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2001
IAMSCU
Conference
Justiça, gênero e direitos humanos
Justice, gender, and human rights
Hisako Kinukawa
Doutora pelo San Francisco Theological Seminary
Co-diretora do Centro para Teologia e Ministério Feminista no Japão
R e s u m o
Apresentando relatos de mulheres que se tornaram escravas sexuais, este texto mostra a questão da discriminação contra as
mulheres, tendo por base a experiência vivida pela autora na Ásia em pesquisa e acompanhamento de casos. Ela considera
as guerras como principal fator para a ocorrência de violência sexual, crimes contra a mulher e desvalorização do gênero.
Unitermos: justiça; violência; guerras; direitos
Synopsis
Presenting reports of women that became sexual slaves, this text approaches the discrimination against women, based
on the experience lived by the author in Asia, during her research and case study. She understands that wars are the main
factor for the occurrence of sexual violence, crimes against women and gender depreciation.
Terms: justice; violence; wars; rights
Resumen
Presentando narrativas de mujeres que se tornaron esclavas sexuales, esto texto muestra la cuestión de la discriminación
contra las mujeres, teniendo como base la experiencia vivida por la autora en Asia en investigación y acompañamiento
de casos. Ella considera las guerras como el principal factor de la ocurrencia de violencia sexual, crímenes contra la
mujer y desvalorización del género.
Términos: Justicia; violencia; guerras; derechos
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The Most Neglected
Agenda—Gender
Issues
1. Os clamores pela vida
são clamores por justiça
1. Cries for Life are Cries
for Justice
s assuntos relacionados aos três
temas de justiça, gênero e direitos humanos estão ligados e inter-relacionados de formas intrincadas.
Gostaria de lidar com eles tendo por
base o que já vivi, observei e analisei
como uma mulher japonesa que vive
na Ásia de hoje. Primeiramente, convido-os a escutar os clamores que estão buscando vida e justiça.
ssues related to the three themes
of justice, gender and human
rights are linked together and
interrelated in intricate ways. I would
like to deal with them based on what
I have experienced, observed and
analyzed as a Japanese woman living
in the contemporary Asia. First, I
invite you to listen to the cries that
are seeking for life, and justice.
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O
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I - Os mais negligenciados assuntos ligados
à questão de gênero
Os clamores esquecidos das
“Comfort Women” 1
I
Forgotten Cries of “Comfort
Women”
Os clamores que se seguem são
para restaurar os direitos humanos
e a dignidade de que muitas foram
roubadas e têm sido privadas por
mais de cinqüenta anos.
These are the cries for seeking
the retrieval of the human rights and
dignity which were plundered and
have been deprived for more than
fifty years.
Os clamores que se
seguem são para
restaurar os direitos
humanos
Disse ele: “Vamos nos divertir um
pouquinho”, mas eu só tinha 12 anos e
não sabia o que é que significava ‘vamos nos divertir’”. Kim Young Suk, Coréia
He said “Let’s have some fun” but I
was only 12 years old and did not
know what “Let’s have fun” meant.
Kim Young Suk, Korea
“Eu era virgem. Fui estuprada por dez
homens”. Suhanah, Indonésia
“I was a virgin. Ten men raped me.”
Suhanah, Indonesia
“Pensei que seria melhor morrer do
que viver. Mas éramos tão jovens que
nem sabíamos como morrer” . Kim
Bok Dong, Coréia.
“I thought it would be better to die
than live. But we were so young we
didn’t know how to die.” Kim Bok
Dong, Korea
Estas vozes foram erguidas pelas
assim chamadas sobreviventes das
comfort women no Tribunal Interna-
These voices were raised by the
so-called ‘comfort women’ survivors at the Women’s International
1
Mulheres dos países invadidos, forçadas a se prostituir para atender aos exércitos japoneses durante a guerra. Veja maiores
explicações mais adiante no texto – N.T
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cional das Mulheres para Crimes de
Guerra Ano 2000. Esse tribunal popular foi realizado em Tóquio de 7 a 12
de dezembro do ano 2000, tendo sido
organizado após dois anos de preparação pelo Comitê Consultivo da
VAWW-NET Japan (Violence Against
Women in War Network – Rede da Violência Contra Mulheres na Guerra)
e por organizações asiáticas de mulheres e de direitos humanos, com o
apoio de muitas ONGs de todo o mundo. Eis mais alguns testemunhos:
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War Crimes Tribunal 2000. This
people’s tribunal was held in Tokyo on December 7-12, 2000 organized after two years of preparation by VAWW-NET Japan(Violence
Against Women in War Network),
International Advisory Committee,
and Asian women and human
rights organizations, supported by
many NGOs throughout the world.
Here are some more witnesses.
“ I was given a Japanese name,
Masako, which was written on the
name plate of the door. Japanese
soldiers lined up in front of the door
waiting for their turn. I want Japan to
ask for forgiveness. I ask the Japanese
government to apologize and redress
us.” Yuan Zhulin, China
“Deram-me um nome japonês,
Masako, que foi escrito na placa da porta. Os soldados japoneses faziam fila
em frente à porta esperando a vez. Eu
quero que o Japão peça perdão. Eu
peço que o governo japonês se retrate
e nos desagrave.” Yuan Zhulin, China
“Justice abandoned us. I could only
cry when I was coerced to follow
Japanese soldiers. I seek for justice.”
Maxim Ragala dela Cruz and others,
Philippines
“A justiça nos abandonou. Pude apenas chorar quando fui forçada a acompanhar os soldados japoneses. Procuro justiça.” Maxim Ragala dela Cruz
e outras, Filipinas.
A maioria das sobreviventes está
hoje na faixa dos setenta anos e tem
consciência de que seus dias na terra
estão contados. Esta é uma razão pela
qual elas começaram a erguer as vozes em público. As expressões comfort
women e comfort station2 , cunhadas
pelos militares japoneses e comumente usadas, ocultam a atrocidade
e o vulto do que era realmente feito
às mulheres. As expressões deveriam
ser ”escravas sexuais” e “centros de
estupro” (cf. Indiciamento e Aplicação
da Lei, Referentes à Responsabilidade do Japão pelo Conselho Coreano
Esta é uma razão pela
qual elas começaram
a erguer as vozes em
público
Most of the survivors are now in
their 70’s and are aware that their
days on the earth are numbered.
This is one reason they began raising their voices in public. The terms
“comfort women” and “comfort stations” coined by the Japanese military and commonly used, conceal
the atrocity and the magnitude of
what was actually done to the
women. The phrases should be
“sexual slaves” and “rape centers.”
(cf. Indictment and Application Concerning State Responsibility of the
Government of Japan by Korean
Council for the Women Drafted for
2
Comfort station é um eufemismo usado hoje para banheiro público, donde se conclui o sentido mais degradante de comfort
women – N.T.
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para as Mulheres Arrastadas à Escravidão Sexual Militar pelo Japão, p. 1).
No tribunal, apropriadamente chamado Julgamento da Escravidão Sexual
Militar Japonesa, havia 64 sobreviventes presentes, representando nove
países: Timor Leste, Indonésia, Japão,
Malásia, Holanda, Coréia do Norte e
do Sul (juntamente), República Popular da China, Filipinas e Taiwan.
Military Sexual Slavery by Japan. p.
1) At the Tribunal, aptly named the
Trial of Japanese Military Sexual
Slavery, there were 64 survivors
present representing 9 countries,
East Timor, Indonesia, Japan, Malaysia, the Netherlands, North and
South Korea (jointly), the People’s
Republic of China, the Philippines,
and Taiwan.
