Mulheres com o mesmo nome do bairro onde moram ajudam, por meio de depoimentos, a contar a história de Belo Horizonte. Página 7 BRUNA FONSECA APCBH RICARDO MALLACO Mercado de compra e venda de cabelos em Belo Horizonte gera lucro aos comerciantes e agrada clientes preocupados com a estética. Página 8 Batizado de Doulas Comunitárias, projeto que capacita voluntárias para acompanhar parto, tenta superar a falta de recursos. Página 9 marco jornal Ano 38 • Edição 277 LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas•LaboratóriodeJornalismodaFaculdadedeComunicaçãoeArtesdaPucMinas Outubro • 2010 RENATA FONSECA TRANSPORTE COLETIVO EM XEQUE nestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaediçãonestaedição “Minha atuação é mais política do que burocrática” RENATA FONSECA As linhas de ônibus que atendem ao Bairro Coração Eucarístico, próximo à PUC Minas, na Região Noroeste de Belo Horizonte, são alvos constantes de reclamações dos usuários. Os que utilizam as linhas 4110, 4111, 9410, 5401, o suplementar 21 e o metropolitano 2580, enfrentam uma série de dificuldades para chegar e voltar dos seus destinos passando por essa região. Atrasos no horário dos ônibus, lotação, motoristas que passam direto pelos pontos, a quantidade insuficiente de veículos nos horários de pico para atender a alta demanda, além do trânsito intenso das ruas de Belo Horizonte, estão entre as reclamações recorrentes. Páginas 4 e 5 Atores surdos encenam Machado de Assis A adaptação da obra de Machado de Assis, “ Tu, só tu, puro amor”, para o teatro em libras agradou o público presente no Espaço Cultural da Escola de Teatro da PUC Minas. Do elenco de atores deficientes auditivos, apenas um é formado em teatro. RENATA FONSECA Página 11 Fazer xixi em locais públicos causa transtorno e prejuízo O ato de urinar em locais públicos incomoda e constrange moradores da Rua 31 de Março, no Coreu, por conta do mau cheiro que fica no local. O problema não se restringe apenas ao bairro, mas também está presente em vários pontos de BH. No centro, por exemplo, a SLU tem que enviar dois caminhões pipa por dia para lavar os locais. Página 2 RICARDO MALLACO O compositor mineiro Fernando Brant, um dos fundadores do Clube da Esquina, está à frente da União Brasileira dos Compositores, onde ocupa o cargo de presidente. Em entrevista ao MARCO, ele revela detalhes de sua função na UBC, onde trabalha para defender os direitos dos autores brasileiros. Ele acredita que a internet é um meio maravilhoso de difusão para o trabalho dos artistas, mas completa, "acho que o anonimato na internet é um negócio meio danado". Página 16 2 Comunidade jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 EDITORIAL editorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorialeditorial Temas do dia a dia são valorizados nas páginas do MARCO FALTA DE EDUCAÇÃO GERA TRANSTORNOS Fazer xixi nas ruas causa problemas à saúde, além de incomodar moradores, que convivem com o mau cheiro gerado RENATA FONSECA n CÍNTHIA RAMALHO, 4º PERÍODO Traçar uma radiografia das linhas de ônibus que atendem a Região Noroeste é uma tarefa que exige muito trabalho e disposição. Para cumprir o desafio, o MARCO organizou uma equipe composta por oito repórteres e uma fotógrafa que durante dez dias pegaram os ônibus das linhas 5401, 4110, 4111, 9410, 2580 e 21. Eles entrevistaram usuários e funcionários, fizeram a rota dos ônibus e, assim, levantaram os principais problemas que incomodam as pessoas que dependem do transporte público. A reportagem contou, ainda, com o depoimento de uma técnica de transporte e trânsito da BHTrans, também aluna de jornalismo da PUC Minas, sobre o trabalho dos profissionais encarregados de conferir o cumprimento de normas que buscam assegurar conforto e segurança para os usuários. Fazer xixi na rua, além de anti-higiênico, causa transtornos para a comunidade e o ato é passível de punição prevista no código civil. É o que mostra reportagem desta edição que foi atrás de lugares na cidade que são utilizados como ‘banheiro público’. Os repórteres ouviram as queixas de moradores e pessoas que trabalham que são obrigadas a convi ver com o cheiro desagradável da urina. Além disso, descobriram que a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) é obrigada a enviar dois caminhões pipa à Avenida Olegário Maciel, no centro da cidade, para lavar a urina. É um registro do que a falta de educação e de gentileza pode resultar. As mulheres chegam com tudo nesta edição e ganham destaque em três reportagens. Uma delas, sobre doulas, aborda o projeto de mesmo nome que tem como objetivo principal ajudar grávidas na hora do parto. Mulheres homônimas dos bairros em que moram é o assunto do texto que conta as histórias de Aparecidas, Julianas e outras mulheres que, por causa de seus nomes, fazem parte do mapa de Belo Horizonte. A compra e venda de cabelo nos salões da cidade é o terceiro tema que focaliza uma atitude prioritariamente feminina. A música ganha destaque nesta edição por meio da entrevista com o compositor mineiro Fernando Brant. Fernando, que participou junto com Milton Nascimento e os irmãos Lô, Márcio e Marilton Borges, entre outros artistas, do movimento Clube da Esquina, que marcou o cenário cultural mineiro na década de 60, é hoje o presidente da União Brasileira dos Compositores (UBC). Em entrevista, ele fala com exclusividade sobre seu trabalho como compositor, da parceria com Milton e, principalmente, de seu trabalho à frente da entidade em defesa dos direitos dos autores brasileiros. É assim, por intermédio do desempenho dos estudantes e tendo sempre a preocupação em abordar assuntos de interesse da comunidade e que va lorizem os personagens que ajudam a contar essas histórias, que o Jornal Marco vem contribuindo para o exercício pleno do bom jornalismo. EXPEDIENTE expedienteexpedienteexpedienteexpedienteexpedienteexpediente jornal marco Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas www.pucminas.br . e-mail: [email protected] Rua Dom José Gaspar, 500 . CEP 30.535-610 Bairro Coração Eucarístico Belo Horizonte Minas Gerais Tel: (31) 3319-4920 Sucursal PucMinas São Gabriel: Rua Walter Ianni, 255 CEP 31.980-110 Bairro São Gabriel Belo Horizonte MG Tel: (31) 3439-5286 Diretora da Faculdade de Comunicação e Artes: Profª. Glória Gomide Chefe de Departamento: Profª. Maria Libia Araújo Barbosa Coordenador do Curso de Jornalismo: Prof. José Milton Santos Coordenadora do Curso de Comunicação / São Gabriel: Profª. Daniela Serra Editor: Prof. Fernando Lacerda Subeditor: Profa. Maria Libia Araújo Barbosa Editor Gráfico: Prof. José Maria de Morais Monitores de Jornalismo: Adriana Benevenuto, Bruna Fonseca, Carlos Eduardo Alvim, Cínthia Ramalho, Laura de Las Casas, Pedro Vasconcelos e Samara Nogueira Monitores de Fotografia: Renata Fonseca e Ricardo Mallaco Monitora de Diagramação: Lila Gaudêncio Fotolito e Impressão: Fumarc . Tiragem: 12.000 exemplares Vilma Tamborini, dona da banca de jornal que funciona ao lado do Shopping Rosa, sofre com o mau cheiro da urina e ainda tem que limpar o local sempre n BRUNA CARMONA, CÍNTHIA RAMALHO, 4º PERÍODO Quando chega para trabalhar todos os dias pela manhã, Vilma Tamborini, dona de uma banca de jornal localizada à Avenida 31 de Março, no Bairro Coração Eucarístico, Região Noroeste de Belo Horizonte, tem de conviver com o forte cheiro de urina que fica ao redor de seu estabelecimento. "Eu não aguento ficar aqui. Meu estômago até embrulha de tão forte que é o cheiro", reclama. Muitas pessoas que passam pela avenida e, principalmente os frequentadores de bares localizados em uma galeria conhecida como Shopping Rosa, utilizam o espaço existente entre a banca de Vilma e o prédio da esquina como banheiro, o que torna o cheiro no local muito desagradável. Com ponto no lugar há 14 anos, Vilma afirma que há dois essa situação vem se repetindo, principalmente, às sextas-feiras, quando o movimento nos bares é grande e a quantidade de banheiros para atender a todos é insuficiente. A jornalista Bruna Santos também passa pelo mesmo inconveniente, já que a fachada do prédio em que mora, próximo à banca de Vilma, também serve de banheiro para os frequentadores dos bares. A jornalista afirma que várias vezes, ao chegar à janela de seu apartamento, já se deparou com homens urinando em frente ao prédio. "Não sou obrigada a presenciar momentos tão íntimos de uma pessoa, além disso, o cheiro é insuportável", contesta. O estudante de Engenharia de Energia Alan Almeida Costa vive os dois lados do problema. Ele mora no mesmo prédio de Bruna e também reclama do mau cheiro gerado pela urina, porém, como freqüentador do Shopping Rosa, reconhece a quantidade insuficiente de banheiros nos bares. Assim como Alan, a estudante de Engenharia de Energia Claudia Mafra Magalhães afirma que nas sextas-feiras a fila para utilizar os banheiros fica muito grande e, por conta disso, muitos frequentadores preferem urinar na rua. "Além dos dois banheiros dos bares, tem um banheiro no Rosa que o pessoal também costuma usar, mas lá tem que subir escada. Por facilidade, o pes- soal faz xixi na rua mesmo", conta. Wemerson Neves é responsável por um dos bares localizados no Shopping Rosa e diz que às sextasfeiras, os banheiros do estabelecimento não comportam a quantidade de pessoas. Segundo ele, o uso dos banheiros do Shopping é restrito aos clientes das lojas e durante a noite, eles permanecem fechados. Não são apenas os moradores da Rua 31 de Março que sofrem com os problemas gerados por quem faz xixi em locais públicos. Em vários pontos de Belo Horizonte, como na Praça da Estação, Avenida Olegário Maciel e em locais próximos a boates e casas de show a situação se repete, afirma a assessora de imprensa da Secretaria de Limpeza Urbana (SLU), Vivian Guerra. O ponto da Avenida Olegário Maciel, entre as ruas Caetés e Paulo Frontin, é apontado pela SLU como o local público mais utilizado pelas pessoas que urinam na rua. O lugar possui um fluxo intenso de pessoas durante todo o dia, o que é apontado pela chefe do Departamento de Planejamento da SLU, Izabel Andrade, como um dos motivos do alto índice de urina nessa local. "Os ambientes urbanos estão cada vez mais populosos e com as multidões surgem problemas com a higiene e com a eliminação dos resíduos sólidos e líquidos humanos", ressalta. Para o funcionário de um hotel localizado à Avenida Olegário Maciel, que não quis se identificar, o cheiro da urina é muito forte e é motivo de várias reclamações entre as pessoas que passam e trabalham no local. O ato de urinar em locais públicos pode ocasionar problemas mais graves do que o incômodo gerado pelo mau cheiro, como a proliferação de doenças em decorrência da falta de saneamento. "Do ponto de vista sanitário e ambiental, essa prática não é higiênica e pode propiciar ambientes cada vez mais degradados", alerta Izabel. Como forma de amenizar o problema e medida de limpeza dos locais afetados, a SLU envia um caminhão pipa duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, para lavar o ponto da Avenida Olegário Maciel. Esse serviço de limpeza não é feito à Rua 31 de Março e os moradores acabam tendo que fazê-lo. "Eu é que tenho que lavar, mas o problema é que não tenho água aqui na banca", conta Vilma. Segundo Izabel Andrade, os problemas com a urina são maiores em áreas habitadas por moradores de rua, mas ela também alerta que em períodos de festas populares, como o carnaval, o problema aumenta por causa do grande número de pessoas nas ruas. LEGISLAÇÃO A lei não é omissa para as pessoas que urinam em locais públicos. Muitos Códigos de Posturas proíbem tal ato. Porém, de acordo com a advogada Maria Fernanda Pires de Carvalho, o Código de Posturas do Município de Belo Horizonte aprovado pela Lei 9.845/2010, não proíbe o ato de urinar na rua. "Não significa que o cidadão possa fazer o uso da rua para isso", alerta. Pelo código de posturas, urinar em locais públicos é classificado como ato obsceno, tratado pelo art. 233 do Código Penal. Dessa forma, a pessoa que for pega urinando nas ruas poderá ser encaminhada à delegacia e ser autuada por ato obsceno, sendo que a pena varia de três meses a um ano ou pagamento de multa estipulada pela Justiça. "Mas isso é muito mais uma questão de pudor e educação do que de qualquer outra", acredita a advogada. Os moradores da Rua 31 de Março reclamam que já alertaram as autoridades e nada foi feito. "Já procurei a polícia, mas eles não fizeram nada. O policial disse que era para eu xingar o pessoal porque isso não era papel dele", pontua Vilma. O inspetor da 4ª Delegacia de Polícia de Belo Horizonte, Roberto Robini informou que nesses casos, os moradores devem procurar a Prefeitura ou algum órgão responsá vel por saúde e meio ambiente. Mesmo assim, Robini disse que o policial que atendeu a moradora estava equivocado. Enquanto as providências não são tomadas, os próprios moradores tentam resolver a situação. "Já peguei a vassoura para bater neles e nas sextas-feiras eu costumo jogar creolina ao redor da banca para ver se espanta o pessoal, mas mesmo assim eles ainda fazem xixi", lamenta Vilma. Comunidade Outubro • 2010 3 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas ASSALTOS NA PASSARELA DO METRÔ RENATA FONSECA Moradores de rua, assaltantes e usuários de drogas são temidos na passarela do Metrô da Gameleira, na Região Noroeste de BH. Inspetor acredita que problema é social n PEDRO VASCONCELOS, LAURA DE LAS CASAS, 3º PERÍODO Dados do Portal Público da BHTrans revelam que todos os dias cerca de oito mil passageiros circulam pela estação de Metrô da Gameleira, na Região Noroeste de Belo Horizonte. Uma das grandes preocupações destes usuários é a segurança. A única via de acesso da estação é uma passarela que serve de refúgio para moradores de rua, assaltantes e usuários de drogas. "Eles ficam escondidos em um canteiro ali embaixo da passarela ao lado do ponto de táxi, usando drogas à vontade e assaltando as pessoas", conta a comerciante Lucinéia de Almeida. "Tenho a minha loja há 12 anos e só me assaltaram uma vez, o problema é lá fora, com as pessoas mesmo. Volta e meia tem um pivete correndo com uma bolsa na mão, meu marido às vezes tenta ajudar, tenta pegar o pivete, todo mundo sabe que eles ficam escondidos debaixo da passarela", assinala Lucinéia. Segundo o inspetor Roberto Robini, da 4ª Delegacia Distrital da Polícia Civil de Minas Gerais, o problema não é novo e as ocorrências de assaltos na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek próxima à Estação da Gameleira são recorrentes. "Essa região tem tudo quanto é tipo de crime. Assalto tem muito ali em baixo, mas não temos o registro exato", afirma o policial. Robini conta que o local é muito visado pelos criminosos, pois há um fluxo enorme de estudantes e trabalhadores, principalmente no período noturno. Segundo ele, inúmeras operações em parceria com a Polícia Militar já foram realizadas no local para retirar as pessoas dali. "Muitas vezes agimos junto com a PM e tiramos eles dali, mas eles voltam no mesmo dia, não adianta. Levamos para a delegacia e averiguamos se há alguma denúncia no nome do indivíduo, mas é só isso que podemos fazer", afirma. VÍTIMAS Julio Ribeiro Novaes, 24 anos é estudante da PUC Minas e pega ônibus todos os dias da semana no ponto ao lado do canteiro da Avenida Presidente Juscelino Kubitschek. "Eu pego ônibus aqui há três anos, já fui assaltado uma O grande número de assaltos que ocorrem sob a passarela da Estação do Metrô da Gameleira, na Região Noroeste de BH, ameaça quem passa pelo local vez, roubaram meu celular e correram para o canteiro. Estavam em bando, não pude fazer nada", explica o estudante. Novaes afirma que vê com frequência policiais rondando a região, mas para ele, esta é uma medida ineficaz. "A polícia sempre passa por aqui, mas não adianta muito, eles sempre voltam", afirma. Ao lado do ponto de ônibus, ainda nas proximidades do canteiro existe um ponto de táxi que sofre há alguns anos com este mesmo problema de assaltos e intimidações. João Carlos Leal está no ponto há cinco anos e afirma que convive com este problema desde que começou a trabalhar no local. "Eles ameaçam, falam que vão quebrar o carro, jogam pedras. A policia vem com frequência aqui para tirar as coisas deles, mas não adianta, eles voltam. Ficam usando todo o tipo de drogas, isso intimida a nossa clientela", conta o taxista. O único efetivo de segurança fixo do metrô é garantido por uma empresa privada e restrito à parte interna. O vigilante Maurício Silva, responsável pela segurança dentro da estação, afirma nunca ter tido problemas com assaltantes dentro do metrô, mas revela ter presenciado diversos assaltos nas proximidades da pas- sarela. "Nunca presenciei nenhum assalto dentro do metrô, aqui dentro eles respeitam, só entram para pedir esmolas", diz Silva. Para o inspetor Roberto Robini, o problema é mais social do que policial. "A gente apreende as coisas deles, a Prefeitura leva para o abrigo, mas eles voltam para o local, vira um ciclo e é difícil apontar uma solução concreta", afirma. Violência na região do Coreu assusta moradores RICARDO MALLACO O alto índice de assaltos e violência no Coreu fez o policiamento ser reforçado em todo o bairro n LUISA FARIA PEREIRA, 2º PERÍODO Localizada no Bairro Coração Eucarístico, na Região Noroeste de Belo Horizonte, a Padaria Pão Fofo foi assaltada 13 vezes em um intervalo de apenas quatro meses neste ano. Cansada da situação, depois do último assalto a proprietária Sandra Patrocínio Santana Bonisson, 49 anos, também moradora do local, recorreu à imprensa e diz que a partir disso, houve um aumento na vigilância feita pela Polícia Militar. "Meu estabelecimento foi assaltado 13 vezes em quatro meses, em horários diferentes e pelo mesmo cara. Ele chegava aparentemente com arma. Todas as vezes chamamos a polícia e temos o boletim de ocorrência de todas, mas não aconteceu nada. No último assalto, eu acionei a Rádio Itatiaia, Rede