Adminisiração. n.° 1. vol. I. 1988-1.°, 13-19 REFLECTINDO SOBRE A EDUCAÇÃO EM MACAU Alexandre Rosa * 1. INTRODUÇÃO A realidade da educação em Macau no final dos anos oitenta é o resultado de um processo de desenvolvimento, historicamente determinado, cuja característica fundamental tem que ver com a quase nula intervenção da Administração no delineamento da política educativa do Território. Esta ausência de intervenção deixou lugar ao aparecimento de iniciativas que, na esfera não oficial, foram construindo respostas às necessidades de escolarização da população de Macau. Surgiram, assim, instituições educativas que, de forma desarticulada, foram edificando aquilo que hoje constitui a realidade da educação neste território chinês sob administração portuguesa. Num momento em que se dá início ao período de transição, durante o qual se tomarão as medidas que, de certa forma, deverão contribuir para a consolidação da autonomia de Macau, impõe-se uma reflexão profunda sobre o caminho percorrido, a situação presente e a definição das linhas de força que devem nortear a acção futura. Com este texto propomo-nos, não fazendo história, contribuir para essa reflexão na área da educação. Propomo-nos, aqui e agora, tão simplesmente apresentar, de forma sistemática, alguns dos traços gerais que caracterizam o ensino não--superior em Macau. 2. ALGUNS ELEMENTOS DE CARACTERIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO EM MACAU 2.1 ESTABELECIMENTOS DE ENSINO, FREQUÊNCIAS E TAXAS DE ESCOLARIZAÇÃO O quadro n.° l dá conta da dimensão da rede escolar existente no Território, bem como do número de alunos que, no ano lectivo de 1987-88, frequentam os diferentes níveis de ensino. * Chefe do Gabinete de Estudos e Planeamento da Acção Educativa da Direcção dos Serviços de Educação. 13 O ensino pré-primário abrange alunos do grupo etário dos 3 aos 5 anos, o ensino primário dos 6 aos 11 anos e o secundário dos 12 aos 17 anos. Importa referir, a propósito deste quadro, que os números relativos ao ensino primário abrangem duas realidades diferentes, do ponto de vista da estrutura curricular. Dos 32 060 alunos matriculados, 591, em três estabelecimentos de ensino, frequentam o 5.° e 6.° anos de escolaridade do sistema de ensino português, conhecidos por ensino preparatório. A diferença entre os correspondentes anos de escolaridade do ensino chinês e inglês reside no facto de aqui o regime ser de professor por disciplina, enquanto que ali o ensino é ministrado no regime de professor único. Estabelecimentos de ensino e frequências, por níveis de ensino, no ano lectivo de 1987-88 * O número de escolas não corresponde ao número de estabelecimentos de ensino efectivamente existentes, mas sim aos diferentes níveis de ensino ministrados, sendo significativo o número de escolas que ministram mais do que um nível. Quanto ao ensino secundário é, contudo, de assinalar que os 16 246 alunos existentes se distribuem diferentemente pelos dois ciclos de estudos. Assim, o ensino secundário geral (7.°, 8.° e 9.° anos de escolaridade) é frequentado por 11 624 alunos, enquanto que o ensino secundário complementar (10.°, 11.° e 12.° anos de escolaridade) é frequentado, apenas por 4 622 alunos. Verifica-se, assim, que à medida que se sobe na estrutura do ensino, as frequências vão baixando o que, só por si, denota um abandono significativo do sistema escolar. Este facto, porém, não deve iludir uma outra realidade que tem que ver com as taxas de escolarização que, num contexto de não gratuitidade de ensino para a maioria da população (só o ensino oficial é gratuito), são extremamente significativas. A partir de dados do XII Recenseamento Geral da População, 1981, pode verificar-se que (cf. quadro n.° 2): a) é quase de 100% a taxa de escolarização do grupo etário dos 6 aos 11 anos; b) o grupo etário dos 12 aos 14 anos apresenta uma taxa de escolarização de 91% e c) o grupo dos 15 aos 17 anos apresenta, mesmo assim, uma taxa de 57%. Embora não detenhamos informação sistematizada que nos permita avaliar como se distribui esta população pelos diferentes níveis de ensino, éde assinalar que a taxa de escolarização, de 85% para o grupo etário dos 6 aos 17 anos, é significativamente elevada. Este facto faz-nos crer que as preocupações com a educação são um traço marcante da estratégia social das famílias chinesas, muito 14 embora tal opção implique o custeamento quase total das despesas. Como elemento útil para a confirmação desta afirmação é de notar que as taxas de analfabetismo em Macau são pouco significativas. Assim, e ainda de acordo com os dados do XII Recenseamento Geral da População, a percentagem de analfabetos da população activa queda-se pelos 9,9%, os detentores do 6.° ano de escolaridade atingem cerca de 50% e os do ensino secundário cerca de 30% daquela população. Retomando o interior da realidade do ensino tal como ele se apresenta hoje, importa que sobre ele nos detenhamos, agora sob uma dupla perspectiva: por um lado, do ponto de vista institucional; por outro lado, na óptica mais marcadamente educacional. Taxas de escolarização, por grupos etários, no ano de 1981 2.2 FUNCIONAMENTO INSTITUCIONAL E SISTEMAS DE ENSINO Do ponto de vista institucional pode afirmar-se que o sector privado detém a quase totalidade do sistema educativo do Território. Conforme se pode verificar pelo quadro n.