ANALÍTICA AVANÇADA – 1S 2015 Aulas 5 Preparo de Amostras (Continuação) Prof. Rafael Arromba de Sousa Departamento de Química - ICE [email protected] Notas de aula: www.ufjf.br/baccan CONTEÚDO Considerações sobre amostragem Preservação de amostras Tratamentos preliminares Tratamentos convencionais (dissolução, abertura, digestão, ...) Detalhes sobre o preparo de amostras para determinações inorgânicas Detalhes sobre o preparo de amostras para determinações orgânicas Exemplos de procedimentos de preparo de amostra 2 ÚLTIMO SLIDE: Digestão de Amostras em Frasco Aberto Características: - Aplica-se a todos os tipos de amostras, exceto sólidos refratários - Permite o uso de quantidades “flexíveis” de amostra ... - Geralmente demora horas e consome quantidades relativamente favorece a preconcentração de impurezas grande de reagentes - Exige supervisão constante do analista ... - Favorece a perda de analitos voláteis 3 Decomposição de Amostras em Sistemas Fechados Teor de carbono residual em amostras decompostas com HNO3 em sistemas abertos podem variar de 2 a 46% ! Pode ser melhorado: decomposição sob pressão em temperaturas acima de 120 oC Digestão em bombas de alta-pressão com frascos de PTFE: Frasco de teflon (160 – 200 oC) Cilindro de aço (mais comum) Aquecimento - Chapa - Estufa termostatizada 4 Digestão de Amostras em Frasco Fechado Características: - Aplica-se a todos os tipos de amostras, com a limitação de uso de massas de amostras relativamente pequenas - Geralmente demora menos que 3 horas e consome quantidades pequenas a moderadas de reagentes Elevada frequencia analítica Adequada à análise de “traços” - Possibilita utilizar apenas HNO3 ou HNO3 e H2O2 - A perda de analitos voláteis é geralmente desprezível 5 Recursos para Digestão de amostras em Frasco Fechado i ii iii Bombas de alta pressão a i) Digestão “convencional” ii) Digestão em MW -------iii) Digestões por combustão Microondas (MW) de laboratório b (a) www.paralab.pt/client/documentos/portuguese/parr/SamplePrep.pdf (b) Existem também modelos para se trabalhar com frascos abertos (microondas focalizado).Vantagem: maior quantidade de amostra. Desvantagem: não compatível com analitos voláteis 6 Condições para digestão em bombas de alta-pressão com PTFE Parâmetros experimentais Temperatura Valores médios 170 – 180 oC Massa de amostra (frasco de 35 mL) Correspondente a 100 mg C Pressão final 20 bar Tempo de decomposição 3 h (na temperatura de digestão) Ácido nítrico (65 – 69%) 2 mL EMBORA os sistemas tenham válvulas de alívio de pressão amostras que liberam muita quantidade de gases (gorduras) devem ser digeridas com cuidado ! Algumas amostras não são completamente decompostas... 7 Decomposição de Amostras em Sistemas Fechados Digestão em bombas de alta-pressão com frascos de quartzo: - Possibilidade de se usar temperaturas de até 300 oC “High Pressure Asher” (HPA) Equilíbrio de pressões - Resultados: satisfatórios em geral, inclusive para determinar As, Hg, P, S, Se - SE necessário o digerido pode ser evaporado para eliminar vapores nitrosos dissolvidos 8 Decomposição de Amostras em Sistemas Fechados Digestão em bombas de alta-pressão com frascos de quartzo: 9 Condições para digestão em bombas de alta-pressão com quartzo Parâmetros experimentais Temperatura Valores médios 320 oC (300 oC no inteior) Massa de amostra (frasco de 30 mL) Correspondente a 100 mg C** Pressão final < 100 bar Tempo de decomposição de até 3 h (na temperatura de digestão) Ácido nítrico (65 – 69%) 2 mL ** Massas maiores PODEM ser usadas SE a digestão puder ser realizada em temperaturas menores, na ordem de 180 oC. 10 Decomposição de amostras em Sistemas Fechados O equipamento de microondas: Exaustão (caso vazamentos) Sensores para monitorar temperatura e/ou pressão Controlador computadorizado Porta “reforçada” e projetada para não abrir 11 Digestão assistida por microondas ? • Microondas são radiações do espectro eletromagnético • Região de comprimentos de onda: 1mm a 1m e freqüências de 300 a 30000 MHz • Freqüências para usos industrial, médico e cientifico: 915 MHz, 2450 MHz, 5800 MHz e 22125 MHz, estabelecidas pela Comissão Federal de Comunicações - FCC (USA) Correspondência