A PRÁTICA DO PROFESSOR NO ENSINO DA GEOGRAFIA NA REDE
PÚBLICA DE ENSINO NO MUNICÍPIO DE TRÊS LAGOAS/MS: O
PROFESSOR EM FOCO, DA TEORIA À PRÁTICA.
Elaine Cristina Grou/Professora da Rede Pública do Estado de São Paulo
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Francisco José Avelino Júnior/Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
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A EDUCAÇÃO NO BRASIL
A educação no Brasil, desde o seu início, trilhou por caminhos tortuosos,
reservada a uma elite dominante e totalmente exploradora, sempre esteve voltada a
dominação social e a estratificação das classes sociais. Durante muitos séculos esteve
arraigada em nossa sociedade a idéia da dominação cultural de uma parte minúscula da
mesma, configurado na idéia básica de que o ensino era apenas para alguns, e por isso
os demais não precisariam aprender. Aqui está então, as raízes do alto índice de
analfabetismo do nosso país.
Existiram dois fatores fundamentais na formação do modelo educacional
brasileiro. O primeiro fator foi a predominância de uma minoria de donos de terra e
senhores de engenho sobre uma massa de agregados e escravos. Limitava-se o ensino a
uma determinada classe da população, ou seja, apenas a classe dominante. A segunda
contribuição para a formação de nosso sistema educacional deficitário foi conteúdo do
ensino dos Jesuíta, “caracterizado sobretudo por uma enérgica reação contra o
pensamento critico” (ROMANELLI, 2001: 34),
Durante décadas, vários modelos educacionais trazidos de outros países ,
principalmente dos países europeus, foram implantados no sistema educacional
brasileiro, porém nenhum deles se adequou às nossas necessidades. Podemos dividir a
educação brasileira em três escolas: escola tradicional, a escola nova escola técnica. No
entender de ROMANELLI a escola tradicional procurava ensinar e transmitir
conhecimento; a escola nova estava preocupada apenas em considerar o aprender a
aprender. E posteriormente a escola técnica detinha-se em simplesmente considerar
necessário o ensino da técnica.
A educação brasileira se formou de forma fragmentada, cheio de rupturas ao
longo da sua história, o que somado a outros fatores, resultou num sistema inadequado e
cheio de falhas. Aparentemente temos a impressão de que o grande problema de nossa
deficiência educacional se resume ao problema da rigidez do modelo tradicional de
ensino, mas ao aprofundarmos nossa investigação constatamos que a péssima qualidade
de ensino presente nas escolas do Brasil acontece principalmente devido a falta de
estrutura educacional adequada, a pouca ou nenhuma valorização do profissional da
educação e as péssimas condições de trabalho oferecidas a esses profissionais, o que
resultou numa desestruturação do ensino, sobretudo do ensino público.
A educação sempre possui uma dimensão política tenhamos ou não consciência
disso, portanto assume-se um caráter educativo e político para a educação e este só
cumpre seu papel quando permite a formação integral do indivíduo. O desafio da
educação atual é promover uma educação global, onde se possa formar não apenas o
aluno, mas o aluno-cidadão. O grande desafio é conseguir essa formação global vivendo
em uma sociedade fragmentada, constituída por diferentes conceitos de razão, educação,
ética, política, marginalidade, sociedade e cultura.
AS CORRENTES DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO
A prática da Geografia escolar, que está presente na postura de alguns
professores, tem a ver com a sua historicidade, ou seja , a crise vivida pela disciplina
evidenciada na divisão entre Geografia Humana e Geografia Física. E esse é também o
papel do professor de geografia, desconstruir o caráter de fragmentação que a envolve,
de forma a intervir no processo de ensino-aprendizagem promovendo o entendimento
do espaço geográfico como um todo, o humano e o físico.
As principais correntes do pensamento geográfico são: a geografia tradicional, a nova
geografia ou geografia quantitativa e a geografia crítica.
