Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ensino de Ciências Mestrado Campus Nilópolis Valéria Rangel Soares O ENSINO DE FÍSICA NO 9° ANO DE ESCOLARIDADE UM ESTUDO SOB A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES DE CIÊNCIAS DE UMA ESCOLA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS Nilópolis - RJ 2012 Valéria Rangel Soares O ENSINO DE FÍSICA NO 9° ANO DE ESCOLARIDADE UM ESTUDO SOB A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES DE CIÊNCIAS DE UMA ESCOLA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Ensino de Ciências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro como parte dos requisitos para obtenção do Título de Mestre em Ensino de Ciências. Orientador: Prof. Dr. Alexandre Lopes de Oliveira Nilópolis – RJ 2012 Valéria Rangel Soares O ENSINO DE FÍSICA NO 9° ANO DE ESCOLARIDADE UM ESTUDO SOB A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES DE CIÊNCIAS DE UMA ESCOLA MUNICIPAL DE DUQUE DE CAXIAS Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Ensino de Ciências do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro como parte dos requisitos para obtenção do Título de Mestre em ensino de Ciências. Data de aprovação: ______ de ____________ de 2012. _________________________________________________________ Prof. Dr. Alexandre Lopes de Oliveira (Presidente da Banca) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. _________________________________________________________ Profª Drª Maylta Brandão dos Anjos (Membro interno) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro. __________________________________________________________ Profª Drª Maria Simone de Menezes Alencar (Membro externo) Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz/UFRJ - UNIRIO Nilópolis – RJ 2012 Agradecimentos A Deus, pela oportunidade concedida de ingressar no Mestrado e pelo encorajamento para continuar nos momentos em que pensei que seria impossível prosseguir. À família, de modo especial à minha mãe pelo apoio incondicional, por assumir tarefas que seriam minhas a fim de que pudesse me dedicar aos estudos. Ao meu filho Lucas pela compreensão nos momentos em que a opção pelo estudo provocou certo distanciamento e, em alguns momentos, a impossibilidade de estar junto. Ao orientador Prof. Alexandre Lopes, pela colaboração, pela paciência, pela disponibilidade e pela compreensão constantes durante o curso. À Profª Maylta dos Anjos pela parceria revelada na prontidão de colaborar em todos os momentos em que precisamos. Aos colegas de turma e aos professores do Mestrado. De modo especial, lembro da querida Priscila a quem dedico o versículo: “Em todo o tempo ama o amigo e na angústia nasce o irmão”. Aos amigos que oraram, que torceram e que, de modo direto ou indireto, contribuíram para o desenvolvimento desse trabalho. Aos colegas professores de Ciências, de modo especial, pela pronta disposição de participar e toda a equipe da Escola. À querida Marta pelas oportunas dicas, ao Rodrigo e ao Caíque pela valiosíssima colaboração na elaboração do Produto Educacional. “Nenhum de nós é tão bom quanto todos nós juntos”. “... nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo”. (Paulo Freire) SOARES, Valéria Rangel. O Ensino de Física no 9° ano de escolaridade – Um estudo sob a perspectiva dos professores de Ciências de uma Escola Municipal de Duque de Caxias. 68 p. Dissertação de conclusão do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências. Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Ensino de Ciências), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Campus Nilópolis, Nilópolis, RJ, 2012. RESUMO Este trabalho busca conhecer a percepção de professores-biólogos sobre algumas questões relativas ao ensino de Ciências, de modo mais específico no 9° ano de escolaridade. Participaram dele quatro docentes que atuam numa escola pública municipal localizada na Baixada Fluminense, em Duque de Caxias. O instrumento para a coleta de dados foi um questionário semi-estruturado, respondido pelos docentes. Para a análise dos dados, também foram considerados alguns documentos oficiais fornecidos pela equipe diretiva da escola. Um dos aspectos abordados refere-se à formação acadêmica do profissional que atua nesse nível de ensino. Ele é oriundo de curso de Licenciatura, em cujo currículo predominam disciplinas relacionadas à Biologia. Isso concorre para uma formação inicial “biologizada” desse professor, que pode se constituir como desafio ao ter que dar aulas de Física nesse último ano de escolaridade do nível Fundamental do ensino. Outro aspecto considerado na pesquisa foi a influência que o livro didático exerce sobre o ensino. Possivelmente, em decorrência das características da formação inicial, o professor mantém a crença de que a proposta contida no livro esteja em conformidade com as orientações curriculares para o ensino. Os professores citam a dificuldade que os estudantes apresentam com a realização de cálculos, dentre outras. Assim, procuramos elaborar um Produto Educacional sobre Óptica de modo desvinculado do uso de fórmulas. Além disso, consideramos interessante integrar o estudo desse tema à Visão, conteúdo tradicionalmente previsto para o 8° ano. Ao aproximar o estudo de Óptica do estudo do Corpo Humano, pretendemos despertar o interesse do estudante para o estudo, além de integrar a Física e a Biologia, área de formação do professor. Palavras-chave: 1. Ensino de Ciências. 2. Ensino de Física. 3. Ensino Fundamental. SOARES, Valéria Rangel. O Ensino de Física no 9° ano de escolaridade – Um estudo sob a perspectiva dos professores de Ciências de uma Escola Municipal de Duque de Caxias. 68 p. Dissertação de conclusão do Mestrado Profissional em Ensino de Ciências. Programa de PósGraduação Stricto Sensu em Ensino de Ciências), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ), Campus Nilópolis, Nilópolis, RJ, 2012. ABSTRACT This study aims to understand the perception of teachers biologists about some questions related to science teaching, more specifically in the 9th grade. This project involved four teachers who work in a public school located in the Baixada Fluminense region, in Duque de Caxias. The instrument for data collection was a semi-structured questionnaire, answered by teachers. For the data analysis, were also considered some official documents provided by the school management team. One of the aspects addressed refers to the academic training of professionals working at this level of education. He comes from ongoing teacher training, curriculum whose predominate in disciplines related to biology. This contributes to initial training "with emphasis on biology" that teacher, that can be a challenge to have to take physics classes this last school year of the elementary school level. Another aspect considered in the research was the influence it exerts on the textbook teaching. Possibly, due to the characteristics of the initial training, the teacher holds the belief that the proposal contained in the book conforms to curriculum guidelines for the teaching. As a result, tends to support the elaboration of the course in which it is proposed. Thus, the curricula become comprehensive. Teachers claim cannot stick to it and consider the working hours intended for the science lessons insufficient to comply with the same. This points to the need for better adaptation of the pedagogical proposal of the teacher at school reality. The teachers cite the difficulty that students have with performing calculations, among others. So we try to develop a productEducational Optics on so unrelated to the use of formulas. Moreover, it would be interesting to integrate the study of this topic to the Vision, a content traditionally provided for the 8th year. When approaching the study of Optics Study of the Human Body, we intend to arouse the interest of the student to the study, and integrate physics and biology, of the teacher training area. Keywords: 1. Science Teaching. 2. Teaching of Physics. 3. Elementary School. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS OCDE Organização para o Cooperação e Desenvolvimento Econômico PISA Programa de Avaliação e Desempenho dos Estudantes PCN Parâmetros Curriculares Nacionais LDB Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional PNLD Programa Nacional do Livro Didático SEEEDUC Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro SAEB Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira IBEB Índice de Desenvolvimento da Educação Básica UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro GLD Guia do Livro Didático SME Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias SI Sistema Internacional de Unidades SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 2 CONTEXTUALIZANDO O ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL 9 16 2.1 CARACTERIZANDO O ENSINO DE CIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA 16 2.1.1 Os Conteúdos do Ensino de Ciências 21 2.2 O ENSINO DE CIÊNCIAS E O PROGRAMA INTERNACIONAL DE AVALIAÇÃO DOS ESTUDANTES (PISA) 23 2.3 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR E O ENSINO DE CIÊNCIAS 26 2.4 O LIVRO DIDÁTICO E O ENSINO DE CIÊNCIAS 33 3 METODOLOGIA DA PESQUISA 40 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO 42 5 PRODUTO EDUCACIONAL 53 CONSIDERAÇÕES FINAIS 56 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 59 APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PROFESSORES 62 APÊNDICE B – MOSTRA DO PRODUTO EDUCACIONAL 64 ANEXO A – CONTEÚDO PROGRAMÁTICO PARA O 9° ANO DE ESCOLARIDADE 72 1 INTRODUÇÃO sociedade atual passa por uma intensa transformação. Nesse contexto de transição, a instituição escolar, como parte da sociedade, tem sido desafiada a se adequar às demandas desse novo momento. Num passado não muito remoto, a escola representava o local de acesso da população à informação, de modo praticamente exclusivo. A oportunidade de matrícula numa escola tinha um significado todo especial para a criança e sua família. E a informação, ou seja, o saber escolar era extremamente valorizado. Nos nossos dias, a situação é muito diferente. O acesso à escola foi facilitado. Paradoxalmente, ocorreu sua desvalorização. Paralelamente a isso, temos assistido a um revolucionário avanço dos meios de comunicação, o que resultou na ampliação das possibilidades de acesso à informação. Mas é preciso considerar que a disponibilidade do conhecimento, embora extremamente relevante, não promove, por si só, a aprendizagem e também não garante melhor qualidade do ensino. Desse modo, a despeito de todo avanço da ciência que resultou no avanço nas tecnologias da informação, a escola como instituição social continua tendo fundamental importância no desempenho do papel para o qual foi estabelecida. Chassot (2003, p. 90) destaca que é preciso considerar que as mudanças na sociedade se refletem na escola: “A globalização determinou, em tempos que nos são muito próximos, uma inversão no fluxo do conhecimento”. Assim sendo, a escola não se impõe mais pelo saber que detém, pois a informação não só flui dela, mas chega a ela. O autor adverte, no entanto, que é necessário reivindicar para a escola o papel de disseminadora de conhecimento, que ele chama de informações privilegiadas, que pode ser exemplificado pela produção da ciência como saber escolar, dentre outros, e assim resgatar e reafirmar sua importância social. É possível perceber que a relação da sociedade com a escola mudou muito ao longo dos últimos anos. De modo geral, professores reclamam do desinteresse e descompromisso dos estudantes com a vida escolar. A relação dos pais com a escola também sofreu alteração. Há certo tempo atrás, ao matricular a criança na escola, os pais demonstravam a expectativa de que isso pudesse, de certo modo, contribuir para aumentar as chances de um “futuro melhor” para seu filho ou filha. Atualmente, ao contrário disso, percebe-se certa descrença no papel transformador da escola. Em muitos casos, verifica-se que a frequência da criança às aulas só é garantida à custa de “benefícios” concedidos às famílias. Apesar desse contexto de desvalorização do saber escolar, não se pode negar que a o seu reconhecido papel para o desenvolvimento das nações. “Existem poucas dúvidas que a 10 ciência e a tecnologia, nos dias de hoje, assumiram um papel predominante no crescimento econômico e no desenvolvimento humano da sociedade” (WAISELFISZ, 2009, p. 9). De certa forma, essa correlação se explicita através da iniciativa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ao implementar o Programa de Avaliação do Desempenho dos Estudantes (PISA), do qual participam não somente os países desenvolvidos , mas também países em desenvolvimento, como o Brasil. O principal objetivo desse Programa é avaliar o nível dos estudantes concluintes da escolaridade obrigatória, dos estudantes que estão ingressando no nível médio ou dos que estão integrando-se ao mercado de trabalho. O diferencial desse Programa consiste no fato de considerar a área das Ciências em suas avaliações, além dos conhecimentos na área das Linguagens e da Matemática. A divulgação dos resultados de cada edição do PISA revela que o sistema educacional brasileiro tem se revelado ineficiente no preparo dos estudantes para enfrentar os desafios da atualidade. A análise comparativa do desempenho dos estudantes brasileiros com os estudantes de outras nações reafirma a necessidade de se melhorar a qualidade do ensino oferecido em nossas escolas, adequando-o às atuais demandas. Embora se reconheça o esforço brasileiro no processo de democratização do acesso à escola ao longo das últimas décadas, infelizmente, não foram garantidas as condições necessárias para um ensino de qualidade. Em relação às Ciências, de acordo com Chinelli et al. (2008), enfrenta-se o que se convencionou chamar de crise no ensino de ciências, caracterizada pelo fracasso escolar das ciências e também pelo afastamento dos jovens das carreiras científicas. O fracasso escolar das ciências evidencia-se pelo baixo desempenho dos estudantes em avaliações nacionais e internacionais. Na classificação dos participantes do PISA edição 2006, cujo enfoque foi para a alfabetização científica, o Brasil ocupou o 52º lugar dentre 57 países. Diante da necessidade de mudanças, as iniciativas que visam efetivas transformações devem focar a importância das relações que se estabelecem nas salas de aula entre os atores sociais do processo de ensino-aprendizagem e o conhecimento. Não se pode perder de vista que cada escola constitui-se como microssistema educacional, e a sala de aula como local intencionalmente estruturado para as situações de ensino-aprendizagem. Sendo assim, reafirma-se a importância da participação do professor e do estudante para a efetivação das mudanças. 