a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa SILVA, Carla CARVALHO, Renato POCINHO, Margarida Universidade da Madeira RESUMO O actual mundo do trabalho apela, cada vez mais, a competências não exclusivamente técnicas, mas também de natureza sócio-afectiva, pessoal e relacional, que apresentam um maior poder explicativo do comportamento e correspondem a uma maior capacidade adaptação aos novos contextos laborais. Pela sua ligação com o desenvolvimento pessoal, bem como pelo seu componente informativo e de exploração do mundo do trabalho e da realidade social, as intervenções em orientação vocacional são destacadas como práticas promotoras de um maior sucesso. Assim sendo, pretende-se dar a conhecer um programa que visa criar oportunidades de interacção entre a escola e o mundo do trabalho, tendo em vista a diminuição do fosso existente estas duas realidades e o desenvolvimento de competências para a aprendizagem ao longo da vida. Os estudantes contactaram com a realidade do mundo do trabalho através do acompanhamento de um profissional durante um dia de trabalho (shadowing). A avaliação do programa revela a valorização da experiência por parte dos participantes, enfatiza a promoção do seu desenvolvimento pessoal e o estabelecimento de ligações entre o exercício profissional e as vivências académicas. PALAVRAS-CHAVE: Shadowing – programas de orientação escolar e profssional 1. Enquadramento 1.1. As novas exigências profissionais e a intervenção por programas Na sociedade contemporânea, as pessoas vêem-se frequentemente confrontadas com problemas complexos relacionados com a sua profissão, resultantes, muitas vezes, das sucessivas alterações que se têm vindo a verificar no mercado de trabalho, fruto da reestruturação generalizada da economia europeia, da rápida mudança tecnológica, etc. Neste contexto de incerteza, risco e flutuação, a carreira já não pode ser encarado como algo a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa linear. Pelo contrário, nos tempos que correm, um crescente número de pessoas confronta-se com a expectativa de ter de mudar de actividade profissional ao longo da vida e/ou com a necessidade de se adaptar a sucessivas mudanças no modo de desempenhar as suas funções. Tem-se vindo progressivamente a constatar que o actual mundo do trabalho pauta-se por um modelo de exigências que faz cada vez mais apelo a um conjunto de competências não exclusivamente técnicas, mas mais de ordem sócio-afectiva, pessoal e relacional, mais apropriadas aos novos contextos profissionais, marcados por incerteza, instabilidade e imprevisibilidade e cada vez mais desejáveis nos perfis profissionais. Como salienta Pires (1994), independentemente do nível de qualificação, confrontamo-nos com a exigência profissional de sermos cada vez mais autónomos, responsáveis, criativos, bons comunicadores, entre outros. Ainda segundo a mesma autora, “a rápida obsolescência dos saberes obriga a que a capacidade da pessoa se formar ao longo da sua existência possa ser a base da sua sobrevivência” (p.5). Como salienta Gonçalves (2000), as competências não se devem limitar às que são normalmente mobilizadas para a execução de actividades profissionais. Embora o trabalho ocupe uma grande parte do tempo das pessoas, as áreas mais significativas das suas vidas, que implicam o desempenho de outros papéis, apelam para a activação de competências mais energéticas e emocionais que têm implicações importantes no papel profissional. Além disso, estas ordens de competências incluem-se nas designadas pela OCDE de “gerais e transferíveis”, as mais valorizadas pelos empregadores, porque são as que garantem a estrutura das competências específicas (Azevedo, 1998), e, sendo também as menos efémeras, as que melhor se adequam ao contexto social e político em constante alteração. Não obstante a importância de uma sólida formação académica, são competências como a autonomia, a adaptabilidade, a flexibilidade, a iniciativa, entre outras, que cada vez mais fazem a diferença no mundo do trabalho, já que, como afirma Giddens (1991), o aspecto mais importante da organização e transformação das sociedades é