Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 Interações dos processos sócio-ambientais nas bacias das Enseadas de Icaraí e São Francisco, Niterói (RJ). 2. Organismos Aquáticos como Bioindicadores da Qualidade Ambiental com enfoque no mexilhão Perna perna (Linnaeus, 1798), em Niterói-RJ. Leila Cristina Jorge,1 Luciene de Moraes Garcia,1 Vanda Buzgaib Martins,1 Vanda Buzgaib Martins,1 Ana Kosawa1 & Erica Pauls 2* 1 2 Mestrandos do Curso de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PGCA), Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ; Professores do Curso de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (PGCA), Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ; 3 Professora da Faculdade de Veterinária, Universidade Federal Fluminense, Niterói-RJ; *autores para correspondência: [email protected] Resumo – O presente estudo teve como objetivo principal a elaboração de um diagnóstico preliminar dos impactos de atividades antrópicas na região de praias no município de Niterói (RJ) sobre os organismos marinhos. Foi realizado um levantamento do atual estoque pesqueiro e dado ênfase para o mexilhão Perna perna, analisado como indicador da qualidade ambiental e das condições sanitárias do animal para o consumo. Conforme os resultados encontrados, o elevado aporte de despejos domésticos e industriais, associados a organismos patogênicos, comprometem o ecossistema e qualidade sanitária das poucas espécies extraídas para o consumo, além de contribuir para o desaparecimento de outras espécies marinhas na área de trabalho. Diante do quadro encontrado são propostas alternativas para a preservação e aproveitamento sustentável de espécies nativas com valor econômico. Palavras chave:. mexilhão; pescado; colimetria; desenvolvimento sustentável. Interaction of the Socio-Environmental processes within the drainage basins of the Icaraí and São Francisco coves, Niterói. 2. Aquatic organisms as bioindicators of environmental quality, with special emphasis on the mussel Perna perna (Linnaeus, 1798) in Niterói (RJ). Abstract - The present study reports preliminary results of an investigation on the impacts of human activities on the beaches of Niterói (RJ), and as a result on associated valuable marine organisms. Perna perna, a typical Brazilian mussel, was chosen as biological indicator to describe the environmental situation as well as its sanitary condition for human consumption. The results reveal considerable amounts of domestic and industrial residues, often accompanied by pathogenic organisms that endanger the local environment and, as the stock survey shows, also the few species extracted for human consumption, some of which have already been eliminated. Proposals for stock preservation and sustainable management of native species of high economic value are made. Key-words: mussel; fish; colimetry; sustainable management Interactions des processus socio-environnementaux dans les bassins versants des anses de Icaraí et São Francisco, Niterói. 2. Organismes aquatiques comme bioindicateurs de la qualité de l’environnement, focalisant em particulier la moule Perna perna (Linné, 1798) à Niterói (RJ). Résumé – On analyse les impacts des activités humaines auprès des plages de la ville de Niterói (RJ) sur les organismes marins de valeur économique. La moule Perna perna a été choisie non seulement comme indicateur biologique des agressions à l’environnement, mais aussi des conditions d’hygiène alimentaire pour la consommation humaine. L’étude révèle l’apport de quantités considérables de résidus domestiques et industriels, accompagnés d’organismes pathogènes qui compromettent la qualité de l’environnement, ainsi que la qualité sanitaire du peu d’espèces qui sont encore exploitées pour l’alimentation humaine, sans compter celles qui ont déjà disparu. On présente des suggestions pour la préservation et pour l’utilisation soutenable des espèces natives de valeur économique. Mots-clés:. moules; poissons; colimétrie ;développement soutenable. 