ABANDONO E INSUCESSO ESCOLAR - CONSTRUIR UMA PERSPETIVA DE GÉNERO Equipa Principal: Carmen Cavaco (Coord.) Natália Alves Paula Guimarães Paulo Feliciano Colaboradores: Ana Bruno Ângela Beatriz Cavalli Rodrigues Catarina Paulos Marcelo Marques Rosângela Oliveira Sónia Trindade Junho de 2015 Agradecimentos Agradecemos a todos aqueles que colaboraram na realização deste trabalho, nomeadamente às direções das escolas, aos professores, às auxiliares de ação educativa, aos alunos, aos encarregados de educação, aos professores que responderam ao questionário e à especialista entrevistada. Agradecemos ainda a todas as pessoas que participaram no workshop e no seminário final. ÍNDICE INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 6 CAPÍTULO I................................................................................................................................... 13 METODOLOGIA ............................................................................................................................ 13 1. Metodologia do estudo – Diversidade e complementaridade de técnicas ......................................... 14 CAPÍTULO II. ................................................................................................................................. 20 INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR E AS QUESTÕES DE GÉNERO – CONTRIBUTOS DA INVESTIGAÇÃO ............................................................................................................................ 20 1. Insucesso e abandono escolar – fenómenos com génese na escola? ............................................. 21 2. Investigações sobre insucesso e abandono escolar, em Portugal – aproximações a uma perspectiva de género........................................................................................................................................... 30 3. Insucesso e Abandono Escolar: Um Olhar sobre o Panorama Internacional ..................................... 42 4. Insucesso e Abandono Escolar: Modelos e Teorias Explicativos ..................................................... 46 CAPÍTULO III ................................................................................................................................. 51 INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR – CONTRIBUTOS DOS DADOS ESTATÍSTICOS INTERNACIONAIS E NACIONAIS ................................................................................................... 51 1. Nota prévia ................................................................................................................................ 52 2. Uma perspetiva de género no abandono escolar precoce: análise internacional ............................... 53 3. Uma perspetiva de género no desempenho escolar: análise internacional ....................................... 58 4. Uma perspetiva de género no insucesso escolar em Portugal: análise por ano escolar ..................... 65 5. Uma perspetiva de género no insucesso escolar em Portugal: análise por região NUT II .................. 69 6. Uma perspetiva de género no insucesso escolar no ensino básico: análise por concelho e escola ..... 76 7. Alguns dados de caraterização dos alunos ................................................................................... 89 8. Análise da regressão logística ..................................................................................................... 92 9. Elementos de síntese.................................................................................................................. 98 CAPÍTULO IV .............................................................................................................................. 101 POLÍTICAS DE COMBATE AO INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR NUMA PERSPETIVA DE GÉNERO NA UNIÃO EUROPEIA E PORTUGAL – DA INEXISTÊNCIA À DESARTICULAÇÃO .......... 101 1. Orientações políticas da União Europeia de combate ao insucesso e abandono escolar. Existe uma perspetiva de género? .................................................................................................................. 102 2. O insucesso e o abandono escolar - aglutinadores entre políticas educativas e políticas de igualdade de género: entre a temporalidade e a particularização ..................................................................... 116 3.Políticas com uma perspetiva de género diretamente relacionadas com o processo educativo ......... 120 3 4. Políticas indiretamente relacionadas com o processo educativo .................................................... 121 5. Portugal - Insucesso e abandono escolar: medidas e legislação ................................................... 130 5.1. De 1986 até ao início do século XXI: prioridade ao cumprimento do 9º ano ................................. 132 5.2. De 2003 até 2010: o cumprimento do 12º ano .......................................................................... 140 5.3. De 2010 até a atualidade 2014................................................................................................ 145 6. Elementos de síntese................................................................................................................ 147 CAPÍTULO V ............................................................................................................................... 148 DADOS EMPÍRICOS RECOLHIDOS NO ÂMBITO DO ESTUDO ...................................................... 148 1. Perspetiva dos elementos da direção das escolas estudadas ....................................................... 149 2. Perspetiva dos professores ....................................................................................................... 158 2.1. Análise do questionário aos professores .................................................................................. 158 2.2. Insucesso escolar – a responsabilização dos alunos e das famílias ............................................ 175 3. Perspetiva das auxiliares de ação educativa ............................................................................... 198 4. Perspetiva dos alunos ............................................................................................................... 202 5. Perspetiva dos encarregados de educação ................................................................................. 214 CONCLUSÃO .............................................................................................................................. 221 RECOMENDAÇOES .................................................................................................................... 227 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................................... 234 ANEXO I ..................................................................................................................................... 242 DADOS ESTATÍSTICOS POR CONCELHO E ESCOLA .................................................................. 242 1. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas ..................................................................................................................................... 243 2. Concelhos onde a taxa de retenção das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes ....................................................................................................................................... 245 3. Escolas onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas ..................................................................................................................................... 247 4. Escolas onde a taxa de retenção das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes ....................................................................................................................................... 248 5. Concelhos onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas ..................................................................................................................................... 249 6. Concelhos onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes ................................................................................................................................. 251 7. Escolas onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas ..................................................................................................................................... 253 4 8. Escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes ....................................................................................................................................... 254 9. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas ............................................................................................................................... 255 10. Concelhos onde a taxa de retenção das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes ............................................................................................................................ 257 11. Escolas onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas ............................................................................................................................... 259 12. Escolas onde a taxa de retenção das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes ................................................................................................................................. 260 13. Concelhos onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas .......................................................................................................................... 261 14. Concelhos onde a taxa de abandono das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes ............................................................................................................................ 263 15. Escolas onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas ............................................................................................................................... 265 16. Escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes ................................................................................................................................. 266 ANEXO II..................................................................................................................................... 267 INSTRUMENTOS DE RECOLHA DE DADOS ................................................................................ 267 1. Questionário a docentes............................................................................................................ 268 2. Guião de entrevista a diretores de escola ................................................................................... 274 3. Guião de entrevista a docentes .................................................................................................. 278 4. Guião de entrevista a auxiliares de ação educativa ...................................................................... 282 5. Guião de entrevista biográfica - estudantes com histórico de insucesso escolar ............................. 284 6. Guião de entrevista a encarregados de educação ....................................................................... 287 7. Roteiro para focus group a docentes e a auxiliares de ação educativa........................................... 290 8. Roteiro para focus group a alunos .............................................................................................. 293 9. Grelha de observaçâo em sala de aula ....................................................................................... 296 10. Pedido de autorização aos encarregados de educação .............................................................. 302 5 INTRODUÇÃO 6 O presente estudo foi conduzido em torno da compreensão do insucesso e do abandono escolar numa perspetiva de género, em Portugal, e contou com o financiamento do Programa Operacional de Assistência Técnica do Fundo Social Europeu. O investimento neste objeto de estudo resultou do facto de a equipa considerar importante contribuir para a produção de conhecimento numa área em que este é bastante escasso. As estatísticas oficiais nacionais revelam que entre os rapazes se regista uma maior taxa de insucesso e o abandono escolar precoce do que entre as raparigas, nas últimas décadas. Os fundamentos orientadores deste trabalho resultaram, essencialmente, da escassez de estudos e de conhecimento científico, no contexto Português, o que não permite a lucidez necessária para a compreensão deste fenómeno social e educativo; por outro lado, da invisibilidade e do silenciamento do tema. O insucesso e o abandono escolar são problemas educativos que ocorrem no decurso da escolarização e resultam de causas múltiplas. Reconhecemos a complexidade inerente ao insucesso e abandono escolar precoce, pelo que se intenta um esforço de compreensão e de articulação do saber produzido neste domínio. Procuramos aproximarmo-nos de uma leitura da diversidade e complexidade dos fenómenos em estudo, o que torna evidente a importância do recurso a uma perspectiva interdisciplinar. O insucesso escolar consiste num problema de aproveitamento escolar, que se traduz em reprovações. O abandono escolar caracteriza-se pela saída precoce da escola, antes da conclusão da escolaridade obrigatória e/ou ter atingido os 18 anos de idade. Habitualmente, estes dois fenómenos mantêm entre si uma relação de interdependência – muitos dos jovens que abandonam precocemente a escola apresentam percursos académicos marcados pelo insucesso escolar. O insucesso e abandono escolar são fenómenos que ocorrem ao longo do percurso escolar, dentro da escola e por referência a este contexto, pelo que se torna essencial analisar a escola a partir de três dimensões – a instituição, a organização e a forma escolar. Parece-nos, como destaca Phillippe Perrenoud (1989), que o recurso ao “estudo das variáveis contextuais, sistémicas e ecológicas apenas permite compreender, indirectamente, os processos e funcionamentos de ordem política, organizacional e didáctica”, os quais estão na génese do insucesso e abandono escolar. O insucesso e abandono escolar colocam-nos, inevitavelmente, face ao problema das desigualdades, particularmente, as desigualdades escolares. Nas últimas décadas, apesar de uma incidência progressiva na defesa de princípios de igualdade, as sociedades contemporâneas são marcadas por profundas e múltiplas desigualdades. O insucesso e o abandono escolar estão inextrincavelmente associados a essas profundas e 7 múltiplas desigualdades sociais, porém, parece-nos imperioso reconhecer que “às desigualdades sociais a escola acrescenta as suas próprias desigualdades” (Dubet, 2000, p.37). Consideramos, à semelhança de Perrenoud (1989), que o sucesso e o insucesso escolar são faces de uma mesma moeda, representações fabricadas pelo sistema escolar, de acordo com os seus próprios critérios e procedimentos de avaliação, a partir de julgamentos e normas de excelência, relacionadas com o conteúdo e a forma escolar, os quais influenciam directamente a natureza e a amplitude das desigualdades. Neste sentido, o insucesso escolar é também o insucesso da escola, porquanto coloca em evidência a contradição entre a intenção de ensinar e a impossibilidade de assegurar a aprendizagem a todos os que a frequentam. As diferenças e desigualdades que caracterizam os alunos à entrada da escola podem ser minimizadas ao longo do percurso escolar ou pelo contrário intensificadas, quando a escola “transforma desigualdades mínimas em hierarquias decisivas” (Perrenoud, 1989, p.3). O percurso escolar “constitui, para a generalidade das crianças e famílias, uma fase importante das suas vidas” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.101), devido às representações sociais que se têm da escola – um lugar que permite o acesso a uma formação integral, um espaço de socialização muito importante na sociedade contemporânea, uma possibilidade de obtenção de um certificado escolar, contributo, ainda que incerto, para a inserção profissional e para a mobilidade social. A escola é um espaço de promessas, de sonhos e de projectos. Todavia, ao longo da permanência na escola, alunos e famílias, reajustam a sua imagem da escola em função dos acontecimentos e experiências que os marcam. Para as crianças e jovens com insucesso escolar, a escola passa a ser um espaço de confrontos, de frustração, angústias, medos, revoltas, humilhações, inseguranças e problemas. Como defende, Perrenoud (1989), a fabricação da excelência tem efeitos específicos, porque coloca os que não cumprem esses parâmetros, numa situação de insucesso escolar, a que se associa com frequência a “desvalorização de si, a vergonha, a culpabilidade, o ridículo, a exclusão, a censura” (p.4). Estes sentimentos resultam de processos de “individualização das desigualdades”, na medida em que a meritocracia escolar contribui para “legitimar as desigualdades ao atribuir a responsabilidade às próprias vítimas” (Dubet, 2000, p.52). A escola é uma instituição com reconhecido prestígio, que permite o acesso ao conhecimento construído historicamente pela Humanidade e a certificados reconhecidos socialmente. A escola não é a única fonte de acesso ao saber, porém, é um meio privilegiado. O acesso ao conhecimento é um direito fundamental dos cidadãos e um instrumento de participação social, por isso, “a privação de saber encerra os cidadãos em círculos de desigualdades” (Benavente, 8 Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.31). A aprendizagem dos conhecimentos transmitidos na escola não é assegurada a todos o que acedem à instituição escolar, isto porque a democratização do acesso à escola não assegura a democratização do sucesso na escola. O insucesso escolar é um indicador de problemas que afectam a aprendizagem dos alunos e de que no interior da escola se geram desigualdades. Deste modo, a permanência das desigualdades na escola, apesar do conhecimento produzido, de política e de intervenções supostamente democratizantes (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.20), põe em causa “o papel de «democratização» atribuído à escola” e “exige um questionamento crítico sobre o lugar e o papel da escola na legitimação e reprodução das desigualdades sociais” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.20). Neste caso, a escola passa a ser um “sistema contraprodutivo” (Illich, 1973), porque deixa de ser a solução, enquanto mecanismo para a promoção da aprendizagem, para se transformar progressivamente num problema, devido ao “crescimento quantitativo de públicos refractários à lógica escolar cuja recusa da escolarização se manifesta por índices muito elevados de absentismo, de abandono e de insucesso escolar” (Canário, 2005, p.194). No caso dos alunos, “as crescentes manifestações de “recusa” de aprender […] exprimem-se na «violência escolar», na «indisciplina», no absentismo” (Canário, 2005, 87), no insucesso escolar, no abandono precoce e nos baixos níveis de literacia mesmo após a frequência de muitos anos de escola. Com a democratização do acesso, a escola “na sua actividade sistemática de difusão e imposição de saberes, valores e pautas de comportamento normalizadas, demonstra grande dificuldade em lidar com os variados públicos que acolhe” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.101), o que se expressa na falta de democratização no sucesso escolar e na impossibilidade de todos os alunos concluírem a escolaridade obrigatória. O insucesso e o abandono escolar indicam que uma parte dos alunos vê negado o seu direito à aprendizagem do saber construído historicamente pela Humanidade, saber esse transmitido na escola. Ou seja, a escola defrauda “muitos dos que nela acreditaram como meio para uma vida melhor, destrói as aspirações que estimulou, penaliza muitos daqueles que ganharam um novo direito social: o de aprender mais” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.27). O presente estudo procura compreender o insucesso e abandono escolar tendo por base uma perspectiva de género, por se perceber, através das estatísticas, que estes fenómenos educativos, no ensino básico e secundário, afectam mais os rapazes do que as raparigas. Nesse sentido, é importante clarificar o conceito de género, uma vez que enquanto construto social, tem sido perspetivado de forma diferente ao longo do tempo e por diferentes tradições de 9 investigação. O conceito de género surgiu nos países anglo-saxónicos em 1972, tendo conhecido uma rápida difusão internacional, sendo incorporado pelas ciências sociais e humanas, tornando-se o conceito mais frequente nos estudos em que se efetuam comparações entre os homens e as mulheres (Pfefferkorn, 2007). Ao forte domínio da língua inglesa no panorama internacional veio aliar-se a adoção deste termo, gender em inglês, pelas instituições políticas europeias, fatores que contribuíram de sobremaneira para a sua disseminação. No entanto, há a realçar que a afirmação do conceito de género é acompanhada pelo desenvolvimento, em França, do conceito de relações sociais de sexo, a partir de 1980, em articulação com o conceito de divisão sexual do trabalho. O conceito de género é central para analisar as relações de poder, entendidas como assimétricas, entre homens e mulheres e pressupõe processos sociais nos quais se constroem feminilidades e masculinidades “como diferentes, e na base de relações desiguais” (Araújo, 2002, p.104). O género enquanto categoria “foi promovida pelo feminismo precisamente para criticar e rejeitar os esforços tradicionais de definição da natureza das mulheres através do sexo biológico” (Young, 1997, cit in. Araújo, 2002, p.104). Oakley definiu pela primeira vez o conceito de género em 1972 com a publicação do livro “Sex, Gender and Society”, rompendo com a tradição naturalista, que enfatizava as diferenças biológicas entre os homens e as mulheres, inatas e invariantes, sendo estas definidas pelo termo sexo (Pfefferkorn, 2007). Já o género refere-se à classificação social de masculino e de feminino, resulta de um processo de incorporação de traços, atitudes e comportamentos definidos pela sociedade para caraterizar os homens e as mulheres, sendo fortemente influenciado pela cultura. Este conceito materializa-se na afirmação de Simone de Beauvoir de que não se nasce homem ou mulher, mas tornamo-nos homens e mulheres. O género não é um dado natural, é influenciado pela cultura e pela evolução das sociedades, tornando-se um conceito suscetível de ser analisado a partir de uma perspetiva dinâmica, de forma a incorporar mudanças e variações de interpretação. Deste modo, é relevante abordar a questão da(s) feminilidade(s) e da(s) masculinidade(s) enquanto constructos sociais, reconhecendo “a diversidade, a heterogeneidade, o carácter difuso” (Araújo, 2002) e mutante destes processos sociais. No estudo pretendemos compreender a complexidade de dinâmicas e factores que podem conduzir ao insucesso e abandono escolar, a partir de uma epistemologia da escuta, que tem por base o testemunho dos vários actores envolvidos. Contudo, é importante enquadrar estes fenómenos noutros mais amplos, situados a montante e a jusante, condição necessária para se operar uma “hermenêutica da suspeita”, de modo a não nos “deixarmos levar pela ilusão das aparências” 10 (Henriques e Pinto, 1999, p.26, cit. in Araújo, 2002, p.116), induzida pelos dados estatísticos e pela naturalização das dinâmicas sociais e educativas. Neste trabalho, centrado num tema intrinsecamente associado a valores e a estereótipos de género, consideramos importante referir que é o “ponto de vista que cria o objecto” (Saussure, in Canário, Alves & Rolo, 2001) de estudo. No estudo pretendemos apresentar um ponto de vista sobre o insucesso e o abandono escolar numa perspectiva de género, a partir do reconhecimento da complexidade e da invisibilidade inerente à construção social e escolar destes fenómenos. Interessa-nos identificar as contradições, as tensões, os dilemas e os consensos em torno do tema, numa tentativa de compreendermos o modo como se produzem e traduzem as diferenças de género no insucesso e no abandono escolar. A complexidade do fenómeno em estudo justificou o enfoque numa metodologia mista, que articulasse uma dimensão quantitativa – centrada na análise das estatísticas oficiais, com uma dimensão qualitativa – focada nas representações e perspectivas dos actores, directa e indirectamente envolvidos na escola, sobre o insucesso e o abandono escolar numa perspectiva de género. Para além do tratamento e análise das estatísticas oficiais, que nos permitem ter uma visão ampla e global do modo como o insucesso e o abandono escolar têm uma marca de género, diferenciada por regiões, realizámos também um questionário a professores do ensino básico e secundário das escolas públicas, do território nacional, continental. Numa tentativa de complementar estes dados, realizámos quatro estudos de casos em escolas do ensino básico e secundário da área Metropolitana de Lisboa. Os estudos de caso consistiram na realização de entrevistas a elementos da direcção de cada escola, a professores, a alunos, a auxiliares de acção educativa e a encarregados de educação; na realização de focus group a professores e a auxiliares de acção educativa e de focus group a alunos; e na observação de aulas. Investimos também na sistematização e articulação de conhecimento produzido no domínio em estudo, no contexto Português e internacional. O presente documento pretende dar conta da quantidade e diversidade de dados recolhidos, e avançar com uma análise dos mesmos, no sentido, de se criar uma maior lucidez e visibilidade sobre o fenómeno do insucesso e do abandono escolar precoce, numa perspectiva de género. No relatório procuram-se apresentar, sistematizar e analisar dados sobre as diferenças de género no insucesso e no abandono escolar, em Portugal e no estrangeiro, a partir das estatísticas oficiais, das orientações políticas neste domínio e das investigações realizadas. Para complementar e dar sentido a este mapeamento identificamos e analisamos a perspectiva da direcção de escolas, de professores, de alunos, de encarregados de educação e de auxiliares de 11 acção educativa sobre o insucesso e abandono escolar, em geral, e numa perspectiva de género. No final do documento apresentam-se um conjunto de recomendações fundamentadas no estudo realizado e que visam promover a visibilidade, a reflexão, o debate, e a formação sobre as questões do insucesso e do abandono escolar na sociedade em geral, e de um modo particular junto dos atores que direta e indiretamente interferem no processo educativo de rapazes e raparigas. Estas recomendações são por nós consideradas como o referencial de propostas contemplado em sede de candidatura a financiamento como um dos produtos a apresentar no âmbito do estudo. O relatório encontra-se estruturado em cinco capítulos. No capítulo I descreve-se a metodologia que foi utilizada no estudo, os instrumentos de recolha de dados e as formas de análise dos dados recolhidos. O capítulo II consiste na revisão da literatura nacional e internacional alusiva à temática do insucesso e abandono escolar e à forma como estes fenómenos são abordados atendendo a uma perspetiva de género. O capítulo III apresenta uma caraterização da problemática objeto da investigação, tendo por base os dados estatísticos produzidos e divulgados por organismos internacionais (OCDE, Comissão Europeia, EUROSTAT) e os dados administrativos existentes na base MISI disponibilizada pelo Ministério da Educação. No capítulo IV descreve-se as políticas de combate ao insucesso e abandono escolar numa perspetiva de género na União Europeia e em Portugal. O capítulo V apresenta uma descrição dos dados empíricos recolhidos no âmbito do estudo, nomeadamente os resultados dos questionários aos professores, os dados resultantes das entrevistas a elementos da direção das escolas, aos professores, às auxiliares de ação educativa, aos alunos e aos encarregados de educação. Para além disso, são ainda apresentados os dados resultantes dos focus group realizados com professores, auxiliares de ação educativa, e alunos, e elementos recolhidos durante as observações em sala de aula. O relatório integra ainda uma conclusão, um breve conjunto de recomendações que procura contribuir para melhorar a resposta das políticas públicas de educação e formação ao nível da promoção do sucesso educativo e, por fim, as referências bibliográficas. São ainda apresentados dois anexos: o anexo I referente aos dados estatísticos por concelho e escola, e o anexo II com os instrumentos de recolha de dados utilizados na investigação. 12 CAPÍTULO I METODOLOGIA 13 1. Metodologia do estudo – Diversidade e complementaridade de técnicas Este trabalho enquadra-se no domínio científico das Ciências da Educação e, em termos teóricos, apoia-se num conjunto alargado de contributos das Ciências Sociais, que faz “apelo ao património teórico e conceptual que tende a ser comum às várias ciências sociais” (Canário, 2003, p.8). As Ciências da Educação podem dar um importante contributo na produção de conhecimento sobre fenómenos educativos, numa perspectiva interdisciplinar, sobretudo quando os reconhecem e estudam na sua complexidade e diversidade, colocando em evidência ausências, tensões, dilemas, contradições e naturalizações que os atravessam. Atendendo à escassez de investigações em Portugal sobre o insucesso e o abandono escolar, numa perspectiva de género, no ensino básico e secundário, adoptámos uma “epistemologia de escuta” (Canário, 2003, p.14), recolhendo informação que permitisse a contextualização do fenómeno a nível nacional e a percepção que diversos os actores envolvidos no processo educativos têm do mesmo. No plano epistemológico a investigação foi marcada, essencialmente, pelos pressupostos da perspectiva fenomenológica. A fenomenologia é uma perspectiva compreensiva, centrada no estudo dos fenómenos, partindo do pressuposto que estes são construções que resultam da acção dos actores sociais. Nesse sentido, entende-se que o “mundo social não nos é dado […] é constantemente construído pelos actores sociais” (Laperrière, 1997, p.311). Ao defender o carácter construído dos fenómenos sociais, reconhece-se o seu carácter contingencial e dinâmico. Neste caso, assumimos que o insucesso é um fenómeno construído na escola, que o abandono escolar, embora permeado por dimensões mais amplas, em parte, também resulta da dinâmica da própria escola e que o género é (re)construído em todos os espaços e tempos de vida, pelo que a escola também é um contexto onde se regista essa (re)construção, o que será certamente importante para compreender as diferenças de género no insucesso e no abandono escolar precoce. Atendendo à complexidade do objecto de estudo – o insucesso e o abandono escolar numa perspectiva de género, optou-se por uma metodologia mista, com recuso à recolha de dados quantitativos e qualitativos. A abordagem metodológica usada no desenvolvimento do estudo revestiu-se da combinação de diferentes estratégias metodológicas. O recurso a várias técnicas tem como objectivo recolher “o máximo de informação pertinente” (Deslauriers e Kérisit, 1997, 14 p.99). Procurámos identificar os contornos da situação do insucesso e do abandono escolar precoce numa perspectiva de género, a nível nacional, mas para além dos dados estatísticos pareceu-nos muito importante recolher dados junto dos actores que, directa e indirectamente, participam na vida escolar dos alunos. Optou-se por uma metodologia mista (Johnson; Onwuegbuzie & Turner, 2007), com recolha de dados quantitativos e qualitativos, no sentido de analisar o objecto de estudo na sua complexidade. Com a metodologia mista procurámos compreender “o jogo infinito de inter-retroacções, a solidariedade dos fenómenos entre si, a incerteza e a contradição” (Morin, 2005, p.22). O estudo estruturou-se em torno de várias técnicas de recolha e tratamento de dados, tais como: a recolha e análise documental; a recolha, tratamento e análise de estatísticas; um questionário a docentes; quatro estudos de caso e a entrevista a um especialista no tema em estudo. Com a recolha e análise documental (orientações programáticas, legislação e normativos, documentos de estratégia e política, investigações) procurámos caracterizar e analisar as orientações políticas, nacionais e europeias, sobre o insucesso e o abandono escolar precoce, numa perspectiva de género, e sistematizar e articular o conhecimento produzido sobre o tema em investigações realizadas em Portugal e no estrangeiro. Procedeu-se à análise das estatísticas disponíveis sobre educação e formação, nos estudos comparativos internacionais, na União Europeia e no contexto Português, com um enfoque particular nos dados que nos permitem abordar o insucesso e o abandono escolar, numa perspectiva de género. A nível da União Europeia, os Ministros da Educação, acordaram em 20031, em considerar como “early leavers”, os jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos que não possuem o ensino secundário e não se encontram a frequentar nenhuma modalidade de educação nem de formação. Os dados sobre o abandono escolar precoce são recolhidos anualmente pelo European Labour Survey e são calculados com base nos jovens com idades entre os 18 e os 24 que abandonaram a escola sem terem completado o ensino secundário e que declararam não ter participado no mês anterior ao inquérito em qualquer actividade de educação ou formação. Taxa de abandono escolar precoce Fórmula de cálculo: N.º de jovens 18-24 anos que não concluíram o ensino secundário e no mês anterior não participaram em nenhuma actividade de educação ou formação / N.º total de jovens 18-24nos * 100 Esta definição foi acordada no Conselho do ministros da Educação da União Europeia (Council conclusions on "Reference levels of European Average Performance in Education and Training (Benchmarks)", May 2003). 1 15 A análise nacional mobiliza os dados estatísticos administrativos recolhidos na base de dados MISI (Gabinete Coordenador do Sistema de Informação do Ministério da Educação). Trata-se de dados anonimizados e individuais de todos os alunos matriculados no 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário no ano letivo 2007/08 e cujo percurso se encontra registado até ao ano letivo 2011/12. Para efeitos da análise foram considerados os registos dos alunos que se encontravam matriculados no 7.º ano de escolaridade do ensino básico e no 10.º ano de escolaridade do ensino secundário e que, em ambos os casos, foi possível acompanhar ao longo dos anos letivos cumprem o ciclo de estudo, ou seja, do período que decorre entre 2007/08 e 2009/10. Apresenta-se seguidamente a lista de indicadores de sucesso escolar utilizada na análise, bem como as respetivas fórmulas de cálculo. Taxa de transição ou conclusão Fórmula de cálculo: N.º de transições / N.º de matrículas * 100 ou N.º de conclusões / N.º matrículas * 100 Especificações: Matriculas = Alunos matriculados no 7.º Matriculas = Alunos matriculados no 10.º ano do ano do Ensino Regular em 2007/08. Científico-Humanístico em 2007/08. 2007/08 Transições = Alunos no estado "Transitou" Transições = Alunos no estado "Transitou" no 10.º ano no 7.º ano do Ensino Regular em 2007/08. do Científico-Humanístico em 2007/08. Matriculas = Alunos matriculados no 8.º Matriculas = Alunos matriculados no 11.º ano do ano do Ensino Regular em 2008/09. Científico-Humanístico em 2008/09. 2008/09 Transições = Alunos no estado "Transitou" Transições = Alunos no estado "Transitou" no 11.º ano no 8.º ano do Ensino Regular em 2008/09. do Científico-Humanístico em 2008/09. Matriculas = Alunos matriculados no 9.º Matriculas = Alunos matriculados no 12.º ano do ano do Ensino Regular em 2009/10. Científico-Humanístico em 2009/10. 2009/10 Conclusões = Alunos no estado "Concluiu" Conclusões = Alunos no estado "Concluiu" no 12.º ano no 9.º ano do Ensino Regular em 2009/10. do Científico-Humanístico em 2009/10. 16 Taxa de retenção Fórmula de cálculo: N.º de retenções / N.º de matrículas * 100 Especificações: Matriculas = Alunos matriculados no 7.º ano do Ensino Regular em 2007/08. 2007/08 Retenções = Alunos nos estados "Não transitou" ou "Retido por faltas" no 7.º ano do Ensino Regular em 2007/08. Matriculas = Alunos matriculados no 8.º ano do Ensino Regular em 2008/09. 2008/09 Retenções = Alunos nos estados "Não transitou" ou "Retido por faltas" no 8.º ano do Ensino Regular em 2008/09. Matriculas = Alunos matriculados no 9.º ano do Ensino Regular em 2009/10. 2009/10 Retenções = Alunos nos estados "Não transitou", "Retido por faltas" ou "Não concluiu" no 9.º ano do Ensino Regular em 2009/10. Matriculas = Alunos matriculados no 10.º ano do Científico-Humanístico em 2007/08. Retenções = Alunos nos estados "Não transitou" ou "Retido por faltas" no 10.º ano do CientíficoHumanístico em 2007/08. Matriculas = Alunos matriculados no 11.º ano do Científico-Humanístico em 2008/09. Retenções = Alunos nos estados "Não transitou" ou "Retido por faltas" no 11.º ano do CientíficoHumanístico em 2008/09. Matriculas = Alunos matriculados no 12.º ano do Científico-Humanístico em 2009/10. Retenções = Alunos nos estados "Não transitou", "Retido por faltas" ou "Não concluiu" no 12.º ano do Científico-Humanístico em 2009/10. Taxa de abandono Fórmula de cálculo: N.º de abandonos / N.º de matrículas * 100 Especificações: Matriculas = Alunos matriculados no 7.º ano do Ensino Regular em 2007/08. 2007/08 Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 7.º ano do Ensino Regular em 2007/08. Matriculas = Alunos matriculados no 8.º ano do Ensino Regular em 2008/09. 2008/09 Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 8.º ano do Ensino Regular em 2008/09. Matriculas = Alunos matriculados no 9.º ano do Ensino Regular em 2009/10. 2009/10 Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 9.º ano do Ensino Regular em 2009/10. Matriculados = Alunos matriculados no 10.º ano do Científico-Humanístico em 2007/08. Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 10.º ano do Científico-Humanístico em 2007/08. Matriculados = Alunos matriculados no 11.º ano do Científico-Humanístico em 2008/09. Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 11.º ano do Científico-Humanístico em 2008/09. Matriculados = Alunos matriculados no 12.º ano do Científico-Humanístico em 2009/10. Abandonos = Alunos nos estados "Abandonou", "Anulou matrícula" ou "Excluído por faltas" no 12.º ano do Científico-Humanístico em 2009/10. Foram analisados os dados referentes ao sucesso escolar na via de ensino regular, correspondendo a um universo de 83.030 alunos matriculados no ensino básico e de 47.097 alunos matriculados no ensino secundário, seguidos ao longo de três anos letivos (de 2007/08 a 2009/10). Dada a diferença entre os jovens que frequentam o ensino básico e o ensino 17 secundário, que decorre nomeadamente dos grupos etários envolvidos, optou-se por autonomizar o tratamento dos dados por nível de ensino, procurando-se por esta via minimizar o impacto das condições pessoais como fatores explicativos do insucesso e do abandono na perspetiva de género. No âmbito deste estudo, aplicou-se um questionário a docentes, do ensino básico e secundário, das escolas públicas, em Portugal, com o objectivo de realizar uma abordagem aprofundada da percepção destes relativamente aos factores explicativos do objecto de estudo. O mencionado questionário, colocado online, foi preenchido por 1001 professores. Para complementar esta informação, efectuamos quatro estudos de caso em escolas públicas da rede nacional, em Portugal. O estudo de caso é um dispositivo empírico que permite o estudo de fenómenos no seu contexto real e é particularmente útil e pertinente quando os limites entre o fenómeno e o contexto são pouco evidentes (Yin, 2003). De acordo com os dados facultados pelo Ministério da Educação, seleccionaram-se escolas na Área Metropolitana de Lisboa onde se registava uma maior taxa de insucesso e de abandono escolar entre os rapazes por comparação às raparigas. Destas escolas apenas uma aceitou participar na investigação. Face à dificuldade de realizar estudos de caso nas escolas inicialmente contactadas, a equipa optou por realizar os outros estudos de caso, em escolas onde possuíam contactos privilegiados. Nos estudos de caso realizaram-se entrevistas à direcção de quatro escolas, a dezasseis professores, a oito Auxiliares de Acção Educativa, a doze Encarregados de Educação e a dezassete alunos. Efectuámos dois focus group com professores e auxiliares de acção educativa e dois focus group com alunos. No âmbito dos estudos de caso realizámos também doze observações em sala de aula. Os dados provenientes destas várias técnicas e fontes de informação permitiram uma análise baseada na triangulação da informação. Na fase final do estudo, realizámos um workshop de discussão dos resultados com professores e investigadoras Portugueses que, de algum modo, se têm dedicado ao estudo das questões de género. Como forma de divulgação e difusão do conhecimento organizámos um Seminário Final, de apresentação dos principais resultados do estudo, aberto à comunidade. Neste evento contámos com a colaboração de uma investigadora que comentou os resultados do estudo. Os dados recolhidos por meio das várias técnicas permitiram a triangulação de informação e, por essa via, a identificação de perplexidades, de tensões, contradições, e de alguns “consensos”, 18 colocando-nos na senda da forma como a diferença de género no insucesso e no abandono escolar é construída. 19 CAPÍTULO II. INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR E AS QUESTÕES DE GÉNERO – CONTRIBUTOS DA INVESTIGAÇÃO 20 1. Insucesso e abandono escolar – fenómenos com génese na escola? O insucesso e o abandono escolar são fenómenos que ocorrem no contexto escolar, por essa razão, privilegiamos uma análise centrada na escola, embora tenhamos presente que os fenómenos educativos são permeados por questões sociais amplas. A escola, tal como a conhecemos actualmente, resultou de uma invenção histórica muito recente, que pode se caracterizada em três períodos, numa perspectiva diacrónica: o período da “escola das certezas”, o período da “escola das promessas” e o período da “escola das incertezas” (Canário, 2005). Durante o período da “escola das certezas”, situado entre a Revolução Francesa e o fim da Primeira Grande Guerra, a escola viveu a sua “ idade de ouro” (Canário, 2005, p.63), marcada por uma dupla coerência, quer em termos externos, devido à sua consonância e adaptação à nova ordem social, política e económica, quer em termos internos, porque havia harmonia entre a escola e os seus públicos. Nesse período histórico a escola teve uma “forte legitimidade social, na medida em que é socialmente percebida como justa, apesar de funcionar num registo claramente elistista” (Dubet & Martucelli, 1996, cit in Canário, 2005, p.67). Neste período histórico, a escola era apenas frequentada por um número muito restrito de crianças, provenientes das classes sociais mais favorecidas, não se colocava o problema do insucesso e do abandono escolar, e a obtenção dos certificados e diplomas académicos garantiam a inserção profissional e a mobilidade social. Tratava-se de uma escola reservada apenas a uma pequena minoria de crianças, provenientes das famílias da nobreza e da burguesia, que cumpria a sua missão – ensinar e, em simultâneo, garantir o reconhecimento da sua utilidade no domínio social, político e económico. O período da “escola das promessas” ocorreu entre 1945 e 1975, num momento marcado pelo crescimento exponencial da oferta e por um aumento muito significativo da procura, caracterizado pela “explosão escolar”. Durante este período dá-se, progressivamente, a democratização de acesso à escola, esta deixa de ser apenas reservadas às elites e passa a receber todas as crianças, independentemente da situação socioeconómica da sua família. A euforia e optimismo em relação à escola caracterizam este período, associando-se a escola a três promessas – uma promessa de desenvolvimento, uma promessa de mobilidade social e uma promessa de igualdade (Canário, 2005, p.78). Neste contexto marcado pela euforia do 21 papel da escola como factor de progresso e de democratização confundiu-se a “expansão da escolaridade e o alargamento da base social de recrutamento dos alunos com igualdade de oportunidades” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.15). A participação no «jogo escolar» era de soma positiva, ou seja, “um jogo no qual todos os participantes têm a possibilidade de retirar ganhos” (Canário, 2005, p.79). Contudo, no final dos anos 1960 surgem os primeiros sinais de “falência das promessas da escola” (Canário, 2005, p.80), o que se torna mais notório a partir dos anos 1970. A investigação, sobretudo a realizada no âmbito da Sociologia da Educação, revela a inexistência de uma relação linear entre as oportunidades educativas e as oportunidades sociais, o que evidencia que a democratização de acesso à escola não se traduz, necessariamente, em processos de mobilidade social ascendente. Pelo contrário, as investigações filiadas na Teoria da Reprodução revelaram o efeito reprodutor e intensificador das desigualdades sociais desempenhado pela escola, por isso a “escola passa a ser percepcionada como produtora de injustiça” (Canário, 2005, p.81). De solução a escola passa a ser entendida enquanto parte do problema – das desigualdades sociais – devido às desigualdades escolares, traduzidas no insucesso e no abandono escolar. As desigualdades escolares e o seu efeito na reprodução e no aumento das desigualdades sociais passaram a ser entendidos não só como persistentes e importantes, mas, sobretudo, como ilegítimos (Boudon, 2001 cit in Canário, 2005, p.81). A instituição escolar é “habitada de modo duradouro por potenciais excluídos que nela vivem as contradições e os conflitos associados a uma escolaridade sem outro fim para além de si própria” (Bourdieu, 1993, p.599, in Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.26-27). Bourdieu fala de sofisticação e de crueza na exclusão escolar actual, interpretando os fenómenos de violência numa escola vivida «sem convicções», «sem futuro», «sem projectos», num faz-de-conta mais ou menos desenvolto de um sistema de ensino aberto a todos mas que é, de facto, só para alguns (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.27). Neste período da “escola das incertezas” passa-se, progressivamente, da procura encantada para a procura desencantada. Com a democratização e massificação da escola deu-se uma dupla perda de coerência – a perda de coerência externa, porque a escola foi produzida em consonância com um mundo que deixou de existir, e a perda de coerência interna, na medida em que o funcionamento interno da escola deixou de ser compatível com a diversidade de públicos e missões que lhe foram atribuídas (Canário, 2005, p.85). Nas últimas décadas, a escola tem vindo a ser, progressivamente, responsabilizada por uma multiplicidade de missões, o que a conduziu à dispersão e contribuiu para intensificar os problemas vividos no seu interior 22 (Nóvoa, 2006). António Nóvoa (2006) fala do “transbordamento” da escola, esta foi-se responsabilizando por inúmeras missões e conteúdos, concomitantemente, afastou-se da sua missão mais importante – a promoção da aprendizagem. Com a democratização de acesso à escola, a selecção já não se faz no acesso, ou seja, “a montante da escola, mas durante o percurso escolar, em função dos resultados académicos” (Dubet, 2000, p.51). Este processo selectivo é orientado para a “exclusão dos piores, por exclusão relativa” (Canário, 2005, p.85). Os processos de competição que marcam o quotidiano escolar deram origem a “modos de selecção pelo insucesso” (Dubet & Martucelli, 1996, p.40 cit in Canário, 2005, p.85). Como tal, no contexto de democratização de acesso à escola e de proclamada igualdade de oportunidades, “a selecção deixou de ser predominantemente social para passar a ser predominantemente escolar ou, pelo menos, percebida como tal” (Canário, 2005, p.85). Com um problema de défice de legitimidade, a escola vê-se confrontada com a perda de sentido do trabalho escolar, por parte dos alunos e dos professores. No processo de escolarização, confundiu-se a democratização do acesso com a democratização do sucesso educativo, todavia, sabe-se hoje que a democratização do sucesso “exige atenção aos percursos e estruturas e aos resultados – conteúdos, pedagogias, avaliação, certificação e saberes” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.31). O insucesso, os atrasos e repetências, e o abandono “ aparecem como indicadores das desigualdades” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.16) que se manifestam, reproduzem e intensificam no interior da escola. O insucesso e abandono escolar podem ser analisados segundo perspectivas teóricas muito diferentes. As teorias críticas e da reprodução, que dominam no estudo das desigualdades, colocam em evidência que as “crianças favorecidas na escola, não o são devido à sua inteligência, mas porque têm no seu contexto familiar e na classe social de pertença códigos, atitudes e saberes escolarmente rentáveis” (Perrenoud, 1989, p.6). Estas crianças, oriundas das classes sociais mais favorecidas, detêm um capital cultural e linguístico, hábitos de pensar e atitudes que favorecem o seu processo de socialização no espaço escolar, o que lhes facilita a realização de percursos de sucesso escolar. Deste modo, se a escola se limitar a tratar todos os alunos, da mesma idade, de igual modo, em termos de direitos e deveres, já está a contribuir para transformar as diferenças de herança cultural em desigualdades de sucesso escolar (Bourdieu, 1966, in Perrenoud, 1989, p.6). Nesse sentido propõem-se “modos e percursos que assegurem o sucesso de todos os alunos, cada um à sua medida” (Nóvoa, 2005, p.69). 23 Nas últimas décadas, os estudos realizados no âmbito da Sociologia da Educação têm revelado uma forte associação entre os resultados escolares e a origem social dos alunos, porém, por si só a origem social dos alunos não é suficiente para explicar os fenómenos do insucesso e abandono escolar. Como destaca Perrenoud (1989) para compreendermos o insucesso escolar é necessário confrontar a origem social dos alunos, com a questão das expectativas dos vários actores envolvidos no processo educativo, da organização escolar e das práticas pedagógicas. A análise do insucesso centra-se em três tipos de explicações: explicações de natureza biológicogenética, que incidem nas características individuais, nos dotes e mérito de cada aluno; explicações de natureza sociocultural, que se fundamentam nas diferenças de capital cultural dos alunos e, por último, em explicações de natureza socio-institucional, que articulam as dimensões do capital cultural de origem dos alunos com os factores políticos, organizacionais e pedagógicos que permeiam a escola (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.17). Devido a factores de natureza sociocultural, alunos da mesma idade não estão igualmente dispostos e preparados para assimilar os conteúdos do currículo, por isso interessa perceber o que os professores e a organização escolar fazem com esta diversidade (Perrenoud, 1989, p.9), porque é através desses elementos que podemos compreender o modo como é construído o insucesso escolar. Quando a escola não assegura o sucesso de todos os alunos, respeitando as suas especificidades, temos uma “escola a duas velocidades”, uma escola para pobres, que funciona “essencialmente como um centro de acolhimento social […] com uma forte retórica da cidadania e da participação” e uma escola para ricos, “claramente centrada na aprendizagem, e nas tecnologias” (Nóvoa, 2006, p.68). Para Perrenoud (1989) “explicar a construção do insucesso escolar, é analisar a influência das escolhas institucionais e pessoais, políticas e pedagógicas, na taxa de selecção e nos níveis de exigência aplicados a uma geração e a uma certa categoria de alunos” (p.9). A génese do insucesso escolar situa-se na escola, porquanto é esta instituição que através da sua organização e funcionamento contribui para a sua construção social. É no contexto escolar que o insucesso escolar emerge, ganha sentido e se constrói enquanto realidade educativa e social, como afirma Perrenoud (1989) “para haver insucesso escolar, é necessário e suficiente que a instituição declare o sucesso ou o insucesso” (p.2). Na tripla construção que Philippe Perrenoud defende, o insucesso escolar resulta, em simultâneo, de processos e critérios de avaliação, que têm sempre subjacente alguma arbitrariedade, e são orientados para a selecção e orientação dos alunos; das formas de excelência, as quais se articulam directamente com o currículo, e dizem respeito ao conjunto de valores e de conhecimentos que a escola decide exigir 24 e avaliar num certo momento do percurso escolar, os elementos que a cultura escolar valoriza. A avaliação participa de várias formas na fabricação do insucesso escolar, primeiro porque é através dela que se coloca em evidência os que têm e os que não têm aproveitamento escolar, pela divulgação e importância atribuída aos resultados. Todavia, como refere Perrenoud (1989) mais do que uma medida, a avaliação é um jogo relacional para o qual as crianças das diferentes classes sociais têm preparações distintas. As formas de excelência são interdependentes da avaliação, mas também do currículo e da cultura escolar. A definição do currículo e das normas de excelência “jogam-se no plano político, mas também na formação de professores, na concepção dos manuais e dos meios de ensino, que concretizam e ilustram os planos de estudos” (Perrenoud, 1989, 8). O insucesso e abandono escolar mostram que a escola não consegue assegurar a formação de todos – a sua principal missão, em grande medida porque não adopta “princípios de diversidade que permitam responder de maneira diferente às diferentes necessidades e possibilidades de cada aluno” (Nóvoa, 2006, p.69). Ou seja, as crianças e os jovens “chegam à escola diferentes – porque têm origens sociais e memórias culturais diferentes – mas a escola pretende à força torná-los iguais, caindo na falácia de identificar democratização com massificação e homogeneização” (Pais, 2008, p.16). Os factores que estão na génese da construção do sucesso e do insucesso escolar – a avaliação, o currículo e o tratamento das diferenças, são interdependentes e fazem parte do conjunto do sistema educativo e da política educativa. Nesse sentido, o processo de fabricação do insucesso escolar, embora situado no interior da escola, está integrado num processo mais amplo de “fabricação social” (Perrenoud, 1989, p.12). A escola enquanto instituição, organização e forma escolar é influenciada pelas lógicas de acção de diversos actores, os que actuam no espaço interno da escola, mas também por aqueles que, a montante, definem as orientações políticas, e a jusante, que controlam os resultados. Ou seja, “não é fácil saber quem domina a escola, tantas e ambivalentes são as forças em presença” (Perrenoud, 1989, p.12). A fabricação do insucesso escolar resulta da acção de múltiplos actores, com lógicas de acção que podem ser complementares ou contraditórias. Por vezes, o insucesso resulta de uma “vontade política explícita, que se traduz na selecção precoce, na avaliação feroz, num currículo elitista, e numa organização escolar que dificulta a diferenciação pedagógica” (Perrenoud, 1989, p.12). Neste caso, as políticas educativas preconizam “a escola como uma instituição uniforme, burocratizada, igual para todos” (Nóvoa, 2006, p.69), naturalizando-se o facto de nem todos terem sucesso escolar. No entanto, também surgem orientações políticas que visam minimizar o insucesso escolar, através de medidas correctivas e preventivas, algumas baseadas na 25 diferenciação pedagógica. As orientações políticas distintas podem coexistir no mesmo período temporal, o que contribui para que, “frequentemente, as diversas forças políticas e pedagógicas se neutralizam, levando a uma situação complexa, em que o investimento e esforços de democratização de uns coexistam com o fatalismo e o elitismo de outros (Perrenoud, 1989, p.13). O insucesso escolar é influenciado pelas políticas educativas, mas também é determinado, diariamente, nos (des)equilíbrios de forças e nas “lógicas de acção dos alunos, das famílias, dos professores e dos estabelecimentos” (Perrenoud, 1989, p.13). Face a uma escola igual para todos, que não respeita a diversidade social e cultural, nem os diferentes ritmos de aprendizagem, os jovens procuram tornar visível a sua especificidade através de comportamentos hostis, como se percebe nas palavras de José Machado Pais (2008), quando afirma que as diferenças “que fazem de cada aluno um ser humano não são levadas em linha de conta ou sempre que, por razões não justificadas ou de simples presunção, se é tido como igual mas olhado como diferente pode surgir entre quem é alvo de discriminação ou abandono um sentimento de solidão expresso em revolta” (Pais, 2008, p.16). Para Barthes (1972) “os estilos juvenis mais audaciosos funcionariam como uma forma de resistência às culturas dominantes e hegemónicas” (cit. in Pais, 2008), que estão presentes em todas as interacções sociais, no quotidiano (p.12). Com efeito, os mecanismos de resistência às culturas dominantes e hegemónicas também se manifestam na escola. Deste modo, os comportamentos rebeldes dos jovens podem corresponder “a uma oportunidade de afirmação compensatória de um contrapoder relativamente àqueles que têm supremacia escolar na sala de aula” (Pais, 2008, p.18). O sentimento de revolta, nestas situações, também indicia que os “alunos não reconhecem a escola como sua” (Pais, 2008, p.17). Nesse sentido, a escola “é vista como um território onde se desafia a autoridade e o poder que emana de fora do bairro (professores, polícia, estado, ‘portugueses’)” (Batalha, 2004, p. 316, cit. in Pais, 2008), ou seja, o poder instituído. No estudo do insucesso e abandono escolar enquanto fenómenos sociais e educativos complexos é importante reconhecer que as “causas aparentes do insucesso escolar (falta de interesse, absentismo, violência, recusa em estudar…) podem ser, afinal, efeito de uma inadaptação profunda à escola que está longe de ser uma inadaptação individual. Nesse sentido, convém não tomar os efeitos como causas do fracasso escolar (Pais, 2008, p.17). As condições de vida dos jovens das classes sociais mais desfavorecidas têm “uma incidência manifesta sobre seu comportamento escolar –, muitos dos problemas que eles vivem na escola não existiriam se as suas condições de vida fossem outras” (Pais, 2008, p.15). Por vezes, os jovens com problemas comportamentais na escola e com insucesso escolar “interiorizam o estatuto que lhes 26 é atribuído, por pais e professores e os resultados escolares não tardam em materializar ou ratificar as profecias: tornam-se tal qual os descrevem” (Pais, 2008, p.14). Estes jovens “desinvestem da escola, assumindo que não gostam mesmo dela” (Pais, 2008, p.14). Para a compreensão dos problemas comportamentais dos jovens na escola é necessário reconhecer “que as malhas com que se tece a ´violência escolar` são de textura heterogénea e de urdiduras bem mais complexas do que se possa supor a uma primeira aproximação (Pais, 2008, p.15). Os elementos anteriormente destacados elucidam a complexidade inerente ao insucesso e abandono escolar, enquanto fenómenos educativos, interdependentes de dimensões sociais, culturais, políticas e económicas que se reflectem na escola e nos seus actores. Os jovens quando questionados sobre o insucesso escolar justificam-no “entre as acusações aos professores e as explicações de carácter mágico em que o destino ou um ambiente pouco definido criaram” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.111). Situação que os autores justificam como estratégias que os jovens adoptam para manter a sua “auto-estima perante situações em que a identidade pessoal é fortemente posta em causa (p.111). O insucesso escolar é revelador de um percurso escolar com problemas comportamentais e de aprendizagem, vivido pelos jovens como uma experiência “de fracasso, de impotência, de dissimulação e de fuga (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.32). O abandono escolar reflecte e perpetua, em simultâneo, desigualdades sociais, constituindo uma “situação extrema de desigualdade entre os que vivem curtos percursos escolares, fracassam e abandonam e os que obtêm sucesso certificado e vivem longos percursos académicos, com as respectivas consequências pessoais e sociais do saber e dos títulos” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.12). O abandono durante a escolaridade obrigatória é apenas a face visível de “um dos mais extremos fenómenos de exclusão” que afecta crianças e jovens “em ruptura declarada ou silenciosa com uma escola obrigatória e obrigada que não é um direito mas tão só um dever” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.12). Na perspectiva destes autores, “os alunos que abandonam têm problemas com a escola e foram já por ela abandonados, em muitos casos “ (p.27). No estudo sobre o abandono escolar antes da conclusão da escolaridade obrigatória, estes autores entrevistaram jovens que passaram por essa situação e constataram a existência de “um caminho marcado por desencontros entre os desejos e aspirações e a realidade dos percursos escolares” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.100). Os alunos que abandonam a escola sem concluir a escolaridade obrigatória têm, na maioria das vezes, percursos escolares marcados pelo insucesso. Contudo, apesar da relação insucesso27 abandono “ser óbvia ela não é vivida por todos os alunos da mesma forma (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.129). O abandono escolar precoce é sobretudo notório entre os jovens das classes sociais mais desfavorecidas e está associado a um conjunto amplo e interdependente de factores, entre os quais, “o insucesso escolar (Afonso, 1987; Boudieu, 1992), as estratégias familiares (Caria, 1991), a interferência do processo de escolarização nas rotinas familiares (Perrenoud & Montandon, 1987), o contexto socioeconómico de inserção dos jovens (Ferrão, 1991). A um outro nível de argumentação, encontramos autores que referem as contradições existentes entre o processo de massificação escolar e o funcionamento do mercado de trabalho (Paci, 1982), a atracção exercida pelo mercado de trabalho nos jovens em idade escolar (Raffe & Willms, 1989), e a relação escola/mercado de trabalho/cidadania (Stoer & Araújo, 1992)” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.12). O abandono escolar precoce joga-se nas relações entre os universos escolar, familiar e social. Contudo, cada jovem interpreta as suas experiências nos contextos escolar, familiar e social, de acordo com o modo de apropriação dessas vivências e com os seus projectos. Apesar da especificidade individual é necessário ter presente que o abandono escolar tem uma marca de classe evidente, o que reforça o argumento que a “ruptura entre o universo cultural e social da escola e o das famílias de origem operária estaria na origem de conflitos com a instituição, concorrendo para o posterior abandono do sistema de ensino” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.101). As dificuldades de integração no contexto escolar surgem, essencialmente, no momento de integração na escola, o 1º ano de escolaridade, e na transição de ciclos, o 5º e 7º ano. As mudanças de ciclos coincidem com os momentos em que se verificam as maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Na passagem para o 2º ciclo há mudanças consideráveis na organização escolar e no ritmo de trabalho, questionados sobre esta fase os jovens que abandonaram a escola sem concluir a escolaridade obrigatória dizem que “se sentiram ´perdidos`, sem nada nem ninguém que os acolhesse, a comunicação com os outros foi difícil (particularmente com os professores) e a vida escolar era pobre e vazia” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.112). Estes jovens guardam da sua escolaridade “sentimentos de tristeza mais ou menos distanciada, por desinteresse ou indiferença, ou de tristeza pela sensação de agressão e injustiça” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.112). Os jovens associam a escola a situações de desconforto e desagradáveis, em que se sentem estigmatizados e hostilizados, por professores e alguns colegas, o que “representou um fardo demasiado pesado de carregar” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.102), 28 apesar do prazer de estarem em grupo. Os professores são entendidos como representantes do sistema e vistos de forma bastante crítica. Os jovens sentem que nos momentos em que deveriam ter sido considerados como iguais foram tratados de um modo diferente, nestes casos, “a escola pode representar uma experiência dolorosa” sobretudo quando houve, por parte dos professores “um tratamento discriminatório e penalizante da própria identidade pessoal e colectiva” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.105). Os jovens sentiram-se “alvo de perseguição e tratamento discriminatório (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.111), o que estimulou a saída da escola. A qualidade da relação afectiva com os professores é um elemento muito importante na escola, porquanto influencia o bem-estar dos alunos nesse espaço e a sua relação com o saber académico. Os jovens com experiência sistemática de insucesso sentem-se inseguros e duvidam da sua capacidade para obterem bons resultados, o que dificulta a sua adesão à escola e às exigências que lhe são feitas neste contexto. Esta situação é reforçada quando há uma grande distância entre os códigos do seu meio familiar e os exigidos na escola, quando têm dificuldade em dialogar com os professores, numa base de respeito, e não têm interlocutores interessados nas suas dúvidas e nos seus problemas (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994). Perante esta situação, os professores sentem-se desmunidos, frustrados, descontentes, face ao insucesso e abandono escolar, manifestam desejo de intervir, mas assumem que “não são capazes de concretizar intervenções adequadas” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.13). Os autores avançam múltiplas razões: “falta de instrumentos legais, políticas de colocação de professores que levam a uma constante rotatividade – com consequências nas rupturas de quaisquer projectos de escolar –, visão distanciada de um meio a que não pertencem e que não conhecem, dificuldades materiais e pedagógicas no quotidiano profissional e finalmente, ausência de práticas de formação que facilitem saberes e instrumentos de relação com o meio e de intervenção local” (p.13). A sala de aula é, com frequência, palco de contradições e tensões, em grande medida, devido à coexistência, num mesmo espaço de uma duplicidade de referências culturais e sociais, contraditórias entre si e geradoras de desorientação e mal-estar (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.110). Face à complexidade destes fenómenos sociais e educativos, os professores revoltam-se e resignam-se, perante situações que vivem de perto na sua actividade profissional e que, por vezes, lhes geram sofrimento no trabalho. A escola apresenta “conteúdos e práticas que não se adequam à diversidade de quem hoje a frequenta” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.30), o que gera problemas aos vários actores envolvidos. A escola, 29 na sua tripla dimensão – instituição, organização e forma escolar – carece de coerência interna e externa, “a repetição vale mais que a interrogação e a crítica, a obediência vale mais que a afirmação, a dissimulação vale mais que a honestidade, o cumprimento de rituais é em geral eficaz e devidamente premiado” (Enguita, 1990, cit in Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.32). Parece-nos importante ir para além das razões, habitualmente, apontadas para justificar o insucesso e o abandono escolar, na medida em que estas, por vezes, constituem efeitos resultantes da situação vivida pelos jovens na escola. Por outro lado, é essencial perceber que “existe uma enorme distância entre a descrição de razões visíveis e a compreensão de como se vão construindo essas razões” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.30). Estes autores colocam questões que nos interpelam enquanto investigadores e cidadãos: Como se constrói a falta de confiança em si? Como se constrói a ausência de ambições escolares? Por isso, parece-nos fundamental uma reflexão sobre o modo como os jovens, os pais, os professores e os restantes actores educativos vão construindo e naturalizando essas razões. Quanto mais organizado e naturalizado está o discurso dos actores em torno das razões do insucesso e do abandono escolar, mais difícil se torna aceder às verdadeiras razões, aquelas que estão na origem destes fenómenos. 