11 A escola não precisa ser um espaço frequentado somente por obrigação, como parece ser para muitos. Sendo assim, talvez o maior desafio da escola seja despertar no estudante o gosto pelo estudo e o interesse pela busca do conhecimento. Em relação às ciências, muitos estudantes declaram que há “muita coisa” (como nomes e fórmulas) para decorar nas aulas. Ao refletir sobre isso, é possível perceber o grande distanciamento que se estabeleceu entre a natureza da própria ciência e do conhecimento científico e o ensino de ciências. Analisando as diversas perspectivas sobre o ensino, percebe-se que isso pode ter resultado da concepção de ensino pautada na transmissão-recepção de conhecimento, na qual, de fato, valoriza-se a memorização de conceitos, de fórmulas, de modo descontextualizado, desvinculado do cotidiano do estudante. Nesse contexto, a qualidade do ensino se media (e, muitas vezes, ainda é medido) pela quantidade de conteúdos abordados. Professor bom era o que dava muita matéria, bom aluno era o que decorava tudo para a prova, garantindo nota para sua promoção de série. O ensino de ciências nesses moldes descaracteriza o conhecimento científico como resultado da constante tentativa humana de compreender o mundo e os fenômenos. A ciência deixa de ser percebida pelo estudante como atividade intelectual e criativa do homem. Seu caráter histórico, processual, experimental e investigativo também não se explicita, uma vez que o conhecimento apresenta-se como produto final e verdade absoluta. Nesse sentido, torna-se importante reconhecer a importância do papel do professor na condução das transformações no processo de ensino-aprendizagem. Como destaca o documento oficial que contém os norteadores da educação brasileira – Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), é importante que a proposta pedagógica do professor esteja adequada às tendências inovadoras, que propõem a superação de um ensino de Ciências “como sinônimo de mera descrição de suas teorias e experiências” (BRASIL, 1998, p.22), a fim de tornar o ensino-aprendizagem interessante. Diante das novas concepções do processo de ensino-aprendizagem, o ensino pautado na transmissão-recepção do conhecimento dá lugar à modalidade que requer a participação ativa do estudante na construção do conhecimento. Desse modo, torna-se importante que o professor incorpore as tendências inovadoras do ensino em sua prática. Com isso, no entanto, não se tem a pretensão de dizer que a melhoria do ensino é de responsabilidade exclusiva do professor. Pois quem, de fato, experimenta a realidade do magistério, sabe como a precariedade das condições em que o professor exerce suas 12 atividades limita o seu desempenho profissional. Embora não caiba aqui aprofundamento da discussão acerca disso, esse fator não pode ser desconsiderado. Outro fator que se tem destacado em relação ao ensino refere-se à formação do professor de ciências, que atua nos anos finais, do 6° ao 9°, do Ensino Fundamental. Sua formação inicial, em geral, é em Licenciatura em Ciências Biológicas, cujo currículo, como o próprio nome sugere, é “biologizado”, conforme destaca Krasilchik (2000). Para muitos estudiosos, essa formação acadêmica inicial centrada na Biologia não garante o preparo adequado do professor para atuar no Ensino Fundamental, provocando consequências negativas para o ensino dessas ciências. Conforme Magalhães Jr. e Oliveira (2005), o Ensino de Ciências no Ensino Fundamental abrange as ciências físicas (Física, Química, Geologia e Astronomia), e as ciências biológicas (Biologia – Fisiologia e Anatomia Humanas, Botânica e Zoologia). Além de abordar os conteúdos de natureza biológica, compete ao professor-biólogo dar aula de Química e de Física no 9° ano e ainda abordar assuntos relativos às geociências no 6° ano. Talvez isso justifique a preferência de alguns professores por turmas de 7° e 8° anos de escolaridade, onde se estudam os Seres Vivos e o Corpo Humano, respectivamente. Os conteúdos do ensino também têm grande relevância, uma vez que através deles se alcançam os objetivos propostos. Os PCN sugerem que os conteúdos de cada componente curricular sejam selecionados pela equipe escolar e que as metodologias de ensino promovam uma maior integração entre as diversas áreas do conhecimento. Apesar disso, os grandes temas de Ciências a serem abordados em cada ano de escolaridade do Ensino Fundamental parecem tradicionalmente estabelecidos: Geociências (estudo da hidrosfera, da atmosfera e da crosta terrestre) no 6° ano; Seres Vivos no 7° ano; O Corpo Humano no 8° ano e Química e Física no 9° ano. Essa tradicional organização desfavorece uma maior articulação entre assuntos afins, concorrendo para uma abordagem fragmentada dos mesmos. Ao buscar a origem de tal organização, percebe-se que existe uma correlação entre essa proposta de organização dos temas para o ensino de ciências e a tendência predominante nas coleções de livros didáticos. Isso possivelmente originou-se do fato de muitos professores considerarem os livros didáticos como “versões adaptadas das propostas curriculares e do conhecimento científico” (Megid Neto e Fracalanza, 2003, p.153). E, nesse contexto, as propostas para o ensino podem ter sofrido um processo de “cristalização”. 13 Conforme essa organização “cristalizada” dos temas por ano de escolaridade, a iniciação sistemática à Química e à Física é prevista para o 9° ano. Em um ano letivo, o professor dá aula dessas duas ciências, o que sugere que ele dispõe de um semestre letivo para abordar os assuntos relativos à Química e o outro semestre letivo para abordar os conteúdos relativos à Física. Assim, focando o ensino de Física, em conformidade com os interesses desse estudo, observa-se que se propõem temas clássicos, como Mecânica, Ondulatória, Acústica, Óptica, Eletricidade e Magnetismo. É possível perceber ainda que a abordagem dos conteúdos desses temas, de modo geral, baseia-se no uso de fórmulas, o que leva o estudante a estabelecer uma estreita associação entre a Física e a Matemática, de modo descontextualizado e afastado do seu cotidiano. Curiosamente, isso também pode ser percebido nos livros didáticos. Todavia, conforme as tendências inovadoras, o ensino deve buscar romper esse estigma. Considerando o período de um semestre letivo, a carga horária de três horas-aula semanais, a abrangência dos programas propostos (principalmente os propostos pelos livros didáticos, pois esses acabam influenciando a proposta do professor), torna-se difícil oferecer um ensino de qualidade adequado às demandas do nosso tempo, que já não admitem como relevante um ensino enciclopédico. De fato, em alguns materiais didáticos, os temas são abordados com nível de profundidade desnecessário aos estudantes nesse nível de escolarização. Moreira (2000) destaca que ao ensinar Física, não se podem considerar os estudantes como “físicos potenciais”. Como os professores percebem a influência dos currículos “biologizados” das Licenciaturas sobre o ensino de Ciências? De que modo percebem o quanto o livro didático passou de coadjuvante a “ator principal” no planejamento e na execução das atividades docentes? O ensino de Ciências oferecido na escola não tem acompanhado as tendências inovadoras que surgem com os avanços das pesquisas educacionais. Possivelmente, devido a uma adequação de sua prática às condições de trabalho e à experiência no exercício profissional, sem se dar conta, o professor deixa de considerar o quanto as mudanças necessárias no ensino implicam em uma tomada de atitudes em relação a aspectos que se encontram consolidados. Dentro do contexto apresentado, nosso objetivo geral foi identificar as características do ensino de Física oferecido aos estudantes do 9° ano de escolaridade da escola analisada. 14 Como objetivos específicos, sob a concepção dos professores de Ciências que atuam na escola estudada, pretendemos: (i) analisar a adequação da formação inicial obtida para trabalhar com Física no Ensino Fundamental; (ii) diagnosticar a viabilidade dos programas de conteúdos tradicionalmente propostos para o ensino de Física no 9° ano, considerando sua extensão e o tempo destinado para sua abordagem; Em decorrência dos resultados obtidos a partir desse estudo, buscamos também elaborar um material que pudesse auxiliar o professor na abordagem da Física no nível Fundamental. Essa pesquisa teve como foco o ensino de Ciências de uma escola pública municipal localizada no 1° distrito de Duque de Caxias, município localizado na Baixada Fluminense. Nessa escola, como ocorre na grande maioria das escolas, sobretudo as públicas, a Física (juntamente com a Química) é sistematizada como matéria de ensino no 9° ano de escolaridade. Observa-se, no entanto, em algumas escolas particulares, que Física e Química são abordadas a partir do 8° ano. Sua relevância consiste na possibilidade de contribuir para a melhoria da qualidade do ensino de Física no 9° ano da escola onde ela se desenvolveu. Espera-se que os resultados dessa pesquisa provoquem reflexão e tomada de decisões por parte dos professores e da equipe da pedagógica sobre as possíveis mudanças para que as aulas de ciências tornem-se interessantes e atraentes para o estudante. A presente dissertação está organizada em cinco capítulos. No capítulo 2, apresentaremos um panorama do Ensino de Ciências no Brasil. Inicialmente, enfocando o contexto em que ele se tornou obrigatório ao longo de toda a extensão da Educação Básica, apresentaremos um breve histórico de sua universalização, as alterações em seus objetivos, influenciadas por fatores externos e internos, de ordem política e social. Procuraremos apresentar como diferentes concepções de ensino-aprendizagem exerceram influência sobre o ensino de ciências. Ainda nesse capítulo, abordaremos algumas particularidades relacionadas às Licenciaturas em Ciências Biológicas, que habilitam professores de Biologia para o Ensino Médio e professores de Ciências que atuam do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental. E ainda, a possível influência exercida pelo Livro Didático sobre a seleção e organização dos conteúdos previstos para o ensino de ciências em cada ano escolar. 15 Prosseguindo com a pesquisa, o terceiro capítulo descreve o cenário e os sujeitos participantes da pesquisa e relata os caminhos percorridos no desenvolvimento desse trabalho, explicitando o método de coleta e análise dos dados. O capítulo 4 destina-se a explicitar as informações obtidas a partir da análise do questionário aplicado aos professores participantes da pesquisa. Além das informações obtidas dos questionários, serão utilizados registros dos Planejamentos de Curso e dos Diários de Classe relativos ao 9° ano dos anos letivos considerados na análise. No capítulo 5, apresenta-se a descrição do Produto Educacional, que se constitui como um kit dirigido a professores de Ciências do Ensino Fundamental. Esse é composto pelo material necessário para o desenvolvimento de uma proposta integrada da Física com a Biologia, no ensino de Óptica e Visão nesse nível de escolaridade. Como fruto desse estudo, uma cópia do Produto Educacional elaborado será doada à escola considerada nessa pesquisa a fim de que os professores de Ciências que nela atuam possam utilizá-lo em suas aulas, em caso de interesse dos mesmos. 16 2 CONTEXTUALIZANDO O ENSINO DE CIÊNCIAS NO BRASIL 2.1 CARACTERIZANDO O ENSINO DE CIÊNCIAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA A universalização do ensino de Ciências Naturais ao longo da Educação Básica é relativamente recente no Brasil. A ampliação da sua obrigatoriedade em todas as séries do antigo 1° Grau (da 1ª à 8ª série) ocorreu há menos de meio século, com a promulgação da Lei das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 5692/71). A fim de esclarecer e facilitar o entendimento, é oportuno destacar certos aspectos relativos à nomenclatura usada na organização do ensino e referida nesse estudo. Na atual legislação (LDB 9394/96), a Educação Básica inclui a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Médio. Em conformidade com os interesses desse estudo, cabe destacar que o nível Fundamental tem a duração de nove anos e que cada ano escolar do estudante é chamado de ano de escolaridade. Anteriormente à promulgação dessa Lei, durante a vigência tanto da LDB 4024/61 como da LDB 5692/71, o ano escolar era chamado de série. Assim, o período escolar compreendido entre o 6° ano e o 9° ano de escolaridade do atual nível Fundamental corresponde ao antigo período de 5ª à 8ª série do antigo 1° Grau. Desse modo, percebe-se que ao atual 9° ano de escolaridade corresponde à antiga 8ª série. De acordo com Krasilchik (2000), a LDB 4024/61 tornou obrigatória a inserção de aulas de Ciências no currículo escolar a partir da 5ª até a 8ª série. Antes da promulgação dessa Lei, o ensino das ciências era obrigatório somente na 7ª e na 8ª séries do 1° Grau e ao longo no 2° Grau. Não se pode negar que a ampliação da obrigatoriedade do ensino de Ciências representou um avanço para a educação científica no Brasil. No entanto, pode-se observar que, infelizmente, tal expansão não foi suficiente para garantir aos jovens brasileiros um ensino de ciências que se equipare em termos de qualidade ao oferecido a jovens de outras nações. Pois, como mostram os resultados dos exames em nível internacional dos quais o Brasil participou nos últimos anos, o desempenho dos estudantes brasileiros encontra-se muito aquém do desejado. Isso sinaliza que há um caminho a percorrer a fim de aprimorar a qualidade do ensino de Ciências no Brasil. É indiscutível que o conhecimento escolar amplia as possibilidades de exercício da cidadania. Nos nossos dias, com o amplo desenvolvimento científico e tecnológico, a interação dos estudantes com a ciência, através da aprendizagem dos conhecimentos por ela 17 produzidos, pode muito contribuir para ampliar sua percepção de mundo e compreensão dos fenômenos naturais. Assim, conforme destacado nos PCN (BRASIL, 1998) a apreensão dos conhecimentos científicos torna-se relevante na capacitação do sujeito para intervir na sociedade de modo mais consciente, que seja interpretando, avaliando, opinando, criticando, ou decidindo sobre questões relacionadas a si e ao meio ambiente. A fim de tentar compreender as tendências do ensino de Ciências, procuraremos, durante o desenvolvimento desse capítulo, pontuar algumas de suas características relacionadas aos seus objetivos, às concepções de Ensino-Aprendizagem e do Ensino de Ciências que lhe influenciaram ao longo dos anos a escolha dos conteúdos de ensino. Trataremos, ainda, de alguns dados sobre o ensino de Ciências no Brasil revelados por exames nacionais e internacionais. Ao se analisarem os objetivos do Ensino de Ciências ao longo das últimas décadas, desde a extensão de sua obrigatoriedade, é possível observar que eles sofreram modificações. E que tais modificações no ensino refletiram as transformações políticas e econômicas, nacionais e internacionais, como afirma Krasilchik (2000). As escolas de educação básica, sobretudo as públicas, experimentaram o que ela chama de “surto reformista”, a cada mudança de governo. Sob o contexto da Guerra Fria, o objetivo do ensino era formar uma elite com capacidade de tomar decisões a partir da análise lógica e crítica de informações e dados, cabendo às disciplinas científicas “desenvolver o espírito crítico com o exercício do método científico” (KRASILCHIK, 2000). Desse modo, na vigência da LDB 4024/61, esse era o principal objetivo das disciplinas científicas. Nessa ocasião, no Brasil, um país em processo de industrialização, havia uma grande demanda de investigadores. Era preciso preparar os estudantes mais aptos para garantir a possibilidade de desenvolvimento científico e tecnológico. O cenário da escola era dominado pelo ensino tradicional... Aos professores cabia a transmissão de conhecimentos acumulados pela humanidade, por meio de aulas expositivas, e aos alunos, a reprodução das informações. ... a verdade científica era inquestionável ..... a avaliação era o questionário, ao qual os estudantes deveriam responder detendo-se nas ideias apresentadas em aula ou no livro didático escolhido pelo professor. (BRASIL, 1998, p. 19) Como resposta ao avanço científico, surgiu a necessidade de uma reorientação das propostas de ensino de Ciências. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1998), as novas tendências passaram a valorizar a participação do estudante no processo de aprendizagem. Desse modo, a realização de atividades práticas para a 18 compreensão dos conceitos foi amplamente defendida e o método da redescoberta acompanhou o objetivo desse ensino, o qual buscava levar o estudante a vivenciar as etapas do método científico. Isso provocou uma ampla produção de materiais didáticos, que representou um grande avanço para o ensino de Ciências. A proposta da aprendizagem por redescoberta foi tão marcante a ponto de levar alguns professores a identificarem, inadvertidamente, a metodologia científica com metodologia do ensino de Ciências. Isso se percebe ainda nos dias atuais e se manifesta na expressão de docentes que julgam que a existência de laboratórios equipados para atividades experimentais é imprescindível para a mudança no ensino de Ciências. No entanto, pesquisas recentes mostraram que “a experimentação, sem uma atitude investigativa mais ampla, não garante a aprendizagem dos conhecimentos científicos” (BRASIL, 1998, p. 20). Com a Ditadura Militar, o desenvolvimento econômico tornou-se o foco do país e a escola precisava preparar o cidadão para o mundo do trabalho. Assim, a partir da promulgação da LDB 5692/71, o ensino deveria ajustar-se ao preparo do estudante para o trabalho e as disciplinas científicas deveriam atender às necessidades de um ensino profissionalizante. De acordo com Krasilchik (2000), essa legislação “conturbou o sistema” e descaracterizou a função do ensino de Ciências, mas o que se observou, na verdade, foi que o sistema privado e o público de ensino se reajustaram, abandonando a orientação legal. Nos anos 80, sob influência das novas concepções de ensino e de aprendizagem e das novas demandas da sociedade, tornou-se necessária uma redefinição dos papéis do professor e do estudante. A ciência também passou a ser percebida, sob uma nova perspectiva, como uma construção humana, nem sempre linear e crescente. Desse modo, o próprio conhecimento científico começa a perder a condição de verdade absoluta, imutável e incontestável. Assim, a forma como ocorre a evolução da ciência passa a ter certo espaço nos programas de ensino. Nesse contexto, é possível reconhecer que “propostas inovadoras têm trazido renovação de conteúdos e métodos, mas é preciso reconhecer que pouco alcança a maior parte das salas de aula onde, na realidade, persistem velhas práticas” (BRASIL, 1998, p. 21). A distância entre a pesquisa sobre ensino e o ensino, faz com que a maior parte dos conhecimentos que os docentes recebem nos cursos de formação inicial ou permanente, ainda que possam estar mais ou menos legitimados academicamente, não foram produzidos nem legitimados pela prática docente. Os conteúdos e a forma de desenvolvê-los foram definidos de fora, o que explica a relação de exterioridade que os docentes estabelecem com eles (CALDEIRA apud CUNHA e KRASILCHIK, 2010). 