. No primeiro momento, Dorothy tece suas reflexões sobre a relação teoria e prática a partir da avaliação crítica da prática pedagógica dos professores do curso de formação. No segundo momento essas reflexões ocorrem a partir da avaliação da prática pedagógica dos professores da escola de estágio. Assim, nos dois momentos de coleta de dados verificamos que a avaliação crítica da prática pedagógica dos professores é um fator preponderante no seu processo de construção identitária. Embora Dorothy mencione no segundo momento que só conseguiu relacionar os conhecimentos pedagógicos com a experiência prática, notamos nos dois momentos que a licencianda não se apropria desses conhecimentos na sua construção discursiva e parece acreditar na vocação e na vontade como recursos para o desenvolvimento de uma boa prática docente, desvalorizando os conhecimentos pedagógicos. 5.2. Discussão dos resultados Olhando para a construção discursiva e identitária das licenciandas, podemos perceber uma aproximação entre os processos vivenciados por Marie 108 e Irène, que percebem o papel do professor como mediador, se apropriando dos conhecimentos pedagógicos construídos no curso. Por outro lado, notamos uma aproximação entre os processos vivenciados por Ada e Dorothy, que buscam fontes de identificação externas ao curso para construírem suas perspectivas: Ada identifica o professor com um guia e Dorothy com um missionário. Percebemos nas análises que, diferentemente de Marie e Irène, Ada e Dorothy não articulam os conhecimentos pedagógicos trabalhados no curso com a compreensão do “ser professor” descrita em seus enunciados, que de fato, se distancia do papel do professor proposto no curso. Ada e Dorothy dialogam fundamentalmente com suas experiências como alunas para refletir sobre o que é se professor, demonstrando como o acesso ao habitus – neste caso, vivenciado também em outras instituições - está balizando a construção identitária das duas. Observamos que os enunciados de Ada e Dorothy, ao mesmo tempo em que não apresentam uma apropriação dos conhecimentos pedagógicos trabalhados no curso, não rompem com seus processos de identificação anteriores ao curso de formação. Também notamos que essas duas licenciandas ao descreverem a sua compreensão sobre o que é ser professor, apresentam enunciados mais extensos e narrativas mais livres, baseadas no senso comum e impregnadas da história pessoal, indicando que talvez sejam reflexões mais genuínas e menos comprometidas com o curso de formação. As visões do “ser professor” presentes nas construções discursivas de Ada e Dorothy estão relacionadas a uma representação da docência voltada para a ajuda e para a doação, já identificada por Campos (2008). O professor é compreendido como um orientador responsável por guiar os seus alunos para um futuro melhor, uma espécie de sacerdócio, o que é relacionado por Campos (2008) à matriz religiosa. Para o autor, a compreensão da docência como missão foi construída historicamente e esteve diretamente relacionada ao processo de femenização do magistério, servindo de justificativa para assegurar o ingresso cada vez maior de mulheres na profissão, acabou sendo incorporado como elemento do habitus professoral. Essa perspectiva compreende a docência como uma missão nobre que exige sacrifício e doação, deixando em segundo plano a preparação técnica profissional. 109 O estudo de Costa et al. (2011), que evidenciou traços identitários ligados à matriz religiosa e ao senso comum em professores de Física já em serviço, revelou o quanto esses traços podem de fato ser resistentes aos processos de formação. Não percebemos em nenhuma das quatro licenciandas movimentos de ruptura no processo de identificação docente, entre os dois momentos de coleta de dados. Como indicado na relação entre os dois momentos, todas as licenciandas elegem de forma coerente com a identificação do modelo de professor do primeiro momento, o tema predominante da construção discursiva no segundo momento. O diálogo e a apropriação discursiva com as áreas de conhecimento também se mostram contínuas. No caso de Ada e Dorothy, essa continuidade pode indicar que nos embates entre a teoria e as práticas pedagógicas vivenciadas antes do curso, que são constantemente revisitadas no processo de construção identitária, as tradições se mostram mais resistentes e são por elas revalidadas. No caso de Marie e Irène essa continuidade indica uma apropriação da proposta do curso, o que não significa que esse processo tenha ocorrido livre dos embates próprios do processo de construção identitária. No enunciado de Marie, foi possível encontrar marcas discursivas relacionadas a esses conflitos, como por exemplo, quando indica no enunciado do segundo momento que a crítica