A Inserção Tardia de Mulheres no Mercado de Trabalho
Autoria: Serafim Firmo de Souza Ferraz, Angelica Nogueira de Vasconcelos Mapurunga, Sofia Batista Ferraz
RESUMO
O estudo objetivou analisar a inserção tardia de mulheres no mercado de trabalho. Constituem
bases teóricas: mercado de trabalho e gênero; dinâmicas de carreira; inserção laboral tardia;
equilíbrio trabalho e família. O estudo é qualitativo, descritivo e estudo de casos múltiplos,
por meio de entrevistas semidiretivas. Os resultados relatados caracterizam o fenômeno em
termos de tempo e de competências, registra predomínio de motivações de realização pessoal
e contribuição social; preferência por atividades empreendedoras; descreve atributos de
maturidade e de habilidades de experiência que abreviam os efeitos da inserção tardia,
descrevendo atividades profissionais bem sucedidas conjugadas com missão familiar
cumprida.
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1 Introdução - As características do mercado de trabalho brasileiro alteraram-se
significativamente, nas últimas décadas, em especial no que se refere à participação da mulher
no mercado de trabalho. A ampliação do contingente feminino nas atividades laborais trouxe
profundas transformações sociais, culturais, econômicas e demográficas (Bruschini, 1999).
A partir da década de 1970, em um contexto de expansão econômica,
industrialização e urbanização, intensificou-se a inserção das mulheres no mercado de
trabalho. Desde então, presenciou-se a continuidade ininterrupta da incorporação da mulher
à força de trabalho (Bruschini, 2008).
Referida ampliação do contingente feminino é tendência e fenômeno mundiais, de
acordo com o relatório Tendências Globais para o Emprego de Mulheres (OIT, 2008). A
mesma Organização Internacional do Trabalho - OIT (2009) registra também que o número
de mulheres no mercado de trabalho mundial aumentou em 200 milhões na última década,
marco sem paralelo na história.
Para Bruschini (2008), o aumento da participação feminina no mercado de trabalho
pode ser atribuído às conquistas políticas dos movimentos feministas, que transformaram
valores e papéis das mulheres na sociedade, com expansão da escolaridade e a redução do
número de filhos, viabilizando o ingresso feminino em um mercado de trabalho em expansão.
Embora o crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho tenha se
intensificado nos últimos anos, percebe-se assimetrias particularmente fortes no tocante à
ocupação de espaços ocupacionais mais reputados, a exemplo dos cargos de gestão, nos quais
o contingente masculino prevalece com destaque.
A inserção inicial no mercado de trabalho se faz a partir dos 16 anos, intensificandose, atualmente, entre mulheres de classe média, entre 20 e 25 anos, etapa denominada carreira
inicial (early career) por Greenhaus e Callanan (1994). A etapa inicial é conhecida pela
intensa aprendizagem e a consolidação vocacional e identitária. Entretanto, um contingente
significativo e declinante (OIT, 2009) de mulheres brasileiras opta pela maternidade e
projetos familiares nessa faixa etária, para anos mais tarde iniciar ou retomar atividades
laborais no mercado de trabalho, configurando o fenômeno da inserção tardia, onde os
dilemas do início de carreira se mostram dissociados de uma expectativa de atuação e de
experiências profissionais de pessoas que se acham em faixa etária (em torno dos 40 e aos 50
anos) da média carreira (middle career). Na inserção tardia, portanto, as assimetrias de gênero
no mercado de trabalho (seja no plano das oportunidades, como no da remuneração) parecem
ser ainda mais intensas, face à defasagem temporal de cerca de 20 anos em relação as suas
contemporâneas.
Assim, esta pesquisa teve como objetivo analisar a inserção profissional tardia de
mulheres - com idade em torno de 40 anos, no mercado de trabalho. Para tanto, buscou-se : a)
identificar os elementos que motivaram a inserção tardia dessas mulheres no mercado de
trabalho; b) analisar as alternativas e escolhas empreendidas por essas mulheres, tomando por
base uma opção assalariada em organização formal, de um lado, e outra empreendedora, à
frente de empreendimento econômico, ou ambas; c) descrever a(s) trajetória(s) de carreira
dessas mulheres identificando elementos facilitadores e dificultadores de percurso; d)
identificar as perspectivas futuras desse contingente de trabalhadoras.
2 Mercado de trabalho e gênero - O mercado de trabalho é definido como um espaço de
negociação e troca, em que de um lado tem alguém oferecendo seu talento e sua capacidade,
com necessidades sociais, psicológicas e físicas a serem satisfeitas, e de outro uma
organização que necessita desse talento e dessa capacidade, e que esta disposta a oferecer as
condições para satisfação das necessidades e expectativas das pessoas (Dutra, 2008).
A dinâmica do mercado de trabalho brasileiro passou por importante reorientação nos
anos 1990, mesclando tendências históricas como o aumento da participação feminina na
força de trabalho, a aceleração das mudanças qualitativas e quantitativas na organização do
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trabalho, a expansão da informalidade e o crescimento do desemprego (Comin & Guimarães,
2002).
O crescimento da presença da mulher no mercado de trabalho tem se intensificado
desde a década de 1970, determinado pelo estágio de desenvolvimento do capitalismo
globalizado e impulsão do movimento feminista, fenômenos que se deram em um contexto
dinâmico de industrialização, de urbanização e expansão da economia de serviços.
Em paralelo, as mulheres têm tido mais acesso às universidades, o que eleva seus
níveis de educação e possibilita o acesso a ocupações de maior prestígio, antes facultada
apenas ao universo masculino (Bruschini, 2008).
Observa-se, contudo, dificuldades persistentes no campo das oportunidades. A Síntese
de Indicadores Sociais (IBGE, 2009) evidencia diferenças importantes em relação ao tipo de
inserção no mercado de trabalho entre homens e mulheres. As mulheres em geral detêm
posições mais precárias que os homens na hierarquia das ocupações, obtendo com isso
rendimentos menores. Adicionalmente, registra-se maior concentração de trabalho feminino
no setor de serviços, em segmentos onde a presença feminina é tradição (SEADE, 2005). A
partir da década de 1990, significativas mudanças ocorreram em relação às ocupações
técnicas, científicas, artísticas (Bruschini & Lombardi,1999), onde o contingente feminino se
tornou mais relevante.
O mesmo não se observou nas carreiras executivas, onde o significativo incremento
observado não foi suficiente para equiparar o contingente feminino ao masculino (Grupo
Catho, 2007). O fenômeno persistente nas ocupações gerenciais é comumente chamado de
teto de vidro (Steil, 1997), barreira sutil ou segregação velada e disfarçada que bloqueia a
ascensão das mulheres aos níveis hierárquicos mais elevados das organizações. Dessa forma,
a carreira feminina é dificultada por aspectos socioculturais que se sobrepõem à qualificação e
às competências das mulheres no mercado de trabalho.
Ou mesmo não se passa em relação à atividade empreendedora, onde as mulheres,
desde a década passada, já representam maioria ou 52,4% de participação nesta atividade
produtiva (GEM, 2007).