Globo, todas as mídias possíveis. Foi aí que a polícia aumentou o policiamento no bairro", contou Sandra Bonisson. Segundo ela, os assaltos aconteceram entre junho e agosto deste ano. A sensação de violência preocupa moradores e pessoas que passam diariamente pelo Coração Eucarístico, bairro que abriga o maior campus da PUC Minas. Muitas pessoas têm relatos de furtos e roubos ali acontecidos, o que geram mudanças de hábitos. "Estou tomando mais medidas de precaução. Não levo celular para a escola", conta Pedro Magleau, 13 anos, aluno do 8º ano do Colégio Santa Maria, no Coração Eucarístico, sobre as medidas de segurança que toma para evitar novos assaltos relâmpagos no bairro. Ele e o amigo de turma, Marcelo Henrique Silva Amorim, 13 anos, foram surpreendidos por dois meninos à Rua Dom José Gaspar, por volta de 12h. Magleau teve seu celular roubado. "A gente ligou para a polícia, mas não recuperamos o celular", relatou Marcelo Amorim. "Como a mídia hoje é muito efetiva, a pessoa tráz aquilo como se fosse para ela. A sensação de insegurança é a pessoa sentir medo mesmo estando segura", observa o comandante da 9ª Companhia do 34º Batalhão da Polícia Militar, localizada no Bairro Padre Eustáquio, André Leão. Segundo ele, os índices de criminalidade na região estão decaindo, mas as notícias veiculadas pela imprensa criam a sensação de insegurança. André Leão, no entanto, reconhece que existem casos e alerta os estudantes da PUC Minas que precisam estacionar o carro fora da universidade e não se preocupam muito com a segurança do veículo e seus pertences pessoais. "Como o estacionamento da faculdade não comporta todos os veículos dos estudantes, eles estacionam o carro em lugares propícios a furtos, com pouca iluminação, em lugares íngremes, distantes da universidade, e deixam seus bens no veículo sem alarme ou algum sistema de segurança", afirma o oficial. "Deixo o carro na rua mesmo, acabo fazendo isso para não ter que pagar estacionamento e por ele ficar longe das entradas da PUC. Sei que é mais arriscado, mas procuro estacionar onde haja vários carros de alunos, acredito que assim a possibilidade de ser alvo de ladrões é um pouco menor", comenta Umberto Abreu Noce, 23 anos, estudante do 4º período de direito da PUC Minas, referindo-se à necessidade de estacionar o carro nas mediações do campus universitário. Noce concorda em parte com a fala do comandante André Leão, que reclama do sensacionalismo de parte da imprensa. "Acredito que esses jornais exercem uma função dúbia. Por um lado é interessante que eles existam para que a realidade violenta do Brasil não seja 'escondida' e 'empurrada para debaixo do tapete'. Porém, há também um ponto negativo nestes jornais que é devido ao fato deles praticamente só noticiarem casos de violência extrema. Acabam gerando uma descrença no cidadão quanto ao país e suas instituições", analisa o estudante. REDE DE VIZINHOS Para o professor de sociologia do curso de ciências sociais e coordenador do Centro de Pesquisa e Segurança Pública (CEPES) da PUC Minas, Luís Flávio Sapori, 45 anos, a organização dos moradores em torno de projetos existentes na área de segurança pública é importante. "A Rede de Vizinhos Protegidos é um bom projeto porque envolve uma cooperação direta, voluntária, até cidadã da sociedade civil com a segurança pública. Boa parte da prevenção do crime depende do nosso comportamento como cidadão, na capacidade de ser mais cuidadoso, de estar atento às atitudes suspeitas e aos vizinhos", avalia o especialista, sobre o projeto de segurança criado pela Polícia Militar e implantado em uma série de bairros de Belo Horizonte, incluindo o Coração Eucarístico. Segundo o professor, os moradores do bairro deveriam se organizar em conselhos comunitários e denunciar crimes pelo disque denúncia. "Os moradores se organizam para atuar junto às policias Militar e Civil para discutir os principais problemas, buscar soluções conjuntas, cobrar resultados para pressionar, mas também para definir ações em parceria. E o cidadão pode colaborar dando informações de pessoas suspeitas a partir do disque denúncia, telefone 181, que é uma maneira direta e individual do cidadão participar dando informações à polícia de crimes", diz Sapori. Moradores e trabalhadores da região dizem não perceberem os efeitos dos projetos "Rede de Vizinhos Protegidos" e "De Olho na Rua", justamente por não haver interação e confiabilidade dos vizinhos para intimidar a ação dos bandidos. "Eu nunca fui convidada para participar do projeto. Aqui, as casas não têm placas avisando do Projeto", reclama a aposentada Eny Albergaria, moradora do bairro Castelo, ao comparar a sinalização de placas no seu bairro e no Coração Eucarístico, onde trabalha. Ela acredita que deveria haver policiamento de bicicleta, vigia para intimidar os criminosos e mais participação da população na "Rede de Vizinhos Protegidos". Contudo, ela não se queixa da agilidade da Polícia Militar. Ela conta que alunos do Colégio Santa Maria, no Coração Eucarístico, tiveram R$ 20 roubados por dois menores no horário de almoço, no primeiro semestre deste ano. "Chamei a polícia e ela não demorou a aparecer", revela a aposentada. 4 Comunidade jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 ÔNIBUS SÃO ALVO DE RECLAMAÇÃO n ADRIANA BENEVENUTO, BRUNA FONSECA, CARLOS EDUARDO ALVIM, CÍNTHIA RAMALHO, LILA GAUDÊNCIO, PEDRO VASCONCELOS, SAMARA NOGUEIRA, As linhas de transporte coletivo da Região Noroeste de Belo Horizonte enfrentam problemas diariamente durante as suas viagens. Veículos lotados, poucos carros em horários de maior movimento, motoristas que não param nos pontos e o trânsito da capital incomodam quem utiliza este serviço RENATA FONSECA 3º, 4º E 6º PERÍODOS As linhas de ônibus que atendem a Região Noroeste de Belo Horizonte, especialmente a Região da PUC Minas, no Bairro Coração Eucarístico, são motivo de reclamação dos usuários. O transporte coletivo enfrenta problemas como atrasos no horário, lotação, motoristas que passam direto pelos pontos, a baixa quantidade de veículos nos horários de pico, além do trânsito intenso das ruas de Belo Horizonte que colabora para a ocorrência de atrasos. Os usuários das linhas 4110, 4111, 9410, 5401, o suplementar 21 e o metropolitano 2580, enfrentam essas dificuldades no dia a dia. A estudante de arquitetura Bárbara Silveira, de 19 anos, usuária da linha 4111, reclama dos atrasos. "É muito ruim quando eu fico mais de 20 minutos esperando o ônibus, tem dia que tento ir mais cedo para a faculdade, mas não consigo, porque o ônibus demora 40 minutos para chegar, então nem adianta eu acordar mais cedo", diz. A estudante de relações internacionais Julia Rodrigues, 18 anos, diz não se importar com a demora, mas afirma que o atraso é comum na linha. "Acho que ele costuma demorar um pouco, tanto o 4111 quanto o 4110, mas não tem outro jeito", afirma. Nos horários de pico a reclamação gira em torno da lotação dos veículos. "O único ruim é que nesses horários eles vem bem cheios, mas a gente entende que é por causa do horário", conta Bárbara. Os usuários acreditam que a frota é insuficiente para atender a linha nos horários de maior movimento. "Pela manhã, antes de 7h, quando chega à Praça Sete o ônibus não anda por estar muito cheio. Ele passa de cinco em cinco minutos e mesmo assim fica cheio. A frota é insuficiente", afirma a usuária que se identificou como Raquel Cristina, 28 anos. Além do 4111, Raquel utiliza a linha 5401 para ir ao trabalho nos horários de maior movimento, entre 17h30 e 18h. Ela percebe, porém, a diferença entre as duas linhas. “O 5401 passa com muita frequência e costuma não atrasar muito não”, comenta. O estudante Marlon Marcos Marins, de 22 anos, concorda com Raquel, mas observa que em véspera de final de semana e em dias de chuva a linha fica mais cheia. “Durante a semana é normal. O problema é na sexta feira e em dias de chuva, aí enche muito. A linha não costuma atrasar muito, passa de 15 em 15 minutos. Não vou dizer que o transporte é bom porque não é. É regular”, constata. “Em qualquer horário que eu pego o ônibus ele está cheio, porque geralmente são nos horários de pico”, aponta o estudante de 17 anos, Heitor Fernandes Costa de Oliveira. Outra reclamação recorrente entre os usuários é o trânsito que as linhas enfrentam em seu itinerário. "O trânsito tudo agarra, isso aqui de manhã, nossa!", expressa o estudante de direito Kareon Lemes, de 19 anos. "Por Durante as viagens, o excesso de lotação de passageiros, é uma das reclamações e um dos problemas que os frequentadores das linhas da Região Noroeste enfrentam diariamente exemplo, hoje eu peguei ele mais ou menos 18h40, ou 19h, só sei que eu gastei 20 minutos naquele pedaço da Amazonas, eu gastei 20 minutos parado ali", explica. A advogada Sandra Maria Lovifi, de 49 anos, utiliza o 5401 para voltar do trabalho, no sentido centro-bairro (Dom Cabral). "Para voltar já é complicado, porque é horário de pico e tem os estudantes da PUC, que pegam o ônibus no mesmo ponto que eu. Sempre ele engarrafa no centro até a universidade. Normalmente o ônibus já vem cheio, como eu pego na Praça Sete, ele enche bastante, às vezes eu venho em pé e ele para em quase todos os pontos da Amazonas", conta. Na linha 4110 os usuários reclamam que muitas vezes os motoristas passam direto pelos [ ] “TEM MOTORISTA QUE NÃO PARA NO PONTO NO HORÁRIO EM QUE VOCÊ PRECISA” pontos ignorando os sinais dados pelos passageiros. "Às vezes o ônibus para no ponto, às vezes ele não para. Na maioria das vezes ele não para", diz o dançarino Djalma Ferreira Júnior, de 28 anos. "Tem motorista que não para no ponto no horário em que você precisa pegar o ônibus, é questão de deixar o passageiro no ponto mesmo. Passa liso", diz a estudante de direito Helena Tavares, de 28 anos. Ela passa três horas do dia dentro do ônibus, já que o utiliza para ir do Bairro Padre Eustáquio até o shopping Alta Vila, situado no Bairro Vila da Serra, em Nova Lima, ida e volta. Cada viagem tem aproximadamente uma hora e meia. "Esse é um outro transtorno que a gente enfrenta, que é o trânsi- to. O tempo que eu perco dentro do ônibus, eu poderia estar fazendo um estágio, ou estar trabalhando. Às vezes a gente demora 15, 20 minutos num horário, que se não tivesse tanto trânsito poderia ser feito em menos tempo", diz a estudante. Além disso, os problemas decorrentes das outras linhas também são comentados, como atrasos, trânsito e lotações. O estudante de engenharia química, Renan Orgando, de 22 anos, diz que os atrasos da linha decorrem do fato do ônibus percorrer uma distância muito grande entre um ponto final e outro, já que o 4110 cruza regiões extremas, região noroeste e sul. "A questão é mesmo que esse ônibus aqui percorre lugares muito distantes, se você perde, é complicado esperar outro", conta. Segundo ele, as quintas e sextasfeiras são os piores dias para pegar o ônibus, tanto no horário do início da manhã quanto à noite, por causa da lotação. "Na volta, da Zona Sul para a Noroeste, é muita gente que pega o ônibus, pelo menos eles descem ali na Rua São Paulo, que tem muita gente que pega outro transporte, eles descem na São Paulo e liberam o ônibus para a gente seguir o resto da Rua Padre Eustáquio. Fora isso, é muito complicado até esse trecho, é gente demais. É em pé, e só entrando mais gente", relata. A estudante de direito Camille Rodrigues, de 28 anos, diz também que a noite é o horário em que o 4110 fica mais cheio, e que há atraso na linha. O assistente administrativo Júlio Ramon da Silva Ribeiro, de 27 anos, percebe que há uma inconsistência nos horários. "Nem sempre você pode contar com o horário que você vê na placa do ônibus que vai condizer que o real. Sempre está muito cheio também", diz. Atrasos não são comuns na linha do Suplementar 21 Os ônibus da linha 21 não foram alvos de reclamação no que diz respeito a atrasos. Segundo o motorista da linha, Mateus Costa Viana, há um ano na função, os suplementares são diferentes das outras linhas que rodam no bairro. Cada suplementar possui um dono, na maioria das vezes o próprio motorista. Ainda assim, o microônibus amarelo responde à mesma regulamentação das grandes empresas. “A fiscalização é feita da mesma maneira que nos ônibus azuis, o fiscal chega de surpresa”, explica. "Se a gente sai do ponto final atrasado três minutos, por exemplo, a BHTrans considera como 'viagem morta', já que a viagem não foi realizada no horário. Aí temos que justificar, dizer o motivo do atraso e às vezes até pagar uma multa", conta Viana. Helenice Rodrigues Ramos, agente de bordo há dez anos, conta que trabalha no 21 desde a fundação da linha, logo após a regulamentação pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), quando as antigas peruas passaram a ser os atuais suplementares. Segundo Helenice, o início do semestre letivo é o período em que os ônibus ficam mais cheios, “antes dos alunos novatos arrumarem as vans particulares". Viana conta que nos horários de pico, a diferença entre um carro e outro é de cinco a dez minutos. "Mesmo assim, a gente só passa direto do ponto quando vê que tem outro 21 atrás. Não pode deixar passageiro para trás, mesmo quando está lotado. Sempre cabe mais um", conta. "Quando está lotado, a gente para mesmo assim. Aí o passageiro vê a situação e decide se quer ou não entrar", acrescenta. De acordo com Helenice, os 12 suplementares seguem uma escala de horários para sair, dificilmente os 12 veículos rodam juntos, exceto nos horários de pico. Entretanto, atualmente os ônibus demoram mais para ir de um ponto final a outro, por causa do trânsito. Assim como há lotação nas linhas que atendem a região da PUC no Bairro Coração Eucarístico, o suplementar 21 também apresenta esse problema. A estudante de direito Karina Vieira Rosseti Moreira acredita que o suplementar fica cheio devido ao horário de pico, no final da tarde. Outro horário em que os usuários constatam que há lotação, é no período da manhã. "Ele vem muito cheio, às 7h e lá pelas 17h. O 21 sempre passa rapidinho, só no horário de pico que ele vem cheio", conta a também estudante Ana Esteves. Procurando manter o compromisso dos motoristas para com o horário, eles mesmos criaram um sistema de pontos. "É um regulamento nosso, não necessariamente da Cooperativa dos Suplementares, mas do 21. O carro perde um ponto por minuto de atraso, medido pelo aparelho eletromagnético instalado em cada ônibus que marca o horário, quem perde mais pontos deixa de rodar", explica. "A coisa mais difícil é encontrar motorista mole nessa linha", brinca Viana. Para ele, cada minuto de atraso faz diferença, pois todos os motoristas têm escalas a cumprir. Comunidade Outubro • 2010 5 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas RENATA FONSECA Passageiros aguardam ônibus em ponto cheio, na Região Noroeste de Belo Horizonte, próximo a Estação de Metrô da Gameleira. Funcionários anônimos da BHTrans fiscalizam para minimizar os problemas das linhas de ônibus TRÂNSITO, ATRASOS E LOTAÇÃO Uma série de ações de monitoramento do serviço de transporte coletivo são feitos pela Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), a fim de minimizar os problemas apontados pelos usuários das linhas 4111, 4110, 5401, 9410, suplementar 21 e metropolitano 2580, como os atrasos das linhas e a lotação nos horários de pico. "Temos um sistema de fiscalização eletrônica que permite comparar 100% de todas as viagens realizadas, cerca de 25 mil viagens por dia. Esse sistema compara todas as viagens, os horários realizados com os horários programados. Então a BHTrans tem um regulamento de serviços", afirma o gerente de controle e estudos tarifários da BHTrans, Sérgio Carvalho. O gerente conta ainda que existem regras para a pontualidade das linhas de ônibus, e que fazem parte de uma regulamentação para garantir o cumprimento das viagens. "A BHTrans possui fiscais físicos que são agentes que vão às garagens, vão às estações ou mesmo em campo durante os variados horários, para estarem fiscalizando o cumprimento do serviço, para garantir a qualidade para os usuários", explica. Em relação às reclamações, Sérgio diz que elas são encaminhadas a uma gerência de atendimento ao usuário, e que, ao serem analisadas, podem aumentar a fiscalização no local onde foi identificada a reclamação. Segundo o assessor da BHTrans, Gilvan Marçal, não é disponibilizando mais ônibus nos horários de pico que o problema dos atrasos será resolvido. Embora os ônibus saiam pontualmente para a viagem nos horários determinados, o trânsito da cidade é um dos fatores que atrasam as linhas. Ainda segundo Gilvan, a BHTrans fiscaliza o horário de saída e chegada desses veículos em seus respectivos pontos finais, sendo que não é possível verificar os imprevistos durante os trajetos, o que gera reclamação dos usuários. Os usuários da linha 9410 não reclamam do serviço. Para eles, o problema maior da linha está na lotação, já que os ônibus ficam frequentemente cheios. "Eu pego esse ônibus todos os dias a 7h30, dificilmente da para ir sentado", diz Antônio Roberto Silveira, de 46 anos. A única reclamação que os passageiros fazem da linha, além da lotação, é o trânsito que dificulta o fluxo da rota. "O mais problemático é que 8h o trânsito está muito ruim e am, não reclamaram da situação. O restante da equipe embarcou no suplementar 21, o qual apresentou defeitos na porta traseira, que não fechava completamente. O veículo percorreu grande parte da Avenida Silva Lobo com metade da porta aberta. METROPOLITANA A linha metropolitana 2580, Eldorado - Belo Horizonte, passa pela região da PUC Minas na Avenida Tereza Cristina, mais conhecida como Via Expressa. Da mesma forma que os ônibus azuis, os usuários enfrentam problemas para chegar e voltar dessa região. "O ônibus demora um pouco para passar no ponto, e a estrutura do ônibus está um pouco ruim", conta a estudante de 16 anos, Samã Mayara. "Quando eu pego o ônibus às 6h20 para o primeiro horário de aula, dá