O BRINCAR NO ENSINO FUNDAMENTAL DE NOVE ANOS: REFLEXÕES SOBRE AS EXPECTATIVAS DE APRENDIZAGEM DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO CARMO, Clayton da Silva - UFSCar [email protected] MARCONDES, Keila Hellen Barbato - UNESP [email protected] Eixo Temático 9: Educação da Infância Agência financiadora: Não contou com financiamento. Resumo A entrada das crianças no ensino fundamental mostra-se um momento crucial no processo de escolarização infantil, por se tratar de uma situação na qual podem ocorrer rupturas nesse processo, especialmente em um contexto de ampliação do ensino fundamental para nove anos. É nesse cenário que o presente estudo objetiva pesquisar quais são as possibilidades referentes ao brincar e ao jogar que são oportunizadas nas séries iniciais do ensino fundamental, tendo em vista as expectativas de aprendizagem publicadas pela Secretaria do Estado de São Paulo (SEESP) específicas para essa área. Foram acompanhadas três turmas das séries iniciais do ensino fundamental, sendo uma sala de primeiro ano e duas de segundo ano de uma escola do interior do Estado de São Paulo. Participaram da pesquisa os/as alunos/as das referidas turmas, dois professores de educação física e três professoras polivalentes. A coleta foi realizada por meio de observações do contexto escolar, sendo registradas em diário de campo. As análises realizadas tendo como base as expectativas da SEESP e os dados dos diários permitiram elencar cinco categorias: 1- Tempo de atividade; 2- Espaço utilizado; 3Propositor da atividade; 4- Responsável pela organização e 5- Tipo de atividade, a qual foi subdividida em: 5.1- Conhecimento do corpo e seus limites; 5.2 Movimento como forma de expressão; 5.3- Organização do tempo e do espaço; 5.4 - Relações interpessoais e vivência de papéis; 5.5 - Faz-de-conta e uso das capacidades criativas; 5.6 - Atividades de alfabetização e 5.7 - Atividade de espera . De acordo com os resultados, pode-se concluir que o espaço do brincar dentro do ambiente do ensino fundamental continua a ser caracterizado por momentos pontuais, normalmente relacionados às aulas de educação física e recreio, apesar das indicações do documento da SEESP, o qual salienta a importância dos jogos e das brincadeiras no cotidiano escolar. Palavras-chave:Ensino fundamental de nove anos. Brincar. Expectativas de Aprendizagem. Introdução 4435 O ingresso no ensino fundamental é considerado um momento crucial no desenvolvimento das crianças em termos de aquisição de conhecimento, valores e comportamentos. Alteram-se os espaços físicos, os tempos, as relações de convivência com os seus pares, com os adultos e a rotina, salientando a diminuição do tempo de brincar. A preocupação com a transição entre a educação infantil para o ensino fundamental tornam-se mais latente tendo em vista a entrada das crianças de seis anos, possibilitada pela lei No.11.274 de 06 de fevereiro de 2006. A ampliação do ensino fundamental já fora sinalizado tanto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) no. 9394/96 quanto na Lei no. 10.172 de 9 de janeiro de 2001 que institui o Plano Nacional de Educação (PNE). O PNE assume em sua meta número 2 (dois) para o ensino fundamental “Ampliar para nove anos a duração do ensino fundamental obrigatório com início aos seis anos de idade, à medida que for sendo universalizado o atendimento na faixa de 7 a 14 anos”. Tendo como premissa a ampliação do ensino fundamental para nove anos, foi instituída primeiramente a lei no. 11.114/2005 que permitia a matrícula de crianças com 6 anos no ensino fundamental, mas não discutia a obrigatoriedade dos nove anos nesse nível de ensino. Posteriormente a Lei No.11.274 altera a redação dos artigos 32 e 87 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação no. 9394/96 determinando, portanto, obrigatoriedade do ensino fundamental de 9 (nove) anos, devendo ser matriculado no primeiro ano do Ensino Fundamental crianças com seis (6) anos de idade. Para regulamentar a nova legislação, o Conselho Nacional de Educação (CNE) organizou um conjunto de pareceres e resoluções, contando ainda com as orientações para a ampliação do ensino fundamental organizadas pelo Ministério da Educação, assim como três relatórios que visam responder questões mais freqüentes sobre a nova legislação. Há divergências entre os pesquisadores quanto a ampliação do ensino fundamental. Há estudos que indicam que apesar da necessidade de se adequar a escola a uma nova realidade, tal política é uma possibilidade de extinguir a fragmentação existente entre os dois níveis de ensino (KRAMER, 2006, SANTOS e VIEIRA 2006). Já os pesquisadores da área de educação infantil consideram a proposta um retrocesso nos já consolidados direitos das crianças de 0 a 6 anos de idade, os quais já eram contemplados na educação infantil (ANGOTTI, 2007, FARIA, 2005). 