Mulheres com o mesmo
nome do bairro onde
moram ajudam, por meio
de depoimentos, a contar
a história de Belo
Horizonte. Página 7
BRUNA FONSECA
APCBH
RICARDO MALLACO
Mercado de compra e
venda de cabelos em Belo
Horizonte gera lucro aos
comerciantes e agrada
clientes preocupados com
a estética. Página 8
Batizado de Doulas
Comunitárias, projeto
que capacita voluntárias
para acompanhar parto,
tenta superar a falta de
recursos. Página 9
marco
jornal
Ano 38 • Edição 277 LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas Outubro • 2010
RENATA FONSECA
TRANSPORTE COLETIVO EM XEQUE
nestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaedição
“Minha atuação
é mais política do
que burocrática”
RENATA FONSECA
As linhas de ônibus que atendem ao
Bairro Coração Eucarístico, próximo à
PUC Minas, na Região Noroeste de
Belo Horizonte, são alvos constantes
de reclamações dos usuários. Os que
utilizam as linhas 4110, 4111, 9410,
5401, o suplementar 21 e o metropolitano 2580, enfrentam uma série de
dificuldades para chegar e voltar dos
seus destinos passando por essa região.
Atrasos no horário dos ônibus,
lotação, motoristas que passam direto
pelos pontos, a quantidade insuficiente de veículos nos horários de pico
para atender a alta demanda, além do
trânsito intenso das ruas de Belo Horizonte, estão entre as reclamações
recorrentes. Páginas 4 e 5
Atores surdos encenam Machado de Assis
A adaptação da obra de Machado de Assis, “ Tu, só tu, puro
amor”, para o teatro em libras
agradou o público presente no
Espaço Cultural da Escola de
Teatro da PUC Minas. Do elenco
de atores deficientes auditivos,
apenas um é formado em teatro.
RENATA FONSECA
Página 11
Fazer xixi em locais públicos
causa transtorno e prejuízo
O ato de urinar em locais públicos
incomoda e constrange moradores
da Rua 31 de Março, no Coreu, por
conta do mau cheiro que fica no
local. O problema não se restringe
apenas ao bairro, mas também está
presente em vários pontos de BH.
No centro, por exemplo, a SLU tem
que enviar dois caminhões pipa por
dia para lavar os locais. Página 2
RICARDO MALLACO
O compositor mineiro Fernando Brant,
um dos fundadores do Clube da
Esquina, está à frente da União
Brasileira dos Compositores, onde
ocupa o cargo de presidente. Em entrevista ao MARCO, ele revela detalhes
de sua função na UBC, onde trabalha
para defender os direitos dos autores
brasileiros. Ele acredita que a internet é
um meio maravilhoso de difusão para
o trabalho dos artistas, mas completa,
"acho que o anonimato na internet é
um negócio meio danado". Página 16
2 Comunidade
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
EDITORIAL
editorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorial
Temas do dia a dia
são valorizados nas
páginas do MARCO
FALTA DE EDUCAÇÃO
GERA TRANSTORNOS
Fazer xixi nas ruas causa problemas à saúde, além de incomodar moradores, que convivem com o mau cheiro gerado
RENATA FONSECA
n
CÍNTHIA RAMALHO,
4º PERÍODO
Traçar uma radiografia das linhas de ônibus que
atendem a Região Noroeste é uma tarefa que exige
muito trabalho e disposição. Para cumprir o desafio,
o MARCO organizou uma equipe composta por oito
repórteres e uma fotógrafa que durante dez dias
pegaram os ônibus das linhas 5401, 4110, 4111,
9410, 2580 e 21. Eles entrevistaram usuários e
funcionários, fizeram a rota dos ônibus e, assim,
levantaram os principais problemas que incomodam as pessoas que dependem do transporte
público. A reportagem contou, ainda, com o depoimento de uma técnica de transporte e trânsito da
BHTrans, também aluna de jornalismo da PUC
Minas, sobre o trabalho dos profissionais encarregados de conferir o cumprimento de normas que buscam assegurar conforto e segurança para os
usuários.
Fazer xixi na rua, além de anti-higiênico, causa
transtornos para a comunidade e o ato é passível
de punição prevista no código civil. É o que mostra
reportagem desta edição que foi atrás de lugares na
cidade que são utilizados como ‘banheiro público’.
Os repórteres ouviram as queixas de moradores e
pessoas que trabalham que são obrigadas a convi ver com o cheiro desagradável da urina. Além disso,
descobriram que a Superintendência de Limpeza
Urbana (SLU) é obrigada a enviar dois caminhões
pipa à Avenida Olegário Maciel, no centro da
cidade, para lavar a urina. É um registro do que a
falta de educação e de gentileza pode resultar.
As mulheres chegam com tudo nesta edição e ganham destaque em três reportagens. Uma delas,
sobre doulas, aborda o projeto de mesmo nome que
tem como objetivo principal ajudar grávidas na hora
do parto. Mulheres homônimas dos bairros em que
moram é o assunto do texto que conta as histórias
de Aparecidas, Julianas e outras mulheres que, por
causa de seus nomes, fazem parte do mapa de
Belo Horizonte. A compra e venda de cabelo nos
salões da cidade é o terceiro tema que focaliza
uma atitude prioritariamente feminina.
A música ganha destaque nesta edição por meio da
entrevista com o compositor mineiro Fernando
Brant. Fernando, que participou junto com Milton
Nascimento e os irmãos Lô, Márcio e Marilton
Borges, entre outros artistas, do movimento Clube
da Esquina, que marcou o cenário cultural mineiro
na década de 60, é hoje o presidente da União
Brasileira dos Compositores (UBC). Em entrevista,
ele fala com exclusividade sobre seu trabalho como
compositor, da parceria com Milton e, principalmente, de seu trabalho à frente da entidade em
defesa dos direitos dos autores brasileiros.
É assim, por intermédio do desempenho dos estudantes e tendo sempre a preocupação em abordar
assuntos de interesse da comunidade e que va
lorizem os personagens que ajudam a contar essas
histórias, que o Jornal Marco vem contribuindo para
o exercício pleno do bom jornalismo.
EXPEDIENTE
expedienteexpedienteexpedienteexpedienteexpedienteexpediente
jornal marco
Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas
www.pucminas.br . e-mail: [email protected]
Rua Dom José Gaspar, 500 . CEP 30.535-610 Bairro Coração Eucarístico
Belo Horizonte Minas Gerais Tel: (31) 3319-4920
Sucursal PucMinas São Gabriel: Rua Walter Ianni, 255 CEP 31.980-110
Bairro São Gabriel Belo Horizonte MG Tel: (31) 3439-5286
Diretora da Faculdade de Comunicação e Artes: Profª. Glória Gomide
Chefe de Departamento: Profª. Maria Libia Araújo Barbosa
Coordenador do Curso de Jornalismo: Prof. José Milton Santos
Coordenadora do Curso de Comunicação / São Gabriel: Profª. Daniela Serra
Editor: Prof. Fernando Lacerda
Subeditor: Profa. Maria Libia Araújo Barbosa
Editor Gráfico: Prof. José Maria de Morais
Monitores de Jornalismo: Adriana Benevenuto, Bruna Fonseca, Carlos Eduardo
Alvim, Cínthia Ramalho, Laura de Las Casas, Pedro Vasconcelos
e Samara Nogueira
Monitores de Fotografia: Renata Fonseca e Ricardo Mallaco
Monitora de Diagramação: Lila Gaudêncio
Fotolito e Impressão: Fumarc . Tiragem: 12.000 exemplares
Vilma Tamborini, dona da banca de jornal que funciona ao lado do Shopping Rosa, sofre com o mau cheiro da urina e ainda tem que limpar o local sempre
n
BRUNA CARMONA,
CÍNTHIA RAMALHO,
4º PERÍODO
Quando chega para trabalhar
todos os dias pela manhã, Vilma
Tamborini, dona de uma banca de
jornal localizada à Avenida 31 de
Março,
no
Bairro
Coração
Eucarístico, Região Noroeste de Belo
Horizonte, tem de conviver com o
forte cheiro de urina que fica ao
redor de seu estabelecimento. "Eu
não aguento ficar aqui. Meu estômago até embrulha de tão forte que é o
cheiro", reclama.
Muitas pessoas que passam pela
avenida e, principalmente os frequentadores de bares localizados em
uma galeria conhecida como
Shopping Rosa, utilizam o espaço
existente entre a banca de Vilma e o
prédio da esquina como banheiro, o
que torna o cheiro no local muito
desagradável. Com ponto no lugar
há 14 anos, Vilma afirma que há
dois essa situação vem se repetindo,
principalmente, às sextas-feiras,
quando o movimento nos bares é
grande e a quantidade de banheiros
para atender a todos é insuficiente.
A jornalista Bruna Santos também passa pelo mesmo inconveniente, já que a fachada do prédio
em que mora, próximo à banca de
Vilma, também serve de banheiro
para os frequentadores dos bares. A
jornalista afirma que várias vezes, ao
chegar à janela de seu apartamento,
já se deparou com homens urinando
em frente ao prédio. "Não sou obrigada a presenciar momentos tão íntimos de uma pessoa, além disso, o
cheiro é insuportável", contesta.
O estudante de Engenharia de
Energia Alan Almeida Costa vive os
dois lados do problema. Ele mora no
mesmo prédio de Bruna e também
reclama do mau cheiro gerado pela
urina, porém, como freqüentador do
Shopping Rosa, reconhece a quantidade insuficiente de banheiros nos
bares. Assim como Alan, a estudante
de Engenharia de Energia Claudia
Mafra Magalhães afirma que nas
sextas-feiras a fila para utilizar os
banheiros fica muito grande e, por
conta disso, muitos frequentadores
preferem urinar na rua. "Além dos
dois banheiros dos bares, tem um
banheiro no Rosa que o pessoal também costuma usar, mas lá tem que
subir escada. Por facilidade, o pes-
soal faz xixi na rua mesmo", conta.
Wemerson Neves é responsável
por um dos bares localizados no
Shopping Rosa e diz que às sextasfeiras, os banheiros do estabelecimento não comportam a quantidade
de pessoas. Segundo ele, o uso dos
banheiros do Shopping é restrito aos
clientes das lojas e durante a noite,
eles permanecem fechados.
Não são apenas os moradores da
Rua 31 de Março que sofrem com os
problemas gerados por quem faz xixi
em locais públicos. Em vários pontos
de Belo Horizonte, como na Praça
da Estação, Avenida Olegário Maciel
e em locais próximos a boates e casas
de show a situação se repete, afirma
a assessora de imprensa da Secretaria
de Limpeza Urbana (SLU), Vivian
Guerra. O ponto da Avenida
Olegário Maciel, entre as ruas Caetés
e Paulo Frontin, é apontado pela
SLU como o local público mais utilizado pelas pessoas que urinam na
rua. O lugar possui um fluxo intenso
de pessoas durante todo o dia, o que
é apontado pela chefe do
Departamento de Planejamento da
SLU, Izabel Andrade, como um dos
motivos do alto índice de urina nessa
local. "Os ambientes urbanos estão
cada vez mais populosos e com as
multidões surgem problemas com a
higiene e com a eliminação dos resíduos sólidos e líquidos humanos",
ressalta.
Para o funcionário de um hotel
localizado à Avenida Olegário
Maciel, que não quis se identificar, o
cheiro da urina é muito forte e é
motivo de várias reclamações entre
as pessoas que passam e trabalham
no local.
O ato de urinar em locais públicos
pode ocasionar problemas mais
graves do que o incômodo gerado
pelo mau cheiro, como a proliferação
de doenças em decorrência da falta
de saneamento. "Do ponto de vista
sanitário e ambiental, essa prática
não é higiênica e pode propiciar
ambientes cada vez mais degradados", alerta Izabel.
Como forma de amenizar o problema e medida de limpeza dos
locais afetados, a SLU envia um
caminhão pipa duas vezes ao dia,
pela manhã e à noite, para lavar o
ponto da Avenida Olegário Maciel.
Esse serviço de limpeza não é feito à
Rua 31 de Março e os moradores
acabam tendo que fazê-lo. "Eu é que
tenho que lavar, mas o problema é
que não tenho água aqui na banca",
conta Vilma.
Segundo Izabel Andrade, os problemas com a urina são maiores em
áreas habitadas por moradores de
rua, mas ela também alerta que em
períodos de festas populares, como o
carnaval, o problema aumenta por
causa do grande número de pessoas
nas ruas.
LEGISLAÇÃO A lei não é omissa para
as pessoas que urinam em locais
públicos. Muitos Códigos de
Posturas proíbem tal ato. Porém, de
acordo com a advogada Maria
Fernanda Pires de Carvalho, o
Código de Posturas do Município de
Belo Horizonte aprovado pela Lei
9.845/2010, não proíbe o ato de urinar na rua. "Não significa que o
cidadão possa fazer o uso da rua
para isso", alerta.
Pelo código de posturas, urinar em
locais públicos é classificado como
ato obsceno, tratado pelo art. 233 do
Código Penal. Dessa forma, a pessoa
que for pega urinando nas ruas
poderá ser encaminhada à delegacia
e ser autuada por ato obsceno, sendo
que a pena varia de três meses a um
ano ou pagamento de multa estipulada pela Justiça. "Mas isso é muito
mais uma questão de pudor e educação do que de qualquer outra",
acredita a advogada.
Os moradores da Rua 31 de
Março reclamam que já alertaram as
autoridades e nada foi feito. "Já procurei a polícia, mas eles não fizeram
nada. O policial disse que era para eu
xingar o pessoal porque isso não era
papel dele", pontua Vilma. O
inspetor da 4ª Delegacia de Polícia
de Belo Horizonte, Roberto Robini
informou que nesses casos, os
moradores devem procurar a
Prefeitura ou algum órgão responsá
vel por saúde e meio ambiente.
Mesmo assim, Robini disse que o
policial que atendeu a moradora
estava equivocado.
Enquanto as providências não são
tomadas, os próprios moradores tentam resolver a situação. "Já peguei a
vassoura para bater neles e nas sextas-feiras eu costumo jogar creolina
ao redor da banca para ver se espanta o pessoal, mas mesmo assim eles
ainda fazem xixi", lamenta Vilma.
Comunidade
Outubro • 2010
3
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
ASSALTOS NA PASSARELA DO METRÔ
RENATA FONSECA
Moradores de rua, assaltantes e usuários de drogas são
temidos na passarela do Metrô da Gameleira, na Região
Noroeste de BH. Inspetor acredita que problema é social
n
PEDRO VASCONCELOS,
LAURA DE LAS CASAS,
3º PERÍODO
Dados do Portal Público da BHTrans revelam
que todos os dias cerca de
oito mil passageiros circulam pela estação de Metrô
da Gameleira, na Região
Noroeste de Belo Horizonte. Uma das grandes
preocupações destes usuários é a segurança. A única
via de acesso da estação é
uma passarela que serve
de refúgio para moradores
de rua, assaltantes e
usuários de drogas. "Eles
ficam escondidos em um
canteiro ali embaixo da
passarela ao lado do ponto
de táxi, usando drogas à
vontade e assaltando as
pessoas", conta a comerciante Lucinéia de Almeida. "Tenho a minha
loja há 12 anos e só me
assaltaram uma vez, o
problema é lá fora, com as
pessoas mesmo. Volta e
meia tem um pivete correndo com uma bolsa na
mão, meu marido às vezes
tenta ajudar, tenta pegar o
pivete, todo mundo sabe
que eles ficam escondidos
debaixo da passarela", assinala Lucinéia.
Segundo o inspetor
Roberto Robini, da 4ª
Delegacia Distrital da
Polícia Civil de Minas
Gerais, o problema não é
novo e as ocorrências de
assaltos
na
Avenida
Presidente Juscelino Kubitschek
próxima
à
Estação da Gameleira são
recorrentes. "Essa região
tem tudo quanto é tipo de
crime. Assalto tem muito
ali em baixo, mas não
temos o registro exato",
afirma o policial. Robini
conta que o local é muito
visado pelos criminosos,
pois há um fluxo enorme
de estudantes e trabalhadores, principalmente
no
período
noturno.
Segundo ele, inúmeras
operações em parceria com
a Polícia Militar já foram
realizadas no local para
retirar as pessoas dali.
"Muitas vezes agimos junto com a PM e tiramos eles
dali, mas eles voltam no
mesmo dia, não adianta.
Levamos para a delegacia e
averiguamos se há alguma
denúncia no nome do indivíduo, mas é só isso que
podemos fazer", afirma.
VÍTIMAS Julio Ribeiro
Novaes, 24 anos é estudante da PUC Minas e
pega ônibus todos os dias
da semana no ponto ao
lado do canteiro da
Avenida Presidente Juscelino Kubitschek. "Eu
pego ônibus aqui há três
anos, já fui assaltado uma
O grande número de assaltos que ocorrem sob a passarela da Estação do Metrô da Gameleira, na Região Noroeste de BH, ameaça quem passa pelo local
vez, roubaram meu celular
e correram para o canteiro.
Estavam em bando, não
pude fazer nada", explica o
estudante. Novaes afirma
que vê com frequência
policiais rondando a região, mas para ele, esta é
uma medida ineficaz. "A
polícia sempre passa por
aqui, mas não adianta
muito, eles sempre voltam", afirma.
Ao lado do ponto de
ônibus, ainda nas proximidades do canteiro existe
um ponto de táxi que sofre
há alguns anos com este
mesmo problema de assaltos e intimidações. João
Carlos Leal está no ponto
há cinco anos e afirma que
convive com este problema desde que começou a
trabalhar no local. "Eles
ameaçam, falam que vão
quebrar o carro, jogam
pedras. A policia vem com
frequência aqui para tirar
as coisas deles, mas não
adianta, eles voltam.
Ficam usando todo o tipo
de drogas, isso intimida a
nossa clientela", conta o
taxista.
O único efetivo de segurança fixo do metrô é
garantido por uma empresa privada e restrito à
parte interna. O vigilante
Maurício Silva, responsável pela segurança dentro
da estação, afirma nunca
ter tido problemas com
assaltantes dentro do
metrô, mas revela ter presenciado diversos assaltos
nas proximidades da pas-
sarela. "Nunca presenciei
nenhum assalto dentro do
metrô, aqui dentro eles
respeitam, só entram para
pedir esmolas", diz Silva.
Para o inspetor Roberto
Robini, o problema é mais
social do que policial. "A
gente apreende as coisas
deles, a Prefeitura leva
para o abrigo, mas eles
voltam para o local, vira
um ciclo e é difícil apontar
uma solução concreta",
afirma.
Violência na região do Coreu assusta moradores
RICARDO MALLACO
O alto índice de assaltos e violência no Coreu fez o policiamento ser reforçado em todo o bairro
n
LUISA FARIA PEREIRA,
2º PERÍODO
Localizada no Bairro Coração
Eucarístico, na Região Noroeste de
Belo Horizonte, a Padaria Pão Fofo
foi assaltada 13 vezes em um intervalo de apenas quatro meses neste
ano. Cansada da situação, depois do
último assalto a proprietária Sandra
Patrocínio Santana Bonisson, 49
anos, também moradora do local,
recorreu à imprensa e diz que a partir disso, houve um aumento na vigilância feita pela Polícia Militar.
"Meu estabelecimento foi assaltado
13 vezes em quatro meses, em
horários diferentes e pelo mesmo
cara. Ele chegava aparentemente
com arma. Todas as vezes chamamos
a polícia e temos o boletim de ocorrência de todas, mas não aconteceu
nada. No último assalto, eu acionei a
Rádio Itatiaia, Rede Globo, todas as
mídias possíveis. Foi aí que a polícia
aumentou o policiamento no bairro", contou Sandra Bonisson.
