Teresa Almeida Santos 1. RELEVÂNCIA CLÍNICA DAS NEOPLASIAS HEREDITÁRIAS As neoplasias hereditárias constituem um grupo heterogéneo de síndromes resultantes da presença, em indivíduos da mesma família, de genes de predisposição ou de susceptibilidade para o aparecimento de tumores. As primeiras mutações em genes de predisposição tumoral foram identificadas no final da década de 1980 e caracterizam-se por apresentarem uma elevada penetrância (isto é, por existir uma correlação elevada entre a presença da mutação e a ocorrência da doença) e por serem relativamente raras na população, sendo responsáveis por cerca de 5-10% de todos os cancros. Existem muitos outros genes de baixa penetrância envolvidos na predisposição para o desenvolvimento de neoplasias e que serão responsáveis por cerca de 10% ou mais destas situações, podendo mesmo estar envolvidos em todos os chamados cancros esporádicos. 1.1. A TEORIA DAS DUAS MUTAÇÕES DE KNUDSON Segundo o modelo de Knudson, os indivíduos predispostos herdariam um alelo mutado de um gene de predisposição tumoral, sendo necessária a ocorrência de uma mutação somática adicional no outro alelo do gene para iniciar o desenvolvimento de uma neoplasia. O conceito de evento primário genético refere-se ao aparecimento de uma mutação nas células da linha germinal que pode ser her- dada, ou ocorrer de novo, nos gâmetas. Estas mutações ocorrem quase sempre em genes supressores tumorais que têm um comportamento de tipo recessivo ao nível da célula (o que explica a necessidade de ocorrência de duas mutações), sendo muito raras as situações de mutações activadoras de oncogenes que actuam de forma dominante na célula. Sendo a probabilidade de adquirir uma única mutação em qualquer célula somática muito superior à da ocorrência sucessiva de duas mutações somáticas numa mesma célula, os indivíduos portadores de uma mutação hereditária estão muito mais susceptíveis ao desenvolvimento de uma neoplasia. Nestes indivíduos as neoplasias têm tendência a ocorrer mais precocemente e a ser mais frequentemente bilaterais (nos órgãos duplos) e multifocais. Assim, segundo esta teoria, os cancros não são hereditários, apenas o é a predisposição para a sua ocorrência, através da presença de um alelo mutado herdado. Abre-se assim, uma janela para a intervenção médica e a prevenção da doença nos indivíduos em risco. No entanto, deve ter-se em consideração que existem algumas situações que escapam a esta teoria, não sendo necessária a aquisição de uma segunda mutação1. A mutação herdada aumenta o risco para um número limitado de tipos de cancro (existindo algumas excepções como é o caso do gene TP53 implicado na síndrome de Li-Fraumeni que tem um espectro muito alargado de tumores). Assim, por exemplo, as mutações no gene BRCA1 estão implicadas no cancro da mama e do ovário hereditário, as do gene 143 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 31 Tumores hereditários ginecológicos 2. CANCRO HEREDITÁRIO DO OVÁRIO ASSOCIADO A MUTAÇÕES NOS GENES BRCA1 E BRCA2 2.1. PREVALÊNCIA, ORIGEM E CARACTERÍSTICAS CLINICOPATOLÓGICAS As mutações germinativas nos genes BRCA1 e BRCA2 representam a maioria das situações conhecidas de famílias com síndrome do cancro da mama e do ovário hereditário. Cerca de 10% dos casos de cancro do ovário e 3-5% dos casos de cancro da mama são devidos a mutações germinativas nestes genes. O gene BRCA1 está localizado no 144 cromossoma 17q12-21 e o BRCA2 no cromossoma 13q12-13. Foram já descritas mais de 1.200 mutações diferentes para cada um destes genes supressores tumorais que codificam a síntese de proteínas envolvidas no processo de reparação do ADN. Estima-se que na população exista uma mutação num destes genes em cada 1:300 a 1:800 indivíduos, sendo esta prevalência muito superior nalgumas etnias, designadamente nos judeus Ashkenazi (1:40). Uma mulher com uma mutação em BRCA1 tem um risco de desenvolver cancro do ovário de 39-46%, sendo esta probabilidade de 12-20% nas portadoras de mutações em BRCA2. O cancro do ovário associado a mutações germinativas nestes