4436 Diante desse cenário, emergem inquietações referentes as especificidades que a fase da infância representa. Batista (2006) afirma que é temerária a entrada de crianças de seis anos no ensino fundamental sem as adequadas condições didático-pedagógicas, o que pode ocasionar graves prejuízos ao desenvolvimento infantil. Há que se pensar nas singularidades das ações infantis, salientando o direito ao lúdico, a brincadeira e a fruição. Essas dimensões devem (e já deveriam ser) respeitadas tanto na educação infantil quanto no ensino fundamental. Sendo urgente que se saiba lidar com as crianças, não simplesmente com a unidade alunos. Para atender as crianças de seis anos no ensino fundamental, há que se alterarem as concepções de tempo e espaço da escola, concebendo outras possibilidades além da sala de aula e outras práticas pedagógicas que não sejam restritas somente ao giz e a lousa. Tendo como objetivo integrar aspectos físicos, biológicos, cognitivos e sociais do educando, enfatizando a importância do lúdico, do brincar no desenvolvimento integral da criança. No entanto, o brincar “ao menos nas sociedades ocidentais é considerada irrelevante ou de pouco valor do ponto de vista da educação formal, assumindo fortemente a significação de oposição ao trabalho, tanto no contexto da escola quanto no cotidiano familiar” (BORBA, 2006, p.36). Sendo assim, o brincar torna-se marginalizado no espaço escolar, tão pontuado pelas metas de produtividade, eficiência e controle. Contudo, a passagem da criança para o ensino fundamental não extermina a sua infância e, portanto, suas peculiaridades, as quais devem ser resguardadas. Frente a essa nova demanda, o Governo do Estado de São Paulo publica as “expectativas de aprendizagem para o primeiro e segundo ano do ensino fundamental de nove anos”. Tais expectativas consistem em descrições de conteúdos e habilidades essenciais a serem desenvolvidos em cada uma das áreas (disciplinas), especificando como cada uma delas deveria evoluir ano a ano. Nesse documento, destaca que é necessário que se garanta aos alunos do ensino fundamental o direito à infância, assegurando que a educação ocorra em ambiente adequado, com rotinas, permitindo a aprendizagem contextualizada considerando as características da faixa etária desses educandos e resguardando as dimensões do cuidar e o educar. O referido documento discute sobre as especificidades das crianças, apresentando um modelo de ensino e aprendizagem e definindo os papéis das Diretorias de Ensino, dos docentes, coordenadores, diretores, secretários e demais profissionais da escola. Salienta 4437 ainda sobre a organização das rotinas, espaços e tempos didáticos, prevendo a necessidade de ocorrer a reorganização dos espaços físicos e da diversificação das atividades pedagógicas a serem oferecidas às crianças que adentram esse nível de ensino. Um ponto importante do documento é a apresentação dos conteúdos e expectativas de aprendizagem para esse período de aprendizagem das crianças, sendo divididas em: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências Sociais e Naturais (história, geografia e ciências), Movimento, jogar e brincar/ cuidar de si e do outro e as artes. Para o presente estudo, focalizar-se-ão as expectativas de aprendizagem referentes ao tópico do movimento, o jogar e o brincar por considerar que o ensino fundamental, culturalmente, apresenta tais possibilidades de aprendizagem diminuída. No entanto, com a entrada das crianças mais novas e com a divulgação das expectativas de aprendizagem que estimulam tais aprendizagens cria-se a hipótese que tais situações possam estar mais presentes nas práticas pedagógicas cotidianas, o que resulta numa alteração nas práticas já instauradas no ensino fundamental. Destaca-se que, de acordo com o documento publicado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (SEESP), é necessário que as escolas de ensino fundamental oportunize às crianças que nelas estão inseridos as possibilidades de se exercitar, brincarem com seus pares, valorizarem as atividades físicas desenvolvendo autoconfiança e segurança. Metodologia A pesquisa desenvolvida adotou a metodologia qualitativa que pressupõe o contato direto do observador com o ambiente. Sua função é apreender o caráter multidimensional dos acontecimentos em seu ambiente, captando os diferentes significados de