2. Investigações sobre insucesso e abandono escolar, em Portugal – aproximações a uma perspectiva de género O objecto de estudo deste trabalho – o insucesso e abandono escolar numa perspectiva de género – não tem constituído um domínio de interesse por parte de investigadores nos domínios das Ciências Sociais, em geral, e das Ciências da Educação, em particular. A vantagem das raparigas sobre os rapazes, em termos de aproveitamento escolar, embora seja um dado objectivo e conhecido através das estatísticas oficiais do sistema educativo, não tem sido objecto de estudo e de debate no meio científico, em Portugal. Trata-se de um fenómeno educativo e social com algumas décadas, mas que não se constituiu enquanto objecto científico. É evidente a escassez de investigações sobre o aproveitamento escolar numa perspectiva de género, no sentido de tentar compreender as diferenças de aproveitamento, de sucesso e abandono escolar entre rapazes e raparigas, no contexto Português. Sérgio Grácio (1997) analisa situação e destaca que “só muito recentemente a sociologia da educação passou a dar atenção a este fenómeno” (p.49), o que justifica pelo facto dos estudos nesta área científica se terem centrado 30 nos processos reprodutivos escapando-lhes que “a reprodução social coexiste e interage quase sempre com a produção social” (p.51). O autor chama a atenção para o facto que a “persistência dos estereótipos sexuais, das diferenças nas socializações e de estruturas sociais de funcionamento discriminatório vai a par de uma crescente procura de ensino por parte das raparigas” (p.51), que ao obterem melhores resultados no aproveitamento escolar estão mais munidas para a competição com os rapazes. Este fenómeno social e educativo passou invisível e tem sido um “objecto ausente” (Sousa Santos, 2007, p.32) no meio científico, embora esteja presente nas práticas sociais e educativas. Deste modo, parece-nos importante reconhecer que “por baixo da informação tangível, dos números e das estatísticas, correm fluxos de acontecimentos inquantificáveis e que, no entanto, condicionam decisivamente a nossa vida” (Gil, 2012, p.4), tornando-se necessário conhecê-los e analisá-los, na sua complexidade. As investigações realizadas em contexto escolar revelam formas de discriminação diversas fundadas no género, que contribuem para reforçar posições e estereótipos. Contudo, as raparigas apresentam uma dupla vantagem sobre os rapazes – são mais numerosas, em grande parte dos sistemas de ensino, e obtém melhores resultados no aproveitamento escolar. Denotase a coexistência de dois fenómenos, “habitados por lógicas que se ignoram mutuamente” (Grácio, 1997, p.51), a discriminação das raparigas, devido ao papel que a escola tem no reforço de estereótipos de género, e a sua vantagem no aproveitamento escolar, relativamente aos rapazes. Situação que pode ajudar a justificar a ausência de investigação neste domínio, uma vez que se torna difícil reconhecer as tensões contraditórias de alguns fenómenos sociais, neste caso, há a “coexistência da discriminação objectiva com vantagens dos discriminados” (Grácio, 1997, p.52). Para compreender esta complexidade é necessário assumir que a reprodução social e a produção social estabelecem relações de interdependência recíproca, por vezes, contraditórias. As investigações sobre o insucesso e o abandono escolar em Portugal são escassas, embora o tema seja recorrentemente convocado a debate público, nomeadamente, quando são divulgadas publicamente as estatísticas da educação, o que se pode justificar pela naturalização e pelo consenso silencioso gerado em torno do insucesso e do abandono escolar, por parte dos actores educativos, dos agentes políticos e da comunidade científica. No caso do abandono escolar isso é particularmente notório, um dos poucos estudos realizados em Portugal sobre o tema revela o consenso silencioso que se estabelece, o qual “nem jovens, família ou escola parecem interessados em quebrar” (Benavente, Campiche, Seabra & Sebastião, 1994, p.112). A reduzida visibilidade das situações de insucesso e de abandono escolar também se pode justificar pelo 31 facto dos alunos neste situação constituírem uma minoria entre o total de alunos, registando-se uma tendência para os considerar fenómenos residuais, sem lhes atribuir importância. Esta situação também pode, em certa medida, justificar a inexistência de investigações, em Portugal, sobre a temática do insucesso e do abandono escolar numa perspectiva de género, no ensino básico e secundário. A ausência de investigações neste domínio é entendida por Manuela Carrito e Helena Araújo (2013) como a dificuldade que a nossa sociedade tem para colocar a questão da masculinidade como categoria social de análise, isto porque, “o paradigma dominante de ‘homem’ branco e heterossexual permanecia num patamar superior, numa neutralidade protectora e abrangente onde não eram reconhecidos quaisquer problemas” (pp. 139-140). A masculinidade é entendida como “as diferentes formas de ser homem que são histórica, social e culturalmente construídas” (Carrito & Araújo, 2013, p.140). Os dados estatísticos revelam uma maior taxa de insucesso e abandono escolar entre os rapazes por comparação às raparigas, no ensino básico e secundário, em Portugal. Neste contexto, interessa-nos compreender as razões e os fundamentos que nos possam colocar na senda de maiores taxas de insucesso e de abandono entre os rapazes. Para compreender este fenómeno colocamos um conjunto de questões. No contexto escolar os rapazes são mais refractários do que as raparigas? Como se justifica essa situação? Como são construídos esses processos? Como são vividos pelos jovens e pelas famílias? Como são entendidos pelos actores envolvidos no processo? Para compreendermos o modo como estes fenómenos são permeados pela questão do género, revela-se importante compreender o conhecimento científico construído neste domínio. Embora o estudo se centre no insucesso e no abandono escolar no ensino básico e secundário, a quase inexistência de estudos numa perspectiva de género, em Portugal, justificam a identificação de resultados de investigações realizadas sobre o tema, em todos os níveis de ensino, inclusivamente, no ensino superior. A diferença no aproveitamento escolar entre rapazes e raparigas não é nova, embora se tenha reforçado, nas últimas décadas, como se verifica num estudo realizado por Sérgio Grácio (1997). A análise do aproveitamento escolar no ensino básico, nomeadamente, a taxa de não repetência, de acordo com as estatísticas do Ministério da Educação, no ano lectivo 1990/1991, confirma os melhores resultados escolares das raparigas e a influência do género variando consoante a origem social. Os dados evidenciam que “a vantagem das raparigas sobre os rapazes do seu meio é tanto maior quanto mais” (Grácio, 1997, p.70) desfavorecido for esse meio. Os dados estatísticos provam que as diferenças de aproveitamento entre rapazes e raparigas são maiores nas famílias de classes populares e menores na classe média e alta. Os 32 valores permitem afirmar que o aproveitamento escolar entre as raparigas depende “menos do seu meio de proveniência do que no caso dos rapazes” (Grácio, 1997, p.53). A vantagem das raparigas surge como mais evidente durante o 1º e 2º ano, do 1º ciclo, no 5º e no 7º ano, o que sugere um particular desfavorecimento dos rapazes nos momentos de “transição para um universo social diferente” (Grácio, 1997, p.71). No 1º ciclo trata-se dos anos iniciais referentes ao ingresso no universo escolar e da socialização que é necessário realizar neste novo contexto de vida e no 5º ano, a transição é marcada por alterações substanciais, o que exige uma ressocialização no interior da escola. A análise do aproveitamento escolar nos anos lectivos 1973/1974 e 1990/1991 evidencia o mesmo tipo de tendência – um melhor aproveitamento escolar das raparigas durante os primeiros seis anos de escolaridade, sendo essa diferença mais significativa entre os alunos originários das classes populares e nos primeiros anos de escolaridade. Para além disso, a diferença no aproveitamento escolar entre raparigas e rapazes aumentou, substancialmente, no período temporal em estudo (1973/1974 e 1990/1991). Independentemente da classe social, as raparigas apresentam melhor aproveitamento escolar do que os rapazes, até ao 5º ano de escolaridade. A grande influência da variável género no percurso escolar conduz Sérgio Grácio (1997) a considerar que na interdependência da socialização de classe, da socialização de género e da socialização escolar, esta última, talvez tenha um efeito reduzido “no conjunto de comportamentos que diferenciam rapazes e raparigas no contexto escolar” (p.83). O autor convoca dois modelos sociológicos para interpretar este fenómeno – o modelo culturalista-estruturalista e o modelo accionalista-utilitarista. Numa leitura baseada no modelo culturalista-estruturalista pode-se considerar que desde os primeiros anos de vida ocorre uma socialização distinta entre rapazes e raparigas, o que origina disposições diferenciadas, as quais têm um peso significativo nas orientações de vida. Neste caso, o melhor aproveitamento escolar das raparigas resultaria do facto destas disporem de um conjunto de competências, resultantes da sua socialização prévia e paralela à escola, que as colocaria em vantagem competitiva. O modelo accionalista-utilitarista reconhece os efeitos de processos de socializações prévias e paralelas à escola, distintas entre rapazes e raparigas, mas coloca em enfoque o papel que os actores têm na interpretação das oportunidades, sobretudo, em função de uma análise de custo/benefício. Neste caso, a melhor aproveitamento das raparigas pode ser justificado pelo recurso a estratégias adequadas, ainda que o contexto escolar as confronte com situações que, à partida, não lhes sejam favoráveis, nomeadamente, com o comportamento discriminatório dos professores e dos colegas, que reproduzem na escola os modelos predominantes na sociedade. Face a esta situação, as raparigas “desenvolvem as estratégias adequadas, de natureza compensatória, que estão na origem da sua vantagem em 33 aproveitamento” (Grácio, 1997, p.84). Sérgio Grácio (1997) considera que a complexidade deste fenómeno social exige uma interpretação com recursos aos dois modelos, as raparigas detêm, por via da sua socialização prévia e paralela à escola, recursos que lhes permitem, com maior sucesso, interpretar as exigências que a escola lhes coloca, em termos de socialização e de aproveitamento escolar, e, em simultâneo, accionam as estratégias adequadas para garantirem o aproveitamento das suas oportunidades e, assim, obterem os melhores resultados. No estudo de Sérgio Grácio (1997) verificou-se que “o aproveitamento escolar das raparigas no 9º ano era globalmente superior ao dos rapazes, mesmo nas disciplinas de Ciências, embora nestas disciplinas as desvantagens dos rapazes fossem menores” (p.53). Estes dados deixam perceber que as raparigas realizam mais facilmente “uma boa aprendizagem do seu ofício de alunas” (Grácio, 1997, p.74), o que justifica o seu melhor aproveitamento escolar, ainda que no contexto escolar se possam deparar com um conjunto de dificuldades, obstáculos e problemas. Ou seja, “as raparigas acabam por tirar partido das normas formalmente igualitárias da escola, graças às quais obtêm o reconhecimento das suas realizações, quando enfrentam o carácter de facto não igualitário das suas normas informais” (Grácio, 1997, p.74), situação que permite compreender a complexidade do fenómeno social e educativo em estudo. A socialização escolar tem efeitos igualitários, sobretudo, devido à existência do ensino misto. Nesse sentido, “as escolas estão entre as instituições das nossas sociedades que se proclamam mais igualitárias” (Grácio, 1997, p.46). A discriminação de género presente em múltiplos contextos – familiar, profissional, social – não está presente ou dissipa-se na escola? Os melhores resultados de aproveitamento escolar entre as raparigas comparativamente aos rapazes poderiam levar-nos a responder afirmativamente, todavia, a resposta à questão é bem mais complexa e carece de uma análise, simultânea, de várias dimensões. A investigação realizada por Sérgio Grácio (1997), em Portugal, sobre a escolha das áreas científicas no ensino secundário, as áreas de estudos e as instituições no ensino superior, a partir de uma análise do percurso escolar de 1650 estudantes, permite-nos compreender a importância da variável género no percurso escolar e a complexidade que atravessa esse fenómeno. O estudo comprova os melhores resultados no aproveitamento escolar das raparigas, porém, também destaca o modo como as raparigas têm dificuldade em reconhecer o seu potencial e usá-lo de uma forma vantajosa no secundário e no ingresso ao ensino superior. No ensino secundário “o género dos inquiridos tem sensivelmente maior influência nas escolhas do que a origem social” e “o impacto do género é particularmente elevado na passagem do 9º 34 para o 10º e 11ºanos” (Grácio, 1997, pp.39-40). Para justificar a importância do género enquanto variável que mais influencia as escolhas realizadas ao longo do percurso escolar, nomeadamente, a partir do 9º ano, o autor aponta o efeito das socializações familiares e de outras socializações mais difusas, como é o caso dos média e do perfil de distribuição socioprofissional de homens e mulheres na sociedade. Situação que permite compreender “a influência relativamente moderada das notas do 9º ano, sobretudo se confrontada com o género” (Grácio, 1997, p.41). A nota de candidatura e o género são as duas variáveis que mais influenciam as escolhas no ensino superior. A variável género tem um peso significativo no ingresso e nas opções realizadas no ensino superior. Sérgio Grácio (1997) destaca que um conjunto de raparigas com o aproveitamento mais baixo, embora semelhante a alguns dos rapazes que frequentavam o ensino superior, não chegou a ingressar, ao que tudo indica por subestimarem as suas capacidades e possibilidades de ingresso. A investigação apresenta dados que nos permitem confirmar que os rapazes e raparigas com o mesmo aproveitamento escolar e a mesma origem social são largamente influenciados nas suas escolhas, na passagem do 9º para o 10º ano, “pelo facto de serem, precisamente, rapazes ou raparigas, e que esta influência é maior do que a da origem social e a do aproveitamento escolar anterior juntos” (Grácio, 1997, p.40). Esta situação é notória na opção pelas áreas B (engenharias, tecnologias) e D (ciências jurídicas e sociais, humanidades). Na amostra “18,5% dos rapazes haviam escolhido a área B, contra 2,4% das raparigas, enquanto 45,2% destas frequentaram a área D contra 25,3% de rapazes” (p.40). No que respeita ao aproveitamento escolar, 27,3% entre as raparigas têm notas altas a Ciências e a Letras, contra 21,9% dos rapazes; 58,3% destes têm notas baixas a Ciências e a Letras contra 52% das raparigas” (p.40). Não só as raparigas têm resultados escolares globalmente superiores aos dos rapazes, como também, contrariamente à ideia que se difunde, esses resultados também são melhores nas disciplinas científicas. Torna-se claro que “os rapazes estão muito mais perto de tirar plenamente partido dos seus recursos escolares” (p.40), ingressando com mais frequência nos cursos superiores com maior prestígio social, o que os colocará em vantagem na inserção e progressão profissional. O entendimento do percurso escolar e do “mercado de trabalho estão assim ainda muito longe de ser interpretados da mesma maneira pelas raparigas e pelos rapazes” (Grácio, 1997, p.46). Os dados comprovam que as escolhas das raparigas são muito influenciadas pelas suas antecipações dos papéis profissionais e familiares “de acordo com aquelas representações – de onde resulta em especial a forte orientação das estudantes para o ensino e também para as posições profissionais de menor 35 poder” (Grácio, 1997, 47). A opção pelo ensino justifica-se, neste caso, pela expectativa que essa opção permite conciliar, mais facilmente, os papéis profissionais e familiares. O exemplo é elucidativo que as opções realizadas ao longo do percurso escolar pelas raparigas são influenciadas pela socialização segundo o género numa fase muito precoce da vida, mas também por antecipações que estas fazem de acordo com os papéis profissionais e familiares e com as oportunidades sociais existentes (Grácio, 1997). A passagem do 9º para o 10º ano é decisiva nas opções que se fazem nos momentos seguintes do percurso escolar. Na investigação realizada por Sérgio Grácio (1997) verificou-se que a área escolhida na passagem do 9º para o 10ºano “explica 52,1% da variância na escolha do curso do 12º ano e este por sua vez explica 21,8% da variância” nas escolhas no ensino superior (Grácio, 1997, p.46). Situação que reforça o impacto das questões de género no percurso escolar, uma vez que a escolha da área nesse momento decisivo é bastante marcada pelo facto de se ser rapaz ou rapariga, o que tem repercussões decisivas nas opções e nas oportunidades, quer no prosseguimento dos estudos, quer no mercado de trabalho. Deste modo, ser rapaz ou rapariga e, “imediatamente a seguir, o facto de ter já formulado projectos quanto ao curso superior com preocupações da sua aceitação no mercado de trabalho, são de longe os factores mais decisivos das escolas” (Grácio, 1997, p.46). O autor destaca a importância das socializações familiares e de outras socializações mais difusas, mas não menos importantes, como é o caso dos meios de comunicação social e da distribuição de homens e mulheres pela estrutura socioeconómica. Na escola os serviços de orientação têm, neste caso, um papel muito importante, porque uma parte dos jovens procura estes serviços e fundamenta as suas opções nesse aconselhamento. Os professores podem ter um papel considerável neste processo “não apenas na orientação de rapazes e raparigas com recursos escolares próximos, mas nos próprios processos de aquisição desses recursos” (Grácio, 1997, p.47). O estudo realizado Anne Marie Fontaine (1990) com rapazes e raparigas, de diversas origens sociais, a frequentar o 6º ano de escolaridade, também permitiu retirar uma conclusão nesse sentido – o nível de aspirações das raparigas era inferior ao dos rapazes, para qualquer origem social (p.581-582). O nível de aspirações foi avaliado a partir da disponibilidade que os sujeitos apresentavam para investir em actividades que exigissem longos períodos de aprendizagem. A autora defende a ideia que estas diferenças de género resultam factores educativos e cognitivos influenciados, desde muito cedo, pela socialização primária. A educação de meninos e meninas é diferenciada desde os primeiros anos de vida, embora os pais não o reconheçam. Os meninos são educados no sentido da aquisição da independência, da autonomia na realização de 36 actividades e na elaboração de estratégias para a resolução de problemas. A educação dada às meninas é orientada para a dependência, limitam-lhes as possibilidades de experimentação e de exploração, são entendidas como frágeis, o que justifica os comportamentos de protecção, são estimuladas a imitar, a agir de acordo com os princípios sociais estabelecidos, a obedecer e a conformar-se, as mães estimulam menos as capacidades cognitivas das suas filhas, têm expectativas mais baixas sobre o seu sucesso e as suas expectativas educativas e profissionais, as meninas são incentivadas a adoptar qualidades interpessoais, como a compreensão, a empatia, a amabilidade, o afecto, a delicadeza (Fontaine, 1990, pp.177-178). Estes elementos reforçam a importância da socialização primária na construção social da feminilidade e da masculinidade. Verificou-se que “as raparigas são mais conformistas e ansiosas do que os rapazes”, por outro lado, “os rapazes apresentam aspirações e expectativas mais elevadas” (Fontaine, 1990, p.691). Na questão do conformismo e das aspirações o estudo não revelou diferenças entre jovens de diferentes classes sociais, contudo as expectativas são superiores entre os rapazes das classes sociais mais favorecidas. As raparigas estão mais motivadas para obter sucesso, manifestam níveis de ansiedade debilitante mais altos e níveis de ansiedade estimulante mais baixos que os rapazes, são mais conformistas do que eles e têm aspirações inferiores, ainda que invistam com mais frequência na aprendizagem (Fontaine, 1990, p.701). Os resultados desta investigação permitem compreender o modo como a construção social do género, realizada na socialização primária, no contexto familiar, tem impacto na vida escolar das raparigas e dos rapazes, o que nos ajuda a interpretar as suas diferenças em termos de comportamento na escola, de insucesso e abandono escolar e das opções pelas vias de ensino. Manuela Carrito e Helena Araújo, num estudo realizado em 2013, através de focus group e entrevistas com rapazes, com histórico de insucesso escolar, procuraram compreender o modo como a construção social da(s) masculinidade(s) condiciona o percurso escolar dos jovens. A masculinidade é “a forma como cada sociedade interpreta e usa os corpos masculinos (e também femininos)” (Carrito & Araújo, 2013, p.140). As autoras afirmam que a dominação masculina exercida sobre as mulheres é socialmente legitimada e faz parte de uma ordem de género que atribui aos homens um conjunto de privilégios materiais, culturais e simbólicos. A masculinidade é definida por referência à feminilidade, para se ser reconhecido homem é necessário adoptarem-se formas de ser e de estar diferenciadoras das socialmente associadas às mulheres. Os valores da masculinidade hegemónica passam pela racionalidade, autocontrolo, sucesso na vida pública e privada, força física e competitividade o que conduz os rapazes a afastarem-se de comportamentos que indiciem vulnerabilidade, empatia, o cuidado para com o 37 outro, a compaixão e a exteriorização de emoções, por estes serem socialmente reconhecidos como femininos. A construção da feminilidade e da masculinidade faz-se nos vários tempos e espaços da vida. A família assume um lugar privilegiado nesses modelos comportamentais sobretudo durante a infância (Fontaine, 1990; Carrito & Araújo, 2013). A escola é um espaço onde se realizam muitas aprendizagens sociais na sociedade contemporânea, pelo que é necessário reconhecer também a sua importância na construção da feminilidade e da masculinidade, “recorrendo a mensagens estereotipadas sobre as possibilidades e constrangimentos disponíveis para cada sexo” (Carrito & Araújo, 2013, p.144). Embora a mensagem que se passa sobre a escola seja a de uma instituição neutra, que garante a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, sabe-se que concomitante e contrariamente a este discurso a escola é um espaço onde se transmitem as formas hegemónicas de masculinidade e de feminilidade, através da “acentuada genderização do currículo e da normalização de áreas adequadas a cada um dos sexos” (Carrito & Araújo, 2013, p.144), mas também no dia-a-dia através do processo de socialização dos vários actores intervenientes no espaço escolar. Na adolescência, o grupo de pares desempenha um papel muito importante no condicionamento dos comportamentos e na construção da identidade, por isso o grupo é “um espaço onde os jovens necessitam de se sentir seguros e aceites mesmo que isso possa implicar, por vezes, comportamentos e práticas de risco para obter a aprovação social” (Carrito & Araújo, 2013, p.144). Na sociedade contemporânea há uma grande diversidade nas formas de viver a feminilidade e a masculinidade, o que torna estes fenómenos sociais dinâmicos, difusos e o seu estudo de grande complexidade, sendo mais correcto falar-se em feminilidades e em masculinidades. Os discursos dos jovens no estudo de Carrito e Araújo (2013) revelam que a permanência na escola está associada ao objectivo de obtenção da certificação escolar obrigatória, por considerarem que esta é essencial para a inserção profissional. Contudo, os jovens “não se mobilizam verdadeiramente para o trabalho escolar, mas tentam chegar o mais longe possível com o mínimo de esforço” (p.148). Estes jovens, com percursos de insucesso escolar, valorizam a “convivialidade, a ludicidade e a despreocupação” (p.148), que vivenciam na escola. Estes jovens ao sentirem-se incapazes para responderem às exigências e à competitividade da escola assumem uma ruptura face à escola e aos valores que a norteiam, o que os conduz a adoptar estratégias de confronto para se afirmarem “face aos/às docentes, aos outros colegas e às raparigas” (p.148). Adoptam comportamentos transgressores para se afirmarem, pois estes dão “visibilidade ao seu autor, conferindo-lhe poder face ao grupo de pares” (p.149). Os rapazes 38 associam a trabalho escolar à concentração, à passividade e ao esforço, características tidas como femininas, pelo que assumem “comportamentos de rejeição à escola como um significante da sua masculinidade” (p.149), de modo a garantirem a popularidade entre os seus pares. As autoras mencionam que este fenómeno é sobretudo evidente entre os rapazes das classes populares, contudo, também pode manifestar-se em rapazes da classe média. Estes últimos, por vezes, conseguem gerir o “seu estatuto de bom aluno com índices de popularidade igualmente elevados” (p.149) entre pares. Com alguma frequência, os rapazes da classe média com elevado êxito académica aproximam-se da masculinidade normativa através da boa performance desportiva e de uma imagem que o seu êxito académico é conseguido sem esforço. Estas estratégias contribuem para “contrabalançar outras atitudes, frequentemente associadas à feminilidade, como a dedicação ao trabalho escolar, assertividade face aos professores, capacidade reflexiva, etc.” (p.149). Os alunos com sucesso, “ao contrário do que acontece com os alunos com menor aproveitamento escolar, raramente assumem contornos excessivos ou de confronto aberto com os docentes indiciando uma gestão eficiente da popularidade interpares com as normas” (p.150). Quando adoptam o papel de palhaço da turma os rapazes procuram ser o centro das atenções e fonte de diversão dos colegas, estratégia que visa aumentar a sua popularidade e garantir a integração na masculinidade hegemónica. O estudo permite compreender que os valores da masculinidade hegemónica estão presentes e marcam significativamente o comportamento dos rapazes em contexto escolar. As autoras afirmam que o estudo do comportamento face à escola, mais especificamente, das condutas perturbadoras e do baixo rendimento escolar, carece de uma perspetiva que assuma a diversidade e a complexidade, porquanto não se reduz apenas à questão da masculinidade, assumindo-se antes “como uma forma de compensação do fracasso” (p.155). Helena Araújo (2002) fez um mapeamento de estudos sobre a temática do género e educação em Portugal. A autora apresenta quatro tipos de trabalho: i) estudos que tomam as relações de género como objecto tangencial, neste caso, não se centram especificamente no tema, mas acabam por abordá-lo; ii) estudos baseados em dados estatísticos que visam a análise das desigualdades entre as raparigas e os rapazes durante o percurso escolar, sobre os estereótipos e imagens sexistas do currículo escolar, a interacção docentes-estudantes, a composição da estrutura de poder na escola, em termos de género; iii) estudos de natureza mais teórica e conceptual e com metodologias de escuta, que procuram dar voz às mulheres para compreenderem a sua visão do mundo e as suas vidas; iv) os estudos que adoptam uma perspectiva crítica sobre a visão redutora e dicotómica do masculino-feminino, que reconhecem 39 a complexidade dos fenómenos em estudo, que abordam a construção social das masculinidades e das feminilidades, da diversidade de identidade escolares, da articulação entre género, etnia e classe social a propósito do campo escolar. Usamos como referência o mapeamento realizado por Helena Araújo (2002) para apresentar alguns estudos realizados em Portugal que tratam, directa ou indirectamente, as questões de género. A análise da transmissão de estereótipos por meio dos manuais escolares, e diversos estudos (Bivar, 1975; Fontaine, 1977; Leal, 1979; Barreno, 1985, in Araújo, 2002, p.117) permitiu expor “as imagens tradicionais, os estereótipos e a existência de relações assimétricas de género que transmitem” (Araújo, 2002, p.117). Estudos mais recentes (Henriques, 1994; Fonseca, 1994; Martelo, 1999) neste domínio dão conta da reprodução de imagens conservadoras e resultantes de estereótipos tradicionais que não consideram as mudanças sociais das últimas décadas, a presença feminina em actividades não tradicionais, nem as mudanças de expectativas (Araújo, 2002, p.117). Maria José Magalhães (1998) analisa as “formas pelas quais a educação, em geral, e o sistema educativo em particular, reproduzem, mantêm e/ou contestam a subordinação das mulheres” (cit. in Araújo, 2002, p.118). Miguel Vale de Almeida (1995) estudou o modo como os jovens de classes populares, residentes em meio rural, adoptam comportamentos típicos da masculinidade hegemónica em contexto escolar (in Araújo, 2002). No estudo faz menciona o espaço escolar e os efeitos da escola nas questões de género, reforçando que a escola é um espaço de construção social da feminilidade e da masculinidade. Os rapazes que participaram na investigação manifestaram uma representação do trabalho intelectual e do trabalho manual baseada no género, este último “é associado à superioridade social da masculinidade, e o mental à inferioridade social da feminilidade” (Almeida, 1995, p.232). A importância do grupo de pares na construção da masculinidade no espaço escolar, em jovens entre os 14 e os 16 anos, é realçada no estudo de Cristina Rocha e Manuela Ferreira (2002). Para as autoras “sobreviver como rapaz entre rapazes supõe (…) a adesão e conformidade ao modelo de masculinidade desejado, dependendo esta da capacidade individual de gerir as impressões junto dos outros” (p.61, cit in Araújo, 2002). Araújo (2002) identifica um estudo realizado numa escola da região Norte do país, em que se percebe que nos jovens de classes sociais desfavorecidas “é mais frequente uma associação entre trabalho escolar como pouco apropriado a uma masculinidade que se quer afirmar dentro de parâmetros dominantes” (p.130). 40 Lígia Amâncio (2004) destaca como os rapazes, influenciados pela masculinidade hegemónica, adoptam comportamentos baseados na força física, na agressividade e virilidade, em contexto escolar, comportamentos propícios a gerar problemas de aproveitamento escolar, de insucesso e de abandono escolar (in Araújo, 2002). Na escola, estes jovens vêm-se frequentemente confrontados com a responsabilização individual relativamente ao aproveitamento escolar, por isso as notas baixas, as negativas e as reprovações são motivos de humilhação, aos quais procuram responder com estratégias que correspondam aos ideais de masculinidade hegemónica. O estudo de Teixeira Lopes (1996) apresenta elementos importantes sobre a questão do género nas práticas culturais dos estudantes. O autor menciona a existência de uma “flagrante persistência de um modelo assimétrico de divisão sexual do trabalho penalizador das mulheres e de um controle familiar sobre os tempos livres das raparigas” (pp.40-41, cit. in Araújo, 2002, p.120), situações particularmente notórias em meios rurais. Apesar da composição mista da população escolar, mantém-se estereótipos, “fortemente radicados na socialização primária e nos processos de construção de género, bem como nos factores segregacionistas da segmentação do mercado de trabalho, responsável pela interiorização de futuros profissionais possíveis” (Lopes, 1996, p.179, in Araújo, 2002). Stoer e Araújo (1992, 2000) focam as culturas femininas e masculinas na escola e na comunidade, revelando “a assimetria de poderes que sobre cada um destes grupos se exerce, em particular sobre a família” (in Araújo, 2002, p.120). Nos estudos que realizaram verificaram que, habitualmente, as raparigas estão sujeitas a um maior controlo por parte dos pais e são implicadas nas tarefas domésticas e do campo, enquanto os rapazes, após os 14 anos, gozam de uma maior autonomia e mobilidade. Laura Fonseca (2001) no estudo que desenvolveu teve como foco central as relações de género e sublinha que as raparigas “mesmo nos casos em que têm sucesso académico, o prato da balança não se equilibra a seu favor, evidenciando que o sucesso educativo não coincide completamente com o sucesso académico” (p.198, in Araújo, 2002). No estudo refere ainda que as raparigas vivenciam na escola “culturas formais e informais masculinas hegemónicas que tomam as suas culturas como subordinadas” (p.198). A investigadora capta “tensões fortes entre determinismos estruturais nas suas vidas e uma agência humana que reformula os seus contornos, numa procura de expressar a vida em consonância com aspirações e sonhos” (in Araújo, 2002, p.121). A investigação coordenada por Ana Nunes de Almeida (2013) reforça alguns dos elementos anteriormente indicados. O estudo sobre o sucesso, o insucesso e o abandono na Universidade de Lisboa revela que “as raparigas apresentam um perfil etário mais jovem” (p.20), o que decorre 41 da realização de percursos escolares distintos em função do género, induzindo-se maior taxa de reprovação entre os rapazes. A análise da reprovação no ensino básico e secundário confirma que as raparigas reprovaram menos vezes do que os rapazes. Ou seja, entre as raparigas regista-se uma maior taxa de sucesso, o que pode ser justificado com processos de socialização genderizados que lhes permitem uma maior adesão à cultura escolar e ao ofício de aluno. O estudo corrobora a ideia que as escolhas escolares, nas áreas de estudo, variam em função do género, contudo as raparigas evidenciam uma maior diversidade de escolhas, ou seja, mais do que os rapazes “estão a romper com os estereótipos vocacionais e profissionais associados ao género” (p.22). De seguida apresentam-se alguns elementos sobre investigações realizadas no estrangeiro, para complementar a informação já mencionada. O conhecimento produzido neste domínio, embora escasso, permite-nos tecer um conjunto de considerações importantes na análise dos dados empíricos recolhidos no presente estudo. 3. Insucesso e Abandono Escolar: Um Olhar sobre o Panorama Internacional Os fenómenos do insucesso e do abandono escolar têm sido objeto de investigação por parte de diferentes campos do conhecimento, como é o caso da Psicologia, da Sociologia e das Ciências da Educação. Neste âmbito, as investigações que têm sido desenvolvidas, apesar de terem como objeto de estudo o insucesso e o abandono escolar, diferenciam-se em termos das questões de estudo, das hipóteses colocadas e das abordagens metodológicas seguidas. A título de exemplo, as investigações no âmbito da Psicologia no que concerne ao insucesso e ao abandono escolar têm incidido no estudo de fatores cognitivos, comportamentais e interpessoais (Saraiva, Pereira & Zamith-Cruz, 2011; Miguel, Rijo & Lima, 2012), do auto-conceito (Silva & Fleith, 2005), das relações de poder entre pares e comportamentos violentos (Farmer et al., 2003; Staff & Kreager, 2008; Saraiva, Pereira & Zamith-Cruz, 2011) e da qualidade das relações familiares (Bayma-Freire, Machado & Roazzi, 2011). Já o presente estudo inscreve-se numa perspetiva de análise mais ampla do fenómeno do insucesso e do abandono escolar, ancorandonos nos contributos que advêm da Sociologia da Educação e dos Estudos de Género. A investigação, realizada a nível internacional, nesta área tem mostrado que o insucesso e o abandono escolar são mais elevados entre os rapazes. No Canadá verificou-se que o abandono escolar antes da conclusão do ensino secundário é superior nos rapazes relativamente às raparigas. Para além disso, estas obtêm melhor aproveitamento escolar do que os rapazes desde a escola primária, padrão que se mantém também no ensino secundário (Bouchard & 42 Saint-Amant, 1993). Em Inglaterra e no País de Gales, as estatísticas oficiais revelam que os rapazes obtêm resultados ao nível do desempenho escolar inferiores aos alcançados pelas raparigas, em avaliações que têm lugar por volta dos 15 e dos 16 anos (Griffin, 2000; Burns & Bracey, 2001). Também no Brasil, país com diferenças socioeconómicas acentuadas e com uma taxa de escolarização da população baixa, são os alunos do género masculino os mais atingidos pelo insucesso escolar (Pinto, 2005). No panorama internacional, à semelhança do que tem acontecido em Portugal, a presença de estudantes do género feminino no sistema de ensino, sofreu um aumento, que teve início no século XX. Em França, foi no início da década de 70 do século passado que o número de raparigas igualou o número de rapazes no ensino superior, e a partir da década de 80 os rapazes foram ultrapassados pelas raparigas (Baudelot & Establet, 2006). A superioridade das raparigas observa-se em todas as classes sociais e o efeito que a origem social tem na escolaridade é muito menos acentuado nas raparigas do que nos rapazes. O êxito ao nível do desempenho escolar tem logo início ao nível do ensino primário (Duru-Bellat, 1990). No entanto, o êxito escolar das raparigas não é acompanhado pelo sucesso profissional, uma vez que se verificam desigualdades ao nível do salário, dificuldades no que diz respeito a promoções e sobrecarga com tarefas domésticas (Baudelot & Establet, 2006). Diversos estudos têm mostrado diferenças ao nível do sucesso escolar entre rapazes e raparigas no que diz respeito às disciplinas estudadas. Ainda que o estabelecimento de comparações ao nível internacional seja um processo difícil de conseguir, de uma forma geral os rapazes têm melhores resultados escolares em matérias curriculares científicas e as raparigas alcançam notas mais elevadas em literatura (Duru-Bellat, 1990; Baudelot & Establet, 2006). Mesmo ao nível do ensino primário verificou-se que as raparigas obtinham melhores notas na língua materna, francês no caso em análise. No entanto, verifica-se uma tendência geral para um melhor aproveitamento escolar das raparigas nos primeiros níveis de ensino, independentemente das matérias (Duru-Bellat, 1990). Contudo, quando os estudantes são solicitados a descrever as escolhas vocacionais, as raparigas optam por profissões ligadas à saúde e ao ensino, e os rapazes escolhem profissões estereotipadas como masculinas como engenheiro, arquiteto, empresário, informático e piloto de aviões (Duru-Bellat, 1995; García, Palacios & Evans, 2010). Mesmo quando os estudantes de ambos os géneros referem profissões científicas, nota-se uma polarização caraterizada pela opção pelas engenharias e pela informática por parte dos rapazes e a preferência pela área da saúde, das ciências da vida e da química por parte das raparigas (Duru-Bellat, 1995). Há também a destacar que em termos de 43 projetos para o futuro, as raparigas são mais ambiciosas do que os rapazes, independentemente da origem social, sendo também mais resistentes à experiência de obtenção de maus resultados escolares, isto é, um aproveitamento escolar menos abonatório têm um impacte mais reduzido no desejo de prosseguimento de estudos (Terrail, 1992). Contudo Terrail (1992) vem lembrar que a promoção escolar das raparigas não aboliu a discriminação em termos de género ao nível das profissões, confinando-as a empregos considerados femininos, enquanto os rapazes ocupam posições socioprofissionais dominantes. Num estudo efetuado por Burns e Bracey (2001) em três escolas de tamanho semelhante, situadas nas Midlands (Inglaterra), os autores verificaram que em todas elas as raparigas obtinham melhores resultados escolares do que os rapazes. Nesta investigação os diretores das escolas foram entrevistados, e apontaram o nível de literacia como sendo um fator chave explicativo dos resultados inferiores obtidos pelos rapazes relativamente às raparigas. Os rapazes estavam menos preparados em atividades de leitura e enfrentavam maiores dificuldades em tarefas de natureza escrita. Os diretores também apontaram como fator explicativo o menor valor que os rapazes atribuem à escola e à escolarização, comparando com outras áreas das suas vidas, como é o caso do convívio com os amigos. Jackson (2003), numa investigação que conduziu e que assentou na realização de 50 entrevistas semi-estruturadas a rapazes que frequentavam duas escolas em Inglaterra, apercebeu-se que os rapazes utilizam mecanismos de defesa para explicarem os maus resultados escolares. Eles tendem a ocultar o trabalho e o esforço aplicado nas tarefas escolares (como fazer a revisão dos conteúdos antes de um exame ou teste) ou a utilizar o argumento de que não tiveram tempo para se prepararem. Estas estratégias são utilizadas, ainda que de uma forma não totalmente consciente, para desviar a atenção do grupo de pares de uma possível falta de aptidões individuais. Se o grupo considerasse que os maus resultados escolares resultavam da falta de aptidões cognitivas, estes rapazes seriam mal vistos pelos pares, correndo o risco de se verem afastados do seu grupo de pertença. Na perspetiva dos rapazes, o empenho e o envolvimento nos estudos é inconsistente com os modelos dominantes de masculinidade. Alcançar bons resultados per se não é encarado como um problema, estudar com afinco para obter bons resultados escolares é que é mal visto. Os rapazes encaram o sucesso escolar obtido sem esforço como sendo fruto da posse de aptidões individuais. No entanto, esta interpretação também proporciona uma desculpa muito conveniente se o sucesso não for alcançado, uma vez que o insucesso provocado pela falta de investimento nas atividades e responsabilidades escolares não indica necessariamente falta de aptidões inteletuais. Contudo, alcançar sucesso 44 na escola sem a existência de trabalho prévio é sinónimo de genialidade. Jackson (2003) constatou que os rapazes têm tendência a esconder dos seus colegas, o trabalho e o esforço aplicado nas tarefas escolares. De acordo com a autora, este comportamento poderá ter uma dupla função. Por um lado, os rapazes comportam-se de forma consistente com a perspetiva hegemónica de masculinidade presente nas escolas. E, por outro, esta estratégia proporciona uma desculpa para o insucesso, caso ele venha a verificar-se. Diversos estudos têm mostrado uma ligação entre a qualidade das experiências que os rapazes têm em contexto escolar e o abandono escolar precoce. Harrington (2008), numa investigação qualitativa desenvolvida com 22 rapazes australianos que abandonaram a escola antes de concluírem o ensino secundário, verificou que esta decisão resultava de um relacionamento pobre com os professores, caraterizado pela falta de preocupação relativamente à progressão escolar dos alunos, pelo sentimento de desapontamento e de falta de esperança gerado no diaa-dia escolar e pelo confronto com a autoridade. Beekhoven e Dekkers (2005), numa investigação que combinou dados de natureza quantitativa e qualitativa referentes ao percurso escolar correspondente aos ensinos de nível primário e secundário na Holanda, constataram que os rapazes que abandonaram a escola entre os 16 e os 18 anos eram provenientes de famílias com baixos recursos socioeconómico, não evidenciavam comportamentos de identificação e de envolvimento com a escola, o que os levou a procurar outras alternativas, como começar a trabalhar. No México a taxa de abandono escolar ao nível do ensino secundário também é superior nos rapazes (García, Palacios & Evans, 2010). Os rapazes, quando questionados acerca das razões que os levaram a abandonar a escola, apontaram como principal motivo a falta de interesse pelos conteúdos curriculares. Como medidas para ultrapassar o aborrecimento e para promover a motivação na sala de aula, os alunos referem uma pedagogia assente no respeito por si próprios e pelas diferenças na sala de aula. Já os professores imputam o fracasso escolar sobretudo aos alunos, apontando a falta de capacidade e de aptidões cognitivas, a falta de motivação e de vontade, e a reduzida valorização do estudo, como principais motivos para o fenómeno. Também estabelecem uma relação entre o mau comportamento e baixo rendimento escolar. Os professores referem ainda como motivos para o abandono, aspetos da vida extraescolar dos alunos, tais como: expetativas em relação ao futuro, condicionadas pelo ambiente familiar e comunitário; dinâmica familiar caraterizada pela precariedade económica, violência conjugal, problemas aditivos e prostituição; inserção precoce no mercado de trabalho; 45 comportamentos de risco como consumo de álcool e de outras drogas; e gravidez precoce. De acordo com García, Palacios e Evans (2010), os elementos socioculturais que configuram a desigualdade e a discriminação de género modificam os processos intra e extra-escolares que incidem sobre o abandono escolar por parte dos alunos e das alunas. Em alguns países como a Inglaterra e a Escócia tem havido um debate político relativamente à composição em termos de género do corpo docente, principalmente no que concerne aos primeiros anos de ensino. Carrington et al. (2007) e Carrington e McPhee (2008) desenvolveram um estudo qualitativo em escolas inglesas do primeiro ciclo do ensino básico, junto de alunos e de professores que lecionavam na faixa etária dos 7 e dos 8 anos de idade, e junto de alunos nesse escalão etário. A maioria dos professores que participou na investigação, independentemente do género, encarou de forma positiva a implementação de medidas políticas que tivessem o objetivo de aumentar o número de professores homens nas escolas primárias (Carrington & McPhee, 2008). A maioria dos professores entrevistados acredita que o aumento do número de professores do género masculino pode ajudar a reduzir a diferença que existe entre os rapazes e as raparigas em termos de sucesso escolar. Apesar de em alguns países haver um debate aceso acerca de políticas de recrutamento de professores mais equitativas em termos de género no ensino básico, visando o aumento do número de professores do género masculino, não há evidências significativas que mostrem que as crianças tenham maior afinidade por professores do mesmo género, ou mesmo que se identifiquem com eles (Carrington et al., 2007). A investigação conduzida pelos autores junto de alunos de 7 e 8 anos a frequentarem o ensino básico em Inglaterra, revela que não existem evidências que apoiem a perspetiva de que a efeminização do corpo docente nos primeiros anos do sistema de ensino tenha um efeito adverso no envolvimento e na motivação escolar dos rapazes. Aliás, os alunos tendem a valorizar as aptidões pedagógicas e interpessoais dos professores, como a capacidade para motivarem e ensinarem, independentemente do género destes. 4. Insucesso e Abandono Escolar: Modelos e Teorias Explicativos As investigações sobre a influência das questões do género no insucesso e no abandono escolar precoce têm vindo a fundamentar-se em dois modelos – o modelo culturalista-estruturalista e o modelo accionalista-utilitarista (Grácio, 1997). É importante retomar os elementos sobre estas 46 duas teorias para compreendermos os resultados das investigações. De acordo com o modelo culturalista-estruturalista, a socialização diferenciada em função do género, especialmente a que tem lugar nos primeiros anos do desenvolvimento das crianças, seria em grande medida responsável pela incorporação de disposições femininas e masculinas, que vão influenciar os comportamentos no futuro. No modelo culturalista-estruturalista podem considerar-se as teorias da socialização familiar, que vêm salientar que as atitudes, os comportamentos e as intervenções educativas dos pais podem influenciar a perseverança escolar dos filhos. Os pais tendem a projetar nos filhos as suas convições acerca dos papéis sexuais, o que transparece no tipo de brinquedos que oferecem aos filhos, na correção de comportamentos que são julgados inapropriados ao género ou nas cores das roupas com que vestem os filhos. Estes, desde o período pré-escolar, incorporam as regras consideradas adequadas pelos pais em função do género. Os filhos são socializados pelos pais através do reforço e da repressão de comportamentos considerados apropriados ao género. Os modelos de comportamento social considerados apropriados constituem o material a partir do qual as crianças vão construir as categorias de género, que vão orientar os seus comportamentos no futuro. As crianças vão buscar ao ambiente os modelos de comportamento de género, incorporando desta forma as atitudes e os traços típicos do seu género, que uma vez formados são muito difíceis de modificar. É fruto deste processo de socialização que se espera que as raparigas sejam obedientes, dóceis e organizadas e tenham menos capacidade de escolha autónoma nas suas atividades. Investigações realizadas nos Estados Unidos, em Inglaterra e na Suécia vêm mostrar que a valorização do comportamento feminino estereotipado na escola contribui para os resultados escolares das raparigas no curto prazo, mas a longo prazo torna-se prejudicial em termos da capacidade de aprendizagem, do desenvolvimento intelectual e da capacidade de adaptação à vida adulta (Bouchard & Saint-Amant, 1993). Do lado dos rapazes verifica-se uma diferença ao nível da socialização que ocorre na família. Os pais são mais exigentes com os filhos com o objetivo de os prepararem para o papel de homem. A exigência que os pais inculcam nos filhos vai transmitir-lhes de forma implícita a mensagem que eles têm mais valor do que as raparigas, motivando-os a desenvolver aptidões ao nível da autoconfiança, da autonomia e da resolução de problemas. A autoconfiança pode ser responsável pela assunção de que a conclusão do ensino secundário não é necessária para terem sucesso na vida e, por isso, abandonam a escola. 47 Diversas investigações evidenciam que a escola reforça disposições caraterísticas da socialização feminina, tais como maior autonomia e autocontrolo, maior maturidade, e maior estabilidade motora (Bouchard & Saint-Amant, 1993; Baudelot & Establet, 2006). As raparigas são também mais calmas, dóceis e obedientes do que os rapazes, e investem melhor o papel de estudante. Estes recursos disposicionais das raparigas permitem-lhes obter bons resultados escolares e serem apreciadas pelos professores, tanto ao nível do sucesso alcançado, como dos comportamentos e das atitudes evidenciados durante as aulas. As raparigas aproximam-se mais das representações que os professores têm do que é ser um bom aluno, julgamento que em geral é utilizado para caraterizar alguém que é aplicado nos estudos, presta atenção nas aulas, e não exibe comportamentos de irrequietude e que despoletem instabilidade na sala de aula. O facto de as raparigas possuírem um conjunto de disposições mais ajustadas ao espaço escolar, tal como ele é pensado pelos professores, coloca-as aparentemente em vantagem face aos rapazes. Para além disso, há ainda a referir que a escola, enquanto espaço fortemente relacional, mobiliza competências ao nível da leitura das emoções e consequente resposta ajustada, recursos adquiridos durante a socialização feminina (Grácio, 1997). As teorias da socialização escolar vêm referir que os rapazes vivem um conflito de identidade que se inicia aquando da entrada na escola, uma vez que a socialização de que foram alvo reforça a atividade motora e a expressão corporal (Bouchard & Saint-Amant, 1993). Para além disso, a escola reforça outro tipo de comportamentos caraterizados pela contenção e pela calma, exigências escolares mais facilmente alcançadas pelas raparigas. As consequências que advêm das diferenças de socialização entre as raparigas e os rapazes têm repercussões ao nível do sucesso escolar. Por outro lado, os rapazes distanciam-se do perfil feminino de sucesso escolar adotado pelas raparigas, para evitarem ser rejeitados pelos seus pares. Para além disso, o estudo perspetivado como forma de alcançar bons resultados escolares é encarado por eles como estando em oposição com as caraterísticas que associam à masculinidade. A inadaptação escolar e os problemas comportamentais dos rapazes, fatores de risco para o abandono escolar, podem ser vistos como uma manifestação da pressão a que estão expostos, no que diz respeito à conformação com os estereótipos associados ao género masculino, de resistência ao sistema escolar. Estes factores relacionados com a socialização ajudam-nos a compreender as diferenças de género no sucesso e abandono escolar precoce. O modelo accionalista-utilitarista também contribui para se compreender as opções efetuadas pelos estudantes rapazes e raparigas no decorrer dos seus percursos escolares. De acordo com este modelo, os rapazes e as raparigas ajustam as suas expetativas e investimentos pessoais às 48 oportunidades futuras nas estruturas sociais, produtivas e familiares em que esperam vir a participar (Grácio, 1997). As investigações que se têm debruçado sobre as escolhas vocacionais em termos de uma profissão a exercer no futuro têm fornecido dados que são subsidiários deste modelo. Diversos estudos têm mostrado que os rapazes optam por cursos superiores ligados às engenharias, enquanto as raparigas preferem cursos que dêem acesso a profissões na área do ensino. No que concerne à decisão formulada pelas raparigas, há a destacar a maior facilidade de conciliação entre os papéis profissionais e familiares que as profissões ligadas ao ensino permitem. Se bem que a socialização segundo o género nos primeiros anos de vida desempenhe um papel importante nas escolhas vocacionais efetuadas pelos rapazes e pelas raparigas em idade escolar, posição enfatizada pelo modelo culturalista-estruturalista, “as suas antecipações, num determinado quadro de oportunidades criado pelas estruturas sociais actualmente existentes” é igualmente importante (Grácio, 1997, p. 65). Mais recentemente surgiu o modelo performativo no estudo das questões de género. Os defensores deste modelo assumem uma perspectiva crítica relativamente aos modelos sociológicos anteriormente identificados destacando que as teorias de socialização de género transmitiam a ideia de que o género era constituído por volta dos cinco anos, e era estático, não sofrendo alterações, de forma semelhante ao sexo (West & Zirmmerman, 1987). A inadequação destes modelos resulta de diversos fatores, nomeadamente de se basearem numa ideia de "consenso, estabilidade e continuidade" (Stacey & Thorne 1985, p. 307), “com um focus despolitizado e sem continuidade histórica” (Thorne 1980, p. 9; cit in West & Zirmmerman, 1987; Stacey & Thome 1985, p.307), e da dimensão social depender do pressuposto das pessoas optarem por manter os costumes existentes (Connell 1985, cit in West & Zirmmerman, 1987). Como alternativa, o modelo performativo baseia-se no princípio de que a construção do género é um processo permanente, mutante e resultante de permanentes interações sociais. Para transmitir essa ideia de processo, diz-se que a construção do género é levada a cabo pelos homens e pelas mulheres cujas competências enquanto membros da sociedade tornam-nos reféns da sua produção (West & Zirmmerman, 1987). A contrução do género envolve perceções sociais complexas e atividades micropolíticas e de interação social que conduzem à procura de expressões de natureza masculina e feminina (West & Zirmmerman, 1987). Os autores filiados nesta perspectiva consideram que a abordagem sociológica, ignora e torna invisível o contributo da acção e da monitorização quotidiana dos sujeitos na construção da(s) feminilidade(s) e da(s) masculinidade(s) (West & Zirmmerman, 1987; Pereira, 2009). Assumir que o género “não é só fluidez, contextualidade, agência ou negociação, mas também fixação, constrangimento, 49 estabilidade e reprodução” (Pereira, 2009, p.125), permite uma abordagem mais integrada, que respeita a diversidade e complexidade inerentes às questões do género. É nessa linha de pensamento que nos posicionamos. Na sociedade contemporânea há uma grande diversidade nas formas de viver a feminilidade e a masculinidade, o que torna estes fenómenos sociais dinâmicos e difusos, sendo mais correcto falar-se em feminilidades e em masculinidades. As teorias e os modelos explicativos ajudam-nos a compreender a complexidade do fenómeno em estudo – o insucesso e o abandono escolar precoce numa perpetiva de género. A compreensão deste fenómeno passa pelo reconhecimento da sua complexidade, devido ao conjunto amplo e diversificado de factores que interferem no aproveitamento escolar e no abandono escolar precoce. A socialização primária é um elemento que condiciona a vida de cada sujeito, contudo, trata-se de um processo dinâmico, porque vai cruzar-se ao longo da sua vida com um conjunto de outras socializações, nomeadamente, com socialização realizada na escola e com a socialização de pares, muito notória na adolescência. A forma singular como cada sujeito se apropria das influências desses processos de socialização, está na base da especificidade de cada sujeito e justifica a dificuldade de generalizações, sem risco de simplificação dos fenómenos em estudo. Apesar das dificuldades apontadas, é importante destacar que esta diferença entre rapazes e raparigas é sobretudo notória nas classes sociais mais desfavorecidas, o que coloca em evidência a importância da classe social de origem no estudo deste fenómeno. O conhecimento produzido nas investigações realizadas, no estrangeiro e em Portugal, é um importante contributo para a análise das formas de viver a escola por parte de rapazes e raparigas, como se pretende neste estudo, a partir de uma leitura das representações dos vários atores envolvidos – alunas e alunos, a direcção da escola, professoras e professores, auxiliares de acção educativa, mães e pais. 50 CAPÍTULO III INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR – CONTRIBUTOS DOS DADOS ESTATÍSTICOS INTERNACIONAIS E NACIONAIS 51 1. Nota prévia Neste ponto do Relatório Final do estudo “Insucesso e Abandono Escolar Numa Perspetiva de Género”, apresenta-se uma caraterização da problemática objeto da investigação tendo por base dados estatísticos produzidos e divulgados por organismos internacionais (OCDE, Comissão Europeia, EUROSTAT) e os dados administrativos existentes na base MISI disponibilizada pelo Ministério da Educação que reúne informação sobre alunos do ensino básico e secundário matriculados pela primeira vez num desses ciclos no ano letivo 2007/2008 e que são acompanhados ao longo do seu percurso escolar até 2009/2010. A análise dos dados produzidos pelos organismos internacionais permite-nos analisar a evolução das taxas do abandono escolar precoce nos países da União Europeia e as performances académicas dos estudantes nos países da OCDE, medidas através dos resultados do PISA 2012, quer em termos globais quer ventilados pela variável género. No plano nacional, o exercício realizado a partir dos registos existentes na base MISI apura as taxas de transição/conclusão, retenção e abandono dos alunos do ensino básico e secundário segundo o sexo. A comparação das taxas referidas segundo o sexo é feita por ano de escolaridade, região e escola. A análise desenvolvida permite caracterizar as diferenças de género relativamente ao insucesso e abandono escolar, evidenciando o modo como esta se expressa através dos indicadores considerados e as diferenças existentes ao longo do percurso escolar e das regiões. Também se analisaram as diferenças por escola sendo que, naturalmente, pela extensão que implica o detalhe desta informação, apenas parcialmente se convocou a mesma na leitura dos resultados obtidos. Além da análise de caracterização das taxas de transição/conclusão, retenção e abandono nos termos acima referidos, neste ponto inclui-se, também, uma leitura global dessas taxas segundo duas variáveis de caracterização dos alunos, isto é, o escalão de beneficiário da ação social escolar e a escolaridade dos pais. Este exercício constitui uma primeira aproximação à procura de fatores explicativos para a existência de diferenças nos indicadores de desempenho escolar considerados. Nesta linha de abordagem à identificação de fatores explicativos das diferenças de género a partir dos dados de caracterização dos alunos disponíveis na base, o capítulo conclui-se 52 apresentado os resultados de uma análise estatística – Regressão Logística – que relaciona a variável dependente retenção com um conjunto de variáveis independentes de caracterização dos alunos, procurando identificar por esta via pistas que apoiem na identificação de atributos socioeducativos as diferenças de género identificadas ao nível do desempenho académico. Assim, neste ponto introduz-se a abordagem aos fatores explicativos do fenómeno do abandono tendo por base a exploração dos dados administrativos coligidos na base de dados disponibilizada. Posteriormente, estas abordagens são complementadas com os vários instrumentos adicionais de recolha de informação contemplados no roteiro do estudo. 2. Uma perspetiva de género no abandono escolar precoce: análise internacional O abandono escolar precoce é considerado pela União Europeia como um dos mais graves problemas educativos. Um press release da Comissão Europeia datado de 2011 enuncia, de forma clara, os custos económicos e sociais do fenómeno “O abandono escolar precoce provoca elevados custos individuais, sociais e económicos. Os jovens sem o ensino secundário são mais afectados pelo desemprego, tem mais probabilidades de dependerem de benefícios sociais e apresentam um maior risco face à exclusão social. O abandono escolar precoce afeta os rendimentos ao longo da vida, o bem-estar e a saúde. O abandono escolar precoce tem efeitos negativos a longo prazo no desenvolvimento social e no crescimento económico. A inovação e o crescimento assentam numa força de trabalho qualificada: a redução do abandono escolar precoce em apenas 1pp contribuirá, anualmente, para um acréscimo de cerca de um milhão de jovens qualificados.” (EC, 2011, p.1) A redução do abandono escolar precoce constitui uma das prioridades do quadro estratégico para a cooperação europeia no domínio da educação e formação. A União Europeia prevê a diminuição da taxa média de abandono escolar precoce até 2020, colocando a meta abaixo dos 10%. Neste sentido os estados membros acordaram ao mais alto nível político a definição de metas nacionais para a redução do abandono escolar precoce, tendo em conta a posição de partida e as condições específicas de cada país membro (EC, 2011b, p.8). A análise das taxas de abandono escolar precoce entre 2000 e 2013 permite verificar a existência de uma tendência para a redução da incidência deste fenómeno educativo na generalidade dos países da União Europeia, ainda que se mantenham fortes assimetrias no espaço europeu. Numa primeira abordagem, os 28 países que constituem a União Europeia 53 podem ser divididos em 2 grandes grupos: o que integra os estados membros que em 2013 já tinham atingido a meta fixada para 2020; e o composto pelos países que apresentavam taxas de abandono escolar precoce superiores a 10%. Fazem parte do primeiro grupo Croácia, Eslovénia, República Checa, Polónia, Lituânia, Eslováquia, Suécia, Áustria, Dinamarca, Irlanda, Chipre, Países Baixos, Luxemburgo, Finlândia, Estónia, França, Letónia, Alemanha e Grécia. Constituem o segundo Bélgica, Hungria, Reino Unido, Bulgária, Itália, Roménia, Portugal, Espanha e Malta. No entanto, uma análise mais detalhada permite identificar quatro perfis distintos de evolução das taxas de abandono escolar precoce no período compreendido entre 2000 e 2013. O primeiro perfil é constituído pelos países onde o abandono tem vindo a diminuir de uma forma constante e que em 2013 registam taxas inferiores a 10%. Integram este grupo Lituânia, Irlanda, Chipre, Países Baixos, Luxemburgo, Estónia, França, Letónia, Alemanha e Grécia. O segundo perfil partilha com o primeiro o fato de em 2013 a taxa ser inferior a 10%, mas distingue-se do anterior por este indicador revelar um comportamento errático ao longo do período. Fazem parte deste grupo Croácia, República Checa, Polónia, Suécia, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Finlândia. Estes dois últimos países apresentam ainda a particularidade de serem os únicos onde a taxa de abandono escolar precoce tem em 2013 valores superiores aos registados em 2000. 54 Quadro 1. Evolução das taxas de abandono escolar precoce na União Europeia (2000-2013) 2000 EU 28 2006 2007 2010 2011 2012 2013 17.6 15.3 14.8 13.9 13.4 12.7 11.9 Croácia 8.3 5.3 3.9 3.7 4.1 4.2 3.7 Eslovénia 7.5 5.2 4.3 5 4.2 4.4 3.9 5.5 5.5 5.5 4.9 4.9 5.5 5.4 Polónia 7.9 5.6 5 5.4 5.6 5.7 5.6 Lituânia 16.7 10.3 8.7 8.1 7.2 6.5 6.3 Eslováquia 5.6 6.4 7.2 4.7 5 5.3 6.4 Suécia 7.7 12 12 6.5 6.6 7.5 7.1 Áustria 10.2 9.6 10.9 8.3 8.3 7.6 7.3 Dinamarca 11.6 10.9 12.4 11 9.6 9.1 8 Irlanda 14.7 12.3 11.5 11.5 10.8 9.7 8.4 Chipre 18.5 16 12.6 12.7 11.3 11.4 9.1 15.5 12.9 12 10 9.1 8.8 9.2 Luxemburgo 16.8 17.4 15.1 7.1 6.2 8.1 6.1 Finlândia 8.9 8.3 7.9 10.3 9.8 8.9 9.3 Estónia 14.2 13.2 14.3 11.6 10.9 10.5 9.7 França 13.3 13.1 12.7 12.6 12 11.6 9.7 Letónia 19.5 19 16 13.3 11.6 10.5 9.8 Alemanha 14.9 13.8 12.7 11.9 11.7 10.5 9.9 Grécia 18.2 15.9 14.7 13.7 13.1 11.4 10.1 Bélgica 12.5 12.6 12.3 11.9 12.3 12 11 Hungria 13.8 12.4 10.9 10.5 11.2 11.5 11.8 18.4 13 13 14.9 15 13.5 12.4 Bulgária 20.3 18 16.6 13.9 11.8 12.5 12.5 Itália 25.3 20.8 19.3 18.8 18.2 17.6 17 Roménia 22.3 19 19.2 18.4 17.5 17.4 17.3 Portugal 42.6 39.2 36.3 28.7 23.2 20.8 19.2 Espanha 29.1 29.9 31 28.4 26.5 24.9 23.5 Malta 54.2 41.7 37.6 23.8 22.7 22.6 s/dados República Checa Países Baixos R. Unido Fonte: EUROSTAT O terceiro perfil corresponde aos estados cuja taxa de abandono escolar precoce é superior a 10% em 2013. Os países que compõem este grupo apresentam ainda como denominador comum uma diminuição constante e sustentada ao longo do período. Integram este perfil Bulgária, Itália, Roménia, Malta e Portugal. Malta e Portugal são aliás os países da União Europeia onde os progressos foram mais acentuados com a taxa a apresentar uma diminuição de 31,6 p.p. e 23,4 p.p., respetivamente. 55 O quarto e último perfil partilha com o anterior taxas de abandono superiores a 10% mas o elemento distintivo reside no comportamento errático deste indicador entre 2000 e 2013. Fazem parte deste perfil Reino Unido, Bélgica, Hungria e Espanha. A redução generalizada nas taxas de abandono escolar nos países da União Europeia não foi acompanhada pela construção de uma efetiva paridade de género. No espaço europeu são os rapazes que apresentam as taxas de abandono escolar mais elevadas, sendo poucas as exceções a esta regra. A Bulgária é o único país onde, de uma forma mais sistemática, o abandono escolar precoce atinge mais as raparigas. No entanto, é também um dos poucos estados membros onde a paridade de género está mais próxima de ser uma realidade. A análise da diferença entre as taxas de abandono escolar precoce de rapazes e raparigas entre 2000 e 2013 é reveladora de acentuadas disparidades no espaço europeu. Uma primeira abordagem permite-nos distribuir os 28 países por dois grandes grupos: o dos que, em 2013, apresentam um gap inferior à média europeia que se situava em 3,7p.p. e o dos que revelam um valor superior. Os países onde a diferença entre as taxas de abandono escolar precoce é inferior a 3,7p.p. são Croácia, Eslovénia, República Checa, Lituânia, Eslováquia, Suécia, Áustria, Irlanda, Países baixos, Finlândia, França, Alemanha, Reino Unido, Hungria e Roménia. Os restantes estados membros integram o grupo onde a diferença é superior, chegando nalguns casos a ser mais do dobro da média europeia. Encontram-se nesta situação Chipre, Estónia, Portugal, Espanha e Malta. 56 Quadro 2. Gap entre as taxas de abandono escolar precoce masculina e feminina na EU (2000-2013) 2000 2006 2007 2010 2011 2012 2013 4.1 4.3 4.2 3.8 3.8 3.5 3.4 Croácia 1.7 1.8 s/d 2 1.4 1 2 Eslovénia 3.7 3.6 3 3.1 3.2 2.2 2.4 Rep.Checa -0.4 0.3 0.3 0.1 1 1.2 -0.1 Polónia 3.7 3.4 2.8 3.7 3.6 4.3 4.7 Lituânia 3.6 6.3 5.5 3.7 5.2 3.6 3.1 Eslováquia 2.1 1.8 1.8 -0.3 0.8 1.4 0.6 Suécia 3 2.6 2.6 2 2.4 2.2 1.7 Áustria -1.1 -0.5 1.4 0.2 1 0.6 0.7 Dinamarca 3.5 3.7 6.8 6.4 5.1 3.4 3.7 Irlanda 7.5 6.6 5.5 3.8 4 3 2.9 Chipre 11.1 14.3 12.7 6.4 6 9.5 10.6 P. Baixos 1.4 4.4 4.8 4.3 3.6 2.9 3.5 Luxemburgo -1.7 6.9 8.1 2 2.8 5.2 4.7 Finlândia 4.8 4 3.4 2.6 2.8 1.7 2.1 Estónia 4.2 s/d s/d 7.4 4.5 6.9 7.8 França 2.9 3.9 3.7 5.4 3.6 3.6 1.9 Letónia 14.5 5.5 7.4 7.8 8.3 8.3 7.8 Alemanha -0.6 0.3 1.5 1.7 1.9 1.3 1.1 Grécia 9.3 9.7 7.9 5.7 6 4.6 5.1 Bélgica 4.6 4.7 3.2 3.8 5.2 4.9 4.5 Hungria 1.1 3.3 3.2 2 1.8 1.5 1.4 R. Unido 1.1 3.2 3.2 1.8 2.4 2.2 2.5 Bulgária 1.6 0.3 -0.6 -1.3 -1.4 -0.9 -0.4 Itália 6.9 7 6.7 6.6 5.8 6 6.5 Roménia 2 0.2 0.1 0.4 1.9 1.3 2.6 Portugal 15 14.6 11.6 8.1 10.1 12.8 9.1 Espanha 11.3 12 10.5 10.4 9.1 8 7.1 Malta -3.6 5.8 8.2 12.5 12.5 9.9 s/d EU 28 Fonte: Eurostat Uma análise mais pormenorizada da evolução do gap entre as taxas de abandono escolar dos rapazes e das raparigas entre 2000 e 2013 permite-nos identificar 3 perfis tipo de países. O primeiro perfil congrega os países que ao longo do período evoluíram no sentido de atingirem uma paridade de género. Nestes países o gap é inferior a 1 p.p.. Fazem parte deste perfil República Checa, Eslováquia, Áustria e Bulgária. 57 O segundo perfil tem como atributo o aumento das diferenças entre as taxas de abandono escolar precoce dos rapazes e das raparigas quando tomamos por referência o primeiro e o último ano do período. Encontram-se nesta situação Croácia, Polónia, Dinamarca, Países Baixos, Luxemburgo, Estónia, Alemanha, Grécia, Hungria, Reino Unido, Roménia e Malta. O último perfil corresponde aos países onde o gap se atenuou ao longo do período em análise, nalguns casos de forma bastante acentuada. Deste grupo de países fazem parte Eslovénia, Lituânia, Suécia, Irlanda, Chipre, Finlândia, França, Letónia, Grécia, Itália, Portugal e Espanha. A análise das taxas de abandono escolar precoce em função do género, apesar de revelar a heterogeneidade que caracteriza o espaço europeu confirma a situação menos favorável em que se encontram os rapazes na generalidade dos estados membros. É verdade que essa diferença se tem vindo a atenuar na maioria dos países, mas ela está ainda particularmente presente em alguns países, como é o caso de Portugal, onde o gap era, em 2013, o segundo mais elevado da União Europeia. 3. Uma perspetiva de género no desempenho escolar: análise internacional A diversidade dos sistemas educativos europeus e dos seus modelos de avaliação das aprendizagens dos estudantes impossibilita uma abordagem do insucesso escolar com base no indicador utilizado em Portugal para medir a intensidade deste fenómeno educativo: taxa de conclusão/transição. O recurso aos dados do PISA permite-nos ultrapassar esta limitação e proceder a uma análise das taxas de baixo desempenho2 nas áreas da matemática, leitura e ciências a nível europeu. Até porque o programa da OCDE para avaliação internacional dos estudantes (PISA) tornou-se uma componente de referência do quadro estratégico para a cooperação europeia na educação e formação (ET 2020) e uma fonte importante de informações para a Estratégia Europa 2020, que estabelece como meta até 2020, uma percentagem inferior a 15 % de jovens de 15 anos com baixo desempenho em matemática, ciências e leitura. 