CRISTIANA VIEIRA LEÃO DA SILVA A EXPERIÊNCIA COM OFICINAS DE ENCADERNAÇÃO COMO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA COM ADOLESCENTES Análise do processo CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO OSASCO 2014 CRISTIANA VIEIRA LEÃO DA SILVA A EXPERIÊNCIA COM OFICINAS DE ENCADERNAÇÃO COMO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA COM ADOLESCENTES Análise do processo Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Educacional do Centro Universitário FIEO para a obtenção do título de Mestre em Psicologia Educacional. Linha de pesquisa: Psicopedagogia teoria e prática Orientadora: Profª. Drª. Márcia Siqueira de Andrade CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO OSASCO 2014 SILVA, Cristiana Vieira Leão. A experiência com oficinas de encadernação como possibilidade terapêutica com adolescentes. Análise do processo./ 62p. Cristiana Vieira Leão da Silva. – Osasco: [s.n.], 2014. Dissertação (Mestrado) – Centro Universitário FIEO – UNIFIEO, Curso de Mestrado em Psicologia Educacional. Orientadora: Profª Drª Márcia Siqueira de Andrade 1. Adolescentes. 2. Corpo. 3. Limites. I. Título. II. ANDRADE, Márcia Siqueira de. CRISTIANA VIEIRA LEÃO DA SILVA A EXPERIÊNCIA COM OFICINAS DE ENCADERNAÇÃO COMO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA COM ADOLESCENTES Análise do processo Aprovado em: 02 de junho de 2014. BANCA EXAMINADORA ___________________________________________ Profa. Dra. Márcia Siqueira de Andrade (orientadora) Centro Universitário FIEO ____________________________________________ Profª. Drª. Marisa Irene Siqueira Castanho Centro Universitário FIEO ____________________________________________ Profª. Drª. Tânia Suely Antonelli Marcelino Brabo Universidade Estadual de São Paulo - Taubaté DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus pais Lenita e Moacir. AGRADECIMENTOS Tenho internamente que acalentar a gratidão é estar atento às oportunidades que a vida nos oferece de modo a honrá-las da melhor forma possível. Acredito que identificar os encontros e entender a grandiosidade da presença das pessoas em determinados momentos do nosso caminho é considerá-las como genuínos presentes. Alguns já nos chegam belos, delicados e envoltos em amor, por isso são reconhecidos imediatamente, outros de tão disfarçados se apresentam como aprendizados exigentes, que nos lapidam fortemente, impossível não darmos a sua importância por nos trazer tanto crescimento. Agradeço a Tais Lima que incentivou e reacendeu um sonho antigo, enfim concretizado. Agradeço aos jovens do Lar Batista, principalmente às adolescentes que participaram de todas as oficinas, o que possibilitou o rico material para essa pesquisa. Bons mestres sempre nos fortalecem no nosso percurso, seja na ajuda para decifrar o mapa do caminho ou para descobrir outros atalhos, obrigada Marcia Siqueira de Andrade, Leda Codeço Barone, José Maria Montiel e Marisa Irene Castanho. Imensamente grata pelos parceiros amorosos que sempre estiveram por perto, seja pela escuta, troca de ideias ou pela torcida e vibração, muitas vezes nutrindo o meu equilíbrio e a minha confiança na validação do meu trabalho: Querido e paciente Araken Leão com o “nosso clã leonino”: Felipe, Henrique e Eduardo; Queridas e raras: Lenita Vieira, Renata Vieira Kolisch, Sandra Setti e Magda Carla dos Santos. Compartilho esse momento de conquista com vocês! EPÍGRAFE “[...] provar que o devaneio nos dá o mundo de uma alma, que uma imagem poética testemunha uma alma que descobre o seu mundo, o mundo onde ela gostaria de viver, onde é digna de viver”. Gaston Bachelard. A Poética do Devaneio, São Paulo: Martins Fontes, 1996. SILVA, Cristiana Vieira Leão da. (2014). 62p. A experiência com oficinas de encadernação como possibilidade terapêutica com adolescentes. Análise do processo. Dissertação (Mestrado em Psicologia Educacional) - Curso de Pós-Graduação em Psicologia Educacional Centro Universitário FIEO, Osasco, SP. RESUMO Esta pesquisa analisou a experiência da encadernação por adolescentes. A coleta de dados aconteceu em uma instituição social sem fins lucrativos que prestava atendimento a crianças e adolescentes em situação de risco. Participaram da pesquisa nove adolescentes do sexo feminino com idades entre 11 e 12 anos. Para a coleta dos dados foram utilizados os seguintes instrumentos: entrevista semiestruturada, caderno de bordo e observações. Os dados foram coletados pela pesquisadora responsável em 10 oficinas diárias, quando foram ensinadas diversas técnicas de encadernação. Na análise foram descritos e relacionados dados demográficos, entrevistas, buscando-se a posteriori as categorias temáticas que emergiram da experiência. Os resultados indicam que a experiência das adolescentes com técnicas de encadernação propiciou a internalização de limites físicos e psíquicos, construindo, com os cadernos, um lugar de criação, encontro de sentidos, de acolhimento. Palavras-chave: Adolescentes; Corpo; Limites. SILVA, Cristiana Vieira Leão da. (2014). 62 p.The experience of binding workshop as a possible therapy with adolescents. Analysis of the process. Master's Dissertation: Educational Psychology, University Center of FIEO, Osasco, SP. ABSTRACT This research examined of the bookbinding experience by teenagers. The data collection occurred within a non-profit social institution which gave assistance to children and teens aged between 11 and 12. For the data collection, the following instruments have been used: half structured interviews, logbooks and observations. The data were collected by the researcher in charge in 10 daily workshops, in which several bookmaking techniques were taught. The analysis describes demographic data and interviews; the thematic categories emerging from the experience were analyzed a posteriori. The results indicate that the teenagers experience with bookbinding techniques propitiated the internalization of physical and psychological limits, forming, with the logbooks, a place for creation, sense union and acceptation. Keywords: Teenagers; Body; Limits LISTA DE QUADROS Quadro 1. Planejamento das oficinas LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Kit oficina Figura 2 - Caderno 01: aberto Figura 3 - Caderno 01: folhas amarradas Figura 4 - Caderno 02- Parafuso Figura 5 - Caderno 03 - São João: aberto Figura 6 - Caderno 03 - São João: fechado Figura 7 - Caderno 04 - Origami: aberto Figura 8 - Caderno 04 - Origami: fechado Figura 9 - Caderno 05 - Sanfona: fechado Figura 10 - Caderno 05 - Sanfona: aberto Figura 11 - Caderno 06 - Miolo Brochura: fechado Figura 12 - Caderno 06 - Miolo Brochura: aberto Figura 13 - Caderno 07 - Encadernação Japonesa Figura 14 - Caderno 08 - Colagem e Carimbo: fechado Figura 15 - Caderno 08 - Colagem e Carimbo: produção das participantes Figura 16 - Caderno 08 - Colagem e Carimbo: aberto Figura 17 - Caderno 07 - Encadernação Japonesa: produção das participantes Figura 18 - Todos os Cadernos: produção de uma participante SUMÁRIO INTRODUÇÃO 13 1. A ENCADERNAÇÃO, SEU CONTEXTO E HISTÓRIA 16 1. 2. CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA EM BENJAMIN 19 2. A ADOLESCÊNCIA 23 2.1. O CORPO NA ADOLESCÊNCIA 25 2.2. DEMARCANDO OS CORPOS, CONSTRUINDO CADERNOS 28 3. MÉTODO 32 3.1. CAMPO DE PESQUISA 32 3.2. PARTICIPANTES 33 3.3. INSTRUMENTOS 33 3.4. PROCEDIMENTOS 34 3.4.1. Coleta de dados 34 3.4.2. Análise de dados 37 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 38 4.1. OS GRUPOS 38 4.1.1. Grupo 1 38 4.1.2. Grupo 2 40 4.2. O PROCESSO 42 4.2.1. Oferecendo contenção e limites 43 4.2.2. Favorecendo a autoexpressão 59 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 66 6. REFERÊNCIAS 69 7. APÊNDICES 70 APÊNDICE A ROTEIRO DE PERGUNTAS PARA A ENTREVISTA INICIAL 70 APÊNDICE B CADERNO DE BORDO 71 8. ANEXOS 72 ANEXO 1. APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA 72 13 INTRODUÇÃO A presente pesquisa analisa a experiência da encadernação por adolescentes. A intenção do estudo surge do interesse da pesquisadora, como arte-educadora, artista plástica e arte-terapeuta, em aprofundar conhecimentos sobre as qualidades terapêuticas da técnica de encadernação. Em experiência anterior, a pesquisadora teve a oportunidade de trabalhar a encadernação com mulheres diagnosticadas com câncer, que além de produzirem seus cadernos também os utilizam para registrar suas histórias, se apropriando da escrita de forma terapêutica. Agora, desloca-se essa proposta, trazendo a encadernação para um público adolescente, uma vez que essa técnica tradicional abrange múltiplas oportunidades de adentrar no campo da expressão e da criatividade. A possibilidade de construir o caderno artesanalmente resgata o ato do fazer como possibilidade de demarcação do individual e único, assim como das características históricas e pessoais do sujeito. Benjamin observa o enfraquecimento da experiência (Erfahrung) no mundo moderno, voltado para o consumismo exacerbado e pelo utilitário (PAIVA, 2011). A modernidade valoriza o presente e a utilização imediata de objetos e informação. Assim, o que não é experimentado e utilizado no momento em que está acontecendo precisa ser descartado, valorizando-se informações veiculadas em tempo real – informações essas muitas vezes desprovidas de sentido ou contexto. O desenvolvimento das tecnologias potencializa o efêmero e valoriza o que é reatualizado a cada segundo, conflitando com a experiência contida nas narrativas tradicionais passadas através das gerações. Tais valores e lições, transmitidos aos jovens pelos mais velhos, trazem provocações e estimulam a possibilidade de interpretação de quem ouve ou lê tais histórias. Diferentemente dos dias atuais, no passado, se possuía um espaço para a reflexão e para a narrativa, como um exercício para a formação da crítica e do desenvolvimento da própria identidade, já que incorpora os atos vividos aos atos do conhecimento dessa vida (PAIVA, 2011). Este ato de transmissão e reconhecimento do indivíduo em suas tradições se encontra na noção de autenticidade e aura de uma obra, que segundo Benjamin (1994/1940) desaparece quando, por motivo da demanda moderna, é reproduzida em grandes quantidades: 14 A autenticidade de uma coisa é a quintessência de tudo que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde. Sem dúvida, não só esse testemunho desaparece, mas o que desaparece com ele é a autoria da coisa, seu peso tradicional. (BENJAMIN, 1994/1940, p.168-169) O trabalho artesanal com seu ritmo lento e orgânico aproxima-se da atividade narradora, uma vez que o artesão, de maneira semelhante dá forma à matéria narrável, retornando a ligação secular entre a mão e a voz, entre o gesto e a palavra. A importância do trabalho com as mãos é assinalada por Scoz (2004), visto que é por meio do trabalho que surge uma abertura para ressignificação tanto de repertórios conscientes como de inconscientes, trazendo para o corpo o vivenciado. Surge, na ação manual do ato de encadernar, algo que restaura, de certo modo, o tempo Kairós, sufocado pelo tempo Cronos, valorizado nos dias atuais, medido e cobrado pelos dias do calendário, ligado ao consciente e à atividade contínua. Kairós, por sua vez, é definido como um momento indeterminado, em que algo especial acontece; um tempo oportuno para determinadas coisas, em que são criadas condições e oportunidades qualitativas para a vivência e para a experiência. Ele está ligado à qualidade de como são vividos estes acontecimentos envolvendo também os processos inconscientes. O público selecionado para o estudo aqui proposto encontra-se na adolescência, fase que pode envolver conflitos e luto pelo sujeito que se despede da infância para adentrar no mundo adulto. Período em que o sujeito está imerso em inúmeras mudanças físicas com imprevisíveis alternâncias de humor, o que pode dificultar a compreensão de si e do mundo. Propor para um público adolescente tais oficinas, além da possibilidade de um exercício de experimentação com distintos materiais, permite um novo aprendizado e o favorecimento da expressão criativa. A vivência de etapas sequenciais, presentes na técnica do encadernar, sobretudo, o recurso de manterem-se juntas, por meio da costura, as diversas folhas de um miolo, pode servir como metáfora, para a manifestação de uma competência para seguir passos; ordenar; organizar; exercitar habilidades; fortalecer o enfrentamento e a superação de dificuldades reforçando a ideia de integração harmoniosa. Surge, então, a hipótese de que estas oficinas favorecem a autoexpressão. Sobre os cadernos artesanais, levanta-se outra hipótese: já que eles são feitos com um número determinado de folhas de papel, que por sua vez possuem espaço interno demarcado pelas bordas, eles se aproximariam da adolescência, oferecendo contenção e limites. Por 15 último, caracterizando-se como um lugar de criação ou encontro de sentidos, seja pela escrita, desenho ou outro repertório íntimo, surge a consideração de que os cadernos ofereceriam um lugar de acolhimento. Com o objetivo de analisar compreensivamente a experiência da encadernação por adolescentes como possibilidade terapêutica, a presente dissertação está organizada em duas partes: a primeira trata da fundamentação teórica e a segunda contempla a pesquisa de campo. O primeiro capítulo trata da encadernação. Nele desenvolve-se uma linha histórica relativa à técnica de modo a tornar compreensíveis suas funções e contextos. Note-se que muitos fatos interligam-se à história do livro. Autores, tais como: os historiadores Barbier (2008) e Lyons (2011); o encadernador Cambras (2004) e a artista gráfica Paiva (2010), compõem o corpo do capítulo. Ainda neste capítulo, procura-se refletir sobre o trabalho de encadernação artesanal à luz de contribuições de Benjamin (1994/1940), tomando o conceito de experiência que, no sentido “benjaminiano”, refere-se à possibilidade de transmissão de geração a geração da tradição compartilhada por uma comunidade. Em sua crítica à modernidade, Benjamin (1994/1940) observa a perda da experiência, afirmando que esta acarreta em outro desaparecimento; o desaparecimento das formas tradicionais de narrativa cujas fontes encontram-se na comunidade e na possibilidade de transmissão. Para o autor, esse duplo desaparecimento provém de fatores históricos, tal como o desenvolvimento técnico que afasta o homem do saber fazer. O segundo capítulo trata da adolescência. Nele apresentam-se contribuições de Freud (1905, 1920 e 1923), de Blos (1998) e seguidores como Outeiral (2008) com objetivo de caracterizar este período de vida, bem como pontuar seus impasses e preocupações. Integra ainda esse capítulo considerações teóricas a partir de Bachelar (1993; 2005; 2009), estabelecendo conexões entre o objeto artesanal utilizado nesta pesquisa (o caderno) e o corpo do adolescente. O segundo capítulo traz, ainda, a pesquisa de campo. Nela apresentam-se dois segmentos: um sobre o método do trabalho quando se descreve os participantes da pesquisa; o material utilizado, bem como os procedimentos de coleta e tratamento dos dados da pesquisa. O outro segmento disserta sobre os resultados e discussão. Finalmente, as considerações finais. 