marco santiago/nd
Florianópolis, 5 de agosto de 2015
Tudo novo no
Mercado
Reabertura após 19 meses de restauração do prédio é um
momento especial para Florianópolis, que recebe de volta
um de seus maiores patrimônios históricos e culturais
2 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
flávio tin/nd
Ala sul.
Tradição
mantida com
paredes
amarelas
e portas e
janelas verdes
especial
A Prefeitura de Florianópolis entrega o novo
Mercado Público, mais seguro, moderno e
confortável, sem perder os laços com a tradição
Dezenove meses depois do início da restauração das alas norte e sul e ainda com
melhorias sendo executadas no vão, o Mercado Público de Florianópolis reabre totalmente nesta quarta-feira em grande estilo.
A festa de reinauguração começa às 11h, em
uma estrutura montada no Largo da Alfândega, e só terminará com a apresentação do
grupo Revelação, às 20h30. Durante todo o
dia, haverá apresentações culturais, musicais e shows de humor.
Para o prefeito Cesar Souza Júnior
(PSD), este é um momento especial para
a cidade, que recebe de volta um de seus
maiores patrimônios históricos totalmente
reformado e com mix ocupação atualizado
– são 104 boxes, 36 na ala sul e 68 na ala
norte, e mais 13 espaços que são utilizados
como serviços públicos. Segundo o prefeito,
o maior desafio foi adequar uma estrutura
do século 19 às normas do século 21. “Não
é uma obra feita de concreto, de madeira, e
sim de emoção, de coração, de identidade e
amor a Florianópolis”, disse.
Foram gastos R$ 14,8 milhões nas
obras. O Mercado Público passou por um
profundo trabalho de recuperação, que
começou em 18 de novembro de 2013. O
prédio histórico teve que ser praticamente
reconstruído, preservando-se os mesmos
conceitos arquitetônicos antigos. Algumas
paredes de tijolo maciço foram preservadas, mas foi necessário fazer reforço estrutural, renovar as instalações elétricas
e hidráulicas, assim como telhados, pisos,
portas, janelas e pintura.
Mas para a Capital ter o Novo Mercado,
foram necessárias duas licitações para ocupação dos boxes. Durante esses processos,
ocorreu o envolvimento da CDL (Câmara de
Dirigentes Lojistas) de Florianópolis, responsável por uma ação conciliadora e aglutinadora de forças. O trabalho da entidade e
da prefeitura foram fundamentais para esta
nova fase do Mercado. A revitalização também foi uma bandeira do ND nos últimos
cinco anos. As gambiarras, a inadimplência
com aluguéis, os puxadinhos e a desorga-
casa da memória/nd
Um presente
Duas alas. Foto de 1920 mostra o vão utilizado como uma
rua comum, na qual pessoas, carroças e carros de boi
compartilhavam o espaço
nização ficaram para trás. A partir desta
quarta-feira, o Mercado Público vira uma
página e retoma o status de ser a referência
dos manezinhos, moradores e turistas.
As mudanças estruturais e visuais incluíram reforma e mudanças de paredes,
telhados, portas e pisos; rede elétrica, hidrossanitária e preventivo de incêndio;
padronização dos boxes; e um mix de comércios reformulados para abrigar 54 tipos
de atividades sem perder as características
que tornam o Mercado parte da essência e
da história de Florianópolis. É um espaço
de encontro e convivência para quem vive
a cidade, ponto de identificação cultural, local de momentos históricos e de referência
de moradores e turistas.
Nas próximas páginas desse caderno
especial, há muitas histórias, do Mercado
e dos comerciantes, e perspectivas para
o futuro. São fatos e pessoas que eternizaram o Mercado e continuarão fazendo
parte do dia a dia dos frequentadores do
prédio histórico.
Na internet
Veja no blog
NDOnline
vídeos e o
mapa interativo
do Mercado.
Acesse em
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(48) 3251-1440 – Avenida do Antão, 1857 – CEP 88025-150 – Florianópolis – Santa Catarina
Edição: Rodrigo Lima Diagramação e infografia: Cristiane Severino Edição de fotografia: Joyce Reinert Redação: Florianópolis ( 48) 3251-1438 Departamento Comercial: Florianópolis (48) 3212-4104
notícias do dia
Nosso Mercado 3
A referência da Capital
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Desenvolvimento da cidade tem relação direta com a história dos comerciantes
@pc_ND
A história do Mercado Público
começa com o anúncio da visita do
imperador D. Pedro 2o a Florianópolis, em 1845. A primeira medida
tomada pelas autoridades do Desterro foi mandar para o outro lado
do rio da Bulha (o canal da atual
avenida Hercílio Luz) as barraquinhas que comercializavam pescados e alimentos na praça central,
vizinha do palácio do governo. Até
então, na área próxima à Catedral
se aglomeravam mascates, oleiros, pescadores e colonos que vendiam, em condições precárias, sua
produção aos moradores da ainda
incipiente vila à beira-mar.
Foi nesse ambiente que a cidade começou a discutir a necessidade de erguer um edifício que abrigasse os comerciantes. Jornais e
• Continua na página 4
as poucas pessoas influentes do
Desterro se envolveram numa polêmica sobre a localização do Mercado. A decisão recaiu sobre uma
área no largo do palácio, próxima
ao ponto onde fica hoje a praça
Fernando Machado.
Em 5 de janeiro de 1851, o
Mercado Público foi inaugurado,
organizando o caótico comércio de
víveres na Ilha, que crescera como
abastecedora dos navios que seguiam em direção ao rio da Prata e
ao Pacífico. Com o crescimento da
população e das atividades comerciais e portuárias, nem o Mercado,
nem o Galpão do Peixe, construído
como solução alternativa, davam
mais conta do movimento. Em
1895, com a cidade rebatizada com
o nome de Florianópolis, começou
o debate sobre a construção de um
novo mercado. Em 5 de fevereiro
de 1899, a ala norte foi entregue,
no Largo da Alfândega.
Sem aterro.
O novo Mercado, inaugurado
em fevereiro de 1899, era
diretamente ligado ao mar
casa da memória/nd
Paulo Clóvis Schmitz
[email protected]
4 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
flávio tin/nd
Restaurada.
Ala norte
abriga
comércios
tradicionais,
como bazares,
empórios
e lojas de
calçados
DE PORTAS ABERTAS
Números do Mercado
Dos 104 permissionários, 58 já
estavam no Mercado e 46 são
novos
A ala sul tem 38 boxes, sendo
que 35 são de comerciantes (um é
a sede da Caisc – Casa dos Açores
da Ilha de Santa Catarina – e outros
dois são banheiros). Na ala norte,
são 78 boxes, sendo 68 de
permissionários (dois são banheiros,
dois para entidades de assistência
social, dois do Sebrae, três da
prefeitura – um é o museu – e outro
é a zeladoria do Mercado)
Horário de funcionamento
O Mercado funciona das 7h
Não demorou para que o prédio pedisse as primeiras
reformas e adequações, e depois se mostrasse também
incapaz de dar conta das demandas de uma cidade em
expansão. Em 1931, a ala sul foi erguida para abrigar
boxes para a venda exclusiva de pescados e de carnes.
Àquela altura, a cidade já se ligara definitivamente ao
Estado por meio da ponte Hercílio Luz, tinha canalizado
o rio da Bulha e ganhado as primeiras redes de água
encanada, energia elétrica e saneamento básico.
Aterro
Em tudo o que acontecia na cidade, o Mercado
Público acabava sendo afetado, mas nada se comparou
à construção do aterro da baía Sul, durante o governo
de Colombo Machado Salles, nos anos 70. Até 1974, as
embarcações que traziam o pescado e outros alimentos
encostavam no trapiche principal e em atracadouros
menores, junto à rua Francisco Tolentino. Com o
aterro e a ponte Hercílio Luz já sobrecarregada, a nova
travessia absorveu o papel que o transporte marítimo
desempenhara até ali como meio de abastecimento do
Mercado. A ponte que levou o nome do ex-governador foi
inaugurada em 8 de março de 1975.
Com os anos 80, veio uma redefinição de conceitos
para o Mercado, embora isso tenha ocorrido de forma não
planejada e sistemática. Bares e outros tipos de comércio
deram ao espaço um perfil mais cosmopolita e o inseriram
definitivamente no roteiro turístico da Capital.