No geral, a participação feminina no mundo do trabalho é, historicamente, marcada
por rendimentos médios significativamente inferiores aos dos homens em iguais funções.
Atualmente, as mulheres dispõem em média, de maior grau de escolaridade em relação aos
homens, sem que essa característica tenha correspondido a remunerações equivalentes
(Hoffmann & Leone, 2004).
Por outro lado, o envelhecimento da população brasileira que se intensificou nas
últimas décadas também se evidenciou no mercado de trabalho, onde a participação de
mulheres na faixa etária próxima aos 40 anos teve notável incremento (SEADE, 2005).
Efetivamente, segundo a PNE – Pesquisa Nacional de Empregos realizada pelo IBGE (2008),
sobre características relativas à inserção de Mulheres no mercado de trabalho, a população
feminina ocupada na faixa etária acima de 40 anos, em 2002 que era de 38,6% e passou em
2006 para 42,2%.
Esse dado certamente favorece o contingente feminino em inserção tardia, já que
parece ter a capacidade de reduzir preconceitos de idade e de gênero, frente à situação de um
mercado de trabalho que se torna mais complexo e sofisticado face às necessidades de
suprimento de pessoal qualificado e portador de habilidades especificas, em situação de
incremento continuado dos níveis de emprego, em escala nacional. O mesmo fenômeno
parece favorecer, da mesma maneira, a redução de grupos marginalizados em geral no
mercado de trabalho, repercutindo na redução d a exclusão social e no aumento da
participação da massa salarial na renda nacional.
3 A moderna concepção de carreira - A moderna noção de carreira teve origem no século
XIX, significando “um ofício, uma profissão, que apresenta etapas, uma progressão”
3
(Chanlat, 1995, p.75). Nas duas últimas décadas, a proeminência da organização ou da
ocupação foi sendo substituída por uma lógica baseada em trajetórias e escolhas individuais.
Assim, a carreira passa a ser entendida como uma sequência constituída por todas as
experiências profissionais do indivíduo ao longo de sua vida, incluindo a opção
empreendedora (London & Stumpf, 1982 ; Greenhaus & Callanan, 1994; Schein, 1994).
Nesse processo, a noção de carreira ganhou amplitude, passando a conjugar-se com as
dimensões pessoais e familiares (Veloso, Dutra & Nakata, 2008). Atualmente, compreender
carreira significa entender as características da pessoa e as suas necessidades no além- trabalho
e nas interações do trabalho com outros espaços de vida social (Schein, 1978).
A moderna concepção de carreira está constituída tanto por aspectos objetivos como
subjetivos. Os aspectos objetivos relacionam-se ao trabalho em si, às atividades realizadas e
demais questões materiais envolvidos como a remuneração. Nos aspetos subjetivos inserem-se
significados e interpretações de eventos relacionadas ao trabalho nas perspectivas passada,
presente ou futura. Da mesma maneira, agregam-se as aspirações profissionais, expectativas,
valores, necessidades e sentimentos em relação a experiências de trabalho que vão se
modificando ao longo da vida (Greenhaus & Callanan, 1994; Hall, 2002).
3.1 A dinâmica de carreira – Inicialmente, a moderna noção de carreira foi visualizada por
Greenhaus e Callanan (1994) em concepção etária de ciclo único, em cinco estágios
sucessivos, no interior de uma organização ou de uma ocupação. Reproduz metáfora biológica
de ciclo de vida que se inicia na tomada de decisões (ou é impelido) pelo jovem, dentre
alternativas ocupacionais que se apresentam. A depender do nível formativo requerido, essas
decisões se dão entre os 16 e 25 anos, estabilizando-se com o ingresso em uma determinada
organização (organizational entry). Segundo os mesmos autores (1994), nesse terceiro
estágio, a carreira inicial (early career), que se verifica entre os 25 e os 40 anos, o sujeito
apreende o trabalho, as regras e as normas organizacionais, ampliando competências para
obter crescimento e estabilidade para ocupar espaço próprio na organização do trabalho. Um
quarto estágio, o da estabilidade ou carreira intermediária (midcareer), ocorre entre os 40 e
55 anos, durante os quais o indivíduo reavalia a fase anterior, consolidando ganhos ou
corrigindo trajetórias, para então enfatizar questões de natureza mais qualitativas e mesmo
existenciais complementares ao espaço conquistado na etapa anterior. Na carreira
intermediária o risco da obsolescência ocupacional ou a estagnação (midcareer plateauing)
constitui ameaça concreta, sobretudo em contexto de acelerada transformação social e
tecnológica. Finalmente, Greenhaus e Callanan (1994) descrevem a etapa tardia de carreira
(late career), a partir dos 55 anos, onde o sujeito tem como desafio maior e concreto a
manutenção da sua capacidade produtiva e em consequência o valor para a organização,
conjugados à preservação da autovalorização ocupacional e a dignidade. É também na etapa
tardia onde ocorre o desengajamento e a aposentadoria.
Os estágios descritos por Greenhaus e Callanan (1994), em lógica longitudinal e
etária, permanecem referenciais importantes, embora relativizados pelos fenômenos
demográficos da ampliação da expectativa de vida e da queda das taxas de natalidade na
maioria dos países, incluindo o Brasil. Em paralelo, as mutações econômicas, sociais e
tecnológicas também impuseram mudanças ao raciocínio acima exposto.
Assim, os referidos estágios, não sendo necessariamente lineares nem homogêneos,
podem ocorrer diversas vezes no decorrer da vida laboral do sujeito, em ciclos que
reproduzem uma dinâmica de desenvolvimento de carreira, incluindo tanto os vínculos de
trabalho como também as escolhas e decisões ocupacionais das pessoas, incluindo o
empreender. Assim sendo, a trajetória das pessoas no mundo do trabalho passou a ser
compreendida por sucessivos reinícios e finalizações de ciclos que se sucedem e sobrepõem
ao longo de toda a vida laboral do sujeito (Milkovich & Boudreau, 2000), abrangendo a
multiplicidade ocupacional.
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Para Hall (2002), o modelo em ciclos possui dinâmica típica em estágios, onde o
indivíduo explora alternativas diante de oportunidades ou de dificuldades, seguindo-se etapa
exploratória de levantamento de informações que redunda em período de transição e outro de
estabilidade, quando uma nova subidentidade se estabelece, com ampliação da adaptabilidade
e da autoconfiança do sujeito. Diante de períodos de crise pessoal ou ambiental e
oportunidades, o ciclo reinicia com rompimento ou em acomodação com os anteriores.
