marco santiago/nd Florianópolis, 5 de agosto de 2015 Tudo novo no Mercado Reabertura após 19 meses de restauração do prédio é um momento especial para Florianópolis, que recebe de volta um de seus maiores patrimônios históricos e culturais 2 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 flávio tin/nd Ala sul. Tradição mantida com paredes amarelas e portas e janelas verdes especial A Prefeitura de Florianópolis entrega o novo Mercado Público, mais seguro, moderno e confortável, sem perder os laços com a tradição Dezenove meses depois do início da restauração das alas norte e sul e ainda com melhorias sendo executadas no vão, o Mercado Público de Florianópolis reabre totalmente nesta quarta-feira em grande estilo. A festa de reinauguração começa às 11h, em uma estrutura montada no Largo da Alfândega, e só terminará com a apresentação do grupo Revelação, às 20h30. Durante todo o dia, haverá apresentações culturais, musicais e shows de humor. Para o prefeito Cesar Souza Júnior (PSD), este é um momento especial para a cidade, que recebe de volta um de seus maiores patrimônios históricos totalmente reformado e com mix ocupação atualizado – são 104 boxes, 36 na ala sul e 68 na ala norte, e mais 13 espaços que são utilizados como serviços públicos. Segundo o prefeito, o maior desafio foi adequar uma estrutura do século 19 às normas do século 21. “Não é uma obra feita de concreto, de madeira, e sim de emoção, de coração, de identidade e amor a Florianópolis”, disse. Foram gastos R$ 14,8 milhões nas obras. O Mercado Público passou por um profundo trabalho de recuperação, que começou em 18 de novembro de 2013. O prédio histórico teve que ser praticamente reconstruído, preservando-se os mesmos conceitos arquitetônicos antigos. Algumas paredes de tijolo maciço foram preservadas, mas foi necessário fazer reforço estrutural, renovar as instalações elétricas e hidráulicas, assim como telhados, pisos, portas, janelas e pintura. Mas para a Capital ter o Novo Mercado, foram necessárias duas licitações para ocupação dos boxes. Durante esses processos, ocorreu o envolvimento da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis, responsável por uma ação conciliadora e aglutinadora de forças. O trabalho da entidade e da prefeitura foram fundamentais para esta nova fase do Mercado. A revitalização também foi uma bandeira do ND nos últimos cinco anos. As gambiarras, a inadimplência com aluguéis, os puxadinhos e a desorga- casa da memória/nd Um presente Duas alas. Foto de 1920 mostra o vão utilizado como uma rua comum, na qual pessoas, carroças e carros de boi compartilhavam o espaço nização ficaram para trás. A partir desta quarta-feira, o Mercado Público vira uma página e retoma o status de ser a referência dos manezinhos, moradores e turistas. As mudanças estruturais e visuais incluíram reforma e mudanças de paredes, telhados, portas e pisos; rede elétrica, hidrossanitária e preventivo de incêndio; padronização dos boxes; e um mix de comércios reformulados para abrigar 54 tipos de atividades sem perder as características que tornam o Mercado parte da essência e da história de Florianópolis. É um espaço de encontro e convivência para quem vive a cidade, ponto de identificação cultural, local de momentos históricos e de referência de moradores e turistas. Nas próximas páginas desse caderno especial, há muitas histórias, do Mercado e dos comerciantes, e perspectivas para o futuro. São fatos e pessoas que eternizaram o Mercado e continuarão fazendo parte do dia a dia dos frequentadores do prédio histórico. Na internet Veja no blog NDOnline vídeos e o mapa interativo do Mercado. Acesse em www.ndonline. com.br ou no QRCode abaixo (48) 3251-1440 – Avenida do Antão, 1857 – CEP 88025-150 – Florianópolis – Santa Catarina Edição: Rodrigo Lima Diagramação e infografia: Cristiane Severino Edição de fotografia: Joyce Reinert Redação: Florianópolis ( 48) 3251-1438 Departamento Comercial: Florianópolis (48) 3212-4104 notícias do dia Nosso Mercado 3 A referência da Capital Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Desenvolvimento da cidade tem relação direta com a história dos comerciantes @pc_ND A história do Mercado Público começa com o anúncio da visita do imperador D. Pedro 2o a Florianópolis, em 1845. A primeira medida tomada pelas autoridades do Desterro foi mandar para o outro lado do rio da Bulha (o canal da atual avenida Hercílio Luz) as barraquinhas que comercializavam pescados e alimentos na praça central, vizinha do palácio do governo. Até então, na área próxima à Catedral se aglomeravam mascates, oleiros, pescadores e colonos que vendiam, em condições precárias, sua produção aos moradores da ainda incipiente vila à beira-mar. Foi nesse ambiente que a cidade começou a discutir a necessidade de erguer um edifício que abrigasse os comerciantes. Jornais e • Continua na página 4 as poucas pessoas influentes do Desterro se envolveram numa polêmica sobre a localização do Mercado. A decisão recaiu sobre uma área no largo do palácio, próxima ao ponto onde fica hoje a praça Fernando Machado. Em 5 de janeiro de 1851, o Mercado Público foi inaugurado, organizando o caótico comércio de víveres na Ilha, que crescera como abastecedora dos navios que seguiam em direção ao rio da Prata e ao Pacífico. Com o crescimento da população e das atividades comerciais e portuárias, nem o Mercado, nem o Galpão do Peixe, construído como solução alternativa, davam mais conta do movimento. Em 1895, com a cidade rebatizada com o nome de Florianópolis, começou o debate sobre a construção de um novo mercado. Em 5 de fevereiro de 1899, a ala norte foi entregue, no Largo da Alfândega. Sem aterro. O novo Mercado, inaugurado em fevereiro de 1899, era diretamente ligado ao mar casa da memória/nd Paulo Clóvis Schmitz [email protected] 4 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 flávio tin/nd Restaurada. Ala norte abriga comércios tradicionais, como bazares, empórios e lojas de calçados DE PORTAS ABERTAS Números do Mercado Dos 104 permissionários, 58 já estavam no Mercado e 46 são novos A ala sul tem 38 boxes, sendo que 35 são de comerciantes (um é a sede da Caisc – Casa dos Açores da Ilha de Santa Catarina – e outros dois são banheiros). Na ala norte, são 78 boxes, sendo 68 de permissionários (dois são banheiros, dois para entidades de assistência social, dois do Sebrae, três da prefeitura – um é o museu – e outro é a zeladoria do Mercado) Horário de funcionamento O Mercado funciona das 7h Não demorou para que o prédio pedisse as primeiras reformas e adequações, e depois se mostrasse também incapaz de dar conta das demandas de uma cidade em expansão. Em 1931, a ala sul foi erguida para abrigar boxes para a venda exclusiva de pescados e de carnes. Àquela altura, a cidade já se ligara definitivamente ao Estado por meio da ponte Hercílio Luz, tinha canalizado o rio da Bulha e ganhado as primeiras redes de água encanada, energia elétrica e saneamento básico. Aterro Em tudo o que acontecia na cidade, o Mercado Público acabava sendo afetado, mas nada se comparou à construção do aterro da baía Sul, durante o governo de Colombo Machado Salles, nos anos 70. Até 1974, as embarcações que traziam o pescado e outros alimentos encostavam no trapiche principal e em atracadouros menores, junto à rua Francisco Tolentino. Com o aterro e a ponte Hercílio Luz já sobrecarregada, a nova travessia absorveu o papel que o transporte marítimo desempenhara até ali como meio de abastecimento do Mercado. A ponte que levou o nome do ex-governador foi inaugurada em 8 de março de 1975. Com os anos 80, veio uma redefinição de conceitos para o Mercado, embora isso tenha ocorrido de forma não planejada e sistemática. Bares e outros tipos de comércio deram ao espaço um perfil mais cosmopolita e o inseriram definitivamente no roteiro turístico