Quebrando o silêncio
Breaking the Silence
Foi somente há dez anos que algumas mulheres asiáticas começaram a
quebrar quase cinco décadas de doloroso silêncio, ousando falar sobre o
tempo irrecuperável de sua juventude
que estava escondido no mais profundo de seus corações. As vozes foram
reunidas com o apoio e a ajuda oferecidos por muitas mulheres e homens
na Ásia e no Japão. A ação avolumouse em uma grande onda para exigir um
pedido de desculpas e compensação
pelas atrocidades cometidas durante
a Guerra nas décadas de 30 e 40 na região do Pacífico asiático.
Sua coragem inspirou outras centenas de sobreviventes de toda a região
do Pacífico asiático a falar abertamente. Juntas, elas despertaram o mundo
para o horror da institucionalização
militar japonesa do estupro, escravidão
sexual, tráfico, tortura e outras formas
de violência sexual infligidas a um mínimo estimado de 200.000 meninas e mulheres. (cf. Resumo das Descobertas
feitas pelas juízas Gabrielle Kirk Mc
Donald, Carmen Argibay, Christine
Chinkin e Willy Mutunga, 1). O Tribunal
tinha diversos objetivos: 1) Processou
o Imperador Hirohito, oficiais de alto
escalão das forças armadas e do governo do Japão de forma que o círculo vicioso da impunidade pudesse ter um
Only 10 years ago a few Asian
women began to break almost five
decades of painful silence and dared
to speak about the unrecoverable
time of their youth which was hidden deep in the bottom of their
hearts. The voices were gathered
together with support and help offered by many women and men in
Asia and in Japan. The action
swelled into one big wave to demand an apology and compensation
for the atrocities executed during the
War in the 1930s and 1940s in the
Asia Pacific region.
Their courage inspired hundreds
more survivors throughout the Asia
Pacific region to speak out. Together,
they have awakened the world to the
horror of the Japanese military’s institutionalization of rape, sexual slavery, trafficking, torture and other
forms of sexual violence inflicted
upon an estimated minimum of
200,000 girls and women. (cf. Summary of Findings by Judges Gabrielle
Kirk McDonald, Carmen Argibay,
Christine Chinkin, and Willy
Mutunga, 1). The tribunal had several objectives. 1) It prosecuted Emperor Hirohito, high-ranking officers
in the military and the government
of Japan so that the vicious cycle of
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Elas despertaram o
mundo para o horror
da institucionalização
militar japonesa do
estupro
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fim, embora todos os indivíduos que foram processados, incluindo o Imperador Hirohito, já tivessem falecido; 2) O
processo é necessário para que a dignidade e os direitos humanos dessas
mulheres possam ser restaurados; 3) O
governo do Japão deveria dar-se conta
da responsabilidade que tem de desculpar-se e dar uma compensação a elas;
4) O objetivo último é evitar a guerra
em si e a violência contra as mulheres.
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O objetivo último é
evitar a guerra em si e
a violência contra as
mulheres
Como eu me envolvi
A primeira vez que tive a oportunidade chocante de ouvir em primeira
mão os testemunhos dados pelas sobreviventes foi na Audiência Pública Internacional realizada em Tóquio em
1992. É sempre sufocante estar em uma
sala de audiências ouvindo suas experiências. Foi ainda mais pelas sobreviventes que ousaram relembrar,
recontar e reviver as atrocidades feitas a seus corpos e mentes. Algumas
desmaiaram após ou mesmo durante
seus depoimentos. Jan Ruff-O’Herne,
uma holandesa, deu seu testemunho
entre outras mulheres asiáticas. Foi a
primeira vez que ela veio a público
contar sua história. Ela nasceu na
Indonésia, colônia da Holanda, sua
pátria-mãe, e foi levada a um centro de
escravidão por dois meses. A única
forma que encontrou para manter sua
dignidade foi agarrando-se à fé cristã
que sua mãe lhe ensinara. Por causa
de sua fé, ela ousava contar aos soldados que a estupravam que era contra
a vontade que estava ali. Fiquei profundamente comovida com seu testemunho e senti-me compelida a participar
das atividades que exigiam que nosso
governo reconhecesse sua culpa, se
retratasse e desse uma compensação
àquelas mulheres.
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A única forma que
encontrou para manter
sua dignidade foi
agarrando-se à fé cristã
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impunity would end, though all the
individuals including Emperor
Hirohito who were prosecuted are
dead. 2) The process is necessary
so that these women’s dignity and
human rights might be restored. 3)
The government of Japan might realize its responsibility to apologize
and compensate them. 4) The ultimate aim is to prevent war itself and
violence against women.
How I Became Involved
The first time I had the shocking opportunity to listen to the firsthand testimonies given by the survivors was at the International
Public Hearing held in Tokyo back
in 1992. It is always suffocating to
sit in the hall listening to their experiences. It was even more so for
the survivors who dared to re-member, re-tell and re-experience the
atrocities done to their bodies and
minds. Some survivors passed out
after or during their testimonies.
Jan Ruff-O’ Herne, a Dutch woman,
gave her testimony among other
Asian women. It was her first time
to come out and tell the story. She
was born in Indonesia a colony of
her mother country Holland, and
was taken to a slavery center for 2
months. The only way she could
keep her dignity was by clinging to
the Christian faith her mother had
taught her. Because of her faith, she
dared to tell the soldiers who raped
her that it was against her will to
be there. I was deeply touched by
her testimony and felt pushed to
participate in the activities demanding our government to acknowledge their guilt, apologize
and compensate these women.
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Elas foram vítimas dos soldados
sob a política colonizadora do Japão,
mas deve-se ter o cuidado de notar
que foram escravizadas sexualmente porque eram mulheres. Não devemos passar por alto o fato de que se
tratava de um crime específico de
gênero e legitimado pelo Estado.
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Deve-se ter o cuidado
de notar que foram
escravizadas
sexualmente porque
eram mulheres
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These women were the victims
of the military under the colonizing
policy of Japan, but it must be carefully noted that they were sexually
enslaved because they were women.
We must not overlook that the crime
was gender specific and it was legitimized by the state.
Suas horrendas experiências
Their Horrendous Experiences
Durante a guerra, elas viveram em
condições subumanas, incluindo alimentação inadequada, falta de água,
de facilidades higiênicas e de ventilação. (cf. Resumo de descobertas, 21).
No fim da guerra, foram abandonadas pelos militares. Muitas se suicidaram e muitas não retornaram às
suas cidades natais por medo de serem rejeitadas pelas próprias famílias e pela sociedade. Até pouco tempo, a maioria destas mulheres estava
destinada, de acordo com os ensinos
confucionistas, a uma vida de vergonha, isolamento, pobreza e sofrimento implacável.
During the war they suffered inhumane conditions, including inadequate food, water, hygienic facilities, and lack of ventilation. (cf.
Summary of Findings, 21)
At the end of the war they were
abandoned by the military. Many
committed suicide and many did
not go back to their home towns as
they were afraid they would be rejected by their own families and
societies. Until recently most of
these women were consigned to a
life of shame under Confucian
teaching, isolation, poverty and relentless suffering.
2. Como a Justiça pode
ser recuperada
2. How Justice Can be
Recovered
Nenhum dos acusados pelo Tribunal 2000 enfrentou as acusações do
Tribunal Militar Internacional para o
Extremo Oriente (o tribunal original de
Tóquio), que foi de abril de 1946 a novembro de 1948. Deu-se muito pouca
atenção, naquela primeira ocasião, aos
casos de escravidão sexual e a outros
crimes que envolviam violência sexual contra mulheres, embora houvesse
evidências claras de tais crimes.
O Tribunal Tóquio 2000 decidiu
aplicar a lei que podia então ser aplicada, julgar os acusados e aceitar
None of those accused by Tribunal 2000 faced charges at the International Military Tribunal for
the Far East (the original Tokyo
Tribunal), which was held between April 1946 and November
1948. Very little attention was then
paid to cases of sexual slavery and
other crimes involving sexual violence against women, despite the
fact that there was clear evidence
of such crime.
