Estudo da influência de processos de envelhecimento nas propriedades
de aderência de uma argamassa-cola
Júlio C. Longo
CICECO, Universidade de Aveiro, longo.jc@ gmail.com
Olga Barros
Saint-Gobain Weber, [email protected]
Ana Barros Timmons
CICECO, Universidade de Aveiro, [email protected]
Luis Silva
Saint-Gobain Weber, [email protected]
J.A. Labrincha
CICECO, Universidade de Aveiro, [email protected]
V. M. Ferreira
CICECO, Universidade de Aveiro, [email protected]
Resumo: Com o objectivo de avaliar parâmetros que possam afectar a durabilidade de um
cimento-cola, procedeu-se a um conjunto de ensaios laboratoriais que reflictam a
influência dos mesmos nas propriedades da argamassa.
Para o efeito, estudou-se a influência de factores ou fenómenos como a temperatura,
humidade, raios ultravioleta, carbonatação, sais, entre outros, nas propriedades de uma
argamassa-cola tipo C2, nomeadamente, ao nível da resistência por tracção perpendicular.
Adicionalmente, fez-se uma avaliação mais pormenorizada de tal influência sobre a
componente orgânica da argamassa de fixação.
Palavras-chave: Argamassa-cola; condições de envelhecimento; humidade; calor; copolímero EVA.
1. INTRODUÇÃO
O início da utilização de cerâmica como revestimento data de 2700 A.C. no Egipto e,
desde então, a sua influência foi sendo progressivamente mais forte, tendo tido um papel
relevante na cultura islâmica, com o seu apogeu nos séculos XIX e XX e uma evolução
significativa nos nossos dias em termos de tipos, formas e utilizações [1]. Em Portugal, a
sua utilização merece especial destaque por constituir soluções para interiores, como
revestimentos de paredes de cozinhas, de instalações sanitárias e outros, mas também pela
sua utilização em revestimento de fachadas. Entre alguns factores que têm influenciado
esta opção, destacam-se a valorização dos edifícios, a durabilidade, vasta funcionalidade e
agradável efeito estético [2-4].
Por tudo isto, assistiu-se a um grande desenvolvimento da indústria cerâmica e dos
processos de fixação dos ladrilhos cerâmicos. Contudo, as exigências de fixação
tornaram-se progressivamente mais exigentes o que implica, no mínimo, um
acompanhamento ao mesmo ritmo dos sistemas de fixação, caso contrário, o resultado
pode ser o aparecimento sucessivo de patologias associadas ao destacamento das peças
cerâmicas [5]. Por isso, tal desenvolvimento tem implicado a transformação do cimentocola simples, apenas com cimento como material ligante, para colas de ligantes mistos,
isto é, com base em formulações com uma componente mineral, obtida a partir do
cimento, e uma componente orgânica, obtida a partir da adição de polímeros.
Adicionalmente, os valores de tracção perpendicular deixaram de ser exclusivamente
responsáveis pela decisão de escolha de um produto, sendo acompanhadas, especialmente
na aplicação em fachadas, pela análise de deformação dos materiais.
Contudo, ainda que se tenha caminhado no sentido de um aumento progressivo das
propriedades associadas aos cimentos-cola, o resultado não tem sido, infelizmente, o mais
desejado, dado que se tem observado um conjunto de patologias, especialmente
associadas à aplicação em fachada. Por se tratar de uma questão de resolução difícil,
assumem-se inúmeras restrições à fixação de elementos cerâmicos em fachada que
passam por parâmetros como a altura da aplicação dos cerâmicos, o formato e tipo dos
mesmos, entre outros [6,7].
Alguns autores, justificam as patologias de destacamento, essencialmente do ponto de
vista mecânico, já que um sistema complexo, composto por ladrilhos cerâmicos,
argamassa-cola, suporte e produto de preenchimento de juntas, está sujeito a um conjunto
de variações dimensionais capaz de gerar restrições de movimentos e, por conseguinte,
uma concentração de tensões de compressão, tracção ou corte, cujo resultado pode ser o
destacamento do revestimento por várias interfaces possíveis. Outras justificações, passam
pela indicação de problemas associados à aplicação dos materiais, que condicionam a
colocação em perfeitas condições, para se obter máximo desempenho [8-10].