Nesse sentido, Harrington e Hall (2007) esclarecem que as carreiras não se fecham em
estágios ao longo do tempo, mas tornam-se flexíveis, adaptando-se a novos começos e
mudanças, podendo a ser vistas como uma série de ciclos de aprendizado ao longo da vida de
uma pessoa. Elas não mais se desenvolvem de forma ordenada como as tradicionais teorias de
carreira, passam a se desenvolver de forma horizontal, com metas e objetivos voltados para o
crescimento, o sucesso psicológico, o aprendizado e à expansão da identidade. Nesta
concepção, as carreiras tendem a se tornar uma sucessão de mini-estágios ou estágios de um
curto ciclo de aprendizado de exploração, treinamento, domínio, estabelecimento e saída, nos
quais as atividades profissionais do indivíduo se movem para dentro ou fora de várias áreas de
produtos, tecnologias, funções, organizações e outros ambientes de trabalho.
As rotinas de carreira, em qualquer idade e mesmo nos estágios de carreira
intermediária ou tardia, podem ser interrompidas ou suplementadas por indução de eventos
disparadores ou gatilhos relacionados às condições ambientais ou à vida pessoal, conduzindo
a exploração consciente de caminhos alternativos e a novos ciclos de aprendizagens
(Harrington & Hall, 2007). Assim os referidos estágios de carreira não mais se apresentam
claramente definidos, face o caráter flexível e instável das carreiras contemporâneas. Evans
(1996) enfatiza que as carreiras estão ganhando uma “natureza espiral”, em ziguezague, e não
mais em escada, na qual as pessoas não se vêem apenas com uma única carreira, mas sim com
duas ou mais, durante o curso de suas vidas.
3.2 A inserção tardia – No sentido da noção de desenvolvimento de carreira, a inserção
tardia no mercado de trabalho é o fenômeno no qual as primeiras experiências laborais do
sujeito ocorrem em idade próxima à faixa etária associada ao estágio de carreira intermediário
ou superior (midcareer ou late career). Nesse contexto, é pertinente se verificar algum nível
de dissociação entre as capacidades laborais efetivas do sujeito e a maturidade ocupacional ou
profissional esperada de pessoas da sua faixa etária em desenvolvimento ocupacional pleno.
Assim sendo, a inserção tardia pode ser compreendida tanto em termos de gaps temporais
como de capacidades ou competências laborais não desenvolvidas, em ordem inversa. Ou
seja, quanto mais longo o tempo de afastamento do mercado de trabalho, menor a capacidade
laboral efetiva do sujeito.
O marco temporal da inserção tardia, neste contexto, está relacionado, portanto, com a
midcareer, que Schein (1996) demarca em torno dos 40 anos, segundo o modelo de ciclo de
vida, para explicar decisões de carreiras em interação de outras forças de ordem biológica,
familiares, existenciais, etc. Para o autor (1996), é na meia idade que os profissionais
promovem espécie de auto-avaliação e questionam suas escolhas iniciais (“terei escolhido a
carreira certa?”), sobre suas conquistas (“terei realizado o que me propus?” ou “quais são as
minhas realizações?”), e a respeito do seu futuro (“o que devo fazer do restante da minha
vida, e como o meu trabalho se encaixa neste contexto?”).
Greenhaus e Callaman (1994) convergem ao assinalar o início da midcareer nas
proximidades dos 40 anos, associando-a às alterações físicas, limitação ou queda das funções
corporais e a perda do vigor juvenil; a existência de pais dependentes ou dos filhos que
crescem; o fato de ser possível avaliar se o sonho de juventude foi ou não alcançado. As
pessoas tendem, nessa fase da vida, a fazer escolhas que possam dar ênfase a si mesmo, e que
o torna uma pessoa mais realizada. É neste estágio de vida que as conquistas familiares,
profissionais e sociais, cedem espaço para a reavaliação dos valores que o acompanharam nas
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primeiras escolhas profissionais. Enfatizam em suas escolhas os aspectos relacionados à
qualidade de vida, amizades, desenvolvimento espiritual, escolhas que antes foram
negligenciadas por estar vivenciando outra fase de vida.
Finalmente, Hall (1996) complementa o conceito assinalando que a principal
preocupação da fase média de carreira é a percepção de que as oportunidades de crescimento
estão se restringindo, em contraposição ao que se verificava no early career, quando as
alternativas eram numerosas.
Em síntese, inserir-se tardiamente no mercado de trabalho significa mapear, avaliar e
escolher alternativas ocupacionais; preparar-se objetiva e subjetivamente para a empreitada no
sentido objetivo da capacitação e subjetivamente, construindo uma auto imagem ocupacional
positiva que auxilie na competição por oportunidades. Para isto, a mulher em inserção tardia
deve aprender a lidar com preconceitos e barreiras culturais inerentes à sua condição em
maior intensidade. O esforço mais intenso pela dupla condição de mulher e defasagem etária e
ocupacional terá de conviver com a aprendizagem do trabalho, das regras e normais
organizacionais e da auto-realização (Greenhaus & Callaman, 1994). No seu conjunto,
portanto, trata-se de tarefa de vulto, notável e de resultados incertos, diante de um elenco de
alternativas ocupacionais que se estreita a cada dia.
4 Equilíbrio trabalho e família - Um dos fatores relevantes no desenvolvimento da carreira
está associado ao equilíbrio entre trabalho e família. Para Evans (1996), o trabalho e a família
são dimensões importantes nas nossas vidas e devem ser percebidas de maneira indissociável.
Assim sendo, as pessoas conjugam ao longo da vida a carreira no trabalho, a carreira
conjugal, a carreira de pai ou mãe e uma carreira ativa de lazer, dentre outras. Dessa forma,
cada uma dessas carreiras pode afetar positiva ou negativamente as demais.
De acordo com Silva (2005), na sociedade “pós tradicional”, homens e mulheres
trabalham e têm filhos, podendo deparar-se com dificuldades por dispender energias de
maneira desbalanceada, privilegiando determinadas dimensões da vida, em detrimento de
outras. As questões relacionadas à interseção entre trabalho e família, notadamente os
conflitos, tornaram-se centro de atenção de diversos pesquisadores (Evans, 1996;
Parasuraman, Beutell & Godshalk, 1985; Greenhaus & Callanan, 1994; Lindo, 2004; Silva,
2005).
Para Greenhaus e Parasuraman (1997), o conflito entre trabalho e família passou a ser
registrado pela literatura a partir da segunda metade do século XX, quando inúmeras esposas
e mães entraram no mercado de trabalho. A mulher, que antes tinha o papel único de cuidar da
casa e do lar, passou a ter a necessidade de dividir seu tempo disponível entre a casa e o
trabalho. Mesmo assim, persiste a noção socialmente aceita de que homens e mulheres
vivenciam de forma diferente as relações entre trabalho e família (Evans, 2001; Schwartz,
2001).
Lindo et al. (2004) afirmam que, apesar das transformações sociais no mundo
moderno, as expectativas da sociedade em relação aos papéis masculinos e femininos
mudaram muito pouco ao longo do tempo contrapondo satisfação na carreira aos conflitos
entre família e trabalho. Assim, para Gaio (2008), as expectativas sociais de que os homens,
como provedores privilegiados, tendam a priorizar as suas carreiras, enquanto as mulheres
assumem prioritariamente as responsabilidades cotidianas da família, relegando a carreira a
segundo plano.