The Tokyo Tribunal 2000 chose to
apply the then applicable law, ad-
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Deu-se muito pouca
atenção aos casos de
escravidão sexual
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como estabelecidas as descobertas
legais, concretas e pertinentes do Tribunal original de Tóquio. Seu poder
reside na capacidade que tem para
examinar as evidências e desenvolver
um registro histórico permanente, com
a esperança e a expectativa de que tais
atrocidades nunca tornem a acontecer,
especialmente a tendência histórica de
trivializar, desculpar, marginalizar e
encobrir os crimes contra a mulher, especialmente os crimes sexuais (cf. Resumo de Descobertas, 4-6)
judge the accused, and accept as established the relevant legal and factual findings of the original Tokyo Tribunal. Its power lay in its capacity to
examine the evidence and develop an
enduring historical record, with the
hope and expectation that such atrocities will never happen again, especially the historic tendency to
trivialize, excuse, marginalize and
obfuscate crimes against women, particularly sexual crimes (cf. Summary
of Findings, 4-6).
3. O que vemos – Relação
próxima entre Preconceito
de Gênero e Impunidade
3. What We See—Close
Relationship between
Gender Bias and Impunity
Após a Segunda Guerra Mundial, o
Japão assinou uma série de tratados,
mas as mulheres, tanto como pessoas
quanto como grupo, não tiveram voz
ou status equiparáveis aos dos homens
na época da conclusão dos tratados de
paz. Como resultado, as questões de
escravidão sexual militar e de estupro
não foram abordadas. A negligência ou
indiferença quanto ao gênero em processos internacionais de paz podem
ter contribuído para a continuação da
cultura de impunidade por crimes perpetrados contra as mulheres em conflitos armados na Ásia e em outras partes do mundo (cf. Resumo de
Descobertas, 29-30)
After the Second World War, Japan signed a number of treaties,
but women, either as individuals
or as a group, did not have an
equal voice or equal status to men
at the time of the conclusion of the
Peace Treaties. As a result, the
issues of military sexual slavery
and rape were left unaddressed.
Gender negligence or indifference
in international peace processes
may have contributed to the continuing culture of impunity for
crimes perpetrated against women
in armed conflicts in Asia and
other parts of the world. (cf. Summary of Findings, 29-30)
4. Esquecer o passado?
Audiência Pública sobre
Crimes contra as Mulheres
em Guerras e Conflitos
Recentes
4. Forget about the
Past?—Public Hearing
on Crimes Against
Women in Recent Wars
and Conflicts
As vozes corajosas
destas sobreviventes
ecoaram por todo o
mundo
Como as vozes corajosas destas
sobreviventes das “confort women”
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As the courageous voices of
these “comfort women” survivors
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em busca de justiça ecoaram por
todo o mundo, surgiu um movimento maior pelos direitos humanos das
mulheres para dar fim à impunidade
relativa a tais crimes e para repudiar
a noção de que o abuso sexual de
mulheres é uma conseqüência inevitável das guerras e conflitos.
Durante os seis dias do Tribunal
2000 de Tóquio, um dia foi dedicado
a ouvir as vozes de mulheres de 14
países de todo o mundo que haviam
sido vítimas de estupro, escravidão
sexual, assassinato, tortura, desalojamento, casamentos forçados, gravidez forçada, esterilização, purificação
racial e genocídio. Este foi o clamor
por justiça, por tais coisas lhes terem
acontecido por serem mulheres e civis. O encontro foi patrocinado por
uma ONG, o Women’s Caucus for
Gender Justice (Comitê Feminino das
Mulheres para Justiça de Gênero),
cujo escritório principal situa-se em
Nova York. A sala de audiência encheu-se de mais de mil participantes.
Como todos sabemos, uma característica distintiva das guerras e conflitos atuais é um envolvimento cada
vez menor de dois exércitos regulares
de duas nações, e o envolvimento cada
vez maior de atores políticos, sempre
alvejando a população civil como uma
arma de guerra (cf. Marieme Helie
Lucus, “Introdução”, A Compilation of
Testimonies [Compilação de Testemunhos], p.3, Nova York, International
Women’s Caucus
Caucus, 2000).
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Este foi o clamor por
justiça, por tais coisas
lhes terem acontecido
por serem mulheres e
civis
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to seek justice have echoed all
through the world, a larger movement for women’s human rights
emerged to end impunity for such
crimes and to repudiate the notion
that sexual abuse of women is an
inevitable consequence of war
and conflicts.
During the six day Tokyo Tribunal 2000, one day was dedicated to
listening to the voices of women
from 14 countries who were victimized in the contemporary wars and
conflicts all over the world. They
were victimized by rape, sexual slavery, murder, torture, displacement,
forced marriages, forced pregnancies, sterilizations, ethnic cleansing,
and genocide. These were the cries
for justice which was infringed because they were women and civilian population. The meeting was
sponsored by an NGO group, the
Women’ Caucus for Gender Justice
which has its main office in New
York. The hall was filled with more
than 1000 in attendance.
As we all know, one distinctive
characteristic of present day wars
and conflicts is less and less involvement of two regular armies
of two nations, but more of nonstate actors that often target the
civilian population as a weapon
of war (cf. Marieme Helie Lucus,
“Introduction,” A Compilation of
Testimonies, p. 3 NY: International
Women’s Caucus, 2000).
Agora ouçamos a um dos depoimentos que foi dado, por uma mulher
de Okinawa, Japão, por trás de um
biombo:
Now let’s listen to one of the testimonies that was given behind a
screen set on the stage by a woman
from Okinawa, Japan.
“Foi em 1984, quando eu tinha apenas 17 anos e estava no primeiro ano
“It was in 1984, when I was a junior
in high school and only 17 years of
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do ensino médio, que me tornei uma
das vítimas da violência dos militares da base americana em Okinawa.
Agarraram-me por trás e alguém me
encostou uma faca, cochichando no
meu ouvido: ‘eu posso te matar’... Levaram-me para um parque nas redondezas e três homens me estupraram.
Fiquei olhando para as folhas acima
de mim, enquanto ouvia uma voz em
minha cabeça dizer: ‘Está feito. Eles
vão me matar’. Fiquei pensando nisso, desejando que me matassem naquele instante mesmo. Tinha vontade de morder minha língua para poder sangrar até a morte. Mas eu estava tremendo, e não conseguia dizer
uma única palavra, nem gritar. Depois
de me estuprarem, eles se viraram
para mim com um grande sorriso e
enfiaram uma caneta no meu corpo.
Então, me largaram no parque.
Em 1995, cerca de dez anos depois, quando soube pela TV que uma menina de
12 anos havia sido estuprada por três
militares americanos, foi impossível não
chorar horas seguidas... Creio que chorei mais do que quando eu mesma fui
estuprada. Culpei-me por não ter feito
nada para lidar com o que havia acontecido comigo, e sim ter tentado fugir.”
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age that I became one of the
victims of the violence by the
personnel of the US base in
Okinawa….I was grabbled from the
back and somebody put a knife on
me and whispered into my ears, ‘I
can kill you.’…They took me to a
park near by and three men raped
me. I was looking at the leaves
above me. I heard a voice in my
head saying, ‘This is it. They will
kill me.’ I kept thinking and hoping
that he kills me now. I wanted to
bite my tongue so I can bleed to
death. But I was shivering; I could
not even say a word nor scream.
After they raped me, they grinned
at me and inserted a pen in my
body. Then they abandoned me in
the park.
