CELEBRIDADES: COADJUVANTES NO PROCESSO DE CRIAÇÃO DE
ESTEREÓTIPOS E DE IDENTIDADES DE GÊNERO
CELEBRITIES: SUPPORTING ROLES IN THE CREATING PROCESS OF
STEREOTYPES AND GENDER IDENTITIES
Lilia Baranski Feres
Mestranda em Letras – Uniritter/FAPERGS
RESUMO: A mídia desempenha um papel muito significante no mundo moderno, através da
transmissão de informação, do fornecimento de entretenimento e da introdução de valores a vastas
audiências. O perigo reside nos estereótipos que se encontram integrados às mensagens veiculadas.
Essas transmissões ocorrem de forma frenética por meio da imprensa, da televisão, do rádio, de livros
e da internet. Esta última apresenta-se como o meio com maior desenvolvimento. Entretanto, a
televisão também representa um amplo campo de influência. Ao somar uma celebridade com enorme
projeção na emissora nacional de maior audiência com a internet, temos, como resultado da equação,
alcance e poder (da informação divulgada) amplificados. Através da criação de certos tipos de
mensagens, a mídia é capaz de manipular as ações e opiniões das pessoas. Por esses motivos, é
extremamente necessário refletir sobre o teor das informações transmitidas e suas implicações. O
objetivo deste trabalho é discutir as representações de identidades sociais de gênero na mídia. De
modo mais específico, este artigo tratará, dentro da perspectiva da mulher, os estereótipos e os papéis
sociais atribuídos a ela. As reflexões são motivadas por um ensaio fotográfico com a atriz da Rede
Globo Giovanna Antonelli, intitulado Uma Rosa sem Espinhos. No ensaio fotográfico em questão, a
atriz aparece realizando tarefas domésticas em trajes sociais, ou seja, com vestimentas não condizentes
com as tarefas em execução nas fotos. A montagem do ensaio remete ao papel da mídia como criadora
e perpetuadora de construtos sociais que se refletem na organização da sociedade e nas formas de
pensar sobre os gêneros. Da mesma forma, Giovanna Antonelli atua de modo infeliz como reforçadora
de estereótipos relacionados à mulher. A atriz contribui para que a mulher continue a ser representada
como objeto sexual. A imagem da mulher não apenas mostra-se inválida, como também explicita um
grande desrespeito à sua essência.
PALAVRAS-CHAVE: Mulher. Mídia. Estereótipo.
ABSTRACT: Media plays a significant role in modern world, by transmitting information, providing
entertainment and introducing values to large audiences. The danger lies in stereotypes that go within
the messages conveyed. These transmissions happen frenetically through press, television, radio,
books and the internet. The latter constitutes the means with the largest development. However,
television also shows as a large field of influence. By adding a celebrity with great projection on the
national broadcaster that has the largest audience to the internet, we have, as a result to this equation,
amplified reaching and power (of the information broadcasted). Through the creation of certain types
of messages, media is able to manipulate peoples’ actions and opinions. For these reasons, it is
extremely necessary to reflect upon the contents of the information being transmitted and their
implications. The purpose of this paper is to discuss the social gender roles representations in the
media. More specifically, this article addresses, within the perspective of women, stereotypes and the
social roles assigned to them. The reflections emerged from a photo session with Rede Globo actress
Giovanna Antonelli, entitled Uma Rosa sem Espinhos (A Rose without Thorns). In this photo shoot
the actress shows performing household chores in social outfits, i.e., wearing clothes that are
inconsistent with the tasks being performed. The way the photo session was composed points to the
role media plays as creator and sustainer of social constructs that reflects on the society organization
and on the possible ways to think about the genders. Similarly, Giovanna Antonelli unfortunately acts
reinforcing stereotypes related to women. The actress plays a part in strengthening the image of
women as sexual object. The representation of women not only proves to be invalid, but also makes
explicit the disrespect to her essence.
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KEYWORDS: Woman. Media. Stereotype.
1. Introdução
Imagens estão presentes ao nosso redor, não importa onde estejamos. Nosso cérebro
consome e registra essas imagens de forma passiva. Quer queiramos ou não ver essas
imagens, nosso inconsciente as utiliza para construir nosso comportamento social. Não
somente essas imagens mediadas penetram nossas mentes, mas também moldam e recriam o
mundo em que vivemos e a forma como o enxergamos. Elas criam fronteiras, esferas públicas
e privadas e definem a “norma” social sob a qual tentamos viver.