19 A atual LDB 9394/96, mantém o vínculo entre educação e mundo do trabalho, ao estabelecer que ela qualifique o estudante para o trabalho. Em seu artigo 2°, estabelece “o preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. O enfoque é para a formação do cidadão-trabalhador. Na legislação anterior, a LDB 5692/71, ao se definir o objetivo geral da educação, no artigo 1° cita-se “qualificação para o trabalho e o preparo para o exercício consciente da cidadania”, numa ordem inversa em relação à primeira. A função escolar era formar o trabalhador-cidadão. Segundo a autora, observa-se uma forte tendência à “volta do papel centralizador do Estado” para o estabelecimento de normas e regulamentos para o ensino. A publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para a educação básica é a concretização dessa tendência. Conforme os PCN, que contêm as orientações oficiais para a educação nacional, e que, atualmente, norteiam o ensino, os objetivos das Ciências Naturais visam ao desenvolvimento de competências nos estudantes que possibilitam a compreensão do mundo, bem como sua atuação nele como cidadão através da utilização dos conhecimentos científicos. Em relação às concepções de Ensino-Aprendizagem e o Ensino de Ciências, a educação brasileira sofreu e sofre influências de diversos estudiosos. “Nos anos 60, a concepção do processo ensino-aprendizagem era influenciada pelas ideias comportamentalistas” (KRASILCHIK, 2000). Essa influência marcou os cursos de Licenciatura, de modo geral. Neles, havia grande preocupação de ensinar ao futuro professor a elaborar os objetivos para suas aulas, de modo que após o seu desenvolvimento, se pudesse observar determinado comportamento no aluno. Segundo a autora, isso orienta a dinâmica dos planejamentos de muitas escolas, onde “constam apenas a redação de objetivos e metas”, esquecidos posteriormente “por força da pressão das realidades do dia-a-dia na classe”. Apesar das várias ideias que influenciaram a concepção do processo ensinoaprendizagem, a tendência tradicionalista de currículo é a que prevalece na educação brasileira, conforme Krasilchik (2000). De acordo com essa tendência, cabe ao professor apresentar a matéria de modo a facilitar a aquisição de conhecimentos pelos estudantes, assim, a preocupação central ao planejar a aula é em como ensinar. No Ensino de Ciências, durante muito tempo se referiu à produção da ciência como resultado de uma determinada sequência de etapas que começava com a problematização e terminava com uma conclusão – O Método Científico. O planejamento de atividades práticas e a realização dos experimentos deveriam possibilitar a vivência do método científico a fim de 20 comprovar a veracidade do conhecimento científico. Assim, a metodologia do ensino de ciências se confundia com a metodologia científica. Posteriormente, a divulgação e discussão dos trabalhos de Piaget sobre as fases de desenvolvimento intelectual do ser humano foi um novo marco para a educação nacional. A partir daí, o ensino passou a sofrer forte influência das ideias cognitivistas. Sob essa perspectiva, foram elaborados os PCN, documentos oficiais norteadores da educação, com ênfase no construtivismo. As propostas metodológicas baseadas no construtivismo pressupõem que o aprendizado se dá pela interação professor/estudante/conhecimento, ao se estabelecer um diálogo entre as ideias prévias dos estudantes e a visão científica atual, com a mediação do professor, entendendo que o estudante reelabora sua percepção anterior de mundo ao entrar em contato com a visão trazida pelo conhecimento científico (BRASIL, 1998). Com base nessa concepção de ensino-aprendizagem, o início da construção do conhecimento é anterior ao período escolar e isso não deve ser desconsiderado. Por exemplo, ao explicar cientificamente os dias e as noites, o professor usa o modelo heliocêntrico, mas a criança consegue explicar o mesmo fenômeno, intuitivamente, usando o modelo geocêntrico a partir da observação diária do movimento aparente do Sol. Nesse caso, cabe ao professor criar um ambiente favorável à argumentação e usar recursos adicionais que possibilitem a mudança conceitual, nesse caso, um rompimento com a sua percepção, o que nem sempre é tarefa fácil. Embora a proposta seja interessante, é preciso considerar que a perspectiva construtivista requer uma série de adequações, dentre as quais se poderiam citar a reestruturação do espaço físico e das condições materiais, a reorganização do tempo escolar e o quantitativo de estudantes por turma, que estão muito fora da realidade das escolas. É preciso reconhecer o equívoco de que a sua imposição ao professor garante as condições necessárias para adequação de sua prática a essa nova tendência. As prescrições oficiais da expectativa de reforma em curso tratam do assunto superficialmente, havendo uma grande distância entre uma “proposta construtivista” e recomendações que permitam ao professor exercer plenamente o seu papel catalisador da aprendizagem. Faltam discussões que permitam ao próprio docente, nas atuais condições de trabalho, criar um clima de liberdade intelectual, que não limite sua atividade a exposições, leitura ou cópia de textos (KRASILCHIK, 2000). Assim, na concepção construtivista, o professor deixa de desempenhar o papel de transmissor de informação e passa a ser mediador do processo de aprendizagem. O estudante deixa de ter uma atitude passiva e torna-se aprendiz, sujeito de sua aprendizagem, aquele que constrói seu conhecimento a partir da sua interação com o objeto de estudo. Sendo assim, ao se pensar sobre o que seria um bom ensino, também se pensa sobre o que caracterizaria uma 21 boa aprendizagem. Como salienta o autor, “ensino e aprendizagem são interdependentes; por melhores que sejam os materiais instrucionais, do ponto de vista de quem os elabora, a aprendizagem não é natural” (MOREIRA, 2000, p. 95). As pesquisas recentes em ensino de Ciências foram influenciadas por essa concepção construtivista, que se apresenta grosso modo como uma alternativa ao tradicionalismo e acabou tornando-se um clichê no discurso dos professores, mas segundo Aguiar Jr. (1998), não se consegue avaliar as reais mudanças provocadas na educação. Segundo ele, O construtivismo educacional insistiu corretamente em quatro pontos essenciais, sendo por esses reconhecido: 1. A importância do envolvimento ativo do aprendiz; 2. O respeito pelo aprendiz e por suas próprias ideias; 3. O entendimento da ciência enquanto criação humana; 4. Orientação para o ensino no sentido de capitalizar o que os estudantes já sabem e dirigir-se às suas dificuldades em compreender os conceitos científicos em função de sua visão de mundo (OGBORN apud AGUIAR JR., 1998). Em sua avaliação sobre o construtivismo, salienta que é necessário que ele se articule com outras dimensões e orientações da pesquisa em ensino de ciências, pois não dá conta de abarcar um tema com a amplitude da Educação. 2.1.1 Os Conteúdos do Ensino de Ciências O ensino de Ciências no nível Fundamental tem um caráter pluralista, abordando conhecimentos de várias ciências. À medida que esse ensino se estendia a todo o antigo 1° Grau (atual Ensino Fundamental), os conteúdos abordados durante o curso se organizaram da seguinte maneira em grandes temas, a saber: na 5ª série – Astronomia e Geociências; na 6ª série – Os Seres Vivos; na 7ª série – O Corpo Humano e na 8ª série – Química e Física. (Destacamos que o termo série foi substituído por ano de escolaridade na estruturação do Ensino Fundamental, que passou a ter a duração de nove anos. Assim, a 5ª série passou a corresponder ao atual 6° ano e, na sequência, a 8ª série corresponde ao 9° ano). A experiência inicial como estudante e, posteriormente, como professor, permite afirmar que essa organização se estabeleceu há algumas décadas e prevalece ainda nos dias de hoje. Em conformidade com o interesse dessa pesquisa, cabe destacar que os conteúdos do ensino de Ciências previstos para o 9° ano no Ensino Fundamental relacionam-se a duas ciências de modo mais específico: Física e Química. Assim, os conteúdos de Física devem ser abordados em meio ano letivo e a outra metade destina-se ao ensino de Química. 22 De modo geral, Mecânica, Ondas, Acústica, Óptica, Eletricidade e Magnetismo são os temas de ensino da Física nesse ano de escolaridade (Anexo A). Mais recentemente, reconhecidos os problemas socioambientais provocados pela industrialização e pelo modelo de desenvolvimento mundial com base capitalista, as pesquisas sobre o ensino de ciências sofreram influência do movimento conhecido como Ciência, Tecnologia e Sociedade – CTS. A partir disso, propõe-se a inclusão de diversos temas nos programas de conteúdos para o ensino de Ciências. Krasilchik (2000) salienta que devido à inclusão de temas como “poluição, lixo, fontes de energia, economia de recursos naturais, crescimento populacional, a crise energética, a crise ambiental” os programas de conteúdos de ciências se tornaram extensos. A inclusão de disciplinas no currículo desencadeou o fenômeno denominado por certos autores como “currículos inchados”. Talvez aqui pudéssemos tomar emprestado o termo e nos referir a esses programas como “inchados”. De acordo com os PCN, o ensino de Ciências possui uma característica livresca, com uma abordagem fragmentada dos conteúdos, dificultando a percepção por parte dos estudantes da existência de uma inter-relação entre os diversos temas de estudo. Isso deixa uma lacuna na formação do estudante. A proposta dos PCN para a organização dos conteúdos de Ciências para o terceiro (6° e 7° anos) e o quarto (8° e 9°anos) ciclos do Ensino Fundamental é que se considerem quatro eixos temáticos: Vida e Ambiente; Ser Humano e Saúde; Tecnologia e Sociedade e Terra e Universo. Esses eixos representam uma proposta de organização alternativa onde se articulada de diferentes conceitos, procedimentos, atitudes e valores para cada ciclo de escolaridade. A pouco mais de uma década da publicação dos PCN não se observam efetivas mudanças no ensino. Cabendo a argumentação de que esse é um período curto de tempo em se tratando de Educação, nota-se também que, praticamente, não se investiu em políticas para envolver os professores em tal empreitada. Apesar das coleções didáticas avaliadas pelo Programa Nacional do Livro Didático – PNLD – para a escolha dos professores conterem o selo “De acordo com os PCN”, a tradicional distribuição dos grandes temas de estudo para cada ano de escolaridade é a que prevalece. Desse modo, torna-se cada vez necessária a discussão acerca do ensino de ciências no nível Fundamental. Em relação à Física, o modelo de ensino baseado na aplicação de fórmulas para a solução de problemas, de modo geral, não tem despertado a atenção e o interesse do estudante para os temas de estudo. Muito pelo contrário. O que a experiência 23 profissional revela é que, à medida que a Física se aproxima da Matemática, afasta dela o estudante. Diante das demandas educacionais do nosso tempo, que se mostram cada vez mais desvinculadas da visão enciclopédica do ensino e da percepção do processo educacional centrado na transmissão-recepção do conhecimento, é imprescindível que os assuntos sejam abordados de modo a despertar o interesse dos estudantes. Recomenda-se também que para o pleno desenvolvimento do estudante, valores e atitudes são tão fundamentais como conceitos e procedimentos. Assim, é responsabilidade da escola e do professor promoverem o questionamento, o debate, a investigação, visando o entendimento da ciência como construção histórica e como saber prático, superando as limitações do ensino passivo, fundado na memorização de definições e de classificações sem qualquer sentido para o aluno. (BRASIL, 1998) Dentro desse contexto, sob essa nova concepção do processo de ensino-aprendizagem, a quantidade e a sequência de conteúdos de Física propostos para o nível Fundamental precisa passar por uma revisão, de modo a adequar-se ao período de tempo destinado ao seu ensino e, ao mesmo tempo, atender às necessidades e ao nível de desenvolvimento dos estudantes nesse nível de escolarização. 2.2 O ENSINO DE CIÊNCIAS E O PROGRAMA INTERNACIONAL DE AVALIAÇÃO DOS ESTUDANTES (PISA) O PISA é um programa internacional de avaliação “sistemática, prospectiva e comparativa” (WAISELFISZ, p.13, 2009) que abrange as seguintes áreas do conhecimento: Matemática, Ciências e Língua. Ele é elaborado e coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), da qual participam trinta países como membros, sendo que países que não pertencem à OCDE podem participar como convidados. O Brasil é um deles e é também o único país convidado que participou de todas as avaliações ocorridas até agora. As avaliações ocorrem a cada três anos. Em cada edição o enfoque prioriza uma das áreas, que corresponde a 60% da avaliação, restando 20% para cada uma das outras duas áreas. A primeira edição ocorreu no ano 2000, com ênfase na Língua; em 2003 enfatizou-se a Matemática e em 2006 foi o destaque foi para as Ciências. 24 As avaliações nacionais, como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), consideram apenas a Língua e a Matemática. Assim, a divulgação dos resultados do desempenho dos estudantes brasileiros no PISA/2006, cuja ênfase foi para as Ciências (Física, Química e Biologia) parece constituir-se como um marco para a confirmação do que já havia se revelado em diversas pesquisas: a qualidade do ensino de Ciências oferecido nas escolas brasileiras é precária, não tendo preparado os estudantes para enfrentar os desafios que permeiam a sociedade atual. O Brasil ocupou a 52ª posição dentre as 57 nações avaliadas. Muitos autores referem-se a essa situação como sendo uma crise. Conforme Waiselfisz (2009), a seleção dos participantes do PISA é feita com base na idade e na escolarização. Assim, sua amostra é composta por estudantes de 15 anos e três meses e 16 anos e dos meses, pois se considera que os estudantes da maioria dos países concluem a escolaridade mínima obrigatória, o que corresponde ao Ensino Fundamental no Brasil, nessa faixa etária, ou estão iniciando o Ensino Médio ou ingressado no mercado de trabalho. O referido autor destaca que uma das contribuições do PISA é considerar em suas avaliações conhecimentos e habilidades necessários para uma participação cidadã, ativa e plena na sociedade. Em outras palavras, considera aspectos da formação dos estudantes que lhes permitam enfrentar com eficiência os desafios da moderna vida real. No Brasil, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), uma autarquia ligada ao Ministério da Educação, é responsável pela coordenação do Programa. No Quadro 2.1, pode-se observar uma síntese da colocação do Brasil na classificação geral de cada edição do referido Programa. Quadro 2.1 Resultados do Brasil no PISA (2000 – 2009). Entre parênteses, encontram-se as classificações parciais por área. PISA 2000* 31 países PISA 2003 41 países PISA 2006 57 países PISA 2009 65 países Número de alunos participantes 4893 4452 9295 20127 Leitura 396 (31°) 403 (38°) 393 (49°) 412 (53°) Matemática 334 (31°) 356 (41°) 370 (54°) 386 (57°) Ciências 375 (31°) 390 (38°) 390 (52°) 405 (53°) Classificação geral 31º ? 54o 53° Fonte: http://portal.inep.gov.br/internacional-novo-pisa-resultados. *Fonte: http://www.anpec.org.br/revista/vol6/vol6n1p67_118.pdf 25 Observando o Quadro 1, percebe-se que as notas de Ciências nas quatro edições foram baixas. Esses resultados são importantes porque acabam exercendo grande influência sobre a opinião pública acerca da escola, como destaca Krasilchik (2000). Além disso, espera-se que possam contribuir para a orientação de políticas públicas que possam transformar a realidade da educação. Em relação aos aspectos relativos às Ciências, Waiselfisz (2009) destaca que o PISA não desconsidera a importância do domínio de conhecimentos específicos, mas que sua utilização depende da aquisição de conceitos e habilidades mais amplos. De modo geral, essa utilização requer habilidade de analisar e resolver problemas, trabalhar com informações e enfrentar situações da vida. Segundo o autor, o PISA se diferencia de outras avaliações não se limitando a aspectos relativos aos conhecimentos adquiridos na escola. Assim, exemplifica que saber nomes de plantas e animais é menos importante do que compreender a importância da biodiversidade. Sem dúvida, com base nessa perspectiva devem ocorrer as necessárias mudanças no ensino. De modo sintético, a competência em Ciências relaciona-se ao conhecimento e ao seu uso para “identificar as questões pertinentes, adquirir novos conhecimentos, explicar os fenômenos e tirar conclusões baseadas em evidencias, sobre assuntos relacionados com a ciência” (WAISELFISZ, 2009, p. 14). Além dessa avaliação internacional, em nível nacional, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) também “produz e dissemina informações de avaliação, estatísticas, bem como estudos e trabalhos relevantes para a comunidade educacional” a fim de cumprir sua missão que é de “subsidiar o processo decisório das políticas educacionais”. No entanto, em suas avaliações, o INEP considera somente Língua Portuguesa e Matemática. A fim de explicitar os resultados das avaliações, o INEP elaborou o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que varia de 0 a 10. E é ele que serve de indicador de qualidade, mostrando as “condições de ensino no Brasil”. Essa avaliação ocorre a cada dois anos. Paralelamente a sua realização, estabelece-se um plano de metas para cada escola e para as redes municipal, estadual e federal de ensino. A média anual tem crescido. Se o ritmo de crescimento se mantiver, em 2022 o Brasil terá alcançado média superior a 6,0 e equiparar-se-á aos melhores do mundo. O IDEB relaciona-se com a aprendizagem, a aprovação e a frequência às aulas. 