2 O baixo desempenho equivale a um posicionamento abaixo do nível 2 na escala PISA. 58 Quadro 3. Percentagem de estudantes com baixo desempenho em matemática, ciências e leitura na União Europeia (2012)3 Matemática Ciências Leitura 22,1 16,6 17,8 HR Croácia 29,9 17,3 18,7 SI Eslovénia 20,1 12,9 21,1 CZ Rep.Checa 21,0 13,8 16,9 PL Polónia 14,4 9 10,6 LT Lituânia 26,0 16,6 21,2 SK Eslováquia 27,5 26,9 28,2 SE Suécia 27,1 22,2 22,7 18,7 15,8 19,5 DK Dinamarca 16,8 16,7 14,6 IE Irlanda 16,9 11,0 9,6 CY Chipre 42,0 38,0 32,8 NL P. Baixos 14,8 13,1 14,0 LU Lux 24,3 22,2 22,2 FI Finlândia 12,3 7,7 11,3 EE Estónia 10,5 5 9,1 FR França 22,4 18,7 18,9 LV Letónia 19,9 12,4 17,0 DE Alemanha 17,7 12,2 14,5 EL Grécia 35,7 25,5 22,6 BE Bélgica 19,0 17,7 16,1 HU Hungria 28,1 18,0 19,7 UK R. Unido 21,8 15,0 16,6 BG Bulgária 43,8 36,9 39,4 IT Itália 24,7 18,7 19,5 RO Roménia 40,8 37,3 37,3 PT Portugal 24,9 19,0 18,8 ES Espanha 23,6 15,7 18,3 MT Malta s/d s/d s/d EU 28 AT Áustria 3 Quadro elaborado a partir de dados disponíveis em: http://ec.europa.eu/education/dashboard/index_en.htm 59 A análise das percentagens de baixo desempenho nos estados membros da EU permite-nos constatar que a meta de 15% de estudantes com baixo desempenho a matemática está ainda longe de ser atingida no espaço europeu. Aliás, este é o único domínio de conhecimento onde nenhum país atingiu percentagens inferiores a 10%. Em termos gerais, apenas quatro países atingiram, em 2012, as metas estipuladas para 2020, nos três domínios. São eles Polónia, Países Baixos, Finlândia e Estónia. Todos os restantes têm ainda um caminho mais ou menos longo a percorrer. Um olhar mais atento sobre este conjunto de países permite identificar três subgrupos distintos. O primeiro subgrupo é constituído pelos estado membros que já atingiram a meta de 15% em pelo menos uma das áreas de conhecimento que são objecto de avaliação. Integram este subgrupo Dinamarca, Irlanda, Letónia, Alemanha, Eslovénia e República Checa. O segundo subgrupo congrega os estados membros que não tendo ainda atingido a meta de 15% apresentam percentagens inferiores à média europeia em pelo menos uma área de conhecimento. Fazem parte deste subgrupo Letónia, Bélgica, Espanha e Áustria. O último subgrupo é composto pelos restantes países da União Europeia e que apresentam percentagens superiores à média europeia nos três domínios. Neste grupo destacam-se a Bulgária e a Roménia, países onde as percentagens de jovens com baixo rendimento em matemática, ciências e leitura são cerca do dobro da média europeia. Os dados do PISA revelam que no domínio da matemática não existem diferenças acentuadas ao nível do baixo desempenho entre géneros e a discrepância, ainda que residual, aponta nuns países para uma ligeira vantagem do sexo masculino e noutros para uma reduzida vantagem das raparigas. No primeiro caso encontramos a Dinamarca, Estónia, Países Baixos, Irlanda, Alemanha, Áustria, República Checa, Reino Unido, Espanha, Luxemburgo, Itália, Roménia, Hungria e Luxemburgo. No segundo a Finlândia, França, Bélgica, Polónia, Lituânia, Suécia, Malta, Chipre e Bulgária. 60 Quadro 4. Diferença nas percentagens de estudantes com baixo rendimento favorável aos rapazes (2012)4 Matemática Inferior a 1pp. Estónia (0.2) Roménia (0.8) Hungria (0.9) 1-5pp. 5-10pp. P. Baixos (1.9) Alemanha (1.9) Dinamarca ( 3.5) Irlanda 3.5% Portugal (1.9) Espanha (3) R. Checa (3.4) Itália (4) Reino Unido (4.1) Áustria ( 5.1) Luxemburgo (8.6) Quadro 5. Diferença nas percentagens de estudantes com baixo rendimento favorável às raparigas (2012)5 Matemática Inferior a 1pp. Bélgica (0.8) França (0.1) Eslovénia (0.6) Eslováquia (0.3) 1-5pp. Polónia (1.2) Finlândia (3.7) Chipre (1.5) Suécia (2.2) Bulgária (2.8) Lituânia (2.4) 5-10pp. Malta (7.3) dados de 2009 Dos 28 estados membros da União Europeia, apenas sete revelam uma paridade de género no domínio da Matemática - Bélgica, França, Eslovénia, Eslováquia, Roménia, Hungria e Estónia. No domínio das ciências, as raparigas detinham, em 2012, uma posição mais favorável do que os seus colegas do sexo masculino. Com feito apenas no Reino Unido e no Luxemburgo a diferença nas percentagens de estudantes com baixo rendimento era favorável aos rapazes em 2,1p.p. e 3,9p.p., respectivamente. Mas neste campo do conhecimento, não só as raparigas estão em vantagem como essa vantagem se amplia. Com efeito, ao contrário do que se verifica com a matemática, nas ciências a diferença entre as percentagens dos estudantes com baixo rendimento chega, nalguns países – Bulgária, Roménia e Malta - a ser superior a 10p.p. 4 5 Quadro elaborado a partir de dados disponíveis em http://ec.europa.eu/education/tools/et-monitor_en.htm Quadro elaborado a partir de dados disponíveis em http://ec.europa.eu/education/tools/et-monitor_en.htm 61 Quadro 6. Diferença nas percentagens de estudantes com baixo rendimento favorável às raparigas (2012)6 Ciências Inferior a 1pp. Paridade P. Baixos (0.2) R. Checa (0.2) Irlanda (1) Espanha (0.4) Dinamarca (0.6) Áustria (0.8) Eslováquia (0.1) 1-5pp. Estónia (1.9) Polónia (2.3) Finlândia (4.1) Alemanha (1.4) Eslovénia (4) Hungria (1.4) Itália (1.8) Portugal (2.6) Bélgica (2.9) França (3.5) Hungria (4.5) 5-10pp. Letónia (5.9) Lituânia (6.9) Suécia (5.2) Chipre (7.9) Grécia (8.5) Superior 10pp. a Bulgária (10.1) Roménia (12.4) Malta (12.4) (dados 2009) À semelhança do que se verifica com a matemática, também nesta área de conhecimento, na maioria dos países onde existe uma diferença favorável às raparigas ela oscila entre 1 e 5 p.p.. Também neste caso, a paridade de género só está presente em sete países - Países Baixos, República Checa, Irlanda, Espanha, Dinamarca , Áustria, Eslováquia. A leitura é o domínio onde as desigualdades de género mais se fazem sentir. Em todos os países da União Europeia a diferença nas percentagens de estudantes com baixo desempenho é favorável às raparigas, com essa diferença a variar entre um valor mínimo de 6.3p.p. no Reino Unido e um valor máximo de 24p.p. no Chipre. 6 Quadro elaborado a partir de dados disponíveis em http://ec.europa.eu/education/tools/et-monitor_en.htm 62 Quadro 7. Diferença nas percentagens de estudantes com baixo rendimento favorável às raparigas (2012)7 Leitura 5-10pp. Irlanda (6.9) Estónia (10) P. Baixos (6.6) Reino Unido (6.3) Dinamarca (9.1) Bélgica (9.3) Luxemburgo (9.0) 10-15pp. Polónia (11) Alemanha (11.4) Finlândia (13.1) Espanha (10.3) R. Checa (12.2) Portugal (12.5) França (12.8) Itália (13.3) Áustria (13.4) Hungria (13.9) 15-20pp. Letónia (17.5) Hungria (18.1) Suécia (17.3) Grécia (18.9) Eslovénia (19.4) Eslováquia (15) Roménia (18.7) Superior a 20pp. Lituânia (21.5) Bulgária (23.9) Chipre (24.0) As disparidades de género estão patentes na abrangência com que se fazem sentir, na amplitude das diferenças e na sua intensidade. Com efeito, não só há três países onde as diferenças são superiores a 20p.p. (Lituânia, Bulgária e Chipre) como também não há nenhum estado membro onde se verifique uma igualdade de género nem onde as diferenças se situem entre 1 e 5 p.p. O último indicador em que nos baseamos para analisar as diferenças de género no desempenho escolar mede a diferença nas percentagens de estudantes masculinos e femininos com baixo desempenho nas três áreas de conhecimento. A análise do gráfico permite-nos concluir sobre a hegemonia da vantagem das raparigas em todos os países da OCDE. As únicas exceções são Columbia, Luxemburgo, Reino Unido, Países Baixos e Liechenstein, países onde se verifica uma paridade de género. 7 Quadro elaborado a partir de dados disponíveis em http://ec.europa.eu/education/tools/et-monitor_en.htm 63 Gráfico 1. Diferenças de género na percentagem de estudantes com baixo rendimento em todos os domínios (2012) Nota: As diferenças de género com significado estatístico estão assinaladas no tom mais escuro Fonte: OCDE, 2015, p. 26 O melhor desempenho escolar das raparigas está igualmente patente no fato de no universo estudantil masculino 14% dos rapazes apresentar um baixo desempenho escolar em todos os domínios enquanto que entre as raparigas essa percentagem se situa nos 9% (OCDE, 2015, p. 20). Dito de outra forma, em cada 10 estudantes com baixo desempenho, seis são rapazes (idem, p. 25). 64 Importa por último referir que a vantagem das raparigas desaparece quando se toma por referência os estudantes com elevados desempenhos8, dando lugar à igualdade de género. Em 2012, 4% de rapazes e 4% de raparigas atingiram os níveis 5 e 6 nos três domínios avaliados (idem, ibidem). 4. Uma perspetiva de género no insucesso escolar em Portugal: análise por ano escolar A taxa de transição dos alunos (matriculados nos 7º e 10º ano de escolaridade no ano letivo 2007/08) situa-se, em todos os anos escolares do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário acima dos 80%. Os anos escolares com as taxas de transição mais elevadas, considerando o total de alunos, correspondem aos que antecedem a conclusão dos respetivos ciclos de ensino: no 3º ciclo do ensino básico o 8.º ano (89,7%) e no nível secundário o 11.º ano (89,4%). Considerando as taxas de conclusão calculadas para o 9.º e 12.º anos é possível aferir que, para o coorte de alunos analisados, no caso do 3.º ciclo do ensino básico não é muito díspar das taxas de transição, mas no caso do ensino secundário existe uma quebra significativa na capacidade dos alunos concluírem esse ciclo de ensino, sendo que aquele indicador se situa em 70,9%, conforme o gráfico seguinte demonstra. Numa perspetiva de género importa destacar que as taxas de transição dos alunos do sexo masculino são inferiores à dos alunos do sexo feminino em todos os anos de escolaridade analisados, observando-se ligeiras variações, mais significativas ao nível do ensino secundário, ao longo dos anos letivos analisados. 8 Os elevados desempenhos correspondem aos níveis 5 e 6 na escala utilizada no PISA. 65 Gráfico 2. Taxa de transição/ conclusão escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo o género (%) Para estes dois indicadores (taxa de transição / conclusão) o gap entre alunos do sexo feminino e alunos do sexo masculino situa-se no 3.º nível do ensino básico, num intervalo com um máximo de 5,4 p.p. no 7.º ano de escolaridade e um mínimo de 4,3 p.p. no 8.º ano de escolaridade. Já para o nível secundário, o referido gap cifra-se num intervalo com um máximo de 6,5 p.p., registado no 12.º ano de escolaridade, e um mínimo de 3,4 p.p. no 11º ano de escolaridade. Quer isto significar que a diferença máxima da taxa de transição/ conclusão entre raparigas e rapazes regista-se à entrada do 3.º ciclo e à saída do ensino secundário, acompanhando precisamente os valores mais baixos das taxas de transição/ conclusão de cada um destes ciclos de ensino. Assim, os anos escolares onde se regista uma menor performance em termos globais são piores para os alunos do sexo masculino e, por oposição, nos de melhor performance em termos globais o gap entre géneros é encurtado. A partir da análise do indicador taxa de retenção constata-se que os anos escolares com taxas mais elevadas são, no 3º ciclo do ensino básico, o 7.º ano (15,2%), e no ensino secundário, o 12.º ano (27,7%). Estes valores são coerentes com o indicador examinado anteriormente. A análise segundo o género confirma que estes anos de escolaridade apresentam as maiores taxas de retenção, quer para os alunos do sexo feminino quer para os do sexo masculino. 66 Gráfico 3. Taxa de retenção escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo o género (%) 35 30 25 20 15 10 5 0 7.º ano (2007/08) 8.º ano (2008/09) 9.º ano (2009/10) Masculino 10.º ano (2007/08) 11.º ano (2008/09) 12.º ano (2009/10) Feminino Quanto mais elevada é a taxa de retenção para o total de alunos maior é a diferença entre as taxas de retenção por género, na linha do observado para a taxa de conclusão/retenção. Em média, a taxa de retenção dos alunos de sexo masculino atinge um gap de 4,6 p.p. face à taxa de retenção dos alunos de sexo feminino, variando entre 4,1 p.p. e 5,3 p.p. no 3.º ciclo do ensino básico (8.º e 7.º ano, respetivamente) e 3,3 p.p. e 6,4 p.p., no 11.º e 12.º ano de escolaridade. Colocando os valores do indicador em ranking nos dois ciclos de ensino em análise, a posição ocupada pelo valor da taxa de retenção é a mesma que a ocupada pelo valor do gap das taxas entre géneros, ou seja, a uma taxa de retenção menor corresponde um gap menor. O indicador taxa de abandono apresenta um valor residual, comparativamente com os anteriormente analisados, como de resto tem vindo a ser objetivo da política pública nesta matéria. Recorde-se que apenas se analisarem os dados relativos aos alunos das vias regulares onde a perturbação no apuramento deste indicador em resultado de estratégias de recuperação é menor do que o que acontece nas vias de dupla certificação. No 3.º nível de ensino básico a menor taxa de abandono situa-se no 7.º ano (0,2%) e a maior no 8.º ano (0,5%), manifestando o comportamento exatamente oposta à taxa de retenção. Deste modo, no 7.º ano a expressão do abandono é menor mas a retenção assume um significado ligeiramente mais importante. Para o subgrupo que conseguiu transitar para o 8.º ano, a retenção é menor e a taxa de abandono é maior, enquanto na passagem do 8.º para o 9.º ano se assiste à redução da taxa de 67 abandono e ao aumento da retenção. Apesar da taxa de abandono ser de 0,4% no 9.º ano e de metade no 7.º ano, em termos absolutos o número de alunos que abandonou o sistema é bastante próximo (234 e 206, respetivamente). Gráfico 4. Taxa de abandono escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo o género (%) 2 1,8 1,6 1,4 1,2 1 0,8 0,6 0,4 0,2 0 7.º ano (2007/08) 8.º ano (2008/09) 9.º ano (2009/10) Masculino 10.º ano (2007/08) 11.º ano (2008/09) 12.º ano (2009/10) Feminino No que se refere à diferença entre géneros é de ressaltar o seguinte: - a diferença de rapazes e raparigas é comum é continua ao longo dos anos letivos considerados com a única exceção do 12º ano; - o maior gap entre as taxas de abandono ocorre para o 3.º ciclo do ensino básico no 8.º ano, registando 0,2 p.p. de diferença e no ensino secundário no 10.º ano (0,7 p.p.); - a taxa de abandono no 12.º ano corresponde ao único indicador em que a performance das raparigas (0,8%) é inferior à dos rapazes (0,7%), mas a diferença é subtil; além disso, o número de alunos do sexo feminino matriculados no 12.º ano é maior (+5.943), o que poderá influenciar o valor da taxa de abandono das raparigas; por estas razões, o indicador é relevante, sobretudo porque aponta para uma situação de relativa igualdade de situações entre os géneros masculino e feminino. Elementos de síntese da análise da perspetiva de género no insucesso por ano escolar: Num cenário geral de taxas de transição no 3º ciclo e no ensino secundário com valores acima dos 80%, e taxas de conclusão no 9º ano alinhadas com esta tendência e no 12º com desvio negativo, a análise das diferenças de género evidencia que o desempenho 68 dos alunos do sexo masculino é inferior à dos alunos do sexo feminino em todos os anos de escolaridade. O gap máximo da taxa de transição/ conclusão entre raparigas e rapazes regista-se à entrada do 3.º ciclo e à saída do ensino secundário, acompanhando os valores mais baixos das taxas globais de cada um destes ciclos de ensino, com valores mais baixos na conclusão do ensino secundário. Assim, os anos escolares onde se regista uma menor performance em termos globais são piores para os alunos do sexo masculino. O mesmo raciocínio aplica-se à taxa de retenção: quanto mais elevada é a taxa para o total de alunos maior é o gap entre as taxas de retenção por género. Em média, a taxa de retenção dos alunos de sexo masculino atinge uma diferença de 4,6 p.p. face à taxa dos alunos de sexo feminino. Comparativamente à transição/ conclusão, a taxa de abandono apresenta valores residuais, e mesmo em anos de escolaridade com retenção mais elevada, por exemplo no âmbito do 3º ciclo, a expressão do abandono não acompanha esta tendência o que revela a capacidade do sistema suster a saída dos alunos. Neste domínio, a diferença entre géneros é muito mais amenizada, mas a sua incidência é maior no ensino secundário e com uma expressão máxima de depreciação do desempenho dos rapazes face às raparigas de 0,7 p.p. no 10.º ano (no 3º ciclo o valor máximo é de 0,2 p.p no 8º ano). A taxa de abandono no 12.º ano é o único indicador em que a performance das raparigas (0,8%) é inferior à dos rapazes (0,7%), mas a reduzida diferença de valores aponta mais para uma ideia de igualdade, do que para uma situação uma inversão da tendência geral de pior performance dos rapazes. 5. Uma perspetiva de género no insucesso escolar em Portugal: análise por região NUT II A análise regional incide no comportamento dos indicadores de sucesso escolar por NUT II. Relativamente à taxa de transição/ conclusão a Região Centro evidencia-se por apresentar as melhores taxas, com exceção do 10.º ano de escolaridade, enquanto a região de Lisboa se posiciona no polo oposto – as taxas mais baixas de transição/ conclusão nos diferentes anos escolares. 69 Gráfico 5. Taxa de transição / conclusão escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo a região NUT II (%) 95,0 90,0 85,0 Norte Centro 80,0 Lisboa 75,0 Alentejo Algarve 70,0 65,0 7.º ano 8.º ano 9.º ano 10.º ano 11.º ano 12.º ano (2007/08)(2008/09)(2009/10)(2007/08)(2008/09)(2009/10) Relativamente ao gap entre os valores da taxa de transição/ conclusão pelos alunos do sexo masculino e feminino no 3º ciclo do ensino básico, a região que apresenta menor desigualdade é Lisboa, com exceção do 9.º ano de escolaridade em que é o Algarve. Contudo, esta mesma região apresenta o maior gap para o 7.º ano e 8.º ano de escolaridade, respetivamente 8,1 p.p. e 5,6 p.p., enquanto no 9.º ano o maior diferencial ocorre na região Norte (5,4 p.p.). Gráfico 6. Gap entre a taxa de transição/conclusão escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do 3.º ciclo do ensino básico regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 0,0 Norte Centro Lisboa Alentejo Algarve -2,0 -4,0 -6,0 -8,0 -10,0 7.º ano (2007/08) 8.º ano (2008/09) 9.º ano (2009/10) No ensino secundário, embora a região Lisboa apresente gap muito baixos para os três anos escolares, a região Alentejo bem como a região Centro conseguem apresentar um gap menor, embora bastante próximo, entre os alunos do 11.º ano de escolaridade. 70 A região Algarve apresenta o maior gap para o 12.º ano, com os alunos de sexo masculino a distanciarem-se em 7,8 p.p. da taxa de conclusão dos alunos de sexo feminino. No 11º ano, é a região Norte a que apresenta o maior diferencial e no 10.º ano, a região Centro. Gráfico 7. Gap entre a taxa de transição/ conclusão escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do ensino secundário regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 0,0 Norte Centro Lisboa Alentejo Algarve -2,0 -4,0 -6,0 -8,0 10.º ano (2007/08) 11.º ano (2008/09) 12.º ano (2009/10) A retenção escolar tem uma maior incidência regional em Lisboa, de acordo com os dados que se apresentam no gráfico seguinte, sendo que a região onde a severidade da retenção é menor é o Centro, com exceção do 10.º ano de escolaridade. Gráfico 8. Taxa de retenção escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo a região NUT II (%) 35,0 30,0 25,0 Norte 20,0 Centro 15,0 Lisboa Alentejo 10,0 Algarve 5,0 0,0 7.º ano 8.º ano 9.º ano 10.º ano 11.º ano 12.º ano (2007/08)(2008/09)(2009/10)(2007/08)(2008/09)(2009/10) Relativamente à diferença de género no 3º ciclo, os maiores gaps registam-se na região Algarve (7.º e 8.º ano) e na região Norte no 9.º ano. Pelo contrário, em termos globais, Lisboa apresenta o menor gap, com exceção para o 9.º ano em que é evidente a melhor posição do Algarve. 71 Gráfico 9. Gap entre a taxa de retenção escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do 3.º ciclo do ensino básico regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 Norte Centro 7.º ano (2007/08) Lisboa Alentejo 8.º ano (2008/09) Algarve 9.º ano (2009/10) As desigualdades de género na retenção escolar do ensino secundário são mais evidentes no 12.º ano de escolaridade, uma realidade que é transversal a todas as regiões. O Algarve destaca-se por registar o valor mais elevado no 12.º ano e no 10.º ano, e a região Norte no 11.º ano. Em termos comparativos a região Lisboa apresenta valores mais favoráveis. Gráfico 10. Gap entre a taxa de retenção escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do ensino secundário regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 10,0 8,0 6,0 4,0 2,0 0,0 Norte Centro 10.º ano (2007/08) Lisboa Alentejo 11.º ano (2008/09) Algarve 12.º ano (2009/10) O gráfico seguinte, embora não explicite as diferenciações na taxa de abandono por sexo, é importante por refletir o comportamento das regiões face ao indicador de abandono escolar para o total de alunos. De destacar que a região Algarve sobressai com as taxas de abandono escolar mais elevadas em quase todos os anos escolares, quer para o coorte de alunos do 3.º ciclo do ensino básico quer para os do ensino secundário. No 3.º ciclo este resultado é seguido de perto pela região Lisboa, enquanto no ensino secundário é a região Norte que se mais aproxima, embora a uma 72 grande distância. A região Centro apresenta os valores mais baixos para os alunos do 7.º ano e 9.º ano. No ensino secundário esta posição é partilhada entre a região Lisboa no 10.º ano e a região Alentejo no 11.º e 12.º. Gráfico 11. Taxa de abandono escolar dos alunos do ensino regular do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário por ano de escolaridade segundo a região NUT II (%) 2,5 2,0 Norte 1,5 Centro Lisboa 1,0 Alentejo Algarve 0,5 0,0 7.º ano 8.º ano 9.º ano 10.º ano 11.º ano 12.º ano (2007/08) (2008/09)(2009/10) (2007/08)(2008/09) (2009/10) No que respeita ao abandono escolar, a análise regional permite aprofundar o conhecimento e circunscrever regionalmente as situações em que o gap se inverte, ou seja, em que a incidência do abandono escolar é maior nos alunos de sexo feminino comparativamente com os de sexo masculino. Essas situações ocorrem para o 9.º ano em Lisboa e no Alentejo. O Algarve apresenta para o 8.º ano a única situação em que o equilíbrio entre estas taxas é absoluto, não se registando gap. As regiões Norte e Alentejo apresentam diferenças pronunciadas em desfavor do sexo masculino, sobretudo no 8.º ano. Gráfico 12. Gap entre a taxa de abandono escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do 3.º ciclo do ensino básico regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 0,4 0,3 0,2 0,1 0,0 -0,1 Norte Centro Lisboa Alentejo Algarve -0,2 7.º ano (2007/08) 8.º ano (2008/09) 9.º ano (2009/10) 73 No nível de ensino secundário, a inversão da desigualdade em desfavor dos alunos de sexo feminino é mais evidente: ocorre em todos os anos escolares na região Algarve, isto é, a taxa de abandono escolar é maior nos alunos de sexo feminino do que nos alunos de sexo masculino; no Alentejo e no Norte apenas sucede no 12.º ano; na região Centro esta dinâmica não se regista ao nível da NUT II; e em Lisboa para o 11.º e 12.º ano não existe diferencial. Gráfico 13. Gap entre a taxa de abandono escolar dos alunos do sexo masculino e feminino do ensino secundário regular por ano de escolaridade segundo a região NUT II (p.p.) 1,5 1,0 0,5 0,0 Norte Centro Lisboa Alentejo Algarve -0,5 10.º ano (2007/08) 11.º ano (2008/09) 12.º ano (2009/10) Elementos de síntese da análise da perspetiva de género no insucesso por região NUT II: Numa perspetiva geral de análise das taxas da transição/ conclusão e retenção, a região Centro apresenta os melhores desempenhos e Lisboa os piores resultados. Porém, quando analisamos o gap entre os valores destas taxas para os alunos do sexo masculino e feminino é em Lisboa que se regista a maior igualdade de género. O comportamento das outras regiões quanto à transição/ conclusão no 3º ciclo revela a tendência de maior incidência das diferenças no 7º ano de escolaridade e a posição particular do Algarve – o maior gap no 7.º ano e 8.º ano (respetivamente, 8,1 p.p. e 5,6 p.p.) e a menor diferença no 9º ano. Relativamente ao ensino secundário, Lisboa corresponde à região com menor desigualdade, enquanto as restantes regiões apresentam valores mais desvantajosos para os rapazes, em particular nos anos de entrada e saída deste nível de ensino. Nas regiões Norte, Centro, Alentejo e Algarve a taxa de conclusão do 12º ano dos alunos de sexo masculino distancia-se em cerca de 7,0 p.p. dos alunos de sexo feminino. A análise da taxa de retenção revela um panorama similar quanto à diferença de género por região e segundo os diferentes ciclos. Lisboa conserva a sua posição; nas restantes 74 regiões acentua-se o gap entre os valores por género, em desfavor dos rapazes. A disparidade de valores do Algarve mantém-se, bem como a posição relativa das outras regiões. O cenário do fenómeno do abandono por região apresenta contornos mais diferenciados. Embora o Algarve se destaque pelas taxas mais elevadas, a realidade das regiões é mais matizada. Por exemplo, Lisboa apresenta piores resultados no básico mas recupera no secundário, mas a região Centro apresenta a situação oposta. É neste indicador que se regista a única situação de inversão da diferença entre rapazes e raparigas, mas os valores em causa são pouco significativos (sempre abaixo dos 0.5 p.p.). No 3º ciclo estas situações ocorrem apenas no 9º ano e nas regiões de Lisboa e Alentejo. No ensino secundário, as regiões abrangidas são o Norte, o Alentejo e o Algarve, nos dois primeiros casos com incidência exclusiva no 12º ano e no último abrangendo todo o secundário. 75 6. Uma perspetiva de género no insucesso escolar no ensino básico: análise por concelho e escola Nesta componente do exercício é aprofundado o estudo da incidência geográfica do insucesso escolar por género, através da identificação dos concelhos e escolas onde a desigualdade nas taxas de retenção e abandono escolar é mais expressiva. A análise contempla o ensino básico e o secundário e incide no ano letivo 2009/10. No que respeita à taxa de retenção no ensino básico, a análise do tratamento dos dados por concelho apresenta o seguinte figurino. 76 Figura 1. Diferença ao nível da taxa de retenção entre rapazes e raparigas no 7º ano de escolaridade por concelho Os resultados obtidos evidenciam que é sobretudo nas regiões do interior e do Algarve que se encontram os concelhos com maior discrepância de resultados entre raparigas e rapazes ao nível da retenção. Com efeito, nos concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes é superior e se afasta mais da das raparigas, nas NUT II Norte, Centro e Alentejo praticamente só estão representados concelhos do interior, muito afastados dos principais centros urbanos. Nestes 77 casos, a diferença da taxa de retenção é claramente mais elevada do que as dos concelhos identificados nas regiões mais próximas do litoral. Os valores máximos oscilam entre 40 a 50 % (por exemplo Penedono, Góis e Barrancos), mas a amplitude de valores no grupo de concelhos identificado é significativa. Sinalizando apenas os dez concelhos por NUT II com maior taxa de retenção confirma-se a perceção anteriormente apresentada acima. Naturalmente, circunscrevendo a análise ao território de cada NUT II, surgem referenciados um conjunto de concelhos com maior diferença na região de Lisboa que, no entanto, têm um peso relativo pequeno no contexto nacional. 78 Figura 2. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas (2009/10) 79 A NUT II Lisboa apresenta uma realidade marcada pela variedade dos concelhos envolvidos (p.e. Sintra, Barreiro, Cascais, Montijo e Lisboa), que denota realidades sociais e económicas diversificadas dos municípios da área metropolitana. No Algarve, é relevante a presença de concelhos do litoral, mas em alguns destes casos o valor da diferença é residual; os concelhos que apresentam valores mais elevados são Alcoutim (14.3%) e Lagos (9,1%). Na ótica dos municípios onde a taxa de retenção das raparigas é superior e se afasta mais da dos rapazes, mantém-se a predominância da tipologia de concelhos do interior rural nas NUT Norte, Centro e Alentejo. Embora tendencialmente os valores da diferença da taxa de retenção entre raparigas e rapazes sejam mais baixos, em favor das raparigas, alguns concelhos não se distanciam de forma significativa, constando-se casos de valores máximos similares, p.e. Alter do Chão – 47,2%. Esta conclusão é válida para o Algarve, mas em termos de tipologias de concelhos assiste-se a uma mudança significativa – predominância dos concelhos exteriores à centralidade urbana da região. Contudo, a diferença mais marcante encontra-se na NUT II Lisboa – apenas foram identificados dois concelhos onde a taxa de retenção das raparigas é superior e se afasta mais da dos rapazes – Mafra e Oeiras (respetivamente 4,5% e 0.2%). Quando dirigimos a análise do mesmo indicador do nível do concelho para o nível da escola (cf. Anexo), a partir da identificação das escolas onde a diferença da taxa de retenção é mais desfavorável quer para os rapazes, quer para as raparigas (vinte escolas em cada um dos casos), verifica-se que a par de escolas de regiões do interior com perfil mais rural, surge um significativo conjunto de escolas inseridas em zonas do litoral com importante densidade urbana. Em particular, escolas inseridas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Assinale-se que na maioria das escolas com este tipo de inserção e onde a taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes, a diferença entre rapazes e raparigas é muito significativa, por exemplo numa escola do concelho de Lisboa chega a atingir o valor de 62%. No mesmo tipo de escolas em termos de localização, mas onde a taxa de retenção é mais desfavorável para as raparigas, os valores da diferença são substancialmente menores. Para além da taxa de retenção, a análise considerou, também, a taxa de abandono no ensino básico. Para este indicador os resultados obtidos ao nível da análise por concelho apresentam um padrão algo diferenciado do observado para a taxa de retenção, verificando-se uma maior litoralização do fenómeno do abandono. 80 Figura 3. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no 9º ano de escolaridade se afasta mais da das raparigas (2009/10) Nas duas perspetivas de análise (taxa de abandono mais desfavorável para os rapazes e para as raparigas), nas NUT Norte e Centro mantém-se a predominância de concelhos do interior mas 81 também figuram concelhos das zonas intermédias entre o litoral e o interior e outros com perfil industrial (p.e. Felgueiras e Marinha Grande), ainda que apresentem os valores mais baixos do dos concelhos identificados nestas regiões. Registe-se ainda que nos municípios da Região Norte a diferença da taxa de abandono é mais elevada no caso das raparigas. Esta situação de desfavor das raparigas verifica-se também nos concelhos do Alentejo, aliás nesta região a situação dos rapazes é comparativamente muito mais favorável. Na Região Centro, a situação é oposta, e no caso dos rapazes concentram-se nesta NUT II os concelhos com taxas mais elevadas. Na região de Lisboa mantém-se a representatividade de concelhos com caraterísticas e realidades sociais diversas, mas a região não escapa à tendência de predominância de situações de taxa de abandono das raparigas superiores e afastadas da dos rapazes. Mas esta realidade é amenizada pelos valores muito mais baixos, comparativamente às restantes regiões. A situação dos concelhos do Algarve distancia-se favoravelmente, na perspetiva dos rapazes e sobretudo na das raparigas – apenas foi identificado um concelho onde a taxa de abandono das raparigas é superior e se afasta mais da dos rapazes. Da análise às escolas (cf. Anexo) com maiores diferenças nas taxas de abandono dos rapazes e das raparigas, conclui-se que tal como no indicador da retenção é visível a presença de estabelecimentos inseridos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas agora com maior relevo no caso das escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta da dos rapazes. Uma outra nota distintiva é a maior proximidade do valor das taxas, ou seja no caso da retenção constatou-se uma diferença significativa de valores, mas no que concerne ao abandono no básico as diferenças entre rapazes e raparigas são pouco significativas. A análise dos dados dos concelhos que registam diferenças de género mais elevadas prossegue com a abordagem ao ensino secundário. Relativamente à taxa de retenção no ensino secundário, é possível estabelecer a seguinte tipologia de concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes é superior e se afasta mais da das raparigas: 82 - Nas NUT Norte, Centro e Alentejo: (i) concelhos do interior profundo, muto afastados das centralidades urbanas, que apresentam os valores mais elevados da diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas; por exemplo na região Centro um dos concelhos apresenta uma taxa de 77%; (ii) concelhos do interior, mas com maior proximidade ao litoral e com valores igualmente elevados, mas tendencialmente mais baixos; que se constatam sobretudo na NUT II Norte - No Algarve e em Lisboa: penetração transversal nos diversos concelhos destas áreas geográficas da área metropolitana e com valores muito mais baixos, sobretudo em Lisboa. A tipologia de concelhos onde a taxa de retenção das raparigas é superior e se afasta mais da dos rapazes apresenta um perfil algo distinto: - Nas regiões Norte, Centro e Alentejo apenas estão representados concelhos do interior profundo e os valores variam; na Região Norte são substancialmente mais baixos do que os que se registam para os rapazes, mas nas restantes constata-se proximidade de valores; - Em Lisboa e no Algarve, predominam concelhos fora das centralidades urbanas e os valores registados são substancialmente mais baixos do que nas restantes regiões. Globalmente, pode dizer-se que ao nível do ensino secundário, a diferença de género na taxa de retenção é um fenómeno com maior presença no interior centro e norte do país. 83 Figura 4. Diferença ao nível da taxa de retenção entre rapazes e raparigas no 10º ano de escolaridade por concelho A identificação das vinte escolas onde a diferença da taxa de retenção é mais desfavorável para os rapazes, permite verificar que predominam as escolas localizadas em concelhos do interior e com perfil rural; apenas três casos estão localizados em concelhos distintos, nomeadamente Guimarães, Cascais e Porto. 84 No caso das vinte escolas onde a diferença da taxa de retenção é mais desfavorável para as raparigas, verifica-se maior diversidade de contextos de inserção – concelhos do interior, concelhos de charneira entre o litoral e o interior e concelhos da área metropolitana de Lisboa; refira-se que este último espaço geográfico abrange cinco escolas. A diferença de valores nas taxas de retenção nestes dois grupos de escolas é significativa; no caso das situações de maior desfavor em relação aos rapazes o valor máximo recenseado é de uma escola em Montalegre – 76.9%; nas escolas com situação mais desfavorável para as raparigas, o mesmo tipo de valor regista-se em Ourique (55.6%). No que respeita à taxa de abandono no ensino secundário e na perspetiva dos concelhos onde a diferença na taxa é mais desfavorável para os rapazes podemos afirmar que se observa uma diversidade de situações, que abrange concelhos do interior profundo, dos espaços de transição entre o litoral e o interior e das áreas metropolitanas. No Norte e Centro, é certo que a taxa é mais elevada nos concelhos do interior e tende a decrescer à medida que se avança para o litoral. A partir do Centro-Sul e no Sul evidencia-se uma maior preponderância do abandono em concelhos incluídos na faixa litoral. Lisboa continua a apresentar valores muito mais baixos que nas restantes regiões e o Alentejo apresenta uma posição favorável muito destacada. 85 Figura 5. Diferença ao nível da taxa de abandono entre rapazes e raparigas no 10º ano de escolaridade por concelho Na ótica dos concelhos onde a diferença na taxa é mais desfavorável para as raparigas, é mais fácil identificar algumas caraterísticas comuns. Assim, assumem relevo os concelhos do interior profundo (sobretudo nas NUT II Norte e Alentejo), mas simultaneamente está também representado um padrão mais alargado de municípios, nomeadamente do litoral e da zona de charneira entre o litoral e o interior. Em Lisboa, predominam concelhos fora da corda urbana central. 86 Finalmente, registe-se a relevância dos concelhos com taxas mais elevadas do que as dos rapazes; regra geral, tratam-se de concelhos do interior ou deslocalizados face às centralidades urbanas. Esta situação incide de forma mais visível em concelhos das NUT Lisboa, Alentejo e Algarve. A análise do panorama dos dois grupos de escolas com maiores diferenças da taxa de abandono no ensino secundário, não revela diferenças assinaláveis em termos dos contextos geográficos de inserção – predominam as escolas do interior, mas a representatividade de escolas de áreas urbanas também é apreciável. Se retirarmos do grupo de 20 escolas onde a diferença é mais desfavorável para os rapazes, a escola que apresenta a taxa mais elevada, constata-se que os valores entre os dois grupos de escolas são muito próximos. Elementos de síntese da análise da perspetiva de género no insucesso por concelho e escola: Na tipologia de concelhos onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes do que para as raparigas predominam os concelhos do interior, muito afastados dos centros urbanos. Nestes casos, a diferença da taxa de retenção é claramente mais elevada do que a registada nos concelhos identificados nas NUT Lisboa e Algarve. Os valores da diferença da taxa de retenção é mais desfavorável para os rapazes, mas em alguns concelhos constatam-se casos de valores máximos similares. Quanto ao indicador taxa de abandono no ensino básico, nas duas perspetivas de análise (rapares e raparigas) mantém-se a predominância de concelhos do interior, mas também estão presentes concelhos das zonas intermédias entre o litoral e o interior e outros com perfil industrial. Neste indicador, constam-se diferenças assinaláveis entre rapazes e raparigas, sem padrão geográfico definido. Por exemplo, nos municípios das regiões Norte, Alentejo e Lisboa a diferença da taxa de abandono é mais elevada no caso das raparigas. A análise das escolas permite verificar que para além das escolas do interior estão presentes escolas inseridas em zonas do litoral, nomeadamente nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Esta realidade é mais acentuada nas escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta da dos rapazes. Relativamente à taxa de retenção no ensino secundário a tipologia de concelhos é diversa, consoante se trate da perspetiva de desfavorecimento dos rapazes ou das 87 raparigas. No primeiro grupo, para além dos concelhos do interior, surgem concelhos com maior proximidade ao litoral; ambos registam valores elevados da diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas, em desfavor dos rapazes; no Algarve e em Lisboa, contata-se uma penetração transversal nestas áreas geográficas, mas com valores muito mais baixos. No grupo das raparigas, predominam concelhos do interior ou afastados das centralidades urbanas, incluindo as NUT II Algarve e Lisboa. No que respeita à taxa de abandono no ensino secundário, observa-se uma diversidade assinalável de espaços de inserção dos concelhos sinalizados com diferenças de desempenho desfavoráveis aos rapazes, mas quando a diferença na taxa é mais desfavorável para as raparigas assumem relevo os concelhos do interior e/ ou deslocalizados face às centralidades urbanas. No caso das raparigas é também de assinalar a relevância dos concelhos com taxas mais elevadas do que as dos rapazes. Da análise das escolas com diferenças mais desfavoráveis constata-se, no caso do indicador da retenção, a predominância das escolas do interior com perfil rural e a maior diversidade de contextos de inserção no caso da lista de escolas em que a situação é mais desfavorável para as raparigas. No indicador do abandono, predominam as escolas do interior, mas a representatividade de escolas de áreas urbanas também é considerável. 88 7. Alguns dados de caraterização dos alunos A análise em curso procura, também, relacionar alguns atributos de caracterização dos alunos do ensino básico com os indicadores de desempenho escolar considerados. Esta é uma análise que com o desenvolvimento do trabalho se procurará sofisticar, recorrendo a testes estatísticos mais robustos. Neste passo, selecionamos apenas, para enquadrar a reflexão a realizar, as variáveis ação social escolar e escolaridade dos pais, relacionando-a com as taxas de retenção e abandono registada nos anos letivos considerados. Assim, verificamos que a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico não parece ser negativamente influenciada pelo escalão de apoio social uma vez que para os rapazes de famílias que beneficiam de apoio social a representatividade da retenção é inferior ao que acontece nas raparigas. Ao mesmo tempo, verificamos que a relevância da condição económica do agregado familiar parece crescer de importância à medida que se avança no período analisado. Quadro 8. Retenção no ensino básico 2007/2008 Retenção Básico 2007/08 Sexo masculino Sexo feminino N.º % N.º % 4 900 64,7 3 123 61,4 Beneficiário - Escalão B 467 6,2 286 5,6 Beneficiário - Escalão A 2 201 29,1 1 674 32,9 Total 7 568 100 5 083 100 Ação social escolar Não beneficiário Quadro 9. Retenção no ensino básico 2008/2009 Retenção Básico 2008/09 Sexo masculino Sexo feminino N.º % N.º % 1 766 46,3 1 052 40,7 Beneficiário - Escalão B 843 22,1 530 20,5 Beneficiário - Escalão A 1 205 31,6 1 004 38,8 Total 3 814 100 2 586 100 Ação social escolar Não beneficiário 89 Quadro 10. Retenção no ensino básico 2009/2010 Retenção Básico 2009/10 Sexo masculino Sexo feminino N.º % N.º % 1 759 46,3 1 168 42,1 Beneficiário - Escalão B 844 22,2 596 21,5 Beneficiário - Escalão A 1 198 31,5 1 008 36,4 Total 3 801 100 2 772 100 Ação social escolar Não beneficiário A análise da taxa de abandono apresenta um comportamento pouco diferenciado mas, ainda assim, não totalmente coincidente com a taxa de retenção. Nesta caso, a taxa que evidencia ser negativamente afetada pela condição económica do agregado familiar (associado ao escalão de benefício ao nível da ação social escolar) é a taxa de abandono das raparigas. Quadro 11. Abandono no ensino básico 2007/2008 Abandono Básico 2007/08 Sexo masculino Sexo feminino Ação social escolar N.º % N.º % Não beneficiário 89 69,5 46 59,0 Beneficiário - Escalão B 6 4,7 5 6,4 Beneficiário - Escalão A 33 25,8 27 34,6 Total 128 100 78 100 Quadro 12. Abandono no ensino básico 2008/2009 Abandono Básico 2008/09 Sexo masculino Sexo feminino Ação social escolar N.º % N.º % Não beneficiário 123 58,6 76 52,4 Beneficiário - Escalão B 28 13,3 11 7,6 Beneficiário - Escalão A 59 28,1 58 40,0 Total 210 100 145 100 90 Quadro 13. Abandono no ensino básico 2009/2010 Abandono Básico 2009/10 Sexo masculino Sexo feminino Ação social escolar N.º % N.º % Não beneficiário 65 54,2 56 49,1 Beneficiário - Escalão B 15 12,5 21 18,4 Beneficiário - Escalão A 40 33,3 37 32,5 Total 120 100 114 100 A análise da taxa de abandono segundo a escolaridade dos pais permite verificar que a relação entre a baixa escolaridade dos pais e a precocidade do abandono escolar é relevante para os dois sexos mas está ligeiramente mais presente no caso das raparigas do que dos rapazes. Com efeito, é ligeiramente superior a percentagem de rapazes que abandonam a escola e têm pais com escolaridade com o ensino secundário ou superior. Nos dados apresentados, não parece emergir uma influência muito vincada em razão da escolaridade do pai ou da mãe, sendo, contudo, que o insucesso escolar nas raparigas parece ser mais negativamente influenciado pela escolaridade da mãe. Quadro 14. Taxa de abandono no ensino básico segundo a escolaridade do pai 2009/2010 Taxa de abandono no básico segundo escolaridade do pai 2009/2010 Sexo masculino Sexo feminino Escolaridade do pai N.º % N.º % Sem habilitações 1 0,8 0 0,0 Básico (1º ciclo) 37 30,8 43 37,7 Básico (2º ciclo) 25 20,8 18 15,8 Básico (3º ciclo) 14 11,7 12 10,5 Secundário 4 3,3 8 7,0 Superior 4 3,3 1 0,9 Outra 3 2,5 1 0,9 24 20,0 25 21,9 8 6,7 6 5,3 120 100 114 100 Formação desconhecida Sem dados Total 91 Quadro 15. Taxa de abandono no ensino básico segundo a escolaridade da mãe 2009/2010 Taxa de abandono no báscio segundo escolaridade da mãe 2009/2010 Sexo masculino Sexo feminino Escolaridade da mãe N.º % N.º % Sem habilitações 1 0,8 1 0,9 Básico (1º ciclo) 31 25,8 45 39,5 Básico (2º ciclo) 22 18,3 19 16,7 Básico (3º ciclo) 16 13,3 13 11,4 Secundário 12 10,0 7 6,1 Superior 3 2,5 1 0,9 Outra 3 2,5 1 0,9 27 22,5 26 22,8 Formação desconhecida Sem dados Total 5 4,2 1 0,9 120 100 114 100 Globalmente, e na linha do que é apresentado no ponto seguinte em que se apresenta uma análise estatística mais elaborada, pode dizer-se que a situação face à ação social escolar e a escolaridade dos pais não se posicionam como variáveis com muito protagonismo explicativo relativamente às diferenças de género. 8. Análise da regressão logística No sentido de procurar diversificar e aprofundar a abordagem aos fatores que influenciam e podem contribuir para explicar o insucesso escolar dos rapazes e das raparigas nos ciclos de estudo objeto do projeto de investigação (básico e secundário), contemplou-se no roteiro do estudo a realização de uma regressão logística tendo por base os dados administrativos da base de dados MISI disponibilizada pelo Ministério da Educação. Como proxy do insucesso escolar utilizou-se no exercício a variável retenção, correspondendo aos alunos nos estados "Não transitou" / “Não concluiu” ou "Retido por faltas" no 7.º e 12º anos de escolaridade do Ensino Regular registados na base de dados. Privilegiou-se a análise dos registos de alunos do 7º ano no ano letivo 2007/08 e do 12º ano no ano letivo 2009/10 por serem aqueles com maior número de casos de retenção no respetivo ciclo de ensino. A identificação dos fatores explicativos do insucesso segundo o género procurou encontrar diferenças que apoiassem a análise que desenvolvida ao longo do relatório e que se centra na procura dos motivos que promovem desempenhos globais desiguais entre rapazes e raparigas. 92 De acordo com a metodologia proposta, o plano metodológico do estudo contemplou a análise de dados administrativos relativos ao percurso escolar dos alunos recolhidos pela MISI (Gabinete Coordenador do Sistema de Informação do Ministério da Educação). Os dados referidos foram inicialmente utilizados pela Quaternaire Portugal no âmbito do Estudo de Avaliação à Estratégia de Combate ao Abandono Escolar no âmbito do QREN tendo-se, nesse âmbito, realizado um exercício de análise contrafactual entre as vias de ensino regular e profissional. Uma vez que as referidas bases se encontravam já devidamente anonimizadas e organizadas, programou-se o recurso às mesmas no âmbito do presente trabalho. Considerando o objetivo contemplado no primeiro estudo, a informação coligida foi configurada no sentido de permitir realizar observações longitudinais do percurso escolar dos alunos. No presente estudo, privilegiou-se a mobilização de variáveis de segmentação que relevam para melhor caracterizar e compreender a distinção de percursos entre rapazes e raparigas A base de dados MISI disponibilizada pelo DGEEC inclui os dados anonimizados de todos os alunos matriculados no 3º ciclo do ensino básico e no ensino secundário no ano letivo 2007/08. Para efeito da análise desenvolvida apenas se consideraram os registos dos alunos que nesse ano letivo se encontravam matriculados no 7º ano de escolaridade do ensino básico e no 10º ano de escolaridade do ensino secundário. A amostra de formandos analisados no primeiro tratamento realizado era constituída por: No ensino básico, 83 766 na via regular de ensino; No ensino secundário, 47409 alunos nos cursos científico-humanísticos. É na sequência dos resultados observados nesse estudo na ótica de género que se entende aprofundar e sofisticar a análise recorrendo ao mesmo referencial metodológico e à mesma base de alunos. Assim, a análise a desenvolver propõe-se diagnosticar os fatores que contribuem para a menor performance média dos alunos do sexo masculino a partir do 2º/3º ciclo do ensino básico, com uma perspetiva conceptual e de proposta que procura contribuir para encontrar respostas para este problema. Aperfeiçoar o conhecimento desta problemática exige que se pondere os diferentes contextos e motivos que podem contribuir para a sua existência. É com esta orientação que se pretende explorar numa ótica comparativa as fontes estatísticas existentes. Os indicadores trabalhados para os dois ciclos de ensino foram: Indicador Estado Classificado na Base MISI Taxa de Conclusão Concluiu Taxa de Transição Transitou Taxa de Retenção Não transitou + Não concluiu + Retido por faltas Taxa de Desistência Abandonou + Anulou matrícula + Excluído por faltas No atual exercício estatístico – regressão logística – apenas se considerou a taxa de retenção. 93 Assim, o objetivo da análise realizada foi o de identificar quais os fatores que influenciam a retenção dos alunos do sexo masculino e do sexo feminino nos anos de escolaridade considerados. A opção pela realização de uma regressão logística considerou o facto de este teste estatístico se adequar particularmente ao objetivo de procurar variáveis preditoras de um determinado resultado quando as variáveis dependentes são dicotómicas (binárias).9 O universo analisado corresponde ao conjunto de alunos que transitaram ou ficaram retidos no 7º e 12º ano de escolaridade. Assim, foram abrangidos na análise: - 42271 alunos que transitaram ou ficaram retidos (não transitaram ou ficaram retidos por faltas) no 7º ano de escolaridade; - 40524 alunas que transitaram ou ficaram retidas (não transitaram ou ficaram retidas por faltas) no 7º ano de escolaridade; - 13725 alunos que concluíram ou ficaram retidos (não transitaram, ficaram retidos por faltas ou não concluíram) no 12º ano de escolaridade; - 19612 alunas que concluíram ou ficaram retidas (não transitaram, ficaram retidas por faltas ou não concluíram) no 12º ano de escolaridade; A seleção das variáveis independentes consideradas na regressão logística está condicionada pela informação contida na base, sendo que se consideraram na análise as seguintes: Idade do aluno, nacionalidade do aluno, situação do aluno face à ação social escolar, nacionalidade do pai, habilitações académicas do pai, situação do pai face ao trabalho, nacionalidade da mãe, habilitações académicas da mãe e situação da mãe face ao trabalho. Como referido, o método utilizado foi a regressão logística com a entrada em simultâneo das nove variáveis independentes consideradas (Direct Logistic Regression). As análises foram realizadas para o básico e secundário. O quadro seguinte apresenta os resultados apurados para os estudantes do ensino básico. Optou-se pela regressão logística como alternativa à regressão linear e tendo em conta a existência de poucas variáveis quantitativas na base de dados. Variáveis com múltiplas categorias de resposta como a “situação atual do aluno” ou a “nacionalidade do aluno” foram convertidas em variáveis dicotómicas (Retido/Não retido, Nacionalidade portuguesa/Nacionalidade não portuguesa) com o propósito de utilizar a regressão logística. 9 94 Quadro 16. Retenção no 7º ano do ensino regular Retenção no 7.º ano do Ensino Regular Variáveis independentes Sexo masculino Sexo feminino Odds ratio Odds ratio Idade do aluno 1,614 *** 1,655 *** Aluno com nacionalidade portuguesa 0,884 1,144 Aluno beneficiário ASE 1,100 ** 1,118 ** Pai com nacionalidade portuguesa Habilitações académicas do pai 0,840 0,655 *** 0,841 *** 0,872 *** Pai empregado 0,844 *** 0,812 *** Mãe com nacionalidade portuguesa Habilitações académicas da mãe 0,705 *** 0,822 0,821 *** 0,800 *** Mãe empregada 0,977 0,987 Constante 0,002 *** 0,001 *** 0,130 0,116 Nagelkerke R2 χ2 Model 2638,9 *** 1921,5 *** * p<0,05 ** p<0,01 *** p<0,001 Os resultados apurados permitem sublinhar as seguintes ideias: No conjunto, as variáveis analisadas explicam uma percentagem relativamente reduzida da variação verificada ao nível da retenção (cerca de 13% nos rapazes e 11% nas raparigas). Globalmente, não se encontram muitas diferenças na relevância assumida pelas variáveis analisadas para predizer a retenção entre alunos do sexo feminino e masculino no 7º ano de escolaridade. Se excetuarmos a idade, que acaba por ser um resultado da própria retenção, as variáveis que têm mais impacto na retenção são a situação do aluno face à ação social escolar as habilitações académicas do pai e da mãe, a situação face ao emprego do pai e a nacionalidade do pai e da mãe. Os dados mostram que nos alunos cujos pais têm habilitações académicas mais elevadas verifica-se uma diminuição na estimação dos odds da retenção. Também o facto de o pai estar empregado tem um impacto negativo na retenção, tanto dos rapazes como das raparigas. O facto dos pais não terem nacionalidade portuguesa também contribui para a retenção, mas aqui observam-se diferenças de género. No caso dos rapazes só a nacionalidade da mãe tem uma contribuição significativa na previsão da retenção enquanto nas raparigas penas a nacionalidade do pai tem significância estatística. 95 De referir ainda que as variáveis relativas à nacionalidade do aluno e à situação da mãe face ao emprego não apresentarem relevância estatística para explicar a retenção quer dos rapazes, quer das raparigas. Os resultados apurados na regressão logística para o secundário são genericamente coincidentes com os resultados apurados para o nível básico mas apresentam algumas diferenças que importa sinalizar. Quadro 17. Retenção no 12º ano, do curso científico-humanístico Retenção no 12.º ano do CientíficoHumanístico Sexo masculino Sexo feminino Odds ratio Odds ratio Idade do aluno 1,505 *** 1,459 *** Aluno com nacionalidade portuguesa 0,858 0,768 Aluno beneficiário ASE 0,976 0,934 Pai com nacionalidade portuguesa Habilitações académicas do pai 0,579 ** 0,538 *** 0,884 *** 0,864 *** Pai empregado 0,957 0,861 ** Mãe com nacionalidade portuguesa Habilitações académicas da mãe 0,877 0,856 0,853 *** 0,883 *** Mãe empregada 1,009 0,964 Constante 0,002 *** 0,004 *** 0,075 0,063 581,1 *** 649,1 *** Variáveis independentes Nagelkerke R2 χ2 Model * p<0,05 ** p<0,01 *** p<0,001 Em termos genéricos, vale a pena destacar que a variação da retenção que é explicada pelas variáveis consideradas é ainda mais baixa do que no caso do ensino básico (7,5% no caso dos rapazes e 6,3% no caso das raparigas). À semelhança do apurado na regressão feita para o ensino básico, as habilitações académicas dos pais surgem como variáveis com relevância estatística para predizer a retenção dos rapazes e das raparigas. A nacionalidade do pai contribui significativamente para explicar a retenção. No caso dos resultados para o secundário, o estatuto de beneficiário da ação social escolar é a única variável que perde relevância face ao observado no ensino básico, deixando de ter uma contribuição significativa na previsão da retenção tanto dos rapazes, como das raparigas. Globalmente, os resultados apurados evidenciam que as variáveis consideradas tem uma relevância moderada para predizer a retenção e, sobretudo, que não estabelecem uma significativa diferenciação de género. As variáveis consideradas referem-se a atributos de 96 caracterização dos alunos que procuram refletir o seu estatuto social e económico, apontando para que se desvalorize o contributo destas dimensões na explicação das diferenças de género ao nível do desempenho escolar. Complementarmente, os dados sugerem que os aspetos que melhor poderão contribuir para explicar estas diferenças de género se situam num plano exterior ao do estatuto socioeconómico dos alunos, remetendo para dimensões mais difíceis de observar a partir de dados estatísticos. Aspetos relacionados com questões culturais e valores transmitidos através dos diferentes contextos de socialização (família, escola e pares), aspetos relacionados com as práticas pedagógicas, aspetos relacionados com as próprias características individuais que diferenciam rapazes e raparigas podem incluir-se no leque das opções explicativas a considerar. Algumas delas são exploradas noutras dimensões do presente estudo. De referir que a abordagem teórica realizada enfatiza, precisamente, a interação que se estabelece entre as dinâmicas de socialização subordinadas aos modelos de masculinidade e feminilidade e a vivência escolar, nomeadamente no que se refere ao processo de aprendizagem. Neste plano, duas ideias são mais comumente referenciadas: i) a reprodução de modelos educativos diferenciados pelos pais para rapazes e raparigas; ii) a reprodução ou reforço pela escola de disposições mais comuns aos modelos de socialização feminina. Estes planos são convergentes com dois domínios fonte de explicação para as diferenças de género: a dimensão sociocultural e a dimensão institucional/organizacional. Contudo, no que diz respeito à primeira, os dados analisados relativizam mais o impacto de variáveis “clássicas” relacionadas com o estatuto socioeconómico e abrem porta a um quadro especulativo mais amplo em torno da configuração dos modelos educativos em função do sexo. É esta dimensão socialmente construída que confere o atributo de género às diferenças de desempenho escolar observadas entre rapazes e raparigas. Os dados recolhidos no inquérito aos professores alinham, de algum modo, com este sentido analítico. Com efeito, os professores sublinham os aspetos relacionados com a socialização na família e os valores que nesse plano se transmitem, com os modelos de socialização mais gerais e que promovem uma maior desidentificação dos rapazes com a escola e os atributos individuais dos alunos como fatores preferenciais para explicar as diferenças de género. De referir que, 97 como é possível confirmar noutros pontos do relatório, o posicionamento dos outros atores ouvidos é significativamente convergente com a perceção refletida pelos professores. Nesta perspetiva, as propostas explicativas que são mais sublinhadas na literatura e, também, na opinião dos atores afastam-se um pouco das variáveis testadas neste exercício de análise estatística o que acaba por ser coerente com a fraca capacidade que estes parecem apresentar de explicar as diferenças de desempenho existentes entre raparigas e rapazes. 9. Elementos de síntese A análise realizada permite concluir sobre a vantagem relativa das raparigas no universo escolar quer a nível internacional quer nacional. No plano europeu, apesar da diminuição da taxa de abandono escolar precoce nos últimos anos, nos países onde existe uma desigualdade de género são os rapazes que apresentam as percentagens mais elevadas de abandono do sistema educativo sem obtenção do diploma do ensino secundário. Situação semelhante é a que se verifica quando analisamos os baixos desempenhos escolares, com base nos dados do PISA. Com exceção da matemática onde as diferenças de género são mais reduzidas e mais favoráveis aos rapazes, nas ciências e em particular na leitura essas diferenças colocam as raparigas numa posição indiscutivelmente mais favorável. Todavia, a sua vantagem esbate-se e a paridade de género instala-se quando o que está em causa é a excelência escolar. A nível nacional, os dados analisados sublinham uma contínua e estável vantagem das raparigas no que se refere às taxas de transição e conclusão ao longo dos ensinos básico e secundário. Neste indicador, o ano de entrada no 3º ciclo e de saída no ensino secundário são aqueles em que a diferença é mais pronunciada. O indicador da taxa de abandono também reflete diferenças de género favoráveis às raparigas mas de expressão mais reduzida. A taxa de abandono no 12º ano é o único indicador onde a posição relativa entre raparigas e rapazes se inverte, observando uma taxa de abandono superior nas raparigas. As diferenças de desempenho escolar entre raparigas e rapazes têm uma expressão territorial diferenciada. Assim, verifica-se que a região de Lisboa é aquela onde a desigualdade entre 98 raparigas e rapazes ao nível da taxa de transição/conclusão é mais reduzida, tanto no ensino básico como no ensino secundário. As regiões do Algarve e do Norte, ao invés, são aquelas que registam as maiores desigualdades ao nível da taxa de transição/conclusão, nomeadamente ao nível do ensino básico. A análise dos indicadores apurados ao nível dos concelhos confirma a expressão territorial diferenciada das desigualdades de género no abandono e insucesso escolar. Assim, verifica-se uma maior vulnerabilidade dos concelhos/escolas do interior à desigualdade de género no que respeita à retenção. Este padrão é mais matizado para o ensino secundário, quer por via de uma maior “litoralização” do fenómeno que por ser maior ao longo de todo o território o número de concelhos onde a posição relativa entre rapazes e raparigas se inverte. No caso do abandono escolar, o padrão de territorialização é também diverso, sendo alguns concelhos do Norte e Centro interior e do Oeste e Alentejo litoral aqueles que apresentam maiores desigualdades de género. A expressão territorial das desigualdades ao nível do abandono e do insucesso aponta a relevância de tomar em consideração aspetos de natureza sociocultural nas razões explicativas do problema, sugerindo também que a inter-relação entre estes atributos do território e o desempenho escolar segundo o género se diferencia em função do ciclo de estudos. Esta perspetiva, reforça a natureza complexa e multidimensional da problemática em estudo. O exercício de análise estatística que procurou explorar o contributo explicativo das variáveis de caracterização dos alunos incluídas na base de dados trabalhada, acaba por convergir no reforço da atenção a dar a aspetos de natureza sociocultural para a compreensão do problema. Com efeito, a regressão logística realizada procurou identificar a existência de variáveis preditores do menor desempenho escolar dos rapazes. Cingido às variáveis acessíveis na base de dados10, o exercício realizado evidenciou que, embora algumas das variáveis tenham relevância para predizer o menor desempenho escolar no conjunto da amostra, nenhuma delas se mostrou significativamente relevante para explicar as diferenças de desempenho entre rapazes e raparigas. Com efeito, os dados mostram que alunos que são beneficiários da ação social escolar, alunos que têm pais menos escolarizados, alunos cujo pai está desempregado e alunos com pais com nacionalidade estrangeira têm maior probabilidade de serem retidos. No Idade do aluno, nacionalidade do aluno, estatuto fase ao ASE, nacionalidade do pai, nacionalidade da mãe, habilitações académicas do pai, habilitações académicas da mãe, situação face ao emprego do pai e situação face ao emprego da mãe 10 99 entanto, a análise realizada não estabelece diferenças de género significativas. Deste modo, o exercício de regressão logística reforçou a relevância de remeter a análise para dimensões sociais e culturais mais difusas e menos retratadas nas variáveis de caracterização dos alunos. 100 CAPÍTULO IV POLÍTICAS DE COMBATE AO INSUCESSO E ABANDONO ESCOLAR NUMA PERSPETIVA DE GÉNERO NA UNIÃO EUROPEIA E PORTUGAL – DA INEXISTÊNCIA À DESARTICULAÇÃO 101 1. Orientações políticas da União Europeia de combate ao insucesso e abandono escolar. Existe uma perspetiva de género? O presente texto aborda as orientações políticas europeias para o combate ao insucesso e abandono escolar, bem como as medidas legislativas que incidem sobre as mesmas problemáticas. Visa igualmente mostrar a crescente preocupação da União Europeia pelas questões de género no âmbito da prevenção, intervenção e compensação ao insucesso e abandono escolar, enquanto que em Portugal essa temática ainda não mereceu medidas legislativas. Com a entrada no novo milénio e com o objetivo de se tornar a economia baseada no conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo, a União Europeia confirma a criação de um novo ciclo de programas comunitários com vista à convergência de políticas nacionais entre os Estados signatários em diversos domínios. É no decurso da primeira década dos anos 2000 que este órgão supranacional cria não só uma retórica discursiva capaz de influenciar as politicas nacionais, como desenvolve um conjunto de mecanismos de implementação, acompanhamento e avaliação das políticas nacionais, com vista à harmonização de resultados entre os Estados-membros. A educação surge como um domínio fundamental de intervenção quer na Estratégia de Lisboa (2000-2010)11 quer no seu sucessor, Europa 2020 (2010-2020)12, de modo a reforçar a competitividade do espaço europeu, assim como o modelo social europeu. Com o Programa Educação e Formação 201013, a questão do insucesso e abandono escolar é entendida como um obstáculo à concretização dos objetivos da Estratégia de Lisboa, sendo criada uma marca de referência, quando se afirma que a percentagem de alunos que abandonam o ensino e formação deverá ser inferior a 10% até 2010 e posteriormente alargada até 202014. Ela figura num objetivo mais amplo, o de facilitar o acesso à educação e à formação de modo a contribuir para uma cidadania mais ativa, para a promoção da igualdade de oportunidades e para a coesão social. 11 Para mais informações, consultar http://www.europarl.europa.eu/summits/fei1_pt.htm 12 Para mais informações, consultar http://ec.europa.eu/eu2020/index_en.htm 13Para mais informações, consultar http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt/Reconhecimento/União+Europeia/Conselho+e+Comité+de+Educação/Educacao +Formacao+2010.htm 14 - Para mais informações, consultar http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=uriserv:ef0016 102 Através de uma análise aos relatórios de acompanhamento do Programa entre os anos de 2002 e 201015 é possível compreender que o fenómeno do insucesso e abandono escolar é entendido pela UE em estreita ligação com outras marcas de referência, nomeadamente aquela que prevê o aumento das competências de literacia e a que remete para o aumento dos níveis de escolaridade da população jovem. Para além das recomendações para a promoção de uma cultura de aprendizagem ao longo da vida através do reconhecimento de aprendizagens informais e não formais de modo a permitir uma maior flexibilidade e transferibilidade nas qualificações (2004, 2005,...), da construção e promoção de dispositivos de acompanhamento e aconselhamento (2004, 2005...), do encorajamento de uma maior participação do sector empresarial e do aumento da escolaridade obrigatória, a grande recomendação recai na diversificação das ofertas educativas em dois grandes domínios, tendo como elemento aglutinador a educação profissional. Por um lado, na criação de medidas educativas de segunda oportunidade de caráter compensatório e, por outro lado, na aposta de cursos profissionalizantes com uma grande aproximação com o mercado de trabalho. Com a renovação da Estratégia da União Europeia para a presente década, Estratégia UE 2020, o insucesso e abandono escolar continuam a ser preocupações fundamentais dado que a marca de referência para 2010 não chegou a ser atingida. É em 2011 que a Comissão Europeia lança um conjunto de recomendações para reduzir o fenómeno entre os Estados-membros, definindo abandono escolar como “todas as formas de abandono da educação e formação antes da conclusão do ensino secundário ou nível equivalente do ensino e formação profissionais” (Comissão Europeia, 2011, p.2). Reconhece a complexidade do fenómeno ao identificar três dimensões que influenciam o processo – educativa, individual e socioeconómica – enfatizando, também, a natureza isolada em que ocorre o processo. O insucesso escolar e a alienação registada muitas das vezes no ensino primário, a transição entre ciclos e escolas, a desarticulação entre os currículos de ensino e formação, a falta de apoios específicos para superar dificuldades emocionais, sociais ou educativas, meios socialmente desfavorecidos, pais com baixo nível de escolaridade, jovens com necessidades educativas especiais, emigrantes, etc., são apontados como circunstâncias que promovem o abandono escolar precoce. Uma outra característica evidenciada pelo documento e que para a nossa análise se reveste de maior importância são as questões de género, pois, como se diz, 15Para mais informações, http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt/Reconhecimento/União+Europeia/Educação+e+Formação+2020/ consultar 103 O abandono escolar precoce suscita igualmente questões de género que devem merecer maior atenção. Na UE, 16,3 % dos rapazes abandonaram a escola, em comparação com 12,5 % de raparigas. Durante a escolaridade obrigatória, os rapazes tendem a sentir mais dificuldades do que as raparigas em adaptar-se ao ambiente escolar e, em geral, têm níveis de aproveitamento inferiores. A sua parte no número de alunos com incapacidades também é mais elevada (61 %) e existe maior probabilidade de apresentarem problemas emocionais e comportamentais, ou dificuldades de aprendizagem específicas (65%) (Comissão Europeia, 2011, p.6). Importante será notar o destaque atribuído às questões de género no documento. Apesar de identificarem determinadas características associadas ao género, elas permanecem desvinculadas de qualquer outro factor que possa oferecer uma explanação mais alargada e que permita um entendimento mais holístico do fenómeno. Encontrada a perspetiva de género, retomaremos esta discussão no ponto seguinte, de modo a podermos compreender se, de facto, existem recomendações políticas supranacionais para as questões de género no insucesso e abandono escolar. As estratégias e medidas políticas levadas pelos Estados-Membros até ao momento são consideradas pela Comissão Europeia como insuficientemente coordenadas com outras domínios políticos e refere-se ainda a falta de uma análise dos problemas específicos em cada região e grupo. Para o efeito, o documento reforça a necessidade de se criarem estratégias concertadas e de longo prazo a partir de uma análise de necessidades das especificidades nacionais, regionais e locais, atentando às fortes disparidades nas taxas de abandono que se possam verificar em determinados pontos geográficos, grupos ou vias educativas. Dessa forma, as políticas devem ser elaboradas a partir de um conhecimento rigoroso, adoptar estratégias política e economicamente sustentáveis que envolvam o compromisso de diversos atores, através de uma cooperação horizontal (articulação entre políticas educativas, de juventude, de saúde, sociais e de emprego) e uma cooperação vertical (nacional, regional, local e a nível da escola). De modo a poder combater o fenómeno, a Comissão Europeia apresenta a necessidade de se criarem estratégias compreensivas que podem incluir três tipos de medidas: Prevenção: as medidas de prevenção visam evitar o surgimento de condições propícias ao abandono escolar precoce. Neste domínio incluem-se medidas de políticas de desagregação, de discriminação positiva, de melhoria ao acesso e qualidade nos sistemas de educação e formação, redução das taxas de retenção, desenvolvimento de atividades extracurriculares, flexibilização dos percursos educativos, inclusão da temática do abandono escolar precoce nos currículos de formação de professores, e dispositivos de aconselhamento educativo. Espera-se que as políticas de desagregação 104 possam mudar a composição social das escolas em desvantagem e melhorar o desempenho escolar de alunos de origem social económica e socialmente desfavorecida. Por sua vez, as medidas de discriminação positiva procuram melhorar a oferta educativa, providenciar apoio adicional aos alunos e criar ambientes de aprendizagem inovadores e adaptados às suas necessidades. Estas medidas são geralmente combinadas com uma forte rede de cooperação entre as escolas envolvidas. Intervenção: as medidas de intervenção visam superar as dificuldades numa fase inicial e evitar que resultem no abandono escolar. Medidas deste tipo comportam atividades de apoio individual aos alunos, principalmente aos que manifestem dificuldades de aprendizagem, apoio linguístico para os alunos não nativos, apoio de outros atores educativos aos professores e alunos, identificação prévia de grupos de risco e dispositivos que permitam intervir antecipadamente, gestão do absentismo, e criação de redes entre os pais e outros atores fora da escola. Devem considerar a escola como uma comunidade de aprendizagem, criar redes com agentes exteriores à escola, envolver as regiões e promover orientação individual assim como apoio prático e emocional. Compensação: Estas medidas procuram garantir oportunidades de ensino e formação aos alunos que já abandonaram a escola, tendo como propósito a reaproximação dos jovens ao sistema de educação e formação. Também designadas de medidas de segunda oportunidade, promovem oportunidades alternativas de educação e formação, podendo envolver programas individuais que procurem a reintegração dos jovens com a educação formal ou combinar experiências em contexto de trabalho com experiências escolares. A Tabela 1 oferece uma descrição mais detalhada de cada tipo de estratégia, segundo as diversas dimensões de atuação. 