Uma alternativa de análise pode passar, no entanto, por possíveis alterações químicas e
estruturais na argamassa-cola, já que na sua constituição, existem componentes que
podem sofrer alterações químicas ou físicas, em função de exposição a condições
favoráveis às mesmas [11,12]. Neste contexto, o trabalho em curso pretende apresentar
um estudo sobre a influência de algumas variáveis na estrutura da argamassa-cola. Entre
estas, destaca-se os efeitos da temperatura, da água, dos raios ultravioletas (U.V.) e de sais
solúveis. A análise da sua influência compreende a medição dos valores de tracção
perpendicular e análises da componente orgânica da argamassa, por extracção química,
análise térmica gravimétrica e diferencial (TG/ATD) e por espectroscopia no
infravermelho (IV) e espectroscopia de ressonância magnética nuclear de protão
(1HRMN).
2. MATERIAIS
A formulação de argamassa-cola testada consiste numa mistura de ligantes minerais e
orgânicos, agregados e adjuvantes para conferir propriedades específicas, de acordo com o
indicado na tabela 1. A mistura apresentada é, posteriormente, amassada com água, numa
proporção de 25ml H2O para 100g de pó, de acordo com as normas EN 12004 e EN 1348.
Tabela 1. Constituição da argamassa-cola em análise
Constituinte
Características gerais*
% (em massa)
Cimento cinza
I, 42.5
45
Areia
0.080-0.630 mm
49.53
Metil hidróxi etil
celulose
Viscosidade: aprox.
15000 mPa.s
0.47
Poli(etileno-co-acetato
de vinilo) EVA
Tg: +16 ºC
5
*dados do fornecedor
Preparam-se uma série de provetes que, após 28 dias sob condições de cura padrão, foram
submetidos às seguintes condições de envelhecimento, tal como abaixo se descreve:
a) 28 dias condições padrão
Por condições padrão consideram-se aquelas relativas na norma EN 1348, para
argamassas-cola: humidade relativa (Hr) (55%) e temperatura (23 ºC).
b) n ciclos de imersão em solução salina de cloretos;
As amostras foram imersas numa solução aquosa de cloreto de sódio (0.1M) durante 24
horas e, posteriormente, secas em estufa ventilada (70 ºC) por igual período de tempo.
Seguidamente, as amostras foram então sujeitas a ciclos diários de 12 horas a 90 % Hr e
12 horas a 60 % Hr a uma temperatura constante de 23 ºC. Para cada conjunto de ciclos
registou-se o valor de tracção e o estado de integridade das amostras.
c) n ciclos de imersão em solução salina de sulfatos;
As amostras foram imersas numa solução aquosa de sulfato de sódio (0.1 M) durante 2
horas e, posteriormente, secas em estufa ventilada (70 ºC) durante 22 horas.
Para cada conjunto de ciclos registou-se o valor de tracção e o estado de integridade das
amostras.
d) condições de carbonatação;
As amostras foram inseridas numa câmara com 90% de Hr e 0.15 atm de CO2. Em função
do tempo de exposição, realizaram-se ensaios de tracção perpendicular e avaliou-se o
estado de integridade das amostras.
e ) exposição a radiação de raios U.V.;
As amostras foram expostas a raios U.V., com uma potência de 1600 W, durante um
período de 5 horas, seguido de 19 horas em condições padrão.
3. ENSAIOS REALIZADOS
Os primeiros ensaios consistiram na determinação da aderência por tracção perpendicular,
para avaliação da propriedade que define a eficiência da argamassa-cola.
Tendo em conta a sensibilidade da componente orgânica às condições de
cura/envelhecimento testadas complementarmente, recolheram-se amostras da argamassacola após exposição às várias condições de envelhecimento e procedeu-se a um conjunto
de análises, com particular interesse na componente orgânica da argamassa.
