UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE FACULDADE DE CIENCIAS HUMANAS E SOCIAIS CURSO DE PSICOLOGIA Análise do comportamento de críticas a reportagens sobre o tema célula-tronco: respostas dos leitores e inter-leitores Luciana Chequer Saraiva Orientador: João Carlos Muniz Martinelli Governador Valadares 2008 2 LUCIANA CHEQUER SARAIVA Análise do comportamento de críticas a reportagens sobre o tema célula-tronco: respostas dos leitores e inter-leitores Monografia para obtenção do grau de bacharel em Psicologia, apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Vale do Rio Doce. Orientador: João Carlos Muniz Martinelli Governador Valadares 2008 3 LUCIANA CHEQUER SARAIVA Análise do comportamento de críticas a reportagens sobre o tema célula-tronco: respostas dos leitores e inter-leitores Monografia apresentada como requisito para obtenção do grau de bacharel em Psicologia pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Vale do Rio Doce Governador Valadares, ___ de ____________ de _____. Banca Examinadora: __________________________________________ Prof: Msc. João Carlos Muniz Martinelli- Orientador Universidade Vale do Rio Doce __________________________________________ Prof. Msc. Marco Antônio Amaral Chequer Universidade Vale do Rio Doce ___________________________________________ Profa. Tatiana Amaral Nunes Universidade Vale do Rio Doce 4 Dedico este trabalho ao meu querido orientador João Carlos que me proporcionou contingências maravilhosas para o meu aprendizado como profissional da Psicologia. Obrigada coração! 5 Agradecimentos Sempre e incansavelmente irei agradecer primeiro a Cristo por tudo o que acontece em minha vida. Toda a minha vida e todas as minhas conquistas, cada passo que dou é consagrado a Ele. Porque por Ele e para Ele eu vivo. Em seguida a toda a minha família, em especial aos meus pais que sempre me apoiaram e me deram oportunidades incríveis para o meu crescimento pessoal e profissional. A Jefinho meu querido, companheiro, meu amor e melhor amigo. Ao Tio Marquinho pelo carinho e disponibilidade sempre que precisei, meu exemplo de competência profissional. A João Carlos pelo carinho, paciência e pelo conhecimento compartilhado sempre com muita empolgação e ética. A Prof. Tatiana Nunes por ter aceitado meu convite tão docemente. A todos os meus professores que contribuíram para meu crescimento intelectual. E, aos meus colegas de classe pelas alegrias compartilhadas durante todos estes anos. 6 SARAIVA, LUCIANA CHEQUER Análise do comportamento de críticas a reportagens sobre o tema célula-tronco: respostas dos leitores e inter-leitores. Trabalho de Conclusão de Curso do curso de psicologia da Universidade Vale do Rio Doce. 2008, xxpp. Orientador: Prof. João Carlos Muniz Martinelli. Resumo O presente trabalho tem como objetivo Analisar o comportamento de críticas a reportagens sobre células-tronco embrionárias sob a ótica da análise do comportamento. Foram levantados os comentários disponíveis no site Folha On-line sobre células-tronco, a freqüência total de comentários por mês, julgou-se o conteúdo dos comentários quanto à opinião favorável ou contra a aprovação da lei de Biossegurança de maio de 2008, classificou-se o conteúdo dos comentários quanto ao método, tratamento, ética e técnica do uso das células-tronco em pesquisas e terapias, analisou-se o comportamento de conhecer nos comentários, observando a demonstração do “saber sobre” o tema células – tronco embrionárias e por fim analisou-se o comportamento do leitor e inter-leitores sob a perspectiva de aprovação(reforçamento), reprovação(punição), reforçamento negativo(o que deveria fazer para evitar a punição). O site Folha on-line foi escolhido como fonte para esta pesquisa. Este site pode ser acessado pelo portal (www.folhaonline.com.br). É um site jornalístico que disponibiliza o acesso a publicações anteriores em parte. Do total de 690 comentários de todo o site, observou-se uma freqüência maior de respostas nos meses de março, abril e maio. A partir do mês de junho a freqüência de respostas diminui consideravelmente. Os meses que foram analisados a freqüência total de comentários foram os meses de março a setembro de 2008 e os meses que foram retirados os setenta comentários para análise foram de março a junho de 2008. Os resultados mostraram que o mês em que houve maior emissão de respostas foi o mês de março (n= 358), época em que começou a ser divulgada a possibilidade de aprovação da Lei de Biossegurança. Em seguida, dos setenta comentários analisados, as opiniões a favor (n=47) prevaleceram. De acordo com as categorias método, técnica, tratamento e ética analisadas, a ética prevaleceu nas opiniões (n= 50). Concluiu-se que os internautas respondem muito mais de acordo a sua história de valores no momento de emitir suas opiniões, bem como a internet se mostrou um ambiente propício para a interação das pessoas mesmo distantes geograficamente, e o quanto a mídia demonstrou ser uma agência de controle ativa sobre os leitores. Palavras-chave: Comportamento verbal, mídia, análise do comportamento, célulastronco embrionárias. 7 ABSTRACT This paper aims to analyze the behavior of the critical reports on embryonic stem cells from the viewpoint of behavior analysis. We raised the comments available on the site Folha Online on stem cells, the total frequency of comments a month, dismissed the entire contents of the comments about the favorable opinion or against approval of the Biosafety Law of May 2008, classified - whether the content of the comments about the method, treatment, ethics and technical use of stem cells in research and therapy, analyzed the behavior is to know in the comments, noting the demonstration of the "know about" the theme cells - embryonic stem and It was finally examined the behavior of the reader and inter-readers from the perspective of approval (reinforcement), disapproval (punishment), reinforcing negative (what you should do to avoid punishment). The site Folha Online was chosen as a source for this research. This site can be accessed by the portal (www.folhaonline.com.br). It is a journalistic site that provides access to previous publications in part. Of the total 690 comments from around the site, there was a higher frequency of responses in the months of March, April and May. From the month of June the frequency of responses decreased considerably. The months that have been analyzed the frequency of total comments were the months of March and September 2008 and the months that the seventy comments were taken for analysis were from March to June 2008. The results showed that the month in which there was greater issue of responses was the month of March (n = 358), season where it was disclosed the possibility of approving the Law on Biosafety. Then, the seventy comments analyzed, the views in favor (n = 47) prevailed. According to the categories method, technique, treatment and analyzed ethics, ethics prevailed in the reviews (n = 50). It was concluded that Internet users respond much more in accordance to its history of values at the time of issuing their opinions as well as the Internet was an environment conducive to the interaction of people even geographically distant, and how the media proved to be an agent of active control over the players. Key words: verbal behavior, media, behavior analysis, embryonic stem cells. 8 SUMÁRIO AGRADECIMENTOS ______________________________________________________________ 5 RESUMO ________________________________________________________________________ 6 1.APRESENTAÇÃO _______________________________________________________________ 9 2.OBJETIVO ____________________________________________________________________ 11 2.1.GERAL ______________________________________________________________________ 11 2.2.ESPECÍFICOS __________________________________________________________________ 11 3. REVISÃO DA LITERATURA ______________________________________________________ 12 3.1. A INTERNET _________________________________________________________________ 12 3.2. COMPORTAMENTO VERBAL E PRÁTICAS CULTURAIS ___________________________ 19 3.2. COMPORTAMENTO SOCIAL _________________________________________________ 29 3.3. COMPORTAMENTO VERBAL E MÍDIA__________________________________________ 38 3.4. O QUE SÃO CÉLULAS-TRONCO? _____________________________________________ 48 4.MÉTODO _____________________________________________________________________ 56 4.1. FONTE _____________________________________________________________________ 56 4.2. SOBRE A ANÁLISE DOS DADOS _______________________________________________ 56 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ____________________________________________________ 60 7. CONCLUSÃO ________________________________________________________________ 81 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ________________________________________________ 85 9 1. Apresentação O presente trabalho baseia-se numa coleta de dados realizada através do site Folha On-line, uma versão na internet da Folha de São Paulo. Este trabalho foi realizado diretamente no portal que pode ser acessado pelo site www.folhaonline.com.br. As informações coletadas foram os comentários dos leitores das reportagens no referido site. Em todo o portal é possível opinar sobre as matérias ali publicadas. Neste caso, foi escolhido o tema células-tronco embrionárias, sua utilização em pesquisas e terapias e aprovação de leis para a regulamentação do seu uso. A partir deste tema foram selecionados todos os comentários feitos entre os meses de março a junho de 2008. A análise do comportamento e suas teorias tem sido de grande importância para o estudo dos comportamentos em geral. Em se tratando do comportamento verbal, a vertente de análise proporciona conhecimentos muito novos e de grande valor para o estudo da linguagem e de todas as questões que envolvem este complexo comportamento do ser humano que é se comunicar através da fala, da escrita ou até mesmo através de sinais. É verdade que ainda há muito que se estudar em relação ao comportamento verbal humano, porém Skinner deixou uma ampla discussão e construções científicas interessantes para esta investigação. A visão da interação via internet é bastante contemporânea e nos proporciona uma área ampla a ser estudada a finco pelos cientistas atuais. Contudo, há vários trabalhos com o foco na mídia e em outros meios de comunicação de massa que unem as sociedades e suas práticas culturais. Para a investigação procedeu-se a revisão da literatura abordando os seguintes temas: comportamento verbal, práticas culturais, comportamento social e mídia. Com este estudo objetiva-se analisar o comportamento de conhecer dos leitores e interleitores ao fazerem seus comentários sobre determinado assunto; como estas pessoas informam seus conhecimentos e de que maneira exploram a assunto abordado. 10 A metodologia utilizada foi a pesquisa documental, quali-quantitativa, que parte da coleta de dados em um site da internet procurando observar a emissão de respostas dos internautas como objeto de pesquisa. Pretende-se responder então o seguinte problema de pesquisa: é possível analisar respostas de internautas emitidas via internet numa visão behaviorista do comportamento? 11 2.Objetivo 2.1.Geral Analisar o comportamento de críticas a reportagens sobre células-tronco embrionárias sob a ótica da análise do comportamento. 2.2.Específicos 1. Levantar comentários disponíveis no site Folha On-line sobre células-tronco. 2. Levantar a freqüência de comentários/mês. 3. Julgar o conteúdo dos comentários quanto à opinião favorável ou contra a aprovação da lei de Biossegurança de maio de 2008. 4. Classificar o conteúdo dos comentários quanto ao método, tratamento, ética e técnica do uso das células-tronco em pesquisas e terapias. 5. Analisar o comportamento de conhecer nos comentários, observando a demonstração do “saber sobre” o tema células – tronco embrionárias. 6. Analisar o comportamento do leitor e inter-leitores sob a perspectiva de aprovação(reforçamento)-reprovação(punição)-reforçamento negativo(o que deveria fazer para evitar a punição). 12 3. Revisão da literatura 3.1. A internet A Internet tem revolucionado o mundo dos computadores e das comunicações como nenhuma invenção foi capaz de fazer antes. A invenção do telégrafo, telefone, rádio e computador prepararam o terreno para esta nunca antes havida integração de capacidades. A Internet é, de uma vez e ao mesmo tempo, um mecanismo de disseminação da informação e divulgação mundial e um meio para colaboração e interação entre indivíduos e seus computadores, independentemente de suas localizações geográficas (Internet Society, disponível em: http://www.isoc.org/internet/history/brief.shtml, acessado em: 20/11/08). O Conselho Federal Networking (FNC) (Disponível em: www.nitrd.gov/archive/fnc-material.html, acessado em 20/11/08) foi fretado pelo Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia da Comissão da Computação, Informação e Comunicações (CCMI) para atuar como um fórum de colaboração entre as redes para satisfazer as suas agências federais de investigação, educação e missões operacionais e metas a completar o fosso entre as redes avançadas de tecnologias a serem desenvolvidas por agências de investigação FNC e a última versão da aquisição de maturidade dessas tecnologias no setor comercial. No dia 24 de outubro de 1995, o Conselho Federal Networking norte-americano aprovou por unanimidade uma resolução definindo o termo Internet. Esta definição foi desenvolvida em consulta com membros da Internet e comunidades de direitos da propriedade intelectual e diz o seguinte: Internet se refere ao sistema de informação global que (1) é logicamente ligado por um endereço único global baseado no Internet Protocol (IP) ou suas subseqüentes extensões; (2) é capaz de suportar comunicações usando o Transmission Control Protocol/Internet Protocol (TCP/IP) ou suas subseqüentes extensões e/ou outros protocolos compatíveis ao IP; e (3) provê, usa ou torna acessível, tanto publicamente como privadamente, serviços de mais alto nível produzidos na infra-estrutura descrita. 13 O uso da internet nos dias de hoje se torna cada dia mais comum. Este sistema de comunicação, entretenimento e interação é utilizado em todo o mundo e acessível à maioria das pessoas. As estatísticas sobre bens e serviços que contribuem para o acesso à informação e comunicação são instrumentos valiosos para subsidiar o planejamento nacional e as políticas públicas voltadas para o desenvolvimento tecnológico do País. Os avanços das tecnologias da informação e das comunicações – TIC - vêm-se refletindo em todo o mundo, embora com intensidade diferenciada em função do nível de desenvolvimento das sociedades ou de outros fatores (políticos, culturais, etc.). Tendo em vista o impacto dessas tecnologias como fatores propulsores do desenvolvimento econômico e social dos países, cada vez mais se torna necessário acompanhar a sua evolução (PNAD, 2005). De acordo com publicação da UNESCO em 2005 sobre o programa “Educação para todos: Garantir o acesso universal a educação e a tecnologias de informação e comunicação” desde 1980 o Programa Internacional para o Desenvolvimento da Comunicação (IPDC) assiste aos países em desenvolvimento a reforçarem as suas capacidades de comunicação e melhorar a formação nesta área. O novo programa intergovernamental "Informação para Todos" (IFAP), criado em janeiro de 2001 como uma plataforma de reflexão e de ação para ajudar a reduzir o fosso digital, será um instrumento complementar para esta finalidade: prevê-se a fornecer um quadro de referência e ajudar a definir as principais linhas de ação neste campo. Cooperação entre IPDC e IFAP vai ser reforçado para assegurar uma utilização ótima dos recursos disponíveis. A globalização e as TIC afetam a livre circulação de idéias e de acesso universal à informação em duas maneiras. Primeira, há novas ameaças e perigos decorrentes da utilização dos novos meios de comunicação, tais como incitamento à violência, a intolerância e o ódio ou um aumento do cyber-crime. Além do mais, o aumento da concentração e crescente número de mega-fusões entre grandes companhias de mídia pode muito bem levar a restrições à liberdade de expressão e de pensamento nos limites e para a livre circulação de idéias e de acesso à informação. Segundo, pela multiplicação das oportunidades de ligação entre indivíduos e comunidades e por facilitar o acesso às informações, idéias e conhecimentos as TIC podem permitir a estes grupos Superar a exclusão e escapar de seu isolamento. Da mesma maneira, aumentar e alargar as TIC há 14 possibilidades para a participação dos cidadãos nos governos e os processos de decisão. O papel da UNESCO será intelectual para promover a cooperação internacional e para mobilizar a opinião do mundo público e de todos os seus parceiros para a promoção e defesa da liberdade de expressão e o direito à informação - que está intimamente ligado ao direito à educação. Para este fim, a UNESCO irá promover o formulação de princípios universalmente reconhecidos e comum de normas éticas relacionadas ao uso das TIC. Neste contexto, a Organização incidirá sobre os seguintes sub-objetivos: Promover a liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o pluralismo e a independência dos meios de comunicação. O sistema de pesquisas domiciliares, implantado progressivamente no Brasil a partir de 1967, com a criação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD, tem como finalidade a produção de informações básicas para o estudo do desenvolvimento socioeconômico do País. Trata-se de um sistema de pesquisas por amostra de domicílios que, por ter propósitos múltiplos, investiga diversas características socioeconômicas, umas de caráter permanente nas pesquisas como as características gerais da população, de educação, trabalho, rendimento e habitação, e outras com periodicidade variável, como as características sobre migração, fecundidade, nupcialidade, saúde, nutrição e outros temas que são incluídos no sistema de acordo com as necessidades de informação para o País. Em 2005, o levantamento suplementar foi sobre acesso à Internet e posse de telefone móvel celular para uso pessoal. De acordo com pesquisa do IBGE foi investigado o local em que as pessoas acessam à Internet e os resultados mostraram que 52,4% dos internautas utilizaram mais de um deles no período de referência dos últimos três meses de 2005. No total de pessoas que utilizaram a Internet metade (16,1 milhões) acessou no domicílio em que morava e 39,7% em seu local de trabalho. O uso da Internet em centro público de acesso gratuito foi o que apresentou o menor percentual (10,0%), representando menos da metade do referente à utilização em centro público de acesso pago (21,9%). O acesso em estabelecimento de ensino atingiu 25,7%. De acordo com esta mesma pesquisa, os usuários da Internet se distinguiram sensivelmente, em termos de várias características (tais como, idade, nível de instrução, rendimento etc), ao se considerar as finalidades do acesso a esta rede. A 15 mais alta idade média foi a das pessoas que usaram a Internet para efetuar transações bancárias e financeiras (35,8 anos), vindo em seguida a das que a acessaram para interagir com autoridades públicas ou órgãos do governo (35,1 anos) e comprar ou encomendar bens ou serviços (34,2 anos). Essas três idades médias ficaram sensivelmente distanciadas daquelas das pessoas que acessaram para as demais finalidades. A menor idade média foi a das pessoas que utilizaram a Internet para atividades de lazer (24,8 anos). Em todas as finalidades, as idades médias das mulheres ficaram um pouco abaixo das referentes aos homens. O IBGE (2005) ainda mostrou que não ter acesso a microcomputador era o principal motivo para não utilizar a rede. A impossibilidade de acesso ao microcomputador foi o principal motivo alegado pelas pessoas que não utilizaram a Internet (37,2%). Entre os estudantes, não acessaram a rede por esta razão aproximadamente metade deles (50,6%). A parcela das pessoas que não usaram a Internet por não acharem necessário ou por não quererem ficou em 20,9% e a das que não sabiam utilizar a rede, em 20,5%. Entre as três principais razões para a não-utilização citadas acima, os maiores percentuais foram registrados no Distrito Federal (51,6% alegaram não ter acesso a microcomputador); Santa Catarina (28,7% não acharam necessário ou não queriam), e no Amazonas (41,3% não sabiam utilizar). A parcela de pessoas que não utilizaram a Internet devido ao alto custo dos microcomputadores alcançou 9,1%. Conforme atesta o IBGE, e de acordo com dados do PNAD 20051, “... Vinte e um por cento (32,1 milhões) da população de 10 anos ou mais de idade acessaram pelo menos uma vez a Internet em algum local - domicílio, local de trabalho, estabelecimento de ensino, centro público de acesso gratuito ou pago, domicílio de outras pessoas ou qualquer outro local - por meio de microcomputador...” E ainda, “... Dentre os 32,1 milhões de pessoas que acessaram a Internet, em 2005, a maior parte era de homens(16,2 milhões), tinha entre 30 a 39 anos (5,8 milhões), 13,9 milhões eram 1 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/2005. 