○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○○ ○○ ○○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 2001 IAMSCU Conference Justiça, gênero e direitos humanos Justice, gender, and human rights Hisako Kinukawa Doutora pelo San Francisco Theological Seminary Co-diretora do Centro para Teologia e Ministério Feminista no Japão R e s u m o Apresentando relatos de mulheres que se tornaram escravas sexuais, este texto mostra a questão da discriminação contra as mulheres, tendo por base a experiência vivida pela autora na Ásia em pesquisa e acompanhamento de casos. Ela considera as guerras como principal fator para a ocorrência de violência sexual, crimes contra a mulher e desvalorização do gênero. Unitermos: justiça; violência; guerras; direitos Synopsis Presenting reports of women that became sexual slaves, this text approaches the discrimination against women, based on the experience lived by the author in Asia, during her research and case study. She understands that wars are the main factor for the occurrence of sexual violence, crimes against women and gender depreciation. Terms: justice; violence; wars; rights Resumen Presentando narrativas de mujeres que se tornaron esclavas sexuales, esto texto muestra la cuestión de la discriminación contra las mujeres, teniendo como base la experiencia vivida por la autora en Asia en investigación y acompañamiento de casos. Ella considera las guerras como el principal factor de la ocurrencia de violencia sexual, crímenes contra la mujer y desvalorización del género. Términos: Justicia; violencia; guerras; derechos Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 59 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ The Most Neglected Agenda—Gender Issues 1. Os clamores pela vida são clamores por justiça 1. Cries for Life are Cries for Justice s assuntos relacionados aos três temas de justiça, gênero e direitos humanos estão ligados e inter-relacionados de formas intrincadas. Gostaria de lidar com eles tendo por base o que já vivi, observei e analisei como uma mulher japonesa que vive na Ásia de hoje. Primeiramente, convido-os a escutar os clamores que estão buscando vida e justiça. ssues related to the three themes of justice, gender and human rights are linked together and interrelated in intricate ways. I would like to deal with them based on what I have experienced, observed and analyzed as a Japanese woman living in the contemporary Asia. First, I invite you to listen to the cries that are seeking for life, and justice. ○ ○ O ○ ○ ○ ○ I - Os mais negligenciados assuntos ligados à questão de gênero Os clamores esquecidos das “Comfort Women” 1 I Forgotten Cries of “Comfort Women” Os clamores que se seguem são para restaurar os direitos humanos e a dignidade de que muitas foram roubadas e têm sido privadas por mais de cinqüenta anos. These are the cries for seeking the retrieval of the human rights and dignity which were plundered and have been deprived for more than fifty years. Os clamores que se seguem são para restaurar os direitos humanos Disse ele: “Vamos nos divertir um pouquinho”, mas eu só tinha 12 anos e não sabia o que é que significava ‘vamos nos divertir’”. Kim Young Suk, Coréia He said “Let’s have some fun” but I was only 12 years old and did not know what “Let’s have fun” meant. Kim Young Suk, Korea “Eu era virgem. Fui estuprada por dez homens”. Suhanah, Indonésia “I was a virgin. Ten men raped me.” Suhanah, Indonesia “Pensei que seria melhor morrer do que viver. Mas éramos tão jovens que nem sabíamos como morrer” . Kim Bok Dong, Coréia. “I thought it would be better to die than live. But we were so young we didn’t know how to die.” Kim Bok Dong, Korea Estas vozes foram erguidas pelas assim chamadas sobreviventes das comfort women no Tribunal Interna- These voices were raised by the so-called ‘comfort women’ survivors at the Women’s International 1 Mulheres dos países invadidos, forçadas a se prostituir para atender aos exércitos japoneses durante a guerra. Veja maiores explicações mais adiante no texto – N.T Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 60 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ cional das Mulheres para Crimes de Guerra Ano 2000. Esse tribunal popular foi realizado em Tóquio de 7 a 12 de dezembro do ano 2000, tendo sido organizado após dois anos de preparação pelo Comitê Consultivo da VAWW-NET Japan (Violence Against Women in War Network – Rede da Violência Contra Mulheres na Guerra) e por organizações asiáticas de mulheres e de direitos humanos, com o apoio de muitas ONGs de todo o mundo. Eis mais alguns testemunhos: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ War Crimes Tribunal 2000. This people’s tribunal was held in Tokyo on December 7-12, 2000 organized after two years of preparation by VAWW-NET Japan(Violence Against Women in War Network), International Advisory Committee, and Asian women and human rights organizations, supported by many NGOs throughout the world. Here are some more witnesses. “ I was given a Japanese name, Masako, which was written on the name plate of the door. Japanese soldiers lined up in front of the door waiting for their turn. I want Japan to ask for forgiveness. I ask the Japanese government to apologize and redress us.” Yuan Zhulin, China “Deram-me um nome japonês, Masako, que foi escrito na placa da porta. Os soldados japoneses faziam fila em frente à porta esperando a vez. Eu quero que o Japão peça perdão. Eu peço que o governo japonês se retrate e nos desagrave.” Yuan Zhulin, China “Justice abandoned us. I could only cry when I was coerced to follow Japanese soldiers. I seek for justice.” Maxim Ragala dela Cruz and others, Philippines “A justiça nos abandonou. Pude apenas chorar quando fui forçada a acompanhar os soldados japoneses. Procuro justiça.” Maxim Ragala dela Cruz e outras, Filipinas. A maioria das sobreviventes está hoje na faixa dos setenta anos e tem consciência de que seus dias na terra estão contados. Esta é uma razão pela qual elas começaram a erguer as vozes em público. As expressões comfort women e comfort station2 , cunhadas pelos militares japoneses e comumente usadas, ocultam a atrocidade e o vulto do que era realmente feito às mulheres. As expressões deveriam ser ”escravas sexuais” e “centros de estupro” (cf. Indiciamento e Aplicação da Lei, Referentes à Responsabilidade do Japão pelo Conselho Coreano Esta é uma razão pela qual elas começaram a erguer as vozes em público Most of the survivors are now in their 70’s and are aware that their days on the earth are numbered. This is one reason they began raising their voices in public. The terms “comfort women” and “comfort stations” coined by the Japanese military and commonly used, conceal the atrocity and the magnitude of what was actually done to the women. The phrases should be “sexual slaves” and “rape centers.” (cf. Indictment and Application Concerning State Responsibility of the Government of Japan by Korean Council for the Women Drafted for 2 Comfort station é um eufemismo usado hoje para banheiro público, donde se conclui o sentido mais degradante de comfort women – N.T. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 61 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ para as Mulheres Arrastadas à Escravidão Sexual Militar pelo Japão, p. 1). No tribunal, apropriadamente chamado Julgamento da Escravidão Sexual Militar Japonesa, havia 64 sobreviventes presentes, representando nove países: Timor Leste, Indonésia, Japão, Malásia, Holanda, Coréia do Norte e do Sul (juntamente), República Popular da China, Filipinas e Taiwan. Military Sexual Slavery by Japan. p. 1) At the Tribunal, aptly named the Trial of Japanese Military Sexual Slavery, there were 64 survivors present representing 9 countries, East Timor, Indonesia, Japan, Malaysia, the Netherlands, North and South Korea (jointly), the People’s Republic of China, the Philippines, and Taiwan. Quebrando o silêncio Breaking the Silence Foi somente há dez anos que algumas mulheres asiáticas começaram a quebrar quase cinco décadas de doloroso silêncio, ousando falar sobre o tempo irrecuperável de sua juventude que estava escondido no mais profundo de seus corações. As vozes foram reunidas com o apoio e a ajuda oferecidos por muitas mulheres e homens na Ásia e no Japão. A ação avolumouse em uma grande onda para exigir um pedido de desculpas e compensação pelas atrocidades cometidas durante a Guerra nas décadas de 30 e 40 na região do Pacífico