a aplicação do saber à vida. A transição a que se tem vindo a assistir para uma sociedade assente no conhecimento, com todas as mudanças complexas subjacentes a este processo, tem conferido cada vez mais destaque às estratégias de aprendizagem ao longo da vida, que, desta feita, deverão substituir as tradicionais políticas de educação. A Comissão Europeia defende que “a aprendizagem ao longo da vida é o objectivo geral, para o qual as comunidades educatiCarla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa vas nacionais podem fazer as suas próprias contribuições” (Comissão europeia, 1994, p.16), e define-a como “todas as actividades desenvolvidas ao longo da vida com o objectivo de melhorar o saber, as aptidões e as competências numa perspectiva pessoal, cívica, social e/ou profissional” (Comissão Europeia, 2001, p.33). Posto isto, estabeleceu prioridades para a acção, entre as quais se encontram a de repensar as acções de informação, orientação e aconselhamento, e a de promover novas competências básicas para todos (Comissão Europeia, 2001). Em 2006, o Parlamento Europeu e Conselho da União Europeia apresentaram um quadro de referência para definir as novas competências de base a adquirir através da aprendizagem ao longo da vida1 enquanto medida fundamental de resposta europeia à globalização e à transição para economias baseadas no conhecimento. Estas competências foram então definidas como “aquelas de que todas as pessoas carecem para a realização e o desenvolvimento pessoais, para exercerem uma cidadania activa, para a inclusão social e para o emprego”, destacando-se os elementos comuns à sua operacionalização: o pensamento crítico, a criatividade, o espírito de iniciativa, a capacidade de resolução de problemas, de avaliação de riscos, de tomada de decisões, de gestão construtiva de sentimentos, entre outros. Como Campos (1980) menciona, se conceptualizarmos o desenvolvimento vocacional como o percurso que cada indivíduo faz pelos múltiplos papéis que vai assumindo ao longo da vida, este conceito pode ser considerado uma dimensão integradora do desenvolvimento psicológico global (Campos, 1991). Por outro lado, a orientação vocacional e as dimensões de desenvolvimento de competências pessoais a esta associadas não deixam de estar intimamente relacionadas com o próprio processo educativo, o que realça a necessidade das práticas de orientação, por um lado, e as práticas educativas e pedagógicas, por outro, contemplarem essa circunstância (Carvalho, 2007). Ora, uma das formas através das quais essa interacção se operacionaliza consiste na implementação de projectos integradores que envolvam simultaneamente a abordagem de temáticas tipicamente associadas à orientação vocacional e também à aprendizagem das matérias. Pressupõe-se que estes projectos apresentem um carácter compreensivo e alargado e, por outro lado, integrem a participação de diversos agentes, como sejam os 1 Jornal Oficial das Comunidades Europeias, nº L 394/10, (2006/962/CE) de 18 de Dezembro. Proposta de Recomendação do Parlamento Europeu e do Conselho sobre as competências-chave para a aprendizagem ao longo da vida. Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa órgãos de gestão da organização, docentes ou os serviços de psicologia e orientação, numa lógica colaborativa e integrada (e.g., Carvalho, 2008). 1.2. A exploração da carreira através de experiências de vida A necessidade de orientação vocacional dos indivíduos não deve ser considerada como mera falta de informação sobre as oportunidades de formação e de trabalho, pelo que o fornecimento de informação ou mesmo a realização de actividades (que requerem uma participação mais activa por parte do sujeito) de procura de informação escolar e profissional, como intuito de os instruir acerca dessas oportunidades, constituem estratégias de orientação claramente insuficientes. Podendo ser úteis em muitas situações, nomeadamente, com sujeitos que tenham necessidade de um maior grau de estruturação de actividades, parecem não conseguir promover a manutenção e generalização das aprendizagens e reflexões geradas. Isto porque, não obstante a participação