26 Embora o INEP não contemple a área das Ciências em suas avaliações, consideramos o IDEB importante porque é ele que tem sido usado como parâmetro para a avaliação da Educação nacionalmente. Buscamos conhecer os índices relativos à rede pública municipal de Duque de Caxias, na qual está inserida a escola considerada nesse estudo e também os índices relativos a essa. Em 2005, a nota dessa rede municipal foi 2,5. Em 2007, ela foi 2,7. Em 2009, a meta era manter a nota 2,7 e ela foi atingida. Em relação às notas obtidas pela referida escola, observa-se que elas são também baixas. Em 2005, a nota foi 2,5 e se manteve na avaliação realizada em 2007. Em 2009, a meta de alcançar nota 2,8 não foi atingida, pois obteve nota 2,7. Embora haja controvérsia em relação a essas avaliações, elas têm desempenhado papel cada vez mais relevante na sociedade, pois são elas que norteiam as discussões sobre a qualidade da educação oferecida nas escolas e revelam, assim, o grande desafio de buscar melhorar qualidade do ensino. 2.3 A FORMAÇÃO DO PROFESSOR E O ENSINO DE CIÊNCIAS A formação profissional tem implicação direta no desempenho profissional e, portanto, na qualidade do serviço prestado em qualquer setor do mundo do trabalho. Na Educação não é diferente. Sendo assim, dentre outros fatores, a qualificação do professor exerce influência direta sobre a qualidade do ensino oferecido aos estudantes,. De acordo com Glêiser (2005), o pouco preparo dos professores e a falta de recursos são os principais problemas do ensino de Ciências no Brasil. Ante o desafio da busca pela melhoria da qualidade do ensino de Ciências, segundo Adams e Tillotson, 1995 apud Cunha e Krasilchik (2000), o “ponto crítico” da reforma da educação científica é justamente a preparação do professor. Garrido e Carvalho (1995) apud Cunha e Krasilchik (2000) declaram que a formação dos professores obtida na Graduação é insatisfatória, bem como a obtida nos cursos destinados à atualização desses profissionais durante o exercício profissional. Disso, concluem as autoras, decorre a necessidade da continuidade dos estudos em cursos de formação continuada que visam a “suprir deficiências dos cursos de formação” e não somente a atualização dos docentes. No Brasil, a habilitação para o Magistério é obtida em cursos de Licenciatura. Hoje, pode-se afirmar que os professores de Ciências se formam em Licenciaturas em Ciências 27 Biológicas, com exclusividade. Isso quer dizer que, as Licenciaturas em Química ou Física não conferem tal habilitação. Assim, o professor de Ciências do nível Fundamental é um professor-biólogo. Esse aspecto torna-se extremamente relevante, na medida em que a natureza dos conteúdos de ensino nas aulas de Ciências é multidisciplinar, enquanto a formação do professor de Ciências tem caráter disciplinar, predominantemente, em Biologia. Veremos a seguir como foi se delineando, ao longo dos anos, a atual estrutura de formação do professor de Ciências. Com a promulgação da LDB 5692/71, que tornou o ensino de ciências obrigatório em todas as séries do antigo 1° Grau, os cursos de formação de professores tiveram que sofrer reformulações. Assim, o Curso Normal passou por adequações devidas respondendo às novas exigências. Conforme Menezes e Santos (2002), para atender de forma rápida à demanda de professores para atuar da 5ª à 8ª série do antigo 1° Grau, tornou-se necessário ampliar o número de cursos de Licenciatura Curta e Plena. As licenciaturas curtas surgiram no país a partir da Lei n. 5.692/71, em 1971, num contexto em que passou-se a exigir uma formação rápida e generalista para atender a uma nova demanda de professores. A implantação inicial desses cursos, deveria se dar prioritariamente nas regiões onde houvesse uma maior carência de professores. Porém, esses cursos, que deveriam ter uma vida curta, se proliferaram por todo o País e grande parcela dos professores que estão exercendo a sua função em sala de aula são originários desses cursos de formação de professores. Foi amplamente rejeitada desde o início de sua instituição e implantação pois muitos afirmavam que lançava no mercado um profissional com formação deficitária em vários sentidos. Essas críticas acabaram repercutindo no Conselho Federal de Educação que aprovou em 1986 a indicação que propunha a extinção desses cursos nas grandes capitais do País. (MENEZES e SANTOS, 2002). Segundo as autoras, a partir da promulgação da Lei 9394/96 as Licenciaturas Curtas foram extintas e transformadas em Licenciaturas Plenas. A partir da universalização do ensino de ciências, os estudantes passaram a estudar ciências a partir do ingresso na escola. Da Educação Infantil ao 5° ano, um professor é responsável pelo ensino das três grandes áreas curriculares: Linguagens, a Matemática e as Ciências Físicas, Químicas e Biológicas e as Ciências Sociais. Do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental, há o professor de Ciências, a quem cabe o ensino dos conteúdos de Astronomia, Geociências, Biologia, Química e Física. No Ensino Médio, há um professor para cada componente da área das Ciências Naturais: Biologia, Química e Física. Devido às características do sistema educacional brasileiro, é possível notar que a formação inicial mínima exigida do professor varia dependendo da etapa da escolarização. O 28 professor que atua na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental (do 1° ao 5° ano de escolaridade) é habilitado ao exercício do Magistério pelo Curso Normal, Normal Superior ou Graduação em Pedagogia. A Licenciatura em Ciências Biológicas habilita o professor a atuar como professor de Ciências nos anos finais (6° ao 9°) do Fundamental e como professor de Biologia no Ensino Médio. A habilitação para o Magistério de Física e o de Química são obtidas através dos Cursos de Licenciatura em Física e Química, respectivamente e os professores deles oriundos estão habilitados para atuar, exclusivamente, no Ensino Médio. Como se pode observar, a problemática do ensino de ciências começa nos anos iniciais de escolarização. Eles são apresentados à ciência por um professor cuja formação não garante domínio geral de conhecimento dos conteúdos com os quais trabalhará. Assim, é possível encontrar estudantes com concepções completamente equivocadas. É possível citar algumas bastante comuns: “a planta respira diferente dos animais”, “a planta respira de dia e faz fotossíntese à noite”, “as plantas devem ser colocadas para fora da casa de noite porque disputam o gás oxigênio com os moradores da casa”, “o oxigênio transforma-se em gás carbônico durante a respiração”, e muitas outras. A habilitação para o Magistério nesse segmento é obtida em Curso Normal, Normal Superior ou numa Graduação em Pedagogia. Nesses cursos, a carga horária das disciplinas científicas é reduzida, não garantindo uma formação adequada para a atuação nesse nível do ensino. A nova Matriz Curricular para o Curso Normal da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro – SEEDUC (2010) propôs um aumento da carga horária das disciplinas que compõem as Ciências Naturais a partir de 2010. Essa ampliação da carga horária das disciplinas científicas no Curso Normal é um passo importante, mas não é suficiente. É igualmente importante preparar metodologicamente o professor a fim de que as aulas curso qualifique o futuro professor a fim de que a metodologia do trabalho esteja adequada à fase de desenvolvimento das crianças possa atender às necessidades das crianças. Nessa fase do desenvolvimento, elas são extremamente curiosas, fazem questionamentos e também são participativas. Essas são importantes características que favorecem o ensino, principalmente o de ciências. Infelizmente, a falta de preparo dos professores que atuam nos anos iniciais, muitas vezes, “calam a boca” das crianças, de modo que perdem a capacidade ou vontade de expor seus questionamentos. Desse modo, o preparo adequado do professor vai além de domínio de conhecimento. É importante que se crie um ambiente favorável à aprendizagem, onde não exista um que 29 sabe falando aos que não sabem. Mas um ambiente de busca pelo conhecimento onde todos aprendem juntos, onde “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (FREIRE, 1996). Nesse contexto de aprendizagem, o professor passa a ter, inclusive, o salutar direito de aprender junto, de contínua formação, sem perder o respeito dos estudantes e o seu valor como profissional. Para alguns autores, a formação adequada do professor é um dos desafios a enfrentar para melhorar a qualidade do ensino de Ciências. Delizoicov et al. (2007) afirma que é necessário que o professor domine os conceitos, modelos, as teorias científicas e suas relações com a tecnologia. Mas salienta que, embora indispensável e inquestionável, isso não é o suficiente para o bom desempenho de sua função. Para esses autores, uma formação adequada constitui um conjunto de saberes e práticas que permitam ao professor superar o que tem sido chamado de “senso comum pedagógico”, o qual, dentre outros aspectos, relaciona-se com o “pressuposto de que a apropriação de conhecimentos ocorre pela mera transmissão mecânica de informações” (DELIZOICOV et al., 2007, p.32). Nesse estudo, temos destacado certos aspectos relativos à demanda específica do ensino de ciências no 9° ano de escolaridade, de modo mais particular em relação ao ensino de Física. Porém, é importante considerar que a problemática não se restringe a esse ano de escolaridade. Há uma questão particular do ensino de ciências em relação à formação do profissional que atua como professor de Ciências no Ensino Fundamental. A proposta do ensino de Ciências para o Ensino Fundamental aborda conhecimentos de diversas ciências, como a nomenclatura indica. O professor de Ciências dá aula de Astronomia, Geociências, Biologia, Química e Física. As Licenciaturas que formam professores de Ciências precisam oferecer uma formação diversificada adequada a essa demanda particular. No entanto, observa-se que as Licenciaturas que formam os docentes que atuam como professores de Ciências no Ensino Fundamental também formam os professores de Biologia que atuam no Ensino Médio. Dentro do contexto da formação disciplinar de professores no Brasil, isso justifica a predominância de disciplinas de caráter biológico nos currículos desses cursos e, ao mesmo tempo, reitera a necessidade de reestruturação da formação dos professores de Ciências para atuarem no nível Fundamental do ensino. 30 Isso não acontece com professores de outros componentes curriculares, como por exemplo, Língua Portuguesa. Ele pode atuar no Ensino Fundamental e/ou Médio, mas sempre como professor de Português. Conforme destacam Magalhães Júnior e Oliveira (2010), professores de Ciências são oriundos de cursos com formação disciplinar, que, na maioria das vezes, enfatizam as Ciências Biológicas. Isso se constitui como dificuldade para a concretização da proposta integradora do Ensino de Ciências para o Ensino Fundamental. O paradoxo entre a formação disciplinar do professor e as recentes propostas que enfatizam a necessidade de integrar conhecimentos multidisciplinares é, sem dúvida, um grande desafio para a prática pedagógica. Um recente estudo de currículos de cursos de Licenciaturas, dentre eles os de Ciências Biológicas reafirmou um aspecto extremamente importante relacionado à formação de professores: o lugar secundário ocupado pela formação de professores no modelo de universidade brasileira. Dentro desse quadro, a formação de professores é considerada atividade de menor categoria e quem a ela se dedica é pouco valorizado. Decorre daí uma ordem hierárquica na academia universitária, as atividades de pesquisa e de pós-graduação possuem reconhecimento e ênfase, a dedicação ao ensino e à formação de professores supõe perda de prestígio acadêmico. (GATTI, 2009). Gatti (2009) estudou currículos de 31cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas. Em sua análise, considerando as ementas das disciplinas, a autora as classificou em dois grupos principais: as disciplinas específicas, relativas aos conteúdos das Ciências Biológicas, e as disciplinas de cunho pedagógico, que objetivam a formação para a docência. Sendo o tempo destinado a essas o correspondente a 20% a 30% do total de horas do curso. A análise das ementas mostrou também que as disciplinas dos dois grupos não se articulavam, mantendo uma separação entre elas, na maioria dos casos. Observou-se também que há predominância dos conteúdos das Ciências Biológicas, que se confirma pelo fato de muitos cursos conferirem diploma de Bacharel em Biologia, além de Licenciado em Ciências Biológicas para o concluinte. Além disso, Os conteúdos relacionados ao ensino-aprendizagem de Ciências, geralmente não aparecem separados dos de ensino de Biologia no nível médio. As nomenclaturas variam de Prática, Metodologia, Instrumentação e até mesmo Didática do Ensino de Ciências e Biologia. Neste último caso, o conteúdo de Didática não aborda questões referentes ao cotidiano da escola, ocorrendo uma confusão de interpretação em relação a quais disciplinas devem contemplar os conteúdos das metodologias específicas e se essas devem ou não fazer a separação do ensino fundamental e médio. (GATTI, 2009) 31 Isso reafirma a predominância de uma formação em Biologia e pode justificar certa preferência de professores de ciências por turmas de 7° e 8° ano, onde se estudam temas da Biologia, como Seres Vivos e Corpo Humano. Em relação às demandas do Ensino de Ciências no nível Fundamental, a autora declara que há uma lacuna na formação do professor que dará aula de Química e Física no Ensino Fundamental. Ao analisar as ementas dos cursos que formam professores de Ciências, observou que os conteúdos dessas áreas do conhecimento se apresentam nas formas de disciplinas de Física e Química, não sendo contempladas, no entanto, em 33% dos ementários analisados. Quando presentes, os conteúdos dessas disciplinas não se articulam com o ensino de Física e de Química no nível fundamental. Analisando os Programas das Licenciaturas em Ciências Biológicas e as ementas das disciplinas oferecidas para habilitação no magistério da Universidade Federal do Rio de Janeiro1 (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro2 (UERJ), percebe-se que há pouca ênfase para o estudo da Física. Na primeira, são oferecidas duas disciplinas, obrigatórias: Física para Ciências Biológicas e Física para Professores de Ciências, cada uma com carga de 60 horas cada. Na UERJ, uma disciplina: Física para Biologia, com carga de 60 horas totais. Quando se trata de disciplinas relacionadas à Química, na UFRJ, são oferecidas quatro disciplinas: Complementos de Química I e II, e Bioquímica I e II, totalizando 390 horas. Já na UERJ, são oferecidas duas: Química para Biologia e Bioquímica, totalizando 135 horas. Dentro desse contexto, é notável a “fragilidade dos currículos no que se refere à formação do professor para o ensino da disciplina Ciências no nível fundamental” (GATTI, 2009). Com formação disciplinar com ênfase em Biologia, é possível que professores de Ciências encontrem dificuldades ao atuar como professor de Física e de Química no 9° ano do Ensino Fundamental. Considerando que persiste a tradicional organização dos conteúdos em que essas duas áreas do conhecimento se apresentam como matérias de ensino no 9° ano, isso se constitui como um problema específico desse ano de escolaridade. A lacuna na formação acadêmica certamente provoca insegurança no professor e interfere no Ensino de Ciências, comprometendo a sua qualidade do ensino e provocando o desinteresse dos estudantes pelas ciências. Assim, na construção de caminhos para melhorar a qualidade da educação, não se pode deixar de considerar o professor e sua formação. 1 2 Disponível em http://www.biologia.ufrj.br Disponível em http://www. ffp.uerj.br 32 Os desafios do mundo contemporâneo, particularmente os relativos às transformações pelas quais a educação escolar necessita passar, incidem diretamente sobre os cursos de formação inicial e continuada de professores, cujos saberes e práticas tradicionalmente estabelecidos e disseminados dão sinais inequívocos de esgotamento. (DELIZOICOV, et al., p. 31, 2007) Delizoicov et al. (2007) destaca a importância da aproximação entre pesquisa em ensino de Ciências e ensino de Ciências. Em outras palavras, o autor refere-se à importância do professor se tornar pesquisador, ainda que seja da sua própria prática. Nessa perspectiva, a sala de aula pode se tornar o laboratório do professor-biólogo na busca de caminhos para um ensino de melhor qualidade. Os autores declaram que a investigação dos problemas educacionais se intensificou a partir da segunda metade do século XX. Segundo eles, a produção científica do Brasil nessa área é compatível aos países mais avançados. Apesar disso, “a apropriação, a reconstrução e o debate sistemático dos resultados de pesquisa na sala de aula e na prática docente dos três níveis de ensino são sofríveis”. Curiosamente, o distanciamento entre os resultados das pesquisas em ensino e o ensino é observado na própria academia, onde se dá a formação de professores, o que leva à conclusão que “a formação de professores, na maioria dos cursos, ainda está mais próxima dos anos 1970 do que de hoje” (DELIZOICOV et al., 2007). Consideradas as mudanças ocorridas na sociedade e a explosão do conhecimento nas últimas décadas, é inegável a necessidade de mudanças nos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas. A formação dos futuros professores de Ciências precisa estar adequada às novas demandas do ensino, que se desvincula da descrição de leis e teorias e visa, dentre outros objetivos, a “reconstruir a relação ser humano/natureza em outros termos, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência social e planetária” (BRASIL, 1998, p.22). Mas as mudanças necessárias não se relacionam de modo exclusivo com a formação inicial dos futuros docentes. Permanece o desafio de incentivar a formação continuada dos professores em atividade profissional a fim de que se possa melhorar a qualidade do ensino oferecido nas escolas. “Crenças educacionais se originam de uma maneira mais intensa durante o período em que o futuro professor se encontra na situação de aluno da educação básica” (BEJARANO e CARVALHO, 2003). Desse modo, percebe-se que se aprende a ser professor sendo ainda aluno. E, como esse processo tem início precocemente, ainda na infância, mudança de velhas práticas nem sempre ocorrem naturalmente, requerendo tempo e condições favoráveis para se efetivarem. 