108 Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 1. INTRODUÇÃO A poluição das águas da Baía da Guanabara tem provocado a diminuição da biodiversidade nativa da região, incluindo os vários corpos d’água efluentes, oriundos das bacias hidrográficas contribuintes da baía, além de estar ocorrendo a contaminação daquelas espécies que servem ao consumo humano, como por exemplo, peixes e frutos do mar. Além da poluição, outros fatores têm contribuído para a gradual redução dos estoques pesqueiros da região da baía, como a pesca predatória, que acaba por causar prejuízos aos próprios pescadores e limitar suas atividades. Apesar da poluição, os moluscos, em especial o mexilhão, têm encontrado condições de desenvolvimento e sobrevivência em vários pontos da região. O litoral do Rio de Janeiro oferece uma série de acidentes geográficos fora das áreas mais poluídas, que são favoráveis à implantação do cultivo de moluscos que poderiam beneficiar economicamente as comunidades de pesca artesanal e garantir uma melhor condição sanitária do produto (TEPER, 1998). O presente trabalho tem como objetivo avaliar o grau de contaminação, por coliformes fecais, do mexilhão Perna perna extraído na área de estudo, que compreende a orla marítima entre a Ilha da Boa Viagem e a Praia de Eva; fazer um levantamento das espécies que fazem ou fizeram parte da biodiversidade dos cursos d’água contribuintes da Baía de Guanabara e da própria baía, na região de Niterói, RJ. Especificamente, o trabalho visou: → Determinar os pontos críticos de poluição da área de estudo, que possam estar influenciando na diminuição da biodiversidade local; → Detectar algumas fontes poluidoras dos cursos d’água contribuintes da baía; → Comparar o desempenho pesqueiro dos últimos anos, na área de estudo, diante da drástica redução de sua produção e do comprometimento da qualidade ambiental; → Avaliar a qualidade sanitária dos moluscos coletados na área de estudo; → Quantificar os níveis de coliformes fecais do mexilhão Perna perna, in natura e após o processamento; → Elaborar propostas alternativas para a preservação e aproveitamento econômico e sustentável das espécies marinhas mencionadas. 1.1 Generalidades sobre a Baía da Guanabara Com seus atuais 381 km2 de espelho d’água, a Baía de Guanabara (“ seio de mar”, em Tupi) surgiu no período Holoceno, há cerca de 10000 anos, originando-se de uma depressão entre a Serra do Mar, regionalmente conhecida como Serra do Órgãos, e o relevo costeiro mais antigo, baixo, de morros arredondados, espalhados por toda a região. Para o geógrafo Alberto de Sena, “o vale onde surgiu a baía, era um profundo canal, por onde fluíram os rios e as águas vertentes da serra e do maciço de morretes baixos, que se estendia muito além da barra atual da Guanabara, talvez por algumas dezenas de quilômetros até alcançar as praias do oceano Atlântico”. Há cerca de oito mil anos, antigos povos se deslocaram e ocuparam o litoral fluminense. Era o início do povoamento do entorno da Baía de Guanabara. Chamados de “sambaquianos” pelos arqueólogos, os grupos humanos eram experientes e souberam tirar proveito da abundância dos recursos naturais. Consumindo os mariscos, atirando fora as cascas, acabaram por construir os montes de detritos, onde deixavam suas ferramentas, enterravam seus mortos e viviam o cotidiano pacífico de caçadores – coletores. Estes restos, denominados sambaquis, constituem os maiores sítios arqueológicos existentes no Brasil (GOULART, 2002).1 Outro exemplo refere-se a um sambaqui indígena na Baía de São Francisco (Califórnia, EUA), que continha acima de 30.000 m3 de restos acumulados, em uma estimativa de mais de 3.500 anos (STORER & USINGER, 1979) Tal fato vem ilustrar a enorme importância dos organismos aquáticos na alimentação humana desde a Antiguidade. Desde a chegada dos colonizadores, em 1500, a bacia hidrográfica da Baía de Guanabara, vem registrando enormes prejuízos ambientais. Ela perdeu um quinto do espelho d’água e artificializou, concretou ou asfaltou, quase toda a orla, com a eliminação de praias e enseadas naturais. Foram séculos de desmatamentos, aterros e ocupações de áreas alagadas. A sua bacia formada por 55 rios e córregos continua sendo agredida e seus recursos naturais degradados, tal como acontecia durante a colonização (JB Ecológico, 2002). 1.1.1 Niterói: Os contribuintes dos Canais Ary Parreiras e São Francisco e as Praias A cidade de Niterói, que no idioma indígena Tupi, quer dizer “Água Escondida”, apresenta peculiaridades contrastantes. As inúmeras praias de um 1 Nota do Editor. Para maiores detalhes, consultar a dissertação “A interação da população pré-histórica do sambaqui Boca da Barra (Cabo Frio, RJ) com o ambiente”, da aluna do PGCA Débora da Rocha Barbosa (1999), cujo resumo foi publicado em Mundo & Vida 2 (1/2): 57. 