para ver que tem mais estudante. O ônibus vai lotado até a PUC”, diz. Quando eu pego para o segundo horário, lá para as 8h, o ônibus fica lotado, mas quando chega no centro esvazia bastante e vai vazio até a universidade", conta o estudante de odontologia Lucas Penido Santiago, de 21 anos. No que diz respeito à estrutura, o motorista da linha 2580, Carlos Cândido, de 45 anos, compara os veículos novos com os antigos. "Os novos dão mais possibilidade para a gente trabalhar, os velhos não. Muitas vezes no carro velho o banco não regula, deixa a gente com dificuldade", relata. Sobre a lotação e os atrasos, Carlos se defende e pede compreensão. "Há uma certa dificuldade em questão de cumprir o horário, porque muita das vezes o trânsito te segura e eles (passageiros) acham que a gente que faz de sacanagem", conta. [ ] "EU PEGO ESSE ÔNIBUS TODOS OS DIAS A 7H30, DIFICILMENTE DÁ PARA IR SENTADO" o tempo de percurso aumenta demais", diz Lucas. Para Antônio Roberto, morador do Bairro Floresta o tempo de viagem aumenta quando há problemas no trânsito. "Quando o ônibus está lotado e o trânsito ruim, eu demoro no mínimo 50 minutos para chegar em casa. Quando não tem trânsito, em dez minutos dá para chegar", aponta. Enquanto a equipe de reportagem estava no ponto de ônibus no Bairro Coração Eucarístico, três carros da linha 9410 passaram num intervalo de cinco minutos. No mesmo ponto, em um intervalo de 20 minutos, passaram dois ônibus da linha 4110. Parte da equipe embarcou no segundo veículo, cuja campainha não funcionava. Os passageiros, apesar de terem que avisar a trocadora com antecedência qual o ponto onde desceri- Técnica de Transporte fala sobre trabalho de fiscalização n JÉSSICA DE OLIVEIRA, 1º PERÍODO O sol acaba de se esconder. Estou na minha quarta viagem do dia, em mais uma jornada de trabalho. Congestionamentos, semáforos apagados ou queimados, buzinas, sirenes, luzes, velocidade, acidentes, agitação no trânsito. Ocorrências comuns à rotina de um técnico de transporte e trânsito, profissão que exerço há pouco mais de um ano. Embarco no 4110, com um olhar clínico na parte dianteira do ônibus. Adesivos, extintor de incêndio, jornal institucional, cartazes, tudo certo. Uma senhora à minha frente quer sentar, mas não consegue, pois jovens estão dormindo no lugar que era dela por direito. Fico atenta. Rodo a roleta após passar o cartão BHBUS, especial para funcionários. O motorista aproveita a fluidez do trânsito e afunda o pé no acelerador. Me seguro firme. Ônibus cheio. Alunos indo a aula e devem pensar que faço o m e s m o . Descaracterizada, com uma mochila nas costas, até que engano bem. De repente, acontece algo que não sei exatamente o que é: o motorista no impulso pisa no freio com muita vontade. Resultado: as pessoas quase "voam" dentro do veículo. Consigo pegar meu papel e caneta, anoto, onde embarquei, em qual ônibus e, o principal, aquela freada brusca. Assim que chego à gerência na qual trabalho, transfiro todas as informações que anotei para os formulários específicos, pois fica mais fácil identificar as infrações. Fazemos isso com o intuito de tentar melhorar a qualidade do transporte da capital mineira. Ao pensar que essa melhoria pode ser implementada a partir do meu trabalho, me dou conta do tamanho da minha responsabilidade. Faço parte de uma equipe de 15 técnicos de transportes e trânsito da BHTrans. Atuamos especialmente com o transporte coletivo, exceto suplementar. Somos três, técnicos responsáveis pelas linhas das regionais Pampulha e Noroeste. Nesta última se situa a PUC, universidade onde estudo jornalismo. Coincidência ou não, a pauta - "transporte coletivo" -, foi anunciada pelos colegas do MARCO na sala de aula. Me identifiquei com o tema. Nosso serviço é bem variado. Ficamos a maior parte do tempo incógnitos (descaracterizados), disfarçados de usuários comuns. Assim, motoristas e agentes de bordo agem com mais espontaneidade, sem procurar omitir possíveis erros. Mas também trabalhamos uniformizados, conforme os agentes de trânsito, em situações que necessitamos ser identificados, de imediato, pelos responsáveis pelas linhas dos transportes coletivos. Geralmente acontece quando precisamos obter informações de cunho profissional que não dizem respeito aos usuários, como o nome do motorista que fez a viagem em um determinado horário. Isso se enquadra em um outro tipo de fiscalização que fazemos. A atividade “viagem a bordo”, a qual descrevi há pouco, caracteriza-se por embarcarmos nos veículos em operação. Seguimos uma escala mensal, com o objetivo de verificarmos se os veículos estão de acordo com o Regulamento dos Serviços de Transporte Público Coletivo e Convencional de Passageiros por Ônibus do Município de Belo Horizonte. Esse documento reúne a padronização que as empresas dos transportes coletivos devem seguir, como, por exemplo, leiaute interno e externo; se os motoristas estão dirigindo de forma a garantir segurança aos usuários; se o agente de bordo tem troco e se sabe operar os elevadores dos veículos; se as lixeiras estão em bom estado e na quantidade certa; se o agente de bordo possui os cartões BHBUS Retornáveis; se a roleta, catraca e aparelho de leitura do BHBUS estão em boas condições. Também descaracterizados, realizamos a atividade chamada "nível de conforto". Nela, anoto os números de ordem dos veículos, o horário e a quantidade de passageiros da linha. Tudo isso para checar se a quantidade de carros e os horários estão ou não atendendo a demanda dos passageiros. Essa pesquisa é feita no horário de pico e no horário de fora pico. Para cada um desses momentos há uma forma correta de se calcular se os veículos estão andando super lotados ou vazios. Já com uniforme, fazemos outras atividades. Mas isso é uma outra história, que ficará para um próximo texto. 6 Campus jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 PROJETO RECICLARTE EXPÕE NA PUC n LEANDRO HORTA, 6º PERÍODO Reutilizando peças de ferro-velho e sucata para criar representações realistas e em grandes proporções, os escultores Alisson Brito e Matheus Romualdo expõem a arte que vem do lixo no Museu da PUC FOTOS: LEANDRO HORTA O Museu de Ciências Naturais da PUC Minas recebe o Projeto Reciclarte com obras dos artistas plásticos Alisson Brito e Matheus Romualdo. Os artistas chamam a atenção para as relações entre o meio ambiente e os materiais que são descartados diariamente nos lixos e contribuem para o aquecimento global. As obras foram produzidas com pedaços de carros, motos, caminhões doados por oficinas e pessoas. Segundo Matheus Romualdo, a confecção das peças é feita com base em fotografias espalhadas pelo chão da oficina para que consiga agregar todos os detalhes da espécie animal escolhida. "Na série artrópodes houve uma grande preocupação com o nível de naturalismo das peças, nos preocupamos em tentar deixar o máximo parecido com os artrópodes reais justamente para criar um impacto maior, tanto pela inversão das proporções com os insetos gigantes quanto pelo contraste natureza versos máquinas", explica. Ao todo, são seis peças espalhadas pelo jardim do Museu de Ciências Naturais PUC Minas. Os artistas alegam que a ideia de criar obras de arte por intermédio de sucatas surgiu a fim de chamar a atenção das pessoas para a necessidade de reciclar e diminuir o consumo e o impacto ambiental. O projeto deu tão certo que as obras já foram expostas em diversos locais, como Ouro Preto, Piratininga, Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, Centro de Referência em Resíduos e o Museu de História Natural da UFMG. Alisson Brito afirma que sua inspiração para a arte começou em uma visita a exposição de Salvador Dali, no Museu de Arte da Pampulha. "Fiquei com aquelas esculturas na cabeça, era muita informação, era algo diferente de tudo o que eu já tinha visto ou pensado. Na época eu era serralheiro e passei a imaginar como seria utilizar todo aquele maquinário com o qual eu trabalhava para dar a vida a algo que só existia na minha imaginação", lembra. Matheus Romualdo conta que sua inspiração vem do próprio cotidiano. "As pequenas coisas estão escondidas pela máscara da rotina, carregam valores e abrem espaço para contemplações e transformações", afirma. As pessoas interessadas em conferir as exposições do Museu de Ciências Naturais PUC Minas, o horário de funcionamento é o seguinte: as terças, quartas, sextas e sábados, entre 8h30 e 17h e às quintas-feiras de 13h às 21h. A entrada custa R$4 para visitantes e alunos da PUC não pagam. Outras informações podem ser obtidas pelos telefones (31) 33194520 e (31) 3319-4983 ou pelo site www.pucminas.br/museu. A série de esculturas denominada “Artrópodes” foi feita pelos artistas plásticos com a preocupação em manter o nível de naturalismo das peças Cadeiras ergonômicas facilitam trabalho de intérpretes RICARDO MALLACO n CARLOS EDUARDO ALVIM, 3º PERÍODO A intérprete Soraia usa a cadeira ergonômica para traduzir a aula aos alunos deficientes auditivos Os intérpretes de libras da PUC Minas ganharam uma nova ferramenta de trabalho. Desde agosto, cadeiras ergonômicas estão sendo instaladas nas salas de aula frequentadas por alunos com deficiência auditiva. A iniciativa partiu de um projeto do Núcleo de Apoio a Inclusão (NAI) em parceria com o Curso de Fisioterapia da universidade para melhorar a qualidade e facilitar o trabalho dos intérpretes, já que muitos deles se queixavam de fortes dores musculares recorrentes dos movimentos da interpretação. A análise ergonômica começou em 2007 numa iniciativa pioneira focada nas condições de trabalho dos intérpretes e para reverter o número de licenças médicas que estavam aumentando. "Nunca houve uma discussão sobre a qualidade de trabalho do intérprete antes deste projeto. Eles sempre reclamavam de dores na região do pescoço porque tinham que virar muitas vezes para ver o que o professor estava mostrando no quadro e assim traduzir, para o aluno. Este movimento repetitivo fez com que muitos deles pedissem licença devido às dores. Quando a situação ficou mais gritante, demos início ao projeto de pesquisa", conta a coordenadora na área de surdez do NAI e responsável pela coordenação dos intérpretes, Heliane Alves de Carvalho. Foi através da observação e da pesquisa com os intérpretes que Renata Campos Vasconcelos, professora do curso de Fisioterapia e especialista em ergonomia, percebeu que uma cadeira adaptada diminuiria os incômodos. "Estudamos as demandas e as necessidades dos intérpretes acompanhando o seu trabalho e através desta análise, o uso da cadeira foi recomendado", revela a professora que coordenou o projeto com a participação de cinco alunos da graduação. COMODIDADE A cadeira é estofada, giratória e permite uma acomodação melhor. É inclinada, possui descanso para os braços e pode ter a altura regulada. "O segredo do produto ergonômico é sua flexibilidade. Na cadeira, o intérprete pode ajustar e adequála do seu jeito. Ele se sente mais confortável para realizar o seu trabalho e tem mais mobilidade na interpretação", diz Renata Soraia Vieira trabalha como intérprete de libras há 12 anos. Para ela, a cadeira ergonômica não só ajuda a contornar o problema das dores, mas também contribui para um melhor desempenho na interpretação. "Na cadeira fixa, a questão do movimento era complicada, exigia uma movimentação muito maior do intérprete. Com a cadeira ergonômica temos um conforto maior, pois ajustamos ela à nossa medida. Outra coisa, é que a interpretação não é só as mãos, tem movimentos que utilizamos o corpo e que agora, com a nova cadeira, podem ser vistos com mais facilidade pelo aluno", afirma a intérprete. Os benefícios se estendem também para os alunos surdos que são acompanhados pelos intérpretes, como Tales Douglas Moreira, 30, que é aluno do curso de Letras."A cadeira fixa atrapalhava a visualização da interpretação. Era complicada a mobilidade do intérprete e que muitas das vezes prejudicava nas traduções e na nossa compreensão", conta o estudante, em entrevista, com o auxílio da intérprete Soraia. O uso das cadeiras ergonômicas é exclusividade do intérprete, mas alunos das salas onde elas estão instaladas acabam a utilizando para outros fins. "Tem alunos que ficam brincando de corrida, usam para assentar, abaixam a altura. Outro dia tive que fazer a interpretação em pé porque a cadeira não estava na sala de aula", reclama Soraia. As cadeiras foram instaladas em todos os campi da PUC Minas. Atualmente a universidade atende 31 alunos surdos nos mais variados cursos e conta com 29 intérpretes em seu quadro de funcionários. Cidade Outubro • 2010 7 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas FOTOS: RAQUEL ROSCÉLI BH É RICA EM BAIRROS COM NOME DE MULHER Homônimas dos locais onde residem, moradoras ajudam a contar casos curiosos dessas regiões e apostam em versões que muitas vezes não são reais para explicar as origens dos nomes, sempre com bastante bom humor e descontração n BRUNA ZANETTI, CAMILA LAM, PAULA ABRITTA, RAQUEL ROSCÉLI, 8º PERÍODO Kátia, Jaqueline, Ana Lúcia, Maria Goretti, Aparecida, Suzana, Glória, Lourdes, Maria Helena, Ermerlinda, Letícia, Juliana, Betânia, Marize, Regina. Para uma pessoa que não conhece Belo Horizonte, essa lista soa apenas como uma série de nomes próprios femininos. Quem mora na capital mineira, no entanto, provavelmente já observou que a listagem não é aleatória. Os nomes revelam uma curiosidade: a profusão de bairros com nome de mulher. A devoção materna lhe rendeu o nome: Aparecida. As circunstâncias da vida, o bairro onde mora: Aparecida. Após a morte da mãe, aos nove anos ela foi morar com uma tia que residia naquela região. Desde então, ela é a Aparecida do Bairro Aparecida. "Essas brincadeiras eu escuto direto. Dizem que sou aparecida por causa disso!", brinca Aparecida de Fátima Santos, que há 18 anos cuida da limpeza da igreja do bairro. O trabalho a tornou conhecida no bairro. Quando se pergunta a quem passa na rua por alguma Aparecida que more na redondeza, a resposta é unânime: "Tem a Aparecida lá da Igreja!". Para a faxineira, o bairro é como uma cidade interio- rana de antigamente. "Aqui todo mundo se conhece", diz. Apesar disso, morando por ali há 47 anos, Aparecida viu a região crescer. "Era como uma vila, sem asfalto, sem esgoto. Agora é tudo cimentado, tem bastante ônibus, saneamento. Tudo mudou para melhor", avalia. Mas afinal, porque o bairro tem esse nome? "Você tá achando que é em minha homenagem? É por causa da santa!", diz ela, aos risos. A explicação de Zé Totó é outra. Sua mercearia é o quarto estabelecimento mais antigo de Belo Horizonte. Aos 79 anos, ele ainda atende sua fiel clientela e oferece refrigerante e pé de moleque a quem assenta no seu balcão. Segundo o comerciante, o bairro surgiu em 1928, e o nome Aparecida é uma derivação de Vila Maria Aparecida. "A santa que me desculpe, mas Maria Aparecida é o nome da filha do dono das terras que deram origem ao bairro", diz. À frente da mercearia mais tradicional da região, fundada por seu pai 67 anos atrás, José Alves dos Santos (como não gosta de ser chamado) atendeu gerações de Aparecidas. "Já frequenta a Mercearia Zé Totó a quarta leva de Aparecidas. Veio a avó, a mãe, a filha, e agora a neta", diz Zé Totó, arrancando gargalhadas dos clientes. A variação de produtos é grande. Tem de chinelos de dedo à borrachinha para panela de pressão, de vela à esponja de aço. De trás de seu balcão, munido de seus óculos e um sorriso, ele acompanhou de perto a evolução do bairro. "Era uma roça isso aqui. Mato para todo lado", comenta. Apesar de contente com o desenvolvimento da região, o comerciante diz que as melhorias costumam acontecer muito lentamente, com a lamentação própria de um morador inveterado. Lourdes de Freitas Oliveira já nasceu no bairro que leva seu nome. Eram os chamados "anos dourados", como apelidaram os saudosistas dos anos 50. Nessa época, o bairro de Lourdes concentrava a alta classe da sociedade belo-horizontina. "Era um lugar residencial, familiar, cheio de casas bonitas das famílias tradicionais da cidade", recorda Lourdes. Ela se lembra com saudades do alvoroço causado pelo concurso da Garota do Maiô Dourado, do Minas Tênis Clube. "Era o sonho de todas as meninas. À época do concurso, não se falava de outra coisa nas rodas de jovens", conta. Aos 67 anos, ela não se conforma com a "invasão" de bares e restaurantes que colocaram o bairro de Lourdes como um dos redutos da noite de Belo Horizonte. "Era tudo sossegado, agora a barulhada vai até altas horas da madrugada", reclama. Em relação ao bairro homônimo, Lourdes não hesita: a atribuição se deve à famosa Basílica Nossa Senhora de Lourdes. Para ela, graças ao bairro seu nome não será esquecido. "Lourdes é um nome em extinção. Só tem velha chamada Lourdes! Na minha época, toda família tinha uma Lourdes, agora não", observa. JULIANA Na Região Norte, segundo os habitantes do Bairro Juliana, o nome faz homenagem a uma das primeiras moradoras do local. A promotora de vendas Juliana Moreira de Oliveira lembra exatamente do dia em que se mudou da região do Barreiro para morar no bairro, 23 de julho de 1994. A razão pela qual se lembra da data exata é o fato de que a mudança foi marcada pelas férias escolares. E também porque teve de deixar o lugar em que morou durante 18 anos e até hoje sente saudades de lá. Entretanto, afirma que gosta de morar no bairro, na casa que seu pai comprou com suas duas filhas. Para Juliana, foi coincidência mudar para o bairro que tem o mesmo nome que ela. "Assim, algumas pessoas zoam, Juliana que mora no Bairro Juliana", brinca. E também tem o caso da Juliana Maria de Oliveira, que é proprietária de um depósito de material de construção no bairro Jaqueline, Região Norte igualmente, e lida com vendedores que vão ao seu depósito e brincam com o seu nome e o bairro. Aparecida Santos é só sorriso em relação ao seu nome e ao seu bairro Zé Totó em sua mercearia: história viva do Bairro Aparecida "Todo dia tem algum