genes apresenta um fenótipo histológico particular, sendo predominantemente de tipo seroso ou endometrióide e de elevado grau de malignidade. Os tumores mucinosos e borderline do ovário não parecem fazer parte deste espectro. Os tumores primários da trompa e do peritoneu são também parte integrante do espectro da doença associada a mutações nos genes BRCA1 e BRCA22. Dados recentes sugerem que perante o diagnóstico de cancro seroso do ovário de elevado grau de malignidade, cancro peritoneal ou tubar primário, cerca de 16-21% do total das pacientes e 9% das pacientes sem história familiar de cancro da mama ou do ovário serão portadoras de uma mutação germinativa em BRCA1 ou BRCA2. São considerados critérios de definição de mulheres de alto risco3: — Uma mulher com cancro do ovário em qualquer idade e um familiar em primeiro grau com cancro da mama antes dos 50 anos ou a mesma situação mas em que os indivíduos afectados são parentes em segundo grau ligados por um indivíduo do sexo masculino não afectado. — Duas mulheres parentes em segundo grau com cancro do ovário em qualquer idade. Capítulo 31 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 MLH1 estão associadas a cancros do endométrio, cólon e estômago, e as do gene RB1 induzem o retinoblastoma e osteossarcomas. Habitualmente, neste contexto, as correlações genótipo-fenótipo são vagas e, apesar de os genes BRCA1 e BRCA2 estarem implicados nas mesmas funções celulares, as suas mutações estão associadas a diferentes perfis de cancros. As mulheres com mutações em BRCA1 exibem principalmente carcinomas da mama e do ovário, enquanto as mutações germinativas em BRCA2 predispõem para o cancro da mama no homem e na mulher, bem como para outros tipos de neoplasias, designadamente pancreáticas e prostáticas. O mesmo se verifica nas famílias portadoras de mutações em genes associados ao cancro colorrectal não-polipótico hereditário (HNPCC ou síndrome de Lynch) em que uma mutação num determinado gene de reparação do ADN pode predispor para cancro do endométrio, do cólon ou ambos, no mesmo indivíduo. Os genes de predisposição podem agrupar-se em diferentes tipos: genes gatekeepers, que controlam directamente a proliferação celular; genes care-takers, que mantêm a integridade do genoma, e genes landscaper, que modulam o micro-ambiente de crescimento das células tumorais. 2.2. PREVENÇÃO PRIMÁRIA E SECUNDÁRIA NOS INDIVÍDUOS PORTADORES DE MUTAÇÕES EM BRCA1/BRCA2 A incidência de diagnósticos de cancro do ovário antes dos 40 anos em portadoras de mutações germinativas em BRCA1 ou BRCA2 é inferior a 2-3%. Nas mulheres com mutações em BRCA1 o risco aumenta na quinta década de vida com 10-21% das portadoras a desenvolver cancro do ovário aos 50 anos. As metodologias de rastreio disponíveis têm uma possibilidade limitada de detectar um cancro do ovário num estádio inicial, com maior probabilidade de cura, devendo as pacientes ser informadas de que o rastreio não reduz a mortalidade ou melhora a sobrevivência associada ao cancro do ovário em populações de risco elevado. Contudo, o doseamento sérico semestral do CA 125 e a realização de ecografia endovaginal, com início aos 30 anos ou 5-10 anos antes da idade do primeiro diagnóstico de cancro do ovário na família, são preconizados neste grupo de pacientes2. A redução do risco de cancro do ovário associado à utilização de contraceptivos orais observada nas populações de baixo risco não é consensual entre as portadoras de mutações em BRCA1 e BRCA2, existindo alguns estudos que sugerem um acréscimo do risco de cancro da mama neste contexto2. Têm sido detectados cancros microscópicos, ocultos, particularmente da trompa, mas também do ovário, após a realização de salpingo-ooforectomia profiláctica. Este achado implica que se preconize a realização de um estudo histopatológico completo, com microdissecção das peças operatórias removidas, assim como a inspecção cuidadosa da superfície peritoneal com realização de lavagens peritoneais pélvicas para estudo citológico, já que, apesar de microscópicos, estes tumores são de