16 1. A ENCADERNAÇÃO, SEU CONTEXTO E HISTÓRIA A encadernação, ofício antigo e tradicional, surge imbricada com a produção e a divulgação do livro. Ela aparece como alternativa para o transporte e o manuseio dos registros escritos; motivada pela qualidade nômade das civilizações, uma vez que o formato dos grandes rolos (volumen) ou das placas (de madeira, argila ou pedras) tornavam difíceis seu manuseio e transporte (BARBIER 2008; LYONS, 2011). Essa solução, costurando folhas feitas de pele de animais – os pergaminhos – surge no Império Romano, entre os sécs. I e IV (CAMBRAS, 2004; PAIVA, 2010; LYONS, 2011). Tais folhas são dobradas e reunidas em cadernos, e posteriormente, costuradas em flexíveis tiras de couro. Porém, como os pergaminhos costumam ondular, são empregadas duas tabuletas de madeira, prendendo essas folhas entre elas. Descobria-se assim um modo eficiente de mantê-las planas. Posteriormente, tornou-se uma consequência natural prendê-las em tiras de couros, já contendo os cadernos costurados, nestas mesmas tabuletas que são cobertas com couro, assim como o dorso do caderno, formando as lombadas. Depois dos pergaminhos, empregam-se os papiros egípcios. Em seguida, há a descoberta do papel, novidade árabe aprimorada pelos chineses. Gradativamente, a produção do papel é aperfeiçoada, o que permite maior produção com baixo custo, acumulando assim, facilidades para tornar o papel o material oficial no campo da escrita, além de torná-lo um suporte amplamente difundido para a arquitetura do livro, montado com suas páginas retangulares. Gregos e romanos têm como hábito envolver rolos de textos com capas de pele ou pano; para os volumen guardados nas bibliotecas, mais valiosos, usam cilindros ou caixas feitas de diversos materiais, como madeira, marfim ou pedras, nos quais são anexados vários rolos de papiro (PAIVA, 2010, p.63). Já o encadernador medieval tem por função essas duas missões: proteger e conservar o livro, além de distingui-lo como obra de arte. Paiva (2010) ressalta que tal arte sempre foi caracterizada pela qualidade do trabalho artesanal, por isso a encadernação se apoia na beleza e na habilidosa execução dos encadernadores. Seja pela escolha dos materiais (couro; tecidos finos e seda; marfim, além de detalhes ou fechos em ouro e prata, entre outros metais) ou por meio das cores obtidas pelos esmaltes e ou por incrustações de pedras preciosas, tornando o acabamento sofisticado e harmônico. 17 Inclui-se, ainda, nesta técnica, inúmeros desenhos gravados, como os florões, rosetas e brasões dos proprietários. Torna-se, então, um meio de enaltecer a palavra divina, tão valorizada na Idade Média e no Renascimento, além de dar prestígio à aristocracia possuidora de tais livros. Devido a esses trabalhos, principalmente executados nas capas, os livros, à época, são guardados deitados, em prateleiras ou mesas, de modo que fossem apreciados por sua aparência externa (PAIVA, 2010; BARBIER, 2008). Os séculos XVI, XVII e XVIII são considerados período áureo para a encadernação, sendo a França o centro da encadernação artística até hoje. Mesmo que as capas, nesse período, fossem ornadas mais discretamente, com certa austeridade, mantém beleza e graciosidade. Aos poucos as madeiras são substituídas pelo uso do papelão. Novas variações de douração trazem refinamento e trabalhos admiráveis. Há a contratação de virtuosos artesãos. Esses criam desenhos delicados, forjados por ferros, com estampas ou gofradas – técnica que se apropria do calor. Todos esses cuidados tornam os exemplares reconhecíveis, ou seja, com a marca pessoal e com a identidade do seu encadernador. O século XIX, com seus avanços tecnológicos trazidos pela Revolução Industrial, proporciona transformações em diversos setores e a apresentação do livro não se torna exceção. Frequentemente, usam-se as brochuras. A difusão das capas de papel permite a impressão com várias cores e aumenta o espaço, favorecendo o aproveitamento da primeira e quarta capas, assim como o dorso. A partir de então, a encadernação protege e convida o leitor a desejar o livro através de apelo visual. Essa necessidade exige o envolvimento de outros profissionais, em particular o designer gráfico que harmoniza visualmente diversos elementos, aliando imagem à tipografia sedutora e de fácil comunicação – nesse sentido, o profissional aprimora e alinha o serviço editorial. A partir dessas circunstâncias, a encadernação artesanal de alto custo (por exigir tempo e mão-de-obra especializada), deixa de ser, aos poucos, um ofício requisitado pelo mercado, limitando-se a trabalhos específicos, principalmente relacionados à arte, com tiragem reduzida. Os livros impressos atuais pouco se diferenciam dos manuscritos ou dos livros pós-Gutenberg, pois ainda se baseiam nas mesmas estruturas fundamentais de 18 encadernação, trazidas com o códex ou códice1. Seguem a mesma composição, com folhas dobradas certo número de vezes, constituindo cadernos. Estes são montados, costurados uns aos outros e por fim protegidos por uma capa (CHARTIER, 1999). Mesmo instaurada a velocidade trazida pelos tempos modernos, ocorrem movimentos de resistência e nesse âmbito a arte promove renovação, possibilitando diferentes pontos de vista sobre a vida e a realidade vigente. Um exemplo reside no Impressionismo, que acontece em plena Revolução Industrial, validando a individualidade do artista, mostrando suas percepções sobre as luminosidades nas diferentes estações e nas distintas horas do dia. Tal movimento artístico trazia reflexões sobre a função do artista, visto antes como reprodutor fiel da natureza. Com a invenção da máquina fotográfica, instrumento que retrata fiel e rapidamente a paisagem observada, o artista pode descobrir-se em nova missão, interpretando a realidade, abandonando a mimese. Assim, manifesta-se a Art Noveau, juntamente com o movimento inglês Arts and Crafts, ambos guardam certa atitude de reação contra o mecanicismo da era industrial, valorizando as tradições artesanais e seus métodos oficinais (CAMBRAS, 2004). No caso da Art Noveau, os trabalhos virtuosos e únicos de artesãos talentosos valorizam as peças, que além dos motivos encontrados na natureza, também se transformam numa tentativa de regatar a nostalgia perdida com o progresso trazido pela modernidade. No campo livreiro, livros de artista já mostram esse diferencial, conservando não só a identidade como o valor do autêntico. Por isso, impedem a reprodutibilidade de seus exemplares por processos mecanizados que anulem a participação do criador. Surgem os livros brincantes, da expressão livre-jeu, que aparecem ainda no século XX, ampliando os limites das folhas e do objeto, emprestando múltiplos significados ao livro. Os livros-brinquedos são objetos lúdicos, por vezes experimentais, inventivos e performáticos, que transfiguram a leitura, materializando-a em algo sensório e ao mesmo tempo plástico. Contém originalidade na concepção, apropriando-se de 1 Códex ou códice: Do termo latino caudex, que denota originalmente o tronco da árvore e o emprego da madeira como material de escrita (PAIVA, 2010). Se referindo também à reunião dessas lâminas, mantidas juntas por um laço, posteriormente configurando-se como um livro, dobrado e encadernado, principalmente em pergaminho, devido à dificuldade de se fazer códices em papiro (BABIER, 2008). 19 intervenções poéticas, com o uso de jogos gráficos e visuais, quase sempre resgatando a arte da encadernação. Paiva (2010) afirma que tais objetos estabelecem uma nova emoção com o leitor, não só informando-o, mas também estimulando, intrigando, comovendo e entretendo-o por meio da manipulação. Fazendo uso da mistura experimental de várias linguagens textuais, visuais, táteis, sonoras e até olfativas, permite uma nova reflexão sobre o objeto livro. Ainda para Paiva (2010), a artista Lygia Clark, em 1960, com sua série Bichos, convida o espectador para interagir com a obra: Na obra Relógio de Sol, usa um conjunto de dobradiças para criar um eixo central ao redor do qual giram diferentes formas geométricas. Linhas vivas! [...] do espaço liberto da moldura, mas articulado em planos, dos contra relevos, dos planos unidos por dobradiças e manipuláveis, dos espaços manipuláveis, dos espaços modulados, de objetos tridimensionais (Bichos, Casulos, Trepante, Abrigo Poético), que mobilizam de forma tátil, motora, às vezes quase libidinal [...] uma busca pela conciliação entre uma racionalidade fundada na tradição construtiva e uma intuição que se revela no onírico e no sensório (PAIVA, 2010, p. 92-93). Tal concepção mantém paralelos com os livros objetos, pois ambos provocam e transcendem o espaço delimitado por planos, libertando a obra de ser mais que um simples objeto, mas um veículo da imaginação, onde o leitor interage e participa da obra com a sua ação. 1.2. CONCEPÇÃO DE EXPERIÊNCIA EM BENJAMIN Para entender o que é intencionado nessa investigação sobre a experiência da encadernação artesanal, é necessário retornar às ideias de Benjamin sobre a concepção de experiência enquanto crítica ao contexto da modernidade e suas consequências na sociedade e na cultura. O tema da experiência é central da filosofia benjaminiana, atravessando toda obra desde os textos juvenis, até os escritos mais complexos, em que Benjamin expõe inquietações teóricas, anunciando a exigência de um novo e superior conceito de experiência que supere o que o autor chama de limitado conceito kantiano, insuficiente para abarcar as especificidades e possibilidades da experiência moderna (BENJAMIN, 1994/1940). De modo geral, a crítica de Benjamin refere-se ao processo de estreitamento da experiência na modernidade: uma experiência diminuída, retrato 20 dos indivíduos modernos que não mais se pautam no coletivo, na comunidade, na sociedade como um todo. Aquilo que se aprende de ouvido já não tem mais sentido na sociedade estruturada em função da técnica. As formas da experiência rigorosamente comunitárias (primitivas) passam necessariamente pelo rito – conjunto de gestos, expressões, sentimentos e ações – que enquadra as maneiras de expressão individual numa rede de significantes coletivos (modos de contar, hábitos, modos de produzir), parte de um grande esquema nos quais são adestrados os impulsos individuais. O rito caracteriza uma configuração mediada de experiência que se torna aceita dentro do grupo, predispondo a todo um sistema de alianças, projetos, ações partilhadas e código de valores não abstratos e compartilhados (MEINERZ, 2008). Esse tipo de experiência se torna ínfima nas sociedades modernas, nas quais as pessoas vivem cada uma do seu jeito, atomizadas em seus pequenos mundos, enquadradas nos espaços funcionais da arquitetura contemporânea, ao mesmo tempo em que estão virtualmente conectadas com o mundo via internet. A vivência concreta, corporal, própria das comunidades ritualísticas, cria outras formas de experiência mais íntimas, interiorizadas, cujo vínculo com o passado é efetivo, nas quais os rituais são vivenciados e transmitidos de geração a geração. Na modernidade, ao contrário, prevalecem expressões de comportamento cada vez mais individualizadas cujos padrões culturais são gradativamente independentes uns dos outros, configurando microssistemas que apenas se tocam tangencialmente (MEINERZ, 2008). Analisar a questão da experiência (erfahrung) em Benjamin é contrapô-la à noção de vivência (erlebnis). Na esfera da vivência, saturada de eventos e sensações, resta ao ser humano capacidade de reagir a esses estímulos. A memória (e seu correlato – o esquecimento) é imprescindível à experiência, mas perante os choques, o ser humano só armazena suas vivências na camada mais superficial da consciência, impossibilitando recursos para a experiência estética ou poética. Para Benjamin, a experiência é algo que se prolonga, se acumula e se desdobra, justamente porque mantém os vestígios do tempo, além de ser atuante durante a presença dele, por reconhecer sua continuidade. Sob o olhar benjaminiano, essa experiência autêntica está em oposição à Erlebnis, traduzida como experiência inautêntica trazida com a 21 modernidade. Existe uma nova forma de vivenciar o mundo, que como colocam Lima e Magalhães(2010): [...]favorecida pelo choque e pela irrupção caótica de estímulos na cena urbana e pela imersão dos indivíduos nos produtos fragmentados e desprovidos de aura próprios da indústria cultural, caracterizada pela mercantilização extensiva e pela reprodutibilidade técnica[...] (LIMA & MAGALHÃES, 2010, p.148), anestesiando as massas de modo a não mais perceberem “as nuances e a complexidade, nivelando as coisas e pessoas a tipos