33 2.4 O LIVRO DIDÁTICO E O ENSINO DE CIÊNCIAS Percebe-se que o livro didático exerce forte influência sobre a escolha dos conteúdos de ensino relativos a cada componente curricular. Isso tem particular importância no ensino, uma vez que é através a partir deles a escola realiza seus propósitos. De acordo com o documento oficial norteador do Ensino Fundamental (BRASIL, 1998, p.74), “a seleção, a organização e o tratamento que será dado aos conteúdos devem ser precedidos de grande discussão pela equipe escolar” O referido documento também destaca que a escolha dos conteúdos deve considerar a “relevância social do assunto e sua contribuição para o desenvolvimento intelectual do aluno” (p.75). Desse modo, espera-se que seja destinado um tempo para que a discussão ocorra na Unidade Escolar. Porém, percebe-se que ela não ocorre, até porque os conteúdos do ensino por ano de escolaridade foram se estabelecendo e já se encontram praticamente delineados. Em se tratando de Ciências nos anos finais do Ensino Fundamental, percebe-se uma tradicional organização dos temas de estudo. No 6° ano, abordam-se conteúdos relativos à Astronomia e à Geologia através do estudo da hidrosfera, da atmosfera e da crosta terrestre. No 7° ano, estuda-se Biologia, com ênfase na classificação dos seres vivos em Reinos. No 8° ano, o estudo do Corpo Humano. E no 9° ano, a Física e a Química. De modo geral, percebe-se que há estreita correlação entre esse padrão de organização e o que se encontra proposto nos livros didáticos. Nota-se, portanto, que abordagem das disciplinas científicas é fragmentada, “como se consagraram há mais de um século, e de forma caricatural” (BRASIL, 1998, p.27). A partir da busca por um ensino mais integrador, cujos objetivos da área de Ciências Naturais visam a desenvolver no estudante “competências que lhe permitam compreender o mundo e atuar como indivíduo e como cidadão, utilizando conhecimentos de natureza científica e tecnológica” (BRASIL, 1998, p.32), os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) sugerem que os conteúdos estejam organizados em eixos temáticos: TERRA E UNIVERSO, VIDA E AMBIENTE, SER HUMANO e SAÚDE E TECNOLOGIA E SOCIEDADE. De acordo com essa proposta, os conteúdos relativos aos quatro eixos devem se apresentar do 6° ao 9° ano, com abrangência e aprofundamento crescentes, considerando, obviamente, o nível de desenvolvimento dos estudantes. Apesar dessas orientações, a estrutura dos livros didáticos disponíveis no mercado costuma seguir a tradicional organização dos grandes temas do ensino de Ciências por ano de 34 escolaridade anteriormente descrita. Segundo Megid Neto e Fracalanza (2003), também não se observa mudança substancial de aspectos essenciais relativos aos fundamentos conceituais que determinam as particularidades do ensino das Ciências Naturais. Conforme Amaral e Neto (1997), apud Megid Neto e Fracalanza (2003), os fundamentos conceituais e os avanços educacionais nas áreas de Ciências são incorporados pelos autores dos livros didáticos apenas nas páginas iniciais das coleções, nas explicações e na apresentação da obra ao professor e ao aluno. No entanto, não se verifica a implementação dessas ideias no texto do livro, nas atividades propostas para os estudantes, nem nas orientações metodológicas contidas na obra. De acordo com Hulsendeger (2006) apud Martiolo e Moro (2006), ao encontrar dificuldades em relação aos conceitos a serem trabalhados com os estudantes, o professor fundamenta sua prática na utilização do livro didático como principal apoio, não tendo, inclusive, condições de responder ou de aprofundar questões trazidas pelos estudantes. Para esses autores, as dificuldades enfrentadas pelos professores em relação aos conteúdos de ensino resultam de uma lacuna na formação acadêmica do professor. Retomando a questão da formação, o professor de Ciências no Ensino Fundamental é também professor de Biologia. Ele é, por isso, o que se pode chamar de professor-biólogo. E esse professor deve dar aula de Química e Física no 9° ano do Ensino Fundamental. Eis aqui uma lacuna na formação a que os autores acima se referem, que pode fazer com que as propostas de ensino do professor e do livro se assemelhem, conferindo certa “segurança” para o exercício de sua função docente. Se, como visto, as propostas contidas nos livros didáticos, praticamente não muda e se, de fato, continua fundamentando a prática do professor, o ensino de Ciências mantém o seu status e permanece distante das tendências inovadoras. Mas a lacuna na formação do professor de Ciências não é o fator exclusivo para fortalecer o uso inadequado do livro didático. Certamente, a histórica crise relacionada à falta de infraestrutura e escassez de recursos educacionais deve ter contribuído para potencializar a influência do livro didático sobre o ensino. Como destaca Glêiser (2005), o pouco preparo dos professores e a falta de recursos são os principais problemas do ensino de Ciências no Brasil. Ainda nos dias atuais, apesar dos avanços da informática, o que favorece o acesso à informação, o livro constitui-se como único recurso didático e fonte de informação acessível a estudantes e professores em muitas das escolas brasileiras. 35 Nos últimos anos, a utilização do Livro Didático se intensificou ainda mais devido à expansão do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), mantido pelo Governo Federal, cujo propósito é garantir a distribuição de livros aos estudantes da rede pública ao longo de toda a Educação Básica. O livro deve se constituir como uma fonte de pesquisa da qual o professor não pode se tornar refém. Assim espera-se que ele seja instrumento de apoio, problematização, estruturação de conceitos, e de inspiração para que os alunos, e o próprio professor, investiguem os diversos fenômenos que integram o seu cotidiano. ... não precisa ser seguido de forma linear, unidade a unidade, capítulo a capítulo. Ele possibilita muitas idas e vindas, servindo como fonte de pesquisa sobre assuntos diversos, mas que estabelecem nexos durante as investigações dos alunos. Como os temas de pesquisa são emaranhados, com muitas conexões e relações, os conteúdos emergem naturalmente e, ao final do ano letivo, quase todos, ou todos os conteúdos tradicionalmente previstos, e muitos outros, terão sido explorados. (BRASIL, 2010) Apesar de desempenhar um papel diferente do propósito original, tornando-se referência para professores embasarem sua prática pedagógica e funcionando como uma espécie de guia, há autores como Delizoicov et al. (2009) que argumentam que a utilização do livro requer uma atitude crítica do professor em todos os níveis de escolaridade, principalmente nos anos finais do Ensino Fundamental. Essa atitude do professor ante o livro é muito importante. Isso porque, apesar dos estudos que visam denunciar as deficiências dos livros e apontar soluções para melhorar sua qualidade, segundo Megid Neto e Fracalanza (2003), seus resultados não são considerados pelas editoras, nem pelos autores das obras e nem pelos órgãos gestores das políticas públicas educacionais. Para esses autores, alguns equívocos são pontuais e podem ser corrigidos com certa facilidade. No entanto, o tratamento dado aos conteúdos no livro didático pode provocar efeitos que não condizem com as atuais concepções da ciência e do conhecimento científico. ... ainda não se alterou o tratamento dado ao conteúdo presente no livro que configura erroneamente o conhecimento científico como um produto acabado, elaborado por mentes privilegiadas, desprovidas de interesses..., ou seja, que apresenta o conhecimento sempre como verdade absoluta, desvinculado do contexto histórico e sociocultural. (NETO e FRAZALANZA, 2003, p. 151) Além disso, Amaral e Neto (1997) apud Megid Neto e Fracalanza (2003) destacam que o uso do presente do indicativo é constante para apresentar os conteúdos e que esse enfoque atemporal favorece a percepção do conhecimento como verdades, que estabelecidas, serão sempre verdades. 36 Conforme Soares (2010), o atual PNLD foi criado em 1985 e representa um avanço na política do livro didático, iniciada em 1929, com a criação do Instituto Nacional do Livro, órgão que legislava sobre o assunto. Nessa nova versão, todo o processo ocorre em sete etapas, trazendo consigo uma “mudança substancial”: a participação ativa do professor na escolha, a quem cabe analisar e indicar duas coleções, consideradas por ele mais apropriadas para sua realidade, dentre as previamente indicadas pelo Programa. Conforme Delizoicov et al (2009), a requerida atenção do professor para o uso crítico e consciente do livro é reforçada a partir das “tensões, injunções e interesses, também comerciais” existentes nesse universo. A fim de orientar a escolha do professor, é enviado às escolas um Guia do Livro Didático – GLD – por componente curricular contemplado coma distribuição: Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia e Ciências. O Guia contém uma resenha de cada coleção aprovada – conjunto de quatro livros de determinado componente curricular, destinados aos quatro anos de escolaridade (6° ao 9°). A escolha dos livros é feita a cada três anos. Na última edição do Guia enviado às escolas para a escolha da coleção para o triênio 2011-2013, havia 11 coleções de livros de Ciências aprovadas. Dentre elas, mais da metade mantém o que alguns avaliadores chamaram de “organização mais convencional”. Considerando o ensino de Física, de modo particular devido ao interesse desse estudo, em tal organização sua inserção formal (e da Química também) como matéria de ensino é prevista para último ano de escolaridade. Como os professores mantêm forte expectativa, ou crença, de que as coleções correspondem a uma expressão fiel das propostas e diretrizes curriculares e do conhecimento científico. Todavia, por julgar que isto é de difícil consecução, frente aos livros escolares que conhecem, atenuam suas pretensões, acreditando que ao menos essas coleções são versões adaptadas das propostas curriculares e do conhecimento científico (MEGID NETO E FRACALANZA, 2003, p.153), os programas propostos pelos livros acabam se confundindo com seus planos de curso. Dessa forma, Mecânica (Cinemática, Dinâmica e Estática), Acústica, Termologia, Óptica, Eletricidade e Magnetismo compõem o programa de ensino de Física para o 9° ano de escolaridade. De modo geral, observa-se o uso exagerado de fórmulas, levando o estudante a estabelecer uma forte relação entre a Física e a Matemática, o que pode potencializar o desinteresse dos estudantes, principalmente, dos que apresentam dificuldades com esse componente curricular. A postura do professor ante a essa “imposição” da proposta contida no livro, certamente, também se fundamenta a partir da própria experiência como estudante. Assim, o 37 professor tende a perpetuar na sua prática profissional o que vivenciou no seu tempo de escola. Certamente, sob a influência dos resultados das pesquisas sobre o ensino de ciências e da publicação dos PCN, têm surgido algumas coleções com propostas alternativas a essa tendência tradicional do ensino do 6° ao 9° ano. A fim de avaliar se a proposta da escola encontra-se em conformidade com a orientação oficial relativa à organização e distribuição dos conteúdos Ciências ao longo dos anos finais do Ensino Fundamental, buscamos conhecer a coleção de livro didático escolhida pelos seus professores. Desse modo, verificamos que a coleção de Ciências, escolhida para o triênio 2011/2013, apresenta uma proposta bastante semelhante à da coleção adotada para o período antecedente. Nela, os conteúdos previstos para o ensino de Física encontram-se no livro destinado ao último ano do Ensino Fundamental, como se pode ver no Sumário do Conteúdo Programático - para o 9° ano de escolaridade (Anexo A). Assim, percebe-se que se mantém a proposta convencional de organização dos conteúdos para os anos de escolaridade, na qual a sistematização dos temas de ensino relativos à Física (e à Química também) como ciência, matéria de ensino mais específica, acontece no 9° ano. Buscando conhecer a tendência do ensino de Ciências em Duque de Caxias, município onde se localiza a escola onde foi feita essa pesquisa, fizemos uma consulta ao Ministério da Educação3. Em nossa interpretação, usamos como critério o caráter mais ou menos tradicional da coleção de livros didáticos adotada pelas escolas, com base nas informações contidas no GLD de 2010 para a escolha referente ao triênio 2011/2013. Essa consulta revelou que há uma tendência pouco inovadora de Ensino de Ciências em Duque de Caxias, pelo menos no que se refere à organização e distribuição dos conteúdos de ensino de acordo com o ano de escolaridade. Ou seja, observa-se certa preferência pelas coleções tradicionais de autores já “consagrados”. De um total de 268 escolas públicas, estaduais e municipais, 226 (84%) adotaram coleções com “organização mais convencional”. Dentre as municipais, em 85 escolas (81%) das 105 escolas confirma-se essa tendência. Essa tendência observada entre os professores ao escolherem coleções didáticas com essa organização, certamente, sofre influência de diversos fatores, alheios aos interesses desse trabalho. Seria extremamente precipitado fazer aqui, a partir dessas informações, qualquer afirmativa para justificar tal tendência. 3 Numa análise ingênua, corre-se o risco de Planilha obtida através de e-mail após contato com o sítio: http//www.fnde.gov.br 38 responsabilizar o professor pela falta de mudança. Se por um lado, não se pode desconsiderar que as necessárias mudanças na Educação passam pelo professor e requerem predisposição para tal, por outro, é importante considerar que sua viabilização depende de condições mínimas para que ela ocorra. O relato da experiência de uma professora, apesar de ser numa escola particular, ilustra de modo interessante o quanto a escolha da coleção a ser adotada é complexa. Segundo a mesma, a equipe de professores da escola em que trabalha optou por uma coleção de livros com uma proposta alternativa e inovadora em relação à organização e distribuição dos conteúdos por ano de escolaridade, adequada, inclusive, às orientações dos PCN. No livro destinado ao 9° ano, por exemplo, os temas relativos ao estudo da Mecânica não são tão aprofundados quanto nas coleções mais tradicionais. Contrariando a proposta dos professores, a equipe diretiva da escola solicitou que se “complementasse” o estudo de Mecânica porque “ele estava muito superficial”. Isso mostra o quanto o senso comum ainda qualifica como bom o ensino enciclopédico. Tal orientação, certamente, se fundamentou na concepção da qualidade do ensino vinculada à quantidade de conteúdos abordados, que pode ter contribuído pra que estudantes de certa época obtivessem resultados favoráveis, mas que não atende mais às demandas atuais. Mas, se de fato, deseja-se que a escola baseie-se na partilha construtiva de ideias, na qual aprender tem uma dimensão lúdica e o conhecimento é desejado em vez de imposto. Se as crianças e adolescentes são as que mais perguntam, as que mais respondem, as que mais ouvem, por que excluí-las da atividade científica, que é desafiante, estimulante e fundamental para a construção de conhecimento? Qual é a dificuldade em educá-las para utilizar os procedimentos científicos de investigação e criação? Que tal incentivar a experimentação? Que tal reinventar as salas de aulas como palcos de preciosas, necessárias e úteis reconstruções da realidade? (BRASIL, 2011) Um programa abrangente a cumprir num curto período de tempo, certamente, restringe a possibilidade de se estabelecer a relação dialógica com o conhecimento, através da qual se pode problematizar os temas de ensino de modo a torná-lo interessante ao estudante. Outro aspecto que merece destaque é escassez ou ausência de experimentação no desenvolvimento do capítulo, descaracterizando também a história da produção do conhecimento científico. De modo bastante frequente, quando são propostas atividades práticas, elas se encontram no final dos capítulos. Conforme BRASIL (1998), o ensino exclusivamente “livresco”, desvinculado da interação direta com os fenômenos naturais, deixa uma lacuna na formação dos estudantes. A abordagem enciclopédica e fragmentada do conhecimento científico o desassocia do caráter dinâmico, articulado e histórico da ciência. 