Reformas
Os anos seguintes foram marcados por várias
reformas emergenciais, a criação de uma associação dos
varejistas do Mercado, o tombamento do prédio como
patrimônio histórico municipal e a instalação do bar Box
32, do comerciante Beto Barreiros, que dividiu os lojistas,
mas se tornou um espaço conhecido em todo o Brasil.
A nota triste da fase mais recente foi o incêndio que
destruiu grande parte da ala norte, em agosto de 2005.
Nos anos subsequentes à reconstrução, a casa passou
por turbulências, com denúncias de não pagamento de
aluguéis e transferências irregulares de posse dos boxes.
Foi o estopim para a transformação em curso.
Restauração concluída
Um novo Mercado Público totalmente revitalizado
reabre nesta quarta-feira, depois de reformas nas alas sul
e norte e no vão. O novo mix de comércios reformulados
abrigam 54 tipos diferentes de atividades, sem perder as
características que tornam o Mercado parte da essência e
da história de Florianópolis.
A revitalização do Mercado é uma bandeira do ND há
mais de cinco anos. A casa reabre com a finalização de um
processo polêmico, que se arrastou por mais de sete anos,
e que resultou na primeira licitação para ocupar os boxes
do prédio histórico e uma reforma completa em mais de
cem anos de atividades. Foram gastos R$ 14,8 milhões no
profundo trabalho de recuperação, que começou em 18
de novembro de 2013.
fotos casa da memória/nd
às
19h em dias úteis e das 7h às
14h aos sábados. Os bares podem
funcionar em dias úteis até as 22h
A ala sul
e, nos fins de semana e feriados, até
as 17h.
Os comércios abrirão no último
domingo de cada mês, para
avaliação do movimento. Conforme
for a avaliação dos comerciantes, o
Mercado Público poderá abrir todos
os domingos. Banca de peixes. Frequentadores compram pescados em 1977
Década de 80. Uma das tantas pequenas reformas do Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Nosso Mercado 5
6 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
fotos carlos damião/nd
Memória de um dia trágico
Fragilidade. Fogo começou após o manuseio errado de uma frigideira em restaurante da ala norte
Fumaça negra. População acompanha combate a incêndio que parou a cidade, há quase dez anos
Em 19 de agosto de 2005, ala norte era inteiramente destruída por um incêndio
CARLOS DAMIÃO
[email protected]
@damiao_ND
Oito horas e vinte minutos de
uma sexta-feira, 19 de agosto de
2005. Trabalhava em casa desde
as 7h, com o radinho sintonizado
numa emissora de radiojornalismo. Foi assim que soube do incêndio na ala norte do Mercado
Público. Peguei minha câmera
digital, que não tinha muitos
recursos técnicos, e corri para a
região do Mercado. No caminho
era possível ver a densa fumaça
negra. Assim escrevi no blog que
mantinha à época:
Incêndio
O incêndio no Mercado Público de Florianópolis, que começou às 8h20 da manhã de
hoje (19/8/2005) e ainda não
foi dominado, parou a cidade.
Há anos que se diz que o monumento histórico precisaria de
uma reforma completa, com a
eliminação de tudo que pudesse
representar risco à sua estrutura. Um prédio centenário como
aquele não poderia ter tantas
lojinhas, restaurantes, lanchonetes, casa de fogos de artifício
Após várias interrupções nas obras, o
Mercado Público é inaugurado no largo
do palácio do governo, ao lado da atual
praça Fernando Machado, à beira-mar.
e coisas do gênero. Tudo errado,
tudo inflamável, tudo amadorístico. O Mercado é um símbolo
de Santa Catarina. Foi construído em 1898, em substituição ao
chamado Mercado velho, que
curiosamente foi destruído por
um incêndio em 1895.
Lágrimas
Havia gente aos prantos, especialmente pessoas mais velhas,
acompanhando o trabalho heroico dos bombeiros e de populares.
Do edifício ARS, que fica ao lado,
funcionários usavam mangueiras domésticas para ajudar e
também resfriar as paredes do
prédio. Vereadores, secretários
municipais, comerciantes, estudantes, aposentados, todos assistiam estarrecidos às cenas.
Maledicência
A maledicência, característica
do manezinho, não poderia estar
ausente. O que mais se ouvia eram
coisas do gênero:
– Cadê o Dário (prefeito)? Tá
no Chile, com o Luiz Henrique...
(O prefeito faz parte da comitiva
do governador e anunciou que está
voltando à cidade com urgência).
– Onde já se viu faltar água em
hidrante?
– Madeira velha, fiação velha,
telhas velhas, tudo velho. Nunca
fizeram uma reforma decente.
Atualização
No mesmo dia 19/8/2005, atualizei as informações:
“Não houve vítimas. Prejuízos
são materiais, e os danos, imensos, mas é possível recolocar tudo
em ordem num prazo médio de
tempo. Espera-se que a prefeitura
reveja todos os alvarás dos boxes.
Um prédio daquela importância
não pode ficar à mercê de liquinhos e lojas de fogos de artifício”.
Fotos
Nunca, na história de Florianópolis tanta gente fotografou
um acontecimento do gênero.
Câmeras digitais dos mais variados tamanhos, celulares com
câmeras, fotógrafos profissionais
e amadores amontoavam-se em
todos os cantos para captar os
melhores ângulos do incêndio.
O “Novo Mercado” é inaugurado ao lado
do largo da Alfândega, onde está até hoje.
Escombros. Imagem feita de prédio ao lado do Mercado revela destruição da ala norte
É entregue a ala sul. A ala norte ficava à rua
Conselheiro Mafra, e as ondas chegavam até onde
está o vão. Para viabilizar a segunda etapa foi preciso
construir um aterro que avançou sobre o mar.
São instaladas câmaras frigoríficas que permitem o
armazenamento seguro de pescados e carnes. Até ali, o que não
era vendido até o início da tarde precisava ser inutilizado com
creolina, o que gerava prejuízos e encarecia o preço dos produtos.
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Nosso Mercado 7
História de paixão e dedicação
Fatos engraçados e muitos desafios marcam a trajetória de Orestes Melo no Mercado
@damiao_ND
Trinta e oito anos de Mercado Público, 22 deles como
administrador. Foi, aliás, o administrador que mais tempo
ficou no cargo. Orestes Melo
também presidiu a Associação
de Varejistas e Comerciantes
do Mercado Público, da qual se
desvinculou em 2011.
Como não poderia deixar de
ser, Orestes define sua longa duração com o Mercado como uma
história de amor, paixão, dedicação, superação e determinação.
“Vencemos muitos desafios ao
longo desse tempo. E achamos
mesmo que estava na hora de o
prédio – o espaço em si – ganhar
uma nova paginação, com mais
segurança para os comerciantes e frequentadores”, diz. “Só
não gostei do Bob’s dentro do
Mercado Público, porque é um
tipo de estabelecimento que não
combina. Falta, por exemplo,
um restaurante que sirva o pi-
rão com peixe frito, uma atração
típica de Florianópolis, da qual
os turistas e moradores gostam
muito”, acrescenta.
Orestes lembra que a cobertura do vão não é uma ideia de
hoje, foi desenvolvida primeiramente em sua gestão na administração do Mercado, durante o
governo de Angela Amin (19972004). “Só não levamos adiante
porque não conseguimos fechar
a parceria. Por isso o projeto foi
deixado em segundo plano. E
fico feliz que a nossa ideia esteja sendo desenvolvida pela atual
gestão da cidade”, observa.
Não faltam boas lembranças,
histórias engraçadas, momentos
marcantes. “Por ser um espaço
de convivência dos moradores e
dos turistas, o Mercado Público
sempre foi o centro de convergência das fofocas, das notícias,
das novidades, naqueles tempos
em que não havia internet e as
pessoas queriam saber quem
tinha morrido, casado, divorciado, viajado etc.”, recorda o exadministrador.
marco santiago/arquivo/nd
CARLOS DAMIÃO
[email protected]
Apoio. Orestes, administrador durante 22 anos, mobilizou os
comerciantes e impediu manobra para acabar com o Mercado
Tombamento para
evitar venda do prédio
Um dos casos relevantes ocorreu
em 1984. Conforme Orestes Melo,
havia à época uma especulação,
de que a prefeitura, para fazer
caixa, colocaria o prédio do
Mercado à venda. “Descobrimos
que o prédio não era tombado
como patrimônio histórico.
Mobilizamos os comerciantes,
fomos à Câmara e conseguimos
apoio para o tombamento, que de
fato ocorreu, impedindo qualquer
manobra oficial para acabar o
edifício e com as atividades”.