paradigmáticos simplificados e facilmente assimiláveis” (LIMA & MAGALHÃES, 2010, p. 148). Benjamin é contra a superficialidade e a percepção epidérmica do homem moderno. Ao estar sempre alerta e em eterno movimento, o indivíduo por inércia e pouca atenção, perpetua uma atitude de automatismo e alienação, já que a velocidade impossibilita a interiorização e a reflexão sobre seus atos e sobre o mundo a sua volta. Para Lima e Magalhães (2010, p.150), o que predomina então à vida moderna, seria “uma vivência que repousa na atenção distraída – uma forma de conhecimento passivo, difuso, periférico”. Os valores modernos apenas reconhecem o efêmero como foco, ao importar-se, exclusivamente, com a praticidade e a utilidade do presente, nem que para isso, muitas vezes se abasteça de informações imediatas quase sempre carentes de sentido ou contexto. Para Paiva (2011) nesta precariedade de discernimento e seleção está subentendido o caráter pragmático desta sociedade moderna: que defende e instiga a velocidade, portanto, o que não for experimentado e utilizado de imediato precisa ser descartado rapidamente. A noção de tempo, inserida dentro da oportunidade à experiência, fica impossibilitada com a pressa exacerbada dos dias atuais. Para Bondía (2002), a velocidade dos acontecimentos, misturada a nossa excitação e desejo pelo novo em ato continum, impedem a conexão significativa com o que nos ocorre. Intencionados a estar sempre em atividade nos incapacita sobre conseguir silenciar para refletir sobre qualquer coisa e consequentemente sobre armazenar lembranças e memória – “inimigos mortais da experiência”: 22 A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço (BONDÍA, 2002). Para Benjamin (1994), o trabalho artesanal guarda os ritmos e a espontaneidade existentes entre a ação e a própria inscrição, como marca pessoal naquilo que o próprio indivíduo produz, favorecendo a permanência consistente do momento presente, ao mesmo tempo amparado por um passado ancestral, demonstrando coerência na continuidade histórica individual e coletiva, o que favorece ao sujeito estar mergulhado na própria ação, imprimindo no que faz sua intenção e história, sua marca como narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso. Pensamento também explanado por Paiva (2010), ao definir o comprometimento com o fazer artesanal, mesclando o prazer com a descoberta, ao mesmo tempo livres e com muitos significados ocultos, que imprimem nele múltiplas referências: O corpo especial de todo livro de artista, contém, sim, esse tempo poético em funcionamento. Em suspenso há uma lembrança do fazer e do prazer de fazer. Uma vez pronto, ainda guarda indícios dos instantes de reflexão, decisão, escolha, produção, arremates. Por ressonância e vibração coloca em evidência a mão, o homem, o autoral e o savoir-faire, que acompanham um métier de paixão e vocação (PAIVA, 2010, p.95). 23 2. A ADOLESCÊNCIA Para discutir sobre a adolescência é necessário entender primeiro o que se define como puberdade, pois ambos os termos se confundem e estão relacionados. Decorrente da etimologia puber, pelos, a puberdade é um processo biológico que acontece entre os 9 e 14 anos aproximadamente. Sua característica principal é marcada pelo início de uma atividade hormonal, que desencadeia os caracteres sexuais secundários, trazendo o aumento de pelos pelo corpo, principalmente nas axilas e na região pubiana. Nos meninos além do aparecimento da barba tem-se o desenvolvimento dos testículos e o engrossamento da voz. Nas meninas se define com o crescimento dos seios, alargamento dos quadris e marcado precisamente com a menarca. Sendo a puberdade diretamente relacionada com uma atividade determinantemente física, a adolescência, influenciada por tais ocorrências, se define mais amplamente como um fenômeno psicológico e social, portanto, demonstra peculiaridades mediante o ambiente econômico, social e cultural em que o adolescente se desenvolve. Outeiral (2008), resgatando a etimologia da palavra adolescência, encontra nuances nesse período da vida. Sua dupla origem etimológica latina: ad (a, para) e olescer (crescer) demonstram uma condição ou processo de crescimento, portanto, o indivíduo está apto a crescer não só física como psiquicamente. Todavia, adolescência também deriva da palavra adolescer, que se origina da palavra adoecer, o que permite uma reflexão, apesar de condições propícias de crescimento, também há uma possibilidade para o adoecimento, no sentido de sofrimento emocional, trazidas pelas transformações biológicas e mentais que atuam nessa etapa da vida. Se a infância é uma invenção da modernidade, surgida aproximadamente há 150 ou 200 anos, e convencionada como um período evolutivo com necessidades específicas, a conceituação de adolescência é ainda mais recente, talvez, aparecendo entre a I e II Guerra Mundial (1918-1939). Há referências que esse período da passagem da infância para a vida adulta é considerado como um curto espaço de tempo, marcado principalmente por rituais de iniciação que se confirmam como importantes ritos de passagem (OUTEIRAL, 2008). Então, esse momento está situado a partir de uma representação inscrita numa ordem coletiva da tradição. Costa (2004) reforça a importância da modernidade relacionar a adolescência com a ideia de crise e conflito, 24 impossibilitando o adolescente, assim como o sujeito moderno, em produzir um registro social que possa ter valor suficiente para ser representante, isto é simbólico, de cada um, pois foi modificado o laço social. De qualquer modo deve-se considerar que a adolescência possui diferentes fases e as experiências adolescentes são plenamente dependentes dos aspectos psicológicos e sociais, nos quais está – reiterando as argumentações de Outeiral (2008). O mesmo autor faz acréscimos utilizando-se de dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) que referencia a adolescência, se constituindo de duas fases: dos 10 aos 16 anos, a primeira e na sequência dos 16 aos 20 anos a segunda, comparando-os com as considerações do Estatuto da Criança e do Adolescente que situa tal etapa entre os 12 e 18 anos. Entretanto mesmo sem início e término muito definidos, geralmente, a adolescência é formada por 3 etapas, apesar de ocorrerem vários movimentos alternados, com flutuações progressivas e regressivas nas demonstrações de suas características. A fase inicial dos 10 aos 14 anos tem nas transformações corporais, basicamente, sua maior importância, porque influenciam diretamente as alterações psíquicas; na adolescência media, entre os 14 aos 17 anos, a sexualidade se torna o elemento central, especialmente na passagem da bissexualidade para a heterossexualidade. E por fim de 17 a 20 anos, aparecem vários elementos relevantes, como novos vínculos com os pais; as questões e escolhas profissionais; a devida aceitação do novo corpo como os processos psíquicos do mundo adulto. Apesar de ser arbitrária a divisão por idades, sendo a adolescência também um processo psicossocial, dependerá muito dos aspectos sociais, familiares, econômicos e culturais da sociedade, na qual o adolescente se desenvolve. Assume-se, portanto, nessa pesquisa, que o conceito de adolescência não deve ser tomado como natural e universal. Quando se toma o sentimento da adolescência, enquanto uma construção histórica, operada por forças sociais, culturais, políticas e econômicas, admite-se também o fato de que ela surge em alguma fase da história humana, assim como se admite a possibilidade desse sentimento desaparecer ou se modificar. Concorda-se com Moreira (2000), para quem a construção da identidade psicossocial do adolescente é uma tarefa universal de passagem da infância à idade adulta, que está balizada pelas condições e significações construídas, nas sociedades complexas, a partir da classe social, gênero, geração e raça/etnia. 25 2.1 O CORPO NA ADOLESCÊNCIA Transformações corporais permeiam a vida do adolescente, sendo uma das questões primordiais desse período, portanto, também há um sentimento de impotência uma vez que ele é obrigado a assistir seu corpo mudar rapidamente. Perante esta realidade o jovem pode vivê-la de diversas maneiras. Outeiral (2008) reflete sobre algumas maneiras: persecutória, dirigindo para o próprio corpo e/ou a órgãos específicos, a sua ansiedade paranóide e confusional; maníaca, negando de forma onipotente, toda a dor psíquica instaurada no processo; ou fóbica, por meio da negação, o adolescente cria um distanciamento de suas transformações corporais, de modo a não permitir qualquer menção a respeito, seja para si próprio ou seus familiares. De qualquer modo, o corpo infantil a partir deste momento, se despede, porém, a mente ainda infantil não compreende ou assimila esse modo muitas vezes invasivo, que o torna cada vez mais adulto. Ao mesmo tempo, que não o reconhece esse novo corpo este lhe causa temor por ser desconhecido, é visto como uma ameaça apesar de também ser desejado. Sentimentos e emoções ambíguas surgem, confirmando que o corpo adulto que é idealizado um dia para si, possa ser bem diferente daquele que esteja se plasmando. Diante dessas conflitantes experiências, o adolescente procura refúgio regressivo em si mesmo. Outeiral (2008) afirma que muitos mergulham cada vez mais em seu mundo interno, por meio de suas fantasias, devaneios ou sonhos. Em alguns momentos, manifestando uma concretização defensiva do pensamento, interferindo nitidamente no seu grau de compreensão, justamente pelo comprometimento da capacidade de abstração como do pensamento simbólico. Sob o aspecto somático, são frequentes em adolescentes queixas hipocondríacas, sendo as mais comuns: as cefaleias, dores abdominais e musculares entre outras, subterfúgios para aliviar a dificuldade em estruturar o incômodo sobre o seu estado físico. Com a sensação de sentir-se portador de um corpo mutante, o adolescente revela através de sintomas concretos certa estratégia, por assim dizer, para aliviar e solucionar algumas de suas diversas inquietações, muitas das quais enigmáticas porque ainda estão imprecisas para si. A questão da impotência neste período é digna de atenção e cuidado. O confronto com as tentativas onipotentes de controle sobre o 26 processo puberal pode transformar-se em distúrbios alimentares graves, como a obesidade, anorexia e bulimia, como explana Outeiral (2008, p.11). Como qualquer adolescente se ressente em não deter, por si próprio, o poder de uma situação, tais problemas de alimentação, de modo geral, representam tentativas de assumir o comando sobre as transformações que ele sofre passivamente com questões relacionadas a fatores hereditários. Dolto (2008) acrescenta que são as mãos, após o desmame, que deslocam a pulsão dessa fase erógena oral. Elas agem como “boca apreensiva sobre os objetos”, a pinça dos dedos, em similaridade às mandíbulas e aos dentes, tocam em tudo como manifestações de observação e investigação, inicialmente descritiva e depredadora, mais tarde essa característica destruidora pode proporcionar à atividade manual qualidades construtivas e de aglomeração, quando acontecem as construções e os empilhamentos de cubos. Semelhante à zona dos lábios, a zona anal também media um apoio da sexualidade em outras funções corporais. Excitações sexuais, que essa zona conserva, são comparáveis à excitabilidade sexual, dando à região uma importância erógena. O prazer que lhes vem junto com a defecação reafirma o quão sensível é esta região, assim como o conteúdo intestinal, mais tarde para a criança será o primeiro presente que dará ao mundo, para os pequenos, por causa da indistinção do que seja interno daquilo que pertence ao externo, considera e trata a sua produção como parte de seu próprio corpo. Segundo Dolto (2008, p.101-102), ao chegar nessa fase, espera-se que a criança possua além de determinadas aquisições motoras e criadoras, receba o reforço da educação paternal para que ela tenha a possibilidade à autonomia, como de limpar-se sozinha e sobre adquirir continência, tanto no controle de suas necessidades básicas corporais como no entendimento do lugar correto onde fazê-las, o que segundo a autora é a marca da dignidade humana na sociedade. Como se entende também, o quanto uma castração anal saudável traz intrínseco a permissão ou não do fazer laborioso e criativo, e para isso se faz presente as proibições limitativas impostas, para que se construa uma compreensão de que o fazer o que quer que seja para seu prazer erótico, poderia provocar desprazer ou perigo aos outros. Limites que já seriam manifestações socializantes, 27 A castração anal deve ensinar à criança a diferença entre o que é sua posse, da qual ela é totalmente livre, e o que é a posse do outro, cujo uso, para ela, deve passar pela palavra que pede ao outro que lhe empreste os objetos dos quais ela gostaria de se utilizar, e que aceita que este outro os recuse a ela (...). A compreensão de um espaço dela que se prolonga para o mundo exterior, mas que deve também respeitar o fato de que o espaço de outro se prolonga por seus próprios objetos pessoais, sobre os quais ela não tem, de fato, direito, a não ser aqueles de uma negociação pela linguagem (DOLTO, 2008, p.115). Esta educação das pulsões, para Dolto (2008) cria limites importantes, que mais tarde se transformam em manifestações socializantes, é a partir do estágio anal que a criança saberá o que dar ou não a outro um objeto que lhe pertença ou que deseja fazer uma troca, também é aqui que a proibição tanto da deterioração quanto do roubo dos objetos de outro, como causar prejuízos ou danos ao próprio corpo como de outro, impedindo qualquer forma de vandalismo são da ordem dessa fase. Na sequência desse desenvolvimento sexual se dá o período de latência ou adiamento, como define Freud (1905/1996), no qual se minimizam as forças das pulsões sexuais, isto é, elas são redirecionadas para outros interesses e não mais para aqueles exclusivamente sexuais, é o momento escolar, no qual se tem intensa interação social e o aumento significativo do desempenho intelectual da criança. Este período para Freud (1905/1996) é essencial ao desenvolvimento psíquico, pois se origina no declínio do complexo de Édipo, o que Laplanche e Pontalis (1992), ressaltam como a correspondência à intensificação do recalque, por meio da amnésia dos primeiros anos, transformando os investimentos nos objetos, seja por meio das identificações parentais ou um desenvolvimento às sublimações. Contudo, segundo Outeiral (2008), esta fase tem sido cada vez mais breve, e, portanto, pode ser uma explicação para a antecipação à adolescência. Muito se deve à excessiva exposição à sexualidade e ao erotismo genital que as crianças têm sido naturalmente submetidas e estimuladas, principalmente pelos meios de comunicação, com os quais a maioria passa horas do seu dia. Esta abreviação da infância, segundo o autor, afeta a estruturação do psiquismo e provavelmente interfere no desenvolvimento normal, resultando em dificuldades futuras, em âmbitos de conduta como também relacionado a aspectos afetivos e processos cognitivos. 