elevado grau de malignidade. Estudos recentes Quadro 1. Critérios de referenciação para consulta de risco familiar/aconselhamento genético Familiar de portador de mutação germinativa patogénica Três casos de cancro da mama em familiares do primeiro grau, do mesmo ramo da família ou do segundo grau no caso de ser a linha paterna a afectada Dois casos de cancro da mama e um caso de cancro do ovário no mesmo ramo da família Um caso de cancro da mama antes dos 45 anos e de cancro do ovário em qualquer idade Cancro da mama bilateral antes da menopausa e um familiar com cancro da mama ou do ovário Duas irmãs com cancro da mama antes dos 40 anos ou uma delas com cancro do ovário antes da menopausa Cancro da mama ou do ovário antes dos 35 anos Cancro da mama antes dos 40 anos com o diagnóstico histológico de carcinoma pouco diferenciado, medular ou com ausência de expressão de receptores hormonais e de HER-2 Cancro da mama no homem Tumores hereditários ginecológicos 145 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Apesar de existir neste manual um capítulo dedicado ao cancro da mama hereditário, não podemos distinguir a síndrome de cancro da mama/ovário, pelo que reproduzimos na tabela seguinte (Quadro 1) os critérios utilizados no âmbito do Grupo Interdisciplinar de Tumores Hereditários dos Hospitais da Universidade de Coimbra para referenciação das pacientes para a consulta designada de tumores hereditários nesta instituição. 146 e procurar estudar o maior número de familiares possível no sentido de tentar encontrar uma associação entre a alteração da sequência do ADN e a ocorrência de neoplasias na família, ou, pelo contrário, a presença desta mesma alteração em familiares saudáveis (estudos de segregação). Devem ainda investigar-se as consequências da alteração da sequência do ADN na formação do ARN mensageiro e das proteínas produzidas para prever o seu eventual efeito a nível celular. 3. CANCRO HEREDITÁRIO DO ENDOMÉTRIO 3.1 PREVALÊNCIA, ORIGEM E CARACTERÍSTICAS CLINICOPATOLÓGICAS Cerca de 5% de todos os cancros do endométrio são devidos a predisposição genética, sendo a síndrome de Lynch responsável pelo maior número de casos. A síndrome de Lynch ou HNPCC caracteriza-se por ser uma situação de hereditariedade autossómica dominante com aparecimento precoce de cancro colorrectal e também de outros cancros, nomeadamente do endométrio, ovário, estômago, tractos urinário e hepatobiliar, pâncreas e intestino delgado. A síndrome de Lynch é uma síndrome hereditária que se caracteriza pela ocorrência de neoplasias do cólon ou do endométrio em idade jovem. No passado distinguiam-se duas formas da síndrome consoante a maior frequência de tumores cólicos ou a coexistência com indivíduos atingidos por tumores extracólicos, designadamente do endométrio. Antes de se conhecerem os defeitos genéticos subjacentes, diversos grupos de consenso internacionais definiram critérios clínicos de diagnóstico, designadamente os critérios de Amesterdão para a classificação da síndrome de Lynch. Estes critérios integram as famíCapítulo 31 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 sugerem que a porção distal da trompa de Falópio, particularmente as fímbrias, poderá ser a origem das neoplasias nas pacientes portadoras de mutações BRCA4. Em conclusão, as limitações actuais nas estratégias de rastreio do cancro do ovário tornam a cirurgia profiláctica (salpingo-ooforectomia bilateral com remoção integral das trompas) a opção mais eficaz, devendo ser considerada aos 40 anos ou após a conclusão do projecto reprodutivo. Este procedimento reduz o risco de cancro do ovário, da trompa e do peritoneu em cerca de 8590% das mulheres portadoras de mutações, estando também demonstrada uma redução global na mortalidade2. Deve ainda ter-se em consideração que esta intervenção profiláctica reduz em 50% (40-70% segundo o American College of Obstetricians and Gynecologists)2 o risco de cancro da mama nestas mulheres, particularmente quando a cirurgia é realizada em mulheres pré-menopáusicas. No entanto, as pacientes devem