asiático. Sua coragem inspirou outras centenas de sobreviventes de toda a região do Pacífico asiático a falar abertamente. Juntas, elas despertaram o mundo para o horror da institucionalização militar japonesa do estupro, escravidão sexual, tráfico, tortura e outras formas de violência sexual infligidas a um mínimo estimado de 200.000 meninas e mulheres. (cf. Resumo das Descobertas feitas pelas juízas Gabrielle Kirk Mc Donald, Carmen Argibay, Christine Chinkin e Willy Mutunga, 1). O Tribunal tinha diversos objetivos: 1) Processou o Imperador Hirohito, oficiais de alto escalão das forças armadas e do governo do Japão de forma que o círculo vicioso da impunidade pudesse ter um Only 10 years ago a few Asian women began to break almost five decades of painful silence and dared to speak about the unrecoverable time of their youth which was hidden deep in the bottom of their hearts. The voices were gathered together with support and help offered by many women and men in Asia and in Japan. The action swelled into one big wave to demand an apology and compensation for the atrocities executed during the War in the 1930s and 1940s in the Asia Pacific region. Their courage inspired hundreds more survivors throughout the Asia Pacific region to speak out. Together, they have awakened the world to the horror of the Japanese military’s institutionalization of rape, sexual slavery, trafficking, torture and other forms of sexual violence inflicted upon an estimated minimum of 200,000 girls and women. (cf. Summary of Findings by Judges Gabrielle Kirk McDonald, Carmen Argibay, Christine Chinkin, and Willy Mutunga, 1). The tribunal had several objectives. 1) It prosecuted Emperor Hirohito, high-ranking officers in the military and the government of Japan so that the vicious cycle of Revista de Educação do Cogeime Elas despertaram o mundo para o horror da institucionalização militar japonesa do estupro ○ ○ ○ 62 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ fim, embora todos os indivíduos que foram processados, incluindo o Imperador Hirohito, já tivessem falecido; 2) O processo é necessário para que a dignidade e os direitos humanos dessas mulheres possam ser restaurados; 3) O governo do Japão deveria dar-se conta da responsabilidade que tem de desculpar-se e dar uma compensação a elas; 4) O objetivo último é evitar a guerra em si e a violência contra as mulheres. ○ ○ ○ ○ ○ ○ O objetivo último é evitar a guerra em si e a violência contra as mulheres Como eu me envolvi A primeira vez que tive a oportunidade chocante de ouvir em primeira mão os testemunhos dados pelas sobreviventes foi na Audiência Pública Internacional realizada em Tóquio em 1992. É sempre sufocante estar em uma sala de audiências ouvindo suas experiências. Foi ainda mais pelas sobreviventes que ousaram relembrar, recontar e reviver as atrocidades feitas a seus corpos e mentes. Algumas desmaiaram após ou mesmo durante seus depoimentos. Jan Ruff-O’Herne, uma holandesa, deu seu testemunho entre outras mulheres asiáticas. Foi a primeira vez que ela veio a público contar sua história. Ela nasceu na Indonésia, colônia da Holanda, sua pátria-mãe, e foi levada a um centro de escravidão por dois meses. A única forma que encontrou para manter sua dignidade foi agarrando-se à fé cristã que sua mãe lhe ensinara. Por causa de sua fé, ela ousava contar aos soldados que a estupravam que era contra a vontade que estava ali. Fiquei profundamente comovida com seu testemunho e senti-me compelida a participar das atividades que exigiam que nosso governo reconhecesse sua culpa, se retratasse e desse uma compensação àquelas mulheres. Revista de Educação do Cogeime ○ A única forma que encontrou para manter sua dignidade foi agarrando-se à fé cristã ○ ○ ○ 63 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ impunity would end, though all the individuals including Emperor Hirohito who were prosecuted are dead. 2) The process is necessary so that these women’s dignity and human rights might be restored. 3) The government of Japan might realize its responsibility to apologize and compensate them. 4) The ultimate aim is to prevent war itself and violence against women. How I Became Involved The first time I had the shocking opportunity to listen to the firsthand testimonies given by the survivors was at the International Public Hearing held in Tokyo back in 1992. It is always suffocating to sit in the hall listening to their experiences. It was even more so for the survivors who dared to re-member, re-tell and re-experience the atrocities done to their bodies and minds. Some survivors passed out after or during their testimonies. Jan Ruff-O’ Herne, a Dutch woman, gave her testimony among other Asian women. It was her first time to come out and tell the story. She was born in Indonesia a colony of her mother country Holland, and was taken to a slavery center for 2 months. The only way she could keep her dignity was by clinging to the Christian faith her mother had taught her. Because of her faith, she dared to tell the soldiers who raped her that it was against her will to be there. I was deeply touched by her testimony and felt pushed to participate in the activities demanding our government to acknowledge their guilt, apologize and compensate these women. A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Elas foram vítimas dos soldados sob a política colonizadora do Japão, mas deve-se ter o cuidado de notar que foram escravizadas sexualmente porque eram mulheres. Não devemos passar por alto o fato de que se tratava de um crime específico de gênero e legitimado pelo Estado. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Deve-se ter o cuidado de notar que foram escravizadas sexualmente porque eram mulheres ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ These women were the victims of the military under the colonizing policy of Japan, but it must be carefully noted that they were sexually enslaved because they were women. We must not overlook that the crime was gender specific and it was legitimized by the state. Suas horrendas experiências Their Horrendous Experiences Durante a guerra, elas viveram em condições subumanas, incluindo alimentação inadequada, falta de água, de facilidades higiênicas e de ventilação. (cf. Resumo de descobertas, 21). No fim da guerra, foram abandonadas pelos militares. Muitas se suicidaram e muitas não retornaram às suas cidades natais por medo de serem rejeitadas pelas próprias famílias e pela sociedade. Até pouco tempo, a maioria destas mulheres estava destinada, de acordo com os ensinos confucionistas, a uma vida de vergonha, isolamento, pobreza e sofrimento implacável. During the war they suffered inhumane conditions, including inadequate food, water, hygienic facilities, and lack of ventilation. (cf. Summary of Findings, 21) At the end of the war they were abandoned by the military. Many committed suicide and many did not go back to their home towns as they were afraid they would be rejected by their own families and societies. Until recently most of these women were consigned to a life of shame under Confucian teaching, isolation, poverty and relentless suffering. 2. Como a Justiça pode ser recuperada 2. How Justice Can be Recovered Nenhum dos acusados pelo Tribunal 2000 enfrentou as acusações do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente (o tribunal original de Tóquio), que foi de abril de 1946 a novembro de 1948. Deu-se muito pouca atenção, naquela primeira ocasião, aos casos de escravidão sexual e a outros crimes que envolviam violência sexual contra mulheres, embora houvesse evidências claras de tais crimes. O Tribunal Tóquio 2000 decidiu aplicar a lei que podia então ser aplicada, julgar os acusados e aceitar None of those accused by Tribunal 2000 faced charges at the International Military Tribunal for the Far East (the original Tokyo Tribunal), which was held between April 1946 and November 1948. Very little attention was then paid to cases of sexual slavery and other crimes involving sexual violence against women, despite the fact that there was clear evidence of such crime. The Tokyo Tribunal 2000 chose to apply the then applicable law, ad- Revista de Educação do Cogeime Deu-se muito pouca atenção aos casos de escravidão sexual ○ ○ ○ 64 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ como estabelecidas as descobertas legais, concretas e pertinentes do Tribunal original de Tóquio. Seu poder reside na capacidade que tem para examinar as evidências e desenvolver um registro histórico permanente, com a esperança e a expectativa de que tais atrocidades nunca tornem a acontecer, especialmente a tendência histórica de trivializar, desculpar, marginalizar e encobrir os crimes contra a mulher, especialmente os crimes sexuais (cf. Resumo de Descobertas, 4-6) judge the accused, and accept as established the relevant legal and factual findings of the original Tokyo Tribunal. Its power lay in its capacity to examine the evidence and develop an enduring historical record, with the hope and expectation that such atrocities will never happen again, especially the historic tendency to trivialize, excuse, marginalize and obfuscate crimes against women, particularly sexual crimes (cf. Summary of Findings, 4-6). 