dos sujeitos nessas actividades, estas não favorecem o desenvolvimento de níveis elevados de autonomia e de responsabilidade pela exploração, na medida em que, grande parte das vezes, lhes são propostas e/ou impostas, não promovendo o exercício das suas capacidades de criatividade e iniciativa. Defende-se, então, que uma exploração mais efectiva e eficaz deverá ser feita através de experiências de vida (Centro Nacional de Recursos para a Orientação vocacional, 2002), ou seja, através de um contacto vivencial com a informação relevante para o processo de tomada de decisão sobre a carreira. Salienta-se, então, a importância de os sujeitos se envolverem em experiências de contacto directo com o mundo do trabalho. No entanto, a fim de se promover efectivamente a exploração, essas experiências deverão ter um carácter de novidade. Segundo Law (1991), as experiências em que o sujeito participe fora do seu ambiente natural (e.g., sistema escolar, familiar) promovem oportunidades de confrontação com uma maior diversidade de perspectivas, contribuindo assim para o enriquecimento dos seus conceitos e expectativas acerca das profissões, por exemplo, e estimulando o desenvolvimento. Uma vez que aquilo que os jovens pensam acerca de uma determinada profissão muitas vezes não corresponde à realidade, uma experiência qualitativa de confronto com essa profissão contribui para uma reorganização das concepções limitadas, distorcidas ou mesmo erróneas da mesma. Estas experiências de vida podem assumir diversas formas, entre as quais, as visitas a empresas e instituições, experiências de trabalho, entrevistas a Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa profissionais, ou o work shadowing (i.e., o acompanhamento de um profissional no exercício da sua actividade), sendo esta última a que se optou promover no âmbito do programa a seguir apresentado. 2. O Programa de Intervenção 2.1. Conceito de shadowing O shadowing é uma experiência de acompanhamento de profissionais, durante o seu dia de trabalho, com o objectivo de ajudar os estudantes a desenvolverem as suas próprias perspectivas acerca do mundo do trabalho e das suas preferências profissionais (OCDE, 2005). Trata-se, portanto, de uma experiência temporária, não remunerada, em que os estudantes têm a oportunidade de testemunhar em primeira mão o ambiente de trabalho, a empregabilidade e as competências profissionais em prática. Estas experiências são planeadas com o objectivo de aumentar a consciência de carreira, ajudar a modelar o comportamento dos estudantes, através do fornecimento de exemplos, e de reforçar, nos estudantes, a ligação entre as aprendizagens académicas e as exigências de um determinado trabalho, promovendo, assim, a integração da escola e do trabalho (Paris & Mason, 1995, p. 47). 2.2. Objectivos Este programa tem por objectivos gerais incentivar o contacto directo com o mundo do trabalho, promover a diferenciação de critérios que os alunos utilizam para analisar a realidade laboral, facilitar a aquisição de informação mais detalhada e actualizada das profissões, criar oportunidades de aproximação e interacção entre o mundo da educação e o mundo do trabalho. Tabela 1: Objectivos específicos do programa e respectivos indicadores de sucesso. Objectivos específicos Indicadores de sucesso Realizar a experiência de shadowing Aumentar os seus comportamen- Colocar perguntas aos profissionais tos de exploração da carreira Identificar alternativas de educação/formação que conduzem aos seus objectivos vocacionais Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Aumentar o conhecimento acerca das actividades características da profissão alvo do shadowing Identificar alternativa(s) de educação/formação Adquirir mais conhecimentos para o exercício da profissão alvo do shadowing acerca das profissões-alvo da Indicar aspectos positivos e/ou negativos acerca da experiência de shadowing profissão alvo do shadowing Identificar diferenças e semelhanças entre as profissões-alvo do Ssadowing (no caso de terem contactado com mais que uma) Aumentar o conhecimento de si Identificar características pessoais que contribuíram próprio para os