109 Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 lado e maciços montanhosos do outro configuram sua beleza natural. Entretanto, como na maioria das cidades brasileiras, a velocidade das transformações urbanas, as elevadas taxas de crescimento demográfico e os altos índices de miséria levaram à ocupação desigual das regiões, ora privilegiadas por projetos urbanísticos, ora prejudicadas pelo uso desordenado de encostas e morros. No relevo destaca-se o Maciço de Niterói, que faz parte do conjunto de colinas e maciços costeiros. Estes, muitas vezes chegam a atingir a costa, formando pontões que vão aflorar em diversas áreas vizinhas ao mar. Com altitudes mais moderadas, as colinas têm quase todos os morros habitados, associados físicamente aos bairros onde estão localizados (Niterói, Perfil de uma Cidade, 1999). Nascentes de águas cristalinas, localizadas nos morros Bela Vista e União, afloram entre rochas e restos de cobertura da Mata Atlântica e vão formar os córregos que confluem para o Canal de São Francisco, que deságua na praia de mesmo nome. O rio Icaraí, que transformado em canal, desemboca no emissário submarino na Baía da Guanabara, tem como origem o rio Jacaré. Em função do impacto de atividades antrópicas, o estoque pesqueiro encontrado na área do presente trabalho, vem se reduzindo acentuadamente com exceção do mexilhão Perna perna, ainda encontrado nas praias das Flechas, de Adão e de Eva. 1.2 O Mexilhão Mexilhão é o termo utilizado para denominar as diversas espécies de moluscos bivalves da família Mytilidae, sendo os gêneros mais comuns Mytilus, Perna e Mytella. Dependendo da região do país, recebem diversos nomes, como marisco, sururu, bacucu e ostra-de-pobre (MAGALHÃES, 1985). Esses animais são muito abundantes no litoral brasileiro, vivendo principalmente fixos aos costões rochosos, na região de variação das marés e início do infralitoral (MAGALHÃES & FERREIRA, 1997). Podem ficar expostos por um período de seis horas, equivalente à variação das marés. A fixação do animal é efetuada através de uma estrutura denominada de bisso, que são filamentos produzidos por uma glândula, próxima ao pé. Esta é a principal característica para o estabelecimento de sua forma de cultivo. O mexilhão vem sendo aproveitado como fonte de alimento há muito tempo nas mais diversas partes do mundo, sendo amplamente conhecido por seu notável valor nutritivo, devido aos elevados teores protéicos e vitamínicos, superando muitas outras espécies marinhas (MAGALHÃES, 1985). Sua excelente capacidade de conversão de produção 110 primária, associada ao potencial de adaptação às mais diversas condições ecológicas, o apontam como um importante recurso econômico. É também de fácil adaptação ao cultivo em viveiros artificiais, o que permite aumentar sua produção, qualidade e ritmo de crescimento (FERNANDES, 1981). Segundo TEPER (1998), o crescimento do Perna perna está relacionado aos seguintes fatores ambientais: - temperatura da água (faixa ótima : 21 a 28ºC); - produtividade primária (presença de fitoplâncton e matéria orgânica disponível para a alimentação); - salinidade da água (faixa ótima entre 29 ppm e 36 ppm); - velocidade da corrente inferior a 2 m/s (ideal entre 0,5 a 1,0 m/s). 1.2.1 Bioindicador da Qualidade Ambiental e Fonte de Renda Os mexilhões representam uma importante fonte de alimento e de renda para as populações de baixo poder aquisitivo que vivem nas zonas costeiras. O Perna perna, muito comum na costa brasileira, foi escolhido para esse trabalho, por ser abundante e servir como indicador de qualidade de água pois se alimenta por filtração. Esse molusco seleciona as partículas de alimento que ingere pelo tamanho e não pela qualidade, assim sendo, acabam ingerindo grandes quantidades de dejetos orgânicos e inorgânicos, juntamente com o alimento. Devido à sua fisiologia, boa parte das partículas ingeridas acumula-se em seus tecidos, chegando a apresentar taxas de acúmulo de bactérias e metais pesados de 100 a 1000 vezes superior à quantidade presente na água circundante, tornando-se impróprio ao consumo humano (MAGALHÃES & FERREIRA, 1997). Pode-se deduzir que as condições sanitárias dos mexilhões são altamente correlacionada com os níveis de contaminação da água onde eles são encontrados. A poluição dos ambientes marinhos tem comprometido a qualidade e a segurança de vários produtos alimentícios obtidos de mares cujas águas estejam contaminadas (RICHARDS, 1991). Foi demonstrado que muitos dos microrganismos ingeridos por ostras, sobrevivem ao seu processo digestivo (COOK, 1984; ROWSE & FLEET, 1982). Entre esses organismos, os coliformes são tidos como indicadores de poluição fecal recente e o seu subgrupo coliforme fecais é o que proporciona maior especificidade para a detecção da poluição fecal. Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 2. MATERIAL & MÉTODOS 2.1. Caracterização da Área de Trabalho Os locais visitados correspondem à área compreendida entre a praia da Boa Viagem e a praia de Eva, tendo-se entre elas as praias das Flechas, de Icaraí, de São Francisco, de Charitas, de Jurujuba e de Adão, incluindo a Bacia do rio Icaraí e a Bacia do rio Cachoeiras, que constitui o canal de São Francisco. 2.2. Metodologia Para o presente trabalho, foram feitas pesquisas de campo com caracterização da área estudada com observação das condições ambientais em que se encontra; visitas à Associação de Moradores de Jurujuba e ao Centro de Beneficiamento Comunitário de Mexilhões, onde foram realizadas entrevistas com seus respectivos representantes. Visitou-se ao bairro de Cachoeiras com parada próxima a um curso d’água localizado ao lado de um aglomerado habitacional de baixa renda (favela). Para a avaliação do estoque pesqueiro fez-se entrevistas com a comunidade de pescadores e com os comerciantes do Mercado São Pedro, bem como um levantamento de registros de desembarque do pescado em Niterói, nos últimos 10 anos, no banco de dados da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ). Para a análise qualitativa dos mexilhões coletouse na praia das Flechas animais vivos e animais sem conchas e pré-cozidos, e na praia de Eva, coletou-se somente animais vivos. Condições da praia de Eva, quando da colheita dos mexilhões feita às 09:00 h: a água estava com a temperatura de 23ºC e encontravase transparente com pouca matéria orgânica em suspensão e acentuada produção primária; a maré estava baixa e o mar levemente agitado (com marolas). Segundo dados obtidos da FEEMA, no dia da colheita dos mexilhões, a quantidade de coliformes fecais presentes na água era de 500 NMP/100mL. Na praia das Flechas, a colheita realizou-se às 09:40 h; a água estava com temperatura de 23ºC e transparente, com produção primária acentuada; a maré estava baixa e com ondulação leste, de 0,5 a 1,0m. Também, segundo dados da FEEMA, a quantidade de coliformes fecais na água era de 1700 NMP/100mL. (Informações meteorológicas e de maré fornecidas pelo “Surfreport” e DHN). As amostras foram acondicionadas em frascos de vidro esterilizados, etiquetadas para sua identificação e colocadas em isopor com gelo para serem transportadas até o laboratório de microbiologia marinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e lá serem analisadas No laboratório os mexilhões foram escovados, retirando-se todas as incrustações (cracas, algas, etc) e lavados em água corrente filtrada, enxaguados em água estéril e depositados em uma bandeja esterilizada. Com o auxílio de um bisturi, as valvas foram abertas, selecionando-se os músculos adutores e retratores e o seu conteúdo de carne, mais água inter-valvar, colocados em placa de Petri estéril. São utilizados 8 mexilhões para o procedimento de pesquisa de coliformes fecais. Para preparar o homogeneizado foram pesados de forma asséptica, 25 g de mexilhão "in natura" (carne + água intervalvar) e colocados em um copo de liquidificador previamente esterilizado, juntamente com 225 mL de solução salina estéril à 0,85% de NaCl. O tempo total de homogeneização utilizado foi de 30 segundos, com intervalos de 5 segundos. Todo material utilizado foi previamente esterilizado ou desinfetado. Processamento do mexilhão pré-cozido: foram pesados 25 g de carne de mexilhão e homogeneizado em 225 mL de solução salina estéril à 0,85% de NaCl. Procedeu-se da mesma forma que a utilizada para os mexilhões "in natura". O tempo total de homogeneização foi de 1 minuto, pois o material apresenta-se mais sólido com grande quantidade de resíduos. O método para contagens de coliformes fecais foi o método padrão do número mais provável (NMP), utilizando-se a técnica dos tubos múltiplos. As amostras foram incubadas em caldo lactosado a 36 ± 1 ºC durante 48-72 horas e, repassados os tubos positivos para o meio EC e incubados à 44,5 ± 0,2 ºC durante 24 horas (APHA, 1998). 