° 3, dos 79 estabelecimentos de ensino existentes, 69, ou seja 87%, são particulares, estando na dependência directa da Administração apenas 10, representando 13% do total. A existência de um sistema de ensino fortemente privatizado não é, só por si, sinónimo de pouca participação do Estado. Porém, no caso específico de Macau, esta realidade é acompanhada por uma quase total independência das diferentes instituições educativas relativamente à Administração. Dizemos independência e não autonomia já que as relações existentes entre as duas partes são de natureza meramente burocrática e administrativa, não ultrapassando os procedimentos tendentes à obtenção do respectivo alvará e do accionamento de mecanismos de apoio financeiro. Por força dos condicionalismos históricos que já referimos, o desenvolvimento do ensino particular deu lugar à criação de diferentes sistemas de ensino que, do ponto de vista pedagógico, se estruturaram sem relações com a Administração. Atentando, ainda, nos elementos do quadro n.° 3, verifica-se desde logo que o ensino particular garante a escolarização de 95% da população, enquanto que o ensino oficial apenas escolariza 15 5% da mesma. Por outro lado, pode verificar-se que todo o ensino chinês é garantido por instituições particulares, reservando-se para as escolas oficiais apenas o ensino português e luso-chinês, sendo aquele também ministrado em 3 escolas particulares, com subsídio da Administração. Outra nota digna de realce é a que se refere à posição relativa do sistema de ensino inglês que, com 4 120 alunos (6% do total) é superior ao sistema português (oficial e particular) que representa 5% do total. Esta situação, tendo em conta a natureza das relações Administração/ /ensino particular, faz com que 93% da população escolar (sistema chinês e sistema inglês) faça o seu percurso escolar sem o reconhecimento oficial automático dos seus cursos, já que nem a estrutura curricular adoptada, nem os planos de estudo são sancionados ou avalizados pelas autoridades locais. Estabelecimentos de ensino e alunos matriculados, por tipo de ensino, segundo o sistema de ensino, no ano lectivo de 1987-88 Estamos, assim, perante uma situação em que, em rigor, não se pode falar da existência de um sistema de ensino em Macau, mas sim de diferentes sistemas que, cada um por si, vão satisfazendo, embora com dificuldade, as necessidades da população do Território. 2.3. O ENSINO DO PORTUGUÊS COMO MEIO DE COMPATIBILIZAÇÃO DOS DIFERENTES SISTEMAS COM O ENSINO OFICIAL A compatibilização dos diferentes sistemas, organizados em estruturas curriculares e planos de estudos diversificados, com o sistema português (oficial), condição necessária para, por exemplo, possibilitar o acesso ao emprego na Administração, faz-se com o recurso a um processo de obtenção de equivalências. Tal processo tem por base, não exactamente o ensino ministrado com base nos planos de estudos regulares, mas sim a aprovação em exames de língua portuguesa, embora 16 não dispense a detenção de um grau de ensino no sistema frequentado. Talvez seja esta uma explicação para a procura que se verifica nos cursos de difusão da 16 língua portuguesa que, no corrente ano, apresentou os seguintes valores: Frequência dos cursos de difusão da língua portuguesa no ano lectivo de 1987-88 A aprovação nos graus I, II e III confere, respectivamente, equivalência ao ensino primário, ensino preparatório e ensino secundário geral (9.° ano). 2.4 O POLICENTRAMENTO DA REALIDADE EDUCATIVA E A DEPENDÊNCIA FACE AO EXTERIOR Assim, sem sistema de ensino próprio, oficialmente sustentado, as necessidades educativas do Território vão sendo satisfeitas de forma descoordenada. Como refere Conceição Alves Pinto, «[...] não tendo a Administração de Macau tomado a iniciativa de dar resposta às necessidades educativas da população chinesa, deixou que outras instituições a tomassem, com prejuízo da própria tutela. Assim se desenvolveu em Macau uma realidade educativa a partir de vários centros autónomos. E o que aí encontramos no final destes anos oitenta não é um sistema educativo centralizado, ou descentralizado, mas antes policentrado».1 Neste contexto não será de estranhar que se verifiquem assimetrias entre os diversos ensinos ministrados já que a qualidade de cada um dependerá, quase exclusivamente, da capacidade financeira que seja possível afectar para recursos materiais e humanos. Teremos, assim, no Território de Macau, escolas que contando com um corpo docente deficientemente preparado e funcionando em instalações nem sempre de boas condições muito dificilmente poderão ministrar um ensino adequado às necessidades da sociedade. A ausência de uma intervenção efectiva da Administração, no sentido de dotar o Território de um sistema