105 Tabela 1. Estratégias de redução do abandono escolar precoce Estratégias Dimensōes Prevenção Organização Escolar Abordagem da Intervenção “escola como organização educativa”: com objetivos claros e passíveis de serem por todos Compromisso e governança: Um compromisso político e uma forte liderança escolar é crucial. A direção das escolas deve Forte liderança e planeamento cuidado concretizáveis Compensação os atores considerar a abordagem “escola como organização educativa”, encorajar a colaboração entre os diversos serviços e apoiar os professores na construção destas estruturas; educativos; Incluir formação pedagógica, monitorização externa e momentos de autorreflexão; Encorajar e apoiar uma relação de suporte e de afeto entre os professores, outros profissionais e os alunos; Desenvolver um forte sistema de apoio emocional principalmente para os alunos em situação de risco de abandono escolar. 106 Currículo Currículos relevantes e envolventes: Focalização Promover a relevância e coerência nos currículos para motivar os alunos, potenciar as suas qualidades e talentos e ir ao encontro das suas ambições; nas necessidades individuais dos Flexibilidade no currículo: O currículo deve ser inovador, estudantes: Os currículos devem permitir uma grande relevante e flexível em termos de estruturas e tempos. As flexibilidade na escola dos conteúdos e na abordagens pedagógicas usadas devem ter em conta as disponibilidade de apoios adicionais ao processo de necessidades educativas dos estudantes. A legislação nacional aprendizagem, inclusive medidas para aumentar a deve permitir elevados níveis de autonomia às escolas para motivação e a resiliência nos estudantes e aqueles decidirem os programas de estudo a curto prazo e a que demonstrem dificuldades em equilibrar a escola mobilidade do estudantes no sistema. Por o efeito, devem ser com a sua vida familiar; consideradas medidas que possibilitem o regresso dos alunos do ensino profissional às ofertas de educação geral; Uma experiência distinta de aprendizagem: Devem ser promovidas experiências positivas de aprendizagem. As experiências negativas do passado devem ser substituídas por experiências que permitam o desenvolvimento da autoconfiança, confiança e motivação. Conhecer os fatores pessoais que levaram ao abandono e a criação de espaços comuns entre professores e alunos ajuda a criar relações de respeito e confiança mútuo e de segurança. Formação inicial e contínua de Apoio ao professores: Devem ser dados tempos e Envolvimento e apoio por parte dos professores: Um maior 107 Professores e Staff professores: Desenvolver competências para identificar as necessidades dos alunos, diversificar os estilos de aprendizagem e adotar métodos inclusivos e centrados no aluno, incluindo competências de resolução de conflitos para a criação de espaços para o desenvolvimento do trabalho em envolvimento dos professores é necessário em comparação a equipa com vista à criação e adaptação de diversas outras ofertas educativas. Os professores oferecem apoio e metodologias e competências que possam ir ao orientação em outros domínios para além da aprendizagem e encontro das necessidades individuais dos alunos e à desenvolvem relações positivas com os alunos para além do troca de conhecimentos com outros profissionais. tempo de aulas. O perfil e a motivação dos professores devem Este apoio deve considerar o desenvolvimento de ser considerados no recrutamento dos mesmos para as ofertas parcerias entre escolas. de segunda oportunidade; um ambiente positivo de aprendizagem; Saber lidar com a diversidade social e étnica dos alunos, assim como do que apresentem dificuldades de aprendizagem e necessidades educativas especiais; Adquirir um entendimento do abandono escolar, de modo a serem capazes de identificar sinais e a trabalhar com outros profissionais/parceiros na prevenção do abandono escolar. Recomenda-se que os professores em formação tenham a oportunidade de trabalhar em escolas com elevados níveis de abandono escolar para melhor compreender como se o pode prevenir em contexto escolar. 108 Agentes Educativos Envolver os alunos e os pais nos processo de decisão nas escolas: serviços escolares e locais devem desenvolver Promover a participação ativa dos alunos na comunidade escolar para aumentar o seu envolvimento e motivação. Devem ser criados espaços e estruturas que facilitem a sua participação. Garantir Capacitar e potenciar o envolvimento parental: Os a representação dos pais nos processos de decisão da escola, de modo a garantir o seu apoio na prevenção do abandono escolar. estruturas que tornem os pais um recurso na aprendizagem dos seus filhos. Alguns pais precisam de apoio no desenvolvimento do seu papel como um elemento encorajador e motivador dos seus filhos para o prosseguimento de estudos. O envolvimento parental é, para muitos alunos, importante para o ganho de reconhecimento, partilha e celebração de resultados, criação de autoestima e respeito por si mesmo. Os pais devem também se tornar atores comprometidos com a identificação prévia de sinais de desafiliação e dificuldades de aprendizagem que podem levar ao abandono escolar. Serviços de Orientação e Sistema forte e integrado de orientação Garantir um sistema de orientação para Sistemas de Aviso Prévio Abordagem holística e personalizada Diferentes métodos e rotinas que se destinam à Deve focar-se no desenvolvimento pessoal e no 109 Aconselhamento fornecer informações relevantes para as identificação e resposta a sinais prévios de abandono desenvolvimento da sua relação com a aprendizagem. Para o escolhas escolares e profissionais dos escolar. A intenção é promover apoio atempado e efeito, os jovens devem estar envolvidos no desenvolvimento alunos. Deve focar-se nas necessidades, direcionado aos alunos em risco de abandono dos seus planos de aprendizagem. Devem ser desenvolvidas contextos e particularidades dos alunos. escolar. Estas abordagens podem ser mais ou menos competências pessoais e competências de empregabilidade, formalizadas. A sua implementação pode ser local, promovido o acesso ao apoio, aconselhamento e orientação embora sejam conduzidas por politicas nacionais ou especializado e ao desenvolvimento de novas abordagens legislação. Os profissionais da escola devem ser pedagógicas capazes de identificar sinais de desafiliação e, em aprendizagem entre pares, trabalho de projeto e uma avaliação conjunto com outros profissionais, devem responder de carácter formativo; como a aprendizagem colaborativa, rapidamente junto dos pais e alunos. A criação de planos individuais podem ajudar na orientação dos alunos. Estruturas de apoio integradas nas escolas Estas estruturas devem compreender um leque diversificado de agentes educativos e uma forte componente de trabalho de equipa. A responsabilidade pelos alunos em risco de abandono escolar pode ser delegada a um coordenador ou a uma equipa de apoio a estudantes, por exemplo. Esta coordenação pode envolver um leque de profissionais no interior ou exterior da escola. Uma forte liderança e papéis e responsabilidade claramente definidas são a 110 chave para o sucesso deste tipo de estruturas; Ensino Profissional Programas de ensino profissional de Estruturas acessíveis e relevantes de segunda oportunidade qualidade, atrativos e envolventes Estas podem estar concentradas em diferentes estruturas Assegurar o mesmo nível de qualidade entre os programas de ensino profissional e os de carácter mais académico; Garantir que os cursos de ensino profissional permitam a progressão para o ensino superior. institucionais. Devem ser de fácil acesso para todos os interessados em continuar percursos educativos e formativos. Devem estar adequadas à diversidade do publico jovem e com o mercado de trabalho local. Para o efeito, requerem um grau de flexibilidade que permitam o seu desenvolvimento em diversos momentos do dia, semana, semestre ou ano. Cooperação com o mundo do trabalho Criação de Promover, desde cedo, oportunidades ligações entre as medidas de segunda oportunidade e o ensino regular para os alunos experienciarem o mundo do trabalho pode ajudá-los a compreenderem O acesso prematuro e generalizado a ofertas de cariz as exigências laborais e as expectativas compensatório podem tornar-se atrativas para jovens em risco dos empregadores. De igual modo, pode de abandono. É importante que os alunos não fiquem isolados aumentar o e distanciados do ensino regular. Os professores devem criar prosseguimento de estudos e numa sinergias com a educação regular através da partilha de escolha cuidada de carreira. espaços físicos, profissionais e a reciproca troca de a motivação para 111 experiencias pedagógicas. Flexibilização Transição e dos percursos educativos Flexibilização de percursos educativos Garantir a flexibilidade e a universalidade dos percursos educativos. Devem ser evitados percursos que levem a poucas opções de carreira, escolhas prematuras entre os diversos níveis de ensino, repetições/retenções e exames obrigatórios entre ciclos; Reconhecimento Devem possibilitar vias alternativas para a reaproximação com a educação e a obtenção de qualificações. O reconhecimento e validação de aprendizagens nas medidas de segunda oportunidade é fundamental e deve fornecer aos jovens qualificações que sejam reconhecidas no mercado de trabalho. Devem permitir o acesso a outros percursos educativos e formativos. Transição suave entre os diferentes níveis de educação Facilitar a transição entre ciclos a partir de uma cooperação programas, medidas de apoio aos alunos que demonstram dificuldades em se adaptar ao novo ambiente escolar e entre escolas. Garantir uma forte permeabilidade dos percursos educativos através de um leque de ofertas e medidas eficazes de transferência. 112 Melhor integração dos alunos recémchegados imigrantes: Assegurar o suporte necessário para o desenvolvimento da escrita e oralidade da língua de acolhimentos, através de ambientes de aprendizagem inclusivos. As crianças imigrantes devem ser colocadas junto de nativos da mesma idade de modo a assegurar uma inclusão com sucesso. O processo administrativo deve ser realizado a tempo e adaptado às necessidades da situação familiar de cada aluno; Educação pré-escolar Acesso à educação infantil e sistemas de cuidado de qualidade: o acesso a estas ofertas desde cedo promove o desenvolvimento de competências-chave, assim como aumenta o desempenho escolar, reduzindo mais tarde as hipóteses de insucesso e abandono escolar; 113 Educação Formal Não Atividades extracurriculares e atividades fora da escola para enriquecer a oferta educativa Atividades desta natureza podem promover oportunidades para que os alunos desenvolvem sentimentos de pertença em relação à escola. Estas atividades devem ser compatíveis com os objetivos educativos para evitar uma desconexão entre as experiencias escolares e as de vida; Elaborado pelos autores a partir dos documentos da Comissão Europeia Reducing Early School Leaving: Key Messages and Policy Support (2013) e Tackling Early Leaving from Education and Training in Europe. Strategies, Policies and Measures (2014). 114 Através da figura 6 é possível compreender que, segundo a Comissão Europeia, apenas a Espanha, Bélgica (Flandres), Malta, Holanda, Áustria e a Bulgária possuem estratégias compreensivas de combate ao abandono escolar precoce. Figura 6. Estratégias para a redução do abandono escolar precoce (2013/2014). Fonte: Tackling Early Leaving from Education and Training in Europe. Strategies, Policies and Measures (EC, EACEA, Eurydice & Cedefop, 2014). Os países supramencionados comungam entre si um plano estratégico para a prevenção do abandono escolar através de sistemas de informação para o desenvolvimento de políticas, cooperação vertical e horizontal e diversidade de medidas políticas. À exceção da Holanda que apresenta um plano estratégico desde 2002, os restantes apresentam planos desenvolvidos entre 2012 e 2014. A Hungria e a Roménia até à data do documento consultado (European Commission, EACEA, Eurydice & Cedefop, 2014) estavam em vias de aprovar um plano estratégico. Por conseguinte, Alemanha, Irlanda, Portugal, Polónia, Noruega e Reino Unido partilham entre si a falta de um plano estratégico, embora apresentem diversas medidas para o combate ao fenómeno em causa. Para o caso português em específico, a Comissão Europeia reconhece que existem um conjunto de medidas compreensivas que se referem especificamente ao combate ao insucesso e abandono escolar, como veremos num ponto seguinte referente a Portugal, apesar de não existir uma estratégia clara. Todavia, o Decreto-Lei 176/2012, de 2 de agosto, que estabelece medidas que devem ser adotadas no âmbito dos percursos escolares dos alunos para prevenir o abandono escolar é considerado como um passo importante para a criação de uma estratégia concertada. 115 2. O insucesso e o abandono escolar - aglutinadores entre políticas educativas e políticas de igualdade de género: entre a temporalidade e a particularização No ponto anterior foi evidenciado que as orientações políticas europeias mais recentes para o insucesso e abandono escolar, apesar de identificarem as disparidades entre géneros, não apresentam recomendações ou uma estratégia que integre a perspetiva de género no fenómeno em causa, embora estejam presentes em outros domínios de trabalho da Comissão Europeia. Tal facto pode ser explicado a partir da noção de temporalidade e da noção de particularização. A noção de temporalidade está em estreita ligação com o desenvolvimento de sistemas sofisticados de recolha e tratamento de informação que se traduzem em poderosos instrumentos de criação e governação das políticas educativas (Rose, 1991; Grek & Ozga, 2008; Grek, 2009). A partir dos anos 2000, com a maturação da Estratégia de Lisboa e do Método Aberto de Coordenação, a Comissão Europeia começa a desenvolver dispositivos de recolha e tratamento de dados sobre os sistemas educativos nacionais, levando a que progressivamente se identifiquem questões mais específicas no fenómeno de insucesso e abandono escolar comuns a vários países europeus. Nas palavras de Hunter (1996) a “tecnologia das estatísticas cria a capacidade de entender a realidade como um campo de governação” (p. 154). Apesar da Comissão Europeia ter começado a recolher dados estatísticos nacionais sobre o abandono escolar entre os Estados-membros desde 2003, a partir do Programa Educação e Formação 2010, só em 2007, inicia então a distinção dos números de abandono escolar precoce tendo em atenção o género. Para o caso em estudo, a noção de tempo e a noção de maturação dos instrumentos supranacionais para a identificação de determinados fenómenos comuns mostramse relevantes para explicar o recente interesse por parte da Comissão Europeia. A noção de particularização está relacionada com a divisão de duas áreas de trabalho da Comissão Europeia: políticas de género e políticas educativas. É através das disparidades encontradas nos resultados do abandono escolar precoce que se começa a criar pontos de encontro que procuram desenvolver políticas educativas baseadas no princípio de igualdade entre géneros. Desde 1996 que a Comissão Europeia adoptou a “perspetiva de género”, após a Declaração das Nações Unidas, na IV Conferência Mundial sobre as Mulheres, e que visa o compromisso de garantir uma perspetiva de género presente em todas as políticas e programas. Neste sentido, afirma-se que é relevante 116 … mobilizar das políticas de carácter geral e medidas específicas com o propósito de concretizar a igualdade, tomando em consideração a de modo aberto, no planeamento, os possíveis impactos relativamente à situação de homens e mulheres (a perspectiva de género). isto significa examinar sistematicamente medidas e políticas e considerar esses possíveis efeitos no momento da definição (European Commission 2007, p. 5). Desde 2000 que a Comissão Europeia promove um conjunto de iniciativas e recomendações políticas para a promoção da igualdade de género (veja-se, Estratégia Comunitária para a Igualdade de Género (2001-2005), Roteiro para a Igualdade entre Mulheres e Homens (20062010), Estratégia para a Igualdade de Género (2010-2015)16). A visão adoptada pela Comissão, apesar de promover a sensibilização, revela-se uma fraca estratégia para a igualdade entre género por não entender a igualdade de género como um resultado em si mesmo (O’Connor, 2014), um conceito extremamente exigente, uma vez que requer a adoção da perspetiva de género por todos os atores envolvidos no processo de decisão política (Crespi, 2009). Consequentemente, as iniciativas tomadas sobre a sua alçada tendem a falhar na criação de estruturas legais para a efetivação de direitos de igualdade e, apesar de integrar a perspetiva de género, não desafiam o paradigma político (Pollack & Hafner-Burton, 2000). Como é possível observar na figura 7, no domínio da educação a perspetiva de género está presente, pelo menos na retórica política, em praticamente todos os países da União Europeia. No entanto, a perspetiva de género nos sistemas educativos europeus é ainda considerada uma área subdesenvolvida em comparação com outras esferas sociais, como, por exemplo, o emprego (EACEA, 2010). 16 - Estas estratégias procuram criar uma estrutura de ação para eliminar as desigualdades entre géneros e promover a igualdade entre mulheres e homens e têm essencialmente focado a sua ação em cinco objetivos estratégicos, respetivamente 1) promover a igualdade de género na vida económica, focando essencialmente nas politicas de emprego, na redução da segregação profissional e no equilíbrio entre a vida familiar e profissional; 2) promover a igualdade na participação e representação, de forma a reduzir a sub-representação das mulheres nos processos de decisão: 3) promover a igualdade de acesso e o pleno exercício dos direitos sociais das mulheres e homens, através de uma reforma aos sistemas de proteção social, das licenças de maternidade e tempo de trabalho; 4) promover a igualdade de género na vida civil, no reforço e desenvolvimento de mecanismos que reconheçam o igual tratamento na legislação e na promoção dos direitos humanos das mulheres; 5) promover a mudança dos papéis e estereótipos associados ao género, com vista à mudança de comportamentos, atitudes, normas e valores que definem e influenciam os papéis de género na sociedade através da educação, formação, media, arte, cultura e ciência e à eliminação das imagens negativas e estereotipadas das mulheres. 117 Figura 7. Perspetiva de género em educação na Europa 2008/2009. Fonte: EACEA, 2010. Também no domínio educativo, podemos estabelecer uma ponte entre as críticas supramencionadas e a abordagem generalizada das políticas de género ao focarmos a nossa atenção nos quadros legais dos países europeus. Apesar do termo igualdade de oportunidades entre mulheres e homens estar presente nos dispositivos legais de praticamente todos os países da União Europeia, a igualdade de género no sentido de igualdade de resultados de aprendizagem é menos frequente como objetivo específico ou resultado a ser alcançado (EACEA, 2010). Como é possível observar, através da figura 8, existe uma diversidade no entendimento e na aplicabilidade do termo nos quadros legais, sendo possível encontrar três modelos distintos: a) promoção da igualdade de oportunidades, nomeadamente medidas contra a discriminação que estabelecem a base de igualdade entre géneros, embora não existam leis sectoriais, ou seja, estatutos próprios para as diversas estruturas sociais entre as quais, os sistemas educativos. Neste cenário figuram a Bélgica, Dinamarca, Estónia, Itália, Chipre, Letónia, Hungria, Holanda e Polónia; b) promoção da igualdade de oportunidades nos sistemas educativos, com legislação específica em alguns domínios da igualdade de géneros. Neste modelo, apesar de existirem artigos para assegurar a igualdade de acesso e o igual tratamento entre todos os alunos, as políticas educativas não reconhecem a igualdade de género como um resultado a atingir. Neste modelo a 118 educação não desempenha um papel ativo no combate às desigualdades entre género a partir do modelo educativo. As políticas educativas da Eslováquia, Grécia, Lituânia, Portugal e Roménia são representativas deste modelo; c) promoção ativa da igualdade de género nos sistemas educativos, onde figuram medidas especificas contra a discriminação no sistema educativo e a igualdade entre género é encarada como um resultado a atingir. Estas medidas estão presentes na Alemanha, Áustria, Espanha, Eslovénia, França, Finlândia, Irlanda, Islândia, Liechtenstein, Luxemburgo, Malta, Noruega, Reino Unido e Suécia. Figura 8. Quadros legais para a igualdade de género nos sistemas educativos 2008/2009. Fonte: EACEA, 2010 Não obstante os diferentes níveis de enraizamento e desenvolvimento da perspetiva de género nos sistemas educativos, as políticas educativas dos países europeus podem ser agrupadas em duas categorias distintas – políticas diretamente relacionadas com o processo educativo e políticas de caráter mais geral que se relacionam indiretamente com o domínio educativo (EACEA, 2010). 119 3.Políticas com uma perspetiva de género diretamente relacionadas com o processo educativo Nesta primeira categoria incluem-se políticas educativas de igualdade de género direcionadas às diferenças de aproveitamento escolar entre género, aos currículos, aos percursos e escolhas educativas estereotipadas, aos estereótipos associados aos géneros nos materiais escolares, assim como à sua reprodução através dos processos educativos (currículo oculto). No que respeita às diferenças de aproveitamento escolar, cerca de 1/3 dos países apresentam medidas políticas para diminuir as disparidades entre géneros, privilegiando os alunos com dificuldades de aprendizagem, provenientes de meios socioeconómicos desfavorecidos, e incindindo em ações gerais de melhoria dos resultados dos rapazes; ações contra o abandono escolar precoce que podem ter efeito direto ou indireto nos rapazes; iniciativas para melhorar o desempenho em determinadas disciplinas (rapazes na leitura e raparigas nas ciências e matemática) e programas específicos para determinados grupos vulneráveis de raparigas e rapazes. A maioria dos países europeus tem em consideração a perspetiva de género no currículo, embora o grau de desenvolvimento esteja dependente da legislação nacional, das escolas e dos próprios professores. Nos países que procuram a igualdade de género como um fim em si mesmo, principalmente na Áustria, Finlândia, Liechtenstein, Malta, Noruega e Suécia, a dimensão do género aparece como um tema transversal e interdisciplinar. Por sua vez, no grupo de países em que a igualdade de género não é entendido como um resultado a atingir no e pelo sistema educativo, onde figura Portugal, a perspetiva de género surge como um tópico entre as diversas temáticas de ensino, como em educação para a cidadania. Nos países em que existe uma grande autonomia curricular nos conteúdos curriculares os/as diretores/as escolares e os/as professores/as assumem um papel determinante no grau de inclusão da perspetiva de género, devendo estes/as serem sensibilizados para as questões de género, algo que só acontece em cerca de 1/3 dos países. Apesar da proporção entre raparigas e rapazes ser praticamente igual no ensino básico e secundário em muitos países europeus, existem diferenças acentuadas quanto ao tipo de escolas e de ofertas educativas frequentadas segundo o género. O elevado nível de rapazes nas ofertas educativas de cariz profissionalizante reforçam o estereótipo associado ao género. Apesar de existirem sistemas de aconselhamento vocacional em praticamente todos os países 120 europeus, apenas metade apresenta um aconselhamento que tenha em conta as questões de género. Por sua vez, as iniciativas pontuais e de pequena escala para o combate aos estereótipos associados aos percursos educativos são direcionadas, sobretudo, para as raparigas, de modo a romper com as escolhas tradicionais e promover percursos nas áreas da tecnologia e ciências naturais, como é o caso da Alemanha, Áustria, Bélgica (Flandres), Luxemburgo e Polónia. Linhas de orientação oficiais que integrem uma perspetiva de género nos materiais de ensino e aprendizagem existem apenas em alguns países (Áustria, Alemanha, Irlanda, Islândia e Letónia). De igual modo, só a Bélgica (Valónia), Grécia, Liechtenstein, Luxemburgo, Portugal e República Checa apresentam sistemas nacionais de aprovação de manuais escolares devido, principalmente, às questões de autonomia das escolas e dos professores na escolha dos materiais de ensino e do elevado grau de liberdade às editoras de manuais escolares. No entanto, muitos países oferecem orientações aos autores e editoras de manuais escolares. Em alguns países, onde figura o caso português, existe supervisão pedagógica que procure promover um ensino sensível às questões de género. Pese embora as medidas tomadas pelos países europeus, mulheres e homens ainda continuam a ser tratados de forma diferente em muitos manuais escolares: os homens surgem mais representados que as mulheres, os vocabulários entram em contradição com o principio da igualdade de género, as personagens históricas são maioritariamente masculinas, as mulheres são associadas às profissões tipicamente femininas e geralmente estão sub-representadas nas arenas intelectual e política. Por fim, um conjunto de medidas destinadas à criação de um clima escolar pacífico (no que remete para a relação entre estudantes, professores e estudantes, níveis de violência e assédio associados ao género) foram publicadas recentemente. Apesar de existirem medidas contra a violência, estas tendem a ignorar as questões de género. No combate ao assédio existem algumas medidas pontuais que têm o género como foco; no entanto, são poucos os países que estabelecem um plano de prevenção contra a violência e assédio (Espanha, França e Inglaterra) e os que desenvolvem determinadas ações pontuais (Bélgica, Holanda, Polónia e Portugal). 4. Políticas indiretamente relacionadas com o processo educativo Por sua vez, na segunda categoria encontram-se as políticas que procuram envolver os pais na promoção da igualdade de género, equilibrar o género na profissão docente, combater a baixa 121 taxa de mulheres em cargos de gestão escolares, e incluir a perspetiva de género na formação inicial e contínua de professores. Globalmente, as medidas políticas e os projetos governamentais para envolver os pais na promoção da igualdade de género são raras e as iniciativas escolares são limitadas. Alguns países, como Bélgica (Flandres), Dinamarca, Espanha e Portugal desenvolvem algumas atividades para o envolvimento parental como a publicação de diversos materiais para os pais, campanhas organizadas para os estudantes, cujas famílias são convidadas a participar, especialmente no domínio da educação sexual e, algumas atividades para melhorar o desempenho escolar, sobretudo dos filhos (Escócia). Quanto mais jovens as crianças, maior o número de mulheres na profissão docente, sendo um caso extremo a Turquia, onde apenas 5% da população docente é do género masculino. No entanto, à medida que o nível de ensino avança, a representação do género feminino no corpo docente tende a decrescer. A título de exemplo, em 11 países num total de 31 a proporção de mulheres no corpo docente no ensino secundário, varia entre os 45% e os 56%. Este cenário contrasta ainda mais com o caso do ensino superior onde, em metade dos países, as mulheres representam menos de 40% do corpo docente. Alguns países têm criado campanhas para atrair homens para o ensino primário como forma de prevenir o abandono escolar, como é o caso da Holanda e da Irlanda, e outros lançado iniciativas mais gerais para atrair homens para a profissão docente, onde figuram a Lituânia, Noruega, Reino Unido e República Checa. No que diz respeito aos cargos de gestão escolares, esta situação também está relacionada com o nível de educação. As mulheres ocupam cerca de 70% dos cargos de gestão escolar no ensino primário; no entanto, este número tende a decair rapidamente para os cargos do ensino básico (cerca de 45%), estando este valor abaixo de 30% na Áustria, Bélgica (Flandres), Irlanda, Itália, Lituânia e em Portugal. Nesta linha de ideias, alguns países têm desenvolvido algumas iniciativas para aumentar a participação de mulheres nos cargos de gestão escolares, como é o caso da do Chipre, Holanda, Irlanda, Liechtenstein e Roménia. Em muitos países europeus, as instituições de ensino superior gozam de total autonomia na escolha dos programas de formação que oferecem, estando a inclusão dos tópicos de igualdade de género ao critério de cada instituição. Países como a Bélgica (Flandres), Reino Unido e Suécia integram este tema nos programas de formação, enquanto que países como a Áustria, Bélgica (Valónia), França, Dinamarca e Holanda afirmam a obrigatoriedade da presença das 122 questões de género nesses mesmos programas. Em Espanha, Finlândia e Portugal, estas questões surgem nos mais recentes planos de ação para a promoção da igualdade de género. A mesma lógica pode ser encontrada na formação contínua de professores, onde diversas iniciativas ligadas às escolhas vocacionais, ao insucesso e ao abandono escolar nos rapazes são desenvolvidas na Áustria, França e Suécia. Em suma, as políticas de igualdade de género em educação agrupam um conjunto muito diverso de definições que se operacionalizam em diversas formas e em determinados graus. Entre as “políticas de ajuste e corte” (Rees, 1998) que integram a igualdade de género nas políticas de igualdade de oportunidades e igualdade de tratamento e as “políticas de transformação” (idem) que entendem a igualdade de género nos sistemas educativos como um resultado a atingir, os maiores desafios centram-se no combate aos estereótipos e papéis tradicionalmente associados ao género, o combate à violência baseada no género e assédio e a representação das mulheres nos processos de decisão. Algumas recomendações para os Estados-membros no que respeita à percetiva de género em educação podem encontrar-se na Tabela 2. 123 Tabela 2. Recomendações para os Estados-membros no que respeita à perspectiva de género em educação Recomendaçōes Medidas Currículo - Integrar programas que sejam sensíveis às questões de género para professores e alunos para encorajar o trabalho contra a discriminação nas diretamente escolas. As competências e o conhecimento devem sensibilizar para os estereótipos, profissões tipicamente associadas ao género e a distribuição entre relacionadas com homens e mulheres no mercado de trabalho e nas profissões relacionadas com os cuidados. o processo - Criar programas que promovam a igualdade de género na educação pré-escolar. educativo Escolhas - Apoiar o desenvolvimento de programas especiais de educação profissional (modelo dual de educação) de modo a aumentar as possibilidades de os vocacionais grupos menos favorecidos poderem permanecer nos sistemas de educação. - Desenvolver programas de educação profissional flexíveis, para promover o prosseguimento de estudos no ensino superior. - Implementar iniciativas e projetos que encorajem rapazes e raparigas a escolherem percursos educativos que não estejam associados a um determinado género em especifico. Para o efeito, essas iniciativas devem considerar experiências de trabalho não tradicionais. Métodos ensino de - Eliminar estereótipos associados ao género nos materiais escolares (textos, testes...). e 124 materiais - Conduzir uma análise mais profunda sobre os métodos de ensino, os manuais e os materiais de aprendizagem de modo a conhecer o impacto destes escolares materiais nas praticas associadas ao género e às preferências ocupacionais a nível europeu e nacional. - Adaptar o vocabulário educacional tendo em conta a diversidade de género. Ambiente - Criar através de um cultura da escola um ambiente de aprendizagem que permita a aprendizagem sem o medo da ridicularização e do comportamento escolar disruptivo. Para o efeito, deve criar expectativas de altos níveis de desempenho e de autodisciplina, um compromisso com os valores de igualdade através do currículo e das atividades escolares. - Desenvolver estratégias de aprendizagem socialmente inclusivas e que valorizem competências informais, de modo a tornar a escola um espaço atrativo para os grupos mais desfavorecidos. Os programas educativos europeus e as autoridades nacionais podem criar estruturas que permitam premiar escolas que valorizem o desenvolvimento de competências informais. - Desenvolver programas que encorajem a não-violência nas escolas através de estratégias anti-bullying, com enfâse na questão dos direitos humanos e na igualdade de vozes. Essas iniciativas podem ajudar à criação de uma cultura sustentável de igualdade de género que pode promover um engajamento positivo dos rapazes nas questões de género. - Implementar workshops reflexivos sobre as questões de género, onde rapazes e raparigas possam discutir criticamente as normas de género no ambiente escolar. Deve ficar claro que os papéis tradicionais associados ao género tendem a limitar perspectivas futuras. Devem ser providenciadas ferramentas e conhecimento para reconhecer os estereótipos e as profissões tradicionais associadas ao género. 125 Medidas Envolvimento - Promoção da igualdade de género nas escolas por parte dos pais. Para o efeito, os pais devem ter espaços de representação e participação nas indiretamente parental escolas, principalmente os de meios sociais mais desfavorecidos; relacionadas com outros o profissionais processo e - Desenvolver seminários sobre as questões de género direcionados a psicólogos educacionais para apoiar e encorajar raparigas e rapazes a ampliar o leque das suas escolhas educativas e profissionais. educativo Profissão - Focar o trabalho no professor, alternar entre professores do sexo masculino e feminino e desenhar formas de ação a partir da abordagem da ‘escola docente como organização’. As atitudes dos professores e educadores tendem a ser conservadoras e reproduzem ideias e expectativas tradicionalmente associadas ao género. Uma grande parte desconhece formas de promover a igualdade de género nas escolas. - Atrair mais homens para as profissões associadas aos cuidados pode contribuir para o desequilíbrio encontrado na profissão Gestão -Orientar a Direção das escolas e professores para o contexto legal da igualdade de género e para formas de desenvolver um clima apropriado ao escolar respeito pelos géneros, assim como informação sobre métodos de ensino, matérias e formas de avaliação. - Assumir posições de liderança nas escolas por parte das mulheres, de modo a desafiar os papéis tradicionais. 126 - Integrar na avaliação das escolas, considerando igualmente as formas de financiamento. - Apoiar o desenvolvimento de standards para a igualdade de género e a diversidade (género, idade, classe, etnia) nas instituições educativas a nível europeu. Ao nível nacional, as escolas devem implementar esses standards de modo a que seja possível a sua monitorização, avaliação e divulgação. Formação inicial - Desenvolver currículos para professores e educadores que trabalham na educação pré-escolar e módulos obrigatórios sobre a igualdade de género e para encorajar os profissionais a refletir no seu comportamento em relação às questões de género. continua - Implementar módulos obrigatórios sobre a igualdade de género nos currículos de formação de professores. Programas e - Desenvolver programas sociais para encorajar jovens provenientes de grupos desfavorecidos a permanecerem na educação incluindo, para o efeito, o iniciativas trabalho com o seu ambiente (família, pares, etc.). - Promover subsídios pagos a jovens para que permaneçam na educação depois da idade de escolaridade obrigatória. - Apoiar programas para encorajar os grupos sub-representados de professores (sub-representação de género, imigrantes, minorias étnicas, etc.) de modo a que os professores representem a diversidade de homens e mulheres nas sociedades europeias e também para dar uma oportunidade às crianças para se familiarizarem com o género masculino a assumir papéis de prestadores de cuidados. 127 - Apoiar campanhas que incluam a promoção da participação de homens e mulheres em carreiras não tradicionais, Fonte - EACEA (2010) e The Role of Men in Gender Equality – European Strategies and Insights, Direção-Geral de Justiça17 . 17 Para mais informações, consultar http://ec.europa.eu/justice/gender-equality/files/gender_pay_gap/130424_final_report_role_of_men_en.pdf 128 Em suma, como foi possível observar a partir na nossa análise, a relação existente entre as políticas educativas e as políticas de igualdade de género é ainda recente e desarticulada entre si. No domínio das políticas para o insucesso e abandono escolar, e apesar dos sistemas de recolha e tratamento de informação se mostrarem mais amadurecidos, é a partir de 2011 que a Comissão Europeia começa a recomendar medidas políticas mais direcionadas, tendo por base propostas apresentadas pelo grupo de trabalho temático constituído por decisores políticos, profissionais e peritos dos 27 Estados-Membros, de modo a apoiar os Estados nacionais a desenvolverem políticas compreensivas para o combate ao insucesso e abandono escolar. No domínio das políticas da igualdade de género da educação, a Comissão Europeia tem dedicado a sua atenção à recolha e ao tratamento de informação junto dos Estados-membros, de modo a realizar o estado de arte em matéria de medidas políticas, estratégias e iniciativas nos sistemas educativos europeus. Apesar das disparidades de resultados escolares e níveis de insucesso e abandono escolar entre géneros e da controvérsia entre os discursos sobre educação e as questões de género que têm marcado os debates político, académico e mediático (Lahelma, 2014), a Comissão Europeia ressalva a necessidade de uma visão holística sobre o fenómeno e as questões de género que, caso não se registe, surge como um dos fatores de desigualdade que podem explicar a origem do fenómeno. Como é afirmado, Reduzir o abandono escolar precoce de modo holístico exige a revisão crítica do sistema de educação e formação. Demasiado frequentes são as políticas de abandono escolar precoce que só se dirigem àqueles que se encontram em risco de insucesso escolar ou àqueles que deixaram a educação e formação sem qualificação. O Grupo de Trabalho Temático sobre o abandono escolar precoce defende que políticas efetivas devem basear-se numa visão holística e ter em consideração todos os aspetos que no sistema de educação e formação podem influenciar o abandono escolar precoce (European Commission, p. 25). Acrescenta-se ainda que A ligação entre género, classe social e origem étnica influencia comportamentos e em decorrência o desempenho dos alunos. Políticas que só se centram numa única fonte de desigualdade social podem esconder a complexidade de experiências no seio de um grupo específico e levam a soluções demasiado simplistas (EACEA, 2010, p. 112). Se a União Europeia, através de diversas iniciativas, tem demonstrado algum interesse, mesmo que pouco efetivo ainda, pela questão de género no insucesso e abandono escolar, a análise da legislação portuguesa relativamente a estes mesmos problemas revela-se ainda mais omissa, como veremos de seguida. Assim, a discussão que pode ser encontrada de seguida assenta 129 numa divisão cronológica proposta por Álvares e Calado (2014). Nesta divisão é importante notar, por um lado, que as preocupações portuguesas relativas ao insucesso e abandono escolar são anteriores ao surgimento de documentos sobre este tema produzidos pela União Europeia, devido à importância que o problema apresenta neste país há várias décadas. Por outro lado, é interessante notar desde o início deste milénio, a produção de medidas legislativas que procuram uma articulação com as orientações com a União Europeia, nomeadamente no que remete para o cumprimento do ensino secundário. Ainda, deve-se observar que, ao contrário das questões de género que têm encontrado eco nos documentos mais recentes da União Europeia, no caso de Portugal, essa problemática é inexistente. 5. Portugal - Insucesso e abandono escolar: medidas e legislação A legislação portuguesa relativa à educação prevê a universalidade da frequência das ofertas obrigatórias propostas pelo sistema educativo. Mas, nos diplomas legais, não é feita qualquer referência diferenciadora relativamente a questões de género que não sejam as indicações na Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº. 46/86, de 14 de Outubro) de que todos os portugueses têm direito à educação (Art.º 2, Princípios gerais, alínea 1) e de que o Estado deve assegurar a igualdade de oportunidades à educação para ambos os sexos (Art.º 3º, Princípios organizativos). A legislação existente prevê a obrigatoriedade de frequência da escolaridade obrigatória tendo como referentes a idade dos indivíduos e o ano de ensino. A Lei de Bases do Sistema Educativo estabeleceu que o ensino básico obrigatório contemplava 9 anos de escolaridade, divididos em três ciclos – o 1º ciclo (quatro anos), o 2º ciclo (2 anos) e o 3º ciclo (três anos). A admissão dos alunos estava (e ainda está) prevista no momento em que atingissem os 6 anos no 1º ano do 1º ciclo do ensino básico18. Esta lei previa ainda que os alunos estivessem obrigados a frequentar a escola até ao 9º ano de escolaridade, devendo permanecer no sistema até aos 15 anos. Mais recentemente, através da adopção da Lei nº. 85/2009, de 27 de agosto, registou-se um alargamento da escolaridade obrigatória para os 12 anos. Assim, os alunos devem manter-se no sistema até atingirem os 18 anos ou até concluírem o 12º ano, o ensino secundário completo. 18 Apesar do esforço efetuado nas últimas décadas relativo à frequência da educação pré-escolar, esta não é obrigatória. Todavia, os dados existentes relativos a 2013 referem que 93,7% das crianças entre os 4 e 5 anos frequentam este nível de ensino em Portugal (Conselho Nacional de Educação, 2014), levando Capucha et al. (2009) a apelar à universalização da frequência aos 5 anos de idade a curto prazo, mas chamando a atenção para o fato de esta medida também dever ser alargada aos 3 anos, enquanto estratégia de longo prazo de prevenção do insucesso e abandono escolar. 130 Se o insucesso e abandono escolar são conceitos polissémicos (Benavente, 1991), globalmente, pode-se afirmar que os diplomas legais assumem entendimentos restritos destes conceitos. A legislação assume uma relação linear entre o ciclo escolar frequentado e a idade dos alunos, tendo como princípio a homogeneização etária das turmas e dos ciclos de ensino. Mas, apesar da linearidade das propostas legais, nem sempre os alunos frequentam a escolaridade obrigatória correspondente à idade que possuem. Um dos fenómenos que contribui para esta situação é o insucesso escolar que obriga em última análise à retenção dos alunos (ou reprovação ou ainda repetição de ano escolar pelos alunos). A retenção consiste na definição oficial do insucesso escolar que advém do regime anual de avaliação e que determina a passagem ou retenção dos alunos (Mendonça, 2006). Assim, por insucesso escolar entende-se a situação na qual um aluno não demonstra o desempenho escolar previsto ao não corresponder aos objectivos de aprendizagem e à assiduidade definidos para o nível de ensino que frequenta. Neste sentido, o insucesso escolar está na origem da retenção dos alunos em certos anos escolares. Por isso, esta situação leva a que numa dada turma de qualquer ano de ensino seja possível encontrar sujeitos com idades diferentes, designadamente aqueles que apresentam “atrasos escolares” (devido à retenção) e que não se encontram a frequentar o nível de ensino atribuído à idade que possuem. Complementarmente, verifica-se que alguns alunos abandonam o sistema de educação sem terem concluído a totalidade dos ciclos de ensino previstos. Neste caso, estamos perante o abandono escolar precoce. Em termos formais, o abandono escolar remete para a interrupção da frequência de ofertas de ensino quando a isso os alunos estão obrigados. Regista-se assim uma saída antecipada do sistema. Sendo realidades distintas, o insucesso e o abandono escolar estão relacionados, uma vez que se constata que o insucesso leva em diversos casos ao abandono escolar (Justino et al., 2014). Os estudos sobre o insucesso e abandono escolar concordam com a dificuldade na identificação de causas que os originam, devido à complexidade de fatores e dinâmicas que determinam estes processos. De acordo com Capucha et al. (2009, p. 37 e ss.), é possível identificar conjuntos articulados de variáveis que devem ser considerados nesta análise, bem como na definição de políticas públicas. Estes conjuntos de variáveis incluem “fatores e dinâmicas associados entre si” de caráter endógeno e exógeno, nomeadamente i) o desajustamento entre a escola, sobretudo no que remete para a “linguagem tradicional da escola”, e as famílias dos alunos; ii) a articulação entre os alunos, a escola e o mercado de trabalho; iii) o funcionamento do sistema de educação-formação; iv) a relação entre agentes educativos-formativos e comunidades, grupos ou pessoas considerados problemáticos. 131 Seguindo orientação preconizada pelos documentos da União Europeia, que tipificam as medidas e programas existentes, os diplomas nacionais incluem estratégias que, em muitos casos, são simultaneamente de prevenção, de intervenção e de compensação, como veremos de seguida. Tendo em conta esta diversidade de fatores e dinâmicas, na atualidade na legislação portuguesa podem ser encontrados diversos diplomas que visam concretizar as finalidades da igualdade de oportunidades na educação e o cumprimento da escolaridade obrigatória. Na Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº. 46/86, de 14 de Outubro), criação de apoios e complementos educativos (Capítulo III) orientados para a promoção do sucesso escolar (Art.º 24º), o apoio a alunos com necessidade escolares específicas (Art.º 25º) e o apoio psicológico e orientação escolar e profissional (Art.º 26º) são exemplos interessantes já indicados na Lei de Bases, que foram regulamentados posteriormente em diversas ocasiões. Todavia, apesar do interesse que revestem, neste texto algumas dessas propostas serão aqui somente identificadas19. Desta forma, serão referidas com maior detalhe ofertas que, na promoção do cumprimento escolaridade obrigatória, tal como no combate ao insucesso e abandono escolar, estejam destinadas a grupos sociais específicos e/ou a territórios educativos particulares. Abarcando finalidades distintas, estas ofertas têm merecido a atenção de diversos autores que têm destacado aspectos positivos e debatido dimensões criticáveis, como veremos de seguida. 5.1. De 1986 até ao início do século XXI: prioridade ao cumprimento do 9º ano Álvares e Calado (2014) identificam dois grandes períodos na promoção do sucesso educativo e na prevenção do abandono escolar que servirão de matriz a esta análise sobre a legislação portuguesa. O primeiro, de 1987 a 2002, visou a efetivação dos 9 anos de escolaridade. Neste período, um tempo relativamente longo que favoreceu a continuidade de políticas, verificaram-se duas fases. A primeira ocorreu até 1995. Nesta fase registou-se a adopção de medidas de caráter integrado e de promoção da procura escolar, sobretudo no que se relacionou com o alargamento da escolaridade obrigatória e com a garantia do acesso e da expansão da rede escolar. Ainda especificamente ligadas ao insucesso escolar, destacaram-se as medidas de prevenção, através da promoção dos apoios sociais na escola e de suportes económicos a Não foram igualmente incluídas neste texto ofertas relacionadas com o Ensino Artístico, nem tão pouco aquelas destinadas aos adultos. 19 132 famílias mais carenciadas (como a distribuição de leite escolar, os transportes escolares e a saúde escolar). Neste período deve-se notar igualmente a promoção de diversos programas, nomeadamente o Programa Interministerial de Promoção do Sucesso Educativo (PIPSE) (Resolução do Conselho de Ministros de 10 de dezembro de 1987, publicado em DR, 2ª série, de 21 de janeiro de 1988) que teve como finalidades combater o insucesso e o abandono escolar, bem como reverter as taxas de desistência e de retenção. As medidas propostas incluíram a configuração e a expansão do sistema e atividades de compensação, com o propósito de alargar o âmbito de atuação das escolas para além do processo de ensino-aprendizagem (através, por exemplo, da organização de atividade de tempos livres e de desporto), bem como de colmatar dificuldades económicas e sociais das famílias (através da promoção de transportes escolares, da distribuição de leite escolar e de materiais, etc.). Uma outra medida de relevo, pela ambição e complexidade que a caracterizou, consubstanciou o Programa de Educação para Todos (PEPT 2000) (Resolução do Conselho de Ministros n.º 29/91, de 9 de agosto), adoptado na sequência das Recomendações da Conferência Mundial de Jomtien, na Tailândia, em 1990, sobre educação para todos. Este Programa teve como finalidade o cumprimento da escolaridade obrigatória, tendo em vista o aumento das taxas de frequência e conclusão do ensino secundário e do ensino superior. Sucessora do PIPSE, esta proposta procurou promover o aumento do conhecimento e informação sobre as dinâmicas de frequência escolar, a promoção da relação escola-meio, a estruturação do sistema, através da diversificação e flexibilização da oferta, assim como a implementação gradual da liberdade de escolha. Nesta fase, deve ainda ser indicado o Programa para a Prevenção e Eliminação da Exploração do Trabalho Infantil (PEETI) (Despacho-Conjunto n.º 882/99, de 15 de outubro). Esta proposta surgiu na continuidade do PIPSE e do PEPT, com o propósito de intervir nos fatores exógenos que marcavam o insucesso e o abandono escolar, centrado sobretudo na eliminação do trabalho infantil. O PEETI previu assim a constituição de uma oferta curricular que permitisse aos jovens que haviam abandonado a escola integrar o mercado de trabalho precocemente de voltar à escola, ajustando horários, currículos e conteúdos (Álvares & Calado, 2014). O Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF) (Despacho Conjunto nº 948/2003, de 26 de setembro e Despacho Conjunto nº 171/2006, de 10 de fevereiro) foi criado ainda em 1999 (Despacho Conjunto n.º 882/99, de 15 de outubro, dos Ministérios da Educação e do Trabalho e Solidariedade Social). Sendo uma medida surgida no âmbito do PEETI, o Programa ainda em 133 vigor baseia-se na diferenciação curricular e promove a obtenção da escolaridade básica obrigatória associada a uma qualificação profissional, quando todas as outras opções de cumprimento da escolaridade obrigatória já foram esgotadas ou rejeitadas pelos jovens e suas famílias. A medida é na atualidade tutelada pelos Ministérios da Educação e Ciência e Segurança Social, sendo coordenada a nível central pelo Programa para a Inclusão e Cidadania (PIEC). Este Programa concretiza-se mediante planos de educação e formação individualizados que integram uma componente escolar para obtenção da escolaridade obrigatória; uma componente de formação para a ocupação e orientação vocacional; e uma componente de educação para a cidadania, com a finalidade de promover a integração social. São princípios nos quais assenta este Programa a individualização, a acessibilidade, a flexibilidade, a continuidade, a celeridade, a atualização e o faseamento na execução. O PIEF procura assim combater a exclusão social e escolar, nomeadamente de indivíduos que tenham sido vítimas de situações de trabalho infantil, jovens com comportamentos desviantes, com origem em famílias consideradas disfuncionais ou já institucionalizados, com particular enfâse nos sujeitos com idades entre os 15 e os 16 anos, podendo incluir indivíduos até aos 18 anos. O Programa possui um caráter remediativo e caracteriza-se por assentar em dinâmicas que envolvem diversos atores sociais na promoção de dispositivos de integração escolar e social, tendo em vista a conclusão da escolaridade básica, articulada com uma qualificação profissional. Os currículos desenvolvem-se entre um e dois anos letivos. São adaptados a situações individuais devidamente sinalizadas, implementados em escolas do ensino regular por equipas técnico-pedagógicas multidisciplinares. O trabalho educativo e pedagógico apresenta diferentes fases ao longo de 2 anos letivos: uma primeira através da sinalização dos jovens da escola, com o envolvimento de entidades ligadas à Segurança Social e ao Instituto de Emprego, entre outras; uma segunda fase na qual é efetuado um diagnóstico individual e sociofamiliar que favorece a concepção de planos individuais de vida, escolares e sociofamiliares; e numa terceira fase na qual se leva a cabo um plano de educação e formação de natureza curricular que integra uma componente sociocultural, de formação artística ou científico-tecnológica, de formação profissional (sempre que possível) e de um programa de desenvolvimento de competências pessoais e sociais. Roldão, Campos e Alves (2008) afirmam que, apesar de seguirem um percurso escolar diversificado, os alunos incluídos no PIEF frequentavam aulas consentâneas com o curriculum nacional do Ensino Básico, havendo lugar contudo a uma adaptação através da simplificação e/ou redução deste curriculum e da diversificação das metodologias usadas, não sendo por isso o curriculum seguido de forma rígida. Embora com resultados heterogéneos, o PIEF permitiu o 134 desenvolvimento de processos educativos centrados no aluno, nas suas especificidades e no contexto cultural de origem. Favoreceu também a aquisição de aprendizagens significativas, em termos escolares, e relevantes ao nível das competências sociais, como no aumento da autoestima dos alunos, assim como globalmente da promoção da inclusão social, através do fortalecimento da ligação com as famílias. Todavia, as críticas mais significativas prendem-se com a gestão curricular que, frequentemente envolvia uma excessiva simplificação dos conteúdos, as dificuldades inerentes ao trabalho colaborativo em equipas multidisciplinares na concepção de estratégias de ensino diversificadas, assim como a necessidade de desenvolver um trabalho abrangente, que envolva as famílias e os contextos sociais nos quais estes alunos se movem (Saias & Fialho, 2014). Com a obtenção de valores muito próximos dos 100% de escolarização nos adolescentes com 14 anos, em 1995, a prevenção do insucesso e do abandono escolar passou a centrar-se nos processos de ensino-aprendizagem, na diversificação das ofertas e no ajustamento do sistema educativo a novas tendências da procura escolar. Estas foram as prioridades que marcaram o segundo período de medidas identificado por Álvares e Calado (2014)20. Nesta segunda fase, destacaram-se propostas que visaram a diversificação de conteúdos, nomeadamente no que remeteu para ofertas que incluíram componentes de natureza profissionalizante. De entre estas propostas, notaram-se os currículos alternativos de cariz vocacional que, criados através do Decreto-lei n.º 319/91, de 23 de agosto, acabaram por ser reconhecidos sobretudo após 1995, no âmbito dos Percursos Curriculares Alternativos (Despacho da secretaria de Estado da Educação e Inovação n.º 22/SEEI/96, DR 140, II, de 19 de junho, que vigorou até 2006, dando lugar ao Despacho Normativo n.º 1/2006, de 6 de janeiro). Estas ofertas destinaram-se a colmatar as necessidades dos alunos com idades até aos 15 anos, quando se verificava a ocorrência de insucesso escolar repetido e risco de abandono escolar, problemas de integração na comunidade escolar, risco de marginalização, exclusão social, dificuldades de aprendizagem, relacionadas com desmotivação, abstenção, baixa autoestima, falta de expectativas, desencontro entre cultural escolar e cultura de origem. Esta medida permitiu a criação de turmas mais pequenas do que era habitual, integrando o mínimo de 10 alunos, com currículos e conteúdos programáticos próprios, acompanhamento individualizado e uma dimensão pedagógica mais prática. A matriz curricular destes percursos devia assegurar a aquisição de Álvares e Calado (2014) afirmam que esta tendência acompanhou a regulamentação de outras ofertas, nomeadamente os Cursos de Educação e Formação, indicados mais à frente, tal como o ensino recorrente, a gestão flexível do currículo do ensino básico, bem como a promoção da autonomia das escolas e adaptação curricular ao contexto que, apesar do seu interesse não serão abordados neste texto. 20 135 competências essenciais definidas para cada ciclo de ensino, nomeadamente nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, acrescida de uma formação artística ou profissionalizante. Segundo Roldão (2000), esta oferta favoreceu uma organização e gestão curricular diferenciada, com o propósito de promover aprendizagens efetivas no caso de alunos com origens sociais e familiares muito diversas. Na base desta proposta, encontrava-se a ideia de um ensino baseado na flexibilização curricular, em oposição a um ensino assente num sistema uniformista. Nestes Percursos, verificava-se assim uma mudança que contemplava, por um lado, um core curriculum, ao integrar disciplinas como o Português e a Matemática, e, por outro lado, projetos curriculares diversos que visavam responder aos contextos de vida dos alunos. Partia-se desta forma do pressuposto de que certos alunos podiam seguir caminhos de ensino diferentes para atingirem o sucesso educativo e obterem a certificação relativa à educação básica (1, 2º e 3º ciclos) (Pacheco, 2008). De destacar ainda os Cursos de Educação e Formação (Despacho Conjunto n.º 279/2002, de 12 de abril e Decreto lei nº. 453/2004, de 27 de julho, bem como legislação posterior) que possuíram finalidades aproximadas à oferta anterior. Estes Cursos surgiram como percursos de mudança, sendo dirigidos a alunos com idade igual ou superior a 15 anos que não tivessem concluído o 6º ou o 9º ano de escolaridade. Permitiam a preparação dos alunos para o ingresso no mercado de trabalho, dado que, no momento da sua conclusão, levavam à obtenção de uma qualificação profissional (de nível 1 ou 2) e uma certificação escolar, culminando com a realização de um estágio ou de formação em contexto de trabalho. Estes Cursos favoreciam ainda o prosseguimento de estudos no ensino secundário, fosse pela via científico-humanística, fosse através de um Curso de Educação e Formação de nível secundário. Seguindo uma abordagem distinta de ligação ao território no qual a escola se integra, o Programa Território Educativo de Intervenção Prioritária (TEIP) foi criado em 1996 (Despacho n.º 147-B/ME/96, de 1 de agosto que teve continuidade com o Despacho n.º 8065/2009, de 13 de março)21. Consiste numa medida que permite às escolas identificadas pelo Ministério da Educação como estando situadas em zonas socialmente problemáticas e com dificuldades em atingir resultados educativos aproximados à média nacional, de apresentarem projetos específicos, com a duração de 3 anos letivos, para responder aos problemas diagnosticados. Deve-se ainda notar a adopção da medida relativa às Escolas de Intervenção Prioritária (Despacho n.º 119/ME/88, de 15 de julho) localizadas em zonas degradadas e isoladas, marcadas pela instabilidade do corpo docente, por elevados números de crianças com dificuldades de aprendizagem e por significativas taxas de insucesso escolar, ainda no primeiro período assinalado por Álvares e Calado (2014). Esta proposta de alguma forma marca a primeira iniciativa dirigida a territórios considerados problemáticos no âmbito das políticas públicas. 21 136 Estes projetos permitem o acesso a apoios especiais (materiais e humanos, como psicólogos e animadores) para a realização de atividades distintas daquelas que são mais tradicionais em contexto escolar. A medida encontra-se hoje na terceira fase (Despacho Normativo n.º 20/2012, de 3 de outubro), abrangendo cerca de 10% da rede pública de educação básica e integrando 137 agrupamentos de escolas, ligados a cinco Direções Regionais de Educação (dados in hppt://www.min-edu.pt, acedido a 10 de novembro de 2014)22. Tem como finalidades melhorar a qualidade das aprendizagens traduzida no sucesso educativo dos alunos; combater a indisciplina, o abandono escolar precoce e o absentismo; criar condições para a orientação educativa e a transição qualificada da escola para a vida ativa; promover a articulação entre a escola, os parceiros sociais e as instituições de formação presentes no território em causa. Devido às suas características e aos impactos esperados, os TEIP mereceram a atenção de alguns trabalhos de índole académica. Um primeiro aspecto debatido relaciona-se com a ligação efetuada entre as escolas abrangidas pelo Programa e as comunidades locais nas quais se inserem, no que remete para as finalidades de democratização do ensino e de igualdade de oportunidades. Esta medida assenta na constituição de territórios, entendidos como zonas de intervenção privilegiadas, que obrigam a uma intervenção específica, devido às características que marcam as comunidades locais nas quais as escolas em causa se inserem. Vista como uma proposta de discriminação positiva, ela visa combater o insucesso escolar, através da promoção da igualdade no acesso e no sucesso educativos da população escolar em idade de frequência do ensino básico, nomeadamente das crianças e dos jovens em risco de exclusão social e educativa. Por esta razão, segundo Canário, Alves e Rolo (2001), no surgimento desta proposta encontra-se a ideia de que os sistemas escolares podem revelar disfunções (ou ingovernabilidade), o que obriga a intervenções específicas. Estas intervenções situam-se ao nível da difusão das funções da educação e da formação, através do desenvolvimento de atividades curriculares e pedagógicas distintas de outras mais tradicionalmente escolares, de iniciativas que envolvem a comunidade local, etc. Nesta linha de pensamento, os TEIP questionam a hegemonia da forma escolar e o monopólio educativo escolar, assim como denotam a tendencial globalização da ação educativa, ao nível local, através da procura de estratégias integradas de desenvolvimento. Os TEIP apresentam assim finalidades de “democratização”, pela via da promoção da igualdade de oportunidades e de ligação às comunidades locais, e, simultaneamente, de “modernização”, 22 Dados relativos a 2013/14 indicam que os TEIP envolveram 135 243 alunos (Álvares & Calado, 2014). 137 nomeadamente devido ao esforço de aumento da eficácia e da qualidade do sistema educativo, bem como da melhoria das aprendizagens escolares dos alunos. Neste cruzamento de finalidades, tornam-se evidentes aquelas que estão orientadas por discursos e preocupações de teor emancipatório, mitigadas por aquelas que se baseiam um paradigma internacional hegemónico de corte neoliberal (Abrantes, Mauritti & Roldão, 2011). Neste contexto, emergem diversas tensões e ambiguidades que resultam no que, por exemplo, Canário, Alves e Rolo (2001) e Barbieri (2003), apelidaram de “necessidade de repensar a exclusão social e a exclusão escolar”. Complementarmente, os TEIP partem da identificação pela administração central portuguesa de “áreas de intervenção prioritária”, à semelhança de medidas que já tinham sido desenvolvidas, por exemplo, nos Estados Unidos da América, na Inglaterra e em França. Todavia, devido ao processo que conduz à constituição destas zonas, de cariz administrativo e burocrático, raramente estas áreas coincidem com outras entidades sociais, geográficas e administrativas existentes (Canário, Alves e Rolo, 2001; Abrantes, Mauritti & Roldão, 2011). Neste sentido, regista-se uma definição de território de intervenção marcadamente técnica, baseada nas escolas existentes que vivenciavam problemas de diversa ordem, o que acaba por não considerar as características dos territórios locais. Assim, devido aos problemas sociais, familiares e escolares que as caracterizavam, estas áreas favorecem a implementação de uma política pública de territorialização, sendo destacada a vertente da intervenção socioeducativa e não exclusivamente escolar (Abrantes & Teixeira, 2014). Adicionalmente, em boa verdade, a articulação efetuada com as entidades e as comunidades é vista como sendo restrita e limitada à intervenção dos projetos entretanto construídos. De facto, estes territórios são tidos como “concentrados de problemas” (Canário, Alves & Rolo, 2001) que exigem a construção de projetos educativos de carácter inovador e abrangente, até porque preveem a intervenção de diferentes instituições locais. Esta visão profundamente negativa que pode ser encontrada na legislação e também em muitos dos projetos educativos favorece um destaque nos problemas externos às próprias escolas, criando um estigma nos territórios e nas comunidades nos quais o programa tem intervindo. Apesar destas limitações, os TEIP têm sido globalmente vistos como uma medida positiva, nomeadamente no que remete para a finalidade do combate ao insucesso e abandono escolar, bem como para contribuir para o desenvolvimento das escolas, enquanto organizações educativas capazes de dinamizarem dinâmicas locais de trabalho de projeto, para a melhoria do 138 planeamento e da avaliação institucionais, da gestão de recursos, da oferta educativa, dos serviços de apoio e de acompanhamento dos alunos e, de modo menos pronunciado, para a melhoria das práticas pedagógicas (Ferreira & Teixeira, 2010; Abrantes, Mauritti & Roldão, 2011; Álvares & Calado, 2014). Por outro lado, os atores locais, como os professores, têm expressado uma imagem positiva da medida, devido sobretudo ao acréscimo de recursos conseguido e à construção local de redes de trabalho pedagógico e educativo, mesmo que muitas vezes esta imagem esconda preconceitos e ideias conservadoras relativas aos alunos em risco de insucesso e abandono escolar (Canário, Alves & Rolo, 2001). Porém, a medida também tem evidenciado resultados heterogéneos. De entre esses, destacamse aqui a subordinação funcional do programa a orientações de racionalidade económica, assentes na trilogia produtividade-competitividade-emprego. Mesmo que a medida se inscreva na tentativa de promoção da igualdade de oportunidades e de suprimento o carácter tardio e inacabado da escola de massas em Portugal, a legislação e as orientações inerentes apelam frequentemente à necessidade de pensar intervenções que tenham em vista o aumento da eficácia e da qualidade do sistema. Também, os TEIP apresentam como finalidade o reforço da orientação educativa e a transição qualificada para a vida ativa. Neste âmbito, Abrantes, Mauritti e Roldão (2011) referem o desenvolvimento de iniciativas interessantes, mas chamam a atenção para a fragilidade destes processos em comunidades marcadas pelo desemprego, pela precariedade e por condições de vida difíceis, tornando difícil compreender se os avanços conseguidos podem ser considerados expressivos e sustentáveis. Um outro resultado ambíguo prende-se com o caráter limitado da visão de território educativo que sustenta os TEIP, muito centrada na escola enquanto instituição de ensino, mas pouco acentuada enquanto instituição de desenvolvimento local (Abrantes, Mauritti & Roldão, 2011). A definição de território educativo, realizada pela administração central e baseada num critério administrativo e técnico, realça a existência de um território escolar, partindo dos agrupamentos escolares que podem ser encontrados, impede a construção local e participada (com o envolvimento de outros atores locais) de políticas, bem como negligencia as particularidades das comunidades de intervenção que poderiam favorecer a construção de projetos diversificados e com efetivo impacto. Desta forma, segundo Canário, Alves e Rolo (2001), esta medida denota o predomínio do carácter “etnocêntrico” da escola. Apesar das parcerias e do papel de diferentes atores locais, a escola e o modo dominante através o qual esta organização considera o trabalho que nela é desenvolvido revela uma intervenção centrada na correção dos défices apresentados pelos alunos, sendo esta complementada por iniciativas de caráter social. Desta forma, as 139 estratégias de intervenção pedagógica, enviesadas por uma perspectiva de racionalidade didática, orientada para colmatar os défices apresentados pelos alunos, inviabilizam a abordagem das situações de aprendizagem, enquanto situações sociais. Os TEIP denotam então dificuldades na construção de uma estratégia de desenvolvimento local integrado. Nesta perspectiva, esta medida inscreve-se numa lógica paliativa, do curto prazo, por oposição a uma lógica de democratização, de longo prazo, da negociação com diversos atores locais (Canário, Alves e Rolo, 2001), assente em intervenções de caráter “compensatório” ou “reparador”, contribuindo para a pacificação, a coesão social e as redes relacionais, no contexto de escolas e bairros marginalizados. Assim, esta medida acaba por não se revelar capaz de promover uma mudança das políticas educativas e territoriais, expressando capacidade de transformação da relação escola-comunidade e implicando uma mudança efetiva nas estruturas escolares e comunitárias. É significativo, aliás, dos processos de mediação das políticas educativas que o controlo dos comportamentos surge como principal resultado dos projetos TEIP, quando não consta dos normativos que instituem o programa, enquanto o desenvolvimento local, concebido como um dos quatro objetivos centrais, raramente surge enquanto orientador de ações emancipatórias, que façam uso da revogação dos mecanismos de dominação e exclusão (Abrantes & Teixeira, 2014). 