A mídia desempenha um papel crucial no mundo moderno disseminando informação
rapidamente e oferecendo entretenimento a vastas audiências. Essa mídia está presente na
imprensa, na televisão, no rádio, nos livros e na internet. Ao criar certos tipos de mensagens, a
mídia é capaz de manipular as opiniões e as atitudes das pessoas, ou seja, “a mídia não só
incorpora elementos da realidade, mas também modula, redimensiona e recria esse real,
podendo reforçá-lo ou não” (PIRES e FERRAZ, 2008, p.33). Sendo de grande alcance e
relevante importância no meio social, as mídias de massa, classificadas como meios ou
veículos de comunicação, às quais grande parte da população contemporânea tem acesso,
alcançaram o status de instituição cultural (KNOLL, 2007). As mídias de massa deixaram de
ser apenas uma ferramenta que facilita o consumo de informações e entretenimento. As
mídias passaram, elas próprias, a ser um produto, um produto altamente cobiçado. Dessa
forma, a mídia se apresenta não apenas como “difusora em massa de bens e produtos
culturais, meio ou ‘local’ para práticas sociais que caracterizam a cultura” (KNOLL, 2007,
p.65), mas também como objeto de consumo.
Na sociedade contemporânea em que vivemos, onde mídia e consumo ditam as regras,
o indivíduo “tem sido cada vez mais vinculado à produção de uma imagem e a aparência tem
sido amplamente valorizada” (GHILARDI-LUCENA, 2008, p.13). Uma determinada
aparência, uma expressão específica de nossa própria imagem é capaz de fornecer
informações acerca dos grupos aos quais o indivíduo se vincula, o que confere maior ou
menor status a ele dentro da dinâmica social. O que a mídia veicula, entretanto, está
primordialmente calcado em estereótipos, isto é, “representação imaginária [...] decorrente de
generalizações, que consistem nas associações de comportamentos, características, valores,
enfim, significados que uma ou algumas pessoas possuem, a todo um grupo ou categoria
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social” (KNOLL, 2007, p. 66). Embora se baseiem em fatos ou em sensos de verdade, os
estereótipos fornecem generalizações teóricas. Oferecem teorias sobre certos objetos,
situações e pessoas em geral. Os estereótipos são criados quando o conhecimento é
insuficiente ou inalcançável e é, por sua vez, substituído pela implementação de pensamentos
e opiniões. Isso tende a levar a um julgamento errôneo e a uma discriminação injusta sobre
certas pessoas e situações. Os estereótipos não só afetam opiniões e pensamentos como
também interferem no comportamento. É possível encontrá-los em todos os lugares e apesar
de serem, variadas vezes, retratados inocentemente, eles afetam e impactam a mentalidade de
muitas pessoas. Nesse sentido, a mídia passa a ser uma peça importante para que os padrões
de beleza, de comportamento e até mesmo de ideias, “que determinam o modo como os
gêneros feminino e masculino são vistos pelos indivíduos” (GHILARDI-LUCENA, 2008,
p.17), sejam produzidos e circulem.
A sociedade frequentemente perpetua e cria estereótipos. Os veículos de comunicação
são, por sua vez, vias de mão dupla. Podem colaborar para que surjam diferentes formas de
ver e pensar as coisas “ao colocar à disposição um rol de exemplos e modelos de
comportamento e de atitudes aos quais as pessoas poderão se identificar” (GHILARDILUCENA, 2008, p.17). Mas também podem contribuir para a perpetuação das desigualdades
entre os gêneros, dos estereótipos e das ideologias sexistas. A mídia é capaz de propagar e
promover uma imagem construída de representação de gênero. Embora já se tenha avançado
bastante para romper com as tantas convenções socialmente construídas, as formas de
identidade “ainda são relativamente fixas e há papéis bem definidos de mãe, filho, homem,
mulher etc.” (GHILARDI-LUCENA, 2008, p.13). Os estereótipos de mulher incluem a
supermãe, a gatinha sexy e a malvada alpinista corporativa. Uma imagem típica de uma
mulher veiculada pela mídia segue determinadas características: branca, magra e com uma
aparência sempre boa, mesmo que ela tenha acabado de salvar o mundo. As representações
midiáticas da mulher tendem a aderir a estereótipos culturais sobre os papéis dos sexos. Por
exemplo, se uma mulher é retratada como forte, independente, com segurança financeira e
com uma posição autoritária estável no trabalho, essa representação é normalmente
prejudicada pelo fato de ela estar solitária e à procura de um relacionamento heterossexual. A
forma como meninas e mulheres são retratadas está sujeita a estereótipos tradicionais que
perduram geração após geração e que provavelmente continuarão a perdurar enquanto
vivermos em uma sociedade patriarcal. É importante ressaltar que, “à medida que associam
significados, imagens, características, condutas e estilos de vida a um ou outro gênero, as
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representações midiáticas configuram identidades e relações de poder existentes na
sociedade” (KNOLL, 2007, p. 64).
