NORMAL SANTA TERESA: ação educacional scalabriniana( 1955-1958 )
OLIVEIRA, Lúcia Helena Moreira de Medeiros Oliveira – Doutoranda/UNICAMP
Este texto preocupa-se em historiar o colégio Normal Santa Teresa em Ituiutaba, Minas
Gerais, vinculado à Província Nossa Senhora Aparecida com sede na cidade de São Paulo.
Atualmente, o Colégio trabalha com a educação básica – educação infantil ao ensino médio – e
não mais configura a formação de professores. Apresenta-se a seguir algumas reflexões em
relação ao processo de formação de docentes, no período de 1955 a 1958 delineando a primeira
turma de normalistas.
Em um primeiro momento buscou-se em uma perspectiva historiográfica entender o
processo de gênese e desenvolvimento do Colégio. Em um segundo momento, compreender sua
ampliação e contribuição para formação das normalistas em Ituiutaba e região, bem como
apreender seus elementos fundamentais observando sobretudo, sua infra-estrutura, seus docentes,
seus discentes,
saberes
produzidos e divulgados. E nesse sentido, considera-se relevante
analisar o Colégio Normal Santa Teresa em uma visão multidimensional, interpretando suas
implicações e transformações dentro da sociedade local, em Minas Gerais e Brasil. E sobre esta
inovação metodológica, Magalhães explica:
Compreender e explicar a existência histórica de uma instituição educativa
é, sem deixar de integrá-la na realidade mais ampla que é o sistema
educativo, contextualizá-la implicando-a no quadro de evolução de uma
comunidade e de uma região, é por fim sistematizar e (re) escrever-lhe o
itinerário de vida na sua multidimensionalidade, conferindo-lhe um sentido
histórico. (1998, p.3)
Desse modo, dar um sentido histórico ao Colégio Normal Santa Teresa mais que acumular
ou justapor dados e informações, é atribuir a ele uma hermenêutica. Entende-se que a partir de
uma interpretação relacional do conhecimento produzido por suas alunas e professoras e demais
sujeitos do mesmo processo, imersos na sociedade daquela época, possibilita ao historiador dar
sentido ao mesmo. Conforme salienta Magalhães:
Com efeito, a relação entre as instituições educativas e a comunidade
envolvente, estruturando uma abordagem multidimensional seja nos planos
macro, meso ou micro-histórico, em si próprios, seja articulando-os de
forma operacional, tende a estabelecer-se através duma dialética relacional
de convergência/divergência/convergência, orientando-se numa pluralidade
de sentidos. (1998, p.3)
Nesse sentido, vale ressaltar as considerações feitas por SANFELICE:
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... é preciso ter presente, como fez o pesquisador luso, Magalhães (1999),
que a investigação sobre as Instituições Educativas, e para nós não há
dúvidas de que a Instituição Escolar e uma Instituição Educativa, pode
implicar desde um estudo dos seus espaços físicos e da própria
arquitetura dos edifícios, bem como na abordagem de suas grandes áreas
de organização, ou seja, a pedagógico-didática e a de direção/gestão. Mas
não é só, porque estas instituições têm também uma estrutura social, ou
melhor sócio-cultural, que submetida a uma hermenêutica, pode
constituir-se na “via fundamental para a construção da identidade
histórica das instituições educativas”(idem). Ali deverá se revelar ainda o
papel dos seus diferentes atores, para que se possa interpretar o itinerário
histórico da instituição, à luz do seu próprio modelo educacional. (2002,
p.6)
Entrecruzando teoricamente com NOSELLA, conclui-se
historiadores vivem um dilema entre elaborar uma interpretação da
sociedade e perspectivas amplas ou mergulhar no detalhamento de
aspectos singulares. È o dilema de quem, ao mesmo tempo, precisa
definir os contornos gerais da floresta, mas também, para não torna-la
abstrata e genérica, precisa conhecer a especificidade de suas árvores.
(1996, p.19)
Nessa perspectiva, os documentos investigados evidenciam que a gênese e consolidação do
Colégio Santa Teresa em Ituiutaba ocorreu no final dos anos trinta em um momento em que a
Igreja Católica atuava em várias regiões no Brasil com o objetivo de recuperar e reforçar a
catolicidade romana. Um dos instrumentos mais seguros para esse trabalho seriam os Colégios
confessionais justificando assim a vinda de diversas frentes missionárias ao país e dentre elas, as
Irmãs Missionárias Scalabrinianas São Carlos Borromeo.