In 1995, about ten years later, when
I learned on TV the 12-year old girl
was raped by three US military
personnel, I could not help crying for
hours…I think I cried much more
than when I was raped myself. I
blamed myself for having not done
anything to cope with what had
happened to me but instead trying
to escape.”
Concluindo, ela reconheceu sua
responsabilidade como parte do país
vitimizador, dizendo: “Durante a Segunda Guerra, os japoneses invadiram outros países e mataram as pessoas”, e pediu desculpas.
Enquanto ouvíamos as testemunhas, vimos um outro caso na
Indonésia, que foi vítima da invasão
colonial pelos exércitos japoneses, e
tornou-se a perpetradora do mesmo
crime no Timor Leste há bem pouco
tempo.
Uma americana, violentada e maltratada por policiais militares enquanRevista de Educação do Cogeime
○
In conclusion, she acknowledged the responsibility as part of
the victimizing country saying,
“During WWII, we Japanese invaded the other countries in Asia,
and killed the people,” and she
apologized.
As we heard the testimonies, we
saw another case in Indonesia,
which was the victim of the colonial
invasion by the Japanese military
and has become the perpetrator in
East Timor very recently.
A US woman, victimized and
abused by soldiers and policemen
while she was serving in Guate-
Ela reconheceu sua
responsabilidade
como parte do país
vitimizador
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to servia na Guatemala, terminou seu
discurso da seguinte maneira:
mala, closed her speech in the following way.
“Vivendo nos Estados Unidos, sou constantemente violentada de novo porque,
como contribuinte, sou forçada a participar da violência. Quando leio sobre tortura e maus-tratos que, de acordo com a Anistia Internacional, ocorreram em 150 países nos últimos três
anos, não posso deixar de imaginar
quais dessas atrocidades eu financiei”.
“ Living in the United States I am
constantly re-victimized because, as
a tax payer, I am forced to
participate in violence. When I read
torture and ill-treatment that,
according to Amnesty International,
has occurred in 150 countries within
the past three years, I can’t help but
wonder which of those atrocities
I’ve financed”.
Então entendemos que “a barbárie
não é inerente a nenhum povo em especial: é o produto da guerra e de políticas
específicas. A vítima de hoje pode perpetrar um crime amanhã e vice-versa”.
(Compilation of Testimonies, p. 2). Apesar de hoje terem mudado as circunstâncias das guerras e conflitos, “em tempos de guerras e conflitos, os corpos das
mulheres tornam-se parte do campo de
batalha. As mulheres são vistas como
propriedade dos homens do lado oposto
e, desta forma, a violência física, especialmente a sexual, é uma forma tanto de
intimidar as mulheres como cidadãs
como de insultar a ‘masculinidade’ dos
homens de sua nação ou comunidade”
(“Introdução”, Compilation of Testimonies, p. 4). Ruth Seifert descreve tal
situação como “a humilhação simbólica extrema do inimigo masculino” (“War
and Rape,” Women in the Peace
Process: The Difference Women Make
Make.
The Women’s International League for
Peace and Freedom International
Secretariat, [“Guerra e Estupro”, Mulheres no Processo de paz: a Diferença que
as Mulheres Fazem. Secretariado Internacional da Liga Internacional de Mulheres pela Paz e Liberdade], Case
Postale 28, Genebra, p. 21).
A atrocidade que as mulheres sofrem porque são mulheres está
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A barbárie não é
inerente a nenhum
povo em especial
Os corpos das mulheres
tornam-se parte do
campo de batalha
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Thus we learn “Barbarity is not
inherent to any specific people, it
is the product of war and specific
politics. The victim of today may
be the perpetrator of tomorrow
and vice versa.” ( Compilation of
Testimonies , p.2) Even though
circumstances of wars and conflicts today are changed,
“In times of wars and conflicts,
women’s bodies become part of
the territory of the battle. Women
are seen as the property of the
men of the opposing side and
thus, physical and especially
sexual abuse is a way of both intimidating women as citizens and
insulting the ‘manhood’ of the
men of their nation or community.” (“Introduction,” Compilation of Testimonies , p.4) Ruth
Seifert describes such a situation
as “the ultimate symbolic humiliation of the male enemy.”(“War
and Rape,” Women in the Peace
Process: The Difference Women
Make. The Women’s International
League for Peace and Freedom international Secretariat , Case
Postale 28, Geneva p.21)
The atrocity that women experience because we are women is
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indissociavelmente ligada às relações
subordinadas que as mulheres são forçadas a ter com os homens em nossa
vida cotidiana. Tal costume é normalmente encontrado no padrão mundial de estereotipia de gênero que continua a ser presente hoje. As formas
extremas de despersonalização dos
soldados vista em seus comportamentos de atrocidade sexual são uma conseqüência da discriminação de gênero, gerada pelas circunstâncias
anormais de guerras e conflitos. A
questão, então, é: o que nos conduzirá a uma transformação?
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A questão, então, é: o
que nos conduzirá a
uma transformação?
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inseparably connected with the
subordinate relationships women
are made to have with men in our
daily life. Such a mind-set is commonly found in the worldwide pattern of gender stereotyping that
continues to be pervasive today.
The extreme forms of depersonalization of soldiers seen in their
behaviors of sexual atrocity are a
consequence of gender discrimination, elevated by the abnormal circumstances of wars and conflicts.
The question, then, is what will
lead us toward transformation?
5. Alguns Prospectos Esperançosos para o Futuro
5. Some Hopeful Prospect
Toward the Future
Antes de entrar no próximo assunto, deve ser importante notar que
nesta década tem sido feito um certo progresso significativo rumo ao reconhecimento e julgamento dos crimes de violência sexual nos
Tribunais Criminais Internacionais
para a antiga Iugoslávia (1993) e a
Ruanda (1994). No tribunal para a
antiga Iugoslávia, pela primeira vez
na história o estupro foi reconhecido como uma acusação independente de crime contra a humanidade. O
Tribunal 2000 de Tóquio é um outro
passo rumo ao fim do círculo vicioso
da impunidade e à reversão do enorme descaso para com a integridade
corporal e dignidade pessoal, realmente para com a própria condição
humana das mulheres. Um outro fato
notável da história, o Tribunal Penal
Internacional, cujo estatuto foi finalmente adotado em Roma em 1998,
deve ser notado aqui também: 160
países, 31 organizações internacionais, e 139 ONGs se reuniram em
Prior to moving into the next
subject, it may be important to
note that some significant
progress has been made in the
last decade toward recognizing
and prosecuting crimes of sexual
violence in the International
Criminal Tribunals for the former
Yugoslavia (1993) and Rwanda
(1994). At the Tribunal for the
former Yugoslavia, rape was recognized as an independent charge
of crime against humanity for the
first time in the history. The Tokyo Tribunal 2000 is another step
towards ending the vicious cycle
of impunity and reversing the
gross disregard of bodily integrity
and personal dignity, indeed the
very humanity of women. As another remarkable event of history,
the International Criminal Court,
whose statute was finally adopted
in Rome in 1998, should be noted
here, too. 160 countries, 31 international organizations, and 139
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O estupro foi
reconhecido como uma
acusação independente
de crime contra a
humanidade
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Roma, discutiram e formularam os
estatutos de 128 artigos em 13 capítulos, apesar de uma grande objeção
por parte dos EUA e da China e outros mais (120 a favor, 7 contra, 21
abstenções). Este Tribunal deve ser
um tribunal permanente pela justiça
em crimes de guerra, crimes contra
a humanidade e genocídio. Os membros da International Women’s Caucus
trabalharam bastante, conseguindo
fazer do estatuto o primeiro documento internacional que se comprometia legalmente a especificar que
estupro, escravidão sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada e outras formas de
violação sexual são crimes contra a
humanidade. O Tribunal, a ser localizado em Haia, entretanto, não será
estabelecido até que o estatuto seja
ratificado por sessenta nações. No
final do ano 2000, 120 nações haviam-no assinado, mas apenas 22 o
haviam ratificado. O Japão ainda não
assinou. Os Estados Unidos assinaram em 31 de dezembro de 2000. O
estatuto deixa claro que os crimes
cometidos no passado não estarão
cobertos por sua jurisdição, porém
há uma grande esperança de que o
círculo vicioso da impunidade seja
reduzido quando o Tribunal estiver
inteiramente estabelecido.