Particularmente, a Geografia escolar tem procurado pensar o seu papel nessa
sociedade em mudança, indicando novos conteúdos, reafirmando outros,
reatualizando alguns outros, questionando métodos convencionais,
postulando novos métodos. Numa análise da história dessa disciplina no
Brasil é possível marcar o final da década de 1970 como o início de um
período de mudanças significativas em torno de propostas de pesquisa e
ensino, que ficou conhecido como Movimento de Renovação da Geografia.
Desde então, muitos caminhos foram escolhidos para se fazer uma análise
crítica da fundamentação teórico-metodológica da ciência geográfica e para
se propor alternativas ao modo de trabalhar essa ciência como matéria
escolar. (Cavalcanti, 2002, p.11)
O modelo tradicional de abordagem para o ensino geográfico, ainda hoje, apesar
de já ter sido superado, é muito utilizado por muitos professores. Esse modelo se reflete
nos métodos e nos conteúdos de ensino, para os quais é importante a informação sobre
as áreas da superfície terrestre, bem como a memorização dos elementos da paisagem,
como rios, montanhas e recursos produzidos.
Essa abordagem é caracterizada pela descrição, classificação e fragmentação do
espaço. Essa geografia escolar pressupõe que o professor é o “dono” do conhecimento e
o aluno é um receptáculo vazio que deve ser preenchido com os conhecimentos
geográficos. Geralmente os métodos avaliativos se resumem na quantificação do que o
aluno assimilou pela memorização. A relação entre professor e aluno, quase sempre é
mediada pelo autoritarismo do primeiro e submissão do segundo.
A geografia quantitativa, também conhecida como nova geografia, utilizou de forma
acentuada os modelos matemático-estatísticos. Os neopositivistas, com os avanços
tecnológicos, quantificaram o espaço geográfico sem considerar as peculiaridades
espaciais. Essa geografia servia a governos autoritários e grandes empresas voltadas
para o crescimento econômico sem considerar os custos ecológicos e sociais.
Uma das críticas a esse modelo foi feita por Santos, onde esse autor nos revela que:
O maior pecado, entretanto, da intitulada geografia quantitativa é que ela desconhece
totalmente a existência do tempo e suas qualidades essenciais. A aplicação corrente das
matemáticas à geografia permite trabalhar com estágios sucessivos da evolução espacial mas é
incapaz de dizer alguma coisa sobre o que se encontra entre um estágio e outro...(Santos, 2004,
p.75)
Esse modelo geográfico ainda hoje é bastante utilizado, principalmente pelo IBGE –
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Nos manuais didáticos essa geografia se
manifesta através da utilização excessiva de gráficos e mapas.
Em meio a intensa exploração da natureza, aumento das desigualdades sociais e de um
movimento político das classes populares lutando por ampla reforma da sociedade
surge o modelo conhecido como geografia crítica.
Esse contexto econômico, social e político turbulento se refletiu no campo científico,
em que foram introduzidas pelos geógrafos categorias dialéticas marxistas para análise
das relações entre o homem e a natureza e para a compreensão da realidade. Dessa
corrente do pensamento, o professor Milton Santos foi um dos geógrafos que
contribuíram para o seu aprofundamento.
Essa corrente do pensamento geográfico, trata o homem como agente do espaço
geográfico, que atua sobre esse espaço modificando e sofrendo modificações,
interagindo nesse espaço. Percebe-se que todos esses avanços epistemológicos
repercutiram no ensino fazendo com que a geografia crítica trouxesse grandes
contribuições. Os conteúdos passaram a ser caracterizados pela reflexão a respeito da
organização do espaço e de suas contradições, acarretando dessa forma, uma forte
tendência em analisar a produção do espaço a partir das estruturas sociais.