Os documentos analisados revelam que alunos, alunas egressos do Colégio Santa Teresa ao
longo do tempo ocuparam cargos e lideranças de monta em diversos segmentos sociais tanto no
âmbito local, quanto no âmbito regional e nacional, decidindo inclusive questões políticas,
sociais e econômicas, ou seja, marcaram e ainda marcam a história tijucana.
Na época em que criou-se o Colégio, Ituiutaba vivia uma situação privilegiada, com
acelerado desenvolvimento na agricultura, recebendo a denominação de "Capital do Arroz",
momento esse em que médios e grandes proprietários de terra influenciavam no aspecto
econômico e político da região. Desse modo, é possível afirmar que o Colégio Santa Teresa
atendeu em especial, os filhos e filhas desse grupo representativo da atividade agrária na região.
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Em regime de internato as alunas da zona rural estudavam e auxiliavam as Irmãs nos serviços da
casa.
Ao longo dos anos, o trabalho educacional e religioso das Irmãs Scalabrinianas foi
reconhecidamente importante e significativo para a comunidade tijucana. Esse reconhecimento é
observado por meio dos jornais locais e ainda retratam a importância de se agraciar a sociedade
tijucana com um novo prédio para melhores instalações do Colégio. O projeto do novo prédio
materializou em cada elemento de sua composição arquitetônica, as concepções, valores e
preocupações das irmãs missionárias. Como bem nos relata a sra. Izaura Franco Junqueira:
Ituiutaba, desde 1939, habituou-se a ver o trabalho desprentencioso, mas,
constante das Missionárias Scalabrinianas. De seu espírito de desprendimento e
sacrifício era magniífico atestado o deficiente prédio que por longo tempo as
abrigou.O novo prédio em construção, bem alto, testemunha o ardente amor que
essas religiosas votam à terra tijucana e o desejo imenso as impele pelo bem da
nossa infância e juventude. Rendamos pois, presados leitores, a homenagem justa
e merecedora a estas abnegadas Irmãs que, por largos anos vivem entre nós.
( JORNAL, Folha de Ituiutaba, Nº.718, ANO XIV, p. 2)
De todo modo, o novo prédio tornaria-se a construção mais importante e moderna da
cidade na época, compondo o cenário urbanístico da modernidade e constituindo-se um símbolo
sagrado do saber e dos ensinamentos religiosos católicos. Salienta-se:
O colégio Santa Teresa, dirigido pelas Irmãs Missionárias de São Carlos
Borromeu, foi fundado em 1939 e veiu até hoje funcionando em prédio adaptado.
Mercê de Deus, foi iniciada agora a construção de um soberbo edifício de dois
pavimentos, com área de 3.100 metros quadrados, obedecendo ás mais rigorosas
exigências da higiene e moderna Pedagogia, aliadas aos mais discretos e
delicados estilo. Distribuídas em duas alas extensas, que se unem num vértice
transformado em “hall” de entrada com frente para a Praça Municipal, estão as
oito salas de aula amplas e arejadas, quatro grandes salas especiais, as bem
instaladas dependências da Administração, volumosa e selecionada Biblioteca,
confortáveis dormitórios, bem equipada enfermaria, além de moderníssimo
auditório e de artística capela para o cultivo do divino. Funcionarão no novo
prédio, além dos cursos primários, ginasial e normal, os cursos de Economia
Doméstica e Belas Artes. Para o desenvolvimento físico das alunas, contará o
colégio com ampla praça de esporte, campo de jardinajem e horticultura, vasta
piscina e outros requisitos imprescindíveis nessa região tropical. O ensino
ministrado segundo as diretrizes dos programas oficiais, é orientado pela divina e
eterna luz dos Santos Evangelhos, procurando com a formação integral das
nossas crianças e moças, a maior glória de Deus e o engrandecimento de nossa
Pátria. (ACAIACA, nº 54)
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Contudo, o projeto inicial para a construção do novo prédio previa instalações bastante
requintadas, suficientes para proporcionar aos alunos e alunas excelentes acomodações e
condições favoráveis para melhor prática pedagógica.