Vitoriosa a empreitada, Orestes
foi comunicar o fato aos donos dos
boxes: “Olha, pessoal, o prédio
vai ser tombado. Lá do fundo, um
peixeiro berrou – ‘Ai, meu Deus,
que desgraça. Qual lado vai tombar
primeiro?’”. Orestes, que sempre
preferiu “perder um amigo a perder
a piada”, gritou de volta: “O lado das
peixarias”. Foi uma gargalhada geral,
até que o comerciante entendesse
o real sentido do tombamento. 8 Nosso Mercado
Foco de todas as atenções
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Tradicional ponto de encontro na rotina dos florianopolitanos
bruno ropelato/nd
PAULO CLÓVIS SCHMITZ
[email protected]
pc_ND
Diretor de comunicação da Acif (Associação Comercial
e Industrial de Florianópolis), o jornalista Manoel Timóteo
de Oliveira exibe uma publicação de 1928 com os “indicadores” da cidade, ou seja, dados sobre as empresas, o número
de estabelecimentos comerciais, os hotéis e restaurantes em
operação e muitas outras informações, incluindo atividades
dos clubes sociais e anúncios de jornal, que dão uma ideia
do que era a capital catarinense na época. Entre esses dados
aparece a lista dos dez açougues que funcionavam no Mercado Público, em espaços então não chamados de “boxes”,
mas de “compartimentos”.
Naqueles anos, uma ocupação corriqueira era a dos carregadores que entregavam para as famílias mais abastadas
as compras feitas no Mercado Público. Um dos mais ativos
se chamava Benjamim José Pereira, que servia à família
Bulcão Vianna. No final da década de 1920, o Mercado era
administrado por Propício Seara, o prefeito da cidade era
Heitor Blum (que já havia sido presidente da Acif) e o Estado era governado por Adolpho Konder.
A situação do Mercado, tradicional centro de compras da
Capital, sempre esteve entre as preocupações das entidades
representativas do comércio na Ilha. Em 1998, sob a presidência de Vinícius Lummertz, a Acif, por meio de um núcleo
coordenado pelo comerciante Beto Barreiros, tentou promover uma reorganização das atividades do Mercado, que já
apresentava inúmeros problemas de estrutura, risco de incêndio em vista da precariedade das instalações elétricas e
improvisações que cada lojista fazia por conta própria.
Divididos, os comerciantes não quiseram mudar as práticas e nem discutir a implantação de um novo mix, proposta pela Acif e que agora, finalmente, se concretiza. O noticiário da imprensa falava das propostas do núcleo setorial
do Mercado e das reuniões que envolviam diferentes órgãos
nas áreas de planejamento urbano, turismo e segurança
pública. Os bombeiros chegaram a sugerir a instalação de
uma central de gás, porque os botijões eram individuais e
poderiam provocar – como de fato aconteceu em agosto de
2005 – uma tragédia de grandes proporções.
O Mercado nas ondas do rádio
Aos 65 anos, Manoel Timóteo, conhecido
como Maneca, pertence a uma família que
incluía na rotina visitas quase diárias ao
Mercado Público. Nascido na rua Menino
Deus, próximo ao Hospital de Caridade, ele
viu seus pais comprarem carne sempre nos
açougues da casa – como até hoje fazem
as pessoas que não se acostumaram com
os açougues dos supermercados. Seu avô
paterno foi funcionário da Alfândega, e
o avô materno, que era pescador, trazia
Época movimentada no Mercado Público ficou marcada pelas
feiras de produtos coloniais. Os colonos chegavam às segundas
e terças e se instalavam na pensão Kowalski, que depois abrigou
o restaurante Pirão. As embarcações ficavam ancoradas nos
trapiches ou afixadas com poitas no largo da baía Sul.
Lembranças.
Manoel
Timóteo, o
Maneca, tem
uma forte
ligação com
o Mercado
Público
peixes de barco para o Mercado, levando
de volta os mantimentos de que a família
necessitava para passar a semana. “Minha
mãe, filha de pescador, era respeitada pelos
peixeiros, porque não podia ser enrolada
facilmente por eles”, conta Maneca.
Uma das figuras que tiravam dali a sua
matéria-prima era o radialista Dakir Polidoro,
que no programa “A Hora do Despertador”, na
rádio Guarujá, dava notícias sobre as novidades
e fatos relacionados ao Mercado nas primeiras
A construção do aterro da baía Sul e da ponte Colombo
Salles mudou para sempre a área onde está o Mercado.
A partir dali, tudo o que era abastecido por barcos e
carroças até 1974 passou a chegar de caminhão e
outros veículos de menor porte.
horas do dia. Ele criou um personagem
chamado Quintanilha, que agia como se
estivesse ali vendo as tainhas chegarem de
baleeira ao nascer do sol. Outro homem de
comunicação conhecido era Adão Miranda,
do jornal “A Gazeta”, que diante da falta de
notícias policiais, teria matado uma galinha,
espalhado o sangue na calçada e noticiado um
crime que nunca aconteceu. “A cidade só tinha
brigas de bar, e o que se noticiava era uma ou
outra apreensão de maconha”, conta Timóteo.
Houve uma redefinição de conceitos de Mercado
Público. Bares e outros tipos de comércio deram um
tom mais cosmopolita ao Mercado, que foi inserido
definitivamente no roteiro turístico da cidade.
O prédio é tombado como patrimônio
histórico municipal.
notícias do dia
Espectador
Nosso Mercado 9
privilegiado
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Décio Bortoluzzi testemunhou as transformações do Mercado e da cidade
@pc_ND
Décio Bortoluzzi é uma das mais privilegiadas testemunhas das transformações pelas quais
passou o Centro de Florianópolis nos últimos 60
anos – e demonstra ter sido muito afetado por
elas. Ele fala com fleuma, altera o tom de voz e
se emociona ao lembrar dos navios da Cia. Hoepcke que levaram seus avós em viagem ao Rio
de Janeiro, dos barcos a vela que traziam telhas,
tijolos e louças de barro para o Mercado Público,
cortando as águas da baía Sul, e dos amigos que
perdeu – os mesmos que encontrava diariamente
para a primeira cerveja com pastel de camarão,
sem marcar hora, porque sabia quando e onde
podia localizá-los.
“Ainda dá uma dor no coração”, afirma, ao
ser perguntado sobre o impacto da construção do
aterro para os nativos da Ilha, porque “a cidade
perdeu o cheiro de maresia e até o vento sul hoje
é outro”.
Ele tem na cabeça o roteiro dos botecos, a
maioria no entorno do Mercado, que eram passagem obrigatória para os boêmios e notívagos
desse tempo que ficou nas lembranças.
Uma caminhada pela área onde ficava a orla é
suficiente para que o funcionário público aposentado aponte onde era este ou aquele hotel, bar,
restaurante, casa de comércio ou trapiche, dando as características e usos de cada um. O fato
de morar na rua Conselheiro Mafra, onde seu pai
administrava o hotel Central, potencializa essa ligação afetiva com o antigo cenário.
“Ia com meu pai comprar peixes no Mercado,
mas mesmo sem isso passava ali todos os dias”,
conta Décio. E havia motivos de sobra para isso.
“O Goiano sempre teve o melhor peixe frito, a
fiambreria de dona Clara oferecia um sanduíche
de pão com presunto sem igual, a melhor carne
era vendida pelo Nelson, pai de Alvim Espinosa,
e Zezinho, que depois instalou um bar no box 32,
tinha o pão de milho mais afamado da redondeza”, diz.
Cenário. Morador da rua Conselheiro Mafra, Décio tem uma ligação afetiva com o Mercado Público e seu entorno
Tempos de boa música e irreverência
Se era um fervo durante o dia, o Mercado Público
também assustava as boas famílias porque tinha um
entorno escuro, mal iluminado, e ficava perto das
esquinas com as ruas Deodoro e Sete de Setembro, onde
as prostitutas faziam ponto a partir do início da noite.
Para os rapazes que não ligavam para os bons costumes,
o que contava era a boa música e o ar esfumaçado dos
bares, com o blues, o jazz e a bossa nova dando um
clima especial ao ambiente. Quando o hotel Querência
se instalou na Jerônimo Coelho, aquela parte da cidade
ganhou ares mais sérios, apesar das festas ali realizadas,
que atravessavam as madrugadas.