5.2. De 2003 até 2010: o cumprimento do 12º ano Segundo Álvares e Calado (2014), um segundo período na prevenção do insucesso e no combate ao abandono escolar iniciou-se em 2003, tendo-se prolongado até 201023. Este período incluiu a preparação e o alargamento da escolaridade obrigatória para os 18 anos e 12 anos de ensino e, por isso, foi concedida particular atenção ao ensino secundário. De resto, esta opção política também surgiu como uma resposta a análises comparativas efetuadas por organizações internacionais, como a União Europeia e a OCDE muito difundidas desde o início deste século, que deixavam (e ainda deixam) o país numa situação frágil, devido aos indicadores apresentados relativamente a baixas taxas de escolarização, assim como devido à quase ausência de qualificações intermédias detidas por parte da população portuguesa (Capucha, 2009). Para além das propostas indicadas neste texto neste período, deve ainda referir-se a implementação dos Planos de Ação da Matemática, assim como o Plano Nacional de Leitura, ambos lançados em 2006. 23 140 A primeira década de 2000 acabou assim por se caracterizar por um elevado investimento na promoção do sucesso escolar, nomeadamente ao nível da melhoria da qualidade das aprendizagens no ensino secundário que apresentava elevadas taxas de insucesso e abandono escolar, quando comparadas com as percentagens de outros países da União Europeia. Das orientações de caráter curricular neste nível de ensino, que previam uma maior flexibilidade e a definição pelas escolas de estratégias diferenciadas no combate ao insucesso escolar, a diversificação da oferta consistiu numa tendência importante, designadamente ao nível das vias profissionalizantes e qualificantes24. É neste âmbito que pode ser percebida a progressiva importância atribuída aos Cursos Profissionais. Na atualidade, os Cursos Profissionais (Decreto-Lei n.º 92/2014, de 20 de junho e outra legislação) são percursos do nível secundário de educação, caracterizados por uma forte ligação ao mundo profissional. A aprendizagem realizada nestes Cursos valoriza o desenvolvimento de competências para o exercício de uma profissão, em articulação com o setor empresarial local. Destinam-se àqueles que concluíram o 9.º ano de escolaridade ou formação equivalente e que desejem um ensino mais prático e voltado para o mundo do trabalho. Estes Cursos contribuem para o desenvolvimento de competências pessoais e profissionais úteis para o exercício de uma profissão. Visam também responder às necessidades de trabalho locais e regionais, não deixando de preparar os alunos para a acederem a percursos de educação e formação póssecundárias ou ao ensino superior. O surgimento dos Cursos Profissionais ocorreu em finais da década de 1980, no quadro da Lei de Bases do Sistema Educativo (Art.º 9º e Art.º 10º) e do Decreto-lei n. 286/89, de 26 de agosto25. Estes diplomas permitiram o relançamento do ensino profissional que tinha desaparecido enquanto tal em finais da década de 1970 no contexto da unificação da vias de ensino. Desta forma, surgiu uma oferta direcionada para a vida ativa, nomeadamente em escolas profissionais privadas e não integradas em organizações de ensino secundário, num quadro de Neste âmbito surgem igualmente os Cursos de Aprendizagem (Portaria n.º 1497/2008, de 19 de dezembro e outra legislação) que permitem obter uma certificação escolar e profissional, privilegiando a inserção no mercado de trabalho. São Cursos que potenciam uma forte componente de formação realizada em contexto de empresa, não descurando o prosseguimento de estudos de nível superior. Destinam-se a jovens que estejam entre 14 e 24 anos que não tenham concluído o 9.º ano de escolaridade ou o 12.º ano. 25 O surgimento destes Cursos acompanhou a criação dos Cursos Tecnológicos (Decreto-lei n.º 286/89, de 29 de agosto) em escolas secundárias, também estes vistos como alternativas aos cursos gerais de ensino secundário. Os Cursos Tecnológicos tinham como finalidade direcionar os alunos para o ensino superior politécnico. Contudo, até 2005, estas ofertas nunca envolveram numeros expressivos de alunos, possuíam como maior referência os cursos gerais, eram frequentados maioritariamente por alunos com dificuldades ou provenientes de contextos sociais desfavorecidos e marcados por elevadas taxas de insucesso (Duarte, 2014), tendo sido substituídos pelos Cursos Profissionais entretanto oferecidos nas mesmas escolas secundárias. 24 141 uma inovação social e educacional (Azevedo, 2014), bem como a par de ofertas que permitiam o prosseguimento de estudos em estabelecimentos de ensino público. Em resultado da pressão efetuada por organizações internacionais, como a OCDE no investimento da qualificação da população portuguesa, da pressão interna da procura de cursos com essas caraterísticas e da necessária diversificação do ensino pós-básico que garanta a democraticidade e igualdade de oportunidades, foram estabelecidas diversas escolas profissionais no âmbito de contratos-programa entre o Estado e entidades privadas. Sendo baseados na diferença institucional e organizacional, bem como na diferenciação pedagógica, numa aposta alternativa ao sistema regular de ensino, os Cursos deviam ser criados de acordo com as necessidades da economia local, estando salvaguardada uma formação de banda larga e tendo em vista o desenvolvimento social e pessoal do alunos (Azevedo, 2014). Financiados pelo Fundo Social Europeu, os Cursos promovidos por essas escolas conheceram uma expressiva expansão entre 1989 e 1993, evidenciando contudo até 2005 uma estagnação, devido à dependência do programa de financiamento da União Europeia e à desconfiança política (Azevedo, 2014), bem como um impacto pouco evidente no que envolveu o combate ao insucesso e abandono escolar. Esta situação levou Duarte (2014) a afirmar que a tendência da licealização do ensino secundário foi reforçada no contexto português, sendo concedido ao ensino profissional um lugar marginal no sistema educativo. Para tal tendência, muito contribuíram dificuldades de ordem pedagógica associadas ao não cumprimento da estrutura modular dos programas, problemas inerentes a um corpo docente instável e pouco dedicado e práticas profissionais e ligações ao mundo do trabalho existentes nesses Cursos que nem sempre apresentam a riqueza educativa esperada (Azevedo, 2014). Devido a estas razões, o ensino profissional foi considerado como promotor e perpetuador de desigualdades sociais (Rodrigues, 2011). De modo a contrariar esta situação, foi a partir de 2005 que estes Cursos passaram a constituirse numa prioridade política e a estar baseados num novo modelo, sendo desde então também ministrados em escolas do ensino secundário públicas. Desde a aprovação da Lei de Bases do Sistema Educativo que o ensino secundário demonstrava taxas de sucesso educativo pouco satisfatórias. Visto como um sistema de ensino baseado num paradigma elitista, segundo Duarte (2014), assistiu-se ao predomínio do ensino geral, orientado para o prosseguimento de estudos, assumindo o ensino profissional um caráter subsidiário. O relançamento destes Cursos é então, por isso, visto como uma via alternativa à conclusão do ensino secundário, permitindo uma maior 142 diversidade da oferta educativa e do público que nestes Cursos se inscreve. Por esta via, tentouse igualmente responder à descoincidência entre oferta e procura de Cursos, dado que era maior o número de alunos interessados em frequentar estes Cursos que a oferta existente, bem como ultrapassar o bloqueio do financiamento advindo por via dos programas da União Europeia. Este relançamento assente numa mudança de paradigma na maneira de conceber o ensino profissional permitiu a sua generalização ao secundário, o que se repercutiu num forte crescimento da oferta nos anos 2006 a 2010, o que permitiu que em 2011/2012 o número de alunos em escolas do ensino secundário publico fosse maior que nas escolas profissionais privadas (Rodrigues, 2011; Azevedo, 2014). Segundo Duarte (2014), esta situação favoreceu a “revitalização da identidade do ensino secundário”, quanto ciclo de estudos de preparação para a vida ativa e aproximação da escola ao mundo do trabalho, ao mesmo tempo que permitiu aos alunos o prosseguimento de estudos no ensino superior. Favoreceu igualmente uma relativa paridade entre alunos que frequentam os cursos científico-humanísticos (Duarte, 2014). Considerados uma segunda oportunidade destinada àqueles que não foram capazes de prosseguir estudos no ensino secundário regular, estes Cursos incluem componentes técnicas, tecnológicas, práticas e escolares, favorecendo a formação de mão de obra especializada. Todavia, segundo Rodrigues (2011), é essencialmente no paradigma do contexto de trabalho, assente numa lógica económica, que o ensino profissional de baseia. Mas, curiosamente, devido às caraterísticas do mercado de trabalho português, estes Cursos parecem estar orientados para profissões para as quais pouco se contrata em Portugal. Neste sentido, o mercado de trabalho nacional não parece ser capaz de integrar todos aqueles que se formam através destes Cursos. Surgindo como um ensino ao serviço do crescimento económico, acaba sobretudo por emergir como uma oferta de educação-formação de segunda oportunidade e de desqualificação social, integrando alunos destinados ao funcionalismo pragmático (Rodrigues, 2011). A agravar esta fraca relação entre escola-mercado de trabalho, estes Cursos parecem revestirse de um cariz excessivamente académico, devido ao ensino de disciplinas que carecem de dimensões práticas e contextuais e de professores que não possuem formação específica para ensinar neste nível, o que parece dificultar ainda mais a inserção profissional dos indivíduos que os frequentaram. Verifica-se assim uma forte divisão entre currículo teórico e prático, pela qual não se oferecem grandes possibilidades de pensamento crítico (Rodrigues, 2011), nem tão pouco se combate de forma evidente o insucesso e abandono escolar que parecem persistir apesar de todas as alterações efetuadas (Azevedo, 2014). 143 Adicionalmente, estes Cursos parecem não ser capazes de romper com o ciclo de reprodução social (Azevedo, 2014), garantindo às elites o ensino secundário académico e remetendo para os Cursos profissionais para grupos sociais desfavorecidos, menos capazes de serem bem sucedidos na fileira escolar regular. Segundo Rodrigues (2011), através deste ensino, a escola participa na “criação de vencedores e vencidos”. A análise de Duarte (2012) orienta-se no mesmo sentido: parece registar-se uma associação entre alunos dos Cursos profissionais e trajetórias escolares caracterizadas por algum insucesso. As origens sociais das famílias de origem remetem para ocupações menos qualificadas e trajetos escolares dos alunos por vezes sinuosos, marcados pela retenção. Apesar do alargamento do acesso, estes Cursos parecem assim destinar-se ainda a grupos sociais desfavorecidos, não cumprindo a finalidade da igualdade de oportunidades. Este período envolveu ainda a implementação de medidas pedagógicas vocacionadas para a recuperação de aprendizagens no ensino regular, nomeadamente através do apoio adicional aos alunos em situação de insucesso escolar continuo ou específico em disciplinas determinadas26. A ideia é segundo Álvares e Calado (2014) manter a escolha original de percurso educativo e formativo frequentado e evitando a guetização inerente à frequência de ofertas educativas desqualificadas. Neste contexto surgiu o Programa Sucesso Mais (Despacho n.º 100/2010, de 5 de janeiro e Despacho n.º 13825/2011, de 14 de outubro). Este Programa consiste num apoio ao desenvolvimento de projetos de escola e visa a melhoria dos resultados escolares no ensino básico, com o objectivo de reduzir as taxas de retenção e de elevar a qualidade e o nível de sucesso dos alunos, através da diferenciação curricular. Na base desta proposta estão ideias como o ciclo de estudos como unidade de análise, a melhoria das condições organizacionais escolares de ensino e aprendizagem, a melhoria dos resultados escolares sem quebra de exigência e o desenvolvimento de mecanismos de coordenação e regulação inter escolas. Três tipos de projetos, o Projeto Fénix, o Projeto Turma Mais e Projeto Híbrido, para os projetos com estratégias que não se incluem nem na filosofia do Fénix nem na da Turma Mais, traduzem orientações para o trabalho a desenvolver por muitas escolas em Portugal (para mais informações, consultar o documento Mais Sucesso escolar. Relatório Final 2010 da Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular/Ministério da Educação e Ciência). De entre estas, pode-se destacar os Planos de Recuperação e os Planos de Acompanhamento (Despacho n.º 5/2005, de 9 de novembro) que consistiam em planos de trabalho suplementar para os alunos com fracos resultados escolares, tendo em vista a recuperação de aprendizagens. Os Planos de Recuperação dirigiam-se a situação identificadas no primeiro período, enquanto que os Planos de Acompanhamento a situações de insucesso ou retenção entre dois anos letivos. 26 144 Os projetos identificados neste Programa incidem sobre a organização das turmas e dos horários escolares, através da gestão baseada em critérios pedagógicos de diagnóstico para a definição de agrupamentos de alunos que beneficiam de um apoio por parte dos professores mais próximo e individualizado. Este programa permitiu ainda às escolas beneficiarem de apoios técnicos e pedagógicos para a aplicação das metodologias previstas na Turma Mais e no Projeto Fénix, tendo registado até ao momento resultados positivos em termos de sucesso escolar (Mais Sucesso escolar. Relatório Final 2010 da Direção Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular/Ministério da Educação e Ciência). 5.3. De 2010 até a atualidade 2014 Na senda do que foi preconizado na Lei de Bases do Sistema Educativo e em resultado de mais de duas décadas de medidas e programas, na atualidade, podem ser encontradas propostas que procuram garantir a gratuitidade do ensino, através da ação social, de modo a que todos alunos, independentemente dos recursos económicos que possuem possam frequentar os diferentes níveis de ensino a que são obrigados. Outras medidas contribuem para a acessibilidade dos alunos aos estabelecimentos de ensino, designadamente através da implantação geográfica de escolas em todo o território nacional, da existência de transportes escolares ou públicos que favoreçam a frequência das escolas existentes, tal como da oferta de ciclos de ensino com vagas em número suficiente para as necessidades das diferentes regiões do país27. Mas, dadas as características de Portugal que denota uma escolarização tardia e ainda taxas baixas quando comparadas com as percentagens de outros países europeus, o esforço efetuado ao longo de diferentes décadas foi importante, mas insuficiente, como expressam as taxas de escolarização e as ofertas criadas para a prevenção, intervenção e compensação do insucesso e abandono escolar e para a recuperação desenvolvida em sala de aula. Estas têm assentado na adaptação do sistema de educação a outras necessidades inicialmente não previstas, designadamente através da criação de propostas pedagógicas e curriculares diferenciadas que assegurem que a todos sejam dadas as mesmas condições de adquirir conhecimentos e capacidades que lhes permitam a conclusão de determinados níveis de ensino. Apresentando resultados mais ou menos interessantes, estas propostas espelham muitos dos constrangimentos e das oportunidades que a sociedade portuguesa enfrenta quando procura a educação e a formação. Outras medidas podem ser encontradas no documento em http://www.mec.pt, acedido a 16 de outubro, e Anexos: Estratégia Europa 2020. Ponto da Situação das Metas em Portugal. Abril 2014. 27 145 Das medidas implementadas mais recentemente, relacionadas com a prevenção do insucesso e o combate ao abandono escolar, destacam-se os Cursos de Ensino Vocacional (Portaria n.º 292A/2012, de 26 de setembro, Despacho n.º 4653/2013, de 3 de abril), de nível básico28 e secundário29. Estes Cursos apresentam o objectivo de complementar a resposta a necessidades fundamentais dos alunos, incluindo uma componente profissionalizante. Estes Cursos, que funcionaram até recentemente em regime experimental, devem ser generalizados no ano lectivo de 2014-2015, substituindo os Percursos Curriculares Alternativos e os Cursos de Educação e Formação. Apesar da adopção desta medida, contrariamente ao esperado, os últimos anos têm sido caracterizados pela progressiva redução do investimento público na educação. É verdade que se tem assistido ao reforço horário das disciplinas fundamentais, como o Português e a Matemática, mas o abandono de outras não pode deixar de levantar sérias dúvidas. A extinção do estudo acompanhado, da área de projeto e da educação para a cidadania, a revogação dos planos de recuperação e acompanhamento, bem como o novo estatuto do aluno são igualmente decisões que deixam muitos questionamentos, até porque não foram substituídas por outras medidas com propósito semelhantes. Estas alterações parecem indiciar uma contração do sistema, no sentido da inversão da tendência desde a Lei de Bases, agravada pela retração do investimento familiar em resultado do programa de ajustamento financeiro que Portugal experienciou de 2011 a 2014. Neste contexto parecem existir riscos para a promoção da universalidade da escolaridade obrigatória e para a qualidade dos percursos educativos e formativos dos alunos, enquanto emergem maiores probabilidades de insucesso e abandono escolar (Álvares & Calado, 2014). Parecem ainda estar ausente do panorama legislativo nacional princípios e medidas que promovam a igualdade de género, como se viu. 28 Esta oferta privilegia a aquisição de conhecimentos em disciplinas estruturantes, como o português, a matemática e o inglês, bem como o primeiro contacto com diferentes atividades vocacionais. Estes cursos têm uma estrutura curricular organizada por módulos e assentam no envolvimento de empresas e instituições parceiras, sediadas na área geográfica da escola, quer ao nível da oferta de momentos de prática simulada adequada à idade dos alunos, quer na contribuição para a leccionação de módulos da componente vocacional. Destinam- se a alunos a partir dos 13 anos de idade que manifestem constrangimentos com os estudos do ensino geral, designadamente aqueles que tiveram duas retenções no mesmo ciclo ou três (ou mais) retenções em ciclos diferentes na totalidade do seu percurso escolar (http://www.dgeste.mec.pt/index.php/2014/06/cursos-vocacionais/, acedido a 16 de outubro). 29 Com estes cursos pretende-se assegurar a criação de uma oferta de ensino secundário coordenada com empresas que responda ao interesse dos jovens que, no final da escolaridade obrigatória, pretendam ter uma saída profissional concreta. As empresas e instituições parceiras, sediadas na área geográfica da escola, estão envolvidas na realização dos estágios de formação em contexto de trabalho e contribuem para a leccionação da componente vocacional. Destinam-se a alunos a partir dos 16 anos de idade que, tendo obtido aproveitamento no ensino básico, procurem alternativas ao ensino secundário profissional e ao ensino secundário regular e pretendam uma oferta mais técnica, designadamente os que se encontrem em risco de abandono escolar (http://www.dgeste.mec.pt/index.php/2014/06/cursos-vocacionais/, acedido a 16 de outubro). 146 6. Elementos de síntese Este capítulo procurou abordar as orientações e políticas de prevenção, intervenção e compensação ao insucesso e abandono escolar na União Europeia e em Portugal. No quadro da Estratégia de Lisboa (2000-2010) e da Estratégia Europa 2020, a União Europeia tem publicado diversos documentos e lançados programas que visam abordar o insucesso e abandono escolar e, por essa via, aumentar a competitividade no espaço europeu e reforçar o modelo social europeu. Todavia, sendo estas decisões consideradas por muitos como insuficientes, muito ainda deve ser feito pela União Europeia neste domínio, o que se aplica também às questões de género, até porque só mais recentemente é que podem ser encontradas referencias em documentos e programas. A agravar a situação, as medidas existentes revelam-se em muitas circunstâncias desarticuladas, o que levou alguns autores a defender a necessidade de se promover uma visão holística destas problemáticas na produção de orientações e na implementação de programas. Quanto a Portugal, devido ao fato de os valores do insucesso e abandono escolar serem considerados elevados quando comparados com as taxas apresentadas pela larga maioria dos países da União Europeia, podem ser encontradas medidas legislativas diversas, em consonância com a Lei de Bases do Sistema Educativo. Porém, estas medidas têm pecado pelo seu caráter desarticulado, levando a que Portugal não possua uma estratégia concertada e articulada de prevenção, intervenção e compensação do insucesso e abandono escolar. A agravar a situação, de entre estas medidas, nenhuma aborda em particular as questões de género. Parece assim existir um longo caminho ainda a percorrer neste âmbito, tanto pela União Europeia, como e sobretudo pelo nosso país. 147 CAPÍTULO V DADOS EMPÍRICOS RECOLHIDOS NO ÂMBITO DO ESTUDO 148 1. Perspetiva dos elementos da direção das escolas estudadas Tal como aconteceu com os restantes entrevistados, no início das entrevistas, os elementos da direção das escolas que foram estudadas no âmbito deste projeto não possuíam uma opinião formada sobre a problemática do estudo, nomeadamente sobre o insucesso e o abandono escolar segundo uma perspectiva de género. De fato, foi ao longo das entrevistas que os inquiridos foram refletindo sobre a temática referida, designadamente sobre as causas do insucesso e do abandono escolar, sobre as expressões deste problema, sobretudo as diferenças que podiam ser identificadas entre rapazes e raparigas, assim como sobre as medidas de prevenção, intervenção e compensação existentes e as desejadas. Esta reflexão foi em boa parte conduzida pelas questões que o guião da entrevista incluía, bem como pelas dúvidas que iam surgindo aos entrevistadores. Adicionalmente, ao longo das entrevistas não foi possível obter representações separadas entre os dois fenómenos, nomeadamente o insucesso, por um lado, e o abandono escolar por outro. Esta circunstância levou a que na análise dos dados os dois fenómenos surgissem como estando interligados. Talvez por estes motivos, as representações sobre os géneros no insucesso e abandono escolar acabassem por merecer pouca atenção por parte dos inquiridos, como se verá de seguida. Causas (múltiplas e de ligação complexa) do insucesso e abandono escolar Um primeiro aspecto a considerar na análise das entrevistas realizadas a elementos da direção das escolas estudadas prende-se com o fato de os entrevistados considerarem que o insucesso e o abandono escolar apresentavam-se como fenómenos complexos, originados por causas diversas. De entre estas causas, puderam ser distinguidas duas: as externas à escola, aquelas que adivinham da origem social dos alunos, dos locais de residência, dos grupos de pares; e as internas à escola, relativas aos modos de trabalho escolar. Relativamente às causas externas à escola, daquelas que na opinião dos entrevistados tinham maior influência no insucesso e abandono escolar, destacavam-se os contextos familiares e socioculturais dos alunos. Relativamente aos contextos familiares, os inquiridos enfatizaram o fato de muitos destes alunos pertencerem a famílias que designaram de “desfasadas”, “desestruturadas” e “complicadas”, sendo estas extensas, dado que integravam elementos de diferentes graus de parentesco ou, em alternativa, monoparentais, formadas depois da 149 ocorrência de divórcio dos pais, separações ou morte de um dos progenitores. Característica comum a estas famílias era o fato de todas integrarem indivíduos pertencentes a grupos sociais desfavorecidos. Para tal, muito contribuía a circunstância de os pais dos alunos estarem desempregados, terem emigrado ou possuírem trabalhos pouco qualificados, por vezes ilegais ou nas margens da legalidade. Em decorrência, a existência de difíceis condições de vida para os alunos levava a que os inquiridos dissessem que a sobrevivência, designadamente a necessidade de trabalhar, em atividades mais ou menos legais, impunha-se relativamente à escola e que afirmassem que o abandono escolar, sendo um problema do ponto de vista dos professores e das autoridades de educação, era em muitos casos uma solução para algumas famílias, uma vez que os adolescentes e jovens passavam a pagar diversas despesas familiares e deles próprios. Como foi dito, “O abandono escolar não é uma coisa negativa para as famílias” (D3). Para além dos contextos familiares, os inquiridos também se referiram aos contextos socioculturais dos alunos como um fator que contribuía para o insucesso e abandono escolar. Neste caso, distinguiam aspetos de natureza sociocultural e étnica, como a cultura de origem, nomeadamente de base africana, como a guineense e cabo-verdiana, ou cigana. No caso específico dos indivíduos de origem africana, o fato de o crioulo se constituir na língua mãe de muitos alunos surgia aos entrevistados como um sério entrave ao sucesso escolar. Neste sentido, um dos entrevistado afirmou o seguinte: “(No insucesso e abandono escolares há o problema das) questões linguísticas. Os alunos chegam a Portugal muito tarde, chegam com 12/13/14 anos e continuam a viver num gueto estruturado, na zona deles onde falam crioulo de Cabo Verde, seja o crioulo da Guiné, seja o crioulo de origem francesa” (D1). Os entrevistados associavam frequentemente a estes aspetos de natureza sociocultural e étnica os locais de residência dos alunos, bairros suburbanos nos quais vivem sujeitos com a mesma origem cultural. Na opinião dos inquiridos, estes espaços, muitas vezes identificados como áreas de forte expressão cultural alternativa e de resistência, eram igualmente tidos como locais de desenvolvimento de atividades ilegais ou nas margens da legalidade. Dado que os progenitores (ou encarregados de educação dos indivíduos do insucesso e abandono escolar) acompanhavam pouco estes alunos, estes espaços acabavam por ter uma forte influência nas ocupações que estes tinham quando não estavam na escola e traduziam-se em contextos de socialização com elevado impacto nas escolhas de vida que os alunos faziam e nas aprendizagens que estes realizavam. A este propósito, um dos inquiridos disse que 150 “Esses alunos muitas vezes dizem: o que tenho de aprender, aprendo na rua” (D2). Assim, era no cruzamento de aspetos relacionados com os contextos familiares e com os contextos socioculturais de origem, sendo atribuído neste caso um impacto particularmente significativo aos amigos e colegas dos alunos, aos pares, e aos bairros nos quais estes sujeitos viviam, que os inquiridos justificavam as causas mais expressivas do insucesso e o abandono escolar dos alunos. Paralelamente às causas externas à escola, embora com menor peso na opinião dos inquiridos, outras relacionavam-se diretamente com a escola e com o seu funcionamento pedagógico. Desta forma, os elementos da direção das escolas estudadas referiram com frequência a desadequada organização do trabalho escolar face às características dos alunos. Nesta linha de ideias, argumentavam que o trabalho realizado em sala de aula, em termos de conteúdos abordados, métodos pedagógicos e de avaliação preferidos, estava desajustado face às necessidades educativas e às expectativas destes alunos. Esta situação, que se traduzia numa inadequada intervenção dos professores relativamente a aspetos de carácter económico, social e cultural que, segundo diziam, ultrapassavam o que a escola poderia solucionar, estava na origem do desinteresse dos alunos pelas aulas e por o que a escola poderia proporcionar no futuro a estes sujeitos em termos de aquisição de conhecimentos, capacidades e atitudes. Neste sentido, afirmavam que a escola não conseguia responder aos desafios quotidianos com os quais os alunos se confrontavam (fora e dentro da escola), originando um desajustamento entre as finalidades escolares e os anseios dos discentes. Reforçavam este argumento quando defendiam que em contexto escolar se verificava uma sobrevalorização do saber escolar relativamente a outros saberes que eram mais valorizados pelos alunos. Esta sobrevalorização dos saberes escolares era imposta pela exigência de cumprimento de orientações do ministério da educação relativamente a conteúdos a abordar. Como foi dito, “Temos de cumprir programas” (D2). Por isso, no dia-a-dia escolar, alguns inquiridos reconheciam que o trabalho escolar beneficiava as raparigas, dado que estas pareciam adaptar-se melhor às regras e preceitos existentes. Se alguns inquiridos salientavam o fato de o trabalho pedagógico não se adequar aos alunos em causa, tomando dessa forma uma posição mais próxima dos professores que também eram, outros procuravam olhar para as causas do insucesso do ponto de vista dos alunos. Neste sentido, foi dito que “O problema é sempre visto como sendo do aluno e não deveria ser assim” (D1). Nestes casos as representações dos entrevistados apontavam para a necessidade de criar 151 programas escolares que considerassem os contextos de origem dos alunos, as dificuldades com as quais estes se confrontavam. Havia nestes casos uma forte crítica a uma visão baseada numa “escola única” que se devia aplicar a todos, independentemente das suas condições de vida e capacidades individuais, e a defesa de uma “escola plural”, capaz de integrar as diferenças que estes alunos apresentavam e promover a aprendizagem. Um dos entrevistados foi ainda mais longe ao afirmar que na atualidade em Portugal existe uma escola construída a partir de um modelo que em seu entender ajustava-se às sociedades do norte da Europa mais desenvolvida economicamente. Sendo um modelo que em sua opinião estava adequado relativamente aos problemas e desafios dessas sociedades, revelava-se profundamente desajustado face ao contexto português, nomeadamente aos contextos de vida dos alunos do insucesso e abandono escolar. Nesta linha de ideias, este inquirido disse que “A nossa escola está pensada para uma sociedade europeia do norte. Os nossos objetivos, metas, finalidades, é tudo lá de cima. E depois temos uma população pouco escolarizada, quase analfabeta, ou analfabeta funcional, e depois os professores olham para os programas e planeiam para os programas. E depois cai-lhes a realidade em cima e depois andamos aqui num conflito interno entre metas e programas e competências. Depois no terreno vamos lidar com milhares de meninos e meninas que não leem, têm contextos familiares pouco estimulantes e isto é um conflito eterno” (D3) Expressões do insucesso e abandono escolares - a exclusão escolar Relativamente às expressões do insucesso e abandono escolares, os entrevistados destacaram diversos aspectos. Um primeiro prendia-se com a desafiliação por parte dos alunos (e das famílias) relativamente à escola, ao que a escola representava, ao que esta instituição acarretava e ao que prometia em termos de vida futura para os discentes. Relativamente a este aspecto, a escola parecia surgir como uma entidade suportada por finalidades estranhas aos universos simbólicos dos alunos, outras vezes distanciada relativamente às necessidades e aos desafios quotidianos destes sujeitos. Complementarmente, os entrevistados referiam-se a uma desvalorização dos alunos da escola e do que esta entidade lhes poderia proporcionar e a uma forte valorização do trabalho ou atividades que, fora do contexto escolar, lhes podiam trazer benefícios económicos. Mesmo em tempos de taxas elevadas de desemprego, sobretudo em grupos sociais pouco qualificados, como aqueles aos quais muitos dos alunos do insucesso e abandono escolar pertenciam, o 152 trabalho continuava a merecer uma elevada apreciação. Representava igualmente uma promessa de uma vida para os alunos com autonomia económica e a independência relativamente à família de origem, o que nem sempre acabava por se verificar quando os alunos abandonavam a escola. Para além de expressões do insucesso e abandono escolar que se encontravam fora da escola, os inquiridos identificaram outras relacionadas com a própria escolar e com o seu funcionamento. Um primeiro aspecto referido prendia-se com a dificuldade da escola em resolver o problema do insucesso e abandono escolar que ela própria criara. Neste âmbito, alguns entrevistados realizaram diversas críticas aos modos trabalho escolar, que, segundo diziam, privilegiava a uniformidade, a igualdade para todos, pouco flexíveis em termos de conteúdos, de métodos pedagógicos e de avaliação, e ao trabalho de professores que organizavam as suas aulas para um aluno-tipo que não era facilmente encontrado entre os alunos do insucesso e abandono escolar. A estas causas, associavam-se outras centradas nos alunos, nomeadamente no que remetia para a sua desadaptação ao ambiente e à cultura escolar. Neste âmbito, os entrevistados apontavam características que se relacionavam com a classe social de origem, o comportamento e as relações interpessoais no seio de grupos de pares. Neste âmbito, as diferenças entre rapazes e raparigas eram destacadas pelos inquiridos. Quanto aos rapazes, os entrevistados afirmavam que o trabalho escolar revelava-se pouco adequado à idade que estes tinham, às marcas de adolescências rebeldes e insubmissas. Os rapazes eram assim vistos como sujeitos que desejavam maior liberdade, o que não se compaginava com a escola e as regras nela existentes, e que exigiam maior independência a uma instituição que lhes restringia possibilidades de ação no seio do grupo de pares e até no local de residência. Neste sentido, um dos entrevistados afirmou o seguinte: “O rapaz é mais sensível ao ambiente rígido e sentado (da escola). Revolta-se mais” (D3); outro acrescentou que “Aqui (na escola, os alunos) encontram pouco interesse e no bairro têm tudo o que querem. Às vezes existe um espírito de provocação: venho do bairro, sou o maior. Há os que querem tornar-se líderes na turma e outros que só se interessam pelos intervalos para estarem com o grupo de amigos (do bairro)” (D1). Entre os anseios dos rapazes e aquilo que a escola permitia, surgiram igualmente afirmações dos inquiridos que apontavam para incompatibilidades diversas, que sempre deixavam os alunos numa posição aparentemente mais forte, mas efetivamente mais frágil. Como um dos inquiridos disse, “Este aluno (que não tem sucesso escolar) quer mostrar aos colegas que ele é que é 153 importante, porque bate de frente com o professor, ele é que se impõe... e portanto, todos os que são bons terão que juntar-se a este grupo” (D1). Neste confronto, em boa verdade, os inquiridos consideraram que a escola não era capaz de responder eficazmente e de modo favorável aos alunos e às tensões entre liberdade e ação individual controlada, entre independência a cumprimento de regras. Nesta linha de ideias, um dos entrevistados comentou que “Um aluno com insucesso na sala de aula é um aluno que tem sucesso fora da sala de aula” (D1). Adicionalmente, as críticas a comportamentos fora da norma escolar que envolviam estereótipos ligados à masculinidade emergiram ao longo das entrevistas, quando os entrevistados afirmavam que, na adolescência, os rapazes necessitavam afirmar-se, expressar a sua virilidade e capacidade física, o que era acentuado pelo universo simbólico dos contextos socioculturais de origem. Como um dos entrevistados defendeu, “Os rapazes reagem pior, revoltam-se mais, ou pelo menos expõem-se mais à rigidez da organização da escola mais explicita, são mais, digamos assim, expansivos no seu comportamento” (D3). Ao contrário dos rapazes, os inquiridos consideravam que as raparigas se adequavam melhor à escola e às suas regras de funcionamento, às exigências dos trabalho escolar e aos comportamentos e atitudes tolerados nesse contexto. No caso das raparigas, os entrevistados apontavam uma ligação entre a reprodução de papéis sociais de submissão, característicos fora da escola, nomeadamente no seio das famílias, e aqueles que a instituição escolar esperava de uma aluna. Assim, os inquiridos destacaram a importância que o trabalho doméstico tinha na vida das alunas. Para as famílias, segundo os entrevistados, as raparigas representavam um auxílio imprescindível. Faziam a gestão doméstica quando as mães não estavam em casa, situação que acontecia muito frequentemente devido aos horários de trabalho que as progenitoras tinham, cuidavam dos irmãos mais jovens, levavam-nos ao infantário e à escola e acompanhavam-nos no final do dia nos trabalhos escolares. Este trabalho realizado pelas raparigas adolescentes, muito apreciado pelas famílias sem recursos económicos para pagar um adulto que pudesse acompanhar os menores na ausência dos progenitores e encarregados de educação, traduzia-se na valorização da casa e da família. Desta forma, se no caso dos rapazes as famílias toleravam as saídas com os grupos de amigos, nas raparigas essas saídas eram mal vistas. Talvez por essa razão, os inquiridos referiram que as famílias dos alunos incentivavam a frequência escolar das raparigas, não sendo esta frequência tão estimada no caso dos rapazes. Numa transposição entre os papéis sociais assumidos pelas raparigas no seio das famílias e na escola, os entrevistados apontavam comportamentos das alunas mais adequados às regras 154 escolares. Neste sentido, um dos entrevistados disse que “Eu penso que nós educamos as raparigas para serem mais sossegadas que os rapazes” (D3). Esta adequação era para a maioria dos entrevistados vista como uma força, dado que ela traduzia sujeitos mais racionais e estratégicos: “As raparigas são mais organizadas, têm estrutura mental, crescem mais depressa, a maturidade das raparigas é maior. (...) sabem mais depressa o que querem e o que pretendem seguir” (D2). para outros, ao contrário, esta adequação era tida como um impedimento a um trabalho escolar que, por vezes, exigia inovação, criatividade e alguma autonomia. Neste sentido, um dos entrevistados afirmou o seguinte: “As raparigas pura e simplesmente ficam amorfas, ficam no cantinho da sala; portanto, ficam mais passivas, deixam de ser... As raparigas ficam muito mais contidas” (D1). Sobre as medidas existentes e as desejadas de combate ao insucesso e abandono escolar Globalmente, os inquiridos consideravam que as medidas existentes de combate ao insucesso e abandono escolar, bem como as desejadas, deveriam seguir o critério da igualdade e dirigir-se a todos os alunos, independentemente do género dos alunos, tal como acontece na atualidade. Opunham-se por isso a medidas de discriminação positiva dirigidas aos alunos do sexo masculino, mesmo quando confrontados com dados estatísticos que apontavam para maior insucesso e abandono escolar por parte dos rapazes. Complementarmente, os elementos da direção das escolas entrevistados valorizaram as ofertas existentes de componente vocacional para os alunos do insucesso e abandono escolar. Neste sentido, defendiam que se a “escola tradicional”, de cariz mais académico, não era adequada a estes alunos; por isso, as ofertas de componente vocacional, que orientavam os alunos para uma profissão e para uma saída mais próxima para o mercado de trabalho eram mais convenientes para estes alunos que pareciam pouco esperar da escola. Apontavam contudo medidas existentes que poderiam ser melhoradas, nomeadamente aquelas que se relacionavam com modos mais flexíveis de organização do trabalho escolar, como, por exemplo, a contratação de professores específicos e devidamente formados para leccionar a alunos do insucesso e abandono escolar; o trabalho em equipa realizado por estes professores; a organização de turmas com menor número de alunos; currículos escolares flexíveis e adaptáveis, tal como percursos escolares alternativos com finalidades mais próximas das necessidades e anseios destes alunos; o recurso a métodos pedagógicos mais inovadores, 155 como as tutorias, o desenvolvimento de projetos de mediação, de educação pelos media, e modos de avaliação diferenciados, baseados em processos de avaliação qualitativa, centrada nas aquisições dos alunos – quer estas estivessem previamente estabelecidas ou não – e nas capacidades sociais, culturais e profissionais dos alunos. Para lá destas medidas, outras foram indicadas pelos inquiridos. De entre essas, destacou-se a ideia de que na atualidade “Uma outra escola” (D1, D2 e D3) era desejável. Esta seria uma escola mais humanista e progressista, aberta às comunidades locais e a outros desafios que não só os estritamente escolares, atenta às características dos alunos. Seria igualmente uma escola preocupada com os problemas que os alunos do insucesso e abandono escolar carregam, capaz de um “diagnóstico precoce” e de uma intervenção mais eficaz. No fundo, seria uma escola com maior autonomia e poder de decisão, maior e mais eficaz articulação com outros serviços (como a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens), uma instituição que favorecesse a existência de estratégias de apoio e de orientação que não podem ser encontrados na atualidade. Elementos de síntese Com se viu, os elementos da direção das escolas entrevistados, embora não tivessem opinião formada relativamente à problemática deste estudo, ao longo das entrevistas refletiram sobre as temáticas contempladas no guião da entrevista e apresentaram algumas representações sobre o insucesso e abandono escolar numa perspectiva de género. Destas representações, é importante destacar a enfâse nas dimensões socioculturais e individuais no insucesso e abandono escolar relativamente a outras estritamente ligadas à escola e ao trabalho realizado em contexto escolar. Neste sentido, os entrevistados tendiam a apontar causas sociais para justificar o insucesso e abandono escolar e a responsabilizar os alunos pela exclusão escolar, devido aos seus comportamento e atitudes desadequados relativamente às regras escolares. Assim, os inquiridos procuraram justificar algo que acontecia na escola e por ação da escola recorrendo a causas externas à escola, as quais, pelas suas características, dificilmente poderiam ser solucionadas pela própria escola. Neste esforço de externalização das causas do insucesso e abandono escolar baseadas na origem social dos alunos, parecia que a escola na atualidade não consegue responder aos desafios com os quais se confronta. Esta dificuldade ligava-se sobretudo ao fato de cada vez mais a escola surgir como um espaço plural, marcado pela diversidade social, cultural e económica, na qual podem ser encontrados sujeitos de origens 156 muito diversas e com expectativas muito diferenciadas relativamente ao que podem esperar dos seus percursos escolares. Apesar desta circunstância, os inquiridos referiram-se a uma escola que continuava a promover modos de trabalho escolares mais tradicionais, únicos e iguais para todos. Esta tensão, entre a exigência de uma escola plural e mais preparada para enfrentar problemas muito diferentes, respeitadora da diferença e tolerante face à variedade de formas de entender e viver a vida, e uma escola única, promotora de modos de trabalho mais tradicionais foi particularmente evidente ao longo das entrevistas realizadas. As entrevistas permitiram salientar também alguns estereótipos e ideias feitas, umas mais relacionadas com o que é ser rapaz e ser rapariga na atualidade e com o valor da escola e do trabalho. Relativamente à identidade dos rapazes e das raparigas do insucesso e abandono escolar, registou-se a referência a papéis tradicionais associados às raparigas (mais dóceis, submissas, adaptadas ao trabalho escolar e às exigências do trabalho familiar, etc.) e aos rapazes (mais independentes, rebeldes, autónomos, com comportamentos menos ajustados ao que a escola exige). Nesta avaliação dos entrevistados de cariz mais conservador, as raparigas pareciam ganhar no imediato, dado que se saiam melhor em termos de resultados escolares, mas perder a longo prazo, dado que os seus comportamentos e atitudes antecipavam situações de vida de menor poder e mais conformistas. A par destas representações, os inquiridos afirmaram em diversos momentos a importância das ofertas de componente vocacional para estes alunos do insucesso e abandono escolar. Esta opinião é interessante, sobretudo se se considerar que ela representa o sentimento de impotência manifestado pelos entrevistados, elementos da direção de escolas estudadas, na criação de respostas que de fato se constituíssem em soluções alternativas para estes alunos. Em boa verdade, em diversos momentos nas entrevistas os inquiridos enfatizaram as ofertas vocacionais enquanto percursos que mais rapidamente conduziam os alunos ao mercado de trabalho e, em simultâneo, afastavam da escola casos que a própria instituição parecia incapaz de resolver. Sendo uma opção interessante, ela não deixa de traduzir a parca contribuição que a escola portuguesa concede à formação de cidadãos críticos, autónomos e participativos quando estes são oriundos de grupos sociais desfavorecidos. Por isso, ao longo das entrevistas foi interessante notar que a escola contribui para a exclusão destes alunos, enquanto propaga um discurso de promoção de igualdade de oportunidades, e ao empurrar estes alunos para uma sociedade e um mercado de trabalho incerto e precário, contribui para a manutenção de fortes desigualdades sociais. 157 2. Perspetiva dos professores 2.1. Análise do questionário aos professores Neste ponto do relatório, desenvolve-se uma breve análise dos principais resultados obtidos no questionário realizado junto dos docentes dos diferentes níveis de ensino. O questionário procurou, sobretudo, analisar as representações dos docentes relativamente às problemáticas dos abandono e do insucesso numa perspetiva de género, compreendendo a abordagem à pertinência do fenómeno, às razões que o explicam e aos domínios de aposta que podem contribuir para o ultrapassar. O questionário foi enviado a todas as escolas e agrupamentos de escolas da rede de estabelecimentos públicos e privado acompanhado do pedido para que o mesmo fosse reencaminhado para todos os professores de cada estabelecimento de ensino. A amostra de respondentes é constituída por 1001 docentes e apresenta a seguinte distribuição segundo o género e idade. Quadro 18. Docentes respondentes segundo o género e a idade Variáveis de caraterização % Feminino 79 Masculino 21 <= 40 anos 11 41/49 anos 38 50/ 59 anos 43 =>60 anos 8 Género Idade 158 Em função desta distribuição e outros elementos relativos à experiencia letiva, nomeadamente ciclos de ensino, disciplinas e contextos de inserção das escolas de origem, o perfil dos docentes respondentes ao inquérito é marcado pelas seguintes caraterísticas gerais. Predominância do sexo feminino (79% dos respondentes), representatividade de professores com idade => a 50 anos (51% dos respondentes) e consequentemente menor peso de respostas dos jovens. Com este perfil etário, trata-se de respondentes com elevada experiência de ensino - 84% com 16 ou mais anos de experiência. Recorrendo à publicação Perfil do Docente 2012/2013 (DGEEC) no que se refere ao sexo e escalão etário, verificamos que no conjunto dos diferentes níveis de educação não superiores, 77% dos docentes são mulheres e 35% têm 50 ou mais anos. Confrontando estes dados com as caraterísticas da amostra, verifica-se uma forte aproximação ao universo de professores na distribuição por género e um maior distanciamento no caso dos escalões etários, que se reflete na maior predominância de docentes mais velhos. Prática letiva sobretudo nos diferentes ciclos do ensino básico (62% dos respondentes). Os docentes que afirmam lecionar exclusivamente no ensino secundário correspondem a 21% da amostra, mas a representatividade deste nível será ligeiramente superior, dado que 15% afirmam experiência conjunta no básico e secundário, principalmente acumulação do ensino regular com as modalidades do ensino profissionalizante. Ensino de uma diversidade assinalável de disciplinas, mas três grupos disciplinares assumem peso mais importante: (i) português e línguas estrangeiras, (ii) matemática, ciências, biologia e físico-química e (iii) ciências sociais e humanas. A monodocência associada ao 1º ciclo assume também representatividade. Em alguns casos, os docentes acumulam com atividades extracurriculares, principalmente apoio ao estudo e formação cívica. Docentes oriundos de escolas maioritariamente inseridas em concelhos do litoral, incluindo grandes centros urbanos (59% dos respondentes), seguindo-se as escolas inseridas em concelhos afastadas dos centros urbanos, localizadas no interior ou litoral (29%) e, finalmente, as escolas localizadas em concelhos do interior com centro urbano relevante (12%). 159 Atendendo a estas caraterísticas, considera-se que o grupo de respondentes constitui uma amostra significativa do universo de docentes e apresenta uma cobertura satisfatória dos diferentes níveis e modalidades de ensino. Análise dos Resultados A apresentação dos resultados do inquérito está estruturada do seguinte modo: Perceções quanto aos fenómenos do abandono e do insucesso, numa perspetiva geral e no que respeita às diferenças entre rapazes e raparigas; Perceções relativas aos fatores explicativos do abandono e do insucesso, assumindo a mesma ótica de análise - perspetiva geral e diferenças de género; Necessidades de desenvolvimento de competências dos professores para lidar com estas problemáticas. Sempre que se revelou estatisticamente representativo, segundo o teste do Qui-quadrado, foi comparada a distribuição dos resultados gerais com os diferentes grupos com o objetivo de aferir o perfil de comportamento desses mesmos grupos e a existência de eventuais diferenças face aos resultados apurados para a amostra geral. (i) Perceções quanto ao abandono e ao insucesso e às diferenças entre rapazes e raparigas Para os docentes respondentes, o insucesso, enquanto problema do sistema de ensino nacional, sobrepõe-se claramente ao abandono precoce. Este fenómeno é até de certo modo desvalorizado, na medida em que apenas 11% dos respondentes “concordam muito” com a afirmação “O abandono escolar é um dos principais problemas do sistema de ensino em Portugal”, enquanto o mesmo tipo de asserção aplicada ao fenómeno do insucesso corresponde a 29% das respostas. Aliás, considerando as respostas que refletem concordância com a afirmação, o reconhecimento do insucesso escolar enquanto problema do sistema de ensino recolhe 71% e o abandono escolar apenas 44%. Mais do que a diferença existente na avaliação de ambos os fenómenos, releva o elevado grau de reconhecimento do insucesso escolar enquanto problemática relevante no contexto do sistema de educação em Portugal. Os apuramentos por nível de ensino revelam que os professores do ensino básico valorizam mais o problema do insucesso do que os seus colegas respondentes do ensino secundário, o 160 que se poderá justificar pelo facto do abandono precoce assumir uma maior expressão neste ultimo nível de ensino, e por isso constituir uma realidade menos presente no seu contexto profissional dos professores do ensino básico. 161 Figura 9. Perceções quanto ao insucesso e abandono, em termos gerais e segundo o género Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal - abril/ maio de 2015 Quanto às diferenças entre rapazes e raparigas, a esmagadora maioria dos respondentes (79%) considera que, à partida, não são expetáveis resultados de desempenho desiguais – ou seja, é normal esperar resultados iguais. A análise das frequências observadas nas respostas à afirmação associada a esta dimensão - “É normal esperar que rapazes e raparigas atinjam o mesmo nível de resultados escolares” -, segundo a tipologia de concelhos de origem das escolas dos respondentes revela diferenças significativas face à média das respostas. O aspeto mais notório respeita aos professores dos “concelhos do interior inseridos em centro urbano com relevo” que apresentam a perceção mais positiva em relação à afirmação. O valor mais elevado registado na opção “concorda muito” (60%), ilustra a diferença de posicionamento. Por outro lado, ainda que menos acentuada, constata-se também disparidade nas respostas dos professores dos “concelhos mais isolados e afastados de centros urbanos”, mas neste caso esta diferença indica maior resistência à concordância total ou parcial com esta afirmação – cerca de 5 p.p. inferior à média. 162 Quanto à dimensão de questionamento relativa aos fenómenos do insucesso e do abandono por género, constata-se uma distribuição das respostas pelas diversas opções, o que denota a diversidade das perceções dos docentes da incidência destes fenómenos, segundo o género feminino ou masculino. Esta tendência é mais forte no que respeita ao abandono – 52% dos respondentes assumem concordância com a afirmação “O abandono escolar precoce afeta rapazes e raparigas da mesma forma”, enquanto 48% discordam desta mesma afirmação. Ainda assim, 40% dos docentes considera que o insucesso escolar não afeta raparigas e rapazes da mesma forma, dando conta de que o fenómeno analisado no estudo embora não seja maioritariamente reconhecido pelos docentes não deixa de ser percebido por uma grande parte deles. Figura 10. Opinião dos docentes quanto ao insucesso e abandono por género nas suas escolas Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal - abril/ maio de 2015 Coerentemente, esta mesma repartição é evidente no retrato que os docentes fazem dos seus contextos específicos de ensino, que se podem organizar em dois grupos com representatividade similar. Um grupo afirma que nas suas escolas não existem diferenças com significado ao nível do insucesso e do abandono entre rapazes e raparigas. O outro grupo revela uma outra realidade escolar que é marcada pela maior incidência nos rapazes dos fenómenos do insucesso e do abandono. De notar que, consistentemente com os dados disponíveis, é superior, embora de forma pouco pronunciada, o número de docentes que destaca o insucesso escolar nos rapazes por relação ao abandono escolar. 163 (ii) Perceções quanto aos fatores explicativos do abandono e do insucesso e das diferenças entre rapazes e raparigas A primeira conclusão a retirar das respostas relativas aos fatores explicativos do insucesso e do abandono escolar precoce remete para uma valorização significativa da generalidade dos fatores colocados à apreciação, indicando que os professores respondentes perspetivam que estes fenómenos resultam de uma diversidade e, provavelmente, acumulação de fatores explicativos. Assim, exceto para uma das afirmações consideradas, o tipo de apreciação dos fatores explicativos revela a supremacia das opções de resposta “concordância total ou parcial”. De entre estes, importa destacar os que registam valores próximos ou acima de 80% nestas opções de resposta, designadamente: - Reduzida valorização pelas famílias da escola e dos resultados escolares (88,2% de concordância; apresenta o valor mais elevado da opção de resposta “concordo muito” – 56%); - Dificuldade dos alunos em encontrarem um sentido para o trabalho escolar (88,4%); - Insuficiente consolidação, por parte do aluno, dos conteúdos curriculares (85,3%); - Ausência de valores por parte dos alunos (83,1%); - Baixos rendimentos e as situações de carência económica das famílias (82,6%); - Contextos de socialização que promovem condutas transgressoras e de rejeição da escola como os grupos de amigos (85,1%); - Origem étnica dos alunos, por exemplo, alunos de etnia cigana, de origem africana, etc. (79,1%); - Absentismo dos alunos (79,4%); - Desvalorização social da escola (78,5%). A exceção referida anteriormente respeita ao fator “As abordagens pedagógicas e didáticas serem pouco apelativas”, que para o mesmo tipo de apreciação (opções de resposta que indicam concordância total ou parcial como explicação do insucesso e do abandono escolar precoces) não ultrapassa os 46%. 164 De referir, complementarmente que, embora com nível elevado de concordância, os fatores menos valorizados foram: - A reduzida valorização pelo mercado de trabalho da certificação escolar (62,2%); - A reduzida valorização pelo mercado de trabalho das qualificações profissionais obtidas na escola (62,8%); - Insuficiente adequação dos programas (65,2%); - As reduzidas qualificações académicas dos pais (66,4%); - A indisciplina na sala de aula (67,4%). Note-se que a afirmação “Dificuldade dos alunos em encontrarem um sentido para o trabalho escolar”, é mais valorizada pelos respondentes que lecionam o 3º ciclo e o ensino secundário, que apresentam níveis de resposta nas opções “3 e 4/ concordo muito” superiores à média, o que leva a admitir que este fator terá uma incidência mais relevante nos alunos mais velhos. No conjunto, conclui-se que, apesar da perspetiva de explicação multifatorial que se depreende das opiniões dos respondentes, emerge um forte consenso quanto à influência das caraterísticas dos alunos e dos contextos externos à escola, nomeadamente a rede de suporte familiar, social e económica. Relativamente à importância do espaço de ação escolar, referenciado neste caso às práticas educativas dos professores, assiste-se a alguma desvalorização deste como fator justificativo do insucesso e abandono. 165 Figura 11. Perceção quanto aos fatores explicativos do insucesso e do abandono escolar Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal – abril/ maio de 2015 A análise das respostas à opção “Outro Fator?” (N=115 respostas) confirma e elucida algumas das considerações anteriores e revela opiniões que apesar de menos representativas contribuem para a compreensão do posicionamento dos professores. Assim, por um lado é evidente a confirmação dos fatores relacionados com os alunos e as famílias, que são explicitados de formas diversas, por exemplo: 166 “Destruturação das famílias; ausência dos pais no que respeita à escola e aos tempos livres dos filhos; o maior problema de todos é a falta de Educação dos pais; falta de responsabilização dos alunos e falta de valores no seio das famílias; grande aumento de famílias disfuncionais; imaturidade psicológica dos alunos; autoestima diminuta/ sem objetivos; problemas psicológicos e emocionais; falta de hábito de trabalho e dispersão da atenção; indiferença, apatia; desvalorização do esforço”; Por outro lado, neste grupo de resposta aberta assume relevo a importância dada à insuficiência ou desadequação do sistema escolar em geral e da escola em particular, incluindo os programas e curricula. Referências como as que se seguem explicitam esta tendência de opinião: “Política errática na educação que muda ao sabor do partido no poder; professores distantes do mundo e realidade dos alunos; significativo desajuste da escola disciplinas, conteúdos, carga letiva, organização do espaço-aula - às vivências, solicitações e aprendizagens que a sociedade atual proporciona aos jovens; reduzido apoio nas escolas do 1º ciclo; número elevado de alunos por turma; falta de alternativas escolares (Escolas Técnicas) ou Cursos Técnicos; conteúdos a mais nas áreas curriculares que dificultam a sua consolidação por parte de muitos alunos””. Finalmente, são elencados outros fatores que incluem aspetos diversos, como por exemplo: “a desvalorização do papel do professor, insuficiência das atividades extra curriculares mais aliciantes; muitas solicitações (sobretudo a nível tecnológico) fora da escola; falta de um dispositivo comunitário que intervenha consistentemente a nível socia”. No sentido de aprofundar o conhecimento das perceções dos professores quanto às razões que explicam a diferença de performance dos resultados escolares entre rapazes e raparigas, foi colocada uma questão relativa aos diferentes contextos em que presumivelmente se produzem os principais fatores com influência na diferença de desempenho escolar, designadamente: contexto escolar, contexto familiar, plano individual, sala de aula e contexto social global. As respostas permitem concluir que na perspetiva dos professores respondentes, num primeiro patamar de importância os fatores que influenciam a diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas estão associados às caraterísticas sociais e culturais do contexto familiar e às diferenças de género - atributos e motivações entre rapazes e raparigas. Num segundo nível, a família surge novamente como espaço com relevo para justificar a diferença de desempenho, mas agora em resultado de fatores económicos. 167 Figura 12. Perceção quanto aos contextos em que se produzem os principais fatores que influenciam a diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal – abril/ maio de 2015 A importância dada ao contexto social geral e ao reflexo na escola do quadro mais vasto de descriminações de género que aí se produzem também assume relevo, mas claramente menos significativo face aos contextos anteriormente explicitados. Mas a maior desvalorização recai sobre o contexto escolar e respetiva organização e normas e as práticas de relacionamento e pedagógicas na sala de aula/ – respetivamente, 77% e 72% dos respondentes indicam discordância total ou parcial como domínio que afeta a diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas. Com exceção destes casos em que o nível de resposta indica uma assertividade grande na opinião expressa pelos docentes, a que acresce mas com menor fulgor a resposta atribuída ao contexto familiar/ fatores sociais e culturais, quanto às outras linhas de questionamento registase alguma indecisão nas opiniões declaradas. Esta situação é percetível nos valores das opções intermédias da escala de valoração proposta (entre 68% e 72% das respostas), admitindo-se, por isso, alguma dificuldade de posicionamento relativamente ao tema da questão. 168 Para finalizar a recolha das perceções dos professores quanto aos fatores que poderão estar na origem da diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas, foi solicitado que se posicionassem relativamente a um conjunto de aspetos relacionados com os contextos versados na questão anterior. As respostas dos professores mantêm uma linha de continuidade face a essa mesma questão. Assim, os aspetos mais valorizados foram os seguintes: - Diferença de motivação individual para a aprendizagem/ raparigas e rapazes; - Modelos de socialização induzem comportamentos mais transgressores por parte dos rapazes e contribuem para gerar uma menor identificação destes com a instituição escola; - Educação familiar/ valores e expetativas diferentes entre rapazes e raparigas. Ou seja, confirma-se a relevância dada pelos professores às diferenças de género – atributos e motivações - e contexto familiar. Embora com alguma distância em termos de valorização face às dimensões referidas é de assinalar a importância conferida às carências económicas das famílias – “Necessidades económicas da família pressionam mais os rapazes para uma entrada precoce no mercado de trabalho”. Relativamente à variável “Diferença de motivação individual para a aprendizagem”, verifica-se que os professores do sexo masculino refletem um nível de concordância ligeiramente superior (76,4%) ao expresso pelos professores do sexo feminino (66,5%). Relativamente à variável “Modelos de socialização induzem comportamentos mais transgressores por parte dos rapazes e contribuem para gerar uma menor identificação destes com a instituição escola”, a análise dos dados segundo o nível de ensino dos professores permite verificar que são os professores do 3º e 2º ciclo do ensino básico que exprimem maior nível de concordância com esta afirmação. Numa análise por disciplina, verifica-se que os professores que ministram a componente técnica dos cursos profissionalizantes são os que expressam maior nível de concordância com esta afirmação (80,9% de opções no concordo ou concordo muito o que compara com 58,7% para o conjunto dos professores inquiridos). Logo a seguir surgem os professores das artes visuais e da educação visual e tecnológica (75%). O facto de estas ofertas se posicionarem como instrumentos centrais da estratégia de combate ao abandono e insucesso escolar poderá 169 explicar a maior sensibilidade demonstrada por estes professores relativamente à relevância desta variável. Pelo contrário, é visivelmente desvalorizada a influência dos aspetos relativos ao contexto escolar e à intervenção dos professores como veículos de reprodução de estereótipos de género de que padece a sociedade em geral. Nestes domínios merecem destaque os aspetos cujo valor das opções de resposta “1/ não concordo nada” é => a 50%, nomeadamente: - O facto de uma grande parte dos professores ser do sexo feminino contribui para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes; - As estratégias de avaliação não se ajustam de igual modo a aferir as aprendizagens e competências desenvolvidas por rapazes e raparigas; - Reduzida preparação dos professores para lidar com a diferença de género no espaço da sala de aula contribui para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes; - Representações dos professores relativamente ao desempenho escolar dos alunos contribuem para a reprodução de um padrão de maior insucesso e abandono escolar dos rapazes; - Currículos e programas, pelos conteúdos que privilegiam, contribuem para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes. 170 Figura 13. Perceção quanto aos aspetos que influenciam a diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal – abril/ maio de 2015 171 (i) Necessidades de desenvolvimento de competências dos professores para lidar com o insucesso, o abandono e as diferenças de resultados entre rapazes e raparigas Apesar da tendência de desvalorização do contexto escolar como fator determinante das diferenças de resultados entre rapazes e raparigas, as respostas à questão relativa às competências revelam uma concordância generalizada com a necessidade de desenvolvimento de competências tendo em vista reduzir a taxa de insucesso e abandono escolar e as diferenças de resultados. As competências mais enfatizadas incidem no apoio de caráter comportamental e psicológico às crianças e jovens – “Capacidade para desenvolver estratégias de reforço da confiança e autoestima dos alunos”. Complementarmente assumem também relevo as competências relacionadas com intervenções de caráter integrado ao nível do projeto de escola, bem como as “Estratégias de liderança e comunicação na sala de aula” e as “Estratégias pedagógicas e didáticas”. Figura 14. Necessidades de desenvolvimento de competências dos professores para lidar com as diferenças de resultados entre rapazes e raparigas Fonte: Inquérito Quaternaire Portugal – abril/ maio de 2015 172 De notar que são os professores mais jovens que tendencialmente expressam maior nível de concordância com a utilidade de desenvolver os domínios de competência identificados. Refira-se, finalmente, que a análise das frequências das respostas segundo o género dos docentes revela diferenças, que permitem concluir que as professoras valorizam mais as necessidades de evolução das competências. Os valores apurados relativos a esta diferença de comportamento do grupo de respondentes segundo o sexo incide nas necessidades de competências de liderança e comunicação, pedagogia e didática e reforço da confiança e autoestima dos alunos. Neste grupo de competências constata-se que no caso dos docentes do sexo masculino o valor da opção de resposta “4/ concordo muito” é inferior, em cerca de 10 p.p., aos das docentes do sexo feminino. Elementos de síntese Procura-se agora alinhavar uma breve síntese conclusiva que permita sublinhar as perceções mais vincadas pelos docentes inquiridos. Em primeiro lugar, deve sinalizar-se que as problemáticas do abandono e do insucesso são reconhecidas como questões relevantes no contexto do sistema de educação, com maior enfâse dado à questão do insucesso. É ao nível do ensino secundário que a problemática do abandono escolar precoce acaba por ser mais destacada. Já no que se refere ao reconhecimento de uma perspetiva de género no que diz respeito ao abandono escolar precoce e ao insucesso escolar, os dados colocam em evidência não existir uma perceção hegemónica relativamente a estas questões. Com efeito, a amostra quase se divide pela metade entre aqueles que validam a existência de uma diferença de género nestas duas variáveis e os que entendem que ela não existe. A repartição observada nas respostas permite dizer que existe uma relativa “ocultação” do fenómeno objeto do estudo. No que diz respeito às fatores que assumem maior relevância explicativa, tanto das problemáticas do abandono e do insucesso em geral como da perspetiva de género explicitada no estudo, o sentido das respostas dadas aponta para a atribuição de uma maior preponderância aos contextos sociais e culturais, incluindo a dimensão familiar, e individuais como tendo maior influência na fragilização dos resultados escolares e nas diferenças de género que são percebidas. Por contraponto, estes dados deixam perceber que na perspetiva dos docentes o 173 contexto escolar e o espaço da sala de aula são maioritariamente desvalorizados quando se procuram razões explicativas para as problemáticas em análise. Esta perspetiva é sublinhada quando de forma mais fina se exploraram os aspetos que explicam as diferenças de género no desempenho escolar. A este nível, aspetos relacionados com a diferença de motivação individual, os modelos de socialização e a educação familiar são enfatizados, confirmando a leitura de que é ao nível do indivíduo e dos seus contextos de socialização exteriores à escola que se explicam as diferenças de desempenho entre rapazes e raparigas. Por fim, quando questionados sobre o tipo de competências que entendem ser mais útil desenvolver ao nível dos docentes para melhorar a sua capacidade de resposta à problemática em causa, os inquiridos valorizam o reforço da capacidade de promover a autoestima dos alunos, de reforçar a sua confiança e autoestima, de melhorar as estratégias pedagógicas e de melhorar a liderança e comunicação em sala de aula. Por contraponto, a abordagem a questões específicas de género na gestão pedagógica, por exemplo ao nível da não reprodução de estereótipos na sala de aula, é desvalorizada, indiciando que os docentes valorizam o reforço das suas aptidões para melhorar a eficácia pedagógica mas não atribuem a problemáticas específicas de género uma relevância específica muito grande. 