de ensino próprio e unificado que, independentemente de ser suportado, ou não, por instituições privadas, permitisse uma igualdade de tratamento a toda a população escolar na sua frequência, está, ainda, na origem da forte dependência de Macau relativamente ao exterior, quer seja de Hong Kong ou do Continente chinês. Na falta de programas concebidos em função das características da sociedade de Macau, os estabelecimentos de ensino do Território desenvolvem os seus planos de estudos a partir de manuais escolares importados. Neste sentido, não será de estranhar que referências à história de Macau e ao seu lugar no contexto internacional, à sua geografia e às formas concretas que assume 1 M. Conceição Alves Pinto, Ensino em Macau: Uma Abordagem Sistémica da Realidade Educativa, Macau, Gabinete do Secretário Adjunto para a Educação e Cultura, 1987, p.20. 17 a organização e formas concretas que assume a organização e funcionamento da sua sociedade estejam praticamente ausentes dos ensinamentos transmitidos nos bancos da escola. Estuda-se, isso sim, a história e geografia de Hong Kong ou do Continente chinês, consoante a origem dos livros adoptados. A quase nula aprendizagem da língua portuguesa fica a dever-se, em nossa opinião, a problemas da mesma natureza. Os planos de estudos não oficializados, do ensino particular, não contêm, na sua esmagadora maioria, o ensino da língua portuguesa como disciplina curricular, embora, neste momento, seja de cerca de 5 000 o número de alunos que, nos mais diversos regimes, aprendem português nas escolas chinesas. A dependência dos sistemas de ensino de Macau, relativamente ao exterior, atingem também o sistema português que, seguindo na íntegra os programas definidos em Lisboa, por razões óbvias, não se adequou, como seria desejável e possível, às características locais, quer quanto à forma de ministrar o ensino da língua portuguesa, quer quanto à inclusão de referências substantivas à realidade de Macau. Satisfazendo, como já referimos, embora com insuficiências, as necessidades da população, em termos quantitativos, o ensino em Macau apresenta-se com uma série de problemas que importa resolver. 3. A REFORMA DO ENSINO NO PERÍODO DE TRANSIÇÃO Embora não sendo objectivo deste texto, nem disso tenhamos a pretensão, perspectivar o futuro da educação em Macau, pensamos estar em condições de alinhar algumas ideias quanto àquilo sobre que importará reflectir em profundidade. O período de transição, que agora se inicia, impõe que, também na área da educação, se tomem medidas tendentes à criação de condições que suportem uma efectiva autonomia de Macau. Conferir identidade ao seu sistema de ensino afigura-se, por isso, o objectivo central a prosseguir. Esta preocupação parece merecer algum consenso já que tem vindo a ser explicitada, quer pelas autoridades do Território, quer por entidades locais que têm reflectido sobre os problemas da educação. Por outro lado, esse objectivo decorre do texto da Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República da China sobre a questão de Macau, quando refere: «A Região Administrativa Especial de Macau definirá, por si própria, as suas políticas de cultura, educação, ciência e tecnologia, designadamente sobre as línguas de ensino, incluindo a língua portuguesa, o sistema de qualificação académica e a equiparação de graus académicos [...]» Trata-se, assim, de criar um sistema de ensino próprio para Macau que, sem prejuízo das dinâmicas existentes e da liberdade de ensino, permita a sua oficialização, a qual não se deverá, contudo, confundir com estatização do ensino. Está em causa a tomada de medidas que, entre outros, deverão abarcar os seguintes aspectos: Organização de um sistema de ensino que, com variantes em função das línguas veiculares 18 dominantes, siga, no essencial, uma estrutura curricular semelhante; Estabelecimento de planos de estudos adequados à efectivação de um sistema de ensino autónomo que, sem prejuízo do seu reconhecimento internacional e regional, permita a sua oficialização e, por isso, o seu reconhecimento pela Administração; Criação de mecanismos de avaliação territorial capazes de criar condições de igualdade no acesso aos diplomas dos vários níveis de ensino; Accionamento de medidas capazes de introduzir melhorias significativas na formação profissional dos professores; Criação de condições que, progressivamente, aumentem o parque escolar existente, por forma a fazer baixar para números razoáveis a dimensão actual das turmas contribuindo, assim, para a melhoria da qualidade do ensino; Accionamento de medidas de acção social escolar tendo em vista os sectores mais desfavorecidos da sociedade. Estamos na presença de uma autêntica reforma da educação, cuja viabilidade dependerá, no fundamental, da capacidade de diálogo e de obtenção de consensos que for possível conseguir entre todas as entidades, públicas ou privadas, que têm emprestado o seu esforço à causa da educação. É um objectivo ambicioso, difícil, complexo, mas ao nosso alcance. (Macau, Janeiro de 1988) 19 20