da Capital. Reformas Os anos seguintes foram marcados por várias reformas emergenciais, a criação de uma associação dos varejistas do Mercado, o tombamento do prédio como patrimônio histórico municipal e a instalação do bar Box 32, do comerciante Beto Barreiros, que dividiu os lojistas, mas se tornou um espaço conhecido em todo o Brasil. A nota triste da fase mais recente foi o incêndio que destruiu grande parte da ala norte, em agosto de 2005. Nos anos subsequentes à reconstrução, a casa passou por turbulências, com denúncias de não pagamento de aluguéis e transferências irregulares de posse dos boxes. Foi o estopim para a transformação em curso. Restauração concluída Um novo Mercado Público totalmente revitalizado reabre nesta quarta-feira, depois de reformas nas alas sul e norte e no vão. O novo mix de comércios reformulados abrigam 54 tipos diferentes de atividades, sem perder as características que tornam o Mercado parte da essência e da história de Florianópolis. A revitalização do Mercado é uma bandeira do ND há mais de cinco anos. A casa reabre com a finalização de um processo polêmico, que se arrastou por mais de sete anos, e que resultou na primeira licitação para ocupar os boxes do prédio histórico e uma reforma completa em mais de cem anos de atividades. Foram gastos R$ 14,8 milhões no profundo trabalho de recuperação, que começou em 18 de novembro de 2013. fotos casa da memória/nd às 19h em dias úteis e das 7h às 14h aos sábados. Os bares podem funcionar em dias úteis até as 22h A ala sul e, nos fins de semana e feriados, até as 17h. Os comércios abrirão no último domingo de cada mês, para avaliação do movimento. Conforme for a avaliação dos comerciantes, o Mercado Público poderá abrir todos os domingos. Banca de peixes. Frequentadores compram pescados em 1977 Década de 80. Uma das tantas pequenas reformas do Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Nosso Mercado 5 6 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 fotos carlos damião/nd Memória de um dia trágico Fragilidade. Fogo começou após o manuseio errado de uma frigideira em restaurante da ala norte Fumaça negra. População acompanha combate a incêndio que parou a cidade, há quase dez anos Em 19 de agosto de 2005, ala norte era inteiramente destruída por um incêndio CARLOS DAMIÃO [email protected] @damiao_ND Oito horas e vinte minutos de uma sexta-feira, 19 de agosto de 2005. Trabalhava em casa desde as 7h, com o radinho sintonizado numa emissora de radiojornalismo. Foi assim que soube do incêndio na ala norte do Mercado Público. Peguei minha câmera digital, que não tinha muitos recursos técnicos, e corri para a região do Mercado. No caminho era possível ver a densa fumaça negra. Assim escrevi no blog que mantinha à época: Incêndio O incêndio no Mercado Público de Florianópolis, que começou às 8h20 da manhã de hoje (19/8/2005) e ainda não foi dominado, parou a cidade. Há anos que se diz que o monumento histórico precisaria de uma reforma completa, com a eliminação de tudo que pudesse representar risco à sua estrutura. Um prédio centenário como aquele não poderia ter tantas lojinhas, restaurantes, lanchonetes, casa de fogos de artifício Após várias interrupções nas obras, o Mercado Público é inaugurado no largo do palácio do governo, ao lado da atual praça Fernando Machado, à beira-mar. e coisas do gênero. Tudo errado, tudo inflamável, tudo amadorístico. O Mercado é um símbolo de Santa Catarina. Foi construído em 1898, em substituição ao chamado Mercado velho, que curiosamente foi destruído por um incêndio em 1895. Lágrimas Havia gente aos prantos, especialmente pessoas mais velhas, acompanhando o trabalho heroico dos bombeiros e de populares. Do edifício ARS, que fica ao lado, funcionários usavam mangueiras domésticas para ajudar e também resfriar as paredes do prédio. Vereadores, secretários municipais, comerciantes, estudantes, aposentados, todos assistiam estarrecidos às cenas. Maledicência A maledicência, característica do manezinho, não poderia estar ausente. O que mais se ouvia eram coisas do gênero: – Cadê o Dário (prefeito)? Tá no Chile, com o Luiz Henrique... (O prefeito faz parte da comitiva do governador e anunciou que está voltando à cidade com urgência). – Onde já se viu faltar água em hidrante? – Madeira velha, fiação velha, telhas velhas, tudo velho. Nunca fizeram uma reforma decente. Atualização No mesmo dia 19/8/2005, atualizei as informações: “Não houve vítimas. Prejuízos são materiais, e os danos, imensos, mas é possível recolocar tudo em ordem num prazo médio de tempo. Espera-se que a prefeitura reveja todos os alvarás dos boxes. Um prédio daquela importância não pode ficar à mercê de liquinhos e lojas de fogos de artifício”. Fotos Nunca, na história de Florianópolis tanta gente fotografou um acontecimento do gênero. Câmeras digitais dos mais variados tamanhos, celulares com câmeras, fotógrafos profissionais e amadores amontoavam-se em todos os cantos para captar os melhores ângulos do incêndio. O “Novo Mercado” é inaugurado ao lado do largo da Alfândega, onde está até hoje. Escombros. Imagem feita de prédio ao lado do Mercado revela destruição da ala norte É entregue a ala sul. A ala norte ficava à rua Conselheiro Mafra, e as ondas chegavam até onde está o vão. Para viabilizar a segunda etapa foi preciso construir um aterro que avançou sobre o mar. São instaladas câmaras frigoríficas que permitem o armazenamento seguro de pescados e carnes. Até ali, o que não era vendido até o início da tarde precisava ser inutilizado com creolina, o que gerava prejuízos e encarecia o preço dos produtos. notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Nosso Mercado 7 História de paixão e dedicação Fatos engraçados e muitos desafios marcam a trajetória de Orestes Melo no Mercado @damiao_ND Trinta e oito anos de Mercado Público, 22 deles como administrador. Foi, aliás, o administrador que mais tempo ficou no cargo. Orestes Melo também presidiu a Associação de Varejistas e Comerciantes do Mercado Público, da qual se desvinculou em 2011. Como não poderia deixar de ser, Orestes define sua longa duração com o Mercado como uma história de amor, paixão, dedicação, superação e determinação. “Vencemos muitos desafios ao longo desse tempo. E achamos mesmo que estava na hora de o prédio – o espaço em si – ganhar uma nova paginação, com mais segurança para os comerciantes e frequentadores”, diz. “Só não gostei do Bob’s dentro do Mercado Público, porque é um tipo de estabelecimento que não combina. Falta, por exemplo, um restaurante que sirva o pi- rão com peixe frito, uma atração típica de Florianópolis, da qual os turistas e moradores gostam muito”, acrescenta. Orestes lembra que a cobertura do vão não é uma ideia de hoje, foi desenvolvida primeiramente em sua gestão na administração do Mercado, durante o governo de Angela Amin (19972004). “Só não levamos adiante porque não conseguimos fechar a parceria. Por isso o projeto foi deixado em segundo plano. E fico feliz que a nossa ideia esteja sendo desenvolvida pela atual gestão da cidade”, observa. Não faltam boas lembranças, histórias engraçadas, momentos marcantes. “Por ser um espaço de convivência dos moradores e dos turistas, o Mercado Público sempre foi o centro de convergência das fofocas, das notícias, das novidades, naqueles tempos em que não havia internet e as pessoas queriam saber quem tinha morrido, casado, divorciado, viajado etc.”, recorda o exadministrador. marco santiago/arquivo/nd CARLOS DAMIÃO [email protected] Apoio. Orestes, administrador durante 22 anos, mobilizou os comerciantes e impediu manobra para acabar com o Mercado Tombamento para evitar venda do prédio Um dos casos relevantes ocorreu em 1984. Conforme Orestes Melo, havia à época uma especulação, de que a prefeitura, para fazer caixa, colocaria o prédio do Mercado à venda. “Descobrimos que o prédio não era tombado como patrimônio histórico. Mobilizamos os comerciantes, fomos à Câmara e conseguimos apoio para o tombamento, que de fato ocorreu, impedindo qualquer manobra oficial para acabar o edifício e com as atividades”. Vitoriosa a empreitada, Orestes foi comunicar o fato aos donos dos boxes: “Olha, pessoal, o prédio vai ser tombado. Lá do fundo, um peixeiro berrou – ‘Ai, meu Deus, que desgraça. Qual lado vai tombar primeiro?’”