174 2.2. Insucesso escolar – a responsabilização dos alunos e das famílias Neste ponto procuramos analisar as representações dos professores sobre o insucesso e o abandono, em geral, e numa perspectiva de género em particular. Para aprofundar a análise socorremo-nos da triangulação dos dados obtidos nas entrevistas, nos focus group e nas observações realizadas no âmbito de quatro estudos de caso, em escolas públicas, do ensino básico e secundário, da região metropolitana de Lisboa. Os dados recolhidos nas entrevistas permitem analisar as representações dos professores sobre cinco temas estruturantes no estudo – o insucesso escolar, o abandono escolar precoce, o insucesso numa perspectiva de género, o abandono numa perspectiva de género e as medidas preventivas e compensatórias. Para além destes temas inicialmente previstos, emergiu um outro a partir dos dados recolhidos, relacionado com a profissionalidade docente. As entrevistas realizadas a docentes do ensino básico e secundário, para além de permitirem a confirmação dos resultados decorrentes da aplicação do questionário, possibilitam-nos aprofundar a interpretação desses mesmos dados. Os dois focus group realizados contaram com a participação de professores e de auxiliares de acção educativa. A discussão realizada nos focus group centrou-se no insucesso e no abandono numa perspectiva de género. Os dados recolhidos através desta técnica revelaram-se complementares relativamente às entrevistas e ao questionário, o que é particularmente importante no estudo em questão, atendendo à complexidade inerente à temática. As 12 observações realizadas em contexto de sala de aula permitiram-nos aceder à dinâmica educativa durante o seu decurso, à organização do espaço das salas, aos modos de trabalho de pedagógico, à relação pedagógica – relação entre alunos e professores, à relação entre alunos, ao comportamento e atitude dos alunos durante a aula. Os professores contactados no âmbito deste estudo destacam que o insucesso escolar resulta de um conjunto diversificado de factores e, em simultâneo, da forma complexa como estes se conjugam entre si. Os professores revelaram nas entrevistas uma reflexão sobre este fenómeno que afecta a escola, em geral, e a sua actividade profissional, em particular. A diversidade de factores que associam ao insucesso é notória quando afirmam: “o insucesso tem a ver com muitos factores” (P6); “há aqui muita coisa que falha” (P6), “é mais transversal do que aquilo que se pensa” (P5). Nem sempre verbalizam esta dimensão, contudo quando se pronunciam sobre os factores justificativos do insucesso identificam um conjunto diversificado e expressam a articulação entre os vários factores. A diversidade de factores e a forma múltipla que assumem 175 as várias combinações possíveis entre factores conduzem alguns professores a afirmar que o seu discurso é marcado pela sua experiência e sobretudo pelas escolas e contextos onde trabalham, como se pode verificar: “a abordagem que eu fizer terá como fundo esta população escolar que tem as suas especificidades, de acordo com as características da escola” (P10); “não posso realmente caracterizar os alunos que têm insucesso assim rigorosamente” (P10). A percepção da complexidade do fenómeno do insucesso escolar, por parte dos professores, vai de encontro ao saber científico construído sobre o tema, ideia defendida por vários autores (Perrenoud, 1989; Benavente, Seabra & Sebastião, 1994; Nóvoa, 2006). O insucesso escolar resulta de um conjunto diversificado e articulado de factores, que se interrelacionam e originam situações com geometria variável, remetendo-nos para a ideia de que “não há problemas isolados, mas sim feixes de problemas” (Canário, Alves & Rolo, 2001, p.57), o que torna cada caso único e específico. Perrenoud (1989) embora reconheça a diversidade de variáveis relacionadas com o insucesso escolar destaca que a génese do fenómeno reside na escola, como tal tem de ser interpretada a partir de factores de ordem política, organizacional e pedagógica. A perspectiva dos professores é diferente, na sua opinião a construção do insucesso faz-se, essencialmente, fora da escola, remetendo o fenómeno para variáveis contextuais, sistémicas, ecológicas e individuais. Os factores que os professores consideram mais importantes para justificar o insucesso escolar prendem-se com três domínios – alunos, famílias e sociedade, sendo os dois primeiros, particularmente, destacados no seu discurso. Defendem que o insucesso resulta do desinteresse, da desmotivação e da falta de projectos de vida dos jovens, assim como, da ausência de sentido da escola, para estes jovens. Situações que, em grande medida, associam a um meio socioeconómico desfavorecido, a famílias desestruturadas, com problemas financeiros, que não valorizam a escola e que não acompanham o percurso escolar dos educandos. O seu discurso sobre a construção do insucesso escolar é baseado numa perspectiva défice sobre as famílias e os alunos, os quais são tidos como o problema (Canário, Alves & Rolo, 2001). Os professores afirmam que “o estrato social tem muito a ver” (P1); “tem muito a ver com o bairro em si, com toda a parte socioeconómica” (P12); “são contextos socioeconómicos e culturais bastante desfavorecidos” (P10); “é mais fácil termos um insucesso maior com alunos de estratos sociais mais baixos do que o contrário” (P5). O insucesso afecta sobretudo as crianças provenientes socioeconómicos desfavorecidos “o insucesso tanto está nos alunos das famílias com bom nível social e cultural e nas que têm sérias dificuldades financeiras […] mas claro mais 176 frequente nestes últimas” (P7). Os alunos com insucesso são, sobretudo, provenientes de famílias com grandes dificuldades financeiras “em termos económicos há muitas carências aqui” (P12), “as pessoas vivem com muitas dificuldades” (P8) o que se traduz na escola, porque “há alunos que estão preocupados se vão comer ou se não vão comer, não estão preocupados com o português, com a geografia ou com a matemática, isso é secundário” (P5), “ninguém consegue ensinar um adolescente que esteja com a barriga vazia. E aqui isso acontece muito. Desde há dois anos isso tem sido um problema muito vincado” (P12). Estes alunos com insucesso “têm famílias desestruturadas” (P13, P8, P10 e P12), o que associado ao horário de trabalho do pai, da mãe ou de outro familiar com quem vivem dificulta o seu acompanhamento no quotidiano, “os pais trabalham das 8 às 10. Portanto, não têm hipótese nenhuma de acompanhar, por mais que queiram” (P9). Por isso, “os miúdos começam um bocadinho entregues a si próprios e portanto a coisa vai descambando” (P7), “muitas vezes andam ao Deus dará, os pais trabalham, estão o dia todo [sozinhos], preferem estar no computador ou sair ou namorar” (P6). No decurso destas dificuldades económicas, os alunos também não têm acesso à internet e a livros em casa, o que lhes dificulta a realização dos trabalhos escolares “são questões que nós tendemos a desvalorizar ou a não pensar nelas, mas que são muito importantes […] acha-se que todos têm acesso a tudo, o que não é verdade” (P5). Por outro lado, os horários de trabalho dos pais dificultam o apoio e acompanhamento dos filhos. Os professores reconhecem que alguns dos alunos têm condições de vida extremamente delicadas, o que se traduz no seu desempenho escolar, “às vezes uma pessoa nem faz ideia, eles têm vidas loucas, loucas, como eu não sabia que era possível” (P6). Na opinião dos professores, um dos factores que mais pode influenciar o insucesso escolar no seio da família é a grande desvalorização da escola. Na sua opinião a desvalorização da escola é algo quase generalizado nas famílias de classes sociais mais desfavorecidas, destacam o “pouco interesse que as famílias têm pela escola como coisa importante para o futuro dos filhos” (P8), “tem a ver com a casa, com a família, com o meio, que muitas vezes desvalorizam a escola” (P6). Nos casos de desvalorização da escola é também comum esta ser encarada como forma de ocupação do tempo dos filhos enquanto os pais trabalham, “a escola está um bocadinho desvalorizada, a escola é o vazadouro para os meninos estarem […] porque os pais estão a trabalhar” (P7). Neste caso, as famílias tendem a desvalorizar o saber veiculado na escola, a demitir-se da responsabilidade de educar os filhos e a responsabilizar a escola pelo que lhes acontece “há uma parte de irresponsabilidade por parte dos pais […] afastam-se um bocadinho da responsabilidade enquanto a escola é que tem a responsabilidade sozinha” (P13), 177 “nota-se muito, deixar para a escola a responsabilidade de quase tudo” (P8). Os valores transmitidos na família, neste caso, também dificultam a adesão ao ofício de aluno, “ambiência que tudo se faz sem esforço” (P7), “o que interessa é o desenrascar” (P5). Por outro lado, há famílias desfavorecidas que valorizam muito a escola e sentem que o futuro dos filhos terá de passar necessariamente por um investimento nesse domínio, o que justifica a existência de alunos com bom desempenho escolar provenientes de meios desfavorecidos. Neste caso os alunos “podem vir de famílias carenciadas, mas onde respiram directamente na família o valor da escola” (P7), “a escola é-lhes apresentada como algo que lhes vai fazer bem para o futuro […] são alunos esforçados, muitas vezes percebemos que há limitações financeiras outras vezes até culturais […] são mesmo muito bons alunos e que têm um objectivo na vida […] têm objectivos, querem construir o seu futuro, têm metas […] vêm a escola na positiva, têm toda uma postura, de acolhimento de toda a proposta escolar, mesmo com o esforço que tudo isso implica” (P7). O contrário, embora menos frequente, também acontece, alguns alunos de meios favorecidos têm insucesso, o que justificam com a desvalorização da escola, por parte de algumas famílias da classe média, que orientam a sua vida por valores referentes ao imediato, ao sucesso e à popularidade. Os professores destacam que a questão dos valores tem uma dimensão social, porquanto os valores mais valorizados na sociedade actual são divergentes com os veiculados na escola, o que origina um problema à escola, “houve uma alteração de hábitos, de costumes que não favorece muito o papel da escola” (P8), “há aqui um problema social – o tipo de modelo de homem, o tipo de modelo de realização que lhes é apresentado” (P7). Os professores defendem a ideia que a sociedade não valoriza o saber e a cultura, “temos uma sociedade muito consumista em que a cultura não serve de nada […] em que conta a aparência e não conta o conteúdo” (P8), “a vida é-lhes apresentada como estrelato […] como um espectáculo” (P7), “há aqui um facilitismo na sociedade que é preocupante” (P5). A televisão enquanto meio comunicação de massas tem um poder relevante junto das pessoas e ”transmite uma cultura que é quase contrária àquilo que a gente tenta fazer nas aulas, na escola” (P8), “isto tem a ver com os padrões culturais que eles bebem diariamente na comunicação social, nos jornais, no projecto de vida, nos mitos que se lhes incutem” (P7). A importância do imediatismo, do facilitismo e da popularidade influenciam o comportamento dos jovens e isso tem efeitos na sua forma de exercer o ofício de aluno, “é tudo o momento, a mediania, o instante, é tudo a solução da geração do pudim mingau, enquanto o diabo esfrega num olho, tudo tem que ser no momento. Ninguém se interroga sobre isto” (P7). Os argumentos identificados pelos professores, na 178 tentativa de explicar as causas do insucesso escolar e o modo como ele se constrói, revelamnos o problema de “legitimidade da instituição escolar” (Canário, Alves & Rolo, 2001, p.14) no âmbito da escola de massas. Os professores reconhecem que, no geral, os alunos com insucesso escolar não apresentam dificuldades de aprendizagem, pelo contrário, têm um potencial que não é devidamente aproveitado “são miúdos com um potencial enorme […] não me parece que sejam burros […] até são muito espertos” (P9), “não acho que seja falta de capacidades” (P6), “todos têm as suas capacidades” (P12). O reconhecimento das capacidades dos alunos para o processo de aprendizagem é, de certa forma, contraditório com a visão negativa e desvalorizada dos alunos na qual se baseiam para argumentar o fenómeno do insucesso escolar. Por outro lado, os professores raramente falam de problemas de aprendizagem para justificar o insucesso escolar dos alunos, o que fortalece a ideia anterior e torna difícil a justificação do insucesso, remetendonos para uma questão central: O que provoca o insucesso quando não há dificuldades de aprendizagem? Para evitar a colocação da escola no centro da construção do insucesso escolar, os professores tecem uma argumentação em torno dos problemas das famílias, os quais se repercutem directamente nos jovens e contribuem para justificar a sua postura face ao ofício de aluno. Apontam a desmotivação e o desinteresse dos alunos como factores que mais facilmente justificam o insucesso, “desinteresse pela escola” (P13, P8, P10, P7) “desinteresse pelas disciplinas, pelos conteúdos, pelas matérias, pelos professores, pela maneira de estar na aula” (P6), “não gostam de nada” (P6, P12). Acrescentam ainda que a desmotivação é algo que não se pode contornar porque “não se motiva ninguém que não quer ser motivado […] quando não há auto-motivação é muito difícil haver motivação” (P5). Os factores mais destacados pelos professores colocam em evidência a responsabilização dos alunos e das famílias pelo insucesso escolar, “uma grande desmotivação e essa desmotivação está por trás do tamanho da desvalorização que os pais dão à escola” (P13). A desvalorização da escola e do saber académico, a dispersão de interesses, os problemas de atenção, o não cumprimento das regras exigidas no ofício de aluno, a inexistência de pré-requisitos, as dificuldades de aprendizagem, os problemas de auto-estima, os problemas com as necessidades básicas e os comportamentos de risco são factores que, na opinião dos professores, justificam o insucesso escolar. Os factores apontados pelos professores como causas do insucesso escolar podem, afinal, ser efeitos de uma vivência negativa do ofício de aluno na escola, em resultado de problemas criados pela própria escola. Deste modo, tomam-se os efeitos como causas do fracasso escolar (Pais, 2008). 179 Os alunos não reconhecem na escola um contributo para o seu projecto de vida, devido aos problemas do mercado de trabalho e à desvalorização que se tem vindo a registar dos diplomas, “conseguem ver que por muito que se esforcem vão acabar por trabalhar num centro comercial” (P9), “se há licenciados nos supermercados, há licenciados nas cadeias de comida rápida – então eu vou perder o meu tempo se depois vou acabar aqui também!" (P9), “ter o 9º ano ou o 12º ano não lhes promete um futuro muito risonho […] ser licenciado não quer dizer nada em termos de trabalho” (P8), “hoje em dia uma habilitação académica não é garante de um emprego na área em que tiraram o curso e com uma remuneração digna […] eles agora sabem que tanto faz tirarem um curso como não tirar” (P10). A desvalorização da escola surge também associada ao facto de diversificarem e priorizarem outros meios na aprendizagem “a escola não é uma fonte de informação e de formação que os alunos privilegiem […] a aprendizagem faz-se muito lá fora, na net, na tecnologia […] têm muitos outros motivos para ocupar o tempo” (P8), “fazem zapping, imenso zapping, nestes interesses todos” (P6). Esta forma de estar na vida, segundo os professores provoca problemas de concentração, e a desvalorização do esforço, da resiliência, do trabalho, dimensões importantes no ofício de aluno, “têm dificuldade em se concentrarem […] défice de atenção, estamos na sociedade do imediato” (P10), “os miúdos agora têm uma atenção dispersa” (P6, P8), “conseguem estar concentrados em 5 ou 6 actividades ao mesmo tempo” (P6). A dispersão de interesses e da atenção que é comum no seu quotidiano e coloca problemas de adaptação na escola, “não conseguem estar numa aula, seja 45 minutos, 90 então ainda pior” (P6), “as aulas são um martírio para eles, têm dificuldades de concentração, por qualquer coisa têm logo vontade de falar e portanto muitas vezes disturbam” (P7), o que se repercute na actividade dos docentes “nós é que não conseguimos controlar 30 alunos com 5 ou 6 coisas ao mesmo tempo” (P6). O ofício de aluno é afectado devido aos problemas de comportamento, ao facto de não estudarem e de não serem assíduos. Nos problemas de comportamentos os professores referem “são alunos com alguma indisciplina, que respondem mal quando são confrontados, muitas vezes parte deles mesmos criar os conflitos […] não sabem estar numa aula, não têm regras absolutamente nenhumas, não trazem o material […] não trabalham nada, nem abrem a mochila […]. Gostam de provocar… provocar-me a mim, provocar os colegas, brincar” (P6). Na perspectiva dos professores, os alunos “estudam pouco […] o estudo é custoso” (P8), “a falta de estudo em casa […] preguiça de estudar” (P13), “não têm hábitos de trabalho escolar […] não apresentam responsabilidades relativamente às tarefas escolares” (P10). Os alunos não investem no trabalho escolar “stòra não vale a pena, deixe lá " (P12). As dificuldades de aprendizagem, embora seja um factor pouco expressivo também surge 180 como justificação para o insucesso “há miúdos com dificuldades de aprendizagem e desligam” (P6). A inexistência de saberes considerados fundamentais é um factor que está na base de algumas situações de insucesso, isto porque, os alunos ao não dominarem um conjunto de saberes básicos têm uma dificuldade acrescida em captarem a informação e em apropriarem-se dela. Os alunos “às vezes passam com lacunas grandes e essas lacunas são fundamentais para o ano seguintes” (P6). Os alunos recém-chegados a Portugal, que não dominam a língua Portuguesa, deparam-se com um conjunto de dificuldades “os hábitos e a língua dos miúdos estão muito desfasados do modelo da escola, da língua padrão” (P8), “há a barreira linguística, porque estes alunos falam crioulo” (P12), o que justifica, em parte, a desmotivação e o insucesso. Estes alunos, por vezes, são colocados em níveis de escolaridade muito inferiores aos que frequentavam no país de origem, o que provoca problemas de desmotivação. Os professores têm dificuldade em gerir situações destas no contexto de uma sala de aula, com 30 alunos e com programas para cumprir. A circularidade do fenómeno é destaca pelos professores, quando referem que a retenção dos alunos provoca também um conjunto de problemas, porque estes passam estão a ouvir a mesma matéria “alguns com 18 anos, 17, 16 desmotivadíssimos e repetentes […] a ouvir pela quarta e quinta vez a mesma matéria” (P6) e estão inseridos em turmas mais jovens, o que dá lugar a lideranças pela negativa “o insucesso escolar faz com que eles sejam mais velhos, mais fortes, portanto vão liderar, não por exemplo mas por idade […] se eu vou para a rua, sou rebelde, sou mau […] sentem-se importantes dessa forma, não é o respeito, é o medo” (P9). Este tipo de liderança tem efeitos negativos junto dos colegas mais novos, registando-se a adoptação de comportamentos semelhantes, “ou outros têm medo deles, depois começa, por admirá-los, depois a seguir pega-se e começam a fazer o que os outros fazem” (P6). Esta afirmação é elucidativa do modo como a escola contribui para a perpetuação do problema da indisciplina e do insucesso. O efeito da socialização entre pares é notório neste caso, o discurso dos professores revelam a naturalização destes processos que ocorrem dentro da escola, o que reduz, seguramente, a sua capacidade de reflexão, de análise crítica e de implementação de medidas preventivas. Os professores reconhecem que o insucesso provoca problemas de auto-estima aos alunos, contudo, também destacam que problemas de auto-estima originam insucesso, registando, uma certa circularidade no efeito e causa. Os alunos que têm “a auto-estima em baixo dão a volta 181 exibindo comportamentos não próprios […] a auto-estima vai muito abaixo com o insucesso […] é abalada” (P5 e P12). Os alunos disfarçam os problemas de auto-estima, adoptando comportamento inadequados e de liderança pela negativa “a falta de auto-estima é disfarçada, muitas vezes, pelo comportamento, parecem muito comunicativos na turma, muito espalhafatosos, mas depois aquilo lá dentro é tudo um baralho de cartas” (P6), “alguns desses que demonstram ter uma auto-estima muito alta, muitas vezes é para esconder as suas fragilidades” (P10). Estes alunos são muito inseguros e não acreditam nas suas capacidades de aprendizagem “acham-se burros – não vou lá, não consigo" (P6), “se eu sou uma porcaria, vou ser sempre uma porcaria, não preciso da escola […] eles acabam por não ter uma imagem muito positiva deles mesmos, dai vem a falta de expectativas” (P9). Segundo, os professores, alguns casos de insucesso resultam do facto da família não conseguir assegurar as necessidades básicas aos filhos, como é o exemplo da alimentação, o que se traduz negativamente no desempenho escolar, “[a fome] vai ter consequências no comportamento. Portanto, depois não conseguem atingir objectivos em termos escolares, portanto a tendência para se comportarem pior vai aumentando” (P5). Os problemas económicos das famílias também estão na origem de situações em que os alunos estudam e trabalham em simultâneo, o que é bastante exigente e contribui para o seu desinvestimento na escola “os alunos entram no mundo do trabalho, começam a ganhar dinheiro e depois não conseguem conciliar e acham que não precisam” (P9). O insucesso na escola pode ser também o indício de problemas com o aluno. O aluno é uma pessoa, “nós não somos um sistema de gavetas que se abre uma e fecha a outra, somos um todo […] um aluno que não está bem com a escola é sinal de outras coisas também […] aquele não estar bem com a escola não é só com a escola – a vida, a família, os seus projectos” (P7), “são miúdos com muitas carências, muita falta de afecto, muita falta de tudo” (P13). Por vezes, o insucesso escolar precede problemas sociais graves, “é imediatamente antes da criminalidade […] é imediatamente antes de pisarem o risco” (P5), “tentam evidenciar-se pela negativa, fazendo o que não devem” (P12). O insucesso nunca poderá ser extinto, porque haverá sempre um número residual de alunos que não aderem à proposta da escola “há sempre franjas, as pessoas que apesar de todo o esforço da escola não querem, por isso o insucesso e o abandono nunca será zero […] há as franjas sempre, que não entram no sistema” (P8). Os factores identificados até ao momento colocam em destaque a responsabilização dos alunos e das famílias no insucesso escolar. A escola é entendida como uma instituição que apresenta uma organização e um modelo de trabalho específico, à qual, os alunos têm de se adaptar para 182 obterem bons resultados. O insucesso acontece quando os alunos não cumprem as regras e exigências da escola, ou seja, não exercem devidamente o seu ofício de aluno. Este discurso assenta numa visão escolocêntrica, que ignora e torna invisível o modo como a escola enquanto instituição, organização e forma escolar constrói o insucesso escolar (Perrenoud, 1989; Canário, 2005). Embora este discurso seja unânime entre os professores, alguns também consideram que a escola tem um contributo importante na construção do insucesso escolar, como se poderá ver de seguida. Os professores reforçam a ideia que os alunos gostam da escola, enquanto espaço de socialização, com professores e colegas, e espaço lúdico, onde podem brincar, “os nossos alunos gostam da escola […] eles gostam do espaço, gostam dos professores, gostam dos funcionários, gostam dos colegas, […] gostam dos professores fora da sala de aula […] gostam do espaço lúdico” (P13), “eles não faltam, eles até gostam de vir à escola” (P8). Por outro lado, os alunos não gostam “do trabalho que a escola aplica […] não estão interessados em estudar” (P13), “não gostam das aulas” (P8), “não há interesse em aprender, não querem, não estão interessados” (P13), “cria-se uma aversão à escola e ao estudo” (P9). Neste domínio o discurso dos professores oscila entre o reforço da responsabilização do aluno no insucesso escolar e o início do reconhecimento que a própria escola, enquanto instituição, organização e forma escolar contribui, em parte, para o problema do insucesso, “quando a criança não consegue corresponder, fica triste […] a escola está tão séria, tão séria que não dá […] não há desculpas para que a escola não se adeqúe [aos alunos porque há muito conhecimento produzido a esse nível]” (P9). Para alguns dos entrevistados o aluno desmotivado e desinteressado é entendido como um desafio que a escola e os professores têm de conseguir resolver “têm que se motivar e têm que gostar do que fazem” (P9). Nesse sentido, alguns professores admitem que o insucesso resulta de problemas da própria escola. A escola ficou obsoleta porque não conseguiu implementar as mudanças necessárias para seguir a evolução social, “existe uma décalage muito grande entre o que se exige lá fora e a escola […] estamos 20 anos atrasados” (P12), “a escola não está minimamente adaptada aos tempos modernos” (P9). Esta situação exige grandes mudanças “o mundo actual mudou e a escola tem que se adaptar para motivar as crianças” (P9), “a escola tem que se repensar muito, mas mesmo muito” (P12), “a escola tem de levar uma volta” (P5). Os professores abordam um conjunto de problemas existentes na escola e que dizem respeito aos três domínios que a compõem – a instituição escolar, a organização escolar e a forma escolar. No que respeita à instituição escolar referem a incoerência de valores entre a proposta da escola 183 e os valores predominantes na sociedade contemporânea, o que coloca problemas de inconsistência e de desvalorização da escola. Neste âmbito surgem menos críticas à escola e o discurso incide sobretudo na dificuldade de gerir as referidas incoerências, “existe uma dissociação muito grande entre aquilo que ensinamos nas escolas, a maneira como ensinamos nas escolas e a realidade oferecida pelos mass media” (P12), “a escola sofre com isto [modelos de vida e os valores predominantes] isso é a cambalhota total da escola […] a escola neste momento é impotente para dar a volta a essa ambiência”(P7), “estamos a lutar contra uma série de armadilhas que eles têm na vida deles que é muito complicado […] temos de desmontar uma série de coisas feitas” (P5). O discurso dos professores também aponta para a necessidade da escola, enquanto instituição socializadora, reforçar um conjunto de valores fundamentais para o ofício do aluno e para a vida em sociedade “não se trabalham alguns valores ou qualidades que se podiam trabalhar […] a persistência, a paciência […] a paciência para se trabalhar uma relação, para se trabalhar uma tarefa […] a resiliência” (P6). A imposição de regras característica da dimensão institucional da escola apenas é contestada e criticada por um dos professores entrevistado “sempre cheias de regras, isso é a parte que a escola tem de mudar” (P9). A dimensão organizacional da escola embora mencionada também não é objecto de muita reflexão por parte dos professores, ao longo das entrevistas. Neste domínio falam das limitações e constrangimentos da sua actuação enquanto professores, devido aos horários escolares, ao tempo de aulas, ao número de alunos por turma e à gestão do mobiliário nas salas de aula. Consideram que “os horários não estão adequados, existe uma grande falta de assiduidade e pontualidade” (P9), por isso propõem mudanças a este nível. Referem as limitações provocadas pela disposição do mobiliário nas salas de aula, no modo de trabalho pedagógico “a dificuldade que temos de gerir a sala de aula de outra maneira – portanto agora vamos arrumar em círculo – mas depois eu tenho de deixar a sala como estava” (P6). Mencionam a excessiva duração do horário escolar e a tradição dos trabalhos de casa, o que reduz de uma forma significativa o tempo das crianças para a realização de outras actividades do seu interesse “as crianças quando passam seis horas sentadas por dia, criam uma aversão à escola, desde a primária […] chegam a casa e o que é que têm de ir fazer? Os trabalhos de casa, comem e vão para a cama. E onde está o tempo livre?” (P9), “não é possível estreitar laços com trinta e tal alunos, é impossível” (P5), as “turmas deviam ser mais pequenas” (P10). A forma escolar é o domínio mais enfatizado pelos professores na crítica à escola, destacando a inadequação dos currículos e dos modos de trabalho pedagógico. Afirmam “o currículo está mal organizado” (P8), “alguns conteúdos se calhar são difíceis e eles desmotivam-se, vêm que não 184 estão a aprender e vão por aí a baixo” (P6). Os modos de trabalho pedagógico são destacados como um dos domínios em que é necessário implementar algumas mudanças porque “a metodologia é sempre esta” (P12), os instrumentos e recursos de trabalho alteraram-se nos últimos anos nas escolas, contudo, a metodologias permaneceram as mesmas da escola tradicional, “continuamos a dar as aulas como antigamente […] viram-se para o quadro na mesma e dou a aula como antigamente, não tem o estrado, mas pouco falta […] a parte da pedagogia, a parte das estratégias, das metodologias está tudo no tempo do século passado […] percebo e compreendo como pode ser chato, seca (como eles dizem) estar numa aula com o professor a dar a aula como antigamente” (P6). Os professores defendem a importância de mudanças neste domínio, “não pode ser, ou ter actividades diversificadas, não ser só matéria, matéria, escrever, escrever, escrever” (P9), “quando toca ao desinteresse, acho que podíamos, a estratégia de dar aula, a maneira como se podia gerir a aula ou a comunicação na aula é que podia trazer-lhes outra vez interesse” (P6), “nem é propriamente os conteúdos ou as matérias, se calhar é a maneira como se as dá, como se lhes dá as coisas […] tornar a aula mais activa, mais participativa, sem ser o pergunta-responde” (P6). A mudança de metodologias também é associada às capacidades promovidas na escola, “[é importante] ensinar os adolescentes a relacionarem coisas [a saberem separar] o que é útil e o que é lixo […] essa capacidade de análise está a ser pouco trabalhada, insistimos no conhecimento académico” (P12). As políticas educativas surgem como um domínio crítico, porquanto, tem vindo a contribuir para uma instabilidade, para a falta de rumo da escola e para a sua desvalorização social. Os professores referem-se à mudança das orientações em função dos ciclos governamentais, o que gera desperdícios e descredibiliza a escola, “essa ideia peregrina de cada governo, seja ele de que partido for, acha que descobriu o mundo e que o mundo começou com ele, ainda é pior” (P7), “naquela legislatura, na outra a seguir muda aquilo tudo, muda o nome, muda tudo e começa e volta tudo ao mesmo e andamos sempre nisto […] o poder político tem que perceber de vez as consequências que têm algumas medidas que são tomadas e algumas coisas que são ditas […] a desvalorização que tem sido dada à escola pelo poder político, em geral […] denegriu a imagem da escola e do professor” (P5). Destacam o impacto negativo dos exames nacionais no sistema educativo “faz-me confusão ver e revolta-me que um aluno tem que aprender a escrever e a ler na pré-primária” (P9). Os professores falam de uma excessiva centralização na matemática e no português, devido aos exames, “neste momento a preocupação com os resultados é tanta” (P9), que “não têm música, não têm desporto ou atividade física, não têm expressões, só têm Matemática e o Português” (P9), “foram retirados alguns aspectos dos 185 programas que estruturavam a pessoa […] o esbatimento das Humanidades, por exemplo, não contribui para a construção de um homem” (P7). As orientações políticas mais recentes têm vindo a enfraquecer a formação integral dos alunos, num momento, em que os professores consideram importante o desenvolvimento de capacidades transversais e de valores orientados para a cidadania e para a vida em sociedade. Mencionam também a inadequação das metas curriculares e o modo como penalizam a aprendizagem dos alunos “as metas são muito exigentes e muito ambiciosas […] requer muito trabalho extra escola […] nós aqui não temos tempo porque temos de cumprir o programa com poucas horas […] portanto, não há tempo suficiente para praticar […] o que se passa na escola não é suficiente […] na minha direcção de turma têm todos ou um atelier de estudo ou uma explicação ou os próprios pais podem orientar” (P1). Os alunos que não têm apoio em casa e que os pais não têm capacidade financeira para assegurar as explicações estão em desvantagem, situação clara, em que a escola não só reproduz como também acentua as desigualdades. Os professores consideram importante um debate sobre as finalidades da escola, caso contrário, corre-se o risco da escola continuar a ser confrontada com duas lógicas distintas, mas que a desviam da sua missão – o esvaziamento de áreas do saber, referido anteriormente, e o transbordamento de domínios de actuação. Esta preocupação é notória, “que homem estamos a querer ajudar a formar? […] a função primeira da escola é formar pessoas para a sociedade científica e civicamente” (P7). O transbordamento da escola (Nóvoa, 2015) é uma preocupação dos professores, “um dos erros que nós temos cometido é pensar que a escola pode tudo […] a acção do professor é muito curta porque muitas coisas não têm nem aqui origem, nem aqui solução […] há coisas que transcendem a própria escola” (P7), “a escola ainda é uma instituição onde se aprende e onde se ensina, é essa uma das principais vocações. Depois as outras vêm. Se a criança tem problemas familiares a escola pode colaborar, mas penso que não é essa a vocação da escola, penso que não é esse o papel da escola, nem dos professores” (P8). Os professores que adoptam uma perspectiva mais crítica defendem uma outra escola, que passará por “um local mais de pensamento e de criatividade, do que de reprodução de conhecimentos […] um local em que eles sentem que perdem alguma coisa por se irem embora, isso é uma forma de os manter na escola […] se os conseguirmos por a pensar um bocadinho, a ser criativos, a ir mais ao encontro daquilo que são as expectativas deles, os gostos deles, se calhar conseguimos tornar a escola num lugar mais apetecível para este tipo de alunos” (P5). Para que essa escola possa emergir é necessário um trabalho conjunto entre professores, entre 186 professores e alunos, e com o envolvimento das famílias, “tem que haver um estreitar de relações, entre alunos, entre alunos e professores, também entre a escola e a família” (P5). O insucesso e o abandono escolar precoce têm um custo individual e social que não está calculado, pelo que seria importante equacionar medidas integradas e consistente para acabar com o problema, “deveríamos caminhar para o zero de insucesso […] no estreitar das relações estará muito da forma de alterar este fenómeno, este flagelo” (P5). A escola tal como funciona actualmente não consegue resolver o problema do insucesso escolar. As medidas implementadas nas escolas são, essencialmente, de carácter compensatório e não actuam numa lógica preventiva. Os professores reconhecem que os Cursos de Educação e Formação e os Cursos Vocacionais constituem uma outra oportunidade para os alunos que têm insucessos repetidos. Alguns destes alunos percebem claramente que têm aí uma última oportunidade para se manter na escola, o que os leva a adoptar um comportamento mais consentâneo com o que lhe é exigido na escola e a investirem um pouco mais na aprendizagem. Contudo, os professores também destacam as fragilidades destas medidas compensatórias, nomeadamente, o seu carácter segregacionista, a sua orientação para um ensino-aprendizagem de mínimos, a inadequação das áreas de ensino, dos programas e do próprio modelo dos cursos. Estes problemas ajudam a compreender o elevado insucesso escolar associado a estes cursos, como destacam os professores. O carácter desprestigiante associado a estes cursos evidencia-se, “é arranjar mecanismos que estão em fim de linha […] primeiro desvalorizamos uma série de coisas e depois achamos que aquilo é que é importante para os outros escolherem, não é para nós escolhermos é para os outros escolherem […] o sonho de qualquer jovem de 12, 13 anos é ser serralheiro mecânico ou canalizador. É o sonho deles!” (P5). A marca de classe associada a estes cursos é mencionada, num tom de crítica, pelo modo como as políticas educativas orientam a escola a reproduzir desigualdades sociais, naturalizando-as “gostava de ver alguma estatística sobre a origem de muitos dos alunos que estão nos cursos de medicina ou de aeroespacial […] e depois ver nos vocacionais e nos CEF qual é a origem deles” (P5). Estas orientações conduzem a escola a contribuir para “a reprodução directa daquilo que existe […] Se eles vêm de meios complicados o que lhe oferecemos é ele ir para um meio complicado. Qual é a saída dele?” (P5). A falta de equipamentos e materiais é um problema destes cursos “mas de que nos vale fazer um curso de cabeleireiras se depois não há secadores, não há champôs, ou seja, não há material e o curso é tudo uma falácia” (P12), a lógica dos mínimos e o desajustamento dos currículos são dimensões referidas, “a componente prática do curso é toda feita nos mínimos, a e parte geral […] às vezes está desajustada àquele curso” (P12). Os 187 professores destacam exemplos de alunos que foram encaminhados para os Cursos Vocacionais, após insucessos repetidos, e que neste momento, estão reprovados por faltas, “já reprovou não sei quantas vezes e desta vez num vocacional” (P6). Como estes alunos ainda não têm 18 anos não podem sair e a escola é obrigada a encontrar alternativas “agora está-se a arranjar-lhes uns trabalhos, umas tarefas a ver se eles não abandonam a escola porque têm de fazer” (P6). Num outro caso semelhante, “três anos no 7º ano, agora já reprovou por faltas no vocacional, voltaram a pô-lo na turma, fora do vocacional, na minha turma […] não liga nenhuma, daqueles que nem o material tem, não abre o caderno […] não lhe interessa, tem outros interesses, isto já não lhe diz nada” (P6). Estes exemplos são elucidativos de alguns problemas das medidas compensatórias que visam asseguram a conclusão da escolaridade obrigatória ou a permanência na escola até aos 18 anos. Os alunos são muito facilmente transformados em objecto de intervenção, sem se assegurar um verdadeiro envolvimento, comprometimento e responsabilização na condução do processo e das escolhas, o que justifica o seu alheamento e indiferença face ao que se passa. Face às dificuldades e à impossibilidade de resolver o problema, a escola multiplica estratégias para cumprir as ordens da tutela. Estas dificuldades, mais uma vez, tendem a ser naturalizadas e pouco explicitadas, o que reduz a capacidade de se actuar criticamente em situações delicadas, difíceis e graves, que geram angústia e sofrimento aos actores envolvidos. O abandono escolar precoce – um problema residual e pouco visível? O discurso dos professores sobre o abandono escolar é muito sintético, o que nos induz ao silenciamento e ao desconhecimento deste fenómeno no meio escolar. O discurso dos professores sobre o abandono é muito conciso, deixando perceber que só conseguem captar uma pequena parte deste fenómeno, aquela que se torna visível aos observadores exteriores, “isso do abandono eu não estou muito dentro” (P6). Alguns assumem que o fenómeno é difícil de captar porque tem contornos mais difusos, “é um problema da escola, mas não é um problema só da escola […] é um problema da família” (P5). No insucesso os professores confrontam-se com o problema no interior da escola, no exercício da sua actividade profissional, porque o aluno está presente, no caso do abandono escolar precoce regista-se a ausência do aluno, o que por si só, pode justificar a quase invisibilidade deste fenómeno escolar e social. Os professores consideram que o abandono escolar precoce assume proporções inferiores ao que ocorreu no 188 passado, devido ao prolongamento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, ou a obrigatoriedade de frequência até aos 18 anos. O abandono escolar precoce assume vários contornos, o mais frequente diz respeito à saída da escola, mas por vezes é mais subtil, o aluno não vai às aulas durante algum tempo e depois volta à escola, registando-se uma intermitência, “muitas vezes o abandono não é o vai para casa e nunca mais vou à escola” (P6). O abandono antes de se efectivar também passa por formas intermédias, em que o aluno ainda frequenta a escola mas na realidade já não está envolvido na dinâmica de ensino-aprendizagem, “muitas vezes o abandono são as faltas injustificadas que dão porque estão à porta da escola, porque foram fumar, porque tocou e não querem ir” (P6), “o descambar para o abandono real ou não, mas abandono de facto” (P5). Os professores consideram que os factores associados ao abandono são muito próximos dos que provocam o insucesso, notando, uma imbricação e interdependência entre estes dois fenómenos, “o tipo de comportamentos que leva ao insucesso leva também ao abandono” (P5). As dificuldades socioeconómicas das famílias, a desvalorização da escola, a emigração e migração, a inserção no mercado de trabalho, a constituição de família na adolescência, a gravidez, o insucesso escolar e o consumo de substâncias aditivas são apontados como os factores mais frequentes nas situações de abandono. Os professores mencionam os “problemas familiares […] as famílias desestruturadas […] a desvalorização da escola” (P8), “as questões socioeconómicas” (P5, P8, P10), a “falta de acompanhamento familiar” (P10), o “ficar a tomar conta do irmão mais novo” (P13). O “desinteresse” (P8), “a desmotivação” (P5), a desvalorização da escola "não ando aqui a fazer nada. Isto não me serve para nada. Por que é que estou aqui a estudar " (P5), o insucesso escolar, as faltas disciplinares, “a uma certa altura já reprovaram e acabam por se ir embora” (P8) e a necessidade dos jovens contribuírem financeiramente para o agregado familiar. A inserção no mercado de trabalho, “uma das razões será a maternidade, porque há meninas que ficam grávidas e têm que abandonar e vão trabalhar, o outro é porque começam a trabalhar por necessidade familiar […] são quase empurradas” (P9), “são empurrados para o mercado de trabalho que não existe, que é mais aparente do que real, muitas vezes por necessidade” (P5). Por vezes, este processo é gradual, “começam a trabalhar em part time por dificuldades e alguns acabarão por abandonar, até porque já fizeram 18 anos” (P10). A mudança de residência devido à emigração dos pais ou a situações de divórcio. Os comportamentos desviantes levam ao abandono, “quando começa a haver mecanismos de funcionamento em termos de gang isso leva, invariavelmente, ao abandono, ao chumbo, à 189 reprovação repetida por faltas” (P5), o consumo de substâncias aditivas, o “consumo de determinados produtos” (P13), os “comportamentos desviantes” (P5, P10). Insucesso, abandono escolar precoce e género – da (in)visibilidade do fenómeno aos estereótipos de género Antes de nos determos na identificação e análise das representações e do posicionamento dos professores face à questão do insucesso e do abandono, numa perspectiva de género consideramos relevante problematizar as circunstâncias inerentes ao seu discurso sobre a temática em estudo. Os professores entrevistados, com excepção de um, referem nunca ter pensado no insucesso e no abandono escolar precoce, numa perspectiva de género. Assumem que o tema não é objecto de reflexão pessoal e colectiva no seu contexto profissional. Nas últimas décadas, as estatísticas nacionais revelam uma maior taxa de insucesso e de abandono escolar precoce entre os rapazes, por comparação às raparigas. Por outro lado, Portugal é um dos países da União Europeia onde a diferença de género, no domínio em estudo, se revela maior. Os professores ignoram estes dados estatísticos e reconhecem que o tema não é abordado no seu quotidiano profissional, face a esta situação, somos levados a reflectir sobre a ausência de reflexão por parte dos professores no que respeita ao insucesso e ao abandono escolar, numa perspectiva de género. Depreendemos que o tema objecto de estudo não constitui um problema para os professores, é algo que permanece invisível, não está presente na sua reflexão, no seu discurso, nas suas práticas quotidianas e no seu agir profissional. Trata-se de uma ausência (Sousa Santos, 2007) e de um vazio (Gil, 2012) construído pelos professores, o que se torna ainda mais visível na actualidade, porque trabalham num contexto organizacional em que são cada vez mais confrontados com os dados estatísticos. Deste modo, como refere Sousa Santos (2007) para outras dimensões da vida social, parece-nos importante destacar que o insucesso e do abandono escolar precoce, numa perspectiva de género, é um assunto subtraído à vivência dos professores nas escolas, está ausente, é deixado de fora, como não existente e por isso mesmo invisível, tratando-se de um não problema. Esta invisibilidade declarada pelos interlocutores nas entrevistas e nos focus group também é revelada no questionário, porque quase metade dos professores considera não haver diferenças de género no insucesso e no abandono escolar. No discurso dos professores é visível que nunca pensaram sobre o tema em estudo: “nunca pensei nisso assim em termos de quantificar” (P12), “não costumo fazer essa estatística” (P10); “para 190 mim é novidade esse aspecto e olhando para trás eu não via […] é uma novidade que me está a dar e que eu nunca realizei nesse sentido” (P7); “eu não tenho dados” (P8); “não tenho esses números” (P9). O que nos suscita perplexidade e algumas questões: Porque é que os professores, a partir da sua experiência de ensino, não identificam diferenças de género no insucesso e no abandono escolar? Porque é que os professores não conhecem os dados estatísticos nacionais sobre esta questão? Porque é que o tema do insucesso e do abandono escolar, numa perspectiva de género, não é assunto de reflexão individual e colectiva, por parte dos professores? Avançamos com algumas possibilidades para interpretar esta situação. A naturalização das diferenças (Sousa Santos, 2007) de género e o seu efeito no insucesso e no abandono escolar podem justificar a ausência de reflexão dos professores sobre a temática. O insucesso escolar, em geral, é uma questão que talvez não mereça a reflexão e problematização necessária, pelos professores, do ponto de vista individual e colectivo. Na escola enquanto organização regista-se uma certa tendência para naturalizar e externalizar as causas deste fenómeno como sendo decorrente do contexto social, económico, cultural e familiar, por um lado, e algo natural num sistema que incide no mérito individual e coloca no aluno a responsabilidade de não cumprir as regras e não exercer devidamente o seu ofício de aluno. Por outro lado, o insucesso e o abandono escolar afectam apenas uma minoria dos alunos na escola, e as diferenças de género registadas no insucesso e no abandono escolar podem assumir valores ainda mais residuais. Portanto, as diferenças de género no insucesso e no abandono escolar precoce, ao serem entendidas como residuais, podem ser percepcionadas como ausência. Outra justificação possível é o facto de a escola se alicerçar numa intervenção baseada, do ponto de vista dos princípios, numa igualdade de acesso e numa igualdade de oportunidade, independentemente, do género. Com frequência, parte-se do princípio, que o modo mais adequado para assegurar essa igualdade é tratar todos de igual modo, ou seja, através de processos de homogeneização, o que é incorporado pelos professores e traduz a sua dificuldade em pensar e promover a igualdade dentro da escola através de processos diferenciados. Esta situação decorre da nossa incapacidade, como refere Sousa Santos (2007) de “não saber pensar diferenças com igualdade, as diferenças são sempre desiguais” (p.30). Por fim, consideramos que o facto do insucesso e do abandono escolar numa perspectiva de género não se ter assumido também um objecto científico, com consequências na construção de conhecimento neste domínio, nas últimas décadas, poderá justificar, em parte, a sua ausência no discurso e nas práticas docentes. Para além da complexidade e dos dilemas inerentes ao objecto de estudo, expectáveis por parte da 191 equipa de investigação, deparámo-nos com a opacidade do próprio objecto, sobretudo evidente junto dos professores. Os professores, nas entrevistas e nos focus group, quando confrontados com as questões orientadas para o tema do insucesso e do abandono numa perspectiva de género, assumem que nunca pensaram sobre o assunto. Contudo, face às questões colocadas no decurso da entrevista e dos focus group adoptaram uma postura de reflexão retrospectiva, baseada na sua longa experiência docente, e criaram um discurso sobre o assunto em estudo. Através dos dados recolhidos é possível destacar três perfis de respostas, junto dos professores. No primeiro perfil, que agrega a maioria dos professores contactados, estes defendem que o insucesso e o abandono escolar precoce se regista de igual modo entre rapazes e raparigas, por isso falam de um equilíbrio. Esta percepção pode ser confirmada nas suas falas quando dizem “eu tanto tenho sucesso em meninas como em rapazes” (P1); “da minha experiência de docente não noto essa diferença […] eu acho que havia um certo equilíbrio” (P7); “acho que cá na escola não há, não se nota” (P9); “nas turmas que eu tenho tido isso não acontece” (P13); “o desempenho está a ser muito semelhante” (P8). Estes professores face a questões mais concretas e aos factos estatísticos dizem que isso não se comprova através de uma análise da sua experiência. Dizem desde o início até ao fim da entrevista que há equilibro, mesmo quando confrontados com dados estatísticos nacionais, com a relação rapazes/raparigas nas turmas CEF/vocacionais, na relação rapaz/rapariga no quadro de mérito. Recorrem com frequência a exemplos de raparigas indisciplinadas e em situações de abandono, para justificar o equilíbrio. Alguns destes professores não reconhecem uma postura diferente face à escola, em função do género e defendem isso ao longo da entrevista e do focus group. Considerando que isso está mais relacionado com outros factores, nomeadamente, com o projecto de vida e o modo como este se associa ao percurso escolar. Ainda neste grupo, alguns professores reconhecem diferenças de género, identificam atributos diferenciados entre rapazes e raparigas, mas não consideram que isso seja motivo suficiente para gerar diferenças no insucesso e no abandono escolar precoce, em função do género. Quando confrontados com os dados estatísticos nacionais e internacionais os professores entrevistados continuam a defender que a sua experiência profissional não lhes permite dizer que há diferenças de género e destacam a existência de um equilíbrio. Num segundo perfil, os professores adoptam um discurso mais vacilante, defendem equilíbrio a partir da análise retrospectiva da sua experiência, mas dizem que na escola a situação é 192 diferente. Uns defendem há mais raparigas com insucesso e abandono, outros assumem que os rapazes são mais afectados. Consideram que o género interfere no modo de ser aluno, dizem que os rapazes, no geral, são mais imaturos e menos organizados, por isso têm mais dificuldade em respeitar as regras e a lógica do trabalho na escola. Estes têm discurso que, por vezes, é contraditório, pois defendem, em simultâneo, que o insucesso e o abandono se manifesta de igual modo entre rapazes e raparigas, mas depois destacam situações em que as raparigas apresentam maiores taxas de abandono, e reconhecem que os rapazes têm mais dificuldades no ofício de alunos, devido a atributos de género. Por último, o terceiro perfil, que é minoritário diz respeito a professores que consideram que os rapazes tem mais insucesso e abandonam precocemente a escola com mais frequência do que as raparigas. Nestes casos, revelam que isso se verifica na escola e procuram encontrar fundamentos que justifiquem a situação, o que sustentam em diferenças de género, que se traduzem em modos diferenciados de ser aluno e aluna. As afirmações revelam isso mesmo, “dá-me ideia que é mais premente este processo no masculino do que no feminino […] há uma cultura de risco muito maior no masculino do que no feminino e portanto isto vai-se traduzir também neste processo” (P5) do insucesso e abandono escolar. Os professores que admitem esta diferença de género também consideram que a situação pode não ser um problema “não me parece que seja um problema […] não vejo por que é que deve ser diferente” (P5). Alguns dos professores que não reconhecem diferenças de género no insucesso e no abandono escolar também identificam formas diferenciadas de ser aluno e aluna, no seu discurso. Os professores destacam com factores justificativos um conjunto de atributos de género, de ordem psicológica, atitudinal e comportamental, que afectam de um modo diferenciado o ofício de aluno e de aluna na escola. Apresentam atributos dicotómicos quando se referem aos rapazes e às raparigas. Na sua perspectiva e segundo as suas palavras, ao nível psicológico, os rapazes são “mais imaturos”, “menos responsáveis”, “mais miúdos” e “mais de brincadeira”, enquanto as raparigas têm “maior maturidade”, são “mais responsáveis”, “mais precoces” e “mais preocupadas”. Nos atributos relacionados com a atitude e com os comportamentos destacam que os rapazes são “menos estruturados”, “mais desorganizados”, “mais desarrumados”, “mais hiperactivos”, “mais irrequietos”, “mais distraídos”, “mais impulsivos”. Por outro lado, defendem que as raparigas são “mais estruturadas”, “mais organizadas”, “mais arrumadas”, “mais delicadas”, “captam a informação mais facilmente”, são “mais resilientes”, “mais pacientes”, têm “maior quociente emocional”. 193 Segundo a sua perspectiva, os atributos de género repercutem-se naturalmente na escola e no ofício de aluno, pois “há uma forma masculina e feminina de fazer as coisas” (P8). Afirmam que os rapazes têm “mais dificuldade no estudo e na organização”, “postura mais incorrecta”, são “mais indisciplinados”, “na execução de tarefas levam mais tempo ou não fazem”, são “mais preguiçosos”, “desligam” mais facilmente, não se importam de reprovar, pelo contrário, as raparigas são “mais aplicadas no trabalho da aula e de casa”, “mais motivadas para rendimento e aproveitamento escolar”, “executam tarefas” mais facilmente, são “mais trabalhadoras”, e estão “mais preocupadas em seguir percurso dito normal”, sem reprovações. Os atributos de género identificados colocam em evidência que as raparigas estariam em condições privilegiadas para a obtenção de um melhor aproveitamento escolar, porque os seus atributos são mais compatíveis com o que é exigido ao ofício de aluno. Contudo, apenas uma minoria de professores estabelece uma relação causal entre estes atributos e o maior insucesso e abandono escolar verificado entre os rapazes. Os professores que não reconhecem que os rapazes têm mais insucesso e abandono escolar do que as raparigas, embora explicitem estes atributos de género, destacam também atributos masculinos que revelam a supremacia dos rapazes. Isso é notório quando se referem aos rapazes destacando “quando são bons são realmente bons”, “gostam mais de desafios”, “mania de questionar e de pôr dúvidas”, têm “mais facilidade para aprender matemática”, “captam mais depressa do que as raparigas”, “não precisam estudar muito”, “no raciocínio têm mais facilidade”, “exigem mais de nós”. Os professores destacam comportamentos, formas de ser e de estar típicos da feminilidade e da masculinidade hegemónica e identificam estes atributos como sendo genéticos ou culturais. Ao longo das entrevistas e do focus group não se pronunciaram sobre o modo como a escola, nomeadamente, os modos de trabalho pedagógico, a relação professor-aluno e a relação entre alunos contribui para (re)produzir estas formas hegemónicas de masculinidade e feminilidade que estão na origem de desigualdades de género na escola. Um exemplo evidente surge quando os professores reconhecem que as raparigas estudam e assumem que estudam porém, os rapazes dizem que não estudam, mesmo quando o fazem, para não serem designados de “nerds” pelos colegas. Quando usam os exemplos dos seus próprios filhos, os professores apresentam as diferenças de género e fortalecem esta ideia que os rapazes não precisam de estudar tanto para aprender, “ele tem é de perceber e se perceber consegue relacionar, não precisa passar a limpo, não precisa de estudar daquela maneira”, enquanto ela, “mais valorizada na escola, teve de estudar sempre muito mais e marrar muito mais do que o meu filho” (P6). O esforço é associado a um atributo feminino, por isso as raparigas podem assumir que estudam, 194 enquanto os rapazes procuram passar uma imagem de alguém que consegue bons resultados escolares, sem qualquer estudo e esforço, em resultado da sua elevada capacidade para aprender. Os rapazes numa tentativa de afirmação e de diferenciação em relação às raparigas procuram adoptar comportamentos diferentes na escola, no sentido de construírem a sua identidade masculina “o não fazer as coisas como devem ser feitas é aquela imagem do cool que um rapaz se preocupa muito em ter” (P12). Neste evidente jogo de papéis performativo, o mais importante não é o que se faz, mas a imagem que se passa aos outros do que se faz. Passa-se a ideia que os rapazes são mais inteligentes do que as raparigas, pelo que não precisam dedicar tempo ao estudo. A diferença nos atributos comportamentais também é destacada “só se é verdadeiramente homem quando se é mau… e isto depois vai-se traduzir muito [no seu comportamento na escola]” (P5). Nos discursos dos professores, marcados pela reprodução de estereótipos sexuais dentro da escola, nota-se que as diferenças de género são construídas através de processos, conscientes ou não, na interacção quotidiana (West & Zirmmerman, 1987) entre os actores envolvidos, nomeadamente, entre professores e alunos e entre alunos. No contexto escolar está bastante presente o efeito da monitorização (West & Zirmmerman, 1987; Pereira, 2009) dos outros e do próprio, no controlo de comportamentos ajustados à construção da feminilidade e da masculinidade hegemónica, como se percebe no discurso dos professores. A generalidade dos professores considera que a escola é um espaço onde se promove a igualdade de oportunidades, inclusivamente, a igualdade de género. Os professores consideram não dar mais atenção às raparigas embora se sintam demasiado envolvidos na acção para ter um olhar rigoroso sobre esta questão, “na minha prática creio que não, pelo menos tento que isso não aconteça […] tinha de ser medido por alguém exterior […] mas não sei dizer” (P12). Todavia, ao longo da entrevista alguns assumem que as raparigas podem ser valorizadas na escola, tal como os rapazes habitualmente denotam, pelo facto de apresentarem, com mais frequência, as atitudes e os comportamentos exigidos e por se esforçarem no seu ofício de aluna, “pode haver alguma diferença de tratamento […] mas não há razão nenhuma para com o mesmo tratamento tratar de uma forma diferente” (FG), “alunos acham que professores são mais condescendentes com as raparigas” (FG), “não há dúvida muitas vezes, se calhar injustamente, são mais valorizadas do que os rapazes” (P6), “somos mais, pelo menos eu, brutos com os rapazes do que com as raparigas” (P5). Independentemente da posição que defendem, os professores destacam a complexidade e heterogeneidade de situações, tornando-se difícil chegar a grandes tendências que se 195 aproximem das estatísticas, a partir da experiência individual. Sobretudo, porque as situações são mutantes e há sempre muitas excepções. Falam da masculinidade e da feminilidade, de como o ser homem e o ser mulher também evoluiu na sociedade contemporânea, o que torna a compreensão destes fenómenos ainda mais complexa. No seu discurso aponta para a tendência mais recente do esbatimento das diferenças de género, “os comportamentos sexuais estão a ficar iguais […] está a ficar muito blurd, como dizem os ingleses, está a ficar ténue […] o padrão dos sexos estava muito definido e agora não […] a fronteira não está tão claramente definida” (P12). Estes docentes reconhecem o carácter dinâmico e mutante do género (Araújo, 2002), o que explica também a dificuldade que têm em captar o fenómeno na acção quotidiana. No discurso de alguns professores também se torna evidente que, no seu agir profissional, se deparam com posições de género, por parte dos alunos, que contestam a sua forma hegemónica, o que é particularmente destacado no caso das raparigas. Os discursos sinalizam essa dimensão, segundo os professores, as raparigas “quando têm comportamento complicado é mais desgastante, usam armas de desgaste psicológico” (FG), “não se mais até no feminino neste momento, por exemplo em relação ao tabaco” (P5). Os professores, no geral, consideram que não é importante implementar medidas orientadas para a redução do insucesso e do abandono escolar precoce numa perspectiva de género. Defendem medidas orientadas para a resolução do insucesso e do abandono, em geral, no seguimento do que tem vindo a ocorrer em Portugal. Neste domínio, percebe-se um discurso orientado para uma escola igual para todos, o que se estende também às questões de género, “aqui são todos [rapazes e raparigas] olhados da mesma maneira, tratados da mesma maneira e na minha óptica até parece o mais correcto” (P10). As afirmações revelam o posicionamento de se assegurar uma escola igualitária para rapazes e raparigas, nesse sentido, propõem “medidas para os dois sexos” (P12). Contudo, por vezes os professores que defendem medidas iguais para rapazes e raparigas também assumem que poderia ser importante atender às especificidades e diferenças dentro da escola “só para os rapazes em especial não sei […] talvez faça sentido haver uma avaliação da maturidade […] isto precisava de ser equacionado casa a caso, que os miúdos não são todos iguais, aliás são muito diferentes” (P12), “começa a haver uma igualdade de género preocupante, que é pelo negativa” (P5). Alguns professores procuram encontrar explicações dentro da escola, para as diferenças no insucesso e no abandono entre rapazes e raparigas, nomeadamente, no que respeita à organização escolar, aos modos de trabalho pedagógico, aos currículos, à feminização do corpo docente, mas chegam à conclusão que nada do que se passa no interior da escola pode justificar esta diferença de género. Isso é 196 notório nas afirmações, “ao nível dos currículos teríamos de analisar se há diferenças de abordagem e de expectativas mesmo masculinas e femininas. Penso que não” (P5). A construção de género é um processo inerente aos processos sociais, presente em todos os tempos e espaços de vida, que ocorre de um modo contínuo, tornando-se invisível no nosso quotidiano. Este entendimento da construção de género conduz-nos a assumir que esta também acontece nos processos educativos, porquanto têm subjacente uma dimensão de socialização, na educação formal, da educação não formal e na educação informal. As fronteiras de género são (re)construídas (Pereira, 2009) em permanência nas dinâmicas sociais, através de processos de diferenciação, de identificação, de contestação, de negociação, de regulação e de representação. A naturalização destes processos no nosso quotidiano torna-os facilmente invisíveis, como se pode verificar no discurso dos professores. A construção de género e o modo como este influencia o ofício de aluna e o ofício de aluno é um fenómeno bastante complexo, devido ao seu carácter diversificado, difuso, amplo e mutante (Butler, 1990), o que dificilmente se capta em acções pontuais e demarcadas no tempo e no espaço, como é o exemplo das observações de aulas que realizámos nos estudos de caso. As observações de aulas revelaramse inconclusivas relativamente ao objecto em estudo, o que consideramos estar relacionado com dois factores: primeiro, porque a presença do investigador na aula pode ter causado a alteração de comportamentos dos alunos e do professor; segundo, porque o género está inextricavelmente a um conjunto de performances (Butler, 1990; Pereira, 2009) que se (re)constroem na interacção e num processo contínuo, tornando inviável a sua identificação a partir de situações pontuais, como foi o caso das entrevistas. 197 3. Perspetiva das auxiliares de ação educativa Das entrevistas realizadas no âmbito deste projeto de investigação, aquelas que envolveram as auxiliares de ação educativa denotaram uma maior empatia pelos problemas dos alunos do insucesso e abandono escolar. Neste sentido, estas foram as entrevistas mais “maternais” que puderam ser obtidas, situação esta que pode ser explicada pelas características do trabalho realizado por estas pessoas na escola e pela relação mais próxima que estabelecem com estes alunos. Como foi referido por uma das entrevistadas, “Quando os alunos se portam mal, são as auxiliares que os acompanham às salas de estudo” (A5). Nesta linha de ideias, nas entrevistas realizadas, as inquiridas tomavam frequentemente partido pelos alunos, revelavam-se muito tolerantes quando procuravam compreender os seus comportamentos e as suas atitudes, como veremos de seguida. Estas inquiridas consideraram que o insucesso e o abandono escolar eram problemas complexos, tal como acontecia com outros entrevistados. Contudo, ao contrário dos outros inquiridos que tendiam a repartir as causas entre aquelas que eram externas à escola e outras internas à escola, nomeadamente no que remetia para os modos de trabalho escolares, as auxiliares de ação educativa centraram-se sobretudo nos contextos familiares e sociais dos alunos. Afirmavam que estes alunos eram oriundos de famílias designadas de “desestruturadas”, possuírem contextos de vida “complicados”, por residirem em bairros que consideravam “problemáticos”, e apresentarem difíceis condições de vida, marcados por diversas necessidades básicas. Era na confluência destes três aspectos que estas inquiridas procuravam compreender o desinteresse dos alunos pela escola. Como afirmaram, “As famílias não têm tempo, não acompanham os miúdos” (A1) e ainda “(Aos alunos) Falta-lhes apoio; não há ninguém que os empurre (para a escola e para o saber escolar)” (A1). Sem o apoio da família e sem o empenho dos progenitores ou encarregados de educação no caminho feito por estes alunos, tendiam a responsabilizar os amigos e conhecidos do bairro, os grupos de pares pelo insucesso e abandono escolar dos alunos. Como foi dito: “Os miúdos têm outras coisas lá fora; isto (a escola) não vale a pena” (A3). Também tal como os outros entrevistados, verificou-se nestas entrevistas a responsabilização destes alunos pelo insucesso e abandono escolar, embora esta responsabilização passasse sobretudo pelas expectativas desadequadas que estes possuíam relativamente às suas vidas. No caso dos rapazes, o anseio por realizarem profissões que pareciam fáceis de encontrar e de 198 desenvolver, umas mais legais que outras, era indicado por estas inquiridas como uma das causas mais significativa. Adicionalmente, uma das entrevistadas afirmou que os rapazes “Querem ser jogadores de futebol” (A1). Esta vontade dos alunos revestia-se de sonhos impossíveis de atingir, devido, por um lado, à idade que estes tinham, considerada demasiado avançada para iniciar uma carreira no futebol, e, por outro, pelo pouco empenho que demonstravam noutras dimensões da vida, como no estudo das disciplinas escolares, o que, em seu entender, não antecipava uma atitude consentânea com os treinos rígidos e a vida regrada de um desportista de alta competição. Por estas razões, consideravam que os rapazes sonhavam demasiado e olhavam para a vida de uma forma irrealista, como revela o trecho de entrevista seguinte: “Os rapazes também fantasiam mais do que as raparigas. Acho que eles fantasiam, ocupam-se mais de jogos de computador, ocupam-se mais com outro tipo de coisas” (A4). Os rapazes eram também vistos com sujeitos que ambicionavam por maior autonomia, o que de alguma forma era correspondido pelas famílias. Como disse uma das inquiridas, “Eles andam mais à solta” (A5). Esta maior independência era acompanhada pela importância atribuída pelos rapazes aos grupos de pares, aos amigos do bairro nos quais teimavam em integrar-se, bem como ao contexto familiar e social de origem que, no entender destas inquiridas, era propício a comportamento considerados rebeldes e de maior protagonismo. Estes comportamentos tidos como excessivos eram igualmente justificados pela imaturidade dos rapazes, bem como pela instabilidade característica da adolescência. Nesta tensão entre o desejo de mais liberdade e autonomia e comportamentos marcados por excessos, os alunos mereciam avaliações mais negativas, pois, como disse uma das entrevistadas, “Os rapazes são mais desligados, irresponsáveis e influenciáveis” (A3), e as alunas de avaliações mais positivas, dado que, como defendeu uma das inquiridas, “Eles crescem e (amadurecem) mais devagar que as raparigas” (A2) e uma outra “Os rapazes, normalmente gostam é de jogarem à bola, de brincar uns com os outros; às vezes até fazem gestos de murrinhos uns com os outros. As raparigas, não. As raparigas é mais os auriculares, ouvem música, dialogam entre elas, é mais fácil” (A3). Estas constatações eram reforçadas pelo desinteresse demonstrado pelos rapazes pela escola. Aqui, as justificações apresentadas passavam, por um lado, pelos alunos e pelo desinteresse revelado relativamente a certas disciplinas mais “teóricas” e menos físicas”, pois, como foi afirmado, “Há assuntos pelos quais eles não se interessam” (A4); por outro lado, remetiam para o trabalho realizado pelos professores, designadamente pela pouca atenção que este 199 profissionais concediam a estes alunos - como foi dito, “Os professores não se interessam por eles como deviam” (A3). De resto, estas inquiridas consideravam que as alunas se adaptavam melhor ao modo de trabalho escolar. Eram mais aplicadas na rotina escolar e a escola surgia mesmo como uma forte possibilidade de se afastarem mais tarde de uma vida difícil, aquela que era a vida das suas mães. Neste sentido, no entender destas entrevistadas, esta maior adaptação das alunas à escola decorria das expectativas que as famílias pareciam depositar nelas. Como disse um das inquiridas, “Eu acho que as famílias apostam mais nas raparigas para estudarem e terem um curso superior” (A2). Todavia, as alunas também eram mais “responsabilizadas” pela gestão doméstica e pelo cuidado que tinham que prestar aos irmãos mais novos. Aqui, as entrevistadas consideravam até que, em muitos casos, as famílias instauravam “um regime autoritário” (A1) relativamente às raparigas. Um das inquiridas afirmou mesmo que “Os pais exigem muito delas”, o que levava a que “não tivessem tempo para mais nada” (A1). No entender das inquiridas, esta prepotência das famílias justificava-se pela preocupação com a maternidade precoce, uma das causas mais importantes apontada para o abandono escolar, pois, como foi dito, “As raparigas engravidam demasiado cedo” (A1). Quando inquiridas sobre as medidas existentes e as desejadas de prevenção, intervenção e compensação do insucesso e abandono escolar, estas entrevistadas apontaram soluções de natureza socioeconómica, externas à escola, mas desde que articuladas como outras criadas pela própria escola. Nesta articulação, as famílias possuíam em seu entender um papel fundamental. Como uma das entrevistadas defendeu, “As famílias têm de colaborar mais, tem de haver mais articulação: tem de ser casa, escola, educação” (A3). Adicionalmente, algumas inquiridas defenderam a importância do acompanhamento e apoio aos alunos com insucesso escolar, quer fossem estes rapazes ou raparigas, pelos professores e por outros profissionais, como os psicólogos. Valorizaram ainda as ofertas educativas de componente prática e vocacional, na certeza de que os alunos tinham que “ser orientados para encontrarem um caminho para as suas vidas” (A4). De entre as sugestões de medidas indicadas por estas entrevistadas, aquelas que foram mais enfatizadas prendiam-se com o papel das auxiliares de ação educativa nas escolas, mas sobretudo com as possibilidades que esse trabalho lhes concedia de maior proximidade aos alunos. Por este motivo, defendiam que lidar com os rapazes era diferente de lidar com as raparigas, pois os alunos eram mais afetivos que as alunas. Por isso, afirmavam que quaisquer 200 medidas de combate ao insucesso e abandono escolar tinham que considerar a dimensão emocional das relações que se estabeleciam entre os diferentes atores em contexto escolar, dado que aos rapazes “É preciso chegar-lhes ao coração” (A1). 