Segundo ela, os assaltos aconteceram entre junho e agosto deste ano.
A sensação de violência preocupa
moradores e pessoas que passam
diariamente pelo Coração Eucarístico, bairro que abriga o maior
campus da PUC Minas. Muitas pessoas têm relatos de furtos e roubos
ali acontecidos, o que geram
mudanças de hábitos. "Estou tomando mais medidas de precaução. Não
levo celular para a escola", conta
Pedro Magleau, 13 anos, aluno do
8º ano do Colégio Santa Maria, no
Coração Eucarístico, sobre as medidas de segurança que toma para evitar novos assaltos relâmpagos no
bairro. Ele e o amigo de turma,
Marcelo Henrique Silva Amorim, 13
anos, foram surpreendidos por dois
meninos à Rua Dom José Gaspar,
por volta de 12h. Magleau teve seu
celular roubado. "A gente ligou para
a polícia, mas não recuperamos o
celular", relatou Marcelo Amorim.
"Como a mídia hoje é muito efetiva, a pessoa tráz aquilo como se
fosse para ela. A sensação de insegurança é a pessoa sentir medo mesmo
estando segura", observa o comandante da 9ª Companhia do 34º
Batalhão da Polícia Militar, localizada no Bairro Padre Eustáquio, André
Leão. Segundo ele, os índices de
criminalidade na região estão
decaindo, mas as notícias veiculadas
pela imprensa criam a sensação de
insegurança.
André Leão, no entanto, reconhece que existem casos e alerta os
estudantes da PUC Minas que precisam estacionar o carro fora da universidade e não se preocupam muito
com a segurança do veículo e seus
pertences pessoais. "Como o estacionamento da faculdade não comporta todos os veículos dos estudantes, eles estacionam o carro em
lugares propícios a furtos, com
pouca iluminação, em lugares
íngremes, distantes da universidade,
e deixam seus bens no veículo sem
alarme ou algum sistema de segurança", afirma o oficial.
"Deixo o carro na rua mesmo,
acabo fazendo isso para não ter que
pagar estacionamento e por ele ficar
longe das entradas da PUC. Sei que
é mais arriscado, mas procuro estacionar onde haja vários carros de
alunos, acredito que assim a possibilidade de ser alvo de ladrões é um
pouco menor", comenta Umberto
Abreu Noce, 23 anos, estudante do
4º período de direito da PUC Minas,
referindo-se à necessidade de estacionar o carro nas mediações do
campus universitário. Noce concorda em parte com a fala do comandante André Leão, que reclama do
sensacionalismo de parte da imprensa. "Acredito que esses jornais
exercem uma função dúbia. Por um
lado é interessante que eles existam
para que a realidade violenta do
Brasil não seja 'escondida' e
'empurrada para debaixo do tapete'.
Porém, há também um ponto negativo nestes jornais que é devido ao
fato deles praticamente só noticiarem casos de violência extrema.
Acabam gerando uma descrença no
cidadão quanto ao país e suas instituições", analisa o estudante.
REDE DE VIZINHOS Para o professor de sociologia do curso de ciências sociais e coordenador do Centro
de Pesquisa e Segurança Pública
(CEPES) da PUC Minas, Luís Flávio
Sapori, 45 anos, a organização dos
moradores em torno de projetos
existentes na área de segurança
pública é importante. "A Rede de
Vizinhos Protegidos é um bom projeto porque envolve uma cooperação
direta, voluntária, até cidadã da
sociedade civil com a segurança
pública. Boa parte da prevenção do
crime depende do nosso comportamento como cidadão, na capacidade
de ser mais cuidadoso, de estar atento às atitudes suspeitas e aos vizinhos", avalia o especialista, sobre o
projeto de segurança criado pela
Polícia Militar e implantado em uma
série de bairros de Belo Horizonte,
incluindo o Coração Eucarístico.
Segundo o professor, os moradores
do bairro deveriam se organizar em
conselhos comunitários e denunciar
crimes pelo disque denúncia. "Os
moradores se organizam para atuar
junto às policias Militar e Civil para
discutir os principais problemas,
buscar soluções conjuntas, cobrar
resultados para pressionar, mas também para definir ações em parceria.
E o cidadão pode colaborar dando
informações de pessoas suspeitas a
partir do disque denúncia, telefone
181, que é uma maneira direta e
individual do cidadão participar
dando informações à polícia de
crimes", diz Sapori.
Moradores e trabalhadores da
região dizem não perceberem os
efeitos dos projetos "Rede de
Vizinhos Protegidos" e "De Olho na
Rua", justamente por não haver
interação e confiabilidade dos vizinhos para intimidar a ação dos bandidos. "Eu nunca fui convidada para
participar do projeto. Aqui, as casas
não têm placas avisando do Projeto",
reclama a aposentada Eny Albergaria, moradora do bairro
Castelo, ao comparar a sinalização
de placas no seu bairro e no Coração
Eucarístico, onde trabalha. Ela
acredita que deveria haver policiamento de bicicleta, vigia para intimidar os criminosos e mais participação da população na "Rede de
Vizinhos Protegidos". Contudo, ela
não se queixa da agilidade da Polícia
Militar. Ela conta que alunos do
Colégio Santa Maria, no Coração
Eucarístico, tiveram R$ 20 roubados
por dois menores no horário de
almoço, no primeiro semestre deste
ano. "Chamei a polícia e ela não
demorou a aparecer", revela a
aposentada.
4 Comunidade
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
ÔNIBUS SÃO ALVO DE RECLAMAÇÃO
n
ADRIANA BENEVENUTO,
BRUNA FONSECA,
CARLOS EDUARDO ALVIM,
CÍNTHIA RAMALHO,
LILA GAUDÊNCIO,
PEDRO VASCONCELOS,
SAMARA NOGUEIRA,
As linhas de transporte coletivo da Região Noroeste de Belo Horizonte enfrentam problemas diariamente durante as suas viagens. Veículos lotados,
poucos carros em horários de maior movimento, motoristas que não param nos pontos e o trânsito da capital incomodam quem utiliza este serviço
RENATA FONSECA
3º, 4º E 6º PERÍODOS
As linhas de ônibus que atendem a Região Noroeste de Belo
Horizonte, especialmente a
Região da PUC Minas, no Bairro
Coração Eucarístico, são motivo
de reclamação dos usuários. O
transporte coletivo enfrenta
problemas como atrasos no
horário, lotação, motoristas que
passam direto pelos pontos, a
baixa quantidade de veículos nos
horários de pico, além do trânsito intenso das ruas de Belo
Horizonte que colabora para a
ocorrência de atrasos.
Os usuários das linhas 4110,
4111, 9410, 5401, o suplementar 21 e o metropolitano 2580,
enfrentam essas dificuldades no
dia a dia. A estudante de arquitetura Bárbara Silveira, de 19 anos,
usuária da linha 4111, reclama
dos atrasos. "É muito ruim quando eu fico mais de 20 minutos
esperando o ônibus, tem dia que
tento ir mais cedo para a faculdade, mas não consigo, porque o
ônibus demora 40 minutos para
chegar, então nem adianta eu
acordar mais cedo", diz. A estudante de relações internacionais
Julia Rodrigues, 18 anos, diz não
se importar com a demora, mas
afirma que o atraso é comum na
linha. "Acho que ele costuma
demorar um pouco, tanto o 4111
quanto o 4110, mas não tem
outro jeito", afirma.
Nos horários de pico a reclamação gira em torno da lotação
dos veículos. "O único ruim é
que nesses horários eles vem
bem cheios, mas a gente entende
que é por causa do horário",
conta Bárbara. Os usuários
acreditam que a frota é insuficiente para atender a linha nos
horários de maior movimento.
"Pela manhã, antes de 7h, quando chega à Praça Sete o ônibus
não anda por estar muito cheio.
Ele passa de cinco em cinco minutos e mesmo assim fica cheio.
A frota é insuficiente", afirma a
usuária que se identificou como
Raquel Cristina, 28 anos.
Além do 4111, Raquel utiliza
a linha 5401 para ir ao trabalho
nos horários de maior movimento, entre 17h30 e 18h. Ela
percebe, porém, a diferença
entre as duas linhas. “O 5401
passa com muita frequência e
costuma não atrasar muito não”,
comenta. O estudante Marlon
Marcos Marins, de 22 anos, concorda com Raquel, mas observa
que em véspera de final de semana e em dias de chuva a linha
fica mais cheia. “Durante a semana é normal. O problema é na
sexta feira e em dias de chuva, aí
enche muito. A linha não costuma atrasar muito, passa de 15
em 15 minutos. Não vou dizer
que o transporte é bom porque
não é. É regular”, constata. “Em
qualquer horário que eu pego o
ônibus ele está cheio, porque
geralmente são nos horários de
pico”, aponta o estudante de 17
anos, Heitor Fernandes Costa de
Oliveira.
Outra reclamação recorrente
entre os usuários é o trânsito que
as linhas enfrentam em seu itinerário. "O trânsito tudo agarra,
isso aqui de manhã, nossa!",
expressa o estudante de direito
Kareon Lemes, de 19 anos. "Por
Durante as viagens, o excesso de lotação de passageiros, é uma das reclamações e um dos problemas que os frequentadores das linhas da Região Noroeste enfrentam diariamente
exemplo, hoje eu peguei ele mais
ou menos 18h40, ou 19h, só sei
que eu gastei 20 minutos naquele pedaço da Amazonas, eu
gastei 20 minutos parado ali",
explica. A advogada Sandra
Maria Lovifi, de 49 anos, utiliza
o 5401 para voltar do trabalho,
no sentido centro-bairro (Dom
Cabral). "Para voltar já é complicado, porque é horário de pico e
tem os estudantes da PUC, que
pegam o ônibus no mesmo
ponto que eu. Sempre ele engarrafa no centro até a universidade. Normalmente o ônibus já
vem cheio, como eu pego na
Praça Sete, ele enche bastante,
às vezes eu venho em pé e ele
para em quase todos os pontos
da Amazonas", conta.
Na linha 4110 os usuários
reclamam que muitas vezes os
motoristas passam direto pelos
[ ]
“TEM MOTORISTA
QUE NÃO PARA NO
PONTO NO HORÁRIO
EM QUE VOCÊ
PRECISA”
pontos ignorando os sinais dados
pelos passageiros. "Às vezes o
ônibus para no ponto, às vezes
ele não para. Na maioria das
vezes ele não para", diz o dançarino Djalma Ferreira Júnior, de 28
anos. "Tem motorista que não
para no ponto no horário em que
você precisa pegar o ônibus, é
questão de deixar o passageiro no
ponto mesmo. Passa liso", diz a
estudante de direito Helena
Tavares, de 28 anos.
Ela passa três horas do dia
dentro do ônibus, já que o utiliza
para ir do Bairro Padre
Eustáquio até o shopping Alta
Vila, situado no Bairro Vila da
Serra, em Nova Lima, ida e
volta. Cada viagem tem aproximadamente uma hora e meia.
"Esse é um outro transtorno que
a gente enfrenta, que é o trânsi-
to. O tempo que eu perco dentro
do ônibus, eu poderia estar
fazendo um estágio, ou estar trabalhando. Às vezes a gente
demora 15, 20 minutos num
horário, que se não tivesse tanto
trânsito poderia ser feito em
menos tempo", diz a estudante.
Além disso, os problemas
decorrentes das outras linhas
também são comentados, como
atrasos, trânsito e lotações. O
estudante de engenharia química, Renan Orgando, de 22 anos,
diz que os atrasos da linha decorrem do fato do ônibus percorrer
uma distância muito grande
entre um ponto final e outro, já
que o 4110 cruza regiões
extremas, região noroeste e sul.
"A questão é mesmo que esse
ônibus aqui percorre lugares
muito distantes, se você perde, é
complicado esperar outro", conta.
Segundo ele, as quintas e sextasfeiras são os piores dias para
pegar o ônibus, tanto no horário
do início da manhã quanto à
noite, por causa da lotação. "Na
volta, da Zona Sul para a
Noroeste, é muita gente que pega
o ônibus, pelo menos eles descem
ali na Rua São Paulo, que tem
muita gente que pega outro
transporte, eles descem na São
Paulo e liberam o ônibus para a
gente seguir o resto da Rua Padre
Eustáquio. Fora isso, é muito
complicado até esse trecho, é
gente demais. É em pé, e só
entrando mais gente", relata.
A estudante de direito Camille
Rodrigues, de 28 anos, diz também que a noite é o horário em
que o 4110 fica mais cheio, e que
há atraso na linha. O assistente
administrativo Júlio Ramon da
Silva Ribeiro, de 27 anos,
percebe que há uma inconsistência nos horários. "Nem sempre
você pode contar com o horário
que você vê na placa do ônibus
que vai condizer que o real.
Sempre está muito cheio também", diz.
Atrasos não são comuns na
linha do Suplementar 21
Os ônibus da linha 21 não
foram alvos de reclamação no
que diz respeito a atrasos.
Segundo o motorista da linha,
Mateus Costa Viana, há um
ano na função, os suplementares são diferentes das
outras linhas que rodam no
bairro. Cada suplementar possui um dono, na maioria das
vezes o próprio motorista.
Ainda assim, o microônibus
amarelo responde à mesma
regulamentação das grandes
empresas. “A fiscalização é
feita da mesma maneira que
nos ônibus azuis, o fiscal chega
de surpresa”, explica. "Se a
gente sai do ponto final atrasado três minutos, por exemplo,
a BHTrans considera como
'viagem morta', já que a
viagem não foi realizada no
horário. Aí temos que justificar, dizer o motivo do atraso
e às vezes até pagar uma
multa", conta Viana.
Helenice Rodrigues Ramos,
agente de bordo há dez anos,
conta que trabalha no 21
desde a fundação da linha,
logo após a regulamentação
pela Prefeitura de Belo
Horizonte (PBH), quando as
antigas peruas passaram a ser
os atuais suplementares.
Segundo Helenice, o início do
semestre letivo é o período em
que os ônibus ficam mais
cheios, “antes dos alunos
novatos arrumarem as vans
particulares".
Viana conta que nos
horários de pico, a diferença
entre um carro e outro é de
cinco a dez minutos. "Mesmo
assim, a gente só passa direto
do ponto quando vê que tem
outro 21 atrás. Não pode
deixar passageiro para trás,
mesmo quando está lotado.
Sempre cabe mais um", conta.
"Quando está lotado, a gente
para mesmo assim. Aí o passageiro vê a situação e decide
se quer ou não entrar", acrescenta. De acordo com
Helenice, os 12 suplementares
seguem uma escala de horários
para sair, dificilmente os 12
veículos rodam juntos, exceto
nos
horários
de
pico.
Entretanto, atualmente os
ônibus demoram mais para ir
de um ponto final a outro, por
causa do trânsito.
Assim como há lotação nas
linhas que atendem a região da
PUC no Bairro Coração
Eucarístico, o suplementar 21
também apresenta esse problema. A estudante de direito
Karina Vieira Rosseti Moreira
acredita que o suplementar
fica cheio devido ao horário de
pico, no final da tarde. Outro
horário em que os usuários
constatam que há lotação, é no
período da manhã. "Ele vem
muito cheio, às 7h e lá pelas
17h. O 21 sempre passa rapidinho, só no horário de pico
que ele vem cheio", conta a
também
estudante
Ana
Esteves.
Procurando manter o compromisso dos motoristas para
com o horário, eles mesmos
criaram um sistema de pontos.
"É um regulamento nosso, não
necessariamente da Cooperativa dos Suplementares, mas
do 21. O carro perde um
ponto por minuto de atraso,
medido pelo aparelho eletromagnético instalado em cada
ônibus que marca o horário,
quem perde mais pontos deixa
de rodar", explica. "A coisa
mais difícil é encontrar
motorista mole nessa linha",
brinca Viana. Para ele, cada
minuto de atraso faz diferença, pois todos os motoristas
têm escalas a cumprir.
Comunidade
Outubro • 2010
5
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
RENATA FONSECA
Passageiros aguardam ônibus em ponto cheio, na Região Noroeste de Belo Horizonte, próximo a Estação de Metrô da Gameleira. Funcionários anônimos da BHTrans fiscalizam para minimizar os problemas das linhas de ônibus
TRÂNSITO, ATRASOS E LOTAÇÃO
Uma série de ações de
monitoramento do serviço
de transporte coletivo são
feitos pela Empresa de
Transportes e Trânsito de
Belo Horizonte (BHTrans),
a fim de minimizar os
problemas apontados pelos
usuários das linhas 4111,
4110, 5401, 9410, suplementar 21 e metropolitano
2580, como os atrasos das
linhas e a lotação nos
horários de pico. "Temos
um sistema de fiscalização
eletrônica que permite
comparar 100% de todas
as viagens realizadas, cerca
de 25 mil viagens por dia.
Esse sistema compara
todas as viagens, os
horários realizados com os
horários
programados.
Então a BHTrans tem um
regulamento de serviços",
afirma o gerente de controle e estudos tarifários
da BHTrans, Sérgio
Carvalho.
O gerente conta ainda
que existem regras para a
pontualidade das linhas
de ônibus, e que fazem
parte de uma regulamentação para garantir o
cumprimento das viagens. "A BHTrans possui
fiscais físicos que são
agentes que vão às garagens, vão às estações ou
mesmo em campo durante
os variados horários, para
estarem fiscalizando o
cumprimento do serviço,
para garantir a qualidade
para os usuários", explica.
Em relação às reclamações,
Sérgio diz que elas são
encaminhadas a uma
gerência de atendimento
ao usuário, e que, ao serem
analisadas, podem aumentar a fiscalização no local
onde foi identificada a
reclamação.
Segundo o assessor da
BHTrans, Gilvan Marçal,
não é disponibilizando
mais ônibus nos horários
de pico que o problema dos
atrasos será resolvido.
Embora os ônibus saiam
pontualmente
para
a
viagem nos horários determinados, o trânsito da
cidade é um dos fatores
que atrasam as linhas.
Ainda segundo Gilvan, a
BHTrans fiscaliza o horário
de saída e chegada desses
veículos em seus respectivos pontos finais, sendo
que não é possível verificar
os imprevistos durante os
trajetos, o que gera reclamação dos usuários.
Os usuários da linha
9410 não reclamam do
serviço. Para eles, o problema maior da linha está na
lotação, já que os ônibus
ficam
frequentemente
cheios. "Eu pego esse
ônibus todos os dias a
7h30, dificilmente da para
ir sentado", diz Antônio
Roberto Silveira, de 46
anos. A única reclamação
que os passageiros fazem
da linha, além da lotação, é
o trânsito que dificulta o
fluxo da rota. "O mais
problemático é que 8h o
trânsito está muito ruim e
am, não reclamaram da
situação. O restante da
equipe embarcou no suplementar 21, o qual apresentou defeitos na porta traseira, que não fechava completamente. O veículo percorreu grande parte da
Avenida Silva Lobo com
metade da porta aberta.
METROPOLITANA
A
linha metropolitana 2580,
Eldorado - Belo Horizonte,
passa pela região da PUC
Minas na Avenida Tereza
Cristina, mais conhecida
como Via Expressa. Da
mesma forma que os
ônibus azuis, os usuários
enfrentam problemas para
chegar e voltar dessa região.
"O ônibus demora um
pouco para passar no
ponto, e a estrutura do
ônibus está um pouco
ruim", conta a estudante
de 16 anos, Samã
Mayara. "Quando eu
pego o ônibus às 6h20
para o primeiro horário
de aula, dá para ver que
tem mais estudante. O
ônibus vai lotado até a
PUC”, diz.
