ISSN 2236-0719
ANAIS DO XXXII COLÓQUIO CBHA 2012
Organização
Ana Maria Tavares Cavalcanti
Emerson Dionisio Gomes de Oliveira
Maria de Fátima Morethy Couto
Marize Malta
Universidade de Brasília
Outubro 2012
A poética política de Paulo Bruscky
Marília Andrés Ribeiro (UFMG/CBHA)
Sempre gostei de trabalhar com vários meios, pela questão de
acessibilidade; interessa-me muito que minha obra atinja um público
grande e não só um público específico que vai a museus e galerias. Por
isso trabalhei com várias mídias e acho que arte é para circular.
Paulo Bruscky
Resumo: No contexto contemporâneo em que a
História da Arte dialoga com outras disciplinas, a obra/
projeto de Paulo Bruscky é importante para repensar
uma nova abordagem artística que leva em conta
a contribuição da micropolítica. Esta se apresenta
através de ações e intervenções no corpo e na cidade.
Palavras-chave: Arte Contemporânea Micropolíticas
Abstract: In the contemporary context in which art
history dialogues with other disciplines, the work/
project of Paulo Bruscky is important to rethink a
new artistic approach which takes into account the
contribution of micropolitics. This is presented through
actions and interventions in the body and in the city.
Keywords: Art Contemporary Micropolitics
Gente é para brilhar e arte é para circular
Na perspectiva de fazer a obra circular para atingir
grandes públicos, experimentando vários meios, suportes
XXXII Colóquio CBHA 2012 - Direções e Sentidos da História da Arte
e materiais, Paulo Bruscky emergiu no cenário artístico
brasileiro e internacional como uma figura singular.1 Seu
porto seguro é Recife, cidade que ama e onde sempre
atuou, desde os anos 1960, realizando performances,
intervenções urbanas, produções culturais e onde
possui um ateliê borgeano: um território com arquivos,
documentos, cartas, poemas, livros, revistas, obras de
arte e objetos diversos que pertencem à sua coleção. Na
verdade, o verdadeiro ateliê, o laboratório de criação do
artista, é a sua mente, a sua sensibilidade, o seu corpo.
Paulo Bruscky usa o corpo para comunicar ideias
poéticas e políticas, revelando uma poesia em campo
expandido, que dialoga com várias expressões artísticas,
perpassa sua vida e obra e se manifesta na atitude
transgressora, crítica e experimental. Como ele afirma em
seu depoimento, “na minha obra está sempre presente a
pesquisa, o acaso e a ousadia, o experimentar sempre”.2
Bruscky pertence a uma geração de artistas
experimentais que emergiu nos anos 1960 e que usou
a arte como uma maneira de se inserir no contexto das
transformações que ocorriam na sociedade contemporânea
e se manifestavam no campo político, comportamental e
cultural.
A postura crítica e investigadora de Bruscky incide
sobre várias mídias – os correios, o postal, o xeróx, o
mimeógrafo, o vídeo, o livro, os classificados dos jornais –
Esta comunicação teve como ponto de partida o projeto Circuito Atelier da Editora C/
Arte, que se desdobrou na publicação de um livro, um clipping e uma exposição de Paulo
Bruscky.
2
Depoimento de Paulo Bruscky in: RIBEIRO, Marília Andrés; DRUMMOND, Marconni.
Paulo Bruscky – depoimento. Belo Horizonte: C/Arte, 2011. p. 13. (Coleção Circuito
Atelier)
1
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A poética política de Paulo Bruscky - Marília Andrés Ribeiro
e utiliza vários suportes e materiais – o corpo, a cidade, o
carimbo e os objetos que o artista encontra ao acaso e os
transforma em obra de arte.