3.1. Ensaios de caracterização da argamassa
a) De acordo com a norma EN 1348 e EN 12004: após a amassadura, preparam-se os
provetes de ensaio, relativamente à aderência por tracção perpendicular, igualmente de
acordo com a EN 1348, para aderência (a) inicial, (b) após imersão, (c) após
envelhecimento por calor e (d) ciclos de gelo-degelo [13].
b) Extracção química
As amostras de argamassa-cola endurecida, em condições de cura padrão e envelhecidas,
de acordo com os procedimentos indicados na secção 2, foram submetidas a uma
extracção Shoxlet utilizando acetato de etilo como solvente. O objectivo desta etapa é
duplo: (i) determinar a massa de polímero extraída/removido e compará-la com a massa
inicial de polímero utilizada na preparação da argamassa (i.e. determinar a percentagem
de massa de polímero que se conseguiu remover cujos resultados são expressos em
percentagem de massa, calculada relativamente à massa inicial da amostra.); (ii) isolar a
componente orgânica para posterior caracterização.
c) Análise térmica gravimétrica e diferencial (TG/ATD)
As amostras foram submetidas às análises térmicas, num equipamento LABSYS
TGA/DSC, modelo SETARAM Netzsch STA 409EP, que permite a realização simultânea
da análise térmica diferencial e gravimétrica. Procedeu-se à moagem manual prévia, da
amostra, usando um martelo coberto por alumínio para evitar contaminação e,
seguidamente, uma segunda moagem em almofariz de ágata, até se obter um diâmetro de
partículas homogéneo. As amostras foram submetidas a um aquecimento contínuo, à taxa
de 10 ºC/min., de 25 ºC a 1200 ºC, sob atmosfera de N2 (20 ml/min).
d) Análise por espectroscopia de ressonância magnética nuclear de protão (1HRMN)
Os espectros de 1H RMN foram obtidos em solução num espectrómetro BRUKER AMX300 MHz utilizando tetrametilsilano como padrão. As amostras foram dissolvidas em
clorofórmio deuterado (ca 10 mg/mL).
e) Análise por espectroscopia no infravermelho (IV)
Os espectros de IV foram registados num espectrómetro Mattson 7000 com transformadas
de Fourrier (FTIR). As amostras foram misturadas com KBr (ca 1% amostra
relativamente ao KBr), moídas e prensadas para se obterem pastilhas de KBr.
4. RESULTADOS
4.1. Aderência por tracção perpendicular
As tabelas 2, 3, 4 e 5, apresentam os resultados relativos à aderência por tracção
perpendicular, para as várias condições de envelhecimento adoptadas. Adicionalmente,
indica-se o tipo de rotura, maioritariamente verificado para cada caso.
Tabela 2. Aderência por tracção perpendicular em função de vários requisitos da norma
EN 12004 (CF- rotura coesiva; A- adesivo; AF- rotura adesiva; T- cerâmico).
Tipo de Rotura
Condição do ensaio
Aderência (N/mm2)
(1)
Inicial (Padrão)
2.34
CF-A (70%)
Após envelhecimento por
calor (a quente) (1)
Após envelhecimento por
calor
Após imersão em água
1.05
AF-T (60%)
2.64
CF-A (70%)
1.10
AF-T (100%)
Após ciclos gelo-degelo
1.14
AF-T (100%)
Medição após saída da estufa a quente (ensaio não exigido pela norma para este tipo de produto).
Tabela 3. Aderência por tracção perpendicular da argamassa, após exposição num
ambiente de CO2 (0.15 atm) e 90% Hr (ensaio carbonatação).
Tempo exposição
Aderências (N/mm2)
Tipo de Rotura
7 dias
1.95
CF-A (50%)
22 dias
2.01
CF-A (60%)
37 dias
2.07
CF-A (30%)
55 dias
2.05
CF-A (30%)
CF- rotura coesiva; A- adesivo.
Tabela 4. Aderência por tracção perpendicular da argamassa, após sujeição a ciclos de
envelhecimento por acção de cloretos.
Nº ciclos
Aderências (N/mm2)
Tipo de Rotura
15
1.80
CF-A (60%)
30
2.05
---
45
3.31
CF-A (90%)
60
2.54
CF-A (70%)
CF- rotura coesiva; A- adesivo.
Tabela 5. Aderência por tracção perpendicular da argamassa, após sujeição a ciclos de
envelhecimento por acção de sulfatos.
Nº ciclos
Aderências (N/mm2)
Tipo de Rotura
15
1.22
AF-T (100%)
30
2.23
---
45
1.55
CF-A (30%)
60
1.91
CF-A (40%)
CF- rotura coesiva; A- adesivo; AF- rotura adesiva; T- cerâmico.