objectivos vocacionais actuais Autoconfiança Desenvolver competências (pessoais e sociais) chave para o empreendedorismo. Iniciativa Planeamento/organização Resistência à frustração Criatividade/inovação Relacionamento interpessoal 2.3. Metodologia 2.3.1. Caracterização da Amostra A amostra é constituída por doze alunos que frequentam o ensino secundário na Escola Básica e Secundária do Porto Moniz, uma escola do meio rural da Região Autónoma da Madeira, frequentada por cerca de 200 alunos (Tabela 2). Tabela 2: Caracterização da amostra Idade* Retenções (média) (média) 41,7 15 0,6 1 8,3 16 2 6 50 17 0,2 12 100 16 0,4 n % 10.º ano 5 11.º ano 12.º ano Ano de escolaridade Total 2.3.2. Procedimento Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa No início do ano lectivo, procedeu-se à apresentação do programa aos alunos e seus encarregados de educação, o que conduziu à respectiva inscrição no programa, aquando da qual os alunos escolheram, por ordem de preferência, três profissões que gostariam de explorar. Após estas actividades preliminares, e uma vez estabelecido um horário conveniente para os participantes, deu-se início às sessões do programa, cuja organização se explica no ponto seguinte. O shadowing ficou, desde o início do ano lectivo, programado para a interrupção lectiva da Páscoa, de modo a não interferir com as actividades académicas. Entretanto, com base nas escolhas feitas pelos alunos no início do ano lectivo, a escola solicitou a diversas instituições e entidades o acolhimento desses estudantes, bem como a disponibilização de um profissional para os acompanhar, ou, como é mais característico deste tipo de actividade, se fazer acompanhar pelos estudantes. 2.3.2.1. Sessões A implementação do programa decorreu em sessões quinzenais, ao longo do ano lectivo, com início em meados do mês de Outubro. Foram realizadas aproximadamente 12 sessões. Em primeiro lugar, fez-se um levantamento das necessidades sentidas pelos alunos ao nível da elaboração dos seus projectos vocacionais, através de uma actividade de brainstorming de temas que gostariam de desenvolver. Algumas sessões foram dedicadas à exploração das profissões escolhidas, com a realização de pesquisa de informação acerca das características das profissões, nomeadamente as habilitações necessárias, as tarefas rotineiras, aspectos positivos e negativos, algumas características pessoais mais adequadas e situação actual do mercado de trabalho. Noutras sessões, investiu-se no treino de competências pessoais e sociais, através de dinâmicas de grupo, role-playings e análise de dilemas vocacionais. As duas sessões anteriores à realização do shadowing foram dedicadas à preparação da entrevista de exploração ao(s) profissional(is) com o(s) qual(is) os alunos iriam contactar. 2.3.2.1. Shadowing Como foi referido anteriormente, a experiência de shadowing decorreu na interrupção lectiva da Páscoa, de modo a não haver prejuízo da actividade lectiva. Na tabela 3, apresentam-se as entidades e empresas que colaboraram na implementação do programa, bem como as profissões pelas quais foram contactadas. Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa Tabela 3: Entidades e instituições que colaboraram no programa Entidade Profissão GNR – Brigada Fiscal da Madeira (Sub-destacamento de São Vicente) Agente da Guarda Nacional Republicana Serviço de Cirurgia do Centro Hospitalar do Funchal Médico Cirurgião Empresa BIGSYSTEMS Engenharia ca/Informática Estabelecimento Vila Mar Psicólogo(a) Centro de Saúde do Bom Jesus Enfermeiro(a) Direcção de Serviços de Tecnologias e Sistemas de Informação da S.R.E.C. Técnico de Informática Electróni- 2.3.5. Avaliação As actividades de reflexão acerca da experiência de shadowing e de avaliação do programa decorreram ao longo do terceiro período. Para se averiguar acerca do cumprimento dos objectivos específicos por parte dos alunos, estes responderam a um questionário elaborado para o efeito. Avaliou-se também a evolução da percepção dos alunos acerca das suas competências pessoais e sociais relevantes para um comportamento empreendedor, através de uma escala, construída com base no documento