Greenhaus e Beutell (1985 como citado em Silva, 2005) explicam que o conflito entre
trabalho e família existe quando o tempo dedicado às necessidades de um papel dificulta o
atendimento do outro; quando a tensão da participação em um papel repercute na qualidade
do outro; e quando os comportamentos específicos requeridos por um papel são incompatíveis
com os requerimentos do outro. Assim sendo, os conflitos trabalho-família costumam ser
mais intensos na fase inicial da carreira, quando a tensão pela auto-afirmação e conquista de
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espaço se faz mais forte, ao lado do desejo de estabilidade, aceitação e reconhecimento. Na
fase intermediária do desenvolvimento da carreira, o conflito trabalho-família tende à
redução, já que competências e o espaço profissional se acham, em grande medida,
consolidados, possuindo as mulheres projetos de carreira e de vida melhor definidos
(Greenhaus & Callanan, 1994).
Pelo lado das organizações, são frequentes os relatos de práticas discriminatórias
contra mulheres grávidas e em idade fértil em processos seletivos de empresas. Da mesma
maneira, a divisão entre trabalho e família parece estar na origem ao acesso às posições de
comando por mulheres. Diante do dilema e da pressão social, incluindo do mercado de
trabalho, muitas mulheres abrem mão da vivência da maternidade, em benefício das suas
carreiras profissionais. Um segundo grupo opta pela conjugação da maternidade com as
atividades laborais, sendo particularmente cobradas pela complexa administração de limites
entre a vida privada e profissional. Um terceiro grupo, por força das necessidades e da pressão
social, postergam a decisão de engravidar para se firmarem laboralmente antes da
maternidade. Um quarto grupo, o da inserção tardia no mercado de trabalho, por fim, opta
pelo exercício da maternidade e da vida familiar em detrimento do mercado de trabalho. Deste
contingente, finalmente, destaca-se um quinto grupo das mulheres que jamais se inserirão no
mercado de trabalho ou que dele irão se afastar em razão das dificuldades e das desvantagens
oriundas da falta de experiência e da discriminação.
A administração do conflito trabalho-família, para Parasuraman et al. (1996), pode
estar no apoio familiar à mulher, tanto de ordem instrumental como emocional. O apoio
instrumental diz respeito à efetiva participação do companheiro nos cuidados com a casa e os
filhos. O apoio emocional refere-se ao provimento de informações, a conselhos e à afeição
objetivando a prosperidade da parceira. Um maior grau de apoio instrumental proporciona
uma diminuição da grande carga de trabalho dentro do lar, proporcionando mais tempo para a
dedicação ao trabalho. Já o apoio emocional ajuda a realçar o sentimento de capacidade e
eficácia por parte da mulher. Essa conjugação parece ser a tendência mais consistente diante
dos desafios da vida moderna, tendo como consequência a redução no número de filhos e a
progressiva redução do tempo de inserção tardia de mulheres no mercado de trabalho, no que
Greennhaus (1994) denomina estilo de vida familiar flexível, com melhor equilíbrio de papéis
e uma perspectiva mais longa de vida laboral.
5 Metodologia – O presente estudo tem natureza qualitativa, com o intuito de preservar a
riqueza e a expressividade de experiências de vida e fenômeno não comumente exploradas na
literatura administrativa.
Quanto aos fins ou objetivos, trata-se de estudo descritivo, por apreender padrões,
características, peculiaridades e trajetórias de um grupo específico de atores sociais, a partir
de categorias de análise pré-definidas (Cooper & Schindler, 2003).
Quanto aos meios, trata-se de estudo de campo, na modalidade estudo de múltiplos
casos. A seleção de sujeitos se fez por meio de snowball sampling, segundo os seguintes
critérios: a) mulheres de classe média, casadas e com pelo menos um filho, Assim, excluiu-se
intencionalmente da amostra mulheres em situação de exclusão social, pelo fator rendimento
familiar; e b) mulheres que se (re)inseriram no mercado de trabalho por volta dos 40 anos,
isolando situações de inserção tardia em idade correspondente ao late career, onde as
alternativas ocupacionais são ainda mais limitadas e os desafios potencializados.
O snowball sampling constitui procedimento de amostragem intencional,
freqüentemente utilizado para identificar sujeitos com características comuns mas não
organizados como grupo, sendo por isto de difícil acesso a pesquisadores por métodos
randômicos tradicionais (Biernacki &Waldorf, 1981). Nas condições supra mencionadas,
foram identificadas e estudadas 6 (seis) mulheres.
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Os dados foram coletados nos meses de março e abril de 2011, nas cidades de
Fortaleza e Sobral (CE), por meio de entrevistas semi-diretivas, tendo como estratégia a
técnica de história de vida, onde os relatos elaboram e transmitem, em profundidade,
memórias pessoais ou coletivas, sob a narração dos próprios atores (Paulilo, 1999;
Santamarina & Marinas, 1999). Ao tratar de histórias de vida, Santamarina e Marinas (1999)
e Meihy (2002) a colocam no amplo quadro de história oral de vida e também temática. Tratase de uma história oral temática por apoiar-se objetivamente na temática da inserção no
mercado de trabalho, em conjugação à história oral de vida pessoal e profissional.
A coleta e análise dos dados foram orientados pelo procedimento analítico geral
(Milles & Huberman, 1994 ; Collis & Hussey, 2005),tendo os conteúdos das entrevistas sido
organizados por meio de categorias analíticas pré-definidas e selecionadas a partir das teorias
concernentes.
6 Análise de Resultados – O estudo da inserção tardia de mulheres no mercado de trabalho com idade em torno de 40 anos - foi pautado por categorias analíticas amplas que buscaram
identificar motivações e antecedentes, alternativas e escolhas profissionais, significados da
inserção tardia, além de autoavaliação, realização pessoal e perspectivas (futuro). Em
coerência com a técnica de estudo de caso, as informações se acham agrupadas por sujeito.
6.1 Sujeito 1 - Nasceu em Sobral-CE, casou-se aos 20 anos de idade, é mãe de 4 filhos e tem
57 anos. Interrompeu estudos em nível superior, vindo a se formar em pedagogia, após quase
uma década dedicada à família. Reinseriu-se no mercado de trabalho aos 36 anos e quatro
anos mais tarde iniciou carreira empreendedora. Atualmente, trabalha em uma escola de
educação infantil, na qual é proprietária, exercendo função de gestão. Adicionalmente,
trabalha também como formadora na área de educação infantil em outras instituições
educacionais.
Motivações e antecedentes - Após o casamento, Sujeito 1 optou por dedicar-se à
educação dos filhos. Entretanto alimentou por muito tempo o sonho de se profissionalizar: “a
minha motivação sempre foi muito forte, eu sempre tive vontade de trabalhar, de me sentir
produtiva... depois vi que era tempo de cuidar de um projeto de vida, que era me realizar
profissionalmente”. Os motivos da inserção profissional estão relacionados à necessidade de
sentir mais produtiva e ter uma realização pessoal.