. Orestes, que sempre preferiu “perder um amigo a perder a piada”, gritou de volta: “O lado das peixarias”. Foi uma gargalhada geral, até que o comerciante entendesse o real sentido do tombamento. 8 Nosso Mercado Foco de todas as atenções notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Tradicional ponto de encontro na rotina dos florianopolitanos bruno ropelato/nd PAULO CLÓVIS SCHMITZ [email protected] pc_ND Diretor de comunicação da Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), o jornalista Manoel Timóteo de Oliveira exibe uma publicação de 1928 com os “indicadores” da cidade, ou seja, dados sobre as empresas, o número de estabelecimentos comerciais, os hotéis e restaurantes em operação e muitas outras informações, incluindo atividades dos clubes sociais e anúncios de jornal, que dão uma ideia do que era a capital catarinense na época. Entre esses dados aparece a lista dos dez açougues que funcionavam no Mercado Público, em espaços então não chamados de “boxes”, mas de “compartimentos”. Naqueles anos, uma ocupação corriqueira era a dos carregadores que entregavam para as famílias mais abastadas as compras feitas no Mercado Público. Um dos mais ativos se chamava Benjamim José Pereira, que servia à família Bulcão Vianna. No final da década de 1920, o Mercado era administrado por Propício Seara, o prefeito da cidade era Heitor Blum (que já havia sido presidente da Acif) e o Estado era governado por Adolpho Konder. A situação do Mercado, tradicional centro de compras da Capital, sempre esteve entre as preocupações das entidades representativas do comércio na Ilha. Em 1998, sob a presidência de Vinícius Lummertz, a Acif, por meio de um núcleo coordenado pelo comerciante Beto Barreiros, tentou promover uma reorganização das atividades do Mercado, que já apresentava inúmeros problemas de estrutura, risco de incêndio em vista da precariedade das instalações elétricas e improvisações que cada lojista fazia por conta própria. Divididos, os comerciantes não quiseram mudar as práticas e nem discutir a implantação de um novo mix, proposta pela Acif e que agora, finalmente, se concretiza. O noticiário da imprensa falava das propostas do núcleo setorial do Mercado e das reuniões que envolviam diferentes órgãos nas áreas de planejamento urbano, turismo e segurança pública. Os bombeiros chegaram a sugerir a instalação de uma central de gás, porque os botijões eram individuais e poderiam provocar – como de fato aconteceu em agosto de 2005 – uma tragédia de grandes proporções. O Mercado nas ondas do rádio Aos 65 anos, Manoel Timóteo, conhecido como Maneca, pertence a uma família que incluía na rotina visitas quase diárias ao Mercado Público. Nascido na rua Menino Deus, próximo ao Hospital de Caridade, ele viu seus pais comprarem carne sempre nos açougues da casa – como até hoje fazem as pessoas que não se acostumaram com os açougues dos supermercados. Seu avô paterno foi funcionário da Alfândega, e o avô materno, que era pescador, trazia Época movimentada no Mercado Público ficou marcada pelas feiras de produtos coloniais. Os colonos chegavam às segundas e terças e se instalavam na pensão Kowalski, que depois abrigou o restaurante Pirão. As embarcações ficavam ancoradas nos trapiches ou afixadas com poitas no largo da baía Sul. Lembranças. Manoel Timóteo, o Maneca, tem uma forte ligação com o Mercado Público peixes de barco para o Mercado, levando de volta os mantimentos de que a família necessitava para passar a semana. “Minha mãe, filha de pescador, era respeitada pelos peixeiros, porque não podia ser enrolada facilmente por eles”, conta Maneca. Uma das figuras que tiravam dali a sua matéria-prima era o radialista Dakir Polidoro, que no programa “A Hora do Despertador”, na rádio Guarujá, dava notícias sobre as novidades e fatos relacionados ao Mercado nas primeiras A construção do aterro da baía Sul e da ponte Colombo Salles mudou para sempre a área onde está o Mercado. A partir dali, tudo o que era abastecido por barcos e carroças até 1974 passou a chegar de caminhão e outros veículos de menor porte. horas do dia. Ele criou um personagem chamado Quintanilha, que agia como se estivesse ali vendo as tainhas chegarem de baleeira ao nascer do sol. Outro homem de comunicação conhecido era Adão Miranda, do jornal “A Gazeta”, que diante da falta de notícias policiais, teria matado uma galinha, espalhado o sangue na calçada e noticiado um crime que nunca aconteceu. “A cidade só tinha brigas de bar, e o que se noticiava era uma ou outra apreensão de maconha”, conta Timóteo. Houve uma redefinição de conceitos de Mercado Público. Bares e outros tipos de comércio deram um tom mais cosmopolita ao Mercado, que foi inserido definitivamente no roteiro turístico da cidade. O prédio é tombado como patrimônio histórico municipal. notícias do dia Espectador Nosso Mercado 9 privilegiado Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Décio Bortoluzzi testemunhou as transformações do Mercado e da cidade @pc_ND Décio Bortoluzzi é uma das mais privilegiadas testemunhas das transformações pelas quais passou o Centro de Florianópolis nos últimos 60 anos – e demonstra ter sido muito afetado por elas. Ele fala com fleuma, altera o tom de voz e se emociona ao lembrar dos navios da Cia. Hoepcke que levaram seus avós em viagem ao Rio de Janeiro, dos barcos a vela que traziam telhas, tijolos e louças de barro para o Mercado Público, cortando as águas da baía Sul, e dos amigos que perdeu – os mesmos que encontrava diariamente para a primeira cerveja com pastel de camarão, sem marcar hora, porque sabia quando e onde podia localizá-los. “Ainda dá uma dor no coração”, afirma, ao ser perguntado sobre o impacto da construção do aterro para os nativos da Ilha, porque “a cidade perdeu o cheiro de maresia e até o vento sul hoje é outro”. Ele tem na cabeça o roteiro dos botecos, a maioria no entorno do Mercado, que eram passagem obrigatória para os boêmios e notívagos desse tempo que ficou nas lembranças. Uma caminhada pela área onde ficava a orla é suficiente para que o funcionário público aposentado aponte onde era este ou aquele hotel, bar, restaurante, casa de comércio ou trapiche, dando as características e usos de cada um. O fato de morar na rua Conselheiro Mafra, onde seu pai administrava o hotel Central, potencializa essa ligação afetiva com o antigo cenário. “Ia com meu pai comprar peixes no Mercado, mas mesmo sem isso passava ali todos os dias”, conta Décio. E havia motivos de sobra para isso. “O Goiano sempre teve o melhor peixe frito, a fiambreria de dona Clara oferecia um sanduíche de pão com presunto sem igual, a melhor carne era vendida pelo Nelson, pai de Alvim Espinosa, e Zezinho, que depois instalou um bar no box 32, tinha o pão de milho mais afamado da redondeza”, diz. Cenário. Morador da rua Conselheiro Mafra, Décio tem uma ligação afetiva com o Mercado Público e seu entorno Tempos de boa música e irreverência Se era um fervo durante o dia, o Mercado Público também assustava as boas famílias porque tinha um entorno escuro, mal iluminado, e ficava perto das esquinas com as ruas Deodoro e Sete de Setembro, onde as prostitutas faziam ponto a partir do início da noite. Para os rapazes que não ligavam para os bons costumes, o que contava era a boa música e o ar esfumaçado dos bares, com o blues, o jazz e a bossa nova dando um