Tendo a internet como protagonista, as últimas décadas testemunharam um
crescimento exponencial na produção e no consumo de celebridades (e de assuntos que se
relacionam a elas). Como resultado disso, também surgiram maiores interesses e
preocupações com seu potencial impacto e efeito na sociedade, visto que a maior parte dos
famosos é considerada ícone de beleza e/ou comportamento. O modo como essas pessoas são
retratadas pela mídia “reflete práticas e significados sociais que produzem fantasias, desejos,
formas de pensar e perceber” (ADELMAN, 2005, p. 231, 232). A mídia está sempre
disponibilizando, das mais diversas formas, representações de gênero. As imagens, por
exemplo, são acompanhadas de uma carga simbólica. Papéis de gênero são predominantes na
mídia. A mulher é frequentemente retratada como carinhosa, gentil, cooperativa, preocupada
com a aparência e sensível aos outros. O homem, por outro lado, é visto como lógico,
competitivo, independente, assertivo, provedor financeiro, habilidoso para os negócios e
dominante em relação à mulher. As imagens veiculadas sobre os gêneros são extremamente
poderosas. Relações entre a pessoa que vê a imagem e a imagem são instauradas. As
“imagens produzem sentido tanto quanto as palavras” (KNOLL, 2007, p. 67). A mídia, por
sua vez, tem grande parcela de responsabilidade sobre quais sentidos estão sendo produzidos
e como eles funcionam no seio da sociedade.
No que se refere à diferença sexual, ela aparece, na maior parte das vezes, embasada
na “‘natureza’ das funções de pertencimento a um determinado sexo, marcando posições que
dotam de significados as ações dos sujeitos” (BELELI, 2003, p.179). A mulher tende a ser
representada de forma mais negativa do que o homem. Enquanto o homem é visto como
trabalhador, divertido, diretivo e fisicamente agressivo, a mulher é apresentada como afável,
calorosa, submissa, passiva e fraca. A mulher é com frequência retratada pela mídia como um
objeto sexual. Nos videogames, a mulher é altamente sexualizada, apresentando seios fartos,
sendo atraente e raramente sendo uma personagem principal. Em comparação com o homem,
a mulher normalmente apresenta-se vestida de modo provocativo e muita ênfase é dada à
aparência. As adolescentes retratadas na televisão muitas vezes demonstram passividade,
obsessão por assuntos superficiais como compras, aparência e relacionamentos e uma
tendência a excluir as pessoas preocupadas com assuntos mais sérios como escola e carreira.
O status ocupacional entre homens e mulheres na mídia é visivelmente desigual. Não somente
o homem é apresentado com maiores salários e com cargos de maior prestígio em relação à
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mulher, como também são retradados em situações de maior status social. A mulher é
frequentemente retratada em situações familiares enquanto o homem é retratado em situações
de trabalho. É preciso que se questione as ideias e símbolos, embasados na diferença sexual,
que estão sendo apresentadas. É necessário refletir sobre os sentidos creditados às diferenças
sexuais, pois “alguns símbolos evocados, particularmente os que se referem à diferença
sexual, permanecem como constituidores de identidade” (BELELI, 2003, p. 184). Pensandose em particular na forma como a mulher é normalmente retratada, é possível perceber que há
uma “reprodução de comportamentos estereotipados e de alguns códigos e convenções
comuns para a representação da feminilidade” (ADELMAN, 2005, p. 234), embora se
constate “mulheres ainda lutando no dia-a-dia contra as estruturas de uma sociedade
patriarcal” (ADELMAN, 2005, p. 234).