28 2.2. DEMARCANDO OS CORPOS, CONSTRUINDO CADERNOS. Reconstruída a linha do tempo da técnica da encadernação e conceituando-se adolescência, aqui se procura estabelecer conexões entre o objeto artesanal utilizado nesta pesquisa (o caderno) e o corpo do adolescente, corpo que passa por significativas transformações, nem sempre tranquilas ou conscientes para quem as vivencia. Nas respostas dadas pelas jovens se constata que todas percebem que estão mudando, não sendo mais as mesmas de quando eram crianças. Não conseguiram relatar as distintas percepções sobre suas transformações físicas, todavia com mais facilidade, enxergaram as muitas mudanças individuais, principalmente no âmbito emocional. Todas afirmaram que já não se sentem mais “tão calmas ou boazinhas” como antes eram, sentem-se muito mais irritadiças, nervosas e deveras “estressadas”. Nas entrevistas se manteve uma unanimidade por parte das adolescentes sobre a parte mais apreciada do corpo. Seria aquela localizada no quadrante superior, quase sempre na cabeça, seja pelo cabelo bonito, o rosto, o sorriso ou nos olhos expressivos. Em oposição, até geograficamente falando, a parte menos admirada, ou muitas vezes aquela que traria desgosto para quase todas, estaria na base do corpo, isto é, nos pés. Interessante que o percurso, envolvendo o pescoço, braços e mãos juntamente com as áreas específicas relacionadas à sexualidade foram simplesmente ignoradas. O corpo ainda não é sentido ou percebido como algo inteiro e integrado, e o tema sexualidade, apesar de pressentido, seja no interesse pelo sexo oposto, seja através da agitação e a excitação que muitas vezes está presente no próprio vocabulário ou na demonstração corporal, ainda é bastante desconhecida. Assim como há diversas tentativas por parte dessas jovens, em desviar a atenção ou negar tais percepções, justamente, por ainda não saberem ao certo como lidar com ela. O caderno é um objeto integrado e único, apesar de ser composto por partes distintas, fio e papel, ora com espessuras e materiais diferentes, como o miolo e a capa, mas que formam um todo harmonioso e pleno, servindo como suporte para um discurso, verbal ou não. Diferentemente dos livros, que são encadernados após suas folhas já estarem impressas, os cadernos contém suas folhas em branco, prontas e propícias para serem 29 escritas. Eles servem para anotações ou relatos de pensamentos íntimos, tal como um livro de apontamentos ou de lembretes, arquivando ideias para futuros projetos, seja por meio de desenhos, pinturas ou colagens. Porém, ainda hoje, são requisitados para o uso didático: em exercícios escolares ou de cunho criativo, como os diários de artista; nos cadernos de campo, funcionam como suporte para registros de observações, guardando investigações importantes. Ao capturar as ideias de Bachelard (1938/2005), defende-se que uma imagem não deixa de ter repercussão psíquica, permitindo uma ampliação das imagens mentais sobre esse objeto, no nosso caso, o caderno, que de muitas formas é conhecido. O caderno é um objeto físico, com dimensão, peso e material específicos. Ocupa e manifesta-se como um lugar específico, contendo internamente espaços próprios. O que aproxima uma relação com a estrutura corporal. O caderno e o corpo humano possuem suas definições de materialidade e função, estão constituídos por diversas partes que unidas, trabalham juntas para um objetivo único. Estão envolvidos por um invólucro, uma capa, no caso do caderno e a pele para o homem. Elas fazem a integração das partes e mantém a integridade do todo. Têm diversas funções, a mais imediata delas é a sua qualidade estética, sempre bela e convidativa, mas tem seu aspecto utilitário de proteção e conservação. O caderno com suas folhas em branco, pautadas ou não, é demonstração de receptividade, aceitando diferentes manifestações de expressão, seja a inscrição de um discurso, suporte para registros da lembrança, ou como espaço propício para o devaneio, como escreveu Bachelard (2009, p.183) “é a página branca que dá o direito de devanear.” Concomitante, ele permite o processo e o exercício, para tanto, traz intrínseco uma autorização para o erro e para o engano. O caderno a priori não tem informações definitivas, desde o primeiro momento. Os cadernos, de rascunho, por exemplo, permitem liberdade, não intencionam qualquer rigidez, propiciando o armazenamento de referências de evocações passadas, mesmo que de modo confuso, desordenado ou incompleto. Convidam para que se inscrevam os registros da experiência momentânea, independente se posteriormente irão habitar outro suporte, de modo mais claro ou mais elaborado, para enfim ser passado a limpo. Passado, o presente e futuro convivem em harmonia. 30 O caderno também suscita o sentimento de esperança, trazendo a motivação concreta por poder recomeçar. Um caderno novo é a manifestação do começar. Além de diversas possibilidades, traz a eminente e vigorosa potência do que poderá vir a ser. Através desta abordagem do vindouro, o caderno poderá ser considerado como um veículo de passagem, um abrangente espaço de representação individual, um espaço seguro e convidativo à criação. Parafraseando Paiva (2010), que mesmo se referir ao livro, evoca palavras que se encaixam nessa proposta: Do que tiramos o pensamento de que toda construção – física, material ou mental, artística – deve ter por fim um habitar. Ou seja, um motivo de ser, de existir. [...] Registro sintético do que inusitadamente pudesse nos fazer lembrar uma passagem no tempo vivido, experimentado (PAIVA, 2010, p.97). Ao seguir a linha de pensamento até agora exposto, conclui-se que o caderno referencia e delineia um lugar. Seus limites concretos, demarcados pelas bordas do papel, se caracterizam por espaços para a liberdade. Por ser protegido, cria um abrigo para o vivido, principalmente para as particularidades da imaginação. Seu miolo, abraçado pela capa de material mais espesso, convida e atrai naturalmente pela amorosa contenção. Usando as imagens de Bachelard (1993, p.21), “concentra o ser no interior dos limites que protegem”, facilita a tornar mais claras as noções de exterior e interior, desenhado por fronteiras e limites definidos. São sobre essas imagens de lugar, como estimuladores da intimidade, que de algum modo, se cria a autorização para construir uma morada pessoal, aquela que acolhe e dá nutrição àqueles bens essenciais, para que em segurança se possa, enfim, sonhar livre de defesas, alcançando a integração de simplesmente conseguir ser: o ser abrigado sensibiliza os limites do seu abrigo. [...] “Algo fechado deve guardar as lembranças, lhes conservando seus valores de imagens” (BACHELARD, 1993, p.2527). O caderno pode vivificar esse espaço para o recolhimento, porque evoca valores de intimidade, uma intimidade protegida. Fortalecer essas características de intimidade e segurança leva a traçar um paralelo com a imagética da casa, que segundo o mesmo autor, na análise dos mais diversos horizontes teóricos, é somente ela, a casa, que se torna a topografia do nosso ser íntimo. 31 [...] Não somente nossas lembranças como também nossos esquecimentos estão ‘alojados’. Nosso inconsciente está ‘alojado’. Nossa alma é uma morada. E, lembrando-nos das ‘casas’, dos ‘aposentos’, aprendemos a ‘morar’ em nós mesmos (BACHELARD, 1993, p. 20). Ao estarmos envoltos nesse sentido de abrigo ou refúgio, nos reconfortamos com a ilusão de proteção e de felicidade – sensação que nos abastece sobre os mais diversos “valores oníricos consoantes”. A casa não só abriga o devaneio, como protege o sonhador, pois permite que ele sonhe em paz. Bachelard (1993) pontua que seria só através dos pensamentos e das experiências que tornaríamos legítimos nossos valores humanos, assim seria o devaneio que marcaria, em profundidade, tais valores no homem, possibilitando, até, uma forma de autovalorização. Pela ideia de casa são nomeadas também as forças de integração e continuidade, evitando a dispersão e a sensação de caos, tal como a lembrança do berço acolhedor, associado ao bem-estar primitivo do ser, distante de qualquer hostilidade ou ameaça de possível agressão. Tal similaridade é encontramos nos primeiros cuidados maternos. De acordo com as palavras de Bachelard (1993, p. 27), “os valores do espaço habitado, o não eu que protege o eu”. Referências de estar plenamente acolhido, envolto em calor e doçura, experimentando sensações de bem-estar, imagens semelhantes ao paraíso, o que lhe traz sentimentos de plenitude, inteireza e adequação. O autor finaliza a descrição, enaltecendo a qualidade maternal da casa, como sendo o “ambiente que vivem os seres protetores” (BACHELARD, 1993, p. 27). Estes sentimentos funcionam como presentificações no corpo, trazendo noções subjetivas de segurança e bem-estar. Nessas lembranças, se regressa por toda a vida, buscando nelas refúgio e esperança. De qualquer forma o espaço convida à ação, mas antes de transformar-se em ato, afirma Bachelard(1993), é a imaginação que trabalha, ceifando e lavrando, sempre nos territórios da intimidade, onde o peso psíquico é dominante. 32 3. MÉTODO 3.1. CAMPO DE PESQUISA A coleta de dados aconteceu numa instituição social sem fins lucrativos que presta atendimento a crianças e adolescentes em situação de risco desde 1941, contando, por ocasião da pesquisa com onze unidades. A unidade escolhida localiza-se na periferia de Campo Limpo, região onde os jovens estão expostos a um contexto adverso caracterizado por: espaço restrito e carente de infraestrutura básica; presença de violência, drogadição e tráfico; prostituição, inclusive infantil e gravidez precoce; desestrutura e violência doméstica, entre outros. A escolha da Instituição surge pela disponibilidade e interesse da direção pelas oficinas de encadernação e pela oportunidade de trabalhar com adolescentes. A Instituição oferece atividades no horário inverso da escola regular e atendia crianças e adolescentes da comunidade na faixa etária de 6 a 16 anos de idade, impedindo que ficassem sozinhos em casa ou nas ruas, tendo oportunidade de brincar, desenvolver-se socialmente e aprender coisas novas. No período de desenvolvimento do estudo, há a oferta de aulas de ballet; judô; capoeira; desenho; inglês; reciclagem e artesanato, assim como aulas de reforço escolar. Por ser uma instituição religiosa, existe a preocupação com o fortalecimento de valores e conceitos familiares, com aulas de educação cristã baseadas no estudo da bíblia e aulas denominadas “sociofamiliares”, com pesquisa da árvore genealógica e da cultura de cada família. A unidade escolhida é mantida pela igreja batista e recebe verba da prefeitura de Campo Limpo, com o aval do CRAS – Centro de Assistência Social e de uma Organização Não-Governamental (ONG). O dirigente, por ocasião da coleta de dados, é um pastor batista. Os funcionários trabalham aparentemente satisfeitos, mostrando-se educados; há pessoas da faxina que limpam as salas ou os banheiros, deixando o local limpo, por vezes perfumado. As educadoras falam com as crianças e jovens, em tom baixo e com linguagem correta. A unidade ocupa um espaço físico amplo, onde coexiste um abrigo de crianças. O espaço é organizado, com salas em boas condições, com mesas e cadeiras. Existem 33 painéis pintados nas paredes externas, próximos ao parque, assim como nos corredores que levam ao refeitório e às salas onde acontecem as aulas. Neles, há frases diversas, tais como: “O bom mesmo é estar pertinho de Deus”; desenhos de jovens de várias etnias nas paredes sob o título, “Aqui todo mundo é bem vindo”; imagens coloridas de pessoas com expressões alegres, reforçadas por frases de incentivo e confiança. Essas frases com palavras de impacto positivo aparecem também nas siglas das classes. As idades de 6-7; 8-9; 10-11 recebem a sigla CPV, “Crescendo para Vencer 1; 2 e 3”, respectivamente, e para os adolescentes de 12-13 anos, MQV 1 e 14-15 anos, MQV 2, significa “Mais que Vencedores”. 3.2. PARTICIPANTES O critério de seleção dos participantes é estabelecido pela própria Instituição que sugere 10 jovens, na sua maioria com 11 anos, focando ora no interesse desses adolescentes pelo aprendizado de tais oficinas, ora por escolha exclusivamente pessoal por parte da pedagoga. Porém, com as condições irrestritas de realização de todas as atividades e sem a possibilidade de faltas. Foi estipulado, desde o início, um número máximo de 10 adolescentes, para melhor aproveitamento das oficinas. Inicialmente as oficinas contaram com a presença de meninos, com número equivalente ao de meninas, contudo, manteve-se a frequência de 9 meninas durante os dez encontros. 