16 estudantes, 20 milhões integravam a população ocupada e 4,2 milhões era de trabalhadores de serviços administrativos...” 2 Número de usuários de internet no Brasil Ano Número de usuários 1991 5000 1992 20000 1993 40000 1994 60000 1995 170000 1996 740000 1997 1310000 1998 2500000 1999 3500000 2000 5000000 2001 8000000 2002 14300000 2003 18000000 2004 22000000 2005 32129971 Fonte: United Nations – Undata3. No ano de 2005, estimava-se que o número de usuários de internet no mundo chegava a 407 milhões ao final do ano 2000, excedendo em 2005 a 1 bilhão de usuários (UNESCO, 2005). 2 IBGE contou 32,1 milhões de usuários da internet no país. Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=846; acesso em novembro de 2008. 3 In: http://data.un.org/Data.aspx?q=internet&d=CDB&f=srID%3a29972 17 A PNAD Internet mostrou, também, que a maior parte dos internautas acessou a rede pelo menos uma vez por semana, mas não todo dia (47,3%); mais de um terço (36,3%) pelo menos uma vez por dia; 11,7% pelo menos uma vez por mês, mas não toda semana. Os percentuais de usuários da Internet que a utilizaram pelo menos uma vez ao dia foram maiores no Centro-Oeste (39,6%), Sudeste (38,6%) e Sul (37,7%); e menores nas regiões Norte (26,2%) e Nordeste (27,6%). As Unidades da federação que apresentaram os menores percentuais de pessoas que a acessaram a rede com mais intensidade (pelo menos uma vez por dia) foram o Piauí (16,7%), Amapá (17,4%) e Roraima (18,8%). No outro extremo e destacado dos resultados das demais unidades da federação, situou-se esse indicador do Distrito Federal (47,8%). De acordo com Félis (2008), com o advento da internet e as profundas mudanças sócio-culturais que ela vem causando alguns conceitos aos quais se estava acostumado vêm se modificando. As concepções de constituição dos saberes também sofrem com tais mudanças, pois, como afirma Marcuschi (2004 apud FÉLIS, 2008) “a internet é uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo”. Pela importância que se atribui à consideração da estrutura discursiva da interação face-a-face, também é importante que se busque compreender de que forma a interação on-line acontece e em que consiste a sua influência nos discursos diários, a tal ponto que se acaba por desafiar as noções tradicionais de discurso e interação (FÉLIS, 2008). O mundo dos computadores e da internet vem revolucionando a forma de interação entre os homens de uma maneira como a televisão e o rádio fizeram em suas épocas, porém, parecendo que com uma maior abrangência. A produção e distribuição de conhecimento tornaram-se rápidas e eficazes, levando a milhares de pessoas informações que só chegariam a alguns lugares com algum atraso (FÉLIS, 2008). De acordo com Félis (2008), os inúmeros recursos que proporcionam ao usuário, as diversas formas de interação e fascínio do acesso ilimitado aos acontecimentos mundiais possibilitados por um “click”, criam e aumentam a necessidade do homem em dominar essa ferramenta de mediação que tem proporcionado novas formas de comunicação e interação. 18 Diferente da interação face-a-face, a interação virtual ocorre entre interlocutores geograficamente dispersos que, apesar de utilizarem a forma escrita como meio de comunicação, realizam suas “trocas conversacionais” (MARCUSCHI, 2000 apus FÉLIS, 2008), com uma velocidade que chega a se assemelhar aos rituais conversacionais. A diferença nas trocas de “turnos virtuais” com as trocas face-a-face estaria no fato de que aqueles são do tipo escreva-uma-vez-e-seja-lidopara-sempre pois, enquanto as palavras usadas na conversação desaparecem depois que são ditas ou se esvaem da memória, nas trocas on-line, ao contrário, o formato das interações virtuais podem ser gravadas a qualquer momento (FÉLIS, 2008). Este seria um dos motivos para que a escrita on-line proporcione ao cientista uma oportunidade de medir e de se pesquisar variáveis verbais nesse tipo de interação. A Internet hoje é uma larga infra-estrutura de informação, o protótipo inicial do que é freqüentemente chamado a Infra-Estrutura Global ou Galáxica da Informação. A história da Internet é complexa e envolve muitos aspectos - tecnológicos, organizacionais e comunitários. E sua influência atinge não somente os campos técnicos das comunicações via computadores mas toda a sociedade, na medida em que usamos cada vez mais ferramentas on-line para fazer comércio eletrônico, adquirir informação e operar em comunidade (Internet Society, disponível em: http://www.isoc.org/internet/history/brief.shtml, acessado em: 20/11/08). 19 3.2. Comportamento verbal e práticas culturais Segundo Snow (1977 apud BAUM, 1999) o comportamento verbal começa a ser reforçado desde muito cedo quando ainda se é bebê. A autora notou que o comportamento da mãe conversando com o bebê é estímulo discriminativo para o bebê. Durante os primeiros meses de vida, a criança era estimulada pela mãe. Esta conversava com o bebê numa determinada freqüência estimulando seus sentidos. Por volta dos sete meses de idade a interação desses bebês havia aumentado consideravelmente. Este estudo mostrou o quanto a interação verbal entre mãe e filho pode aguçar os sentidos do bebê se estimulado desde cedo, produzindo, assim, uma interação maior do bebê com o mundo que o cerca. O Comportamento verbal é um tipo de comportamento operante. Podemos dizer que são atos de comunicação. A comunicação é um processo de produção e compartilhamento de significados por meio da materialização de signos. Todo processo de comunicação possui um emissor, um receptor e uma mensagem, e tal processo é bem sucedido quando o receptor compreende adequadamente a mensagem transmitida pelo emissor, ou em outras palavras, quando um mesmo significado é compartilhado pelo emissor e pelo receptor. Comunicar, portanto, é fazer o receptor compreender adequadamente o significado de uma mensagem (FILHO, 2008). Porém, comunicação seria a categoria mais ampla porque todo comportamento verbal poderia ser chamado de comunicação, mas nem toda comunicação é um comportamento verbal. O comportamento verbal em si depende exclusivamente de suas conseqüências, por ser um tipo de comportamento operante, e, como tal, tende a ocorrer apenas no contexto em que há probabilidade de ser reforçado (BAUM, 1999). Outro aspecto importante do comportamento verbal é a exigência de duas pessoas categorizadas como falante e ouvinte. O importante da interação entre ambos é o reforço dispensado pelo ouvinte, o que irá qualificar se o comportamento verbal do falante foi realmente satisfatório, ou não (BAUM, 1999). 20 De acordo com Skinner (1978), no seu clássico livro O comportamento Verbal, “o falante é o organismo que se engaja num comportamento verbal ou que o executa. É também um lugar no qual certo número de variáveis se reúne numa única confluência para produzir também um comportamento único” (SKINNER, 1978, p. 373) Para Skinner (1978) comportamento verbal é um operante modelado e mantido por conseqüências mediadas por outros. Poderia ser explicado pela descrição de relações funcionais entre organismo e ambiente. De acordo com Glenn (1986), o comportamento verbal é uma ligação fundamental entre contingências e metacontingências, ao menos de dois modos. Primeiro, o comportamento verbal em forma de regras preenche o vácuo existente entre o comportamento e a conseqüência em longo prazo. Isto é, o comportamento verbal possibilita que um ato único, a declaração de uma regra, ocorra em resposta a eventos amplamente dispersos no tempo. Como um estímulo discriminativo a regra deve então fazer parte da contingência de reforçamento que gera e mantém comportamento, que não ocorreria na sua ausência. O segundo modo como o comportamento verbal participa das metacontingências, é quando o reforçamento social fornece as conseqüências que mantém o comportamento sob controle das regras, até o momento em que as conseqüências em longo prazo possam ser distinguidas. Stemmer procura ampliar o alcance da explicação skinneriana descrevendo processos de aprendizagem relacional e sintático-gramatical em termos do estabelecimento de discriminações e generalizações, enfatizando o papel de ouvinte como condição necessária à aprendizagem do falante (STEMMER, 1992 apud BRINO & SOUZA, 2005). Comportamento verbal compreende eventos concretos; quando se fala em linguagem há uma série de conceitos que não se adaptariam ao conceito de comportamento verbal. A linguagem tem um caráter de coisa, algo que a pessoa adquire e possui. Os psicólogos falam de “aquisição da linguagem” por parte da criança. As palavras e sentenças que compõem uma língua são chamadas instrumentos usados para expressar significados, pensamentos, idéias, proposições, 21 emoções, necessidades, desejos e muitas outras coisas que estão na mente do falante (Skinner, 1993). Linguagem seria então uma abstração. O uso de uma linguagem seria exatamente o próprio comportamento verbal. Há um ponto em comum entre o comportamento verbal, o uso da linguagem e o comportamento vocal, mas não significa que não existam exceções (BAUM, 1999). Algumas noções de comportamento verbal se diferenciam das concepções usuais de linguagem e fala; o comportamento verbal consiste em atos que pertencem a classes operantes definidas funcionalmente e sujeitas a controle de estímulo (BAUM, 1999). Skinner categorizou o comportamento verbal em operantes verbais elementares, o responder relacional e os operantes verbais de segunda ordem. Os operantes verbais elementares são representados pelo comportamento ecóico (comportamento verbal controlado por estímulo auditivo antecedente produto da resposta verbal de outrem, também audível); comportamento de copiar (o antecedente seria um texto escrito ou impresso e o produto da resposta seria o mesmo); comportamento de ditado (o antecedente seria um estímulo auditivo produto da resposta vocal de alguém e que controlaria uma resposta escrita); e o comportamento intraverbal (estímulo verbal antecedente controla uma resposta verbal). A conseqüência social responsável pela manutenção e estabelecimento desses tipos de operantes verbais seria o reforço generalizado (BRINO e SOUZA, 2005). Outras duas classes de operantes verbais foram também definidas: o mando e o tacto. O tacto apresentaria como estímulo controlador antecedente um estímulo não-verbal em que a resposta refere-se a ou descreve diretamente o seu evento controlador. O mando teria sua análise funcional vinculada a estímulos aversivos ou condições de privação; neste caso, dada uma estimulação aversiva presente, a resposta verbal apontaria um reforçador específico (BRINO e SOUZA, 2005). Com relação ao responder relacional, trata-se aqui da aprendizagem de estruturas gramaticais, a produção de novas estruturas que demonstram a recombinação de componentes, o tatear ações etc. Esse tipo de operante verbal pode ser controlado por eventos ambientais cujas propriedades de controle não 22 podem ser determinadas em termos das características formais desses eventos (BRINO e SOUZA, 2005). Para os operantes verbais de segunda ordem, Skinner faz uso do termo autoclítico, em referência ao que descreve, qualifica ou comenta respostas verbais primárias e, com isso, altera o efeito da primeira resposta sobre o ouvinte, para tornar o discurso organizado e efetivo de acordo com as contingências. O autor apresentou quatro tipos de operantes desta ordem: Autoclíticos descritivos (o falante pode descrever seu próprio comportamento verbal, além de poder descrever a força de suas respostas, as variáveis controladoras, bem como emoções ou motivações); autoclíticos qualificadores (qualificam um tacto de tal forma que a intensidade ou a direção da conduta do ouvinte em relação ao tacto elementar é modificada. Entre eles estão a afirmação, a negação, advérbios e sufixos. Variações deste tipo funcionam como mandos para o ouvinte); autoclíticos quantificadores (indicam ou uma propriedade da conduta do falante ou as circunstâncias responsáveis por tal propriedade. Estão inclusos os artigos de número e gênero e os adjetivos e advérbios de quantidade ou tempo); e autoclíticos relacionais (é controlado por relações entre operantes verbais básicos. Permite a organização do comportamento verbal em unidades maiores do que aquelas possibilitadas pelos operantes verbais elementares estabelecendo relações internas entre operantes verbais distintos) (BRINO e SOUZA, 2005). Falar em significado gera certo desconforto para os analistas do comportamento por este termo padecer de todas as limitações que uma teoria mentalista possa ter. Toda palavra ou sentença tem um significado, e o significado contido nessa verbalização é passado do falante para o ouvinte (BAUM, 1999). O significado de uma resposta não está em sua topografia ou forma; deve ser buscado em sua história antecedente. O behaviorista é acusado de descrever o meio ambiente em termos físicos, negligenciando o que ele significa para a pessoa que responde; também neste caso, contudo, o significado não está no ambiente atual, mas numa história de exposição a contingências nas quais ambientes semelhantes representam um papel (Skinner, 1993). Skinner (1993, p.81) ainda acrescenta: “(...) o significado não é corretamente visto como uma propriedade ou da resposta, ou da situação, mas sim como 23 propriedade das contingências responsáveis pela topografia do comportamento e do controle exercido pelos estímulos”. A representação de símbolos se dá depois de uma história de reforço adequada para o reconhecimento daquele símbolo e de sua representação. Isso é investigado pelos analistas de comportamento através do conceito de equivalência de estímulos. Então, deve ser explicada a importância do contexto para a explicação desses fatos. Uma mesma palavra ou sentença pode ser dita em vários contextos diferentes e ter representações completamente distintas. Isso tudo dependerá do aprendizado tanto do ouvinte quanto do falante em termos de equivalência de estímulos. O uso do termo significado para os analistas de comportamento é simplesmente inadequado. Os behavioristas falam sobre o uso ou função de um ato ou uma verbalização. Segundo Baum (1999), o “significado” do comportamento verbal está em seu uso, suas conseqüências dentro do contexto. Perguntar qual o significado de um termo é perguntar qual o contexto e quais as conseqüências de sua ocorrência. Na Análise Experimental do Comportamento, "Controle de Estímulos" configurou-se como uma área de pesquisa de extrema relevância científica e social, por suas implicações à compreensão crescente de processos comportamentais complexos, tais como o aprendizado da linguagem, da noção de "significado" e dos comportamentos simbólicos, em geral. Inserida na Análise Experimental do Comportamento, a área de "Controle de Estímulos" está no contexto do Behaviorismo Radical de Skinner. Em outras palavras, constitui-se parte do corpo de investigação da ciência do comportamento proposta por aquele autor, tendo como objetivos a previsão e o controle dos fenômenos e, como objeto de estudo, o comportamento. Sendo assim, pesquisa-se comportamento, entendendo-o como uma parte das atividades do organismo, em interação com o ambiente. (Skinner, 1938, apud Hübner, 2006). Busca, nesta direção, o estudo sistemático das relações funcionais do comportamento, concebendo-as como descrições das ações do organismo e das condições diante das quais estas ações ocorrem. Coerentemente com a proposta de ciência em que seu corpo investigativo está e com a filosofia behaviorista radical, tem como instrumental de análise as contingências de reforçamento, que especificam três condições: 1) uma situação antecedente, que pode ser descrita em termos de estímulos discriminativos – pela função controladora 24 que podem exercer sobre o comportamento; 2) uma resposta ou classe de respostas do organismo que, se emitida na presença de tais estímulos discriminativos, tem como conseqüência... 