clima especial ao ambiente. Quando o hotel Querência se instalou na Jerônimo Coelho, aquela parte da cidade ganhou ares mais sérios, apesar das festas ali realizadas, que atravessavam as madrugadas. Para Décio Bortoluzzi, o importante era a De barcos, carroças e velhos amigos A memória de Décio Bortoluzzi registra as imagens do entreposto de venda de produtos coloniais na ala norte do Mercado Público, da feira dos colonos no meio de cada semana, da pensão Kowalski (onde esses mesmos colonos se hospedavam), das carroças e barcos que desembarcavam peixes, frutas e hortaliças no Mercado, do comerciante Gedeão Mansur operando sua loja de panelas de alumínio, da habilidade de Chico O vão do Mercado é fechado ao tráfego de veículos, e uma reforma – que só seria concluída em 1988 – começa a melhorar a aparência e a estrutura do edifício. Escamador, que em poucos segundos deixava um peixe pronto, dos ônibus e caminhões que passavam pelo vão, das provas de ciclismo que paravam a cidade e dos hidroaviões que desciam na baía Sul. Não menos fortes são as lembranças das regatas de remo envolvendo os clubes Aldo Luz, Riachuelo e Martinelli, que davam a largada na altura da Assembleia Legislativa e iam até a ponte Hercílio Luz, com uma Incêndio destrói parcialmente nove boxes, entre eles o Trapiche Bar, o Goiano II e a Casa do Pescador. Parte do prédio foi interditada. Em outubro de 1988, o prédio passa por nova reforma. Aberto o restaurante Pirão. oportunidade de viver a cidade no que ela tinha de mais irreverente. Foi no piano-bar do hotel Lux que Maysa se apresentou, e na esquina da Deodoro a atriz Ítala Nandi, que veio à cidade para filmar “Prata Palomares”, andou com os seios à mostra, para escândalo dos padres de igreja São Francisco. O Botafogo também se hospedava por ali, e Nilton Santos dava as entrevistas porque Garrincha, semianalfabeto, se atrapalhava na frente dos microfones. “Era uma época muito boa”, ressalta o saudosista Décio, que também lembra de Bibi Ferreira chegando à cidade para participar de um festival de cinema organizado pelo escritor Salim Miguel no início dos anos 60. multidão acompanhando da orla a performance de cada equipe. Sem falar nas amizades com Aldírio Simões e Luiz Henrique Rosa, no cantor João Gilberto tocando violão no bar do Goiano e nos shows que o próprio Décio organizou, com o projeto Fundo de Quintal e a música do grupo Mistura Fina no Mercado. Ele ainda alimenta o sonho de “voltar com essas atrações, juntando samba, choro e orquestra, boa comida e artesanato”. Comemorações do centenário do Mercado com uma grande festa, show de Zeca Pagodinho e o anúncio do projeto de cobertura para o vão. flavio tin/nd Paulo Clóvis Schmitz [email protected] 10 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 flávio tin/nd A contribuição da CDL Mobilização da entidade ajudou para o renascimento do Mercado A reabertura do Mercado Público é resultado de uma grande mobilização que teve a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis como parte relevante em todo o processo, considera o presidente da entidade, Marco dos Santos. O envolvimento da CDL começou em 2010, quando a prefeitura convidou a entidade para fazer parte do grupo de trabalho que elaborou o mix comercial, a definição das atividades e dos segmentos do Novo Mercado. A empresária Sara Camargo foi a representante da CDL nesta comissão. Definidas por licitação pública, novas empresas se habilitaram a ocupar os boxes mediante o desenho de mix elaborado pela comissão e aprovado pela prefeitura. Aldonei Brito, presi- Incêndio provocado por uma frigideira mal manuseada num restaurante da ala norte se espalha e destrói toda a ala. Após a recuperação, o prédio volta a ser ocupado pelo mesmo tipo de comércio. dente da Associação dos Comerciantes, reiterou a importância da atuação da CDL. “A CDL não foi apenas relevante, posso dizer que foi indispensável”, afirmou Brito, protagonista em mais de 70 reuniões de trabalho envolvendo representantes de todos os setores, órgãos e entidades envolvidos no projeto. Quem acompanhou tudo de perto em nome da entidade foi o empresário Celio Philippi Salles, diretor de Assuntos Econômicos da CDL. “Havia a necessidade de uma ação conciliadora e aglutinadora de forças. E foi neste momento que a Associação dos Comerciantes e a CDL se aproximaram naturalmente. A CDL fez a conexão certa na hora certa em todos os momentos para superação destes obstáculos”, diz. A prefeitura tenta lançar a primeira proposta de licitação do Mercado, que foi suspensa pelo TCE no mesmo dia em que seria aberta por encontrar 12 irregularidades. Projeto do Executivo que dispõe sobre a ocupação e forma de funcionamento dos boxes começa a tramitar na Câmara de Vereadores. União. Câmara de Dirigentes Lojistas da Capital participou diretamente do processo de revitalização Apoio aos comerciantes A aproximação permitiu à Associação dos Comerciantes usufruir do apoio e da estrutura da CDL, com o uso do espaço físico para reuniões, do suporte jurídico e administrativo; marketing e apoio logístico e operacional. Um dado mencionado pelo presidente Marco dos Santos serve para comprovar a força no relacionamento com os comerciantes: 70 são associados da CDL. “Demonstra a estreita relação que passaram a ter com a nossa entidade, e o mais importante, sempre de forma voluntária”, afirma. O prefeito Cesar Souza Júnior destaca o espaço que a CDL ocupará na ala norte, como ponto de apoio e para estreitar o relacionamento com associados. “O novo Mercado é um divisor de águas para a cidade e foi bom contar com a parceria da CDL para que a personalidade de nosso Mercado fosse resgatada. E continuará sendo bom, já que a CDL prossegue vivendo o dia a dia do Mercado lá de dentro”, diz. Em meio à polêmica da licitação, a Câmara de Vereadores tenta aprovar projeto para que comerciantes fiquem mais 15 anos no Mercado. Prejuízo milionário: 45% dos comerciantes estão inadimplentes por não pagarem os aluguéis à prefeitura. Mercado Público Ala Norte BOX 25 notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 rosane lima/nd Uma aposta Nosso Mercado 11 para toda a vida Desde 1967 no Mercado, Aurino Santos projeta futuro com a família em dois boxes FELIPE ALVES [email protected] @felipealves_ND Com o dinheiro que ganhou em uma aposta de loteria que fez com o amigo Alvim Nelson Fernandes da Luz, Aurino Manoel dos Santos, 68 anos, decidiu investir em um negócio próprio e comprou seu primeiro açougue em 1967. Desde então, não saiu mais do Mercado Público. Viu o prédio histórico e seu entorno se transformarem e, agora, projeta o futuro junto com a família, em um box na ala norte, o Emporium 12, e outro na ala sul, o Açougue Aurino. Antes mesmo de comprar seu pequeno comércio, Aurino já tinha ganhado experiência com carnes no Mercado desde 1959, quando começou a trabalhar aos 14 anos com o comerciante Zari Farias, dono de uma fiambreria. Em seguida, passou a trabalhar com aquele que seria o principal professor quando o assunto era carnes: Nelson Fernando da Luz, pai do Alvim, que tinha a Fiambreria Spinoza. “Ali comecei como aprendiz e aprendi a trabalhar mesmo como açougueiro. Ele me perguntou: ‘O que tu entende de carne?’ Eu disse: ‘Olha, eu entendo bem [de carne] na mesa, mas tenho vontade de aprender’. Depois peguei a prática. Ele era um homem muito prático e bom”, conta. A parceria com Nelson durou até 1967, quando Aurino decidiu que era hora de montar o próprio negócio. Aos poucos, foi conquistando a clientela, levou a família para trabalhar com ele Orgulho. Aurino destaca a parceria com os clientes pela sinceridade na relação e qualidade dos produtos e viu de perto as mudanças no Mercado. “Quando cheguei, tinha 14 açougues, agora são dois. A gente trabalhava das 5h30 às 10h30, mas quando comecei com o meu comércio, decidi abrir o dia inteiro”, diz. Hoje, Aurino não se vê fazendo outra coisa. Foi no meio das carnes, vendendo, cortando e atendendo os clientes que ele construiu sua vida e deu estudo aos cinco filhos, dos quais dois trabalham com ele. “Tem clientes que estão comigo há mais de 45 anos, e gostam da amizade, da sinceridade, da qualidade e dos produtos bons. Meu orgulho é estar esse tempo todo aqui no Mercado e, principalmente, com a família junto”, afirma. 