3.3. INSTRUMENTOS São utilizados como instrumentos para a coleta de dados: a) entrevista semiestruturada, cujo rapport é construído de modo a entender porque esse adolescente frequenta tal instituição (Questões 1 a 5); configuração e vida familiar (Questões 6 a 10); relação com o aprendizado (Questões11 a 14); sonhos ou expectativa de futuro (Questões 15 e16); hábito de escrever (Questões 1a 2) percepção sobre próprio corpo (Questões 22 a 24). (Apêndice 1) 34 b) caderno de bordo, utilizado para colher informações sobre as oficinas de encadernação. Consiste num caderno em que as participantes respondem uma série de questões em diferentes momentos do processo. São elaboradas questões sobre a função, local de uso, e outras abrangências de significados sobre caderno (Questões 1 a 5), sobre percepções pessoais de cada oficina (Questão 6) e finalmente sobre mudanças pessoais percebidas durante o processo. (Apêndice 2) c) observações da pesquisadora, colhidas durante as oficinas sobre habilidades de cada adolescente para as atividades propostas, reações de cada uma frente às dificuldades, interação com as demais participantes e tratamento que dão às suas produções. d) termo de consentimento livre e esclarecido 3.4. PROCEDIMENTOS 3.4.1. Coleta de dados O projeto é aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (Anexo 1). É solicitada e concedida autorização para o seu desenvolvimento no âmbito da instituição – campo da pesquisa. Atendendo à Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, é emitida uma carta, informando aos participantes e seus responsáveis sobre o tema e o objetivo do estudo, assegurando que as informações são tratadas anônima e sigilosamente e servem, apenas, para fins técnico-científicos. Os participantes e seus responsáveis assinam um termo de consentimento livre e esclarecido. Os dados são coletados durante dez oficinas diárias – oportunidade em que são ensinadas pela pesquisadora diferentes técnicas de encadernação às participantes. As oficinas de encadernação acontecem, inicialmente, em um espaço amplo, espécie de teatro. No palco, está um painel feito em papel, com a frase: “Família e suas diferentes culturas”. Posteriormente, ocorre a mudança para uma sala menor, mais adequada às atividades propostas. 35 Ocorre um planejamento prévio das atividades, que foram organizadas em grau crescente de dificuldade, conforme descrito no quadro seguinte (Quadro 1). Objetivo Primeira Confecção de um crachá com o Oficina primeiro nome de cada participante; Produção de um caderno com o miolo unido por um fio. (Figura 02 e 03) Segunda Produção de um caderno com o miolo Oficina unido por um parafuso. (Figura 04) Terceira Produção de um caderno com papeis Oficina de origami encadernados por um palito de churrasco. (Figura05 e 06) Quarta Oficina Produção de um caderno com forma básica da flor em Origami. (Figuras 07 e 08) Quinta Oficina Produção de um caderno com miolo sanfona. (Figuras 09 e 10) Sexta Oficina Produção de um caderno com miolo brochura. (Figuras 11 e 12) Material 15 folhas de papel sulfite branco A4; folha de papel Canson A4; fio parafinado várias cores; dobradeira e tesoura. Retângulos (4,5 cm x 19 cm) de papel sulfite branco; papel quadriculado azul; papel colorset várias cores; parafuso de plástico; furador de um furo só. 12 folhas de papel espelho de várias cores (15 cm x 15 cm); folha preta de papel colorset (16 cm x 16 cm); tecido floral (18 cm x18cm); tecido floral (8 cm x 8 cm); papel colorset (6 cm x 6 cm); 1 palito de churrasco grande; fio parafinado preto; dobradeira; régua de papel; lápis; cola; tesoura; agulha. Papel Paraná (3 mm x 10 cm x 10 cm); tecido estampado (12 cm x12 cm); 2 fitas brancas (número 0) 40 cm cada; 5 quadrados de folhas de cartolina branca 20 cm. Dobradeira; cola; tesoura; cantoneira. Cartolinas coloridas (15 cm x 66 cm); Papel Paraná (3 mm x 8,5cm x 15 cm); folhas de revista em quadrinhos, com imagens coloridas e preto e branco; papel colorset; fio látex na cor preta. Dobradeira; cola e rolinhos de espuma; pincel; tesoura; cantoneira; régua de papel; lápis; agulha. Miolo brochura; papel cartolina branca A4; Papel colorset preto (19 cm x 29 cm); tecido de chita (25 cm x 35 cm), fio parafinado várias cores; 4 contas de acrílico; Cola; tesoura; cantoneira; lápis; agulha; chave de fenda; dobradeiras. 36 Sétima Oficina Produção de um caderno com a Encadernação Japonesa. (Figuras 13 e 17) Oitava Oficina Confecção da capa para o último caderno: colagem e carimbos. (Figuras14 e 15) Nona Oficina Confecção do miolo que será costurado à capa já feita. (Figura 16) Folhas de papel reciclato (10 cm x 30 cm); fios de ráfia; papel de seda decorado (7 cm x 7 cm); carimbo e carimbeira; Furador para encadernação; régua de papel para transpor medidas; lápis; agulha cola; 2 folhas de cartolina A4; papel espelho decorado (34m x 24 cm); uma faixa do mesmo papel (8 cm x 33 cm); Cola; tesoura; cantoneira; lápis; dobradeira. 10 folhas sulfite branco A4; 7 folhas colorset de várias cores e vários tamanhos (7 cm x 28 cm e 11cmx 28 cm); fita preta de cetim (número 1); lantejoulas de diversas cores; Dobradeiras; furador para encadernação; agulha. Décima Finalização dos cadernos não Oficina terminados devido às faltas. Encerramento. Quadro 1 - Planejamento das oficinas O material de cada atividade proposta é entregue individualmente em um saco plástico, como um kit do dia (Figura 1) no início das oficinas. Figura 1- Kit Oficina do dia Durante as oficinas são realizadas entrevistas individuais, áudio-gravadas e posteriormente transcritas. Além disso, após cada oficina as adolescentes registram as 37 impressões pessoais relacionadas à atividade do dia no que aqui se denominou “Caderno de Bordo”. As 5 primeiras questões são respondidas na primeira oficina e são acompanhadas por desenhos realizados pelas adolescentes. A sexta questão, é respondida ao término de cada oficina, objetivando capturar a experiência, ainda vívida, nos detalhes. As questões de 7 a 13 são respondidas na penúltima oficina, com quase todos os cadernos já confeccionados. São produzidos por cada participante 8 cadernos. Ao final das oficinas cada participante recebe uma caixa branca, fechada com um laço de fita rosa, onde estão arrumadas suas produções individuais. Como a apresentação desta caixa é semelhante a um presente, causa impacto e satisfação, principalmente após abrirem-na e se certificarem da quantidade e qualidade da produção. 3.4.2. Análises de dados Para analisar o material pertinente a esta pesquisa, são descritos e relacionados dados demográficos, entrevistas, categorias temáticas abordadas nas oficinas que emergem ao longo do processo, segundo o referencial psicodinâmico. 38 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 4.1. OS GRUPOS Embora a intenção sempre tenha sido trabalhar com o grupo mesclado, com meninos e meninas, o grupo feminino, com características fortes de liderança, excluíram totalmente os participantes masculinos. Mesmo com uma turma composta só por meninas, acontece espontaneamente uma separação no grupo, dividindo-o em dois subgrupos. 4.1.1. Grupo 1. Formado por quatro participantes, Samira, Ândrea, Kathleen e Aylla, mais infantilizado em termos físicos, com uma postura infantil e aspectos emocionais imaturos; é mais calmo e tranquilo, exigindo mais ajuda nas oficinas. a) Samira, com 11 anos, pequena para a idade, lépida, faz atletismo e declara preferir esportes de equipe. Única menina de três filhos, ela mora com a família. Além da dificuldade em escutar as instruções, não consegue esperar a sua vez, envolvendo-se em conflitos com o grupo. Com frequência, começa as atividades antes da explicação, errando, desperdiçando o material e danificando os instrumentos por não saber mexer com eles. Aos poucos, adquire consciência desta dificuldade e tenta controlar-se. b) Ândrea, com 12 anos, altura mediana, possui dificuldades na fala. Brincalhona e ativa, ela declara gostar do atletismo e que pratica semanalmente. À época da pesquisa, tem uma irmã de 8 meses, mora com a mãe, a avó e um filho de criação da avó, com 19 anos de idade, com quem dizia manter um relacionamento conturbado, brigando muito. Seu rendimento na escola é mediano. Desde o início sua atitude é a de se colocar em destaque nas oficinas, falando no mesmo tempo no qual as instruções são dadas, ou se antecipando a elas. Fica brava quando não recebe atenção, isolando-se em um canto da sala. Faz as atividades com entusiasmo e vontade, mostrando-se comprometida e prestativa. 39 c) Kathleen, com 11 anos, parece mais nova, quieta e observadora. Mora com os pais e duas irmãs mais novas, pelas quais se sentia responsável quando na escola. Declara ser boa aluna em português e escreve poesias. Geralmente, não sabe o que fazer ou não entende as demandas exigidas, necessitando de novas explicações. Muitas vezes, se faz necessário ir ao seu encontro para terminar determinadas partes da encadernação, caso contrário, permaneceria na posição de espera; não criando por si, qualquer condição ou iniciativa para concluir os trabalhos. Não faz como as outras; não reivindica ou exige a atenção ou explicação em determinados momentos. d) Aylla, com 12 anos, já mostra um corpo bem definido em curvas e volumes. Nota-se nela uma preocupação em usar roupas justas e estar bem ornamentada e bonita, quase sempre com sombra nos olhos e as unhas grandes, lixadas ou pintadas. Parece ser mais agressiva que as outras, pelo tom e característica de suas respostas. Tem uma história pessoal singular: sua mãe entrega-a ao pai ainda com semanas de vida. Aylla só conhece sua mãe aos nove anos, e nunca mais a vê. Ela se ressente de não conviver com a mãe. Ela mora com o pai, a madrasta e os irmãos por parte de pai, e ressalta a presença de uma bisavó muito próxima. Tem uma irmã com meses de diferença dela, também com 12 anos e dois irmãos um de 13, outro de 10 anos de idade. Do lado materno, disse ser a caçula, mas pouco comenta a respeito. Não demonstra muita satisfação em frequentar a escola, mesmo achando ser importante a matéria de português para se aprender a ler. Fez as oficinas, quase sempre sem reclamar das demandas, mas é nítido que apresenta dificuldades: a começar com o vincar do papel, quase não consegue o juntar ponta com ponta das folhas de papel tamanho ofício. Não se trata só da falta de treino, a proximidade exagerada com o papel dá a impressão de não enxergar direito. Contudo, o que chama a atenção é a condescendência a respeito de sua produção; enquanto as outras se recriminam ou permanecem inconformadas com determinados resultados, Aylla acaricia o seu caderno, muitas vezes abraça-o, concordando que “para aquele momento estava bom”. 40 4.1.2. Grupo 2. Formado por participantes mais agressivas e com características de liderança, além de muito estimuladas sexualmente. a) Rafaela, com 12 anos de idade, desenvolta e autônoma, uma das mais altas dentre as adolescentes participantes, mostra formas de mulher. Gosta de trabalhos manuais, de estudar e diz sair-se bem na escola. Sua aparência é sempre limpa e sua letra é bonita. Mora com a mãe, viúva, cinco irmãos e uma sobrinha. A irmã de 21 anos serve de referência, porque tem um emprego estável em um banco e cursa faculdade. Inicialmente, nas oficinas, mostra-se agitada, bagunceira, assumindo a posição de líder, atitude que fortalece e incentiva as outras deste subgrupo a tumultuar o trabalho, mas quase sempre no término pede desculpas e garante que no próximo encontro se comporta melhor. A partir do terceiro encontro, Rafaela mostra-se mais envolvida e concentrada, mantendo-se silenciosa. Ela é habilidosa, além de mostrar-se inteligente e perspicaz, já que em algumas ocasiões, antes que lhe fosse explicado como executar determinadas etapas, já havia previsto como fazê-las. Percebe-se que gosta de aprender coisas novas e as faz com capricho, no caso dos cadernos várias vezes comenta que gostaria de usá-los como diário. Comenta que possui o hábito de escrever sobre si. b) Drikaelle, com 12 anos de idade, de estatura mediana, agitada e animada, provoca constantemente as outras colegas, envolvendo-se em confusões. Filha do meio, ela tem duas irmãs, uma com 13 anos e outra com 5 anos. Mora com a família, a mãe, com quem mantém um relacionamento conturbado, com brigas e permanentes crises. Afirma gostar “mais ou menos” de ir à escola. Drikaelle faz as atividades com dificuldade e algumas vezes, amassa suas produções por ficar nervosa. c) Flávia, com 12 anos de idade, de estatura baixa, negra, desenvolve as características físicas da adolescência. Não vive com os pais e não tem contato com os irmãos, um menino e outras duas meninas. Ela vive com a avó, por quem tem respeito, admiração e afeto. Na mesma casa moram também o avô, uma tia, os primos e um tio. De todas as participantes do grupo, parece que só Flávia tem responsabilidades domésticas. No seu discurso se tem a impressão de que não 41 existem, em sua rotina, momentos de lazer ou diversão. Gosta de frequentar a escola; diz que matemática e história são suas disciplinas prediletas. Desde o início, demonstra ser uma menina arisca e arredia, expressando má vontade na realização das atividades, e nunca gosta do que faz. Muitas vezes, rasga, amassa e joga para longe ou no lixo suas produções. A confecção do crachá é um exemplo, só após fazer o terceiro crachá aceita. Não gosta de fazer os registros no diário de bordo após as oficinas, e sua expressão é de tédio e mau humor. Aos poucos, a cada encontro, Flávia relaxa mais, mostrando-se cada vez mais satisfeita por participar das oficinas. Nas anotações do caderno de bordo Flávia solicita autorização para fazer diferentemente das demais, que respondem cada questão numerando as respostas. Satisfeita, é quem mais escreve das nove meninas. Seu texto mostra que ela tem dificuldades com a escrita, com a organização do pensamento, além de conter muitos erros ortográficos. Flávia comenta, em encontros posteriores, que usa o