3) alguma alteração no ambiente, que não ocorreria se tal resposta fosse emitida na ausência do referido estímulo discriminativo mencionado no primeiro item ou se a resposta não ocorresse (Todorov, 1982 apud Hübner, 2006). Para que o controle de estímulos se estabeleça, é necessária uma história de reforçamento diferencial: na presença de determinados estímulos, respostas ou classe de respostas, serão seguidas de reforçamento e, na ausência destes estímulos ou em presença de outras, estas mesmas respostas não serão seguidas de reforçamento (Hübner, 2006). Comportando-se verbalmente se é reforçado durante longos períodos, por muitas pessoas, em diferentes situações, e com efeitos diferentes (conseqüências) assim como circunstâncias os resultados do mesmo comportamento dependendo das (produtos). Comportamento verbal, entretanto, aparece mais comumente não tendo conseqüências mantenedoras, mas somente porque estas conseqüências são generalizadas e não-óbvias (Guerin & Junichiro, 1997). Uma questão que é de extrema importância a ser comentada neste tema é o conceito de seleção pelas conseqüências. Seleção pelas conseqüências segundo Skinner (2007), é um modo causal encontrado unicamente em coisas vivas ou em máquinas feitas por elas. Explica também, a modelagem e a manutenção do comportamento do indivíduo e a evolução das culturas, uma teoria ampla subdividida em três tipos de seleção: seleção natural, seleção comportamental e seleção cultural. Para todos os tipos de comportamento esta teoria tem permitido entender a construção de cada comportamento. A seleção natural indica as contingências de sobrevivência. Desde a origem das espécies é atribuído o sistema se seleção natural, descrito por Charles Darwin. Esta seleção demonstra a variação quanto à genética, estrutura e função dos membros individuais de cada espécie. A seleção comportamental indica as contingências de reforçamento. Está diretamente ligada à forma do comportamento, a distribuição de atividades durante o tempo ou a relação de atividades para um evento empírico (dentro ou fora da pele 25 do organismo que se comporta). Este tipo de contingência dá suporte à evolução ontogenética. O desenvolvimento das relações entre os organismos e o ambiente é mediado pelas características do organismo que foram selecionadas através das contingências de sobrevivência. A seleção cultural indica as metacontingências. A unidade de análise do nível cultural envolve uma relação funcional entre práticas culturais e seus efeitos. Estas metacontingências devem ser distinguidas das contingências de reforçamento, pois a unidade de análise é diferente. As práticas culturais não podem ser vistas como operantes, e sim como um conjunto de relações de operantes funcionais de diferentes indivíduos. A forma de uma prática cultural é definida pela combinação de operantes interligados construindo a prática. Skinner (1999) também esclarece esta questão de que o comportamento do organismo como um todo é produto destes três tipos de variação e seleção e acrescenta que todos os tipos de variação e seleção têm certas falhas, e uma delas é especialmente crítica para a seleção natural: ela prepara a espécie somente para um futuro que se assemelhe com o passado que a selecionou. O comportamento da espécie só é eficaz num mundo que se assemelhe bastante ao mundo em que a espécie evoluiu. Uma segunda falha na variação e seleção é fundamental para o condicionamento operante: a seleção deve acompanhar a variação. O processo, conseqüentemente, é em geral lento. Isto não foi um problema para a seleção natural porque a evolução poderia levar milhões de anos, mas um repertório de comportamento operante tem que ser construído durante o espaço de uma vida. Metacontingência é a unidade de análise que engloba as práticas culturais, em todas as suas variáveis, e a junção dos resultados finais de todas as variáveis. O produto final das práticas culturais devem ser especificadas empiricamente. Por exemplo, o número de crianças que podem ler num certo nível de eficiência é o resultado final de práticas educacionais (Glenn, 1988). Glenn (1986) analisa que um operante é um grupo de respostas de topografias variadas que foram aglutinadas em uma classe funcional por terem produzido uma conseqüência comum. A contingência de reforçamento é a unidade de análise que descreve as relações funcionais entre o comportamento operante e o ambiente com o qual o organismo que se comporta interage. A contingência de reforçamento envolve um processo de seleção no nível comportamental que mantém 26 um paralelo com o processo filogenético chamado seleção natural, devendo sua existência a ele. Embora muitas das relações que surgem entre o comportamento operante e o ambiente se configuram como o resultado de uma história individual – a maioria das relações estabelecidas entre seres humanos e o ambiente assim se caracteriza – o processo é diretamente mediado pela biologia do organismo. A autora descreve, então, a partir dessa análise, que o conceito de metacontingência é a unidade de análise que descreve a relação funcional entre uma classe de operantes, cada operante possuindo sua própria conseqüência imediata e única, e uma conseqüência em longo prazo comum a todos os operantes que pertencem à metacontingência. Metacontingências devem ser mediadas por contingências de reforçamento socialmente organizadas. Como exemplo, as conseqüências em longo prazo para a prática de redução da poluição do ar. A cultura é uma unidade que não pode ser reduzida a um comportamento; e um operante é uma unidade que não pode ser reduzida a uma atividade neural ou muscular (Glenn, 1989 apud White, 1049). Tudo está interligado e precisa ser entendido em todas as suas partes; não há como reduzir nenhum tipo de comportamento, por menor que ele seja, pois existem funções as quais o comportamento está ligado, explicando, assim, sua origem e seu controle. Para Glenn (1989), dois pontos importantes devem ser considerados a respeito da perspectiva da evolução cultural: “Primeiro, a origem das comunidades verbais (oradores e ouvintes) está nas contingências da seleção natural e nas contingências do reforço responsável pelo comportamento não verbal. Em segundo lugar, as comunidades verbais sobrevivem até o momento em que suportam o comportamento não verbal que é propício para a sobrevivência dos indivíduos e suficiente para manter as contingências de reforço que compõem as práticas culturais” (p. 13). 4 4 “First, the origin of verbal communities (speakers and listeners) lies in the contingencies of natural selection and the contingencies of reinforcement responsible for nonverbal behavior. Second, verbal communities support survival only so long as they support nonverbal behavior that is conducive to survival of enough individuals to maintain the contingencies of reinforcement that comprise cultural 4 practices” (p. 13). 27 Em seu texto Metacontingencies in Walden Two, Glenn (1986), analisa os processos culturais de contingências e metacontingências envolvidos numa sociedade utópica e quase que perfeitamente organizada descrita em Waldem Two por Skinner, em 1948. A autora fala de dois processos culturais citados no livro chamados de tecnológico e cerimonial; como sendo duas forças opostas que agem sobre a cultura e a sociedade. As contingências tecnológicas envolvem comportamentos que são mantidos por mudanças não arbitrárias no ambiente. Os reforços que participam das contingências tecnológicas derivam seu poder de sua utilidade, de seu valor, ou de sua importância às pessoas que estão envolvidas nesses tipos de contingências, assim como de outras. Por outro lado, contingências cerimoniais envolvem comportamentos mantidos por reforços sociais os quais derivam seu poder do status, da posição ou da autoridade do agente reforçador independentemente de qualquer relação com as mudanças ambientais que, direta ou indiretamente, beneficiam as pessoas que se comportam. Glenn (1988) menciona várias vezes que práticas culturais têm resultados finais e eles são empíricos e passíveis de mensuração. Os elementos básicos das contingências de reforçamento são as atividades dos organismos em determinados tipos de ambientes e suas conseqüências (mudanças no mundo) contingentes a estas atividades. O tamanho de uma unidade comportamental pode variar durante o tempo, e unidades semelhantes podem ser observadas nos repertórios de outros indivíduos, mas uma unidade comportamental é específica de um organismo individual. Características comuns em unidades comportamentais de diferentes organismos podem ser vistos como similares à concepção biológica de convergência. Por exemplo, o comportamento de vários pais em resposta ao seu filho chorando pode ter características comuns (estruturais e funcionais), mas o comportamento de cada pai terá sua característica própria em sua história de contingências. Contingências comportamentais envolvem relações contingentes entre a atividade específica e individual de um organismo e os eventos ambientais específicos, e cada comportamento de cada organismo tem suas peculiaridades e tem suas histórias que são únicas. Quando as relações comportamentais de determinado ambiente são feitas das ações de outras pessoas (e seus produtos), e os comportamentos dessas pessoas são condicionados por tipos de contingências 28 similares, uma prática cultural se propaga. O comportamento de qualquer participante (novo bebê, novo pai, novo empregado, etc) é modelado e instruído por aqueles que já estão envolvidos na prática. O comportamento do novo participante é, em parte, uma função daquelas contingências providas pelas outras pessoas. No entanto, os eventos ambientais acoplados com os comportamentos das outras pessoas, acabam por incluir o comportamento do novo participante. A interlocução dos comportamentos individuais constituem as práticas culturais que produzem diferentes resultados finais. (Glenn, 1988). Segundo Glenn (1988) a instabilidade dos sistemas culturais pode ocorrer quando a complexidade destas atinge um ponto em que os resultados finais dessas práticas consistentemente falham ao voltar para a questão de interlocução das contingências de reforçamento, comprimindo tais práticas. A complexidade dessas práticas obscurece a relação entre o comportamento individual e os resultados finais das práticas culturais. De acordo com autora, Skinner (1948) e Harris (1981) haviam sugerido pequenas comunidades com seus membros interagindo face-a-face como uma solução para os problemas endêmicos de grande escala, em culturas complexas como as de hoje em dia. Estas comunidades estariam mais preparadas para manter contingências comportamentais próximas aos resultados de uma prática. 29 3.2. Comportamento social Glenn & Field (1994) descreveram a importância do ambiente na evolução do comportamento humano partindo, primeiramente, do comportamento de cada indivíduo. Segundo estes autores, diferentemente da evolução orgânica baseada na seleção natural, a evolução do comportamento humano ocorre durante toda a vida de cada organismo em particular e a evolução do comportamento humano dependeria de um segundo tipo de seleção, que é o que Skinner chamou de seleção pelas conseqüências. Através da perspectiva da seleção pelas conseqüências, a evolução orgânica descreve a existência de um processo comportamental que é parte das qualidades da espécie humana – a filogênese. Os processos de evolução do comportamento (p. ex. modelação, aprendizagem, imitação), por sua vez, possibilitam a explicação de muitos dos “ingredientes” do repertório humano de cada indivíduo – a ontogênese (Glenn & Field, 1994). A função do ambiente com respeito à origem e a existência contínua da unidade dos operantes é algo seletivo. Como apontou Skinner (1981, apud Glenn & Field, 1994), a seleção é uma causa diferente das outras causas das ciências físicas, sendo separada no tempo pela evidência de seus efeitos. Uma das dificuldades para se entender a seleção como causa pode ser a de se deparar com características como o que é causado pelas conseqüências – ou quais as conseqüências da seleção. Uma conseqüência da seleção natural é uma população de organismos distribuída por espaços e tempos que existem como uma unidade evoluída – a espécie. Uma conseqüência do comportamento selecionado é uma população de respostas naturais distribuídas por tempo e espaço que existem como uma unidade evoluída – o operante. De acordo com Glenn & Field (1994), nós temos formatado os processos de seleção que descrevem funções evoluídas do ambiente com respeito aos operantes. Contingências de reforçamento descrevem a origem e continuidade da existência de repertórios operantes. Se as contingências falham em um determinado operante, 30 esta unidade se torna extinta. Contingências de punição descrevem as alterações das freqüências das unidades de operantes nas sub-populações. Ao estudar o comportamento individual e como ele é formado e adquirido é possível entender o funcionamento social do comportamento. O comportamento social pode ser definido como o comportamento de duas ou mais pessoas em relação a uma outra ou em conjunto em relação ao ambiente comum. O comportamento social surge porque um organismo é importante para outro como parte de seu ambiente (SKINNER, 2007). Segundo Pierce (1991 apud ANDERY, MICHELETTO & SÉRIO, 2005, p.130), comentando a definição de Skinner sobre comportamento social, apresenta dois exemplos que ilustram a abrangência dos comportamentos que seriam chamados de comportamento social: “o comportamento sexual é social porque os parceiros respondem ´um em relação ao outro´ e cooperação é social porque duas ou mais pessoas precisam coordenar suas respostas em relação a um ´ambiente comum´. Como destaca Guerin (1994 apud ANDERY, MICHELETTO & SÉRIO, 2005), podemos falar em comportamento social quando uma outra pessoa estiver envolvida em qualquer um dos três elementos de uma contingência de reforçamento (estímulos antecedentes, respostas ou estímulos conseqüentes) ou, como ele prefere, quando estivermos diante de contingências com “propriedades sociais”, ou seja, diante de “quaisquer contingências em que uma outra pessoa estiver envolvida, seja como estímulo contextual, como um determinante de conseqüências, ou como parte do próprio comportamento (do grupo)”. De acordo com Keller & Schoenfeld (1968), os estímulos sociais não são diferentes dos outros estímulos em suas dimensões. Eles diferem apenas em suas origens; provém de outro organismo, do seu comportamento ou de produtos dele. Estes estímulos também não diferem quanto a função daqueles de origem inanimada; eles atuam eliciando, surgem porque os estímulos sociais passam a exercer essa função. Segundo Skinner (2007) o indivíduo sempre se comporta com o mesmo corpo e o faz de acordo com os mesmos processos usados em uma situação não-social. O comportamento do indivíduo acaba por explicar o fenômeno do grupo. 31 O meio cultural começa com o recém nascido, que, a partir daí, desenvolvese por meio de processos de aprendizagem, treinamento, em um meio que age reforçando comportamentos enquanto exclui outros; diferenciando respostas e assim por diante. O comportamento vai sendo modelado e condicionado de acordo com normas e padrões estabelecidos. Em todo o processo estão presentes as leis fundamentais do comportamento (KELLER & SCHOENFELD,1968). Para Skinner (2007) analisar o ambiente social consiste em analisar o reforço social: não se pode descrever o reforço sem referência ao outro organismo. Mas o reforço social geralmente é uma questão de mediação pessoal. O comportamento verbal sempre acarreta reforço social e deriva suas propriedades características desse fato. O reforço social varia de momento para momento dependendo da condição operante do agente reforçador. As contingências estabelecidas por um sistema reforçador social podem mudar lentamente. Mudanças como a crescente tolerância à estimulação aversiva na pessoa reforçadora pode ocorrer, em função das contingências em vigor. Outra peculiaridade do reforço social é que raramente o sistema reforçador é independente do comportamento reforçado. O estímulo social: um estímulo social, como qualquer outro estímulo, torna-se importante no controle do comportamento por causa das contingências em que se encaixa e são determinadas pela cultura e por história particular. Os estímulos sociais são importantes porque os reforçadores sociais com os quais se relacionam são importantes e essa importância variará com a ocasião. O estímulo social que tem menor probabilidade de mudar de cultura para cultura é o que controla, por exemplo, o comportamento imitativo. Podemos analisar um episódio social considerando um organismo a um dado tempo. Entre as variáveis a serem consideradas estão aquelas geradas por um segundo organismo. Consideramos então o comportamento do segundo organismo, supondo o primeiro como uma fonte de variáveis. Colocando as análises lado a lado reconstruímos o episódio. A descrição será completa se englobar todas as variáveis necessárias para explicar o comportamento dos indivíduos (SKINNER, 2007). A maioria das culturas produz pessoas cujo comportamento é controlado principalmente pelas experiências de uma situação, ou seja, pelas contingências. As mesmas culturas também produzem pessoas cujo comportamento é controlado principalmente pelas regras (SKINNER, 2007). 32 O relacionamento entre duas ou mais pessoas, chamada por Skinner (2007) de intercâmbio, pode explicar o comportamento em termos de reforço. Ele deve ser explicado em sua totalidade, porém algumas variáveis ainda permanecem obscuras. Este intercâmbio acontece em um sistema social em que cada um emite um reforço para o outro, e, estabelecida esta contingência, o intercâmbio se mantém. Com isso, há estímulos sociais que tendem a reforçar para que indivíduos se comportem de uma determinada maneira. Segundo o autor “(...)o grupo pode manipular variáveis especiais para gerar tendências para se comportar de modo que resulte no reforço de outros(...)” (p.339). Dois indivíduos podem se relacionar através de variáveis externas comuns e não somente pelo intercâmbio direto entre eles, e ainda por ambas. O comportamento de imitação é um bom modelo a ser estudado para progredir na explicação da participação individual em um grupo. É sempre o indivíduo que se comporta, porém o grupo tem o efeito mais poderoso. Por isso, quando o indivíduo junta-se ao grupo ele tem maior probabilidade de ser reforçado por emitir comportamentos que correspondam àqueles que são importantes para o grupo, por exemplo: o grupo (seus membros) seleciona aqueles comportamentos que dão unidade ao grupo, por meio de seguimento de regras formais e informais, e originadas na própria interação, além das características individuais (bio-operante). O grupo (seus membros) ainda seleciona comportamentos de manutenção do grupo, garantindo a perpetuação dos usos e costumes, como a sua mudança, sua própria evolução pela interação entre práticas e comportamentos e respectivas conseqüências para o grupo e para seus indivíduos. Há variáveis externas que ainda produzem outros tipos de interações que produzem variação e seleção no grupo (em seus membros). As pessoas, na maioria das vezes, controlam variáveis relevantes que podem ser usadas em benefício próprio. Isto pode ser chamado de controle pessoal. Segundo Skinner (2007), o tipo e a extensão dessas variáveis dependem das habilidades e dons pessoais do próprio controlador. Apesar disso, o controle pessoal se mostra fraco frente a algumas artimanhas das agências de controle que possuem um poder de persuasão maior, e isto pode se da em função do grupo, e não somente devido a um indivíduo específico. Tende a prevalecer as contingências que fortalecem a manutenção do grupo. 33 Existem várias técnicas de controle; a considerada por Skinner como principal é o reforçamento. Skinner (2007) já dizia que todo o campo do comportamento verbal exemplifica o uso de estímulos no controle pessoal. Algumas pessoas ainda têm receio quando o assunto é controle, seja ele de qualquer maneira. Isso pode ser porque o controle, de certa forma, tornou-se um estímulo aversivo ao controlado, e há contingências que determinam isso. O estudo do controle na análise do comportamento se faz muito importante para entender uma grande parte das práticas culturais nas sociedades em geral. Todorov & Moreira (2005) ao estudarem o comportamento e a sociedade, relataram que várias das nossas práticas culturais trazem prejuízos às nossas vidas. Alguns exemplos são: a emissão de gás carbônico, o não cumprimento das leis dentre outros. Contudo, conseqüências culturais não selecionam comportamentos individuais e sim relações entre contingências comportamentais compreendendo essas práticas; o comportamento individual tem pouco efeito nas conseqüências culturais. Esta questão pode ser mais bem exemplificada quando se discute a respeito de agências de controle do tipo governamental. De acordo com Skinner (2007), talvez o tipo mais óbvio de agência empenhada no controle do comportamento humano seja o governo. Os estudos tradicionais de ciência política lidam com a história e as propriedades dos governos, com vários tipos de estrutura governamental, e com as teorias e princípios que têm sido oferecidos para justificar as práticas governamentais. A principal preocupação recai, então, sobre os processos comportamentais através dos quais o governo exerce controle. Assim, tem-se que examinar o comportamento resultante no governado e o efeito desse comportamento que explica porque a agência continua a controlar. Segundo Glenn (1986), o comportamento operante dos membros de qualquer cultura deve ser classificado em termos dos tipos de conseqüências que o comportamento tem para os indivíduos que se comportam e para a cultura. Historicamente, temos distinguido, com algum grau de intuição, entre: trabalhar, atividades de diversão e comportamento interpessoal. Trabalhar pode ser especificado como um comportamento que é essencial para a sobrevivência da cultura, e por essa razão, participa de metacontingências tecnológicas. 