3. O que vemos – Relação próxima entre Preconceito de Gênero e Impunidade 3. What We See—Close Relationship between Gender Bias and Impunity Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão assinou uma série de tratados, mas as mulheres, tanto como pessoas quanto como grupo, não tiveram voz ou status equiparáveis aos dos homens na época da conclusão dos tratados de paz. Como resultado, as questões de escravidão sexual militar e de estupro não foram abordadas. A negligência ou indiferença quanto ao gênero em processos internacionais de paz podem ter contribuído para a continuação da cultura de impunidade por crimes perpetrados contra as mulheres em conflitos armados na Ásia e em outras partes do mundo (cf. Resumo de Descobertas, 29-30) After the Second World War, Japan signed a number of treaties, but women, either as individuals or as a group, did not have an equal voice or equal status to men at the time of the conclusion of the Peace Treaties. As a result, the issues of military sexual slavery and rape were left unaddressed. Gender negligence or indifference in international peace processes may have contributed to the continuing culture of impunity for crimes perpetrated against women in armed conflicts in Asia and other parts of the world. (cf. Summary of Findings, 29-30) 4. Esquecer o passado? Audiência Pública sobre Crimes contra as Mulheres em Guerras e Conflitos Recentes 4. Forget about the Past?—Public Hearing on Crimes Against Women in Recent Wars and Conflicts As vozes corajosas destas sobreviventes ecoaram por todo o mundo Como as vozes corajosas destas sobreviventes das “confort women” Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 65 ○ ○ As the courageous voices of these “comfort women” survivors ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ em busca de justiça ecoaram por todo o mundo, surgiu um movimento maior pelos direitos humanos das mulheres para dar fim à impunidade relativa a tais crimes e para repudiar a noção de que o abuso sexual de mulheres é uma conseqüência inevitável das guerras e conflitos. Durante os seis dias do Tribunal 2000 de Tóquio, um dia foi dedicado a ouvir as vozes de mulheres de 14 países de todo o mundo que haviam sido vítimas de estupro, escravidão sexual, assassinato, tortura, desalojamento, casamentos forçados, gravidez forçada, esterilização, purificação racial e genocídio. Este foi o clamor por justiça, por tais coisas lhes terem acontecido por serem mulheres e civis. O encontro foi patrocinado por uma ONG, o Women’s Caucus for Gender Justice (Comitê Feminino das Mulheres para Justiça de Gênero), cujo escritório principal situa-se em Nova York. A sala de audiência encheu-se de mais de mil participantes. Como todos sabemos, uma característica distintiva das guerras e conflitos atuais é um envolvimento cada vez menor de dois exércitos regulares de duas nações, e o envolvimento cada vez maior de atores políticos, sempre alvejando a população civil como uma arma de guerra (cf. Marieme Helie Lucus, “Introdução”, A Compilation of Testimonies [Compilação de Testemunhos], p.3, Nova York, International Women’s Caucus Caucus, 2000). ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Este foi o clamor por justiça, por tais coisas lhes terem acontecido por serem mulheres e civis ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ to seek justice have echoed all through the world, a larger movement for women’s human rights emerged to end impunity for such crimes and to repudiate the notion that sexual abuse of women is an inevitable consequence of war and conflicts. During the six day Tokyo Tribunal 2000, one day was dedicated to listening to the voices of women from 14 countries who were victimized in the contemporary wars and conflicts all over the world. They were victimized by rape, sexual slavery, murder, torture, displacement, forced marriages, forced pregnancies, sterilizations, ethnic cleansing, and genocide. These were the cries for justice which was infringed because they were women and civilian population. The meeting was sponsored by an NGO group, the Women’ Caucus for Gender Justice which has its main office in New York. The hall was filled with more than 1000 in attendance. As we all know, one distinctive characteristic of present day wars and conflicts is less and less involvement of two regular armies of two nations, but more of nonstate actors that often target the civilian population as a weapon of war (cf. Marieme Helie Lucus, “Introduction,” A Compilation of Testimonies, p. 3 NY: International Women’s Caucus, 2000). Agora ouçamos a um dos depoimentos que foi dado, por uma mulher de Okinawa, Japão, por trás de um biombo: Now let’s listen to one of the testimonies that was given behind a screen set on the stage by a woman from Okinawa, Japan. “Foi em 1984, quando eu tinha apenas 17 anos e estava no primeiro ano “It was in 1984, when I was a junior in high school and only 17 years of Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ 66 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ do ensino médio, que me tornei uma das vítimas da violência dos militares da base americana em Okinawa. Agarraram-me por trás e alguém me encostou uma faca, cochichando no meu ouvido: ‘eu posso te matar’... Levaram-me para um parque nas redondezas e três homens me estupraram. Fiquei olhando para as folhas acima de mim, enquanto ouvia uma voz em minha cabeça dizer: ‘Está feito. Eles vão me matar’. Fiquei pensando nisso, desejando que me matassem naquele instante mesmo. Tinha vontade de morder minha língua para poder sangrar até a morte. Mas eu estava tremendo, e não conseguia dizer uma única palavra, nem gritar. Depois de me estuprarem, eles se viraram para mim com um grande sorriso e enfiaram uma caneta no meu corpo. Então, me largaram no parque. Em 1995, cerca de dez anos depois, quando soube pela TV que uma menina de 12 anos havia sido estuprada por três militares americanos, foi impossível não chorar horas seguidas... Creio que chorei mais do que quando eu mesma fui estuprada. Culpei-me por não ter feito nada para lidar com o que havia acontecido comigo, e sim ter tentado fugir.” ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ age that I became one of the victims of the violence by the personnel of the US base in Okinawa….I was grabbled from the back and somebody put a knife on me and whispered into my ears, ‘I can kill you.’…They took me to a park near by and three men raped me. I was looking at the leaves above me. I heard a voice in my head saying, ‘This is it. They will kill me.’ I kept thinking and hoping that he kills me now. I wanted to bite my tongue so I can bleed to death. But I was shivering; I could not even say a word nor scream. After they raped me, they grinned at me and inserted a pen in my body. Then they abandoned me in the park. In 1995, about ten years later, when I learned on TV the 12-year old girl was raped by three US military personnel, I could not help crying for hours…I think I cried much more than when I was raped myself. I blamed myself for having not done anything to cope with what had happened to me but instead trying to escape.” Concluindo, ela reconheceu sua responsabilidade como parte do país vitimizador, dizendo: “Durante a Segunda Guerra, os japoneses invadiram outros países e mataram as pessoas”, e pediu desculpas. Enquanto ouvíamos as testemunhas, vimos um outro caso na Indonésia, que foi vítima da invasão colonial pelos exércitos japoneses, e tornou-se a perpetradora do mesmo crime no Timor Leste há bem pouco tempo. Uma americana, violentada e maltratada por policiais militares enquanRevista de Educação do Cogeime ○ In conclusion, she acknowledged the responsibility as part of the victimizing country saying, “During WWII, we Japanese invaded the other countries in Asia, and killed the people,” and she apologized. As we heard the testimonies, we saw another case in Indonesia, which was the victim of the colonial invasion by the Japanese military and has become the perpetrator in East Timor very recently. A US woman, victimized and abused by soldiers and policemen while she was serving in Guate- Ela reconheceu sua responsabilidade como parte do país vitimizador ○ ○ ○ 67 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ to servia na Guatemala, terminou seu discurso da seguinte maneira: mala, closed her speech in the following way. “Vivendo nos Estados Unidos, sou constantemente violentada de novo porque, como contribuinte, sou forçada a participar da violência. Quando leio sobre tortura e maus-tratos que, de acordo com a Anistia Internacional, ocorreram em 150 países nos últimos três anos, não posso deixar de imaginar quais dessas atrocidades eu financiei”. “ Living in the United States I am constantly re-victimized because, as a tax payer, I am forced to participate in violence. When I read torture and ill-treatment that, according to Amnesty International, has occurred in 150 countries within the past three years, I can’t help but wonder which of those atrocities I’ve financed”. Então entendemos que “a barbárie não é inerente a nenhum povo em especial: é o produto da guerra e de políticas específicas. A vítima de hoje pode perpetrar um crime amanhã e vice-versa”. (Compilation of Testimonies, p. 2). Apesar de hoje terem mudado as circunstâncias das guerras e conflitos, “em tempos de guerras e conflitos, os corpos das mulheres tornam-se parte do campo de batalha. As mulheres são vistas como propriedade dos homens do lado oposto e, desta forma, a violência física, especialmente a sexual, é uma forma tanto de intimidar as mulheres como cidadãs como de insultar a ‘masculinidade’ dos homens de sua nação ou comunidade” (“Introdução”, Compilation of Testimonies, p. 4). Ruth Seifert descreve tal situação como “a humilhação simbólica extrema do inimigo masculino” (“War and Rape,” Women in the Peace Process: The Difference Women Make Make. The Women’s International League for Peace and Freedom International Secretariat, [“Guerra e Estupro”, Mulheres no Processo de paz: a Diferença que as Mulheres Fazem. Secretariado Internacional da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade], Case Postale 28, Genebra, p. 21). A atrocidade que as mulheres sofrem porque são mulheres está Revista de Educação do Cogeime A barbárie não é inerente a nenhum povo em especial Os corpos das mulheres tornam-se parte do campo de batalha ○ ○ ○ 68 ○ ○ ○ Thus we learn “Barbarity is not inherent to any specific people, it is the product of war and specific politics. The victim of today may be the perpetrator of tomorrow and vice versa.” ( Compilation of Testimonies , p.2) Even though circumstances of wars and conflicts today are changed, “In times of wars and conflicts, women’s bodies become part of the territory of the battle. Women are seen as the property of the men of the opposing side and thus, physical and especially sexual abuse is a way of both intimidating women as citizens and insulting the ‘manhood’ of the men of their nation or community.” (“Introduction,” Compilation of Testimonies , p.4) Ruth Seifert describes such a situation as “the ultimate symbolic humiliation of the male enemy.”(“War and Rape,” Women in the Peace Process: The Difference Women Make. The Women’s International League for Peace and Freedom international Secretariat , Case Postale 28, Geneva p.21) The atrocity that women experience because we are women is A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ indissociavelmente ligada às relações subordinadas que as mulheres são forçadas a ter com os homens em nossa vida cotidiana. Tal costume é normalmente encontrado no padrão mundial de estereotipia de gênero que continua a ser presente hoje. As formas extremas de despersonalização dos soldados vista em seus comportamentos de atrocidade sexual são uma conseqüência da discriminação de gênero, gerada pelas circunstâncias anormais de guerras e conflitos. A questão, então, é: o que nos conduzirá a uma transformação? ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ A questão, então, é: o que nos conduzirá a uma transformação? ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ inseparably connected with the subordinate relationships women are made to have with men in our daily life. Such a mind-set is commonly found in the worldwide pattern of gender stereotyping that continues to be pervasive today. The extreme forms of depersonalization of soldiers seen in their behaviors of sexual atrocity are a consequence of gender discrimination, elevated by the abnormal circumstances of wars and conflicts. The question, then, is what will lead us toward transformation? 5. Alguns Prospectos Esperançosos para o Futuro 5. Some Hopeful Prospect Toward the Future Antes de entrar no próximo assunto, deve ser importante notar que nesta década tem sido feito um certo progresso significativo rumo ao reconhecimento e julgamento dos crimes de violência sexual nos Tribunais Criminais Internacionais para a antiga Iugoslávia (1993) e a Ruanda (1994). No tribunal para a antiga Iugoslávia, pela primeira vez na história o estupro foi reconhecido como uma acusação independente de crime contra a humanidade. O Tribunal 2000 de Tóquio é um outro passo rumo ao fim do círculo vicioso da impunidade e à reversão do enorme descaso para com a integridade corporal e dignidade pessoal, realmente para com a própria condição humana das mulheres. Um outro fato notável da história, o Tribunal Penal Internacional, cujo estatuto foi finalmente adotado em Roma em 1998, deve ser notado aqui também: 160 países, 31 organizações internacionais, e 139 ONGs se reuniram em Prior to moving into the next subject, it may be important to note that some significant progress has been made in the last decade toward recognizing and prosecuting crimes of sexual violence in the International Criminal Tribunals for the former Yugoslavia (1993) and Rwanda (1994). At the Tribunal for the former Yugoslavia, rape was recognized as an independent charge of crime against humanity for the first time in the history. The Tokyo Tribunal 2000 is another step towards ending the vicious cycle of impunity and reversing the gross disregard of bodily integrity and personal dignity, indeed the very humanity of women. As another remarkable event of history, the International Criminal Court, whose statute was finally adopted in Rome in 1998, should be noted here, too. 160 countries, 31 international organizations, and 139 Revista de Educação do Cogeime O estupro foi reconhecido como uma acusação independente de crime contra a humanidade ○ ○ ○ 69 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Roma, discutiram e formularam os estatutos de 128 artigos em 13 capítulos, apesar de uma grande objeção por parte dos EUA e da China e outros mais (120 a favor, 7 contra, 21 abstenções). Este Tribunal deve ser um tribunal permanente pela justiça em crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Os membros da International Women’s Caucus trabalharam bastante, conseguindo fazer do estatuto o primeiro documento internacional que se comprometia legalmente a especificar que estupro, escravidão sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada e outras formas de violação sexual são crimes contra a humanidade. O Tribunal, a ser localizado em Haia, entretanto, não será estabelecido até que o estatuto seja ratificado por sessenta nações. No final do ano 2000, 120 nações haviam-no assinado, mas apenas 22 o haviam ratificado. O Japão ainda não assinou. Os Estados Unidos assinaram em 31 de dezembro de 2000. O estatuto deixa claro que os crimes cometidos no passado não estarão cobertos por sua jurisdição, porém há uma grande esperança de que o círculo vicioso da impunidade seja reduzido quando o Tribunal estiver inteiramente estabelecido. Estou bem consciente de que a violência contra as mulheres não é causada por um fator único, mas que há uma grande quantidade de causas a serem consideradas, tais como a globalização dos processos econômicos e políticos e as formas de opressão baseadas em raça, classe, etnia, religião, ideologia, nacionalidade, orientação sexual, idade, gênero, etc., sendo que os limites deste artigo não permitem lidar com o assunto por completo. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Este Tribunal deve ser um tribunal permanente pela justiça A violência contra as mulheres não é causada por um fator único ○ ○ ○ 70 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ NGO’s gathered in Rome, discussed and decided the statutes of 128 articles in 13 chapters, even though there was a strong objection from the USA and China et al (120 in favor, 7 opposed, 21 abstentions). The Court is to be a permanent tribunal for justice on war crimes, crimes against humanity, and genocide. The members of the International Women’s Caucus worked hard and succeeded in making the statute the first international legally binding document specifying rape, sexual slavery, forced prostitution, forced pregnancy, forced sterilization and other forms of sexual violations as crimes against humanity. The Court to be located in the Hague, however, will not be established until sixty nations ratify the statute. By the end of 2000, 120 nations had signed, but only 22 have ratified it. Japan has not signed yet. The United States signed on December 31, 2000. The statute makes it clear that the crimes committed in the past will not be covered by its jurisdiction, but there is a great hope that the vicious cycle of impunity will be cut down when the Court is fully established. I am well aware of the fact that victimization of women is not caused by a single factor, but there are a multitude of reasons to be considered such as globalization of economic and political processes and forms of oppression based on race, class, ethnicity, religion, ideology, nationality, sexual orientation, age, gender, et al, it is beyond the limit of this paper to deal with the entire issue. A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ O Tribunal Tóquio 2000 declarou o Imperador Hirohito culpado de responsabilidade por estupro e escravidão sexual e o governo do Japão responsável por sua instituição e pela manutenção do sistema de escravidão sexual. Quando a sentença foi promulgada no final do Tribunal Tóquio 2000 por Gabrielle Kirk McDonald, presidente do Tribunal, todas as sobreviventes irromperam numa explosão de emoções expressando sua alegria e seu alívio com lágrimas e choro, e subindo em seguida à tribuna para partilhar sua felicidade com as juízas. Vendo seus rostos e atitudes, toda a audiência aplaudiu de pé por longo tempo. Pudemos ver, através de suas expressões, que as sobreviventes sentiram que sua dignidade como seres humanos fora reconquistada e assegurada. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ The Tokyo Tribunal 2000 found Emperor Hirohito guilty of responsibility for rape and sexual slavery as a crime against humanity and the government of Japan as responsible for its establishment and maintenance of the sexual slavery system. When the sentence was announced at the end of the Tokyo Tribunal 2000 by the chief judge, Gabrielle Kirk McDonald, all the survivors burst into emotional explosion, expressing their joy and relief by tears and cries, which was followed by stepping up to the stage and sharing their happiness with the judges. Seeing their faces and actions, all the audience gave standing ovation for a long time. We could see from their expression that the survivors felt their dignity as human beings re-gained and assured. As sobreviventes sentiram que sua dignidade fora reconquistada e assegurada II – Rumo à educação para a responsabilidade humana no século XXI II – Toward Education for Human Responsibility in the 21st Century 1. Ligação entre Justiça, Gênero e Direitos Humanos 1. Linkage of Justice, Gender and Human Rights De acordo com o que vimos, ficou claro que não podemos falar sobre questões de justiça e direitos humanos sem nos referirmos à questão do gênero. Precisamos levar a sério a violência causada pela maneira como o conceito de “gênero” é culturalmente construído e herdado através de nossa história. O gênero denota o que cada pessoa vivencia como mulher ou homem em uma determinada cultura ou sociedade. Gostando eu ou não, o gênero define quem eu sou e onde From what we have seen, it has become clear that we cannot talk about issues of justice and human rights without referring to the issue of gender. We need to take seriously violence caused by how the “gender” concept is constructed culturally and inherited through our history. Gender denotes what each person experiences as a woman or man in a certain culture or society. Whether I like it or not, gender defines who I am and Revista de Educação do Cogeime O gênero denota o que cada pessoa vivencia como mulher ou homem em uma determinada cultura ○ ○ ○ 71 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ estou. Esteja eu consciente disso ou não, o gênero tem tido um papel importante no que penso a respeito do sentido de conexão e de pertencer a algo. É evidente que o gênero é construído socialmente e não biologicamente determinado, embora o termo “sexo”, que define as categorias biológicas de feminino ou masculino também seja problemático. O gênero, apesar de ser socialmente e culturalmente construído, é originalmente gerado a partir do reconhecimento da diferença biológica entre masculino e feminino. Apesar de o gênero não poder deixar de refletir as ideologias e privilégios das sociedades patriarcais, tem também contribuído para apoiar uma compreensão dualista de sexo. Tanto o gênero quanto o sexo reconhecem a superioridade masculina e definem as mulheres como cidadãs de segunda categoria, produzindo o complexo mapa de discriminação de sexismo, racismo, classismo e assim por diante. (Elaine Graham, “Gender,” 78-80, An A to Z of Feminist Theology [“Gênero”, 78-80, Uma Teologia Feminista de A a Z]. England: Sheffield, 1996. Sally P. Purvis, “Gender Construction,” 124-25, Dictionary of Feminist Theologies [“Construção de Gênero”, 124-25, Dicionário de Teologias Feministas]. eds. Letty Russell & Shannon Clarkson. Louisville: Westminster, 1996.) Quando nos defrontamos com as questões de gênero, estas nos impelem a retornar às suas origens pedindo que repensemos e redefinamos o que é sexo. Os médicos se acostumaram a julgar se o recém-nascido é menino ou menina examinando seus órgãos genitais. Esta longa história de se distinguir o sexo de acordo com esta identidade dual remonta ao filósofo grego Aristóteles. O assim chamado padrão duplo de sexualidade Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ 72 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ where I am. Whether I am conscious or not, gender has played an important role when I think about the sense of connection and belonging. It is clear gender is socially constructed and not biologically determined, though the term, “sex” which identifies biological categories of male or female, is also problematic. Gender, though constructed socially and culturally, is originally engendered from the recognition of the biological difference of male/female. Though gender cannot be free from reflecting the ideologies and privileges of patriarchal societies, it has also contributed to supporting a dualistic understanding of sex. Both gender and sex acknowledge the superiority of men and define women as second class citizens, producing the complex map of discrimination of sexism, racism, classism and so on. (Elaine Graham, “Gender,” 78-80, An A to Z of Feminist Theology. England: Sheffield, 1996. Sally P. Purvis, “Gender Construction,” 124-25, Dictionary of Feminist Theologies. eds. Letty Russell & Shannon Clarkson. Louisville: Westminster, 1996.) When we face the gender issues they urge us to go back to their original issue and they ask us to re-think and re-define what sex is. Doctors have been accustomed to judge if the new born baby is a girl or a boy by looking at its genitals. This long history of distinguishing sex according to this dual identity goes back to the Greek philosopher, Aristotle. The so-called double standard of sexu- Tanto o gênero quanto o sexo reconhecem a superioridade masculina ○ ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ que dá mais poder aos homens tem aí sua origem. Além disso, por longo tempo se acreditou que a heterossexualidade fosse a única forma reconhecida de relacionamento humano. Pelo fato de esta definição de sexo ser tão estereotipada, o preconceito, a falta de compreensão e a ignorância acerca da realidade diversa dos seres humanos em relação ao sexo são esmagadores. Esta falta de compreensão é surpreendentemente detectada na discriminação sofrida por certas pessoas, em especial as minorias sexuais. ality which gives men more power has its origin here. Furthermore, it has long been believed heterosexuality is the only recognized form of human relationships. Because this definition of sex is so stereotyped, the bias, misunderstanding, and ignorance about the diverse reality of human beings in relation to sex is overwhelming. This lack of understanding is strikingly detected in the discrimination of certain persons, such as sexual minorities. 