Figura I – Projeto Prédio – anos 40 – Acervo Colégio
Entretanto, o novo prédio foi construído paulatinamente e contou com ajuda dos padres
estigmatinos que coordenavam o Colégio São José. Estabeleceu-se entre eles uma barganha,
pois, enquanto os padres gerenciavam a obra, as irmãs ofereciam aulas para seus os alunos no
Colégio São José.
Figura II – ANOS 40 – Primeira parte da construção – Acervo Colégio
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No decorrer da pesquisa pôde-se observar que na década de 50, objetivando atender
ao sexo feminino e preocupadas com a formação das jovens tijucanas, as Irmãs Scalabrinianas
ampliam seus trabalhos e criam em anexo ao Colégio São José, o Curso Normal iniciando-se
com onze alunas, filhas das mais renomadas famílias tijucanas conforme o livro de matrículas do
Colégio.
Na ocasião, motivadas pelo relevante trabalho desenvolvido pelas Irmãs, as famílias
católicas da cidade juntam-se para assistir e providenciar em tempo hábil, o necessário para o
início e efetivação das atividades a respeito da criação da Curso Normal. É relevante assinalar o
empenho do poder público municipal junto ao poder público estadual para que a documentação
tramitasse dentro dos prazos legais, conforme divulga a imprensa:
A Escola Normal Santa Teresa foi instalada no dia 7 do corrente mês,
e,m solenidade presidida pelo Pe. Waldemar Darcie, diretor do Ginásio
São José, com o seguinte programa: às 7,30 horas, missa em ação de
graças, realizada na capela do Colégio Santa Tereza, oficiada pelo
ilustre sacerdote, durante a qual S. Excia. Revma. Fez um a preleção
sobre o auspicioso acontecimento, situando muito bem o significado da
abertura de mais uma escola na cidade. A seguir passou se ao ato
solene da instalação, quando voltou a falar o Pe. Waldemas Darcie.
Congratulando-se com a cidade e felicitando a diretora do
estabelecimento, falou também a professora Adelina Martins Cardoso,
fiscal da escola e representante do Sr. Prefeito Municipal.
( FOLHA, Jornal Ituiutaba, ANO XIV,1955, No.705, p. 2 )
E nesse sentido verifica-se que o Curso Normal Santa Teresa foi autorizado pelo Decreto
4.421 de 17/02/55 assinado pelo governador do Estado de Minas Gerais, Juscelino Kubistschek, na
condição de anexo ao Colégio São José (padres estigmatinos). Os relatos indicam que o Curso
atenderia filhas de pessoas influentes da cidade e região e que a consolidação da construção do
novo prédio constituía-se em necessidade premente e significava a completude de um projeto
maior e nesse sentido, apenas três anos depois o MEC autorizou por meio da Portaria 431 de
12/05/58 o funcionamento do Curso nas novas instalações.
Nota-se que a idéia de prédios novos e majestosos, configurou o universo das escolas e/ou
colégios para formação de professoras, normalistas no Brasil no início do século XX, sobretudo,
sua infra-estrutura, sua monumentalidade arquitetônica e a pedagogia trabalhada. Ao referir-se a
Escola Normal da Praça, Monarcha cita Pizzoli:
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O edifício da Escola Normal, na realidade, é um dos melhores que tenho
encontrado em todas as minhas numerosas visitas a escolas e institutos
deste gênero. A sua arquitetura, considerada pelo lado estético como pelo
lado didático, a sua colocação no centro da cidade entre praças e largos
que a circundam como imenso jardim, tornando-o extremamente
higiênico, tudo o favorece. ( p.224)
Como se vê, o Curso Normal Santa Teresa veio acrescer o clima educacional que ora
Ituiutaba vivia, oferecendo um ensino que se preocupava em formar bem as futuras mães e
professoras. Dessa forma, além das línguas e da matemática, as disciplinas também se voltavam
para os trabalhos manuais, canto, piano e os conteúdos específicos da formação docente, como a
didática, estrutura, sociologia e outros. É evidente o fato de que o ensino era propedêutico,
enciclopédico e muito detalhado. Os documentos analisados permitem compreender a aceitação, ou
melhor, aprovação em relação aos conteúdos e práticas educativas apresentadas, como a todo o
currículo proposto pelo colégio. Tudo era inquestionável em nome da competência religiosa – o
ensino ministrado segundo as diretrizes dos programas oficiais, é orientado pela divina e eterna
luz dos santos evangelhos, procurando, com a formação integral das nossas crianças e moças, a
maior glória de Deus e o engrandecimento de nossa Pátria (ACAIACA, nº 54)
Segundo depoimentos colhidos junto a alguns ex-alunos e ex-professores, o Colégio
Normal Santa Teresa, se destacou-se no cenário educacional de Ituiutaba oferecendo ensino de
qualidade,
comprometido com a formação religiosa, moral e profissional. As aulas eram
ministradas pelas Irmãs que traziam consigo uma ampla preparação acadêmica, religiosa e
disciplinar e outros professores da própria cidade que se prepararam também em outros centros
mais avançados.