à sua experiência enquanto aluna num processo de ensino anterior ao processo de formação, por ela classificado de “falho”, irá consubstanciar a sua prática pedagógica com vistas à superação desse modelo considerado por ela, inadequado. A ênfase no conhecimento técnico que tradicionalmente vinha marcando a instituição e que permanece no discurso dos professores das disciplinas específicas parece ter sido superada nos enunciados de Marie e Irène e possivelmente ter sido evocada nos enunciados de Ada e Dorothy quando elas significam a prática pedagógica como doação de informações/conhecimento ao aluno e apostam na ineficácia dos conhecimentos pedagógicos diante das dificuldades enfrentadas na realidade escolar. Nesse contexto, verificamos que assim como destacado no trabalho de Christino e Ferreira (2012) a formação de licenciandos em química, apesar das mudanças legais e do lócus formativo diferenciado, continua ocorrendo em meio a diferentes discursos: “os validados 110 pelos professores especialistas das áreas de química e os validados pelos professores da área de ensino” (p. 9). Esses diferentes discursos vão construindo modos de ser e agir nos licenciando e contribuindo de forma diferenciada para a constituição do ser professor de cada um. Por meio do discurso de Marie e Dorothy, podemos identificar uma fragilidade no curso de formação: a falta de articulação do conhecimento específico da área de química abordado no curso com o conhecimento químico que é ensinado nas escolas de ensino médio. Embora o texto do projeto do curso enfatize que o modelo de formação proposto pelo IFRJ deve ocorrer com a articulação dos conhecimentos pedagógicos aos conhecimentos científicos, desde o início do curso de formação, afim de que se possa formar, efetivamente, professores de química, “e não químicos que possam dar aulas” (PPC, p. 25) ideia que se alinha com o pensamento de Schnetzler (apud Pimenta e Lima, 2011), o que se vê é que disciplinas específicas e pedagógicas, apesar de distribuídas por todos os períodos, continuam se desenvolvendo de forma desvinculada como caminhos paralelos que jamais se encontram. Essa fragilidade parece ser naturalizada de tal forma que pode não ser percebida, como verificamos no enunciado de Ada ao afirmar que professores muito bem preparados não conseguiam exercer o seu papel frente às dificuldades encontradas no ensino público. A experiência prática é valorizada em todos os enunciados e identificada como um momento privilegiado de relacionar teoria e prática. No âmbito da experiência prática as análises apontam que o estágio foi para três das quatro licenciandas um espaço mais rico de reflexão sobre a prática pedagógica, principalmente pela oportunidade de vivenciar plenamente o cotidiano da sala de aula. Três licenciandas destacaram o fato de serem as atividades desenvolvidas no PIBID restritas à apresentação de experimentos ou palestras, o que parece ter frustrado um pouco a expectativa inicial. Essa frustração pode ser o motivo do silêncio de Marie sobre o PIBID no primeiro enunciado. Já Irène, apesar de ter participado da mesma forma que Marie e Ada do PIBID, considerou essa experiência como complementar à experiência desenvolvida no estágio. Dorothy relata uma participação no PIBID diferente da mencionada 111 pelas demais licenciandas e afirma que não viu diferenças entre as experiências do estágio e do PIBID. 5.3. Considerações finais A partir das análises realizadas é possível considerar que o processo de construção identitária que vem sendo vivenciado, ao longo do curso, por licenciandos em química do IFRJ campus Duque de Caxias é complexo e constituído no embate dos sujeitos com as variadas representações de professor, formadas ao longo da vivência escolar, como alunos, na formação inicial e ainda, o quanto esse processo carrega um componente individual, como aponta Pimenta (2000), desenvolvendo-se a partir de valores pessoais, histórias de vida, angústias e anseios. Percebemos que apesar de IFRJ se constituir enquanto um novo lócus para a formação de professores das ciências da natureza, velhos problemas e desafios relativos à formação de professores de química ainda precisam ser enfrentados, como aliar a formação na área científica específica aos conhecimentos da área pedagógica, conforme propõe Schnetzler (2008). Foi possível reconhecer aproximações entre os processos de identificação vivenciados por Marie e Irène e distanciamentos entre estes processos e aqueles vivenciados por Ada e Dorothy. Conforme afirmam Christino e Ferreira (2012), a circulação de diferentes discursos nos cursos de formação inicial vai forjando diferentes processos de identificação identitária e de compreensão da prática pedagógica, como observamos nas narrativas