12 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Nosso Mercado 13 14 Nosso Mercado notícias do dia valorizada Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 A “manezice” Aldírio Simões transformou o espaço nobre na casa dos personagens da cidade @damiao_ND Se houve um personagem em Florianópolis que teve seu nome indiscutivelmente associado ao Mercado Público, esse personagem foi Aldírio Simões (1944-2004). Jornalista, apresentador de TV, cronista e carnavalesco, ele foi frequentador assíduo do espaço, onde surgiu a ideia de criação e entrega do Troféu Manezinho da Ilha, em 1987. Aldírio confundiu seu nome com o Mercado ao longo de sua trajetória profissional e cultural, sendo um dos responsáveis pela difusão da imagem de ponto de encontro dos moradores da cidade. As rodas de samba e pagode no vão central foram incentivadas e amplamente divulgadas pelo jornalista, que inúmeras vezes transmitiu do local seu programa Fala Mané, na atual RICTV. Em 2014, o ND resgatou a história de vida de Aldírio, na passagem dos dez anos de sua morte. Entre os entrevistados, o jornalista João Carlos Mendonça Santos afirmou: “O Aldírio faz falta, era um cara insubstituível. Falar do Mercado Público ou do Bloco dos Sujos quando a gente fala dele é até redundante porque ele sempre estava lá. Tenho lembranças muito fortes, tenho até hoje o Troféu Manezinho da Ilha, que recebi em 2002. A criação do troféu, o programa ‘Bar Fala Mané’ e a atuação de Aldírio na Fundação Franklin Cascaes, onde foi superintendente, e na Fundação Catarinense de Cultura, são exemplos do resgate cultural que ele promoveu com relação à cultura açoriana e ilhoa”. Grande parte das crônicas de Aldírio, publicadas regularmente no suplemento “AN Capital”, de “A Notícia”, até a semana de sua morte, em 2004, focalizava o cotidiano de Florianópolis, seus personagens, histórias, causos, histórias engraçadas ou trágicas. Esses registros acabaram incorporados aos livros lançados pelo jornalista, como “Sou ilhéu, graças a Deus”, “Retratos à luz da pomboca”, “Crônicas de Carnaval” e “Domingueiras”. Insubstituível. Jornalista, apresentador, cronista e carnavalesco, Aldírio foi um frequentador assíduo do Mercado Público Fonte de inspiração para as crônicas Era comum encontrar Aldírio Simões no Mercado em diferentes momentos do dia, sempre conversando, contando (ou colhendo) as novidades. O Mercado era fonte de inspiração constante. Quem acompanhava suas crônicas no “AN Capital” sabia que muitas das narrativas surgiam a partir de conversas que ele entabulava com amigos ou conhecidos. Por ser uma figura conhecida, era muito procurado pelas pessoas que circulavam pelo espaço, muitas vezes para atualizar ou corrigir informações divulgadas em sua coluna. O programa “Bar Fala Um novo susto no Mercado: um incêndio no box 13 da ala norte começou em uma fritadeira elétrica, mas foi apagado rapidamente. Mané” tinha uma característica peculiar, de buscar sempre as raízes culturais mais marcantes de Florianópolis. A figura do manezinho da Ilha era indispensável, havia uma espécie de culto permanente a esse personagem. Atribui-se a Aldírio a relativa sofisticação do termo “manezinho”, que era, até a década de 1970, pejorativo, com o significado mais próximo de caipira ou capiau. O jornalista valorizou a personalidade do manezinho com a criação do troféu. Que, não por acaso, tinha como símbolo o Mercado Público. Raízes culturais. Aldírio (à esq.) entrevista o ex-prefeito Edison Andrino no programa “Bar Fala Mané” Licitação é lançada. Com protestos em frente à prefeitura e correria para se inscrever, encerra-se o prazo para a licitação em abril. Em julho, TCE recomenda abertura de nova licitação após irregularidades apontadas. Em setembro, licitação é suspensa pela Justiça. Uma reforma de mais de R$ 2 milhões começa em agosto de 2011 na ala sul, mas as obras atrasam. Vigilância Sanitária aponta irregularidades em 19 boxes, entre falta de higiene, entrada de insetos e desorganização do depósito. fotos arquivo/nd CARLOS DAMIÃO [email protected] notícias do dia Nosso Mercado 15 flávio tin/nd Peixaria Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 de avaianos e alvinegros Dia seguinte aos jogos era marcado por encontros na Peixaria do Chico um dos ídolos avaianos do título catarinense de 1975, foi até a peixaria levar uma relíquia que o filho de Chico, Marcelo Jacques, 44, guarda até hoje: uma revista Placar de 1975, com uma página inteira dedicada à história de Chico e contando sua brincadeira de trocar gols por camarão. Ao morrer, Chico deixou um pedido aos filhos: dar continuidade ao negócio da família. A tarefa não era problema para os seis filhos homens do comerciante, que trabalhavam com o pai desde pequenos no Mercado. Marcelo e os irmãos concorreram à licitação e pretendem perpetuar o nome do pai em três peixarias pelos próximos anos. “O pai tirou a gente dos estudos cedo para trabalhar no Mercado e, com o tempo, vimos que uma peixaria só não dava. Compramos mais duas e agora ficaremos os próximos 30 anos aqui para honrar o nome do meu pai. Ele faz parte desta história. Estaria aqui dia 5 [de agosto] e seria uma das pessoas mais felizes, como seu Tibúrcio, seu Xexéu e Nelson Santos, pessoas antigas que, junto com meu pai, fizeram essa história”, diz. FELIPE ALVES [email protected] @felipealves_ND Depois dos jogos de Avaí ou Figueirense, o destino dos torcedores que frequentavam o Mercado Público da cidade era certo: a Peixaria do Chico. Fosse para tirar sarro de Chico Peixeiro quando o Alvinegro ganhava ou para comemorar com ele a vitória do Leão, a turma não saía do Mercado sem um peixe na mão e uma prosa descontraída com Chico, que tinha paixão por atender a clientela. Torcedor do Avaí e frequentador do estádio Adolfo Konder, Chico ganhou a simpatia dos jogadores e prometia a eles dois quilos de camarão para quem fizesse gol. No dia seguinte aos jogos, os jogadores batiam ponto na Peixaria do Chico para buscar a recompensa. Na manhã de 1o de março de 2013, o Mercado amanheceu mais triste ao perder um dos personagens que fizeram a história do comércio local. Chico Peixeiro, nascido Francisco Martiniano Jacques, morreu aos 80 anos. Uma semana antes, Juti, Jornais, peixes e atendimento aos clientes Na internet Assista ao depoimento em vídeo Aos 13 anos, Marcelo Jacques deixou de estudar para ajudar o pai e os irmãos na lida diária do Mercado. O trabalho era cansativo, mas ajudava no sustento da casa. Enquanto o pai atendia no balcão, a tarefa de Marcelo era abrir os jornais que serviriam para embalar os peixes. Por dia, o menino tinha pela frente de 100 a 200 quilos de jornais. Aos poucos, o pai passou aos filhos o conhecimento sobre peixes Um pequeno incêndio foi controlado na ala norte no box 44. e as formas de melhor atender os clientes. “Hoje sou fascinado em atender no balcão, vivencio isso e gosto de ter o contato com o cliente. Costumo dizer que o Mercado é minha casa, porque chego às 6h e só saio às 20h. Esses 30 anos que tenho de Mercado e os 45 que meu pai teve aqui dentro representam tudo na nossa vida. Tudo que tenho foi o Mercado que me deu, na base de muito trabalho e suor”, conta. Assume a nova gestão da prefeitura e acordo entre Ministério Público e Executivo dá 120 dias para regularizar os problemas do Mercado. Em nome do pai. Marcelo Jacques, filho do Chico Peixeiro, deu continuidade aos negócios no Mercado Decide-se por uma reforma completa do prédio. Os vencedores da licitação dos boxes são divulgados. Uma nova licitação é aberta para disputar os boxes que não tiveram lances. Começam as obras da ala norte e comerciantes deixam os boxes. Previsão de entrega total do Mercado revitalizado era de oito meses. 