A popularidade de formatos televisivos, tais como reality shows, game shows e,
principalmente, novelas, oferece oportunidades para que as pessoas sejam levadas pela mídia,
que tem um papel muito importante de influenciar as gerações mais novas. Mensagens
consistentes transmitidas pela televisão, por exemplo, não apenas reforçam crenças existentes,
mas podem gerar novas atitudes e uma resistência à informação contrária. Assim, maior
exposição acarreta maior verossimilhança dos julgamentos e atitudes cultivados pela
televisão. Papéis de gênero estereotipados podem guiar e moldar o comportamento afetando a
percepção que o público tem do mundo real. A adolescência, por exemplo, constitui um
período crítico do desenvolvimento no qual o sujeito muda fisicamente e também
socialmente, experimentando uma transição entre papéis. O público jovem, que se expõe com
frequência à televisão, ao rádio, à internet, encontra-se em uma situação de vulnerabilidade,
sendo fortemente influenciado pelo conteúdo veiculado e pela forma como o conteúdo é
apresentado. Tudo isso contribui para a criação de uma cultura de celebridades dos dias de
hoje, que, ou não se preocupa muito com o modo como os gêneros são retratados, ou
compactua para que estes não mudem. As imagens que a mídia promove podem ser tanto
inspiradoras quanto perturbadoras, tudo depende do fato de elas serem ou não um ideal
almejado possível de ser alcançado. Com o intuito de colaborar com as discussões acerca dos
assuntos anteriormente citados, trago neste trabalho uma reflexão sobre as representações e as
identidades sociais da mulher. Tais reflexões surgiram de um ensaio fotográfico com a atriz
da Rede Globo Giovanna Antonelli. O ensaio em questão intitula-se Uma Rosa sem Espinhos.
Pensar sobre o modo como a atriz aqui em foco foi fotografada (cenário, vestimenta, ações)
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pode nos dar pistas sobre os modos de pensar a mulher nos dias de hoje e sobre os sentidos
que a mídia ajuda a construir e a propagar na sociedade.
2. Objetivo
Refletir sobre as representações de identidades sociais de gênero implícitas em quatro
fotos pertencentes a um ensaio fotográfico da atriz da Rede Globo Giovanna Antonelli,
intitulado Uma Rosa sem Espinhos. O conjunto de fotos foi veiculado em alguns sites de
notícias (Veja, Uol Noticias, MSN, EGO, Yahoo) no dia 05 de junho de 2014.
3. Metodologia
Em um primeiro momento, o trabalho consiste em uma pesquisa bibliográfica seguida
da leitura de textos que abordam assuntos relacionados aos seguintes tópicos: gênero,
identidade, discurso e outros assuntos afins. Em um momento posterior, o trabalho parte para
uma análise cuidadosa do ensaio fotográfico à luz dos conceitos de estereótipo, identidade
social de gênero e representação da mulher.
4. Resultados e Discussão
Na primeira foto, a atriz aparece de quatro no chão lavando e esfregando um tapete. A
posição na qual a atriz foi fotografada deixa patente a representação da mulher como
submissa, além de mostrá-la como alguém sexualmente receptivo. O contraste se dá pela
forma como a mulher está vestida: vestido social azul, sapatos de salto alto, brincos grandes,
cabelo arrumado em um penteado e maquiagem. A composição sugere que a atriz está prestes
a ir a uma festa ou que recém regressou de uma. Fazem parte do cenário os utensílios usados
para limpeza doméstica: um par de luvas de plástico amarelas, um pano de chão e uma escova
de limpeza. Fica evidente que o cenário retrata um ambiente doméstico. No caso da primeira
imagem, trata-se de uma sala de estar. Na segunda foto, Giovanna Antonelli foi clicada mais
de perto no mesmo ambiente doméstico (sala de estar) e encontra-se vestida com a mesma
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roupa da foto anterior. Entretanto, agora ela está com a mão direita (que veste a luva e segura
o pano de chão) na testa. O arranjo indica que Giovanna está enxugando as inevitáveis gotas
de suor provenientes da tarefa pesada que está sendo executada. Todavia, não é possível
enxergar uma única gota de suor brotando de seu rosto (ou de qualquer outra parte do corpo).