Para Décio Bortoluzzi, o importante era a
De barcos, carroças e velhos amigos
A memória de Décio Bortoluzzi registra as imagens
do entreposto de venda de produtos coloniais na ala
norte do Mercado Público, da feira dos colonos no
meio de cada semana, da pensão Kowalski (onde esses
mesmos colonos se hospedavam), das carroças e barcos
que desembarcavam peixes, frutas e hortaliças no
Mercado, do comerciante Gedeão Mansur operando
sua loja de panelas de alumínio, da habilidade de Chico
O vão do Mercado é fechado ao tráfego de veículos,
e uma reforma – que só seria concluída em 1988
– começa a melhorar a aparência e a estrutura do
edifício.
Escamador, que em poucos segundos deixava um
peixe pronto, dos ônibus e caminhões que passavam
pelo vão, das provas de ciclismo que paravam a
cidade e dos hidroaviões que desciam na baía Sul.
Não menos fortes são as lembranças das regatas
de remo envolvendo os clubes Aldo Luz, Riachuelo e
Martinelli, que davam a largada na altura da Assembleia
Legislativa e iam até a ponte Hercílio Luz, com uma
Incêndio destrói parcialmente nove boxes, entre eles
o Trapiche Bar, o Goiano II e a Casa do Pescador.
Parte do prédio foi interditada. Em outubro de 1988, o
prédio passa por nova reforma.
Aberto o restaurante Pirão.
oportunidade de viver a cidade no que ela tinha de mais
irreverente. Foi no piano-bar do hotel Lux que Maysa se
apresentou, e na esquina da Deodoro a atriz Ítala Nandi,
que veio à cidade para filmar “Prata Palomares”, andou
com os seios à mostra, para escândalo dos padres de
igreja São Francisco. O Botafogo também se hospedava
por ali, e Nilton Santos dava as entrevistas porque
Garrincha, semianalfabeto, se atrapalhava na frente
dos microfones. “Era uma época muito boa”, ressalta o
saudosista Décio, que também lembra de Bibi Ferreira
chegando à cidade para participar de um festival de
cinema organizado pelo escritor Salim Miguel no início
dos anos 60.
multidão acompanhando da orla a performance de cada
equipe. Sem falar nas amizades com Aldírio Simões e
Luiz Henrique Rosa, no cantor João Gilberto tocando
violão no bar do Goiano e nos shows que o próprio
Décio organizou, com o projeto Fundo de Quintal e a
música do grupo Mistura Fina no Mercado. Ele ainda
alimenta o sonho de “voltar com essas atrações, juntando
samba, choro e orquestra, boa comida e artesanato”.
Comemorações do centenário do
Mercado com uma grande festa, show
de Zeca Pagodinho e o anúncio do
projeto de cobertura para o vão.
flavio tin/nd
Paulo Clóvis Schmitz
[email protected]
10 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
flávio tin/nd
A contribuição da CDL
Mobilização da entidade ajudou para o renascimento do Mercado
A reabertura do Mercado Público é resultado de uma grande mobilização que teve a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) de Florianópolis como parte relevante em todo o processo, considera o presidente da entidade, Marco dos Santos. O
envolvimento da CDL começou em 2010, quando a prefeitura
convidou a entidade para fazer parte do grupo de trabalho que
elaborou o mix comercial, a definição das atividades e dos segmentos do Novo Mercado. A empresária Sara Camargo foi a
representante da CDL nesta comissão.
Definidas por licitação pública, novas empresas se habilitaram a ocupar os boxes mediante o desenho de mix elaborado
pela comissão e aprovado pela prefeitura. Aldonei Brito, presi-
Incêndio provocado por uma frigideira mal
manuseada num restaurante da ala norte se
espalha e destrói toda a ala. Após a recuperação,
o prédio volta a ser ocupado pelo mesmo tipo de
comércio.
dente da Associação dos Comerciantes, reiterou a importância
da atuação da CDL. “A CDL não foi apenas relevante, posso
dizer que foi indispensável”, afirmou Brito, protagonista em
mais de 70 reuniões de trabalho envolvendo representantes de
todos os setores, órgãos e entidades envolvidos no projeto.
Quem acompanhou tudo de perto em nome da entidade foi
o empresário Celio Philippi Salles, diretor de Assuntos Econômicos da CDL. “Havia a necessidade de uma ação conciliadora
e aglutinadora de forças. E foi neste momento que a Associação
dos Comerciantes e a CDL se aproximaram naturalmente. A
CDL fez a conexão certa na hora certa em todos os momentos
para superação destes obstáculos”, diz.
A prefeitura tenta lançar a primeira proposta de licitação do
Mercado, que foi suspensa pelo TCE no mesmo dia em que seria
aberta por encontrar 12 irregularidades. Projeto do Executivo que
dispõe sobre a ocupação e forma de funcionamento dos boxes
começa a tramitar na Câmara de Vereadores.
União.
Câmara de
Dirigentes
Lojistas
da Capital
participou
diretamente do
processo de
revitalização
Apoio aos comerciantes
A aproximação permitiu à Associação dos
Comerciantes usufruir do apoio e da estrutura da
CDL, com o uso do espaço físico para reuniões, do
suporte jurídico e administrativo; marketing e apoio
logístico e operacional. Um dado mencionado pelo
presidente Marco dos Santos serve para comprovar
a força no relacionamento com os comerciantes: 70
são associados da CDL. “Demonstra a estreita relação
que passaram a ter com a nossa entidade, e o mais
importante, sempre de forma voluntária”, afirma.
O prefeito Cesar Souza Júnior destaca o espaço
que a CDL ocupará na ala norte, como ponto de apoio
e para estreitar o relacionamento com associados. “O
novo Mercado é um divisor de águas para a cidade
e foi bom contar com a parceria da CDL para que a
personalidade de nosso Mercado fosse resgatada.
E continuará sendo bom, já que a CDL prossegue
vivendo o dia a dia do Mercado lá de dentro”, diz.
Em meio à polêmica da licitação, a Câmara
de Vereadores tenta aprovar projeto para que
comerciantes fiquem mais 15 anos no Mercado.
Prejuízo milionário: 45% dos
comerciantes estão inadimplentes por
não pagarem os aluguéis à prefeitura.
Mercado Público
Ala Norte
BOX 25
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
rosane lima/nd
Uma aposta
Nosso Mercado 11
para toda a vida
Desde 1967 no Mercado, Aurino Santos
projeta futuro com a família em dois boxes
FELIPE ALVES
[email protected]
@felipealves_ND
Com o dinheiro que ganhou em
uma aposta de loteria que fez com
o amigo Alvim Nelson Fernandes
da Luz, Aurino Manoel dos Santos, 68 anos, decidiu investir em
um negócio próprio e comprou seu
primeiro açougue em 1967. Desde
então, não saiu mais do Mercado
Público. Viu o prédio histórico e
seu entorno se transformarem e,
agora, projeta o futuro junto com
a família, em um box na ala norte,
o Emporium 12, e outro na ala sul,
o Açougue Aurino.
Antes mesmo de comprar seu
pequeno comércio, Aurino já tinha ganhado experiência com
carnes no Mercado desde 1959,
quando começou a trabalhar aos
14 anos com o comerciante Zari
Farias, dono de uma fiambreria.
Em seguida, passou a trabalhar
com aquele que seria o principal professor quando o assunto
era carnes: Nelson Fernando
da Luz, pai do Alvim, que tinha
a Fiambreria Spinoza. “Ali comecei como aprendiz e aprendi
a trabalhar mesmo como açougueiro. Ele me perguntou: ‘O que
tu entende de carne?’ Eu disse:
‘Olha, eu entendo bem [de carne]
na mesa, mas tenho vontade de
aprender’. Depois peguei a prática. Ele era um homem muito
prático e bom”, conta.
A parceria com Nelson durou até 1967, quando Aurino decidiu que era hora de montar o
próprio negócio. Aos poucos, foi
conquistando a clientela, levou
a família para trabalhar com ele
Orgulho.
Aurino destaca a parceria com
os clientes pela sinceridade na
relação e qualidade dos produtos
e viu de perto as mudanças no
Mercado. “Quando cheguei, tinha 14 açougues, agora são dois.
A gente trabalhava das 5h30
às 10h30, mas quando comecei com o meu comércio, decidi
abrir o dia inteiro”, diz.
Hoje, Aurino não se vê fazendo
outra coisa. Foi no meio das carnes,
vendendo, cortando e atendendo
os clientes que ele construiu sua
vida e deu estudo aos cinco filhos,
dos quais dois trabalham com ele.