experiências vividas, o que auxilia no entendimento da relação entre o indivíduo e seu contexto. Desenvolvida em uma escola da rede estadual de ensino situada em um município de porte médio no interior do Estado de São Paulo. Foram acompanhadas três turmas das séries iniciais do ensino fundamental, sendo uma sala de primeiro ano e duas de segundo ano. Os participantes da pesquisa foram os/as alunos/as das referidas turmas e cinco docentes que nelas atuam, sendo dois de educação física e três professoras regentes ou polivalentes. Para a coleta de dados foram utilizadas observações do cotidiano escolar, que eram compostas por aulas com a docente de sala, com docentes especialistas de educação física e artes e momentos dos recreios das crianças. A coleta de dados ocorreu no transcorrer de todo 4438 ano de 2010. As observações participantes foram iniciadas no mês de fevereiro e encerradas em novembro, totalizando duzentas e sessenta e cinco horas de observações. Para registro foram utilizadas as notas de diário de campo. Para o processo de análise dos registros do diário de campo e das entrevistas transcritas seguiu-se os passos apontados por Bogdan e Biklen (1991, p.221) que consistem em: 1-Diversas leituras dos dados coletados até a impregnação desses pelos pesquisadores; 2Busca de regularidades, padrões e tópicos presentes nos dados; 3- Criação de categorias de codificação dos dados baseados na literatura da área. Por meio da análise das expectativas de aprendizagem propostas pela SEESP e dos dados que emergiram dos diários de campo, elencaram-se cinco categorias: 1- Tempo de atividade; 2- Espaço utilizado; 3- Propositor da atividade; 4- Responsável pela organização e 5- Tipo de atividade. Esta ultima categoria busca classificar as atividades observadas de acordo com as possibilidades que as mesmas podem propiciar ao desenvolvimento das crianças, tendo como base o documento que apresenta as expectativas de aprendizagem para as séries iniciais, publicada pela SEESP, no que tange a desenvolvimento do movimento, o brincar e o jogar. Assim, as notas de campo referente a categoria cinco foram ainda organizadas nas seguintes subcategorias: • Conhecimento do corpo e seus limites (CC): atividades que intencionem o desenvolvimento progressivo da coordenação, equilíbrio, força, velocidade, resistência, flexibilidade, sensações físicas e permita a identificação de limites e potencialidades dos corpos. • Movimento como forma de expressão (ME): atividades que permitem a expressão por meio da dança e outros movimentos rítmicos. • Organização do tempo e no espaço (OTE): atividades que possibilitem situações em que as crianças possam se organizar nos espaços e com os materiais disponíveis. • Relações interpessoais e vivência de papéis (RI): atividades que permitem o brincar com os pares, vivenciar regras e combinados, possibilitando situações de cooperação. • Faz-de-conta e uso das capacidades criativas e criadoras (FCC): atividades que possibilitem o uso da imaginação e da fantasia. • Atividades com fins de alfabetização (AA): Jogos e brincadeiras que tem como principal função ensinar a ler, escrever e contar. 4439 • Atividade de Espera (AE): atividades propostas por professores nos intervalos de espera entre uma atividade e outra. Esta organização permitiu relacionar as expectativas do referido documento da SEESP com o dia-a-dia das turmas e possibilitou compreender o fenômeno do movimento, dos jogos e brincadeiras nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Considerações éticas Todos os cuidados éticos necessários foram tomados, garantindo o sigilo de identidade e a opção dos responsáveis, docentes e crianças em participarem ou não da pesquisa. A coleta de dados somente foi iniciada com o preenchimento dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido, por docentes e responsáveis. Apresentação e análise dos dados Foram analisados 45 diários1 de campo dos quais 22 apresentaram asserções relacionadas a movimento, jogos e brincadeiras durante as aulas. A tabela 1 oferece um auxílio na análise destes dados apresentando detalhadamente o tempo destinado as atividades em cada sala e a relação com o tempo total de observação. Tabela 1 - Síntese do tempo de observação em cada turma (horas) 1º ano A 41 2º ano A 39 2º ano B 43 Tempo em atividades de Movimento, jogo e brincadeira Total 6,5 5,3 6,5 Movimento, jogo e brincadeira com prof. de Educação Física 5,25 5,25 6 Movimento, jogo e brincadeira com profª Regente 1,1 0 0,5 Movimento, jogo e brincadeira das crianças 0,1 0,05 0 15,8% 13,6% 15% Tempo total de observação Proporção do