4.2. Extracção química
A figura 1 apresenta a percentagem de matéria removida por extracção química de
argamassas após serem sujeitas a diferentes condições de envelhecimento.
% massa extraída
2,00
1,50
1,00
0,50
(p
ad
rã
o)
C
al
or
di
as
28
U
.V
.
C
ão
ar
bo
na
ta
C
çã
ic
o
lo
s
de
ca
lo
r
Im
er
s
fa
to
s
Su
l
C
lo
re
to
s
0,00
Figura 1. Percentagem de matéria removida por extracção das amostras em análise.
4.3. Análise TG/ATD
Os resultados relativos à análise termogravimétrica estão ilustrados na figura 2. Os
resultados apresentados referem-se à caracterização das amostras de argamassa-cola após
cura sob condições padrão e posterior submissão a algumas condições de envelhecimento
representativas. Adicionalmente, inserem-se resultados relativos ao comportamento de um
filme do co-polímero EVA, preparado a partir de uma mistura do material em pó com
água numa proporção 1:1 e seco posteriormente, em condições de cura padrão, durante
um período de 28 dias.
-5
-5
-5
-5
-10
-10
-10
-10
-15
-15
-15
-15
-20
-20
TG
ATD
-25
-30
0
200
400
600
800
1000
TG (%)
0
Fluxo energético (µV)
TG (%)
Calor
0
-20
-20
-25
-25
-30
1200
-30
0
TG
ATD
Fluxo energético (µV)
28 dias (padrão)
0
-25
-30
0
200
400
T (ºC)
600
800
1000
1200
T (ºC)
6
Carbonatação
-5
0
Filme EVA
0
4
-5
2
-10
-15
-15
-20
-20
TG
ATD
-25
0
TG (%)
TG (%)
-10
Fluxo energético (µV)
-20
-40
-2
-4
-60
-6
-80
-25
Fluxo energético (µV)
0
-8
TG
------- ATD
-10
-100
-30
-30
0
200
400
600
800
1000
1200
0
200
400
600
800
1000
1200
T(ºC)
T (ºC)
Figura 2. Análise TG/ATD relativa à amostra a) após cura em condições padrão, b) após
acção do calor, c) após carbonatação e d) do filme de EVA isolado.
4.4. Análise por espectrometria 1HRMN e IV
A figura 3 apresenta os espectros 1HRMN da parte orgânica extraída da argamassa-cola
após cura sob condições padrão e posterior submissão a algumas condições de
envelhecimento representativas. Para comparação, apresenta-se ainda o espectro do copolímero EVA.
Na tabela 6, apresenta-se a relação de áreas dos picos entre os protões correspondentes aos
ambientes químicos mais significativos para todos os ensaios realizados. No caso
específico do co-polímero EVA é considerada a seguinte atribuição: δH [300 MHz CDCl3]:
1.28 -1.78 (6H, CH2-CH2 e CH2-CHO), 2.05 (3H, CH3-C[O]O), 4.89 (1, CH2-CHO).
Tabela 6. Efeito das condições de envelhecimento sobre a relação entre os protões em
diferentes ambientes químicos da componente orgânica.
Calor
1
3
5
Cloretos
1
1
5
Ciclos térmicos
1
3
3
Carbonatação
1
3
10
Imersão
1
3
13
UV
1
3
13
0.960
2.051
4.896
7.291
1)
0.880
3
1.254
3
1.601
1
2.045
Ciclos térmicos
3.495
6
3.644
3
4.877
1
7.264
Padrão
1.279
CH2-CH2 e CH2-CHO
(c)
(esqueleto da cadeia)
6
1.617
CH3-C[O]O
(b)
(grupo acetato)
3
1.782
EVA
CH2-CHO
(a)
(esqueleto da cadeia)
1
Amostra/
Tipo de ensaio
2)
200000000
150000000
150000000
100000000
(b)
100000000
50000000
(c)
50000000
(a)
0
0
2.0
0.15
3.0
0.98
4.0
3.19
5.0
1.14
6.0
2.74
1.00
7.0
7.0
1.0
ppm (t1)
6.0
5.0
4.0
3.0
2.0
1.0
3)
0.879
1.253
1.615
2.045
3.494
3.741
4.871
7.264
0.879
1.253
1.503
1.616
1.745
2.025
4.871
7.266
ppm (t1)
300000000
200000000
4)
250000000
150000000
200000000
150000000
100000000
100000000
50000000
50000000
0
6.0
5.0
4.0
3.0
2.0
0.83
7.0
9.71
1.0
3.03
1.00
0.36
2.0
1.30
3.0
3.82
4.0
2.89
5.0
0.02
6.0
0.03
1.00
7.0
ppm (t1)
0
1.0
ppm (t1)
Figura 3. Espectros de 1HRMN de 1) EVA e material extraído das argamassas-cola,
sujeitas a diferentes condições de envelhecimento: 2) cura padrão, 3) calor e 4)
carbonatação.