“Tem clientes que estão comigo há
mais de 45 anos, e gostam da amizade, da sinceridade, da qualidade
e dos produtos bons. Meu orgulho
é estar esse tempo todo aqui no
Mercado e, principalmente, com a
família junto”, afirma.
12 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Nosso Mercado 13
14 Nosso Mercado
notícias do dia
valorizada
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
A “manezice”
Aldírio Simões transformou o espaço nobre na casa dos personagens da cidade
@damiao_ND
Se houve um personagem
em Florianópolis que teve seu
nome indiscutivelmente associado ao Mercado Público,
esse personagem foi Aldírio
Simões (1944-2004). Jornalista, apresentador de TV,
cronista e carnavalesco, ele
foi frequentador assíduo do
espaço, onde surgiu a ideia de
criação e entrega do Troféu
Manezinho da Ilha, em 1987.
Aldírio confundiu seu
nome com o Mercado ao longo de sua trajetória profissional e cultural, sendo um dos
responsáveis pela difusão da
imagem de ponto de encontro
dos moradores da cidade. As
rodas de samba e pagode no
vão central foram incentivadas e amplamente divulgadas
pelo jornalista, que inúmeras
vezes transmitiu do local seu
programa Fala Mané, na atual
RICTV.
Em 2014, o ND resgatou
a história de vida de Aldírio,
na passagem dos dez anos de
sua morte. Entre os entrevistados, o jornalista João Carlos
Mendonça Santos afirmou: “O
Aldírio faz falta, era um cara
insubstituível. Falar do Mercado Público ou do Bloco dos
Sujos quando a gente fala dele
é até redundante porque ele
sempre estava lá. Tenho lembranças muito fortes, tenho
até hoje o Troféu Manezinho
da Ilha, que recebi em 2002.
A criação do troféu, o programa ‘Bar Fala Mané’ e a atuação de Aldírio na Fundação
Franklin Cascaes, onde foi superintendente, e na Fundação
Catarinense de Cultura, são
exemplos do resgate cultural
que ele promoveu com relação
à cultura açoriana e ilhoa”.
Grande parte das crônicas
de Aldírio, publicadas regularmente no suplemento “AN
Capital”, de “A Notícia”, até
a semana de sua morte, em
2004, focalizava o cotidiano
de Florianópolis, seus personagens, histórias, causos,
histórias engraçadas ou trágicas. Esses registros acabaram
incorporados aos livros lançados pelo jornalista, como
“Sou ilhéu, graças a Deus”,
“Retratos à luz da pomboca”,
“Crônicas de Carnaval” e “Domingueiras”.
Insubstituível.
Jornalista, apresentador,
cronista e carnavalesco,
Aldírio foi um frequentador
assíduo do Mercado Público
Fonte de inspiração para as crônicas
Era comum encontrar
Aldírio Simões no Mercado em
diferentes momentos do dia,
sempre conversando, contando
(ou colhendo) as novidades. O
Mercado era fonte de inspiração
constante. Quem acompanhava
suas crônicas no “AN Capital”
sabia que muitas das narrativas
surgiam a partir de conversas que
ele entabulava com amigos ou
conhecidos. Por ser uma figura
conhecida, era muito procurado
pelas pessoas que circulavam
pelo espaço, muitas vezes para
atualizar ou corrigir informações
divulgadas em sua coluna.
O programa “Bar Fala
Um novo susto no Mercado: um incêndio no
box 13 da ala norte começou em uma fritadeira
elétrica, mas foi apagado rapidamente.
Mané” tinha uma característica
peculiar, de buscar sempre
as raízes culturais mais
marcantes de Florianópolis. A
figura do manezinho da Ilha
era indispensável, havia uma
espécie de culto permanente
a esse personagem.
Atribui-se a Aldírio a
relativa sofisticação do termo
“manezinho”, que era, até a
década de 1970, pejorativo, com
o significado mais próximo de
caipira ou capiau. O jornalista
valorizou a personalidade do
manezinho com a criação do
troféu. Que, não por acaso, tinha
como símbolo o Mercado Público.
Raízes culturais. Aldírio (à esq.) entrevista o ex-prefeito Edison Andrino no programa “Bar Fala Mané”
Licitação é lançada. Com protestos em frente à prefeitura e correria
para se inscrever, encerra-se o prazo para a licitação em abril. Em
julho, TCE recomenda abertura de nova licitação após irregularidades
apontadas. Em setembro, licitação é suspensa pela Justiça.
Uma reforma de mais de R$ 2 milhões
começa em agosto de 2011 na ala sul,
mas as obras atrasam.
Vigilância Sanitária aponta
irregularidades em 19 boxes, entre
falta de higiene, entrada de insetos e
desorganização do depósito.
fotos arquivo/nd
CARLOS DAMIÃO
[email protected]
notícias do dia
Nosso Mercado 15
flávio tin/nd
Peixaria
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
de avaianos e
alvinegros
Dia seguinte aos jogos era marcado
por encontros na Peixaria do Chico
um dos ídolos avaianos do título catarinense de 1975, foi até a
peixaria levar uma relíquia que o
filho de Chico, Marcelo Jacques,
44, guarda até hoje: uma revista
Placar de 1975, com uma página inteira dedicada à história de
Chico e contando sua brincadeira de trocar gols por camarão.
Ao morrer, Chico deixou um
pedido aos filhos: dar continuidade ao negócio da família. A
tarefa não era problema para os
seis filhos homens do comerciante, que trabalhavam com o
pai desde pequenos no Mercado. Marcelo e os irmãos concorreram à licitação e pretendem
perpetuar o nome do pai em três
peixarias pelos próximos anos.
“O pai tirou a gente dos estudos
cedo para trabalhar no Mercado
e, com o tempo, vimos que uma
peixaria só não dava. Compramos mais duas e agora ficaremos
os próximos 30 anos aqui para
honrar o nome do meu pai. Ele
faz parte desta história. Estaria
aqui dia 5 [de agosto] e seria uma
das pessoas mais felizes, como
seu Tibúrcio, seu Xexéu e Nelson Santos, pessoas antigas que,
junto com meu pai, fizeram essa
história”, diz.
FELIPE ALVES
[email protected]
@felipealves_ND
Depois dos jogos de Avaí ou
Figueirense, o destino dos torcedores que frequentavam o
Mercado Público da cidade era
certo: a Peixaria do Chico. Fosse
para tirar sarro de Chico Peixeiro
quando o Alvinegro ganhava ou
para comemorar com ele a vitória do Leão, a turma não saía do
Mercado sem um peixe na mão
e uma prosa descontraída com
Chico, que tinha paixão por atender a clientela.
Torcedor do Avaí e frequentador do estádio Adolfo Konder,
Chico ganhou a simpatia dos
jogadores e prometia a eles dois
quilos de camarão para quem
fizesse gol. No dia seguinte aos
jogos, os jogadores batiam ponto
na Peixaria do Chico para buscar
a recompensa.
Na manhã de 1o de março
de 2013, o Mercado amanheceu
mais triste ao perder um dos
personagens que fizeram a história do comércio local. Chico
Peixeiro, nascido Francisco Martiniano Jacques, morreu aos 80
anos. Uma semana antes, Juti,
Jornais, peixes e atendimento aos clientes
Na internet
Assista ao
depoimento
em vídeo
Aos 13 anos, Marcelo Jacques
deixou de estudar para ajudar o
pai e os irmãos na lida diária do
Mercado. O trabalho era cansativo,
mas ajudava no sustento da casa.
Enquanto o pai atendia no balcão,
a tarefa de Marcelo era abrir os jornais
que serviriam para embalar os peixes.
Por dia, o menino tinha pela frente
de 100 a 200 quilos de jornais.
Aos poucos, o pai passou aos
filhos o conhecimento sobre peixes
Um pequeno incêndio foi controlado na
ala norte no box 44.
e as formas de melhor atender os
clientes. “Hoje sou fascinado em
atender no balcão, vivencio isso e
gosto de ter o contato com o cliente.
Costumo dizer que o Mercado é
minha casa, porque chego às 6h e
só saio às 20h. Esses 30 anos que
tenho de Mercado e os 45 que meu
pai teve aqui dentro representam
tudo na nossa vida. Tudo que tenho
foi o Mercado que me deu, na base
de muito trabalho e suor”, conta.
Assume a nova gestão da prefeitura
e acordo entre Ministério Público e
Executivo dá 120 dias para regularizar
os problemas do Mercado.
Em nome do pai. Marcelo Jacques, filho do Chico Peixeiro, deu continuidade aos negócios no Mercado
Decide-se por uma reforma completa do prédio.