34 Segundo Keller & Schoenfeld (1968) os estímulos sociais não diferem nas suas dimensões dos outros estímulos. Ao contrário, a diferença é só de origem, provém de outro organismo, do seu comportamento, ou de produtos de seu comportamento. E ainda mais, os estímulos sociais não diferem quanto à função daqueles de origem inanimada; atuam eliciando, surge porque os estímulos sociais passam a exercer essas funções. Embora existam comunidades e culturas totalmente diferentes, os seres humanos respondem aos mesmos princípios de aprendizagem, a característica dos estímulos discriminativos e reforçadores, mas as respostas dos indivíduos é que irão diferenciar. A partir deste raciocínio, entendem-se as diferentes formas de responder do ser humano, apesar de pertencer a uma mesma espécie (possuir características biológicas comuns). Analisar o comportamento das pessoas em grupo é o mesmo que analisar o conhecimento socialmente produzido, já que a teoria Skinneriana não descreve a divisão da natureza humana em várias, o comportamento individual também influencia e é influenciado na produção de práticas culturais, e ele é, por natureza, único. O comportamento verbal está diretamente ligado a estes eventos que submetem o organismo e a pessoa a uma história individual e cultural. Ele é o comportamento (verbal) que nas relações sócio-históricas faz com que as práticas sejam passadas adiante ou até mesmo conhecidas em vários lugares do mundo de forma difusa e impessoal, por exemplo, através da mídia (BORLOTI & TRINDADE, 2000). Os diferentes níveis de análise do comportamento social incluem a análise experimental do comportamento social, o estudo dos processos e sistemas sociais e a análise comportamental da cultura e da evolução das práticas culturais (história da cultura) (PIERCE, 1991 apud BORLOTI & TRINDADE, 2000). Estudar o papel das conseqüências sociais generalizadas não óbvias, que mantém a maior parte do comportamento verbal, e o papel do ambiente social em servir duplamente de contexto discriminativo e conseqüente, seria mais valioso na explicação do conhecimento socialmente construído. Isso evitaria o raciocínio circular comum na análise das relações entre o cotidiano da comunidade verbal e o conhecimento social, como se estes se explicassem mutuamente (GUERIN, 1992 apud BORLOTI & TRINDADE, 2000). 35 Segundo Malott (1988), alguns antropólogos (e autores como HARRIS, 1974 é considerado uma exceção) se preocupam mais em decifrar os mitos e os símbolos das culturas do que o comportamento dos indivíduos que criaram e que utilizam estes símbolos. A importância de observar o comportamento individual dentro das práticas grupais surge exatamente da necessidade de entender mecanismos que controlam e que mantêm estas práticas. O autor exemplifica com a prática cultural Hindu, em que a população considera as vacas animais sagrados. Para entender esta prática é necessário analisar não somente o significado cultural, mas os comportamentos individuais que são altamente reforçados por estas ações, como ocorrem esses processos e produzem um resultado comum para o grupo. Práticas culturais são resultados de causas materiais. As práticas irão permanecer se derem suporte à sobrevivência do grupo; e estas práticas ajudarão na sobrevivência do grupo se elas forem efetivas na produção de bens materiais ou se derem suporte a práticas que são efetivas na produção destes materiais essenciais à sobrevivência. Para serem efetivas, estas práticas devem ser benéficas e de baixo custo para os indivíduos; assim elas serão reforçadoras e mantidas ao longo das gerações (MALOTT, 1988). O resultado natural das práticas culturais é que seus membros reforçam ou punem o que as pessoas fazem, e evoluem com isso as práticas e a sua manutenção. Esta análise tradicional argumenta que as contingências descritas pelas práticas materiais são contingências diretas e firmes de condicionamentos operantes (MALOTT, 1988). O autor também discute sobre como o comportamento controlado por regra também ajudaria na manutenção de certas práticas. Mallot (1988) sugere que o estímulo produzido imediatamente pela resposta não será aprendido como um estímulo aversivo quando houver um grande atraso entre o estímulo produzido pela resposta e o resultado aversivo. Então, ainda precisaríamos de regras, se os resultados em longo prazo servirem de controle para nosso comportamento. Mesmo sabendo que conseqüências em longo prazo podem, algumas vezes, mudar a freqüência da resposta causal sem intervenção de regras que as governem. O autor descreve também os tipos de contingências e sua importância para o controle por regras. Ele cita dois tipos: as ações-diretas e as ações-indiretas. A primeira envolve conseqüências que são imediatas, prováveis e capazes de reforçar 36 ou punir a resposta casual. A segunda envolve conseqüências que são tanto muito postergadas, improváveis ou pequenas, quanto podem ser de uma significância cumulativa. As contingências materiais para as práticas culturais são, geralmente, açõesindiretas. Ao invés de práticas governadas por regras, muitas vezes essas regras se referem a contingências sobrenaturais mais do que materiais. Esta é mais uma razão pela qual muitas vezes o reforço pelas contingências materiais falha na aquisição de novas práticas culturais. Em muitos momentos, o nível operante das práticas culturais é muito baixo; em outras palavras, a probabilidade é tão baixa que uma prática cultural pode crescer pela chance ou por um motivo irrelevante. E sem um formato divino, esta prática pode não ocorrer tão completamente para que as contingências naturais a reforcem com uma freqüência suficiente para ser bem sucedida (MALLOT, 1988). O que reforça falarmos em uma língua e a respondermos a ela não é que somos reforçados imediatamente de alguma forma, mas a participação dos membros da comunidade verbal está em seu benefício a maior parte do tempo, mais importante ainda quando o ouvinte fala, quando há interação verbal. Um responder em particular pode não ser reforçado, mas continua-se o uso da linguagem porque isso torna o comportamento acessível a outras oportunidades de modelagem, e isto se dá pelo controle de estímulo que passa a exercer o ambiente e o que se diz sobre o ambiente, e, por conseguinte, consequenciando comportamentos em certas direções “reforçadas” pelo grupo ou pela ação de alguém diretamente modelada no ambiente. Se pararmos de nos comunicar, ou se nos comunicarmos apenas em uma língua estrangeira, então perderíamos muitos dos efeitos que de outra maneira seriam possíveis (GUERIN & JUNICHIRO, 1997) pela interação social e uso da língua matter, por exemplo. A língua não é apenas o que se diz nela, mas aquilo que produz o que se diz e como isso afeta o responder individual ou coletivo, fazendo evoluir o organismo, o operante e a cultura. A organização de sistemas dos seres vivos é modelada e mantida pelas conseqüências dessa organização em determinado momento. O princípio fundamental da teoria de reforçamento é que certos eventos que seguem um comportamento serão, posteriormente, comportamentos que irão ocorrer subseqüentemente em situações semelhantes. Um evento conseqüente é 37 considerado um reforçador se ele tiver este efeito. Os reforçadores podem ser efetivos por causa da sua contribuição direta ao funcionamento biológico do organismo. Os reforçadores podem ser chamados de primários (se relacionados com as necessidades básicas e biológicas do indivíduo, p. ex. alimento, água etc) ou de secundários (se relacionados com o que precede os reforçadores primários, p. ex. dinheiro, fama etc) (Biglan, 2003). A seleção pelas conseqüências também é um princípio importante para se entender a evolução das práticas culturais e práticas de grupos e organizações formais e informais. A prática cultural de determinadas populações pode ser caracterizada em termos de (a) incidência ou prevalência de comportamentos individuais na população e (b) a interlocução repetida de comportamentos de pessoas que constituem grupos e organizações (Biglan, 2005). Segundo Biglan (2005) através da história da ciência preventiva manteve-se o interesse primeiramente em afetar a incidência e prevalência das doenças ou comportamentos individuais. No entanto, é muito importante rever que antes de analisar estes resultados é necessário mudar as práticas das organizações formais e informais que influenciam estas questões. 38 3.3. Comportamento verbal e mídia O estudo do comportamento verbal não é tarefa fácil. Skinner em sua obra O Comportamento Verbal (1978) se estende ao dizer que ao estudar tal comportamento os psicólogos não encontraram esta área vazia, ou seja, inexplorada. Vários outros cientistas de outras áreas se deram ao trabalho de investigar partes como linguagem, compreensão, sintaxe, metáfora dentre outros. Porém, Skinner pretende ir além ao considerar que o comportamento verbal precisava de uma explicação causal e funcional para que fosse entendido como um comportamento em si, e não como parte de outra ação. A análise experimental tanto das relações operantes quanto respondentes é parte do processo que aumenta o conhecimento dos tipos complexos das relações comportamentais e ambientais. A análise comportamental de repertórios verbais deverá também evoluir continuamente para desenvolver no sentido de lidar mais efetivamente com unidades de operantes inter-relacionados em vários níveis de complexidade (Glenn & Field, 1994). Há muito tem se falado de mídia como agência de controle, e, sem dúvida alguma, ela exerce esta função. Porém, ao analisar a mídia em todos os seus aspectos, vê-se que a mesma pode ser considerada ambiente, se aplicarmos a teoria comportamental para este fim. Skinner (2007) se refere a ambiente como qualquer evento no universo que seja capaz de afetar o organismo, incluindo ações dele próprio. Com isso, são considerados não só apenas eventos físicos como também os sociais e culturais. A imprensa também tem o poder de controlar comportamento divulgando informações sobre a “realidade”, e produzindo o que Guerin (1992, citado por Martone, 2003) descreveu como conhecimento socialmente produzido. Os controlados, nesse caso os consumidores de informação, ficam sob controle de uma realidade construída, sem contato direto com o ambiente, possibilitando assim a manipulação do que é relatado sobre esse ambiente por alguns membros da comunidade. 39 Pode-se dizer que hoje se vive numa aldeia global, repleta de instrumentos cada vez mais sofisticados e eficientes. Esses permitem a transmissão da informação em tempo real de uma parte à outra do planeta, exercendo um controle de estímulo que vai além do ambiente físico imediato. O avanço das tecnologias de informação, assim como a grande oferta de aparelhos que recebem e transmitem informação vêm permitindo a um número cada vez maior de pessoas o acesso a uma rede de comunicação sem precedentes na história da humanidade. A Internet pode ser considerada um exemplo claro da agilidade e da rapidez ao acesso a uma infinidade de informações. Ela vem desempenhando um papel crucial no que alguns autores denominam da Revolução da Informação (Martone, 2003). O papel da mídia no mundo contemporâneo, assim como o poder de influenciar e produzir fatos têm sido muito discutido em diferentes áreas do conhecimento. A análise do comportamento também vem contribuindo de forma ainda modesta nessa discussão. Essa ciência dispõe de instrumental teórico capaz de abordar questões relevantes à cultura, entretanto, parte dos trabalhos de analistas do comportamento interessados pela cultura ainda se caracteriza mais pela descrição e análise de algum fenômeno social do que pelo desenvolvimento de tecnologias de intervenção (Lamal, 1991 apud Martone, 2003). O estudo da mídia e de sua influência sobre práticas culturais insere-se na lista de temas abordados por analistas do comportamento interessados em questões culturais. Rakos (1992) salientou a natureza informacional da sociedade contemporânea, ressaltando que analistas do comportamento interessados em analisar a cultura devem necessariamente abordar questões referentes à influência da mídia no controle do comportamento. O autor afirmou ainda que a construção de um ambiente altamente tecnológico acabou por definir a informação e não mais o capital como mercadoria mais valiosa. Os sistemas sócio-políticos baseados na propriedade do capital são menos importantes que aqueles baseados na propriedade da informação, pois a informação agora produz riqueza. Uma questão crucial sobre este assunto é o fato de que cada vez menos as pessoas têm contato com o ambiente mecânico. Isso quer dizer que elas têm acesso à realidade, cada vez mais, por intermédio do relato de certos segmentos da comunidade verbal. A produção de cadeias intraverbais por intermédio da mídia propicia a criação de um conhecimento virtual, que pode representar os interesses 40 de uma pequena parcela da comunidade verbal (Guerin, 1992 apud Martone 2003). Esta análise serve também como um alerta para os controles exercidos por pequenas parcelas da comunidade verbal. Segundo o autor, se o controle social do tatear estiver nas mãos de um grupo que não reforça necessariamente a correspondência entre as reais propriedades do ambiente e do relato, mas sim uma dada definição de relato “correto” estabelecida a priori por este grupo, se estará diante de ficções criadas para atender interesses, e estes nem sempre discriminados por aqueles que sofrem o controle. Segundo Skinner (2007) o comportamento deve ser apropriado à ocasião. Mesmo quando alguém se empenha em rejeitar o mundo, através da redução sistemática de certas formas de controle do mundo sobre ele, fisicamente a interação continua. Isso mostra quão dependentes somos do ambiente que nos cerca e da importância dele em nossas vidas. Muitas teorias do comportamento humano, não obstante, menoscabam ou ignoram a ação do ambiente. O contato entre o organismo e seu mundo fica totalmente desprezado ou, quando muito, descrito casualmente. Isto é quase sempre verdade na psicologia clínica, por exemplo. Usando a freqüência de resposta, como variável dependente, tornou-se possível observar mais adequadamente as interações entre um organismo e o seu ambiente. Os tipos de conseqüência, que aumentam a freqüência ou o nível (“reforçadores”), podem ser positivos ou negativos, dependendo de serem reforçadores quando aparecem, ou quando desaparecem. A classe de resposta, em relação às quais o reforço é contingente (cuja freqüência de emissão depende de reforços), chama-se operante, para sugerir a ação sobre o ambiente, seguida de reforço. Construímos um operante ao tornarmos um reforço contingente a uma resposta, mas o fato importante, quanto à unidade resultante, não é sua topografia, mas sua probabilidade de ocorrência, observada como nível de emissões. Os estímulos anteriores não são irrelevantes. Qualquer estímulo presente, quando um operante for reforçado, adquire o controle, no sentido de o nível de respostas ser superior na presença dele. Tal estímulo não age como aguilhão; não elicia resposta, no sentido de forçá-la a ocorrer. É simplesmente um aspecto essencial da ocasião em que uma resposta, se emitida, será reforçada. Para marcar a diferença, vamos chamá-lo estímulo discriminativo (ou SD) (Skinner, 1969). 41 É apenas quando analisamos o comportamento sob contingências conhecidas de reforço que podemos começar a ver o que ocorre na vida cotidiana. Fatos que inicialmente desprezamos, começam a comandar a nossa atenção, e coisas que inicialmente nos chamavam a atenção, aprendemos a descontá-las ou ignora-las. A topografia do comportamento, não importa o quão fascinante, fica em segundo lugar frente às evidencias de probabilidade. Um estímulo não é mais um mero início ou término conspícuo de uma troca de energia, como na fisiologia do reflexo; é parte da ocasião na qual uma resposta é emitida e reforçada. Reforço é muito mais que “ser recompensado”; a predominância da probabilidade de reforço, particularmente sob vários esquemas intermitentes, é que é a variável importante. Em outros termos, não mais encaramos o comportamento e o ambiente como coisas ou eventos separados, mas nos preocupamos com a sua inter-relação. Procuramos as contingências de reforço. Podemos então interpretar o comportamento com mais sucesso (Skinner, 1969). De acordo com Baum (2206) a linguagem cotidiana sobre o conhecimento é mentalista. Diz-se que uma pessoa possui conhecimento de francês e que o exibe ao falar e entender francês. Diz-se que um rato pressiona a barra porque sabe que pressiona-la produz comida. Como no caso de intenção e propósito, o conhecimento e o conhecer de nenhum modo explicam o comportamento que supostamente resulta deles. O que é o conhecimento de francês, que é “exibido” quando eu falo francês? Onde ele está e de que é feito, o que poderia causar o falar francês? Da mesma maneira que em todos os exemplos de mentalismo, ele parece ser uma quimera escondida dentro do sujeito, inventada como tentativa de explicação, mas que não informa nada além do que já é conhecido: a pessoa fala e entende francês. Como o rato sabe pressionar a barra e entende a relação barra-comida? Dizer que ele sabe informa alguma coisa, além de que no passado as pressões à barra produziram comida nessa situação? Em vez de considerar o conhecimento e o conhecer como explicações do comportamento, os behavioristas analisam esses termos focalizando as condições sob as quais ocorrem. Em que situações as pessoas tendem a dizer que alguém”tem conhecimento” ou “conhece algo”? (Baum, 2006). Filósofos e psicólogos geralmente dividem o conhecimento em operacional e declarativo, “saber como” e “saber sobre”. Muito já foi escrito sobre essa distinção, 42 especulando-se sobre esquemas e significados internos imaginados, que poderiam constituir sua base. Para o behaviorista, se a distinção tiver alguma utilidade, deverá se basear no comportamento e no ambiente, eventos externos acessíveis a qualquer observador (BAUM, 2006). A tradição também distingue o conhecimento que outras pessoas possuem do conhecimento “que eu próprio possuo”, particularmente o autoconhecimento – o conhecimento da própria pessoa sobre si mesma. Tradicionalmente, pareceu a muitos pensadores que, como “tenho” uma intimidade especial com todos os “meus” atos, públicos e privados, de um modo que “não posso” ter com os atos de mais ninguém, deve haver algo especial e diferente no autoconhecimento. De fato, freqüentemente se afirma que apenas o autoconhecimento pode ser seguro, pois qualquer conhecimento de outros será apenas baseado em inferências. Presumivelmente, pode-se ter certeza que se sabe francês, enquanto o conhecimento de francês de César é, para alguém, apenas uma inferência baseada em sua observação de seu comportamento de falar e entender francês (BAUM, 2006). O conhecimento operacional diz respeito ao saber “como”. Neste caso sabese que uma pessoa sabe “como” nadar quando a vê nadando. Dizer então que uma pessoa sabe “como” nadar significando simplesmente que ela efetivamente nada (BAUM, 2006). O conhecimento declarativo diz respeito ao saber “sobre”. Saber “sobre” difere do saber “como” apenas por envolver controle de estímulo. Em que situações dizemos “o rato sabe ´sobre´ a luz” ou “César sabe ´sobre´ aves” ? diz-se que o rato sabe sobre a luz se ele responde mais quando a luz está acesa. Diz-se que César sabe sobre aves se ele nomeia corretamente vários exemplares, explica seus hábitos de construção de ninhos, imita seus cantos, e assim por diante. As condições para essa verbalizações são um pouco diferentes das condições para verbalizações de saber “como”, porque o comportamento envolvido em saber “sobre” deve ser apropriado a um estímulo discriminativo ou a uma categoria de estímulos discriminativos. A coisa sobre a qual se sabe é o estímulo discriminativo ou a categoria (BAUM, 2006). Neste caso, o saber “sobre” é uma resposta apropriada a um estímulo discriminativo. O falar sobre algo é comportamento operante sobre controle de 43 estímulos. Uma vez compreendido que discriminação e reforço são as observações que estabelecem a ocasião para falar de saber “sobre”, tem-se duas alternativas. Pode-se continuar falando sobre o “saber sobre”, admitindo