Através da espectrometria no IV registou-se o desaparecimento da banda a 1743 cm-1,
correspondente do grupo carbonilo do acetato, para as amostras que foram expostas a
condições de envelhecimento promotoras de hidrólise.
5. DISCUSSÃO DE RESULTADOS
Os resultados indicados na tabela 2, relativos à caracterização da argamassa, segundo os
ensaios da norma EN 1348, revelam um produto com aderências elevadas após 28 dias de
cura e após envelhecimento por calor. A medição a quente, porém, indica um valor menor
de aderência. Tal pode ser justificado pelo facto de, à temperatura de ensaio (70 °C), o
grau de mobilidade das cadeias ser superior. No entanto, percebe-se que as alterações, a
existirem, são reversíveis já que a medição após o arrefecimento, e segundo as orientações
da EN 1348, corresponde a valores bastante superiores, até maiores que em condições
padrão.
Por outro lado, as medições relativas aos ensaios que implicam a presença de humidade,
como a imersão em água e os ciclos gelo-degelo, resultam em valores substancialmente
menores que nas outras condições de envelhecimento.
Porém os dados das tabelas 3, 4 e 5, relativos a testes de influência de carbonatação e de
sais, que implicam igualmente a presença de humidade, não revelam qualquer tendência
ao longo dos ciclos de envelhecimento o que evidencia que a componente inorgânica da
argamassa-cola também tem um papel significativo mas que não foi objecto de estudo.
Os resultados da figura 1, referentes à extracção química, efectuada com o objectivo de
isolar a componente orgânica do compósito, indicam que quando há imersão em água ou
contacto com ambientes de elevada humidade relativa, verifica-se que a quantidade de
matéria extraída é menor em comparação com os valores obtidos em condições de
humidade relativa inferior a 55% (cura padrão). A diferença poderá ser justificada através
das seguintes hipóteses: (i) o polímero após degradação (causada pelo envelhecimento)
não é solúvel no acetato de etilo e/ou liga-se fortemente à argamassa não sendo por isso
removido durante o processo de extracção.
(ii) no caso das amostras submetidas a envelhecimentos que envolveram imersão em água
e /ou soluções aquosas, o polímero poder-se-á dissolver na fase aquosa durante o processo
de envelhecimento. Relativamente à hipótese (i), tal como se discute a seguir, as análises
de ATD e IV das argamassas após extracção, sugerem a presença de polímero EVA
degradado. No que respeita a hipótese (ii), a análise da água do ensaio de imersão
confirmou a presença do co-polímero EVA ainda que com uma percentagem de hidrólise
significativa.
A análise da figura 2, relativa aos ensaios de ATD/TG do filme do co-polímero EVA,
mostra que a decomposição do mesmo ocorre em dois passos principais: entre os 300 ºC e
400 ºC verifica-se uma perda de massa próxima de 40%, relacionada com a perda do
grupo acetato e, entre os 425 ºC e 470 ºC, verifica-se uma perda acentuada de massa
identificada com a degradação da estrutura poliénica [(CH2-CH2)n-(CH=CH)m][14].