vendedor, especialmente se for novato que pergunta: você é a Jaqueline do Bairro Juliana? Aí eu respondo, não, sou a Juliana do Bairro Jaqueline", explica. A explicação para tal confusão é que os bairros são próximos, e o depósito é utilizado como ponto de referência para as pessoas que não residem na região. "Até carta endereçada com bairro Juliana em vez de Jaqueline já chegou aqui", completa. Juliana mora no bairro Canaã e abriu há sete anos o Depósito da Juliana, e explica que teve que mudar o nome de fantasia da loja, porque as pessoas pensavam que o nome da loja se referia ao bairro. "Depois de dois anos, mudei o nome para Depósito da Ju, pois quando caminhoneiros passavam aqui pensavam que estavam no Bairro Juliana. E era tanto no começo que eu tive que trocar o nome", explica. Segundo ela, as brincadeiras são diárias, mas não a incomoda, ela acha é graça. A valorização da história dos bairros de BH ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE BELO HORIZONTE Seção Urbana. Esse é o nome da regional que a maioria dos belo-horizontinos chama de Centro, embora envolva outros bairros. Durante mais de 10 anos a equipe do Projeto Histórias de Bairros de Belo Horizonte reuniu informações para contar a origem de cada bairro da capital mineira. A coleção de seis cadernos reúne os que integram as regionais Barreiro, Centro-Sul, Leste, Nordeste, Noroeste e Venda Nova, além do Livro do Professor. Há 11 anos, o assunto mais pesquisado por estudantes de nove a 12 anos no Arquivo Público de Belo Horizonte era a história sobre os bairros. Da constatação que o local não dispunha de material adequado para pesquisa, uma equipe de funcionários começou a levantar dados, contratar estagiários e historiadores, até nascer esse projeto. Segundo a historiadora e uma das coordenadoras do projeto Cíntia Aparecida Arreguy, para uma criança, conhecer a história de onde ela cresceu é importante. "As crianças de sete, oito, nove anos, na hora em que começam a estudar história, iniciam pelo bairro que é a referência mais próxima delas. É porque a gente só dá valor ao que a gente conhece, e o bairro é a nossa primeira referência que a gente tem quando criança é aquele lugar que Obras de Canalização no Bairro de Lourdes em junho de 1963 é a sua escola, que é a padaria, é aquele lugar que você domina logo na infância", explica. Ao longo desses anos o projeto teve diferentes fases, o número de estagiários não era constante e o trabalho foi interrompido em alguns momentos. Em 2007, por meio da Lei Municipal de Incentivo a Cultura, a publicação dos livros pôde ser concretizada. As fontes para pesquisa sobre os 203 bairros foram o Arquivo Público da Prefeitura, museus, bibliotecas e centros culturais da cidade. A partir dos documentos reunidos a equipe produziu textos e atividades, valorizando-os como fonte de informação. Dentre os documentos encontrados, existem aqueles oficiais ou "frios" como caracterizou o coordenador do projeto, Raphael Rajão. Mas eles encontraram cartas de antigos moradores de bairros também. Como uma que a Associação de Moradores dos Bairros Cidade Jardim e Luxemburgo mandou à prefeitura há muito tempo para protestar contra a presença da favela do Querosene, porque estava trazendo problemas de saneamento para a região. "Ao longo da pesquisa, achamos várias cartas enviadas por moradores e associações para a prefeitura”, diz Rajão. Os cadernos foram distribuídos para todas as escolas municipais, estaduais e particulares de Belo Horizonte, sendo que as escolas públicas receberam em maior número. "Nossa ideia é divulgar mesmo, não fizemos uma coisa autoral para guardar, a ideia é distribuir para que imprimam, copiem, façam o que quiser", diz Cintia. Os cadernos estão disponíveis no site: www.pbh.gov.br. 8 Cidade jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 COMPRA E VENDA DE CABELOS EM BH Atividade movimenta salões de beleza no centro da capital mineira e os cabeleireiros apostam neste tipo de comércio como uma nova maneira de obter lucro e satisfazer a clientela RICARDO MALLACO n DAVIDSON FERREIRA, RAISSA PEDROSA XAVIER, 1º PERÍODO Há muitos anos a compra e venda de cabelos é fonte de renda para muitas pessoas. O centro de Belo Horizonte é hoje berço de salões especializados em apliques e alongamentos de cabelo. Um exemplo é o salão Maison D'ele Atelier do cabelo, situado à Galeria do Ouvidor. Cleuza Fernandes dos Reis, 42 anos, dona do estabelecimento há 20, seguiu o exemplo de sua mãe que confeccionava perucas. Em princípio o foco era a produção e venda de perucas, porém com o surgimento do mega-hair, o mercado mudou e o foco tornou-se outro, o alongamento. Segundo a gerente do Maison D'ele, Tatiana Emiliana de Oliveira, 23, quando se trata de estética, a demanda maior é pelo aplique. A procura por perucas deixou de ser apenas questão de estética e passou para casos particulares, em que clientes buscam nas perucas disfarçar a queda de cabelos resultante de doenças como a oncologia, alopecia, lúpus e mesmo quedas genéticas de cabelo. No salão de Cleuza, a compra de cabelos para uso nos apliques é feita por atacado, no quilo. As mechas vêm do exterior, especialmente da Índia, onde o próprio governo é responsável pela comercialização de cabelos, que são buscados nos templos seguindo tradições de sacrifícios, promessas e viúvas que devem possuir cabelos curtos. Já o salão de Alex Arão Pereira, 30 anos, o "Alex Cabeleireiro", faz a chamada "compra de porta", ou seja, as pessoas vão até o salão para venderem seus cabelos. É o caso da estudante Melissa Tófani Santos, 19 anos, moradora do Bairro Serrano, Região Noroeste da capital, que é uma das muitas pessoas que desejam vender as suas madeixas. Melissa conta que tomou essa atitude devido ao tamanho e ao trabalho de mantê-lo bonito. Ela afirma ter certo receio quanto ao corte, que ficará bem curto. "Medo eu tenho, até porque nunca cortei. Ele sempre foi grande, mas acho legal mudar", diz. Além disso, a estudante conta que há muito tempo estava à A gerente da loja Maison D’Ele, Tatiane Emiliana, 23 anos, afirma que a procura por perucas deixou de ser apenas uma questão de estética procura de uma boa oferta. "O maior preço que encontrei foi de R$ 150, até porque ele é tingido", afirma. Com o dinheiro ela pretende inovar o visual, clareando o cabelo. Segundo Alex, o volume diário de pessoas querendo vender os cabelos chega a uma média de três pessoas espontaneamente, e dez resultantes da "propaganda de boca", onde o anúncio "compro e vendo cabelos" é feito aos gritos nas ruas. Existem também as indicações de outras clientes que já usaram o serviço, em média três por semana. A compra por pessoa varia de R$ 100 a R$ 600 dependendo do tipo, tamanho e qualidade (tingido ou virgem). A venda para mega-hair gera uma renda entre R$ 3.500 a R$ 4.000 por mês, de acordo com Alex. No salão de Cleuza, o grama de cabelo varia de R$ 0,65 a R$ 4,85 dependendo do tipo. Ela possui uma loja exclusiva em venda de cabelos e outra exclusiva para realização de apliques. "A renda varia de mês em mês, o final do ano é mais movimentado. Já em fevereiro, as clientes preferem remover os apliques para viajar, então, oferecemos outros serviços, como tranças, megahair com tic-tac, entrelaçamento, um tipo de alongamento, entre outros", completa a gerente Tatiana. Faltam cursos de línguas adaptados para cegos RICARDO MALLACO n THAÍSA FONSECA, 1º PERÍODO Romerito Costa sentiu dificuldade em continuar no curso de inglês devido a erros no material didático adaptado Facilidade de entrar no mercado de trabalho, desejo de evoluir na vida profissional e vontade de aprender. Esses são os principais fatores que levam diversas pessoas, inclusive as que apresentam limitações, a procurarem, todos os dias, cursos de línguas em Belo Horizonte. Romerito Costa Nascimento, nascido em 1986 e portador de deficiência visual, é um grande exemplo disso. Dono de uma história de superação, Romerito fez, em 2008, um curso de inglês no Bairro Coração Eucarístico e sentiu na pele grandes dificuldades. "Fiz o curso durante pouco tempo, o material adaptado não estava de acordo com a aula. Era impossível acompanhar", desabafa. Na teoria, as aulas de Romerito deviam contar com um CD para a realização de exercícios e com o material em braille, porém, na prática, o êxito não era alcançado devido ao fato do material não ser compatível com as lições. Após fazer uma reclamação, Romerito saiu do curso, conseguiu a devolução do dinheiro investido e passou a con- siderar extremamente decepcionante que em uma cidade tão grande como Belo Horizonte exista apenas dois cursos de línguas que atendam deficientes visuais: o Wizard e o Luziana Lanna, fato esse que gera grandes problemas, pois não fazer um curso de línguas traz, para os portadores de deficiência visual, prejuízos na interpretação de filmes com legenda e na sociedade em geral, tendo em vista a busca de empregos. Gilmar Rodrigues da Cruz, funcionário do Wizard Contagem, afirma que o leque de possibilidades se abre cada vez mais, porém a procura pelo curso adaptado ainda é muito pequena. "O Wizard oferece um curso que se diferencia dos outros por possuir uma metodologia mais direcionada", diz. O curso oferecido pelo Luziana Lanna também possui poucos alunos portadores de deficiência visual. "São cinco no total. Dois matriculados para o inglês, outros dois para o italiano e um para o japonês", diz Alexander Ferreira, professor e coordenador do curso, que é oferecido desde 2000. O Luziana Lanna busca fazer com que o aluno seja parte da aula. Há diversos exer- cícios de leitura e trabalhos com pronúncia. "A única coisa que muda é o modo de aplicação de provas. O aluno leva o exame para casa, traduz para o braille, responde às questões e depois entrega para a correção", explica Alexander. Ao fazer a matrícula também há uma pequena diferença. Cabe ao aluno transcrever para o braille o material a ser usado durante o curso, pois como o governo não financia, é impossível para o Luziana Lanna bancar tal tradução. "O nosso objetivo é incluir os portadores de deficiência visual na sociedade de uma maneira simples e ajudá-los em outras situações, como ao assistir um filme em outro idioma" afirma Alexander, quando questionado sobre o propósito do curso. Segundo ele, há poucos cursos que oferecem aulas para portadores de deficiência devido ao fato de haver pouca demanda e ao medo do projeto dar errado e prejudicar o nome de grandes empresas. O Luziana Lanna, por considerar importante tal curso para deficientes, busca facilitar o acesso dos mesmos. "Oferecemos bolsas para quem necessita. Mas, para isso, estudamos detalhadamente o caso", diz Alexander. Saúde Outubro • 2010 9 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas FALTAM RECURSOS PARA O “DOULAS” n BRUNA FONSECA, PEDRO VASCONCELOS, 4º E 3º PERÍODOS Primogênita de uma família de 15 filhos, a assistente social aposentada, Elizabeth Menezes, 60 anos, presenciou o nascimento dos seus 14 irmãos. Quando chegou sua hora de ser mãe, ela enfrentou oito abortos, o que colocou sua vida em risco. Hoje, com quatro filhos, ela acaba de receber o certificado de doula, ou acompanhante de parto voluntária, pelo projeto Doula Comunitária. "O momento do parto é um momento que a gestante não pode ficar sozinha, ela está muito insegura, ansiosa e cheia de medos, eu quero usar esta experiência para ajudar mães que não podem contar com ninguém neste momento tão importante", explica Elizabeth. O projeto Doula Comunitária existe desde 1997 no Hospital Sofia Feldman e consiste em um curso para capacitar mu lheres que queiram acompanhar e acolher voluntariamente outras mu lheres durante o parto. A palavra doula é grega e significa "aquela que serve a outra mulher", sendo essa a filosofia do projeto, que conta com a parceria da Secretaria Municipal de Saúde e atende seis das sete maternidades públicas de Belo Horizonte. Apesar da alta demanda de mulheres querendo ser voluntárias, só para o curso executado no mês de setembro foram 300 inscrições para 40 vagas, não há periodicidade na realização do projeto por falta de recursos financeiros. "São irregulares (as ofertas do o curso), acontecem de acordo com a demanda, com a disponibilidade, porque hoje, inclusive, nós não temos nem mais recursos financeiros para essa capacitação", afirma a psicóloga, coordenadora do setor de psicologia do Hospital Sofia Feldman e referência técnica para o projeto Doula Comunitária, Júlia Cristina Amaral, 50 anos, que há dez trabalha no hospital. A psicóloga conta ainda que o projeto depende de doações e auxílios. "A instituição em que eu trabalho me disponibiliza para dar esse curso, a gente vê onde que a gente consegue esses recursos necessários e aí a gente vai formando essa corrente de solidariedade para que continuem acontecendo essas capacitações", explica Júlia. Para o último curso, que aconteceu no fim de setembro, houve doações de um supermercado. O espaço e profissionais foram cedidos pelo próprio Sofia Feldman, o Hospital Odilon Behrens auxiliou com o café da manhã e a Secretaria Municipal de Saúde forneceu o material. Júlia Cristina pontua que a troca de experiências com as voluntárias traz benefícios às parturientes. "É muito gratificante, porque eu tenho um conhecimento técnico científico e poder compartilhar com esse outro conhecimento que essas mulheres trazem, traz para a gente um crescimento profis- sional e pessoal muito grande", diz a psicóloga. Para Elizabeth Menezes, o curso trouxe a possibilidade de compartilhar sua experiência de mãe com mulheres que muitas vezes não têm o apoio da família, e diz esperar pela parte prática do curso, que acontece sob orientação de uma doula já experiente. "O curso é perfeito, o pessoal é muito motivador alegre e amigo, eles tem uma motivação e um entusiasmo que contagiam quem chega desmotivado", opina. Clarinda Teixeira Costa Gomes, 44 anos, parou de trabalhar há cinco, após um acidente de carro. Exdona de um buffet, ela encontrou no Doula Comunitária uma forma de retribuir os cuidados que teve dos médicos e enfermeiros durante sua recuperação do acidente. "Hoje eu queria dar mais retorno do que o que eu recebi, nessa época do acidente eu vi a importância que é alguém doar seu tempo", desabafa. Mãe de quatro filhos, o mais velho de 24 anos e a mais nova de três, Clarinda conta que teve problemas durante a gestação da caçula, não apenas pela idade, mas pelas sequelas do acidente, o que a fez ter certeza de que precisava ser acompanhante de partos. "Na minha última gravidez, eu estava com 41 anos e foi complicada. Pelo sofrimento todo que eu tive, a gente sente na pele um pouco da dor, da solidão, então eu sempre me ponho na pele de outra pessoa", conclui, destacando a importância também que sua família teve. Ha sete anos, o Hospital Sofia Feldman fornece curso para mulheres que desejam ser acompanhantes no momento do parto de mães que não possuem nenhum apoio familiar BRUNA FONSECA Clarinda Teixeira , 44 anos, resolveu ser doula após receber apoio de médicos e enfermeiros depois de um acidente A importância do trabalho que as doulas oferecem A agente de saúde Andrelina Silva, 47 anos, optou pelo curso de doulas porque acredita ser um diferencial em sua carreira na área de saúde. Ao contrário da maioria das doulas, Andrelina nunca acompanhou um parto. "Nem os meus (partos) eu assisti, eu tenho três fi lhos, mas os meus partos foram cesariana e, portanto, eu não vi", brinca. Outro fator que incentivou a agente de saúde a participar do projeto foi a falta de preparo de meninas que engravidam na infância e adolescência, recorrentes no Sofia Feldman. CARINHO Segundo a psicóloga Júlia Cristina Amaral, o Hospital Sofia Feldman tem uma tradição em atender esse público. "Têm muitas meninas que ficam grávidas muito cedo, sem preparação, então, acaba tendo aquelas crianças cuidando de crianças e o que eu percebi pelo curso é que realmente tem muita gente precisando de cari nho nesse mundo. A humanidade está precisando de carinho, de apoio", afirma. Festa para São Francisco mobiliza comunidade ADRIANA BENEVENUTO n ADRIANA BENEVENUTO, 4º PERÍODO Nos últimos dias 1º, 2 e 3 de outubro, a comunidade do Bairro Carlos Prates participou do tríduo festivo em comemoração ao dia de São Francisco, seu padroeiro. A programação da festa consistiu em celebrações eucarísticas durante os três dias na Igreja São Francisco das Chagas, localizada na praça de mesmo nome, além de atividades recreativas também na praça para toda a comunidade, como ginástica, medição de pressão, corte de cabelo edanças, apresentações de música e as tradicionais barraquinhas com venda de comes e bebes. As missas realizadas no dia 1º, de manhã e à noite, foram presididas por Dom Walmor de Azevedo, arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte. A celebração emocionou a comunidade. "Eu me emociono fácil com essas celebrações, ainda mais a do nosso padroeiro. E a presença do Dom Walmor deu um espírito diferente para a missa, eu adorei!", conta a dona de casa Márcia Leite, de 56 anos. A organização da festa esteve sob a responsabilidade dos paroquianos. "A comunidade é que patrocina, que faz tudo. A gente monta as barraquinhas, arranja doação, o dinheiro vai para a nossa paróquia, para as obras sociais da nossa paróquia, que tem a escola das crianças da comunidade, que é o Cesfran (Centro de Educação São Francisco), que a igreja é que mantêm, e tem o nosso Lar Frei Zacarias, que cuida dos idosos", explica a manicure Teresa da Silva Costa, 63 anos. Ainda segundo ela, além de comemorar o dia do santo, a festa é um modo de reunir a comunidade, as pessoas da paróquia. "É um modo da gente encontrar. Vem gente de outros bairros, vem muita gente visitar, vários devotos de São Francisco. Essas barraquinhas já são tradição.", diz. PARTICIPAÇÃO A dona de casa e ministra da eucaristia da paróquia, Divina César Alcântara, afirmou que arrecadar fundos para a reforma da igreja, para o