Os vencedores da licitação dos boxes são
divulgados. Uma nova licitação é aberta para
disputar os boxes que não tiveram lances.
Começam as obras da ala norte e
comerciantes deixam os boxes. Previsão
de entrega total do Mercado revitalizado
era de oito meses.
16 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
divulgação/nd
Restauração em
19 meses
JK Engenharia de Obras foi a empresa
responsável pela reforma do prédio histórico
CARLOS DAMIÃO
[email protected]
@damiao_ND
O novo Mercado Público de Florianópolis é mais uma grande obra
importante para os catarinenses – e,
principalmente, para os forianopolitanos – que a empresa JK Engenharia de Obras entrega para a sociedade
totalmente restaurada. Foi um ano e
sete meses de trabalho para entrega
total da restauração, com área total de
5.340 m2.
A primeira etapa foi iniciada com
a restauração das alas norte e sul. A
ala sul foi totalmente desativada pela
prefeitura em junho de 2014 e liberada
para a empresa JK começar a restauração em julho de 2014, sendo finalizada
em 18 de julho deste ano.
Importante ressaltar que, com o
início dos trabalhos na ala sul, por
meio das demolições e remoções das
construções empíricas lá existentes,
foram verificados graves problemas
estruturais nas fundações e pilares de
concreto, os quais fazem a sustentação
da cobertura. Assim, a equipe técnica
da prefeitura, por meio da Secretaria
de Obras, e a empresa supervisora da
obra Prosul, durante o período de julho
Ala sul fecha para restauração. Peixarias vão
para o Terminal Cidade de Florianópolis.
a dezembro de 2014, trabalhou para
projetar e viabilizar a execução destes
novos serviços, liberados para a JK
executar em dezembro 2014. Portanto,
a ala sul foi totalmente restaurada em
apenas sete meses.
A equipe da JK que trabalhou na
restauração é formada pelo engenheiro civil Jacson Koester, engenheiro
eletricista e de segurança do trabalho
Marcos Aurélio Gama, arquiteta Simara Callegari, administrador Walter
Correa, mestre de obras Dejair Ferreira
dos Passos e por 75 colaboradores de
diversas profissões.
NÚMEROS DA OBRA
Restauração do Mercado Público
Trabalho. Ao restaurar o Mercado, principal preocupação foi preservar o patrimônio
Mais de 200 caçambas de entulhos removidas
2.200 m² de demolições e remoções de
construções empíricas
450 m³ de concreto ou cerca de 4.000
sacas de cimento
Aproximadamente
70 mil quilos de aço
80 mil telhas
Com atraso, ala norte reabre, mas apenas três
boxes começam funcionando.
cuidado com o patrimônio
Preservação das paredes históricas, bem como o cuidado em restaurá-las com
argamassas especiais, tintas especiais à base de silicatos
Restauração das cimalhas e adornos dos revestimentos
Impermeabilização das platibandas e topo das cimalhas
Colocação de espículas para evitar contaminação das paredes com fezes dos pombos
Aplicação de material histórico da edificação em composição com a atual como pisos,
esquadrias, soleiras, granitos, meios-fios em pedra; hidrofugação das telhas
Descidas pluviais externas em ferro fundido para facilitar manutenção
Aplicação de materiais novos, porém com as mesmas características dos originais
Restauração contempla novas instalações elétricas, hidráulicas, telefônicas, preventivo
de incêndio, acessibilidade a portadores de deficiência física e muito mais modernidade
Ministério Público identifica falta de acessibilidade
para deficientes físicos na ala norte e reajustes
devem ser feitos na ala recém-inaugurada.
Parte do telhado da ala sul desaba
durante reforma. O telhado havia sido
reformado em 2013.
INOX
FERRO
ALUMÍNIO
ESMALTADOS
Florianópolis - SC
Mercado Público - Box 29
48 3222-8467
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Nosso Mercado 17
18 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Doses de ousadia intuitiva
A marca Box 32 fez tanto sucesso que virou referência do Mercado Público
FELIPE ALVES
[email protected]
@felipealves_ND
Quando decidiu largar o posto de combustível e
apostar na gastronomia, Roberto Barreiros, o Beto
Barreiros, 59 anos, tinha a certeza de que qualquer
comércio que abrisse daria certo se unisse três ingredientes que já dominava: bom atendimento, produtos
de qualidade e ouvir a sugestão dos clientes. A mistura
foi feita e, com “doses de ousadia intuitiva”, segundo
ele mesmo, o Box 32 nasceu, tomou grandes proporções e virou referência em todo o país e até mesmo para
estrangeiros quando se fala no Mercado Público de Florianópolis.
Ponto de encontro da elite e do povo, de turistas
e de manezinhos, o Box 32 surgiu em março de 1984,
quando Beto comprou a cessão de uso de uma verdureira e transformou os 15 m2 da loja nos atuais 104 m2,
com a reabertura da ala sul. A mistura de apostar em
um bar com ingredientes típicos da Ilha deu certo e,
aos poucos, Beto foi incorporando novidades e trazendo as pessoas de volta ao Mercado com pastéis de ca-
Quando
cheguei, o
Mercado estava
decadente.
Fiz pequenas
revoluções que
deram certo.
marão e de berbigão, chope gelado e um balcão aberto
às conversas.
Com um comércio limpo e bom atendimento, Beto
ouvia as sugestões da clientela, pegava nome e telefone
e depois ligava para contar que tinha implantado o que
havia sido sugerido. “Quando cheguei, o Mercado estava decadente, pois foi a época em que surgiram com
força as redes de supermercado, o que tirou a frequência do Mercado. Fiz pequenas revoluções que deram
certo, como quando comecei a vender Moët & Chandon
francesa em taça no corredor do Mercado. A elite correu pra lá. Foi assim que, aos poucos, o Mercado foi
explodindo”, conta.
Com a popularização do comércio, o empresário decidiu investir na marca Box 32 para agregar confiança
e referência de qualidade. Em vez de abrir filiais, ele
procurou multiplicar a marca dentro dela mesma. Hoje
são mais de 30 produtos com o nome Box 32, como
cachaças, espumantes, vinhos e pimentas. Os números
impressionam: são mais de 10 mil vidros de pimentas
vendidas por ano, 500 quilos de recheio de camarão na
alta temporada e mais de 12 milhões de atendimentos
no balcão ao longo de 31 anos, de acordo com Beto.
Beto Barreiros,
proprietário do box 32
bruno ropelato/nd
Na internet
Assista ao
depoimento
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Presente e futuro. Há 31 anos no Mercado Público, Beto Barreiros consolidou a marca e agora projeta a transição para os dois filhos
Previsão de entrega do Mercado era para março,
depois para junho e, após reunião com Associação de
Comerciantes, entrega ficou para 5 de agosto.
Prevista para estar pronta junto com a ala sul, a
cobertura retrátil do vão só deve ficar pronta em
dezembro de 2015. Obras começam em 7 de junho.
Reabertura do Mercado Público de Florianópolis.
Os mercados
pelo mundo
O convívio com o Mercado desde
pequeno foi fruto da influência do avô
de Beto, o manezinho Barreiros Filho,
que o levava aos domingos para a
missa na Catedral e, depois, para fazer
compras no Mercado Público. Além
do gosto pela gastronomia, o avô
dizia ao neto que quando crescesse
deveria visitar os mercados dos
lugares por onde viajasse, pois neles
encontraria todos os segmentos da
sociedade. “Conheço mercados de 34
países e todos são iguais por dentro,
não importa o desenvolvimento do
país, ou seja, todos representam
a sociedade local”, diz Beto.
A dedicação ao longo de mais
de 30 anos será renovada com a
restauração que, para Beto, era
necessária na infraestrutura e no
mix de produtos. “O Mercado será
referência no Brasil quando estiver
pronto. O mix agora ficou muito
bom. Estimo que em dois anos deva
haver, naturalmente, mudanças. Vai
ter dois anos de lapidação e vai se
firmar”, prevê o comerciante, que já
projeta a transição do negócio para
os dois filhos nos próximos anos.
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
NO NOVO MERCADO
PÚBLICO VOCÊ
ENCONTRA DE TUDO.
ATÉ SOLUÇÕES PARA
A SUA EMPRESA.
NOVO PONTO DE ATENDIMENTO DO
SEBRAE, BOXES 47 E 48 DO MERCADO
PÚBLICO DE FLORIANÓPOLIS.