analisadas. Conforme afirma Oliveira (2010), o habitus pedagógico é o que orienta o modo como os professores enfrentam as situações pedagógicas vivenciadas no desenvolvimento de sua prática pedagógica. Notamos nas análises, como a vivência do habitus pedagógico, seja do curso nível médio, do curso de formação, ou da escola de estágio, contribui para o processo de construção identitária, ainda que mais claramente no caso de Ada e Dorothy do que no de Marie e Irène. Olhando para a análise particular do discurso de cada uma das licenciandas, chegamos, inevitavelmente, à heterogeneidade dos processos de construção identitária possíveis em um curso de formação docente. A análise 112 do processo vivenciado por Irène não nos dá pistas sobre o quanto o curso vem contribuindo para sua formação, visto que sua construção discursiva não traz marcas de embates enfrentados entre as percepções anteriores ao curso e os conhecimentos com os quais dialoga no seu processo formativo. Os processos que nos parecem próximos, vivenciados por Ada e Dorothy, nos ensinam o quanto o processo de formação enfrenta resistência a modelos anteriores a ele e parece pouco interagir com eles. O caso de Marie, embora não traga as marcas dos modelos anteriores de professor, nos mostra um caminho de interação entre o novo e as experiências anteriores, quando menciona a possibilidade atual de superação das falhas observadas por ela no ensino médio. Os resultados permitem ratificar que a experiência prática exerce um papel extremamente importante nos cursos de formação. Como afirmam Pimenta e Lima (2008), o movimento entre a instituição formadora e a escola de educação básica possibilita ao futuro professor elaborar uma rede de relações, conhecimentos e aprendizagens, que não tem como foco a imitação ou somente a crítica de um modelo, mas sim a percepção da realidade com a qual vai se deparar para que tenha condições enfrentá-la. Verificamos como essa vivencia foi valorizada pelas licenciandas e compreendida como um importante espaço de reflexão sobre a profissão. Nossos resultados vão, assim, na mesma direção do que afirmam Pimenta e Lima (2011) sobre a experiência prática: a forma como os futuros professores compreendem a profissão e a educação escolar é um fator fundamental nos processos de construção da identidade docente. Pelas análises do discurso das licenciandas, é possível supor que o projeto PIBID na perspectiva de participação restrita à apresentação de experimentos não contribui de forma significativa para a compreensão do fazer docente e para a reflexão sobre a prática pedagógica. A partir do presente estudo é possível recomendar como melhoria dos cursos de licenciatura, uma maior participação no cotidiano escolar para que os licenciandos possam ter acesso a esse tempo/espaço de reflexão e articulação entre teoria e prática desde o início do curso. Os resultados da investigação sobre o processo de construção identitária no curso de licenciatura em química do IFRJ confirmam a 113 compreensão de que identidade docente é construída no embate entre as teorias e as práticas, na avaliação sistemática das práticas desenvolvidas à luz das teorias, na elaboração e reelaboração de teorias. Além disso, percebemos como as experiências vivenciadas no âmbito da formação inicial são resignificadas em função da rede discursiva a qual estão mais ligadas, a experiências passadas e outras influências extra-formação, que vão sendo colocadas em xeque, atualizando o modo de olhar a profissão docente. A maioria dos trabalhos revistos no capítulo 1 sobre formação do professor de ciências ressaltam, cada um com seu aporte teórico, o quanto o processo de construção da identidade docente é marcado pela subjetividade. Nossos resultados vão nessa mesma direção e consideramos que avançam em relação à literatura ao trazer dados empíricos, poucas vezes observados nos estudos revistos, para enriquecer as reflexões teóricas sobre a identidade docente mostrando os diferentes contornos que podem assumir os processos identitários. 114 Referências bibliográficas ALMEIDA, I. (2001) Re-Significação do papel da Psicologia da Educação na Formação Continuada de Professores de Ciências e Matemática.Tese (doutorado) Brasília: Universidade Nacional de Brasília. AMORIM, M. A. (2002) Vozes e silêncio no texto de pesquisa em Ciências Humanas. Cadernos de pesquisa, n.116, p.7-19, junho. BAKHTIN M. (1981) The dialogic imagination. Edited by Michael Holquist. Austin: University of Texas Press. (p. 259-300) BAKHTIN, M. (1995) Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec. Sétima edição. BAKHTIN, M. (1997) Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes. BEJA, A. C.; COSTA, M. L.; REZENDE, F. 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