Adicionalmente, os resultados relativos à amostra compósita, revelam alguns processos
comuns, independentemente das condições de envelhecimento:
a) Uma zona entre 80 ºC e 130 ºC relativa a perda de água, que se pode prolongar até
aos 240 ºC, por correspondência com a saída de grupos hidroxilo do gesso e de
algumas fases do cimento hidratado [15];
b) Uma zona entre 200 ºC e 470 ºC cuja perda de massa pode ser associada à
decomposição do co-polímero EVA bem como do acetato de cálcio formado a partir
da combinação do ião acetato (CH3COO-) com o ião cálcio (Ca2+). O primeiro
resultante da hidrólise alcalina do co-polímero EVA e o segundo resultante das
reacções de hidratação do cimento portland [16,17];
c) Uma zona a partir dos 500 ºC, relativa principalmente à componente inorgânica da
argamassa, que revela a desidroxilação da cal hidratada, que decorre perto dos 540
ºC e, a decomposição do carbonato de cálcio, entre os 680 ºC e 790 ºC [17,18].
Quando se comparam com maior detalhe as curvas TG/ATD da argamassa sujeita a
diferentes condições de envelhecimento, verifica-se que o tipo de curva é semelhante,
mesmo por comparação com as condições padrão. Porém, a amostra envelhecida por
carbonatação, em condições simultâneas de humidade relativa elevada, apresenta perdas
maiores nas zonas identificadas atrás como a) e b) e, sobretudo, em c) uma vez que a
carbonatação incrementa a quantidade de carbonato que depois originará reacções de
descarbonatação mais intensas. Nesta zona, a perda de massa atinge 8% enquanto que na
amostra padrão é de 3% e na amostra sujeita a calor é de 5%. A curva ATD, nesta
condição de envelhecimento particular, sugere uma redução dos picos exotérmicos da
zona b) que pode derivar da decomposição do co-polímero EVA e do acetato de cálcio
entre 200 e 470 ºC.
A observação dos resultados da figura 3 e da tabela 6, relativos às análises por 1HRMN,
indica que, em todas as amostras, os protões se encontram em ambientes químicos
idênticos. Porém, analisando a razão das áreas dos diferentes picos correspondentes aos
vários ambientes químicos, verificam-se diferenças significativas consoante o processo de
envelhecimento, corroborando as sugestões das análises anteriores sobre uma possível
degradação do co-polímero EVA da argamassa-cola.
Enquanto que no co-polímero EVA a proporção de protões é de acordo com a atribuição
referida em 4.4 de 1:3:6, nas amostras de material extraído após envelhecimento por
condições que envolvem a presença de humidade ou imersão, a razão altera-se para 1:3:9
até 1:3:13, evidenciando a diminuição dos protões do grupo acetato (b) relativamente aos
protões do esqueleto da cadeia (c). Quando as condições de cura da argamassa-cola
implicaram calor, a razão não é tão fortemente alterada, embora se observe um
decréscimo da área dos grupos metileno do esqueleto da cadeia (c) sugerindo alguma
ruptura da mesma. Estes resultados são ainda concordantes com os espectros de IV
obtidos para as várias amostras.
6. CONCLUSÕES
Além de parâmetros mecânicos capazes de influenciar o comportamento de uma
argamassa-cola no processo de fixação de um cerâmico, existe todo um conjunto de
factores ambientais capazes de alterar os componentes da argamassa-cola, do ponto de
vista químico. Entre os vários componentes possíveis, o trabalho em questão, indica
alterações ao nível do polímero, capazes de modificar as propriedades de aderência da
argamassa-cola. Assim, as condições de humidade elevada alteram significativamente a
componente orgânica de uma argamassa-cola. Tal influência, parece implicar a hidrólise
do co-polímero EVA. Como resultado de tais alterações, resulta uma diminuição gradual
dos valores de aderência por tracção perpendicular do material de fixação. Esta
interpretação assume ainda maior significado ao analisar um estudo de campo, efectuado
por Silvestre e Brito [19], que indica condições ambientais, como a humidade e a presença
de sais, como significativamente responsáveis pela maioria das anomalias na colagem de
cerâmica, entre as quais, o destacamento.
A justificação para tais observações não passa, certamente, apenas pelas alterações
relativas à parte orgânica da argamassa-cola, uma vez que a parte inorgânica, que deriva
das reacções de hidratação de cimento, é fortemente influenciável em ambientes de
elevada humidade relativa. Esta observação pode, por exemplo, justificar o facto da
aderência não ter decrescido, tão significativamente, nos ensaios de exposição a soluções
salinas e de carbonatação, quando comparada com a que se obtém com amostras imersas.