201 4. Perspetiva dos alunos Nota prévia Neste capítulo do relatório damos voz aos estudantes que participaram nas entrevistas e nos grupos focais. A informação recolhida junto deste grupo de atores permite-nos dar conta da forma como vivem e pensam os fenómenos do insucesso e do abandono escolar em geral e numa perspectiva de género, em particular; dos fatores a que recorrem para os explicar e das soluções que propõem para os combater. Embora a introdução da temática do género tenha inicialmente causado alguma perplexidade, os jovens revelaram uma grande abertura à discussão do tema. Além disso os seus discursos colocam em evidência a genderização destes fenómenos bem como de algumas práticas que têm lugar no contexto escolar e familiar. Do insucesso e abandono escolar e das suas causas O insucesso escolar é um fenómeno educativo com que os jovens entrevistados estão particularmente familiarizados quer porque ele é constitutivo das suas próprias trajectórias escolares quer porque todos conhecem alguém no grupo de pares ou entre os colegas de escola que já vivenciou uma situação de reprovação quer porque ele é parte integrante do universo escolar. A maioria dos jovens entrevistados reprovou pelo menos uma vez ao longo do seu percurso académico e as razões que apresentam para explicar essa situação são reveladoras de uma profunda inadaptação à escola e da dificuldade em construírem um sentido para o trabalho escolar. A falta de interesse e a recusa em estudar surgem nos discursos destes jovens como duas das explicações mais recorrentes para justificar as suas retenções. “A minha mãe quis que eu repetisse, como eu não me interessava na escola, ela quis que eu repetisse o ano. Porque não queria saber daquilo. Ia lá só para brincar.” (Manuel) “Aquilo não tinha nada a ver comigo, não me dizia nada, estar lá ou não estar, aquilo não me dizia nada” (Teresa) “Em vez de estudar e isso andava a brincar” (Daniel) 202 “Porque eu não estudava dantes. Eu ia à explicação e tinha os apoios então chegava a casa, ia tomar banho, comia e dormia. E eu não estudava mesmo” (Rui) “Achava que a escola era uma porcaria, que não servia de nada. Por isso ficava em casa, não fazia nada, não estudava, não ficava atenta” (Ana) Embora menos frequentes do que as anteriores, o absentismo e o comportamento pouco adequado à norma escolar são também razões avançadas pelos entrevistados para justificar os seus insucessos. “Era o comportamento, era a fase da rebeldia. Sim, foi mesmo, porque eu tinha notas, foi mesmo o comportamento.” (Teresa) “Porto-me mal, tiro más notas, não leio na aula” (Tiago). “Chumbei porque faltava muito. Só vinha quando me apetecia” (Hugo) As razões evocadas pelos jovens são reveladoras de um sentimento de desafiliação em relação à escola que se exprime em comportamentos de rejeição do trabalho escolar e de resistência às normas inerentes a um contexto com o qual têm dificuldade em se identificar. Não estudar, portar-se mal, faltar às aulas são assim sintomas de um mal estar profundo com repercussões no seu desempenho académico e na relação que estabelecem com o saber e a escolarização. Mas estas razões são também reveladoras da eficácia do poder simbólico da escola no processo de privatização dos problemas educativos. Com efeito, em momento algum os jovens atribuem os seus insucessos às estratégias pedagógicas ou didáticas, aos currículos, ao contexto organizacional ou às suas condições de vida. Embora muitos destes aspetos sejam referidos ao longo das entrevistas a propósito de outras temáticas, eles nunca adquirem o estatuto de causa explicativa para as reprovações. Os jovens assumem-se, através dos seus próprios discursos, como os únicos responsáveis pelos seus fracassos revelando uma adesão incondicional à retórica da responsabilização individual. Se o insucesso escolar faz parte da experiência estudantil da maioria dos jovens entrevistados o mesmo não se pode dizer do abandono. Apenas um rapaz abandonou a escola para depois ingressar num curso vocacional. Apesar do abandono não fazer parte das suas vivências e não ser um fenómeno generalizado – a maioria não conhece ninguém – alguns entrevistados referem casos de colegas ou de irmãos sempre mais velhos que deixaram de estudar. As justificações que apontam para esta situação seguem de perto as que avançaram para explicar o seu insucesso: absentismo e falta de interesse, nalguns casos decorrente de uma deficiente orientação vocacional. 203 Maria, que frequenta o 12ºano de um curso profissional, refere-se nestes termos ao fenómeno do abandono na sua turma e às razões que lhe subjazem: “Já desistiram muitos colegas, nós na altura éramos 30 ao todo, agora somos uns 20 e tal, 21, éramos 30. Porque arrependeram-se do curso para onde foram ou não gostam, depois faltam muito”. Nádia recorre ao exemplo dos dois irmãos para referir o que na literatura é apresentado como a tensão entre o ethos do trabalho e o ethos da escola e que opõe a autonomia que o trabalho remunerado proporciona à heteronomia que a escola impõe: “Por exemplo, tenho dois irmãos que abandonaram porque encontraram trabalho e não queriam deixar o trabalho para virem estudar. Preferiram ficar no trabalho. E há muitos outros rapazes em que aconteceu isso.” Bia, por seu turno avança com uma explicação de matriz sociológica que coloca a tónica no processo de desvalorização dos diplomas e de descrença na escolarização. Sem o saber, esta entrevistada descreve-nos um dos dilemas com que alguns jovens se debatem quando confrontados com uma escola que se mostra incapaz de cumprir as promessas que fizeram dela o principal elevador social e a garantia de uma vida melhor: “Muitas vezes chumbam e depois desistem, desistem, já não querem mais estudar, nem esforçarem-se, não querem estudar e muitas vezes eles também pensam que mesmo acabando não vai valer nada. Acabando ou não acabando vão ficar na mesma, vão tar no desemprego, não vão conseguir arranjar trabalho. E eles acham que isso não depende de acabarem a escolaridade ou não, por isso desistem porque pensam que vão acabar na mesma, esforçando-se para acabar ou não, pensam que vão estar desempregado na mesma e não vão conseguir aquilo que eles querem, por isso param de estudar. É muito triste!” Insucesso, abandono escolar e género A introdução da temática do género provocou quase sempre nos entrevistados uma primeira reacção de estranheza. À semelhança da maioria dos outros interlocutores, quando questionados sobre se os rapazes reprovam mais do que as raparigas a resposta inicial tende a ser um rotundo não. Mas este consenso é quebrado por algumas vozes femininas que admitem “já ter reparado”, “ter assim uma ideia” ainda que nunca tivessem pensado muito sobre o assunto. Pensar sobre o assunto e procurar as explicações para os diferentes comportamentos foi o desafio a que todos responderam. 204 Os piores resultados dos rapazes e os melhores resultados das raparigas são em grande medida explicados com base em atitudes comportamentais e traços de personalidade que reflectem esterótipos associados à masculinidade e à feminilidade. Bia explica de com detalhe essas formas genderizadas de ser aluno. De diferente reparo que muitos dos rapazes tem menos vontade de estudar que as raparigas. As raparigas tem mais aquele incentivo que têm que estudar pra ter uma boa nota, estudam e fazem exercícios e preocupam-se e tiram dúvidas. Mas os rapazes parece que estão menos interessados, esforçam-se menos, parece que esforçam-se menos para obter bons resultados. De semelhante, de semelhante é na sala de aula, apesar de terem menos, terem notas menos boas, reparo que em sala de aula estamos todos em sintonia, estamos todos interessados, percebemos tudo o que está no quadro. É mais em casa o que as raparigas fazem em casa e o que os rapazes fazem em casa, as raparigas tem tendência a preocupar-se mais e os rapazes não. O quadro baixo sintetiza os atributos e os comportamentos que os entrevistados associam a cada um dos géneros e que, em seu entender, explicam os desempenhos escolares distintos e que reproduzem os estereótipos de género dominantes. Quadro 19. Atributos e comportamentos associados aos géneros masculino e feminino Rapazes Raparigas Mais desleixados Mais estudiosas Não gostam de estudar Mais certinhas Mais influenciáveis Mais preocupadas Faltam mais Mais controladas Esforçam-se menos Mais responsáveis Mais preguiçosos Mais aplicadas Menos interessados Têm mais cabeça Estes atributos e comportamentos retratam também formas distintas de exercer o ofício de aluno, de relacionamento com o trabalho escolar que colocam alunos e alunas em posições 205 distintas face às exigências da norma escolar e do currículo oculto. Rapazes e raparigas surgem assim, como imagens invertidas uns dos outros. As raparigas não só estudam mais como possuem um conjunto de competências fortemente valorizadas no universo escolar e que as tornam muito mais aptas ao desempenho do seu ofício e a responderem com maior eficácia às exigências do trabalho escolar. Por seu turno, os atributos e comportamentos que caracterizam os alunos colocam-nos no extremo oposto do sucesso escolar feminino e estão em grande medida em consonância com os modelos dominantes de masculinidade que rejeitam o empenho, o esforço e o envolvimento nos estudos percecionados como características femininas. Quando questionados directamente, nenhum entrevistado admite que os professores favoreçam os alunos em função do género. Os desempenhos escolares diferenciados são fruto das características e atitudes distintas, essas sim fortemente genderizadas. Todavia, num dos grupos focais esta temática ganha outros matizes. Os rapazes referem que as raparigas têm comportamentos que as favorecem em termos de classificações escolares e que eles são incapazes de reproduzir: Hugo - Gostam muito de “chachar” as professoras, de enganar as professoras, elogiar muito e depois dizer que não gosta nas costas. E1 - São uma coisa à frente dos professores e são outra coisa por trás? Hugo - É só para ver se conseguem mais pontos, ou coisa assim. E1 - E vocês acham que isso funciona? Essa estratégia delas funciona? Pedro - Por exemplo, se a aluna ou aluno tiver 3, acho que sim, mas se tiver 2 não resulta. E2 - Não percebi… Pedro - Se tiver 3, e estiver entre o 3 e o 4, dá o 4. Mas se a aluna não for aplicada e estiver entre o 2 e o 3, não. E1 - E vocês não fazem isso? Não vão “chachar” os professores. Rapazes (em coro) – Não! 206 E1 - As meninas dão muito mais graxa aos professores do que dão os rapazes, é isso que vocês estão a querer dizer? Alguns - É. E2 - Mas porque será que elas fazem isso? Daniel - Para tentar para ver se conseguem ter melhores notas. E2 - E vocês por que é que não fazem isso? E1 - Ainda por cima, se estão afitos com notas, e reprovam mais…? Daniel - Não sabemos. Somos rapazes! “Chachar” os professores para obter melhores resultados escolares surge neste universo como um comportamento tipicamente feminino que os rapazes não podem nem querem adoptar sob pena de colocarem em risco a sua masculinidade. Por isso o Daniel afirma peremptoriamente Não sabemos. Somos rapazes! É precisamente porque são rapazes que eles trocam o “charchar” pelo gozo de que fala o José; não alimentam conversas depois do toque e recusamse a ser criados dos professores, como dizia o Tiago, referindo-se ao comportamento das colegas. Mas os rapazes dão também voz ao que consideram ser um tratamento diferenciado em função do género, por parte dos professores. Quando se trata de comportamento, os alunos consideram que eles são menos tolerantes com os rapazes do que com as raparigas “O stôr a nós não nos deixa fazer quase nada, a pessoa chega atrasada leva logo falta. As raparigas podem não fazer a aula que o professor não marca falta” (José) “E1 - Tratam as raparigas de uma forma diferente? José - Por exemplo, na aula de história nós falamos, mas não falamos muito alto, e as raparigas estão a falar lá à frente e a stôra manda-nos calar a nós. (…..) E1 - E tu também achas que os professores tratam as raparigas de uma forma diferente? 207 Pedro - Especialmente a stôra de história, porque os rapazes fazem alguma coisa e ameaça bué para nós irmos para a rua. E depois há raparigas… depois há raparigas que dizem alguma coisa e a stôra diz: “ok, ok”, e depois na aula pergunta se elas estão tristes e isso. Daniel - É verdade o que o José está a dizer” A explicação para esta diferença de tratamento quando o que está em causa é o comportamento é nos dada pela Joana. Ela coloca a tónica nas maiores competências estratégicas e de dissimulação das raparigas que, ao contrário dos rapazes, procuram evitar ser notadas. “para mim, quando eu falo, eu sou mais discreta, eu falo baixinho e eu acho que o professor não vê ou a professora não vê. Porque eu estou a ver se eles não vêem. E eu acho que os rapazes, às vezes, não vêem se a professora está a ver ou não.” Ideia semelhante é transmitida por José quando nos fala dos comportamentos na sala de aula: “Eles estão a perceber o que os professores estão a falar, mas não mostram interesse, e as raparigas estão a ouvir, até podem estar a falar, mas estão a olhar para o professor sempre e com interesse.” A mestria na arte dissimulação surge como uma caraterística exclusivamente feminina, reconhecida por ambos os géneros e que traz, às raparigas consideráveis vantagens no jogo escolar. Á semelhança de uma peça de teatro, as elas desempenham o seu ofício de aluno como se de um papel se tratasse. As estratégias a que recorrem no contexto da sala de aula e as personagens que encarnam colocam-nas numa posição bem mais favorável no contexto escolar do que os seus colegas rapazes. Mas como aprendem, rapazes e raparigas, os comportamentos e atitudes que fazem deles alunos diferentes? Para os entrevistados a família é o locus privilegiado desse processo de aprendizagem ou se preferirmos são os processos de socialização primária diferenciados e a estratégias educativas familiares genderizadas que explicam estas diferenças. À maior liberdade de que os rapazes usufruem no contexto familiar contrapõe-se o maior controlo que é exercido sobre as raparigas e a maior pressão para os resultados escolares “Porque também parte de casa. A maior parte deles eram filhinhos do papá, tinham tudo e mais alguma coisa, e não lhes puxavam as orelhas quando deviam, andavam ao Deus dará” (Tânia) “Há aqueles pais que são muito coiso e querem sempre boas notas, então aí elas estudam mais” (Rui). 208 “Se calhar um pai para uma filha é mais… não deixa ela fazer tantas coisas ou assim. Os pais deixam os rapazes saírem mais do que as raparigas. Se calhar elas estudam mais por isso” (Tiago) Contudo, nem sempre estas distinções de género surgem com clareza nas estratégias educativas familiares. O relato de Daniel é a vários títulos exemplar da complexidade destas estratégias e da forma como elas se vão reconfigurando ao longo do tempo, com as aprendizagens que o processo de educar os filhos mais velhos parece proporcionar aos progenitores. Daniel - Duas irmãs minhas fizeram universidade, a outra foi até ao 12º, e o meu irmão, que é o mais novo delas, fez o 9º ano. E - Portanto na tua família as raparigas estudaram mais do que o rapaz? Daniel - Sim, mas também só porque o meu pai obrigava elas a estudar. E - Obrigava mais as raparigas do que o teu irmão? Daniel – Sim. Mas o meu irmão, também, ele era malandro. Ele só gostava de sair com os amigos dele à noite e isso. Ia passear. E depois não quis estudar. Chegava a casa tarde, não lhe apetecia ir às aulas. Ele ia passear, dizia que ia para a escola e ia embora. E - E tu achas que eles foram mais liberais com o teu irmão, do que são contigo? Daniel - Muito mais. Até nem tem nada a ver. Porque o meu irmão com 11/12 anos já saía quando lhe apetecia. Eu tenho 15 e ainda tenho de perguntar: “mãe posso ir ali?”. E são tipo duas ou três da tarde e ela diz assim: “6 e meia quero-te em casa.”. É verdade que o Daniel não diz que o pai o obriga a estudar, como fazia com as irmãs, mas a sua liberdade está muito mais controlada do que acontecia com o irmão. Mas a socialização primária genderizada não se esgota no que à escola diz respeito. Ela reflecte-se igualmente na reprodução dos papéis de género no quotidiano familiar onde a divisão sexual do trabalho doméstico se mantém, nalgumas famílias, inalterada. “O meu pai é um bocadinho rapaz é rapaz, rapariga é rapariga. Para o meu pai as raparigas é que têm que arrumar a casa e fazer isso, e não podem namorar e essas coisas. O rapaz pode sair, pode fazer o que quiser, não tem de fazer nada. A única coisa que tem de fazer é só ir ao lixo e pronto. “ (José). 209 “eu conheço situações que são assim…que em casa os rapazes não tem que se preocupar com nada porque é a mãe ou a irmã que faz tudo, que limpa cozinha…ainda conheço…apesar de estarmos em 2015 isso ainda acontece, eu conheço muitas pessoas como são … as irmãs são mais novas que os irmãos mas são elas que fazem tudo em casa, deve ser isso, chegam em casa e não tem que se preocupar com nada, pronto. E as raparigas já tem que se preocupar com alguma coisa fora além dos estudos … além dos estudos tem que se preocupar com as lidas da casa, muitas das vezes, até as novas, temos que ajudar a mãe, temos que ajudar a limpar, temos que ajudar a fazer o almoço, cozinhar e os rapazes muitas vezes não tem essa preocupação, muitas das vezes. Pode haver casos…pode haver exceções mas dos que eu conheço, dos que eu vejo é que os rapazes não tem que se preocupar com nada em casa, nós além de estudarmos temos que chegar a casa e preocuparmos com as outras coisas…é verdade.” (Bia) Bia assume-se como feminista. Chegou ao feminismo por via da música e é de todos os entrevistados quem desenvolve um discurso mais estruturado sobre a condição da mulher, ainda que não seja a única. Com efeito há nas raparigas e principalmente nas mais velhas uma maior perceção do papel que é reservado à mulher na família e na sociedade. Dotadas de um maior realismo social, elas falam como se antecipassem o seu futuro. Um futuro onde a dupla jornada será a norma e a luta pela afirmação na sociedade e no mercado de trabalho um desafio. “É cansativo, ser mulher é cansativo porque temos de pensar em montes de coisas e fazer montes de coisas. Nós temos de fazer coisas que se calhar os homens não têm de fazer. Sei lá, em termos de pensar na casa, de pensar nos filhos, essas coisas todas. Eles não se preocupam com nada disso, nós sim. E são as compras. Eu acho que a mulher na sociedade, apesar de ter ocupado alguns postos, de já trabalhar e isso tudo, acho que a mulher ainda é vista na sociedade como um ser inferior, o homem ainda está acima. Eu acho que isso tem de mudar, ainda não está como deveria estar. O papel da igualdade ainda não está estabelecido.” (Teresa) “Eu acho que uma mulher tem de lutar mais para chegar mais alto. Porque ainda há aquela coisa de o homem é que é o chefe da família, já não há tanto, porque antes a mulher não fazia nada, era dona de casa. Estamos muito melhores do que estávamos, mas não estamos tão bem como poderíamos estar.” (Rita). É precisamente por reconhecer que as raparigas têm uma forma diferente de ser e de estar fruto dos processos de socialização mas também das lutas pelos direitos que durante séculos lhes foram negados e que muito provavelmente desconhece, que José nos explica o maior investimento das raparigas na escola como resultado de mix entre a genética e uma consciência social latente “Mesmo o organismo da mulher passa de genes para genes… Derivado, por exemplo, de serem tão aplicadas, e quererem tanto trabalhar e a independência, elas são mais, elas têm mais focação na escola do que os rapazes. Para não perderem outra vez esse direito.” (José) 210 Do insucesso e abandono escolar e das acções e medidas para os combater Solicitados a enunciar os conselhos que dariam aos colegas em risco de reprovar, os entrevistados reforçam o que parece ser uma das principais causas latentes do insucesso: o absentismo. Com efeito são vários os que declaram que aconselhariam os seus colegas a não faltarem às aulas. Assistir às aulas é, no entender destes jovens, uma das melhores formas de assegurar resultados escolares positivos. Para outros a solução reside em esforçarem-se mais um bocadinho até porque, como referia Daniel, também não é muito difícil. De todos os entrevistados, Rui é quem propõe a estratégia mais pormenorizada, fruto da sua experiência: “Dizia para eles se aplicarem sempre nas disciplinas que eles têm dificuldades. Por exemplo eu tive negativas a português e a matemática e agora se eu dou-me melhor a matemática vou-me esforçar mais a matemática. É o que eu estou a fazer este ano. O que eu fiz foi esforçar-me mais a matemática e correu-me bem. Então é esse o conselho: se tiverem de escolher entre uma disciplina e outra, escolhem sempre as que eles acham que é mais fácil para eles. E se não conseguirem subir as outras, olha. Mas é claro que têm de tentar sempre todas. E se não tiver a dar tentar a que conseguirem melhor.” De um modo geral, os jovens consideram as ofertas vocacionais existentes nas escolas como uma medida eficaz de combate ao insucesso e abandono escolares e de promoção do sucesso educativo. A maior facilidade das matérias, a maior proximidade da relação pedagógica e o recurso a estratégias de ensino diferentes são os elementos que em seu entender contribuem para transformar trajectórias de insucesso em percursos de sucesso. “O curso profissional é um bocado mais fácil. As matérias são menos complicadas” (Nádia) “Os professores se calhar não são tão exigentes. Continuam a ser exigentes, mas é diferente, a maneira como eles falam, a matéria não é tão aprofundada, é assim mais leve. Deixam fazer os testes com consulta, mandam trabalhos. É uma coisa completamente diferente” (Joana) “No ensino regular há muito aquela distância entre o aluno e o professor. No CEF é completamente diferente, os professores estão ali e fala-se de tudo, brinca-se. Estão mesmo ali para ajudar, não é aquela distância, é como se fossemos família se formos a ver, é para fazer trabalhos, é para fazer trabalhos, é para descontrair, é para descontrair.” (Teresa) “Sim, acho que o curso vocacional é uma hipótese para quem quer concluir o 9º ano e seguir um curso profissional ou outro vocacional. Acho que devem fazer, porque ajuda. Porque para além de ter as mesmas áreas, como eu já disse, aprende-se mais qualquer coisa, traz outros conhecimentos. Depois também os professores conseguem ajudar mais, digamos assim.” (Rui) 211 Ao mesmo tempo que valorizam as ofertas profissionalizantes, os entrevistados advogam também uma alteração das estratégias de ensino e da relação pedagógica em geral. A importância que atribuem a estas duas dimensões do processo de aprendizagem, quando se referem aos cursos profissionais e vocacionais, é igualmente referida quando se trata do ensino regular. A mudança dos métodos de ensino é uma das propostas mais recorrentes. E em que consiste essa mudança? A Teresa sintetiza de uma forma exemplar as propostas apresentadas pelos seus colegas, enfatizando o papel ativo dos estudantes na construção do conhecimento: “Aulas mais didáticas, mais práticas. Também deixar os alunos prepararem as aulas e serem eles a darem as aulas, assim nas matérias em que estão mais à vontade. Visitas de estudo, isso também é importante. Atividades de coisas que se deram nas aulas para mostrarem a outros alunos, isso também é importante.” (Teresa) Quando se trata da relação pedagógica, os entrevistados preconizam uma atitude diferente por parte dos professores, assente numa maior proximidade com os alunos. Esta proximidade assume, nas suas palavras dois contornos distintos. Por um lado, trata-se de uma proximidade que se constrói com base numa conceção do jovem com pessoa; por outro reivindica-se uma proximidade que concebe o jovem como aluno. Rui é um dos entrevistados que dá voz a esta conceção de proximidade onde o aluno é um jovem com problemas e o professor se transforma numa espécie de psicólogo: “Eu tentava chegar mais, aproximar-me mais dos alunos, dar mais apoios, até mesmo conversar com os alunos, para saber os problemas e tentar resolver. Porque às vezes também tem a ver com os problemas que os alunos têm.” (Rui) A segunda conceção é expressa por Bia. Neste caso espera-se do professor uma atitude mais atenta que permita identificar as dificuldades dos alunos e combate-las. “permitir aos alunos para tirarem dúvidas, perguntava sempre se tinham dúvidas, dar especial atenção…tentar perceber quando um aluno olha pro quadro e não consegue perceber, dar mais atenção aqueles que precisam de mais atenção..que a gente não aprende todos da mesma maneira, acho que isso, é muito importante isso.” (Bia). Quando solicitados a pronunciarem-se sobre a pertinência de existirem medidas para combater o insucesso e abandono escolar dos rapazes a posição generalizada é a de rejeição de tais medidas. Apenas duas entrevistadas apoiam tal ideia. Rita defende-as com o argumento do direito universal ao sucesso: “Eu acho que não é só vir à escola. Todos têm direito a ter sucesso e se os rapazes têm mais insucesso então tem-se de fazer alguma coisa. Eu acho que sim. Devia de haver medidas para os rapazes. O quê não sei, mas que devia de haver, devia.” (Rita) 212 Teresa, por seu turno, socorre-se de um argumento funcionalista para sustentar a sua posição, ao atribuir á escola um papel na integração social e no combate á anomia. “Porque se não qualquer dia temos um país onde só trabalham as mulheres e os homens encostam-se aí à bancada e não fazem nada. Se não é só bandidos, andam aí a matar e a assaltar, e depois dão a desculpa “eu não estudei porque não consegui”, então matam, esfolam, assaltam, fazem essas coisas todas.” (Teresa) Ao contrário destas jovens, os restantes entrevistados rejeitam liminarmente a ideia com base numa conceção essencialista de igualdade ainda que defendam a existência de medidas e de acções de discriminação positiva para combater o insucesso e o abandono escolares. Elementos de síntese Os jovens entrevistados atribuem o insucesso e o abandono a causas maioritariamente individuais – falta de interesse, absentismo, recusa em estudar – mas que são reveladoras de processos mais complexos de inadaptação à escola e de construção de um sentido para o trabalho escolar. Todavia, ao silenciarem aspectos que se prendem as dimensões organizacionais, didácticas e pedagógicas do processo de ensino aprendizagem estes jovens participam do processo de inculcação ideológica que visa responsabilizar os atores sociais individualmente pelos seus sucessos e pelos seus fracassos. As diferenças no desempenho e no percurso escolar de rapazes e raparigas são explicadas através do recurso a um conjunto de atitudes e comportamentos que colocam em evidência os estereótipos de género dominantes. Os atributos de género de que as raparigas são detentoras colocam-nas numa posição mais favorável no jogo da escolarização e explicam, no entender dos entrevistados o seu melhor desempenho escolar. A sua maior capacidade para exercerem o ofício de alunas e responderem às expectativas dos professores são unanimemente reconhecidas pelos entrevistados de ambos os sexos assim como é reconhecida a genderização da relação pedagógica e das práticas educativas familiares. Mas apesar de reconhecerem que existem formas distintas de ser aluno e aluna e que essas formas influenciam os percursos escolares os jovens entrevistados recusam liminarmente qualquer medida ou acção educativa destinada exclusivamente a rapazes. Para eles, o combate ao insucesso e ao abandono escolares faz-se com recurso a estratégias universais que não diferenciem os seus destinatários em função do género. 213 5. Perspetiva dos encarregados de educação Nota prévia Neste capítulo do relatório apresentamos os resultados das entrevistas realizadas aos encarregados de educação. A informação recolhida junto deste grupo de atores permite-nos dar conta da forma como percecionam os fenómenos do insucesso e do abandono escolar em geral e numa perspectiva de género, em particular; dos fatores a que recorrem para os explicar e das soluções que propõem para os combater. Do insucesso e abandono escolar e das suas causas Para os encarregados de educação entrevistados os fenómenos do insucesso e abandono são explicados por uma multiplicidade de factores de natureza individual, familiar e escolar. Em termos individuais, a recusa em estudar, a falta de interesse e de esforço são os mais referenciados. Tal como acontecia com os jovens, estes encarregados de educação colocam a tónica em factores que remetem para os processos de inadaptação à escola e para a dificuldade dos alunos construírem um sentido para o trabalho escolar até porque, como muitos admitem, os seus filhos não gostam de estudar: “Ele não tem esse gosto de ir para a escola, vai para a escola porque é o trabalho dele” Filipe “O problema é que ele desde pequenininho nunca mostrou boa vontade em estudar” Rui “ O meu filho, pra ele, ela acha que a escola, neste momento é um obrigação” Odete Numa segunda linha de argumentação surgem as causas relacionadas com a família. O argumento mais glosado é o da falta de acompanhamento do quotidiano escolar dos filhos que atribuem quer ao desinteresse quer ao ritmo de vida que deixa pouco tempo para o contacto com os filhos. “Os pais têm muito pouco contacto, interferem muito pouco, participam muito pouco na relação do filho com a escola, porque não têm mesmo hipótese, saem de casa muito cedo, deixam a taça dos cereais em cima da mesa, ele vai para a escola, chega 214 primeiro do que eles, não vai estudar, vai jogar PlayStation. Quando os pais chegam vêm muito cansados, se alguma coisa correu mal vai haver gritaria.” (Filipe) A este argumento acresce o do distanciamento de algumas famílias da cultura letrada. Neste caso o ambiente cultural familiar é visto como pouco favorável à construção de percursos académicos de sucesso. “Por outro lado, acho que, por exemplo, a vida familiar, e a família de origem, também pode ter um peso grande porque famílias onde já têm a tradição de não estudar, de não lerem, de não se cultivarem, poderá, de alguma forma, influenciar as crianças.” (Filipa) Ao contrário dos alunos que em nenhum momento fizerem referência a factores de natureza escolar, os encarregados de educação atribuem à escola e ao seu modo de funcionamento a principal responsabilidade pelo insucesso e abandono. Por um lado, a escola não acompanhou a evolução dos miúdos de agora, como refere Odete; por outro ao ensinar as mesmas matérias a todos não tendo em atenção as vocações e os interesses individuais, o sistema de ensino é, no entender de Filipe, o principal responsável pelo insucesso escolar. “A escola ensina a mesma matemática a todos, ensina a mesma física a todos, a história tem que ser mesmo a mesma, não pode variar, mas, enfim, por aí fora, as línguas, ensinam os mesmos conteúdos, e fez isto durante muito tempo, independentemente da vocação e do interesse que cada um poderia ter. Estamos a falar de uma escola em média com vinte e tal alunos a estudarem a mesma matéria, e se calhar naqueles vinte e tal alunos há aqueles que gostam mais de uma coisa do que de outra. Isto não é tido em consideração, julgo que no futuro terá que ser mesmo porque o indivíduo aqui é muito importante. Isto é uma perspetiva generalista do que é a escola e do que pode levar ao insucesso.” (Filipe) A este aspeto acrescem também os modos de trabalho pedagógicos tradicionais que não motivam os estudantes e não apelam à sua participação. “Na escola a forma de estudo não é uma forma que puxe por eles, que os faça pensar, reflectir.” (Filipa) “A escola não tem estado a dar cem por cento aos alunos. Não estou a falar dos professores mas dos meios. Por exemplo, eles, durante estes anos, poucas visitas de estudo fizeram, poucas coisas que complementem a escola e acho que é necessário pros miúdos manterem-se interessados porque não é só dar-lhes, despejar-lhes a matéria e agora vão para casa estudar.” (Odete) “Eles deviam ser mais envolvidos nas aulas, não estarem sempre ali sentados a ouvir. Se eles fossem obrigados a participar mais tenho a certeza que não havia tanto insucesso” (Rita) 215 Insucesso, abandono escolar e género A quase totalidade dos encarregados de educação admite que rapazes e raparigas exercem o ofício de aluno de forma diferente e por isso têm desempenhos e percursos escolares também eles diferentes. A sua experiência de vida em geral, e parental em particular, faz com que estes interlocutores revelem uma particular sensibilidade a esta temática. Os piores resultados dos rapazes e os melhores resultados das raparigas são em grande medida explicados com base em atitudes comportamentais e traços de personalidade que reflectem esterótipos associados à masculinidade e à feminilidade. O quadro baixo sintetiza os atributos e os comportamentos que os entrevistados associam a cada um dos géneros. Quadro 20. Atributos e comportamentos associados aos géneros masculino e feminino Rapazes Raparigas Mais imaturos Mais responsáveis Mais livres Mais maduras Mais desmotivados Mais condicionadas Mais desleixados Mais contidas Mais desorganizados Mais certinhas Mais imediatistas Mais organizadas Mais orientados para os Mais sensatas comportamentos de risco Mais aplicadas Menos interessados Mais racionais Ao contrário dos jovens entrevistados que identificaram processos de socialização primária genderizados, a larga maioria destes encarregados de educação não atribui às práticas educativas familiares qualquer importância na construção da masculinidade e da feminilidade. Alguns, poucos, admitem que os rapazes têm maior liberdade do que as raparigas o que pode 216 explicar o seu menor apego ao estudo, mas a generalidade considera estes atributos e comportamentos exclusivamente como traços de personalidade. Ora, são precisamente esses traços de personalidade que colocam as raparigas numa posição mais favorável no contexto escolar e explicam o seu melhor desempenho escolar. De todos os atributos enunciados detenhamo-nos um pouco no par que mais escapa aos estereótipos dominantes: o imediatismo dos rapazes versus a racionalidade feminina. Nas palavras de Rui, o imediatismo dos rapazes consiste na necessidade de verem os seus objectivos concretizados com rapidez, de obterem mais rapidamente recompensas, daí a sua apetência pelos jogos de computador onde a recompensa é imediata. As raparigas por seu turno fazem, nas suas palavras, um investimento mais racional, levam as coisas mais certinhas. “Eu julgo que os rapazes são mais imediatistas, as meninas conseguem ver com uma perspetiva mais de médio e longo prazo, como um investimento, e se calhar fazem um esforço maior nesse sentido, os rapazes precisam de uma recompensa mais rápida. A escola se calhar não lhes consegue dar logo esse imediatismo, essa recompensa tão imediata para os objetivos que eles definem.” (Rui) Do insucesso e abandono escolar e das acções e medidas para os combater São múltiplas as estratégias a que os entrevistados recorrem para assegurar o sucesso educativo dos seus filhos. Todavia, estas estratégias variam não apenas em função do seu tempo disponível mas fundamentalmente dos recursos materiais e cognitivos passíveis de serem mobilizados no grupo doméstico. A frequência das aulas de apoio oferecidas pelos estabelecimentos escolares é sem dúvida o recurso mais difundido e a que todos os filhos recorrem quando os resultados escolares estão em perigo. A gratuitidade e a acessibilidade são os aspetos que fazem desta medida a mais generalizada e popular. Já as explicações só são acessíveis a uma reduzidíssima maioria. Os encargos financeiros que tal opção acarreta não são comportáveis para os encarregados de educação entrevistados. O incentivo ao estudo e a monitorização dos trabalhos de casa são estratégias a que todos dizem recorrer. Contudo, estas estratégias assumem configurações diferentes em função da disponibilidade e da maior ou menor proximidade das famílias à cultura escolar. Nuns casos, o incentivo ao estudo tem uma dimensão estritamente retórica: mandam os jovens estudar, mas em boa verdade não podem ter a certeza se eles o fazem. 217 “Pra dizer que não estuda, estuda. A noite quando eu chego em casa eu vejo ela lá no quarto, sentada a estudar. Mas eu não vou dizer que é a estudar porque acompanhando ela, sentado ali. Porque às vezes pode estar só com o livro aberto, mas não está a estudar. Eu já não posso dizer nem que não, nem que sim, mas eu vejo ela com o livro aberto, ela está a estudar.” (Pedro) Noutros casos, o estudo é realizado em parceria pois só assim os encarregados de educação têm a certeza de que ele é efectivamente realizado. Mas este é um trabalho penoso e com custos a nível profissional, como refere Filipa. “No 1º período teve as cinco negativas, e eu comecei a tentar também ajudá-lo em casa, a tentar chegar um bocadinho mais cedo, mas isso depois tem o lado negativo na empresa onde estou, a dar-lhe ajuda. Era do género, “vamos lá ver as matérias”, e ele ao fim de cinco minutos a cabeça já estava noutro sítio, e começava a falar de coisas que não tinham nada a ver com o que estávamos a fazer. Acaba por se ter que estar com ele de uma forma diferente, para aproveitarmos cinco minutos, somos capazes de ter que estar ali meia hora, e depois voltar outra vez cinco minutos. De qualquer forma teve resultados.” (Filipa) Rita é de todos os encarregados de educação entrevistados quem tem um papel mais ativo no processo de aprendizagem do seu filho. O seu relato é a vários títulos exemplar do esforço e do seu empenhamento em garantir o sucesso escolar do seu educando “Eu chegava a ficar até às 2 e 3 da manhã, principalmente matemática que aquela matéria é complicada, ele a dormir, a tentar compreender como é que aquilo se fazia. Para tentar compreender ficava eu acordada até de madrugada para depois conseguir lhe explicar no dia seguinte. Eu estudava para ele me ouvir. Que ele a estudar sozinho, ele deve estar a ler, mas aquilo não vai entrar. Tanto que eu digo, “Tiago agora estudas em voz alta. Vamos ler isso em voz alta”. Às vezes no carro, eu não sei a matéria toda de cor, mas vimos a soletrar, que eu acho que o soletrar ajuda a puxar pelo cérebro, vimos a dizer a tabuada, vimos a falar um pouquinho de inglês. Eu tento que aquelas matérias que eu me lembro, que a gente puxe um pelo outro. (…) Mas por vezes meto-o a ele a explicar-me. Às vezes até percebo mais ou menos, mas meto-o a ele a explicar-me. Porque ele ao estar-me a explicar a mim, acaba por estar a aprender.” (Rita). A monitorização dos trabalhos de casa é outra estratégia recorrente mas de resultados duvidosos, mesmo quando existem regras definidas, pois o controlo é muito difícil de exercer, principalmente à medida que a escolaridade avança e o tempo disponível dos encarregados de educação escasseia. “Isso é complicado por que eu quase não paro em casa. Eu chego em casa à noite, saio das sete da noite, às vezes final de semana é que eu me preocupa, durante a semana não dá tempo. Se tiver trabalho de casa é só fazer, mas sabe como criança é. Mas tempo que eu tenho é mais sábado e domingo.” (Pedro) “Eu, quando chego, o que é que faço? “Os trabalhos estão feitos? Mostra lá”. Mas muitas vezes dizem-me, principalmente o mais velho, “ah, não tenho trabalhos”, e eu não tenho forma de ver. Se ele não escrever no caderno que tem o TPC tal, da 218 página tal, eu não adivinho que ele tem. Tenho alguma dificuldade em controlar isso.” (Filipa). Quando solicitados a manifestarem-se sobre as medidas mais eficazes para combater o insucesso e o abandono escolar, os encarregados de educação mais escolarizados são unanimes na defesa da necessidade de mudança da escola. A escola tem de mudar, o modelo escolar está em decadência, está caduco, são algumas das expressões utilizadas para dar conta desse anseio, ainda que essa mudança seja depois difícil de concretizar. As medidas concretas preconizadas enfatizam a importância das aulas de apoio, a necessidade de uma maior flexibilidade curricular e da mudança das estratégias pedagógicas dando um maior protagonismo aos alunos. Mas, uma das propostas mais referidas é aquela que defende uma maior proximidade entre escola e família. Para vários encarregados de educação essa é uma questão fundamental para garantir o sucesso educativo. “É importante que a escola também saiba dizer aos pais o que é que pretende deles porque muitas vezes os pais querem ajudar e não sabem como.” (Filipa) Tal como se verificou com os jovens também entre os encarregados de educação a existência de medidas direccionadas para os rapazes não colhe adeptos. Apenas um encarregado de educação defende a implementação de estratégias pedagógicas que tenham em conta a propensão masculina para a busca de recompensas imediatas. Elementos de síntese As entrevistas aos encarregados de educação colocam em evidência a complexidade dos fenómenos de insucesso e abandono escolar. Se por um lado atribuem as suas causas a aspetos individuais que enfatizam a dificuldades dos alunos em construírem um sentido para o trabalho escolar e em responderem satisfatoriamente às exigências da forma escolar e do currículo oculto por outro não deixam igualmente de referir causas que se prendem com as condições objectivas e subjectivas dos contextos familiares e com o modo de funcionamento do sistema educativo em geral e da escola em particular. Ao contrário de outros atores que participaram na investigação, os encarregados de educação revelam uma grande sensibilidade às questões de género. As diferenças no desempenho e no percurso escolar de rapazes e raparigas são explicadas através do recurso a um conjunto de atitudes e comportamentos que colocam em evidência os estereótipos de género dominantes. 219 Todavia, para estes entrevistados os atributos de género não são resultado de processos de socialização, mas sim traços de personalidade e ao fazê-lo rejeitam a masculinidade e a feminilidade como produtos de uma construção social. Apesar de reconhecerem que existem formas distintas de ser aluno e aluna e que essas formas influenciam os percursos escolares os jovens entrevistados recusam liminarmente qualquer medida ou acção educativa destinada exclusivamente a rapazes. 220 CONCLUSÃO 221 O estudo tinha como objetivo compreender e problematizar o insucesso e o abandono escolar, em Portugal, numa perspetiva de género, numa tentativa de contribuir para a produção de conhecimento numa área relevante do ponto de vista social e educativo. O estudo foi alicerçado no pressuposto que o fenómeno em estudo é complexo, devido à diversidade fatores que contribuem para a sua emergência e ao carácter dinâmico de que se pode revestir. A metodologia mista que adotámos revelou-se extremamente pertinente para abordar e respeitar a complexidade inerente ao objeto de estudo e permitiu-nos desvendar um pouco da opacidade que caracteriza o fenómeno. A abordagem interdisciplinar, que caracteriza as Ciências da Educação, também foi um contributo importante para a compreensão de um fenómeno humano, que cruza, entre outras, dimensões individuais e coletivas, sociais e educativas. Os contributos das Ciências Sociais e Humanas, nomeadamente, da Psicologia, da Sociologia e da Antropologia revelaram-se muito importantes na compreensão do insucesso e do abandono escolar precoce numa perspetiva de género. As estatísticas apresentadas nos estudos comparativos internacionais e nos estudos da União Europeia permitem identificar uma marca de género nas questões do insucesso e do abandono escolar precoce. Na maioria dos países desenvolvidos, os rapazes apresentam taxas de insucesso e de abandono escolar precoce superiores às das raparigas. Na União Europeia, na última década, essa diferença tem vindo a diminuir, contudo, mantém-se evidente. A taxa de abandono escolar precoce é superior entre os rapazes em todos os países, à exceção da Bulgária. Trata-se de um fenómeno global que é, particularmente, notório em Portugal, país onde essa diferença era de 9,1%, ou sejam, o triplo da média da União Europeia (3,4%). A evidência do fenómeno traduzida pelos números colocou-nos face ao desafio de compreender o fenómeno junto dos atores que, direta e indiretamente intervêm no percurso escolar dos rapazes e das raparigas. A expressividade das estatísticas e dos números, a partir dos quais, este fenómeno adquire visibilidade e pode ser construído socialmente como um problema, contrasta com a invisibilidade que dele têm alguns dos atores contactados, nomeadamente, a direção das escolas e os professores. Aquando da realização das entrevistas e dos focus group tornou-se evidente que o tema não faz parte das suas reflexões e preocupações enquanto profissionais. O insucesso e o abandono escolar numa perspetiva de género não é tema nem problema no seu agir profissional, quer do ponto de vista individual, quer coletivamente. A invisibilidade do fenómeno colocou-nos face a uma perplexidade, que se pode traduzir em questões – Como se justifica o facto de professores com uma longa experiência de ensino não identificarem a diferença de género no 222 insucesso e no abandono escolar precoce, a partir da sua própria vivência profissional? Como se justifica o facto de desconhecerem as estatísticas que revelam a diferença de género no insucesso e no abandono escolar precoce? Como se constrói a ausência e a invisibilidade deste fenómeno entre os professores? Os dados recolhidos junto dos professores suscitaram estas questões, para as quais ensaiámos uma tentativa de resposta. O discurso da igualdade de oportunidades no contexto escolar é interiorizado e defendido pela direção das escolas e professores, o que justifica, em parte, a invisibilidade das desigualdades (re)produzidas na escola. Assumir a diferença que o insucesso e abandono escolar são influenciados pelo género é abrir espaço para a atribuição de responsabilidades da escola na produção dessas diferenças. Na escola, o aluno é um sujeito/objeto neutro, não lhe é reconhecido sexo, nem género, porque a escola enquanto instituição, organização e forma escolar alicerça-se no princípio da uniformização – “ensinar a muitos como se fossem um só” (Barroso,2005, p.47). Os alunos têm de se socializar e de adaptar às regras da escola, é isso que se lhes exige no seu ofício de aluno, quando não cumprem passam a ser considerados em situação de falta e de défice. Esta lógica, notória no discurso destes atores, pode estar na origem da invisibilidade da especificidade de cada aluno, porquanto isso é incompatível com a organização e funcionamento da escola, na sua forna tradicional e hegemónica. Alguns professores dão exemplos de alunos que chegam à escola motivados e muito curiosos e que, progressivamente, se vão alheando e demitindo do seu ofício de aluno. Este processo, que atribuem à influência dos colegas e à falta de acompanhamento e de enquadramento da família, é construído e naturalizado na escola. Os processos de massificação e de homogeneização (Nóvoa, 2006) que caracterizam a escola contribuem, em grande medida, para a construção do insucesso e do abandono escolar, e ao que tudo indica para a marca de género associada a estes fenómenos, sem que as direções das escolas e os professores se apercebam de tal facto. Os alunos, as suas famílias e a sociedade, surgem no discurso dos professores, como o problema da escola. A imagem de défice que transmitem, do aluno e das famílias, é suportada numa ideia de responsabilização dos mesmos pelo insucesso e pelo abandono escolar. A vítima é acusada de ser responsável pelo fracasso (Dubet, 2000). Nesta lógica, a escola não reconhece experiência, saberes, vontade, curiosidade e capacidade ao aluno, e pelo discurso, da maioria, dos professores também não reconhece o género, tornando-o uma ausência e algo invisível. Por outro lado, os professores que assumem as diferenças de género e o modo como estas se repercutem no ofício de aluno, indicam um conjunto de atributos de género, que na sua perspetiva decorrem de dimensões genéticas e culturais-familiares. Estes atributos de género 223 surgem no discurso dos professores e na direção das escolas, mas também das auxiliares de ação educativas, dos alunos e dos encarregados de educação, como algo fixo e imutável, registando-se uma dualização de atributos correspondentes a rapazes e a raparigas, que parecem ser naturalizados e suportados em estereótipos de género. O carater dinâmico, difuso, interativo e performativo do género (Stacey & Thorne, 1985; Pereira, 2009), no geral, não é reconhecido pelos atores entrevistados, o que justifica a dificuldade que têm em assumir que a escola pode contribuir para a (re)construção do género. Ao contrário dos professores e diretores das escolas, os alunos, os encarregados de educação e as auxiliares de ação educativa têm maior tendência para percecionar as diferenças de género, no insucesso e no abandono, do que os professores e a direção da escola. Em relação aos alunos as raparigas percecionam mais as diferenças de género, no insucesso e no abandono, do que os rapazes. Os alunos e encarregados de educação atribuem o insucesso e o abandono escolar a fatores pessoais, fortalecendo a lógica de responsabilização indicada pelos professores. O discurso baseado na lógica da responsabilização é de tal forma hegemónico, que está interiorizado e naturalizado pelas próprias “vítimas”. Esta situação dificulta a lucidez dos atores envolvidos para a resolução do problema do insucesso e do abandono escolar. Alguns dos professores, embora poucos, admitem que o problema do insucesso e do abandono escolar também se deve às políticas educativas e à escola, na sua tripla dimensão – a instituição, a organização escolar e a forma escolar. Na sua perspetiva o problema do insucesso e do abandono escolar tem de se resolver com “uma outra escola”, baseada em alianças (Canário, 2005) fortes entre professores, entre professores e alunos e entre professores-alunos-famílias. As auxiliares de ação educativa apontam como causas do insucesso e abandono escolar os contextos socioculturais de origem e as condições de vida. Percebem a falta de tempo das famílias para acompanharem os filhos no percurso escolar. Apontam igualmente causas relacionadas com os alunos, de carácter individual e comportamental. Em relação as diferenças entre rapazes e raparigas afirmam que os rapazes são mais desligados, irresponsáveis, influenciáveis e que crescem mais devagar. Já as raparigas sabem melhor o que querem e são mais maduras. Estes atributos de género seguem a mesma lógica dos mencionados pelos professores. É de destacar que as auxiliares de ação educativa têm uma maior perceção das diferenças de género e do efeito destas no insucesso e no abandono escolar do que os professores. 224 Ao contrário dos professores, e na mesma linha das auxiliares de ação educativa, os encarregados de educação revelam uma elevada perceção das desigualdades de género em contexto escolar, neste caso, fruto das suas experiências de parentalidade. As explicações oscilam entre fatores de natureza individual e familiar. As causas do insucesso e abandono escolar numa perspetiva de género resultam do exercício do ofício de aluno, da relação com o trabalho escolar e de processos de auto-regulação diferenciados entre rapazes e raparigas. No seu discurso, os rapazes são mais imaturos, livres, desmotivados, desleixados, desorganizados, mais imediatistas e mais orientados para a experimentação de comportamento de risco e menos interessados. Em contrapartida, as raparigas são mais responsáveis, maduras, condicionadas, contidas, certinhas, organizadas, sensatas, aplicadas e racionais. À semelhança do que acontece no discurso da direção das escolas e dos professores, os encarregados de educação identificam atributos de género baseados em estereótipos sexuais, porquanto estes atributos surgem como algo natural, fixo e imutável, não se reconhecendo o caráter dinâmico e a importância das interações quotidianas na sua (re)construção. As raparigas revelam uma maior perceção para a problemática do género quer em contexto escolar quer social. As explicações oscilam entre fatores de natureza individual e familiar. Os aspetos sociais e escolares nunca são referidos, ainda que admitam que em matéria de comportamento os professores são mais permissivos com as raparigas. Como fatores individuais referem-se ao exercício do ofício de aluno, à relação com o trabalho escolar e à auto-regulação diferenciada entre rapazes e raparigas. Entendem que os rapazes são mais “desleixados”, não gostam de estudar, são mais preguiçosos e influenciáveis e faltam mais às aulas. Por seu turno, as raparigas consideram ser mais estudiosas, mais certinhas, mais preocupadas e mais organizadas e mais preocupada com o futuro. Como fatores familiares apontam a maior liberdade dos rapazes, em contrapartida as raparigas são mais controladas, fatores que consideram justificativos de um maior insucesso e abandono escolar precoce entre os rapazes. O discurso dos rapazes é consentâneo com os das raparigas, reconhecem estas diferenças de género e percebe-se uma maior aceitação do ethos do trabalho. Os atores que admitem a diferença de género no insucesso e no abandono escolar apresentam um discurso consensual sobre as razões que fundamentam essa diferença, o que nos conduz, enquanto investigadores, a colocar as seguintes questões – A que se deve este consenso? Como é produzido este consenso entre a direção das escolas, os professores, as auxiliares de ação educativa, os alunos/as e os encarregados de educação? Como é invisibilizado o papel da escola na (re)construção do género e no efeito que este tem no insucesso e no abandono 225 escolar? Os estereótipos sexuais estão muito impregnados e influenciam sobremaneira a nossa forma de ser, estar no mundo e de olhar para o mundo, diminuindo a lucidez, a capacidade de distanciamento e de análise crítica dos fenómenos sociais e educativas influenciados pelo género. Os dados recolhidos neste estudo permitem tornar visível a invisibilidade do fenómeno do insucesso e do abandono escolar numa perspetiva de género, junto da direção das escolas e dos professores, mostrar que o fenómeno é visível junto das auxiliares de ação educativa, dos alunos/as e dos encarregados de educação, identificar um consenso entre todos os atores que reconhecem o fenómeno, no sentido em que todos o justificam com diferenças de género alicerçadas em atributos. Estes atributos são entendidos como dicotómicos e marcam a oposição, a diferença e a distinção entre rapazes e raparigas. Quanto a medidas compensatórias e preventivas percebe-se que a maioria dos entrevistados tende a desvalorizar medidas numa perspetiva de género, com argumentos da diminuição do abandono e do insucesso escolar, em geral. Em contrapartida, uma minoria, valoriza as medidas numa perspetiva de género, para permitir uma maior igualdade no sucesso educativo, entre alunos e alunas. Esta perspetiva é transversal e, por isso, consensual, entre os diferentes tipos de atores contactados no âmbito do estudo, o que reforça a ideia que a escola e os atores nela implicados dificilmente conseguem entender como compatível a igualdade de oportunidades e a diferenciação e diversidade na intervenção. Por outro lado, mesmo quando reconhecem que os rapazes têm mais insucesso e abandono escolar do que as raparigas os atores não entendem este fenómeno como sendo um problema, portanto, não se justificam medidas específicas para o prevenir ou resolver. O estudo revelou-nos dados que nos interpelam e nos colocam novas questões de pesquisa, para além das anteriormente enunciadas – Como se justifica o facto que os rapazes possam ter, em simultâneo, uma maior taxa de insucesso e de abandono escolar e resultados de excelência escolar, por comparação às raparigas? Como se justificam as diferenças no resultados escolares na língua materna e na matemática, entre rapazes e raparigas? Como se justifica o caráter global destes fenómenos? Como se justifica a invisibilidade destes fenómenos juntos das direções das escolas e dos professores? Como são construídos estes fenómenos? A emergência destas questões revelam a proficuidade de investigação neste domínio. 226 RECOMENDAÇOES 227 Neste capítulo final do relatório do estudo “Insucesso e Abandono Escolar numa Perspetiva de Género” apresenta-se um breve conjunto de recomendações que procura contribuir para melhorar a resposta das políticas públicas de educação e formação ao nível da promoção do sucesso educativo e, naturalmente, na correção das desigualdades de género analisadas. Em jeito de mote prévio, importará situar que no plano das políticas a possibilidade de estabelecer fronteiras entre medidas de política e instrumentos que procuram contribuir para o sucesso educativo em geral e aquelas que atendem ao objetivo de reduzir as diferenças de género é difícil de conseguir. Com efeito, as estratégias de ação referidas a uma e outra problemática são interdependentes e até, nalguns casos, sobrepostas. Em todo o caso, importará que as recomendações que aqui se traçam sejam orientadas para o espetro mais estreito da abordagem de género ao sucesso educativo. Por esta razão, as propostas brevemente enunciadas não se referem a domínios mais genéricos de intervenção na ótica do sucesso educativo, antes privilegiando domínios de intervenção que especificamente procuram intervir sobre a variável género. Isto sem prejuízo de se entender que elas se reforçam mutuamente. Como primeira linha de recomendação situa-se a perspetiva mais genérica de que as políticas públicas de educação e formação devem procurar incorporar a dimensão de género nas estratégias de resposta que visam promover o sucesso educativo. Dito de outro modo, a neutralidade das questões de género no modo como são pensadas e implementadas as políticas de educação e formação penaliza a capacidade de reforçar a sua eficácia e limita a expressão dos resultados alcançados. Quando se trata de procurar melhorar os resultados escolares, o género importa. Construir uma perspetiva de género ao nível das políticas de educação e formação não deverá corresponder, contudo, a uma dualização de estratégias e instrumentos – ao nível da pedagogia ou dos programas, por exemplo – mas antes a corrigir formas de abordagem que limitam os ganhos de eficácia no que respeita aos resultados de aprendizagem e introduzem desequilíbrios de género que importa eliminar. Ou seja, não importará discriminar estratégias numa perspetiva de género mas antes fazer com que as estratégias e práticas adotadas sejam mais igualitárias na promoção do sucesso educativo. Num primeiro momento, a adoção de medidas de discriminação positiva não representa uma prioridade. Refutamos, pois, qualquer tipo de expressão segregacionista na forma como se procura dar resposta ao problema identificado. 228 Numa linha de complementaridade com o acima dito, considera-se que será prioritário continuar a dar atenção ao tema das desigualdades de género no âmbito da escola – entendida aqui no sentido amplo de todos os estabelecimentos de ensino que participam na educação formal de jovens – na justa medida em que uma incontornável recomendação do estudo diz respeito à necessidade de se aprofundar o conhecimento sobre o tema. Em particular, importa aprofundar a investigação sobre o modo como se produzem as desigualdades caracterizadas e situar com maior precisão todos os domínios de atuação que essa realidade deve suscitar como forma de a eliminar. Deste modo se reconhece que a aprendizagem proporcionada pelo estudo, sendo de relevante significado para apurar estratégias de atuação, constitui um primeiro passo num caminho de construção de conhecimento que exige a realização trabalhos de investigação complementares e a diversificação das estratégias de ação. No que respeita à diversificação das estratégias de atuação tendentes a melhor conhecer e intervir sobre a problemática em causa, entende-se que a possibilidade de desenvolver projetos piloto que testem hipóteses de resposta aos problemas identificados e assim validem o conhecimento produzido constitui uma relevante opção para abordagens futuras neste domínio. Complementarmente, a integração de projetos de investigação-ação no contexto de dinâmicas internacionais de produção de conhecimento sobre a temática devem ser valorizadas, atendendo à dimensão supranacional da problemática como se atesta através dos dados apresentados. Este esforço de aprofundamento do conhecimento sobre as problemáticas em causa deve contemplar o cruzamento disciplinar – ciências de educação, psicologia, sociologia, antropologia e neurociências, por exemplo – de modo a explorar o conjunto de dimensões que podem estar presentes nas desigualdades de género observadas. Ainda numa abordagem genérica importa referir que a problemática do abandono e insucesso escolar numa perspetiva de género tem uma expressão territorial diferenciada, pelo que se entende que o enfoque a desenvolver deve considerar esta realidade e procurar adotar estratégias integradas de resposta, numa lógica territorial. Globalmente, considera-se que é no plano da transformação de mentalidades e condutas que se situa o principal plano de ação, devendo centrar-se os principais desafios no combate aos estereótipos e papéis tradicionalmente associados ao género. 229 Assim, numa ótica mais específica, recomendam-se como domínios de intervenção a contemplar: Os objetivos de melhor entender o problema e de adotar estratégias de ação que lhe deem resposta beneficia, como acima se disse, de um maior aprofundamento da problemática. Nessa medida, para além do trabalho estatístico que é possível fazer no que respeita a indicadores de síntese como o abandono escolar ou a retenção, importaria ter a possibilidade de descriminar de forma mais fina os resultados escolares de raparigas e rapazes ao longo dos diferentes ciclos de estudo. Nesta ótica, promover a análise ao nível da escola (recorrendo aos registos próprios), num primeiro momento, dos resultados escolares – avaliação das disciplinas e níveis de aprendizagem tendo por base as metas de aprendizagem – e, num segundo momento, desenvolver um sistema de informação que de forma integrada permita recensear e analisar toda a informação relevante sobre os resultados escolares dos alunos constituem recomendações incontornáveis. De referir que a opção de promover um maior intercâmbio disciplinar no estudo desta problemática beneficiaria também com o conhecimento mais fino do nível e tipo das aprendizagens feitas por raparigas e rapazes. A informação e sensibilização dos professores para a realidade caracterizada e a sua mobilização para se envolverem em espaços de partilha e discussão de estratégias de ação que, simultaneamente, constituam uma forma de generalizar o conhecimento sobre o problema e de discutir formas de atuação. Recorde-se que o estudo evidenciou um relativo alheamento por parte dos professores da expressão assumida pelas desigualdades de género ao nível dos resultados escolares. Esta realidade favorece a reprodução de modelos de conduta – social e pedagógica – que contribuem para produzir essas desigualdades, assim como diminui a recetividade à intervenção neste domínio. Qualquer estratégia de ação que vise intervir sobre esta temática beneficia com uma maior socialização do problema. A promoção de espaços de debate no âmbito da comunidade escolar constitui uma estratégia útil ao objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a temática e, sobretudo, de discutir e consensualizar formas de atuação que procurem contribuir para aperfeiçoar a sua capacidade de resposta do sistema de educação e formação. A aplicação experimental de algumas estratégias de atuação permitirá que a generalização das políticas e instrumentos dirigidos a este tema se faça com maior segurança. 230 O estudo coloca em evidência o papel que os mecanismos de socialização baseados em estereótipos de género têm na construção das desigualdades objeto do estudo. Deste modo, afigura-se da maior importância desenvolver ações que contribuam para alterar o protagonismo destes estereótipos nos modos de socialização. A família assume neste plano uma relevância acrescida. Assim, considera-se prioritário desenvolver estratégias de ação com as famílias que contribuam para diluir o impacto negativo dos estereótipos de género. Tendo uma componente formativa, estas ação não terão de assumir a forma de ação de formação tradicionais que mais dificilmente são mobilizadoras da participação das famílias. Espaços de sensibilização, de debate, de aconselhamento constituem, entre outras, formas possíveis para trabalhar a questão dos estereótipos de género junto das famílias. A estratégia de atuação ao nível dos estereótipos de género não deverá limitar-se ao âmbito da família mas abranger a própria comunidade escolar – professores, pessoal auxiliar, técnicos e também alunos -, podendo corresponder a um leque muito diversificado de estratégias de ação, incluindo a formação. A abordagem formativa neste domínio pode, sobretudo, ser favorecida junto dos professores. No que respeitas aos alunos, a dinamização de workshops/grupos de discussão afigurase uma opção relevante para procurar partilhar a importância do tema e desconstruir posturas e valores que contribuem para dar expressão às diferenças de género ao nível dos resultados escolares. A elaboração de uma referencial que ajude a desconstruir a expressão destes preconceitos de género nos diferentes espaços de socialização dos jovens representa um importante desenvolvimento para operacionalizar as três recomendações anteriores. Com, efeito, para melhor conceber e implementar os projetos a desenvolver, importa referenciar bem as diferentes formas como este se exprime e as implicações que pode ter na problemática em causa. A formação pedagógica de professores é também um domínio privilegiado de atuação. Trata-se, neste caso, de criar condições que permitam uma maior diversificação das estratégias pedagógicas, nomeadamente em favor de abordagens mais sustentadas na cooperação entre alunos e em pedagogias ativas que, por exemplo, reforcem a abordagem por projetos. Não se trata, portanto de procurar pedagogias mais adaptadas ou convenientes ao género em situação de desfavor mas, antes, de promover práticas pedagógicas que sendo mais apelativas consigam “chegar melhor” ao universo de 231 alunos. Esta intervenção deve ser materializada quer ao nível da formação contínua de professores, sendo incontornável para que se possam aspirar a resultados de curso prazo, mas também na formação inicial. A formação inicial e contínua de professores neste domínio pode fundamentar-se no conhecimento construído sobre o tema. A relevância da formação de técnicos não se esgota nos professores. Com efeito, os técnicos atuam nos serviços de psicologia e orientação escolar e vocacional também constituem um grupo a privilegiar ao nível da formação. Também aqui a ótica de desconstrução de estereótipos de género é de fundamental importância para que a respostas dadas, quer ao nível do acompanhamento psicológico quer de orientação, consigam intervir sobre os preconceitos de género. Trabalhar a perspetiva de género nos recursos de ensino e aprendizagem constitui um domínio relevante de atuação. Trata-se aqui, num primeiro nível de abordagem, de procurar remover a reprodução que neste âmbito é feito de abordagens estereotipadas de género. Estas promovem a reprodução de valores e condutas que não se afiguram favoráveis à redução das desigualdades verificadas na aprendizagem. Embora esta preocupação já seja formalmente consagrada em Portugal, considera-se que o reforço da formação dos técnicos envolvidos no desenvolvimento destes recursos é uma valia a explorar. Em alguns países, a atração de homens para a profissão docente constitui uma estratégia de resposta a este nível. Sem prejuízo de se considerar que o cabal conhecimento das implicações de uma grande feminização do corpo docente sobre o processo de ensino e aprendizagem carecer de maior aprofundamento ao nível da investigação, considera-se que promover uma maior paridade de género a este nível constitui uma opção válida. O desenvolvimento de estratégias de apoio individual aos alunos – ao nível do estudo mas também do aconselhamento – constitui um domínio de intervenção relevante para promover os resultados escolares e reduzir as diferenças de género. Este é, contudo, um domínio de atuação que supera a abordagem mais específica de género sem que, contudo, deixe de permitir trabalhar algumas das dimensões que acima se referiram. Referir que a dimensão territorial é de grande importância para permitir explorar fatores explicativos das diferenças verificadas que se liguem às variáveis culturais, económicas e do mercado de trabalho. A recomendação que se faz é pois que numa abordagem 232 mais territorializada se possam explorar essas interdependências de modo a alargar o leque de estratégias dirigidas à problemática do abandono e insucesso escolar numa ótica de género. Por fim, enfatizamos a importância de se recorrer ao conhecimento científico produzido neste domínio na intervenção e formação dos atores sociais e educativos. Deste modo parece-nos essencial o investimento em investigações que possam contribuir para a consolidação de conhecimentos no domínio. 