Trabalhou - se com a hipótese de que os princípios norteadores do trabalho de João Batista
Scalabrini, o fundador da Congregação, ocupou lugar principal no trabalho pedagógico do Colégio.
Fongaro cita Scalabrini:
Não é suficiente ensinar. É necessário ensinar bem. É necessário que
ensinem coisas verdadeiras ,honestas e belas, deixando de lado as falsas e
as feias. Por não ser observado tal princípio, que é tão claro vemos que, em
tantos lugares, a instrução geme e faz gemer os cristãos e os cidadãos,
porque a instrução sozinha não consegue melhorar substancialmente a
sociedade humana sem o conhecimento de Deus e das verdades eternas de
nossa santa religião.(1998, p 19 )
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Os relatos de ex-alunas revelam que por um lado, a prática pedagógica envolveu o
conjunto do fazer escolar, determinando desde o princípio o que ensinar, o que inculcar, as
intencionalidades e as finalidades scalabrinianas, expressando- se por meio do currículo, dos
conteúdos, de seus formatos e de suas práticas, o projeto cultural e social de Scalabrinini, em
específico da Igreja Católica. Por outro lado, o Colégio trabalhou na perspectiva da formação de
professoras, normalistas, dentro do perfil exigido pela sociedade daquele tempo.
Figura II – PHOTO SIQUEIRA– ANOS 50 – PRIMEIRAS NORMALISTAS
Toda a documentação consultada, evidencia a intenção que o Colégio Normal Santa
Teresa impunha na formação docente das alunas que por lá passaram. São documentos que
materializam valores, sentimentos, imagens, expressões de uma congregação que chegou ao
Brasil com suas intenções, mas que também atendeu às necessidades políticas e sociais que
o país vivia nos anos 50.
Consta dos Documentos Oficiais que o Curso Normal do Colégio Santa Teresa, até
final da década de 80, entregou ao município de Ituiutaba aproximadamente 621
normalistas: Ano após ano o Colégio projeta-se no cenário da comunidade local tendo já
entregue ao Município até a data de hoje 621 normalistas.. Os documentos também
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apontam que a partir dos anos noventa o Colégio passa atender o II grau, sem o ensino
profissionalizante.
Como foi possível observar, o Colégio Normal Santa Teresa retratou um projeto
global missionário da Igreja, sobretudo, demarcou uma nova era educacional para Ituiutaba,
contribuindo para a formação das jovens professoras e evidentemente contribuiu para
formação da elite tijucana. Espera-se que as reflexões aqui apresentadas possam contribuir,
de alguma maneira, com todos aqueles que se preocupam em buscar as novas interpretações
sobre instituições escolares.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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NÓVOA, Antonio (coord). As organizações escolares em análise. Lisboa. Publicações D.
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ROMANELLI, Otaíza de Oliveira. História da Educação no Brasil. Editora Vozes, 1978.
SANFELICE, José Luís / SAVIANI, Dermeval e LOMBARDI, José Claudinei. História da
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SANFELICE, José Luis. História das Instituições Escolares: apontamentos preliminares.
Revista HISTEDBR On-line nº 8 outubro/2002.
SILVA, Marcos (coord). República em Migalhas. História Regional e Local. São Paulo:
Marco Zero/CNPq, 1990
IMPRENSA
Folha Ituiutaba, Jornal. Ituiutaba, no. 718, ano XIV, 1955, p2.
Folha Ituiutaba, Jornal. Ituiutaba, no. 556, ANO XI, 1952, p. 4
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Folha Ituiutanba, Jornal. Ituiutaba, no.705, ANO XIV, 1955,P2.
Histórico do Colégio Normal Santa Teresa, Ituiutaba, Minas Gerias, p35.
Revista Acaiaca, nº 54, Ituiutaba,s/ano.
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