Como pontua a pesquisadora Cristiana Tejo,
salientando o experimentalismo conceitual e a inserção de
Bruscky no contexto histórico:
Paulo Bruscky costuma repetir que arte é uma forma de ver
e não de fazer. Essa afirmação sintetiza o pensamento de toda uma
geração de artistas que emerge entre os anos 1960/70. O protagonismo
do conceito em detrimento do resultado formal do trabalho artístico
significa, também, uma virada da arte ao entorno, à vida, ao mundo.3
Diálogos internacionais: os precursores inventores
Essa atitude também está presente nas propostas dos
artistas que Bruscky admira e dialoga: John Cage, Yves
Klein, Robert Rehdfeldt, Ulises Carrión, Hélio Oiticica, entre
outros que atuaram nos anos 1960/70. Esses precursores
discutiram questões relacionadas às possibilidades de
experimentar a arte num campo ampliado, rompendo
as fronteiras que delimitavam as diferentes expressões
artísticas convencionais. Inseriram a arte na vida cotidiana
e buscaram um diálogo com o público participante. As aulas
e os concertos de John Cage no Black Mountain College,
em Nova York, tornaram-se paradigmas de uma nova
maneira de experimentar o som, através de performances
e happenings multimídias; a pesquisa de Yves Klein com
o vazio transcendeu o espaço do cubo branco da galeria e
se expandiu pelas ruas de Paris; a postura questionadora
TEJO, Cristiana. Paulo Bruscky. Arte em todos os sentidos. Recife: Zoludesign, 2009.
p. 9.
3
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de Robert Rehdfeld, integrante do movimento Fluxus na
Alemanha Oriental, abriu caminho para intervenções
poéticas libertárias na cortina de ferro; os livros de artista
criados por Ulises Carrión apresentaram uma “nova arte de
fazer livros”, pautada pela desconstrução do livro tradicional;
e a atitude questionadora, os projetos ousados e a vida
conturbada de Hélio Oiticica, criador da “Tropicália” e dos
“Parangolés”, o levaram a experimentar o espaço, o corpo
e a relação com o as comunidades da periferia de uma
forma radical e singular. São esses artistas, transgressores
e inventores de uma nova maneira de fazer arte dentro de
um campo expandido, aberta à participação do público, que
se tornaram exemplares na perspectiva de Paulo Bruscky.
O universo da Micropolítica
Desde os anos 1970, Bruscky participa do movimento
Arte Correio, o que lhe possibilitou intercambiar ideias,
dialogar com artistas e grupos dos mais distantes lugares
do planeta, informar-se dos acontecimentos políticos e fazer
diversos projetos/obras para veicular suas ideias poéticas
e políticas, potencializando seu objetivo de atingir grandes
públicos. Esse fluxo de ideias que se intercambiava numa
rede de comunicação artística possibilitava aos artistas
transgredir as normas vigentes, contestar as instituições
estabelecidas e o autoritarismo dos regimes políticos de
esquerda ou de direita.
O encontro da poética e da política, por meio da obra
de arte, está presente nas reflexões contemporâneas sobre
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A poética política de Paulo Bruscky - Marília Andrés Ribeiro
a micropolítica, substituindo a noção de política partidária,
sindical, revolucionária ou reacionária, pela noção de uma
política que leva em conta questões específicas e cotidianas
referentes à comunidade, à ecologia, ao gênero, às minorias,
aos desejos, afetos e subjetividades. A micropolítica,
discutida por Guattari4 e herdeira do pensamento de
Foucault,5 implica no questionamento filosófico do
saber e do poder instituído, visando criar estratégias de
subjetivação e espaços singulares de configuração de vida
e obra. No campo da arte a micropolítica está presente
nos projetos artísticos que visam questionar as categorias
estéticas, o sistema de arte, o comportamento e as atitudes
estabelecidas, através de propostas, intercâmbios, ações e
performances, visando provocar o espectador ativo.
Dentro desse universo da micropolítica se insere
a obra de Bruscky, discutindo problemas específicos,
cotidianos, e também questões existenciais e universais,
em contraposição às normas institucionais impostas pelo
sistema de arte e pela sociedade capitalista globalizada.