caderno fazendo-o como um diário, que escreve sempre como se sente, sendo só ela quem sabe sobre ele, que “adorava escrever nele”. d) Izabella, com 12 anos de idade, parece uma menina tranquila e educada, quase sempre quieta, faz as oficinas sem apressar-se, no seu tempo e ritmo. Convive bem com ambos os grupos. Faz as encadernações com capricho e com vagar, envolvida e satisfeita. Ela cuida de outros irmãos menores o que ocasiona suas faltas em algumas oficinas. Sobre a escola relata gostar de estudar e fazer as lições, principalmente história e geografia, se considera boa aluna. e) Sarah, a última a ser inserida na turma, é convidada pelas amigas a participar das oficinas, mas não se mostra muito interessada. Aparentando ter mais idade que seus 12 anos, é das mais altas, com uma postura altiva e elegante. Esteve sempre com o cabelo impecável; suas roupas eram produzidas, além de estar ornamentada com brincos e colares, frequentemente com brilho labial, sombra e lápis nos olhos ficava constantemente com o seu celular, ora mandando mensagem ora ligando para alguém. Única filha, caçula de quatro filhos, relata que os irmãos mais velhos estão envolvidos com drogas. O irmão mais velho morreu, recentemente, em um 42 acidente de moto e o pai fôra assassinado. Quando ri, sua risada é muito alta, e normalmente está sempre provocando as meninas menores do grupo. Fica incomodada quando suja as mãos e reclama ao executar uma atividade mais trabalhosa, ou que exige um pouco mais de atenção ou empenho dela. Aparenta ter dificuldades em concentrar-se, não conseguindo fixar-se nas atividades mais do que 5 minutos. Dessa forma, as amigas quase sempre a ajudam terminando sua atividade do dia. Quando se conversa pessoalmente com ela, não olha nos olhos por muito tempo, desvia o olhar, causando sensação de que apesar dela estar olhando não enxerga o outro, por vezes não escutando o que lhe foi dito. Na escola diz não gostar de estudar, matemática e português são matérias difíceis para ela, não se considera uma boa aluna. Ir à escola para ela é bom por causa das amigas e dos meninos. Ocorre certa concorrência e rivalidade entre os grupos, manifestada pela não interação entre ambos, sem troca ou ajuda mútua. Diante disso, a alternativa foi reduzir a quantidade de material de uso comum, forçando a interação. Estratégia que, de forma tranquila, favorece a administração das diferenças, ampliando sensivelmente o respeito e a convivência entre todas. A separação dos grupos mantém-se até o final das oficinas, porém, os vínculos intergrupo intensificaram-se, pois as participantes se ajudarm, colaborando mutuamente nas atividades. Várias vezes, elas oferecem-se, espontaneamente, para terminar trabalhos da amiga que esta atrasada ou com dificuldade. Atitude mais facilmente notada no Grupo 2. 4.2. O PROCESSO Nesta etapa busca-se apresentar e discutir os resultados que melhor ilustram as experiências relacionadas às hipóteses levantadas: Surge a hipótese de que estas oficinas podem favorecer a autoexpressão. Sobre os cadernos artesanais, levanta-se outra hipótese: já que eles são feitos com um número determinado de folhas de papel, que por 43 sua vez possuem espaço interno demarcado pelas bordas, se aproxima da adolescência oferecendo contenção e limites. Por último, caracterizando-se como um lugar de criação ou encontro de sentidos, seja pela escrita, desenho ou outro repertório íntimo, oferece um lugar de acolhimento. Objetivando analisar compreensivamente a experiência da encadernação por adolescentes como possibilidade terapêutica organiza-se esta etapa do texto em duas partes, embora se considere que tal fragmentação cumpra apenas uma função didática. Na primeira busca-se apresentar e discutir os resultados que evocam experiências relacionadas à contenção e limites. Em seguida, apresentam-se vivências favorecedoras da capacidade de autoexpressão. Para tal, observou-se a sequência cronológica das atividades propostas. Apresenta-se uma descrição detalhada das sessões, uma vez que, não só a produção deve ser analisada, mas todo o processo de elaboração, incluindo as reações perante a técnica e perante o resultado. A importância do processo está na possibilidade da projeção do mundo interno e na interação entre o sujeito e o produto de sua expressão criativa. 4.2.1. Oferecendo contenção e limites Limites são fundamentais para qualquer tipo de organização: espacial, subjetiva e material. Crianças e adolescentes, especialmente, necessitam de limites para organizar suas as percepções (sobre si e sobre o mundo). Trabalhar com limites definidos oportuniza uma melhor relação com o outro e com o grupo, potencializando funções de adequação e de socialização como um todo. Dessa forma, a metodologia escolhida para organizar as oficinas, propondo que em cada encontro se produzisse um caderno diferente, numa sequência de etapas, possuía uma definição clara de ritmo e processo, com início, meio e fim. O procedimento rotineiro que marca o início das oficinas ressalta a importância da limpeza, da organização e do planejamento em qualquer atividade: cada participante recebe um lenço umedecido para limpar as mãos e na sequência uma folha de papel branco, na medida A3, que usariam como campo de trabalho. Neste campo executam todos os procedimentos técnicos: vincar o papel, cortar, fazer marcações com lápis, colar. Organizando-se dessa forma, é possível, no caso de acidentes, a troca do papel 44 branco, preservando a mesa de trabalho e outros materiais a serem usados. A obrigatoriedade de se fazer a capa primeiro e só depois anexar o miolo, demonstra ordenação e classificação de determinados materiais. Assim como, a dificuldade crescente, apresentada no decorrer das oficinas, declara a intencionalidade por meio de exercícios sobre o domínio de competências motoras e psíquicas, também se compõe de paralelos com o corpo adolescente. Agora nos deteremos com a demarcação de limites e fronteiras, seja pelo próprio objeto, o caderno como nos procedimentos para a sua produção. Ao buscar etimologicamente o significado do verbo limitar, encontra-se mais do que significações semelhantes a demarcar, fazer fronteira ou restringir. Significa também, estabelecer limite para si próprio, dar-se por satisfeito e, acima de tudo, contentar-se com. A palavra limite por sua vez, guarda em sua raiz, mais do que uma condição restritiva, encontrada no conceito de divisão e fronteira; possui significados mais amplos, incluindo a ideia de mobilidade, pois também significa caminho e estrada (HOUAISS, 2001). E nesta abrangência de significados opostos imbricados, a relevância da vivência para o sujeito sobre determinadas experiências de contenção, bem como espaços demarcados para a ação, se manifestam como percursos para o autoconhecimento, autocontrole e mesmo paradoxalmente, autonomia e liberdade. Bachelar (1993, p.19) enaltece a relevância dos limites, “concentra o ser no interior dos limites que protegem”. Distingue que a delimitação não é uma forma de não aceitação à característica natural do ser ou o seu aprisionamento, muito pelo contrário, possibilita fortalecimento do mesmo, seja pela garantia de sua integridade física ou pela segurança trazida pela proteção cuidadosa. Enriquecendo essa perspectiva, Outeiral (2008, p.32) lembra o quanto há de conotações negativas quando mencionamos a noção de limites, ligada erroneamente à repressão, à violência; referindo-se à repressão política, mas também significados como proibição e interdição. No entanto, o autor também qualifica o termo limite como a criação de um espaço e um tempo protegidos, a partir do qual o adolescente tem a possibilidade de exercer sua criatividade e espontaneidade, sem riscos para si ou para os outros. Relacionando a questão do limite ao conceito de castrações simbolígenas, Dolto (2008), ressalta a importância das castrações, colocando como provas que se 45 chocam com o desejo infantil, favorecendo uma simbolização, que ao mesmo tempo, contribui para modelar a imagem do corpo, para a manutenção do narcisismo (DOLTO, 2008, p.56). Para Dolto (2008), as castrações consideradas como satisfatórias, são aquelas que encerram cada fase (umbilical, oral e anal), possibilitadas por figuras dignas de crédito, homens e mulheres que fornecem na época necessária, assistência física, verbal e tecnológica à criança e, principalmente, cujos comportamentos condizem com seus dizeres. Dolto (2008, p.57) também ressalta o quanto a presença da linguagem, primeiro como proibição vinda do adulto, depois desenvolvida aos poucos como meio de comunicação usada pela criança, possibilita a autonomia infantil, seja por assumir-se no espaço tutelar como para realizar suas próprias experiências, em âmbitos expressivos e motores, referentes às suas necessidades e aos desejos internos. A verbalização do interdito dado a determinado alvo de seu desejo, com a condição de que ela saiba de fato que o adulto é tão marcado quanto ela por essa proibição, ajuda a criança a suportar a prova, e a confiança permanece no sujeito quanto a seu direito de imaginar o alvo desse desejo que o adulto lhe proibiu (DOLTO, 2008, p.63). Diante do exposto, cabe retomar a postura de Samira, participante do grupo 1, que se mostra, desde o início, ansiosa e agitada. A dificuldade da adolescente para escutar as instruções e esperar a sua vez durante as atividades desenvolvidas nas oficinas provocava situações incômodas no grupo. Com a fala recorrente da pesquisadora sobre a necessidade de se ter calma para escutar antes de agir, aos poucos Samira alcança certo controle do comportamento impulsivo. Blos (1998, p.246) assinala que a tendência à ação relaciona-se com mecanismos de defesa, manifestando-se como a antítese entre a passividade e a atividade. Todavia, se esses mecanismos estabilizadores do ego incentivam a atuação no mundo enquanto ato, também preveem o quantum de energia direcionada ao próximo momento de agir, gerando ansiedade pelo devir, paralisando a ação no momento oportuno, sugerindo, aos observadores, distração ou superficialidade. Durante as oficinas, gradativamente, as participantes aprofundam o contato com a materialidade do papel, seja pelo conhecimento das diferentes espessuras relacionadas às várias gramaturas, seja pelo controle da ação de unir todas as partes que compunham o caderno. Em termos didáticos, a ampliação gradual das dificuldades 46 técnicas mostra, na prática a importância do processo, do quanto o aprendizado adquirido em cada etapa acrescenta subsídios para o cumprimento da etapa seguinte. Busca-se um trabalho de conscientização corporal ao trabalhar questões motoras, principalmente relacionadas à coordenação motora fina, mas também: noções de limpeza; agilidade e desenvoltura; cuidado e capricho; ordem e organização. Conceitos espaciais estão inseridos em demonstrações empíricas de dentro/fora; interno/externo; avesso/direito; bi/tridimensionalidade, aparecendo constantemente na confecção de cada caderno, potencializados por determinados modelos específicos. Aqui o conceito de livro objeto é buscado em alguns modelos, de forma a ampliar o olhar das participantes sobre a representação subjetiva de caderno, abstraindo definições sobre forma, material ou tipo. A diversidade de materiais representa as múltiplas diferenças existentes no universo, confirmando que diferenças podem conviver, ou melhor, agregar valor e qualidade à vida e a tudo: tecidos; fios; elásticos, folhas com imagens: papel de presente e revistas; papéis de diferentes cores, texturas e espessuras. O primeiro caderno se caracteriza pela junção ainda leve da capa com o miolo, são unidos apenas por um fio, conforme ilustra a figura 2. Figura 2 - Caderno 01: aberto 47 Figura 3 - Caderno 01: folhas amarradas Para o segundo caderno, os participantes deveriam furar um número de folhas e anexá-las a um parafuso, que mesmo fixo mantém certo movimento às folhas, manifestam ideias diversificadas sobre flexibilidade, mobilidade e, ao mesmo tempo, coesão por meio um todo integrado e harmonioso. Os furadores (de um furo só) são aprovados pelas participantes que se declaram usá-los de modo satisfatório. A técnica da encadernação com parafuso favorece a percepção da importância do registro, termo usado para as indicações feitas em um papel avulso, que mostra a exata posição que o furo deverá ocupar nos papéis. Estas marcas feitas em outro suporte material, um papel mais grosso, ajuda a manter um controle fiel para que todas as folhas furadas tenham seus furos no mesmo lugar, de modo a se manterem alinhadas quando estiverem juntas como um miolo. Furar 50 tiras de papel, alinhando-as cuidadosamente com o registro marcado em uma cartolina, exigia que se repetissem inúmeras vezes essa ação, já que o furador furava no máximo 4 folhas de papel por vez. A satisfação em realizar essa atividade na 48 qual os limites são claramente demarcados, usando atenção e cuidado para furar corretamente, possibilita refletir sobre o quanto limites e regras definidas podem agradar ou trazer certo conforto e segurança para a adolescente. Figura 4 - Caderno 02 - Parafuso No terceiro caderno – caderno São João – ao propor que fossem usadas folhas de papel espelho, trabalha-se conceitos de avesso e direito, por meio do intercalar as folhas com o lado colorido, servindo para a escrita ou para qualquer forma de narrativa. A proposta de dobrar o quadrado na diagonal, quando normalmente dobra-se de modo a obter dois retângulos, permitia novas possibilidades, no âmbito espacial da folha de papel. Nesta experiência, emprega-se a diagonal como eixo para execução de cortes de um centímetro, que servem para a entrada de um palito de churrasco, de maneira a intercalar as partes cortadas, simulando o ato de costurar, o que elas executam futuramente. 