Quando eu pego para
o segundo horário, lá
para as 8h, o ônibus fica
lotado, mas quando chega
no centro esvazia bastante
e vai vazio até a universidade", conta o estudante
de odontologia Lucas
Penido Santiago, de 21
anos.
No que diz respeito à
estrutura, o motorista da
linha
2580,
Carlos
Cândido, de 45 anos, compara os veículos novos com
os antigos. "Os novos dão
mais possibilidade para a
gente trabalhar, os velhos
não. Muitas vezes no carro
velho o banco não regula,
deixa a gente com dificuldade", relata. Sobre a
lotação e os atrasos, Carlos
se defende e pede compreensão. "Há uma certa
dificuldade em questão de
cumprir o horário, porque
muita das vezes o trânsito
te segura e eles (passageiros) acham que a gente
que faz de sacanagem",
conta.
[ ]
"EU PEGO ESSE
ÔNIBUS TODOS OS
DIAS A 7H30, DIFICILMENTE DÁ PARA IR
SENTADO"
o tempo de percurso
aumenta demais", diz
Lucas.
Para
Antônio
Roberto, morador do
Bairro Floresta o tempo de
viagem aumenta quando
há problemas no trânsito.
"Quando o ônibus está
lotado e o trânsito ruim, eu
demoro no mínimo 50
minutos para chegar em
casa. Quando não tem
trânsito, em dez minutos
dá para chegar", aponta.
Enquanto a equipe de
reportagem estava no
ponto de ônibus no Bairro
Coração Eucarístico, três
carros da linha 9410 passaram num intervalo de
cinco minutos. No mesmo
ponto, em um intervalo de
20 minutos, passaram dois
ônibus da linha 4110.
Parte da equipe embarcou
no segundo veículo, cuja
campainha não funcionava. Os passageiros, apesar
de terem que avisar a trocadora com antecedência
qual o ponto onde desceri-
Técnica de Transporte fala
sobre trabalho de fiscalização
n
JÉSSICA DE OLIVEIRA,
1º PERÍODO
O sol acaba de se
esconder.
Estou
na
minha quarta viagem do
dia, em mais uma jornada
de
trabalho.
Congestionamentos,
semáforos apagados ou
queimados,
buzinas,
sirenes, luzes, velocidade,
acidentes, agitação no
trânsito.
Ocorrências
comuns à rotina de um
técnico de transporte e
trânsito, profissão que
exerço há pouco mais de
um ano.
Embarco no 4110,
com um olhar clínico na
parte
dianteira
do
ônibus. Adesivos, extintor de incêndio, jornal
institucional, cartazes,
tudo certo. Uma senhora
à minha frente quer sentar, mas não consegue,
pois jovens estão dormindo no lugar que era
dela por direito. Fico
atenta.
Rodo a roleta após
passar o cartão BHBUS,
especial
para
funcionários. O motorista
aproveita a fluidez do
trânsito e afunda o pé no
acelerador. Me seguro
firme. Ônibus cheio.
Alunos indo a aula e
devem pensar que faço o
m
e
s
m
o .
Descaracterizada, com
uma mochila nas costas,
até que engano bem.
De repente, acontece
algo que não sei exatamente o que é: o
motorista no impulso
pisa no freio com muita
vontade. Resultado: as
pessoas quase "voam"
dentro
do
veículo.
Consigo pegar meu papel
e caneta, anoto, onde
embarquei, em qual
ônibus e, o principal,
aquela freada brusca.
Assim que chego à
gerência na qual trabalho, transfiro todas as
informações que anotei
para os formulários
específicos, pois fica mais
fácil
identificar
as
infrações. Fazemos isso
com o intuito de tentar
melhorar a qualidade do
transporte da capital
mineira. Ao pensar que
essa melhoria pode ser
implementada a partir do
meu trabalho, me dou
conta do tamanho da
minha responsabilidade.
Faço parte de uma
equipe de 15 técnicos de
transportes e trânsito da
BHTrans. Atuamos especialmente com o transporte coletivo, exceto
suplementar. Somos três,
técnicos
responsáveis
pelas linhas das regionais
Pampulha e Noroeste.
Nesta última se situa a
PUC, universidade onde
estudo
jornalismo.
Coincidência ou não, a
pauta - "transporte coletivo" -, foi anunciada pelos
colegas do MARCO na
sala de aula. Me identifiquei com o tema.
Nosso serviço é bem
variado. Ficamos a maior
parte do tempo incógnitos (descaracterizados),
disfarçados de usuários
comuns. Assim, motoristas e agentes de bordo
agem com mais espontaneidade, sem procurar
omitir possíveis erros.
Mas também trabalhamos uniformizados,
conforme os agentes de
trânsito, em situações
que necessitamos ser
identificados, de imediato, pelos responsáveis
pelas linhas dos transportes
coletivos.
Geralmente
acontece
quando precisamos obter
informações de cunho
profissional que não
dizem
respeito
aos
usuários, como o nome
do motorista que fez a
viagem em um determinado horário. Isso se
enquadra em um outro
tipo de fiscalização que
fazemos.
A atividade “viagem a
bordo”, a qual descrevi
há pouco, caracteriza-se
por embarcarmos nos
veículos em operação.
Seguimos uma escala
mensal, com o objetivo
de verificarmos se os
veículos estão de acordo
com o Regulamento dos
Serviços de Transporte
Público Coletivo e Convencional de Passageiros
por
Ônibus
do
Município
de
Belo
Horizonte. Esse documento
reúne
a
padronização que as
empresas dos transportes
coletivos devem seguir,
como, por exemplo,
leiaute interno e externo;
se os motoristas estão
dirigindo de forma a
garantir segurança aos
usuários; se o agente de
bordo tem troco e se sabe
operar os elevadores dos
veículos; se as lixeiras
estão em bom estado e
na quantidade certa; se o
agente de bordo possui
os
cartões
BHBUS
Retornáveis; se a roleta,
catraca e aparelho de
leitura do BHBUS estão
em boas condições.
Também descaracterizados, realizamos a atividade chamada "nível de
conforto". Nela, anoto os
números de ordem dos
veículos, o horário e a
quantidade de passageiros da linha. Tudo
isso para checar se a
quantidade de carros e os
horários estão ou não
atendendo a demanda
dos passageiros. Essa
pesquisa é feita no
horário de pico e no
horário de fora pico. Para
cada um desses momentos há uma forma correta
de se calcular se os veículos estão andando super
lotados ou vazios. Já com
uniforme, fazemos outras atividades. Mas isso
é uma outra história, que
ficará para um próximo
texto.
6 Campus
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
PROJETO RECICLARTE EXPÕE NA PUC
n
LEANDRO HORTA,
6º PERÍODO
Reutilizando peças de ferro-velho e sucata para criar representações realistas e em grandes proporções,
os escultores Alisson Brito e Matheus Romualdo expõem a arte que vem do lixo no Museu da PUC
FOTOS: LEANDRO HORTA
O Museu de Ciências
Naturais da PUC Minas recebe
o Projeto Reciclarte com obras
dos artistas plásticos Alisson
Brito e Matheus Romualdo. Os
artistas chamam a atenção para
as relações entre o meio ambiente e os materiais que são
descartados diariamente nos
lixos e contribuem para o aquecimento global. As obras foram
produzidas com pedaços de carros, motos, caminhões doados
por oficinas e pessoas.
Segundo Matheus Romualdo,
a confecção das peças é feita
com base em fotografias espalhadas pelo chão da oficina para
que consiga agregar todos os
detalhes da espécie animal escolhida. "Na série artrópodes
houve uma grande preocupação
com o nível de naturalismo das
peças, nos preocupamos em tentar deixar o máximo parecido
com os artrópodes reais justamente para criar um impacto
maior, tanto pela inversão das
proporções com os insetos
gigantes quanto pelo contraste
natureza versos máquinas",
explica. Ao todo, são seis peças
espalhadas pelo jardim do
Museu de Ciências Naturais
PUC Minas.
Os artistas alegam que a ideia
de criar obras de arte por intermédio de sucatas surgiu a fim de
chamar a atenção das pessoas
para a necessidade de reciclar e
diminuir o consumo e o impacto
ambiental. O projeto deu tão
certo que as obras já foram
expostas em diversos locais,
como Ouro Preto, Piratininga,
Escola de Belas Artes da
Universidade Federal de Minas
Gerais, Centro de Referência em
Resíduos e o Museu de História
Natural da UFMG.
Alisson Brito afirma que sua
inspiração para a arte começou
em uma visita a exposição de
Salvador Dali, no Museu de Arte
da Pampulha. "Fiquei com aquelas esculturas na cabeça, era
muita informação, era algo diferente de tudo o que eu já tinha
visto ou pensado. Na época eu
era serralheiro e passei a imaginar como seria utilizar todo
aquele maquinário com o qual
eu trabalhava para dar a vida a
algo que só existia na minha
imaginação", lembra. Matheus
Romualdo conta que sua inspiração vem do próprio cotidiano.
"As pequenas coisas estão escondidas pela máscara da rotina,
carregam valores e abrem espaço
para contemplações e transformações", afirma.
As pessoas interessadas em
conferir as exposições do Museu
de Ciências Naturais PUC
Minas, o horário de funcionamento é o seguinte: as terças,
quartas, sextas e sábados, entre
8h30 e 17h e às quintas-feiras de
13h às 21h. A entrada custa R$4
para visitantes e alunos da PUC
não pagam.
Outras informações
podem ser obtidas pelos
telefones (31) 33194520 e (31) 3319-4983
ou pelo site www.pucminas.br/museu.
A série de esculturas denominada “Artrópodes” foi feita pelos artistas plásticos com a preocupação em manter o nível de naturalismo das peças
Cadeiras ergonômicas facilitam trabalho de intérpretes
RICARDO MALLACO
n
CARLOS EDUARDO ALVIM,
3º PERÍODO
A intérprete Soraia usa a cadeira ergonômica para traduzir a aula aos alunos deficientes auditivos
Os intérpretes de libras da
PUC Minas ganharam uma nova
ferramenta de trabalho. Desde
agosto, cadeiras ergonômicas
estão sendo instaladas nas salas
de aula frequentadas por alunos
com deficiência auditiva. A iniciativa partiu de um projeto do
Núcleo de Apoio a Inclusão
(NAI) em parceria com o Curso
de Fisioterapia da universidade
para melhorar a qualidade e
facilitar o trabalho dos intérpretes, já que muitos deles se
queixavam de fortes dores musculares recorrentes dos movimentos da interpretação.
A
análise
ergonômica
começou em 2007 numa iniciativa pioneira focada nas condições
de trabalho dos intérpretes e
para reverter o número de
licenças médicas que estavam
aumentando. "Nunca houve uma
discussão sobre a qualidade de
trabalho do intérprete antes
deste projeto. Eles sempre reclamavam de dores na região do
pescoço porque tinham que virar
muitas vezes para ver o que o
professor estava mostrando no
quadro e assim traduzir, para o
aluno. Este movimento repetitivo fez com que muitos deles
pedissem licença devido às
dores. Quando a situação ficou
mais gritante, demos início ao
projeto de pesquisa", conta a
coordenadora na área de surdez
do NAI e responsável pela coordenação dos intérpretes, Heliane
Alves de Carvalho.
Foi através da observação e da
pesquisa com os intérpretes que
Renata Campos Vasconcelos,
professora
do
curso
de
Fisioterapia e especialista em
ergonomia, percebeu que uma
cadeira adaptada diminuiria os
incômodos. "Estudamos as
demandas e as necessidades dos
intérpretes acompanhando o seu
trabalho e através desta análise,
o uso da cadeira foi recomendado", revela a professora que coordenou o projeto com a participação de cinco alunos da graduação.
COMODIDADE A cadeira é estofada, giratória e permite uma
acomodação melhor. É inclinada,
possui descanso para os braços e
pode ter a altura regulada. "O
segredo do produto ergonômico
é sua flexibilidade. Na cadeira, o
intérprete pode ajustar e adequála do seu jeito. Ele se sente mais
confortável para realizar o seu
trabalho e tem mais mobilidade
na interpretação", diz Renata
Soraia Vieira trabalha como
intérprete de libras há 12 anos.
Para ela, a cadeira ergonômica
não só ajuda a contornar o problema das dores, mas também
contribui para um melhor
desempenho na interpretação.
"Na cadeira fixa, a questão do
movimento era complicada, exigia uma movimentação muito
maior do intérprete. Com a
cadeira ergonômica temos um
conforto maior, pois ajustamos
ela à nossa medida. Outra coisa,
é que a interpretação não é só as
mãos, tem movimentos que utilizamos o corpo e que agora,
com a nova cadeira, podem ser
vistos com mais facilidade pelo
aluno", afirma a intérprete.
Os benefícios se estendem
também para os alunos surdos
que são acompanhados pelos
intérpretes, como Tales Douglas
Moreira, 30, que é aluno do
curso de Letras."A cadeira fixa
atrapalhava a visualização da
interpretação. Era complicada a
mobilidade do intérprete e que
muitas das vezes prejudicava nas
traduções e na nossa compreensão", conta o estudante, em
entrevista, com o auxílio da
intérprete Soraia.
O uso das cadeiras ergonômicas é exclusividade do intérprete,
mas alunos das salas onde elas
estão instaladas acabam a utilizando para outros fins. "Tem
alunos que ficam brincando de
corrida, usam para assentar,
abaixam a altura. Outro dia tive
que fazer a interpretação em pé
porque a cadeira não estava na
sala de aula", reclama Soraia.
As cadeiras foram instaladas
em todos os campi da PUC
Minas. Atualmente a universidade atende 31 alunos surdos
nos mais variados cursos e conta
com 29 intérpretes em seu
quadro de funcionários.
Cidade
Outubro • 2010
7
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
FOTOS: RAQUEL ROSCÉLI
BH É RICA EM BAIRROS
COM NOME DE MULHER
Homônimas dos locais onde residem, moradoras ajudam a contar casos curiosos dessas regiões e apostam em versões
que muitas vezes não são reais para explicar as origens dos nomes, sempre com bastante bom humor e descontração
n
BRUNA ZANETTI,
CAMILA LAM,
PAULA ABRITTA,
RAQUEL ROSCÉLI,
8º PERÍODO
Kátia, Jaqueline, Ana
Lúcia, Maria Goretti,
Aparecida, Suzana, Glória,
Lourdes, Maria Helena,
Ermerlinda,
Letícia,
Juliana, Betânia, Marize,
Regina. Para uma pessoa
que não conhece Belo
Horizonte, essa lista soa
apenas como uma série de
nomes próprios femininos.
Quem mora na capital
mineira, no entanto,
provavelmente já observou
que a listagem não é
aleatória. Os nomes revelam uma curiosidade: a
profusão de bairros com
nome de mulher.
A devoção materna lhe
rendeu o nome: Aparecida.
As circunstâncias da vida,
o bairro onde mora:
Aparecida. Após a morte
da mãe, aos nove anos ela
foi morar com uma tia que
residia naquela região.
Desde então, ela é a
Aparecida
do
Bairro
Aparecida. "Essas brincadeiras eu escuto direto.
Dizem que sou aparecida
por causa disso!", brinca
Aparecida de Fátima
Santos, que há 18 anos
cuida da limpeza da igreja
do bairro.
O trabalho a tornou
conhecida no bairro.
Quando se pergunta a
quem passa na rua por
alguma Aparecida que
more na redondeza, a
resposta é unânime: "Tem
a Aparecida lá da Igreja!".
Para a faxineira, o bairro é
como uma cidade interio-
rana de antigamente.
"Aqui todo mundo se conhece", diz. Apesar disso,
morando por ali há 47
anos, Aparecida viu a
região crescer. "Era como
uma vila, sem asfalto, sem
esgoto. Agora é tudo
cimentado, tem bastante
ônibus, saneamento. Tudo
mudou para melhor",
avalia. Mas afinal, porque
o bairro tem esse nome?
"Você tá achando que é em
minha homenagem? É por
causa da santa!", diz ela,
aos risos.
A explicação de Zé Totó
é outra. Sua mercearia é o
quarto estabelecimento
mais antigo de Belo
Horizonte. Aos 79 anos,
ele ainda atende sua fiel
clientela e oferece refrigerante e pé de moleque a
quem assenta no seu balcão. Segundo o comerciante, o bairro surgiu em
1928, e o nome Aparecida
é uma derivação de Vila
Maria Aparecida. "A santa
que me desculpe, mas
Maria Aparecida é o nome
da filha do dono das terras
que deram origem ao bairro", diz.
À frente da mercearia
mais tradicional da região,
fundada por seu pai 67
anos atrás, José Alves dos
Santos (como não gosta de
ser chamado) atendeu gerações de Aparecidas. "Já
frequenta a Mercearia Zé
Totó a quarta leva de
Aparecidas. Veio a avó, a
mãe, a filha, e agora a
neta", diz Zé Totó, arrancando gargalhadas dos
clientes. A variação de produtos é grande. Tem de
chinelos de dedo à borrachinha para panela de
pressão, de vela à esponja
de aço. De trás de seu balcão, munido de seus óculos e um sorriso, ele acompanhou de perto a
evolução do bairro. "Era
uma roça isso aqui. Mato
para todo lado", comenta.
Apesar de contente com o
desenvolvimento
da
região, o comerciante diz
que as melhorias costumam acontecer muito
lentamente, com a lamentação própria de um
morador inveterado.
Lourdes de Freitas
Oliveira já nasceu no bairro que leva seu nome.
Eram os chamados "anos
dourados", como apelidaram os saudosistas dos
anos 50. Nessa época, o
bairro de Lourdes concentrava a alta classe da
sociedade belo-horizontina. "Era um lugar residencial, familiar, cheio de
casas bonitas das famílias
tradicionais da cidade",
recorda Lourdes. Ela se
lembra com saudades do
alvoroço causado pelo
concurso da Garota do
Maiô Dourado, do Minas
Tênis Clube. "Era o sonho
de todas as meninas. À
época do concurso, não se
falava de outra coisa nas
rodas de jovens", conta.
Aos 67 anos, ela não se
conforma com a "invasão"
de bares e restaurantes que
colocaram o bairro de
Lourdes como um dos
redutos da noite de Belo
Horizonte. "Era tudo
sossegado, agora a barulhada vai até altas horas da
madrugada", reclama. Em
relação ao bairro homônimo, Lourdes não hesita: a
atribuição se deve à
famosa Basílica Nossa
Senhora de Lourdes. Para
ela, graças ao bairro seu
nome não será esquecido.
"Lourdes é um nome em
extinção. Só tem velha
chamada Lourdes! Na
minha época, toda família
tinha uma Lourdes, agora
não", observa.
JULIANA Na Região
Norte, segundo os habitantes do Bairro Juliana, o
nome faz homenagem a
uma
das
primeiras
moradoras do local. A promotora de vendas Juliana
Moreira de Oliveira lembra exatamente do dia em
que se mudou da região do
Barreiro para morar no
bairro, 23 de julho de
1994. A razão pela qual se
lembra da data exata é o
fato de que a mudança foi
marcada pelas férias escolares. E também porque
teve de deixar o lugar em
que morou durante 18
anos e até hoje sente
saudades
de
lá.
Entretanto, afirma que
gosta de morar no bairro,
na casa que seu pai comprou com suas duas filhas.
Para Juliana, foi coincidência mudar para o bairro
que tem o mesmo nome
que ela. "Assim, algumas
pessoas zoam, Juliana que
mora no Bairro Juliana",
brinca.