Na terceira foto, Giovanna Antonelli está no mesmo ambiente doméstico (sala de estar) das
fotografias anteriores. Diferentemente das imagens um e dois, a atriz não aparece com um
vestido. Dessa vez, ela veste-se do seguinte modo: saia reta, preta e justa, com altura um
pouco acima do joelho, camisa estampada de manga longa com um decote generoso que
revela grande parte de seu colo e que chega quase na altura do umbigo, grandes brincos
vermelhos de argola, um anel vistoso na mão esquerda, cabelo arrumado em um penteado e
maquiagem (tal qual as fotos já mencionadas). Neste clique, Giovanna está sentada, de pernas
cruzadas, em uma cadeira, de modo controladamente relaxado. Uma dos braços está
flexionado e apoiado na lateral da cadeira. O outro também está flexionado, mas repousa
sobre a cabeça. As unhas estão bem feitas e pintadas com esmalte vermelho. Ela aparenta
estar exausta por conta dos afazeres domésticos, visto que no segundo plano é possível ver um
balde cheio de espuma em cuja borda estão as luvas de limpeza. Entretanto, o esmalte de suas
unhas continua impecável. Além disso, novamente, não é possível enxergar suor ou fios de
cabelo fora do lugar. Um detalhe merece destaque: embora Giovanna ainda esteja na mesma
sala de estar das imagens um e dois e ainda pareça estar envolvida na tarefa de limpeza do
cômodo, ela trocou de roupa. Trocou uma composição elegante por outra composição
igualmente elegante. Teria ela sujado o vestido azul com algum produto de limpeza, suor ou
sujeira? Ou apenas se cansado de fazer faxina com um vestido justo e ter optado por algo mais
“confortável”? Tal qual na imagem um, a atriz é registrada em uma posição que suscita
sensualidade e submissão, visto que o modo como ela dispõe os braços não parece oferecer
resistência. Na quarta e última imagem, a atriz não se encontra mais na sala de estar. Neste
caso, Giovanna parece estar no quintal ou no pátio da casa, tendo em vista que está rodeada
por plantas. Ela está podando uma delas com um alicate de jardinagem. Novamente, ela está
elegantemente vestida. Ela usa um vestido (ou blusa, pois como a foto foi tirada da cintura
para cima, não é possível dizer de se trata realmente de um vestido) vermelho com pedras
bordadas, brinco brilhante, algumas pulseiras grossas no pulso direito, unhas pintadas de
vermelho, cabelo arrumado em um penteado e maquiagem (como nas demais fotografias).
Mais uma vez, não se consegue enxergar nenhum sinal de cansaço ou desalinho em sua
aparência, mesmo depois de executar tantas tarefas domésticas que, como é sabido, não são
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fáceis e demandam energia e esforço. Entretanto, Giovanna Antonelli faz esses afazeres
parecerem mais simples, menos cansativos e possíveis de serem realizados de um jeito muito
mais sofisticado e sensual.
Figura 1 – Ensaio Fotográfico
Figura 2 – Ensaio Fotográfico
Fonte: Portal VEJA, junho/2014
Fonte: Portal VEJA, junho/2014
Figura 3 – Ensaio Fotográfico
Figura 4 – Ensaio Fotográfico
Fonte: Portal VEJA, junho/2014
Fonte: Portal VEJA, junho/2014
O conjunto de fotos, como qualquer outro, produz subjetividades e suscita
identificações. As imagens aqui em questão carregam uma mensagem muito importante e
preocupante. Levando-se em consideração a forma como a atriz foi fotografada (composição
de cenário, roupa, aparência da modelo e atividade exercida), o ensaio fotográfico não rompe
com convenções de representação, não contribui para uma resignificação da mulher, não
representa modos de desestabilização das formas instituídas de representar as identidades de
gênero e os estereótipos. Pelo contrário, as fotografias operam como reforçadoras da imagem
da mulher como aquela responsável pela limpeza do lar, aquela que precisa estar bem vestida
(seja qual for a ocasião), aquela que tem que ser magra, aquela que é dominada, submissa e
que é objeto sexual. As fotos, de maneira bastante infeliz, compactuam com conceitos
ultrapassados e machistas contra os quais se tem lutado tanto.