Cesfran e para o Lar Frei Zacarias também é um dos objetivos da montagem das barraquinhas. Ela avalia Atividades de recreação durante o dia divertem as crianças da comunidade ainda a participação da comunidade no evento. "A participação da comunidade é muito boa, todo mundo participa, todo mundo colabora. Aqui tudo é doação. A gente ganha tudo, a gente não compra porque é doação. Toda a comunidade se junta e cada um dá o que pode", assegura. "A comunidade doa e participa ao mesmo tempo", conclui. Segundo a bancária Shirley de Aquino Baião, de 50 anos, o lema dos franciscanos é o que move a comunidade em prol das come morações. "É a fraternidade. Todo mundo unido para fazer isso dar certo", conta. Neste ano, a paróquia comemora seus 81 anos, e, segundo Divina, a festa sempre teve o mesmo formato das barraquinhas para arrecadação de dinheiro e fazer com que a comunidade se reunisse. "Cada barraca é de responsabili- dade de uma pastoral: os vicentinos, o grupo de oração carismática, os jovens da crisma, a pastoral da saúde, a ordem franciscana e os ministros da eucaristia e todas as comunidades são convidadas a participar", explica a dona de casa Miriam Dias Ferreti. Nos três dias de festa, a praça se torna palco de atrações para a comunidade. "Tem corte de cabelo, ginástica, brincadeiras para as crianças, show de mágica e muito mais", diz Teresa Costa. "Tem também benção das plantas, animais, recreação, apresentação de música popular", acrescenta Divina. ATRAÇÕES "Eu gosto da festa porque eu trago as crianças, tem brincadeiras para elas, atividades de recreação, tem as barraqui nhas, além da celebração litúrgica, que eu gosto muito. Eu venho com eles para prestigiar o trabalho que é feito pelos paroquianos, pelo pessoal da comunidade mesmo", conta Ana do Carmo Faria, 40 anos, moradora do Bairro Carlos Prates desde 2003. "Todo ano eu venho", acrescenta. Segundo ela, as comemorações são um meio da comunidade se reunir em prol de várias causas, como a religiosidade, que gira em torno dos fiéis e devotos de São Francisco, e também para divertir e entreter as crianças, além dos adultos, por meio das barraquinhas e das apresentações musicais. "É legal a atitude da comunidade de fazer isso daqui, é um jeito dos moradores terem uma atividade diferente, e ao mesmo tempo, arrecada dinheiro para as obras da igreja, que mantém várias ações sociais importantes para a própria comunidade", observa. O comerciante da região José Antônio da Silva, de 43 anos, conta que além de participar da missa, ele leva as crianças para as atividades na praça. "Aproveito e dou uma passada nas barraquinhas, as crianças se divertem, e depois vou embora. Eu acho a festa bem legal, junta muita gente, o pessoal vem, conversa, a gente encontra com uns amigos, e fica batendo papo", explica. O estudante Pedro Henrique Gomes, de 10 anos, diz gostar muito da festa. "Eu gosto de tudo, vi o mágico fazendo muitos truques e achei bem legal", conta. 10 Saúde jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Desenvolvido há um ano, o Tempo de Sorrir é realizado no Centro de Saúde Padre Eustáquio e oferece palestras e atendimento odontológico à comunidade da região n ADRIANA BENEVENUTO, 4º PERÍODO Toda primeira quinta feira do mês acontece, próximo ao Centro de Saúde Padre Eustáquio, no bairro de mesmo nome, o "Projeto Tempo de Sorrir", em um espaço à Rua Vereador Geraldo Pereira, 693. O projeto, desenvolvido há um ano, é coordenado pela equipe de saúde bucal do Centro de Saúde Padre Eustáquio, aberto à comunidade em geral e tem por objetivo controlar e prevenir as doenças da boca como também possibilitar e facilitar o acesso da população aos serviços de saúde. "Esse projeto surgiu quando eu senti a necessidade das pessoas de ter um grupo, de formar um grupo para falar de promoção de saúde, aí eu lancei a ideia de formar um grupo para desenvolver a atenção à saúde no sentido de promoção de saúde, educação em saúde e prevenção", conta um dos coordenadores do projeto, o dentista de 66 anos, Elmo Silveira dos Santos. Segundo ele, o nome do projeto surgiu a partir da outra coordenadora, e também dentista, Elvira Helena Monteiro, de 54 anos, especialista em saúde coletiva. "Ela já vinha fazendo um trabalho há algum tempo em outras regiões com esse nome, e jogamos esse nome para o pessoal que estava presente, eles acharam bacana, e pusemos esse nome de ‘Tempo de Sorrir’, que a Elvira tinha dado a sugestão, e ficou com esse nome", relembra. A palavra 'tempo' funciona como uma sigla da definição do projeto: Trabalho em Educação, Motivação e Prevenção em Odontologia. O programa desenvolve atividades em 'rodas de conversa', ou seja, espaço de integração da comunidade com a equipe de saúde bucal e os demais profissionais da unidade, numa forma participativa de discussão de temas relativos à promoção da saúde. "O objetivo é a promoção em saúde, educação em saúde e prevenção. Muitas vezes nós trazemos assuntos pontuais mesmo relativos à odontologia, já trazemos muitos palestrantes, médicos das diversas especialidades, farmacêuticos, psicólogos, assistente social. Cada encontro é um assunto diferente, sempre trabalhando nos objetivos", explica o coordenador Elmo. "A gente quer que seja de maneira 'multiprofissional', nada preso somente à odontologia. Envolvendo todas as áreas de saúde", completa Elvira. A equipe de saúde bucal do Centro de Saúde Padre Eustáquio, considera importante a proposta de atuação dos profissionais fora do ambiente do consultório odontológico. "O trabalho é muito gratificante. O resultado é muito positivo", garante Elmo. Segundo os coordenadores, 40 a 50 pessoas em média, participam das reuniões. "Nós divulgamos no próprio trabalho nosso, no contato corpo a corpo com os nossos pacientes e com a colaboração dos colegas de trabalho do centro de saúde, que nós estamos sempre pedindo Outubro • 2010 TEMPO DE SORRIR LEVA APOIO À COMUNIDADE ADRIANA BENEVENUTO Participantes do Projeto “Tempo de Sorrir” assistem palestra ministrada pelo coordenador e dentista Elmo Silveira, 66 anos, onde tiram dúvidas sobre saúde que eles convidem as pessoas para comparecerem aqui", explica o dentista. O programa garante maior acesso da população aos serviços em geral e aumenta as possibilidades de resolução das necessidades em saúde bucal e outras áreas. "Uma vez a gente fez uma palestra sobre INSS, benefícios do INSS, que são coisas que talvez os participantes não tenham acesso em lugar nenhum, de outra forma, então foi através dessa conversa aqui, que as pessoas fizeram perguntas e tiveram respostas, elas não sabiam onde procurar", ilustra Elvira. "A nossa gerência veio num encontro falar sobre a parte administrativa, do funcionamento do centro de saúde, que é uma coisa que sem a nossa reunião, sem a roda de conversa, talvez ninguém ia ter esse acesso tão diferente para poder estar sabendo de tudo. Então eu acho que é um elo, é um vínculo que está sendo criado entre o centro de saúde e a comunidade", exemplifica. Segundo Elmo, o projeto tem trazido alegria para as pessoas. "Pelo próprio depoimento deles, eles sentem uma alegria muito grande, e não querem mesmo deixar de comparecer porque sentem muita felicidade de estar aqui nesse momento", conta. "Tem pessoas que comparecem aqui, que deixam de fazer as coisas em casa para vir aqui porque eles participam com muita alegria, e muitos deles têm feito depoimentos que jamais deixariam de vir", acrescenta. De acordo com Lúcio Santos Teixeira, de 59 anos, palestrante da última roda de conversa e usuário do posto de saúde, a experiência da roda de conversa é maravilhosa. "É onde nós podemos ver quem nós somos e crescer. Todo mundo tem muito valor, só falta perceber", diz. "É um encontro ótimo, a gente sente muito prazer em estar com as pessoas e sempre tem umas palestras muito boas, que trazem muitas coisas boas para a gente", atesta a dona de casa Eliane Sapel Marques Santos, 53 anos, que fez sua terceira visita ao projeto. "Eu gosto muito das palestras porque a gente faz mais amizade, às vezes têm pessoas que a gente não conhece e passa a conhecer, a gente já traz as pessoas dentro do coração mais ainda. Eu sou muito fácil de comunicar com as pessoas, aí eu não sei chegar num lugar e ficar calada não, sempre comunicando", revela Laura Gonçalves dos Santos, 77 anos. Da mesma forma a costureira Wanda de Souza Santos, 73 anos, gosta do projeto. "Eu tiro as minhas dúvidas, eu estou sempre na área de saúde, eu trato no posto e para mim foi bom. É muito bom, a roda integra, a gente cria muita amizade, a gente vive como uma família, a gente se torna uma família", declara. Projeto concilia aprendizagem e solidariedade n LETÍCIA GLOOR, MOUNI DADOUN, 2º E 3º PERÍODOS A demanda de serviços, informações e ajuda por parte dos usuários do hospital público Odilon Behrens fez com que funcionários deste estabelecimento, em parceria com a PUC Minas, implantassem naquela instituição, em 2002, o Projeto "Posso Ajudar? Amigos da Saúde". O projeto surgiu para facilitar e acelerar o funcionamento do hospital, além de humanizar os serviços dos agentes da saúde ao promover o relacionamento interpessoal entre eles e usuários do hospital. Esses estagiários são estudantes da área de saúde do primeiro ao quarto períodos. O projeto, que funciona como extensão, virou programa pela rápida aceitação dos pacientes, funcionários e de faculdades como PUC Minas, Fumec e Faseh (Faculdade da Saúde e Ecologia Humana), que fizeram parceria com o hospital. Essas parcerias consistem em enviar alunos da área da saúde como enfermagem, biomedicina, fisioterapia e psicologia que participam do programa, estagiando cada um em sua área. Estes estudantes podem ser encontrados na recepção do hospital à tarde e no ambulatório, durante a manhã. Segundo a direção do hospital, o projeto veio para preparar e melhorar a articulação do agente da saúde (no caso, o estudante) com o hospital e suas demandas. Este projeto promove a formação desses estagiários quanto ao trabalho em equipe. "Ele (o estagiário) aprende a lidar com a pessoa, e não com a doença", diz Liliane de Lourdes da Silva, 27 anos, ex-coordenadora do "Posso Ajudar". Ela enfatiza a diferença das informações dadas por placas em relação às que são dadas por monitores. O atendimento é individualizado. "Chama-se pelo nome e nos sentimos mais acolhida", diz Maria Aparecida Pires, 56, paciente do hospital. O processo de treinamento constitui em qualificar o aluno quanto a seu relacionamento com o público e humanizar os serviços destes estagiários, que recebem acompanhamento de especialistas de diversas áreas de saúde, inclusive da psicologia. De acordo com Liliane, os estudantes informam aos usuários do hospital sobre serviços, locais de exames, consultórios, ambulatórios e quartos. Além disso, os "amigos da saúde" conversam com pacientes, que muitas vezes estão angustiados com seus problemas. Na maioria das vezes, estes pacientes são de baixa renda, moradores de rua, famílias do interior. De acordo com Liliane Silva, a política do Hospital Odilon Behrens é "respeitar a história de cada um". Em 2008, ano de eleições para prefeitura, Márcio Lacerda, atual prefeito de Belo Horizonte, esteve no Hospital Odilon Behrens fazendo campanha e após saber da existência do projeto, estipulou uma meta de governo: implantar a idéia do "Posso Ajudar" em outros hospitais públicos e postos de saúde. O programa já foi instalado em 147 centros de saúde, oito Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e seis Unidades de Referência Secundárias (URS). O atual prefeito, no dia 31 de agosto de 2010, oficializou a implantação integral do projeto nos Centros de Saúde e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), em dois anos, de Belo Horizonte. Luiza Signorelli Andrade, 22 anos, está cursando Biomedicina na Fumec, está no sexto período e em outubro de 2009 começou a estagiar no hospital. Segundo ela, os estagiários abordam os pacientes e/ou acompanhantes para facilitar o acesso desses aos serviços oferecidos pelo Odilon Behrens e orientar esses usuários quanto à rotina do hospital. "Ajuda muito os usuários, é útil", diz a estudante. A equipe gestora do hospital apóia completamente o projeto. Segundo a médica Myriam Souza, superintendente do hospital, o "Posso Ajudar" deixou de ser um projeto para ser um programa. Ela e a equipe direcional do Odilon Behrens são bem favoráveis ao programa já que este, facilita o direcionamento e promove um atendimento mais humanitário. "O fluxo ficou mais dinâmico", diz Éder, atual coordenador do programa. Os pacientes também se mostraram satisfeitos com as ações dos estagiários e afirmam estar acolhidos com esses serviços, como é o caso de Aparecida da Silva, 72 anos. "Eles escutam a gente", afirma. Liliane diz lidar muito com moradores de rua que procuram ao hospital por sentirem fome. "Tem gente que vem aqui para comer", diz a ex-coordenadora. Os serviços humanitários de saúde e psicológicos da direção do hospital, dos estagiários e dos monitores destes, são muito mais profundos do que indicar ambulatórios, ou receber reclamações sobre os serviços; o relacionamento é mais inteiro, completo. Por ter essa política, o Hospital Odilon Behrens foi homenageado com o prêmio Menção Honrosa, dentro dos 65 prêmios dados a outros hospitais e organizações, no Seminário Nacional de Política de Humanização, oferecido pelo Ministério da Saúde. Cultura Outubro • 2010 11 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas TEATRO EM LIBRAS MOTIVA CULTURA n ANA CAROLINA NASCIMENTO, FELIPE VIEIRA, MELISSA TORRES, 1º PERÍODO O único som no auditório do Espaço Cultural da Escola de Teatro da PUC Minas à Rua Sergipe, 786, onde se realizava a obra "Tu, só tu, puro amor", de Machado de Assis, no sábado 25 de setembro, vinha do ventilador e das máquinas fotográficas. Por meio de uma intérprete, o público, principalmente os ouvintes, são orientados sobre o desenvolvimento inicial da apresentação. As luzes piscam sinalizando o início, e a primeira atriz, representando uma empregada doméstica entra em cena e apresenta sua visão da história a ser retratada. Os personagens aos poucos vão surgindo e saindo, em um revezamento programado, onde se dava a impressão, ao ouvinte e leigo em Libras, que segredos eram divididos. O elenco à exceção de Tales Douglas Moreira, 30 anos, não tem formação em teatro, e sob a coordenação de Tales, que reúne o elenco de acordo com a disponibilidade deles e a característica do personagem, é formado por amigos sem nenhum vínculo profissional. Por exemplo, Felipe Barros Silva, 25 anos, é estudante de Ciências da Computação na PUC, e Neusa Donata de Souza Nascimento, 33 anos, que é funcionária do Núcleo de Apoio à Inclusão (NAI). O diretor e ator Tales A peça feita inteiramente na linguagem dos surdos foi montada por um grupo de teatro amador. O espetáculo trouxe um dos clássicos de Machado de Assis para um público que, em sua maioria, era composto por surdos e intérpretes RICARDO MALLACO Na peça “Tu, só tu, puro amor”, os personagens foram escolhidos de acordo com as características de cada ator para haver uma harmonia dentro do palco Douglas Moreira reafirma em sua atuação o que ele havia dito previamente sobre a interpretação em Libras, sobre como passar uma mensagem que fosse também compreensível aos ouvintes. "Conheço a língua de sinais porque a minha identidade é surda , eu sei direcionar, separar a língua de sinais da língua portuguesa, para mim não tem nenhum conflito, tem esse equilíbrio. De uma pesquisa mais profunda, mais clara, entende-se que o que está sendo escrito ali para o ouvinte entender através da voz, interpretála é mais fácil pela formalidade da voz. Já para os surdos, a apresentação é pau- tada também na expressão corporal. A formalidade ou a informalidade vêm daí, das expressões corporais", diz. Foi assim que os personagens se apresentaram, cheios de pompa e gestos delicados, mas com expressões faciais que expunham dentre todas as coisas, os sentimentos dos personagens. Passar a obra literária e teatral para a língua é um desafio. “Enquanto na obra mostravam um tom de voz bem mais formal, na língua de sinais a formalidade está na postura, na expressão facial e expressão corporal", ressalta. O elenco interpretou com bastante particularidade, apesar de todo nervosismo em que estavam após a apresentação, "Eu achei importante que nós surdos tenhamos um público para poder apresentar a peça, e eu sei da dificuldade que o surdo tem com a literatura por ser uma linguagem densa. Eu sei, eu consigo entender porque faço curso de Letras na PUC e estudo bastante, mas às vezes um surdo me pede pra fazer adaptações para que ele possa entender, e eu vi assim que o surdo também é capaz de fazer de tudo, de decorar textos", afirma. A preparação da obra se deu com o estudo de cada personagem e depois achando em cada ator a característica específica de cada personagem que combinava com a pessoa. "Ao surdo que não tivesse aquela característica daquele personagem, eu ensinei àquela pessoa a pegar o que o personagem estava querendo passar, já que não eram profissionais", afirma Moreira. "O sentimento que eu tive quando eu escolhi ‘Tu, só tu, puro amor’ foi o segredo que a paixão e a comédia que os surdos adoram, então fiz uma adaptação pensando no surdo mesmo, um teatro mais estimulante'', acrescenta. Sobre Machado de Assis, ele diz que o autor tem uma obra bem complexa de ser lida. “Para adaptar para Libras, ficou mais complexa ainda'', diz. Entre pouco mais de 30 pessoas presentes no dia da apresentação, uma parte era formado por estudantes de Libras, além, claro, de famílias de surdos. Como exemplo Antônio Antunes Januário, 35 anos, guarda municipal e estudante de Libras, que apesar de alguma dificuldade da compreensão do conteúdo da peça, se mostrou muito satisfeito e ainda ressaltou a importância desse tipo de evento para a comunidade de surdos. "É benéfico não só para a comunidade dos surdos que