Escolhas profissionais e trajetória de carreira - A primeira experiência laboral de
Sujeito 1 ocorreu aos 36 anos, como professora assalariada. Mais tarde, conjugou docência
com atividades de coordenação. Não se identificando com a filosofia da escola em que
trabalhava, decidiu, 4 anos mais tarde, criar um “espaço em que pudesse fazer aquilo que eu
acreditava em educação” iniciando-se assim na carreira empreendedora. Dentre os desafios
inicialmente encontrados, relata a reduzida experiência administrativa e financeira, pois sua
formação foi voltada para a área pedagógica.
Significados do trabalho na maturidade - A inserção profissional em idade tardia foi
uma opção de vida, considera que nessa fase da vida a pessoa tem noção do tempo perdido e
os objetivos de vida são mais claros:
Foi interessante fazer faculdade, num outro momento. Já como mais maturidade, eu
senti uma diferença enorme em relação ao período em que eu comecei, porque ali
você tem que otimizar o tempo, então, eu fui convidada para trabalhar pela minha
atitude na faculdade, porque eu não tinha experiência nenhuma.
Auto-realização e perspectivas - Considera-se feliz do ponto de vista pessoal pela
participação na educação dos filhos. Do ponto de vista profissional, considera-se uma pessoa
de sucesso por ter realizado um desejo de juventude: “uma coisa que me motiva muito, é
participar do crescimento de outras pessoas, então isso é, vê as pessoas se desenvolvendo e eu
podendo contribuir pra isso, isso é uma coisa, uma realização, um sentimento de realização
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muito profundo.” Em relação ao futuro, Sujeito 1 faz plano de continuar estudando e
trabalhando nesta mesma área.
6.2 Sujeito 2 - Nasceu em Maranguape - CE, aos treze anos mudou-se para a cidade de
Fortaleza com o intuito de estudar. Casou-se aos 18 anos, é mãe de 5 filhos. Muitos anos
depois formou-se em Pedagogia, mudando posteriormente para a área de saúde após formação
em nível técnico em Enfermagem e Acupuntura, exercendo esta última atividade na qualidade
de autônoma. Teve sua primeira experiência laboral aos 36 anos de idade. Cerca de quarto
anos mais tarde passou a desenvolver atividade empreendedora em clínica. Possui agora 47
anos. Reside no interior do Ceará, onde permanence desenvolvendo atividades profissionais
na área de saúde.
Motivações e antecedentes – Sujeito 2 optou por dedicar-se à maternidade. Explica
que quando os primeiros filhos começaram a sair de casa sentiu um vazio: “chega um
momento da vida em que quer se sentir uma pessoa mais completa, mais útil, E você começa
a perceber como um algum vazio por alguma coisa... Daí, é quando você começa a detectar
que a questão da profissão é importante e você precisa fazer algo que te realize”. A motivação
de Sujeito 2 por inserir-se no mercado de trabalho está associada à necessidade de uma
realização pessoal.
Escolhas profissionais e trajetória de carreira – Sujeito 2 teve uma escolha profissional
inicial em carreira assalariada como professora, mudando cerca de quatro anos mais tarde
para a área de saúde, primeiro como técnica de enfermagem, depois como acupunturista
autônoma. A escolha profissional atual foi em decorrência a um período de reflexão: “eu me
vi numa situação que eu comecei a avaliar se ali era realmente o que eu queria me dedicar [...]
estava tudo muito estressante pra mim, não compensava. [...] Aí eu comecei a vê qual era a
área que eu gostaria de trabalhar, e vi que eu gostava da área de saúde, daí eu fui mudando de
área”. Dentre as dificuldades encontradas por Sujeito 2, está a pouca experiência na área de
atuação.
Significados do trabalho na maturidade - A carreira em idade tardia foi uma opção de
Sujeito 2, embora em alguns momentos tenha se sentido incomodada pelo fato de não
trabalhar: “era como se tivesse faltando uma coisa para me sentir uma pessoa mais realizada”.
O trabalho em idade tardia teve para Sujeito 2 significado de “cumprir um papel social e isso
faz bem pra gente”. A inserção profissional tardia foi experimentada por Sujeito 2 como uma
sensação de segurança, no entanto, percebe que tem que: “acelerar um pouco o ritmo das
coisas porque você não é tão jovem.” Ao analisar sua trajetória profissional, ressalta que
deveria ter iniciado um pouco mais cedo.
Auto-realização e perspectivas - Considera-se uma pessoa feliz e realizada. Aprecia a
importância do tempo dedicado aos filhos, entretanto ressalta que no momento atual tem mais
tempo para dedicar-se aos projetos pessoais e profissionais. Pondera que, se tivesse começado
vida profissional mais cedo, talvez fosse mais fácil. Fala do futuro com otimismo e faz planos
de expansão, em projeto que reúna os familiares da área de saúde.
6.3 Sujeito 3 - Mineira de Itapecerica, mudou-se pra o Ceará após casar-se aos 18 anos. É
mãe de 2 filhos, está com 47 anos e teve a sua primeira experiência laboral aos 36 anos.
Formou-se em Pedagogia, mas nunca exerceu atividade docente. Atualmente é empresária no
ramo de alimentos, divide seu tempo profissional entre a fabrica de doces e seu escritório-loja.
Nunca desenvolveu atividade assalariada, optando desde o início pela atividade
empreendedora.
Motivações e antecedentes - Sujeito 3 decidiu inicialmente dedica-se a maternidade,
mas depois de um período diante das demandas familiares sentiu a necessidade de
incrementar a renda familiar: “eu fiquei pensando numa maneira de aumentar a nossa renda
ali”. Dessa forma, as motivações de Sujeito 3 estão voltadas para a perspectiva de tornar-se
uma pessoa mais produtiva.
9
Escolhas profissionais e trajetória de carreira - Sujeito 3, formou-se pedagogia mas
desde cedo demonstrava inclinação para carreira empreendedora: “E como eu tinha uma
habilidade disso, porque era bacana criar, né, eu fui tomando gosto naquilo e nunca exerci
esse magistério, nunca dei aula, minha carteira nunca foi assinada...”. Sujeito 3 iniciou-se na
carreira empreendedora no ramo de alimentos e primeiramente optou pela informalidade.
Tempos depois, abriu uma empresa, na qual trabalha até hoje. Dentre os desafios encontrados
por Sujeito 3, está a falta de qualificação na área de gestão de negócios. Apesar da inclinação
empreendedora, a primeira inserção profissional foi apenas aos 36 anos de idade.
Significados do trabalho na maturidade - Sujeito 3 se considera uma pessoa bem
resolvida em relação à opção inicial de ter dedicando-se aos filhos e em consequência ter
iniciado a carreira um pouco mais tarde: “Eu acho que eu sou privilegiada, por ter conseguido
tudo isso”. Considera que iniciar a carreira em etapa tardia tem algumas vantagens e desafios:
“Por que a vantagem é que, com esse tempo ‘todim’ (sic), a gente acumula experiências [...]
mas, ao mesmo tempo, a gente vai perdendo aquela força física e isso dá um certo medo...”