E também tem o caso
da Juliana Maria de
Oliveira, que é proprietária de um depósito de
material de construção no
bairro Jaqueline, Região
Norte igualmente, e lida
com vendedores que vão
ao seu depósito e brincam
com o seu nome e o bairro.
Aparecida Santos é só sorriso em relação ao seu nome e ao seu bairro
Zé Totó em sua mercearia: história viva do Bairro Aparecida
"Todo dia tem algum
vendedor, especialmente
se for novato que pergunta: você é a Jaqueline do
Bairro Juliana? Aí eu
respondo, não, sou a
Juliana
do
Bairro
Jaqueline", explica. A
explicação para tal confusão é que os bairros são
próximos, e o depósito é
utilizado como ponto de
referência para as pessoas
que não residem na região.
"Até carta endereçada com
bairro Juliana em vez de
Jaqueline já chegou aqui",
completa.
Juliana mora no bairro
Canaã e abriu há sete anos
o Depósito da Juliana, e
explica que teve que
mudar o nome de fantasia
da loja, porque as pessoas
pensavam que o nome da
loja se referia ao bairro.
"Depois de dois anos,
mudei o nome para
Depósito da Ju, pois quando caminhoneiros passavam aqui pensavam que
estavam no Bairro Juliana.
E era tanto no começo que
eu tive que trocar o
nome", explica. Segundo
ela, as brincadeiras são
diárias, mas não a incomoda, ela acha é graça.
A valorização da história dos bairros de BH
ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE
Seção Urbana. Esse é o
nome da regional que a
maioria dos belo-horizontinos
chama
de
Centro, embora envolva
outros bairros. Durante
mais de 10 anos a equipe
do Projeto Histórias de
Bairros de Belo Horizonte reuniu informações para contar a
origem de cada bairro da
capital
mineira.
A
coleção de seis cadernos
reúne os que integram as
regionais Barreiro, Centro-Sul, Leste, Nordeste,
Noroeste
e
Venda
Nova, além do Livro do
Professor.
Há 11 anos, o assunto
mais pesquisado por estudantes de nove a 12 anos
no Arquivo Público de
Belo Horizonte era a
história sobre os bairros.
Da constatação que o
local não dispunha de
material adequado para
pesquisa, uma equipe de
funcionários começou a
levantar dados, contratar
estagiários e historiadores,
até nascer esse projeto.
Segundo a historiadora
e uma das coordenadoras
do
projeto
Cíntia
Aparecida Arreguy, para
uma criança, conhecer a
história de onde ela
cresceu é importante. "As
crianças de sete, oito, nove
anos, na hora em que
começam
a
estudar
história, iniciam pelo bairro que é a referência mais
próxima delas. É porque a
gente só dá valor ao que a
gente conhece, e o bairro é
a nossa primeira referência
que a gente tem quando
criança é aquele lugar que
Obras de Canalização no Bairro de Lourdes em junho de 1963
é a sua escola, que é a
padaria, é aquele lugar que
você domina logo na
infância", explica.
Ao longo desses anos o
projeto teve diferentes
fases, o número de estagiários não era constante
e o trabalho foi interrompido
em
alguns
momentos. Em 2007, por
meio da Lei Municipal de
Incentivo a Cultura, a
publicação dos livros
pôde ser concretizada. As
fontes para pesquisa sobre
os 203 bairros foram o
Arquivo Público da Prefeitura, museus, bibliotecas e centros culturais
da cidade. A partir dos
documentos reunidos a
equipe produziu textos e
atividades, valorizando-os
como fonte de informação.
Dentre os documentos
encontrados,
existem
aqueles oficiais ou "frios"
como caracterizou o
coordenador do projeto,
Raphael Rajão. Mas eles
encontraram cartas de
antigos moradores de
bairros também. Como
uma que a Associação de
Moradores dos Bairros
Cidade
Jardim
e
Luxemburgo mandou à
prefeitura há muito
tempo para protestar
contra a presença da
favela do Querosene,
porque estava trazendo
problemas de saneamento para a região. "Ao
longo
da
pesquisa,
achamos várias cartas
enviadas por moradores e
associações
para
a
prefeitura”, diz Rajão.
Os cadernos foram distribuídos para todas as
escolas
municipais,
estaduais e particulares
de Belo Horizonte, sendo
que as escolas públicas
receberam em maior
número. "Nossa ideia é
divulgar mesmo, não
fizemos
uma
coisa
autoral para guardar, a
ideia é distribuir para
que imprimam, copiem,
façam o que quiser", diz
Cintia. Os cadernos estão
disponíveis no site:
www.pbh.gov.br.
8 Cidade
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
COMPRA E VENDA DE CABELOS EM BH
Atividade movimenta salões de beleza no centro da capital mineira e os cabeleireiros apostam neste tipo de comércio como uma nova maneira de obter lucro e satisfazer a clientela
RICARDO MALLACO
n
DAVIDSON FERREIRA,
RAISSA PEDROSA XAVIER,
1º PERÍODO
Há muitos anos a compra e venda de cabelos é
fonte de renda para muitas
pessoas. O centro de Belo
Horizonte é hoje berço de
salões especializados em
apliques e alongamentos
de cabelo. Um exemplo é o
salão Maison D'ele Atelier do cabelo, situado
à Galeria do Ouvidor.
Cleuza Fernandes dos
Reis, 42 anos, dona do
estabelecimento há 20,
seguiu o exemplo de sua
mãe que confeccionava
perucas. Em princípio o
foco era a produção e
venda de perucas, porém
com o surgimento do
mega-hair, o mercado
mudou e o foco tornou-se
outro, o alongamento.
Segundo a gerente do
Maison D'ele, Tatiana
Emiliana de Oliveira, 23,
quando se trata de estética, a demanda maior é
pelo aplique. A procura
por perucas deixou de ser
apenas questão de estética
e passou para casos particulares, em que clientes
buscam nas perucas disfarçar a queda de cabelos
resultante de doenças
como a oncologia, alopecia, lúpus e mesmo quedas
genéticas de cabelo.
No salão de Cleuza, a
compra de cabelos para
uso nos apliques é feita
por atacado, no quilo. As
mechas vêm do exterior,
especialmente da Índia,
onde o próprio governo é
responsável pela comercialização de cabelos, que
são buscados nos templos
seguindo tradições de sacrifícios, promessas e viúvas que devem possuir
cabelos curtos.
Já o salão de Alex Arão
Pereira, 30 anos, o "Alex
Cabeleireiro", faz a chamada "compra de porta", ou
seja, as pessoas vão até o
salão para venderem seus
cabelos. É o caso da estudante Melissa Tófani
Santos, 19 anos, moradora
do Bairro Serrano, Região
Noroeste da capital, que é
uma das muitas pessoas
que desejam vender as
suas madeixas.
Melissa conta que
tomou essa atitude devido
ao tamanho e ao trabalho
de mantê-lo bonito. Ela
afirma ter certo receio
quanto ao corte, que ficará
bem curto. "Medo eu
tenho, até porque nunca
cortei. Ele sempre foi
grande, mas acho legal
mudar", diz. Além disso, a
estudante conta que há
muito tempo estava à
A gerente da loja Maison D’Ele, Tatiane Emiliana, 23 anos, afirma que a procura por perucas deixou de ser apenas uma questão de estética
procura de uma boa oferta. "O maior preço que
encontrei foi de R$ 150,
até porque ele é tingido",
afirma. Com o dinheiro ela
pretende inovar o visual,
clareando o cabelo.
Segundo Alex, o volume
diário de pessoas querendo
vender os cabelos chega a
uma média de três pessoas
espontaneamente, e dez
resultantes da "propaganda de boca", onde o anúncio "compro e vendo cabelos" é feito aos gritos nas
ruas. Existem também as
indicações de outras
clientes que já usaram o
serviço, em média três por
semana. A compra por
pessoa varia de R$ 100 a
R$ 600 dependendo do
tipo, tamanho e qualidade
(tingido ou virgem). A
venda para mega-hair gera
uma renda entre R$ 3.500
a R$ 4.000 por mês, de
acordo com Alex.
No salão de Cleuza, o
grama de cabelo varia de
R$ 0,65 a R$ 4,85 dependendo do tipo. Ela possui
uma loja exclusiva em
venda de cabelos e outra
exclusiva para realização
de apliques. "A renda varia
de mês em mês, o final do
ano é mais movimentado.
Já em fevereiro, as clientes
preferem remover os
apliques para viajar, então,
oferecemos outros serviços, como tranças, megahair com tic-tac, entrelaçamento, um tipo de alongamento, entre outros", completa a gerente Tatiana.
Faltam cursos de línguas adaptados para cegos
RICARDO MALLACO
n
THAÍSA FONSECA,
1º PERÍODO
Romerito Costa sentiu dificuldade em continuar no curso de inglês devido a erros no material didático adaptado
Facilidade de entrar no
mercado de trabalho, desejo de evoluir na vida
profissional e vontade de
aprender. Esses são os
principais fatores que
levam diversas pessoas,
inclusive as que apresentam limitações, a procurarem, todos os dias, cursos de línguas em Belo
Horizonte.
Romerito
Costa
Nascimento, nascido em
1986 e portador de deficiência visual, é um grande
exemplo disso. Dono de
uma história de superação,
Romerito fez, em 2008,
um curso de inglês no
Bairro Coração Eucarístico
e sentiu na pele grandes
dificuldades. "Fiz o curso
durante pouco tempo, o
material adaptado não
estava de acordo com a
aula. Era impossível acompanhar", desabafa.
Na teoria, as aulas de
Romerito deviam contar
com um CD para a realização de exercícios e com o
material
em
braille,
porém, na prática, o êxito
não era alcançado devido
ao fato do material não ser
compatível com as lições.
Após fazer uma reclamação, Romerito saiu do
curso,
conseguiu
a
devolução do dinheiro
investido e passou a con-
siderar
extremamente
decepcionante que em
uma cidade tão grande
como Belo Horizonte
exista apenas dois cursos
de línguas que atendam
deficientes visuais: o
Wizard e o Luziana
Lanna, fato esse que gera
grandes problemas, pois
não fazer um curso de línguas traz, para os portadores de deficiência visual,
prejuízos na interpretação
de filmes com legenda e na
sociedade em geral, tendo
em vista a busca de empregos.
Gilmar Rodrigues da
Cruz, funcionário do
Wizard Contagem, afirma
que o leque de possibilidades se abre cada vez
mais, porém a procura
pelo curso adaptado ainda
é muito pequena. "O
Wizard oferece um curso
que se diferencia dos outros por possuir uma
metodologia mais direcionada", diz.
O curso oferecido pelo
Luziana Lanna também
possui poucos alunos portadores de deficiência
visual. "São cinco no total.
Dois matriculados para o
inglês, outros dois para o
italiano e um para o
japonês", diz Alexander
Ferreira, professor e coordenador do curso, que é
oferecido desde 2000. O
Luziana Lanna busca fazer
com que o aluno seja parte
da aula. Há diversos exer-
cícios de leitura e trabalhos com pronúncia. "A
única coisa que muda é o
modo de aplicação de
provas. O aluno leva o
exame para casa, traduz
para o braille, responde às
questões e depois entrega
para a correção", explica
Alexander. Ao fazer a
matrícula também há uma
pequena diferença. Cabe
ao aluno transcrever para
o braille o material a ser
usado durante o curso,
pois como o governo não
financia, é impossível para
o Luziana Lanna bancar
tal tradução.
"O nosso objetivo é
incluir os portadores de
deficiência visual na
sociedade de uma maneira
simples e ajudá-los em
outras situações, como ao
assistir um filme em outro
idioma" afirma Alexander,
quando questionado sobre
o propósito do curso.
Segundo ele, há poucos
cursos que oferecem aulas
para portadores de deficiência devido ao fato de
haver pouca demanda e ao
medo do projeto dar errado e prejudicar o nome de
grandes empresas.
O Luziana Lanna, por
considerar importante tal
curso para deficientes,
busca facilitar o acesso dos
mesmos. "Oferecemos bolsas para quem necessita.
Mas, para isso, estudamos
detalhadamente o caso",
diz Alexander.
Saúde
Outubro • 2010
9
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
FALTAM RECURSOS PARA O “DOULAS”
n
BRUNA FONSECA,
PEDRO VASCONCELOS,
4º E 3º PERÍODOS
Primogênita de uma
família de 15 filhos, a
assistente social aposentada, Elizabeth Menezes, 60
anos, presenciou o nascimento dos seus 14 irmãos.
Quando chegou sua hora
de ser mãe, ela enfrentou
oito abortos, o que colocou sua vida em risco.
Hoje, com quatro filhos,
ela acaba de receber o certificado de doula, ou
acompanhante de parto
voluntária, pelo projeto
Doula Comunitária. "O
momento do parto é um
momento que a gestante
não pode ficar sozinha, ela
está muito insegura,
ansiosa e cheia de medos,
eu quero usar esta experiência para ajudar mães
que não podem contar
com
ninguém
neste
momento tão importante",
explica Elizabeth.
O
projeto
Doula
Comunitária existe desde
1997 no Hospital Sofia
Feldman e consiste em um
curso para capacitar mu
lheres que queiram acompanhar e acolher voluntariamente outras mu
lheres durante o parto. A
palavra doula é grega e significa "aquela que serve a
outra mulher", sendo essa
a filosofia do projeto, que
conta com a parceria da
Secretaria Municipal de
Saúde e atende seis das
sete maternidades públicas de Belo Horizonte.
Apesar da alta demanda
de mulheres querendo ser
voluntárias, só para o
curso executado no mês de
setembro foram 300
inscrições para 40 vagas,
não há periodicidade na
realização do projeto por
falta de recursos financeiros. "São irregulares (as
ofertas do o curso), acontecem de acordo com a
demanda, com a disponibilidade, porque hoje,
inclusive, nós não temos
nem mais recursos financeiros para essa capacitação", afirma a psicóloga,
coordenadora do setor de
psicologia do Hospital
Sofia Feldman e referência
técnica para o projeto
Doula Comunitária, Júlia
Cristina Amaral, 50 anos,
que há dez trabalha no
hospital.
A psicóloga conta ainda
que o projeto depende de
doações e auxílios. "A
instituição em que eu trabalho me disponibiliza
para dar esse curso, a
gente vê onde que a gente
consegue esses recursos
necessários e aí a gente vai
formando essa corrente de
solidariedade para que
continuem acontecendo
essas capacitações", explica Júlia.
Para o último curso, que
aconteceu no fim de
setembro, houve doações
de um supermercado. O
espaço e profissionais
foram
cedidos
pelo
próprio Sofia Feldman, o
Hospital Odilon Behrens
auxiliou com o café da
manhã e a Secretaria
Municipal
de
Saúde
forneceu o material. Júlia
Cristina pontua que a
troca de experiências com
as voluntárias traz benefícios às parturientes. "É
muito gratificante, porque
eu tenho um conhecimento técnico científico e
poder compartilhar com
esse outro conhecimento
que
essas
mulheres
trazem, traz para a gente
um crescimento profis-
sional e pessoal muito
grande", diz a psicóloga.
Para
Elizabeth
Menezes, o curso trouxe a
possibilidade de compartilhar sua experiência de
mãe com mulheres que
muitas vezes não têm o
apoio da família, e diz
esperar pela parte prática
do curso, que acontece sob
orientação de uma doula
já experiente. "O curso é
perfeito, o pessoal é muito
motivador alegre e amigo,
eles tem uma motivação e
um entusiasmo que contagiam quem chega desmotivado", opina.
Clarinda Teixeira Costa
Gomes, 44 anos, parou de
trabalhar há cinco, após
um acidente de carro. Exdona de um buffet, ela
encontrou no Doula
Comunitária uma forma
de retribuir os cuidados
que teve dos médicos e
enfermeiros durante sua
recuperação do acidente.
"Hoje eu queria dar mais
retorno do que o que eu
recebi, nessa época do acidente eu vi a importância
que é alguém doar seu
tempo", desabafa.
Mãe de quatro filhos, o
mais velho de 24 anos e a
mais nova de três,
Clarinda conta que teve
problemas durante a gestação da caçula, não apenas pela idade, mas pelas
sequelas do acidente, o
que a fez ter certeza de
que precisava ser acompanhante de partos. "Na
minha última gravidez, eu
estava com 41 anos e foi
complicada. Pelo sofrimento todo que eu tive, a
gente sente na pele um
pouco da dor, da solidão,
então eu sempre me
ponho na pele de outra
pessoa", conclui, destacando a importância também
que sua família teve.
Ha sete anos, o Hospital Sofia Feldman fornece curso para mulheres que desejam ser
acompanhantes no momento do parto de mães que não possuem nenhum apoio familiar
BRUNA FONSECA
Clarinda Teixeira , 44 anos, resolveu ser doula após receber apoio de médicos e enfermeiros depois de um acidente
A importância do trabalho
que as doulas oferecem
A agente de saúde
Andrelina Silva, 47 anos,
optou pelo curso de doulas
porque acredita ser um
diferencial em sua carreira
na área de saúde. Ao contrário da maioria das
doulas, Andrelina nunca
acompanhou um parto.
"Nem os meus (partos) eu
assisti, eu tenho três fi
lhos, mas os meus partos
foram cesariana e, portanto, eu não vi", brinca.
Outro fator que incentivou a agente de saúde a
participar do projeto foi a
falta de preparo de meninas que engravidam na
infância e adolescência,
recorrentes
no
Sofia
Feldman.
CARINHO Segundo a
psicóloga Júlia Cristina
Amaral, o Hospital Sofia
Feldman
tem
uma
tradição em atender esse
público. "Têm muitas
meninas que ficam grávidas muito cedo, sem
preparação, então, acaba
tendo aquelas crianças
cuidando de crianças e o
que eu percebi pelo curso é
que realmente tem muita
gente precisando de cari
nho nesse mundo. A
humanidade está precisando de carinho, de apoio",
afirma.
Festa para São Francisco mobiliza comunidade
ADRIANA BENEVENUTO
n
ADRIANA BENEVENUTO,
4º PERÍODO
Nos últimos dias 1º, 2 e
3 de outubro, a comunidade
do Bairro Carlos Prates participou do tríduo festivo em
comemoração ao dia de São
Francisco, seu padroeiro. A
programação da festa consistiu
em
celebrações
eucarísticas durante os três
dias na Igreja São Francisco
das Chagas, localizada na
praça de mesmo nome,
além de atividades recreativas também na praça para
toda a comunidade, como
ginástica,
medição
de
pressão, corte de cabelo
edanças, apresentações de
música e as tradicionais barraquinhas com venda de
comes e bebes.
As missas realizadas no
dia 1º, de manhã e à noite,
foram presididas por Dom
Walmor de Azevedo, arcebispo Metropolitano de
Belo Horizonte. A celebração emocionou a comunidade. "Eu me emociono
fácil com essas celebrações,
ainda mais a do nosso
padroeiro. E a presença do
Dom Walmor deu um
espírito diferente para a
missa, eu adorei!", conta a
dona de casa Márcia Leite,
de 56 anos.
A organização da festa
esteve sob a responsabilidade dos paroquianos. "A
comunidade é que patrocina, que faz tudo. A gente
monta as barraquinhas,
arranja doação, o dinheiro
vai para a nossa paróquia,
para as obras sociais da
nossa paróquia, que tem a
escola das crianças da
comunidade, que é o
Cesfran
(Centro
de
Educação São Francisco),
que a igreja é que mantêm,
e tem o nosso Lar Frei
Zacarias, que cuida dos
idosos", explica a manicure
Teresa da Silva Costa, 63
anos. Ainda segundo ela,
além de comemorar o dia
do santo, a festa é um modo
de reunir a comunidade, as
pessoas da paróquia. "É um
modo da gente encontrar.