49 Figura 05 - Caderno 03 - São João: aberto 50 Figura 6 - Caderno 03 - São João: fechado Por meio desse exercício, além de trabalhar a coordenação motora busca-se uma aproximação do conceito de livro-objeto, citado anteriormente. Por meio desse modelo pode-se ampliar o olhar sobre o caderno enquanto objeto já conhecido, abarcando o seu formato tradicional, um paralelogramo (com folhas retangulares), normalmente apresentado com um tipo único de papel, aquele utilizado na indústria gráfica para esse fim. Novamente, empregam-se conceitos como diversidade, considerando-se que apesar das diferenças provocarem certa estranheza, no primeiro momento, elas proporcionam o encontro de diversas qualidades. A quarta encadernação segue a mesma proposta: apresentar cadernos com formatos novos. Este caderno utiliza uma forma básica de origami, aparentemente simples, mas que colada à outra semelhante em sentido contrário, cria um espaço tridimensional, cujas partes interna e externa são apresentadas claramente. 51 Figura 7 - Caderno 04 - Origami: aberto A capa desse caderno é feita com papel Paraná de 2 mm, material duro e resistente e outro material novo para elas, o tecido. Entender que sua trama possibilita a passagem de cola – se estiver em excesso – como resistência em ser dobrado, torna-se empecilho inicial. Também é notada dificuldade das participantes para colar as formas de origami de maneira correta, o que muitas verbalizam que querem desistir, mas com o caderno pronto se surpreendem e se orgulham com as suas performances. Figura 8 - Caderno 04 - Origami: fechado 52 O quinto modelo, cuja capa também é feita com papel Paraná de 2 mm, exige controle motor fino para usar a cola sobre papel absorvente usado nas revistas de gibi e para furar a capa com a agulha para passar o elástico. A manipulação da agulha condensa a satisfação da maioria das participantes por aprender a costurar, ao mesmo tempo, que traz a rejeição declarada pelo objeto, porque ao usá-la se furam. O costurar também é interpretado pelas adolescentes como uma das diversas funções pertencentes ao universo feminino. Figura 9 - Caderno 05 - Sanfona: fechado Ressalta-se que, apesar da possibilidade de escolher entre tipos diferentes de gibi, alguns com motivos mais infantis e outros em preto e branco com desenhos de cowboy, cores diferentes para o miolo e diferentes cores de botão, cada grupo segue as escolhas das respectivas lideres. 53 Figura 10 - Caderno 04 - Sanfona: aberto No sexto modelo, todas demonstram desenvoltura para lidar com a cola sobre o tecido e para a realização dos acabamentos. Para esse caderno utiliza-se um miolo pronto – a brochura, e a possibilidade de conhecer e usar uma furadeira manual traz interesse e certo fascínio. Divertem-se na colocação das contas de acrílico como adornos. Aqui também cada grupo escolhe a cor da linha usada pela sua líder 54 Figura 11 - Caderno 06 - Miolo Brochura: fechado Figura 12 - Caderno 06 - Miolo Brochura: aberto 55 Com a encadernação japonesa, a oficina acontece sem grandes ocorrências; habituadas a rotina diária, esperam de forma tranquila cada etapa, sabendo que produziriam algo novo naquele dia. Mesmo trocando a ráfia pela linha, não se opõem, e percebe-se o prazer com o uso do carimbo da libélula na capa. Figura 13 - Caderno 07 - Encadernação Japonesa 56 Com o caderno 08, trabalha-se principalmente a organização e a limpeza, pelo uso da cola sobre a cartolina, que recebe a aplicação do papel espelho decorado e pela estampagem de carimbos com letras de maneira livre e individual. Figura 14 - Caderno 08 - Colagem e Carimbo: fechado 57 Novamente a opção pela escrita do prenome traz concentração e capricho por parte das participantes, mas na escolha dos papeis para compor o miolo do caderno, novamente todas seguem as cores e a sequência selecionada pela líder de cada grupo. Figura 15 - Caderno 08 - Produção das Participantes Figura 16 - Caderno 08 - Colagem e Carimbo: aberto 58 Freud (2011, p.14) considera a imitação como característica humana de considerar o Outro “enquanto modelo, objeto, auxiliador e adversário”. Por causa desse traço como ser social, o homem na sua condição individual e na sua vida psíquica se busca sempre como “membro de uma tribo, um povo, uma casta, uma classe, uma instituição, ou como parte de uma aglomeração que se organiza como massa em determinado momento, para um determinado fim”, independente da sua idade. Contudo, na adolescência esse traço pode aparecer de forma marcante, pois a sensação de pertencimento conseguida com a inserção no grupo trará a ideia de integridade e harmonia, amenizando os conflitos pertinentes ao período. E a imitação, seja no contágio mental ou de sentimentos, mesmo que traga isenção da responsabilidade sobre as escolhas individuais, permite ao ser humano “se livrar das repressões dos seus impulsos instintivos inconscientes” (FREUD, 2011, p.21). Figura 17 - Caderno 07 - Encadernação Japonesa: produção das participantes 59 Figura 18 - Todos os Cadernos: produção de uma participante 4.2.2. Favorecendo a autoexpressão Analisando as respostas às questões (Apêndice B) sobre o significado e função do caderno, encontra-se uma representação subjetiva do objeto vinculada à aprendizagem. Para todas as participantes, o caderno está diretamente atrelado ao ato de escrever, ou fazer letras, seguido de utilidade para anotações e como suporte para o 60 desenho. A escola surge como espaço principal de uso do caderno. A ideia de mobilidade confirma-se nas respostas sobre o caderno “servir para muitas coisas ou tudo”, portanto suas características de tamanho, peso e tipo de material, permitem que sejam usados em diversos lugares, como em casa, no trabalho ou na igreja. Nos desenhos apresentados, todos sem exceção, representaram o caderno em espiral como sendo o representante mais comum, chegando a ser um ícone do objeto, não aparece qualquer outro tipo de encadernação. Aliás, durante as oficinas, enquanto se mostram alguns livros para exemplificar visualmente diversas encadernações e demonstrando claramente as diferenças daquelas que são costuradas das grampeadas ou coladas, muitas participantes ficam surpresos, por vezes fascinadas, com aqueles livros que possuem a capa bem dura, assim como com a largura das lombadas. Esta independência das folhas entre si também é um dado trazido nas respostas. É citado que o caderno serve para mandar algo, uma carta, por exemplo, que após o texto escrito, sem problemas se arranca a folha enviando a quem quisesse. Interessante aqui pensar nesta diferenciação e qualidade volúvel e efêmera do caderno como objeto vista atualmente. Embora ele represente um agregado de folhas que pertencem a uma estrutura coesa, seria unicamente ao tipo da sua construção, que poderá ser costurada ou as folhas unidas por uma espiral, que haveria a possibilidade ou não de preservar a ideia de corpo integrado e harmonioso. A ideia, já apresentada, do caderno como veículo de passagem sempre receptivo para inscrições de um discurso íntimo, assim como um ótimo suporte para os registros de inúmeros pensamentos ou obrigações, aparecem também nos escritos dos adolescentes, sendo até referenciados pela semântica de ser “um diário” ou “um tipo de agenda”. Como é dirigido um questionamento a respeito das diferenças existentes entre o livro e o caderno para estes jovens, novamente a simbolização do caderno se dá como algo com amplas e sutis demarcações de uso. São as suas inúmeras possibilidades de utilização que abrem a sua potência para a experiência, ressaltando ainda mais a sua imagem de flexibilidade, por vezes indeterminada, quase mutante. O que chama a atenção é identificar que o livro, de certo modo, já está simbolicamente decodificado, seu conceito imagético está muito fixado. Nas respostas e observações feitas pelos adolescentes, o livro se representa como “algo que está 61 escrito”, por consequência nos dirige naturalmente à leitura. Então se ele já contém uma história escrita, possui um conteúdo pré-determinado, por isso explica-se a sua espessura que muitas vezes é “grosso”. Distintamente do que entendem ser um caderno, os adolescentes afirmam que ele é algo que ainda não tem uma história, portanto, nos possibilita escrever. Isso explica a enorme diferença entre os livros e eles. Os cadernos, na sua maioria, são finos, pois ainda não guardam a experiência vivenciada, como o percurso ainda não teria sido percorrido, ele pode ser considerado como ainda vazio, visivelmente fino e pouco mensurável. Pelas respostas aqui conseguidas, este potencial do caderno é pressentida, porém muitas vezes não é reconhecida, mesmo sendo usado como diário, como muito foi abordado, não é considerado como história, e mesmo coberto de inscrições em suas páginas não é visto como um suporte já escrito, com peso e valor tal como um livro. Relembrando nas aulas inaugurais das oficinas o momento de sondagem sobre a conceituação dos participantes sobre o caderno, indago a respeito de quais seriam os materiais que os cadernos eram feitos. Todos os adolescentes, nas duas turmas formadas, respondem prontamente que são feitos de árvore; alguns aprofundando sobre um tipo específico que é o pau-brasil. Na sequência de respostas, complementam que seria feito de madeira, até finalmente, alguns chegarem a escrever que seria o papel seu componente principal, mas nenhum deles sabe explicar a relação existente entre a madeira e o papel. Desconhecem como se dá tal processo, de como uma árvore se transforma em fibra, dentro de um processo químico e industrial, chegando enfim a se tornar uma folha de papel, material que está presente na rotina diária deles. Este fato confirma a percepção sobre como a aprendizagem a respeito de determinados conteúdos é bastante incipientes, tanto na qualidade, como em profundidade de conhecimentos, o que faz com que permaneçam esvaziados de sentido ou coerência, quase fazendo fronteiras com o exotérico ou místico, por isso nem chegam a ser tocados ou explorados de verdade, conservando apreensões superficiais quando não, extremamente pobres ou pior equivocadas. Ao constatar essa confusão a respeito do papel para os adolescentes, tento delimitar ainda mais o entendimento de quais partes seria composto o caderno, o que novamente alguns respondem, bem inseguros, que a parte usada seria a do tronco, apesar de outros comentarem que seriam as folhas e outros os galhos. Afirmo a 62 possibilidade de estarem corretas todas as respostas, só que no que se refere à fabricação do papel, ressalto que o que eu estou perguntando é quais seriam as partes que formavam um caderno espiral. No primeiro momento, todos só conseguem me responder que seria “de mola”. Somente alguns minutos mais tarde, dispondo de uma maior observação e todos se empenhando em compreender a pergunta, é que finalmente descrevem e nomeiam o que estão vendo no objeto. Que o caderno possui uma capa; continha muitas folhas de papel na parte interna, sendo uma folha mais grossa com o horário das aulas; um saco para guardar as provas e que contém várias etiquetas para colar nas folhas. É importante ressaltar que dentre as nove garotas que participam das oficinas, 7 delas iniciam após o término das nossas atividades, seus diários pessoais, e se utilizam de um dos cadernos produzidos por elas. É percebido que tal caderno torna-se um objeto agregado de valores pessoais, seja pela qualidade estética ou pela sua dimensão afetiva. Lembrar que o período de latência, aquele imediatamente anterior a essa fase da adolescência, coloca o funcionamento autônomo das funções mentais superiores, de modo a reduzir sensivelmente a expressão do corpo como instrumento de expressão da vida interior, já que o aumento da capacidade na expressão verbal acontece isoladamente da atividade motora. O controle interior do jovem também se manifesta por comportamentos e atitudes motivados pela lógica e direcionados por valores. Blos (1998, p.74) nomeia estes recursos internos, encampado por diversos âmbitos, sejam nas habilidades motoras, intelectuais e sociais, como reguladores da autoestima, já que mantém o equilíbrio narcísico. Como neste período específico, o adolescente direciona suas emoções para a linguagem, o que antes, na infância encontram descarga no corpo, a procura por novos canais e materiais substitutos se faz necessário, o que por meio da autoexpressão artística cria-se uma compensação da perda da espontaneidade corporal não autoconsciente, como afirma Blos (1998, p.75). Por essa razão, no caso dessas meninas, a oportunidade trazida pelas oficinas de encadernação permite que confeccionassem, por si, um caderno artesanal. Essa escolha em construí-lo, e terminá-lo satisfatoriamente enaltece o orgulho pela conquista, o que acaba por torná-lo mais significativo, o que pode ter suscitado também a vontade por escrever em suas páginas, de forma a apropriar-se cada vez mais dele. 63 Retroalimentando esse prazer por meio da concretização da ação, reatualizando a importância da autoria, com a manutenção e a aproximação da intimidade, seja consigo e com o seu próprio poder criador. Blos (1998, p. 243) retomando textos de Spiegel, sugere que a criatividade, especialmente a criação artística tem função especial na diferenciação do ego e sua faculdade estabilizadora, principalmente para o domínio interno dos conflitos emocionais. Para Spiegel, ”por meio da criação artística, o que é eu pode tornar-se objeto a ser externalizado em seguida, podendo com isso contribuir para estabelecer um equilíbrio entre catexias narcísica e objetal”, já que as produções adolescentes se tornam “também objetos” (SPIEGEL, apud BLOS, 1998, p.243). No caso dessa pesquisa, o caderno produzido é um objeto concreto, com dimensão, peso, materialidade e delimitações específicas, e sua concretude traduz-se em um espaço para a narrativa pessoal, seja textual, visual ou qualquer outra escolhida pelos autores do caderno. Cria-se um espaço, como defende Outeiral, “a criatividade na adolescência articula-se necessariamente com a noção de limites, [ou seja, é preciso] um espaço e um tempo protegidos para que ele possa exercer sua espontaneidade e criação, sem receios ou riscos” (OUTEIRAL, 2008, p.32). O caderno selecionado para os registros íntimos, como um diário, foi o mesmo para todas. A escolha foi por aquele com o miolo que já está pronto, o qual as participantes só confeccionam uma bela capa e executaram a costura que anexa à brochura à capa. Talvez, pelo fato do miolo ter linhas em suas páginas, poderia ser o real motivo da escolha, as linhas funcionam como uma referência concreta, um caminho por onde se debruça a escrita. Por isso, com a brochura já pautada, torna-se estimulante e seguro a permissão à intimidade, criando um ensejo para o desejo para escrever. Trazer aqui pontuações de Dolto (2008, p11), que dentre outras coisas, reforça a importância da materialização, e porque não dizer também da descoberta de um lugar para conseguir ser. A autora cita em seu texto a importância dos desenhos e modelagens infantis para entender a representação da criança sobre si. Comenta o quanto eles representam uma localização de identidade para a criança, de modo que ela mesma consegue, por assim dizer, situar-se ou enxergar-se, o que será fundamental para que possa, enfim, interagir com o outro. 