que ele na verdade significa somente “discriminação e reforço”, ou pode-se parar de falar desse modo e passar a falar sobre discriminação e reforço (BAUM, 2006). O comportamento verbal é um campo no qual o conceito de contingências de reforço tem provado ser particularmente útil. Os fatos conspícuos neste campo são os comportamentos de pessoas falando, ou melhor, o seu produto audível. A maioria dos lingüistas aceita que isso seja objeto de seu estudo: uma língua é a totalidade das sentenças ditas nela. De uma maneira não comprometedora, diz-se que a fala é questão de “vocalizações” (Skinner, 1969). Amostras para estudo podem ser obtidas de qualquer pessoa que fale a língua, possivelmente o próprio lingüista. A topografia do comportamento pode ser analisada acusticamente, foneticamente e fonemicamente e em estruturas gramaticais e sintáticas maiores, chamadas sentenças. O ambiente não é ignorado, é claro. Com efeito, fonemas e sentenças aceitáveis não podem ser definidas simplesmente como aspectos da topografia porque implicam efeitos sobre o ouvinte. O ambiente é aquilo a respeito de que as sentenças falam, mas a relação a que se alude não é analisada além do nível de significado ou referência. O significado de uma expressão é tanto qualquer característica da ocasião na qual foi expressa, como qualquer efeito que possa ter tido sobre o ouvinte. Uma das versões mais simplificadas da fórmula de entrada e saída descreve a relação de orador para ouvinte como aquela na qual o orador transmite informação ao ouvinte, ou comunica-se com ele, no sentido de tornar algo comum a ambos (Skinner, 1969). Já que operantes verbais são operantes sociais (Borloti, 2004) então, analisar a mídia como ambiente já não se torna tarefa tão árdua. Entendendo que difere do comportamento social em geral por necessitar do condicionamento preciso e a qualificação do ouvinte, pela cultura verbal, com o objetivo de consequenciar o comportamento do falante. Para Borloti (2004): “Os operantes verbais ocorrem num contexto formado por elementos do ambiente: objetos, eventos ou acontecimentos (ou propriedades de), que incluem “coisas”, palavras faladas ou lidas (ou vistas), comportamentos de ouvinte (ou leitor) e conseqüências reforçadoras 44 específicas ou generalizadas providas pela mediação do ouvinte” (p. 223). O autor ainda acrescenta que para classificar efetivamente um operante verbal se deve observar as circunstâncias sob as quais ele é emitido. As circunstâncias atuais que controlam a resposta e a história do falante de exposição a contingências semelhantes é que irão demonstrar o significado e/ou função da palavra. Sobre a sociedade moderna e sua construção de conhecimento, Kurz (2002) analisa fatos históricos quanto a produção de conhecimento social e informação. O autor mostra como a sociedade moderna despeja informações acumuladas e não produz mais o conhecimento real, que não é passível de troca, como uma mercadoria é. A produção de conhecimento trivial nos dias de hoje enche os jovens de informação que muitas vezes não lhes são úteis. Com isso, o acúmulo de informações dispensáveis cresce a cada dia e as pessoas, na maioria das vezes, nem sabem o que fazer com elas. A filosofia da mídia é um exemplo gigantesco. Priorizar a informação em quantidade a qualquer custo sem se preocupar com a qualidade do mesmo. Isso faz com que o acúmulo de informação exista e faça parte do dia-a-dia cada vez mais. A criação de novas tecnologias, o comportamento programável do século XXI, tudo isso é “jogado” em nossas vidas sem nenhum sentido comum. Fica mais difícil entender a sociedade e, assim, preocupa-se apenas em usar o que é oferecido e não em entender e conhecer aquilo que está sendo exposto. Guerin (1992) também analisou a noção de construção social do conhecimento e defendeu que o conhecimento seria o uso da linguagem, ou seja, uma atividade social. O homem estabeleceria relações com um mundo que nem sempre corresponderia ao mundo real e os termos utilizados para explicar este mundo seriam produtos dos relacionamentos sociais interligados a todo o resto da vida social. Já Moscovici teria afirmado que representações sociais seriam estruturas de conhecimento, construídas e partilhadas por grupos pela via de trocas sociais, cuja função seria dar sentido ao desconhecido, tornando os enigmas da vida mais familiares. O autor ainda argumenta em seu trabalho que sua perspectiva para tratar do conhecimento socialmente produzido seria a afirmação de que um indivíduo adquire conhecimento via mediação de outros indivíduos e via relatos verbais. 45 Porém, analisar a construção social do conhecimento sob o olhar da Análise do Comportamento poderia ampliar as possibilidades de intervenção sobre os processos envolvidos nessa construção, na medida em que se assuma que tais processos são fenômenos no âmbito do comportamento. Guerin (1992) aponta também que as conseqüências fornecidas por outros provavelmente não são óbvias, além de serem intermitentes e mediadas por várias pessoas. Para fortalecer e exemplificar sua posição o autor cita estudo de Di Giacomo que teria utilizado um procedimento de associação livre para estudar as representações sociais de um movimento de protesto. Para Guerin (1992), tais associações provavelmente seriam comportamentos intraverbais, puramente controlados por outros comportamentos verbais, ou seja, alguns estudantes no protesto só conheciam os eventos sobre os quais protestavam ‘de ouvir falar’; logo o comportamento verbal deles apenas seria controlado por palavras e pelas conseqüências sociais por reproduzir aquelas palavras num contexto apropriado. Hoje, nas sociedades de massa, faz-se contato com os acontecimentos de muitos lugares do país e do mundo por meio do que é dito sobre eles nos veículos de mídia. Em outras palavras, conhece-se mais sobre o mundo, no sentido de que emite comportamento verbal apropriado quando o contexto assim exigir, porém este conhecimento é intraverbal, ou seja, controlado por estímulos antecedentes verbais produzidos, neste caso, pela mídia. Há, portanto, uma questão de base a ser discutida: é difícil saber se os relatos feitos pela mídia (ou melhor, por seus agentes) são, de fato, tatos dos eventos por ela contados, como parecem ser. Os relatos têm características formais de tatos, mas é difícil identificar sua fonte antecedente de controle. E tais relatos têm sido por sua vez, a fonte de controle antecedente do conhecimento social de muitos indivíduos acerca de eventos ocorridos em diversas partes do mundo. Logo, não é apenas a mediação que é importante quando se analisa como o indivíduo conhece o mundo, mas o aumento do número de mediações que ele passou a ter para conhecer o mundo com o advento da mídia, mais particularmente da mídia de massa. A mediação via relato verbal, anteriormente promovida de maneira direta entre os indivíduos que se comportam, passou a ser uma espécie de cadeia de mediações onde alguns indivíduos têm acesso ao ‘relato do relato’ de um dado evento. Embora, do ponto de vista do falante (que “adquire conhecimento” pela mídia) ainda caiba ao grupo mais próximo o 46 controle sobre seu comportamento, pelas conseqüências diferenciais que seguem certas afirmações emitidas pelo indivíduo, agora cabe também aos chamados meios de comunicação um papel nessa produção de conhecimento social. Esse papel desempenhado pelos meios de comunicação suscita, então, a preocupação de compreender como esse conhecimento é construído quando envolve meios de mídia. Esta preocupação que já era grande desde há muito, cresce com o processo de globalização econômica e cultural – quando passa fazer sentido a expressão ‘cultura da mídia’ (Alves, 2006). De acordo com Augusti (2006) um pressuposto básico que sustenta sua postura em seu trabalho é a admissão de que o campo do jornalismo é atravessado por relações de poder. É preciso considerar que o campo possui relativa autonomia e, portanto, poder, inclusive no âmbito dos profissionais. Os jornalistas exercem influência ativa na construção das notícias nas mais diversas etapas de sua produção, atuando também ativamente na construção da realidade. Ferreira (2002, p. 244) é citado por Augusti (2006): “A legitimação pelo mercado desloca o campo jornalístico do sucesso democrático (informar o cidadão...) ao sucesso comercial (o jornal mais vendido, de maior tiragem, aquele que proporciona o maior número de negócios...). sua lógica é marcada por uma série de contradições que são conhecidas como efeitos de campo. De início, o fazer saber, princípio fundador do campo de produção jornalístico deve ser minimizado ou, às vezes, ignorado pelo fazer sentir ou fazer seduzir”. As notícias, sob a visão da teoria interacionista, sustentada sob enfoque construcionista, são o resultado de um processo de produção definido como a percepção, seleção e transformação de uma matéria-prima, reconhecida como acontecimento, em um produto (as notícias) (Augusti, 2006). Os sistemas de mídia modernos e as tecnologias de informação são agora capazes de transmitir informação rapidamente e sem olhar para artificiais fronteiras políticas ou restrições ideológicas. O colapso do socialismo na Europa Oriental, em 1989, exemplifica como a alta tecnologia de informação pode quebrar o isolamento psicológico de uma cidadania e levar a grandes convulsões sociais (Rakos, 1991 apud Laitinen & Rakos, 1997). Nas democracias contemporâneas, a ausência de 47 governo opressivo que controla a informação é normalmente considerada uma característica fundamental de uma sociedade livre. No entanto, a falta de controle aversivo não significa que a informação é livre de controles funcionais. Pelo contrário, o atual mecanismo de influência direta através de contingências econômicas e políticas representa uma ameaça ainda maior do que a diversidade comportamental faz historicamente em formas tirânicas. O controle da informação hoje é mais sistemático, contínuo e consistente, sem dar na vista, e muito poderoso (Rakos 1992, apud Laitinen & Rakos, 1997). 48 3.4. O que são células-tronco? As células-tronco são células primitivas, produzidas durante o desenvolvimento do organismo e que dão origem a outros tipos de células. Existem vários tipos de células-tronco (disponível em: http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI472268-EI1434,00.html ; acesso em 10/2008): Totipotentes - podem produzir todas as células embrionárias e extra embrionárias; Pluripotentes - podem produzir todos os tipos celulares do embrião; Multipotentes - podem produzir células de várias linhagens; Oligopotentes - podem produzir células dentro de uma única linhagem e Unipotentes - produzem somente um único tipo celular maduro. As células embrionárias são consideradas pluripotentes porque uma célula pode contribuir para formação de todas as células e tecidos no organismo. Estas células-tronco servem para produzir células e tecidos para terapias medicinais e podem ser encontradas em embriões recém-fecundados (blastocistos), criados por fertilização in vitro - aqueles que não serão utilizados no tratamento da infertilidade (chamados embriões disponíveis) ou criados especificamente para pesquisa; embriões recém-fecundados criados por inserção do núcleo celular de uma célula adulta em um óvulo que teve seu núcleo removido reposição de núcleo celular (denominado clonagem); células germinativas ou órgãos de fetos abortados; células sanguíneas de cordão umbilical no momento do nascimento; alguns tecidos adultos (tais como a medula óssea) e células maduras de tecido adulto reprogramadas para ter comportamento de células-tronco. O desenvolvimento de células-tronco embrionárias humanas teve início com as pesquisas de Thomson et al. (apud, Donadio et al, 2005), em 1998, e vem sendo palco de infindáveis discussões religiosas, éticas e legais. As células totipotentes são capazes de se desenvolver em qualquer tecido dos três folhetos germinativos, além dos tecidos extra-embrionários. Visando a terapia celular, essas células seriam aquelas adequadas em procedimentos mais eficazes de utilização de embriões (em tese). A utilização das células-tronco adultas talvez promova os mesmos resultados, apesar destas terem um potencial de diferenciação menor que aquelas (DONADIO et al, 2005). 49 Atualmente no Brasil, os tratamentos com células-tronco têm sido feitos apenas como ensaios clínicos e em grandes centros de pesquisa, como os grandes hospitais e somente para pacientes que assinam um termo de consentimento e concordam em participar desses estudos. Recentemente, o Ministério da Saúde aprovou um orçamento de R$ 13 milhões em três anos para a pesquisa das célulastronco, da qual participarão alguns grandes hospitais brasileiros como o Instituto do Coração - SP, Instituto Nacional de Cardiologia de Laranjeiras - RJ, entre outros. Serão estudadas as cardiopatias chagásicas (decorrente da doença da Chagas), o infarto agudo do miocárdio, a cardiomiopatia dilatada e a doença isquêmica crônica do coração. Como a terapia utiliza células-tronco autólogas, o estudo não sofre influência da Lei de Biossegurança, recém-aprovada no Senado. Além desse incentivo à pesquisa, o Brasil está investindo em terapia com células-tronco voltada a outras doenças, como é o caso da distrofia muscular, esclerose múltipla, câncer, traumatismo de medula espinhal, diabetes etc. De acordo com Souza (), além da enorme versatilidade das células-tronco, quando estas são obtidas por meio da clonagem terapêutica, têm a vantagem de evitar a rejeição, diferentemente das células-tronco embrionárias obtidas a partir de embriões congelados em clínicas de fertilização, quando há necessidade de compatibilidade entre o doador e o receptor. O que diz a Lei Em março de 2005, as pesquisas com células-tronco embrionárias humanas foram aprovadas no Brasil no âmbito da Lei de Biossegurança. Em maio do mesmo ano, no entanto, o então procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, entrou no Supremo Tribunal Federal com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra o artigo a respeito das pesquisas, sob a alegação de que estudos do gênero feriam “o direito de embriões”. O pedido foi acatado no fim de 2006. A lei de Biossegurança reza o seguinte: Dispõe o artigo 5° da Lei de Biossegurança nº 11.105/05: ”Art. 5o É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de célulastronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e não utilizados no respectivo procedimento, atendidas as seguintes condições”: 50 I – sejam embriões inviáveis; ou II – sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais, na data da publicação desta Lei, ou que, já congelados na data da publicação desta Lei, depois de completarem 3 (três) anos, contados a partir da data de congelamento. § 1o Em qualquer caso, é necessário o consentimento dos genitores. § 2o Instituições de pesquisa e serviços de saúde que realizem pesquisa ou terapia com células-tronco embrionárias humanas deverão submeter seus projetos à apreciação e aprovação dos respectivos comitês de ética em pesquisa. § 3o É vedada a comercialização do material biológico a que se refere este artigo e sua prática implica o crime tipificado no art. 15 da Lei no 9.434, de 4 de fevereiro de 1997.” A lei de Biossegurança assegura o uso das células-tronco embrionárias retiradas de embriões humanos apenas em pesquisas e terapias; e a utilização destas células só é permitida se a célula for produzida pela fertilização in vitro e não for utilizada neste procedimento, que sejam embriões inadequados para o uso da fertilização e que estejam congelados a mais de três anos. Além do mais é ainda necessária a autorização dos genitores e sua utilização em pesquisas de ser submetida aos respectivos comitês de ética. Fica ainda proibida a comercialização deste material qualificando sua prática como crime nos artigos propostos para esta lei. No dia 29/05/2008 esta lei foi aprovada pelo Supremo Tribunal Federal com 6 votos a 5, depois de uma sessão histórica, a lei foi considerada constitucional e a ação impretada em 2005, rejeitada. Com isso, autoriza-se, sem restrições, a utilização de células-tronco em pesquisas. O que estava sendo julgado era uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contrária às pesquisas, sob a alegação de que elas violavam o direito à vida. Na ação, de acordo com Souza (2007), o Ministério da Saúde, em contrapartida, alega que a lei não é passível de ser inconstitucional, pois a Constituição Federal em momento algum faz menção sobre embriões que ainda não se fixaram no útero. Assim, a Lei de Biossegurança é a única regulamentação sobre esse assunto. Declara ainda que os Códigos Civil e Penal tratam somente de gestação, ou seja, embrião dentro do útero. Segundo Donadio et al (2005) as posições quanto à origem dos embriões utilizados para obtenção das células-tronco são irreconciliáveis, mas é quase 51 unânime a posição de que não se deve criar embriões especificamente para esta finalidade e sim utilizar aqueles extranumerários existentes nas clínicas de reprodução assistida. Ainda este autor argumenta o surgimento de dois raciocínios diferentes quanto à inviabilidade dos embriões prescrita na Lei de Biossegurança: a inviabilidade genética, caracterizada por alterações do embrião comprovadas pelo diagnóstico pré-implantacional, incompatíveis com a vida, ou que não foram comprovadas por falhas da técnica, mas com elevado risco; e a inviabilidade evolutiva, ou seja, quando a transferência uterina do embrião não resultaria em gravidez. Em 1990, o Parlamento britânico aprovou legislação inédita regulando os procedimentos de reprodução assistida e a pesquisa embriológica, legislação esta ainda hoje considerada uma das mais permissivas em vigor no mundo: a Human Fertilisation and Embriology Act. A lei britânica foi aprovada após uma década de debates envolvendo legislativo, Governo, sociedade civil e comunidade científica, e após ter-se atacado a pergunta sobre o estatuto do embrião em seu estágio inicial. Seu texto final liberava a manipulação experimental de embriões in vitro até o limiar de 14 dias após a fertilização: marco daquilo que passou a configurar uma nova categoria classificatória, o “pré-embrião”. Uma Autoridade nacional, controlada pelo Legislativo, foi instituída para proceder à supervisão e ao monitoramento das pesquisas em caráter permanente. Os britânicos não só dedicaram um texto específico à pesquisa embriológica, como conduziram um debate longo e aprofundado que extrapolou os muros do Parlamento até que se chegasse a uma resposta (ainda que não unânime) à questão sobre seu estatuto. A regra brasileira para a pesquisa com os embriões congelados, por sua vez, mal pode ser chamada de “lei”; trata-se de um artigo “encaixado” em texto destinado a resolver a urgente polêmica dos transgênicos que foi açodadamente votado em poucos meses, com bem menos debate do que o tema mereceria. (Cesarino 2007). Toda esta mobilização em defesa da vida ocorre devido ao fato de, no dia 5 de março de 2008, o STF ter realizado uma Sessão de Julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), proposta pelo procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, referente ao artigo 5º da Lei Federal nº 11.105 (Lei de Biossegurança), que autoriza, entre outros, o uso de células-tronco embrionárias para pesquisas e terapias. Conforme o professor Nery, depois de vários posicionamentos pró e contra 52 a constitucionalidade do artigo, o ministro Brito julgou improcedente o pedido formulado na Adin. Entretanto, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito solicitou vistas do processo, viabilizando o adiamento da decisão do STF, para um estudo mais aprofundado da questão. Segundo Nery, é preciso refutar os argumentos apresentados pelo ministro Brito, dado que “a decisão do STF poderá ter sérias implicações e graves conseqüências, se realmente não forem capazes de explicitar de modo convincente de que a vida humana deve ser protegida pela lei, respeitada e amada desde seu início, com a fecundação, até o seu término natural, pois, uma decisão contrária pode comprometer seriamente a dignidade do ser humano e permitir procedimentos éticos que podem colocar em risco o valor e o sentido humano da vida, em todas suas dimensões (Boletim Semanal da CNBB, 2008). OS CONTRAS E PRÓS Contras Em 2005, Gallian afirma que, unanimemente os cientistas que pesquisam ou reivindicam a liberdade de pesquisar com células-tronco embrionárias, reconhecem as “grandes dificuldades técnicas” que têm se apresentado no processo de investigação. Ao contrário do que vem ocorrendo com as células-tronco adultas, as experiências com células-tronco embrionárias não produziram ainda nenhum êxito terapêutico reconhecido, sequer em animais. Pelo contrário, estudos importantes vêm demonstrando que a utilização de células-tronco embrionárias em experimentos terapêuticos têm se associado à ocorrência de tumores em animais, levando a crer que o mesmo deva ocorrer se administrado em seres humanos. Recentemente, cientistas coreanos, os primeiros a tentarem realizar publicamente pesquisas com células-tronco de embriões humanos, divulgaram nota esclarecendo que “das três associações celulares humanas obtidas através de clonagem – de um total de centenas de tentativas em centenas de óvulos – apenas uma derivou em linhagem celular do tipo embrionário” (p. 255). Entretanto, esclarecem, “tal linhagem apresentou-se imprestável para a pesquisa ou para uso terapêutico” (p. 255). Conclusão: a possibilidade de que se venha a conseguir linhagens úteis para pesquisa nos próximos anos é ínfima. 