2. O que falta na nossa educação sobre os direitos humanos 2. What is Absent in Our Human Rights Education Alguém pode dizer que não lidamos mais com meninos e meninas de uma forma discriminatória. Se for verdade, devemos comemorar, mas a realidade nos pergunta por que é que há tanta violência sexual contra as mulheres em todo o mundo. Por isso, devemos observar cuidadosamente o que está faltando em nossa educação sobre justiça, gênero e direitos humanos. Devemos dizer que a maneira como entendemos sexo e gênero é estereotipada quando o poder controlador nas relações sexuais é dado aos homens. Este modo de entender nos tem impedido de admitir que o comportamento que consiste em invadir o corpo de outra pessoa infringe os direitos humanos, mesmo quando se trata de marido e mulher ou de duas pessoas íntimas. Não é demais dizer que a maneira como entendemos e praticamos a sexualidade está indissociavelmente ligada à maneira como definimos e entendemos o que são a dignidade humana e os direitos humanos primá- You may say we no longer deal with boys and girls in discriminatory ways. If that is true, we must celebrate, but the reality asks us why there is so much sexual violence against women all over the world. Therefore we must look carefully at what we are lacking in our education about justice, gender and human rights. We must say the way we understand sex and gender is stereotyped when the controlling power in sexual relationships is granted to men. This understanding has prevented us from admitting that the behavior of invading another’s body is an infringement on human rights, even if it is between wife and husband or between two intimate persons. It is not too much to say that the way we understand and practice sexuality is inseparably linked with the way we define and understand what is human dignity and what are Revista de Educação do Cogeime Devemos observar cuidadosamente o que está faltando em nossa educação ○ ○ ○ 73 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ rios. Devo dizer isto porque “reciprocidade” é algo básico na sexualidade. Se uma das partes monopoliza o poder controlador no relacionamento, aliena a postura de igualdade ou o conceito de direitos humanos. Em outras palavras, se observarmos e analisarmos a sexualidade praticada em uma determinada sociedade, podemos dizer se tal sociedade funciona com uma compreensão da igualdade e se reconhece que os direitos humanos e a dignidade são naturalmente outorgados a cada indivíduo. É difícil separar as questões de sexo e gênero das questões políticas e legais dos direitos humanos e da dignidade. Por isso, é plausível dizer que um preconceito relativo à sexualidade está inter-relacionado com uma compreensão irresponsável dos direitos humanos. Quando os direitos humanos são negligenciados, a sociedade mostra, da mesma forma, imaturidade para compreender a justiça. Mesmo a justiça buscada judicial e legalmente deve estar ligada aos direitos e dignidade individuais que permitem às pessoas viverem como indivíduos humanos. Desta forma, a justiça se perde quando uma pessoa é negligenciada, violentada, maltratada, objetificada, assaltada ou alienada por qualquer razão. A justiça se perde quando a vida de uma pessoa é menosprezada ou considerada sem valor. A justiça se perde quando uma pessoa é vítima de violência, de estupro, ou quando é escravizada. A justiça evidencia-se em uma sociedade quando cada pessoa é libertada dessa condições desumanas. Assim, não podemos ver qualquer motivo legítimo para que seres humanos matem outros. A expressão mais extrema da injustiça é vista em tempos de guerra. Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ É difícil separar as questões de sexo e gênero das questões políticas e legais A justiça se perde quando uma pessoa é negligenciada, violentada ○ ○ 74 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ primary human rights. I must say so because “mutuality” is basic to sexuality. If one party monopolizes the controlling power over the relationship it alienates the equal stance of the concept of human rights. In other words, if we observe and analyze the sexuality practiced in a certain society, we can tell whether the particular society is functioning with an understanding of equality and acknowledging the human rights and dignity as granted each individual. It is difficult to separate sex and gender issues from the political and legal issues of human rights and dignity. Therefore it is plausible to say that a biased concept of sexuality is interrelated with an irresponsible understanding of human rights. When human rights are neglected, a society shows its immaturity in its understanding of justice, as well. Even justice sought judicially and legally must be linked with individual rights and dignity that makes it possible for one to live as a human subject. Therefore justice is lost when a person is neglected, violated, victimized, objectified, assaulted or alienated for any reason. Justice is lost when the life of a person is despised or made worthless. Justice is lost when a person is abused, raped or enslaved. Justice is evident in a society when each individual is freed from these inhumane conditions. Thus we cannot see any legitimate reason for human beings to kill others. The most extreme expression of injustice is seen in times of war. Reciprocidade é algo básico na sexualidade ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Todos admitimos que justiça e direitos humanos são coisas muito críticas e não idealísticas. A escola é o primeiro lugar onde os alunos podem experimentar e aprender sobre a justiça e os direitos humanos. Ali, a compreensão preconceituosa das relações humanas que foi gerada por uma compreensão dualista e patriarcal de sexo e gênero pode ser rigorosamente posta à prova. ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ All of us admit that justice and human rights are most critical and not idealistic. School is the first place where students can experience and learn about justice and human rights. There the biased understanding of human relationships that has been engendered by a dualistic and patriarchal understanding of sex and gender can be severely challenged. Justiça e direitos humanos são coisas muito críticas e não idealísticas 3. O que deveríamos ensinar em nossas salas de aula 3. What We Should Teach in Our Classrooms Linkage between Personal Ethics and Social Ethics Ligação entre Ética Pessoal e Ética Social As estruturas de violência que constituem o sistema de guerra estão tão entranhadas no sistema de valores de cada indivíduo quanto nas estruturas sociais ou políticas. A questão mais importante aqui é o desafio para determinar a ética das relações humanas própria de cada pessoa e por ela praticada em seu convívio com os outros. Qual deveria ser a nossa metodologia educacional para educar as pessoas de modo que elas não olhem com desprezo a vida que vivem? Como é que tal educação passa a existir, uma educação que contribua na construção de uma tomada de conhecimento de vida vivida para os outros e que gere uma elevação da consciência da importância da vida? Como podemos alimentar em nossos alunos o sentido de relacionalidade e o sentido de comunidade? Em outras palavras, qual o tipo de ética que deveria ser mantido pelas pessoas e sociedades de modo a seguir a justiça sem violar os direitos humanos? Dito de maneira simples, estamos perguntando: “Quem sou eu?” e “Onde estou?” Revista de Educação do Cogeime ○ A questão mais importante aqui é o desafio para determinar a ética das relações humanas Qual o tipo de ética que deveria ser mantido pelas pessoas e sociedades ○ ○ ○ 75 ○ ○ ○ The structures of violence that constitute the war system are as much imbedded in the value system individuals hold as in social or political structures. The most basic question here is the challenge to determine the ethic of human relationships each person has and practices in her/his living with others. What should our methodology of education be to nurture individuals so that they will not look down upon any life she/he lives with? How does such an education come into existence? One which contributes an awareness-building of life lived for others and engenders consciousness raising of the importance of life. How can we nurture in our students the sense of relatedness and the sense of community? In other words, what kind of ethics should individuals or societies hold so that justice is pursued and human rights are not violated. In simple words, we are asking “Who am I?” and “Where am I?” A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ Três elementos-chave Three Key Concepts Vamos usar os três conceitos-chave para pensar nas questões que declarei acima: (1) autonomia, (2) relacionamento e (3) assistência. Referir-me-ei primeiro a Kant e a Sartre e depois acrescentarei meu próprio ponto de vista. (Devo muito a parte sobre Kant e Sartre a Margaret A. Farley, em “A Feminist Version of Respect for Persons” [“Uma Versão Feminista do Respeito pelas Pessoas”], Journal of Feminist Studies in Religion Religion. 