Estou bem consciente de que a violência contra as mulheres não é causada por um fator único, mas que há uma
grande quantidade de causas a serem
consideradas, tais como a globalização
dos processos econômicos e políticos
e as formas de opressão baseadas em
raça, classe, etnia, religião, ideologia, nacionalidade, orientação sexual, idade,
gênero, etc., sendo que os limites deste
artigo não permitem lidar com o assunto por completo.
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Este Tribunal deve ser
um tribunal
permanente pela
justiça
A violência contra as
mulheres não é causada
por um fator único
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NGO’s gathered in Rome, discussed and decided the statutes of
128 articles in 13 chapters, even
though there was a strong objection from the USA and China et al
(120 in favor, 7 opposed, 21 abstentions). The Court is to be a
permanent tribunal for justice on
war crimes, crimes against humanity, and genocide. The members of the International Women’s
Caucus worked hard and succeeded in making the statute the
first international legally binding
document specifying rape, sexual
slavery, forced prostitution, forced
pregnancy, forced sterilization
and other forms of sexual violations as crimes against humanity.
The Court to be located in the
Hague, however, will not be established until sixty nations ratify the
statute. By the end of 2000, 120
nations had signed, but only 22
have ratified it. Japan has not
signed yet. The United States
signed on December 31, 2000.
The statute makes it clear that the
crimes committed in the past will
not be covered by its jurisdiction,
but there is a great hope that the
vicious cycle of impunity will be
cut down when the Court is fully
established.
I am well aware of the fact that
victimization of women is not
caused by a single factor, but there
are a multitude of reasons to be considered such as globalization of economic and political processes and
forms of oppression based on race,
class, ethnicity, religion, ideology,
nationality, sexual orientation, age,
gender, et al, it is beyond the limit
of this paper to deal with the entire
issue.
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O Tribunal Tóquio 2000 declarou
o Imperador Hirohito culpado de
responsabilidade por estupro e escravidão sexual e o governo do Japão responsável por sua instituição
e pela manutenção do sistema de escravidão sexual.
Quando a sentença foi promulgada no final do Tribunal Tóquio
2000 por Gabrielle Kirk McDonald,
presidente do Tribunal, todas as
sobreviventes irromperam numa
explosão de emoções expressando
sua alegria e seu alívio com lágrimas
e choro, e subindo em seguida à tribuna para partilhar sua felicidade
com as juízas. Vendo seus rostos e
atitudes, toda a audiência aplaudiu
de pé por longo tempo. Pudemos
ver, através de suas expressões, que
as sobreviventes sentiram que sua
dignidade como seres humanos fora
reconquistada e assegurada.
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The Tokyo Tribunal 2000 found
Emperor Hirohito guilty of responsibility for rape and sexual slavery as
a crime against humanity and the
government of Japan as responsible
for its establishment and maintenance of the sexual slavery system.
When the sentence was announced at the end of the Tokyo
Tribunal 2000 by the chief judge,
Gabrielle Kirk McDonald, all the
survivors burst into emotional explosion, expressing their joy and
relief by tears and cries, which
was followed by stepping up to the
stage and sharing their happiness
with the judges. Seeing their faces
and actions, all the audience gave
standing ovation for a long time.
We could see from their expression that the survivors felt their
dignity as human beings re-gained
and assured.
As sobreviventes
sentiram que sua
dignidade fora
reconquistada e
assegurada
II – Rumo à educação
para a responsabilidade humana no
século XXI
II – Toward Education
for Human
Responsibility in the
21st Century
1. Ligação entre Justiça,
Gênero e Direitos Humanos
1. Linkage of Justice,
Gender and Human Rights
De acordo com o que vimos, ficou
claro que não podemos falar sobre
questões de justiça e direitos humanos sem nos referirmos à questão do
gênero. Precisamos levar a sério a violência causada pela maneira como
o conceito de “gênero” é culturalmente construído e herdado através de
nossa história. O gênero denota o que
cada pessoa vivencia como mulher ou
homem em uma determinada cultura ou sociedade. Gostando eu ou não,
o gênero define quem eu sou e onde
From what we have seen, it has
become clear that we cannot talk
about issues of justice and human
rights without referring to the issue of gender. We need to take seriously violence caused by how the
“gender” concept is constructed
culturally and inherited through
our history. Gender denotes what
each person experiences as a
woman or man in a certain culture
or society. Whether I like it or not,
gender defines who I am and
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O gênero denota o
que cada pessoa
vivencia como mulher
ou homem em uma
determinada cultura
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estou. Esteja eu consciente disso ou
não, o gênero tem tido um papel importante no que penso a respeito do
sentido de conexão e de pertencer a
algo. É evidente que o gênero é
construído socialmente e não biologicamente determinado, embora o termo “sexo”, que define as categorias
biológicas de feminino ou masculino
também seja problemático.
O gênero, apesar de ser socialmente e culturalmente construído, é originalmente gerado a partir do reconhecimento da diferença biológica entre
masculino e feminino. Apesar de o gênero não poder deixar de refletir as ideologias e privilégios das sociedades
patriarcais, tem também contribuído
para apoiar uma compreensão dualista
de sexo. Tanto o gênero quanto o sexo
reconhecem a superioridade masculina e definem as mulheres como cidadãs de segunda categoria, produzindo
o complexo mapa de discriminação de
sexismo, racismo, classismo e assim
por diante. (Elaine Graham, “Gender,”
78-80, An A to Z of Feminist Theology
[“Gênero”, 78-80, Uma Teologia Feminista de A a Z]. England: Sheffield, 1996.
Sally P. Purvis, “Gender Construction,”
124-25, Dictionary of Feminist
Theologies [“Construção de Gênero”,
124-25, Dicionário de Teologias Feministas]. eds. Letty Russell & Shannon
Clarkson. Louisville: Westminster, 1996.)
Quando nos defrontamos com as
questões de gênero, estas nos impelem
a retornar às suas origens pedindo que
repensemos e redefinamos o que é sexo.
Os médicos se acostumaram a julgar se
o recém-nascido é menino ou menina
examinando seus órgãos genitais. Esta
longa história de se distinguir o sexo de
acordo com esta identidade dual remonta ao filósofo grego Aristóteles. O assim
chamado padrão duplo de sexualidade
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where I am. Whether I am conscious or not, gender has played
an important role when I think
about the sense of connection and
belonging. It is clear gender is socially constructed and not biologically determined, though the term,
“sex” which identifies biological
categories of male or female, is
also problematic.
Gender, though constructed socially and culturally, is originally
engendered from the recognition
of the biological difference of
male/female. Though gender cannot be free from reflecting the ideologies and privileges of patriarchal societies, it has also
contributed to supporting a dualistic understanding of sex. Both
gender and sex acknowledge the
superiority of men and define
women as second class citizens,
producing the complex map of discrimination of sexism, racism,
classism and so on. (Elaine Graham, “Gender,” 78-80, An A to Z
of Feminist Theology. England:
Sheffield, 1996. Sally P. Purvis,
“Gender Construction,” 124-25,
Dictionary of Feminist Theologies. eds. Letty Russell & Shannon
Clarkson. Louisville: Westminster,
1996.)