53 Em artigo sobre família e bioética, o arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Sales (2002), um dos mais tradicionais expoentes da ala conservadora da Igreja Católica brasileira, citando diversos documentos do magistério católico, afirma: “no momento em que o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova vida que não é aquela do pai ou da mãe, mas de um novo ser humano que se desenvolve por conta própria”. E “a manipulação e a destruição de embriões humanos não são moralmente aceitáveis, nem mesmo se destinados a um objetivo em si bom”. Em 24 de março passado o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou, com poucos vetos, o Projeto de Lei da Biossegurança (PL 2401/03),aprovado pela Câmara de Deputados por 352 votos favoráveis, 60 contrários e uma abstenção. Temos, assim, a Lei nº 11.105, de 24.03.2005. Não há motivo, porém, para festejos. Na “sociedade do risco” a insegurança permeia todos os setores. Há a insegurança das ruas; dos produtos que consumimos; da manipulação publicitária, que nos engana cotidianamente; e também há a insegurança legislativa que deixa o cidadão atônito pela falta de critérios em que possa apoiar, confiadamente, a sua conduta. Esta faceta da insegurança permeia a Lei que deveria assegurar o seu contrário, derivando de um conjunto de fatores que, infelizmente, se têm feito presentes também em outras recentes leis (MARTINS-COSTA et al, 2005). Prós Em seu estudo intitulado Células-tronco: pesquisa básica em saúde, da ética à panacéia Luna (2007), pode constatar que entre os pesquisadores não se encontrou correspondência linear entre a opção religiosa e a posição frente às pesquisas com células embrionárias. A despeito disso, no tocante aos sistemas de valores, o valor da vida, oriundo do campo religioso e dotado de acento metafísico, é o cerne dos argumentos de favoráveis e contrários à pesquisa com embriões. Todos defendem a vida, mas há várias formas de defini-la, que vão desde a essência humana contida no DNA já na fecundação, até a formação dos primórdios do sistema nervoso como fundamento da condição humana, ou a morfologia e 54 organização do ser vivo. Para uns, o início da vida e sua viabilidade não se definem isoladamente, mas na inserção no útero materno. Várias referências de caráter físico e biológico assumem acento físico-moral quando se faz a correspondência com atributos de individualidade e racionalidade. Por outro lado, não há consistência total entre as opiniões sobre o estatuto do embrião, a posição frente à pesquisa, e as opções das linhas de investigação efetivamente adotadas. Percebe-se que essas últimas decisões remetem à história e à estrutura do campo, não se prendendo a sistemas de valores em abstrato. De acordo com Reinach (1994/95) os problemas éticos gerados pelo desenvolvimento da genética advêm em parte de uma propriedade intrínseca aos seres vivos: a continuidade que caracteriza os processos biológicos. Exemplos incluem o processo de desenvolvimento embriológico e a variação genética de uma população. O desenvolvimento de um ser vivo se caracteriza por uma sucessão contínua de eventos que se espalham temporalmente desde a fecundação até a morte. Da mesma maneira, a variação genética ou morfológica de uma população se caracteriza por um contínuo de formas resultante da interação entre um número grande de genes. O autor acrescenta ainda que: “(...) muitos dilemas éticos relacionados à genética são caracterizados pelo confronto entre a necessidade social de traçar uma linha separando o aceitável do inaceitável e o espectro contínuo de possibilidades que caracteriza o fenômeno biológico” (p. 06). Em um estudo publicado no ano de 2005, Mota, Soares & Santos concordaram que O desenvolvimento de técnicas de transplante de órgãos sólidos e de medula óssea foi um dos mais fascinantes avanços da medicina no século XX. A virada do século XXI testemunha um desdobramento também fascinante e promissor desta modalidade terapêutica: o uso de células-tronco para regenerar tecidos lesados outrora considerados irreparáveis. Resultados encorajadores de inúmeros estudos com animais de experimentação impulsionaram grupos de diversos centros no mundo a iniciar estudos clínicos com transplante de células-tronco em várias doenças, particularmente as doenças cardiovasculares e neurológicas. Embora ainda estejamos algo distante de entender o mecanismo preciso pelo qual as 55 células-tronco regeneram órgãos lesados, os estudos publicados até o presente momento, incluindo vários estudos envolvendo seres humanos, sugerem haver um benefício real com esta terapia. Ainda no mesmo estudo os autores enfatizam que Embora os resultados alcançados em várias áreas sejam animadores, pouco se sabe sobre os mecanismos de atuação destas células, quais populações celulares são importantes e quais os fatores necessários para o recrutamento e função destas células. A melhor compreensão destes fenômenos deverá contribuir para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais eficazes e menos invasivas para doenças crônico-degenerativas. De acordo com Santos, Soares & Carvalho (2004), a pluripotencialidade das células-tronco adultas recoloca a questão da utilização terapêutica das célulastronco em bases totalmente novas. Não apenas nos vemos livres das questões ético-religiosas que cercam a utilização das células-tronco embrionárias na medicina, mas também nos livramos dos problemas de rejeição imunológica ao podermos utilizar células tronco do próprio paciente adulto na regeneração de tecidos ou órgãos lesados. Assim, com todas estas informações científicas, pode-se conferir que existem ainda muitas divergências quanto à utilização das células-tronco embrionárias em pesquisas e terapias, mesmo depois da aprovação da referida lei de biossegurança. Contudo, até mesmo nos noticiários e matérias publicadas pela fonte deste trabalho, bem como pelas opiniões e comentários dos leitores é possível distinguir os simpatizantes ou não por este tema que causou e ainda causará muita polêmica tanto pela comunidade científica quanto por aqueles que acompanham estes estudos, ou até mesmo se vêem esperançosos com processos bem-sucedidos na área. 56 4.Método 4.1. FONTE O site Folha on-line foi escolhido como fonte para esta pesquisa. Este site pode ser acessado pelo portal (www.folhaonline.com.br). É um site jornalístico atualizado durante todo o dia, de hora em hora, disponibilizando o acesso a publicações anteriores em parte. Esta escolha ocorreu pelo fato deste site permitir a opinião e o comentário dos leitores sobre as matérias publicadas na rede. Há campo para comentar as matérias veiculadas, entretanto, o site dispõe de um tratamento específico aos comentários, qual seja, ele traz o agrupamento das notícias relativas ao tipo de assunto tratado. Os comentários utilizados no presente trabalho foram especificamente os direcionados às matérias sobre as células-tronco embrionárias, sua utilização em pesquisas e terapias, aprovação de leis para sua utilização, dentre outros aspectos. 4.2. SOBRE A ANÁLISE DOS DADOS Os dados foram analisados da seguinte maneira: separaram-se todos os comentários feitos no site Folha On-line, sendo um total de 690 comentários entre os meses de Março a setembro de 2008, relacionados com as reportagens publicadas a respeito do tema células-tronco embrionárias, aprovação de leis e seu uso para pesquisas e terapias. Foram separados, entre os meses de março a junho de 2008, setenta (70) comentários do total de seiscentos e noventa (690). A escolha de tais meses se deu pelo fato de serem os meses em que houve maior resposta dos leitores. Os comentários foram escolhidos aleatoriamente a partir de cada mês, totalizando 11% de todos os comentários existentes. O procedimento para a escolha aleatória dos comentários não teve um método específico, apenas foram apanhados os primeiros comentários listados nas primeiras páginas de cada mês até completar o total de 70 dos comentários em geral. Cada página existe em média de oito a dez 57 comentários. A coleta dos comentários foi realizada no dia 20 de setembro de 2008, até esta data estavam disponíveis 690 comentários no site Folha On-line. A cada dia os leitores podem comentar as reportagens que são publicadas. Analisou-se ainda na literatura informações quanto ao uso destas células. Quanto aos comentários analisados, observou-se a freqüência de opiniões contra e a favor do uso das células-tronco embrionárias em pesquisas e terapias. Analisaramse também referências quanto método, técnica, tratamento e ética do uso dessas células; antes e depois da aprovação da Lei de Biossegurança (no seu artigo 5º) na data de 29/05/2008, como categorias de análise. A classificação destas categorias partiu da leitura de textos científicos contra e a favor à utilização das células-tronco embrionárias em pesquisas e terapias. Cada opinião emite uma definição de tais categorias: as literaturas tanto a favor como contra descrevem o método in vitro como o melhor método para estudos destas células. Quanto a técnica a literatura a favor cita que existem técnicas onde é possível reparar órgãos (ou células) danificados, aplicando-se uma quantidade de células tronco no paciente. Já a literatura contra diz que ainda não foram produzidos nenhum êxito terapêutico reconhecido e que essa técnica ainda pode gerar outros tipos de doenças além de rejeições. Com relação aos tratamentos, os cientistas a favor dizem que pode haver melhoras ou curas de lesões traumáticas, doenças crônicas e doenças degenerativas. Já os cientistas contra dizem que não existe comprovação de sucesso em tratamentos com humanos com as células embrionárias. No que diz respeito a ética da sua utilização, os cientistas têm suas opiniões bastante semelhantes às opiniões populares, as opiniões a favor dizem que a célula ainda não tem características ou sinais vitais que comprometam sua utilização. As opiniões contra dizem que a vida já começa na fecundação, então há um ser vivo em questão. Segue abaixo a tabela destas categorias de acordo com a literatura. 58 Quadro de categorias de acordo com a literatura científica. Literatura a Favor (Luna, 2007. CATEGORIAS Mota & Soares, 2005. Santos, Soares & Carvalho 2004). MÉTODO TÉCNICA In vitro Pode reparar órgãos (ou células) Ainda não produziram nenhum danificados, aplicando-se uma êxito terapêutico reconhecido, quantidade de células tronco no pode gerar outros tipos de paciente. doenças. traumáticas, doenças crônicas, doenças degenerativas. A célula ainda não tem ÉTICA 2007. Gallian, 2005). In vitro Melhora ou cura de lesões TRATAMENTO Literatura Contra (Cesarino, Não há comprovação de sucesso em tratamentos com humanos com células embrionárias. A vida já começa na características ou sinais vitais que fecundação, há um ser vivo em comprometam sua utilização questão. O que se pode observar é que de acordo com Luna (2007) a fertilização in vitro (FIV) é a técnica que produz embriões em laboratório. A fim de aumentar a eficácia da técnica proporcionando maiores chances de gravidez, estimula-se a maturação de vários folículos no ovário, formando óvulos que serão coletados e unidos a sêmen tratado. Esta seria a técnica mais adequada para as pesquisas e terapias das células-tronco embrionárias, que ao invés de serem fecundadas no útero, seriam implantadas para a regeneração de algum tecido. Por outro lado, Cesarino (2007) cita que de acordo com Natalia López Mortalla, catedrática de bioquímica da Universidade de Navarra, Espanha, “a tecnologia da clonagem é extremamente ineficaz e, no caso dos primatas, de mil tentativas realizadas (mil óvulos), não se conseguiu nenhum verdadeiro embrião”. 59 Isso mostra o quanto as opiniões sobre os estudos com células-tronco embrionárias ainda se divergem e provoca debates mesmo no meio científico. Em geral foi também analisado o comportamento de conhecer (saber sobre) referente ao assunto e sua relação com uma resposta “A FAVOR” OU “CONTRA” o conteúdo da reportagem, no caso, sobre o uso das células-tronco embrionárias. A página do site Folha On Line é uma versão resumida on-line do jornal Folha de São Paulo. Neste site, os assinantes podem ter acesso aos arquivos das matérias do jornal, porém, as reportagens do Folha On-line só estão disponibilizadas em alguns meses do ano. Por isso a dificuldade de avaliar as reportagens que foram comentadas na íntegra. No presente trabalho foram usados os termos leitores, inter-leitores e leitorinter-leitor para referir-se aos emissores das respostas referentes à reportagem publicada; aos emissores das respostas referentes aos comentários dos outros leitores, respectivamente. Analisou-se, ainda, o leitor-inter-leitor, que se refere ao internauta que emite os dois tipos respostas, tanto referente às reportagens quanto aos comentários dos outros leitores. 60 5. Resultados e Discussão O conhecimento socialmente construído tem sido um tema explorado por estudiosos das Ciências Sociais e da Psicologia, e neste, pela Análise do Comportamento. Conhecimento socialmente construído é conhecimento que um indivíduo adquire em sua relação com o ambiente social por meio de descrições fornecidas pela comunidade verbal. Tal conhecimento é comportamento verbal que envolveria tatos, autoclíticos e intraverbais - que são especificamente respostas verbais sob controle antecedente de estímulos também verbais. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, a mídia de massa tem desempenhado um papel importante na construção e manutenção de conhecimento socialmente construído, fornecendo às pessoas, através de seus veículos - jornais, TV, internet, rádio, cinema, entre outros - relatos verbais acerca de eventos que ocorrem no mundo (Alves, 2006). Hoje, nas sociedades de massa, fazemos contato com os acontecimentos de muitos lugares do país e do mundo por meio do que é dito sobre eles nos veículos de mídia. Em outras palavras, conhecemos mais sobre o mundo, no sentido de que sabemos emitir comportamento verbal relativo a muitos eventos e objetos por experiência direta e indireta quando o contexto assim exigir, porém, quando o conhecimento é adquirido de forma indireta (por meio de relatos verbais de outros) este conhecimento é intraverbal, ou seja, controlado por estímulos antecedentes verbais produzidos, neste caso, pela mídia e seus interlocutores. Logo, não é apenas a mediação (conhecer pelo conhecimento do outrto) que é importante quando se analisa como o indivíduo conhece o mundo, mas o aumento do número de mediações que determinado conhecimento passou a configurar para tornar as pessoas conhecedoras do mundo, e com o advento da mídia, mais particularmente da mídia de massa, conhecer não necessariamente implicaria no contato direto (via contingências) para que se possa emitir comportamento sobre. A mediação via relato verbal, anteriormente promovida de maneira direta entre os indivíduos que se comportavam, passou a ser uma espécie de cadeia de mediações onde alguns indivíduos têm acesso ao ‘relato do relato’ de um dado evento (Alves, 2006), por meio do conhecimento disponibilidade por outros. 61 De acordo com Passos (2003) a função do comportamento verbal relacionase à vida do homem em sociedade. Mais do que vantajoso para o indivíduo, ele o é para a comunidade como um todo e, por isto, esta dispõe de práticas específicas para sua modelagem. Assim como ocorre com as outras práticas culturais, é no efeito sobre a vida do grupo, mais do que sobre a do indivíduo, que devemos buscar as razões pelas quais o comportamento verbal é modelado e mantido. Não são necessários novos mecanismos, além daqueles já estudados na modelagem e manutenção do repertório de operantes dos organismos em geral, para a explicação da aquisição da linguagem. A comunidade verbal instala os repertórios verbais a partir dos processos de reforçamento, resultando em discriminação, generalização, diferenciação, etc. A investigação da aquisição da linguagem não é orientada pelo exame do que ocorre na interioridade do sujeito, mas, ao contrário, deve ser fiel à busca de determinantes do comportamento na exterioridade, pela ação no e do ambiente sobre o organismo, pelo exame das contingências de reforçamento "planejadas" pela comunidade verbal. ANÁLISE QUANTITATIVA No presente trabalho, pretendeu-se medir primeiramente a quantidade de comentários totais do site Folha On-line, bem como, a quantidade total de cada mês disponível, tendo como foco as reportagens sobre células-tronco. Considerou-se o período de março a setembro de 2008 na localização dos comentários e registro de sua freqüência. A partir da análise dos dados observou-se que do total geral de comentários (n=690), os meses de março e maio apresentaram maior freqüência com 358 e 168 comentários, respectivamente. Em segundo lugar, o mês de abril com 113 comentários e, em último, o mês de junho com 47 comentários. Os meses de julho (n=1), agosto (n=2) e setembro (n=1) apresentaram decréscimo importante de respostas emitidas pelos leitores, por este motivo não foram avaliados qualiquantitativamente os comentários desses meses, mesmo que relacionados ao tema em questão. Segue abaixo a distribuição de todos os comentários feitos no site Folha On-line (n=690). (ver Gráfico 1). 62 Distribuição dos comentários de acordo com o mês (ano 2008) 400 350 300 250 200 150 100 50 0 358 168 113 47 Março Abril Maio Junho 1 Julho 2 Agosto 1 Set embro Gráfico 1: Distribuição total de comentários disponíveis no site Folha On-line por mês. Uma mudança importante que foi observada nos comentários ao longo dos meses foi quanto à freqüência de comentários conforme o mês. Os meses de março (n=358), abril (n=113) e maio (n=168) foram os meses que antecederam os debates sobre as células-tronco embrionárias no Supremo Tribunal Federal. Esses cogitavam a votação da lei de Biossegurança. O mês em que ocorreu a votação (maio/2008), a freqüência dos comentários é relativamente maior do que nos meses posteriores; junho (n=47), julho (n=1), agosto (n=2) e setembro (n=1). Percebe-se que a emissão de respostas vai diminuindo com o passar dos meses, possivelmente sob controle do debate apresentado pela mídia, e em especial, pelas reportagens na Folha On line. Para o presente trabalho, foram selecionados e analisados 70 comentários assim distribuídos: 20 comentários no mês de março, 17 no mês de abril, 18 no mês de maio e 15 no mês de junho. A escolha da quantidade de comentários foi baseada numa porcentagem de 11% do total de comentários, e esta escolha foi feita por sorteio aleatorio como já descrito no método (ver Gráfico 2). 