3. RESULTADOS & DISCUSSÃO 3.1. Impactos Antrópicos Os adensamentos populacionais, entre outros aspectos, geram a necessidade de se fazer presente uma infra-estrutura básica para a manutenção da qualidade de vida dos cidadãos. A falta de um planejamento mais cuidadoso, principalmente no que concerne ao saneamento básico, visivelmente deficiente nas áreas mais carentes, contribuiu e ainda contribui para a poluição das águas da baía e dos córregos da cidade – outrora rios de águas claras e piscosos – que se tornaram esgotos a céu aberto (Figura da capa). Há relatos de moradores mais antigos sobre o grande número de peixes ornamentais que eram encontrados nessas águas, atraindo os comerciantes dessas espécies. O estado de degradação ambiental é nitidamente observável nas encostas dos morros, entre outras áreas. A causa principal da poluição das águas dos córregos e riachos é o lançamento de esgoto doméstico, sem trata- 111 Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 mento, e do lixo, diretamente nos corpos d’água. Essa situação é gerada pela expansão demográfica e migração, pela falta de trabalho formal, de salários dignos para a sobrevivência das famílias aí residentes e de educação, levando à formação de favelas – aglomerados subnormais. Mesmo nos bairros com melhor infra-estrutura sanitária, pode-se observar despejos de esgoto na praias, formando as conhecidas “línguas-negras” e, bem próximo a elas, vários catadores de mexilhões fazendo a extração dos animais nos costões e nas pedras submersas. Nesses mesmos locais, retiram as conchas e realizam o pré-cozimento da carne do molusco, em fogareiros improvisados dentro de latas de 20 litros sem a menor condição de higiene, como foi observado na praia das Flechas. De acordo com a Secretaria de Obras e Serviços Públicos (SOSP), do Estado do Rio de Janeiro (1994), existem zonas esgotadas pelo sistema separador absoluto, outras onde os esgotos são lançados nas galerias de águas pluviais e outros ainda sem qualquer tipo de canalização ou tratamento, sendo os receptores de esgoto os rios e canais, tornando-se efluentes poluídos para a Baía de Guanabara. As pessoas que não dispõem de sistema de abastecimento de água encanada, captam água das nascentes, existentes nos morros, ou perfuram o solo para fazer poços; além disso, usam os cursos d’água para todas as suas necessidades. Através do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), em acordo com o Governo do Estado, a concessionária Águas de Niterói, companhia de água e esgoto do município de Niterói, vem realizando obras de desvio do esgoto da rede pluvial, para eliminação das “línguas-negras”. A interferência antropogênica geradora de poluição, tanto de origem doméstica quanto industrial e naval, causa danos à saúde da população e a todos os seres vivos constituintes da fauna e flora nativa e ao ecossistema local, além dos prejuízos econômicos. Rompido o equilíbrio biológico, interligado pela cadeia alimentar, muitas espécies de importância econômica desapareceram da baía e conseqüentemente, muitos profissionais que viviam da pesca, abandonaram a atividade. A economia local foi abalada e as favelas nas áreas das encostas e morros se multiplicaram. A poluição também traz prejuízos ao lazer da população, que se encontra impossibilitada de usufruir integralmente das praias da baía. 3.2 Biodiversidade Conforme informações colhidas em entrevistas com moradores antigos da área de estudo, os rios Icaraí e São Francisco, que contribuem com suas águas para 112 a Baía de Guanabara, na região compreendida entre Boa Viagem e Jurujuba, já foram ricos em espécies de peixes ornamentais, lagostas, camarão e siri. Havia pescado para consumo em grande quantidade. No mar, destacavam-se a pesca de arrasto e tarrafa, dada a grande quantidade de peixes que habitavam suas águas; além disso, a baía era naturalmente berçário para muitas espécies, devido às suas características naturais, que favoreciam o desenvolvimento dos organismos. Atualmente, grandes cardumes entram na baía apenas esporadicamente, graças às correntes frias que chegam. Informações obtidas dos pescadores