1993, Vol. 9, pp. 183-198.) Let’s think about the questions I stated above using the three key concepts: (1) autonomy, (2) relationship and (3) caringness. First I will refer to Kant and Sartre and then add my own view. (I owe much on the part of Kant and Sartre to Margaret A. Farley, “A Feminist Version of Respect for Persons,” Journal of Feminist Studies in Religion . 1993 Vol.9 pp.183-198.) O caso de Kant – Os principais meios educacionais: razão para a autonomia Case of Kant—Main Educational Means: Reason for Autonomy Immanuel Kant (1724-1804) mostrou que a pessoa como indivíduo é um fim em si mesma, e não um meio. A pessoa que é um fim como indivíduo é capaz de viver em relacionalidade com a liberdade a ela concedida como um fim em si. Ao praticar a autodeterminação, ela ganha autonomia, que também a torna capaz de reconhecer os outros como pessoas realmente de valor. Quando uma pessoa concebe os outros como tendo um “valor não condicionado e incomparável”, há uma relacionalidade que nasce naturalmente. De acordo com Kant, é a “razão” que guia a pessoa desse modo. Diz ele: “A Razão faz as suas próprias leis”, vendo nisso a base a dignidade humana. Porém sua idéia parece mais preocupada com a pessoa em si, no sentido absoluto e abstrato. Portanto, preocupa-se pouco com os aspectos sociais ou históricos. Ele não responde à pergunta sobre como evitar relações de dominação e subordinação, a lógica de exclusividade e a produção dos “outros”. Não se preocupa muito com o perigo Revista de Educação do Cogeime Ele não responde à pergunta sobre como evitar relações de dominação e subordinação ○ ○ ○ 76 ○ ○ ○ Immanuel Kant (1724-1804) indicated that a person as an individual is an end in itself and not a means. A person who is an end as an individual is able to live in relationality with the freedom that is granted to her/him as an end itself. By practicing self-determination she/he gains autonomy, which also makes her/him able to recognize others as absolutely valuable. When a person conceives of others as having “unconditioned and incomparable worth,” there is a naturally born relationality. According to Kant, it is “reason” that guides a person that way. He says, “Reason legislates itself” and he sees the basis of human dignity there. But his idea seems most concerned with the self in its absolute and abstract sense. Therefore it is little concerned with social or historical aspects. He does not answer the question of how to avoid relationships of domination and subordination, the logic of exclusiveness and the production of “others.” He is not much concerned about the A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ de discriminação dos outros contra o ser individual absoluto da pessoa. danger of discrimination of others against her/his own absolute self. O caso de Sartre – Os principais meios educacionais: consciência para a relacionalidade Case of Sartre—Main Educational Means: Consciousness for Relationality Jean-Paul Sartre (1905-1980) chama mais a atenção para a condição de distinção de cada pessoa. De acordo com ele, cada um tem um sistema diferente de significado e de fins. Já que cada pessoa é diferente das outras, torna-se decisivo para ela encontrar outras pessoas. Passar por diversos encontros ajuda a pessoa a desenvolver a própria autonomia. Assim, ao vivenciar como difere dos outros em relacionalidade, ou os conflitos entre outras pessoas, ela aprenderá a relativizar a si mesma. É somente então que a pessoa pode reconhecer-se como indivíduo, ganhando desse modo sua autonomia. Para Sartre, a autonomia é um aspecto do caráter humano que só pode ser dominado quando se vivenciam os relacionamentos com os outros. Para esse processo, a “consciência”, e não a “razão”, desempenha um papel importante. O que achamos que falta na idéia de Sartre é que enquanto as outras pessoas existirem como um meio para que uma pessoa alcance sua autonomia, será muito difícil, ou quase impossível, compreender a relacionalidade em que todas as pessoas possam relacionar-se umas com as outras com igualdade. Sartre chama mais a atenção para a condição de distinção de cada pessoa ParaSartre,a autonomia é um aspecto do caráter humano Jean-Paul Sartre (1905-80) draws more attention to the distinctness of each person. According to him, each person has a different system of meaning and ends. Since each person is different from others, it becomes decisive for the person to encounter other persons. Going through various encounters helps the person develop her/his autonomy. Thus experiencing her/his differences from others in relationality, or conflicts between other persons, she/he will learn to relativise her/himself. It is only then that a person can recognize her/himself as a subject and thus gain her/his autonomy. For Sartre, autonomy is an aspect of human character to be mastered only through experiencing relationships with others. For this process, “consciousness,” not “reason,” plays an important role. What we find missing in Sartre’s idea is that as long as other persons exist as a means for a person to gain her/his autonomy, it will be very difficult or almost impossible to realize the relationality in which all persons can relate to each other on an equal basis. O que falta nos dois casos What is Missing in the Two Cases Tanto para Kant quanto para Sartre, a autonomia e a relacionalidade são muito importantes para o crescimento e a vida das pessoas como indivíduos nas sociedades. É verdade que a autonomia e a relacionalidade estão profundamente relacionadas às nossas per- For both Kant and Sartre, autonomy and relationality are very important for persons to grow and live as subjects in societies. It is true that autonomy and relationality are deeply related to our present questions: Who am I ? and Revista de Educação do Cogeime A autonomia e a relacionalidade são muito importantes para o crescimento e a vida das pessoas ○ ○ ○ 77 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ guntas do momento: “Quem sou eu?” e “Onde estou?” Podem esses dois conceitos serem a chave para se responder a essas perguntas? É o principal aspecto da natureza humana – a razão para Kant e a consciência para Sartre – que apóia as pessoas quando elas alimentam autonomia e relacionalidade suficientes, quando buscamos realizar a justiça entre as pessoas, justiça que forneça uma base igualitária para cada pessoa quando ela busca sua conexão ou pertencimento. A razão ou o conhecimento, ou tanto uma quanto o outro, podem funcionar melhor se focalizarmos a atenção somente no fato de uma pessoa se tornar um indivíduo. Mas a pessoa pode não ser capaz de aprender o que significa con-viver no mundo e co-criar um novo mundo com esse foco limitado. Where am I? Can these two concepts be the key to answering the questions? Is the main aspect of human nature— for Kant, reason and for Sartre, consciousness— that supports persons when they nurture autonomy and relationality enough when we seek to realize justice among persons? Justice that supplies an equal basis for every person as she/he seeks for her/his connection or belonging. Either reason or consciousness, or both reason and consciousness may function best if we focus our attention only on a person