Observa-se, claramente, o papel da comunicação midiática na produção e na
manutenção das identidades de gênero. No caso da representação da mulher, tópico aqui em
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foco, “a feminilidade surge associada àquelas características que implicam subordinação”
(DUTRA, 2003, p.146), aspecto que fica evidente na primeira foto, onde a atriz é clicada de
quatro no chão limpando o tapete. Esta posição revela a “necessidade masculina de dominar
as mulheres” (SCOTT, 1995, p.77). As fotos, em sua linguagem imagética, reforçam os
papéis socialmente construídos e atribuídos às mulheres. Desde muito cedo somos instruídos
a aprender os papéis a serem desempenhados por nós. Aprendemos “o que é considerado
adequado (e inadequado) para um homem ou para uma mulher numa determinada sociedade,
e a responder a essas expectativas” (LOURO, 2003, p. 24). Por essas razões, é imprescindível
que se preste mais atenção às mensagens veiculadas pela mídia, principalmente quando elas
são consumidas pelas gerações mais jovens, que são os públicos que estão construindo seus
valores, seus conceitos, seus ideais. De forma precoce,
As crianças apresentam concepções naturalizadas socialmente acerca do papel
institucional de homens e mulheres: à mulher é designada a função de cuidar da
casa, dos filhos, ou seja, atividades relacionadas às tarefas domésticas, enquanto que
ao homem cabe a responsabilidade de ter um emprego, uma vez que ele é
responsável pelo sustento da casa e da família. (DUTRA, 2003, p.146)
Através da análise das fotos é possível perceber que, embora exista uma maior
preocupação e reflexão acerca das questões relacionadas à mulher, ainda persiste uma
“representação da mulher como espetáculo – corpo para ser olhado, lugar da sexualidade, e
objeto de desejo – tão disseminado na nossa cultura” (ADELMAN, 2005, p. 223). As quatro
imagens de Giovanna Antonelli enfatizam essa representação da mulher como objeto sexual,
fato que se mostra patente pela forma como a atriz sempre aparece sensualmente vestida e
posicionada. Essa ideia de objeto sexual é notória na foto três, haja vista que a modelo usa
uma blusa profundamente decotada que, na parte frontal, cobre praticamente apenas os braços
e os seios. O modo como ela está posicionada na cadeira, de modo relaxado, com os braços
descruzados (braços cruzados poderiam sugerir uma atitude defensiva), estando um deles
acima da cabeça e o outro próximo ao rosto, suscita uma conduta de rendição, de submissão.
Sobre essa representação da mulher como alguém desautorizado, Pires (2005) afirma que “a
discriminação sexual se dá por meio de uma violência simbólica que silencia a voz das
mulheres” (p.4). O ensaio fotográfico da atriz Global reitera a afonia da mulher no âmbito das
relações de poder entre os sexos. Em mais uma situação é possível observar que “o gênero é
uma forma primária de dar significação às relações de poder” (SCOTT, 1995, p.88). As
desigualdades entre os corpos, associadas ao sexo, são frequentemente requisitadas a dar
testemunho sobre as relações sociais e as realidades que não condizem com a sexualidade.
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Como os estereótipos são tomados como verdade, “qualquer diferença física assume um
caráter universal e imutável” (SCOTT, 1995, p.78).
É relevante ressaltar que “os paradigmas culturais de gênero são referenciais de
diferenças que estruturam toda a vida dos indivíduos, determinando seus discursos e suas
condutas” (PIRES, 2005, p.3). Ademais, não podemos ignorar o fato de que as imagens são
muito traiçoeiras. São traiçoeiras pois não têm a capacidade de nos transmitir a total dimensão
da realidade. Sobre isso, Perrot explica que “a imagem é, antes de mais nada, uma tirania,
porque a põe em confronto com um ideal físico ou indumentário” (PERROT, 2007, p. 25). De
acordo com a autora, é preciso “abandonar a ideia de que a imagem nos traz um painel da vida
das mulheres” (PERROT, 2007, p. 25). Podemos dizer que as imagens de Giovanna Antonelli
representam uma tirania. O conjunto de fotos é traiçoeiro, brinca com o imaginário de homens
e mulheres. A atriz encarna o papel (designado à mulher) de objeto sexual e submisso
desejado pelo homem. Da mesma forma, ela personifica o ideal de mulher que deve ser
alcançado para se ter sucesso no âmbito da família, do trabalho e dos relacionamentos. Nas
imagens, conseguimos ver que “há uma produção da mulher para o consumo de um público
masculino e feminino” (ADELMAN, 2005, p.226), já que o sexo feminino também se
configura como consumidor dos mitos patriarcais sobre a mulher. O ensaio suscita um embate
entre o que é considerado ideal para uma esposa/dona-de-casa em termos de aparência e
comportamento e o que é a realidade, já que nem todas as esposas/donas-de-casa executam as
tarefas domésticas sugeridas nas fotos, tampouco as executam vestidas como ela ou
compartilham do padrão de beleza da atriz. O modo como Giovanna propaga representações
da mulher em seu ensaio fotográfico evidencia “a produção de tipologias de mulheres e
homens caracterizadas por um maquineísmo baseado em noções – sejam óbvias ou sutis – de
comportamentos, certos ou adequados para cada gênero, frequentemente atrelados também a
padrões corporais” (ADELMAN, 2005, p.229,230).