64 Em termos estético-visuais, analisando as produções conseguidas dentro das oficinas dessa pesquisa, nota-se que as diferenças são quase imperceptíveis entre um caderno e outro, já que sempre ocorre um direcionar de cada subgrupo para seguir a líder respectiva. Isto é, copiar suas escolhas, seja nas cores dos papeis para os miolos e capas ou nos fios de costura, em detalhes visuais, assim como nas respostas dadas no diário de bordo. Fato que, rapidamente, poderia demonstrar pouca criatividade individual, mas ao retomar a fala de Outeiral (2008) pode-se trazer outra leitura, talvez mais sutil, sobre esse quesito de originalidade. O autor evidencia “a grande necessidade do adolescente em sentir-se inserido em um grupo de iguais, o que exerce um papel fundamental na aceitação ou rejeição do jovem como um todo” (OUTEIRAL, 2008, p.11). Contudo, encontram-se, curiosamente, demonstrações de originalidade e liberdade à individualidade criativa nos sacos que são entregues os kits de cada oficina, os mesmos, nos quais cada participante deposita o caderno produzido naquele dia. Apesar das muitas semelhanças nas produções, já que seguem um modelo, além das recorrentes atitudes de cópia por parte das adolescentes, são nestes sacos que elas, ao escreverem seus prenomes com uma caneta permanente, no decorrer das oficinas, mudam gradualmente as cores das canetas, o desenho das letras, alternando os nomes próprios por apelidos e acrescentando outros desenhos decorativos. O valor do nome é citado por Dolto (2008, p37-39), como imprescindível para a imagem narcísica do ser humano. Segundo a autora “esta pregnância dos fonemas arcaicos”, presentes no prenome, funcionam como vozes maternais para a criança e reforçam, decisivamente, seu “narcisismo primordial”. [...] a imagem do corpo é o traço estrutural da história emocional de um ser humano. Ela é o lugar inconsciente de onde se elabora qualquer expressão do sujeito; o lugar de emissão e percepção das emoções inter-humanas linguageiras [...]. Ali residem, como já assinalamos, o valor e a importância do prenome que no momento da passagem do feto ao lactante, é recebido pelo sujeito, das instâncias tutelares, ligado a seu corpo visível por outro, e certifica para ele, na realidade, sua perenidade existencial. (DOLTO, 2008, p39) Desde a mais tenra idade, a atenção e o estilo de amor direcionados ao bebê marcam a criança, influenciando, quase que plasmando decisivamente, sua imagem corporal. São estas presenças que trazem uma “memorização auditiva, olfativa, 65 gustativa, visual, tátil, barestésica e cinestésica de percepções sutis, fracas ou intensas, sentidas como linguagem de desejo do sujeito em relação a outro”. Esta “intuição vivenciada de estar-no-mundo”, o que se fortalece quando a chamam pelo seu prenome, ou nomes carinhosos e com significados afetivos, asseguram a imagem do corpo vivente e o narcisismo do sujeito, permitindo futuramente o sentido da identidade social e simbólica. Nas palavras da autora, é por meio desse “sentimento de existir” que um ser humano sustenta seu corpo em seu narcisismo, dominando suas pulsões de vida sobre as pulsões de morte. 66 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Nos dias atuais, cada vez mais, convivemos com diversas tecnologias, que permeiam a nossa vida por meio dos diversos aparelhos conectados, enfatizando aqueles que estão constantemente em contato com nossos corpos, como os dispositivos móveis. Os smartphones, gradualmente, substituem os computadores trazendo algo que nunca havíamos experimentado que é a instantaneidade pela mobilidade. Tal interação com geniais máquinas comprovadamente nos traz inúmeras facilidades, porém também é fato que por meio dessa era tecnológica altera-se sensivelmente nossa relação com o tempo. Assim como, a ampliada conectividade e mobilidade fazem com que tenhamos a forte impressão de vivermos em um mundo sem fronteiras ou limites. Por esses motivos, a noção espacial e, portanto, nossa consciência corporal também é modificada. Propor algumas oficinas com uma técnica tradicional, tal como a encadernação, poderia soar desinteressante para adolescentes, acostumados a lidar com bastante desenvoltura nesse mundo acelerado e tecnológico. Porém, justamente pelas facilidades e transformações trazidas pela tecnologia, deixamos de lado algumas atividades relacionadas ao fazer artesanal, ação que concerne o individual e único, bem como oportuniza demonstrações históricas e pessoais do sujeito, adentrando-o no campo da expressão e da criatividade. Ao validar essa importância do trabalho com as mãos, independente da qualidade motora, confere ao sujeito uma abertura para a ressignificação tanto de repertórios conscientes como inconscientes, já que trazem para o corpo o vivenciado. Nesta atividade de encadernar se promove um espaço novo para o trabalho cuidadoso e diferenciado, vivificado pelo prazer estético e a criação de sentidos, que naturalmente preencherá e perpassará as futuras produções, proporcionando outras possibilidades para que o sujeito consiga enxergar o sensível e o poético. Do mesmo modo que estimula o reconhecimento e a valorização sobre o fazer bem feito, dentre outras, essas são qualidades que ecoarão internamente como condição para ressignificar o tempo e o movimento de modo mais consciente e não automático, reforçando a harmonia interna e, deste modo, possibilitar mais saúde tanto física como psíquica. 67 Aqui se obtém a comprovação que o fazer, no caso a confecção de um caderno artesanal, torna o objeto agregado de valores pessoais, estéticos e afetivos, suscitando também a vontade de escrever, como forma de recuperar parte da experiência vivenciada ou do que esta tenha mobilizado em cada participante, principalmente como espaço possível para a intimidade e para criação. O que também poderia ser interpretado no caso dessas adolescentes, como uma apropriação, cada vez maior, de si mesmas por meio de suas criações, que reforçam valores de autoria, identidade e pertencimento, especialmente sobre o seus mundos internos. Todavia, pode-se pensar no privilégio de poder recorrer a um lugar protegido e seguro para o sonho e a imaginação, um refúgio particular. Na maioria das vezes, esse lugar além de desconhecido, pode ainda não estar construído nessa fase específica da adolescência, já que não mais se localiza na infância perdida, sequer na vida adulta, que ainda não foi alcançada, agravando-se muito com a noção de desterritorização, típica desta época virtual, ou para essas jovens que vivem em espaços físicos restritos, um empecilho a mais para conseguir qualquer recolhimento. Essas atitudes de deslocamento para um mundo interior percebidas nas participantes podem ser analisadas como similares à reflexão e ao aprofundamento do sujeito sobre as suas experiências e sobre o mundo ao seu redor, como uma conexão significativa com o que lhes ocorre, por isso o desejo em escrever suas lembranças e memórias nos diários confeccionados por elas mesmas. Esses temas tão valorizados por Benjamin. São opostos à alienação trazida pela velocidade e a automação contínua da contemporaneidade, que sempre impossibilita uma interiorização, pois fortalece a alienação e a distração, resultando em uma forma de conhecimento não só superficial, como passiva, difusa e periférica. Por essa razão, no caso dessas garotas, por meio da encadernação, traduzida também como uma produção com qualidade artística, ocorre de algum modo uma contribuição para estabelecer um equilíbrio emocional e psíquico interno e externo. A vivência das etapas sequenciais, presentes na técnica do encadernar, sobretudo, no modo como as oficinas são dirigidas, se assemelham a ideia de ritual contendo, também, conceitos de ritmos e continuidade, demonstrando valores intrínsecos de coerência e intenção. O recurso de manterem-se junto, por meio da costura, as diversas folhas de um miolo, serve-nos como metáfora, para a manifestação de uma competência para seguir 68 passos, ordenar, organizar, exercitar habilidades, fortalecer o enfrentamento e a superação de dificuldades, reforçando ainda mais a ideia de integração harmoniosa. 69 6. REFERÊNCIAS BACHELARD, Gaston. A poética do Espaço. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Originalmente publicado em 1957). BACHELARD, G. A formação do espírito cientifico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. (Originalmente publicado em 1938). BACHELARD, Gaston. Poética do Devaneio. Trad. Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2009. (Originalmente publicado em 1960). BARBIER, Frédéric. História do livro. Trad. Valdir Heitor Barzotto. São Paulo: Paulistana Editora, 2008. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 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Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das letras, 2011. (Originalmente publicado em 1920-1923) HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 2001. LIMA, Francisco Gudiene Gomes e MAGALHÃES, Suzana Marly da Costa. Modernidade e declínio da experiência em Walter Benjamin. Acta Scientiarum. Human and Social Sciences Maringá, v. 32, n. 2, p. 147-155, 2010 LYONS, Martin. Livro: uma história viva. Trad. Luís Carlos Borges. São Paulo: Editora SENAC, 2011. MEINERZ, A. Concepção de experiência em Walter Benjamin. Dissertação de Mestrado. Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2008. MOREIRA, M. I. C. Psicologia da adolescência. Contribuições para um estado da arte. Interações: Estudo e Pesquisas em Psicologia. v.5, n.10, 2000. OUTEIRAL, José. Adolescer. Rio de Janeiro: Livraria e editora Revinter, 2008. PAIVA, Ana Paula Mathias de. A aventura do livro experimental. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Edusp, 2010. SCOZ, B. J. L. Identidade e subjetividade de professoras/es: sentidos do aprender e do ensinar. Tese [Doutorado em Psicologia], São Paulo, PUC/SP, 2004. 70 7 APÊNDICE A ROTEIRO DE PERGUNTAS PARA A ENTREVISTA INICIAL Nome: Idade: Data de nascimento: 1-Motivo para frequentar a instituição 2-O que mais gosta na instituição 3-Nas suas horas vagas o que gosta de fazer? 4-Você ainda gosta de brincar? 5-Quando não está com a família que lugares gosta de frequentar? Por quê? 6-Você tem irmãos? Se tiver, qual a sua posição entre os irmãos (caçula mais velho etc.)? Como se sente em relação a eles? 7-Como é composta a sua família? Como você se relaciona com ela? 8-Com quem você se dá melhor? 9-Quem você admira na família? 10-Como é o seu comportamento em casa? 11-Você gosta de ir à escola? Qual a matéria que mais gosta? Por quê? 12-Qual é a matéria que menos gosta? Por quê? 13-Como são suas notas? 14-Como é o seu comportamento na escola? 15-O que você espera do futuro? 16-Você tem um sonho? Qual? 17-Você escreve coisas, poemas ou segredos sobre a sua vida em algum lugar? 18-Você tem face book? Como e quanto tempo você usa? Você escreve o quê 19- Qual o tipo de programa você gosta ou vê na televisão? 20- Que tipo de música você gosta de ouvir? Por quê? 21-Existe algum artista que você se identifica? Por quê? 22- Você acha que você mudou muito fisicamente de quando era criança? 23-Qual a parte do seu corpo que mais gosta? 24-Qual a parte do seu corpo que menos gosta? 25- Você acha importante se arrumar? 71 APÊNDICE B CADERNO DE BORDO O CADERNO DE BORDO, como caracterizei este procedimento, consta de perguntas respondidas em punho por cada participante, dentro do primeiro caderno realizado pelas mesmas. As 5 primeiras questões foram feitas logo na aula inaugural, para identificar como concebiam o caderno. Foram acompanhadas por desenhos realizados pelas adolescentes: 12345- O que é um caderno? Do que é feito? Para que serve? Onde é usado? Qual a diferença entre o caderno e o livro? A sexta questão, era respondida ao término de cada oficina, objetivando capturar a experiência, “ainda vívida”, com a sua amplitude concreta, nos detalhes do fazer e sob os aspectos subjetivos: 6- Como foi para você fazer a encadernação? - Fazendo-as rememorar cada etapa cumprida na aula Estas perguntas (questões de 7 a 13) foram realizadas no nosso penúltimo encontro, com quase todos os cadernos já confeccionados. O objetivo foi tentar encontrar mudanças após o processo de aprendizagem com a encadernação artesanal 7- O que é a encadernação artesanal? 8- Como foram para você as oficinas como um todo? 9- O que você mais gostou? 10- Do que você não gostou? 11- O que mudou para você, sobre o caderno, após fazer as oficinas? 12- Escolha uma cor e uma palavra para representar como foram os nossos encontros 13- Como você se sentiu participando das aulas? 72 ANEXO 1 73