tempo de Movimento, jogo e brincadeira em relação ao tempo total de observação Fonte: Carmo e Marcondes, 2011. Os dados foram também organizados no quadro 1 de acordo com as categorias de analise anteriormente citadas e constantes na linha superior do quadro. Na primeira coluna da 1 É importante salientar que as observações foram realizadas, em sua maioria, nos dias em que havia as aulas de educação física. Destaca-se que no currículo das séries iniciais do ensino fundamental, as aulas de Educação Física ocorrem duas vezes na semana com a duração de 50 minutos cada aula. 4440 esquerda encontra-se a relação de atividades relacionadas a aspectos do movimento, jogo e brincadeira observados no dia-a-dia das turmas pesquisadas. Atividade Tempo de duração por Turma de ocorrência da atividade 1º ano 2º Ano 2º ano B A 20 min 45 min 45 min Espaço Propositor Organização Tipo de atividade (O que se propicia) Pátio Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC 10 min 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI/ FCC 90 min 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Prof.E.F./Crian ças CC/RI/FCC 10 min 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. FCC/ CC / RI - 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC - 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC/FCC - 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / FCC/ RI - 45 min 45 min Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC - - 25 min 20 min Sala Pátio Profº E.F. Profº E.F. Profº E.F. Profº E.F. Boneco de lata - - 30 min Sala Profª Regente. Profª Regente. Tip Top Alongamento Timbalaia Veia caiu 10 min 10 min 05 min 05 min - - Sala Sala Sala Sala Crianças Profª Regente Profª Regente Profª Regente Crianças Profª Regente Profª Regente Profª Regente Batata Quente 25 min - - Pátio Profº E.F. Profº E.F. RI CC CC / ME / FCC/ AE FCC CC AE ME/AE CC / RI / ME/FCC 40 min - - Sala Profª Regente Profª Regente AA 10 min - - Sala Crianças Crianças OTE / RI / ME 35 min - - Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC 45 min - - Sala Profª Regente Crianças CC/RI/AE/.FC C/OTE 45 min - - Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC 45 min - - Quadra Profº E.F. Profº E.F. CC / RI / FCC Lenço atrás Batatinha Frita 1, 2, 3 Papai urso Batatinha Frita 1, 2, 3 Gato e Rato Bambolê Quente Rio Vermelho Pega-pega Garrafão Entrevista Vivo-morto Brincando com as palavras Brincadeiras cantadas Coelho sai da toca Brincadeira Livre Cada macaco no seu galho Pega rabinho Quadro 1 - Síntese das atividades de brincadeiras/jogos observadas Fonte: Carmo e Marcondes, 2011. A primeira categoria de análise refere-se ao tempo de duração de cada atividade realizada em cada turma. É possível notar na tabela e no quadro que o tempo destinado ao movimento, jogos e brincadeiras é bem restrito, concentrando de treze à quinze por cento do tempo total de observação isso sem considerar que, os dias de observação coincidiram, na maioria das vezes, com os dias em que as turmas tinham aula de Educação Física. Portanto se 4441 a rotina em sala de aula se mantém desta maneira durante a semana, como indicam alguns dos diários registrados em outros dias, o período em atividades de movimento, jogos e brincadeira, será ainda mais restrito. Quanto ao espaço onde foram realizadas as atividades em questão observa-se o uso da quadra e pátio pelos docentes de educação física e das salas de aula nos casos de atividades propostas pelas docentes regentes das salas. Constata-se, ainda que, apesar de existir momentos de jogos e brincadeiras desenvolvidas em sala de aula, o tempo resguardado a essa atividade é irrisório. De acordo com as observações, as docentes regentes não apresentaram como prática a adoção de situações que permitiam o brincar das crianças, seja para situações de fruição ou com intenção pedagógica. Os ambientes das escolas também não propiciavam a realização de atividades de brincar, uma vez não apresentava adaptações no espaço físico visando atender a entrada das crianças menores. Essa falta de reorganização do ambiente mostra-se contrária ao que é propagado pelo documento da SEESP. Em relação a proposição das atividades, o que se pode constatar é que, na maioria das vezes, essa era de responsabilidade dos docentes, com exceção de dois momentos em que as crianças tiveram iniciativa de realizar brincadeiras dentro da sala de aula, contudo, tais iniciativas foram interrompidas pela professoras regentes, por considerarem uma transgressão as regras. [...] enquanto a docente vai organizando as carteiras e explicando para as crianças o que iriam fazer durante