39 Na busca por caminhos que possam promover um ensino de melhor qualidade, propostas inovadoras têm apontado a abordagem inter-relacionada dos conteúdos das disciplinas científicas através de temas interdisciplinares. Desse modo, a Secretaria Municipal de Educação (SME), acompanhando orientações contidas PCN, publicou as orientações oficiais para o ensino em Duque de Caxias. Observa-se certa semelhança entre as orientações dos PCN e a Proposta Pedagógica (SME, 2002) para o Ensino de Ciências nas escolas da rede pública municipal de Duque de Caxias. Nessa, a sugestão é de organização baseada em quatro Núcleos Temáticos: A Vida na Terra; Qualidade de Vida; Recursos e Tecnologias e Do Universo à Terra. Nenhum dos documentos estabelece formalmente os conteúdos a serem abordados em cada ano de escolaridade, mesmo porque considera ser tarefa da equipe escolar a seleção dos conteúdos. Sendo assim, se essa etapa não se concretiza na ocasião do Planejamento, o livro didático continua funcionando como um guia do que e como deve ser ensinado. 40 3 METODOLOGIA DA PESQUISA Preliminarmente, ressaltamos que essa pesquisa visou a investigar, sob a perspectiva de professores de Ciências de uma escola pública de Ensino Fundamental, a adequação da formação inicial adquirida nos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas e a influência das propostas de conteúdos dos Livros Didáticos sobre o ensino de Física no nível Fundamental de ensino. De acordo com profissionais da equipe técnico-administrativa da referida escola, embora não existam estatísticas oficiais, o índice de reprovação dos estudantes é elevado nesse componente curricular, notando-se grande dificuldade de aprendizagem de Física e Química no 9° ano. Essa escola pertence à rede pública municipal de ensino de Duque de Caxias e está localizada no 1° Distrito deste Município da Baixada Fluminense. Atende a estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental, do 6° ao 9° ano. Sendo que, no noturno oferece ensino na modalidade Educação de Jovens e Adultos - EJA. As condições estruturais da escola são precárias. É uma escola relativamente pequena, ocupa uma área de aproximadamente 2000 m2. Nela há sete salas de aula, uma quadra de esportes, um refeitório, uma cozinha, uma Sala de Leitura (de aproximadamente 15m2), uma Sala de Informática (de aproximadamente 31m2). Essas duas últimas salas são espaços que não acomodam uma turma inteira (cada turma tem 35 alunos, em média). As demais dependências são Secretaria, Sala da Direção, Sala da Equipe Técnico-Pedagógica, Sala de Professores, dois Banheiros para estudantes, dois para professores, um Almoxarifado e uma cantina e um pequeno pátio. Nela não há laboratório nem qualquer outro espaço apropriado para o desenvolvimento de atividades com os estudantes, além das salas de aula. Abaixo estarão descritos o tipo de pesquisa, o perfil dos sujeitos da pesquisa, os instrumentos adotados para a coleta de dados, as etapas da investigação e o procedimento de análise de dados. Buscando averiguar a adequação da formação inicial nos Cursos de Licenciatura em Ciências sob a concepção dos professores de Ciências, essa pesquisa assumiu uma abordagem de cunho qualitativo. Embora o tempo disponível ao seu desenvolvimento não tenha permitido um maior aprofundamento das questões, esse estudo assumiu características de um estudo de caso avaliativo. 41 No estudo de caso avaliativo um único caso ou um conjunto de casos é estudado em profundidade com o propósito de fornecer aos atores educacionais ou aos que tomam decisão (administradores, professores, pais, alunos, etc.) informações que os auxiliem a julgar o mérito ou o valor de políticas, programas ou instituições. (ANDRÉ, 2008, p. 21) Os sujeitos participantes da pesquisa foram os quatro professores de Ciências lotados na Escola e que atuam como professores de Ciências do 6° ao 9° ano no 1° e no 2° turnos. O professor que trabalha exclusivamente no noturno não foi convidado a participar porque nesse turno a instituição oferece ensino Fundamental na modalidade EJA. Como instrumento para coleta de dados utilizou-se um questionário semi-estruturado (Apêndice A), com perguntas abertas e fechadas e também documentos disponibilizados pela equipe diretiva da referida instituição escolar. Em relação ao questionário, consideraram-se três partes. A primeira parte continha algumas questões destinadas a levantar os dados relacionados à formação acadêmica do professor. A segunda parte relacionou-se à obter informações sobre a experiência profissional como professores de Ciências no 9° ano do Ensino Fundamental. A última etapa do questionário (item seis) constitui-se de uma lista de conteúdos, que se construiu a partir da consulta das propostas de conteúdos de Física das coleções aprovadas pelo Programa Nacional do Livro Didático, presentes no Guia do Livro Didático que subsidia a escolha dos livros por parte dos professores. O convite aos docentes para participarem da pesquisa foi precedida de uma conversa a fim de explicar os seus objetivos. Após o aceite de cada um, o questionário foi entregue e foi agendada uma data para o seu recolhimento. Essa foi uma solicitação dos próprios participantes, que alegaram a pouca disponibilidade de tempo para responderem-no de imediato. Objetivando ainda a coleta de dados, utilizamos documentos fornecidos pela equipe diretiva da escola: os Planos de Curso e os Diários de Classe de Ciências referentes às turmas de 9° ano, de 2010 e 2011. A consulta de tais documentos possibilitou uma análise da exequibilidade da proposta contida no planejamento do curso, sempre com foco na quantidade de conteúdos propostos e o tempo destinado para o seu desenvolvimento. 42 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO A seguir serão apresentados e analisados os dados obtidos a partir da aplicação dos questionários aos professores de Ciências da escola-alvo desse estudo. Ao longo da discussão também serão acrescentadas informações coletadas a partir da consulta ao Planejamento Anual de Ciências e Diários de Classe das turmas de 9° ano de escolaridade, nos anos 2009, 2010 e 2011, documentos disponibilizados pela equipe diretiva da escola. O questionário foi respondido por quatro professores de Ciências lotados na escola considerada nesse estudo. Todos em exercício de função docente, atuando no Ensino Regular nos turnos da manhã e da tarde. A parte introdutória do questionário visava à caracterização dos sujeitos da pesquisa, que considerou aspectos relativos à formação acadêmica em nível de Graduação e PósGraduação dos professores e também em relação ao tempo de exercício no Magistério. Os dados obtidos a partir das respostas dos professores ao questionário estão expostos na Tabela 4.1. Nela, os sujeitos são identificados como Professor A, Professor B, Professor C e Professor D. Os quatro são graduados em Cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas. Três declararam ter concluído Cursos de Pós-Graduação (dois em nível Stricto Sensu e um em Lato Sensu) e mais de 20 anos de experiência no Magistério. O outro professor, apesar de ter iniciado dois cursos de Pós-Graduação Stricto Sensu, declarou não ter concluído nenhum deles e atua há 11 anos no Magistério. Tabela 4.1 Caracterização dos Sujeitos da Pesquisa. Docente Idade (anos) Tempo de magistério (anos) A 41 11 B 46 22 C 39 23 D 47 23 Pós-graduação Graduação Licenciatura em CB* Bacharelado e Licenciatura em CB* Bacharelado e Licenciatura em CB* Bacharelado e Licenciatura em CB* Conclusão Especialização Stricto Sensu 1996 - - 1989 - Microbiologia 1991 - Clínica Médica (Reprodução Animal) 1986 Microbiologia - *Ciências Biológicas 43 Como se observa, os docentes dessa escola concluíram a Graduação há mais de 15 anos. Três declararam ter longa experiência profissional no Magistério, onde atuam há mais de 20 anos. Todos têm Licenciatura Plena em Ciências Biológicas, habilitação requerida para atuar como professor de Ciências no Ensino Fundamental, conforme a legislação em vigor. Os professores B, C e D concluíram estudos em nível de Pós-graduação (Especialização ou Mestrado) em áreas ligadas à Biologia (Microbiologia e Veterinária). O professor A declarou ter iniciado dois cursos de Mestrado, um em Ecologia e outro em Ensino de Ciências, mas que não concluiu nenhum. A partir dos títulos dos cursos procurados por esses professores de Ciências, pode-se perceber o predominante interesse por temas ligados à Biologia. Isso, de certa forma, relaciona-se ao fato de que professores de Ciências no Ensino Fundamental e professores de Biologia que trabalham no Ensino Médio são oriundos de cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas. Assim, é natural esse interesse pelos temas biológicos. Até mesmo porque, em algumas instituições, além da habilitação para o Magistério, devido às próprias características do curso, o formando tem também o título de Bacharel em Biologia, podendo atuar como biólogo, como é o caso de três dos quatro professores estudados. Diante do contexto apresentado, buscamos conhecer se a formação inicial do professor-biólogo garantiu-lhe preparo adequada para dar aula de Física no nível Fundamental do ensino, sob a percepção desses próprios professores. Desse modo, foi-lhes apresentada a seguinte questão: “Considerando a sua formação acadêmica, em nível de graduação, você avalia que ela tenha lhe possibilitado, inicialmente, exercer a função de professor de ciências/Física para os estudantes do 9° ano do Ensino Fundamental:” e duas possibilidades de resposta: satisfatoriamente ou teve dificuldades. Os quatro professores sujeitos dessa pesquisa consideraram satisfatória a formação acadêmica inicial para trabalharem com turmas de 9° ano, ou seja, para darem aula de Química e Física em nível de Ensino Fundamental. Isso contraria o que se observa na literatura sobre o assunto, que cita a formação inicial do professor como um dos problemas do ensino de Ciências. No que diz respeito às Licenciaturas em Ciências Biológicas, estejam elas vinculadas ou não aos Bacharelados, incluindo aqui também os cursos bem conceituados, estão longe de formar adequadamente o professor de Ciências para o Ensino Fundamental, em vista de seus currículos altamente biologizados (CUNHA e KRASILCHIK, 2000). 44 Esse fato pode ser interpretado de, pelo menos, duas maneiras. A primeira é que, embora a orientação da questão tenha sido para a formação inicial, conforme mostram os destaques em negrito, esses professores responderam com base no presente e se sentem preparados em função da experiência profissional, pois atuam há bastante tempo no magistério, conforme se nota na Tabela 4.1. Outra possibilidade, embora pouco provável, é que a ênfase dos cursos de Licenciatura oferecidos pelas instituições onde esses professores estudaram tenha sido para as Ciências Naturais e, assim, as dimensões da Física e da Química foram mais amplamente contempladas nos currículos. O segundo bloco do questionário buscou levantar algumas características do ensino de Ciências oferecido na referida escola, enfocando a experiência profissional dos professores abordando de modo mais específico fatores relativos ao ensino de Ciências no 9° ano de escolaridade. Nesse ano do nível Fundamental do ensino, de modo geral, abordam-se conhecimentos químicos e físicos. A primeira questão apresentada relacionava-se com o planejamento dos conteúdos das duas ciências ao longo do ano letivo: “O ensino de ciências no nível Fundamental abrange conhecimentos de diversas áreas do conhecimento. Tradicionalmente, os conhecimentos da Física e da Química são abordados no último ano do Ensino Fundamental. Com relação a sua atividade profissional, a opção que melhor relaciona-se com a sua prática é:” Essa questão era fechada e foi solicitado que o professor assinalasse uma das opções apresentadas: 1) destinar o primeiro semestre letivo para Química e o segundo para Física; 2) destinar o primeiro semestre letivo para Física e o segundo para Química; 3) abordar paralelamente os conteúdos das duas ciências ao longo do ano, alternandoos durante o ano e 4) Outra(s). Qual(is)? A partir dos dados obtidos, pode-se afirmar que nessa escola o ensino de Física é proposto para o segundo semestre letivo, pois três dos quatro professores de Ciências assinalaram a primeira opção. Embora um professor tenha declarado abordar os conteúdos químicos e físicos alternadamente, uma consulta ao lançamento de conteúdos no Diário de Classe mostrou que isso ocorreu em apenas um ano letivo. Consultando o Planejamento do Curso e os Diários de Classe das turmas de 9° ano, observou-se que alternou os conteúdos em 2010, mas no ano seguinte abordou primeiramente a Química, destinando o segundo semestre para a Física. Naquele ano, os conteúdos abordados relacionaram-se à Mecânica. Os demais temas foram abordados na forma de trabalho, conforme registro no Diário de Classe. Não há 45 informações complementares sobre o modo como se desenvolveu esse tipo de atividade proposta. Conforme verificado no Diário de Classe, parece que ocorreram apresentações dos trabalhos em três dias de aula ao longo do 3° e do 4° bimestres. A fim de aprofundar nossa análise, consultando o Planejamento do Curso e os Diários de Classe das turmas de 9° ano de 2009 a 2011, percebeu-se que o ensino de Física foi previsto para o segundo semestre em todos esses anos. No entanto, a análise dos lançamentos dos conteúdos das aulas nos Diários de Classe mostrou que o tempo destinado para o ensino de Física, inicialmente de um semestre, foi reduzido, tendo se limitado a um bimestre em determinado ano letivo. Ao serem questionados sobre o cumprimento do Planejamento relativo aos conteúdos de Física, os professores declararam unanimemente que não conseguem cumpri-lo. Isso pode estar relacionado a fatores como a quantidade de conteúdos propostos e/ou carga horária destinada às aulas de Ciências. Há estudos que revelam que a seleção dos conteúdos do ensino de Ciências sofre influência das propostas contidas nos Livros Didáticos na medida em que os professores neles se baseiam para escolherem os conteúdos e a sequência em que serão trabalhados durante suas aulas. Diante disso, buscamos verificar a percepção dos docentes sujeitos dessa pesquisa acerca dessa influência. Para tanto lhes foi apresentada a seguinte questão: “Segundo, alguns pesquisadores, o livro didático de Ciências serve como principal suporte pedagógico para os professores na 8ª série (atual 9° ano), e que nele se baseiam para escolherem os conteúdos e a sequência em que serão trabalhados durante suas aulas. Você se utiliza do livro didático para esse fim? Há outro(s) instrumento(s) em que se baseia para fazer tal escolha? Qual(is)?” Dentre os participantes, o professor A declarou basear-se no livro, mas não de modo exclusivo, citando artigos e livros científicos, documentários e outros instrumentos para fundamentar sua escolha. Os professores B e C declararam não utilizar o livro para esse fim. Ao responderem em que se baseiam para tal, o professor B declara que utiliza “os conteúdos mínimos necessários para a formação geral do aluno de modo a contemplar os conteúdos de física e química (a meta nem sempre é atingida)”. Já o professor C declarou basear-se na experiência profissional, conforme se nota na transcrição da sua resposta: “Na minha experiência anterior com turmas de 9° ano”. Só o professor D assinala que faz uso do livro didático para escolher os conteúdos e o faz de modo exclusivo. Esse é o mesmo professor que declarou que sua aptidão é para dar aula de Biologia, não se considerando apto para dar aulas de Física e Química, quando questionado sobre as dificuldades enfrentadas na prática docente. 