16 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 divulgação/nd Restauração em 19 meses JK Engenharia de Obras foi a empresa responsável pela reforma do prédio histórico CARLOS DAMIÃO [email protected] @damiao_ND O novo Mercado Público de Florianópolis é mais uma grande obra importante para os catarinenses – e, principalmente, para os forianopolitanos – que a empresa JK Engenharia de Obras entrega para a sociedade totalmente restaurada. Foi um ano e sete meses de trabalho para entrega total da restauração, com área total de 5.340 m2. A primeira etapa foi iniciada com a restauração das alas norte e sul. A ala sul foi totalmente desativada pela prefeitura em junho de 2014 e liberada para a empresa JK começar a restauração em julho de 2014, sendo finalizada em 18 de julho deste ano. Importante ressaltar que, com o início dos trabalhos na ala sul, por meio das demolições e remoções das construções empíricas lá existentes, foram verificados graves problemas estruturais nas fundações e pilares de concreto, os quais fazem a sustentação da cobertura. Assim, a equipe técnica da prefeitura, por meio da Secretaria de Obras, e a empresa supervisora da obra Prosul, durante o período de julho Ala sul fecha para restauração. Peixarias vão para o Terminal Cidade de Florianópolis. a dezembro de 2014, trabalhou para projetar e viabilizar a execução destes novos serviços, liberados para a JK executar em dezembro 2014. Portanto, a ala sul foi totalmente restaurada em apenas sete meses. A equipe da JK que trabalhou na restauração é formada pelo engenheiro civil Jacson Koester, engenheiro eletricista e de segurança do trabalho Marcos Aurélio Gama, arquiteta Simara Callegari, administrador Walter Correa, mestre de obras Dejair Ferreira dos Passos e por 75 colaboradores de diversas profissões. NÚMEROS DA OBRA Restauração do Mercado Público Trabalho. Ao restaurar o Mercado, principal preocupação foi preservar o patrimônio Mais de 200 caçambas de entulhos removidas 2.200 m² de demolições e remoções de construções empíricas 450 m³ de concreto ou cerca de 4.000 sacas de cimento Aproximadamente 70 mil quilos de aço 80 mil telhas Com atraso, ala norte reabre, mas apenas três boxes começam funcionando. cuidado com o patrimônio Preservação das paredes históricas, bem como o cuidado em restaurá-las com argamassas especiais, tintas especiais à base de silicatos Restauração das cimalhas e adornos dos revestimentos Impermeabilização das platibandas e topo das cimalhas Colocação de espículas para evitar contaminação das paredes com fezes dos pombos Aplicação de material histórico da edificação em composição com a atual como pisos, esquadrias, soleiras, granitos, meios-fios em pedra; hidrofugação das telhas Descidas pluviais externas em ferro fundido para facilitar manutenção Aplicação de materiais novos, porém com as mesmas características dos originais Restauração contempla novas instalações elétricas, hidráulicas, telefônicas, preventivo de incêndio, acessibilidade a portadores de deficiência física e muito mais modernidade Ministério Público identifica falta de acessibilidade para deficientes físicos na ala norte e reajustes devem ser feitos na ala recém-inaugurada. Parte do telhado da ala sul desaba durante reforma. O telhado havia sido reformado em 2013. INOX FERRO ALUMÍNIO ESMALTADOS Florianópolis - SC Mercado Público - Box 29 48 3222-8467 notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Nosso Mercado 17 18 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Doses de ousadia intuitiva A marca Box 32 fez tanto sucesso que virou referência do Mercado Público FELIPE ALVES [email protected] @felipealves_ND Quando decidiu largar o posto de combustível e apostar na gastronomia, Roberto Barreiros, o Beto Barreiros, 59 anos, tinha a certeza de que qualquer comércio que abrisse daria certo se unisse três ingredientes que já dominava: bom atendimento, produtos de qualidade e ouvir a sugestão dos clientes. A mistura foi feita e, com “doses de ousadia intuitiva”, segundo ele mesmo, o Box 32 nasceu, tomou grandes proporções e virou referência em todo o país e até mesmo para estrangeiros quando se fala no Mercado Público de Florianópolis. Ponto de encontro da elite e do povo, de turistas e de manezinhos, o Box 32 surgiu em março de 1984, quando Beto comprou a cessão de uso de uma verdureira e transformou os 15 m2 da loja nos atuais 104 m2, com a reabertura da ala sul. A mistura de apostar em um bar com ingredientes típicos da Ilha deu certo e, aos poucos, Beto foi incorporando novidades e trazendo as pessoas de volta ao Mercado com pastéis de ca- Quando cheguei, o Mercado estava decadente. Fiz pequenas revoluções que deram certo. marão e de berbigão, chope gelado e um balcão aberto às conversas. Com um comércio limpo e bom atendimento, Beto ouvia as sugestões da clientela, pegava nome e telefone e depois ligava para contar que tinha implantado o que havia sido sugerido. “Quando cheguei, o Mercado estava decadente, pois foi a época em que surgiram com força as redes de supermercado, o que tirou a frequência do Mercado. Fiz pequenas revoluções que deram certo, como quando comecei a vender Moët & Chandon francesa em taça no corredor do Mercado. A elite correu pra lá. Foi assim que, aos poucos, o Mercado foi explodindo”, conta. Com a popularização do comércio, o empresário decidiu investir na marca Box 32 para agregar confiança e referência de qualidade. Em vez de abrir filiais, ele procurou multiplicar a marca dentro dela mesma. Hoje são mais de 30 produtos com o nome Box 32, como cachaças, espumantes, vinhos e pimentas. Os números impressionam: são mais de 10 mil vidros de pimentas vendidas por ano, 500 quilos de recheio de camarão na alta temporada e mais de 12 milhões de atendimentos no balcão ao longo de 31 anos, de acordo com Beto. Beto Barreiros, proprietário do box 32 bruno ropelato/nd Na internet Assista ao depoimento em vídeo Presente e futuro. Há 31 anos no Mercado Público, Beto Barreiros consolidou a marca e agora projeta a transição para os dois filhos Previsão de entrega do Mercado era para março, depois para junho e, após reunião com Associação de Comerciantes, entrega ficou para 5 de agosto. Prevista para estar pronta junto com a ala sul, a cobertura retrátil do vão só deve ficar pronta em dezembro de 2015. Obras começam em 7 de junho. Reabertura do Mercado Público de Florianópolis. Os mercados pelo mundo O convívio com o Mercado desde pequeno foi fruto da influência do avô de Beto, o manezinho Barreiros Filho, que o levava aos domingos para a missa na Catedral e, depois, para fazer compras no Mercado Público. Além do gosto pela gastronomia, o avô dizia ao neto que quando crescesse deveria visitar os mercados dos lugares por onde viajasse, pois neles encontraria todos os segmentos da sociedade. “Conheço mercados de 34 países e todos são iguais por dentro, não importa o desenvolvimento do país, ou seja, todos representam a sociedade local”, diz Beto. A dedicação ao longo de mais de 30 anos será renovada com a restauração que, para Beto, era necessária na infraestrutura e no mix de produtos. “O Mercado será referência no Brasil quando estiver pronto. O mix agora ficou muito bom. Estimo que em dois anos deva haver, naturalmente, mudanças. Vai ter dois anos de lapidação e vai se firmar”, prevê o comerciante, que já projeta a transição do negócio para os dois filhos nos próximos anos. notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 NO NOVO MERCADO