Sujeito 3 nunca se sentiu inferior frente às mulheres que estavam atuando no mercado de
trabalho.
Auto-realização e perspectivas - Declara-se feliz e realizada com a vida que “traçou”
para si mesma. Afirma nunca ter se sentido inferior às outras mulheres que trabalhavam.
Avalia a sua família como bem estruturada, fato que ela atribui ao tempo em que se dedicou
aos filhos. Em relação à vida profissional, sente-se orgulhosa de suas conquistas. Assegura
que sempre fez o que gosta. Em termos de aspirações, demonstra interesse de repassar seus
conhecimentos na área de alimentos através de cursos.
6.4 Sujeito 4 - Nasceu e reside na cidade de Fortaleza (CE). Casou aos 20 anos e teve 3
filhos. Formada inicialmente em Contabilidade, veio a cursar, anos mais tarde, o curso de
Pedagogia. Atualmente tem 47 anos e exerce atividades profissionais como artesã. Teve
experiência laboral incipiente e breve, pouco antes do casamento. Voltou ao mercado de
trabalho aos 42 anos como assalariada, optando pela atividade empreendedora 2 anos mais
tarde.
Motivações e antecedentes - Sujeito 4 casou-se aos 20 anos e logo vieram os filhos,
optando para dedicar-se à maternidade, após este período e ao perceber que “as crianças
estavam crescendo e tornando-se mais independentes”, sentiu “vontade de procurar uma
ocupação” que pudesse, dentre outras coisas, também torná-la mais autônoma
financeiramente.
Escolhas profissionais e trajetória de carreira - Sujeito 4 teve as primeiras experiências
profissionais durante a faculdade como contadora, atividade interrompida após o nascimento
dos filhos. Inicia um período curto com vendas de confecção e retorna à faculdade, cursa
pedagogia e inicia uma carreira assalariada como professora que foi mais uma vez
abandonada: “Fui professora por um período muito curto, apenas dois anos, e também desisti
logo essa coisa de viver salário não dá pra mim não”. Sujeito 4 mais uma vez começa a
trabalhar agora como artesã: “eu procurei no que sabia fazer, e o artesanato é uma herança
familiar[...] então, busquei iniciar nesta tradição familiar...”. Dentre os obstáculos encontrados
por Sujeito 4, está a falta de experiência em gerir o próprio negócio. Teve a primeira inserção
aos 18 anos que foi interrompida, a segunda aos 36 anos, depois aos 38 e na atual carreira aos
42 anos.
Significados do trabalho na maturidade - Sujeito 4 se define como uma pessoa mais
realizada e produtiva: “principalmente porque agora se identifica com o que faz e tem o prazer
de fazer o que gosta e que já consegue obter rendimentos”. Analisa que a inserção em idade
tardia, “a tornou mais segura”, e destaca a experiência adquirida ao longo da vida conta
muito, e que de certo tempo a pessoa não quer mais perder tempo.
10
Auto-realização e perspectivas - Considera-se satisfeita e feliz porque, do ponto de
vista profissional, conseguiu algumas realizações e se sente financeiramente mais
independente. Destaca realizações no âmbito da família como fruto de sua dedicação. Afirma
que em alguns momentos sentiu-se inferior, em relação às outras mulheres, principalmente
por ter duas formações e não trabalhar. Em relação ao futuro, afirma não ter planos, mas, ao
mesmo tempo, manifesta vontade de ampliar o trabalho e aprender coisas novas.
6.5 Sujeito 5 – Nasceu em Monsenhor Tabosa-CE, casou-se aos 18 anos sem formação
superior, mudando logo para Fortaleza. Teve dois filhos. Devido o trabalho do marido,
Sujeito 5 morou em diversas cidades. Anos depois, formou-se em direito, fez concursos
públicos, tendo a primeira experiência laboral aos 36 anos. Atualmente tem 43 anos e trabalha
como bancária (assalariada). Mora na cidade de Fortaleza. Quatro anos após ingressar na
carreira bancária, assumiu função de gestão, com expectativa de crescimento.
Motivações e antecedentes - Após um período dedicado a família, Sujeito 5 sentiu a
necessidade de ter uma profissão: “O trabalho é uma coisa muito importante. Eu acho que o
trabalho dignifica a pessoa. O trabalho, ele aumenta a sua autoestima (sic), você se sente útil.
Este foi motivo de eu querer trabalhar”. As Motivações profissionais de Sujeito 5 estão
associadas a necessidades de torna-se uma pessoa mais produtiva e realizada.
Escolhas profissionais e trajetória de carreira - Ao decidir trabalhar, Sujeito 5 optou
pela retomada dos estudos em direito. Optou, entretanto, pela carreira assalariada de bancária:
“o que eu procurei foi justamente segurança. Eu acho assim: pra ser um empreendedor,
trabalhar por conta própria, você tem que ter assim um perfil.” Dentre os obstáculos: “a maior
dificuldade no início era pra estudar, porque eu precisava me atualizar, eu não tinha muita
experiência e tive que levar muitas vezes trabalho para casa”. Sujeito 5 ascendeu rapidamente,
exercendo, atualmente, cargo de gerência. Teve a primeira inserção aos 36 anos de idade.
Significados do trabalho na maturidade - Sujeito 5 afirma que a opção inicial de
dedicar-se à família foi importante, mas depois de algum tempo passou a se sentir em
desconforto pela total dependência do marido: “Era uma situação que me incomodava. Até
porque, quer queira, quer não, a gente sente que tem um preconceito, muito grande [...] e eu
achava esta situação muito constrangedora.” Refere-se a carreira na idade tardia como uma
boa experiência e que valoriza muito suas conquistas, destaca que trabalhar foi muito positivo.
Auto-realização e perspectivas - Na dimensão pessoal, Sujeito 5 se considera uma
pessoa realizada com o fato de se ter dedicado à família no momento certo. Do ponto de vista
profissional, considera-se uma pessoa realizada mesmo tendo iniciado tardiamente a sua
carreira: “Eu ter conseguido, apesar das dificuldades, ter filhos e de ter outras
responsabilidades é muito importante pra mim. [...] Então tudo isso, todas essas conquistas,
foram pra mim mais do que aquilo que eu imaginei.” Em relação às aspirações futuras,
declara interesse em fazer outro concurso público nos próximo cinco anos, na sua área de
formação – o Direito.
6.6 Sujeito 6 - Nasceu na cidade de São Paulo (SP), casou-se com 21 anos, mudando para
Fortaleza, onde foi mãe de 2 filhas. Adentrou no mercado de trabalho aos 34 anos e está com
43 anos de idade. Antes do casamento, formou-se como tecnóloga em Odontologia, ofício
nunca exercido. Após 7 anos em dedicação exclusiva à família, retomou os estudos,
graduando-se em Direito, seguida de especializações em Direito Civil e Direito Empresarial.