A confirmar-se, tal significa que o valor de uma aderência é o resultado de uma
combinação complexa entre os ligantes minerais e orgânicos, com difícil previsão sobre o
mais determinante no desempenho global. No entanto, qualquer que seja o efeito de um
determinado factor sobre o conjunto ou simplesmente numa fracção da argamassa, pode
implicar alterações significativas ao nível da aderência do material de fixação, capazes de
conduzir a diminuições da sua eficiência, pelo que merece a continuidade de estudos
similares para melhoria das opções existentes.
7. AGRADECIMENTOS
Júlio Longo agradece a bolsa de mestrado ao EMMS – European Masters in Materials
Science, um programa de mestrado conjunto apoiado pelo programa Erasmus Mundus.
8. BIBLIOGRAFIA
[1] Roig, A.M.P., Reflection on the use of architectural ceramics in exteriors, in General
Conferences, Qualicer 2002, II, P.GII-23.
[2] Freitas, V.P., Sousa, A. V.S., Silva, J.A.R.M., Manual de aplicação de revestimentos
cerâmicos, Coimbra, Março 2003.
[3] Veloso, A. Barros, Almasque, Isabel, Azulejos de fachada em Lisboa, Revista
Municipal, 1983-1985.
[4] Loureiro, J.C., O azulejo, possibilidade da sua reintegração na arquitectura
portuguesa, 1962, Porto.
[5] Lucas, J. A. Carvalho, Abreu, M. M. Mendes, Revestimentos cerâmicos colados,
descolamento, Patologia e reabilitação das construções 04, LNEC, 2005, Lisboa.
[6] Revêtements de murs extérieurs en carreaux céramiques ou analogues collés au
moyen de mortiers-colles, Cahier des prescriptions techniques d´exécution, CSTB, 2000,
Paris.
[7] Bize, B., Une certification CSTBat pour les colles à carrelage, CSTB magazine, 2000,
Paris.
[8] Casademunt, A. P., Análisis de las causas que han producido el desprendimiento
generalizado de azulejos en un hotel de reciente construcción y propuesta de
intervención, 2, 423-431, Patorreb 2006, Porto.
[9] Abreu, M., Descolamento e fendilhação em revestimentos cerâmicos, 3º Encore,
LNEC, 1801-1090, 2003, Lisboa.
[10] Pinheiro, D. S., Bragança, L., Aguiar, J. L. B., Descolagem de um revestimento
cerâmico em fachada, 2, 401-409, Patorreb 2006, Porto.
[11] Jenni, A., Zurbriggen, R., Holzer, L., Herwegh, M., Changes in microstructures and
physical properties of polymer-modified mortars during wet storage, Cement and concrete
research, 36, 79-90, 2006.
[12] Jenni, A., Holzer, L., Zurbriggen, R., Herwegh, M., Influence of polymers on
microstructure and adhesive strength of cementitious tile adhesive mortars, Cement and
concrete research, 35, 35-50, 2005.
[13] EN 1348, Determination of tensile adhesion strength for cementitious adhesives.
[14] Soudais, Y., Moga, L., Blazek, J. Lemort, F., Coupled DTA-TGA-FT-IR investigation
of pyrolitic decomposition of EVA, PVC and cellulose, J. Anal. Appl. Pyrolysis, 78, 46-57,
2007.
[15] Almeida, A. E. F., Sichieri, E. P., Thermogravimetric analysis and mineralogical
study of polymer modified mortar with silica fume, Materials research, 9, 321-326, 2006.
[16] Silva, D. A., H. R. Roman, et al., Evidences of chemical interaction between EVA
and hydrating Portland cement. Cement and Concrete Research 32, 9, 1383-1390, 2002.
[17] Silva, D.A., Roman, H.R., John,V.M., Effects of EVA and HEC polymers on the
Portland cement hydration, In: 11th International Congress on Polymers in Concrete
(ICPIC’04), Berlin, 91-97, 2004.
[18] Marques, S. M. F., Estudo de argamassas de reabilitação de edifícios antigos,
Dissertação para o grau de mestrado, Universidade de Aveiro, 2005.
[19] Silvestre, J.D., Brito, J. de, Análise das causas das anomalias mais frequentes em
revestimentos cerâmicos aderentes, 2, 433-443, Patorreb 2006, Porto.
Download

Comunicação