O ENSINO DA GEOGRAFIA: DA TEORIA A PRÁTICA
Este artigo é resultado de um projeto que está sendo desenvolvido nas escolas públicas
do município de Três Lagoas/MS e tem como abrangência temporal os anos de 2009 e
2010. Ele surgiu da necessidade de pensar a prática da geografia nas salas de aulas, a
forma como os professores a utiliza, as metodologias adotada, como ocorre e de que
forma ocorre a transformação do aluno recém formado com todas as teorias recebidas
nos anos de academia, para o profissional da educação.
Os conteúdos trabalhados nos cursos de graduação em Geografia são necessários para o
reconhecimento e organização dessa área acadêmica, mas não basta dominar conceitos
teóricos, é preciso refletir sobre como ocorre a relação teoria e prática, revendo a
didática e a metodologia que instrumentalizam esses trabalhadores para o exercício da
profissão docente. De acordo com Nídia Nacib Pontuschka,
A disciplina escolar geografia está no jogo dialético entre a realidade da sala de aula e da
escola, entre as transformações históricas da produção geográfica na academia e as várias ações
governamentais representadas hoje pelos guias, propostas curriculares, parâmetros curriculares
nacionais de geografia; avaliações impostas aos professores, sem mudanças radicais na
estrutura da escola e na organização pedagógica global ...(Pontuschka,1999, p.111)
É necessário um repensar entre o que se ensina e o que se aprende, para que a atuação
prática promova a interação entre o saber aprendido na universidade, com os conteúdos
a serem aplicados em sala de aula. Acredita-se que, a partir daí, os profissionais da área
de Geografia poderão partir da experiência vivenciada, proporcionando um
redimensionamento do espaço escolar.
A Geografia escolar tem um papel ideológico. Por isso, não cabe a idéia da neutralidade
científica; se, de um lado, essa disciplina contribuiu para reprodução da dominação, por
outro lado, as práticas educativas e demonstram lutas concretas dos educadores dessa
área pela melhoria do ensino público.
“Existe ainda pouca aproximação da escola com a vida, com o cotidiano dos alunos. A escola
não se manifesta atraente frente ao mundo contemporâneo, pois não dá conta de explicar e
textualizar as novas leituras de vida. A vida fora da escola é cheia de mistérios, emoções,
desejos e fantasia, como tendem a ser as ciências. A escola parece ser homogênea, transparente
e sem brilho no que se refere a tais características. È urgente teorizar a vida, para que o aluno
possa compreendê-la e representá-la melhor e, portanto viver em busca de seus interesses. As
ciências, passam por mudanças ao longo do tempo, pois as sociedades estão em processo
constante de transformação/(re)construção. O espaço e o tempo adquirem novas leituras e
dimensões”(CASTROGIOVANNI, 2001: 11).
A reprodução de manuais, conduz a uma insatisfação e a um descomprometimento dos
alunos frente a essa disciplina, podendo se perceber afirmações que reforçam a idéia de
que a metodologia utilizada pela maioria dos professores nas escolas não tem relação
com a vida cotidiana dos alunos, o que direciona a aprendizagem para repetições,
impossibilitando a criação/re-criação.
No contexto atual, não cabe mais os currículos tradicionais que apenas descrevem o
espaço geográfico, que mostra um espaço homogêneo sem crises. Nesses currículos, os
assuntos são abordados de forma superficial, ocorre uma enumeração e descrição de
dados, nomes e fatos: os nomes do rios, o número de habitantes, as capitais dos estados,
etc. Faz um verdadeiro inventário sobre o espaço e não uma análise, dando um valor
maior aos aspectos físicos e deixando o homem em segundo plano. Segundo Maria Inez
Carvalho,
Os currículos plenamente tradicionais descrevem o espaço geográfico. Um espaço criado a
partir das premissas positivistas de neutralidade e objetividade, espaço esse que é uma
abstração e portanto não retrata a realidade. Possui matas intocadas, uma quantidade
determinada de rios e habitantes e esses parecem levitar por sobre o quadro físico. Um espaço
geográfico que é apolítico por questões políticas. (Carvalho, 2004, p.30)
O ensino da geografia não pode ser um ato mecânico, resumido ao ato de informar, no
qual o professor dá atividades e o aluno realiza. Tem que ser um ato muito mais
complexo, no qual a discussão, o debate, a reflexão sejam estimulados constantemente,
contribuindo assim, para a construção das competências sócio-político-culturais.