O elemento em destaque neste trabalho é a representação imagética da mulher.
Entretanto, não há como deixar escapar a representação verbal que também faz parte do
conjunto de fotos – seu título. Pelo fato de que tanto imagens quanto palavras são
responsáveis pela produção de sentidos, faz-se necessário reservar um pouco de atenção para
o aspecto verbal do grupo de imagens. O ensaio fotográfico intitula-se Uma Rosa sem
Espinhos. Seria a atriz a rosa? Caso seja ela a rosa, por que seria sem espinhos, se toda rosa os
tem? Uma mulher comum, que limpa sua casa com roupas “de limpeza”, que tem o esmalte
das unhas descascado por causa dos produtos pesados de higiene, que fica com o cabelo
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desalinhado, que não usa maquiagem, decotes ou joias seria uma rosa com espinhos? E por
qual razão a imagem da mulher está frequentemente vinculada com a rosa? Seria justamente
por causa de seus inevitáveis espinhos? Tanto as imagens da atriz quando as palavras que as
nomeiam revelam muito sobre as mensagens ali embutidas. Fica patente que
O funcionamento da ideologia na linguagem tem como principal objetivo tornar
naturalizado para os participantes o que, na verdade, é de interesse de um grupo
social, ou seja, a ideologia leva para o terreno do senso comum representações sobre
o mundo que manifestam o interesse de um determinado grupo ou classe social,
como se fosse neutro, universal ou de interesse de todos. (PIRES e FERRAZ, 2008,
p.32)
Vemos Giovanna Antonelli disseminando uma imagem feminina “associada aos
estereótipos de boa mãe-esposa-dona-de-casa” (PIRES, 2005, p. 3). Vemos a artista retratar “a
experiência vivenciada nas relações sociais, respaldada pelos discursos do cotidiano,
apontando para um imaginário coletivo medíocre que aprisiona as mulheres a papéis
tradicionais” (PIRES, 2005, p. 9). Papéis esses que se constituem como “padrões ou regras
arbitrárias que uma sociedade estabelece para seus membros e que definem seus
comportamentos, suas roupas, seus modos de se relacionar ou de se portar” (LOURO, 1997,
p.24). O ensaio da atriz Global atua como ferramenta reforçadora de comportamentos, de
vestimenta, de valores e de relações de poder entre os gêneros a serem adotados pelos
membros da sociedade. O conjunto de fotos não explora apenas o senso comum de que quem
faz a limpeza da casa é a mulher, mas também a cobrança imposta a ela em relação a sua
aparência. É preciso ser mãe, dona-de-casa, esposa. É preciso ser bonita, elegante, magra. É
preciso executar todas as tarefas sensualmente. É preciso mostrar-se desejável. É preciso
também ser submissa e se deixar dominar por aquele que tem o poder físico e monetário – o
homem.