PÚBLICO VOCÊ ENCONTRA DE TUDO. ATÉ SOLUÇÕES PARA A SUA EMPRESA. NOVO PONTO DE ATENDIMENTO DO SEBRAE, BOXES 47 E 48 DO MERCADO PÚBLICO DE FLORIANÓPOLIS. /sebraesc @Sebrae_SC Nosso Mercado 19 20 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 bruno ropelato/nd Troca de experiências VIVIANE DE GÊNOVA [email protected] @ND_online Na internet Assista ao depoimento em vídeo O comerciante Ronaldo Oliveira, 47 anos, não esconde o orgulho em dizer que é nativo da Ilha, característica que lhe proporciona grande conhecimento em um dos alimentos mais típicos da região: os pescados. E não é à toa que ele conhece tão bem esse tipo de culinária, já que o pai, Adúcio Vitor de Oliveira, 76, foi pioneiro na venda de peixes no Pântano do Sul. Apesar dos negócios irem bem naquela região, a localização do Mercado Público, no Centro, pesou na decisão que fez a família transferir a Pescados Oliveira para o prédio histórico, há 30 anos. E não houve nenhum arrependimento. Ronaldo é quem administra hoje a peixaria com o irmão, Rodrigo, 35. “Meu pai ainda gosta de vir na peixaria, mas não é mais como antes. Hoje, somos nós dois que tocamos o comércio. Desde cedo aprendemos a negociar peixes e ganhamos grande conhecimento nessa área”, diz Ronaldo. Aliás, a experiência é tão grande que um dos maiores prazeres de Ronaldo é dividir com os clientes tudo o que sabe sobre peixes. “Sempre tem alguém que quer saber qual peixe é melhor para servir em determinado encontro, de qual maneira. Aí a gente orienta, fala a quantidade, o preparo, os acompanhamentos. É uma satisfação poder compartilhar o que sabemos com nossos fregueses”, conta. Ronaldo comemora as grandes conquistas que o Mercado proporcionou à família. “Sou ‘filho’ dessas paredes amarelas, é daqui que meu pai sustentou a família e eu também. Um lugar que sempre foi pura diversão, brinco com os clientes, com os comerciantes. A concorrência é saudável. Mesmo que tenha outras peixarias, somos todos amigos”, garante o comerciante, que completa 25 anos de Mercado. Sou ‘filho’ dessas paredes amarelas, é daqui que meu pai sustentou a família e eu também sustento. Experiência. Com 25 anos de Mercado, Ronaldo gosta de dividir o conhecimento sobre pescados com os clientes Ronaldo Oliveira, proprietário da pescados oliveira flávio tin/nd Lembranças e visitas ilustres Na internet Assista ao depoimento em vídeo Em 40 anos de Mercado, o que não faltam são histórias para contar. O comerciante Aldo de Brito, do Bazar Brito, se empolga ao falar dos inúmeros eventos no prédio histórico, de visitas ilustres, desde artistas, turistas a políticos. “Quando cheguei ao Mercado, meu box ficava a 20 metros do mar. Ali, o governador Colombo Salles desembarcava com frequência, na década de 70, e cumprimentava todo mundo. Ele era humilde, simpático. Vendi muitas camisas para ele”, lembra. “Já o Cesinha [o prefeito Cesar Souza Júnior] conheço desde criança. O pai dele (o deputado federal Cesar Souza) vinha sempre pra cá. Uma vez vi aquele menino tão novinho lendo um jornal. Tive certeza de que também seguiria os passos do pai e hoje é o prefeito que conseguiu essa grande obra”, ressalta. Entre as lembranças, Aldo também cita o grande comércio de hortifrútis e pescados que eram trazidos em embarcações de outros pontos da Ilha. “Vinham verduras, frutas e legumes, tudo fresquinho. Dos boxes para a mesa dos consumidores. Os barcos descarregavam os peixes direto no Mercado. Um pouco da pesca ficava por aqui e o restante seguia para São Paulo e Rio de Janeiro”, conta. Os anos se passaram e as mudanças no Mercado ficaram evidentes, mas não tiraram o zelo e a dedicação que Aldo, aos 76 anos, tem pela loja de materiais esportivos. O comércio, que foi comprado nos anos 70, agora fica na lateral do Mercado, na rua Conselheiro Mafra. Hoje quem cuida do negócio é o filho Aldonei, presidente da Associação dos Comerciantes. Aldo agora se considera um ajudante, mas sempre com boas histórias para contar aos clientes. (Viviane de Gênova) Quando cheguei ao Mercado, meu box ficava a 20 metros do mar. Verduras, frutas e pescados eram trazidos por embarcações. Aldo de Brito, proprietário do bazar brito Ligação com o Mercado. Aos 76 anos, Aldo sempre tem boas histórias para contar aos clientes notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 bruno ropelato/nd Encontro de Nosso Mercado 21 descendentes VIVIANE DE GÊNOVA [email protected] @ND_online Na internet Assista ao depoimento em vídeo Manoel Guimarães, 35 anos, era ainda pequeno quando a mãe, Ana Maria, 67, começou a utilizar o espaço do Mercado Público para ajudar no sustento da família. No início, ela vendia verduras, negócio que durou pouco tempo. Em cinco anos, Ana Maria arriscou abrir a Peixaria Guimarães. E o comércio deu tão certo que dura até hoje, 44 anos depois. Ana Maria, no entanto, se aposentou cedo. Há 15 anos, ela passou a administração da peixaria para Manoel. “Ajudava a atender, vender e fui aprendendo, conhecendo os fregueses. Quando eu era criança, o processo dentro da peixaria era diferente. Os balcões ficavam com os peixes expostos para o cliente mesmo escolher, as balanças eram de relógio. Hoje está tudo mais moderno, higiênico. Mas o prazer de atender o cliente, esse continua”, acentua Manoel. Nem mesmo o passar dos anos foi capaz de apagar a fidelidade dos clientes e fornecedores que faziam o comércio com Ana Maria. “Alguns já morreram, outros não podem vir ao Mercado por causa da idade, mas o contato agora é feito com os filhos, tanto na compra como na venda do peixe. É muito gratificante ver como as gerações se encontraram. Hoje atendo aos filhos e netos do pessoal que minha mãe atendia e de quem comprava”, conta. Para Manoel, a restauração do Mercado trará uma clientela maior e ainda mais fiel. “O Mercado terá cara nova, mas sem perder as características originais. As peixarias que permaneceram até hoje mantiveram a cultura de trazer o pescado fresquinho ao cliente, sem deixar de evoluir. Outra vantagem agora é que ganharemos um selo de inspeção estadual, o SIE, que nos deixa aptos a comercializar para o Estado inteiro. Só temos motivos para comemorar”, diz. “Aqui é a minha casa, onde cresci e trabalhei durante toda a vida. Não via a hora de voltar”, finaliza. Aqui é a minha casa, onde cresci e trabalhei durante toda a vida. Não via a hora de voltar. Expectativa. Para Manoel, o novo Mercado terá uma clientela maior e ainda mais fiel Manoel Guimarães, proprietário da peixaria guimarães flávio tin/nd De açougue a armazém Na internet Assista ao depoimento em vídeo O brilho nos olhos ao falar do negócio que a família abriu em 1967 revela o sentimento que o comerciante Nelson Luiz da Silva, 52 anos, tem pelo Mercado Público. Ele administra o Empório Mania da Ilha, com o irmão Inácio Silvino da Silva Júnior, 44, e lembra, “como se fosse ontem”, da época em que era possível ver o mar bem ao lado do prédio histórico, antes do aterro. O outro Inácio, o pai, morreu há três anos, mas deixou o legado da administração desde cedo à família. “Era tudo muito lindo e alegre. Eu tinha 9 anos quando comecei a ajudar meu pai na loja, então vi de perto toda a evolução por qual passaram Mercado e comerciantes. Meu irmão também veio pequeno pra cá, com uns 10 anos. Conhecemos a todos e a tudo”, conta. Embora a família tenha o ponto no Mercado há 48 anos, o Empório Mania da Ilha só se tornou armazém há 20 anos. Quando a família retornou a Florianópolis, em 1962, após passar uma temporada em Santos (SP), arriscou as fichas – e o dinheiro – em um açougue. Com o passar dos anos, no entanto, a família Silva foi adequando o comércio às necessidades da clientela. Os proprietários passaram de açougue a banca de revista, revenda de flores e a outras opções até chegar ao conhecido armazém do box 3 da ala sul. Aliás, a localização foi