passaram a ter espaços para a produção cultural, mas também para os ouvintes, que podem desenvolver a questão de relacionamento social com os surdos", diz. Já a família de Leonardo Lins, 10 anos, ouvinte, que serviu de intérprete dos pais surdos, traduziu assim a opinião de Cristiano Arruda, 37, sobre a apresentação: "Gostei muito, muito interessante, emocionante e diferente, apesar de ser a primeira vez que vemos a uma peça deste tipo, feita para nós surdos", contou. Ao final da peça, Moreira, como porta-voz do elenco, mostrou todasua satisfação. ''Todos se saíram super bem e eu acho que essa é uma forma de sensibilização também para os ouvintes de que nós podemos e somos capazes de fazer muita coisa assim como eles'', afirma. O gosto pelo trabalho com a arte e com animais PEDRO VASCONCELOS n PEDRO VASCONCELOS, 3° PERÍODO Marcelo Ribeiro Viana, 29 anos, é responsável pela produção de boa parte do acervo de réplicas de animais do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, localizado à Avenida Dom José Gaspar ao lado do campus Coração Eucarístico da universidade,Região Noroeste de Belo Horizonte. O artista plástico e fotógrafo se formou em artes plásticas na Escola Guinhard de Belo Horizonte em 2004, e já realizou diversos trabalhos artísticos no Brasil e no exterior. Desde criança Marcelo, já cultivava o seu gosto pelas artes e pelos animais. "Quando eu era criança, meus professores reclamavam, pois eu só queria saber de desenhar dinossauros no caderno", conta. Atualmente, o Museu exibe muitas de suas réplicas em exposições que retratam o passado e o presente da fauna latinoamericana. Marcelo Viana trabalha com a taxidermia de ani- mais há sete anos no Museu da PUC. Taxidermia é uma técnica que prevê a preservação da pele, forma e tamanho dos animais por empalhamento. "O museu tem uma parceria com o Zoológico de Belo Horizonte, quando algum animal morre, eles mandam o cadáver para gente realizar a taxidermia" explica Marcelo. O artista, entretanto, revela que o que mais gosta de fazer é a paleoarte, que mistura diversas técnicas artísticas, como a escultura e a pintura, de forma a dar vida a animais pré-históricos. "Eu adoro resgatar estes animais. Às vezes, só chega pra gente um pedacinho do fóssil,com ajuda de alguns livros a gente consegue resgatar a imagem daquele réptil. É incrível dar vida a um animal que não existe, é como se a gente apresentasse este animal para a “sociedade", conta Marcelo. A variedade de peças do acervo do museu impressiona. Entre aves, cobras e dinossauros, Marcelo Viana revela seu afeto especial por uma peça, uma Baleia Cachalote de mais de 5 metros de largura."Nós reconstituímos a baleia através de um único fóssil, doado por um fazendeiro da Bahia". Os materiais mais utilizados por Marcelo são resina de poliéster, fibra de vidro, plastinina e outros de custo relativamente baixo, quando comparados com os usados na produção de réplicas em outros países desenvolvidos. "Em termos de técnica nós não devemos nada a ninguém, o problema é o custo do material. Nós não temos capital para usar os que os americanos usam. Mesmo assim, nós conseguimos realizar um trabalho de primeira linha com materiais relativamente baratos", afirma o artista. A obra de Marcelo Viana é reconhecida por muitos colegas de trabalho. Uma das maiores admiradoras do seu trabalho é Ana Cristina Sanches Diniz, 30 anos, funcionária do museu. "O Marcelo é um cara fantástico, tem um trabalho Marcelo Viana usa a arte para trabalhar com técnicas que resgatem a imagem de animais muitas vezes inexistentes único além de ser um excelente colega de trabalho". Ana revela que Marcelo é perfeccionista e muito exigente consigo mesmo."O Marcelo não aceita nem um erro, quando a peça não sai do jeito que ele quer, ele da a peça pra gente e começa de novo. Eu adoro", afirma Ana. Marcelo Viana também tem o reconhecimento do público Eduardo Rabelo Reis, 23 anos, estudante de história, é um frequen- tador assíduo do museu e revela o seu interesse pela obra do artista. "Eu conheço o Marcelo. As obras dele são fantásticas e fazem com que a gente entre em um universo desconhecido. Além de ser um excelente artista, Marcelo é um profissional muito competente", conclui Eduardo. O reconhecimento do público é grande, mas Marcelo confessa que esperava um maior investi- mento das autoridades. " O público sempre elogia o meu trabalho, principalmente as criança, elas ficam encantadas, mas no Brasil o artista é pouco reconhecido, falta incentivo por parte da autoridades", conclui Marcelo Viana. Além de ir ao museu, quem quiser conhecer melhor a obra do artista pode acessar www.myspace.com/5129 35200. 12 Cultura jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 ALUNOS PRODUZEM FILMES EM BETIM Estudantes de escolas públicas participaram de cursos de cinema e tiveram a chance de escrever e produzir curta-metragens. Todos os filmes foram exibidos em Betim e Belo Horizonte PEDRO VASCONCELOS n FLORA SERVILHA, PEDRO VASCONCELOS, 3° PERÍODO No último mês de setembro, alunos da rede pública de Betim tiveram a oportunidade de aproximarem-se da linguagem cinematográfica. O programa de educação integral Escola da Gente organizou cursos de cinema de animação ministrados pelos cineastas Daniel Herthel e Mariana Blanco. Mais de cem alunos das escolas municipais Maria de Lourdes Oliveira, Gino José de Souza e Belizário foram beneficiados pelo projeto. Ao final dos cursos puderam visualizar seus curtas na abertura da 8ª Mostra Mundial Udigrudi de Animação, em Betim. Além disso, as animações puderam ser vistas no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, e no Centro Cultural, em Betim. Os alunos tiveram a oportunidade de produzir, escrever o roteiro e filmar seus próprios curtas. "Uma professora escreveu o que a gente falava para ela, assim fizemos o roteiro", conta William Douglas, um dos participantes do projeto. Aos 12 anos, o aluno da Escola Municipal Maria de Lourdes, diz ter ficado muito orgulhoso ao assistir seu filme passando na Prefeitura de Betim. Para ele, a parte mais interessante foi a em que filmaram um jogo de futebol de botão, tema escolhido pelos próprios alunos. Joel Silva Rafael, de 13 anos, também estudante da Escola Municipal Os alunos selecionados para participar das oficinas de cinema trabalharam em equipe para criar, escrever e produzir os filmes orientados pelos cineastas Daniel Hertel e Mariana Blanco Maria de Lourdes, participou do curso. Entusiasmado com o que aprendeu, decidiu continuar a mexer com cinema em sua própria casa. "Vou fazer de vez em quando em casa, é bom para eu aprender, faço as pessoas verem que é muito interessante e que podem aprender", conta o menino. Para o garoto que nunca havia ido ao cinema, a experiência foi única. "A sensação foi muito legal, era como se nós fossemos famosos", explica. Wallisson Júnior Muniz Jardim, professor de música e acompanhante do projeto, diz ter ficado muito satisfeito com o resultado. "Achei muito interessante a maneira como Daniel conduziu essa oficina. A cada dia era algo diferente, algo novo. Os meninos ficaram surpresos", conta. As animações foram sendo feitas de acordo com o gosto dos meninos e com suas possibilidades. Com três horas diárias e uma semana de trabalho os curtas tiveram dois minutos e meio de duração. "Quando eles viram o que haviam produzido ficaram impressionados", complementa. Os alunos da Escola Municipal Maria de Lourdes que participaram foram selecionados pela gestora do programa no colégio, Valdilene Abadia do Santos. "Eles conseguiram trabalhar em equipe, não tinha briga, não tinha nada", constata. Os participantes se dividiram entre as funções, como atores e produtores, por exemplo. "Depois que eles viram que cada um podia fazer algo foi quase que independente eles tomarem por si cada um desenvolver uma coisa", explica Wallison. Os adolescentes se comportam muito bem quando se deparam com a novidade do cinema. "Nós tínhamos alguns alunos que são tachados de difíceis", analisa Valdilene. Segundo os professores que supervisionaram o curso, eles se comportaram muito bem em saídas que ocasionalmente decorrem em problemas. Eles fizeram as imagens da segunda parte da animação no clube e mesmo com essa saída se mantiveram focados. A primeira parte foi filmada na sala de informática do colégio Maria de Lourdes e se tratava de um jogo de futebol de botão. Já a terceira e última parte se relacionava com dobraduras, origamis e aviões de papel, que mostraram como coisas simples podem ser muito interessantes. A cineasta Elizabete Martins, produtora da 8ª Mumia em Betim e dona de um estúdio de cinema, que era amiga de uma das participantes do Escola da Gente, acredita que o cinema possa ser uma importante forma de ensino por unir fotografia, música e literatura. "O fato de se verem na tela, no dia-a-dia das atividades da Escola da Gente, eleva a auto-estima deles, bem como dos familiares e amigos", explica Elizabete sobre a importância do projeto na vida dos alunos. A mostra Mumia desse ano percorreu 22 países e apresentou 162 filmes diversos. A pequena participação das animações dos estudantes já representou um importante passo na formação de pessoas mais abertas às artes. Na avaliação dos organizadores, o projeto foi um sucesso e possivelmente se repetirá. "Eles gostaram e querem fazer de novo", afirma Tchula. "E não só eles, mas todos os que viram as animações prontas", complementa Wallison. A trajetória do fotógrafo encantado pela natureza RICARDO MALLACO n SARAH ALBERTI, 1º PERÍODO Nascido na cidade mineira de Formiga, Cyro José Soares, 62 anos, apresentou os primeiros sinais de interesse pelo mundo fotográfico ainda criança. Bastava uma singela máquina fotográfica, levada pelos familiares da capital, para despertar no menino uma admiração e curiosidade tamanha. Com as poucas oportunidades de estudo e graduação apresentadas no interior de Minas à época, Cyro mudou-se em 1969 para Belo Horizonte, onde se formou em Análise de Sistemas, exercendo o ofício por 35 anos. As dificuldades financeiras o levaram para o caminho diferente do sonhado, mas seu objetivo de crescer cada vez mais como fotógrafo foi fortemente planejado e seguido. Aprendendo técnicas com a prática, durante 25 de seus 35 anos como analista de sistema, Cyro também fazia trabalhos fotográficos profissionais, não abandonando a carreira e o sonho de um dia se sustentar apenas como fotógrafo, objetivo, alcançado há três anos. ele recebeu apoio dos dois filhos e de amigos, entre eles Miguel Aun, também fotógrafo, que o ensinou muito do que sabe e empresta seu estúdio quando necessário. Aposentado, o especialista em macrofotografia passou a se dedicar integralmente ao trabalho de fotógrafo, focado na maior parte no meio ambiente. Formiga lhe proporcionou um contato direto com a natureza mantido também em suas viagens pelas várias regiões do Brasil, entre elas as ricas belezas naturais de Minas e da Amazônia. Suas viagens por selvas e grutas guardam uma espécie de adrenalina, onde riscos decorrentes do percurso são corridos, exigindo do viajante toda uma Recém-aposentado, Cyro José pode se dedicar inteiramente à fotografia preparação que por ele foi conquistada através do conhecimento e informação adquiridos com cada nova experiência documentando e acompanhando profissionais como cientistas e arqueólogos. Lama, animais selvagens, escorregões, cobras, caminhos de pedra estreitos, grandes alturas e outros desafios tornam seu conhecimento fundamental para evitar acidentes no trabalho. Mesmo buscando não ultrapassar seus limites, por motivos de idade e por pensar na preocupação dos filhos, os perigos às vezes são inevitáveis, mas segundo ele valem à pena. Amante também da natureza, se especializou em meio ambiente, mostrando grande apreço pela botânica. Viveu a transição da máquina fotográfica tradicional para a digitalização, afirmando acreditar que a qualidade das fotografias e das cores deixam a desejar, apesar da facilidade de correção e aceleração do trabalho promovido pela máquina atual. O episódio pelo qual ficou três dias para conseguir fotografar um mico-leão-dourado por não conseguir ver na hora o resultado do "click" teria sido evitado se fosse nos dias de hoje. Há cerca de um ano e meio após aposentar e concretizar seu maior desejo, no ano passado, teve complicações no joelho devido às posições exigidas pelo trabalho fotográfico e se submeteu a cirurgia no menisco. Foi recomendado que fizesse fisioterapia, mas ainda mancando e com apenas 15 dias praticando os exercícios recomendados foi chamado para fotografar na Amazônia. Não pensando duas vezes seguiu viagem e desde então não parou mais, fotografando desde empadas para propaganda de lanchonete, passando por fotografias científicas de insetos até cirurgia plástica. Além da dificuldade com o joelho, que vem superando, Cyro tem complicações na visão, o que exige o uso de óculos. Em muitos dos lugares, como na Amazônia, o calor acaba por atrapalhar, uma vez que as lentes do óculos embaçam dificultando seu trabalho. Atualmente ele registra expedições arqueológicas. O fotógrafo que aprendeu muito sobre cores e aperfeiçoou sua percepção fazendo acompanhamentos gráficos, por causa de alguns livros lançados, teve recente participação no livro "Grutas e Cavernas da Província Cárstica do Alto São Francisco". Esporte Outubro • 2010 13 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas RUGBY COMO FORMA DE SUPERAÇÃO Esporte, de origem inglesa, vem ganhando espaço como uma nova modalidade entre os cadeirantes, que encontraram na sua prática um incentivo para driblar as dificuldades diárias RICARDO MALLACO n ANA CAROLINA TEIXEIRA, FELIPE VIEIRA, THIAGO ANTUNES, 1º PERÍODO Dia de treinamento no Centro de Referência Esportiva para Pessoa Portadora de Deficiência (CRE-PPD), terça-feira às 17h, Humberto Oliveira de Assis, 31 anos, treinador do time de rugby em cadeira de rodas e seu assistente Diego Alfeu Xavier Morais, 23 anos, orientam um intenso treinamento, mais especificamente, a defesa em chave (formação tática de três atletas, com o objetivo de parar o ataque adversário). Em uma manobra ousada, de costas, André Vasconcelos fura a defesa adversária e marca um ponto, mas a manobra é muito criticada por Humberto Assis pelo risco. "A cadeira pode travar na de outro cara e te derrubar", alerta. Mas o risco faz parte do esporte, como afirma Humberto Assis, ao citar o significado da palavra rugby, "bater". Sendo esse o motivo para o nome do esporte, antes também conhecido como Murderball, até 1981, por causa de sua origem violenta. "O rugby em cadeira de rodas pouco tem a ver com o rugby de andantes, a não ser a agressividade e o contato físico. É mais uma adaptação do basquete em cadeira de rodas, voltado para os atletas com maior comprometimento físico”, diz. O time de rugby em cadeira de rodas foi idealizado por Cláudia Barsand de Leucas, gerente do programa de esporte para pessoas com deficiências do Programa Superar, em conjunto com Humberto Assis, durante uma participação na clínica de capacitação para rugby, que ocorreu no Rio de Janeiro em dezembro de 2009. Depois disso e mantendo o contato com a Cadeirantes treinam rugby adaptado no Centro de Referência Esportiva para Pessoa Portadora de Deficiência, localizado no Carlos Prates Associação Brasileira de Rugby para Cadeirantes (ABRC), Humberto e Cláudia promoveram um evento em 1º de maio deste ano, onde reuniram mais de 100 pessoas, entre elas cadeirantes, participantes da clínica e o pessoal da ABRC. No dia da clínica, a ABRC sugeriu que o Programa Superar já dispunha de material humano para participar do Campeonato Brasileiro, sendo necessário apenas alguns treinos. Após 15 dias de treinamento e contando com apenas quatro atletas e um reserva, o time foi a Ceilândia em Brasília, conquistando o 8º lugar. "Para eles foi uma coisa que começou grande, eles ficaram deslumbrados e falavam 'como é que eu estou aqui'. Mas foi uma experiência muito bacana, os meninos com 15 dias de contato com o rugby estavam no meio da galera do Brasil que é top, em um campeonato de nível nacional", afirma Humberto Assis. Esse campeonato serviu como seletiva para um torneio que seria realizado na Suíça. André Vasconcelos foi pré-convocado entre os 20 atletas para a seleção brasileira, mas não ficou entre os dez que comporiam a delegação na excursão. "A convocação me deu uma empolgação muito maior para treinar. Com 15 dias de rugby já fui pré selecionado. Porém, não fiquei chateado de não estar entre os dez, porque eles tinham muito mais tempo de jogo e estavam mais preparados que eu",observa. Os atletas participantes se dizem acostumados com o impacto, próprio do jogo, e chegam a encarar isso como motivação. "Eu fiquei com medo no primeiro dia, mas não do contato e sim de não conseguir me equilibrar na cadeira, mas depois eu sentei e senti equilíbrio”, conta Everton Miranda de Castro, 29. O esporte fortalece fisicamente e exige um constante aprimoramento, para que não haja acomodação. "Melhorou mais o meu condicionamento físico, dá mais energia e disposição", explica Julierme Augusto de Souza, 26 anos, que se tornou cadeirante há três anos após um mergulho. Os atletas destacam ainda a melhora em suas performances com os treinos. "Antes eu não conseguia tocar a cadeira. Em comparação com que eu estava antes, já evoluí", avalia Marcel Cardoso Ferreira de Souza, 23 anos. O rugby conseguiu sustentar o espírito de luta e a força de vontade de muitos atletas, como Fabrício Gomes de Souza, 28 anos, casado, que tem uma filha de 4 anos e ficou tetraplégico durante um assalto, ao levar um tiro no pescoço. "Antes eu não saía de casa, hoje eu já saio, comprei meu carro, tirei carteira, tudo depois que eu comecei a praticar o esporte", afirma. Alguns jogadores já praticavam esportes antes de se tornarem paraplégicos, como o designer gráfico Carlos Eduardo Moreira de Assis, 28. "O esporte em si faz muito bem para a saúde. Antes do