ser informadas de que existe a possibilidade de encontrar um cancro oculto em 5-6% das peças operatórias, devendo autorizar pré-operatoriamente a realização de uma cirur gia mais extensa se houver lesões suspeitas e particularmente nas mulheres com idade superior a 40 anos4. As metodologias actualmente disponíveis para a análise molecular e detecção de mutações não permitem identificar a totalidade das alterações que poderão existir nos genes BRCA1 e BRCA2. Para além desta dificuldade, muitas vezes o especialista em genética depara-se com um resultado de um estudo molecular de difícil interpretação, designadamente a detecção de uma mutação de significado desconhecido, isto é, em que não foi ainda demonstrada uma associação significativa com o aparecimento de cancro, o que cria graves problemas de aconselhamento, discutindo-se as estratégias a adoptar nestas situações. Devem, nestas circunstâncias, esclarecer-se as consulentes acerca desta dificuldade lação em geral. Os indivíduos portadores desta síndrome possuem também risco significativo de cancro do interstino delgado (< 5%), estômago (13%), pelvis renal e ureter (4%), tracto biliar (2%) e SNC (4%), e podem ainda apresentar adenomas ou acantomas sebáceos e queratoacantomas6. Menos frequentemente, o cancro do endométrio hereditário pode surgir no contexto da síndrome de Cowden que se caracteriza por mutações germinativas no gene PTEN e se associa a lesões cutâneo-mucosas, hamartomas gastrointestinais, pólipos, doença benigna da mama ou cancro da mama e patologia da tiróide. A existência de critérios clínicos, designadamente o aparecimento de uma neoplasia em idade jovem, antecedentes pessoais e familiares de cancro colorrectal ou do endométrio devem sugerir a hipótese de se estar perante uma situação hereditária. É fundamental identificar as mulheres que surgem com um cancro do endométrio como podendo ser portadoras de uma síndrome de Lynch por duas razões: primeiro, porque elas têm um risco elevado de desenvolver uma segunda neoplasia (nomeadamente, cancro colorrectal síncrono ou metacrónico), e por isso deverão ser submetidas a rastreio sistemático com colonoscopia e, em segundo lugar, porque é possível oferecer um diagnóstico molecular da síndrome de Lynch que permitirá distinguir os indivíduos Quadro 2. Critérios de Amesterdão II Três familiares com o cancro do espectro da síndrome de Lynch*, sendo um deles familiar em primeiro grau dos outros dois Atingimento de pelo menos duas gerações sucessivas Pelo menos um caso de cancro diagnosticado antes dos 50 anos Exclusão de polipose cólica familiar em todos os casos de cancro colorrectal O diagnóstico de tumor deve ser assegurado pela verificação do estudo histopatológico Adaptado de: Vasen, et al.5 *O espectro da síndrome de Lynch inclui cancros do cólon e recto, endométrio, intestino delgado, ureter e pélvis renal. Tumores hereditários ginecológicos 147 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 lias em que existam três ou mais indivíduos afectados com cancro do cólon, endométrio, ovário, intestino delgado, estômago, pélvis renal, vias biliares ou sistema nervoso central (SNC), sendo dois familiares pertencentes a gerações sucessivas e um deles com cancro diagnosticado antes dos 50 anos. Os critérios, designados de Amesterdão II (Quadro 2), incluem os tumores extracólicos e permitem identificar mutações em genes mismatch repair (MMR) em cerca de 90% das famílias afectadas. A presença de critérios de Amesterdão e de cancro do endométrio na família é altamente sugestiva da síndrome de Lynch. Esta síndrome é causada por mutações germinativas nos genes MMR do ADN, sendo a sua prevalência na população de cerca de 1%. Apesar de já ter sido demonstrada a associação de sete genes com o HNPCC (MLH1, MSH2, MSH6, PMS1, PMS2, MLH3 e EX01), normalmente só se investiga a presença de mutações naqueles em que foi demonstrado existir uma relação entre estas e a síndrome (MLH1, MSH2 e MSH6). As mulheres com esta síndrome apresentam um risco de desenvolver cancro do endométrio de 40-60% ao longo