/sebraesc
@Sebrae_SC
Nosso Mercado 19
20 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
bruno ropelato/nd
Troca
de experiências
VIVIANE DE GÊNOVA
[email protected]
@ND_online
Na internet
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depoimento
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O comerciante Ronaldo Oliveira, 47 anos, não esconde o orgulho
em dizer que é nativo da Ilha, característica que lhe proporciona
grande conhecimento em um dos
alimentos mais típicos da região:
os pescados. E não é à toa que ele
conhece tão bem esse tipo de culinária, já que o pai, Adúcio Vitor de
Oliveira, 76, foi pioneiro na venda
de peixes no Pântano do Sul. Apesar dos negócios irem bem naquela região, a localização do Mercado Público, no Centro, pesou na
decisão que fez a família transferir
a Pescados Oliveira para o prédio
histórico, há 30 anos. E não houve
nenhum arrependimento.
Ronaldo é quem administra
hoje a peixaria com o irmão, Rodrigo, 35. “Meu pai ainda gosta
de vir na peixaria, mas não é mais
como antes. Hoje, somos nós dois
que tocamos o comércio. Desde
cedo aprendemos a negociar peixes e ganhamos grande conhecimento nessa área”, diz Ronaldo.
Aliás, a experiência é tão grande que um dos maiores prazeres
de Ronaldo é dividir com os clientes tudo o que sabe sobre peixes.
“Sempre tem alguém que quer saber qual peixe é melhor para servir
em determinado encontro, de qual
maneira. Aí a gente orienta, fala a
quantidade, o preparo, os acompanhamentos. É uma satisfação
poder compartilhar o que sabemos
com nossos fregueses”, conta.
Ronaldo comemora as grandes conquistas que o Mercado
proporcionou à família. “Sou ‘filho’ dessas paredes amarelas, é
daqui que meu pai sustentou a família e eu também. Um lugar que
sempre foi pura diversão, brinco
com os clientes, com os comerciantes. A concorrência é saudável. Mesmo que tenha outras
peixarias, somos todos amigos”,
garante o comerciante, que completa 25 anos de Mercado.
Sou ‘filho’ dessas
paredes amarelas,
é daqui que meu pai
sustentou a família e eu
também sustento.
Experiência.
Com 25 anos de
Mercado, Ronaldo
gosta de dividir
o conhecimento
sobre pescados
com os clientes
Ronaldo Oliveira,
proprietário da pescados oliveira
flávio tin/nd
Lembranças
e visitas ilustres
Na internet
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depoimento
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Em 40 anos de Mercado, o
que não faltam são histórias para
contar. O comerciante Aldo de
Brito, do Bazar Brito, se empolga ao falar dos inúmeros eventos
no prédio histórico, de visitas
ilustres, desde artistas, turistas
a políticos. “Quando cheguei ao
Mercado, meu box ficava a 20
metros do mar. Ali, o governador
Colombo Salles desembarcava
com frequência, na década de
70, e cumprimentava todo mundo. Ele era humilde, simpático.
Vendi muitas camisas para ele”,
lembra. “Já o Cesinha [o prefeito Cesar Souza Júnior] conheço
desde criança. O pai dele (o deputado federal Cesar Souza) vinha sempre pra cá. Uma vez vi
aquele menino tão novinho lendo um jornal. Tive certeza de que
também seguiria os passos do pai
e hoje é o prefeito que conseguiu
essa grande obra”, ressalta.
Entre as lembranças, Aldo
também cita o grande comércio
de hortifrútis e pescados que
eram trazidos em embarcações
de outros pontos da Ilha. “Vinham verduras, frutas e legumes,
tudo fresquinho. Dos boxes para
a mesa dos consumidores. Os
barcos descarregavam os peixes
direto no Mercado. Um pouco da
pesca ficava por aqui e o restante
seguia para São Paulo e Rio de
Janeiro”, conta.
Os anos se passaram e as
mudanças no Mercado ficaram
evidentes, mas não tiraram o
zelo e a dedicação que Aldo, aos
76 anos, tem pela loja de materiais esportivos. O comércio,
que foi comprado nos anos 70,
agora fica na lateral do Mercado, na rua Conselheiro Mafra.
Hoje quem cuida do negócio é o
filho Aldonei, presidente da Associação dos Comerciantes. Aldo
agora se considera um ajudante,
mas sempre com boas histórias
para contar aos clientes. (Viviane de Gênova)
Quando cheguei
ao Mercado, meu box
ficava a 20 metros do
mar. Verduras, frutas e
pescados eram trazidos
por embarcações.
Aldo de Brito,
proprietário do bazar brito
Ligação com o
Mercado.
Aos 76 anos, Aldo
sempre tem boas
histórias para
contar aos clientes
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
bruno ropelato/nd
Encontro de
Nosso Mercado 21
descendentes
VIVIANE DE GÊNOVA
[email protected]
@ND_online
Na internet
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depoimento
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Manoel Guimarães, 35 anos,
era ainda pequeno quando a mãe,
Ana Maria, 67, começou a utilizar
o espaço do Mercado Público para
ajudar no sustento da família. No
início, ela vendia verduras, negócio que durou pouco tempo. Em
cinco anos, Ana Maria arriscou
abrir a Peixaria Guimarães. E o
comércio deu tão certo que dura
até hoje, 44 anos depois.
Ana Maria, no entanto, se aposentou cedo. Há 15 anos, ela passou a administração da peixaria
para Manoel. “Ajudava a atender,
vender e fui aprendendo, conhecendo os fregueses. Quando eu
era criança, o processo dentro da
peixaria era diferente. Os balcões
ficavam com os peixes expostos
para o cliente mesmo escolher, as
balanças eram de relógio. Hoje está
tudo mais moderno, higiênico. Mas
o prazer de atender o cliente, esse
continua”, acentua Manoel.
Nem mesmo o passar dos
anos foi capaz de apagar a fidelidade dos clientes e fornecedores
que faziam o comércio com Ana
Maria. “Alguns já morreram, outros não podem vir ao Mercado
por causa da idade, mas o contato
agora é feito com os filhos, tanto
na compra como na venda do peixe. É muito gratificante ver como
as gerações se encontraram. Hoje
atendo aos filhos e netos do pessoal que minha mãe atendia e de
quem comprava”, conta.
Para Manoel, a restauração
do Mercado trará uma clientela
maior e ainda mais fiel. “O Mercado terá cara nova, mas sem perder
as características originais. As peixarias que permaneceram até hoje
mantiveram a cultura de trazer o
pescado fresquinho ao cliente, sem
deixar de evoluir. Outra vantagem
agora é que ganharemos um selo
de inspeção estadual, o SIE, que
nos deixa aptos a comercializar
para o Estado inteiro. Só temos
motivos para comemorar”, diz.
“Aqui é a minha casa, onde cresci e
trabalhei durante toda a vida. Não
via a hora de voltar”, finaliza.
Aqui é a minha
casa, onde cresci e
trabalhei durante
toda a vida. Não
via a hora de
voltar.
Expectativa.
Para Manoel, o
novo Mercado
terá uma clientela
maior e ainda mais
fiel
Manoel Guimarães,
proprietário da peixaria
guimarães
flávio tin/nd
De açougue a
armazém
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O brilho nos olhos ao falar
do negócio que a família abriu
em 1967 revela o sentimento
que o comerciante Nelson Luiz
da Silva, 52 anos, tem pelo Mercado Público. Ele administra
o Empório Mania da Ilha, com
o irmão Inácio Silvino da Silva
Júnior, 44, e lembra, “como se
fosse ontem”, da época em que
era possível ver o mar bem ao
lado do prédio histórico, antes
do aterro.
O outro Inácio, o pai, morreu
há três anos, mas deixou o legado da administração desde cedo
à família. “Era tudo muito lindo
e alegre. Eu tinha 9 anos quando comecei a ajudar meu pai
na loja, então vi de perto toda
a evolução por qual passaram
Mercado e comerciantes. Meu
irmão também veio pequeno pra
cá, com uns 10 anos. Conhecemos a todos e a tudo”, conta.
Embora a família tenha o
ponto no Mercado há 48 anos,
o Empório Mania da Ilha só se
tornou armazém há 20 anos.
Quando a família retornou a
Florianópolis, em 1962, após
passar uma temporada em Santos (SP), arriscou as fichas – e o
dinheiro – em um açougue.