becoming a subject. But the person may not be able to learn what it means to co-live in the world or co-create a new world with this limited focus. Minha sugestão para unir os dois casos: a vontade de comprometimento: prestar assistência aos outros My Suggestion to Link the Two Cases— Will to Commit: Caring for Others O que mais é necessário para encontrar justiça entre nossos relacionamentos e no mundo? Além da razão e da consciência, precisamos alimentar a “vontade”. Especialmente a “vontade de comprometimento”, que tem força para fazer com que as duas outras características, razão e consciência, funcionem de maneira prática, orgânica e dinâmica. Devemos explicar com que é que comprometemos nossa vontade. Parece-me que o elemento básico da “vontade de comprometimento” é encontrada nas palavras “prestar assistência aos outros”. Prestar assistência aos outros, lamento dizê-lo, não é, não obstante, uma coisa natural para os seres humanos. Requer a vontade de comprometimento. Requer a vontade de escolher Revista de Educação do Cogeime Prestar assistência aos outros não é uma coisa natural para os seres humanos ○ ○ ○ 78 ○ ○ ○ What else is necessary to find justice among our relationships and in the world? I suggest, in addition to reason and consciousness, we need to nurture “will.” Especially the “will to commit” which is powerful in letting the other two characteristics, reason and consciousness, function practically, organically and dynamically. We must explain to what we commit our will. It seems to me the basic element of the “will to commit” is found in the words “caring for others.” Caring for others, I regret to say, is not something natural for human beings, though. It asks for the will of commitment. It asks for the will to choose this commitment despite other desires or possibilities. A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ esse comprometimento apesar de outros desejos ou atividades. Só podemos fazer uma alegação tão forte assim quando formos capazes de ver que a idéia do direito ontológico humano nunca deveria ser ignorada. O direito ontológico humano pode ser explicado de maneira semelhante como sendo cada um de nós criado pela vontade divina. Ninguém pode negar esse direito básico. A vontade é necessária para se reconhecer que cada pessoa tem sua própria vida e, portanto, zelar pela própria vida como insubstituível tornase indispensável e com isso vem o conhecimento de que também devemos zelar pela vida dos outros. Alimentar esse tipo de vontade de comprometimento deveria ter precedência em nossos programas educacionais e aparecer em todas as fases das atividades de classe. A vontade é necessária para se reconhecer que cada pessoa tem sua própria vida ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ We can make such a strong claim only when we are able to see that the idea of the ontological human right should never be ignored. The ontological human right can be explained in a similar manner as each of us being created by the divine will. Nobody has the right to deny this basic right. It needs the will to acknowledge every person has her/his own life, and therefore to care for her/his own life as irreplaceable becomes a must and with that comes the knowledge that the lives of others must be cared for as well. To nurture this kind of will of commitment should take precedence in our education programs and should appear in all phases of classroom activities. 4. What is Education: A Process to Learn to Put Priority over Life 4. O que é a educação: um processo para aprender a situar a prioridade acima da vida Se os três pilares – razão, consciência e desejo de comprometimento para cuidar dos outros – puderem trabalhar juntos para a pessoa se conhecer e tomar conhecimento dos outros, além de autonomia e relacionalidade haverá justiça entre as pessoas. Essa prioridade sobre a vida resultará na limitação da liberdade de escolha e na liberdade de desejo que a pessoa possa ter. Uma ética de zelar pelos outros é o laço que existe entre os relacionamentos e a responsabilidade. Se se perder a conexão entre eles, gera-se a agressão. Precisamos continuar fazendo a pergunta fundamental: por quanto tempo seremos capazes da tolerar tanto sofrimento humano? Precisamos sempre nos transformar e pro- Revista de Educação do Cogeime ○ If the three pillars of “reason,” “consciousness,” and “will to commit to caring for others” may work together to know oneself and to acknowledge others, there will be justice among persons in addition to autonomy and relationality. This priority over life will result in limiting the freedom of choice and freedom of desire one person may have. An ethic of caring for others is the tie between relationships and responsibility. If the connection among them is lost, aggression is engendered. We need to keep asking the fundamental question how long we can tolerate so much human suffering. We need to keep transforming ourselves and seeking better forms of action for transforming Por quanto tempo seremos capazes da tolerar tanto sofrimento humano? ○ ○ ○ 79 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1 ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ curar formas melhores de ação para transformar nossos relacionamentos com os outros e a nossa sociedade. Diz Betty A. Reardon em Sexism and the War System [O Sexismo e o Sistema da Guerra] (New York, Syracuse University Press, 1996): “A maturidade é, em última análise, a capacidade de transformar e produzir nova vida. A transformação é o processo contínuo pelo qual os seres humanos exercitam a escolha, alteram a realidade e encontram um significado” (p. 97). Somos desafiados a escolher a vida como a nossa mais urgente e importante obrigação. Concordo plenamente com ela quando diz mais adiante: “As instituições sociais e políticas certamente têm de ser mudadas radicalmente, porém, o que é mais significativo, da mesma forma deveriam mudar as relações humanas, tanto as sociais como as pessoais.” (Reardon, p. 83f.) A educação é um processo para alimentar a consciência que nos faz ver a realidade como ela é. A educação é um processo para usarmos nossa razão de modo a podermos distinguir a justiça da injustiça no mundo em que vivemos e nos disciplinarmos de modo que possamos comprometer-nos a zelar pelos outros. Em outras palavras, a educação é uma práxis para receber visões, para lutar em direção a essas visões e transformar a nós mesmos. Encerro este artigo com uma citação das palavras registradas em Deuteronômio 30:19, da Bíblia hebraica, as palavras registradas como pronunciadas por Deus: ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ As instituições sociais e políticas certamente têm de ser mudadas radicalmente A educação é um processo para alimentar a consciência “Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição: escolhe, pois, a vida para vivas, tu e a tua descendência.” (Deuteronômio 30:19). Revista de Educação do Cogeime ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ ○ our relationships with others and our societies. Betty A. Reardon says in her Sexism and the War System (New York: Syracuse University Press, 1996), ”Maturity is, in the last analysis, the capacity to transform, and to bring forth new life. Transformation is the continuous process by which human beings exercise choice, change reality, and find meaning”(p.97). We are challenged to choose life as our most urgent and important obligation. I fully agree with her when she further says, “Social and political institutions certainly would have to be changed radically, but, more significantly, so too would human relations, both social and personal.”(Reardon, p.83f.) Education is a process to nurture a consciousness that makes us see reality as it is. Education is a process to use our reason so that we may distinguish justice from injustice in the world in which we live and to discipline ourselves so that we may will to commit ourselves to caring for others. In other words, education is a praxis to draw visions, to strive toward those visions, and to transform ourselves. I conclude my speech with a quotation from the words recorded in Deuteronomy 30:19 of the Hebrew Bible, the words recorded as stated by God. “I call heaven and earth to witness against you today that I have set before you life and death, blessings and curses. Choose life so that you and your descendants may live” (Deuteronomy 30:19). ○ ○ ○ 80 ○ ○ ○ A n o 10 - n 0 1 9 - Dezembro / 2 0 0 1