46 A resposta do professor D confirma o que a literatura sobre o assunto revela. Na medida em que o preparo do professor nos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas se mostra inadequado para o desempenho da atividade profissional como docente de Física no 9° ano, a tendência é seguir a orientação da proposta contida no livro didático. Embora os demais professores tenham declarado que não usam o livro didático ou não o fazem de modo exclusivo, até os Planejamentos Anuais de Curso revelam congruência entre as propostas desses professores e a proposta do livro didático. Para conhecer a concepção dos professores em relação à proposta de conteúdos contida nos livros didáticos de modo geral, foi elaborado um item com destaque de quatro aspectos considerados na análise: quantidade de Conteúdos; a relevância dos mesmos; a carga horária de três horas-aula semanais para cumprir o proposto e o preparo dos estudantes para apreensão dos conteúdos propostos. Os resultados estão expostos na Tabela 4.2. Tabela 4.2 Avaliação das propostas de conteúdos dos livros didáticos. Carga-horária semanal Professor Quantidade de conteúdos Professor Preparo dos estudantes Professor Relevância dos conteúdos* Professor Exagerada Adequada Insuficiente – – A–B–C–D Exagerada Adequada Insuficiente B A–C–D – Bom Regular Ruim – B A–C–D Boa Regular Ruim D A–C – *O professor B não assinalou nenhuma opção. Como se pode observar na Tabela 4.2, todos os professores avaliaram como insuficiente a carga-horária de três horas-aula semanais para cumprir o proposto pelo livro. Assim, seria razoável esperar que considerassem a quantidade de conteúdos exagerada. Mas só o professor B a considerou exagerada. Esse é o mesmo professor que declarou basear a escolha dos conteúdos de Física no que considera “os conteúdos mínimos necessários para a formação geral do aluno de modo a contemplar os conteúdos de física e química (a meta nem sempre é atingida)”. Os professores A, C e D consideraram a quantidade adequada. Com base nas respostas dos professores (Tabela 4.2), pode-se perceber que o tempo se revela como um fator que dificulta o desenvolvimento da proposta de conteúdos apresentadas pelos livros didáticos de Ciências para o 9° ano de escolaridade. No entanto, ao avaliarem como adequada a quantidade de conteúdos, exceto o professor B, que a avalia como 47 exagerada, esses professores talvez considerem mais a necessidade de ampliação da carga horária das aulas de Ciências do que uma reavaliação da quantidade de conteúdos de Física propostos para esse ano de escolaridade. Desse modo, se a inadequação relaciona-se à carga horária, é possível que sua ampliação talvez permitisse o cumprimento da proposta do livro didático. Isso talvez esteja implícito nas respostas dos professores A, C e D. Considerando a percepção do professor B, talvez outras mudanças sejam requeridas, pois mesmo trabalhando com os conteúdos mínimos necessários, considerados assim por ele para a formação geral do estudante, declara que nem sempre atinge a meta. Em outras palavras, não consegue cumprir o proposto mesmo tendo reduzido a quantidade de conteúdos para ajustá-la ao tempo na tentativa de equilibrar a abordagem dos conteúdos químicos e físicos, como ele mesmo declara. Outro aspecto que nos chama a atenção é a percepção dos professores em relação ao preparo dos estudantes para a apreensão dos conteúdos propostos. Como se pode observar na Tabela 4.2, três professores a avaliam como regular e um como ruim a prontidão dos estudantes. A análise das respostas desses docentes, transcritas abaixo, quando lhes foi pedido que citassem as maiores dificuldades enfrentadas em relação ao ensino de Física, mostra que o preparo insuficiente a que se referem está, de certo modo, relacionado com as dificuldades dos estudantes com a Matemática, dentre outros. Falta de preparo MATEMÁTICO dos alunos; Falta de ambientes adequados para a realização de experimentos; mentalidade mítica-mágica de alunos e coordenadores; falta de equipamentos; falta de tempo; falta de locais para armazenar equipamentos. (Professor A) A maior dificuldade é a grande deficiência apresentada pelos alunos na disciplina matemática e o desinteresse de alguns no que se relaciona a fórmulas e postulados e leis da física. (Professor B) A dificuldade que os alunos possuem em matemática. Poucas aulas com um programa muito grande. A pouca capacidade de abstração e pensamento lógico pela maioria dos alunos. (Professor C) Falta de preparo dos alunos. Não me considero apta a ministrar física e química. Minha maior aptidão é para ciências biológicas. Esta é uma característica particularmente minha. (Professor D) Isso, de certa forma, parece sinalizar que a abordagem dos conteúdos de Física na referida escola encontra-se associada à matemática. Por um lado, ratifica o modelo de ensino caricatural da Física associado ao uso de fórmulas, conforme destaca o PCN (1998). Ao mesmo tempo, sinaliza a necessária busca por alternativas que favoreçam uma prática pedagógica inovadora que promova um ensino interessante sob a percepção dos estudantes, ainda que isso seja desafiador sob a perspectiva do professor. Isso porque não se encontram 48 facilmente disponíveis materiais didáticos que possam auxiliá-lo nessa empreitada. Além, é claro, das condições de trabalho que não favorecem transformações. Com base na declaração dos docentes, nota-se que o despreparo dos estudantes relativo à falta de domínio dos conceitos matemáticos é apontado como uma dificuldade para o ensino de Física. Assim, pode ser que a desvinculação entre a Matemática e o ensino de Física seja um ponto a considerar a fim de melhorar o ensino desse componente curricular no Ensino Fundamental nessa escola. Em relação à relevância dos conteúdos dos programas contidos nos livros didáticos, os professores, exceto o B, que não respondeu à questão, não a consideram ruim. Talvez essa não seja uma grande preocupação do professor devido à liberdade de que o dispõe de simplesmente não abordar ou não enfatizar conteúdos que não considere prioritários durante as aulas. Dentro do contexto apresentado, surge a necessidade de mudanças. Preliminarmente, é preciso considerar que não compete à Unidade Escolar alterar a matriz curricular, ampliando carga horária de Ciências, em algum momento. Mas o tempo aparece como uma dificuldade enfrentada durante a prática pedagógica, tornando-se evidente na expressão do professor C, que destaca: “Poucas aulas com um programa muito grande”. Isso aponta para a necessidade de reestruturação do ensino de Ciências ministrado nas escolas. A título de sugestão, destacamos que se pense na elaboração de um programa de conteúdos mais conciso e integrador das ciências, adequado às atuais necessidades de formação dos estudantes, de modo que esteja adequado ao período de tempo, um semestre letivo, para abordá-lo. A última parte do questionário teve como objetivo conhecer o que os professores consideravam importantes para os estudantes no nível Fundamental do ensino. Ela foi elaborada a partir das propostas de conteúdos de Física dos livros didáticos de Ciências aprovados pelo Programa Nacional do Livro Didático, versão 2011. Os conteúdos foram organizados em tópicos denominados: Conceitos introdutórios; Propriedades da Matéria; Noções de Astronomia; Descrição dos movimentos; Noções de força; Trabalho e energia; Máquinas simples; Física térmica; Ondas; Óptica; Eletricidade e Magnetismo. A orientação aos professores foi a seguinte: “Assinale, na lista a seguir, os conteúdos que considera prioritários para se trabalhar no Ensino Fundamental.” Os dados obtidos foram explicitados no gráfico 4.1. Nele, os conteúdos estão agrupados em sete categorias a fim de 49 facilitar a análise: Conceitos introdutórios; Astronomia, Mecânica, Ondulatória, Física Térmica, Óptica e, finalmente, Eletricidade e Magnetismo. Os conteúdos não assinalados por nenhum dos professores que responderam o questionário foram excluídos da análise. Foram eles: noções de Métodos das Ciências Físicas; do domínio do fogo à revolução industrial; sons e instrumentos musicais; eco; processos de eletrização e motores elétricos. Os dados revelaram que, de modo geral, os conteúdos dos diversos ramos da Física (Mecânica, Ondulatória, etc.) são considerados importantes, pois nenhum foi desconsiderado totalmente pelos professores. Numa análise global do gráfico, no entanto, percebe-se que há temas que devem ser mais explorados que outros. Observando o gráfico, observa-se que os conteúdos relacionados à Mecânica parecem ter grande relevância no Ensino Fundamental sob a perspectiva desses professores. É possível que, justamente em função do grande destaque que ela tem na concepção desses professores, a introdução ao ensino da Física no 9° ano, geralmente, seja pelo estudo dos movimentos. É possível, ainda, que essa concepção tenha sofrido influência da estrutura do currículo que prevalecia antes da Reestruturação Curricular proposta para o nível Médio oferecido pela rede estadual. Naquela, Mecânica era o tradicional tema previsto para o ensino de Física no 1°ano. Então, seria razoável preparar o estudante para dar continuidade aos estudos. Além disso, era um tema cobrado nos concursos de seleção para algumas escolas de ensino secundário, como eram chamadas as que ofereciam o antigo 2° grau. 50 Gráfico 4.1 Tópicos de Física considerados prioritários para o Ensino Fundamental pelos professores de Ciências. É interessante notar que, de modo geral, a predominância da Mecânica se evidencia nas propostas dos livros didáticos consultados, de onde foram retirados os tópicos para a elaboração da lista apresentada no questionário. Analisando o gráfico 4.1, nota-se que 51 71tópicos foram assinalados por pelo menos um professor. Destes, 21 tópicos correspondem a conteúdos de Mecânica, o que equivale a aproximadamente um terço do programa. De modo geral, conforme destacado anteriormente, nota-se também que prevalece no ensino dessa ciência uma abordagem caricatural dos conteúdos baseada em fórmulas e na sua utilização para a resolução de problemas. Ao estudar os movimentos, por exemplo, o estudante depara-se com cálculo da variação da posição ou deslocamento de um corpo, velocidade média, variação da velocidade, aceleração média, etc. Ainda que alguns cálculos sejam bastante simples, as dificuldades dos estudantes em Matemática comprometem a apreensão do conhecimento. Desse modo, conforme destacaram os professores, a falta de raciocínio dos estudantes e a incapacidade de realização de cálculos, ou seja, o despreparo dos estudantes em Matemática acaba se constituindo para eles como uma dificuldade para o desenvolvimento do trabalho no 9° ano. Ao que tudo indica, esse tipo de abordagem dos conteúdos não é a mais apropriada, uma vez que compromete o desempenho dos estudantes em relação à aprendizagem da Física. Principalmente, se isso ocorre logo no primeiro contato mais formal dos estudantes com essa ciência, é possível que um estudante, sobretudo o que tem dificuldade de aprendizagem de matemática, passe a considerá-la difícil, desinteressando-se pelo seu estudo. Outra característica do ensino de Ciências na escola considerada nesse estudo, assim como na maioria delas, é que o período previsto para as aulas de Física é de dois bimestres e isso não tem possibilitado o cumprimento do Planejamento proposto no início do ano. Comparando o Plano de Curso com os lançamentos dos conteúdos abordados nos Diários de Classe das turmas de 9° ano, foi possível verificar que foi exatamente o que ocorreu nos anos 2009, 2010 e 2011. Foram trabalhados alguns conceitos introdutórios (matéria e energia, massa, volume, propriedades da matéria), Medições e unidades de medida, Sistema Internacional de Unidades – SI e mudanças de estado físico. Além desses, foram encontrados lançamentos de conteúdos relativos à Mecânica, como Movimento e referencial; Movimento retilíneo uniforme e variado; cálculo de velocidade média; unidades-padrão e conversão de unidades. Num dos anos, também foi lançado conteúdo sobre estudo de forças e sistema de forças. É interessante notar que nos Planos de Curso dos três anos considerados se previa a abordagem dos outros temas clássicos das propostas para o ensino de Física: Termologia, Óptica, etc. No entanto, o lançamento dos conteúdos nos Diários parece indicar que esses temas, quando foram abordados, o foram sob a forma da realização de trabalhos individuais 52 ou em grupo. Nesse contexto, parece que o ensino dessa ciência fica, praticamente, exclusivo aos conteúdos de Mecânica nessa escola. Mesmo considerando o caráter flexível de um planejamento, chama a atenção o fato de ano após ano, prevalecer uma proposta com semelhante abrangência, mesmo conhecidas as dificuldades de cumpri-la e não observadas mudanças. Analisando a relação dos 71 conteúdos assinalados pelos professores, pode-se verificar que 12 desses foram classificados como prioritários pelos quatro professores. Dos 12 conteúdos assinalados, seis encontram-se dentro do estudo de Mecânica. Ao considerarmos os conteúdos assinalados como prioritários por três ou quatro professores, 40 relacionam-se com esse tema. Finalizando, a partir da análise das respostas, percebe-se que os professores de Ciências que trabalham nessa escola consideram importante a abrangência dos programas de conteúdos de Física para o Ensino Fundamental. Em média, cada professor considera 46 conteúdos como prioritários. Em caso de se elaborar um programa com esses conteúdos, isso representaria, em termos práticos, a abordagem de um conteúdo diferente por aula dada. Considerando que em um semestre há, aproximadamente, 48 aulas previstas, sobrariam duas aulas. Considerando as diversas dificuldades dos estudantes que foram citadas pelos professores, das reuniões e feriados que ocorrem durante os semestres e que acarretam a suspensão de aulas, tal proposta seria inviável. Isso sugere a necessidade de um repensar e de uma prévia discussão por parte da equipe escolar a fim de se formular uma proposta adequada às características locais, como, por exemplo, a carga horária destinada às aulas de Ciências e às necessidades dos estudantes nesse nível de escolaridade, dentre outras. 53 5 PRODUTO EDUCACIONAL A elaboração de um Produto Educacional aplicável faz parte das exigências do Mestrado Profissional. Sendo assim, nossa proposta consistiu em elaborar um kit com material que possibilita ao professor uma abordagem diferenciada do tema de estudo das propostas contidas nos livros didáticos. Embora transdisciplinaridade/interdisciplinaridade não se constitua eixo desse trabalho, a possibilidade de encontro da Biologia com a Física norteou o desenvolvimento do Produto desde o seu planejamento. Além disso, suas características visaram sua adequação a aspectos relacionados à escola considerada nesse estudo. Vale ressaltar que, no atendimento às necessidades de mudança, consideramos o quanto é importante o envolvimento direto dos estudantes na realização de experimentos, levando-os a terem uma participação ativa no processo de ensinoaprendizagem. Porém, avaliando que as condições estruturais e materiais da escola onde atuam como docentes os sujeitos participantes da pesquisa e considerando o quanto elas dificultam a realização de atividades experimentais, optamos pela construção de um material que auxiliasse no exercício do seu trabalho, possibilitando, no mínimo, a demonstração experimental de alguns conceitos trabalhados. O físico brasileiro Marcelo Gleiser, conhecido por popularizar conceitos científicos, declarou numa entrevista à Revista Nova Escola: ''A ciência se torna fascinante quando você não fica só na teoria'' e que demonstrações em sala contribuem para “um pulo gigantesco” do ensino de Ciências. De modo geral, infelizmente, a ciência é ensinada no quadro-negro. O professor fala de Biologia e dos princípios da Física e da Química fazendo desenhos no quadro. Raramente são realizadas experiências simples em sala de aula para ilustrar os conceitos. Um exemplo óbvio é falar que [o cientista italiano] Galileu Galilei [15641642] descobriu que o período de um pêndulo não depende da massa do objeto que está sendo balançado. Isso é superfácil de mostrar e não necessita de equipamento ou dinheiro. Basta amarrar pedras de tamanhos diferentes em duas cordas e balançálas. O período das oscilações vai ser o mesmo. Se o professor for bem preparado e souber fazer demonstrações em classe, o ensino de Ciências vai dar um pulo gigantesco. (GLEISER, 2005) Como já destacado anteriormente, o planejamento e a elaboração do material para compor o Produto Educacional teve como eixo a busca da integração da Física com a Biologia. Essa busca se justificou por ser essa a área de formação do professor de Ciências do nível Fundamental. Desse modo, foram escolhidos como temas o estudo da Óptica (conteúdo previsto para o 9° ano) e o estudo da Visão (conteúdo proposto para o 8° ano dentro do estudo do Sistema Sensorial/Corpo Humano). Assim, o desenvolvimento desse Produto Educacional 54 representou uma experiência relevante na medida em que viabilizou a abordagem do conhecimento científico de modo a integrar as duas ciências. Em nossa avaliação, além de aproximar “as ciências”, relacionar o estudo de Óptica com o funcionamento de parte do próprio corpo pode aproximar o conhecimento científico do dia-a-dia do estudante, e também promover uma abordagem menos fragmentada de temas propostos para o ensino de Ciências. De acordo com alguns estudiosos, isso pode contribuir para despertar o seu interesse para o estudo da Física. Essa experiência nos remeteu à viabilidade de abordagem de outros temas de modo semelhante, como por exemplo, Acústica e Audição; Mecânica e Locomoção; Termologia e Homeotermia/Pecilotermia nos animais. Nossa proposta representa uma possibilidade alternativa ao uso do livro didático para o ensino de Óptica no nível Fundamental. Como vimos no capítulo 2, o livro didático acabou servindo pra nortear o trabalho docente, contribuindo para que a proposta do professor se confunda com a nele contida, inclusive no que se refere à metodologia de abordagem. A notória escassez de recursos nas escolas, associada a outros fatores certamente, contribuiu para que o livro didático passasse a fundamentar a prática do professor, desviando-se da sua função original que era de auxiliar o processo de ensino-aprendizagem. De modo geral, nos livros didáticos, as atividades experimentais são propostas no fim do estudo. A fim de buscar romper com esse modelo comum nos livros, buscamos uma metodologia alternativa. Assim, propusemos a introdução das atividades práticas durante o desenvolvimento do estudo. Buscamos também inserir questões ao longo da abordagem a fim de levar o aluno a pensar sobre questões do dia-a-dia que envolvem os conceitos estudados. Com isso, pretendemos despertar o interesse do estudante para os temas de estudo, no caso, Óptica e Visão. Acreditamos que o uso de questões durante o desenvolvimento facilita compreensão do caráter investigativo e cumulativo da ciência e da própria construção do conhecimento. Optamos por uma abordagem prioritariamente qualitativa na apresentação do tema a fim de desvincular o ensino da Física da memorização e aplicação de fórmulas. O Produto Educacional ao qual nos referimos constitui-se como um kit de apoio ao professor, composto por uma mídia digital no formato de DVD, que contém nossa proposta cujo tema é: Como Vemos as Coisas? Uma proposta para o ensino de Óptica e Visão no Ensino Fundamental e o material experimental necessário para a realização das atividades práticas propostas a fim de demonstrar os conceitos trabalhados. Em se tratando do tema Óptica, a opção por disponibilizar os materiais para o professor em vez de propor a construção dos mesmos teve particular importância. Além da 55 falta de condições para a realização de aulas práticas, consideramos que alguns materiais, como as lentes, não são facilmente encontradas em lojas comerciais, além de não serem de baixo custo. No DVD dirigido a professores interessados em abordar o tema Óptica e Visão no Ensino Fundamental, o trabalho foi salvo em duas versões: como Apresentação do Power Point e como Apresentação de Slides do Power Point. O primeiro modo é editável e tem como finalidade permitir que o professor possa efetuar modificações que julgar adequadas às suas necessidades e/ou pretensões e à de seu público-alvo. Figura 5.1 Produto educacional. O Apêndice B contém uma breve descrição do produto e algumas observações acerca dos experimentos propostos. Finalmente, esperamos que essa proposta possa contribuir no sentido de auxiliar outros professores no desempenho de suas atividades, bem como de servir de inspiração para a elaboração de outros materiais com fins pedagógicos semelhantes. Além disso, nosso anseio é que funcione como um recurso didático que venha a despertar o interesse do estudante para o estudo e, assim, melhorar a aprendizagem dos conteúdos propostos para o ensino de Ciências. 