233 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 234 ABRANTES, P. & TEIXEIRA, A. R. (2014). A intervenção socioeducativa em territórios marginalizados: agentes de desenvolvimento local ou da ordem escolar? Revista Lusófona de Educação, 27, 27-41. ABRANTES, P.; MAURITTI, R. & ROLDÃO, C. (2011). Efeitos TEIP: Avaliação de Impactos Escolares e Sociais em Sete Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Síntese dos Resultados. Lisboa: Direção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (DGIDC) ARAÚJO, H. (2002). Há já lugar para algum mapeamento nos estudos sobre género e educação em Portugal? – Uma tentativa exploratória. Investigar em Educação, 1(1), 101-146. AZEVEDO, J. (2014). Ensino profissional em Portugal, 1989-2014: viagem da periferia para o centro das políticas públicas. In M. L. Rodrigues & P. Adão e Silva (Orgs.), Políticas Públicas em Portugal (pp. 411-468). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda/ISCTE. BARBIERI, H. (2003). Os TEIP, o projecto educativo e a emergência dos ‘perfis de território’. Educação, Sociedade & Culturas, 20, 43-75. BARROSO, J. (2005). Políticas educativas e organização escolar. Lisboa: Universidade Aberta. BAUDELOT, C. & ESTABLET, R. (2006). Allez les filles! Une révolution silencieuse. Paris: Éditions du Seuil. BAYMA-FREIRE, H., MACHADO, T. S. & ROAZZI, A. (2011). Abandono escolar em adolescentes brasileiros do ensino público: estudo de variáveis familiares. Revista Portuguesa de Pedagogia, 45(1), 25-38. BEEKHOVEN, S. & DEKKERS, H. (2005). Early school leaving in the lower vocational track: Triangulation of qualitative and quantitative data. Adolescence, 40(157), 197-213. BENAVENTE, A.; CAMPICHE, J.; SEABRA, T. & SEBASTIÃO, J. (1994). Renunciar à escola. O abandono escolar no ensino básico. Lisboa: Fim de Século. BOUCHARD, P. & SAINT-AMANT, J.-C. (1993). La réussite scolaire des filles et l’abandon des garçons: Un enjeu à portée politique pour les femmes. Recherches féministes, 6 (2), 21-37. doi: 10.7202/057749 235 BURNS, J. & BRACEY, P. (2001). Boys’ Underachievement: issues, challenges and possible ways forward. Westminster Studies in Education, 24(2), 155-166. doi: 10.1080/0140672010240206 CANÁRIO, R. (2005). O que é a escola? Um “olhar” sociológico. Porto: Porto Editora. CANÁRIO, R., ALVES, N. & ROLO, C. (2001). Escola e Exclusão Social. Lisboa: Educa. CARRINGTON, B. & MCPHEE, A. (2008). Boys' ‘underachievement’ and the feminization of teaching. Journal of Education for Teaching: International research and pedagogy, 34(2), 109120. CARRINGTON, B.; FRANCIS, B.; HUTCHINGS, M.; SKELTON, C.; READ, B. & HALL, I. (2007). Does the gender of the teacher really matter? Seven‐to eight‐year‐olds’ accounts of their interactions with their teachers. Educational Studies, 33(4), 397-413. doi: 10.1080/03055690701423580 CARRITO, M. & ARAÚJO, H. (2013). A «palavra» aos jovens. A construção de masculinidades em contexto escolar. Educação, Sociedade & Culturas, 39, 139-158. COMISSÃO EUROPEIA (2011). Combater o Abandono Escolar Precoce: Um Contributo Essencial para a Estratégia “Europa 2020”. COM(2011)18, Bruxelas. Disponível em http://eurlex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:52011DC0018&from=EN COMISSÃO EUROPEIA (2013). Reducing early school leaving: key messages and policy support. Final Report of the Thematic Working Group on Early School Leaving. Brussels: European Commission. CRESPI, I. (2009). Gender differences and equality issues in Europe: critical aspects of gender mainstreaming policies. International Review of Sociology: Revue Internationale de Sociologie, 19 (1), 171-188. doi: 10.1080/03906700802614010 DUARTE, A. (2014a). O ensino profissional nas políticas públicas. Análise do agendamento da medida entre 1986 e 2009. Sociologia, Problemas e Práticas, 75, 151-170. DUARTE, A. (2014b). Unificação e diversificação das vias de ensino. In M. L. Rodrigues & P. Adão e Silva (Orgs.), Políticas Públicas em Portugal (pp. 131-148). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda/ISCTE. 236 DUBET, F. (2000). Les inégalités multipliées. Quetigny: Éditions de l´Aube. DURU-BELLAT, M. (1990). L'école des filles. Quelle formation pour quels rôles sociaux? Paris: L'Harmattan. DURU-BELLAT, M. (1995). Filles et garçons à l’école, approches sociologiques et psychosociales. La construction scolaire des différences entre les sexes. Revue française de pédagogie, 110, 75-109. doi: 10.3406/rfp.1995.1242 EUROPEAN COMMISSION (2007). Gender mainstreaming of employment policies. A comparative review of 30 European countries. Luxembourg: Office for Official Publications of the European Communities. EUROPEAN COMMISSION (2011a). Early school leaving in Europe – Questions and answers. Brussels: Memo 11/52. Disponível em http://europa.eu/rapid/press-release_MEMO-11- 52_en.htm?locale=en EUROPEAN COMMISSION (2011b). Tackling early school leaving: a key contribution to the Europe 2020 Agenda”, Communication from the Commission to the European Parliament, the Council, the European Economic and Social Committee and the Committee of the Regions. Bruxelas, 31.1.2011. COM (2011) 18 final. Disponível em http://eur- ex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=COM:2011:0018:FIN:EN:PDF. EUROPEAN COMMISSION (2013). Education and training monitor (2013). Education, Culture, Multilingualism and Youth. Brussels: European Commission. Disponível em http://ec.europa.eu/education/library/publications/monitor13_en.pdf EUROPEAN COMMISSION; EACEA; EURYDICE & CEDEFOP (2014). Tackling Early Leaving from Education and Training in Europe. Strategies, Policies and Measures. Eurydice and Cedefop Report. Luxembourg: Publications Office of the European Union FERREIRA, I. & TEIXEIRA, A. R. (2010). Territórios Educativos de Intervenção Prioritária: breve balance e novas questões. Sociologia, XX, 331-350. FONTAINE, A.-M. (1990). Motivation pour la réussite scolaire. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. 237 GARCÍA, G., PALACIOS, J. & EVANS, C. (2010). ¿La escuela hace la diferencia? Revista Mexicana de Investigación Educativa, 15(44), 197-225. GIL, J. (2012). O que não sabemos sobre nós. O estado da nação e o seu avesso. Jornal Público, 5 de Março, 2-10. GOMES, M. C. & DUARTE, A. (2012). Políticas públicas de educação e formação. In M. L. Rodrigues & P. Adão e Silva (Orgs.), Políticas Públicas em Portugal (pp. 349-358). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda/ISCTE. GRÁCIO, S. (1997). Dinâmicas da escolarização e das oportunidades individuais. Lisboa: Educa. GREK, S. & OZGA, J. (2008). Governing by Numbers? Shaping Education through Data. CES breafing. GREK, S. 2009. Governing by numbers: The PISA ‘effect’ in Europe. Journal of Education Policy, 24(1), 23–37. GRIFFIN, C. (2000). Discourses of crisis and loss: Analysing the ‘boys' underachievement’ debate. Journal of Youth Studies, 3(2),167-188. doi: 10.1080/713684373 HARRINGTON, I. (2008). The motivation of boys who leave school early: impact of teachers. Educational Research for Policy and Practice, 7(1), 47-55. doi:10.1007/s10671-007-9040-z HUNTER, I (1996). Assembling the School. In A. Barry, T. Osborne & N. Rose (Eds.), Foucault and Political Reason: liberalism, neo-liberalism and rationalities of government. London: UCL Press. ILLICH, I. (1973). Sociedade sem escola. Petrópolis: Vozes. JACKSON, C. (2003). Motives for 'laddishness' at school: Fear of failure and fear of the 'feminine'. British Educational Research Journal, 29(4), 582-598. doi: 10.1080/0141192032000099388 JUSTINO, D.; PASCUEIRO, L.; FRANCO, L.; SANTOS, R.; ALMEIDA, S. & BATISTA, S. (2014). Atlas da Educação – Contextos Sociais e Locais do Sucesso e Insucesso. Portugal. 1991-2012. Lisboa: CESNOVA. 238 LAHELMA, E. (2014). Troubling discourses on gender and education. Educational Research, 56(2), 171-183. doi: 10.1080/00131881.2014.898913 MENDONÇA, A. M. F. (2006). A Problemática do Insucesso Escolar. A Escolaridade Obrigatória no Arquipélago da Madeira em Finais do Século XX (1994-2000). Tese de Doutoramento. Funchal: Universidade da Madeira. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO/CENTRO DE INVESTIGAÇÃO E ESTUDOS DE SOCIOLOGIA (CIES) - Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). NÓVOA, A. (2006). A escola e a cidadania. Apontamentos incómodos. In D´Espiney, R. (Org.). Espaços e sujeitos de cidadania (pp.59-71). Setúbal: Instituto das Comunidades Educativas. Disponível em http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/4811/1/9729604894.pdf O’CONNOR, J. (2014). Gender mainstreaming in the European Union: broadening the possibilities for gender equality and/or an inherently constrained exercise? Journal of International and Comparative Social Policy, 30(1), 69-78. doi: 10.1080/21699763.2014.888012 OCDE (2015). ABC of Gender Equaty in Education. Aptitude, behavior, confidence, PISA. OCDE Publishing. PACHECO, J. A. (2008). Notas sobre diversificação/diferenciação curricular em Portugal. InterMeio: Revista do programa de Pós-Graduação em Educação, 14(28), 178-187. PAIS, J. M. (2008). Jogos de máscaras e "escolas do diabo". Revista Brasileira de Educação, 13(37), 7-21. doi: org/10.1590/S1413-24782008000100002 PEREIRA, M. M. (2009). Fazendo género na escola: Uma análise performativa da negociação do género entre jovens. Ex aequo, 20, 113-127. PERRENOUD, P. (1989). La triple fabrication de l’échec scolaire. Psychologie française, 34(4), 237-245. Disponível em http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php_1989/1989_05.html PFEFFERKORN, R. (2007). Inégalités et rapports sociaux. Rapports de classes, rapports de sexes. Paris: La Dispute/SNÉDIT. 239 PINTO DE CARVALHO, M. (2005). L'échec scolaire des garçons: questions à partir du Brésil. Education et Sociétés, 2(16), 263-277. doi: 10.3917/es.016.0263 POLLACK, M. A. & HAFNER-BURTON, E. (2000). Mainstreaming gender in the European Union. Journal of European Public Policy, 7(3), 432-456. REES, T. (1998). Mainstreaming equality in the European Union: Education, training and labour market policies. New York: Rutledge. RODRIGUES, L. (2011). Ensino profissional. O estigma das mãos mais do que cabeça. Mangualde: Edições Pedago. ROLDÃO, M. C. (2000). O currículo escolar: da uniformidade à contextualização. Campos e níveis de decisão curricular. Revista de Educação, IX (1), 81-92. ROLDÃO, M. C.; CAMPOS, J. & ALVES, M. (2008). Estudo Curricular da Medida PIEF. Programa Integrado de Educação e Formação – 2006-2007. Lisboa: Edições Colibri/PETI. Rose, N. (1991). Governing by numbers: Figuring out democracy. Accounting, Organizations and Society, 16(7), 673–92. SAAVEDRA, L. (2001). Sucesso/Insucesso Escolar. A importância do nível socioeconómico e do género. Psicologia, XV (1), 67-92. SAIAS, F. & FIALHO, I. (2014). Recursos e percursos do Programa Integrado de Educação e Formação (PIEF) – estudos de três casos no Alentejo. Investigar em Educação, II série, 2, 95107. SCAMBOR, E. & SEIDLER, V. (2013). Boys in education in Europe: theoretical reflections and the case of early school leaving. THYMOS: Journal of Boyhood Studies, 7(1), 3-20. SILVA, S. & Fleith, D. (2005). Desempenho escolar e autoconceito de alunos atendidos em serviços psicopedagógicos. Psicologia Escolar e Educacional, 9(2), 235-245. SOUSA SANTOS, B. (2007). Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo Editorial. STACEY, J. & THORNE, B. (1985). The missing feminist revolution in Sociology. Social Problems, 32, 301-316. 240 STAFF, J. & KREAGER, D. A. (2008). Too cool for school? Violence, peer status and high school dropout. Social Forces (University Of North Carolina Press), 87(1), 445-471. doi:10.1353/sof.0.0068 TERRAIL, J-P. (1992). Réussite scolaire: la mobilisation des filles. Sociétés Contemporaines, 1112, 53-89. doi: 10.3406/socco.1992.1081 WEST, C. & ZIMMERMAN, D. (1987). Doing Gender. Gender and Society, 1(2), 125-151. 241 ANEXO I DADOS ESTATÍSTICOS POR CONCELHO E ESCOLA 242 1. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas Os concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Penedono Vimioso Baião Montalegre Tabuaço Lamego Valpaços Vila Flor Miranda do Douro Barcelos % 40,0 22,2 18,6 17,9 16,9 16,2 14,0 13,3 13,3 12,5 Os concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Góis Mealhada Aguiar da Beira Vila Velha de Ródão Almeida Seia Castanheira de Pêra Figueira de Castelo Rodrigo Sabugal São Pedro do Sul % 43,4 28,6 25,3 25,0 17,9 16,8 16,7 16,7 15,9 15,7 243 Os concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Cascais Almada Seixal Lisboa Sesimbra Sintra Barreiro Palmela Montijo Odivelas % 9,7 7,6 5,6 5,0 4,8 4,3 4,3 4,0 3,9 3,2 Os concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Barrancos Monforte Cuba Portel Golegã Mora Arraiolos Chamusca Reguengos de Monsaraz Mértola % 50,0 35,2 30,0 28,1 21,4 20,0 18,8 16,9 16,0 14,7 Os concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Alcoutim Lagos Olhão Lagoa (Faro) Loulé Portimão Faro Albufeira % 14,3 9,1 4,9 4,3 1,7 1,4 1,4 1,2 244 2. Concelhos onde a taxa de retenção das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vila Nova de Foz Côa Tarouca Sernancelhe Santa Marta de Penaguião São João da Pesqueira Melgaço Armamar Vieira do Minho Monção Moimenta da Beira % 18,0 9,4 6,7 5,7 5,3 4,8 4,5 1,6 1,5 1,2 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Idanha-a-Nova Vila de Rei Celorico da Beira Óbidos Pampilhosa da Serra Miranda do Corvo Carregal do Sal Ferreira do Zêzere Condeixa-a-Nova Vila Nova da Barquinha % 26,7 22,9 20,2 14,7 12,5 10,7 10,3 10,0 6,1 5,6 Os 2 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Mafra Oeiras % 4,5 0,2 245 Os 10 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Alter do Chão Crato Alcácer do Sal Alandroal Almeirim Castro Verde Viana do Alentejo Alpiarça Castelo de Vide Azambuja % 47,2 29,2 13,5 10,5 10,3 10,2 8,9 8,3 4,8 4,6 Os 6 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vila do Bispo Monchique Silves Tavira São Brás de Alportel Vila Real de Santo António % 15,9 8,1 4,7 4,2 2,1 0,2 246 3. Escolas onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas As 20 escolas onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Norte Chaves Escola Básica Nadir Afonso, Chaves 61,7 Lisboa Lisboa Escola Básica Luís António Verney, Lisboa 61,5 Norte Porto Escola Secundária Alexandre Herculano, Porto 55,6 Centro Arganil Escola Básica Professor Mendes Ferrão, Coja, Arganil 50,0 Centro Castelo Branco Escola Secundária Amato Lusitano, Castelo Branco 50,0 Lisboa Lisboa Escola Básica Pintor Almada Negreiros, Lisboa 50,0 Lisboa Lisboa Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa 50,0 Alentejo Barrancos Escola Básica de Barrancos 50,0 Lisboa Amadora Escola Secundária Seomara da Costa Primo, Amadora 45,6 Alentejo Cartaxo Escola Básica Marcelino Mesquita, Cartaxo 44,4 Centro Góis Escola Básica de Góis 43,4 Alentejo Santiago do Cacém Escola Básica Prof. Arménio Lança, Santiago do Cacém 42,3 Algarve Alcoutim Escola Básica de Alcoutim 41,7 Centro Mealhada Escola Secundária de Mealhada 41,5 Norte Gondomar Escola Secundária de Valbom, Gondomar 41,2 Centro Castro Daire Escola Básica de Mões, Castro Daire 40,4 Norte Porto Escola Básica de Miragaia, Porto 40,0 Norte Penedono Escola Básica Álvaro Coutinho - o Magriço, Penedono 40,0 Norte Mirandela Escola Básica Luciano Cordeiro, Mirandela 40,0 Centro Almeida Escola Básica e Secundária de Vilar Formoso, Almeida 40,0 247 4. Escolas onde a taxa de retenção das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes As 20 escolas onde a diferença da taxa de retenção no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Norte Alijó Escola Básica do Pinhão, Alijó 50,0 Lisboa Loures Escola Básica de Apelação, Loures 50,0 Alentejo Alter do Chão Escola Básica e Secundária Padre José Agostinho 47,2 Rodrigues, Alter do Chão Centro Miranda do Corvo Escola Básica Professor Doutor Ferrer Correia, Senhor da 37,8 Serra, Miranda do Corvo Centro Ovar Escola Básica de São Vicente de Pereira Jusã, Ovar 33,3 Centro Abrantes Escola Básica e Secundária Dr. Manuel Fernandes, Abrantes 32,5 Centro Mangualde Escola Secundária Dr.ª Felismina Alcântara, Mangualde 31,3 Norte Porto Escola Secundária Infante D. Henrique, Porto 30,0 Alentejo Crato Escola Básica Ana Maria Ferreira Gordo, Crato 29,2 Centro Albergaria-a-Velha Escola Básica de São João de Loure, Albergaria-a-Velha 28,7 Centro Idanha-a-Nova Escola Básica e Secundária José Silvestre Ribeiro, Idanha-a26,7 Nova Lisboa Loures Escola Básica Bartolomeu Dias, Sacavém, Loures 26,1 Lisboa Amadora Escola Básica Sophia de Mello Breyner Andresen, Brandoa, 23,9 Amadora Lisboa Oeiras Escola Básica Sophia de Mello Breyner, Portela, Oeiras 23,3 Centro Vila de Rei Escola Básica e Secundária do Centro de Portugal, Vila de 22,9 Rei Norte Matosinhos Escola Básica de Matosinhos 20,8 Centro Celorico da Beira Escola Básica e Secundária Sacadura Cabral, Celorico da 20,2 Beira Lisboa Loures Escola Secundária de Sacavém, Loures 20,0 Lisboa Odivelas Escola Básica D. Dinis, Odivelas 20,0 Alentejo Reguengos de Escola Secundária Conde de Monsaraz, Reguengos de 20,0 Monsaraz Monsaraz 248 5. Concelhos onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Mogadouro Mirandela Valença Cinfães Fafe Felgueiras Gondomar Esposende Vila Verde Lousada % 3,4 2,9 2,5 1,6 1,3 1,1 0,8 0,7 0,7 0,6 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Tábua Vila Nova da Barquinha Aguiar da Beira Miranda do Corvo Anadia Penacova Mira Abrantes Tomar Oliveira do Hospital % 10,0 6,3 4,8 4,0 3,4 2,5 2,4 2,0 1,6 1,5 249 Os 6 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos % Seixal 0,4 Lisboa 0,4 Odivelas 0,3 Oeiras 0,2 Loures 0,1 Moita 0,1 Os 3 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Sines Ponte de Sor Santarém % 2,6 1,7 0,1 Os 4 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Tavira Olhão Silves Faro % 1,6 0,9 0,5 0,1 250 6. Concelhos onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vila Nova de Cerveira Celorico de Basto Mesão Frio Bragança Peso da Régua Lamego Guimarães Paços de Ferreira Santo Tirso Vila do Conde % 5,3 4,8 4,2 1,6 1,5 1,0 0,5 0,5 0,5 0,3 Os 7 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Arganil São Pedro do Sul Albergaria-a-Velha Tondela Figueira da Foz Marinha Grande Leiria % 2,2 1,6 1,4 1,4 1,2 0,7 0,3 251 Os 7 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Almada Setúbal Vila Franca de Xira Barreiro Palmela Montijo Sintra % 1,2 0,7 0,5 0,5 0,5 0,3 0,2 Os 7 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Nisa Alcácer do Sal Rio Maior Benavente Évora Coruche Beja % 4,2 2,9 1,8 1,3 1,2 1,2 0,9 O concelho (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Albufeira % 0,7 252 7. Escolas onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino básico é superior e se afasta mais da das raparigas As 20 escolas onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Centro Castelo Branco Escola Secundária Amato Lusitano, Castelo Branco 25,0 Centro Tábua Escola Secundária de Tábua 16,7 Centro Vila Nova da Barquinha Escola Básica da Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha 16,7 Norte Matosinhos Escola Secundária da Boa Nova, Leça da Palmeira, 15,4 Matosinhos Lisboa Lisboa Escola Secundária Eça de Queirós, Lisboa 14,3 Centro Miranda do Corvo Escola Básica Professor Doutor Ferrer Correia, Senhor da 13,3 Serra, Miranda do Corvo Centro Lourinhã Escola Básica de Ribamar, Lourinhã 11,1 Algarve Loulé Escola Básica Professor Sebastião José Pires Teixeira, Salir, 10,0 Loulé Algarve Olhão Escola Básica Dr. João Lúcio, Fuseta, Olhão 10,0 Lisboa Loures Escola Básica Bartolomeu Dias, Sacavém, Loures 9,1 Norte Vila Verde Escola Básica de Ribeira do Neiva, Vila Verde 8,3 Lisboa Oeiras Escola Básica João Gonçalves Zarco, Cruz Quebrada8,0 Dafundo, Oeiras Alentejo Chamusca Escola Básica e Secundária da Chamusca 8,0 Norte Vila Nova de Gaia Escola Básica Padre António Luis Moreira, Carvalhos, Vila 7,7 Nova de Gaia Centro Ílhavo Escola Básica de Gafanha da Encarnação, Ílhavo 7,7 Lisboa Setúbal Escola Básica e Secundária Ordem de Sant´Iago, Setúbal 7,7 Lisboa Lisboa Escola Básica Prof. Delfim Santos, Lisboa 7,5 Norte Felgueiras Escola Básica e Secundária de Idães, Felgueiras 7,4 Norte Gondomar Escola Básica de São Pedro da Cova, Gondomar 7,1 Centro Penacova Escola Básica de São Pedro de Alva, Penacova 7,1 253 8. Escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino básico é superior e se afasta mais da dos rapazes As 20 escolas onde a diferença da taxa de abandono no ensino básico é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Centro São Pedro do Sul Escola Básica n.º 2 de São Pedro do Sul 14,3 Lisboa Almada Escola Básica e Secundária Francisco Simões, Laranjeiro, 14,3 Almada Lisboa Amadora Escola Básica e Secundária de Mães D´Água, Falagueira, 13,3 Amadora Norte Celorico de Basto Escola Básica de Gandarela, Celorico de Basto 12,5 Centro Figueira da Foz Escola Básica Infante D. Pedro, Buarcos, Figueira da Foz 11,1 Lisboa Oeiras Escola Básica Sophia de Mello Breyner, Portela, Oeiras 10,0 Alentejo Évora Escola Secundária André de Gouveia, Évora 10,0 Alentejo Santarém Escola Básica D. Manuel I, Pernes, Santarém 9,1 Lisboa Almada Escola Secundária de Monte da Caparica, Almada 8,3 Norte Matosinhos Escola Básica de Custóias, Matosinhos 7,7 Centro Oliveira do Bairro Escola Básica Dr. Fernando Peixinho, Oiã, Oliveira do Bairro 7,7 Lisboa Almada Escola Básica do Miradouro de Alfazina, Monte de Caparica, 6,3 Almada Alentejo Coruche Escola Básica Dr. Armando Lizardo, Coruche 6,3 Norte Vila do Conde Escola Secundária José Régio, Vila do Conde 6,1 Centro Leiria Escola Básica n.º 2 de Marrazes, Leiria 5,9 Lisboa Cascais Escola Básica e Secundária de Alvide, Cascais 5,9 Lisboa Barreiro Escola Secundária de Casquilhos, Barreiro 5,6 Norte Vila Nova de Cerveira Escola Básica e Secundária de Vila Nova de Cerveira 5,3 Centro Ílhavo Escola Básica de Gafanha da Nazaré, Ílhavo 5,3 Norte Bragança Escola Básica e Secundária Miguel Torga, Bragança 5,0 254 9. Concelhos onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Murça Montalegre Cinfães Terras de Bouro Castelo de Paiva Marco de Canaveses Monção Oliveira de Azeméis Ponte de Lima Paços de Ferreira % 46,7 44,4 43,7 38,9 29,4 26,6 23,9 23,1 21,9 21,3 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Tábua Penamacor Miranda do Corvo Ferreira do Zêzere Mortágua Penalva do Castelo Oliveira do Hospital Bombarral Alcanena Figueiró dos Vinhos % 76,9 66,7 49,3 45,1 37,0 35,1 33,0 29,5 28,9 28,3 255 Os 10 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Sesimbra Alcochete Sintra Cascais Montijo Loures Lisboa Vila Franca de Xira Oeiras Barreiro % 14,7 14,2 8,6 6,7 6,5 5,7 4,6 4,6 3,2 3,1 Os 10 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Alter do Chão Chamusca Nisa Viana do Alentejo Sines Azambuja Ponte de Sor Coruche Benavente Montemor-o-Novo % 60,0 40,0 35,0 33,3 29,3 27,6 26,3 25,8 16,4 14,2 Os 8 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Lagos Silves São Brás de Alportel Tavira Loulé Faro Albufeira Portimão % 19,4 19,0 18,2 17,3 10,7 8,8 8,1 2,6 256 10. Concelhos onde a taxa de retenção das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Tarouca Mondim de Basto Vila Flor Alfândega da Fé Vila Nova de Foz Côa Vinhais Vizela São João da Pesqueira Vila Pouca de Aguiar Paredes de Coura % 29,2 25,0 21,7 19,0 18,4 18,3 16,4 13,3 12,7 10,7 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vagos Arganil Idanha-a-Nova Meda Sobral de Monte Agraço Aguiar da Beira Almeida Vouzela Porto de Mós Lourinhã % 45,5 33,1 30,0 28,6 28,3 16,7 15,7 14,3 12,3 12,0 257 Os 7 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Moita Setúbal Mafra Seixal Palmela Odivelas Amadora % 8,5 5,0 4,9 3,1 2,5 2,2 0,8 Os 10 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Ourique Arraiolos Ferreira do Alentejo Campo Maior Grândola Redondo Elvas Aljustrel Alcácer do Sal Moura % 55,6 35,7 25,0 24,2 22,1 16,7 11,8 8,7 8,6 4,8 Os 3 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Lagoa (Faro) Vila Real de Santo António Olhão % 38,9 8,1 5,3 258 11. Escolas onde a taxa de retenção dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas As 20 escolas onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Centro Tábua Escola Secundária de Tábua 76,9 Norte Montalegre Escola Básica e Secundária do Baixo Barroso, Venda Nova, 66,7 Montalegre Centro Penamacor Escola Básica e Secundária Ribeiro Sanches, Penamacor 66,7 Alentejo Alter do Chão Escola Básica e Secundária Padre José Agostinho 60,0 Rodrigues, Alter do Chão Centro Miranda do Corvo Escola Básica e Secundária José Falcão, Miranda do Corvo 49,3 Norte Marco de Canaveses Escola Secundária de Alpendurada, Marco de Canaveses 48,8 Norte Murça Escola Básica e Secundária de Murça 46,7 Centro Ferreira do Zêzere Escola Básica e Secundária Pedro Ferreiro, Ferreira do 45,1 Zêzere Norte Cinfães Escola Secundária Professor Doutor Flávio F. Pinto Resende, 43,7 Cinfães Alentejo Chamusca Escola Básica e Secundária da Chamusca 40,0 Norte Guimarães Escola Secundária de Caldas das Taipas, Guimarães 37,2 Lisboa Cascais Escola Básica e Secundária Frei Gonçalo de Azevedo, São 37,1 Domingos de Rana, Cascais Centro Mortágua Escola Secundária Dr. João Lopes de Morais, Mortágua 37,0 Centro Penalva do Castelo Escola Básica e Secundária de Penalva do Castelo 35,1 Alentejo Nisa Escola Básica e Secundária Prof. Mendes dos Remédios, 35,0 Nisa Norte Terras de Bouro Escola Básica e Secundária de Terras de Bouro 33,3 Norte Porto Escola Básica e Secundária Fontes Pereira de Melo, Porto 33,3 Norte Montalegre Escola Básica e Secundária Dr. Bento da Cruz, Montalegre 33,3 Alentejo Viana do Alentejo Escola Básica e Secundária Dr. Isidoro de Sousa, Viana do 33,3 Alentejo Centro Oliveira do Hospital Escola Secundária de Oliveira do Hospital 33,0 259 12. Escolas onde a taxa de retenção das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes As 20 escolas onde a diferença da taxa de retenção no ensino secundário é mais desfavorável para os raparigas (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Alentejo Ourique Escola Básica e Secundária de Ourique, Ourique 55,6 Centro Alcobaça Escola Básica e Secundária D. Pedro I, Alcobaça 50,0 Centro Vagos Escola Secundária de Vagos 45,5 Algarve Lagoa (Faro) Escola Secundária Padre António Martins de Oliveira, Lagoa 38,9 Lisboa Oeiras Escola Básica e Secundária Aquilino Ribeiro, Leião, Oeiras 37,5 Alentejo Arraiolos Escola Básica e Secundária Cunha Rivara, Arraiolos 35,7 Lisboa Barreiro Escola Básica e Secundária de Santo António, Barreiro 33,3 Centro Arganil Escola Secundária de Arganil 33,1 Norte Viana do Castelo Escola Básica e Secundária de Monte da Ola, Viana do 31,8 Castelo Lisboa Lisboa Escola Básica e Secundária Passos Manuel, Lisboa 30,8 Centro Idanha-a-Nova Escola Básica e Secundária José Silvestre Ribeiro, Idanha-a30,0 Nova Norte Tarouca Escola Básica e Secundária Dr. José Leite de Vasconcelos, 29,2 Tarouca Centro Meda Escola Básica e Secundária de Meda 28,6 Centro Sobral de Monte Escola Básica e Secundária Joaquim Inácio da Cruz Sobral, 28,3 Agraço Sobral de Monte Agraço Lisboa Lisboa Escola Secundária D. Pedro V, Lisboa 28,2 Centro Caldas da Rainha Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro, Caldas da 26,0 Rainha Centro Porto de Mós Escola Básica e Secundária de Mira de Aire, Porto de Mós 25,0 Centro Almeida Escola Básica e Secundária Dr. José Casimiro Matias, 25,0 Almeida Lisboa Cascais Escola Básica e Secundária de Alvide, Cascais 25,0 Alentejo Ferreira do Alentejo Escola Básica e Secundária José Gomes Ferreira, Ferreira 25,0 do Alentejo 260 13. Concelhos onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vila Flor Amares Melgaço Bragança Baião Paços de Ferreira Vila Nova de Famalicão Póvoa de Varzim Braga Porto % 12,3 6,1 5,9 5,4 2,8 2,4 1,4 0,6 0,3 0,2 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Aguiar da Beira Sobral de Monte Agraço Sátão Santa Comba Dão Lousã Mangualde Mação Pombal Águeda Ourém % 25,0 8,3 7,1 4,0 3,7 3,0 2,5 2,2 2,1 2,0 261 Os 6 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Mafra Odivelas Almada Moita Cascais Seixal % 1,6 0,9 0,6 0,4 0,3 0,1 Os 3 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Benavente Cartaxo Portalegre % 3,0 2,3 1,5 Os 2 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Vila Real de Santo António Faro % 6,9 1,2 262 14. Concelhos onde a taxa de abandono das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes Os 10 concelhos (NUT II - Norte) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Alijó Mogadouro Vila Pouca de Aguiar Miranda do Douro Moimenta da Beira Maia Cinfães Esposende Castelo de Paiva Amarante % 10,5 4,5 4,5 4,2 3,4 3,1 2,6 2,2 2,1 2,1 Os 10 concelhos (NUT II - Centro) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Cadaval Idanha-a-Nova Almeida Batalha Anadia Tomar Torres Novas Leiria Torres Vedras Aveiro % 14,3 8,3 7,1 3,6 2,2 0,9 0,9 0,6 0,4 0,3 Os 6 concelhos (NUT II - Lisboa) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Palmela Sesimbra % 2,5 1,2 263 Setúbal Barreiro Vila Franca de Xira Sintra 1,1 0,4 0,4 0,2 Os 9 concelhos (NUT II - Alentejo) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Campo Maior Odemira Vendas Novas Montemor-o-Novo Serpa Almeirim Estremoz Santarém Évora % 7,7 4,5 3,6 3,3 2,1 1,9 1,8 1,3 0,5 Os 5 concelhos (NUT II - Algarve) onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) Concelhos Silves Tavira Olhão Lagos Loulé % 4,4 3,5 1,3 1,2 0,3 264 15. Escolas onde a taxa de abandono dos rapazes no ensino secundário é superior e se afasta mais da das raparigas As 20 escolas onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para os rapazes (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Centro Aguiar da Beira Escola Básica e Secundária Padre José Augusto da Fonseca, 25,0 Aguiar da Beira Norte Vila Flor Escola Básica e Secundária de Vila Flor 12,3 Centro Leiria Escola Básica e Secundária Henrique Sommer, Maceira, 11,1 Leiria Lisboa Lisboa Escola Secundária Eça de Queirós, Lisboa 10,0 Norte Bragança Escola Secundária Emídio Garcia, Bragança 8,7 Centro Sobral de Monte Escola Básica e Secundária Joaquim Inácio da Cruz Sobral, 8,3 Agraço Sobral de Monte Agraço Lisboa Lisboa Escola Básica e Secundária Gil Vicente, Lisboa 7,7 Centro Sátão Escola Secundária Frei Rosa Viterbo, Sátão 7,1 Algarve Vila Real de Santo Escola Secundária de Vila Real de Santo António 6,9 António Centro Águeda Escola Secundária Marques de Castilho, Águeda 6,7 Norte Amares Escola Secundária de Amares 6,1 Norte Melgaço Escola Básica e Secundária de Melgaço 5,9 Alentejo Portalegre Escola Secundária Mouzinho da Silveira, Portalegre 5,9 Lisboa Amadora Escola Básica e Secundária de Mães D´Água, Falagueira, 5,3 Amadora Norte Vila Nova de Gaia Escola Secundária António Sérgio, Vila Nova de Gaia 5,0 Norte Vila Nova de Famalicão Escola Secundária Padre Benjamim Salgado, Vila Nova de 4,7 Famalicão Norte Bragança Escola Básica e Secundária Miguel Torga, Bragança 4,5 Centro Santa Comba Dão Escola Secundária de Santa Comba Dão 4,0 Centro Lousã Escola Secundária de Lousã 3,7 Lisboa Oeiras Escola Secundária Luís de Freitas Branco, Paço de Arcos, 3,7 Oeiras 265 16. Escolas onde a taxa de abandono das raparigas no ensino secundário é superior e se afasta mais da dos rapazes As 20 escolas onde a diferença da taxa de abandono no ensino secundário é mais desfavorável para as raparigas (2009/10) (Diferença na taxa de retenção entre rapazes e raparigas) NUT II Concelho Escolas % Centro Cadaval Escola Básica e Secundária do Cadaval 14,3 Lisboa Amadora Escola Secundária Seomara da Costa Primo, Amadora 11,8 Norte Alijó Escola Básica e Secundária D. Sancho II, Alijó 10,5 Centro Almeida Escola Básica e Secundária de Vilar Formoso, Almeida 10,0 Centro Idanha-a-Nova Escola Básica e Secundária José Silvestre Ribeiro, Idanha-a8,3 Nova Alentejo Campo Maior Escola Secundária de Campo Maior 7,7 Lisboa Setúbal Escola Básica e Secundária Lima de Freitas, Setúbal 7,1 Lisboa Oeiras Escola Secundária Camilo Castelo Branco, Carnaxide, Oeiras 6,7 Lisboa Lisboa Escola Secundária do Lumiar, Lisboa 6,3 Norte Gondomar Escola Secundária de Valbom, Gondomar 4,8 Norte Mogadouro Escola Básica e Secundária do Mogadouro 4,5 Norte Vila Pouca de Aguiar Escola Básica e Secundária de Vila Pouca de Aguiar - Sul 4,5 Alentejo Odemira Escola Secundária Dr. Manuel Candeias Gonçalves, Odemira 4,5 Algarve Silves Escola Secundária de Silves 4,4 Norte Maia Escola Secundária do Castêlo da Maia, Maia 4,3 Norte Miranda do Douro Escola Básica e Secundária de Miranda do Douro 4,2 Algarve Faro Escola Secundária Tomás Cabreira, Faro 4,2 Norte Lamego Escola Básica e Secundária da Sé, Lamego 3,7 Norte Valongo Escola Básica e Secundária de Ermesinde, Valongo 3,7 Alentejo Vendas Novas Escola Secundária de Vendas Novas 3,6 266 ANEXO II INSTRUMENTOS DE RECOLHA DE DADOS 267 1. Questionário a docentes QUESTIONÁRIO A DOCENTES Apresentação O presente questionário inclui-se no estudo “Insucesso e Abandono Escolar Numa Perspetiva de Género” que se encontra a ser promovido no ensino básico e secundário pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa com financiamento do Programa de Assistência Técnica do Fundo Social Europeu. O estudo tem por principal objetivo estudar e aprofundar o conhecimento relativo às desigualdades de género no desempenho escolar e explorar os diferentes contextos e motivos que podem contribuir para esta realidade. Não existem em Portugal estudos que aprofundem o conhecimento desta problemática o que reforça a importância e interesse do trabalho em curso. Mais especificamente, o presente questionário procura compreender as representações dos docentes sobre o insucesso e o abandono escolar de raparigas e rapazes ao nível do ensino básico e secundário. Nessa medida, a sua colaboração é muito valiosa e imprescindível. Deste modo, espera-se contribuir para a produção de conhecimento e para o aperfeiçoamento das políticas, estratégias e práticas educativas. Os dados recolhidos por este questionário apenas se destinam a ser utilizados no âmbito da referida investigação e o anonimato dos respondentes é inteiramente garantido. Caracterização do inquirido Sexo Data de nascimento Localização da escola (cidade/vila) Níveis de ensino ministrados neste ano letivo Disciplinas lecionadas neste ano letivo 268 Número de anos de serviço Em que medida concorda com as seguintes afirmações? (utilizar escala de 1 a 4, sendo 1 não concordo nada e 4 concordo muito) O insucesso escolar é um dos principais problemas do sistema de ensino em Portugal O abandono escolar é um dos principais problemas do sistema de ensino em Portugal É normal esperar que rapazes e raparigas atinjam o mesmo nível de resultados escolares O insucesso escolar afeta rapazes e raparigas da mesma forma O abandono escolar precoce afeta rapazes e raparigas da mesma forma Qual destas realidades retrata melhor o que se passa na sua escola? (assinale as opções que se aplicam à sua realidade) Na minha escola o abandono escolar afeta mais os rapazes Na minha escola o abandono escolar afeta mais as raparigas Na minha escola o insucesso escolar afeta mais os rapazes Na minha escola o insucesso escolar afeta mais as raparigas Na minha escola não existe significativa diferença entre rapazes e raparigas ao nível do insucesso e do abandono Em que medida concorda que o insucesso e o abandono escolar precoce podem ser explicados pelos seguintes fatores? (utilizar escala de 1 a 4, sendo 1 não concordo nada e 4 concordo muito) A origem étnica dos alunos (por exemplo, alunos de etnia cigana, de origem africana, etc.) Os baixos rendimento e as situações de carência económica das famílias 269 Os contextos de socialização que promovem condutas transgressoras e de rejeição da escola (como os grupos de amigos) A indisciplina na sala de aula Insuficiente adequação dos programas As abordagens pedagógicas e didáticas serem pouco apelativas A reduzida valorização pelas famílias da escola e dos resultados escolares A reduzida valorização pelo mercado de trabalho da certificação escolar A reduzida valorização pelo mercado de trabalho das qualificações profissionais obtidas na escola A desvalorização social da escola As reduzidas qualificações académicas dos pais O absentismo dos alunos A dificuldade dos alunos em encontrarem um sentido para o trabalho escolar A ausência de valores por parte dos alunos Insuficiente consolidação, por parte do aluno, dos conteúdos curriculares Outra. Qual? Na sua opinião, em que âmbito se produzem os principais fatores que influenciam a diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas? Classifique as alternativas apresentadas em função da importância que lhes atribui. (utilizar escala de 1 a 4, sendo 1 não concordo nada e 4 concordo muito) No contexto escolar em resultado da organização e das normas escola No contexto familiar em resultado de fatores sociais e culturais 270 No contexto familiar em resultado de fatores económicos No plano individual em resultado da diferença de atributos e de motivações entre rapazes e raparigas Ao nível da sala de aula em resultado das estratégias de relacionamento e pedagógicas/didáticos dos professores No contexto social em resultado de um quadro mais vasto de descriminações de género que aí se produzem Os dados mostram que em média mas com significativas diferenças entre escolas (são várias as escolas em que a situação é inversa), o desempenho escolar das raparigas é melhor que o dos rapazes. Em que medida concorda que os seguintes aspetos podem ter influência na determinação da diferença de desempenho escolar entre rapazes e raparigas? utilizar escala de 1 a 4, sendo 1 nada e 4 muito) A educação familiar contribui para valores e expetativas diferentes entre rapazes e raparigas A educação dada pelos pais pressiona mais as raparigas que os rapazes para obterem bons resultados escolares As necessidades económicas da família pressionam mais os rapazes para uma entrada precoce no mercado de trabalho A reprodução no contexto escolar de perceções sociais quanto ao papel dos homens na sociedade favorece as raparigas Ao valorizar bastante as competências de leitura e escrita a escola coloca os rapazes em desvantagem em relação às raparigas A diferença de motivação individual para a aprendizagem entre raparigas e rapazes As estratégias de ensino-aprendizagem e as práticas pedagógicas favorecem as características e preferências das raparigas 271 O funcionamento da escola e o espaço da sala de aula reproduzem modelos autoritários de gestão e liderança que suscitam maior rejeição aos rapazes O funcionamento da escola e o espaço da sala de aula reproduzem modelos de aprendizagem que são menos atrativos para os rapazes As representações dos professores relativamente ao desempenho escolar dos alunos contribuem para a reprodução de um padrão de maior insucesso e abandono escolar dos rapazes Os modelos de socialização induzem comportamentos mais transgressores por parte dos rapazes e contribuem para gerar uma menor identificação destes com a instituição escola A reprodução pelos professores de estereótipos de género, no que se refere ao comportamento e desempenho escolar dos alunos, contribui para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes A reduzida preparação dos professores para lidar com a diferença de género no espaço da sala de aula contribui para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes Os currículos e programas dos diferentes cursos e níveis de ensino, pelos conteúdos que privilegiam, contribuem para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes O facto de uma grande parte dos professores ser do sexo feminino contribui para um maior insucesso e abandono escolar dos rapazes As estratégias de avaliação não se ajustam de igual modo a aferir as aprendizagens e competências desenvolvidas por rapazes e raparigas Utilizando uma escala de importância apresentada, como avalia a relevância de desenvolver as competências dos professores nos seguintes domínios tendo em conta o objetivo de reduzir a taxa de insucesso e abandono escolar e as diferenças de resultados entre rapazes e raparigas. (utilizar escala de 1 a 4, sendo 1 nada e 4 muito) Ao nível das estratégias de liderança e comunicação na sala de aula Ao nível das estratégias pedagógicas e didáticas 272 Ao nível da capacidade de não reproduzir e desconstruir estereótipos de género associados ao comportamento e desempenho dos alunos Na gestão da indisciplina quando, por exemplo, tendem a criticar e punir comportamentos mais insubmissos Na capacidade para desenvolver estratégias de reforço da confiança e autoestima dos alunos No desenvolvimento de um projeto educativo que promova uma cultura de igualdade de género na escola Na adoção de medidas para a redução das taxas de abandono e insucesso escolar, considerando para efeito as questões de género Janeiro de 2015 273 2. Guião de entrevista a diretores de escola GUIÃO DE ENTREVISTA A DIRETORES DE ESCOLA Objetivo geral: Compreender as representações dos docentes sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes, no ensino básico e secundário Legitimação da entrevista • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação dos entrevistadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato do participante e da escola, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso o entrevistado os solicite Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Domínios Questões Observações Estruturantes • Insucesso escolar • • Insucesso género escolar e • Como caracteriza os alunos que habitualmente têm insucesso escolar no ensino básico e secundário, tendo por referência esta escola? Dê exemplos de alunos tipo nesta situação. Quais os factores que estão na base do insucesso escolar? Há indícios que podem ajudar a identificar situações de risco de insucesso escolar? Quais são esses indícios? Pode dar exemplos concretos. • Quem são estes alunos? • Porquê este alunos? Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de insucesso e abandono escolar entre os rapazes por comparação 274 • • • • • Abandono escolar com as raparigas. Têm essa experiência na sua prática profissional? Nesta escola a taxa de insucesso é maior entre os rapazes do que entre as raparigas? Por que é que os rapazes têm uma taxa de insucesso escolar maior do que as raparigas? Considera a elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes um problema? Porquê? Acha que os professores estão conscientes desta situação? Falam disso? (Solicitar relação com género, etnia, contexto socioeconómico) • Como caracteriza os alunos que abandonam a escola no ensino básico e secundário, tendo por referência esta instituição? • Quais os factores que estão na base do abandono escolar? • Há indícios que podem ajudar a identificar situações de risco de insucesso escolar? Quais são esses indícios? Pode dar exemplos concretos. • Há alunos com insucesso que não abandonam a escola e outros que o fazem. A que se deve esta situação? Abandono escolar e o Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em género muitos outros países, revelam uma maior taxa de abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. • • • • Têm essa experiência na sua prática profissional? Nesta escola a taxa de abandono escolar é maior entre os rapazes do que entre as raparigas? Por que é que os rapazes têm uma taxa de abandono escolar maior do que as raparigas? Considera a elevada taxa de abandono escolar entre os rapazes um problema? 275 • Factores individuais, • relação com o saber e com a escola • • • • • Contexto Familiar • • Contexto Escolar • Porquê? Acha que os professores estão conscientes desta situação? Isso é falado entre os professores? Acha que há factores individuais que podem justificar um pior rendimento escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Quais os comportamentos e atitudes dos alunos com insucesso escolar face à escola? O que significa a escola para estes alunos? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com o saber académico? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com os professores? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com os colegas? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Como acha que é a “percepção de si” neste alunos? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Nota: Colocar as mesmas questões para o abandono escolar Há factores no contexto familiar que podem justificar um pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Esses factores estão presentes em todos os contextos familiares? Em que tipo de contexto familiar essas situações podem ocorrer mais frequentemente? Porquê? A escola funciona como um dos poucos espaços sociais onde os rapazes parecem estar em desvantagem por comparação às raparigas. Há factores no Feminização do corpo docente, representações sociais sobre o 276 • • • • Medidas preventivas e • compensatórias • • • • • contexto escolar que podem justificar mais insucesso escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Acha que a forma como a escola está organizada pode colocar os rapazes em desvantagem quanto aos resultados escolares? Como se coloca a questão do insucesso escolar dos rapazes nesta escola? Que factores contribuem para esta situação? Considera a elevada taxa de insucesso entre os rapazes por comparação com as raparigas um problema? Porquê? papel do homem e da mulher na sociedade, regras da escola, compensação do esforço e do mérito Nota: Colocar as mesmas questões relativamente ao abandono escolar O que pensa das medidas políticas para resolver o problema do insucesso e abandono escolar? Quais os resultados destas medidas? Identifique fragilidades e pontos fortes dessas medidas. Acha que essas medidas permitem reduzir o insucesso e o abandono escolar entre os rapazes? Parece-lhe pertinente pensar-se em medidas que permitam promover o sucesso escolar entre os rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de reduzir o insucesso escolar dos rapazes? (na escola, na família) Parece-lhe pertinente pensar-se em medidas que permitam reduzir o abandono escolar dos rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de se reduzir o abandono escolar entre os rapazes? (na escola, na família) 277 3. Guião de entrevista a docentes GUIÃO DE ENTREVISTA A DOCENTES Objetivo geral: Compreender as representações dos docentes sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes e raparigas, no ensino básico e secundário Legitimação da entrevista • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação dos entrevistadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato do participante e da escola, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso o entrevistado os solicite Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Domínios Questões Observações Estruturantes • Insucesso escolar • • Insucesso género escolar e • Como caracteriza os alunos que habitualmente têm insucesso escolar no ensino básico e secundário, tendo por referência a sua experiência como docente? Dê exemplos de alunos tipo nesta situação. Quais os factores que estão na base do insucesso escolar? Há indícios que podem ajudar a identificar situações de risco de insucesso escolar? Quais são esses indícios? Pode dar exemplos. • Quem são estes alunos? • Porquê este alunos? Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de insucesso e abandono escolar entre os rapazes por comparação 278 • • • • • • Abandono escolar • • • Abandono escolar e • género • • • • • com as raparigas. Têm essa experiência na sua prática profissional? Nesta escola a taxa de insucesso é maior entre os rapazes? Por que é que os rapazes têm uma taxa de insucesso escolar maior do que as raparigas? Considera a elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes um problema? Porquê? Acha que os professores estão conscientes desta situação? Isso é falado entre vós? Como caracteriza os alunos que abandonam a escola no ensino básico e secundário, tendo por referência esta instituição? Quais os factores que estão na base do abandono escolar? Há indícios que podem ajudar a identificar situações de risco de insucesso escolar? Quais são esses indícios? Pode dar exemplos concretos. Há alunos com insucesso que não abandonam a escola e outros que o fazem. A que se deve esta situação? (Solicitar relação com género, etnia, contexto socioeconómico) Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. Têm essa experiência na sua prática profissional? Nesta escola a taxa de abandono escolar é maior entre os rapazes? Por que é que os rapazes têm uma taxa de abandono escolar maior do que as raparigas? Considera a elevada taxa de abandono escolar entre os rapazes um problema? Porquê? Acha que os professores estão conscientes desta situação? Isso é falado entre vós? 279 Factores individuais, • relação com o saber e com a escola • • • • • Contexto Familiar • • Contexto Escolar • • Acha que há factores individuais que podem justificar um pior rendimento escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Quais os comportamentos e atitudes dos alunos com insucesso escolar face à escola? O que significa a escola para estes alunos? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com o saber académico? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com os professores? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Que relação têm estes alunos com os colegas? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Como acha que é a “percepção de si” neste alunos? Regista-se uma diferença entre rapazes e raparigas neste domínio? De que modo? Nota: Colocar as mesmas questões para o abandono escolar Há factores no contexto familiar que podem justificar um pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Em que tipo de contexto familiar essas situações podem ocorrer mais frequentemente? Porquê? A escola funciona como um dos poucos espaços sociais onde os rapazes parecem estar em desvantagem por comparação às raparigas. Há factores no contexto escolar que podem justificar o pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Acha que a forma como a escola está organizada pode colocar os rapazes em Feminização do corpo docente, representações sociais sobre o papel do homem e da mulher na 280 desvantagem quanto aos resultados escolares? sociedade, regras da escola … Medidas preventivas e • compensatórias • • • • • O que pensa das medidas políticas para resolver o problema do insucesso e abandono escolar? Quais os resultados destas medidas? Identifique fragilidades e pontos fortes dessas medidas. Acha que essas medidas permitem reduzir o insucesso e o abandono escolar entre os rapazes? Parece-lhe pertinente pensar-se em medidas que permitam promover o sucesso escolar entre os rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de reduzir o insucesso escolar dos rapazes? (na escola, na família) Parece-lhe pertinente pensar-se em medidas que permitam reduzir o abandono escolar dos rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de se reduzir o abandono escolar entre os rapazes? (na escola, na família) 281 4. Guião de entrevista a auxiliares de ação educativa GUIÃO DE ENTREVISTA A AUXILIARES DE AÇÃO EDUCATIVA Objetivo geral: Compreender as representações de Auxiliares de Acção Educativa sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes, no ensino básico e secundário Legitimação da entrevista • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação dos entrevistadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato do participante e da escola, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso o entrevistado os solicite Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Domínios Questões Observações Estruturantes Escolar • • O que provoca o insucesso escolar? Quais são os alunos que têm insucesso escolar? Porquê? Insucesso • A taxa de reprovações é maior entre os rapazes do que entre as raparigas. Já se tinha apercebido? O que poderá justificar esta situação? Isso é um problema? Os rapazes gostam menos da escola do que as raparigas? Porquê? Os rapazes estudam menos do que as raparigas? Porquê? Os rapazes têm mais problemas de indisciplina na escola do que as raparigas? Porquê? Insucesso Escolar e Género • • • Abandono • • O que provoca o abandono escolar? Quais são os alunos que abandonam a escola? 282 Porquê? Escolar • Os rapazes saem mais cedo da escola do que as raparigas, o que poderá justificar esta situação? Factores • Individuais • Os rapazes gostam menos de estudar do que as raparigas? Porquê? Acha que os rapazes gostam menos de ler e escrever do que as raparigas? Porquê? Contexto • Acha que o contexto familiar influencia os resultados escolares? De que modo? • Acha que as raparigas são mais incentivadas a estudar do que os rapazes no contexto familiar? Porquê? Abandono Escolar e Género Familiar • Na escola os rapazes estão em desvantagem relativamente às raparigas? Porquê? • A escola ao incidir muito na leitura e escrita coloca os rapazes em desvantagem? • As regras impostas na escola penalizam os rapazes? Porquê? • O facto da escola ser um ambiente sobretudo feminino penaliza os rapazes? Porquê? Contexto Escolar Medidas Preventivas e Compensatórias Solicitar exemplos • O que acha das medidas que visam resolver o problema do insucesso e abandono escolar? • Achas que essas medidas permitem minimizar o insucesso e o abandono entre os rapazes? • Que medidas poderiam ser adoptadas na escola para reduzir o insucesso escolar e o abandono dos rapazes? E na família? 283 5. Guião de entrevista biográfica - estudantes com histórico de insucesso escolar GUIÃO DE ENTREVISTA BIOGRÁFICA – ESTUDANTES COM HISTÓRICO DE INSUCESSO ESCOLAR Objetivo geral: Compreender o percurso escolar e as representações de estudantes com histórico de insucesso escolar, no ensino básico e secundário Legitimação da entrevista • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação dos entrevistadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato do participante e da escola, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso o entrevistado os solicite Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Domínios Questões Observações Estruturantes Percurso Escolar • • • • • • Gostaríamos que nos falasses sobre o teu percurso escolar desde que entraste até agora. Em que momentos sentiste dificuldades? Que tipo de dificuldade? Como tentaste resolver a situação? Dá exemplos. Tiveste ajudas para superar essas dificuldades? Dá exemplos. Como tem sido a tua relação com os professores? Dá exemplos. Como tem sido a tua relação com os colegas? Dá exemplos. Como caracterizas a relação da tua família com o teu percurso escolar? - fases importantes - dificuldades, problemas, motivos - dos professores, dos colegas, da família 284 (se apoia nos trabalhos de casa, se vai a reuniões, se fala sobre o percurso escolar no dia a dia) Insucesso e Abandono • Escolar e Género • • • • • Relação com a escola • e com o saber • Factores Individuais • • • • Contexto Familiar e • social • • • Em que anos reprovaste? Reprovaste porquê? Sentiste dificuldades? Que tipo de dificuldades? Lembraste do que sentiste nesses momentos? Sabes que normalmente os rapazes reprovam mais do que as raparigas? O que achas dessa situação? Porque achas que isso acontece? Entre os teus colegas, o que achas que existe de diferente e semelhante entre rapazes e raparigas? O que aconselharias a outros rapazes em risco de reprovação? Já pensaste sair da escola? Porquê? O que te levou a ficar? Conheces meninos que saíram da escola antes de completarem a escolaridade obrigatória? Sabes porque razões saíram? - falta de estudo, problemas com professores, dificuldades em acompanhar o ritmo, dificuldade em respeitar as regras da escola, … A escola é importante O que achas da escola? O que na tua vida? Porquê? significa a escola na tua vida? O que aprendes na escola é importante para a tua vida? Porquê? Como gostavas que fosse a escola? Como gostavas que fosse a tua vida? O que gostarias de fazer a nível profissional? Gostas de aprender coisas novas? Porquê? As pessoas importantes na tua vida, o que achas que esperam de ti? O que significa para ti ser rapaz/homem? Qual é o papel dos homens na sociedade? E das mulheres? Tens colegas que têm a vida facilitada na escola? Quem são esses colegas? Por que é que tem a 285 vida facilitada na escola? Medidas Preventivas e Compensatórias para insucesso e abandono escolar dos rapazes • Achas que as medidas existentes nas escolas permitem reduzir o insucesso e abandono escolar? Achas que reduzem o insucesso e abandono escolar dos rapazes? • Pensas que é importante tomar medidas para evitar o insucesso escolar dos rapazes? Porquê? • Que medidas tomarias se fosses director da escola? Que medidas tomarias se fosses professor? Que medidas tomarias se fosses pai de meninos? • Pensas que é importante tomar medidas para evitar o abandono escolar dos rapazes? Porquê? • Que medidas tomarias se fosses director da escola? Que medidas tomarias se fosses professor? Que medidas tomarias se fosses pai de meninos? • Currículos alternativos, CEF´s, etc. 286 6. Guião de entrevista a encarregados de educação GUIÃO DE ENTREVISTA A ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO Objetivo geral: Compreender as representações dos pais/encarregados de educação sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes, no ensino básico e secundário Legitimação da entrevista • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação dos entrevistadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato do participante e da escola, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso o entrevistado os solicite Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Domínios Questões Observações Estruturantes Percurso Escolar • • • • Insucesso Escolar e Género Gostaríamos que nos falasse do percurso escolar do seu filho. O que tem acontecido na escola ao longo do seu percurso? Na sua opinião, quais razões que justificam as reprovações que o seu filho teve ao longo do percurso escolar? Tem apoiado o seu filho ao longo do percurso escolar? Que tipo de apoio? • Nota-se que a taxa de reprovações é maior entre os rapazes do que entre as raparigas, o que poderá justificar esta situação? • Os rapazes gostam menos da escola do que as raparigas? Porquê? • Os rapazes estudam menos do que as raparigas? Porquê? • Os rapazes têm mais problemas de - fases importantes - dificuldades, problemas, motivos - dos professores, dos colegas, da família - falta de estudo, problemas com professores, dificuldades em acompanhar o ritmo, dificuldade e respeitar as regras da escola, … 287 indisciplina na escola do que as raparigas? Porquê? a • escola e com o • Relação com saber académico Factores • Individuais • • Factores Familiares • • • • • • Contexto Escolar O que é que o seu filho acha da escola? O A escola é importante na tua que significa a escola na sua vida? Acha que ele atribui valor ao que aprende vida? Porquê? na escola? Porquê? O seu filho estuda? Em que momentos estuda? Onde estuda? Tem dificuldades em acompanhar a matéria? Quais são os projectos do seu filho? Acha que o seu filho podia ter outro tipo de resultados na escola? Por é que isso não acontece? Na sua opinião qual é o papel da escola? Qual a importância da escola? O que gostaria que o seu filho fizesse no futuro? A escola é importante para a concretização desse projecto? Incentiva o seu filho a estudar? Porquê? Usou alguma estratégia para evitar a reprovação do seu filho? Porquê? Que ideia da escola procura transmitir ao seu filho? • Quais são os problemas da escola? • O que acha do insucesso escolar? Quais os seus principais motivos? • Os dados estatísticos mostram-nos que os rapazes têm mais insucesso escolar do que as raparigas. A que se ficará a dever esta situação? • Acha que os rapazes na escola estão em desvantagem em relação às raparigas? Porquê? • Há alunos que têm a vida dificultada na escola? Quem são esses alunos? Porquê? • O que acha do abandono escolar? Quais os seus principais motivos? • Os dados estatísticos mostram-nos que os 288 rapazes abandonam a escola mais cedo do que as raparigas. A que se ficará a dever esta situação? Medidas Preventivas e Compensatórias para insucesso e abandono escolar dos rapazes • Considera que as medidas orientadas para o problema do insucesso e abandono escolar existentes nas escolas funcionam? Porquê? • É importante tomar medidas para evitar o insucesso escolar dos rapazes? Porquê? Que medidas tomaria se fosse director da escola? Que medidas tomaria se fosse professor? • Como é que os pais podem contribuir para a prevenção do insucesso escolar? • É importante tomar medidas para evitar o abandono escolar dos rapazes? Porquê? Que medidas tomaria se fosse director da escola? Que medidas tomaria se fosse professor? • Como é que os pais podem contribuir para a prevenção do abandono escolar? 289 7. Roteiro para focus group a docentes e a auxiliares de ação educativa ROTEIRO DE FOCUS GROUP A DOCENTES E A AUXILIARES DE AÇÃO EDUCATIVA Objetivo geral: Compreender as representações dos docentes sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes e raparigas, no ensino básico e secundário • • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação da equipa de investigadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato, através da identificação de nomes fictícios, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso os participantes solicitem Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Apresentar os domínios estruturantes para a reflexão 1.INSUCESSO ESCOLAR • Como caracterizam os alunos que, habitualmente, têm insucesso escolar no ensino básico e secundário? • Quais os factores que estão na base do insucesso escolar? 2. INSUCESSO ESCOLAR E GÉNERO Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de insucesso e abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. • Nesta escola a taxa de insucesso é maior entre os rapazes? Como explicam esta situação? • Consideram a elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes um problema? Porquê? 290 • A elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes é motivo de preocupação para os professores? Porquê? 3. ABANDONO ESCOLAR • Como caracterizam os alunos que abandonam a escola no ensino básico e secundário? • Quais os factores que estão na base do abandono escolar? 4. ABANDONO ESCOLAR E GÉNERO Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. • Ao longo da vossa experiência profissional têm vindo a obervar essa • Nesta escola a taxa de abandono é maior entre os rapazes? Como explicam esta situação? • Consideram a elevada taxa de abandono escolar entre os rapazes um problema? Porquê? • A elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes é motivo de preocupação para os professores? Porquê? 5. FACTORES INDIVIDUAIS, RELAÇÃO COM O SABER E COM A ESCOLA • Há factores individuais que podem justificar um pior rendimento escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? (comportamentos e atitudes dos alunos, relação com o saber, relação com os professores, relação com os colegas, “percepção de si”) 6. CONTEXTO FAMILIAR • Há factores no contexto familiar que podem justificar um pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Em que tipo de contexto familiar essas situações podem ocorrer mais frequentemente? Porquê? 291 7. CONTEXTO ESCOLAR • • Há factores no contexto escolar que podem justificar o pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Acham que a forma como a escola está organizada pode colocar os rapazes em desvantagem quanto aos resultados escolares? Porquê? 8. MEDIDAS PREVENTIVAS E COMPENSATÓRIAS • • • • • • O que pensam das medidas políticas para resolver o problema do insucesso e abandono escolar? Quais os resultados destas medidas? Quais as fragilidades e pontos fortes dessas medidas? Essas medidas permitem reduzir o insucesso e o abandono escolar entre os rapazes? Parece-lhes pertinente pensar-se em medidas que permitam promover o sucesso escolar entre os rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de reduzir o insucesso escolar dos rapazes? (na escola, entre os professores, na família) Parece-lhes pertinente pensar-se em medidas que permitam reduzir o abandono escolar dos rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de se reduzir o abandono escolar entre os rapazes? (na escola, entre os professores, na família) 292 8. Roteiro para focus group a alunos ROTEIRO PARA FOCUS GROUP A ALUNOS Objetivo geral: Compreender as representações dos alunos sobre o insucesso e o abandono escolar dos rapazes e raparigas, no ensino básico e secundário • • • • • • • Agradecer a disponibilidade e interesse para participar no estudo Apresentação da equipa de investigadores Explicitação dos objectivos do projecto e do estudo de caso Garantir o anonimato, através da identificação de nomes fictícios, dos alunos e da escola, na comunicação dos dados e o uso dos mesmos no contexto do trabalho e na produção de conhecimento científico Apresentar outros esclarecimentos caso os alunos solicitem Facultar elementos sobre o site do projecto para que o interlocutor possa acompanhar o processo e obter dados Apresentar os domínios estruturantes para a reflexão 1.INSUCESSO ESCOLAR • Quem são os alunos que, habitualmente, têm insucesso escolar? • O que provoca o insucesso escolar? 2. INSUCESSO ESCOLAR E GÉNERO Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de insucesso e abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. • Nesta escola acham que o insucesso é maior entre os rapazes? Como explicam esta situação? • Consideram a elevada taxa de insucesso escolar entre os rapazes um problema? Porquê? 293 3. ABANDONO ESCOLAR • Quem são os alunos que abandonam a escola antes de concluir o 9º ano e o 12º ano? • Por que é que esses alunos abandono escolar? 4. ABANDONO ESCOLAR E GÉNERO Nota: Os dados estatísticos, em Portugal e em muitos outros países, revelam uma maior taxa de abandono escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas. • Nesta escola o abandono escolar é maior entre os rapazes? Como explicam esta situação? • Consideram a elevada taxa de abandono escolar entre os rapazes um problema? Porquê? 5. FACTORES INDIVIDUAIS, RELAÇÃO COM O SABER E COM A ESCOLA • Há factores individuais que podem justificar um pior rendimento escolar entre os rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? (comportamentos e atitudes dos alunos, relação com o saber, relação com os professores, relação com os colegas, “percepção de si”) 6. CONTEXTO FAMILIAR • Há factores no contexto familiar que podem justificar um pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Em que tipo de contexto familiar essas situações podem ocorrer mais frequentemente? Porquê? 7. CONTEXTO ESCOLAR • • Há factores no contexto escolar que podem justificar o pior rendimento escolar dos rapazes por comparação com as raparigas? Que factores podem justificar esta diferença? Acham que a forma como a escola está organizada pode colocar os rapazes em desvantagem quanto aos resultados escolares? Porquê? 294 8. MEDIDAS PREVENTIVAS E COMPENSATÓRIAS • • • • • • O que pensam das medidas políticas para resolver o problema do insucesso e abandono escolar? Quais os resultados destas medidas? Quais as fragilidades e pontos fortes dessas medidas? Essas medidas permitem reduzir o insucesso e o abandono escolar entre os rapazes? Parece-lhes pertinente pensar-se em medidas que permitam promover o sucesso escolar entre os rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de reduzir o insucesso escolar dos rapazes? (na escola, entre os professores, na família) Parece-lhes pertinente pensar-se em medidas que permitam reduzir o abandono escolar dos rapazes? Porquê? Que tipo de medidas poderiam ser equacionadas no sentido de se reduzir o abandono escolar entre os rapazes? (na escola, entre os professores, na família) 295 9. Grelha de observaçâo em sala de aula GRELHA DE OBSERVAÇÃO EM SALA DE AULA Objetivo geral: Observar as dinâmicas no espaço da sala de aula e o modo como podem influenciar o insucesso e o abandono escolar, no ensino básico e secundário Entrada na sala – Atitudes e Comportamentos dos alunos Rapazes Raparigas 296 Início da aula – Comportamento e atitude do professor e dos alunos Comportamento e Atitude – Professor Comportamento e Atitude – Rapazes Comportamento e Atitude – Raparigas 297 Decurso da Aula – Modos de trabalho pedagógico, relação com alunos Modos de trabalho pedagógico – Professor Relação com alunos – Professor 298 Decurso da Aula – Comportamentos e atitudes dos alunos Relação com o professor – Rapazes Relação com o professor – Raparigas Relação com os colegas – Rapazes Relação com os colegas – Raparigas 299 Incidentes críticos provocaram interrupção da sessão Descrição (motivo, envolvidos, atitude professor, atitude alunos, desfecho) Incidente 1 Incidente 2 Incidente 3 300 Outros elementos relevantes para o estudo 301 10. Pedido de autorização aos encarregados de educação PEDIDO DE AUTORIZAÇÃO AOS ENCARREGADOS DE EDUCAÇÃO No âmbito do estudo “Insucesso e Abandono Escolar numa Perspetiva de Género” que se encontra a ser realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, procuramos compreender, entre outros aspectos, as representações dos alunos sobre o insucesso e o abandono escolar de raparigas e rapazes ao nível do ensino básico e secundário, nesse sentido gostaríamos muito de entrevistar o seu educando e vimos por este meio solicitar a sua autorização. Os dados recolhidos destinam-se apenas ser utilizados no âmbito da referida investigação e o anonimato dos respondentes é garantida. Agradecemos antecipadamente a sua colaboração e a do seu educando. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------------(destacar pelo picotado) AUTORIZAÇÃO Autorizo o meu educando, ____________________________________________ (nome), a participar no estudo “Insucesso e Abandono Escolar numa Perspetiva de Género”, realizado pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. 302