A quase 2000 metros acima do nível do
mar, perto da Torre, no ponto mais alto
da Serra da Estrela, entre Junho e Julho, é
comum encontrar o vôo de um insecto com
a coloração de uma borboleta diurna e o
movimento de uma libélula, chamado de
Libelóide-comum e cujo nome cientíico é
Libelloides longicornis (Linnaeus, 1764). Por
trás da imagem espetacular
deste animal, há um grupo
não muito numeroso, mas
diversiicado, de insectos
pertencentes às ordens
agrupadas em Neuropterida
e que podem ser observados
em diferentes ambientes
presentes no Parque Natural
da Serra da Estrela. Estes
contam uma longa história de
centenas de milhões de anos,
com traços que remontam ao
período geológico Permiano,
entre 250 e 300 milhões de
anos. Juntamente com os
Coleoptera, com a qual estão
estreitamente relacionados em termos
de ilogenética evolutiva, os neurópteros
representam uma das linhagens mais antigas
dos Holometabola (insectos que passam de
uma fase larvar para a vida adulta através
da reconstrução total do corpo, chamado
“estágio de pupa”, tal como as lagartas dos
lepidópteros ou borboletas que emergem
do casulo pupal e esticam as suas asas
aparentando ser já uma borboleta adulta),
que aparece com os primeiros traços fósseis
em rochas com cerca de 280 milhões de
46
anos.
Esta longa história evolutiva fez com que
os Neuropterida se diversiicassem de um
modo absolutamente extraordinário, tanto
do ponto de vista estrutural como das
estratégias do ciclo de vida. No entanto,
ao contrário dos “primos” coleópteros, os
Neuropterida não tiveram um especial
“sucesso evolutivo”, em termos de número
de espécies e indivíduos (actualmente
consideradas vinte famílias, deste grupo
de insetos, em cerca de 6000 espécies
em todo o mundo) e, além disso, a sua
“idade de ouro”, de acordo com os fósseis
até agora conhecidos, praticamente
desapareceu de alguns grupos, como famílias
de Raphidioptera (incluindo um im em
Neuropterida) e Nevrorthidae (uma pequena
família em termos numéricos) são muitas
vezes considerados os verdadeiros “fósseis
ZIMBRO - JUNHO 2013
vivos”. Apenas em traços fósseis destes
insectos foi possível encontrar exemplos de
um passado distante de estratégias evolutivas
que hoje em dia encontramos em grupos
de insectos também ilogeneticamente
muito distantes. Assim, na Era Mesozóica,
das plantas angiospérmicas, já possuíam
estratégias de camulagem adaptativa para se
defenderem dos predadores (provavelmente
dinossáurios insetívoros), imitando com
as suas próprias asas a morfologia das
folhas das plantas gimnospérmicas que
entre 100 e 200 milhões de anos atrás,
loresceu uma família de Neuropterida que
se extinguiu, os Kalligrammatidae, cuja
aparência morfológica das suas asas fazem
lembrar algumas das borboletas mais belas
dos nossos dias. Possuíam também peças
bucais especializadas para se alimentar das
estruturas geradoras de pólen e outras, de
plantas gimnospérmicas já extintas. Outros
neurópteros do Mesozóico (pertencentes a
grupos já extintos), mesmo antes da explosão
dominaram os habitats em que viviam, à
semelhança do que muitos insectos fazem
hoje em dia, entre os quais também o
neuropterida moderno (basta pensar na
imitação foliar perfeita do hemerobídeo,
Drepanepteryx phalaenoides). Mas o
testemunho da ligação mais conhecida
entre o Neuropterida e o registro fóssil é
provavelmente a história do Raphidioptera
(o qual se pode observar na Estrela,
especialmente na vegetação em torno de
48
Manteigas, Atlantoraphidia maculicollis
(Stephens 1836), um grupo de Neuropterida
cuja rica e diversiicada fauna Mesozóica é
drasticamente simpliicada e reduzida
para a transição entre o Cretáceo e
Terciário, em conexão com este evento de
extinção em massa catastróica (último
evento de extinção em massa natural,
antes da actual antrópica ...) conhecido
por ser o momento inal do domínio
dos dinossauros, então, substituído nesta
função por mamíferos da presente fauna.
Mas voltando aos Neuropterida no
Parque Natural da Serra da Estrela,
podemos referir aspectos interessantes
relacionados com o estudo destes insectos
em Portugal continental.
Embora a primeira menção a este grupo
de insetos data a partir do início do
século XIX, com a descrição de uma
espécie apenas dedicada a Portugal, o
nemoptérido Nemopteryx lusitanica
(Leach, 1815), agora conhecido pelo
nome de Nemoptera bipennis (Illiger,
1812), poucos estudos se lhe têm
dedicado no país, tanto que ainda hoje
uma das poucas publicações vêm do
lado espanhol da Península Ibérica.
No entanto, o papel da entomopredatori
de algumas famílias destes insectos
(Chrysopidae, Hemerobiidae, Coniopterygidae
e Raphidiidae), o estudo destas espécies de
insectos de âmbito agrário está bastante
difundida. Do ponto de vista da natureza,
por vezes as “descobertas” acontecem de
forma ocasional: graças a uma viagem
exploratória no inal do século passado,
resultou num encontro, na área da Lagoa dos
Cântaros, com um pequeno grupo peculiar
de Neuropterida, com estágio larvar aquático,
da família Sialidae, ordem Megaloptera,
citado em 1800 por alguns Portugueses, mas
nunca avaliado no país, de modo que os mais
recentes trabalhos monográicos dedicados
a estes insetos e primeiras versões da Fauna
Europeia (http://www. faunaeur.org )
não relataram a presença destes insectos,
facto bastante comum e muito popular em
Portugal.
ZIMBRO - JUNHO 2013
Nota-se com satisfação que a situação do
conhecimento “naturalista” destes insetos
em Portugal mudou recentemente graças ao
projeto NaturData (http://naturdata.com),
onde fotógrafos apaixonados e naturalistas
portugueses podem contactar com os
especialistas, permitindo um rápido aumento
do conhecimento sobre os Neuropterida
de Portugal. No que diz respeito ao Parque
Natural da Serra da Estrela, no GeObserver
- Sistema de Informação Geográica da
Serra da Estrela (http://www.geobserver.
org) foi recentemente possível inserir as
50
observações feitas no decorrer de uma
investigação realizada em 2011. No total,
15 espécies pertencentes a sete famílias de
Neuropterida são actualmente conhecidas da
área do Parque Natural da Serra da Estrela.
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