Com o passar dos anos, no
entanto, a família Silva foi adequando o comércio às necessidades da clientela. Os proprietários passaram de açougue a
banca de revista, revenda de flores e a outras opções até chegar
ao conhecido armazém do box 3
da ala sul. Aliás, a localização foi
tradicionalmente mantida durante todos esses anos e transformações. “Logo que saiu a licitação, corremos para garantir
o mesmo ponto. Foram tantos
anos, tantas mudanças, sempre
no mesmo lugar. É um sentimento de gratidão”, diz Nelson.
Ele fez questão de cuidar pessoalmente da reforma do box.
(Viviane de Gênova)
Tinha 9 anos
quando comecei
a ajudar meu pai.
Vi de perto toda
a evolução do
Mercado.
Nelson Luiz da Silva,
proprietário do empório
mania da ilha
Transformações.
Nelson tem um
sentimento de
gratidão por tantos
anos no Mercado
22 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
bruno ropelato/nd
A tradição
do caldo de cana
VIVIANE DE GÊNOVA
[email protected]
@ND_online
Na internet
Assista ao
depoimento
em vídeo
Um carrinho construído com
madeira de eucalipto, que tem um
antigo moedor manual de cana, é
o diferencial do Caldo de Cana do
Badu, como é conhecido Amarildo
Alberto Elias, 53 anos. Orgulhoso,
ele construiu o carrinho que ficará exposto no novo box 28 da ala
sul e ainda mostra o que considera
uma relíquia: uma roda de ferro
de mais de 40 anos de história no
próprio Mercado Público.
Badu conta que praticamente
nasceu no prédio histórico da Capital. Seu pai, Alberto Luiz Elias,
88, começou vendendo verduras
no Mercado há 58 anos, o que
teria feito Badu e os oito irmãos
descobrirem desde cedo o talento
para o comércio. “Primeiro foram
só as verduras, mas, com nove
filhos para criar, a renda ainda
estava pequena. Foi aí que um
administrador do Mercado cedeu
um espaço a mais para o meu pai
vender caldo de cana. Foi o que
salvou nossa família e garantiu
nosso sustento”, diz.
Com o tempo, o box da família
passou a vender também artesanatos e deixou de comercializar as
verduras, mas a tradicional bebida
continua até hoje sendo o ganhapão de parte da família Elias. O pai
não administra mais o comércio,
que se dividiu em dois, administrados por Badu e outro irmão, um
em cada ala.
Mesmo ansioso pela reinauguração da ala sul, Badu não esconde a emoção de falar sobre a
restauração do Mercado. “Para
mim, o Mercado é uma segunda
casa, um lugar inesquecível para a
minha história e de minha família.
Apesar de nunca achar que esteve
abandonado, a licitação veio na
hora certa. E a conquista não é
só dos comerciantes, mas de toda
a população, que merece ter um
prédio novo que levará o nome da
cidade a nível mundial”, afirma.
Ansiedade.
Badu construiu
o carrinho que
ficará no box
28 da ala sul,
com uma roda
de ferro que
tem mais de
40 anos
Quando um administrador do Mercado
cedeu um espaço para o meu pai vender caldo
de cana, isso garantiu o sustento da família.
Amarildo Alberto Elias,
proprietário do caldo de cana do badu
flávio tin/nd
Negócios em
família
“Eu olho essa reforma como
se fosse na minha casa. Sei que
o Mercado não é meu, mas o
sentimento de amor, o desejo
de que dê tudo certo, é como se
fosse. É uma conquista”. Pelo
depoimento emocionado de
Pedro Alberto Elias, 57 anos,
proprietário da loja Pedrinho
Calçados, é possível perceber o
carinho que o comerciante tem
com o prédio histórico, local que
frequenta diariamente desde os
9 anos. “Meus pais começaram
a vender verduras aqui em 1961
e logo que cresci um pouquinho
comecei a ajudar. Somos nove
irmãos e todos aprenderam a lidar com vendas. Em 1982, comprei a minha própria loja, a Pedrinho Calçados”, conta.
A aptidão para o comércio
envolve toda a família. Inspirados pelos pais, os nove irmãos
têm negócios próprios, quatro
deles instalados no Mercado.
Mas, apesar de ter aprendido
os macetes da administração
desde cedo, Pedro contou com
a ajuda da mulher para mergulhar de cabeça no empreendimento. “Estamos casados há 37
anos, 33 deles dentro da loja. E
sabe que não fico mais sem ela?
Se por algum motivo preciso ir
para casa sozinho, sinto a falta
dela”, declara.
O sentimento de Lúcia Guesser Elias, 55, é recíproco. “Juntos, baseados no amor, passamos
por momentos alegres e difíceis,
como o incêndio em 2005, e conseguimos nos reerguer. Tudo
através de muita garra, determinação e humildade”, diz Lúcia.
E se em todos esses anos
restou um sentimento ao casal,
é o de gratidão. “O Mercado é a
minha vida. Meus pais criaram
todos os filhos aqui. Minha mulher e eu também criamos o nosso filho. Só temos a agradecer”,
afirma Pedro. (Viviane de Gênova)
O Mercado é a
minha vida. Meus
pais criaram todos
os nove filhos
aqui. Eu e a Lúcia
também criamos
nosso filho.
Pedro Alberto Elias,
proprietário da pedrinho
calçados
Com amor.
Lúcia e Pedro,
casados há 37
anos, comandam
a loja com
determinação e
humildade
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
flávio tin/nd
Uma história de
Nosso Mercado 23
68 anos
Bazar Mansur, que começou a vender
armarinhos, faz sucesso com alumínio
FELIPE ALVES
[email protected]
@felipealves_ND
Na internet
Assista ao
depoimento
em vídeo
A placa de ferro que identifica
o Bazar Mansur do lado de fora
da ala sul descortina uma história
de 68 anos no Mercado Público
e de quase um século no comércio de Florianópolis. Ali trabalha
Marlene Mansur de Moraes, 76
anos, responsável por perpetuar a
tradição familiar que começou na
década de 1900, quando os avós,
fugidos do Líbano, vieram morar
em Florianópolis.
Instalado em Santo Antônio
de Lisboa, o casal viajava diariamente a pé para comprar e vender
no Centro da cidade. Os avós de
Marlene, então, decidiram mudar
para o Centro e abriram a Casa
Esperança, comércio mantido na
rua Conselheiro Mafra, 92, até a
década de 1940. Foi ali que a placa
de ferro, que hoje é uma das relíquias do Mercado, foi produzida,
em 1927. Foi repintada em 1947,
quando o pai de Marlene, Gedeão
Mansur, comprou da prefeitura a
permissão para explorar o box comercialmente. E lá se vão 68 anos
da família Mansur no Mercado.
Cirurgiã-dentista aposentada,
Marlene decidiu tomar conta dos
negócios em 2000, depois que o
pai morreu e a irmã ficou doente.
Ela lembra como a história dele
se misturou à do Mercado e da cidade. “Ele era mascate, vendedor
ambulante, viajava pela Ilha a pé
e ia para Águas Mornas e Santo
Amaro da Imperatriz para vender”, conta.
Goteiras alteraram o ramo do negócio
A princípio, Gedeão
Mansur começou a vender o
que já estava acostumado: os
chamados armarinhos, pequenas
peças para a confecção de
roupas, como botões, linhas,
agulhas de máquina e de mão,
cintas e suspensórios. Ele decidiu
então apostar na venda de seda
para aumentar o lucro. Mas
a ideia logo foi descartada,
pois as incontáveis goteiras
dentro dos boxes molhavam e
encurtavam os tecidos. Tentou
as louças, mas a dificuldade em
mantê-las inteiras também se
mostrou uma má ideia. Com o
advento do alumínio no país, na
década de 1950, Gedeão trouxe
os primeiros utensílios para
Florianópolis e logo fez sucesso.
“Ele ficou conhecido como o
rei do alumínio. Até então, as
panelas eram de barro e ferro,
e as donas de casa adoraram o
alumínio. Ali ele acertou de vez”,
diz Marlene, que tem o desafio
de dar continuidade à herança
da família pelos próximos 30
anos no box 29 da ala sul.
Tradição
familiar.
Marlene
comanda os
negócios que
começaram
com a vinda
dos avós,
fugidos do
Líbano
24 Nosso Mercado
notícias do dia
Florianópolis, quarta-feira, 5 de agosto DE 2015
Um ponto de encontro para pessoas.
Um ponto turístico para a cidade.
Um ponto de referência para nós.
Parabéns ao Mercado Público pelos seus 117 anos
e obrigado por nos inspirar a realizar grandes obras.
Av. Othon Gama D’Eça - Centro
PLANTÃO
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