When we face the gender issues they urge us to go back to
their original issue and they ask
us to re-think and re-define what
sex is. Doctors have been accustomed to judge if the new born
baby is a girl or a boy by looking
at its genitals. This long history
of distinguishing sex according to
this dual identity goes back to the
Greek philosopher, Aristotle. The
so-called double standard of sexu-
Tanto o gênero
quanto o sexo
reconhecem a
superioridade
masculina
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que dá mais poder aos homens tem aí
sua origem. Além disso, por longo tempo se acreditou que a heterossexualidade fosse a única forma reconhecida de relacionamento humano. Pelo
fato de esta definição de sexo ser tão
estereotipada, o preconceito, a falta de
compreensão e a ignorância acerca da
realidade diversa dos seres humanos
em relação ao sexo são esmagadores.
Esta falta de compreensão é surpreendentemente detectada na discriminação sofrida por certas pessoas, em especial as minorias sexuais.
ality which gives men more power
has its origin here. Furthermore,
it has long been believed heterosexuality is the only recognized
form of human relationships. Because this definition of sex is so
stereotyped, the bias, misunderstanding, and ignorance about the
diverse reality of human beings in
relation to sex is overwhelming.
This lack of understanding is strikingly detected in the discrimination of certain persons, such as
sexual minorities.
2. O que falta na nossa
educação sobre os direitos humanos
2. What is Absent in
Our Human Rights
Education
Alguém pode dizer que não lidamos
mais com meninos e meninas de uma
forma discriminatória. Se for verdade,
devemos comemorar, mas a realidade
nos pergunta por que é que há tanta
violência sexual contra as mulheres em
todo o mundo. Por isso, devemos observar cuidadosamente o que está faltando em nossa educação sobre justiça, gênero e direitos humanos.
Devemos dizer que a maneira como
entendemos sexo e gênero é estereotipada quando o poder controlador nas
relações sexuais é dado aos homens.
Este modo de entender nos tem impedido de admitir que o comportamento
que consiste em invadir o corpo de outra pessoa infringe os direitos humanos,
mesmo quando se trata de marido e
mulher ou de duas pessoas íntimas.
Não é demais dizer que a maneira
como entendemos e praticamos a sexualidade está indissociavelmente ligada à maneira como definimos e entendemos o que são a dignidade
humana e os direitos humanos primá-
You may say we no longer deal
with boys and girls in discriminatory
ways. If that is true, we must celebrate, but the reality asks us why
there is so much sexual violence
against women all over the world.
Therefore we must look carefully at
what we are lacking in our education about justice, gender and human rights.
We must say the way we understand sex and gender is stereotyped
when the controlling power in
sexual relationships is granted to
men. This understanding has prevented us from admitting that the
behavior of invading another’s
body is an infringement on human
rights, even if it is between wife and
husband or between two intimate
persons.
It is not too much to say that the
way we understand and practice
sexuality is inseparably linked with
the way we define and understand
what is human dignity and what are
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Devemos observar
cuidadosamente o
que está faltando em
nossa educação
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rios. Devo dizer isto porque “reciprocidade” é algo básico na sexualidade.
Se uma das partes monopoliza o poder controlador no relacionamento,
aliena a postura de igualdade ou o
conceito de direitos humanos.
Em outras palavras, se observarmos e analisarmos a sexualidade praticada em uma determinada sociedade, podemos dizer se tal sociedade
funciona com uma compreensão da
igualdade e se reconhece que os direitos humanos e a dignidade são naturalmente outorgados a cada indivíduo.
É difícil separar as questões de sexo e
gênero das questões políticas e legais
dos direitos humanos e da dignidade.
Por isso, é plausível dizer que um
preconceito relativo à sexualidade está
inter-relacionado com uma compreensão irresponsável dos direitos humanos. Quando os direitos humanos são
negligenciados, a sociedade mostra, da
mesma forma, imaturidade para compreender a justiça. Mesmo a justiça
buscada judicial e legalmente deve estar ligada aos direitos e dignidade individuais que permitem às pessoas viverem como indivíduos humanos.
Desta forma, a justiça se perde quando uma pessoa é negligenciada, violentada, maltratada, objetificada, assaltada ou alienada por qualquer razão. A
justiça se perde quando a vida de uma
pessoa é menosprezada ou considerada sem valor. A justiça se perde quando uma pessoa é vítima de violência,
de estupro, ou quando é escravizada.
A justiça evidencia-se em uma sociedade quando cada pessoa é libertada dessa condições desumanas.
Assim, não podemos ver qualquer
motivo legítimo para que seres humanos matem outros. A expressão
mais extrema da injustiça é vista em
tempos de guerra.
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É difícil separar as
questões de sexo e
gênero das questões
políticas e legais
A justiça se perde
quando uma pessoa
é negligenciada,
violentada
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primary human rights. I must say
so because “mutuality” is basic to
sexuality. If one party monopolizes
the controlling power over the relationship it alienates the equal stance
of the concept of human rights.
In other words, if we observe
and analyze the sexuality practiced in a certain society, we can
tell whether the particular society
is functioning with an understanding of equality and acknowledging the human rights and dignity
as granted each individual. It is
difficult to separate sex and gender issues from the political and
legal issues of human rights and
dignity.
Therefore it is plausible to say
that a biased concept of sexuality
is interrelated with an irresponsible understanding of human
rights. When human rights are neglected, a society shows its immaturity in its understanding of justice, as well. Even justice sought
judicially and legally must be
linked with individual rights and
dignity that makes it possible for
one to live as a human subject.
Therefore justice is lost when a
person is neglected, violated, victimized, objectified, assaulted or
alienated for any reason. Justice
is lost when the life of a person is
despised or made worthless. Justice is lost when a person is
abused, raped or enslaved.
Justice is evident in a society
when each individual is freed
from these inhumane conditions.
Thus we cannot see any legitimate
reason for human beings to kill
others. The most extreme expression of injustice is seen in times
of war.
Reciprocidade é
algo básico na
sexualidade
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Todos admitimos que justiça e direitos humanos são coisas muito críticas e não idealísticas. A escola é o primeiro lugar onde os alunos podem
experimentar e aprender sobre a justiça e os direitos humanos. Ali, a compreensão preconceituosa das relações
humanas que foi gerada por uma compreensão dualista e patriarcal de sexo
e gênero pode ser rigorosamente posta
à prova.
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All of us admit that justice and
human rights are most critical and
not idealistic. School is the first
place where students can experience and learn about justice and
human rights. There the biased understanding of human relationships
that has been engendered by a dualistic and patriarchal understanding of sex and gender can be severely challenged.
Justiça e direitos
humanos são coisas
muito críticas e não
idealísticas
3. O que deveríamos
ensinar em nossas salas
de aula
3. What We Should Teach
in Our Classrooms
Linkage between Personal Ethics
and Social Ethics
Ligação entre Ética Pessoal e
Ética Social
As estruturas de violência que
constituem o sistema de guerra estão
tão entranhadas no sistema de valores
de cada indivíduo quanto nas estruturas sociais ou políticas. A questão mais
importante aqui é o desafio para determinar a ética das relações humanas
própria de cada pessoa e por ela praticada em seu convívio com os outros.
Qual deveria ser a nossa metodologia educacional para educar as
pessoas de modo que elas não olhem
com desprezo a vida que vivem?
Como é que tal educação passa a existir, uma educação que contribua na
construção de uma tomada de conhecimento de vida vivida para os outros
e que gere uma elevação da consciência da importância da vida? Como podemos alimentar em nossos alunos o
sentido de relacionalidade e o sentido de comunidade? Em outras palavras, qual o tipo de ética que deveria
ser mantido pelas pessoas e sociedades de modo a seguir a justiça sem
violar os direitos humanos? Dito de
maneira simples, estamos perguntando: “Quem sou eu?” e “Onde estou?”