Vem gente de outros bairros, vem muita gente visitar,
vários devotos de São
Francisco. Essas barraquinhas já são tradição.", diz.
PARTICIPAÇÃO A dona de
casa e ministra da eucaristia
da paróquia, Divina César
Alcântara, afirmou que
arrecadar fundos para a
reforma da igreja, para o
Cesfran e para o Lar Frei
Zacarias também é um dos
objetivos da montagem das
barraquinhas. Ela avalia
Atividades de recreação durante o dia divertem as crianças da comunidade
ainda a participação da
comunidade no evento. "A
participação da comunidade é muito boa, todo
mundo participa, todo
mundo colabora. Aqui tudo
é doação. A gente ganha
tudo, a gente não compra
porque é doação. Toda a
comunidade se junta e cada
um dá o que pode", assegura. "A comunidade doa e
participa ao mesmo tempo",
conclui. Segundo a bancária
Shirley de Aquino Baião, de
50 anos, o lema dos franciscanos é o que move a comunidade em prol das come
morações. "É a fraternidade.
Todo mundo unido para
fazer isso dar certo", conta.
Neste ano, a paróquia
comemora seus 81 anos, e,
segundo Divina, a festa
sempre teve o mesmo formato das barraquinhas para
arrecadação de dinheiro e
fazer com que a comunidade se reunisse. "Cada
barraca é de responsabili-
dade de uma pastoral: os
vicentinos, o grupo de
oração carismática, os
jovens da crisma, a pastoral
da saúde, a ordem franciscana e os ministros da
eucaristia e todas as comunidades são convidadas a
participar", explica a dona
de casa Miriam Dias
Ferreti.
Nos três dias de festa, a
praça se torna palco de
atrações para a comunidade. "Tem corte de cabelo, ginástica, brincadeiras
para as crianças, show de
mágica e muito mais", diz
Teresa Costa. "Tem também
benção das plantas, animais, recreação, apresentação de música popular",
acrescenta Divina.
ATRAÇÕES "Eu gosto da
festa porque eu trago as crianças, tem brincadeiras
para elas, atividades de
recreação, tem as barraqui
nhas, além da celebração
litúrgica, que eu gosto
muito. Eu venho com eles
para prestigiar o trabalho
que é feito pelos paroquianos, pelo pessoal da
comunidade mesmo", conta
Ana do Carmo Faria, 40
anos, moradora do Bairro
Carlos Prates desde 2003.
"Todo ano eu venho", acrescenta. Segundo ela, as
comemorações são um meio
da comunidade se reunir
em prol de várias causas,
como a religiosidade, que
gira em torno dos fiéis e
devotos de São Francisco, e
também para divertir e
entreter as crianças, além
dos adultos, por meio das
barraquinhas e das apresentações musicais. "É legal a
atitude da comunidade de
fazer isso daqui, é um jeito
dos moradores terem uma
atividade diferente, e ao
mesmo tempo, arrecada
dinheiro para as obras da
igreja, que mantém várias
ações sociais importantes
para a própria comunidade", observa.
O comerciante da região
José Antônio da Silva, de
43 anos, conta que além de
participar da missa, ele leva
as crianças para as atividades na praça. "Aproveito
e dou uma passada nas barraquinhas, as crianças se
divertem, e depois vou
embora. Eu acho a festa
bem legal, junta muita
gente, o pessoal vem, conversa, a gente encontra com
uns amigos, e fica batendo
papo", explica. O estudante
Pedro Henrique Gomes, de
10 anos, diz gostar muito
da festa. "Eu gosto de tudo,
vi o mágico fazendo muitos
truques e achei bem legal",
conta.
10 Saúde
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Desenvolvido há um ano, o Tempo de Sorrir é realizado
no Centro de Saúde Padre Eustáquio e oferece palestras
e atendimento odontológico à comunidade da região
n
ADRIANA BENEVENUTO,
4º PERÍODO
Toda primeira quinta
feira do mês acontece,
próximo ao Centro de
Saúde Padre Eustáquio, no
bairro de mesmo nome, o
"Projeto Tempo de Sorrir",
em um espaço à Rua
Vereador Geraldo Pereira,
693. O projeto, desenvolvido há um ano, é coordenado pela equipe de
saúde bucal do Centro de
Saúde Padre Eustáquio,
aberto à comunidade em
geral e tem por objetivo
controlar e prevenir as
doenças da boca como
também possibilitar e
facilitar o acesso da população aos serviços de
saúde.
"Esse projeto surgiu
quando eu senti a necessidade das pessoas de ter
um grupo, de formar um
grupo para falar de promoção de saúde, aí eu lancei a ideia de formar um
grupo para desenvolver a
atenção à saúde no sentido de promoção de saúde,
educação em saúde e prevenção", conta um dos
coordenadores do projeto,
o dentista de 66 anos,
Elmo Silveira dos Santos.
Segundo ele, o nome do
projeto surgiu a partir da
outra coordenadora, e
também dentista, Elvira
Helena Monteiro, de 54
anos, especialista em
saúde coletiva. "Ela já
vinha fazendo um trabalho há algum tempo em
outras regiões com esse
nome, e jogamos esse
nome para o pessoal que
estava presente, eles
acharam bacana, e pusemos esse nome de ‘Tempo
de Sorrir’, que a Elvira
tinha dado a sugestão, e
ficou com esse nome",
relembra.
A
palavra
'tempo' funciona como
uma sigla da definição do
projeto: Trabalho em
Educação, Motivação e
Prevenção
em
Odontologia.
O programa desenvolve
atividades em 'rodas de
conversa', ou seja, espaço
de integração da comunidade com a equipe de
saúde bucal e os demais
profissionais da unidade,
numa forma participativa
de discussão de temas relativos à promoção da
saúde. "O objetivo é a promoção em saúde, educação em saúde e prevenção. Muitas vezes nós
trazemos assuntos pontuais mesmo relativos à
odontologia, já trazemos
muitos palestrantes, médicos das diversas especialidades,
farmacêuticos,
psicólogos,
assistente
social. Cada encontro é
um assunto diferente,
sempre trabalhando nos
objetivos", explica o coordenador Elmo. "A gente
quer que seja de maneira
'multiprofissional', nada
preso somente à odontologia. Envolvendo todas as
áreas de saúde", completa
Elvira.
A equipe de saúde bucal
do Centro de Saúde Padre
Eustáquio,
considera
importante a proposta de
atuação dos profissionais
fora do ambiente do consultório odontológico. "O
trabalho é muito gratificante. O resultado é muito
positivo", garante Elmo.
Segundo
os
coordenadores, 40 a 50 pessoas
em média, participam das
reuniões. "Nós divulgamos
no próprio trabalho nosso,
no contato corpo a corpo
com os nossos pacientes e
com a colaboração dos
colegas de trabalho do
centro de saúde, que nós
estamos sempre pedindo
Outubro • 2010
TEMPO DE SORRIR LEVA
APOIO À COMUNIDADE
ADRIANA BENEVENUTO
Participantes do Projeto “Tempo de Sorrir” assistem palestra ministrada pelo coordenador e dentista Elmo Silveira, 66 anos, onde tiram dúvidas sobre saúde
que eles convidem as pessoas para comparecerem
aqui", explica o dentista.
O programa garante
maior acesso da população
aos serviços em geral e
aumenta as possibilidades
de resolução das necessidades em saúde bucal e
outras áreas. "Uma vez a
gente fez uma palestra
sobre INSS, benefícios do
INSS, que são coisas que
talvez os participantes não
tenham acesso em lugar
nenhum, de outra forma,
então foi através dessa
conversa aqui, que as pessoas fizeram perguntas e
tiveram respostas, elas não
sabiam onde procurar",
ilustra Elvira. "A nossa
gerência veio num encontro falar sobre a parte
administrativa, do funcionamento do centro de
saúde, que é uma coisa
que sem a nossa reunião,
sem a roda de conversa,
talvez ninguém ia ter esse
acesso tão diferente para
poder estar sabendo de
tudo. Então eu acho que é
um elo, é um vínculo que
está sendo criado entre o
centro de saúde e a comunidade", exemplifica.
Segundo Elmo, o projeto tem trazido alegria para
as pessoas. "Pelo próprio
depoimento deles, eles
sentem uma alegria muito
grande, e não querem
mesmo deixar de comparecer porque sentem muita
felicidade de estar aqui
nesse momento", conta.
"Tem pessoas que comparecem aqui, que deixam
de fazer as coisas em casa
para vir aqui porque eles
participam com muita alegria, e muitos deles têm
feito depoimentos que
jamais deixariam de vir",
acrescenta.
De acordo com Lúcio
Santos Teixeira, de 59
anos, palestrante da última roda de conversa e
usuário do posto de saúde,
a experiência da roda de
conversa é maravilhosa. "É
onde nós podemos ver
quem nós somos e crescer.
Todo mundo tem muito
valor, só falta perceber",
diz.
"É um encontro ótimo,
a gente sente muito prazer
em estar com as pessoas e
sempre tem umas palestras
muito boas, que trazem
muitas coisas boas para a
gente", atesta a dona de
casa Eliane Sapel Marques
Santos, 53 anos, que fez
sua terceira visita ao projeto. "Eu gosto muito das
palestras porque a gente
faz mais amizade, às vezes
têm pessoas que a gente
não conhece e passa a conhecer, a gente já traz as
pessoas dentro do coração
mais ainda. Eu sou muito
fácil de comunicar com as
pessoas, aí eu não sei
chegar num lugar e ficar
calada não, sempre comunicando", revela Laura
Gonçalves dos Santos, 77
anos. Da mesma forma a
costureira Wanda de
Souza Santos, 73 anos,
gosta do projeto. "Eu tiro
as minhas dúvidas, eu
estou sempre na área de
saúde, eu trato no posto e
para mim foi bom. É
muito bom, a roda integra,
a gente cria muita
amizade, a gente vive
como uma família, a gente
se torna uma família",
declara.
Projeto concilia aprendizagem e solidariedade
n
LETÍCIA GLOOR,
MOUNI DADOUN,
2º E 3º PERÍODOS
A demanda de serviços,
informações e ajuda por
parte dos usuários do hospital público Odilon
Behrens fez com que funcionários deste estabelecimento, em parceria com a
PUC Minas, implantassem naquela instituição,
em 2002, o Projeto "Posso
Ajudar?
Amigos
da
Saúde". O projeto surgiu
para facilitar e acelerar o
funcionamento do hospital, além de humanizar os
serviços dos agentes da
saúde ao promover o relacionamento interpessoal
entre eles e usuários do
hospital. Esses estagiários
são estudantes da área de
saúde do primeiro ao quarto períodos.
O projeto, que funciona
como extensão, virou programa
pela
rápida
aceitação dos pacientes,
funcionários e de faculdades como PUC Minas,
Fumec e Faseh (Faculdade
da Saúde e Ecologia
Humana), que fizeram
parceria com o hospital.
Essas parcerias consistem
em enviar alunos da área
da saúde como enfermagem,
biomedicina,
fisioterapia e psicologia
que participam do programa, estagiando cada um
em sua área. Estes estudantes podem ser encontrados na recepção do hospital à tarde e no ambulatório, durante a manhã.
Segundo a direção do
hospital, o projeto veio
para preparar e melhorar a
articulação do agente da
saúde (no caso, o estudante) com o hospital e
suas demandas. Este projeto promove a formação
desses estagiários quanto
ao trabalho em equipe.
"Ele (o estagiário) aprende
a lidar com a pessoa, e não
com a doença", diz Liliane
de Lourdes da Silva, 27
anos, ex-coordenadora do
"Posso Ajudar". Ela enfatiza a diferença das informações dadas por placas
em relação às que são
dadas por monitores. O
atendimento é individualizado. "Chama-se pelo
nome e nos sentimos mais
acolhida",
diz
Maria
Aparecida
Pires,
56,
paciente do hospital.
O processo de treinamento constitui em qualificar o aluno quanto a seu
relacionamento com o
público e humanizar os
serviços destes estagiários,
que recebem acompanhamento de especialistas
de diversas áreas de saúde,
inclusive da psicologia. De
acordo com Liliane, os
estudantes informam aos
usuários do hospital sobre
serviços, locais de exames,
consultórios, ambulatórios
e quartos. Além disso, os
"amigos da saúde" conversam com pacientes, que
muitas vezes estão angustiados com seus problemas. Na maioria das vezes,
estes pacientes são de
baixa renda, moradores de
rua, famílias do interior.
De acordo com Liliane
Silva, a política do
Hospital Odilon Behrens é
"respeitar a história de
cada um".
Em 2008, ano de
eleições para prefeitura,
Márcio Lacerda, atual
prefeito
de
Belo
Horizonte, esteve no
Hospital Odilon Behrens
fazendo campanha e após
saber da existência do projeto, estipulou uma meta
de governo: implantar a
idéia do "Posso Ajudar" em
outros hospitais públicos e
postos de saúde. O programa já foi instalado em 147
centros de saúde, oito
Unidades
de
Pronto
Atendimento (UPA) e seis
Unidades de Referência
Secundárias (URS). O
atual prefeito, no dia 31
de agosto de 2010, oficializou a implantação integral do projeto nos
Centros de Saúde e nas
Unidades
de
Pronto
Atendimento (UPAs), em
dois anos, de Belo
Horizonte.
Luiza
Signorelli
Andrade, 22 anos, está
cursando Biomedicina na
Fumec, está no sexto
período e em outubro de
2009 começou a estagiar
no hospital. Segundo ela,
os estagiários abordam os
pacientes e/ou acompanhantes para facilitar o
acesso desses aos serviços
oferecidos pelo Odilon
Behrens e orientar esses
usuários quanto à rotina
do hospital. "Ajuda muito
os usuários, é útil", diz a
estudante.
A equipe gestora do
hospital apóia completamente o projeto. Segundo
a médica Myriam Souza,
superintendente do hospital, o "Posso Ajudar"
deixou de ser um projeto
para ser um programa. Ela
e a equipe direcional do
Odilon Behrens são bem
favoráveis ao programa já
que este, facilita o direcionamento e promove um
atendimento mais humanitário. "O fluxo ficou mais
dinâmico", diz Éder, atual
coordenador do programa.
Os pacientes também se
mostraram satisfeitos com
as ações dos estagiários e
afirmam estar acolhidos
com esses serviços, como é
o caso de Aparecida da
Silva, 72 anos. "Eles escutam a gente", afirma.
Liliane diz lidar muito
com moradores de rua que
procuram ao hospital por
sentirem fome. "Tem gente
que vem aqui para comer",
diz a ex-coordenadora.
Os serviços humanitários de saúde e psicológicos da direção do
hospital, dos estagiários e
dos monitores destes, são
muito mais profundos do
que indicar ambulatórios,
ou receber reclamações
sobre os serviços; o relacionamento é mais inteiro,
completo. Por ter essa
política, o Hospital Odilon
Behrens foi homenageado
com o prêmio Menção
Honrosa, dentro dos 65
prêmios dados a outros
hospitais e organizações,
no Seminário Nacional de
Política de Humanização,
oferecido pelo Ministério
da Saúde.
Cultura
Outubro • 2010
11
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
TEATRO EM LIBRAS MOTIVA CULTURA
n
ANA CAROLINA NASCIMENTO,
FELIPE VIEIRA,
MELISSA TORRES,
1º PERÍODO
O único som no
auditório
do
Espaço
Cultural da Escola de
Teatro da PUC Minas à
Rua Sergipe, 786, onde se
realizava a obra "Tu, só tu,
puro amor", de Machado
de Assis, no sábado 25 de
setembro, vinha do ventilador e das máquinas
fotográficas. Por meio de
uma intérprete, o público,
principalmente os ouvintes, são orientados sobre o
desenvolvimento inicial da
apresentação. As luzes piscam sinalizando o início, e
a primeira atriz, representando uma empregada
doméstica entra em cena e
apresenta sua visão da
história a ser retratada. Os
personagens aos poucos
vão surgindo e saindo, em
um revezamento programado, onde se dava a
impressão, ao ouvinte e
leigo em Libras, que segredos eram divididos.
O elenco à exceção de
Tales Douglas Moreira, 30
anos, não tem formação
em teatro, e sob a coordenação de Tales, que reúne
o elenco de acordo com a
disponibilidade deles e a
característica do personagem, é formado por
amigos sem nenhum vínculo profissional. Por
exemplo, Felipe Barros
Silva, 25 anos, é estudante
de
Ciências
da
Computação na PUC, e
Neusa Donata de Souza
Nascimento, 33 anos, que
é funcionária do Núcleo
de Apoio à Inclusão
(NAI).
O diretor e ator Tales
A peça feita inteiramente na linguagem dos surdos foi montada por um grupo de teatro amador. O espetáculo trouxe
um dos clássicos de Machado de Assis para um público que, em sua maioria, era composto por surdos e intérpretes
RICARDO MALLACO
Na peça “Tu, só tu, puro amor”, os personagens foram escolhidos de acordo com as características de cada ator para haver uma harmonia dentro do palco
Douglas Moreira reafirma
em sua atuação o que ele
havia dito previamente
sobre a interpretação em
Libras, sobre como passar
uma mensagem que fosse
também compreensível aos
ouvintes. "Conheço a língua de sinais porque a
minha identidade é surda ,
eu sei direcionar, separar a
língua de sinais da língua
portuguesa, para mim não
tem nenhum conflito, tem
esse equilíbrio. De uma
pesquisa mais profunda,
mais clara, entende-se que
o que está sendo escrito ali
para o ouvinte entender
através da voz, interpretála é mais fácil pela formalidade da voz. Já para os surdos, a apresentação é pau-
tada também na expressão
corporal. A formalidade ou
a informalidade vêm daí,
das expressões corporais",
diz.
Foi assim que os personagens se apresentaram,
cheios de pompa e gestos
delicados,
mas
com
expressões faciais que
expunham dentre todas as
coisas, os sentimentos dos
personagens. Passar a obra
literária e teatral para a língua
é
um
desafio.
“Enquanto na obra mostravam um tom de voz
bem mais formal, na língua
de sinais a formalidade
está na postura, na
expressão facial e expressão corporal", ressalta.
O elenco interpretou
com bastante particularidade, apesar de todo nervosismo em que estavam
após a apresentação, "Eu
achei importante que nós
surdos tenhamos um
público para poder apresentar a peça, e eu sei da
dificuldade que o surdo
tem com a literatura por
ser uma linguagem densa.
Eu sei, eu consigo entender
porque faço curso de
Letras na PUC e estudo
bastante, mas às vezes um
surdo me pede pra fazer
adaptações para que ele
possa entender, e eu vi
assim que o surdo também
é capaz de fazer de tudo,
de decorar textos", afirma.
A preparação da obra se
deu com o estudo de cada
personagem e depois
achando em cada ator a característica específica de
cada personagem que combinava com a pessoa. "Ao
surdo que não tivesse
aquela
característica
daquele personagem, eu
ensinei àquela pessoa a
pegar o que o personagem
estava querendo passar, já
que não eram profissionais", afirma Moreira. "O
sentimento que eu tive
quando eu escolhi ‘Tu, só
tu, puro amor’ foi o segredo que a paixão e a comédia que os surdos adoram,
então fiz uma adaptação
pensando
no
surdo
mesmo, um teatro mais
estimulante'', acrescenta.