63 Descrição da quantidade de comentários de acordo com o mês . 25 20 20 17 18 15 15 10 5 0 MARÇO ABRIL MAIO JUNHO Gráfico 2: Distribuição da quantidade de comentários analisados por mês. Aqui analisou-se a quantidade de comentários contra e a favor da utilização das células tronco em pesquisas e terapias no Brasil. Quanto à freqüência de comentários contra e a favor à utilização das células tronco em pesquisas e terapias notou-se um número maior de opiniões a favor (n= 47), e comentários contra foi de 18 do total pesquisado. No mês de maio as opiniões a favor também prevaleceram, com 11 comentários do total (n= 70). Os comentários neutros representaram aqueles usuários que não emitiram opinião nem contra e nem a favor do tema em debate, com uma freqüência de 6 comentários em todos os meses pesquisados (ver gráfico 3). 64 16 14 Descrição de comentários contra, a favor e neutros por mês. 15 12 12 10 11 9 8 6 4 2 3 2 0 MARÇO 4 3 1 ABRIL 6 5 A FAVOR CONTRA NEUTRO MAIO 0 JUNHO Gráfico 3: Distribuição de comentários contra, a favor e neutros por mês. ANÁLISE QUALITATIVA Variabilidade nas Respostas Segundo Skinner (2007) o que denominamos comportamento evoluiu como um conjunto de funções aprofundando o intercâmbio entre organismo e ambiente. Em um mundo relativamente estável, o comportamento poderia ser parte do patrimônio genético de uma espécie assim como a digestão, a respiração ou qualquer outra função biológica. O envolvimento com o ambiente, contudo, impôs limitações. O comportamento funcionava apropriadamente apenas sob condições relativamente similares àquelas sob as quais fora selecionado. A reprodução sob uma ampla gama de condições tornou-se possível com a evolução de dois processos por meio dos quais organismos individuais adquiriam comportamentos apropriados a novos ambientes, comportamentos esses adquiridos no contato direto com o ambiente, gerando assim algum nível de adaptação às exigências do meio. Por meio do condicionamento respondente (pavloviano), respostas emitidas e originadas por processos de seleção natural poderiam ficar sob o controle de novos estímulos. Por meio do condicionamento operante, novas respostas poderiam ser fortalecidas (“reforçadas”) por eventos que imediatamente as seguissem. 65 Skinner (2007) afirma que o condicionamento operante é um segundo tipo de seleção por conseqüências. Deve ter evoluído em paralelo a dois outros produtos das mesmas contingências de seleção natural – a susceptibilidade ao reforçamento por certos tipos de conseqüências e um conjunto de comportamentos menos especificamente relacionados a estímulos eliciadores ou liberadores (A maior parte dos operantes é selecionada a partir de comportamentos que têm pouca ou nenhuma relação com esses estímulos). A seleção pelas conseqüências está diretamente ligada a processos de variação de respostas. O comportamento para se tornar adaptativo, em sua maioria, varia de acordo com o ambiente reforçador antes de ser selecionado. No presente trabalho é possível analisar tanto quantitativamente como qualitativamente a variabilidade das respostas dos leitores quanto ao assunto em debate. Buscou-se analisar os comentários quanto ao conteúdo escrito. Para tal mediu-se a emissão do comportamento textual conforme sua interpretação e resposta aos critérios (definição) de acordo com categorias de análise. As categorias, considerando sua relevância na discussão sobre o tema, foram: método, técnica, tratamento e ética. Os dados analisados permitiram considerar que do total de comentários analisados a maior freqüência entre os meses foi para a categoria ética, com 50 comentários. Em segundo lugar, a categoria método com uma freqüência de 9 comentários; o tratamento e a técnica, com 8 e 3 comentários, respectivamente (ver gráfico 4). 66 25 Quantidade de comentários relacionados com método, técnica, tratamento e ética por mês. 20 20 MARÇO 15 13 10 5 0 9 8 4 3 2 0 MÉTODO 2 1 0 TÉCNICA 3 2 0 TRATAMENTO ABRIL MAIO JUNHO ÉTICA Gráfico 4: Distribuição dos comentários de acordo com a classificação do método, técnica, tratamento e ética por mês. No presente trabalho, observou-se que nos comentários não é possível identificar que tipo de leitor responde e interage nos fóruns de debates, ou seja, não se pode identificar a idade, profissão, grau de intrução dos internautas que comentam. Neste caso, só é possível identifica-los se os próprios leitores o fizerem. A emissão de comentários e sua classificação em categorias foi respaldada na literatura científica sobre o tema células-tronco embrionárias. Então, os comentários classificados com maior freqüência foram aqueles que apresentavam relatos que foram discriminados como com relação à ética. A palavra ética é originada do grego ethos, (modo de ser, caráter) através do latim mos (ou no plural mores) (costumes, de onde se derivou a palavra moral.). Ética então, está ligada diretamente a moral, ao indivíduo com a sociedade, aos seus deveres e tudo o que o ser humano aprendeu desde o seu nascimento em relação ao ‘certo e errado’, em relação ao seu modo de se comportar, que leis seguir e suas opiniões sobre a construção social e do mundo que o rodeia. No presente trabalho este é o aspecto que pode-se observar ser mais atrativo para a discussão das células-tronco embrionárias. 67 Tendo a freqüência da categoria ética maior do que as outras categorias, observa-se que os internautas respondem mais a sua história de valores sobre o tema do que, necessariamente, sobre o valor da ciência sobre o tema. Todos os detalhes da filosofia moral skinneriana que estudamos até o momento integram o que podemos chamar de seu aspecto descritivo. Trata-se de descrição no aspecto científico da palavra: para Skinner (1971), a ciência do comportamento é também ciência dos valores. Se valores estão nas contingências, valores são objeto de estudo da ciência. À parte tudo o que possamos pensar sobre questões éticas, a evolução das espécies, dos indivíduos e das culturas é um fato empírico. Assim, o aspecto descritivo do sistema ético skinneriano aplica-se ao estudo científico dos três níveis seletivos que controlam o comportamento ético. Ele possibilita elaborar uma ciência dos valores que explique: 1) porque seres humanos comportam-se eticamente; 2) porque seres humanos utilizam vocábulos de ordem ética; 3) porque seres humanos defendem/promovem certos valores éticos. Skinner está, portanto, meramente descrevendo, de maneira econômica, fenômenos naturais e culturais. Entretanto, para além desse aspecto descritivo, a filosofia moral skinneriana apresenta também um aspecto prescritivo. Esclareça-se, porém, que essa classificação . isto é, aspecto descritivo versus aspecto prescritivo . não ocorre no texto skinneriano (Dittich & Abib, 2004). De acordo com Abib (2001) é possível agir para o próprio bem ou para o bem de outros. Porém o que significa agir para o bem da cultura? O autor cita que Skinner (1971) afirma que é agir para a sobrevivência das culturas, e isso significa, no mínimo, proteger a cultura de práticas para ela letais, como por exemplo, a superpopulação, devastação do meio ambiente, poluição dentre outros. De acordo com as observações do presente trabalho, pode-se constatar que as respostas dos leitores emitem justamente o conceito de ética dentro da preservação de uma prática, neste caso, as pesquisas com células-tronco embrionárias. Ao mesmo tempo que se nota pessoas convencidas de que não é ético usa-las existem opiniões totalmente contrárias dizendo que não existe o porque não tentar as pesquisas com estas células. A questão maior em discussão é se existe realmente algum vestígio de vida que possa ou não ser destruída com o uso destas células em terapias e pesquisas. 68 Conhecer e saber De acordo Skinner (1993), diz–se amiúde que o reforço transmite informação, mas isto é simplesmente dizer que ele torna uma resposta não só mais provável como mais provável numa ocasião específica. Ele não apenas faz com que a resposta seja posta sob controle das privações correlatas ou da estimulação adversativa, como também dos estímulos presentes no momento em que ela ocorre. A informação, nesse sentido, refere-se ao controle exercido pelas condições do ambiente. Segundo Skinner (1993) também usamos os termos “conhecer” ou “saber” para dar a entender “estar sobre controle de”, uma condição que não é única determinante de nosso comportamento. Disse-se que “todo conhecimento consiste em hipóteses (...) encaradas como provadas ou sustentadas de forma muito tentativa”, não é mais provável que digamos “eu penso” em relação a uma hipótese tentativa, reservando “eu sei” para um caso provado. A diferença, todavia, não é crítica. Grande parte daquilo que é chamado conhecimento contemplativo está associado com o comportamento verbal e com o fato de ser antes o ouvinte e não o falante, que assume a ação. Pode-se falar do poder das palavras a afetar o ouvinte, mas o comportamento de um falante ao identificar ou descrever algo sugere um tipo de conhecimento divorciado da ação prática. O comportamento verbal desempenha papel de destaque no conhecimento contemplativo, contudo, porque está bem adaptado ao reforço automático, o falante pode ser seu próprio ouvinte. Há comportamentos não verbais que produzem o mesmo efeito. Respostas perceptivas que esclarecem estímulos e resolvem perplexidades podem ser automaticamente reforçadoras (Skinner, 1993). Todos os comentários têm características peculiares, porém, com um detalhe semelhante a todos: a manifestação do comportamento de conhecer dos internautas (podendo ser caracterizados muitas vezes como tactos e mandos disfarçados). Observou-se que cada respondente parece tentar mostrar o que seria a sua “verdade” e com isso se comportam verbalmente, e de maneiras variadas para 69 defender seus ideais (emissão de opiniões). Ou seja, emite estímulos discriminativos verbais com características muito próximas dos autoclíticos, tactos e mandos. Nas pesquisas mais atuais em Psicologia Social tendo como base a análise do comportamento e o comportamento socialmente construído é enfatizado que os conhecimentos socialmente construídos se integram mutuamente, englobando o comportamento dos indivíduos e os fatos sociais em sua história (Sá, 1995 apud Borloti & Trindade, 2000). Tourinho (1997) escreve que a dimensão social do comportamentoconhecimento, na visão skinneriana, pode ser atestada, principalmente, nas proposições acerca das relações entre o comportamento encoberto e as práticas sócio-culturais. Há neste ponto, evidentemente, uma posição contrária às “psicologias do indivíduo” que remetem à dicotomia sujeito-social. Nas análises feitas nas frases emitidas pelos internautas pode-se notar como a questão dos encobertos envolve todo o texto ou a maior parte do texto escrito por eles. Um exemplo disso é quando os internautas a favor das pesquisas citam os religiosos que são contra a utilização do uso das células-tronco em pesquisas e terapias. Neste contexto pode-se caracterizar a emissão de tactos nas respostas dos leitores. O tacto permite que a comunidade verbal, tome contato, indiretamente, através do comportamento verbal do falante com vários aspectos do ambiente físico e cultural, inclusive com os presentes em contextos geográficos e históricos diferentes daqueles em que ela vive. É por meio do tacto que nomeamos os estímulos ou algumas de suas propriedades, descrevendo vários dos aspectos do ambiente externo e interno à nossa pele. O tacto é controlado por estímulo discriminativo não-verbal, sendo reforçado por reforço generalizado (Passos, 2003). Abaixo segue alguns trechos de comentários de internautas mostrando seus “sentimentos” referentes ao tema e a interpretação dos comentários como descrevendo tactos. Respostas a favor: 70 “Esse bando de sacripantas hipócritas, se realmente estivessem preocupados com vidas humanas venderiam todo o ouro e jóias que existem em suas igrejas e destinariam a combater a dor e a miséria entre as crianças desvalidas do mundo” (tacto). “A população está revoltada com os religiosos. Se não podem nos ajudar, que não nos atrapalhem” (tacto). “Se a sociedade estivesse se sujeitando ao catolicismo, por exemplo, ainda estaríamos andando de carroça e beijando mão de padre nas ruas” (tacto). Respostas contra: “Estes ateus, de linha marxista, que defendem o uso de seres humanos em forma embrionária para pesquisa, não querem se concentrar no fato de que é possível usar células tronco sem precisar produzir e manusear fetos humanos. UM ABSURDO!” (tacto). “Em primeiro lugar quero dizer que sou totalmente contra a utilização de células tronco, pois desde a concepção já temos uma vida e uma alma” (tacto). Segundo Skinner (1993) um sentido de “conhecer” é simplesmente o de estar em contato com, de ser íntimo de. É nesse sentido que se diz que uma pessoa conhece (no caso do presente estudo) as células-tronco e todas as questões discutidas que envolvem sua utilização nas pesquisas e terapias. Há uma explicação, evidentemente, de o comportamento ser alterado pelo contato. De acordo com Borloti e Trindade (2000), incursões no sentido de analisar o conhecimento social numa perspectiva comportamental já foram tomadas em tempos anteriores. Sá (1983) citado por Borloti e Trindade (2000), explica que já foi 71 concluído, por exemplo, que existem (resguardando as potencialidades diversas) algumas afinidades evidentes entre as proposições de Foucault e Skinner acerca do saber enquanto comportamento-conhecimento socialmente construído. A fictícia idéia da autonomia humana, por exemplo, é construída em função de uma história de reforçamento individual, por sua vez, inserida inerentemente nas práticas de uma comunidade verbal que compõem o locus do reforçamento social dos repertórios descritivos. Nos comentários observaram-se exemplos do uso do reforço social. “Prezado E. C. tenho o maior respeito pelo senhor e notei ao longo deste fórum que o senhor é uma ótima pessoa e tem um grande coração é um ser humano admirável e merece todo respeito”. “A polêmica sobre as células-tronco embrionárias é apaixonante”. “Parabéns ao Brasil e aos ministros do Supremo e ao povo brasileiro. Essa é uma vitória contra o fanatismo o obscurantismo e a falta de amor ao próximo”. “Parabéns a todos que fizeram deste fórum uma aula de democracia. Foi muito prazeroso participar dessa discussão tão importante para a nossa história. Parabéns a todos e um grande abraço”. “O problema é que vocês se levam a sério demais, eu fico imaginando vocês na roda de amigos, ninguém deve agüentar... Pois bem, Sra.Z. não sei a sua religião (não que isso seja importante!) mas de todos aqui, quem parece mais entender do assunto é a Sra., leio suas opiniões com muito gosto e sinceramente espero que o bom senso prevaleça e que continue só os testes com células-tronco adultas; "Porque nada podemos contra verdade, senão em favor da própria verdade" (IICo13:8). Tudo que é contra DEUS ou SUA vontade não vinga”. 72 Uma questão importante é que o comportamento verbal é efetivo pela ação de outras pessoas e usualmente, mas não necessariamente, ocorre na presença de outras pessoas (Skinner, 1978 apud Borloti e Trindade, 2000). Isso descreveria a dimensão social da sua construção. Assim, repertórios verbais particulares mantêmse em grupos cujos membros agem em contextos discriminativos para a produção desses comportamentos, compartilhando-os no conjunto maior da comunidade verbal que mantém o conjunto da linguagem. O trecho acima exemplifica muito bem o presente trabalho quanto às postagens feitas pelos leitores. Eles dialogam entre si, porém sem a presença uns dos outros, apenas pelo estímulo discriminativo que são as postagens feitas no site caracterizando comportamento textual; não há um reforço imediato, aparentemente. Mas haveria uma “expectativa” de comentários pelos outros leitores? Parece que sim, pelo menos para parte dos leitores, que se mantém na abordagem ao próprio texto em outras ocasiões e a textos de outros. Há outras variações: observa-se ainda que há aqueles comentários que nem são respondidos imediatamente e sim apenas quando o leitor acessa a página de comentários e os visualiza. Há aqueles que nem chegam a ser respondidas. O comportamento textual é controlado por estímulos discriminativos verbais apresentados por outros falantes e por reforço generalizado. A comunidade depende do comportamento textual para estabelecimento de muitos dos seus controles (Passos, 2003). Neste caso, pode-se pensar em diferentes contingências de reforçamento atuando, possivelmente modelando e mantendo comportamentos que para alguns gera aumento de freqüência (mais de uma participação na oferta de opiniões). Abaixo segue mais alguns exemplos de comentários de leitores sobre postagens de outros leitores, abordando assim a interação entre eles. Observe que inclusive os leitores sinalizam a direção em que deveriam se comportar os demais comentaristas, de forma a obter a conseqüência que possivelmente seria dada por um ou mais leitores em particular; vê-se principalmente a apresentação de estímulos verbais ‘aversivos’, sugerindo que a emissão de comportamentos em outra direção poderia ter maior de ser reforçado, entretanto, é preciso considerar que opiniões “contra” (ainda que não descritas abaixo) também são reforçadas por leitores que parecem responder a práticas culturais semelhantes (p.e., oriundas de pensamento religioso comum): 73 “Folhear a diversidade dos comentários agrada, ainda que se passeie da ignorância ao saber por todos os campos do ’desconhecimento’ humano, contudo, agressividade, violência gratuita, em especial contra a Igreja Católica e sua difícil existência, magoa-me entristece, entendo que ofende todos os cristãos”. “O A. M. deve estar com a barriga doendo de tanto rir do senhor, ele conseguiu o objetivo dele, jogar uns contra os outros, me mostre o que eu disse dos senhores? Fora essas verdades da ultima postagem. O A. M. é um artista cômico; é por isto que a igreja dele vive cheia porque lá só tem palhaçada, será que os senhores não notaram não?”