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A questão mais
importante aqui é o
desafio para
determinar a ética das
relações humanas
Qual o tipo de ética
que deveria ser
mantido pelas pessoas
e sociedades
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The structures of violence that
constitute the war system are as
much imbedded in the value system individuals hold as in social
or political structures. The most
basic question here is the challenge to determine the ethic of
human relationships each person
has and practices in her/his living with others.
What should our methodology
of education be to nurture individuals so that they will not look
down upon any life she/he lives
with? How does such an education
come into existence? One which
contributes an awareness-building
of life lived for others and engenders consciousness raising of the
importance of life. How can we
nurture in our students the sense
of relatedness and the sense of
community? In other words, what
kind of ethics should individuals
or societies hold so that justice is
pursued and human rights are not
violated. In simple words, we are
asking “Who am I?” and “Where
am I?”
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Três elementos-chave
Three Key Concepts
Vamos usar os três conceitos-chave para pensar nas questões que declarei acima: (1) autonomia, (2) relacionamento e (3) assistência. Referir-me-ei
primeiro a Kant e a Sartre e depois acrescentarei meu próprio ponto de vista.
(Devo muito a parte sobre Kant e Sartre
a Margaret A. Farley, em “A Feminist
Version of Respect for Persons” [“Uma
Versão Feminista do Respeito pelas Pessoas”], Journal of Feminist Studies in
Religion
Religion. 1993, Vol. 9, pp. 183-198.)
Let’s think about the questions
I stated above using the three key
concepts: (1) autonomy, (2) relationship and (3) caringness. First
I will refer to Kant and Sartre and
then add my own view. (I owe
much on the part of Kant and
Sartre to Margaret A. Farley, “A
Feminist Version of Respect for
Persons,” Journal of Feminist
Studies in Religion . 1993 Vol.9
pp.183-198.)
O caso de Kant – Os principais
meios educacionais: razão para
a autonomia
Case of Kant—Main Educational
Means: Reason for Autonomy
Immanuel Kant (1724-1804) mostrou que a pessoa como indivíduo é um
fim em si mesma, e não um meio. A
pessoa que é um fim como indivíduo é
capaz de viver em relacionalidade com
a liberdade a ela concedida como um
fim em si. Ao praticar a autodeterminação, ela ganha autonomia, que também a torna capaz de reconhecer os
outros como pessoas realmente de
valor. Quando uma pessoa concebe os
outros como tendo um “valor não condicionado e incomparável”, há uma
relacionalidade que nasce naturalmente. De acordo com Kant, é a “razão” que
guia a pessoa desse modo. Diz ele: “A
Razão faz as suas próprias leis”, vendo nisso a base a dignidade humana.
Porém sua idéia parece mais preocupada com a pessoa em si, no sentido
absoluto e abstrato. Portanto, preocupa-se pouco com os aspectos sociais ou
históricos. Ele não responde à pergunta sobre como evitar relações de dominação e subordinação, a lógica de exclusividade e a produção dos “outros”.
Não se preocupa muito com o perigo
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Ele não responde à
pergunta sobre como
evitar relações de
dominação e
subordinação
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Immanuel Kant (1724-1804) indicated that a person as an individual is an end in itself and not a
means. A person who is an end as
an individual is able to live in
relationality with the freedom that
is granted to her/him as an end itself. By practicing self-determination
she/he gains autonomy, which also
makes her/him able to recognize
others as absolutely valuable. When
a person conceives of others as having “unconditioned and incomparable worth,” there is a naturally
born relationality. According to
Kant, it is “reason” that guides a
person that way. He says, “Reason
legislates itself” and he sees the basis of human dignity there.
But his idea seems most concerned with the self in its absolute
and abstract sense. Therefore it is
little concerned with social or historical aspects. He does not answer
the question of how to avoid relationships of domination and subordination, the logic of exclusiveness
and the production of “others.” He
is not much concerned about the
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de discriminação dos outros contra o
ser individual absoluto da pessoa.
danger of discrimination of others
against her/his own absolute self.
O caso de Sartre – Os principais
meios educacionais: consciência
para a relacionalidade
Case of Sartre—Main Educational
Means: Consciousness for
Relationality
Jean-Paul Sartre (1905-1980) chama
mais a atenção para a condição de distinção de cada pessoa. De acordo com
ele, cada um tem um sistema diferente
de significado e de fins. Já que cada pessoa é diferente das outras, torna-se decisivo para ela encontrar outras pessoas. Passar por diversos encontros ajuda
a pessoa a desenvolver a própria autonomia. Assim, ao vivenciar como difere
dos outros em relacionalidade, ou os
conflitos entre outras pessoas, ela
aprenderá a relativizar a si mesma. É somente então que a pessoa pode reconhecer-se como indivíduo, ganhando
desse modo sua autonomia. Para Sartre,
a autonomia é um aspecto do caráter
humano que só pode ser dominado
quando se vivenciam os relacionamentos com os outros. Para esse processo,
a “consciência”, e não a “razão”, desempenha um papel importante.
O que achamos que falta na idéia de
Sartre é que enquanto as outras pessoas existirem como um meio para que
uma pessoa alcance sua autonomia,
será muito difícil, ou quase impossível,
compreender a relacionalidade em que
todas as pessoas possam relacionar-se
umas com as outras com igualdade.
Sartre chama mais a
atenção para a
condição de distinção
de cada pessoa
ParaSartre,a
autonomia é um
aspecto do caráter
humano
Jean-Paul Sartre (1905-80) draws
more attention to the distinctness of
each person. According to him, each
person has a different system of meaning and ends. Since each person is different from others, it becomes decisive for the person to encounter other
persons. Going through various encounters helps the person develop
her/his autonomy. Thus experiencing her/his differences from others in
relationality, or conflicts between
other persons, she/he will learn to
relativise her/himself. It is only then
that a person can recognize her/himself as a subject and thus gain her/his
autonomy. For Sartre, autonomy is an
aspect of human character to be mastered only through experiencing relationships with others. For this process,
“consciousness,” not “reason,” plays
an important role.
What we find missing in Sartre’s
idea is that as long as other persons exist as a means for a person
to gain her/his autonomy, it will
be very difficult or almost impossible to realize the relationality in
which all persons can relate to
each other on an equal basis.
O que falta nos dois casos
What is Missing in the Two Cases
Tanto para Kant quanto para Sartre,
a autonomia e a relacionalidade são
muito importantes para o crescimento
e a vida das pessoas como indivíduos
nas sociedades. É verdade que a autonomia e a relacionalidade estão profundamente relacionadas às nossas per-
For both Kant and Sartre, autonomy and relationality are very
important for persons to grow and
live as subjects in societies. It is
true that autonomy and relationality are deeply related to our
present questions: Who am I ? and
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A autonomia e a
relacionalidade são
muito importantes para
o crescimento e a vida
das pessoas
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guntas do momento: “Quem sou eu?” e
“Onde estou?” Podem esses dois conceitos serem a chave para se responder a essas perguntas? É o principal aspecto da natureza humana – a razão
para Kant e a consciência para Sartre –
que apóia as pessoas quando elas alimentam autonomia e relacionalidade
suficientes, quando buscamos realizar
a justiça entre as pessoas, justiça que
forneça uma base igualitária para cada
pessoa quando ela busca sua conexão
ou pertencimento. A razão ou o conhecimento, ou tanto uma quanto o outro,
podem funcionar melhor se focalizarmos a atenção somente no fato de uma
pessoa se tornar um indivíduo. Mas a
pessoa pode não ser capaz de aprender o que significa con-viver no mundo
e co-criar um novo mundo com esse
foco limitado.