tradicionalmente mantida durante todos esses anos e transformações. “Logo que saiu a licitação, corremos para garantir o mesmo ponto. Foram tantos anos, tantas mudanças, sempre no mesmo lugar. É um sentimento de gratidão”, diz Nelson. Ele fez questão de cuidar pessoalmente da reforma do box. (Viviane de Gênova) Tinha 9 anos quando comecei a ajudar meu pai. Vi de perto toda a evolução do Mercado. Nelson Luiz da Silva, proprietário do empório mania da ilha Transformações. Nelson tem um sentimento de gratidão por tantos anos no Mercado 22 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 bruno ropelato/nd A tradição do caldo de cana VIVIANE DE GÊNOVA [email protected] @ND_online Na internet Assista ao depoimento em vídeo Um carrinho construído com madeira de eucalipto, que tem um antigo moedor manual de cana, é o diferencial do Caldo de Cana do Badu, como é conhecido Amarildo Alberto Elias, 53 anos. Orgulhoso, ele construiu o carrinho que ficará exposto no novo box 28 da ala sul e ainda mostra o que considera uma relíquia: uma roda de ferro de mais de 40 anos de história no próprio Mercado Público. Badu conta que praticamente nasceu no prédio histórico da Capital. Seu pai, Alberto Luiz Elias, 88, começou vendendo verduras no Mercado há 58 anos, o que teria feito Badu e os oito irmãos descobrirem desde cedo o talento para o comércio. “Primeiro foram só as verduras, mas, com nove filhos para criar, a renda ainda estava pequena. Foi aí que um administrador do Mercado cedeu um espaço a mais para o meu pai vender caldo de cana. Foi o que salvou nossa família e garantiu nosso sustento”, diz. Com o tempo, o box da família passou a vender também artesanatos e deixou de comercializar as verduras, mas a tradicional bebida continua até hoje sendo o ganhapão de parte da família Elias. O pai não administra mais o comércio, que se dividiu em dois, administrados por Badu e outro irmão, um em cada ala. Mesmo ansioso pela reinauguração da ala sul, Badu não esconde a emoção de falar sobre a restauração do Mercado. “Para mim, o Mercado é uma segunda casa, um lugar inesquecível para a minha história e de minha família. Apesar de nunca achar que esteve abandonado, a licitação veio na hora certa. E a conquista não é só dos comerciantes, mas de toda a população, que merece ter um prédio novo que levará o nome da cidade a nível mundial”, afirma. Ansiedade. Badu construiu o carrinho que ficará no box 28 da ala sul, com uma roda de ferro que tem mais de 40 anos Quando um administrador do Mercado cedeu um espaço para o meu pai vender caldo de cana, isso garantiu o sustento da família. Amarildo Alberto Elias, proprietário do caldo de cana do badu flávio tin/nd Negócios em família “Eu olho essa reforma como se fosse na minha casa. Sei que o Mercado não é meu, mas o sentimento de amor, o desejo de que dê tudo certo, é como se fosse. É uma conquista”. Pelo depoimento emocionado de Pedro Alberto Elias, 57 anos, proprietário da loja Pedrinho Calçados, é possível perceber o carinho que o comerciante tem com o prédio histórico, local que frequenta diariamente desde os 9 anos. “Meus pais começaram a vender verduras aqui em 1961 e logo que cresci um pouquinho comecei a ajudar. Somos nove irmãos e todos aprenderam a lidar com vendas. Em 1982, comprei a minha própria loja, a Pedrinho Calçados”, conta. A aptidão para o comércio envolve toda a família. Inspirados pelos pais, os nove irmãos têm negócios próprios, quatro deles instalados no Mercado. Mas, apesar de ter aprendido os macetes da administração desde cedo, Pedro contou com a ajuda da mulher para mergulhar de cabeça no empreendimento. “Estamos casados há 37 anos, 33 deles dentro da loja. E sabe que não fico mais sem ela? Se por algum motivo preciso ir para casa sozinho, sinto a falta dela”, declara. O sentimento de Lúcia Guesser Elias, 55, é recíproco. “Juntos, baseados no amor, passamos por momentos alegres e difíceis, como o incêndio em 2005, e conseguimos nos reerguer. Tudo através de muita garra, determinação e humildade”, diz Lúcia. E se em todos esses anos restou um sentimento ao casal, é o de gratidão. “O Mercado é a minha vida. Meus pais criaram todos os filhos aqui. Minha mulher e eu também criamos o nosso filho. Só temos a agradecer”, afirma Pedro. (Viviane de Gênova) O Mercado é a minha vida. Meus pais criaram todos os nove filhos aqui. Eu e a Lúcia também criamos nosso filho. Pedro Alberto Elias, proprietário da pedrinho calçados Com amor. Lúcia e Pedro, casados há 37 anos, comandam a loja com determinação e humildade notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 flávio tin/nd Uma história de Nosso Mercado 23 68 anos Bazar Mansur, que começou a vender armarinhos, faz sucesso com alumínio FELIPE ALVES [email protected] @felipealves_ND Na internet Assista ao depoimento em vídeo A placa de ferro que identifica o Bazar Mansur do lado de fora da ala sul descortina uma história de 68 anos no Mercado Público e de quase um século no comércio de Florianópolis. Ali trabalha Marlene Mansur de Moraes, 76 anos, responsável por perpetuar a tradição familiar que começou na década de 1900, quando os avós, fugidos do Líbano, vieram morar em Florianópolis. Instalado em Santo Antônio de Lisboa, o casal viajava diariamente a pé para comprar e vender no Centro da cidade. Os avós de Marlene, então, decidiram mudar para o Centro e abriram a Casa Esperança, comércio mantido na rua Conselheiro Mafra, 92, até a década de 1940. Foi ali que a placa de ferro, que hoje é uma das relíquias do Mercado, foi produzida, em 1927. Foi repintada em 1947, quando o pai de Marlene, Gedeão Mansur, comprou da prefeitura a permissão para explorar o box comercialmente. E lá se vão 68 anos da família Mansur no Mercado. Cirurgiã-dentista aposentada, Marlene decidiu tomar conta dos negócios em 2000, depois que o pai morreu e a irmã ficou doente. Ela lembra como a história dele se misturou à do Mercado e da cidade. “Ele era mascate, vendedor ambulante, viajava pela Ilha a pé e ia para Águas Mornas e Santo Amaro da Imperatriz para vender”, conta. Goteiras alteraram o ramo do negócio A princípio, Gedeão Mansur começou a vender o que já estava acostumado: os chamados armarinhos, pequenas peças para a confecção de roupas, como botões, linhas, agulhas de máquina e de mão, cintas e suspensórios. Ele decidiu então apostar na venda de seda para aumentar o lucro. Mas a ideia logo foi descartada, pois as incontáveis goteiras dentro dos boxes molhavam e encurtavam os tecidos. Tentou as louças, mas a dificuldade em mantê-las inteiras também se mostrou uma má ideia. Com o advento do alumínio no país, na década de 1950, Gedeão trouxe os primeiros utensílios para Florianópolis e logo fez sucesso. “Ele ficou conhecido como o rei do alumínio. Até então, as panelas eram de barro e ferro, e as donas de casa adoraram o alumínio. Ali ele acertou de vez”, diz Marlene, que tem o desafio de dar continuidade à herança da família pelos próximos 30 anos no box 29 da ala sul. Tradição familiar. Marlene comanda os negócios que começaram com a vinda dos avós, fugidos do Líbano 24 Nosso Mercado notícias do dia Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015 Um ponto de encontro para pessoas. Um ponto turístico para a cidade. Um ponto de referência para nós. Parabéns ao Mercado Público pelos seus 117 anos e obrigado por nos inspirar a realizar grandes obras. Av. Othon Gama D’Eça - Centro PLANTÃO (48) 3222-0707 wokcenter.com.br WOK Incorporadora Ltda. Registro Incorporação - Matrícula nº 74.918 - 1º Ofício de Registro de Imóveis. Florianópolis/SC. CRECI 2227-J. A Koerich Imóveis informa que móveis e objetos têm caráter ilustrativo, bem FRPRVHUHVHUYDRGLUHLWRGHDOWHUDUDVHVSHFL¿FDo}HVGHVWHPDWHULDOSXEOLFLWiULRSUHYDOHFHQGRDVFRQGLo}HVLQIRUPDGDVQRDWRGDYHQGDHHVWDEHOHFLGDVHPFRQWUDWR7RGDVDVLPDJHQVVmRPHUDPHQWHLOXVWUDWLYDV