o período de aula, uma criança pega seu caderno e abre uma parte, olha para o colega e diz “Esse é meu computador, vou ver aqui que dia é amanhã, meu “tip top” vai falar” a criança do lado diz “Oh, mexe ai no mouse, do lado”. A professora passa pela carteira e vê que as crianças estão brincando. “Olha o cuidado com o caderno, ta fazendo orelha nele, pode parar! Vai ficar feio” (Diário 7). [...] duas alunas terminaram as atividades propostas pela docente e então decidem brincar no fundo da sala cantando músicas, parlendas e fazendo brincadeiras com as mãos embaladas pelas músicas. A brincadeira dura alguns minutos, quando então a professora se atenta e com um tom de voz alto pergunta “Que que é isso? Pode parar e sentar, pode terminar a atividade”, uma das meninas diz “Mas nós já terminamos”. “ Se terminaram então pega uma revistinha lá no fundo e vai ler então”, as meninas se dirigem até a mesa que tem as revistas, pegam e as duas sentam-se juntas na mesa para ver (Diário 9). Quanto a organização das atividades é possível observar que em apenas quatro momentos as crianças foram responsáveis pela organização sendo duas atividades livres 4442 (anteriormente descritas), uma atividade na sala de primeiro ano e outra com o professor de educação física onde as crianças escolheram a atividade. As crianças se organizam de várias formas. Há um grupo que pega as revistas que tem jogos (como os 7 erros, onde está o personagem, etc). Algumas meninas pegam as bonecas que tem na sala e outro grupo de meninas, que ficou sem a boneca, enrolam as blusas de frio e fingem ser uma boneca (Diário 15). Vamos subindo para a quadra. Ao chegarmos lá as crianças pedem para o professor se elas poderiam brincar de “papai/mamãe urso”. O professor diz que ele tinha pensado em uma outra brincadeira, mas se todos concordarem tudo bem. As crianças gritam comemorando e gritando [...] (Diário 34). O que se pode concluir é que há pouca autonomia para as crianças quando se trata de decisões no âmbito escolar, ficando restrito aos docentes esse poder. Quanto aos tipos de atividades e o que estas propiciam, pode-se concluir que há uma variedade em suas proposições. É importante lembrar que uma atividade pode propiciar o desenvolvimento de mais de uma expectativa, permitindo que cada atividade possa ter varias classificações. Nas vinte e uma atividades observadas às classificações quanto as expectativas encontram-se com a seguinte configuração: quatorze delas tinham intenções de propiciar situações de faz-de-conta e uso das capacidades criativas e criadoras (FCC), quinze sobre o conhecimento do corpo e seus limites (CC), treze referente as relações interpessoais e vivência de papéis (RI), quatro sobre o movimento como forma de expressão (ME), uma atividades com fins de alfabetização (AA) e quatro atividades de espera (AE). Diante desses dados, algumas análises são possíveis de serem realizadas, a primeira refere-se ao o pouco tempo disponível para realização atividades que permitam a organização do tempo e do espaço (OTE), as quais se restringiram aos quatro momentos anteriormente destacados. No entanto estão são atividades fundamentais para o desenvolvimento de crianças dessa faixa etária, devendo compor boa parta das situações de aprendizagem de acordo como documento da SEESP. Importante refletir também sobre a intencionalidade de algumas proposições, como por exemplo, um episódio de atividade de movimento como expressão (ME) proposta pela professora regente, a qual pode ser considerada como uma atividade de espera (AE). Faltando alguns minutos para a saída das crianças a professora dessa turma propões uma música que chama-se “Boneco de lata”. [...] As crianças ficam em pé para cantar e fazer os gestos da música. A professora canta a música duas vezes e em seguida pede para que formem a fila (Diário 8). 4443 Como as atividades de espera muitas vezes ocorrem por não terem a atenção e intenção do docente na atividade em si, é comum as atividades serem interrompidas com “broncas” devido a bagunça das crianças. Quase todas as crianças terminaram a atividade [...] Elas se levantam e vão até a carteira da professora para que a mesma corrija [...] Enquanto as crianças vão se levantando, a professora começa a cantar “um grito de guerra” “Timbalaia” e as crianças respondem gritando “Timba”, grita várias vezes [...] Em seguida, a professora propõe cantarem a música “A veia caiu, o veio viu....”, algumas crianças levantam-se e unem-se, espontaneamente com as demais colegas e realizam uma brincadeira de cantar e bater as mãos de forma sincronizadas, realizando coreografias