A PRÁTICA DA GEOGRAFIA NO MUNICÍPIO DE TRÊS LAGOAS/MS
O primeiro passo para a realização desta pesquisa foi a revisão bibliográfica, num
segundo momento foi feita a delimitação espaço-temporal. Como objeto de estudo
foram selecionadas seis escolas públicas do município de Três Lagoas/MS, sendo duas
localizadas na área central da cidade e as outras quatro em bairros diversos. O período
das análises compreende o primeiro e segundo semestre de 2009 e a conclusão final em
2010.
Até o presente momento, foram feitas entrevistas com os professores de geografia das
escolas selecionadas, com os alunos da rede pública e com os alunos recém formados
da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul – Campus Três Lagoas.
Essas amostragens nos forneceram dados que foram de grande valia para conhecer a
realidade da prática da geografia na rede pública do município, assim como para
retratar a distância que há entre a teoria e prática da geografia. Procuramos respostas
para as seguintes perguntas: como ocorre a prática do ensino da geografia na sala de
aula? Quais os caminhos que levam os profissionais docentes a perder o estímulo no
processo de ensino – aprendizagem? Quais objetivos desejam ser alcançados com as
aulas ministradas? Há preocupação na formação do aluno-cidadão?
Segue o modelo da entrevista realizada com os professores de geografia da rede
pública:
1.
Há quantos anos você exerce o magistério?
2.
Quais as dificuldades você encontra para planejar, desenvolver e executar
suas atividades em sala de aula?
3.
Recebe orientação pedagógica , como métodos e técnicas de ensino?
4.
Quais são os recursos tecnológicos audiovisuais que a sua escola dispõe?
5.
Você costuma dar a seus alunos materiais de apoio, didáticos e
paradidáticos?
6.
Qual a metodologia comumente adotada por você em sala de aula?
7.
No caso da metodologia programada não funcionar, você tem uma opção de
“reserva”?
8.
De que forma os assuntos geográficos são abordados?
9.
A geografia aplicada por você contribui para a formação do aluno-cidadão?
10.
As expectativas, sonhos do início da carreira foram alcançados?
11.
Quais foram os obstáculos e impedimentos encontrados?
12.
Quais são na sua opinião os maiores entraves da educação hoje?
13.
Os alunos são motivados durante as aulas? Eles participam das aulas?
14.
As leis, diretrizes, parâmetros são eficazes?
15.
Como você vê a educação hoje?
Os dados obtidos com as respostas dadas pelos professores, alunos da rede pública e
pelos acadêmicos, foram tabulados e serão numa próxima fase, apresentados para
comunidade escolar, assim como contribuirão para a construção materiais e métodos
que serão disponibilizados aos professores da rede.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALLAI, H. C.; CASTROGIOVANNI, A. C. (Org.). Estudar o lugar para compreender
o mundo. In: Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. Porto
Alegre: Mediação, 2000. p. 83-92.
CARLOS, A. F. A. (Org). Novos Caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 1999.
CAVALCANTI, L. S. Geografia e Práticas de Ensino. Goiânia: Alternativa, 2002.
CARVALHO, M. I. Fim de Século – A Escola e a Geografia. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2004
KAERCHER, N. A. Desafios e Utopias no Ensino da Geografia. 3. ed. Santa Cruz do
Sul:EDUNISC, 2003.
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova: Da Crítica da Geografia a uma
Geografia Crítica. 6 ed. São Paulo: Edusp, 2004. (Coleção Milton Santos; 2).
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