da vida (idêntico ao risco de cancro colorrectal), sendo o risco de cancro do ovário de 10-12%. Estes riscos são muito elevados face ao risco de 4-5% de cancro do cólon e de 3% de cancro do endométrio que se verificam na popu- (29%) é muito superior à verificada na população com cancro endometrial com origem a nível do corpo uterino (1,8%) e nas pacientes com cancro do endométrio em idade jovem (8-9%)7. A possibilidade de estar perante uma situação de HNPCC numa mulher com cancro do endométrio implica a realização de estudos complementares nomeadamente: pesquisa da instabilidade de microsatélites na peça operatória, avaliação imunohistoquímica da presença de proteínas codificadas pelos genes MMR, análise da hipermetilação do promotor do gene MLH1 e análise da presença de mutações nos genes de reparação do emparelhamento anómalo do ADN8. Para além desta investigação, será desejável tomar em consideração também critérios histológicos (presença de linfócitos infiltrando o tumor e heterogeneidade tumoral incluindo as áreas de carcinoma indiferenciado), bem assim como a topografia tumoral e a presença eventual de carcinomas do ovário síncronos. Reproduzimos na figura 1, a título meramente ilustrativo, o heredograma de uma família com síndrome de Lynch e presença de uma mutação patogénica no gene MSH2 seguida na Consulta de Tumores Hereditários dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Note-se o diagnóstico de três neoplasias metacrónicas no indivíduo situado mais à direita na quarta geração. Quadro 3. Probabilidade da síndrome de Lynch em mulheres com carcinoma do endométrio História pessoal de cancro Cancro do endométrio em qualquer idade Probabilidade da síndrome de Lynch (%) 1,8 Cancro do endométrio diagnosticado antes dos 50 anos 9 Cancro do endométrio e colorrectal em qualquer idade 18 Cancro do endométrio e colorrectal antes dos 50 anos 43 Cancros do endométrio e ovário primários e síncronos 7 Adaptado de: Daniels et al. 9 148 Capítulo 31 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 portadores de mutações e implementar a vigilância da família. A importância da identificação de uma possível síndrome de Lynch, pelo ginecologista ou oncologista que trata uma paciente com cancro do endométrio, reside no facto de os cancros ginecológicos, particularmente o do endométrio, ser o cancro «sentinela» em mais de 50% dos casos4, e ainda na probabilidade de ocorrência de cancro do cólon síncrono ou metacrónico. A localização preferencial ao segmento inferior do corpo uterino dos tumores endometriais associados à síndrome de Lynch foi descrita recentemente em dois artigos designando-os por tumores lower uterine segment (LUS)7,8. Os cancros do endométrio localizados ao segmento inferior do útero podem ser confundidos com cancros do endocolo pelo que se impõe a distinção. As mulheres que apresentam tumores do tipo LUS são habitualmente mais jovens, apresentam tumores em estádios mais avançados e mais invasivos. Em mais de 70% dos casos de tumores LUS as técnicas de imunohistoquímica permitem observar um padrão do tipo adenocarcinoma endometrióide. Reproduz-se, no quadro 3, uma adaptação da tabela de probabilidade da síndrome de Lynch nas mulheres com carcinoma do endométrio. A prevalência da síndrome de Lynch nas pacientes com tumores do endométrio 4. ASPECTOS LEGAIS E IMPACTO PSICOLÓGICO DO ACONSELHAMENTO GENÉTICO E DA REALIZAÇÃO DE TESTES MOLECULARES NOS CANCROS GINECOLÓGICOS A Lei 12/2005, de 26 de Janeiro, relativa à informação genética pessoal e informação de saúde, define no seu artigo primeiro «o conceito de informação genética, a circulação de informação e a intervenção sobre o genoma humano, bem como as regras para a colheita e conservação de produtos biológicos para efeitos de testes genéticos ou de investigação». Este diploma legal define também, entre outros, o controlo do acesso à informação e a gestão dos sistemas que a organizam, determinando níveis de acesso à informação. O ponto 2 do artigo 9.o refere que «a detecção do estado de heterozigotia para doenças recessivas, o