. “Prezado P. F. ignorância histórica, e TEOLÓGICA é o Sr. não admitir os muitos erros cometidos pela religião que o Sr. tenta defender cegamente, o que deu para notar é que pelo senhor o Sr. faria uma fogueira santa para queimar os cientistas como se fossem BRUXOS, o senhor está parecendo o guardião das fogueiras da inquisição”. Segundo Guerin (1992), esse seria o fundamento behaviorista radical descritivo do conhecimento socialmente construído, e uma vez seguido o seu argumento, seria possível concluir que na descrição que os psicólogos sociais fazem da construção sócio-histórica de um “modo de conhecer” específico, estaria faltando a análise funcional do controle interpessoal e intergrupal (e por extensão, do controle intrapessoal) que, mediado pela história impregnada na cultura do grupo, explicaria o repertório verbal que caracteriza as temáticas principais nos discursos dos seus membros, bem como das conseqüências geradas no contato com outros indivíduos, reforçando-os ou punindo-os por emitir comportamentos em acordo ou desacordo com a direção em que seus comportamentos são ou foram majoritariamente reforçados. Um detalhe interessante que foi observado neste estudo foi que existe um determinado momento em que os leitores já não ficam mais sobre o controle da reportagem em si para escrever seus próprios comentários, e sim das opiniões 74 postadas dos outros leitores. Os discursos começam a tomar portes pessoais ou até mesmo aversivos para aqueles que participam dos fóruns. Chega um determinado momento que se pode observar que leitores e inter-leitores passam a ser a mesma pessoa; ou seja, a mesma pessoa passa a ter os dois papéis ao responder. Um exemplo disso são os trechos descritos abaixo das relações inter-leitores. Como se pode observar, há contingências supostamente sinalizando reforço positivo e negativo, punição negativa e positiva. “Márcia, acho que ninguém aqui está procurando discussões ou desavenças, são só cidadãos expondo e defendendo seus pontos de vista”. (REFORÇO POSITIVO) “Fábio entrei nesse tópico não a fim de brigas e discussões, cada um tem sua opinião e o que esta em nossas cabeças NADA MUDARÁ”. (REFORÇO NEGATIVO) “Um advogado incapaz de discernir os fatos de conceitos obsoletos deveria ter sua inscrição na OAB caçada”. (PUNIÇÃO NEGATIVA) “Dra. Z. P. a senhora está muito mal informada e nem parece ser uma doutora”. (PUNIÇÃO POSITIVA). Outro aspecto importante observado foi que depois que a lei é votada e aprovada os comentários começam a diminuir de freqüência e alguns leitores até a opinar sobre outros assuntos a serem discutidos que não mais as células-tronco embrionárias. Ou seja, enquanto o possível estímulo discriminativo, a aprovação ou não da lei de biossegurança – estava em discussão e diariamente na mídia, inclusive eletrônica, todos os leitores pareciam “estar motivados” a escrever sobre o assunto, ou seja, via-se mais claramente estímulos discriminativos para a emissão de comportamento de dar opinião. Abstrai-se daí que parece haver contingências 75 culturais que ficam sobre controle de variáveis comuns, gerando níveis de variabilidade comportamental e seleção de respostas, sob controle de estímulos verbais comuns, ainda que difiram no alcance do tipo de comunicação observada, em princípio, que se mantenha diversa no conteúdo abordado. Então, sob esta perspectiva, quando a lei foi aprovada não havia necessariamente mais sobre o que opinar, mas alguns leitores ainda manifestaram suas últimas congratulações ou indignações (mantinham-se sob controle de outros reforçadores? Ou continuavam a emitir comportamento em função de reforçamentos prévios?), e posteriormente vêse uma extinção quase total dos comentários (o que parece demonstrar que há uma condição controladora “maior”, que é a votação da Lei); assim, nessa condição, parece que comportamentos passam a não mais ocorrer em vista que houve mudança na oferta do controle discriminativo (o assunto não está mais em pauta como antes), uma vez que a decisão final já tenha sido tomada pelo STF. Os leitores vão passando a ficar sob controle de outras variáveis (não é mais o tema em discussão, se deve ou não liberar as pesquisas sobre células-tronco, mas a decisão tomada). Vê, abaixo, inclusive, que há leitores que “sinalizam” o fim do debate e a suspensão do fórum e a abertura de novos fóruns. Um exemplo disso são trechos das opiniões abaixo no dia em que a lei foi aprovada: “Parabéns ao Brasil e aos ministros do Supremo e ao povo brasileiro. Essa é uma vitória contra o fanatismo o obscurantismo e a falta de amor ao próximo”. “Essa com certeza é uma vitória muito importante para o desenvolvimento científico do nosso país”. “Volto a escrever nesta data para cumprimentar o Supremo Tribunal Federal pela sensatez de seus Ministros, resistindo à pressão de grupos que defendem visões muito particulares sobre a complexa realidade em que vivemos, e que parecem ser incapazes de compreender que suas crenças numa sociedade democrática, plural e moderna - não devem ultrapassar o âmbito das convicções pessoais”. 76 O mês seguinte à aprovação da lei: “Os caras continuam batendo na mesma tecla? Esse debate já era. Num país cheio de problemas a serem superados como o nosso, devemos "virar o disco" e discutir outros assuntos. Sugiro, por exemplo, a legalização do aborto ou da união civil entre homossexuais”. “Já vitorioso no STF, ainda a CTE provoca debates”. Uma hipótese a ser avaliada a partir dessas observações é se os mesmos leitores continuam a emitir comportamentos sobre outros temas, ou seja, se “tendem a se comportar com freqüência nesse ambiente virtual”, o que não foi objeto da presente pesquisa. Assim, levanta-se a idéia se não é possível fazer pesquisas sobre esta questão. Ao analisar os comentários, pode-se observar como a questão do controle pela audiência fica explícita em alguns casos. De acordo com Hübner (2005), a audiência funciona como um estímulo discriminativo, ou seja, como parte de uma ocasião para que o comportamento verbal seja reforçado, portanto, controlando a força ou probabilidade de emissão da resposta. Uma das funções da audiência é a seleção do comportamento e forma do comportamento verbal, ou seja, o tópico a ser apresentado e maneira de se fazê-lo. Certas comunidades podem modelar e tornar alta a probabilidade de metáforas, trocadilhos e piadas. “O André Messias é um artista cômico é por isto que a igreja dele vive cheia porque lá só tem palhaçada, será que os senhores não notaram não? Ele não está neste fórum para defender idéias, ele esta neste fórum para se divertir. E está se divertindo muito, graças à inocência dos senhores que ainda são santos encarnados”. 77 “ C.A. R.F (Os doentes estão fazendo chantagem emocional), você fica cuspindo pra cima que logo, logo vai cair na sua cara,quero ver você dizer isto quando você estiver com uma doença que vai te consumindo aos poucos, porque que você não adota os embriões? Leve todos eles para sua casa e implante-os em você ou em quem compartilha com essa sua enorme ignorância, pimenta nos olhos dos outros é refresco, mas aguarde que a sua hora chegará, você pensa que isto só acontece com o vizinho espere e verás. Os doentes estão fazendo chantagem emocional!!! quanta ignorância da sua parte você não sabe o que diz. Eu não vou te dizer mais nada porque um ignorante como você merece apenas o desprezo e ainda é muito que estou te dando....credo como existe gente deste jeito ÉCA QUE NOJO DE VOCÊ”. “Prezado André messias falando muito serio agora a Dra. Zulma Peixinho esta tentando confundir as pessoas com esses argumentos de barreira imunológica intransponível. As células-tronco embrionárias são neste momento apenas para fins de pesquisas, e não para aplicações em terapias como ela esta dizendo”. É nítido observar o quanto que a questão do conhecimento está ligada ao poder, ao controle e a valorização do sujeito como entendedor (ou não) do saber. Em alguns comentários pode-se observar uma suposta competição entre quem sabe mais sobre o tema. Os comentários acabam tornando-se discussões pessoais, ofensivas e desrespeitosas, onde cada um “mostrando quem é o dono da verdade”. “Folhear a diversidade dos comentários agrada, ainda que se passeie da ignorância ao saber por todos os campos do “desconhecimento" humano, contudo, agressividade, violência gratuita, em especial contra a Igreja Católica e sua difícil existência, magoa-me entristece, entendo que ofende todos os cristãos”. 78 “Para retirar tais células os embriões são mortos, dilacerados, destruídos. É mentira que o uso de células embrionárias consegue cura ou tratamento para alguma doença que exista na face da terra. Até hoje só se consegue resultados para tratar doenças usando células de adultos”. “Márcia, acho que ninguém aqui está procurando discussões ou desavenças, são apenas cidadãos expondo e defendendo seus pontos de vista. Voltando ao debate, o que está sendo julgado hoje no STJ é a liberação das pesquisas com as CTE, estas que em um futuro próximo poderão ajudar cidadãos. Os embriões em questão são os que serão descartados, ou seja, os que não terão serventia para o tratamento da mulher, ou por que não alcançaram o nível ideal para o implante no útero ou sobraram no tratamento”. “Alguns participantes deste fórum fixaram seus argumentos em células adultas. Mas deixe-me lembra-los que se eles chegaram a esta conclusão é porque pesquisaram e estudaram nas células embrionárias. Ademais todos os estudos ainda não são conclusivos, para alguns casos as células adultas ajudam na regeneração e tratamento em outros não. O mesmo ocorre com as embrionárias”. É interessante observar como os comentários dos leitores em determinado momento ficam sobre o controle das respostas emitidas dos outros leitores (interleitores) e não mais da reportagem publicada. Eles passam, então, a se comunicar por meio dos comentários, como se pode ver nos exemplos abaixo: “Cara amiga Márcia, essa me doeu no fundo do âmago. Quer dizer então que devemos nos conformar com as doenças, deficiências e etc, pois elas são uma vontade de Deus? Estou pasmo!”. 79 “Prezado Cristiano Garcia concordo com tudo que disseste, e muitos no mundo tentaram fazer uma maquina voar e não conseguiram, e um brasileiro virou o pai da aviação”. De acordo com as definições de leitor, inter-leitor e leitor-inter-leitor utilizadas no presente trabalho, criou-se um quadro de respostas para observar como estão distribuídos os comentários de acordo com estas categorias de análise. Veja o quadro abaixo: Quadro das categorias de leitor, inter-leitor e leitor-inter-leitor. LEITORA RELAÇÃO FUNCIONAL C1 C2 C3 C4 C5 C6 C7 C8, C14 C9, C16 C10 R+, Sd (tato) Punição Sd, R+ Punição Sd (tato), RSd (mando) Sd (tato), RSd (tato, mando) Sd (tato), RPunição, Sd (tato) C11, C29 Sd (tato), punição C12 C13 C15 C46 C17 C18 C19 Punição, Sd (tato) Sd (tato), R- C70 RELAÇÃO FUNCIONAL LEITOR/ INTER-LEITORC RELAÇÃO FUNCIONAL C45 Sd (tato), R- C48 C50 Sd (tato), R-, R+ C25, C60 C66 R+, Sd (tato), R- C61 R-, Sd (tato) C43 Sd (tato), punição C62 Sd (tato), R- C68 R+, Sd (tato) Sd (tato) Sd (tato e mando) Sd (tato), punição Sd (tato) Sd (tato), R- C28 C47 C30 C32 Sd (tato), RSd (tato), R-, punição C51 R+ C37 C36 C40 Sd (tato) Sd (tato), punição Sd (tato), punição C44 C49 C52 Sd (tato) Sd (tato) Sd (tato), R+ C57 Sd (tato), R-, punição C59 a. b. INTER-LEITORB C20 C54 C67 C21, C24 C26, C27 C29 C31 C33 C39 C41 C55 C64 C65 C69 C22 C63 C23, C42 R+, punição, Sd (tato) R-, punição, Sd (tato), R+ Sd (tato), R+ Sd (tato), R- Sd(tato), R+ C34 C37 C35 Sd (tato), R-, punição Sd (tato), R- C53 Sd (tato), punição C54 C56 R-, punição Sd (tato) Sd (tato) LEITOR: Internauta que opina sobre a reportagem INTER-LEITOR: Internauta que responde a outro comentário dentro do tema em debate 80 c. LEITOR/ INTER-LEITOR: Internauta que opina tanto a respeito da reportagem bem como responde a outro comentário Pode-se observar de acordo com a tabela acima como os internautas utilizam de várias relações funcionais para responder aos comentários, bem como a categoria que predomina nos comentários que é a de inter-leitor, ou seja, aqueles internautas que além de emitirem opiniões quanto ao tema abordado responde a outro comentário feito por outro internauta, caracterizando a interação entre eles. De acordo com esta análise, pode-se observar que em sua maioria, os internautas interagem entre si de acordo com o tema em debate e variam as respostas de acordo com as relações funcionais presentes. De acordo com o quadro acima pode-se observar que existem comentários que apenas emitem um tipo de relação funcional, como no caso do C59 que emitiu apenas um estímulo discriminativo (tato), isso quer dizer que emitiu sua opinião sobre o assunto em debate apenas, já que este comentário está caracterizado como leitor. No caso dos comentários 20, 54 e 67 eles emitem na condição de inter-leitor, todos os tipos de relações funcionais categorizadas neste trabalho. Já o leitor/ interleitor apresenta menor número de comentários, porém, com grande variedade de relações funcionais. 81 7. Conclusão A Internet e, sobretudo, o chamado “mundo virtual”, enquanto elementos – talvez imprescindíveis – da cultura contemporânea, se despontam como uma recente realidade global, apresentando-se como um novo campo onde os comportamentos humanos estão presentes (Vieira, 2008). Há que se lembrar que a internet é ambiente para emissão e consequenciação de respostas, participando desse ambiente um número crescente de brasileiros. Conforme atesta o IBGE, com dados do PNAD 20055, 32,1 milhões da população de 10 anos ou mais de idade acessaram pelo menos uma vez a internet em algum local. A partir do presente trabalho pode-se concluir que a mídia é um instrumento que vem sendo utilizado para pesquisas em várias áreas do conhecimento e a psicologia está entre estas áreas. A internet como um meio contemporâneo de comunicação de massa é um instrumento muito interessante e vem sendo utilizada como ambiente e objeto de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento. De acordo com Vandenberghe (2005) o behaviorismo radical é a filosofia de uma ciência. Além de propor uma teoria do saber científico, também apresenta uma visão do homem e do universo de que este é parte. Insistindo que os objetos da ciência são sempre interações, e não entidades, esta filosofia encarna uma rejeição do essencialismo e abraça o contextualismo. Eventos em si mesmos não significam nada, não têm essência própria, mas derivam seu sentido de interações. Uma das características que distinguem a teoria em psicologia chamada análise do comportamento é exatamente a proposição do comportamento como objeto de estudo da psicologia. Um primeiro aspecto a ser destacado é que o interesse central da análise do comportamento é a compreensão do comportamento humano; é esse interesse que conduz ao estudo do comportamento em si, 5 Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/2005. 82 independentemente da espécie a que pertence o indivíduo que se comporta (Andery, Sério & Micheletto, 2007). O presente trabalho observou a importância da análise do comportamento quanto aos estudos do comportamento verbal. Esse comportamento que nos remete a várias descobertas para um entendimento maior da análise funcional do comportamento humano individual e social bem como suas práticas culturais. Concluiu-se que é possível analisar respostas de internautas emitidas via internet numa visão behaviorista do comportamento através dos estudos das práticas culturais e do comportamento verbal. Pode-se identificar as categorias funcionais de análise como o tato, estímulos discriminativos, respostas textuais dentre outros. Skinner define que comportamento verbal é comportamento operante e, por isso, passível de análises e estudos científicos. Este autor observou que os homens interagem com o ambiente, influenciam e são influenciados e têm seus comportamentos selecionados através das conseqüências. Assim, as relações sociais e a manutenção das práticas culturais dependem desta interação e serão determinadas pelas suas conseqüências dos comportamentos dos indivíduos, que por sua vez, passa a exercer controle sobre seus membros. Concluiu-se que de acordo com os meses analisados através do site Folha On-line (março a junho de 2008) que foi possível observar um decréscimo de respostas entre esses meses, assim que a lei de Biossegurança é aprovada. No mês de maio esta lei foi aprovada e observou-se que entre os meses de março (n= 358) a junho (n= 47) a emissão de respostas é consideravelmente maior do que os meses de julho (n= 1), agosto (n=2) e setembro (n=3). Essa análise mostra como a mídia também influencia muito na emissão de respostas dos leitores. Observou-se que a emissão de respostas sobre dado tema é emitida até que a própria mídia transforme outro tema em questão prioritária para discussão, tendo os próprios leitores como “guardiões” das mudanças temáticas, com alguns incentivando respostas sobre outros assuntos. Pode-se observar que a freqüência de respostas dos leitores diminui a partir do momento em que a decisão do STF foi a de aprovar a lei de Biossegurança. Então, como o assunto começava a ter uma conclusão, as pessoas começaram a diminuir os comentários sobre o assunto das células-tronco embrionárias ou até mesmo sugerir outro tema para debate, neste sentido, pode-se concluir sobre a 83 mudança do controle, o que antes era discriminativo para respostas verbais textuais sobre células-tronco, com a votação da Lei passa a não ser discriminativo para respostas nessa direção, selecionando, portanto, as respostas dos leitores. Os meses em que foram retirados os comentários para análise foram os meses de março a junho de 2008. Foram analisados 70 comentários escolhidos aleatoriamente entre esses quatro meses. Destes comentários 47 eram a favor da aprovação da lei que permite o uso das células-tronco embrionárias para pesquisas e terapias e 18 foram contra. Observou-se também uma freqüência de 6 comentários denominados neutros nos quais não foi emitida nenhuma opinião nem contra e nem a favor sobre o tema em questão. Quanto às categorias relacionadas ao método, técnica, tratamento e ética concluiu-se que a categoria mais utilizada pelos internautas foi ética (n= 50). As categorias método (n= 9), técnica (n= 8) e tratamento (n= 3) apresentaram freqüência relativamente menor. Segundo Dittrich e Abib (2004) a lógica do sistema ético skinneriano está intimamente ligada à do modelo de seleção do comportamento por conseqüências (apud Skinner, 1981/1984). De acordo com esse modelo, o comportamento humano só pode ser integralmente compreendido a partir da conjugação de variáveis atuantes em três diferentes níveis seletivos: filogenético (evolução das espécies), ontogenético (evolução de indivíduos particulares de uma espécie durante seu tempo de vida) e cultural (evolução das culturas). Isso inclui o comportamento ético, verbal e não-verbal. Foi observada também a emissão do comportamento de conhecer em todos os comentários. As opiniões dos leitores, nos parece, eram recheadas de tatos sobre o assunto em questão. Os internautas interagem uns com os outros emitindo comportamentos variados. Pode-se observar e conjecturar sobre emissões de respostas-conseqüências punitivas, reforçadoras negativas e positivas quanto aos comentários publicados no site, o que parece confirmar o aspecto funcional das relações no ambiente virtual. Enquanto saber e consciência são definidos como comportamentos, o mesmo vale para a própria epistemologia. De acordo com o behaviorismo radical, uma visão científica é tanto uma perspectiva de investigação quanto matéria legítima da mesma 84 investigação. Já que o behaviorismo radical define saber, investigar, analisar, refletir como comportamentos, é inevitável considerar a própria filosofia behaviorista radical como nada mais do que comportamento. As reflexões epistemológicas do behaviorismo radical são resultado das contingências que levaram à sua elaboração e, por isto, nunca constituem uma verdade absoluta (Vandenberghe, 2005). A interação entre os internautas é bastante interessante e proporciona ao pesquisador uma rica oportunidade de investigação da interação verbal daqueles que utilizam este meio de comunicação para expressar suas opiniões. Assim, o presente trabalho conclui que foram feitas observações relevantes quanto ao ambiente de interação que foi a mídia através da internet, a maneira pela qual as pessoas se comunicavam que foi o comportamento verbal de escrita e leitura e os estímulos discriminativos e conseqüências que as ações neste contexto puderam ter. Concluiu-se, ainda, que a interação e o reforço social pode acontecer através da internet sem haver, necessariamente, proximidade geográfica entre os leitores, mas dentro de uma geografia virtualmente construída, onde as distâncias são superadas por alguns cliques do mouse. 85 8. Referências Bibliográficas ABIB, J. A. D. Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano. Psicologia Reflexão e Crítica. Vol. 14. Ano 001. Porto Alegre: 2001. p. 107-117. ANDERY, M. A, SÉRIO, T. M, MICHELETTO, N. Comportamento e Causalidade. Laboratório de Psicologia Experimental Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento. 2007. p. 1-70. 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