56 CONSIDERAÇÕES FINAIS A proposta desse trabalho de pesquisa foi caracterizar o ensino de Ciências oferecido numa determinada escola localizada no Município de Duque de Caxias, sob a perspectiva dos professores de Ciências que nela atuam. De modo particular, procuramos abordar questões relativas a esse ensino no 9° ano de escolaridade, mais especificamente as relativas ao ensino de Física. Nesse sentido, os resultados obtidos nesse estudo podem representar aspectos de interesse dos próprios professores de Ciências nele considerados, no que se relaciona à prática profissional de cada um. Além disso, é possível que sirvam para desencadear um processo de mudança sobre o ensino desse componente curricular, principalmente, no que se relaciona ao 9° ano de escolaridade da escola. Baseando-se na concepção desses professores de Ciências, a formação inicial obtida nos Cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas não acarreta limitação para darem aula de Física no nível Fundamental de Ensino, contrariamente à literatura sobre o assunto. Isso pode decorrer de uma adaptação desses professores à realidade escolar e talvez dificultarem a percepção das tendências inovadoras do ensino. Possivelmente, em função do tempo decorrido de formação e da grande experiência no exercício do Magistério, tenham perdido a percepção do quanto a formação “biologizada” dificultam a prática profissional nos anos iniciais de carreira. Ao contrário da declaração dos meus colegas de profissão, esse foi um aspecto que marcou extremamente minha iniciação profissional como professora de Ciências na rede pública municipal de ensino de Duque de Caxias. Na época, eram comuns professores com Licenciatura Curta nessa rede, habilitados para o exercício do Magistério nas séries iniciais – 5ª e 6ª séries do antigo Ensino de 1° Grau (atuais 6° e 7° anos do Ensino Fundamental) . Em função disso, professores com formação em Licenciaturas Plenas atuavam nos anos finais (7ª e 8ª séries). Desse modo, para mim, foi um desafio dar aulas de Química e Física na 8ª série, muito mais da Física. Isso me levou a buscar, na ocasião, os chamados cursos de aperfeiçoamento, capacitação, reciclagem profissional. Numa linguagem mais atual, diria que busquei cursos de formação continuada a fim de aperfeiçoar minha capacitação profissional. Como vimos, os professores enfrentaram dificuldades em sua prática pedagógica e, praticamente, não conseguiram cumprir o Planejamento de Curso nos anos considerados na análise. Sendo assim, parece oportuno que profissionais da escola, não somente professores de 57 Ciências, mas membros da equipe diretiva, diretores, coordenadores e orientadores dialoguem sobre tal situação, suas causas e consequências a fim de buscarem alternativas. Como sugestão, em conformidade com a orientação do PCN, talvez seja interessante que a escola construa coletivamente uma proposta de conteúdos, que venha a corresponder às características e necessidades da comunidade escolar em questão. Ao que parece, o ensino dos conteúdos de Física tem sido prejudicado em função do reduzido período destinado a ele, o que possivelmente decorra do fato dos professores preferirem destinar o segundo semestre à Física. Isso se tornou evidente durante a análise das respostas dos professores ao questionário. Como o programa de Química também é abrangente, o ensino de Física é, de certo modo, “prejudicado” nesse nível do ensino, destinando-se menos de um semestre para ele na prática. Por isso, parece igualmente importante que a elaboração do programa de conteúdos para o 9° ano esteja adequada à carga horária destinada às aulas de Ciências. Nesse sentido, vale a pena investir na elaboração de uma proposta que se mostre adequada à realidade escolar e aos interesses do estudante nesse nível de escolaridade, sem, no entanto, comprometer a qualidade do ensino. Esse aspecto tornou-se relevante na medida em que os próprios professores declararam que o tempo é insuficiente para cumprir o planejamento. De fato, a partir da consulta dos lançamentos nos Diários de Classe, foi possível observar que o ensino de Física ficou restrito aos conteúdos de Mecânica nos três anos considerados nesse estudo. E, ao que parece, pelo modo como eles são abordados, através de fórmulas, isso provoca nos estudantes a associação dessa ciência com a Matemática. Em relação à abrangência dos programas, desperta a atenção o fato de professores considerarem adequada a quantidade de conteúdos propostos pelos livros, e insuficiente carga horária para cumpri-la. Esse é um ponto que merece especial atenção por parte desses professores e da equipe escolar a fim de que o ensino de Ciências oferecido nessa instituição esteja em conformidade com as propostas inovadoras, que, por sua vez, procuram adequar-se às demandas atuais. Tais propostas encontram-se fundamentadas em resultados de pesquisas educacionais, que sugerem o rompimento com o ensino livresco, onde a quantidade de conteúdos revelava a qualidade do ensino. Embora não evidente na resposta dos professores ao questionário, é possível perceber que o Livro Didático assumiu papel diferente do que lhe fora proposto inicialmente, que era o de apoiar o trabalho pedagógico. Até mesmo professores que declararam não se basearem no livro didático para escolher os conteúdos de ensino, elaboram Plano de Curso onde se percebe 58 bastante semelhança com a proposta do livro. Podemos citar, por exemplo, que tanto nos planejamentos consultados, como nos livros, de modo geral, a introdução à Física é através do estudo de Mecânica. E ainda que o estudo de todos os outros tradicionais temas da Física é proposto para o 9° ano, a despeito do reconhecimento de que a carga horária é insuficiente. Sendo assim, para finpareceu-nos importante que como prBaseando-nos na percepção dos professores de que a carga horária é insuficiente e no fato que o ensino exclusivamente “livresco”, desvinculado da interação direta com os fenômenos naturais, deixa uma lacuna na formação dos estudantes, conforme BRASIL (1998). A abordagem enciclopédica e fragmentada do conhecimento científico o desassocia do caráter dinâmico, articulado e histórico da ciência. Na busca por caminhos que possam promover um ensino de melhor qualidade, propostas inovadoras têm apontado a abordagem inter-relacionada dos conteúdos das disciplinas científicas através de temas interdisciplinares. 59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Jr. O Papel do Construtivismo na Pesquisa em Ensino de Ciências. Investigação em Ensino de Ciências [online], v3(2), p. 107-120, 1998. Disponível em: http://www.if.ufrgs.br/cienci/artigos/Artigo_ID40/v3_n2_a1998.pdf ANDRÉ, M. E. D. A de. Estudo de caso em Pesquisa e Avaliação Educacional. Série Pesquisa. Liber Livro Editora, 3ª edição. Brasília, 2008. Brasília. BEJARANO, N. R. R. e CARVALHO, A. M. P. Tornando-se Professor de Ciências: crenças e conflitos. Ciência & Educação [online], v. 9, n. 1, p. 1–15, 2003 . [Capturado em 25 de maio de 2011]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ciedu/v9n2/01.pdf BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP. 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Disponível em http://www.educacao.rj.gov.br/arquivos/ensinonormal/EnsinoNormalResolucao_SEEDUC_ n4376.pdf [Consultado em 19 de julho de 2011] SOARES, R. P. Compras Governamentais para o Programa Nacional do Livro Didático: uma discussão sobre a eficiência do Governo, 2010. Instituto de pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) [Capturado em 04 de setembro de 2011]. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/publicacoes/tds/td_1307.pdf WAISELFISZ, J. J. O Ensino das Ciências no Brasil e o PISA. Sangari do Brasil. 2009 [Consultado em 15 de janeiro de 2012]. Disponível em: http://www.sangari.com/visualizar/institucional/pdfs/pisa2009.pdf 62 APÊNDICE A – QUESTIONÁRIO APLICADO AOS PROFESSORES MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM ENSINO DE CIÊNCIAS Este questionário faz parte de um estudo motivado pela preocupação com o ensino-aprendizagem de ciências/Física no 9° ano de escolaridade, de modo mais específico, desta Unidade Escolar. Pela sua experiência profissional como docente, sua participação nessa pesquisa pode trazer informações importantes e contribuir para o aprimoramento deste ensino. Antecipadamente, agradecemos por sua importante participação, sem a qual nosso propósito não seria possível. Idade...............: Tempo de magistério: Graduação em: Instituição.......: Ano de conclusão.......: Pós-graduação: Instituição.......: Ano de conclusão.......: Considerando a sua formação acadêmica, em nível de graduação, você considera que ela tenha lhe possibilitado, inicialmente, exercer a função de professor de ciências/Física para os estudantes do 9° ano do Ensino Fundamental: ( ) Satisfatoriamente ( ) Teve dificuldades EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL 1- O ensino de ciências no nível Fundamental abrange conhecimentos de diversas áreas de conhecimento. Tradicionalmente, os conhecimentos da Física e da Química são abordados no último ano do Ensino Fundamental. Com relação a sua atividade profissional, a opção que melhor relaciona-se com a sua prática: a. ( ) No primeiro semestre aborda os conhecimentos químicos; b. ( ) No primeiro semestre aborda os conhecimentos físicos; c. ( ) Prefere abordá-los de maneira paralela, alternando os conteúdos das duas ciências durante as aulas; d. ( ) Outra(s). Qual(is)? _________________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________________________ 2- Segundo alguns pesquisadores, o livro didático de ciências serve como principal suporte pedagógico para os professores na 8ª série (atual 9° ano), e que nele se baseiam para escolherem os conteúdos e a sequência em que serão trabalhados durante suas aulas. Você se utiliza do livro didático para esse fim? ( ) Sim ( ) Não Há outro(s) instrumento(s) em que se baseia para fazer tal escolha? Qual (is)? _________________________________________________________________________________________________________________ _______________________________________________________________________________________________________________ 3- Em relação ao que os livros propõem, como você avalia: 3.1- A quantidade de conteúdos: ( ) Exagerada ( ) Adequada ( ) Insuficiente 3.2- A relevância dos mesmos: ( ) Boa ( ) Regular ( ) Ruim 3.3- A carga horária de três aulas semanais para cumprir o proposto: ( ) Exagerada ( ) Adequada ( ) Insuficiente 3.4- O preparo dos estudantes para apreensão dos conteúdos propostos: ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim 4- De modo geral, você consegue cumprir o planejamento relativo aos conteúdos de Física? ( ) Sim ( ) Não 63 5- Em relação ao que tem proposto para o 9° ano escolaridade durante sua prática profissional: 5.1- Cite as maiores dificuldades que enfrenta neste ano de escolaridade em relação ao ensino da Física. __________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________ 6- Assinale, na lista a seguir, os conteúdos que considera prioritários para se trabalhar no Ensino Fundamental: Conceitos introdutórios ( ) O Sistema Internacional de Unidades (SI) ( ) Noções dos métodos das Ciências Físicas ( ) Medidas e grandezas Noções de astronomia ( ) Universo: galáxias, estrelas, planetas, satélites; o sistema solar ( ) Geocentrismo X heliocentrismo ( ) Lua, sol e movimentos da Terra ( ) Estações de ano e ritmos da vida ( ) Newton e a gravitação Propriedades da matéria ( ) Matéria: estados físicos e propriedades ( ) Evolução histórica da ideia do átomo ( ) O átomo estrutura e identificação Descrição dos movimentos ( ) Posição, tempo e trajetória ( ) Velocidade média ( ) Aceleração média ( ) Movimento uniforme ( ) Movimento uniformemente variado Noções de força ( ) Algumas forças que nos rodeiam e seus efeitos ( ) Leis de Newton ( ) Forças e suas consequências ( ) A atração gravitacional Trabalho e energia ( ) Trabalho de uma força ( ) Energia cinética ( ) Energia potencial gravitacional ( ) Energia potencial elástica ( ) Teorema do trabalho e energia cinética ( ) Conservação de energia mecânica ( ) Potência ( ) Energia, manifestações, transformações e usos, fontes de energia. Máquina simples ( ) alavancas ( ) Cunhas ( ) Roldanas ( ) Do domínio do fogo à revolução industrial ( ) Os músculos e os movimentos Física térmica ( ) O tato, o quente e o frio e a nossa pele ( ) Temperatura e pressão ( ) Efeitos e formas de medição da temperatura ( ) Calor e temperatura ( ) A transmissão de calor ( ) Mudança de estados da matéria ( ) Fontes e meios de transmissão de calor ( ) A medida da energia térmica ( ) Efeito estufa e aquecimento Global ( ) O controle da temperatura corporal nos seres vivos Ondas ( ) Oscilações e vibrações na natureza ( ) As ondas e o som ( ) sons que ouvimos e sons que não ouvimos ( ) Sons e instrumentos musicais ( ) Propagação do som através de meio material ( ) Medidas de intensidade sonora ( ) Poluição sonora ( ) Eco ( ) O efeito Doppler Óptica ( ) A natureza da luz ( ) Propagação da luz ( ) Fontes de luz ( ) Refração da luz ( ) Reflexão da luz ( ) Espelhos ( ) Lentes e prismas ( ) Instrumentos ópticos ( ) Luz e cor ( ) A onda e a luz ( ) Olho humano e óculos Eletricidade e magnetismo ( ) Processos de eletrização ( ) A carga elétrica e suas aplicações práticas ( ) Materiais condutores e isolantes ( ) Geração e aproveitamento de energia elétrica ( ) Introdução aos circuitos elétricos ( ) Circuito elétrico residencial ( ) Noções de magnetismo ( ) Imãs e bússolas ( ) Magnetismo terrestre ( ) O eletroímã ( ) Motores elétricos ( ) As ondas eletromagnéticas que nos rodeiam ( ) Corrente elétrica ( ) Eletromagnetismo e tecnologia 64 APÊNDICE B – MOSTRA DO PRODUTO EDUCACIONAL 65 66 Experimento –Slide 7 Objetivo: Demonstrar a importância da luz para a visão. Experimento – Slide 23 Objetivo: Demonstrar o Princípio da Propagação Retilínea da luz. 67 Experimento – Slide 27 Objetivo: Demonstrar o Princípio da Independência da Propagação da Luz. Experimento – Slide 31 Objetivo: Visualização da luz refletida. 68 Experimento – Slide 37 Objetivo: Verificar a igualdade entre os ângulos de incidência e de reflexão em espelhos planos. 69 Experimentos – Slide 41 e Slide 42 Slide 41 Slide 42 Objetivo: Verificar o fenômeno da refração. 70 Experimento – Slide 54 Objetivo: Verificar a inversão da imagem formada no anteparo da câmara escura. Experimento – Slide 58 Objetivo: Verificar a refração em lentes convergentes e divergentes 71 Experimento – Slide 77 e Slide 78 Slide 77 Slide 78 Objetivo: Observar a inversão da imagem na retina no modelo de olho humano. 72 ANEXO A – CONTEÚDO PROGRAMÁTICO PARA O 9° ANO DE ESCOLARIDADE 73 74 75 76