As imagens são mais um exemplo da forma como o corpo feminino se configura em
“objeto de espetáculo, sem nunca dissociar-se de noções de comportamento apropriadamente
‘feminino’ e do desejo sexual masculino” (ADELMAN, 2005, p. 226). A artista incorpora
tudo aquilo que é socialmente imposto à mulher, ou seja,
A mulher objetificada, que existe para o olhar e o ‘consumo masculino’. A
construção de uma imagem de ‘mulher sexualmente desejável’, que, além de ser
identificada como ‘aquilo que todos os homens devem aspirar a possuir’, pode ser
incorporada pelas mulheres como aquilo que elas devem ser ou se tornar para poder
obter alguma valorização social. (ADELMAN, 2005, p. 229)
O ensaio fotográfico explicita convenções sociais, tais como: os pais trabalharem e as
mulheres executarem a maioria das tarefas de criação dos filhos e dos cuidados com o lar. O
conjunto de imagens aqui abordado, associado ao elemento verbal de seu título, explicita o
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fato de que “discursos e imagens cobrem as mulheres com uma vasta e espessa capa”
(PERROT, 2007, p.25). Essa capa encobre as concepções opressivas, estereotipadas e
retrógradas associadas à mulher. Da igual forma, essa capa busca silenciar a voz da mulher e
abortar as investidas contra o machismo, os estereótipos e a imposição de normas. Os
construtos socialmente estabelecidos estruturam o modo como as famílias são organizadas.
(SCOTT, 1995). Os arranjos sociais constituem sistemas de significados. Devemos estar
atentos “aos modos pelos quais as sociedades representam o gênero, servem-se dele para
articular as regras de relações sociais ou para construir o significado da experiência” (SCOTT,
1995, p. 82). Devemos estar atentos às concepções naturalizadas socialmente acerca dos
papéis institucionais de mulheres e homens.
5. Considerações Finais
Frequentemente, os estereótipos de gênero são utilizados como artifício cômico, mas
mesmo assim, o uso repetido dessas retratações apenas continua a reforçar os papéis de
gênero existentes ao invés de serem tentativas de distanciamento das expectativas sociais. As
pessoas, sejam elas novas ou velhas, estão sujeitas às mensagens implícitas (ou explícitas) da
dominância do homem e da submissão da mulher. Quando o comportamento das pessoas não
condiz com as representações estereotipadas, os indivíduos podem sofrer represálias,
desenvolver baixa-estima ou sentirem-se rejeitados, marginalizados. No momento em que os
estereótipos de gêneros são reconhecidos na mídia, a sociedade pode começar a invalidar
comportamentos estereotipados e a incentivar a individualidade e a aceitação.
Os estereótipos de gênero implícitos nas fotografias de Giovanna Antonelli coincidem
com as expectativas da sociedade. Estão presentes nas imagens as noções de mulher como a
pessoa responsável pelos cuidados com o lar, submissa ao homem, preocupada com a
aparência e objeto de desejo do homem; e as noções de homem como a pessoa responsável
por sustentar o lar, que trabalha fora de casa e que espera, ao retornar do trabalho, encontrar
em casa uma mulher desejável e um lar impecável. As informações veiculadas pela mídia
causam efeitos nas diferentes faixas de idade. No caso dos mais jovens, tais efeitos
desempenham um papel crucial na autoestima, na expressão emocional, na escolha de carreira
e na autoaceitação. Os estereótipos existem como generalizações dentro de uma cultura, quer
eles tenham surgido primeiramente na mídia ou na sociedade. Estas generalizações podem
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não ser completamente verdadeiras, mas quando estereótipos permanecem definindo os
gêneros fica mais difícil combatê-los e redefinir o que significa ser um homem ou uma
mulher.
Muito mais do que estarmos atentos aos significados construídos pela sociedade, que
acabam sendo os balizadores das relações entre as pessoas, é mandatório que se contribua
para as quebras de paradigmas. As imagens apresentadas neste trabalho apontam para ideais
estereotipados para a mulher. Neste ensaio fotográfico, a feminilidade emerge associada a
uma preocupação excessiva com a aparência, dedicação exclusiva ao lar e a determinados
padrões de beleza.
Ideologias baseadas em estereótipos, nas diferenças entre os corpos, relacionadas ao
sexo, precisam deixar de ter um caráter universal e imutável. O gênero não pode ser uma
forma basilar de significação das relações de poder. Apenas com mente, olhar e ouvidos
críticos é possível propor uma total revisão das convenções vigentes e vislumbrar uma
convivência mais saudável com o que é classificado como diferente e com as expectativas
criadas para cada gênero.
Referências
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VEJA – Disponível em: <http://veja.abril.com.br/multimidia/galeria-fotos/giovanna-antonelliencarna-gata-borralheira-sexy-em-ensaio-2014> Acesso em 06 de junho de 2014.
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celebridades: coadjuvantes no processo de criação de estereótipos