entre Radiação e Energia 12 Digestão assistida por microondas CARACTERÍSTICAS DAS MICROONDAS • Microondas não são radiações ionizantes • A energia das microondas é muito menor que a energia necessária para quebrar as ligações das moléculas orgânicas mais comuns • Potência: faixa 500 – 1500 W de trabalho geralmente entre 13 Digestão assistida por microondas CARACTERÍSTICAS DAS MICROONDAS • Equipamentos utilizam programas de aquecimento: • Temperatura x Tempo OU • Potência x Tempo • Frascos reacionais: vidro quartzo (até 12 Mpa) teflon (até 7 Mpa) politetrafluoretileno Obtenção do material PTFE. www.masterflex.com/TechLibraryArticle/828; acessado 06-07-14 14 Digestão assistida por microondas CARACTERÍSTICAS DAS MICROONDAS Materiais podem refletir, absorver ou não absorver microondas • Os líquidos absorvem energia de microondas modificando: • Rotação de dipolo • Condução iônica Aumento da temperatura 15 Digestão assistida por microondas CARACTERÍSTICAS DAS MICROONDAS ENTÃO: a absorção das microondas depende da: • Constante dielétrica ε’ Capacidade de uma molécula ser polarizada por radiação eletromagnética • Perda dielétrica ε” Eficiência de conversão da energia da microonda em calor • Fator de dissipação, tan δ (razão ε”/ ε’) Habilidade do material em absorver energia das microondas, convertendo a energia da onda eletromagnética em calor 16 Digestão assistida por microondas CARACTERÍSTICAS DAS MICROONDAS Taxa de conversão de energia de microondas (tan δ) em diferentes materiais Material tanδ (x10-4) Material Água Quartzo fundido Cerâmica F-66 Porcelana No 4462 Vidro fosfato Vidro borossilicato Vidro Corning No 0080 Acrílico (Plexiglass) Nylon 6-6 Polietileno Poliestireno Teflon PFA Temperatura tan δ 25 25 25 25 25 25 25 27 25 25 25 25 1570 0,6 5,5 11 46 10,6 126 57 128 3,1 3,3 1,5 17 Tipos de microondas para digestão de amostras Sistema de microondas não focalizadas (“cavity-type”) Alguns exemplos: - Milestone - CEM - AntonPaar - Berghof, ... 18 Sistema de microondas não focalizadas (“cavity-type”) Proteção de cerâmica Frasco Teflon Camisa para alta pressão Sistema nacional (Provecto) 19 Sistema de microondas não focalizadas (“cavity-type”) Com o forno de microondas “carregado” com os frascos Aplica-se um programa de temperatura: Adequado para cada tipo de amostra Realizado em etapas (com durações diferentes): - Aquecimento brando (rampa lenta) - Aquecimento em temperatura alta (tempo determinado) - Resfriamento (dentro e/ou fora do MW até o digerido atingir a T ambiente) 20 Condições para digestão assistida por micro-ondas ? Parâmetros experimentais Valores médios Temperatura ou Potência Dependem da amostra e do equipamento (verificar manuais) Massa de amostra Em geral até 500 mg Tempo de decomposição Menos de 1 h Reagentes 1) HNO3 + H2O2 2) H2SO4 + H2O2 3) HNO3 + HCl 1) Plantas, tecidos animais e alimentos 2) Óleo lubrificante, PVC, poliamidas, poliésteres e alimentos gordurosos 3) Metais, ligas metálicas e para extração em solos e sedimentos 21 Sistema de microondas não focalizadas (“cavity-type”) SEGURANÇA: monitoração do interior dos frascos: Temperatura (oC) Ex.: 10 mL de HNO3 em 6 frascos de Teflon TFM fechados, aplicando-se 600 W por 15 min: 250 30 200 25 20 150 15 100 10 50 5 0 0 1200 0 300 600 900 Tempo (s) A pressão de vapor gerada no interior dos frascos aumenta a temperatura de ebulição do HNO3 22 Aquecimento por microondas em sistema fechado VANTAGENS • Reduz erros sistemáticos e obtêm-se menores limites de detecção • Não há perdas de analitos • Reduz contaminações • Possibilita menor consumo de ácidos • Maior pressão maior temperatura decomposição apenas com HNO3 • Reduz custos • Diminui o consumo de ácidos ultrapuros (caros) • Minimiza impactos ambientais LIMITAÇÕES • Alto custo do equipamento (Berghof SW4: € 30000,00 final 2012) • Baixa frequência analítica comparado aos blocos digestores 23 Tipos de microondas para digestão de amostras Sistema com microondas focalizadas (“waveguide-type’’) 24 Sistema com microondas focalizadas (“waveguide-type’’) Tubos de digestão Ex de um forno de microondas que permite a realização de 6 digestões diferentes Equipamentos com diferentes