da região e dos comerciantes do Mercado de São Pedro, indicam que a diminuição e o desaparecimento de várias espécies de peixes vêm ocorrendo há alguns anos (ver item 3.2.2). Segundo dados da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Niterói, as indústrias de sardinha já tiveram lugar de destaque na economia regional, sofrendo forte queda nas duas últimas décadas. O desembarque de pescado, na Ilha da Conceição também apresenta forte diminuição e o Mercado São Pedro comercializa grande parte dos peixes nobres e crustáceos procedentes de outros trechos da costa fluminense (Niterói, Perfil de uma Cidade,1999, p.255), situação que vem se acentuando nos últimos dez anos. Duas colônias de pescadores ainda permanecem ativas, com certo grau de organização, entre elas a Z-8, na área de Jurujuba. Contudo, o pescado que comercializam, extraem de outros locais distantes da baía e das enseadas. Os poucos pescadores que ainda buscam algum pescado na área de estudo, adotaram a pesca predatória, que reduz ainda mais o estoque pesqueiro, já em estado crítico, principalmente nas enseadas ainda não tão poluídas, como a praia de Adão e de Eva, e junto às pequenas ilhas, que constituem criadouros naturais de espécies marinhas. Em Jurujuba encontra-se também o Centro de Beneficiamento Comunitário de Mexilhões, que conta com a orientação técnica e controle sanitário do Departamento de Tecnologia do Pescado e Derivados da Universidade Federal Fluminense, garantindo uma melhor qualidade do produto. 3.2.1. Perna perna O mexilhão ainda é encontrado em algumas praias, tais como Boa Viagem, Praia das Flechas e nas praias de Eva, no final de Jurujuba, mas desapareceu das praias de Icaraí a Jurujuba, pela pesca predatória e devido ao alto grau de poluição pontual, como nas áreas próximas às desembocaduras dos canais de esgoto. Embora o mexilhão seja um animal filtrador e tenha grande resistência à poluição, o fato de não ser Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 encontrado nos referidos pontos, sugere que haja um alto grau de contaminação nessas áreas. A quantidade de coliformes na água permissíveis para o cultivo ou para a área de extração de mexilhões, de acordo com a resolução SERPA-SC nº 97/1988, para o Brasil é a seguinte: NMP* = inferior a 70 coliformes fecais/100 mL - área livre para cultivo e coleta. NMP = 70 a 700 coliformes fecais 100 mL - área limitada, sendo indispensável o tratamento dos bivalves através de depuração. NMP = acima de 700 coliformes fecais/ 100 mL - área proibida para cultivo e extração. (* NMP = Número Mais Provável) Esta mesma resolução cita ainda que “para verificação da eficiência da depuração, os limites microbiológicos na carne dos moluscos, devem ser inferiores a 230 NMP de coliformes fecais por 100g de carne e contagem total de bactérias inferior a 5 x 105 UFC (Unidade Formadora de Colônia) por grama. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) através da portaria nº 45 de 19 de setembro de 1997, considera o índice de coliformes fecais igual a 10.000 como o número mais provável (NMP) por 100g ou 102 g-1, aprovado para consumo tanto in natura, defumado ou pré-cozido, enquanto que a Legislação Internacional é muito mais restritiva. Nos Estados Unidos e no Japão, o índice máximo de coliformes fecais, nesses alimentos, permitido para o consumo é de 230 NMP/100g (Secretaria de Saúde do Japão, 1967, apud AKABOSCHI et al, 1976; EPA, 1976). O Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, através da Resolução CONAMA Nº 20, de 1986, no seu Art.8º - para as águas de Classe 5 ( águas salinas, destinadas à recreação de contato primário, à proteção das comunidades aquáticas, à criação natural e/ou intensiva de espécies destinadas à alimentação humana) - estabelece os limites ou condições ( entre outras) seguintes: → coliformes para o uso de criação natural e/ou intensiva de espécies destinadas à alimentação humana e que serão ingeridas cruas, não deverá ser excedida uma concentração média de 14 coliformes fecais por 100 mL, com não mais de 10% das amostras excedendo 43 coliformes fecais por 100 mL. Os resultados microbiológicos, referentes às amostras analisadas, revelaram os seguintes índices de contaminação: Tabela 1. Contaminantes industriais na área de estudo. Produto Químico Doenças Possíveis -Leucemia aguda -Deficiência de ferro Cobre -Anemia -Hipertireoidismo -Neoplasias de hematócitos Zinco -Hipertensão arterial Cádmio -Dano cerebral Chumbo -Alteração da função renal -Anemia -Dano cerebral Mercúrio -Senilidade precoce Mexilhões in natura, oriundos da praia das Flechas: Coliformes Totais = 3.300 NMP / 100 g Coliformes Fecais = 1.100 NMP / 100 g Mexilhões pré-cozidos, oriundos da praia das Flechas: Coliformes Totais = 2.300 NMP / 100 g Coliformes Fecais = 500 NMP / 100 g Mexilhões in natura, oriundos da praia de Adão: Coliformes Totais = 2.200 NMP / 100 g Coliformes Fecais = 1.100 NMP / 100 g Analisando os resultados obtidos, em relação à Legislação Internacional, quanto aos índices elevados de coliformes totais e fecais, os mexilhões oriundos dos locais de estudo estão condenados e impróprios para o consumo. Contudo, a legislação do Ministério da Saúde do Brasil permite o consumo dos mexilhões analisados. Com base nos resultados preliminares do presente trabalho e na literatura específica, questionase aqui o índice de coliformes presentes no pescado aceito por esta legislação. Em áreas como Icaraí, Charitas e Jurujuba os índices de contaminação e poluição parecem contribuir para inviabilizar a sobrevivência de moluscos. A extinção dos moluscos das áreas especificadas tem como principal causa o baixo índice de oxigênio dissolvido na água (DBO), pois estes, em geral, suportam elevados índices de poluentes, mas a presença do mexilhão é limitada pela quantidade de oxigênio dissolvido presente na água (Bayne, 1967). As principais doenças causadas ao homem pelo acúmulo de metais pesados, através da ingestão de mexilhões e outros moluscos oriundos de áreas/águas contaminadas por efluentes industriais, aparecem na Tabela 1 acima. Em todos os casos, o controle poderia se dar pelo tratamento de efluentes industriais. 113 Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 Tabela 2. Entrevistas com os comerciantes do mercado São Pedro Niterói/RJ, em 29/08/02. Box Origem do pescado que vende? A* Só vende mercadoria de Cabo Frio e Angra dos Reis Muito pouco de sardinha, tainha e corvina. Às vezes siri, caranguejo (do manguezal), anchova e camarão, mas não comercializa. Havia muita sardinha e manjubinha. B De fora. Quase nada da baía. Às vezes tem espada e sardinha. Havia há 6-7 anos: pescada, robalo e pampo-amarelo; há 15-20 anos: marimba, cioba, guairá, , piraúna, enxada, pejupirá. Quando tem, é peixe-espada e cocoroca. Já teve muita variedade. Até lagosta. De julho a dezembro, dá camarão cinza (é pescado na altura da Ilha do Governador) Já teve muita anchova C D A maioria de alto-mar. Da baía, é muito raro. A maioria de alto-mar. Da baía, é muito raro. Vende, pescado da Baía de Guanabara. Qual? E Da baía, só uma espécie. Só peixe-espada, que dá o ano todo. O resto é de alto-mar. F Mexilhão de Itaipu (região oceânica de Niterói) Disse que o mexilhão de Boa Viagem vai para SP Pescado da Baía de Guanabara que hoje já não vende mais? De 20 anos para cá viu muitas espécies sumirem, como tainha, marimba, piraúna cocoroca, e cioba (que agora só tem na Bahia). Tinha também lula branca grande. Badejinho (não vende). Vende camarão-cinza, da Baía de Guanabara (vão central da ponte Rio-Niterói). Para ele, é o melhor camarão que existe no Brasil e embora estando em local poluído, não fica contaminado. Da Ilha das Cagarras e da Ilha Redonda vêm polvos e lulas. Mexilhão de Itaipu Camarão de Sta Catarina * Para manter a privacidade dos comerciantes, os números dos boxes onde trabalham foram substituídos por letras. G 3.2.2. O pescado, suas características e incidência. O peixe é um vertebrado aquático por excelência; toda a sua estrutura e todas as suas funções achamse identificadas com esse tipo de ambiente: a forma hidrodinâmica, os movimentos oscilatórios do corpo, o tipo de respiração, o tipo de visão e, principalmente, todas as estruturas e atividades relacionadas com a reprodução constituem as características típicas de um animal que vive em um ambiente denso, pouco sujeito às bruscas oscilações térmicas, pouco permeável à luz, e onde o alimento se acha uniformemente distribuído. A quebra da sinergia ambiental na área de estudo alterou as propriedades físicas, químicas e biológicas da água, o que ocasionou a drástica redução do potencial pesqueiro ali outrora existente. Alguns peixes, por não mais encontrarem condições de