diagnóstico pré-sintomático de doenças monogénicas e os Tumores hereditários ginecológicos testes de susceptibilidades genéticas em pessoas saudáveis só podem ser realizados com autorização do próprio, a pedido de um médico com a especialidade de genética e na sequência da realização de consulta de aconselhamento genético, após consentimento informado, expresso por escrito». O ponto 3 do citado artigo 9.o estipula que «a comunicação dos resultados de testes genéticos deve ser feita exclusivamente ao próprio». No ponto 1 do artigo 11.o determinase que «ninguém pode ser prejudicado, sob qualquer forma, em função da presença de doença genética ou em função do seu património genético». O conhecimento dos resultados de testes genéticos de susceptibilidade para neoplasias determina reacções pessoais complexas e diversas, nomeadamente no que concerne ao significado da informação em termos de saúde individual e familiar e ainda ao receio da discriminação genética na vida pessoal, 149 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 Figura 1. Heredograma de uma família com síndrome de Lynch e presença de uma mutação patogénica no gene MSH2 seguida na Consulta de Tumores Hereditários dos Hospitais da Universidade de Coimbra. 150 1. Bignon YJ. Biological basis of cancer predisposition. In: Genetic predisposition to cancer. 2nd ed. London: Arnold Publishers; 2004. p. 11-20. 2. Clinical management guidelines for obstetrician-gynecologists. ACOG Practice Bulletin number 103. American College of Obstetricians and Gynecologists; 2009. p. 957-66. 3. Pharoah P, Ponder B. Familial ovarian cancer: genetics and management. In: Genetic predisposition to cancer. 2nd ed. London: Arnold Publishers; 2004. p. 303- 14. 4. Jarboe EA, Folkins AK, Crum CP. Pathology of BRCA-associated ovarian cancers, including occult cancers. In: Lu K, ed. Hereditary gynaecologic cancer: risk, prevention and management. Informa Healthcare USA; 2008. p. 29-43. 5. Vasen HF, Watson P, Mecklin JP, et al. The International Collaborative Group on Hereditary Non-Polyposis Colorectal Cancer (ICG-HNPCC). Dis Colon Rectum. 1991;34:424-5. 6. Lu KH. Clinical relevance of hereditary endometrial cancer. In: Lu K, ed. Hereditary gynaecologic cancer: risk, prevention and management. NY: Informa Healthcare USA; 2008. p. 15-27. 7. Westin SN, Lacour RA, Urbauer DL, et al. Carcinoma of the lower uterine segment: a newly described association with Lynch syndrome. J Clin Oncol. 2008;26:5965-71. 8. Garg K, Soslow RA. Lynch syndrome (hereditary nonpolyposis colorectal cancer) and endometrial carcinoma. 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Capítulo 31 Sem o consentimento prévio por escrito do editor, não se pode reproduzir nem fotocopiar nenhuma parte desta publicação © Permanyer Portugal 2010 no trabalho e mesmo em outras circunstâncias, designadamente na realização de seguros de vida ou de saúde. Apesar de diversos estudos mostrarem que a maioria dos portadores de mutações não apresentam níveis significativos de stress no primeiro ano após a realização do teste, alguns pacientes, particularmente aqueles com ansiedade ou depressão pré-existentes, podem sofrer agravamento destas situações requerendo aconselhamento ou tratamento de suporte adequado10,11. Sendo um dos benefícios da realização de um teste genético a possibilidade de oferecer estratégias de redução do risco aos indivíduos e familiares com elevado risco de desenvolver neoplasias, cabe aos médicos sensibilizar os seus pacientes para partilharem a informação dos resultados genéticos com os seus familiares, que poderão obter benefícios apreciáveis com o conhecimento do seu risco individual. Discute-se a obrigação do médico dever avisar os membros da família em risco, mas o princípio ético da beneficência que sustentaria a divulgação desta informação está em conflito com o princípio da autonomia do indivíduo testado em decidir quando e como deve revelar a informação de saúde pessoal. O médico deverá assim abster-se de uma atitude paternalista e respeitar o direito à confidencialidade12.