Sobre Machado de Assis,
ele diz que o autor tem
uma obra bem complexa
de ser lida. “Para adaptar
para Libras, ficou mais
complexa ainda'', diz.
Entre pouco mais de 30
pessoas presentes no dia da
apresentação, uma parte era
formado por estudantes de
Libras, além, claro, de
famílias de surdos. Como
exemplo Antônio Antunes
Januário, 35 anos, guarda
municipal e estudante de
Libras, que apesar de alguma dificuldade da compreensão do conteúdo da
peça, se mostrou muito satisfeito e ainda ressaltou a
importância desse tipo de
evento para a comunidade
de surdos. "É benéfico não
só para a comunidade dos
surdos que passaram a ter
espaços para a produção
cultural, mas também para
os ouvintes, que podem
desenvolver a questão de
relacionamento social com
os surdos", diz.
Já a família de Leonardo
Lins, 10 anos, ouvinte,
que serviu de intérprete
dos pais surdos, traduziu
assim a opinião de
Cristiano Arruda, 37,
sobre a apresentação:
"Gostei muito, muito
interessante, emocionante
e diferente, apesar de ser a
primeira vez que vemos a
uma peça deste tipo, feita
para nós surdos", contou.
Ao final da peça,
Moreira, como porta-voz do
elenco, mostrou todasua
satisfação. ''Todos se saíram
super bem e eu acho que
essa é uma forma de sensibilização também para os
ouvintes de que nós
podemos e somos capazes
de fazer muita coisa assim
como eles'', afirma.
O gosto pelo trabalho com a arte e com animais
PEDRO VASCONCELOS
n
PEDRO VASCONCELOS,
3° PERÍODO
Marcelo Ribeiro Viana,
29 anos, é responsável pela
produção de boa parte do
acervo de réplicas de animais do Museu de
Ciências Naturais da PUC
Minas,
localizado
à
Avenida Dom José Gaspar
ao lado do campus
Coração Eucarístico da
universidade,Região
Noroeste
de
Belo
Horizonte. O artista plástico e fotógrafo se formou
em artes plásticas na
Escola Guinhard de Belo
Horizonte em 2004, e já
realizou diversos trabalhos
artísticos no Brasil e no
exterior. Desde criança
Marcelo, já cultivava o seu
gosto pelas artes e pelos
animais. "Quando eu era
criança, meus professores
reclamavam, pois eu só
queria saber de desenhar
dinossauros no caderno",
conta. Atualmente, o
Museu exibe muitas de
suas réplicas em exposições
que retratam o passado e o
presente da fauna latinoamericana.
Marcelo Viana trabalha
com a taxidermia de ani-
mais há sete anos no
Museu da PUC. Taxidermia é uma técnica que
prevê a preservação da
pele, forma e tamanho dos
animais
por
empalhamento. "O museu tem
uma parceria com o
Zoológico de Belo Horizonte, quando algum animal morre, eles mandam o
cadáver para gente realizar
a taxidermia" explica
Marcelo. O artista, entretanto, revela que o que
mais gosta de fazer é a
paleoarte, que mistura
diversas técnicas artísticas,
como a escultura e a pintura, de forma a dar vida a
animais pré-históricos. "Eu
adoro resgatar estes animais. Às vezes, só chega
pra gente um pedacinho
do fóssil,com ajuda de
alguns livros a gente consegue resgatar a imagem
daquele réptil. É incrível
dar vida a um animal que
não existe, é como se a
gente apresentasse este
animal para a “sociedade",
conta Marcelo. A variedade de peças do acervo
do museu impressiona.
Entre aves, cobras e dinossauros, Marcelo Viana revela seu afeto especial por
uma peça, uma Baleia
Cachalote de mais de 5
metros de largura."Nós
reconstituímos a baleia
através de um único fóssil,
doado por um fazendeiro
da Bahia".
Os materiais mais utilizados por Marcelo são
resina de poliéster, fibra de
vidro, plastinina e outros
de custo relativamente
baixo, quando comparados
com os usados na produção de réplicas em outros países desenvolvidos.
"Em termos de técnica nós
não devemos nada a
ninguém, o problema é o
custo do material. Nós não
temos capital para usar os
que os americanos usam.
Mesmo assim, nós conseguimos realizar um trabalho de primeira linha
com materiais relativamente baratos", afirma o
artista.
A obra de Marcelo
Viana é reconhecida por
muitos colegas de trabalho.
Uma das maiores admiradoras do seu trabalho é
Ana Cristina Sanches
Diniz, 30 anos, funcionária do museu. "O
Marcelo é um cara fantástico, tem um trabalho
Marcelo Viana usa a arte para trabalhar com técnicas que resgatem a imagem de animais muitas vezes inexistentes
único além de ser um excelente colega de trabalho".
Ana revela que Marcelo é
perfeccionista e muito exigente consigo mesmo."O
Marcelo não aceita nem
um erro, quando a peça
não sai do jeito que ele
quer, ele da a peça pra
gente e começa de novo.
Eu adoro", afirma Ana.
Marcelo Viana também
tem o reconhecimento do
público Eduardo Rabelo
Reis, 23 anos, estudante
de história, é um frequen-
tador assíduo do museu e
revela o seu interesse pela
obra do artista. "Eu conheço o Marcelo. As obras
dele são fantásticas e
fazem com que a gente
entre em um universo
desconhecido. Além de ser
um excelente artista,
Marcelo é um profissional
muito competente", conclui Eduardo.
O reconhecimento do
público é grande, mas
Marcelo confessa que
esperava um maior investi-
mento das autoridades. " O
público sempre elogia o
meu trabalho, principalmente as criança, elas
ficam encantadas, mas no
Brasil o artista é pouco
reconhecido, falta incentivo por parte da autoridades", conclui Marcelo
Viana. Além de ir ao
museu, quem quiser conhecer melhor a obra do
artista
pode
acessar
www.myspace.com/5129
35200.
12 Cultura
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
ALUNOS PRODUZEM FILMES EM BETIM
Estudantes de escolas públicas participaram de cursos de cinema e tiveram a chance de escrever e produzir curta-metragens. Todos os filmes foram exibidos em Betim e Belo Horizonte
PEDRO VASCONCELOS
n
FLORA SERVILHA,
PEDRO VASCONCELOS,
3° PERÍODO
No último mês de
setembro, alunos da rede
pública de Betim tiveram a
oportunidade de aproximarem-se da linguagem
cinematográfica. O programa de educação integral
Escola da Gente organizou
cursos de cinema de animação ministrados pelos
cineastas Daniel Herthel e
Mariana Blanco. Mais de
cem alunos das escolas
municipais Maria de
Lourdes Oliveira, Gino José
de Souza e Belizário foram
beneficiados pelo projeto.
Ao final dos cursos puderam visualizar seus curtas
na abertura da 8ª Mostra
Mundial Udigrudi de
Animação, em Betim. Além
disso, as animações puderam ser vistas no Cine
Humberto Mauro, em Belo
Horizonte, e no Centro
Cultural, em Betim.
Os alunos tiveram a
oportunidade de produzir,
escrever o roteiro e filmar
seus próprios curtas.
"Uma professora escreveu
o que a gente falava para
ela, assim fizemos o
roteiro", conta William
Douglas, um dos participantes do projeto. Aos 12
anos, o aluno da Escola
Municipal Maria de
Lourdes, diz ter ficado
muito orgulhoso ao assistir seu filme passando na
Prefeitura de Betim. Para
ele, a parte mais interessante foi a em que filmaram um jogo de futebol
de botão, tema escolhido
pelos próprios alunos.
Joel Silva Rafael, de 13
anos, também estudante
da Escola Municipal
Os alunos selecionados para participar das oficinas de cinema trabalharam em equipe para criar, escrever e produzir os filmes orientados pelos cineastas Daniel Hertel e Mariana Blanco
Maria de Lourdes, participou
do
curso.
Entusiasmado com o que
aprendeu, decidiu continuar a mexer com cinema
em sua própria casa. "Vou
fazer de vez em quando
em casa, é bom para eu
aprender, faço as pessoas
verem que é muito interessante e que podem aprender", conta o menino. Para
o garoto que nunca havia
ido ao cinema, a experiência foi única. "A sensação
foi muito legal, era como
se nós fossemos famosos",
explica.
Wallisson Júnior Muniz
Jardim, professor de música e acompanhante do
projeto, diz ter ficado
muito satisfeito com o
resultado. "Achei muito
interessante a maneira
como Daniel conduziu
essa oficina. A cada dia era
algo diferente, algo novo.
Os meninos ficaram surpresos", conta. As animações foram sendo feitas
de acordo com o gosto dos
meninos e com suas possibilidades. Com três horas
diárias e uma semana de
trabalho os curtas tiveram
dois minutos e meio de
duração. "Quando eles
viram o que haviam produzido ficaram impressionados", complementa.
Os alunos da Escola
Municipal
Maria
de
Lourdes que participaram
foram selecionados pela
gestora do programa no
colégio, Valdilene Abadia do
Santos. "Eles conseguiram
trabalhar em equipe, não
tinha briga, não tinha nada",
constata. Os participantes se
dividiram entre as funções,
como atores e produtores,
por exemplo. "Depois que
eles viram que cada um
podia fazer algo foi quase
que independente eles
tomarem por si cada um
desenvolver uma coisa",
explica Wallison.
Os adolescentes se comportam muito bem quando se deparam com a novidade do cinema. "Nós tínhamos alguns alunos que
são tachados de difíceis",
analisa Valdilene. Segundo
os professores que supervisionaram o curso, eles se
comportaram muito bem
em saídas que ocasionalmente decorrem em problemas. Eles fizeram as
imagens da segunda parte
da animação no clube e
mesmo com essa saída se
mantiveram focados. A
primeira parte foi filmada
na sala de informática do
colégio Maria de Lourdes e
se tratava de um jogo de
futebol de botão. Já a terceira e última parte se relacionava com dobraduras,
origamis e aviões de papel,
que mostraram como
coisas simples podem ser
muito interessantes.
A cineasta Elizabete
Martins, produtora da 8ª
Mumia em Betim e dona
de um estúdio de cinema,
que era amiga de uma das
participantes do Escola da
Gente, acredita que o cinema possa ser uma importante forma de ensino por
unir fotografia, música e
literatura. "O fato de se
verem na tela, no dia-a-dia
das atividades da Escola da
Gente, eleva a auto-estima
deles, bem como dos familiares e amigos", explica
Elizabete sobre a importância do projeto na vida dos
alunos. A mostra Mumia
desse ano percorreu 22
países e apresentou 162
filmes diversos. A pequena
participação das animações
dos estudantes já representou um importante passo
na formação de pessoas
mais abertas às artes.
Na avaliação dos organizadores, o projeto foi um
sucesso e possivelmente se
repetirá. "Eles gostaram e
querem fazer de novo", afirma Tchula. "E não só eles,
mas todos os que viram as
animações prontas", complementa Wallison.
A trajetória do fotógrafo encantado pela natureza
RICARDO MALLACO
n
SARAH ALBERTI,
1º PERÍODO
Nascido na cidade
mineira de Formiga, Cyro
José Soares, 62 anos, apresentou os primeiros sinais
de interesse pelo mundo
fotográfico ainda criança.
Bastava
uma
singela
máquina fotográfica, levada pelos familiares da capital, para despertar no
menino uma admiração e
curiosidade tamanha.
Com as poucas oportunidades de estudo e graduação apresentadas no interior de Minas à época,
Cyro mudou-se em 1969
para Belo Horizonte, onde
se formou em Análise de
Sistemas, exercendo o ofício por 35 anos. As dificuldades
financeiras
o
levaram para o caminho
diferente do sonhado, mas
seu objetivo de crescer
cada vez mais como fotógrafo foi fortemente planejado e seguido.
Aprendendo técnicas
com a prática, durante 25
de seus 35 anos como
analista de sistema, Cyro
também fazia trabalhos
fotográficos profissionais,
não abandonando a carreira e o sonho de um dia
se sustentar apenas como
fotógrafo,
objetivo,
alcançado há três anos. ele
recebeu apoio dos dois filhos e de amigos, entre eles
Miguel Aun,
também
fotógrafo, que o ensinou
muito do que sabe e
empresta seu estúdio
quando necessário.
Aposentado, o especialista em macrofotografia
passou a se dedicar integralmente ao trabalho de
fotógrafo, focado na maior
parte no meio ambiente.
Formiga lhe proporcionou um contato direto com
a natureza mantido também em suas viagens pelas
várias regiões do Brasil,
entre elas as ricas belezas
naturais de Minas e da
Amazônia. Suas viagens
por selvas e grutas
guardam uma espécie de
adrenalina, onde riscos
decorrentes do percurso
são corridos, exigindo do
viajante
toda
uma
Recém-aposentado, Cyro José pode se dedicar inteiramente à fotografia
preparação que por ele foi
conquistada através do
conhecimento e informação adquiridos com
cada nova experiência documentando e acompanhando profissionais como
cientistas e arqueólogos.
Lama, animais selvagens,
escorregões,
cobras, caminhos de pedra
estreitos, grandes alturas e
outros desafios tornam seu
conhecimento fundamental para evitar acidentes no
trabalho. Mesmo buscando não ultrapassar seus
limites, por motivos de
idade e por pensar na preocupação dos filhos, os
perigos às vezes são
inevitáveis, mas segundo
ele valem à pena. Amante
também da natureza, se
especializou em meio
ambiente,
mostrando
grande apreço pela botânica.
Viveu a transição da
máquina fotográfica tradicional para a digitalização,
afirmando acreditar que a
qualidade das fotografias e
das cores deixam a desejar,
apesar da facilidade de correção e aceleração do trabalho
promovido
pela
máquina atual. O episódio
pelo qual ficou três dias para
conseguir fotografar um
mico-leão-dourado por não
conseguir ver na hora o
resultado do "click" teria sido
evitado se fosse nos dias de
hoje.
Há cerca de um ano e
meio após aposentar e concretizar seu maior desejo,
no ano passado, teve complicações no joelho devido
às posições exigidas pelo
trabalho fotográfico e se
submeteu a cirurgia no
menisco. Foi recomendado
que fizesse fisioterapia,
mas ainda mancando e
com apenas 15 dias praticando
os
exercícios
recomendados foi chamado para fotografar na
Amazônia. Não pensando
duas vezes seguiu viagem e
desde então não parou
mais, fotografando desde
empadas para propaganda
de lanchonete, passando
por fotografias científicas
de insetos até cirurgia
plástica.
Além da dificuldade com
o joelho, que vem superando, Cyro tem complicações
na visão, o que exige o uso
de óculos. Em muitos dos
lugares, como na Amazônia,
o calor acaba por atrapalhar,
uma vez que as lentes do
óculos embaçam dificultando seu trabalho. Atualmente
ele registra expedições arqueológicas. O fotógrafo que
aprendeu muito sobre cores
e aperfeiçoou sua percepção
fazendo acompanhamentos
gráficos, por causa de alguns
livros lançados, teve recente
participação no livro "Grutas
e Cavernas da Província
Cárstica do Alto São
Francisco".
Esporte
Outubro • 2010
13
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
RUGBY COMO FORMA DE SUPERAÇÃO
Esporte, de origem inglesa, vem ganhando espaço como uma nova modalidade entre os cadeirantes, que encontraram na sua prática um incentivo para driblar as dificuldades diárias
RICARDO MALLACO
n
ANA CAROLINA TEIXEIRA,
FELIPE VIEIRA,
THIAGO ANTUNES,
1º PERÍODO
Dia de treinamento no Centro
de Referência Esportiva para
Pessoa Portadora de Deficiência
(CRE-PPD), terça-feira às 17h,
Humberto Oliveira de Assis, 31
anos, treinador do time de rugby
em cadeira de rodas e seu assistente Diego Alfeu Xavier
Morais, 23 anos, orientam um
intenso treinamento, mais
especificamente, a defesa em
chave (formação tática de três
atletas, com o objetivo de parar
o ataque adversário). Em uma
manobra ousada, de costas,
André Vasconcelos fura a defesa
adversária e marca um ponto,
mas a manobra é muito criticada
por Humberto Assis pelo risco.
"A cadeira pode travar na de
outro cara e te derrubar", alerta.
Mas o risco faz parte do
esporte, como afirma Humberto
Assis, ao citar o significado da
palavra rugby, "bater". Sendo esse
o motivo para o nome do esporte,
antes também conhecido como
Murderball, até 1981, por causa
de sua origem violenta. "O rugby
em cadeira de rodas pouco tem a
ver com o rugby de andantes, a
não ser a agressividade e o contato físico. É mais uma adaptação
do basquete em cadeira de rodas,
voltado para os atletas com maior
comprometimento físico”, diz.
O time de rugby em cadeira
de rodas foi idealizado por
Cláudia Barsand de Leucas, gerente do programa de esporte
para pessoas com deficiências do
Programa Superar, em conjunto
com Humberto Assis, durante
uma participação na clínica de
capacitação para rugby, que
ocorreu no Rio de Janeiro em
dezembro de 2009. Depois disso
e mantendo o contato com a
Cadeirantes treinam rugby adaptado no Centro de Referência Esportiva para Pessoa Portadora de Deficiência, localizado no Carlos Prates
Associação Brasileira de Rugby
para Cadeirantes (ABRC),
Humberto e Cláudia promoveram um evento em 1º de maio
deste ano, onde reuniram mais
de 100 pessoas, entre elas
cadeirantes, participantes da
clínica e o pessoal da ABRC.
No dia da clínica, a ABRC sugeriu que o Programa Superar já
dispunha de material humano
para participar do Campeonato
Brasileiro, sendo necessário apenas alguns treinos. Após 15 dias
de treinamento e contando com
apenas quatro atletas e um reserva, o time foi a Ceilândia em
Brasília, conquistando o 8º lugar.
"Para eles foi uma coisa que
começou grande, eles ficaram
deslumbrados e falavam 'como é
que eu estou aqui'. Mas foi uma
experiência muito bacana, os
meninos com 15 dias de contato
com o rugby estavam no meio da
galera do Brasil que é top, em um
campeonato de nível nacional",
afirma Humberto Assis.
Esse campeonato serviu como
seletiva para um torneio que
seria realizado na Suíça. André
Vasconcelos foi pré-convocado
entre os 20 atletas para a seleção
brasileira, mas não ficou entre os
dez que comporiam a delegação
na excursão. "A convocação me
deu uma empolgação muito
maior para treinar. Com 15 dias
de rugby já fui pré selecionado.
Porém, não fiquei chateado de
não estar entre os dez, porque
eles tinham muito mais tempo
de jogo e estavam mais preparados que eu",observa.
Os atletas participantes se
dizem acostumados com o
impacto, próprio do jogo, e
chegam a encarar isso como motivação. "Eu fiquei com medo no
primeiro dia, mas não do contato
e sim de não conseguir me equilibrar na cadeira, mas depois eu
sentei e senti equilíbrio”, conta
Everton Miranda de Castro, 29.
O esporte fortalece fisicamente
e exige um constante aprimoramento, para que não haja acomodação. "Melhorou mais o meu
condicionamento físico, dá mais
energia e disposição", explica
Julierme Augusto de Souza, 26
anos, que se tornou cadeirante há
três anos após um mergulho. Os
atletas destacam ainda a melhora
em suas performances com os
treinos. "Antes eu não conseguia
tocar a cadeira. Em comparação
com que eu estava antes, já
evoluí", avalia Marcel Cardoso
Ferreira de Souza, 23 anos.