Optou inicialmente pelo empreender, ao se tornar social de escritório de advocacia, um ano
após formada. Em paralelo, trabalha em uma faculdade, na qual exerce o cargo de
coordenadora do núcleo de práticas jurídicas. Atualmente tem 43 anos de idade.
Motivações e antecedentes - Os motivos que influenciaram o Sujeito 6 a se inserir no
mercado de trabalho foram a necessidade de realização pessoal, de sentir-se socialmente
produtiva, além da perspectiva de influenciar positivamente as filhas, conforme relata:
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[...] eu tinha um excesso, uma energia que eu precisava depositar em alguma coisa
produtiva, e eu queria fazer algo... eu precisava me completar, e vi que era com o
trabalho [...] eu tenho duas filhas, duas mulheres do novo milênio, que ela têm que
ter um parâmetro, mesmo eu não precisando trabalhar, porque eu tenho condições
financeiras [...] mesmo assim, eu achava que eu tinha a obrigação de um exemplo
bom pras minhas filhas.
Escolhas profissionais e trajetória de carreira – O Sujeito 6 sempre teve vontade de
estudar direito, desejo que se realizou anos depois de casada. Iniciou as atividades laborais
como advogada, para em seguida seguir carreira como professora universitária, conciliando
com atividades de escritório de advocacia. Os obstáculos foram percebidos logo na época da
faculdade: “eu tinha 10 anos de defasagem em relação aos meus colegas”. Ao entrar no
mercado de trabalho, Sujeito 6 experimentou também alguns obstáculos: “eu vi certa
discriminação [...] e enfrentei também preconceito de colegas mais velhos nas audiências”.
Embora com vínculo empregatício, a carreira de Sujeito 6 se caracteriza como
empreendedora, já que se dedica preferencialmente ao escritório de advocacia de que é sócia.
Significados do trabalho na maturidade – O Sujeito 6 se diz contente com a opção
inicial de dedicar-se a família, porque sabia da importância deste momento. Destaca,
entretanto, momentos de frustração: “Eu sabia que era importante, que era uma missão, mas
eu tinha uma frustração ao ficar só em casa”. Relembrou momentos de dilemas existenciais,
onde se perguntava se tinha feito a melhor opção. Destaca que o trabalho ocupou um
“importante espaço em sua vida” e que hoje em dia sente-se “uma pessoa mais completa”.
Analisa que, com o trabalho, encontrou mais segurança.
Auto-realização e perspectivas - Do ponto de vista pessoal considera que a missão foi
cumprida. Do ponto de vista profissional está feliz, pois conseguiu atingir o sonho da
realização profissional. Em relação ao futuro, Sujeito 6 demonstra ter planos de continuar
progredindo naquilo que faz, reforçando, inclusive a carreira acadêmica.
6.7 Síntese dos casos – Conforme visto, as mulheres tomadas como sujeitos do estudo
configuram casos de inserção tardia, com as primeiras experiências laborais acontecendo em
idade média de 36 anos, contra uma interrupção da vida laboral por volta dos 19 anos de
idade, em média. Dessa maneira, o tempo médio de afastamento do mercado de trabalho, ou a
inserção tardia por medida de tempo, perfez 17 anos, no conjunto dos casos estudados. Tal
medida é compatível com o interstício indicado pelos autores estudados que estabelece 15
anos entre o estágio organizational entry e o midcareer. Assim, o early career tem duração
estimada de 15 anos, sendo os limites etários colocados em teoria simples referenciais. A
figura 1 sintetiza os dados obtidos com os sujeitos pesquisados.
No caso das motivações e antecedentes, predomina a busca da realização pessoal da
maior parte das mulheres ouvidas (5 em 6), sendo um registro relacionado com o desejo de
independência financeira em relação ao marido. Nos demais casos, ficou evidenciada uma
ética de trabalho e de utilidade social bastante pronunciada, onde o afastamento das atividades
laborais representa vergonha e não exemplaridade diante dos familiares e da própria
sociedade. Em todos os casos, a opção pela maternidade surge como decisão consciente, com
o intuito de retorno posterior ao mercado de trabalho. Em contrapartida, em apenas um caso é
mencionada a necessidade de elevar os rendimentos familiares. O significado da realização
pessoal e social e tão mais relevante se considerarmos tratar-se de mulheres de classe média,
sem necessidade imediata de rendimentos para sobreviver com dignidade. Esses resultados se
mostram compatíveis com os resultados do estudo “Algumas características da inserção das
mulheres no mercado de trabalho” do IBGE (2008). Os resultados obtidos também mostram
aderência com uma mentalidade de midcareer, na qual o foco em questões substantivas como
valores sociais se faz sentir com maior intensidade.
12
Motivações e
antecedentes
Escolhas e
Trajetória
Carreira
de
Sujeito 1
Sujeito 2
Sujeito 3
Sujeito 4
Sujeito 5
Sujeito 6
Realização
pessoal
Iniciou
carreira
assalariada e
migrou para
empreendedor
a
Realização
pessoal
Aumento de
renda
Realização
pessoal
Iniciou a
carreira
assalariada e
migrou para
empreende-dora
Carreira
empreende-dora
Independência
Iniciou a
carreira
assalariada e
migrou para
empreendedora
Realização
pessoal
Iniciou a
carreira
assalariada e
migrou para
empreendedora
Fatores
Dificultadores
Falta de
experiência
Falta de
experiência
Falta de
experiência
Falta de
experiência
Fatores
Facilitadores
Otimização do
tempo e
experiência
pessoal
Experiência
pessoal e
segurança
Experiência
pessoal
adquirida na
maturidade
Experiência
pessoal
adquirida na
maturidade
Significados da
Inserção
Sentimento de
inferioridade e
frustração.
Tem objetivos
mais claros
Necessidade
fazer algo
significativo.
Sente que
cumpriu um
papel social
Realização por
optar pelo que
sabia saber
fazer.
Utilização de
Experiência
acumulada
Auto realização
e Perspectivas
Futuras
Realizada
com as
escolhas e
planeja
estudar
Realizada com
as escolhas e
faz projetos
futuros
Realizada,
orgulhosa com
as conquistas e
com planos
de expansao
Carreira
assalariada
no setor
bancário
Defasagem de
tempo
Experiência pessoal
adquirida
na maturidade
Defasagem
de tempo
Otimização
do tempo e
experiência
pessoal
Dependência
do marido.
Tornou-se
mais segura
Necessidad
e fazer algo
significativo. Experiência
positiva
Exemplo
para as filhas.
Trabalho
como
importante
papel em sua
vida
Realizada,
feliz, mas
demonstra
poucos planos
Realizada,
planeja
outro
concurso
na área de
Direito
Realizada e
pretende
investir na
carreira
acadêmica
Figura 1. Síntese das categorias de análise de inserção tardia no mercado de trabalho
No que se aplica às escolhas e trajetórias de carreira, chama a atenção a ocorrência de
pelo menos dois ciclos de trajetória em 5 dos 6 casos estudados, sendo o primeiro ciclo
correspondente à experiência assalariada, seguida pela opção empreendedora que prevalece
até o presente. No sexto caso, a opção empreendedora já se afirma desde o princípio. Em
todos os casos, a percepção da defasagem temporal as impele para atividades mais alinhadas
com o nível de desenvolvimento psicológico e social dos sujeitos. Essa opção parece também
guardar relação com a inexistência de carência financeira de praticamente todas as mulheres
estudadas. Assim, pertencer a um grupo familiar bem sucedido parece ser fator determinante
para as escolhas e a consolidação da carreira empreendedora dessas mulheres. O predomínio
de atividades formativas antecedentes às experiências profissionais é também outro dado
concreto. No caso, a formação parece mais relacionada com as alternativas assalariadas do
que com a alternativa empreendedora que predominou ao final.
Dessa maneira, a falta de experiência e a decalagem temporal em relação às pessoas da
mesma indade, no mercado de trabalho, são indicadas de maneira unânime como fatores que
dificultaram a inserção laboral. Tendo optado em 5 dos 6 casos pelas atividades
empreendedoras, o principal obstáculo indicado pelas mulheres após 10 anos, em média, nas
atividades laborais reside no domínio dos conhecimentos e das habilidades requeridas pela
gestão dos seus empreendimentos. A escolha do ramo de atividades não se mostrou
problemática por estarem relacionados com vocações e pré-disposições individuais, fato que
também se coaduna com os princípios do midcareer.
No que tange aos fatores facilitadores, destaca-se a experiência pessoal representada
pelas habilidades sociais e a maturidade pessoal desenvolvidas no período em que se
dedicaram às famílias. Da mesma maneira, a necessidade de abreviar etapas em vista do
tempo não investido em atividades laborais foi determinante para a escolha de atividades
produtivas baseadas em vocações e predisposições já identificadas. Dessa maneira, os
13
objetivos laborais pareceram mais claros, face à percepção de que o número de alternativas se
reduziu com o passar dos anos, acompanhando-se de uma noção mais efetiva de
aproveitamento de tempo.
Embora tenham empreendido suas carreiras em idade tardia, mostram-se satisfeitas
com as decisões anteriormente tomadas, considerando importante o tempo dedicado as suas
famílias. Apesar de, em alguns momentos, haverem sentido frustração e inferioridade, as
mulheres estudadas se sentem perfeitamente alinhadas às que se inseriram no mercado de
trabalho em tempo-padrão, ou seja, sem inserção tardia e ausência de deslocamentos mais
significativos de tempo de em relação à média. O fenômeno pode ser registrado mesmo no
caso em que se optou pela atividade assalariada, onde a mulher ocupa funções gerencial, e se
prepara para assumir cargo de mais alta responsabilidade na empresa em que labora ou em
outra atividade mais compatível com a formação inicial – o Direito.
Dessa maneira, o desenvolvimento da carreira dessas mulheres parece ter o significado
de elevação da autoestima e o sentimento de dever familiar cumprido, frente às realizações
dos objetivos pessoais e profissionais, o que confirma os argumentos de Hall (1996) a respeito
das carreiras contemporâneas, no qual o objetivo principal é o sucesso psicológico, aliado a
um sentimento de orgulho e de realização pessoal por alcançar os objetivos de vida e projetar
expansão para o futuro.
7 Considerações finais – A análise da inserção profissional tardia de mulheres no mercado de
trabalho, em seus diversos condicionantes e descritores, evidencia a existência de hiatos de
capacidades e de competências laborais significativos. Em tese, os referidos hiatos ou gaps
são diretamente proporcionais à extensão do afastamento do mercado de trabalho. A inserção
tardia, pelo lado da pessoa, mostra-se associado com sentimentos de inferioridade e de
frustração por uma suposta desvantagem em relação aos sujeitos que não se afastaram do
mercado de trabalho por tempo tão longo. A angústia das mulheres em inserção tardia
também se relaciona com a realidade da redução progressiva de oportunidades que se
relaciona com o avanço etário. Ao quadro, somam-se as assimetrias de oportunidades e de
remuneração associadas com o trabalho feminino, na comparação com o masculino. Por fim,
a inserção tardia se mostra ligada à frustração pelo não exercício de um papel social
fundamental, somente passível de cumprimento pelo exercício ativo e engajado de atividades
laborais.
Embora o estudo de um número reduzido de casos não autorize a generalização dos
resultados, tem-se também claro o fato de que os casos analisados não constituem paradigma
em relação ao conjunto da população feminina brasileira, posto explorar a realidade de
mulheres de classe média. Na perspectiva do contingente estudado, a inserção tardia não
parece ter constituído problema maior. A defasagem temporal, em suas repercussões sobre as
capacidades laborais, parece integralmente eliminada, em média, com apenas 6 anos, em
média, de atividades laborais (tempo médio para se consolidar na atividade que permaneceu –
3 anos antes de optar pelas atividades empreendedoras mais 3 anos para consolidar
empreendimento). No caso do Sujeito que optou pela via assalariada, a consolidação
ocupacional se deu ainda mais cedo, com 3 anos após ingressar na empresa onde permanece
até hoje.
Dessa maneira, o conjunto das observações realizadas evidenciam casos de sucesso
conjugados com satisfação e realização profissional e pessoal, nos planos objetivo e subjetivo.
Os resultados relativos a mulheres de classe média, lançando mão de um capital familiar não
desprezível, certamente contribuem para os resultados evidenciados. Nesse sentido, (1) as
motivações relacionadas à realização pessoal e ao exercício de funções sociais em lugar da
motivação meramente financeira e de complemento de renda familiar; (2) o acesso às
formações de nível tecnológico e superior; (3) a alternativa de poder desenvolver, em uma
perspectiva financeira, atividades empreendedoras, abreviando tempo e auferindo resultados
14
mais significativos; (4) as dificuldades de falta de experiência sendo supridas pelo exercício
de atividades mais qualificadas e de aprendizagem mais intensa e focada; (5) o fator
maturidade pessoal, ao lado de competências sociais e comportamentais melhor consolidadas;
(6) uma perspectiva de crescimento no médio e longo prazo – não podem, em nenhum
hipótese ser extensíveis às trabalhadoras em geral, particularmente as que portam deficiências
de formação ou de reduzido capital familiar ou social. Nesse aspecto, as mulheres em situação
de exclusão social constituem antípodas.
Dentre as escolhas empreendidas por essas mulheres, constatou-se uma tendência à
carreira empreendedora, tendo em vista as oportunidades que a mesma oferece, assim como a
possibilidade de torná-la compatível com os seus estilo de vida. Esta opção relaciona-se à
necessidade de criar algo, baseado em talentos e capacidades com foco em inovação e
perspectiva de torna-se independente. Nesse sentido, o custo, em termos de tempo associado
com uma carreira pública ou em grande organização burocrática (com carreira linear, a partir
da primeira referência no plano de cargos e salários), parece cobrar um preço elevado das
mulheres em inserção tardia, tendo a alternativa empreendedora um apelo forte.
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1 A Inserção Tardia de Mulheres no Mercado de Trabalho