Nessa perspectiva, Bruscky está sempre inventando
objetos, projetos e circuitos poéticos singulares. A atitude
transgressora e criativa de Bruscky é a marca de seu
trabalho: seja carimbando envelopes de cartas com as
palavras “Assim se fax arte”, “Cotidiarte”, “Envelopoema”;
seja deixando a marca de seu corpo no mimeógrafo a
álcool; realizando pinturas com pneus de carro; inserindo
anúncios nos classificados dos jornais, que falam de “poesia
GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolítica. Cartografias do desejo. Petrópolis:
Vozes, 2008.
5
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. São Paulo: Graal, 2012.
4
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sonora”, de “vervendo”, de “saudade”; desconstruindo o
livro tradicional para construir uma nova maneira de fazer
livros.
A mesma atitude transgressora e criativa se expande
no corpo e nas performances do artista e também nas
intervenções que Bruscky realiza nas cidades, no corpo
social, seguindo a perspectiva aberta pelos Situacionistas
franceses e também pelos artistas do movimento Fluxus,
com os quais Bruscky dialogava nos anos 1970. Assim
como os Situacionistas, liderados por Debord, mapearam
afetivamente a cidade de Paris, transformando-a em um
território de liberdade6 e, ainda, assim como os artistas
Fluxus, liderados por Maciunas, fizeram intervenções
poéticas e políticas nas galerias, lofts e ruas das cidades
de Nova York, Paris e Dusseldorf,7 Bruscky escolheu
Recife, a sua cidade natal, como ponto nevrálgico para
suas intervenções e performances.
A poética de Recife
O artista nos fala de Recife como uma cidade
açucareira, de famílias tradicionais, “mas é Recife, e eu
amo a minha cidade! É uma cidade que geograficamente,
inclusive, pode ser trabalhada como suporte; ela tem uma
geografia fantástica para intervenções urbanas como os
rios, as pontes, as praias, os arrecifes”.8
JARAUTA, Francisco; MAUBANT, Jean-Louis. Microutopias. Arte&Arquitetura. In:
2ª Bienal de Valencia. La ciudad ideal. Generalitat Valenciana, Valencia, 8 junio-30
septiembre, 2003, p. 286-327.
­ESTELLA, Iñaki. Fluxus. San Sebastian: Editorial Nerea, 2012. (Collecion Arte Hoy)
8
Depoimento de Bruscky, Op. cit., p. 17.
6
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Explorando a geografia da cidade, Bruscky realizou
em Recife várias ações, performances, exposições ao
ar livre, festivais internacionais, transformando-a num
importante centro urbano de arte contemporânea. Nos
anos 1970, realizou as intervenções: “Exponaútica e
Expogente” (1970), exposições de pessoas e objetos na
Praia de Boa Viagem, e o “Velório da Arte” (1971), uma
proposta de arte cemiterial que está sendo resgatada na
exposição atual do Instituto Tomie Ohtake em São Paulo.9
Em parceria com Daniel Santiago, realizou as exposições:
“Artexpocorponte” (1971) nas pontes Duarte Coelho e Boa
Vista; “Com(c)(s)(?)ereto Sensonial” (1972) na Faculdade
de Filosofia de Recife; “Artemcágado” (1972), exposição
de cágados ornamentados, na Praça da Independência;
“O enterro aquático” (1972), em que atirou um ataúde no
rio Capibaribe; “Chantecler” (1974), apresentada no baixo
meretrício do cais do Porto, e a mostra “Nadaísmo” (1974),
na Galeria Nêga Fulô, uma exposição-denúncia, em que
havia apenas um banquinho dentro da galeria vazia para
o artista expor a sua denúncia contra a ditadura militar,
as torturas e mortes dos militantes políticos nas prisões
brasileiras.