configurações instrumentais 25 podem ser encontrados Forno de Microondas Focalizado • Trabalha à pressão atmosférica • Mais seguro, mas requer condições mais drásticas de reação (uso de H2SO4) • Permite uso de até 10 g de amostras • Permite adição automática de ácidos e/ou solventes orgânicos • Ideal para amostras com alta concentração de orgânicos • Vantagens em relação à chapa e bloco digestor • Permite melhor controle de temperatura e consequentemente melhor controle da reação • Sistema de refluxo volatilização reduz contaminação e perdas por 26 Digestão assistida por microondas Frasco adequado + Reagentes apropriados + Programa de aquecimento adequado Decomposições eficiente Orgânicos Inorgânicos (incluindo refratários) 27 Métodos convencionais para o preparo de amostras Digestão x Dissolução Digeridos de fígado, rim, coração, pulmão, fêmur e baço Solubilizados de fígado, rim, pulmão e baço Para amostras de solos, sedimentos, plantas e tecidos animais a obtenção de uma suspensão/solução de amostra não implica, necessariamente, em uma amostra devidamente digerida e sim solubilizada (total ou parcialmente) 28 Métodos convencionais para o preparo de amostras Dissolução x Digestão Outro exemplo de solubilização alcalina (TMAH): B A Tecido “tumoral” de seio Tecido “normal” de seio 1 2 A coloração da solução “1” se deve ao elevado teor de gordura da amostra A 29 Preparo de amostras para determinações Inorgânicas Para “casa”: LEITURA Oliveira, E. “Sample Preparation for Atomic Spectroscopy: Evolution and FutureTrends”; J. Braz. Chem. Soc. 14 (2003) 174 Nóbrega, JA; Santos, MC; Sousa, RA et al. “Sample preparation in alkaline medium”, Spectrochim. Acta B, 61 (2006) 465. Para “casa”: QUESTÕES 1) Liste as principais características da digestão em vaso aberto e da digestão em sistema fechado. 2) Considerando que um outro tipo de digestão ácida é a digestão sulfúrica usada para a determinação de nitrogênio pelo método de Kjeldhal, descreva como esse método funciona. 30 d) MÉTODOS DE EXTRAÇÃO (determinações em geral) Extração líquido-líquido Baseada na diferença de solubilidade entre duas substâncias em relação A DOIS SOLVENTES, geralmente água e um solvente orgânico Transferência de um soluto de uma fase para a outra funil de separação Sistema DESCONTÍNUO (batelada) - Técnica simples - Temperatura ambiente - A substância separada ainda pode ser tratada (purificada, pré-concentrada, etc) 31 Uso: separação e purificação de substâncias Substâncias mais polares ou iônicas fase aquosa Substâncias mais apolares fase orgânica ASPECTOS FÍSICO-QUÍMICOS: Coeficiente de Partição (KD) É a constante de equilíbrio para a solubilidade de um composto em um solvente “1” em relação a um solvente “2”: KD= C1/C2 C1 e C2 são as solubilidades do composto nos solventes “1” e “2” Número alto de KD: grande parte do soluto irá ser transferida para o solvente “1” Eficiência da extração Lei da distribuição de Nernst prevê: Mesmo em casos onde KD é bastante alto, é mais eficiente se realizar sucessivas extrações usando volumes pequenos, em vez de uma única extração com a soma dos volumes 32 Extração sólido-líquido (mais efetiva para substâncias inorgânicas) Uma das fases é um sólido, onde se encontra o soluto (analito) Uma ou mais substâncias vão passar para a fase líquida Ex cotidiano: Preparação de bebidas como chá e café Extrator de Soxhlet (1879): Solvente destilado (eventualmente) contendo substâncias voláteis extraídas Sólido + solvente + substâncias extraídas Ex. indústria: análise inorgânica de solos e fertilizantes (elementos minerais e ânions) 33 Extração líquido-sólido (usada majoritariamente para analitos orgânicos) Extração por purga ou aprisionamento Microextração em fase sólida (SPME) I N J E T O R G C Condições experimentais : temperatura, agitação e tempo de extração (a serem avaliados) 34 Equipamentos auxiliares para o Preparo de amostras Extração Dissolução Homogeneização Banhos de ultrasom A posição do frasco de amostra influencia na eficiência do processo Agitador e misturador 35 Preparo de amostras para determinações orgânicas LEITURA recomendada - NOVÁKOVÁ, L.; VLČKOVÁ, H. A review of current trends and advances in modern bio-analytical methods: Chromatography and sample preparation. Analytica Chimica Acta, v.656, p.8-35, 2009. - KATAOKA, HH. New trends in sample preparation for clinical and pharmaceutical analysis. Trends in Analytical Chemistry, v.22, p.232-244, 2003. - MARTIN, G.; M.; BOUVIER, E.S.P.; COMPTON, B.J. Advances in sample preparation in electromigration, chromatographic and mass spectrometric separation methods. Journal of Chromatography A, v.909, p.111-135, 2001. 