intitulado Competências Chave para o Empreendedorismo: definições operacionais e indicadores comportamentais (Ministério da Educação, 2006). Este inventário é composto por seis factores: Autoconfiança (AC); Iniciativa (I); Planeamento/Organização (P/O); Resistência à Frustração (RF); Criatividade/Inovação (C/I); Relações Interpessoais (R/I). Os objectivos gerais um, dois e três do programa foram atingidos por todos os alunos que participaram. Relativamente, à percepção das próprias competências-chave para o empreendedorismo, verificou-se que são sobretudo os alunos do 12º ano que percepcionam um aumento do grau de desenvolvimento das mesmas. Quanto aos alunos do 10º ano, os dados obtidos através da escala de avaliação das competências-chave para o empreendedorismo, não mostram um maior grau de desenvolvimento percebido pelos alunos, embora isso não vá ao encontro das observações efectuadas ao longo das sessões. Uma hipótese explicativa é a possibilidade de os alunos se terem avaliado de forma pouco realista, em virtude estarem ainda pouco familiarizados com as exigências do ensino secundário, que Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa são muito maiores relativamente ao ensino básico. Pelo contrário, os alunos do 12º ano não só estavam mais familiarizados com ensino secundário, como já haviam participado neste programa várias vezes. Por fim, com o objectivo de recolher a apreciação dos participantes acerca dos aspectos mais importantes da implementação do programa, bem como para se avaliar a qualidade da intervenção, utilizou-se a Escala de Avaliação da Implementação de Programas (Jardim & Pereira, 2006), que inclui as dimensões: apreciação global do programa; objectivos; conteúdos; actividades; participação; recursos e desenvolvimento (p. 65). Os alunos situam quase todas as dimensões avaliadas entre o “bom” e o “muito bom”, verificando-se assim considerável grau de satisfação e percepção de utilidade do programa por parte dos estudantes. De realçar ainda que o envolvimento da comunidade educativa e a interface entre instituições proporcionadas pela implementação deste programa contribuíram para que este constituísse uma intervenção ao nível do sistema. Isto é, do ponto de vista organizacional, o programa contribuiu para uma maior dinâmica ao nível do sistema, gerando um grau de compromisso e satisfação nos participantes. A análise das reflexões dos alunos acerca da experiência de shadowing permite-nos identificar diversos ganhos com relevância para o seu processo de tomada de decisão vocacional. Assim, esta experiência de contacto directo com o mundo do trabalho promoveu nos participantes uma melhor compreensão do conteúdo funcional das profissões, tendo tido, por isso, um importante valor informativo. Atente-se, por exemplo, às afirmações de uma aluna que pretende seguir o curso de Medicina: “Temos de comunicar muito, ajudar os outros e, se necessário, pedir ajuda. Há uma grande equipa de trabalho, e apesar de se lidar com a doença, predomina o bom humor; e O ambiente de trabalho é bom, porque a visita aos internados é feita em equipa: há muita colaboração entre os médicos e os enfermeiros. A parte da consulta é interessante porque há mais diálogo entre o médico e o paciente.” As reflexões dos alunos evidenciam ainda uma análise da realidade do trabalho com base em critérios mais diferenciados, bem como uma diversificação das suas perspectivas acerca das várias tarefas e dimensões envolvidas nas profissões (e.g., Gostaria de trabalhar num local destes, visto que afinal a noção que eu tinha da cirurgia era diferente ; e Carla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa (...) Cheguei à conclusão que aquilo que vemos, por exemplo, na televisão... é bem diferente da realidade. Profissão: Medicina Cirúrgica). Pode também constar-se que a experiência de shadowing contribuiu para o desenvolvimento do auto-conhecimento, na medida em que promoveu: uma melhor integração das dimensões cognitiva, afectiva e comportamental relativamente ao modo de exercício de uma profissão (e.g., Acho que me iria sentir muito bem, porque adorei falar com aqueles adolescentes e compreender