sobrevivência e manutenção da espécie, migraram para regiões menos inóspitas, o que modificou a cadeia alimentar, com graves conseqüências para o equilíbrio ecológico. A poluição da água pode ser conceituada como: "o lançamento e a acumulação nas águas dos mares dos rios, dos lagos e demais corpos d´água, superficiais ou subterrâneos, de substâncias químicas, físicas ou biológicas que afetem diretamente as características naturais das águas e a vida ou que 114 venham a lhes causar efeitos adversos secundários. A adição, às águas, de esgotos, despejos industriais ou outro material perigoso ou poluente, em concentrações ou quantidades que resultem em degradação mensurável da qualidade da água. As águas poluídas, além de constituírem perigo à saúde da população, geram influências deletérias e negativas sobre as plantas e animais aquáticos. Em entrevistas realizadas com os pescadores locais e os vendedores de peixe do Mercado São Pedro, que é um entreposto pesqueiro localizado no centro de Niterói, e responsável pelo abastecimento dessa cidade, da cidade do Rio de Janeiro e até de alguns outros Estados brasileiros, constatou-se a ausência de determinadas espécies que eram muito comuns e abundantes na região até bem pouco tempo atrás (Tabela 2). Tais dados, foram confirmados analisando-se os registros de desembarque do pescado, fornecido pelo Instituto de pesca do RJ (FIPERJ). Destaca-se na tabela 2 as espécies que já foram abundantes no passado, na Baía de Guanabara e que escassearam ou até mesmo, que desapareceram. 4. CONCLUSÕES E SUGESTÕES Diante do elevado aporte de poluentes domésticos e industriais nos rios Icaraí e São Francisco Mundo & Vida vol. 3 (2) 2002 e nas praias analisadas, o processo de eutrofização e poluição a jusante dos rios e nas enseadas das praias de Icaraí, São Francisco, Charitas e Jurujuba, a extinção de espécies marinhas e a redução drástica do estoque pesqueiro é uma conseqüência lógica. Pelo elevado índice de contaminação encontrado nos mexilhões, há evidências que a água na área dos bancos naturais de mexilhões também deve estar contaminada. No presente trabalho não foi possível diferenciar as bactérias autóctones (associadas ao ambiente marinho) das alóctones (provenientes de outras fontes de contaminação), em função do processamento rudimentar dos mexilhões pelos catadores. Assim sendo, sugerimos o desenvolvimento da maricultura sustentável como alternativa para a preservação de espécies economicamente importantes nativas da Baía de Guanabara. O estabelecimento de fazendas marinhas em locais com baixo índice de poluição podem constituir uma alternativa econômica e ambientalmente recomendável para os pescadores e catadores de mexilhões do local de estudo (PAULS, 2000). Outra sugestão se refere à criação de reservas extrativistas (espaços territoriais destinados à exploração auto-sustentável e à conservação dos recursos naturais renováveis por populações extrativistas MAGRO et al., 2000). Cientistas, técnicos e pesquisadores de um modo geral, defendem a criação de reservas extrativistas e o desenvolvimento de uma política de incentivo aos cultivos marinhos, considerando esta alternativa uma das grandes soluções para o problema da carência de proteína de alto valor nutritivo e relativo baixo custo de produção. Iniciativas nesse sentido podem ser exemplificadas pela criação, em 1992, da Associação Livre de Maricultores de Jurujuba – ALMARJ (TEPER, 1998), pelos trabalhos desenvolvidos em Santa Catarina (MAGALHÃES & FERREIRA, 1997) e pelo Programa Nacional de Apoio ao Desenvolvimento do Cultivo de Moluscos Bivalves Animais, (PROENÇA, 2001). Contudo cabe frisar que os animais, monitorados e cultivados, para serem economicamente viáveis, devem apresentar um índice de qualidade e sanidade recomendada pela Legislação Internacional. 5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AKABOSHI S, BASTOS AA, SINKE C. 1976. Nota sobre as técnicas de depuração de ostras para comercialização. São Paulo, SITC, vol.1, pp. 1-20. ALPHA – American Public Health Association. 1998. Microbiological examinations of water. In: Standard Methods for Examination of Water and Wastewater. 20th , Washington, DC. BAYNE BL. 1967. The respiratory response of Mytilus perna (Linné) (Mollusca: Lamellibranchia) to reduce environmental oxygen. 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