36 5) Exemplos de procedimento de preparo de amostra 1) Amostra de ÁGUA Determinação de metais Coleta Filtração (0,45 µm) Acidificação Acidificação - fração líquida* Digestão ou Análise direta Resultados *metais “dissolvidos” metais “totais” 37 Exemplos de procedimentos de preparo de amostras Amostra de ÁGUA Determinação de metais Digestão pelo Método EPA 3015 1) Adicionar em frasco de digestão - 45 mL de amostra - 5 mL de HNO3 conc. 2) Agitar vagarosamente a mistura 3) Fechar o frasco e introduzi-lo no rotor do MW 4) Submeter a amostra ao seguinte programa de aquecimento: - 10 min até 160 oC - 10 min até 165 oC 5) Após o frasco resfriar, abri-lo e, se necessário, realizar a diluição do digerido 6) Armazenar a amostra em frasco de plástico limpo e analisar a solução de amostra 38 6) Considerações sobre segurança no laboratório Massas elevadas de amostras maior que 0,5 g são inadequadas para sistemas fechados devido levarem à formação de grande quantidade de vapor A abertura dos frascos fechados, após a digestão, deve ser feita após os mesmos voltarem à temperatura ambiente e preferencialmente na “capela” A adição de H2O2 em frasco aberto deve ser feita a frio A reação de ácidos fortes com amostras finamente divididas são geralmente muito rápidas... 39 Considerações sobre segurança no laboratório Materiais muito reativos ou em quantidades relativamente elevadas podem ser pré-digeridos antes do início do procedimento a ser adotado ~ 0,25g de fígado (triturado) reage instantaneamente com HNO3 conc. Preferir equipamentos com controle de pressão Ácido fluorídrico é rapidamente absorvido pela pele e causa queimaduras profundas de forma lenta e de difícil remediação (para lembrar...) 40 7) Alguns tópicos para aprofundamento e leitura Contaminações da amostragem e estocagem Hoening, M.; Kersabiec, AM. “Sample Preparation Steps for Analysis by Atomic pectroscopy Methods: Present status”; Spectrochim. Acta B 51 (1996) 1297 Contaminações durante a análise de traços S. Mitra. Sample Preparation Techniques in Analytical Chemistry; John Wiley & Sons, Inc., 2003 CONTEXTO: determinações de metais, compostos orgânicos voláteis PRINCIPAIS FONTES: poeira e atmosfera ambiente, reagentes, frascos e materiais que entram em contato com a amostra 41 8) Considerações “finais” Validação do procedimento de preparo de amostras Utilizar amostras de referência (preferencialmente amostras de Referência Certificadas) Comparar resultados analíticos com aqueles obtidos com métodos de referência ou oficiais (testes estatísticos) Participar de Ensaios Interlaboratoriais 42 Referências consultadas 1) D. A. Skoog, D. M. West and F. J. Holler. Fundamentals of Analytical Chemistry; 7th Ed., Thomson Learning, 1996. 2) Hoening, M.; Kersablec, A. M. “Sample Preparation Steps for Analysis by Atomic Spectroscopy Methods: Present Status”, Spectrochim. Acta B, 51 (1996) 1297-1307. 3) J. Mendham, R. C. Denney, J. D. Barnes, M. Thomas. Vogel Análise Química Quantitativa; 6a ed., LTC, 2002. 4) S. Mitra. Sample Preparation Techniques in Analytical Chemistry; John Wiley & Sons, Inc., 2003. 5) Leite, F. “Amostragem Analítica em Laboratório”; Rev. Anal. 3 (2003) 52-59. 6) Oliveira, E. “Sample Preparation for Atomic Spectroscopy: Evolution and Future Trends”; J. Braz. Chem. Soc. 14(2003) 174182. 7) Borowski, K. Tips and Techniques for Ethos Series Microwave Lab Stations; Milestone Inc., 2003. 8) D. C. Harris. Análise Química Quantitativa; 7a ed., LTC, 2008. 9) F. J. Krug. Métodos de preparo de amostras: fundamentos sobre o preparo de amostras orgânicas e inorgânicas para análise elementar; 1ª ed., 2010. 10) Notas de aula do Prof Júlio César José da Silva, do DQ/ UFJF (www.ufjf.br/baccan). 43