o que eles querem fazer quando decidem ir à consulta. É preciso saber dizer as plavras certas porque temos de saber lidar com muitos tipos de casos. Profissão: Enfermagem – serviço de consulta do adolescente); a construção de significados pessoais e imagens mais objectivas do mundo do trabalho e das profissões (e.g., Observámos de tudo um pouco (...). A experiência foi muito esclarecedora, pois agora sabemos que não queremos ir para esta área. Profissão: Medicina Veterinária; e Um aspecto menos atractivo é ter de passar grande parte do dia „fechado‟ numa sala. Mas sentir-me-ia bem, porque gosto muito de criar sites, o que já faço como hobbie. Profissão: Webdesigner); e uma integração entre análise das profissões e características e interesses pessoais (e.g., Acho que me iria sentir bem a trabalhar num local daqueles, porque gosto de falar, e de andar de um lado para o outro, e isso é necessário . Profissão: Medicina; e (...) A relação profissional/cliente pareceu-me muito satisfatória, tal como a relação profissional/colegas – auxiliares. Sentir-me-ia realizada uma vez que estaria a desempenhar tarefas que me agradam e iria conviver compessoas, o que gosto muito. Profissão: Fisioterapia). 3. Conclusão Pode concluir-se que o programa de shadowing contribuiu para fortalecimento de uma estrutura cognitiva para compreensão do Eu, do mundo do trabalho e dos aspectos relacionais de ambos (Holland, Magoon & Spokane, citados por Spokane, 2004). O contacto directo com as profissões e a oportunidade de colocar questões e dúvidas aos profissionais, enfatizados neste programa, constituindo estratégias de exploração mais activas, permitiram uma maior consolidação da percepção da ligação entre a escola e as aprendizagens e o exercício de uma profissão, bem como uma maior refinação, por assim dizer, das análises dos percursos e perspectivas de vida. Sendo experiências reais de vida, constituem uma oportunidade privilegiada de estruturação da noção de percurso/carreira, já que evidenciam a ligação entre conteúdos curriculares e actividades profissionais, e, conCarla Silva & Renato Carvalho & Margarida Pocinho Ligação entre vivências profissionais e actividades académicas: A experiência de um programa de shadowing em alunos do Ensino Secundário a escola e o mundo do trabalho XVII colóquio afirse secção portuguesa sequentemente, o valor instrumental das actividades escolares. Neste particular, estes resultados corroboram, a nosso ver, o interface que se pode estabelecer entre, por um lado, actividades de orientação vocacional e, por outro, a actividades lectivas e académicas, as quais passam a ser perspectivas atendendo ao seu valor não só formativo per se, mas também preparatório e antecipador de percursos pessoais. É justamente neste sentido que se pretende dar seguimento à implementação e aperfeiçoamento do programa, ao nível, por exemplo, da estrutura, das actividades envolvidas e das estratégias avaliativas, e, além disso, consolidar a perspectiva da sua integração numa lógica mais alargada e organizacional, no âmbito de intervenções compreensivas pertencentes ao projecto educativo da escola. Ao nível das experiências de replicação do programa, consideramos importante sublinhar a dimensão da amostra, que, neste caso, sendo reduzida, permite a implementação de estratégias mais específicas e qualitativas, que permitem um acompanhamento mais frequente, ao passo que a generalização a contextos de maior dimensão carece também de uma necessária adaptação. Bibliografia AZEVEDO, J. (1998). Voos de borboleta. Escola, trabalho e profissão. Porto: Asa. CAMPOS, B. P. (1980). A orientação vocacional numa perspectiva de intervenção no desenvolvimento psicológico. Revista Portuguesa de Pedagogia, XIV, 195-230. CAMPOS, B. P. (1991). Educação e Desenvolvimento Pessoal e Social. Porto: Afrontamento. CARVALHO, R.G. (2007). Perspectiva temporal de futuro em contexto educativo - Um estudo com estudantes do 9º ano de uma escola rural da Madeira. Dissertação de Mestrado em Educação - Supervisão Pedagógica, Universidade Aberta, Lisboa. CARVALHO, R.G. (2008). 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