O rugby conseguiu sustentar o
espírito de luta e a força de vontade de muitos atletas, como
Fabrício Gomes de Souza, 28
anos, casado, que tem uma filha
de 4 anos e ficou tetraplégico
durante um assalto, ao levar um
tiro no pescoço. "Antes eu não
saía de casa, hoje eu já saio, comprei meu carro, tirei carteira,
tudo depois que eu comecei a
praticar o esporte", afirma.
Alguns jogadores já praticavam esportes antes de se
tornarem paraplégicos, como o
designer gráfico Carlos Eduardo
Moreira de Assis, 28. "O esporte
em si faz muito bem para a
saúde. Antes do acidente eu já
praticava
vôlei,
capoeira,
natação e jiu-jitsu , para mim só
veio a acrescentar", explica.
"As condições físicas melhoram,
passei a fazer coisas sozinho,
fiquei independente, conheci mais
pessoas", afirma José Roberto
Gomes, 40 anos. Ele teve paralisia
infantil e, além do Rugby, já se
aventurou no basquete. O atleta
iniciou no basquete aos 20 anos,
atuando pela Associação Mineira
de Paraplégicos (AMP) e ficou um
ano jogando na Argentina.
Já Leonardo Pezzi Maia
Macedo, 38 anos, cadeirante há
16, teve o primeiro contato com o
esporte por meio de informações
de pessoas ao se exercitar na orla
da Lagoa da Pampulha. "Nem
achei que eu fosse competitivo,
hoje eu estou vendo que estou
rendendo, que estou colaborando
para a equipe e posso colaborar
ainda mais", comenta.
Goal Ball completa três anos em Belo Horizonte
ADRIANA BENEVENUTO
n
DANIELA REZENDE,
LÍVIA ARCANJO,
5º PERÍODO
O goal ball é um esporte para
deficientes visuais presente no
Brasil há cerca de dez anos. Na
capital mineira no dia 5 de outubro, o esporte completou três
anos de prática. Segundo o educador físico e técnico da única
equipe da modalidade em Belo
Horizonte, Moisés Barbosa, a
perspectiva é que o esporte
ganhe cada vez mais espaço. "O
goal ball é uma das modalidades
esportivas para deficientes
visuais que mais cresce no país.
Ela vem evoluindo muito,
porque as associações estão buscando realizar mais competições.
Comecei com dois atletas, hoje
tenho 18. Vindo treinar com frequência são nove. Isso no período de três anos. Para um esporte
pouco conhecido, foi uma boa
evolução", afirma Moisés.
O atleta Luiz Guilherme
Schulz Lanza, 18 anos, está no
time de goalball desde a sua
estreia e ressalta os benefícios
que o esporte trouxe para a sua
rotina. "Eu estou aqui desde o
primeiro dia de goal ball. Só de
você praticar um esporte já é
gratificante. Aprendi a ter um
Atletas se jogam no chão para impedir que a bola lançada alcance o outro lado da quadra
pouco mais de orientação e a
minha coordenação motora
ficou um pouco melhor", revela o
atleta, que em 2009 ganhou um
título nacional em uma competição.
De acordo com Moisés
Barbosa, muitos deficientes físicos não aproveitam as oportunidades que são disponibilizadas. "Os deficientes estão aí e
tem atividades para eles. Se não
o atletismo, se não a natação,
tem o goal ball. Se não o goal
ball, tem o judô. Infelizmente a
gente percebe talentos futuros,
que estão apenas no mundo do
trabalho, da família e deixam a
atividade esportiva em outro
plano. Tem que correr muito
atrás deles e não deveria ser
assim, às vezes a iniciativa tem
que partir deles", comenta.
O deficiente visual Adriano
Lopes, 28 anos, foi um dos atletas convidados por Moisés.
Sempre envolvido com esportes,
ele praticava atletismo, modalidade em que ganhou títulos
brasileiros. Porém, teve que
interromper sua carreira por não
conseguir conciliar sua rotina de
treinos com seu trabalho. Após
alguns anos longe do esporte,
praticando apenas musculação,
retornou e começou a praticar o
goal ball. Assim como Luiz
Guilherme, Adriano ressalta a
importância da prática de
esportes na melhoria da qualidade de vida dos deficientes. "Os
deficientes que ficavam parados
desenvolviam muitos casos de
obesidade. Com o surgimento do
esporte na vida da gente, melhorou
bastante",
explica
Adriano.
HISTÓRIA O goal ball é um
esporte criado exclusivamente
para deficientes visuais. Surgiu
na Alemanha, após a IIª Guerra
Mundial, para ressocializar os
ex-combatentes que haviam perdido completamente a visão ou
parte dela. "O goal ball é praticado em uma quadra que tem as
mesmas dimensões de uma
quadra de vôlei (nove metros de
largura por 18 metros de comprimento), são dois gols nos
extremos e três atletas de cada
lado. O objetivo é, com a bola
rasteira, colocá-la no outro gol",
conta Nayara Rodrigues, 17
anos, jogadora há cinco meses.
O
esporte,
em
Belo
Horizonte, é oferecido pela
Associação dos Deficientes
Visuais de Belo Horizonte
(Adevibel) e os treinos acontecem no Centro de Referência
Esportiva para Pessoa Portadora
de Deficiência (CRE-PPD),
localizado na Avenida Nossa
Senhora de Fátima, 2283, no
Bairro Carlos Prates. "A associação existe há 25 anos, trazendo
a oportunidade de prática de
esporte para os deficientes
visuais de Belo Horizonte.
Temos o atletismo, o judô, a
natação, o futebol de salão, o
xadrez e o goal ball", explica o
educador físico e técnico Moisés
Barbosa.
Segundo ele, qualquer deficiente visual pode fazer parte do
time de goalball. "Desde que
esteja atrelado a uma associação,
um programa de esportes, a um
centro especializado esportivo
ou até mesmo a uma escola que
faça sua inscrição nos órgãos
competentes. Para isto, no caso,
o maior deles é o Comitê
Paraolímpico Brasileiro (CPB)",
explica.
14 Comportamento
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
Outubro • 2010
PESQUISADORES ENFRENTAM DESAFIOS
Os profissionais que lidam com a pesquisa de campo relatam os obstáculos enfrentados para realizar estudos que muitas vezes tem como tema assuntos, além de polêmicos, perigosos
RENATA FONSECA
n
GABRIEL GAMA,
LUISA FARIA,
2º PERÍODO
O coordenador do
Centro de Pesquisa em
Segurança Pública da PUC
Minas (Cepesp), professor
Luís Flávio Sapori, 45
anos, coordenou uma
vasta pesquisa sobre a
influência do crack na
Região Metropolitana de
Belo
Horizonte.
Ele
ressalta o iminente perigo
físico para estabelecer contatos com traficantes e
dependentes
químicos,
enfrentados por integrantes da equipe. As dificuldades para estabelecer
relações de confiança com
os entrevistados foram o
principal desafio dos
pesquisadores. Obstáculos
desse tipo e de outras
naturezas estão presentes,
de forma geral, nas atividades de pesquisas nas
mais diferentes áreas do
conhecimento.
"A pesquisa pretendeu
entender o comércio do
crack. A grande dificuldade era entrevistar trafi-
O professor Luís Flávio Sapori lidou com as dificuldades de entrevistar traficantes por causa de sua pesquisa sobre o crack
cantes no próprio local de
atuação deles. Através das
relações em rede, que a
pesquisa foi realizada, essa
é a metodologia mais conveniente. Foi um ano para
conseguir os primeiros
contatos. Conseguimos ter
acesso a 19 traficantes
através de indicações e da
lógica de confiança de
amigos dos criminosos",
explica Sapori.
A antropóloga e profes-
sora da PUC Minas,
Regina Medeiros, 49 anos,
fez parte da pesquisa sobre
o crack, no âmbito das
instituições e dos dependentes químicos. "Os
profissionais
precisam
entender de onde veem os
dependentes, conhecê-los,
conhecer suas famílias,
suas redes sociais, mas não
têm recursos para trabalhar isso com os dependentes. Falta nas equipes
um profissional na área de
sociologia, antropologia,
que pode fazer uma leitura
do universo das pessoas,
para ajudar no tratamento
e na compreensão do que
leva essas pessoas a escolherem o crack e não outras drogas", explica a
antropóloga, a respeito da
falta de capacitação dos
profissionais em trabalhar
com esse tipo de pesquisa,
e ainda, sobre a influência
que a mídia tem de
estigmatizar
uma
sociedade marginalizada.
"Toda esta manobra de
criação de imagens tem
absolutamente tudo a ver
com o ganho políticoeconômico e ideológico.
Quem ganha com isso são
os grandes traficantes",
afirma Regina Medeiros,
referindo-se aos aparelhos
ideológicos, veiculados
pela mídia, como os principais fatores que estimulam o preconceito social
na cidade.
"A verba destinada,
hoje, é pequena somente
no campo da saúde pública. Eles direcionam os editais para nós concorrermos. Tem que ter
alguns requisitos que
impedem que a gente
entre. Tem muitas pessoas
pesquisando, então eles
selecionam aqueles que
vão ter gastos com medicamento, às vezes, importados", diz Marlene Barros
de Melo, 50 anos, superintendente de pesquisa da
Escola de Saúde Pública,
sobre a insuficiência de
verba fornecida pelas
agências de fomento como
a Fundação de Amparo à
Pesquisa de Minas Gerais
(FAPEMIG) e o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPQ), para
dar prosseguimento em
suas pesquisas em saúde
pública e não laboratoriais; como é o caso dos
testes de medicamentos
em voluntários.
"É difícil encontrar o
perfil da equipe (de
pesquisa) e mesmo o perfil
da área da investigação. A
dificuldade é porque as
agências não querem que
pesquisem doenças como a
dengue, no impacto social
que ela pode trazer. Eles
privilegiam muito mais o
tratamento da doença com
medicamento, do que a
questão de como o usuário
é tratado", explica a
pesquisadora, ressaltando
a falta de um corpo de
pesquisadores consolidados e a objeção do perfil
de entrevistados exigidos
pelas agências de fomento.
Cuidados durante as pesquisas são fundamentais para cientistas
No Centro de Doenças Infectoparasitárias da Universidade
Federal de Minas Gerais (DIP) são
feitas pesquisas com o vírus HIV
com a finalidade de desenvolver
técnicas para a melhoria no diagnóstico, tratamento e até mesmo a
descoberta de uma vacina. "Todas
as vacinas testadas, até hoje, não
conseguiram o efeito de uma vacina eficaz e segura”, afirma o
doutor Unaí Tupinambás, 48
anos, professor da Faculdade de
Medicina da UFMG.
A questão dos voluntários é um
dos dificultadores do trabalho.
"Para você fazer a pesquisa, pre-
cisa ter justificativa racional,
metodologia, garantia de segurança, tem que ter um termo de
consentimento livre e esclarecido
do voluntário. Está implícito que
pode dar errado, mas eu fiz tudo
para que a pesquisa acontecesse",
explica Unaí, citando a resolução
196/96 do Conselho Nacional de
Saúde (CNS), que garante segurança, confiabilidade e sigilo dos
dados do voluntário.
O pesquisador cita como um
problema recorrente a evasão de
voluntários. “Se eu precisava de
200, eu vou colocar 500, porque
eu vou contar com 300 que vão
me abandonar e vão sobrar 200.
Então, têm vários artifícios para
conseguir aquele objetivo. Podem
ser os critérios de inclusão, eu tentar selecionar bem a minha
mostra, garantir que aquele voluntário vai voltar e orientá-los bem",
observa o pesquisador.
Todos os processos em um laboratório, em que se lida com
sangue contamidado requer o
cumprimento de protocolos de
segurança. "Quando eu entrei aqui
eu tinha muito medo da luva estar
furada e eu me contaminar com o
sangue", diz Laís Ferreira, também
de 23 anos, estagiária há um ano e
meio do DIP, que é estudante de
Biomedicina
da
Faculdade
Unifenas . Ela conta que equipamentos de segurança utilizados
pelos pesquisadores como jaleco,
luvas e óculos de proteção, juntamente com a orientação de profissionais mais experientes e o
empenho do pesquisador no trabalho, dificultam a possibilidade
de contaminação. "O gostoso de
trabalhar com pesquisa é saber
que você está descobrindo coisas
novas e pode ajudar o paciente.
Por isso eu acho que vale a pena.
É só você se precaver e ter orientação correta", ressalta.
"No começo, eu não colocava a
mão em nada só observava as pessoas fazerem. Depois quando
comecei a pegar para fazer, vi que
é diferente porque quando você
está mexendo com o sangue, e
sabe que pode se contaminar por
um leve descuido, ou por simples
bobeira, você começa a pensar se
vale a pena. Acho que só não valeria a pena continuar se o laboratório fosse mal estruturado e o
ambiente fosse ruim, mas não é o
caso aqui", diz
o estagiário
Willian Cunha Domingos, 23
anos, estudante de Ciências
Biológicas da Faculdade Pitágoras.
Curso ensina métodos de comunicação alternativa
RICARDO MALLACO
n
LAURA DE LAS CASAS,
3º PERÍODO
Há três anos, o guarda
municipal Leandro Pereira,
27 anos, aceitou o convite da
Prefeitura de Belo Horizonte
para fazer um curso de braile.
Por meio de sua professora
ficou sabendo do curso de
Comunicação Assistiva Libras e Braile, oferecido pela
PUC Minas. "Como achei
essa área muito especial, eu
resolvi me formar nela, me
encantei" conta o guarda.
Hoje, Leandro está a um ano
de se formar no curso indicado. Procurando por novas
experiências profissionais, foi
em busca de novidades na
área que escolheu, encontrando na própria faculdade
a oficina de Comunicação
Alternativa, iniciativa do
Núcleo de Apoio a Inclusão
(NAI).
A ideia da oficina foi da
coordenadora da área de limitações locomotoras do
NAI, a terapeuta ocupacional
Nivânia Maria Melo Reis.
"Como existem na PUC cursos de pedagogia, fonoaudiologia e psicologia, muito
ligados à área da comunicação de deficientes, achamos que essa oficina seria
interessante para que os
alunos tivessem a opção de
obterem mais informações e
ideias para aplicar no âmbito
profissional", justifica a terapeuta. Com especialização
em educação para pessoas
especiais, Nivânia desenvolveu um material didático
para ensinar os alunos a trabalhar com portadores de
paralisia cerebral, autismo,
síndrome de down e deficiências múltiplas a fim de desenvolver nessas pessoas um
recurso para que elas possam
se comunicar, já que elas, na
maioria das vezes, elas não
falam.
Muitos alunos procuraram
o curso, que acontece aos
sábados, com 30 horas presenciais divididas em dez
encontros e mais 40 horas de
atividades
extra
classe.
Michele Rufino, 28 anos, que
se forma este ano em fonoau-
diologia, foi uma delas. A
estudante se interessou pela
oficina por complementar as
matérias já estudadas anteriormente. "As aulas que tenho
aqui me auxiliam na prática, o
que eu acho muito importante na minha área. É fundamental ter um diferencial
desses", afirma Michele, que
escolheu sua profissão justamente por ser uma área que
trabalha com a comunicação
de pessoas deficientes.
Para Leandro, que pretende trabalhar com braile, o
curso complementar está
sendo muito gratificante. Ele
conta que as aulas são dadas
por meio de material variado,
com pranchetas, figuras, ilustrações, miniaturas entre outros recursos. Tudo isso irá
ajudar o deficiente a expressar o que ele quer, e assim,
ser compreendido pelo outro.
"É importante saber entender
e se relacionar com quem é
especial", comenta.
As aulas são dadas por
duas professoras, Luana
Souza,
formada
em
Pedagogia e Vivian Maria
Para Leandro Pereira, o curso de Comunicação Assistiva possibilita um diferencial para a sua profissão
Pinto, que cursa fonoaudiologia e já participou da primeira
oficina de Comunicação
Alternativa. Nas 40 horas
extra classe, os alunos são
levados para praticar as técnicas aprendidas com os
próprios deficientes. "A pratica é importante, mas nas
aulas damos bastante teoria
também", afirma Luana.
Nivânia conta que as aulas
são dadas no máximo para 20
alunos de cada vez, para que
sejam bem aproveiotadas.
Comunicação
Outubro • 2010
15
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas
REPORTAGEM NÃO É SÓ PARA JOVEM
FOTOS: RENATA FONSECA
Eduardo Costa relembra momentos importantes da carreira como repórter
Há 32 anos trabalhando como repórter, Ivan Drummond diz amar o que faz
O contato com os jovens ajuda Maria Clara Prates em suas reportagens
Profissionais reconhecidos na área do jornalismo mostram que trabalhar como repórter não é função exercida apenas por jovens recém-formados e declaram o gosto pelo trabalho que fazem
n
CÍNTHIA RAMALHO,
MÉRIAN PROVEZANO,
4º PERÍODO
O sonho de Ivan
Drummond era se tornar
engenheiro eletricista. Um
dia, no entanto, acompanhou o pai jornalista,
Felipe Drummond, na
cobertura de um incêndio
na Rua Padre Eustáquio
para a televisão. "Ele me
mandou pegar um bloco e
anotar tudo", conta. A
partir daí, ele esqueceu a
carreira de engenheiro e
seguiu no jornalismo.
Hoje, aos 52 anos, Ivan
Drummond é repórter de
esporte do jornal Estado
de Minas e após 32 anos
de carreira, ainda mantém a mesma paixão pela
reportagem. "Eu faço
porque gosto. Não penso
em ser chefe, não tem
nada a ver comigo. Eu
gosto é de rua, gosto de
desafio", conta.
O pouco espaço para o
jornalismo em Minas
Gerais, com um mercado
restrito e salários ruins, é a
maior reclamação dos
profissionais e o principal
motivo para que jornalistas
experientes troquem a carreira de repórter por cargos
de melhor remuneração
dentro das redações, como
os de editor e subeditor.
Além disso, a chegada de
jovens
jornalistas
às
redações faz com que o trabalho de repórter fique por
conta dos recém-formados.
Mas isso não é regra dentro
das redações. Muitos jornalistas experientes, como
Ivan Drummond, não
abrem mão do trabalho de
repórter e ainda mantém a
mesma paixão em ir para as
ruas atrás de boas matérias.
Maria Clara Prates
chegou ao jornalismo,
como ela mesma afirma,
de forma aleatória. "Fiz
orientação vocacional e
entre os cursos apresentados estava jornalismo",
lembra. Hoje, aos 48 anos
e 25 de carreira, a jornalista é repórter especial do
jornal Estado de Minas e
vê no trabalho de reportagem a oportunidade
de fazer algo mais aprofundado e minucioso dentro da profissão. "Eu gosto
muito do trabalho de
campo, de correr atrás da
notícia, e não essa coisa de
fazer coletiva", diz. Além
do gosto pela reportagem,
a jornalista se diz satisfeita, já que percebeu no
veículo aonde trabalha a
valorização do profissional
e, dessa forma a chance
de, como jornalista, ser,
nascer e crescer repórter.
Cada reportagem é um
novo desafio para os jornalistas. A rotina é pesada
e os profissionais passam
grande parte do dia fora
das redações fazendo entrevistas e buscando informações para a elaboração
das matérias. Por conta
outras pessoas. Já Maria
Clara Prates prefere não
fazer planejamentos, agindo de forma instintiva. A
repórter remete o sucesso
da maneira como trabalha
à experiência acumulada
durante os anos de profissão. "Se a pauta é a do dia
eu apuro uma coisa, se
ficar faltando eu apuro
mais um pouco. É um
processo de muito convencimento pessoal e é por
causa da experiência que
eu tenho que eu posso
fazer isso", diz.