Arte Correio e a circulação de ideias
Nesse momento de repressão política no Brasil, as
ações radicais e metafóricas de Bruscky provocaram a
ira dos militares, o que resultou na sua prisão. O artista
Ver Paulo Bruscky. Banco de Ideias, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, 4 de setembro
a 28 de outubro de 2012.
9
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lembra que quando estava preso disseram para ele que “a
Arte Correio era um movimento comunista internacional”.10
Naquele momento, a Arte Correio possibilitava intercambiar
ideias, incentivar ações libertárias e lutar pela liberdade de
expressão dentro dos regimes totalitários de direita ou de
esquerda.
A partir dos anos 1980, Bruscky intensifica sua
participação no movimento de Arte Correio Internacional.
Ele considera esse movimento como precursor das redes
comunicacionais que se estabeleceram através da internet,
e nessa perspectiva, cunhou o termo “e-mail art”. Nas
palavras de Bruscky:
A internet foi uma consequência lógica da Arte Correio, uma
questão de multiplicidade, porque a Arte Correio utiliza os correios, e
eu não gosto de utilizar o termo Arte Postal, porque o postal é um dos
elementos veiculado pelos correios. A Arte Correio abrange o selo, o
envelope, tudo o que se veicula, o telegrama, o telex, etc.11
A Arte Correio é um desdobramento da Arte Conceitual
que privilegia o conceito, a ideia, a proposta do artista, e
nesse caso, propõe veicular a ideia através dos correios.
A pesquisadora Paula Braga salienta que a rede torna-se
suporte das obras de arte muito antes do advento das redes
sociais, dos chats, do relacionamento virtual e lembra que
artistas como Paulo Bruscky, Helio Oiticica e Cildo Meireles
já trabalhavam com a proposta de arte como circulação
de ideias políticas dentro de uma rede comunicacional.12
Depoimento de Bruscky. Op. cit. p. 25.
Ibidem, p. 14.
12
BRAGA, Paula. A rede como suporte da obra de arte. In: GERALDO, Sheila Cabo.
Trânsito entre arte e política. Rio de Janeiro, Quartet/FAPERG, 2012. p. 66-76. A autora
analisa os “Newyorkaises” de Oiticica e os “Circuitos Ideológicos” de Cildo Meireles
10
11
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Nesse universo risomático, as “obras-proposições” de
Bruscky constituem um “banco de ideias” importantíssimo
para a discussão da Arte Conceitual.
Compartilho com a historiadora Cristina Freire a
ênfase conceitual presente na obra de Paulo Bruscky
e o pensamento que sublinha a ironia e o lúdico como
dispositivos usados pelo artista na configuração de sua
poética. Segundo as palavras de Freire:
Bruscky tenta ressuscitar o homo ludens adormecido em cada
um de nós. Destrona o hegemônico valor econômico e elege, como
guia de sua poética, a imaginação e o lúdico aliados à irreverência e
ao humor.13
Considero a obra de Bruscky exemplar para o
conhecimento da arte contemporânea brasileira, ao lado das
proposições de Hélio Oiticica, Artur Barrio, Cildo Meireles,
Antônio Manoel e Luciano Gusmão, entre outros artistas
que emergiram nos anos 1960/70. E, ainda, torna-se uma
obra instigante para a discussão das direções e sentidos
da história da arte, levando em consideração a expansão
do campo artístico e os diálogos interdisciplinares.
como exemplo de obras que usam a rede como agente político.
13
FREIRE, Cristina. Paulo Bruscky. Arte, arquivo e utopia. São Paulo: Companhia Editora
de Pernambuco, 2006. p. 23.
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Paulo Bruscky - series Envelopes, 1977, 1995
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Paulo Bruscky - Individual no Passacale, Recife, 1981 - Performance postal
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Paulo Bruscky - Alto Retrato Paulo Bruscky - Recife, 1981 - Edições Pirata Geração 65
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