Where am I? Can these two concepts be the key to answering the
questions? Is the main aspect of
human nature— for Kant, reason
and for Sartre, consciousness—
that supports persons when they
nurture autonomy and relationality enough when we seek to
realize justice among persons?
Justice that supplies an equal basis for every person as she/he
seeks for her/his connection or
belonging. Either reason or consciousness, or both reason and
consciousness may function best
if we focus our attention only on
a person becoming a subject. But
the person may not be able to
learn what it means to co-live in
the world or co-create a new world
with this limited focus.
Minha sugestão para unir os
dois casos: a vontade de comprometimento: prestar assistência aos outros
My Suggestion to Link the Two
Cases— Will to Commit: Caring
for Others
O que mais é necessário para encontrar justiça entre nossos relacionamentos e no mundo? Além da razão e da
consciência, precisamos alimentar a
“vontade”. Especialmente a “vontade de
comprometimento”, que tem força para
fazer com que as duas outras características, razão e consciência, funcionem
de maneira prática, orgânica e dinâmica. Devemos explicar com que é que
comprometemos nossa vontade. Parece-me que o elemento básico da “vontade de comprometimento” é encontrada nas palavras “prestar assistência aos
outros”. Prestar assistência aos outros,
lamento dizê-lo, não é, não obstante,
uma coisa natural para os seres humanos. Requer a vontade de comprometimento. Requer a vontade de escolher
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Prestar assistência aos
outros não é uma coisa
natural para os seres
humanos
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What else is necessary to find
justice among our relationships and
in the world? I suggest, in addition
to reason and consciousness, we
need to nurture “will.” Especially
the “will to commit” which is powerful in letting the other two characteristics, reason and consciousness,
function practically, organically and
dynamically. We must explain to
what we commit our will. It seems
to me the basic element of the “will
to commit” is found in the words
“caring for others.” Caring for others, I regret to say, is not something
natural for human beings, though.
It asks for the will of commitment.
It asks for the will to choose this
commitment despite other desires or
possibilities.
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esse comprometimento apesar de outros desejos ou atividades.
Só podemos fazer uma alegação tão
forte assim quando formos capazes de
ver que a idéia do direito ontológico humano nunca deveria ser ignorada. O direito ontológico humano pode ser explicado de maneira semelhante como
sendo cada um de nós criado pela vontade divina. Ninguém pode negar esse
direito básico. A vontade é necessária
para se reconhecer que cada pessoa tem
sua própria vida e, portanto, zelar pela
própria vida como insubstituível tornase indispensável e com isso vem o conhecimento de que também devemos
zelar pela vida dos outros. Alimentar esse
tipo de vontade de comprometimento deveria ter precedência em nossos programas educacionais e aparecer em todas
as fases das atividades de classe.
A vontade é necessária
para se reconhecer
que cada pessoa tem
sua própria vida
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We can make such a strong claim
only when we are able to see that
the idea of the ontological human
right should never be ignored. The
ontological human right can be explained in a similar manner as each
of us being created by the divine will.
Nobody has the right to deny this
basic right. It needs the will to acknowledge every person has her/his
own life, and therefore to care for
her/his own life as irreplaceable
becomes a must and with that comes
the knowledge that the lives of others must be cared for as well. To nurture this kind of will of commitment
should take precedence in our education programs and should appear
in all phases of classroom activities.
4. What is Education: A
Process to Learn to Put
Priority over Life
4. O que é a educação: um
processo para aprender a
situar a prioridade acima
da vida
Se os três pilares – razão, consciência e desejo de comprometimento para
cuidar dos outros – puderem trabalhar
juntos para a pessoa se conhecer e tomar conhecimento dos outros, além de
autonomia e relacionalidade haverá justiça entre as pessoas. Essa prioridade
sobre a vida resultará na limitação da
liberdade de escolha e na liberdade de
desejo que a pessoa possa ter. Uma ética de zelar pelos outros é o laço que
existe entre os relacionamentos e a responsabilidade. Se se perder a conexão
entre eles, gera-se a agressão.
Precisamos continuar fazendo a
pergunta fundamental: por quanto
tempo seremos capazes da tolerar
tanto sofrimento humano? Precisamos sempre nos transformar e pro-
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If the three pillars of “reason,”
“consciousness,” and “will to
commit to caring for others” may
work together to know oneself
and to acknowledge others, there
will be justice among persons in
addition to autonomy and relationality. This priority over life
will result in limiting the freedom
of choice and freedom of desire
one person may have. An ethic
of caring for others is the tie between relationships and responsibility. If the connection among
them is lost, aggression is engendered.
We need to keep asking the fundamental question how long we
can tolerate so much human suffering. We need to keep transforming ourselves and seeking better
forms of action for transforming
Por quanto tempo
seremos capazes da
tolerar tanto
sofrimento humano?
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curar formas melhores de ação para
transformar nossos relacionamentos
com os outros e a nossa sociedade.
Diz Betty A. Reardon em Sexism and
the War System [O Sexismo e o Sistema
da Guerra] (New York, Syracuse
University Press, 1996): “A maturidade é, em última análise, a capacidade
de transformar e produzir nova vida.
A transformação é o processo contínuo
pelo qual os seres humanos exercitam
a escolha, alteram a realidade e encontram um significado” (p. 97). Somos desafiados a escolher a vida como a
nossa mais urgente e importante
obrigação. Concordo plenamente com
ela quando diz mais adiante: “As instituições sociais e políticas certamente
têm de ser mudadas radicalmente,
porém, o que é mais significativo, da
mesma forma deveriam mudar as relações humanas, tanto as sociais como
as pessoais.” (Reardon, p. 83f.)
A educação é um processo para alimentar a consciência que nos faz ver a
realidade como ela é. A educação é um
processo para usarmos nossa razão de
modo a podermos distinguir a justiça
da injustiça no mundo em que vivemos
e nos disciplinarmos de modo que possamos comprometer-nos a zelar pelos
outros. Em outras palavras, a educação
é uma práxis para receber visões, para
lutar em direção a essas visões e transformar a nós mesmos. Encerro este artigo com uma citação das palavras
registradas em Deuteronômio 30:19, da
Bíblia hebraica, as palavras registradas
como pronunciadas por Deus:
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As instituições sociais
e políticas certamente
têm de ser mudadas
radicalmente
A educação é um
processo para alimentar
a consciência
“Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti que te propus a
vida e a morte, a bênção e a maldição: escolhe, pois, a vida para vivas, tu e a tua descendência.”
(Deuteronômio 30:19).
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our relationships with others and
our societies.
Betty A. Reardon says in her
Sexism and the War System (New
York: Syracuse University Press,
1996), ”Maturity is, in the last
analysis, the capacity to transform, and to bring forth new life.
Transformation is the continuous
process by which human beings
exercise choice, change reality,
and find meaning”(p.97). We are
challenged to choose life as our
most urgent and important obligation. I fully agree with her when
she further says, “Social and political institutions certainly would
have to be changed radically, but,
more significantly, so too would
human relations, both social and
personal.”(Reardon, p.83f.)
Education is a process to nurture a consciousness that makes us
see reality as it is. Education is a
process to use our reason so that
we may distinguish justice from injustice in the world in which we
live and to discipline ourselves so
that we may will to commit ourselves to caring for others. In other
words, education is a praxis to
draw visions, to strive toward
those visions, and to transform
ourselves. I conclude my speech
with a quotation from the words
recorded in Deuteronomy 30:19 of
the Hebrew Bible, the words recorded as stated by God.
“I call heaven and earth to witness
against you today that I have set
before you life and death, blessings
and curses. Choose life so that you
and your descendants may live”
(Deuteronomy 30:19).
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