Para os jornalistas, a
experiência só acrescenta
no trabalho de repórter. É
por causa dela que eles
conseguem enxergar em
pequenas situações, nas
ruas, grandes reportagens, filtrar informações
e dessa forma, tornar o
processo de apuração
mais ágil. O que, muitas
vezes, não acontece com
os jovens repórteres.
Além disso, o fato de já
ter lidado com vários
tipos de situações faz com
que o jornalista mais experiente tenha menos chance
de cometer erros graves,
como divulgar informações erradas, e consiga
contornar melhor situações adversas. Se os erros
existem, a experiência
também conta na hora de
admiti-los. "Outra vantagem que você tem com a
[ ]
"EU FAÇO PORQUE GOSTO.
NÃO PENSO EM SER CHEFE,
NÃO TEM NADA HAVER
COMIGO"
IVAN DRUMMOND
disso, a profissão se constrói sem rotina, o que é
classificado pelo jornalista
Eduardo Costa, 54 anos,
como uma das coisas que
mais o atrai na profissão
de repórter. "Eu não sei
aonde eu vou estar amanhã cedo. Eu acho que eu
não nasci muito para a
rotina", afirma.
Eduardo Costa atua no
jornalismo há 33 anos e
durante todo esse tempo
trabalhou fazendo reportagens para o rádio. Hoje
é repórter e apresenta
programas na Rádio Itatiaia e na Rede Record e
não esconde a satisfação
de ainda estar na rua trabalhando em reportagens. Ao mesmo tempo,
o jornalista também vê na
falta de rotina um dos
lados negativos da profissão. Por conta da grande
carga de trabalho, Eduardo
lamenta não conseguir se
alimentar de forma saudável, aproveitar finais de
semana e feriados.
O processo de construção de reportagens é
diferente para cada jornalista. Eduardo Costa diz
que o que impulsiona seu
trabalho está na rua, por
meio da observação e de
informações que recebe de
como forma de equilibrar
o trabalho. Para a repórter,
o jornalismo só tem sentido na fusão da experiência
e conhecimento do passado pelos mais velhos e a
visão moderna dos jovens.
A produção de reportagens sempre trás momentos marcantes para a carreira dos repórteres. Ivan
Drummond se lembra com
carinho das Olimpíadas
que cobriu como repórter
de esporte. Para ele, os
jogos olímpicos representam o ponto máximo na
carreira de um jornalista,
justamente pelo fato de
que lá ele consegue estar
perto dos melhores atletas
de cada modalidade.
Porém, Ivan afirma que
essa cobertura não se limita ao esporte, sendo possível enxergar ali matérias
de comportamento e cultura. O jornalista classifica
as Olimpíadas de Atlanta,
em 1996, como um dos
seus momentos mais emocionantes. O jogador de
basquete Oscar Schmidt
estava encerrando sua carreira e enquanto o entrevistava, Ivan não conteve
a emoção e chorou. "Essa
me marcou pela paixão
que eu tenho pelo
esporte", lembra.
Eduardo Costa recorda a
cobertura de uma rebelião
em 1997 na qual um cabo
foi morto, como um dos
momentos mais importantes de sua trajetória. A
cobertura foi feita ao vivo,
narrada em meio aos tiros
e rendeu ao jornalista o
prêmio Líbero Badaró. Já
Maria Clara Prates prefere não escolher uma
reportagem que a tenha
marcado mais. Ela diz que
geralmente gosta mais do
trabalho que está realizando
no momento.
Para Ivan Drummond, a
paixão por fazer o que
gosta está acima da experiência no que diz respeito
à facilidade em realizar um
trabalho. "A experiência é o
modo como você vai abordar, o modo como você vai
tratar, como chegar na pessoa, a forma como você vai
escrever te ajuda nesse
lado, mas eu acho que ali
vai um pouco mais de
paixão e acho que com a
paixão, você faz mais fácil".
[ ]
"OUTRA VANTAGEM
COM A IDADE É NÃO SE
SENTIR DERROTADO SE
ALGO NÃO DER CERTO”
EDUARDO COSTA
idade é não se sentir derrotado se algo não der certo.
Isso tudo é um caldo que o
tempo vai te dando de
saber um pouquinho mais
do que o novato, mas ter
muito mais humildade e
preparação para entender
que você não é onipotente", diz Eduardo Costa.
O contato com os
jovens também ajuda os
jornalistas experientes na
realização das reportagens.
Maria Clara Prates aposta
na relação entre os mais
novos e os experientes
Tecnologia traz
diversas mudanças
para a profissão
O avanço tecnológico transformou a
forma de produção e
propagação da informação. Com isso, os
profissionais de comunicação tiveram de se
adaptar
à
nova
dinâmica. Ao tirar o
gravador da bolsa,
para começar a entrevista
com
Ivan
Drummond, ele pergunta, "Você tem
certeza que vai usar só
isso aí mesmo? Não
uso gravador, anoto
tudo". Para Ivan, isso é
uma perda de tempo,
pois, com o gravador a
matéria é feita duas
vezes, uma, quando se
está gravando e entrevistando, outra, quando se vai transcrever.
Ivan comenta que
são muitas as diferenças
do jornalismo esportivo,
da época em que
começou e o de agora.
"Hoje, personagem é
tratado de outra forma.
Não é um simples
entrevistado. O jogo é
só um registro. Você
tem que estar preparado para qualquer coisa",
diz. Para ele, o jornalista
tem que saber usar as
novas tecnologias a seu
favor. "Se eu não me
adaptasse a essas tecnologias eu estava
morto. Estava fora. Na
minha bolsa tem uma
máquina fotográfica
que filma, um celular
que grava e eu passei a
andar dessa forma”, diz.
Na Olimpíada de
Atlanta, em 1996,
Drummond conta que
foi um dos primeiros
jornalistas a fazer a
convergência
de
mídias, produzindo
matérias para o rádio,
jornal e televisão. Na
Olimpíada de Atenas,
em 2004, já tinha a
Internet, e com isso,
ele mantinha um blog,
onde contava casos
curiosos da cobertura.
Eduardo
Costa
acredita que o jornalismo de hoje exige
mais empenho e compromisso ."Eu não
posso apenas narrar
um fato, porque a televisão vai lá e mostra,
então eu tenho que
aprofundar.
Trinta
anos atrás, não tinha
Internet. A rapidez da
notícia é diferente de
dia para dia", ressalta.
Um fato que o marcou e que para ele foi
uma inovação, aconteceu em 1997 durante
a última visita do Papa
João Paulo II ao Brasil.
"Eu fui a Roma e vim
transmitindo um flash,
ao vivo, do avião. Foi
legal porque era uma
coisa muito nova você
poder transmitir alguma coisa do avião",
lembra.
Para Maria Clara
Prates à medida em que
você vai trabalhando,
vai incorporando naturalmente as novas tecnologias.
"Tira
a
máquina de escrever e
põe o computador, tira
o computador e põe o
laptop, tira o laptop e
põe um celular. Quem
não acompanha esse
processo,
envelhece.
Ninguém quer ser um
repórter anacrônico,
você tem que estar
evoluindo,
acompanhando o andar da carruagem",
afirma.
Mesmo assim, ela diz
que nunca fez uma
entrevista pela Internet,
pois não tem como
garantir quem realmente está respondendo o email.
entrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevista
Fernando Brant
Entrevista
COMPOSITOR
jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarco
“VAI FICAR O QUE FOR BOM”,
DIZ AUTOR DE TRAVESSIA
n
CÍNTHIA RAMALHO,
BRUNA CARMONA,
4º PERÍODO
Em tempos de crise na indústria fonográfica, estudar formas de combater a pirataria e garantir os direitos dos autores são os principais objetivos da União Brasileira dos
Compositores (UBC). Parceira do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), a UBC defende os interesses da classe artística no Brasil desde 1942 e
atualmente é presidida por Fernando Rocha Brant. Ele, que na década de 60 participou de um dos movimentos mais expressivos da música brasileira, o Clube da Esquina, já
compôs em parceria com músicos como Wagner Tiso, Márcio Borges, Toninho Horta e Milton Nascimento. Com este último teve mais de 200 canções gravadas, sendo que a primeira
delas, Travessia, ganhou o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, em 1967. Resistente à burocracia, Fernando Brant diz que desempenha uma função política à frente da
UBC, e admite o embate entre representantes dos direitos autorais e emissoras de rádio e televisão. “Tudo que possa facilitar para que todo mundo que usa música pague e que esse dinheiro chegue ao autor,
faz parte do meu trabalho”, revela. Segundo ele, mesmo com a Internet a trajetória do músico brasileiro não mudou muito nas últimas décadas. "O músico brasileiro é um verdadeiro bandeirante", compara.
RENATA FONSECA
n A sua parceria com o Milton Nascimento é fértil
e duradoura. Você considera que atuar com parceiros
enriquece o trabalho de composição?
Eu acho que sim, porque no caso da gente, não só com o
Milton, mas com os outros parceiros meus, a gente, normalmente, é primeiro amigo para depois ser parceiro.
Então, cria uma afinidade. Ele me manda a música eu
faço a letra e normalmente ele acha que está tudo certo,
porque eu falei uma coisa que ele acha que gostaria de
falar, de cantar. Criou-se ao longo do tempo uma parceria bem fecunda. Atualmente, eu tenho feito muito mais
músicas com o Tavinho Moura, que mora aqui do lado e
a gente está sempre se encontrando. Não tem que ser
necessariamente amigo, mas você sendo amigo, a coisa
fica mais fácil.
n E a parceria com o Milton como é que está?
Está boa. Ele está compondo menos nesse sentido porque
vive viajando para a Europa, Estados Unidos. Mas ele está
até lançando um disco agora que tem umas parcerias nossas. Tem parceria inédita, tem uma música que é de uma
peça de teatro e tem outras duas, uma foi gravada só pela
Simone, a outra só pela Gal Costa e aí ele está gravando
agora. Música nova a gente fez para uma peça, Alice, que
a Luana Piovani encenou no Rio. Mas é que ele não estava gravando disco. O Pietá, foi o último disco que ele
gravou com músicas inéditas, e eu tinha músicas lá.
Normalmente, quando ele vai fazer, me dá um toque.
n Qual a importância do
Clube da Esquina para a música brasileira?
Na realidade foi uma coisa muito espontânea e que
acabou pegando esse nome porque a imprensa do Rio e
São Paulo não entendeu muito que era um movimento
muito rico, porque tinha o Milton, mas ao mesmo tempo
tinha o Toninho Horta, o Beto Guedes, o
Lô [Borges], o Wagner Tiso e outros que
vieram. Então eles resolveram criar um
rótulo e o rótulo era exatamente porque
tinha uma música e tem o disco Clube da
Esquina, então o pessoal começou a falar
muito do pessoal do Clube da Esquina e
esse nome ficou. A gente nunca fez nada
para a mídia. A gente foi fazendo as coisas
porque a gente gostava de fazer. E fazia as
músicas que a gente achava que era bom
para a gente e a gente só atingia as pessoas
porque éramos contemporâneos deles,
vivíamos no mesmo país, essas coisas. Mas, com o tempo
já é reconhecido. O Caetano [Veloso] mesmo, no livro do
Márcio Borges, disse que o movimento foi o que realmente pegou a bossa nova e levou a música brasileira para
frente. Na realidade, em termos de harmonia, de musicalidade e de poesia é uma coisa muito consistente, não era
uma coisa de moda, tanto que a gente foi se impondo
muito ao longo do tempo, porque a gente nunca teve facilidade, nunca teve jornais e revistas a nosso favor.
Ministério da Cultura sobre as mudanças que eles
querem fazer na lei autoral. Briguei muito junto com o
Gonzaguinha, com a Joyce e mais um monte de gente
para fazer essa lei que está valendo hoje. A diretoria da
UBC são cinco autores e dois editores e um autor tem
que ser presidente. Mas, da administração do dia a dia eu
não participo, tanto que eu moro aqui e vou para as
reuniões da diretoria. Sou, mais ou menos, um representante dos autores. Burocracia eu não gosto. Continuo
não gostando nem de terno nem de
burocracia.
[ ]
“ESSE PESSOAL
QUE ESCREVE
SOBRE MÚSICA,
NORMALMENTE NÃO
ENTENDE MUITO”
n Você já foi repórter da revista O Cruzeiro e hoje
escreve para o jornal Estado de Minas. Como você
avalia a cobertura de cultura, especificamente de música,
nos veículos de comunicação?
n Porque você acha que grandes
empresas, como a TV Globo,
resistem em pagar os direitos?
Ela está pagando, mas ela tinha um
contrato em que pagava um tanto e,
de repente, passou a falar que tinha
que pagar menos. Então, ela está
pondo preço e, na realidade, quem
dá o preço, e que está lá na constituição, é o autor. E a pessoa para usar tem que pedir autorização ao autor. O preço do anúncio, por exemplo, no
Jornal Nacional, quem dá é a Globo, não é o cliente. Na
realidade o que se está discutindo nisso aí são valores. TV
a cabo está sem pagar, tem vários processos, não pagaram,
voltaram a pagar e agora não estão pagando mais. E as
decisões na Justiça, elas demoram, mas a Justiça, como a
lei nossa é muito boa, acaba sempre julgando a favor da
gente.
n Há uma crise da indústria fonográfica com a difusão
do material pirata. Como fica para remunerar os artistas?
A gente está numa fase de transição. Então, nesse
primeiro momento está um pouco bagunçado, mas isso é
natural. Mas, a mesma tecnologia que possibilita que a
Esses cadernos de cultura, na realidade, tem um ou outro
pessoa chegue a ter acesso a todas as músicas vai criar
que é bom. Por exemplo, o do Estado de São Paulo é bom,
outras maneiras de controlar isso, tipo, marca d'água dio do O Globo é mais ou menos. Eu acho que não tem uma
gital. De repente a pessoa vai
cobertura. No caso da música de Minas Gerais,
tocar, mas vai conseguir saber
eu acho que poderia ter um apoio muito maior.
que aquele computador baixou
Eu acho que a música mineira é reconhecida,
tal música. Como não vai ter
apesar de não ser muito ajudada pela mídia
mais a coisa física, então vai
“O ECAD, QUE HÁ 15
mineira. Eu acho que o pessoal não aprofunda.
ficar mais barato e as pessoas
Você vê as capas dos cadernos de cultura, eles
ANOS ARRECADAVA
vão ter acesso a uma coisa que
publicam coisas que acontecem em Nova
10 MILHÕES, VAI
é muito mais barata do que um
Iorque, na Europa, em São Paulo ou um comCD que é vendido nas lojas de
positor que apareceu no Rio, mas aqui eu acho
FECHAR O ANO COM
discos. Hoje, o mercado já tem
que é pouco o espaço que a música mineira tem.
420 MILHÕES”
acordo com o Youtube, as
sociedades naturais do mundo
n A internet entra como um grande colaboestão conversando e estão esturador para quem faz música independente. Você
dando formas de controlar isso. É deixar que todo
acha que de alguma forma isso afeta a qualidade
mundo tenha acesso, mas que esse acesso não seja gratuidas produções,por causa da falta de filtro?
to. Então esse é o momento de transição, está meio
bagunçado, mas eu acho que vai chegar num ponto que
Eu acho que o que vai ficar é o que for bom. Se a coisa
seja bom para todo mundo.
não for boa, ela pode ter algum sucesso, mas para poder
permanecer ao longo dos anos, há um filtro natural, tanto
n Como compositor, o que você
que o que tem na época de rádio e de televisão, que eles
acha da difusão de música pela internet?
falam que tinha jabá, as músicas tocavam um, dois ou três
meses e sumia, a menos que tivesse alguma qualidade.
Eu acho que é um meio maravilhoso de difusão. É completamente caótico, porque difunde coisas ótimas, coisas
n Você sempre resistiu em ocupar cargos
horrorosas, mentiras, verdades, então é um negócio meio
burocráticos, porque aceitou presidir a UBC?
complicado porque não tem controle. A diferença de jornal, revista e televisão, é que o cara fala um negócio lá e
Na realidade, a minha atuação é mais política do que
você sabe quem é, não tem anonimato. Acho que anoniburocrática. Com burocracia eu não mexo não. Eu faço
mato na internet é que é um negócio meio danado, ou o
palestras, converso com os autores, vou reclamar no
[ ]
pessoal usa o nome de outra pessoa. Agora esse negócio da
difusão da cultura, da música e tal, isso é fantástico. E esse
negócio de informação, eu só acho que é demais. A internet dá tanta informação que ninguém retém nada. Esse
negócio de muita informação quer dizer pouca informação
ou nenhuma, porque a gente não consegue acompanhar.
Fica esse pessoal todo atrás, toda hora e coisa que vai
chegando, complicado. Não dá tempo nem de parar para
pensar o que está acontecendo.
n Quais providências a UBC tem tomado
para resolver a questão da pirataria antes que
seja desenvolvido um método específico para isso?
Essa da Internet aí está se tentando exatamente uma
negociação com o YouTube. Na realidade, você tem de ir é
no provedor e não no consumidor. Aí o próprio provedor
paga e depois, cobra lá do consumidor. E é uma tendência
mundial. Isso é estudado há muitos anos, na realidade,
esse negócio de baixar música, o download, é uma coisa
que não vai permanecer muito tempo. É uma coisa que a
juventude toda usa muito, mas a tendência é o que eles
chamam "Streaming", é a rádio online, é você ter à disposição qualquer música na hora que você quiser. Aí entra
naquele negócio lá, aí quem vai pagar é o cara que está
colocando a música lá, o organizador. A tendência então é
essa, é ficar uma coisa aí que você pode na hora que você
quiser, vai lá e ouve. Parece que o futuro está indo mais
para esse lado e facilita, porque aí o cara não vai baixar
porque o cara que está disponibilizando é que vai ser o
responsável, igual o rádio é responsável pela música que
disponibiliza.
n Numa parceria, o letrista quando
canta tem mais visiblidade. Isso te incomoda?
Não. Eu já me acostumei, porque na realidade quando eu
comecei já era assim, o Milton era o cantor e aparecia. E
só com o tempo que as pessoas começam a ver que tem
outro ali. O que a gente gosta é que, por exemplo, a
imprensa quando publica coloca o nome dos dois. É uma
maneira do pessoal entender, mas é isso mesmo, porque
faz parte, a pessoa aparece na mídia, na televisão e o pessoal liga. Porque antigamente acontecia muito, ainda continua acontecendo, que quando era menino eles
chamavam assim 'uma música, uma criação de Emilinha
Borba' e ela não fazia música, então criação era interpretação. Então não aparecia nem o compositor da música
nem da letra, aparecia só o cantor. Mas isso aí faz parte.
Mas estando registrado, na hora de pagar vai pagar igual.
É meio a meio.
n O seu público hoje permanece o
mesmo ou você percebeu alguma mudança?
Já tem filhos e netos, tem muita gente nova. A gente vê
pelos shows do Milton, show do Flávio Venturini, do Lô
[Borges]. A gente fez uma vez um negócio de pesquisa lá
em Friburgo, aí era todo mundo cantando, eu, Tavinho,
Toninho Horta. Aí você via o seguinte, que tinha gente da
nossa idade e gente mais nova. O pessoal cantava tudo, e
a platéia que era assim, ao ar livre, tinha tudo, tinha avô,
pai, filho e neto, e todo mundo cantando, quer dizer, a
pessoa passa para muita gente. Agora, a gente não sabe é
quantidade, como que é.
entrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevista
Download

réplicas - Faculdade de Comunicação e Artes