com as mãos. A professora canta sentada em sua mesa, corrigindo as folhas. Assim que termina, levanta-se de sua mesa e diz que está muita bagunça na sala e que, portanto, quer que todos se sentem e fiquem um pouco quietos (Diário 2). Isso ocorre também com os momentos de brincadeiras livres, que parece ser mais uma atividade de espera do que uma preocupação em oportunizar o desenvolvimento do conhecimento do corpo, das relações interpessoais e da organização do tempo e do espaço. A professora diz que deixará as crianças brincarem um pouco antes do intervalo, enquanto isso, corrige algumas atividades das crianças que ainda não havia sido corrigidas. As crianças, por si sós se organizam e se dividem na sala. [...] após muitos minutos, percebe que as crianças estão na lousa e então fica brava “Alguém deixou vocês virem na lousa? Estão acabando com meu giz, pode voltar pro lugar”. Em seguida o sinal toca e as crianças são dispensadas para irem para o recreio (Diário 39). Deve ser observado também as poucas oportunidades de desenvolvimento da organização do tempo e do espaço (OTE) e dos movimentos como forma de expressão (ME) nas atividades realizadas pelos professores de educação física, apesar de terem sido responsáveis por maior parte das atividades lúdicas e de movimento, tiveram poucas atividades dedicadas a este fim. Importante destacar nas análises finais um momento observado que permite refletir um pouco sobre questões aqui abordadas relacionando a importância da brincadeira, do lúdico e do movimento para o desenvolvimento das crianças e a organização, o currículo e o planejamento das escolas do ensino fundamental. 4444 O professor de educação física chega na sala, as crianças comemoram. A professora diz que eles devem ficar quietos e sentados, senão não irão na educação física. Salienta ainda que quem não terminou a atividade não poderá ir para a quadra, deverá ficar e fazer a atividade, caso termine ai sim poderá ir pra quadra (Diário 18). Momentos como o descrito não são raros de observar nas escolas de primeiro ao quinto ano do ensino fundamental. Deixar sem brincar, sem se movimentar, sem ser criança é a forma muitas vezes utilizada, não para ensinar coisas, mas para ensinar a ser aluno. Considerações Finais Os dados permitem concluir que o espaço do brincar dentro do ambiente do ensino fundamental continua a ser caracterizado por momentos pontuais, normalmente relacionados as aulas de educação física, recreio ou tempo de espera para realização de outra atividade, apesar das indicações do documento da SEESP, as quais salientam a importância dos jogos e brincadeiras nesse nível de ensino. É notório ainda, o controle dos corpos que é exercido na escola de ensino fundamental. Essa afirmação é possível de ser realizada quando se detecta que as atividades relacionadas ao movimento como forma de expressão e as que possibilitavam a organização autônoma das crianças quanto ao tempo e ao espaço, mostram-se extremamente reduzidas. O brincar é de suma importância para o processo psicológico infantil, possibilitando o desenvolvimento e a aprendizagem. O jogar, o brincar e o movimentar-se envolve uma complexa articulação entre o já dado e o novo, permitindo as relações entre a memória, a fantasia, a realidade possibilitando uma forma particular de relação com o mundo, a qual é imprescindível para o desenvolvimento infantil. Ainda segundo as expectativas apresentadas no referido documento o brincar deve fazer parte do processo de aprendizagem e não se restringir aos momentos de espera entre um aprendizado e outro como este mesmo já não o fosse. Borba (2006) afirma que a brincadeira não é algo inato ao ser humano, ao contrário, é aprendido nas relações que são desenvolvidas entre os outros e a cultura. Portanto, é preciso que se permita que as crianças brinquem, invertam as ordens, imaginem, sonhem e se encontre com o outro e assim se constituam no mundo e construam seus conhecimentos. Cabe a escola (re) pensar seu papel nessa relação. 4445 REFERÊNCIAS ANGOTTI, M. Educação infantil, pra quê, para quem e por quê. In: ANGOTTI, M. (org). Educação infantil, pra quê, para quem e por quê. São Paulo: Átomo & Alínea, 2007. BATISTA, Ensino fundamental de nove anos: um importante passo à frente. Boletim informativo UFMG - Nº. 1522 - Ano 32, 2006. BOGDAN, R.C. BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Portugal: Porto Editora, 1991. BORBA, A. M. O brincar como um mundo de ser e estar no mundo. Brasília, DF: Estação Gráfica, 2006. BRASIL. Lei n. 9394/96 de 20 de dezembro de 1996. 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