2160 Os Loteamentos do Quarto Distrito de Porto Alegre X Salão de Iniciação Científica PUCRS Aline de Oliveira1, Leila Nesralla Mattar2(orientador) 1 Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, PUCRS. 2Formação em Arquitetura e Urbanismo, UFGRS. Especialização em Projeto de Arquitetura Habitacional, UFGRS. Mestrado em História, PUCRS e Doutoranda no curso de Pós-Graduação em História da PUCRS. Resumo Sabemos que a região onde hoje se situa o bairro Navegantes e São Geraldo, dentre outros bairros, pertenceu em 1740 à sesmaria de Santana de posse do europeu Jerônimo de Ornellas. Passados inúmeros acontecimentos políticos, desde então a região mais ao norte desta capital possui curiosos fatos que merecem estudos mais profundos. Em 1812, Dom Diogo de Souza, então governador, ao solicitar uma concessão de terra à Dom João, intencionalmente atrai população à região afastada do centro. Sendo este um lugar de zonas rurais, seu objetivo era desenvolver a agricultura. Para isso ele resolve fixar residência em um terreno fronteiriço ao Caminho Novo (atual rua Voluntários da Pátria). O curioso é que, segundo Riopardense de Macedo, o Solar, demolido em 1824, estava situado entre as atuais avenidas Ernesto Fontoura e Polônia sob o número 3207. Entretanto, ao analisar a planta da chácara dos herdeiros de Dona Margarida, não é esta informação que obtemos, estando o palacete, assim identificado como sendo de Dom Diogo, próximo à atual rua Comendador Tavares. Neste ínterim, vale destacar que a partir de 1870, este mapa da chácara de Dona Margarida terá grande importância para entender a formação estrutural da região do 4° distrito. Esta região, até 1870, foi constituída basicamente por chácaras e quintas. Dona Margarida Teixeira de Paiva era proprietária de uma importante área que abrangia terras fronteiras ao Caminho Novo. Segundo Tânia, de acordo com pesquisa feita nas atas da Câmara Municipal, foi Dona Margarida quem doou ao município a posse de um terreno para a construção da atual Igreja Nossa Senhora dos Navegantes em 1875. O fato é que após o falecimento desta proprietária, em 21 de dezembro de 1876, seu genro Ângelo Ignácio X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 2161 Barcellos torna-se inventariante de seus bens. Ele registra sua ação no 2° Cartório de Orphãos de Porto Alegre em Janeiro de 1877. Ângelo contrata um engenheiro para elaborar uma planta de loteamento das terras de sua sogra. (Fig. 1) Este loteamento é baseado nos eixos das já traçadas ruas Sertório e Frederico Mentz, ruas estas que só foram executadas, pois ainda em vida Dona Margarida doa ao município os lotes de terras necessários a abertura destas. O traçado previsto para as terras de suas chácaras era perpendicular, com quarteirões de formas regulares e proporcionais entre si. Uma das ruas é batizada com o nome de Dona Margarida e as demais recebem nomes em homenagem aos combatentes farroupilhas e às personalidades diversas. Neste contexto vale destacar que o loteamento proposto no mapa, encomendado por seu genro Ângelo, não condiz com o atual traçado. Das ruas propostas, somente a rua São José (atual Frederico Mentz), rua Sertório, rua Stock, rua Dona Margarida, rua Comendador Tavares (antiga rua de servidão particular) e rua Afonso Marques é que foram executadas além da estrada de ferro Porto Alegre – Novo Hamburgo. O restante dos terrenos ficaram na condição de paisagem natural por longos anos. De 1890 em diante, Porto Alegre entra na fase da industrialização. Situação propícia para, em 1895, surgir a Companhia Territorial Porto Alegrense com o objetivo de desmembrar as chácaras da antiga região do Arraial dos Navegantes. (Fig. 2) A intenção era promover um loteamento popular. No mapa desta companhia não há registros da porção de terras que seria da antiga chácara de Dona Margarida. Há uma lacuna que somente será explicada com a comparação da planta elaborada por Alexandre Ahrons em 1916, quando percebe-se que desde 1877 até esta data, aquela região permaneceu rural e esquecida pela maioria da população. (Fig. 3) Em decorrência da crise do governo de Campos Salles (1898-1902), a capital sofre uma recessão econômica e as companhias territoriais decretam falência. Com o término do governo de Salles há uma renovação na economia. Percebe-se alguns melhoramentos na região dos loteamentos das antigas companhias, contudo a região ao norte após a rua Dr. João Ignácio, das antigas chácaras, ainda permanecem rurais. Na gestão de Otávio Rocha os melhoramentos continuam. O bairro é abastecido com água tratada e as moradias aumentam de número. Mas é no governo de Loureiro da Silva (1937 – 1945) que melhorias significativas acontecem. A avenida Farrapos é aberta totalmente e alargada para 30 metros. (Fig. 4) E, neste contexto, a região das antigas chácaras vai sendo efetivamente desmembrada e o bairro passa a ter vida e independência com um cenário composto por inúmeras casas, comércio diversificado, indústrias, teatros, cinemas, salões de baile e agradáveis espaços verdes para estimular interação entre os moradores. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 2162 Introdução O trabalho tem como temática estudar a história, formação e estruturação urbana do bairro Navegantes. Para isso se objetivou estudar como foram feitos os loteamentos das chácaras localizadas na região próxima às ruas Voluntários da Pátria, Ceará, Pátria e estrada de Ferro Porto Alegre – Novo Hamburgo. Esta pesquisa está em andamento, contudo o objetivo de descobrir a formação dos loteamentos permanece em vigor, pois é fundamental que o urbanismo proposto àquela região interaja com a história dos moradores e antigos proprietários de vastas terras desde a época do Brasil Império. Metodologia Analisaram-se mapas de loteamento da região do 4° distrito, bem como foram redesenhadas algumas plantas para estudar a estruturação e formação do bairro. Também foram feitas pesquisas no Arquivo Público, através das escrituras dos antigos proprietários dos terrenos e chácaras daquela região, consultas ao Arquivo Histórico através de livros, mapas e atas da Câmara Municipal visando o entendimento dos fatos e amarração dos acontecimentos. Fez-se visitas ao local, realizou-se entrevistas com moradores e trocou-se idéias com as pesquisadoras Tânia M. Strohacker, Célia Ferraz e minha orientadora, a professora Leila N. Mattar. Resultados (ou Resultados e Discussão) Apresento os resultados sob forma de análise feita nos mapas estudados. Figura 1 Redesenho da planta da chácara dos herdeiros de D. Margarida Teixeira de Paiva_1877. Fonte: Arquivo Histórico Moisés Velhinho – Porto Alegre; X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 2163 Autor: Aline de Oliveira; Figura 2 Redesenho de uma porção da planta de loteamento dos terrenos pertencentes à Companhia Territorial Porto Alegrense com data estimada de 1895. Fonte: GEDURB da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFGRS; Autor: Aline de Oliveira; Figura 3 Parte da planta desenhada por Alexandre Ahrons em 1916. Fonte: Mapoteca da SPM – Prefeitura de Porto Alegre; Análises: Aline de Oliveira; Figura 4 Parte da planta da cidade de Porto Alegre em 1939 Fonte: Mapoteca da SPM – Prefeitura de Porto Alegre; X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009 2164 Análises: Aline de Oliveira; Conclusão Esta pesquisa está em desenvolvimento. Durante os estudos, inúmeras dúvidas surgiram. A comparação entre os diversos mapas ajudou no esclarecimento de algumas questões. Contudo, o trabalho não está finalizado, pois a amarração dos fatos ainda é precária, na medida em que as interpretações vão surgindo ao longo de mais e mais envolvimento neste trabalho que considero de grande importância para descobrir sobre a história que compreende a região do 4° distrito. Referências STROHACKER, T. M., Evolução e tendências de um bairro de Porto Alegre. Porto Alegre: UFGRS. 1991. FRANCO, S. C., Porto Alegre: Guia Histórico. Porto Alegre: Ed. UFGRS. 1992. MATTAR, L. N., Porto Alegre: Voluntários da Pátria e a experiência da rua plurifuncional (1900 – 1930) Porto Alegre: PUCRS, 2001. Dissertação de Mestrado, Faculdade de História, Pontifícia Católica do Rio Grande do Sul, 2001. MACEDO, F. R., Porto Alegre, origem e crescimento. Porto Alegre: Sulina. 1968. PORTO ALEGRE. ARQUIVO PÚBLICO DO RIO GRANDE DO SUL. Inventário do 2° Cartório de Orphãos _ Inventariado Margarida Teixeira de Paiva e Inventariante Ângelo Ignácio de Barcellos. Janeiro de 1877. PORTO ALEGRE. ARQUIVO HISTÓRICO MOYSÉS VELINHO. Planta do terreno da chácara dos herdeiros de Margarida Teixeira de Paiva. Mapoteca I – Horizontal. Gaveta 2. Verde 8. Catálogo página 22. Data 1877. PORTO ALEGRE. ARQUIVO HISTÓRICO MOYSÉS VELINHO. Catálogo das Atas da Câmara de Vereadores de Porto Alegre 1876 – 1885 (Volume XII). Secretaria Municipal da Cultura. 2004. PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Secretaria do Planejamento. Mapoteca. Mapa da Cidade de Porto Alegre de 1939. PORTO ALEGRE. Prefeitura Municipal. Secretaria do Planejamento. Mapoteca. Mapa da Cidade de Porto Alegre de 1916 desenhado por Alexandre Ahrons. PORTO ALEGRE – UFRGS – GEDURB. Mapa da Companhia Territorial Porto Alegrense (1895). X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, 2009