acidente eu já praticava vôlei, capoeira, natação e jiu-jitsu , para mim só veio a acrescentar", explica. "As condições físicas melhoram, passei a fazer coisas sozinho, fiquei independente, conheci mais pessoas", afirma José Roberto Gomes, 40 anos. Ele teve paralisia infantil e, além do Rugby, já se aventurou no basquete. O atleta iniciou no basquete aos 20 anos, atuando pela Associação Mineira de Paraplégicos (AMP) e ficou um ano jogando na Argentina. Já Leonardo Pezzi Maia Macedo, 38 anos, cadeirante há 16, teve o primeiro contato com o esporte por meio de informações de pessoas ao se exercitar na orla da Lagoa da Pampulha. "Nem achei que eu fosse competitivo, hoje eu estou vendo que estou rendendo, que estou colaborando para a equipe e posso colaborar ainda mais", comenta. Goal Ball completa três anos em Belo Horizonte ADRIANA BENEVENUTO n DANIELA REZENDE, LÍVIA ARCANJO, 5º PERÍODO O goal ball é um esporte para deficientes visuais presente no Brasil há cerca de dez anos. Na capital mineira no dia 5 de outubro, o esporte completou três anos de prática. Segundo o educador físico e técnico da única equipe da modalidade em Belo Horizonte, Moisés Barbosa, a perspectiva é que o esporte ganhe cada vez mais espaço. "O goal ball é uma das modalidades esportivas para deficientes visuais que mais cresce no país. Ela vem evoluindo muito, porque as associações estão buscando realizar mais competições. Comecei com dois atletas, hoje tenho 18. Vindo treinar com frequência são nove. Isso no período de três anos. Para um esporte pouco conhecido, foi uma boa evolução", afirma Moisés. O atleta Luiz Guilherme Schulz Lanza, 18 anos, está no time de goalball desde a sua estreia e ressalta os benefícios que o esporte trouxe para a sua rotina. "Eu estou aqui desde o primeiro dia de goal ball. Só de você praticar um esporte já é gratificante. Aprendi a ter um Atletas se jogam no chão para impedir que a bola lançada alcance o outro lado da quadra pouco mais de orientação e a minha coordenação motora ficou um pouco melhor", revela o atleta, que em 2009 ganhou um título nacional em uma competição. De acordo com Moisés Barbosa, muitos deficientes físicos não aproveitam as oportunidades que são disponibilizadas. "Os deficientes estão aí e tem atividades para eles. Se não o atletismo, se não a natação, tem o goal ball. Se não o goal ball, tem o judô. Infelizmente a gente percebe talentos futuros, que estão apenas no mundo do trabalho, da família e deixam a atividade esportiva em outro plano. Tem que correr muito atrás deles e não deveria ser assim, às vezes a iniciativa tem que partir deles", comenta. O deficiente visual Adriano Lopes, 28 anos, foi um dos atletas convidados por Moisés. Sempre envolvido com esportes, ele praticava atletismo, modalidade em que ganhou títulos brasileiros. Porém, teve que interromper sua carreira por não conseguir conciliar sua rotina de treinos com seu trabalho. Após alguns anos longe do esporte, praticando apenas musculação, retornou e começou a praticar o goal ball. Assim como Luiz Guilherme, Adriano ressalta a importância da prática de esportes na melhoria da qualidade de vida dos deficientes. "Os deficientes que ficavam parados desenvolviam muitos casos de obesidade. Com o surgimento do esporte na vida da gente, melhorou bastante", explica Adriano. HISTÓRIA O goal ball é um esporte criado exclusivamente para deficientes visuais. Surgiu na Alemanha, após a IIª Guerra Mundial, para ressocializar os ex-combatentes que haviam perdido completamente a visão ou parte dela. "O goal ball é praticado em uma quadra que tem as mesmas dimensões de uma quadra de vôlei (nove metros de largura por 18 metros de comprimento), são dois gols nos extremos e três atletas de cada lado. O objetivo é, com a bola rasteira, colocá-la no outro gol", conta Nayara Rodrigues, 17 anos, jogadora há cinco meses. O esporte, em Belo Horizonte, é oferecido pela Associação dos Deficientes Visuais de Belo Horizonte (Adevibel) e os treinos acontecem no Centro de Referência Esportiva para Pessoa Portadora de Deficiência (CRE-PPD), localizado na Avenida Nossa Senhora de Fátima, 2283, no Bairro Carlos Prates. "A associação existe há 25 anos, trazendo a oportunidade de prática de esporte para os deficientes visuais de Belo Horizonte. Temos o atletismo, o judô, a natação, o futebol de salão, o xadrez e o goal ball", explica o educador físico e técnico Moisés Barbosa. Segundo ele, qualquer deficiente visual pode fazer parte do time de goalball. "Desde que esteja atrelado a uma associação, um programa de esportes, a um centro especializado esportivo ou até mesmo a uma escola que faça sua inscrição nos órgãos competentes. Para isto, no caso, o maior deles é o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB)", explica. 14 Comportamento jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas Outubro • 2010 PESQUISADORES ENFRENTAM DESAFIOS Os profissionais que lidam com a pesquisa de campo relatam os obstáculos enfrentados para realizar estudos que muitas vezes tem como tema assuntos, além de polêmicos, perigosos RENATA FONSECA n GABRIEL GAMA, LUISA FARIA, 2º PERÍODO O coordenador do Centro de Pesquisa em Segurança Pública da PUC Minas (Cepesp), professor Luís Flávio Sapori, 45 anos, coordenou uma vasta pesquisa sobre a influência do crack na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele ressalta o iminente perigo físico para estabelecer contatos com traficantes e dependentes químicos, enfrentados por integrantes da equipe. As dificuldades para estabelecer relações de confiança com os entrevistados foram o principal desafio dos pesquisadores. Obstáculos desse tipo e de outras naturezas estão presentes, de forma geral, nas atividades de pesquisas nas mais diferentes áreas do conhecimento. "A pesquisa pretendeu entender o comércio do crack. A grande dificuldade era entrevistar trafi- O professor Luís Flávio Sapori lidou com as dificuldades de entrevistar traficantes por causa de sua pesquisa sobre o crack cantes no próprio local de atuação deles. Através das relações em rede, que a pesquisa foi realizada, essa é a metodologia mais conveniente. Foi um ano para conseguir os primeiros contatos. Conseguimos ter acesso a 19 traficantes através de indicações e da lógica de confiança de amigos dos criminosos", explica Sapori. A antropóloga e profes- sora da PUC Minas, Regina Medeiros, 49 anos, fez parte da pesquisa sobre o crack, no âmbito das instituições e dos dependentes químicos. "Os profissionais precisam entender de onde veem os dependentes, conhecê-los, conhecer suas famílias, suas redes sociais, mas não têm recursos para trabalhar isso com os dependentes. Falta nas equipes um profissional na área de sociologia, antropologia, que pode fazer uma leitura do universo das pessoas, para ajudar no tratamento e na compreensão do que leva essas pessoas a escolherem o crack e não outras drogas", explica a antropóloga, a respeito da falta de capacitação dos profissionais em trabalhar com esse tipo de pesquisa, e ainda, sobre a influência que a mídia tem de estigmatizar uma sociedade marginalizada. "Toda esta manobra de criação de imagens tem absolutamente tudo a ver com o ganho políticoeconômico e ideológico. Quem ganha com isso são os grandes traficantes", afirma Regina Medeiros, referindo-se aos aparelhos ideológicos, veiculados pela mídia, como os principais fatores que estimulam o preconceito social na cidade. "A verba destinada, hoje, é pequena somente no campo da saúde pública. Eles direcionam os editais para nós concorrermos. Tem que ter alguns requisitos que impedem que a gente entre. Tem muitas pessoas pesquisando, então eles selecionam aqueles que vão ter gastos com medicamento, às vezes, importados", diz Marlene Barros de Melo, 50 anos, superintendente de pesquisa da Escola de Saúde Pública, sobre a insuficiência de verba fornecida pelas agências de fomento como a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), para dar prosseguimento em suas pesquisas em saúde pública e não laboratoriais; como é o caso dos testes de medicamentos em voluntários. "É difícil encontrar o perfil da equipe (de pesquisa) e mesmo o perfil da área da investigação. A dificuldade é porque as agências não querem que pesquisem doenças como a dengue, no impacto social que ela pode trazer. Eles privilegiam muito mais o tratamento da doença com medicamento, do que a questão de como o usuário é tratado", explica a pesquisadora, ressaltando a falta de um corpo de pesquisadores consolidados e a objeção do perfil de entrevistados exigidos pelas agências de fomento. Cuidados durante as pesquisas são fundamentais para cientistas No Centro de Doenças Infectoparasitárias da Universidade Federal de Minas Gerais (DIP) são feitas pesquisas com o vírus HIV com a finalidade de desenvolver técnicas para a melhoria no diagnóstico, tratamento e até mesmo a descoberta de uma vacina. "Todas as vacinas testadas, até hoje, não conseguiram o efeito de uma vacina eficaz e segura”, afirma o doutor Unaí Tupinambás, 48 anos, professor da Faculdade de Medicina da UFMG. A questão dos voluntários é um dos dificultadores do trabalho. "Para você fazer a pesquisa, pre- cisa ter justificativa racional, metodologia, garantia de segurança, tem que ter um termo de consentimento livre e esclarecido do voluntário. Está implícito que pode dar errado, mas eu fiz tudo para que a pesquisa acontecesse", explica Unaí, citando a resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), que garante segurança, confiabilidade e sigilo dos dados do voluntário. O pesquisador cita como um problema recorrente a evasão de voluntários. “Se eu precisava de 200, eu vou colocar 500, porque eu vou contar com 300 que vão me abandonar e vão sobrar 200. Então, têm vários artifícios para conseguir aquele objetivo. Podem ser os critérios de inclusão, eu tentar selecionar bem a minha mostra, garantir que aquele voluntário vai voltar e orientá-los bem", observa o pesquisador. Todos os processos em um laboratório, em que se lida com sangue contamidado requer o cumprimento de protocolos de segurança. "Quando eu entrei aqui eu tinha muito medo da luva estar furada e eu me contaminar com o sangue", diz Laís Ferreira, também de 23 anos, estagiária há um ano e meio do DIP, que é estudante de Biomedicina da Faculdade Unifenas . Ela conta que equipamentos de segurança utilizados pelos pesquisadores como jaleco, luvas e óculos de proteção, juntamente com a orientação de profissionais mais experientes e o empenho do pesquisador no trabalho, dificultam a possibilidade de contaminação. "O gostoso de trabalhar com pesquisa é saber que você está descobrindo coisas novas e pode ajudar o paciente. Por isso eu acho que vale a pena. É só você se precaver e ter orientação correta", ressalta. "No começo, eu não colocava a mão em nada só observava as pessoas fazerem. Depois quando comecei a pegar para fazer, vi que é diferente porque quando você está mexendo com o sangue, e sabe que pode se contaminar por um leve descuido, ou por simples bobeira, você começa a pensar se vale a pena. Acho que só não valeria a pena continuar se o laboratório fosse mal estruturado e o ambiente fosse ruim, mas não é o caso aqui", diz o estagiário Willian Cunha Domingos, 23 anos, estudante de Ciências Biológicas da Faculdade Pitágoras. Curso ensina métodos de comunicação alternativa RICARDO MALLACO n LAURA DE LAS CASAS, 3º PERÍODO Há três anos, o guarda municipal Leandro Pereira, 27 anos, aceitou o convite da Prefeitura de Belo Horizonte para fazer um curso de braile. Por meio de sua professora ficou sabendo do curso de Comunicação Assistiva Libras e Braile, oferecido pela PUC Minas. "Como achei essa área muito especial, eu resolvi me formar nela, me encantei" conta o guarda. Hoje, Leandro está a um ano de se formar no curso indicado. Procurando por novas experiências profissionais, foi em busca de novidades na área que escolheu, encontrando na própria faculdade a oficina de Comunicação Alternativa, iniciativa do Núcleo de Apoio a Inclusão (NAI). A ideia da oficina foi da coordenadora da área de limitações locomotoras do NAI, a terapeuta ocupacional Nivânia Maria Melo Reis. "Como existem na PUC cursos de pedagogia, fonoaudiologia e psicologia, muito ligados à área da comunicação de deficientes, achamos que essa oficina seria interessante para que os alunos tivessem a opção de obterem mais informações e ideias para aplicar no âmbito profissional", justifica a terapeuta. Com especialização em educação para pessoas especiais, Nivânia desenvolveu um material didático para ensinar os alunos a trabalhar com portadores de paralisia cerebral, autismo, síndrome de down e deficiências múltiplas a fim de desenvolver nessas pessoas um recurso para que elas possam se comunicar, já que elas, na maioria das vezes, elas não falam. Muitos alunos procuraram o curso, que acontece aos sábados, com 30 horas presenciais divididas em dez encontros e mais 40 horas de atividades extra classe. Michele Rufino, 28 anos, que se forma este ano em fonoau- diologia, foi uma delas. A estudante se interessou pela oficina por complementar as matérias já estudadas anteriormente. "As aulas que tenho aqui me auxiliam na prática, o que eu acho muito importante na minha área. É fundamental ter um diferencial desses", afirma Michele, que escolheu sua profissão justamente por ser uma área que trabalha com a comunicação de pessoas deficientes. Para Leandro, que pretende trabalhar com braile, o curso complementar está sendo muito gratificante. Ele conta que as aulas são dadas por meio de material variado, com pranchetas, figuras, ilustrações, miniaturas entre outros recursos. Tudo isso irá ajudar o deficiente a expressar o que ele quer, e assim, ser compreendido pelo outro. "É importante saber entender e se relacionar com quem é especial", comenta. As aulas são dadas por duas professoras, Luana Souza, formada em Pedagogia e Vivian Maria Para Leandro Pereira, o curso de Comunicação Assistiva possibilita um diferencial para a sua profissão Pinto, que cursa fonoaudiologia e já participou da primeira oficina de Comunicação Alternativa. Nas 40 horas extra classe, os alunos são levados para praticar as técnicas aprendidas com os próprios deficientes. "A pratica é importante, mas nas aulas damos bastante teoria também", afirma Luana. Nivânia conta que as aulas são dadas no máximo para 20 alunos de cada vez, para que sejam bem aproveiotadas. Comunicação Outubro • 2010 15 jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas • jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas REPORTAGEM NÃO É SÓ PARA JOVEM FOTOS: RENATA FONSECA Eduardo Costa relembra momentos importantes da carreira como repórter Há 32 anos trabalhando como repórter, Ivan Drummond diz amar o que faz O contato com os jovens ajuda Maria Clara Prates em suas reportagens Profissionais reconhecidos na área do jornalismo mostram que trabalhar como repórter não é função exercida apenas por jovens recém-formados e declaram o gosto pelo trabalho que fazem n CÍNTHIA RAMALHO, MÉRIAN PROVEZANO, 4º PERÍODO O sonho de Ivan Drummond era se tornar engenheiro eletricista. Um dia, no entanto, acompanhou o pai jornalista, Felipe Drummond, na cobertura de um incêndio na Rua Padre Eustáquio para a televisão. "Ele me mandou pegar um bloco e anotar tudo", conta. A partir daí, ele esqueceu a carreira de engenheiro e seguiu no jornalismo. Hoje, aos 52 anos, Ivan Drummond é repórter de esporte do jornal Estado de Minas e após 32 anos de carreira, ainda mantém a mesma paixão pela reportagem. "Eu faço porque gosto. Não penso em ser chefe, não tem nada a ver comigo. Eu gosto é de rua, gosto de desafio", conta. O pouco espaço para o jornalismo em Minas Gerais, com um mercado restrito e salários ruins, é a maior reclamação dos profissionais e o principal motivo para que jornalistas experientes troquem a carreira de repórter por cargos de melhor remuneração dentro das redações, como os de editor e subeditor. Além disso, a chegada de jovens jornalistas às redações faz com que o trabalho de repórter fique por conta dos recém-formados. Mas isso não é regra dentro das redações. Muitos jornalistas experientes, como Ivan Drummond, não abrem mão do trabalho de repórter e ainda mantém a mesma paixão em ir para as ruas atrás de boas matérias. Maria Clara Prates chegou ao jornalismo, como ela mesma afirma, de forma aleatória. "Fiz orientação vocacional e entre os cursos apresentados estava jornalismo", lembra. Hoje, aos 48 anos e 25 de carreira, a jornalista é repórter especial do jornal Estado de Minas e vê no trabalho de reportagem a oportunidade de fazer algo mais aprofundado e minucioso dentro da profissão. "Eu gosto muito do trabalho de campo, de correr atrás da notícia, e não essa coisa de fazer coletiva", diz. Além do gosto pela reportagem, a jornalista se diz satisfeita, já que percebeu no veículo aonde trabalha a valorização do profissional e, dessa forma a chance de, como jornalista, ser, nascer e crescer repórter. Cada reportagem é um novo desafio para os jornalistas. A rotina é pesada e os profissionais passam grande parte do dia fora das redações fazendo entrevistas e buscando informações para a elaboração das matérias. Por conta outras pessoas. Já Maria Clara Prates prefere não fazer planejamentos, agindo de forma instintiva. A repórter remete o sucesso da maneira como trabalha à experiência acumulada durante os anos de profissão. "Se a pauta é a do dia eu apuro uma coisa, se ficar faltando eu apuro mais um pouco. É um processo de muito convencimento pessoal e é por causa da experiência que eu tenho que eu posso fazer isso", diz. Para os jornalistas, a experiência só acrescenta no trabalho de repórter. É por causa dela que eles conseguem enxergar em pequenas situações, nas ruas, grandes reportagens, filtrar informações e dessa forma, tornar o processo de apuração mais ágil. O que, muitas vezes, não acontece com os jovens repórteres. Além disso, o fato de já ter lidado com vários tipos de situações faz com que o jornalista mais experiente tenha menos chance de cometer erros graves, como divulgar informações erradas, e consiga contornar melhor situações adversas. Se os erros existem, a experiência também conta na hora de admiti-los. "Outra vantagem que você tem com a [ ] "EU FAÇO PORQUE GOSTO. NÃO PENSO EM SER CHEFE, NÃO TEM NADA HAVER COMIGO" IVAN DRUMMOND disso, a profissão se constrói sem rotina, o que é classificado pelo jornalista Eduardo Costa, 54 anos, como uma das coisas que mais o atrai na profissão de repórter. "Eu não sei aonde eu vou estar amanhã cedo. Eu acho que eu não nasci muito para a rotina", afirma. Eduardo Costa atua no jornalismo há 33 anos e durante todo esse tempo trabalhou fazendo reportagens para o rádio. Hoje é repórter e apresenta programas na Rádio Itatiaia e na Rede Record e não esconde a satisfação de ainda estar na rua trabalhando em reportagens. Ao mesmo tempo, o jornalista também vê na falta de rotina um dos lados negativos da profissão. Por conta da grande carga de trabalho, Eduardo lamenta não conseguir se alimentar de forma saudável, aproveitar finais de semana e feriados. O processo de construção de reportagens é diferente para cada jornalista. Eduardo Costa diz que o que impulsiona seu trabalho está na rua, por meio da observação e de informações que recebe de como forma de equilibrar o trabalho. Para a repórter, o jornalismo só tem sentido na fusão da experiência e conhecimento do passado pelos mais velhos e a visão moderna dos jovens. A produção de reportagens sempre trás momentos marcantes para a carreira dos repórteres. Ivan Drummond se lembra com carinho das Olimpíadas que cobriu como repórter de esporte. Para ele, os jogos olímpicos representam o ponto máximo na carreira de um jornalista, justamente pelo fato de que lá ele consegue estar perto dos melhores atletas de cada modalidade. Porém, Ivan afirma que essa cobertura não se limita ao esporte, sendo possível enxergar ali matérias de comportamento e cultura. O jornalista classifica as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, como um dos seus momentos mais emocionantes. O jogador de basquete Oscar Schmidt estava encerrando sua carreira e enquanto o entrevistava, Ivan não conteve a emoção e chorou. "Essa me marcou pela paixão que eu tenho pelo esporte", lembra. Eduardo Costa recorda a cobertura de uma rebelião em 1997 na qual um cabo foi morto, como um dos momentos mais importantes de sua trajetória. A cobertura foi feita ao vivo, narrada em meio aos tiros e rendeu ao jornalista o prêmio Líbero Badaró. Já Maria Clara Prates prefere não escolher uma reportagem que a tenha marcado mais. Ela diz que geralmente gosta mais do trabalho que está realizando no momento. Para Ivan Drummond, a paixão por fazer o que gosta está acima da experiência no que diz respeito à facilidade em realizar um trabalho. "A experiência é o modo como você vai abordar, o modo como você vai tratar, como chegar na pessoa, a forma como você vai escrever te ajuda nesse lado, mas eu acho que ali vai um pouco mais de paixão e acho que com a paixão, você faz mais fácil". [ ] "OUTRA VANTAGEM COM A IDADE É NÃO SE SENTIR DERROTADO SE ALGO NÃO DER CERTO” EDUARDO COSTA idade é não se sentir derrotado se algo não der certo. Isso tudo é um caldo que o tempo vai te dando de saber um pouquinho mais do que o novato, mas ter muito mais humildade e preparação para entender que você não é onipotente", diz Eduardo Costa. O contato com os jovens também ajuda os jornalistas experientes na realização das reportagens. Maria Clara Prates aposta na relação entre os mais novos e os experientes Tecnologia traz diversas mudanças para a profissão O avanço tecnológico transformou a forma de produção e propagação da informação. Com isso, os profissionais de comunicação tiveram de se adaptar à nova dinâmica. Ao tirar o gravador da bolsa, para começar a entrevista com Ivan Drummond, ele pergunta, "Você tem certeza que vai usar só isso aí mesmo? Não uso gravador, anoto tudo". Para Ivan, isso é uma perda de tempo, pois, com o gravador a matéria é feita duas vezes, uma, quando se está gravando e entrevistando, outra, quando se vai transcrever. Ivan comenta que são muitas as diferenças do jornalismo esportivo, da época em que começou e o de agora. "Hoje, personagem é tratado de outra forma. Não é um simples entrevistado. O jogo é só um registro. Você tem que estar preparado para qualquer coisa", diz. Para ele, o jornalista tem que saber usar as novas tecnologias a seu favor. "Se eu não me adaptasse a essas tecnologias eu estava morto. Estava fora. Na minha bolsa tem uma máquina fotográfica que filma, um celular que grava e eu passei a andar dessa forma”, diz. Na Olimpíada de Atlanta, em 1996, Drummond conta que foi um dos primeiros jornalistas a fazer a convergência de mídias, produzindo matérias para o rádio, jornal e televisão. Na Olimpíada de Atenas, em 2004, já tinha a Internet, e com isso, ele mantinha um blog, onde contava casos curiosos da cobertura. Eduardo Costa acredita que o jornalismo de hoje exige mais empenho e compromisso ."Eu não posso apenas narrar um fato, porque a televisão vai lá e mostra, então eu tenho que aprofundar. Trinta anos atrás, não tinha Internet. A rapidez da notícia é diferente de dia para dia", ressalta. Um fato que o marcou e que para ele foi uma inovação, aconteceu em 1997 durante a última visita do Papa João Paulo II ao Brasil. "Eu fui a Roma e vim transmitindo um flash, ao vivo, do avião. Foi legal porque era uma coisa muito nova você poder transmitir alguma coisa do avião", lembra. Para Maria Clara Prates à medida em que você vai trabalhando, vai incorporando naturalmente as novas tecnologias. "Tira a máquina de escrever e põe o computador, tira o computador e põe o laptop, tira o laptop e põe um celular. Quem não acompanha esse processo, envelhece. Ninguém quer ser um repórter anacrônico, você tem que estar evoluindo, acompanhando o andar da carruagem", afirma. Mesmo assim, ela diz que nunca fez uma entrevista pela Internet, pois não tem como garantir quem realmente está respondendo o email. entrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevista Fernando Brant Entrevista COMPOSITOR jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarcolaboratóriodocursodejornalismodapucminas.jornalmarco “VAI FICAR O QUE FOR BOM”, DIZ AUTOR DE TRAVESSIA n CÍNTHIA RAMALHO, BRUNA CARMONA, 4º PERÍODO Em tempos de crise na indústria fonográfica, estudar formas de combater a pirataria e garantir os direitos dos autores são os principais objetivos da União Brasileira dos Compositores (UBC). Parceira do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), a UBC defende os interesses da classe artística no Brasil desde 1942 e atualmente é presidida por Fernando Rocha Brant. Ele, que na década de 60 participou de um dos movimentos mais expressivos da música brasileira, o Clube da Esquina, já compôs em parceria com músicos como Wagner Tiso, Márcio Borges, Toninho Horta e Milton Nascimento. Com este último teve mais de 200 canções gravadas, sendo que a primeira delas, Travessia, ganhou o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, em 1967. Resistente à burocracia, Fernando Brant diz que desempenha uma função política à frente da UBC, e admite o embate entre representantes dos direitos autorais e emissoras de rádio e televisão. “Tudo que possa facilitar para que todo mundo que usa música pague e que esse dinheiro chegue ao autor, faz parte do meu trabalho”, revela. Segundo ele, mesmo com a Internet a trajetória do músico brasileiro não mudou muito nas últimas décadas. "O músico brasileiro é um verdadeiro bandeirante", compara. RENATA FONSECA n A sua parceria com o Milton Nascimento é fértil e duradoura. Você considera que atuar com parceiros enriquece o trabalho de composição? Eu acho que sim, porque no caso da gente, não só com o Milton, mas com os outros parceiros meus, a gente, normalmente, é primeiro amigo para depois ser parceiro. Então, cria uma afinidade. Ele me manda a música eu faço a letra e normalmente ele acha que está tudo certo, porque eu falei uma coisa que ele acha que gostaria de falar, de cantar. Criou-se ao longo do tempo uma parceria bem fecunda. Atualmente, eu tenho feito muito mais músicas com o Tavinho Moura, que mora aqui do lado e a gente está sempre se encontrando. Não tem que ser necessariamente amigo, mas você sendo amigo, a coisa fica mais fácil. n E a parceria com o Milton como é que está? Está boa. Ele está compondo menos nesse sentido porque vive viajando para a Europa, Estados Unidos. Mas ele está até lançando um disco agora que tem umas parcerias nossas. Tem parceria inédita, tem uma música que é de uma peça de teatro e tem outras duas, uma foi gravada só pela Simone, a outra só pela Gal Costa e aí ele está gravando agora. Música nova a gente fez para uma peça, Alice, que a Luana Piovani encenou no Rio. Mas é que ele não estava gravando disco. O Pietá, foi o último disco que ele gravou com músicas inéditas, e eu tinha músicas lá. Normalmente, quando ele vai fazer, me dá um toque. n Qual a importância do Clube da Esquina para a música brasileira? Na realidade foi uma coisa muito espontânea e que acabou pegando esse nome porque a imprensa do Rio e São Paulo não entendeu muito que era um movimento muito rico, porque tinha o Milton, mas ao mesmo tempo tinha o Toninho Horta, o Beto Guedes, o Lô [Borges], o Wagner Tiso e outros que vieram. Então eles resolveram criar um rótulo e o rótulo era exatamente porque tinha uma música e tem o disco Clube da Esquina, então o pessoal começou a falar muito do pessoal do Clube da Esquina e esse nome ficou. A gente nunca fez nada para a mídia. A gente foi fazendo as coisas porque a gente gostava de fazer. E fazia as músicas que a gente achava que era bom para a gente e a gente só atingia as pessoas porque éramos contemporâneos deles, vivíamos no mesmo país, essas coisas. Mas, com o tempo já é reconhecido. O Caetano [Veloso] mesmo, no livro do Márcio Borges, disse que o movimento foi o que realmente pegou a bossa nova e levou a música brasileira para frente. Na realidade, em termos de harmonia, de musicalidade e de poesia é uma coisa muito consistente, não era uma coisa de moda, tanto que a gente foi se impondo muito ao longo do tempo, porque a gente nunca teve facilidade, nunca teve jornais e revistas a nosso favor. Ministério da Cultura sobre as mudanças que eles querem fazer na lei autoral. Briguei muito junto com o Gonzaguinha, com a Joyce e mais um monte de gente para fazer essa lei que está valendo hoje. A diretoria da UBC são cinco autores e dois editores e um autor tem que ser presidente. Mas, da administração do dia a dia eu não participo, tanto que eu moro aqui e vou para as reuniões da diretoria. Sou, mais ou menos, um representante dos autores. Burocracia eu não gosto. Continuo não gostando nem de terno nem de burocracia. [ ] “ESSE PESSOAL QUE ESCREVE SOBRE MÚSICA, NORMALMENTE NÃO ENTENDE MUITO” n Você já foi repórter da revista O Cruzeiro e hoje escreve para o jornal Estado de Minas. Como você avalia a cobertura de cultura, especificamente de música, nos veículos de comunicação? n Porque você acha que grandes empresas, como a TV Globo, resistem em pagar os direitos? Ela está pagando, mas ela tinha um contrato em que pagava um tanto e, de repente, passou a falar que tinha que pagar menos. Então, ela está pondo preço e, na realidade, quem dá o preço, e que está lá na constituição, é o autor. E a pessoa para usar tem que pedir autorização ao autor. O preço do anúncio, por exemplo, no Jornal Nacional, quem dá é a Globo, não é o cliente. Na realidade o que se está discutindo nisso aí são valores. TV a cabo está sem pagar, tem vários processos, não pagaram, voltaram a pagar e agora não estão pagando mais. E as decisões na Justiça, elas demoram, mas a Justiça, como a lei nossa é muito boa, acaba sempre julgando a favor da gente. n Há uma crise da indústria fonográfica com a difusão do material pirata. Como fica para remunerar os artistas? A gente está numa fase de transição. Então, nesse primeiro momento está um pouco bagunçado, mas isso é natural. Mas, a mesma tecnologia que possibilita que a Esses cadernos de cultura, na realidade, tem um ou outro pessoa chegue a ter acesso a todas as músicas vai criar que é bom. Por exemplo, o do Estado de São Paulo é bom, outras maneiras de controlar isso, tipo, marca d'água dio do O Globo é mais ou menos. Eu acho que não tem uma gital. De repente a pessoa vai cobertura. No caso da música de Minas Gerais, tocar, mas vai conseguir saber eu acho que poderia ter um apoio muito maior. que aquele computador baixou Eu acho que a música mineira é reconhecida, tal música. Como não vai ter apesar de não ser muito ajudada pela mídia mais a coisa física, então vai “O ECAD, QUE HÁ 15 mineira. Eu acho que o pessoal não aprofunda. ficar mais barato e as pessoas Você vê as capas dos cadernos de cultura, eles ANOS ARRECADAVA vão ter acesso a uma coisa que publicam coisas que acontecem em Nova 10 MILHÕES, VAI é muito mais barata do que um Iorque, na Europa, em São Paulo ou um comCD que é vendido nas lojas de positor que apareceu no Rio, mas aqui eu acho FECHAR O ANO COM discos. Hoje, o mercado já tem que é pouco o espaço que a música mineira tem. 420 MILHÕES” acordo com o Youtube, as sociedades naturais do mundo n A internet entra como um grande colaboestão conversando e estão esturador para quem faz música independente. Você dando formas de controlar isso. É deixar que todo acha que de alguma forma isso afeta a qualidade mundo tenha acesso, mas que esse acesso não seja gratuidas produções,por causa da falta de filtro? to. Então esse é o momento de transição, está meio bagunçado, mas eu acho que vai chegar num ponto que Eu acho que o que vai ficar é o que for bom. Se a coisa seja bom para todo mundo. não for boa, ela pode ter algum sucesso, mas para poder permanecer ao longo dos anos, há um filtro natural, tanto n Como compositor, o que você que o que tem na época de rádio e de televisão, que eles acha da difusão de música pela internet? falam que tinha jabá, as músicas tocavam um, dois ou três meses e sumia, a menos que tivesse alguma qualidade. Eu acho que é um meio maravilhoso de difusão. É completamente caótico, porque difunde coisas ótimas, coisas n Você sempre resistiu em ocupar cargos horrorosas, mentiras, verdades, então é um negócio meio burocráticos, porque aceitou presidir a UBC? complicado porque não tem controle. A diferença de jornal, revista e televisão, é que o cara fala um negócio lá e Na realidade, a minha atuação é mais política do que você sabe quem é, não tem anonimato. Acho que anoniburocrática. Com burocracia eu não mexo não. Eu faço mato na internet é que é um negócio meio danado, ou o palestras, converso com os autores, vou reclamar no [ ] pessoal usa o nome de outra pessoa. Agora esse negócio da difusão da cultura, da música e tal, isso é fantástico. E esse negócio de informação, eu só acho que é demais. A internet dá tanta informação que ninguém retém nada. Esse negócio de muita informação quer dizer pouca informação ou nenhuma, porque a gente não consegue acompanhar. Fica esse pessoal todo atrás, toda hora e coisa que vai chegando, complicado. Não dá tempo nem de parar para pensar o que está acontecendo. n Quais providências a UBC tem tomado para resolver a questão da pirataria antes que seja desenvolvido um método específico para isso? Essa da Internet aí está se tentando exatamente uma negociação com o YouTube. Na realidade, você tem de ir é no provedor e não no consumidor. Aí o próprio provedor paga e depois, cobra lá do consumidor. E é uma tendência mundial. Isso é estudado há muitos anos, na realidade, esse negócio de baixar música, o download, é uma coisa que não vai permanecer muito tempo. É uma coisa que a juventude toda usa muito, mas a tendência é o que eles chamam "Streaming", é a rádio online, é você ter à disposição qualquer música na hora que você quiser. Aí entra naquele negócio lá, aí quem vai pagar é o cara que está colocando a música lá, o organizador. A tendência então é essa, é ficar uma coisa aí que você pode na hora que você quiser, vai lá e ouve. Parece que o futuro está indo mais para esse lado e facilita, porque aí o cara não vai baixar porque o cara que está disponibilizando é que vai ser o responsável, igual o rádio é responsável pela música que disponibiliza. n Numa parceria, o letrista quando canta tem mais visiblidade. Isso te incomoda? Não. Eu já me acostumei, porque na realidade quando eu comecei já era assim, o Milton era o cantor e aparecia. E só com o tempo que as pessoas começam a ver que tem outro ali. O que a gente gosta é que, por exemplo, a imprensa quando publica coloca o nome dos dois. É uma maneira do pessoal entender, mas é isso mesmo, porque faz parte, a pessoa aparece na mídia, na televisão e o pessoal liga. Porque antigamente acontecia muito, ainda continua acontecendo, que quando era menino eles chamavam assim 'uma música, uma criação de Emilinha Borba' e ela não fazia música, então criação era interpretação. Então não aparecia nem o compositor da música nem da letra, aparecia só o cantor. Mas isso aí faz parte. Mas estando registrado, na hora de pagar vai pagar igual. É meio a meio. n O seu público hoje permanece o mesmo ou você percebeu alguma mudança? Já tem filhos e netos, tem muita gente nova. A gente vê pelos shows do Milton, show do Flávio Venturini, do Lô [Borges]. A gente fez uma vez um negócio de pesquisa lá em Friburgo, aí era todo mundo cantando, eu, Tavinho, Toninho Horta. Aí você via o seguinte, que tinha gente da nossa idade e gente mais nova. O pessoal cantava tudo, e a platéia que era assim, ao ar livre, tinha tudo, tinha avô, pai, filho e neto, e todo mundo cantando, quer dizer, a pessoa passa para muita gente. Agora, a gente não sabe é quantidade, como que é. entrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevistaentrevista