PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Luciana Leite Mesquita Trindade Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres MESTRADO EM FONOAUDIOLOGIA SÃO PAULO 2008 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Luciana Leite Mesquita Trindade Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres MESTRADO EM FONOAUDIOLOGIA Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Fonoaudiologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação da Profa. Dra. Léslie Piccolotto Ferreira SÃO PAULO 2008 TRINDADE, Luciana Leite Mesquita Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres / Luciana Leite Mesquita Trindade – São Paulo, 2008. Viii, 109 f. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia. Título em inglês: Assessment of the effect of a phonoaudiological intervention program on reporters oral expressvity 1. Voz 2. Comunicação 3. Jornalismo Banca Examinadora _____________________________ _____________________________ _____________________________ iii Dedicatória deste documento, tanto na sua É expressamente proibida a comercialização Dedicatória forma impressa, como eletrônica. Sua reprodução total ou parcial é . permitida exclusivamente para fins acadêmicos e científicos, desde que na reprodução figure a identificação do autor, título, instituição e ano da tese/ dissertação. Dedicatória Aos meus amados avós Oneide Mesquita e Lydimar Duarte Mesquita e pais Antônio Matos Trindade Júnior e Rosa Helena Trindade, exemplo incondicional de amor, carinho e união. Pessoas preciosas na minha vida, meu porto seguro e minha fonte de incentivo para ultrapassar todos os obstáculos. Não existem palavras no mundo que possam expressar meu eterno agradecimento a vocês. Obrigada pelo apoio nos momentos em que precisei, pelas palavras sábias que me davam força para me reerguer e seguir em frente, por entenderem meus momentos de ausência, durante esta trajetória e por não medirem esforços para a realização de minha formação profissional. Sem vocês a meu lado tudo seria muito mais difícil. À vocês meu eterno amor e gratidão. iv Agradecimentos A Deus, por ter me dado forças para superar os momentos mais difíceis e fazer-me chegar até o fim. À Profa. Dra Léslie Piccolotto Ferreira, orientadora muito querida, brilhante profissional e ser humano maravilhoso. As palavras são poucas para expressar o meu eterno muito obrigada, pelos momentos prazerosos de orientação, pela convivência harmoniosa durante toda esta trajetória e pelo jeito atencioso, dócil e respeitoso com que trata seus orientandos. Obrigada por ter me carregado no colo desde o primeiro momento, por ter acreditado em mim e por nunca ter deixado de caminhar lado a lado comigo. À Profa. Dra Marta Assumpção de Andrada e Silva, por sua ajuda e contribuições essenciais para a finalização desta pesquisa. À Profa. Dra Leny Kyrillos, referência no trabalho com telejornalistas, exemplo de competência profissional a ser seguida. Obrigada pela acolhida, pelos momentos agradáveis e pelo aprendizado constante em suas aulas, por ter me auxiliado durante essa trajetória, sempre com um jeito muito carinhoso. Saiba que sou eternamente grata por tudo e que não existe recompensa maior para um pesquisador que o conhecimento adquirido. À Profa. Dra. Adriana Panico, brilhante profissional e ser humano que emana uma simpatia ímpar. Obrigada por ter se mostrado tão atenciosa desde o primeiro contato, pela aceitação em participar desta pesquisa, pela disponibilidade em ajudar sempre que solicitei, pelas contribuições e sugestões essenciais para a concretização deste sonho. Minha gratidão por você é enorme. Às Profas Dras Maria Laura Martz e Maria Aparecida Coelho, pelas excelentes contribuições e críticas sempre construtivas para um melhor resultado final. À direção da emissora de TV e aos repórteres, por terem me recebido com carinho e acreditado em minha pesquisa. Você foram essenciais para a realização deste trabalho. Aos telespectadores, que realizaram o julgamento das vozes,agradeço pela enorme colaboração. Às fonoaudiólogas juízas que disponibilizaram pacientemente seu tempo para avaliar as vozes. Obrigada pela atenção a mim dispensada. v Aos integrantes e amigos do Laborvox, pelas trocas de conhecimento e momentos alegres. Aos meus amigos e irmãos Paulo Marcelo Trindade e Maurício Trindade, pela amizade e companheirismo em todas as horas. Aos queridos amigos Sônia e Ênio, por não medirem esforços ao ler a dissertação sempre com um olhar diferenciado e críticas construtivas, e também pelos momentos alegres dentro do Laborvox. Aos meus tios, primos e amigos que, mesmo distantes fisicamente, se fizeram presentes. Obrigada for terem feito a minha caminhada mais amena. Às amigas Ana Carolina Almeida, Juliana Danin e Niele Medeiros, minha família de Sampa. Obrigada pela convivência super divertida, pelo apoio diário e por compartilharem comigo não só as alegrias, mas também os momentos de tristeza. Vocês, com certeza, souberam amenizar meus momentos de angústia, e me deram forças para chegar até o fim. À amiga e fonoaudióloga Juliana Azevedo, por me ajudar desde o começo desse trabalho, mostrando-se sempre muito solícita, mesmo com seus afazeres. A você Jú, meu eterno carinho. Ao estatístico e amigo João Ítalo, por entender no mais profundo sentido o verdadeiro significado da palavra amizade. Obrigada pela disponibilidade em todos os momentos. À Virginia, secretária da Pós em Fonoaudiologia, pela sua atenção e presteza sempre, com todos os alunos. À Capes, pela bolsa concedida. A todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste sonho. Meu eterno carinho! vi “Para realizar grandes conquistas, devemos não apenas agir, mas também sonhar; não apenas planejar, mas também acreditar” (Anatole France) vii Resumo Trindade LLM, Ferreira, LP. Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres. [Dissertação de Mestrado], São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. Introdução: Os repórteres são profissionais que utilizam a voz como instrumento de trabalho e têm como principal objetivo transmitir a notícia com credibilidade ao telespectador. Objetivo: Analisar o efeito de uma proposta de programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres, a partir do julgamento realizado por telespectadores e fonoaudiólogos. Método: Participaram do estudo 100 telespectadores e três fonoaudiólogos especialistas em voz e atuantes na área do telejornalismo que realizaram o julgamento perceptivo-auditivo das vozes de três repórteres que foram submetidos a um programa de intervenção fonoaudiológica. As amostras de fala para cada análise foram colhidas nos momentos pré e pósintervenção e editadas de forma aleatória, em quatro combinações para cada repórter, totalizando assim 12 combinações. Os dados foram submetidos à análise estatística, por meio dos testes Wilcoxon Rank Sum e Kruskal-Wallis Rank Sum, adotando nível de significância de 5%. Resultados: Observou-se diferença significante (p<0,0001) a favor dos acertos julgados pelos telespectadores na maioria das combinações dos repórteres; estes apontaram melhora na performance dos três repórteres no momento pós-intervenção (p<0,0001); o termo credibilidade foi o mais referido (66,9%) como sendo o fator responsável por essa melhora; não foi observada diferença estatisticamente significante (p=0,3108) em relação aos acertos segundo os grupos com e sem ocupação; o termo credibilidade foi o mais referido pelo grupos com (72,0%) e sem ocupação (61,0%); as fonoaudiólogas também perceberam diferença estatisticamente significante no relato das notícias de R1 (p=0,0457) e R3 (p=0,0457); estas julgaram melhor o momento pós-intervenção fonoaudiológica, sendo estatisticamente significante em R1(p=0,0098) e R3 (p=0,0184), e clareza foi o termo mais referido (72,7%) para evidenciar essa melhora. Conclusão: A partir dos resultados obtidos, pode-se concluir que o programa de intervenção fonoaudiológica, que contemplou predominantemente, o trabalho com parâmetros de expressividade oral, a partir de estratégias de autopercepção, gerou efeito positivo no relato das notícias dos três repórteres participantes. Esse foi percebido por telespectadores nos três repórteres e por fonoaudiólogas, em pelo menos dois. Os juízes apontaram para a melhora da credibilidade (telespectadores) e clareza (fonoaudiólogas), na transmissão da notícia. Descritores: voz, comunicação, jornalismo. viii Abstract Trindade LLM, Ferreira LP. Assessment of the effect of a phonoaudiological intervention program on reporters’ oral expressivity [Dissertation], São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. Introduction: Reporters are professionals who use their voice as tool to work and their main objective is to deliver the news in a credible way to viewers. Objective: To analyze the effect of a phonoaudiological intervention program in reporters’ oral expressivity based on an assessment made by viewers and speech therapists. Method: 100 viewers and three voicespecialized speech therapists who work in the TV journalism area participated in the study and conducted a perceptive-auditory assessment of three reporters’ voices who were submitted to a phonoaudiological intervention program. Speech samples for each analysis were collected before and after the intervention and randomly edited in four combinations for each reporter totaling 12 combinations of the three reporters. Data were submitted to statistical analysis by means of the Wilcoxon Rank Sum and kruskal-Wallis Rank Sum tests, 5% being the significance level adopted. Results: A significant difference (p<0,0001) was observed favoring correctness assessed by viewers in most of the reporters’ combinations; they pointed out improvements in the three reporters’ performance after the intervention (p<0,0001); the credibility item was the most mentioned (66.9%) as responsible for said improvement; no statistically significant difference was observed (p=0,3108) related to correctness according to the groups with and without occupation. Credibility was the most mentioned item by the groups with (72.0%) and without occupation (61.0%); speech therapists also perceived a statistically significant difference in the delivery of the news in R1 (p=0.0457) and R3 (p=0.0457); they though the moment after the phonoaudiological intervention was better and statistically significant in R1 (p=0.0098) and R3 (p=0.0184), and clarity was the preferred item (72.7%) to evidence said improvement. Conclusion: Based on the results, the phonoaudiological intervention program, which included predominantly working with oral expressivity parameters based news by the three reporters. That was perceived by viewers in the three as improvement in credibility (viewers) and in clarity (speech therapists) in the delivery of the news. Uniterms: voice, communication, journalism. ix ÍNDICE 1 INTRODUÇÃO 2 OBJETIVOS 3 REVISÃO DA LITERATURA 3.1- FONOAUDIOLOGIA E TELEJORNALISMO 3.2-INTERVENÇÕES FONOAUDIOLÓGICAS 4 MÉTODOS 4.1- SELEÇÃO DOS SUJEITOS 4.2- COLETA DE AMOSTRA DE FALA 4.3- EDIÇÃO DO MATERIAL 4.4- JULGAMENTO DO MATERIAL 4.4.1- Julgamento dos Telespectadores 4.4.2- Julgamento das Fonoaudiólogas 4.5- ANÁLISE DOS DADOS 4.6- INTERVENÇÃO FONOAUDIOLÓGICA 4.6.1- Caracterização da Empresa e dos sujeitos que participaram 4.6.2- Mapeamento do contexto ocupacional e das demandas 4.6.3- Descrição dos Encontros 5 RESULTADOS 6 DISCUSSÃO 7 CONCLUSÕES 8 REFERÊNCIAS 9 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA ANEXOS Anexo 1 - Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa Anexo 2 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido aos Telespectadores Anexo 3 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido aos Fonoaudiólogos Anexo 4 - Termo de Consentimento Livre Esclarecido aos Repórteres Anexo 5 - Protocolo de Avaliação dos Telespectadores Anexo 6 - Protocolo de Avaliação dos Fonoaudiólogos Anexo 7 - Protocolo de Avaliação Fonoaudiológica pré intervenção Anexo 8 - Avaliação do contexto ocupacional e das demandas Anexo 9 - Descrição dos Encontros de Intervenção Fonoaudiológica x 14 17 18 18 30 38 38 39 40 41 42 42 43 44 44 45 45 49 58 69 70 80 81 81 82 83 84 85 86 87 89 92 Lista de Figuras Figura 1: Apresentação cronológica dos procedimentos metodológicos desta pesquisa xi 48 Lista de Tabelas Tabela 1 Distribuição numérica e e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os acertos e erros realizados pelos telespectadores. 50 Tabela 2 Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica, julgada pelos telespectadores. 51 Tabela 3 Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes, em relação aos repórteres (R1, R2 e R3) julgados pelos telespectadores. 52 Tabela 4 Distribuição numérica e percentual dos acertos julgados pelos telespectadores, segundo as diversas combinações em relação aos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os grupos com e sem ocupação. 53 Tabela 5 Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), segundo o grupo com presença e ausência de ocupação. 54 Tabela 6 Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1,R2 e R3), considerando os acertos e erros realizado pelas fonoaudiólogas. 55 Tabela 7 Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica, julgado pelas fonoaudiólogas. 56 Tabela 8 Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes, em relação aos repórteres (R1, R2 e R3) julgados pelas fonoaudiólogas. 57 xii Lista de Quadros Descrição do primeiro encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 1 93 Descrição do segundo encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 2 100 Descrição do terceiro encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 3 102 Descrição do quarto encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 4 105 Descrição do quinto encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 5 107 Descrição do sexto encontro de intervenção fonoaudiológica Quadro 6 108 xiii 1 INTRODUÇÃO A cada dia que passa, cresce o número de profissionais da comunicação e o repórter está inserido nessa categoria. Ele necessita utilizar a voz falada em sua rotina de trabalho, como equipamento imprescindível para desenvolver sua carreira, pois para ele, falar bem é essencial, o que implica em se expressar com clareza para ser entendido pelo ouvinte (FRANÇA, 2003). A fala é um elemento importante na televisão, juntamente com a imagem (MACIEL, 1994), e é construída por elementos que na interação pessoal favorecem o estabelecimento das relações entre o que é dito, ou seja, o som e o que é entendido, o sentido (MADUREIRA, 2005). Dessa forma, toda fala é expressiva e no contexto de uso profissional, certas características são exigidas para um bom desempenho. Nesse meio, é desejável alcançar uma fala, que apesar de ser construída, transmita naturalidade ao ouvinte e o fonoaudiólogo, por trabalhar com a comunicação humana, está envolvido nesse processo. Ele tem auxiliado os profissionais de TV a desenvolverem recursos, que promovam um melhor desempenho vocal durante sua atuação, fato que facilita o relato da notícia de forma objetiva e precisa, e atende às exigências dos ouvintes. O repórter de TV geralmente realiza reportagens compostas de passagem, que é o momento em que o repórter aparece no vídeo no local da notícia, no qual pode falar seu texto no improviso, o off, que se refere ao momento em que o texto vai ao ar, previamente gravado ou ao vivo, que ocorre quando utiliza o fone de ouvido, por onde recebe informações quanto ao momento de entrar, além d sugestões de perguntas e comentários (KYRILLOS, 2004a). Nos últimos anos, pesquisadores têm direcionado atenção maior às questões de manutenção vocal (STIER 1997; COTES et al. 1999; MESQUITA et al. 2003, entre outros) dos profissionais da TV e a literatura, aos poucos, reflete um aumento gradual de estudos, que comprovam a efetividade de uma intervenção fonoaudiológica na qualidade de comunicação desses profissionais (BRANDALISE e GONÇALVES, 2005; STIER e FEIJÓ, 2005; VIEIRA, 2005; AZEVEDO, 2007, entre outros). A intervenção fonoaudiológica é extremamente importante, pois pode ajudar os profissionais da TV a potencializar os recursos que possui, minimizar suas dificuldades, ajudar na sua performance frente às câmeras e criar estratégias que propiciem uma melhor apresentação na televisão. No Programa de Estudos Pós Graduados em Fonoaudiologia no ano de 2007, AZEVEDO, analisou uma proposta de intervenção realizada com telejornalistas de uma emissora universitária. A atuação proposta ocorreu em quatro encontros, com a duração total de dez horas (150 minutos cada encontro). Como conclusão do estudo, a autora registrou que os dois principais aspectos positivos da intervenção, relatados pelos participantes, foram a auto-percepção e percepção de outros com relação aos aspectos trabalhados bem como o conhecimento de técnicas abordadas. Como aspecto negativo foi registrado o tempo reduzido da intervenção. O desafio de uma nova proposta de intervenção fonoaudiológica a ser realizada, no mesmo local, deveria, portanto, considerar esses dados. Os pontos positivos seriam contemplados com a utilização de audiovideo gravações como estratégia dos encontros, para servirem de material, que propiciassem aos participantes retorno dos aspectos trabalhados. O ponto negativo relacionado ao tempo seria mais difícil considerar, uma vez que na emissora selecionada, os participantes também acumulavam a função de estudantes. A solução, seria buscar um novo arranjo da carga horária, na tentativa de aumentar o número de encontros, com a redução de horas/dia, fato que poderia manter a eficácia da intervenção, sem interferir na rotina dos participantes. Quanto aos sujeitos, que seriam submetidos à nova proposta de intervenção fonoaudiológica, optou-se pelos repórteres e para analisar os efeitos da mesma, além do procedimento utilizado por AZEVEDO (2007), um grupo de telespectadores, e também de fonoaudiólogos seriam abordados. A escolha do primeiro se justificaria por ser o principal receptor de qualquer notícia veiculada na TV e o segundo, por sua formação técnica especializada. Ao final, a análise dos achados auxiliaria o fonoaudiólogo, que atua nessa área, a refletir sobre os aspectos inerentes à apresentação de uma intervenção. 2 OBJETIVO GERAL Analisar o efeito de uma proposta de programa de intervenção fonoaudiológica, na expressividade oral de repórteres, a partir do julgamento realizado por telespectadores e fonoaudiólogos. 3 REVISÃO DE LITERATURA Neste capítulo será apresentada revisão da literatura especializada dividida em duas partes: na primeira (A Fonoaudiologia e o Telejornalismo) serão abordadas pesquisas realizadas com profissionais da TV e estudantes do Curso de Jornalismo e, na segunda (Intervenções Fonoaudiológicas), as pesquisas com foco em intervenção realizadas com as mesmas categorias de profissionais. Optou-se, neste capítulo, em ambas as partes, seguir a cronologia das pesquisas. 3.1 A FONOAUDIOLOGIA E O TELEJORNALISMO Ao avaliar em 20 repórteres de televisão, os hábitos e cuidados vocais, tempo máximo de fonação, altura, registro vocal, intensidade, variação de intensidade, ressonância, padrão articulatório e velocidade de fala, STIER (1997) concluiu que as características do repórter de televisão são: apresentar auto-imagem vocal positiva; não praticar o aquecimento vocal; mudar a voz com o desenvolvimento da profissão, estabelecer diferenças entre a voz pessoal e profissional, apresentar a voz mais grave no off, com o registro vocal modal, padrão articulatório indiferenciado; intensidade vocal adequada, com tendência a aumentar na situação de passagem; modulação de intensidade caracterizada pelo padrão repetitivo no off e velocidade com tendência a aumentar na passagem. Com o objetivo de entender como as vozes dos profissionais que atuam na televisão chegam ao telespectador, BERTOSSI (1999), desenvolveu um estudo com 200 sujeitos, de ambos os sexos, na faixa etária entre 16 a 40 anos, os quais teriam que classificar as vozes da televisão, que na opinião deles, chamavam mais atenção. Os dados foram coletados por meio de ficha com perguntas fechadas (idade, profissão, escolaridade, hábito de assistir frequentemente televisão- sim /não, os programas a que geralmente assistiam - documentais, telenovelas, telejornais, seriados, entre outros) e abertas (quais personagens da televisão chamam mais atenção por sua voz) e, baseado na pergunta acima, por que essas vozes chamavam a sua atenção. A autora concluiu que havia a preferência da amostra por vozes masculinas, com características positivas (agradável, charmosa, suave, bonita, entre outras) da categoria informativa do gênero telejornal. Ao analisar 40 repórteres, COTES et al. (1999) concluíram que eles têm um bom nível de conhecimento a respeito do uso da voz, como instrumento de trabalho e dos cuidados básicos que devem ter para com ela. Demonstraram conhecimento técnico de sua própria voz e do seu uso como instrumento de interpretação da notícia. GUARINES (1999) mostrou em sua pesquisa que os fonoaudiólogos devem focalizar seu trabalho para a extensão da palavra falada e não apenas ao estudo e desempenho da voz dos profissionais de TV. Para isso, foram analisadas avaliações fonoaudiológicas e perceptivoauditivas de 148 profissionais da voz (repórteres e apresentadores), sendo 82 do sexo feminino e 66 do sexo masculino, com idade média de 26 a 35 anos, respectivamente. A autora concluiu que houve nos profissionais alto índice de comprometimento postural, com posição de cabeça rígida ou lateralizada, desequilíbrio nas musculaturas linguais e labiais, interposição lingual e flacidez nos músculos da face, articulação imprecisa, desgastes unilaterais dos dentes, foco ressonantal baixo e capacidade respiratória curta. No estudo realizado por COTES (2000), a autora descreveu os recursos não-verbais e vocais utilizados por oito apresentadores de telejornalismo, durante a narração de um mesmo tema. Os recursos nãoverbais analisados foram: o espaço mantido pelas câmeras de televisão em relação ao apresentador; as expressões faciais; a postura; os gestos, e os vocais foram: a curva entoacional; a intensidade; a pausa; e a duração. Os resultados apontaram a presença da relação entre gesto e a entoação, os quais favoreceram a expressividade e enfatizaram a necessidade de uma reavaliação no trabalho fonoaudiológico, junto aos profissionais de telejornalismo, por meio de uma análise complementar, ou seja, uma nova forma de avaliar e trabalhar a inter-relação corpo/voz. FERREIRA et al. (2000) avaliaram acusticamente o recurso de ênfase utilizado em telejornalismo. Após uma audiogravação da leitura da escalada1 de um telejornal, a mesma foi digitalizada no programa Multi Speech. Os resultados evidenciaram que os recursos de ênfase, presentes em todas as notícias, estavam predominantemente relacionados à ocorrência de pausa silente e perceptível e a maior duração referente à extensão de tempo gasto na articulação. Para as autoras, a locução de telejornalismo é uma arte com suas técnicas específicas e a análise acústica tem sido um método valioso de investigação da ênfase. Em pesquisa realizada para avaliar a voz de 22 repórteres, e comparar a comunicação espontânea e profissional MERCATELLI et al. (2000) concluíram que há diferença nos padrões de emissão nas duas situações, com diferença significante entre o sexo, quanto ao tipo de emissão e tempo de profissão e que o tempo profissional interfere em alguns parâmetros do padrão vocal. Os itens relacionados às características da voz mantiveram-se praticamente constantes, o que demonstrou pouco conhecimento que os profissionais têm a respeito dos mesmos; as características expressão não-verbais facial sofreram como modulação, maiores alterações, ênfase, uma pontuação vez que e são características mais popularmente conhecidas e consideradas como importantes na emissão profissional; os parâmetros com melhora mais significativa foram modulação e ênfase, e houve uma preocupação por parte 1-Todas as palavras sublinhadas encontram-se definidas no glossário dos repórteres em alterar seu padrão vocal, a fim de tornar sua fala mais precisa. COTES e FERREIRA (2001) realizaram uma análise descritiva dos recursos vocais e gestuais de um apresentador de telejornal. Os dados apontaram para uma relação existente entre a mudança de entonação, ocorrendo de maneira conjunta ao gesto, seja meneio de cabeça ou movimento das mãos e concluíram que voz e gesto, apesar de passíveis de análise, em áreas independentes, atuam concomitantemente, complementando-se. Em pesquisa realizada com 12 apresentadores de telejornal (seis homens e seis mulheres) de seis telejornais em três redes de televisão, COSTA (2002) analisou os recursos vocais como: média e variação de freqüência vocal, utilizados nos telejornais como coadjuvantes de efeitos pretendidos com a divulgação da notícia. Os enunciados foram classificados em dois tipos de notícias: positivas e negativas. Assim, tiveram dez notícias de cada situação apresentadas aos sujeitos do sexo masculino e o mesmo número aos sujeitos do sexo feminino. Foi realizada uma análise acústica computadorizada da freqüência média e variação de cada enunciado, por meio do programa Dr. Speech 3.0 e análise descritiva dos enunciados, por meio da teoria semiótica francesa, fonoaudiologia e retórica. Os resultados apontaram: presença de relação de voz e efeitos de sentido nos telejornais; aumento da média das freqüências em notícia positivas e decréscimo em ambos os sexos nas negativas; variação das médias das freqüências mais evidente nas locuções das mulheres. Conclui-se que a voz tem papel importante como estratégia de persuasão na busca de credibilidade da notícia e é amplamente utilizada pelos apresentadores de telejornais. CUNHA et al. (2002) caracterizaram a voz do repórter, jornalista e radialista em uso profissional. A amostra foi composta por 18 profissionais, sendo dez do sexo masculino e oito do sexo feminino, com idade entre 22 a 36 anos. Desses, 12 atuavam na TV, cinco na rádio e TV e um na rádio. O protocolo do estudo englobava 26 questões objetivas referentes a sintomas vocais, abuso e mau uso vocal, distúrbios pulmonares e das vias aéreas superiores. Os autores concluíram que os profissionais de TV e rádio, além de se beneficiarem com prevenção de alterações vocais, necessitam de um treinamento específico com a voz, para melhorar a eficiência vocal e seu desempenho profissional. Em estudo realizado para avaliar perceptualmente por meio de audiogravação de leitura de texto padrão, os recursos vocais de 13 repórteres e cinco apresentadores de TV, SOUTO e PETER (2002) concluíram que a grande maioria (94,4%) apresentou curvas melódicas repetitivas, sendo 83,3% curvas ascendentes e 16,7% curvas descendentes e 33,3% excesso de pausas na narração; o ritmo repetitivo e excesso de pausas comprometeram a naturalidade, acentuaram o sotaque e tornou a narração cansativa. Com o propósito de identificar as características vocais inadequadas de 16 apresentadores, sendo 11 do sexo masculino e cinco do sexo feminino, atuantes em diferentes emissoras de televisão AZEVEDO et al. (2003) realizaram gravações, que foram capturadas em um aparelho MD conectado a televisão e apresentadas para o público em geral, para fazer o julgamento em agradáveis e desagradáveis. Em seguida, realizou-se avaliação perceptivo-auditiva das vozes desagradáveis por meio de um protocolo. Os autores concluíram que as justificativas dos ouvintes foram compatíveis com as da avaliação fonoaudiológica e que é fundamental o trabalho fonoaudiológico junto a esses profissionais, a fim de indicar alguns parâmetros que possam promover a credibilidade em sua atuação. COELHO e VASCONCELOS (2003) verificaram se ocorrem variações fisiológicas (níveis de cortisol) na performance de 13 jornalistas que exercem função de repórter, em três momentos distintos: período antecipatório (1 h antes da entrada ao vivo), atividade comunicativa (situação ao vivo) e recuperação (1 h após entrada ao vivo) , além de verificar de que forma essas variações se manifestam na voz e correlacionar tais achados psicológicos a testes subjetivos de stress. Os autores concluíram que na situação ao vivo, houve mobilização corporal, típica de fase de alarme de stress, o que provocou incrementos de pitch e velocidade na voz; sinais de desgaste físico e emocional contínuo e sintomas emocionais e sociais, indicativos de fase de resistência ao stress. Ao analisar perceptivo-auditivamente, as amostras de fala de repórteres e teleapresentadores de diversas redes de televisão, DIAFÉRIA et al. (2003) mostraram que os parâmetros que mais diferenciaram as notícias narradas foram: pitch e loudness, os quais devem constituir um dos focos da intervenção fonoaudiológica, uma vez que precisam manter a uniformidade dos parâmetros vocais na transmissão da notícia. FRANÇA (2003) objetivou confirmar a importância da consultoria fonoaudiológica para o repórter de televisão, a partir do trabalho desenvolvido com uma equipe específica de jornalistas. Para tal, foi aplicado nos contatos iniciais, durante reuniões de orientação, um questionário sobre histórico vocal com perguntas fechadas, abertas e semifechadas. A autora concluiu que as reuniões e aplicação do questionário contribuíram para reflexão acerca da necessidade do trabalho fonoaudiológico, bem como apoio à equipe de comunicadores. GAMA (2003) avaliou aspectos prosódicos e do controle motor da fala de 18 repórteres e apresentadores, por meio de medidas acústicas e espectrográficas de emissões espontâneas e profissionais e utilizou como dados acústicos a f0 média, máxima e mínima, bem como extensão fonatória em semitons. O material selecionado foi a vogal /a/ e leitura de uma frase nas duas situações. Para avaliação espectrográfica, realizaram análise visual do traçado, definindo aspectos temporais da emissão e prosódia e em seguida foram comparados resultados dos participantes por meio do programa GRAM 5.1 e gravação em off lido das duas formas. Os resultados apontaram presença de f0 média mais grave nos dois gêneros, presença de maior modulação, precisão articulatória, ênfases, intensidade, pausas e prolongamento de vogais nas emissões profissionais. Com o objetivo de analisar a relação entre expressão vocal e corporal presente no trabalho de assessoria vocal, GIMENES (2003) realizou uma pesquisa com dez fonoaudiólogos. Foi aplicada uma entrevista cujo motivador foi a queixa de dificuldade na comunicação, em seguida, a mesma foi transcrita de forma literal. A autora concluiu que a expressividade vocal foi abordada por nove entrevistados, o trabalho com expressão corporal foi contemplado por seis sujeitos, o que na prática fonoaudiológica está associado a visão da comunicação não-verbal; a questão corporal vem sendo trabalhada com o uso de manuais e técnicas já estabelecidas e não houve relação intrínseca entre voz e corpo no processo comunicativo. MESQUITA et al. (2003) avaliaram o conhecimento de telejornalistas sobre a produção vocal, cuidados com a voz e aprimoramento dessa pelo trabalho fonoaudiológico dentro da emissora de televisão. Para tal, foi aplicado um questionário com 29 perguntas sobre essas questões e os resultados possibilitaram destacar os aspectos de saúde vocal e técnica vocal, que necessitam ser trabalhados para o aperfeiçoamento da voz dos telejornalistas. PANICO e FUKUSIMA (2003) objetivaram atribuir significado ao aspecto confiabilidade, no que diz respeito à percepção do telespectador e apontaram seus correlatos acústicos. A pesquisa foi realizada com 45 profissionais da voz e 17 universitários e constou das seguintes etapas: aplicação do questionário aos profissionais da voz, seleção e definição do estímulo a ser apresentado aos juízes leigos, análise acústica das vozes dos locutores, apresentação das vozes e análise dos dados. Os autores concluíram que as características responsáveis pela inferência da confiabilidade foram: intensidade, freqüência e duração de fala com ritmo dinâmico e pausas breves, aumento de intensidade como recurso de ênfase, e articulação mais precisa obtida pelo aumento de intensidade; vozes masculinas devem buscar tons mais graves. Os autores ressaltam ainda que, outros fatores parecem ser mais importantes do que a freqüência no que diz respeito à confiabilidade e, por isso é necessário ouvir e considerar as impressões dos outros, como os telespectadores e, e não apenas de gerentes e diretores do jornalismo. Em estudo realizado para verificar a incidência de fatores de interferência na performance de 139 repórteres de link, COELHO et al. (2004) aplicaram um protocolo, no qual o indivíduo listava fatores que influenciavam seu bom desempenho em situações de link e em seguida analisaram as respostas por freqüência e dividiram em duas categorias: sob controle do repórter e fora do controle do mesmo. Eles concluíram que a expressividade vocal no link é duplamente influenciada e o peso dos fatores que estão fora do controle do repórter são muito grandes, o que implica em uma abordagem fonoaudiológica que considere os mesmos, para que seja possível um efetivo manejo da comunicação oral pelo repórter, diante de um quadro tão adverso. LOPES (2004) discutiu questões referentes à tonicidade e suas variações na prática da leitura oral de 13 frases faladas por oito diferentes telejornalistas, em situações de apresentação, passagem e off. A autora concluiu que uso de acentos secundários, grupo acentual e acentos de insistência tem sido muito usados a leitura oral e fala espontânea do telejornalismo, e que o treinamento auditivo deve servir para criar maiores possibilidades de entonação e ritmo, proporcionando mais credibilidade as mensagens telejornalísticas. MARTINS et al. (2004) analisaram os recursos não verbais (voz e expressões faciais) utilizados por um apresentador de telejornal. Foram avaliadas reportagens com diferentes temas, e os parâmetros julgados foram: articulação, loudness, ressonância, ritmo de fala e expressões faciais. Os autores concluíram que o apresentador de telejornalismo tem na voz e no gesto seu principal instrumento de trabalho e que na atuação fonoaudiológica é fundamental considerar o quanto a comunicação nãoverbal completa a verbal e o quanto escuta e olhar fonoaudiológico devem atentar para esses aspectos. Ao relacionar os sintomas vocais relatados por 16 estudantes de um curso de jornalismo, com os dados encontrados nas avaliações fonoaudiológica e otorrinolaringológica, PINTO et al. (2004) aplicaram um questionário para levantar sintomas vocais após uso da voz e realizada avaliação perceptivo-auditiva e análise acústica. O sintoma vocal mais relatado foi secura na garganta (69%), na avaliação detectaram 31% soprosidade, 37% rouquidão e articulação travada e 62% articulação normal; a média do tempo de fonação foi de dez segundos para vogais e relação s/z sugestivo de falta de coaptação glótica, registrado em 25% dos sujeitos e hiperconstrição em 19%; observou-se jitter com média de 3% e shimmer com 13,6%; f0 de 109,39 nos homens e 197,29 nas mulheres; 33,3% dos estudantes encaminhados para videolaringoscopia apresentavam disfonia funcional e 50% organofuncional. ROSA (2004) verificou os ajustes vocais realizados por dez repórteres, durante a transmissão do carnaval, quanto ao pitch, loudness e articulação e comparou as locuções pré e durante o carnaval. A autora concluiu que o aumento de intensidade foi o ajuste vocal mais utilizado durante o carnaval, seguido do aumento de intensidade da freqüência e modificação do padrão articulatório; e que a utilização da sobrearticulação proporcionou maior vigor à emissão e colaborou para o aumento da intensidade. SANTOS et al. (2004) investigaram o conhecimento de 45 alunos do curso de Jornalismo sobre suas vozes, por meio de desenhos e depoimentos escritos sobre as vozes. Os autores apontaram a presença de autocrítica quanto aos diversos parâmetros da voz e a importância da atuação fonoaudiológica junto aos alunos de jornalismo, para favorecer um maior conhecimento e cuidados com a voz. TORRES et al. (2004) verificaram a porcentagem de identificação correta, a intenção de comunicação do repórter de TV na leitura de um texto com nota editorial e um com nota esportiva, então procuraram reconhecer os parâmetros acústicos, que poderiam explicar a identificação nos dois estilos pesquisados na leitura feita por repórteres profissionais. A pesquisa foi realizada com 27 jornalistas experientes em telejornalismo, os quais realizaram a leitura dos dois textos. Em seguida, estas foram gravadas e ouvidas por 26 fonoaudiólogas. Os resultados mostraram que a identificação da intenção de transmissão das duas notícias foi de 84%, independente do conteúdo semântico; houve forte inclinação dos repórteres em elevar a f0 na nota de esporte; e a transmissão da notícia de conteúdo esportivo leva o repórter a falar mais rápido, mesmo quando a intenção vocal é de produzir nota editorial. COELHO (2005) descreveu as características típicas da narração de 32 jornalistas (oito apresentadores e 24 repórteres) e investigou quais parâmetros da comunicação sofreram maior influência pelo stress da comunicação. Concluiu que tanto os repórteres, quanto os apresentadores têm padrão de emissão similar, no que diz respeito aos parâmetros convencionais de qualidade vocal, padrão ressonantal, loudness e padrão articulatório; os repórteres no link apresentaram mais alterações de voz e de fala do que os apresentadores, principalmente nos parâmetros interpretativos como: pausas, ênfases, curva melódica e velocidade; e o stress da comunicação, na situação ao vivo, tende a atingir de forma mais significativa a voz e a fala do repórter que a do apresentador. Ao abordar os aspectos vocais envolvidos na dinâmica de dois apresentadores de telejornais, com e sem acompanhamento fonoaudiológico, MAIOR (2005) concluiu que o teleapresentador sem acompanhamento fonoaudiológico apresentou articulação precisa, pitch grave, loudness forte, ritmo e velocidade de fala adequada, pronúncia regional, coordenação pneumonfonoarticulatória, ênfase e pronúncia inadequadas, e o telejornalista com acompanhamento fonoaudiológico apresentou características vocais adequadas em todos os aspectos, o que segundo o autor evidencia a importância da inserção do fonoaudiólogo no corpo técnico das emissoras de televisão. PANICO e FUKUSIMA (2005) investigaram os ajustes vocais por meio de análise acústica feito por dez repórteres para diferentes estilos (descontraído, neutro e sério) e verificaram se as emissões foram identificadas corretamente pelos telespectadores. Para tal, foram selecionadas 80 pessoas, das quais 50 participaram da seleção das reportagens que serviram de modelo para gravação da amostra e normatização dos termos empregados e 30 para identificação dos três estilos. Os autores concluíram que houve diferença significativa entre os estilos; média de f0 média para os estilos descontraído e neutro e descontraído e sério, média das variações de f0 entre os estilos descontraído e sério e neutro e sério e média dos tempos de fala entre os estilos descontraído e neutro e descontraído e sério, os parâmetros relativos à intensidade não foram significativos. PANICO (2005) demonstrou, por meio de estudo de caso, os fatores constituintes de uma avaliação fonoaudiológica dirigida a telejornalistas em diferente situações: link, passagem, off sonoras e apresentação, especialmente no que diz respeito à avaliação vocal. As análises foram feitas por meio de avaliação perceptivo-auditiva e acústica de trechos de fala, as quais contemplavam aspectos como: qualidade vocal, pitch, loudness, velocidade de fala, coordenação pneumofonoarticulatória, ataque vocal e recursos vocais. A autora concluiu que a avaliação deve considerar as particularidades impostas pela mídia e procurar garantir ao profissional, padrão de emissão saudável e confortável. Ao realizar a comparação dos parâmetros vocais (freqüência e intensidade) e os recursos vocais (entoação, pausa, ênfase, tempo de emissão e velocidade) encontrados nas narrações de telejornalistas esportivos em dois estilos de narração (espontânea e profissional), PETER (2005) concluiu que houve aumento da f0 e intensidade na emissão profissional de todos os telejornalistas, bem como aumento do tempo de emissão e velocidade de fala, articulação mais precisa, presença de curvas melódicas equilibradas nos dois tipos de emissão, com predomínio de curvas ascendentes, maior quantidade de pausas expressivas na emissão profissional e utilização do recurso de ênfase aplicado em maior número por repórteres e apresentadores na emissão profissional, ênfase associada a aumento de intensidade nas duas emissões e maior variabilidade na utilização dos recursos vocais em emissão profissional. TORRES (2005) verificou a identificação correta da intenção de dez repórteres na transmissão de duas notícias: nota esportiva e editorial e reconheceu quais parâmetros acústicos foram responsáveis por essa identificação, nos dois estilos pesquisados, por meio da análise acústica dos trechos de leitura. A autora concluiu que a intenção do repórter de TV na transmissão das duas notas independe do conteúdo falado, os homens transmitem a nota esportiva com f0 elevada, homens e mulheres reduzem a f0 ao transmitir nota editorial; o parâmetro acústico de intensidade não identifica se a voz transmite nota editorial ou esportiva; não houve variação nos resultados de semitons ou medidas de extensão de f0; e na nota esportiva o repórter fala mais rápido, mesmo quando a intenção vocal é de transmitir nota editorial. CONSTANTINI e MOURÃO (2007) analisaram a pausa de dois repórteres de uma TV universitária, por meio da gravação de um texto repetido dez vezes. As gravações foram registradas em sistema de gravação profissional e analisadas com o software livre PRAAT, com auxílio do espectrograma. A média de cada tipo de pausa encontrada foi calculada, por meio de classificação que contém 11 marcadores sintáticos. Os autores concluíram que os tipos mais encontrados estão relacionados à presença da pausa antes da palavra que é ressaltada, ou seja, a pausa utilizada como importante marcador de ênfase. COTES (2007) investigou a distribuição e uso das pausas silenciosas no discurso oral em narrações de programas de televisão de natureza diferenciada. Para o estudo, foram selecionadas amostras de fala de dois jornalistas em cinco programas de televisão. As gravações compreenderam quatro tipos de programas: passagem de reportagens, narração por telefone, apresentação em estúdio e programa interativo ao vivo. Os arquivos foram submetidos a análise acústica no programa PRAAT, e concluiu que o uso da pausa silenciosa varia de acordo com o estilo do programa de TV, foi menos freqüente no estilo de apresentação de telejornal, do que na passagem e mais freqüentes no programa interativo, e afirmou ainda que a pausa é fundamental para a construção da expressividade oral, por desempenhar um papel delimitativo e sinalizador dos efeitos de sentido. GAMA et al. (2007) verificaram a organização prosódica da ênfase na locução de seis repórteres de telejornalismo através dos parâmetros prosódicos duração, frequência fundamental e intensidade. O corpus foi constituído de gravações em tempo real de offs de notícias factuais. As ênfases foram identificadas por três fonoaudiólogos experientes na área de voz profissional, por meio de análise perceptivo-auditiva. A análise das sílabas enfáticas foi contraposta à sílaba tônica saliente e à sílaba tônica rítmica. Para essa análise, utilizou-se o programa PRAAT versão 4.3.29, onde foram obtidas a duração, intensidade, o contorno melódico, o intervalo melódico, e o valor de f0 inicial e final de todas as sílabas tônicas, como ênfase, tônica rítmica e saliente. Os autores concluíram que a ênfase prosódica na locução do repórter de telejornalismo possui características específicas, principalmente em relação aos aspectos melódicos – maior amplitude do intervalo melódico em contornos ascendentes e um emprego de valores iniciais e finais de f0 mais altos; e a duração silábica se revelou um parâmetro importante para a marcação das ênfases. PONTES et al. (2007) analisaram o padrão comunicativo de oito repórteres da TV Assembléia durante o exercício profissional. Estes foram avaliados por meio de dois protocolos, dos quais o primeiro avaliava os parâmetros vocais da voz falada e profissional durante gravação de reportagem ao vivo e o segundo, que constava de 14 perguntas sobre sintomas vocais, hábitos de saúde vocal e padrões vocais. Os autores concluíram que houve uma adequação do padrão comunicativo dos repórteres relacionado com a prática da terapia fonoaudiológica e ressaltaram a importância da assessoria fonoaudiológica dentro do ambiente televisivo, para realizar um trabalho preventivo e de acompanhamento, bem como de orientação aos repórteres, quanto ao melhor uso da voz na emissão da notícia na TV. 3.2 INTERVENÇÕES FONOAUDIOLÓGICAS FERREIRA e RICCI (1999) realizaram um estudo de caso, com um profissional de jornalismo que atuava em off. Com o auxílio de uma avaliação, detectou-se que o trabalho englobaria técnicas vocais e dicção. O mesmo foi realizado semanalmente durante 45 minutos, no total de 10 sessões. As técnicas trabalhadas foram: percepção de esquema corporal; relaxamento; adequação da modalidade respiratória para a fonação; coordenação da respiração de pontuação gramatical e expressiva; expressividade adequada; aquecimento e desaquecimento vocal e orientação quanto à higiene vocal. Após a realização de trabalho fonoaudiológico, observou-se adequação da voz e dicção para o trabalho de off na TV, expressão harmoniosa e adequada à notícia em cena, ressonância equilibrada e coordenação fono respiratória. Na pesquisa de GIROTO e MARTINS (2000) foi apresentada uma proposta de treino formal da voz profissional falada, voltada para estudantes de jornalismo. Para tal, elaboraram e aplicaram um questionário sobre os diferentes aspectos da voz. Com a análise desses dados, somados à literatura, definiram os aspectos vocais que foram trabalhados: avaliação otorrinolaringológica; aplicação de anamnese específica; avaliação perceptivo-auditiva; programa de educação vocal; englobando informações sobre anatomofisiologia da fonoarticulação e conscientização quanto ao uso adequado da voz e treino formal, incluindo o registro áudio visual da emissão e utilização de estúdio de rádio e TV para o desenvolvimento de estratégias. CASSOL (2002), em seu estudo, submeteu oito repórteres a um treinamento em grupo. Os mesmos responderam a um questionário e foram realizadas avaliações perceptivo-auditivas da voz pré e pós treinamento, uma vez por semana, durante oito meses. Os aspectos abordados foram: orientação vocal; bem como parâmetros observados como inadequados para o telejornalismo, como qualidade vocal, respiração, articulação, ritmo de fala, intensidade, ressonância, pitch e ataque vocal. A autora concluiu que houve melhora na avaliação final dos parâmetros, pós intervenção. SERVILHA (2002), desenvolveu uma oficina de dez encontros com duração de uma hora e meia cada, com 21 alunos do curso de jornalismo, que abordou aspectos como: higiene vocal, conhecimento da voz e corpo, postura corporal, relaxamento de ombros, pescoço e região laríngea, colocação e controle respiratório costo diafragmático, equilíbrio ressonantal, projeção vocal, flexibilidade vocal e ênfase, articulação, loudness, e coordenação pneumofonoarticulatória. Ao final, os participantes preencheram um questionário, avaliaram seus desempenhos e foram regravados. A autora concluiu que houve progresso em todos os participantes, com maior conhecimento da própria voz, maior controle das emoções frente à câmera, melhora na postura e segurança, principalmente nas locuções em rádio. Uma proposta de intervenção fonoaudiológica na preparação de 12 repórteres de televisão, durante quatro meses foi descrita por STIER (2002). Esta apresentava como objetivo: desenvolver uma comunicação adequada para o vídeo e para tal foram realizadas atividades como: terapia fonoaudiológica em grupo, oficina de narração, simulações de passagens, treinamentos em estúdios e simulações de telejornal. Os resultados apontaram que o grupo desenvolveu o uso profissional da voz e comunicação desejada no vídeo e concluiu que a prática fonoaudiológica representa boa oportunidade para atuação in loco e o trabalho em equipe constitui valiosa forma de aprimoramento, e favorece o desenvolvimento do jornalista recém formado. TEIXEIRA e PINTO (2003) realizaram uma pesquisa com 31 alunos do curso de jornalismo, para verificar o aproveitamento dos mesmos, após realização de um programa de orientação sobre fisiologia do aparelho fonador e cuidados com a voz e treinamento vocal, o qual abordou aspectos como: articulação, aquecimento e desaquecimento vocal. Em seguida, foi aplicado um questionário sobre o aproveitamento, e os autores concluíram que após a orientação vocal, os alunos demonstraram ter noção quanto aos hábitos benéficos ou maléficos à voz, julgando importante o trabalho. CAMARGO e PENTEADO (2004) identificaram, por meio da perspectiva de dois repórteres e uma apresentadora de telejornal, o impacto do trabalho fonoaudiológico (oficina de voz) na prática desses comunicadores sociais. Os dados foram coletados por meio de entrevista coletiva que abordou os aspectos enfocados na oficina de voz e em seguida, os depoimentos foram gravados em fita cassete e transcritos para a análise do conteúdo. Os autores concluíram que a oficina proporcionou um impacto positivo, não somente na prática profissional dos sujeitos, como também na qualidade de vida, pois melhorou a auto estima, promoveu a saúde geral e vocal, além de mudanças qualitativas observadas no formato do telejornal, superando as expectativas específicas do trabalho fonoaudiológico. MARTINEZ e SILVA (2004) observaram as modificações ocorridas após a realização de uma série de exercícios de aquecimento vocal em cinco momentos diferentes com sete apresentadores de televisão. Os aspectos trabalhados foram relaxamento cervical, deslocamento de laringe, vibração de lábios e de língua, sons nasais e fricativos. Após os exercícios de aquecimento, verificou-se um aumento da intensidade vocal, tendência ao aumento da freqüência fundamental e maior projeção vocal nas amostras de fala gravadas. Esse estudo concluiu que o uso de aquecimento vocal possibilitou uma diferença positiva nas vozes, pois aumentou a intensidade do sinal acústico e propiciou uma articulação mais precisa, com aumento da freqüência fundamental. PETER e SOUTO (2004) realizaram, com 15 telejornalistas, uma análise perceptivo-auditiva sobre os recursos vocais pré e pós intervenção fonoaudiológica. Utilizaram a audiogravação da leitura de um texto padrão e posteriormente realizaram a transcrição literal das narrações. Após os sete meses de intervenção fonoaudiológica, os autores verificaram que os telejornalistas passaram a fazer uso dos recursos vocais de modo mais adequado, tornando mais fáceis a compreensão e a absorção da notícia veiculada, contribuindo para que os diversos telejornais da emissora se tornassem mais agradáveis ao público. STIER e FEIJÓ (2004) compararam a voz de 13 repórteres de televisão pré e pós uma série de exercícios vocais, por um período de um mês consecutivo, e identificaram os parâmetros vocais que se modificaram, tanto imediatamente quanto após o período de um mês de realização dos exercícios. Os participantes foram orientados a realizar uma série de exercícios diariamente antes da atuação profissional. Uma vez por semana, as vozes foram analisadas com a utilização do programa GRAM 5.7 e foram observados parâmetros como: freqüência fundamental, regularidade do traçado e número de harmônicos. Os dados acústicos foram obtidos no período da manhã, pré e pós realização dos exercícios. Antes do início do estudo, todos os repórteres foram orientados sobre hábitos de higiene vocal. Os autores concluíram que houve mudanças imediatas pré e pós exercícios e os próprios sujeitos referiram-se tanto à percepção de diferença de qualidade de voz, quanto à diminuição do esforço a fonação. BRANDALISE e GONÇALVES (2005) verificaram a aplicação da técnica de sobrearticulação na performance vocal de 12 repórteres de televisão, por meio das análises perceptivo-auditiva e acústica computadorizada, a qual constou da medição do tempo máximo de fonação (média das vogais e relação s/z), gravação da vogal /i/ e de dois textos selecionados. As autoras concluíram que os parâmetros da análise perceptivo-auditiva que apresentaram melhora, em ordem decrescente, foram: prosódia, articulação, loudness, velocidade de fala e pitch. Os parâmetros da análise acústica computadorizada que apresentaram melhora foram: jitter, shimmer, NNE e proporção harmônico ruído. Concluíram que a técnica de sobrearticulação apresentou eficiência em todos os parâmetros da análise perceptivo-auditiva e na análise acústica computadorizada foi efetiva para jitter, shimmer e ruído glótico. PINHATTI et al. (2005) realizaram uma intervenção junto a estudantes de jornalismo pertencentes a uma instituição de ensino superior de São Paulo . O programa teve início com uma palestra sobre o aparelho fonador (estrutura e funcionamento) e noções de saúde vocal. Foi composto por entrevista, avaliação vocal e oromiofuncional, avaliação dos aspectos não-verbais, programas de trabalho individual e para o grupo e reavaliação final. Tanto imediatamente quanto em grupo, o atendimento segundo as autoras contemplou aquecimento vocal e relaxamento vocal, postura, uso de gestos e expressões faciais, questões oromiofuncionais e devolutivas das observações de suas atuações em estúdio. Não consta o relato de quantos universitários participaram da intervenção, nem a carga horária do programa, mas o mesmo teve duração de cinco meses, com encontros semanais para atendimento e quinzenais para observação das gravações no estúdio da universidade. Foram coletadas amostras de emissão espontânea e profissional, por meio de filmagens providenciadas pelos participantes, antes e após a intervenção fonoaudiológica e a comparação foi tida pelas autoras como efeito positivo da intervenção. STIER e FEIJÓ (2005) compararam a voz de 13 telejornalistas, antes e depois do aquecimento vocal imediato e após a repetição diária de um período de quatro semanas e observaram quais as modificações ocorridas nesse período, a fim de avaliar a efetividade da preparação diária desses profissionais. A seqüência de exercícios proposta foi: relaxamento e alongamento de ombros e pescoço, rotação de língua (dez repetições para cada lado), movimentos exagerados da musculatura facial por 30 segundos, técnica do “B” prolongado (30 repetições), técnica de vibração com variações de freqüência e volume (seis repetições), sons nasais associados a movimentos de mastigação (seis repetições), e técnica de firmeza glótica (seis repetições). As autoras concluíram que a série de aquecimento vocal promoveu em todos os participantes uma percepção de melhor qualidade vocal e de maior conforto e facilidade à emissão e que a maior parte dos sujeitos apresentou mudança na freqüência fundamental e aumento do número de harmônicos. VIEIRA (2005) estudou o efeito da orientação fonoaudiológica na expressividade em sete estagiários, sendo quatro do grupo experimental e três do grupo controle, do curso de jornalismo de emissora de televisão. Realizou-se a leitura de dois noticiários, sendo um sem grande conteúdo emocional, e outro com impacto emocional maior. Após a primeira gravação, os indivíduos do grupo experimental receberam orientação sobre sua comunicação e aquecimento vocal e foram trabalhados aspectos como: postura, expressão facial, gestos, articulação, recursos vocais, ênfase, curva melódica, velocidade, pausas, técnica de movimentos exagerados da musculatura facial, massagem circular na musculatura facial, som hiperagudo, som basal, sons vibrantes e fala mastigada. Após a orientação, foi gravado novamente o mesmo texto. O grupo controle gravou nas mesmas condições, porém sem orientação e sem aquecimento. O estudo concluiu que a orientação fonoaudiológica breve sobre os aspectos da comunicação profissional, com aquecimento vocal, apontou efeito positivo nos indivíduos participantes do grupo experimental. Os parâmetros, que apresentaram melhor desempenho após a intervenção foram os relacionados à expressão corporal. AZEVEDO (2007) realizou um processo de intervenção fonoaudiológica com seis telejornalistas e concluiu que os dois principais pontos positivos da intervenção relatados pelos telejornalistas participantes foram a auto percepção e percepção dos outros e o conhecimento de técnicas, sendo o principal ponto negativo o tempo reduzido da intervenção. Além disso, verificou, na opinião dos telespectadores, que quatro dos seis telejornalistas apresentaram preferência dos telespectadores na situação pós-intervenção, o que demonstrou efeito positivo da intervenção fonoaudiológica no julgamento dos telespectadores; não houve, para a maioria dos telejornalistas analisados, diferença no julgamento dos telespectadores, quanto ao sexo e idade. LOPES et al. (2007) analisaram os parâmetros prosódicos de duas apresentadoras de telejornal em relação à entoação, duração, velocidade de fala, variabilidade da freqüência fundamental e intensidade, relacionados à intencionalidade do falante e à caracterização dos gêneros jornalísticos de esporte, cultura, denúncia e jornal. A frase foi julgada por um grupo de dez jornalistas, que a consideraram desprovida de qualquer conteúdo jornalístico e lida com a intenção de matéria policial, denúncia, esporte e cultura, utilizando-se de diferentes recursos prosódicos. As oito locuções foram gravadas e apresentadas a ouvintes constituídos por estudantes do curso de jornalismo e fonoaudiologia, os quais julgariam quanto ao gênero. Os dados mostraram que quanto maior o número de pistas prosódicas entre locuções, maior possibilidade de captação da intencionalidade e as características prosódicas mais importante para distinção dos gêneros foram: número de proeminências, padrão entoacional, alongamento de vogal e variabilidade da freqüência fundamental e apontaram ainda para a possibilidade de utilizar os diferentes parâmetros prosódicos como recurso para tornar a narração telejornalística mais interativa. 4 MÉTODOS Esta pesquisa de caráter descritivo, longitudinal e prospectivo, foi aprovada pela Comissão de Ética do Programa de Estudos Pós Graduados em Fonoaudiologia (PUC/SP) sob o registro 002/2007 (Anexo I). Para melhor entendimento, este capítulo foi dividido em seis partes: a primeira explicita a seleção dos sujeitos; a segunda a coleta de amostra de fala; a terceira, a edição do material coletado; a quarta, o julgamento do material realizado por telespectadores e fonoaudiólogos; a quinta, os procedimentos da análise dos dados e a sexta e última, a descrição do processo de intervenção fonoaudiológica. Esta englobou: caracterização da empresa e dos sujeitos que participaram da intervenção, mapeamento do contexto ocupacional e das demandas e descrição dos encontros. Para melhor esclarecimento, ao final deste capítulo, segue um fluxograma com descrição cronológica de cada etapa de procedimento da pesquisa. 4.1 SELEÇÃO DOS SUJEITOS Os sujeitos participantes da pesquisa foram telespectadores e fonoaudiólogos que julgaram o material de fala coletado, antes e depois de uma proposta de intervenção fonoaudiológica, realizada com três repórteres2. Os telespectadores participantes da pesquisa foram em número de 100, amostra considerada a partir de cálculo estatístico. Estes constituíram 2 Nessa pesquisa serão denominados repórteres, os estagiários em reportagem da TV universitária. um grupo heterogêneo, com relação a sexo, idade e escolaridade e foram reunidos em dois grupos, segundo presença e ausência de ocupação. Dessa forma, o primeiro grupo denominado com ocupação foi composto por 50 sujeitos: 27 homens (média: 35,03 anos) e 23 mulheres (média: 30,82 anos). Esse grupo foi constituído, principalmente, por indivíduos empresários e profissionais da área de ciências humanas. O segundo grupo, denominado sem ocupação, foi composto exclusivamente por indivíduos que eram apenas estudantes. Foi constituído também por 50 sujeitos, sendo 24 homens (média: 25,87 anos) e 26 mulheres (média: 25,07 anos). Esse grupo foi formado, predominantemente, por alunos do curso de direito. Os sujeitos dos dois grupos foram abordados dentro da instituição, onde a pesquisa foi realizada e deveriam responder como critério de inclusão, não apresentar nenhum conhecimento teórico sobre a temática expressividade, não possuir problemas auditivos, bem como não pertencer ao grupo de estudantes e professores dos Cursos de Fonoaudiologia e Jornalismo. Essas questões foram feitas a cada um dos prováveis participantes, antes de iniciar a apresentação do material a ser julgado. No grupo de fonoaudiólogos, foram selecionadas três (F1, F2 e F3), todas do sexo feminino, atuantes na área do telejornalismo. Quanto ao tempo de atuação das mesmas, a média foi de 11,3 anos e variou entre quatro anos (mínimo) observado em F2 e 19 anos (máximo) em F1. F3 atuava nessa área há 11 anos. Todos os participantes, telespectadores e fonoaudiólogos assinaram o termo de consentimento livre esclarecido (Anexos II e III), após julgamento das vozes. 4.2 COLETA DE AMOSTRA DE FALA A pesquisadora responsável pelo estudo convocou os três repórteres de uma TV universitária (ver mais detalhes no item 4.6.1) para realizarem uma gravação após assinatura do termo de consentimento livre esclarecido (Anexo IV). A mesma foi realizada individualmente com auxílio de microfone direcional marca Electro Voice abaixo do queixo, segundo proposta de COTES (2003), cedido pela equipe de áudio visual da emissora. Estes receberam a instrução para ficar de pé, pois essa é a postura mais adotada por eles e relatar a notícia, que foi oferecida 20 minutos antes, como se estivessem em situação de reportagem. Os repórteres realizaram a gravação de uma passagem, que foi decorada por eles e relatada de forma improvisada por cada um. A notícia em questão, oferecida pela coordenação da TV, pertencia ao acervo da emissora, e foi a seguinte: “Getúlio Vargas escreveu que nunca cortejou a popularidade. O documento é um exemplo de como a história deve ser levada adiante através de um registro escrito. A técnica iniciada há milhares de séculos atrás foi iniciada em diferentes partes do mundo”. A gravação ocorreu antes do início de uma proposta de intervenção fonoaudiológica (descrita no item 4.6) e foi denominada de momento “pré intervenção fonoaudiológica”. A mesma situação em condições semelhantes, referente a local, gravação, vestimenta e notícia, foi repetida após o processo dessa intervenção, e denominada de “pós-intervenção fonoaudiológica”. 4.2 EDIÇÃO DO MATERIAL As amostras de fala gravadas pré e pós intervenção fonoaudiológica foram digitalizadas de forma randomizada em um computador marca Dell, no programa Adobe Premier pró 2.0 e classificadas como A e B. Quatro possibilidades para cada um dos três repórteres foram combinadas, num total de 12, com o objetivo de realizar o julgamento pré e pós intervenção fonoaudiológica, em condições que não tivesse viés metodológico. As 12 combinações tiveram seu tempo médio de 30,08 segundos, distribuídos da seguinte forma: R1 (pré pós) : 37 segundos, R2 (pós pós): 29 segundos, R3 (pós pré): 32 segundos, R1 (pós pré): 27 segundos, R2 (pré pós): 30 segundos, R3 (pós pós): 32 segundos, R1 (pré pré): 24 segundos, R2 (pós pré): 29 segundos, R3 (pré pós): 32 segundos, R1 (pós pós): 30 segundos, R2 (pré pré): 29 segundos e R3 (pré pré): 30 segundos. Essas gravações, sem perda do som ou qualidade da gravação foram posteriormente editadas pelos próprios profissionais da emissora, para o formato DVD e serviram de material para o julgamento dos juízes. 4.4 JULGAMENTO DO MATERIAL O julgamento foi realizado por meio de um protocolo (Anexos V e VI) no qual os juízes (telespectadores e fonoaudiólogos) teriam que após ouvir as 12 combinações de cada repórter, realizar o preenchimento do mesmo. O protocolo foi composto por três partes, assim divididas: na primeira, os juízes teriam que referir se os relatos estavam iguais ou diferentes; a seguir, se julgassem os mesmos diferentes, deveriam assinalar quais dos relatos estava melhor e finalmente, considerar qual (is) aspecto (s) que definiram essa melhora a saber, segundo as opções de clareza, credibilidade, segurança e envolvimento. As combinações foram apresentadas aos juízes no formato áudio, sem a imagem do participante, para destacar apenas a questão da oralidade. Tendo em vista que na televisão a percepção é única, cada juiz ouviu as quatro combinações possíveis entre os momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica referente a cada repórter uma única vez. Esse julgamento foi realizado de forma individual, apenas com a presença da pesquisadora responsável pelo estudo, que utilizou um notebook marca HP Entertainment para apresentação das amostras de fala. 4.4.1 Julgamento dos Telespectadores Conforme explicitado anteriormente, todos foram recrutados pela fonoaudióloga responsável pelo estudo, dentro de uma instituição de ensino localizada na cidade de São Paulo. A pesquisadora disponibilizou três dias inteiros da semana (alternados) e compareceu à universidade para recrutar os sujeitos para a realização do julgamento das vozes. Após aceite na pesquisa, o protocolo foi apresentado alguns minutos antes da apresentação da gravação das vozes aos sujeitos, para minimizar dúvidas em relação ao preenchimento. Em seguida, de forma individual e acompanhados apenas pela fonoaudióloga, os sujeitos realizaram o julgamento das 12 combinações de vozes, em ambiente silente (sala de aula). O preenchimento do protocolo pelos juízes do grupo com ocupação durou em média sete minutos (para os homens e mulheres), e para os juízes do grupo sem ocupação, durou em média nove minutos para as mulheres e oito para os homens. A duração média total foi de 7,75 minutos. 4.4.2 Julgamento das Fonoaudiólogas As fonoaudiólogas foram previamente contactadas pela pesquisadora e estabelecido melhor dia e horário para realização da avaliação. O protocolo foi apresentado minutos antes das gravações, assim como no julgamento dos telespectadores. F1 foi abordada em seu consultório em intervalo de atendimento a seus pacientes. O julgamento realizado por ela durou em média sete minutos (tempo total das gravações) e não houve dificuldade no preenchimento do questionário. F2 foi abordada em sua residência e apresentou algumas dificuldades referentes às vozes apresentadas, necessitando de um tempo maior para o preenchimento ( nove minutos). F3, assim como F2, também foi abordada em sua residência. Não houve dificuldades em relação ao julgamento com registro de sete minutos, para a execução da tarefa. A média referente à duração total foi de 7,6 minutos. 4.5 ANÁLISE DOS DADOS Os dados referentes aos 100 telespectadores (400 julgamentos para cada repórter e 1200 no total), assim como das fonoaudiólogas (12 julgamentos para cada repórter e 36 no total) foram submetidos a tratamento estatístico por meio dos Testes Wilcoxon Rank Sum, para comparação entre dois grupos (com e sem ocupação; momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica e para verificar a porcentagem de acertos e erros) e Kruskal Wallis Rank Sum serviu para comparação entre os registros dos termos clareza, credibilidade, segurança e envolvimento. Para ambos foi estabelecido o nível de significância de 5%. 4.6 INTERVENÇÃO FONOAUDIOLÓGICA 4.6.1 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA E DOS SUJEITOS QUE PARTICIPARAM DA INTERVENÇÃO A empresa na qual a pesquisa foi realizada foi criada em 1993 e é o núcleo de produção televisiva e videográfica de uma universidade localizada na cidade de São Paulo. Tem como proposta coordenar e potencializar os recursos humanos e materiais da TV dessa instituição, com o objetivo de capacitar a instituição a produzir programas de televisão e vídeo de caráter educativo, cultural e comunitário, para multiplicar e difundir o conhecimento gerado no âmbito acadêmico. Pretende também ser uma ferramenta de trabalho para professores e estudantes. Os programas dessa TV universitária são comercializados e distribuídos no sistema home vídeo, para videotecas de inúmeras escolas secundárias, faculdades e centros culturais do país e do exterior. Como na época da realização da pesquisa, a emissora de TV apresentava apenas três repórteres, a pesquisadora responsável pelo estudo junto com sua orientadora optaram por realizar o programa de intervenção fonoaudiológica com todos, uma vez que houve interesse por parte deles. R1, sexo feminino, 20 anos atuava na emissora há 11 meses como repórter; R2, sexo masculino, 22 anos atuava na emissora há oito meses, como repórter e ,R3, sexo feminino, 20 anos atuava como repórter na emissora há sete meses. 4.6.2 MAPEAMENTO DO CONTEXTO OCUPACIONAL E DAS DEMANDAS Para mapear a demanda apresentada pelo grupo, todos os participantes antes de darem início ao processo de intervenção fonoaudiológica, preencheram um questionário com questões referentes à saúde geral, proposto por FERREIRA et al. (2007) e adaptado para esta pesquisa, e foram submetidos a uma avaliação fonoaudiológica, realizada pela pesquisadora em entrevista realizada antes de iniciar o processo de intervenção fonoaudiológica. Essa avaliação fonoaudiológica, segundo proposta de KYRILLOS (2003a) foi realizada por meio de protocolo que analisou aspectos como: qualidade vocal, ressonância, pitch, loudness, articulação, velocidade, coordenação pneumofonoarticulatória, ataque vocal, ênfase, pausas, curva melódica, ritmo, e comunicação não verbal (expressão facial, postura corporal, gestos e meneios de cabeça). (Anexo VII) Esse mapeamento contribuiu de forma efetiva para conhecer o grupo e abordar aspectos relevantes no programa de intervenção fonoaudiológica. Os resultados dos dados do questionário e da avaliação fonoaudiológica encontram-se no Anexo VIII. 4.6.3 DESCRIÇÃO DOS ENCONTROS A pesquisadora responsável pelo estudo entrou em contato pessoalmente com a coordenação da TV universitária e com os repórteres, para apresentar o projeto de pesquisa e explicar os procedimentos metodológicos que seriam realizados no decorrer da mesma, bem como colher a assinatura do termo de consentimento livre esclarecido por ambas as partes. Esse contato tinha como objetivo despertar o interesse tanto da emissora, quanto dos participantes a realizarem um programa de intervenção fonoaudiológica, com foco na expressividade oral. Nessa ocasião, a pesquisadora enfatizou que essa proposta fazia parte de sua dissertação de mestrado e que teria como foco principal favorecer melhor atuação profissional aos repórteres. Explicou ainda que esse programa seria realizado com periodicidade semanal (seis encontros), com duração e horário estabelecidos em comum acordo entre pesquisadora e repórteres. Os participantes ficaram cientes que qualquer falta que apresentassem durante os encontros não poderia ser reposta, para não prejudicar o andamento da pesquisa, e dessa forma solicitou-se um aviso prévio, caso houvesse possibilidade de não comparecimento. Foi exigida a participação máxima de cada sujeito, tendo em vista que em cada encontro seria abordado um recurso diferente. Os participantes também foram previamente informados quanto à necessidade de realizar gravações durante os encontros. Os três repórteres da TV mostraram-se bastante interessados em participar do programa de intervenção fonaoudiológica. No primeiro, terceiro e quarto encontros R1, R2 e R3 compareceram; no segundo encontro apenas R1 faltou, no quinto encontro apenas R2 faltou e no sexto e último encontro apenas R3 faltou. A pesquisadora, ao final dos encontros, realizava suas anotações acerca do comportamento e das falas de cada participante, na intervenção fonoaudiológica propriamente dita. A proposta de intervenção fonoaudiológica foi realizada em seis encontros, com duração total de nove horas, que aconteceram às quarta feiras de 16:00 as 17:30, horário que os repórteres saíam da emissora de TV. Os encontros possuíam cerca de 90 minutos cada um, tempo esse considerado satisfatório para realização das atividades propostas. A sala, onde os encontros foram realizados, localizava-se ao lado da emissora de TV e era um ambiente silente. Essa possuía um quadro branco com as cadeiras dispostas de forma enfileirada, sendo que durante os encontros a pesquisadora as colocava em forma de círculo, para favorecer a observação entre o grupo, e em relação à mesma. Durante os encontros, estava presente apenas a fonoaudióloga e os participantes. Essa intervenção, elaborada de acordo com as demandas apresentadas pelo grupo, buscou fazer com que cada repórter aprimorasse suas habilidades comunicativas, mais especificamente seus recursos expressivos, por meio de vivências, práticas e simulações de situações em contexto de fala. O planejamento da intervenção se baseou na aplicação do questionário, bem como na avaliação realizada pela pesquisadora no momento pré intervenção (explicitado anteriormente em 4.6.2). Durante todo processo de intervenção fonoaudiológica, foram utilizadas estratégias que visassem à percepção de cada sujeito em relação a si e ao restante do grupo. Para tal, áudio vídeo gravações de situações, em contexto simulado de apresentação de reportagem, foram realizadas. A descrição da intervenção encontra-se no Anexo IX, que detalha e comenta cada encontro. A Figura 1 explicita os procedimentos metodológicos em ordem cronológica. Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da PUC/SP Contato com emissora e repórteres Mapeamento do contexto ocupacional e das demandas + Avaliação Fonoaudiológica Coleta de amostra de fala pré intervenção fonoaudiológica Intervenção Fonoaudiológica (Seis encontros de 90 minutos = 09 horas) Coleta de amostra de fala pós intervenção fonoaudiológica Edição do Material Julgamento Telespectadores + Fonoaudiólogos Análise dos dados Figura 1: Apresentação cronológica dos procedimentos metodológicos desta pesquisa 5 RESULTADOS As tabelas 1 e 2 explicitam o julgamento do relato de notícia dos repórteres realizado pelos telespectadores. Os termos mais referidos para justificar a melhora da performance pré e pós intervenção encontram-se na tabela 3. As tabelas 4 e 5 apresentam os resultados referentes aos grupos com e sem ocupação, respectivamente acertos e erros e termos utilizados para referir a melhora dos repórteres. Da mesma forma, as tabelas 6, 7 e 8 ilustram os acertos e erros julgados pelas fonoaudiólogas e os termos mencionados pelas mesmas. Tabela 1- Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os acertos e erros realizado pelos telespectadores. Pré Pós Pós Pré Pré Pré Pós Pós Total R1 Acertos n % 51 51,0 45 45,0 78 78,0 78 78,0 252 63,0 n 49 55 22 22 148 % 49,0 55,0 22,0 22,0 37,0 <0,0001* Pós Pós Pré Pós Pós Pré Pré Pré Total R2 83 49 45 76 253 83,0 49,0 45,0 76,0 63,3 17 51 55 24 147 17,0 51,0 55,0 24,0 36,7 <0,0001* Pós Pré Pós Pós Pré Pós Pré Pré Total R3 58 71 45 72 246 58,0 71,0 45,0 72,0 61,5 42 29 55 28 154 42,0 29,0 55,0 28,0 38,5 <0,0001* 751 62,6 449 37,4 <0,0001* Combinações R1 R2 R3 Total Teste de Wilcoxon Rank Sum * significante Erros p-valor Tabela 2- Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica, julgado pelos telespectadores. Pré Pós n % n % Igual n % P-valor Pré X Pós R1 Pré pós Pós pré Total 19 11 30 19,0 11,0 15,0 51 45 96 51,0 45,0 48,0 30 44 74 30,0 44,0 37,0 <0,0001* <0,0001* <0,0001* R2 Pré pós Pós pré Total 8 8 16 8,0 8,0 8,0 49 45 94 49,0 45,0 47,0 43 47 90 43,0 47,0 45,0 <0,0001* <0,0001* <0,0001* R3 Pós pré Pré pós Total 6 14 20 6,0 14,0 10,0 58 45 103 58,0 45,0 51,5 36 41 77 36,0 41,0 38,5 <0,0001* <0,0001* <0,0001* Teste de Wilcoxon Rank Sum * significante 67 Tabela 3 - Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes, em relação aos repórteres (R1, R2 e R3) julgados pelos telespectadores. R1 Pré pós Pós pré Pré pré Pós pós Clareza n % 21 41,2 21 46,7 0 0 0 0 R2 Pós pós Pré pós Pós pré Pré pré 0 16 19 0 0,0 32,7 42,2 0,0 0 32 27 0 0,0 65,3 60,0 0,0 0 31 27 0 0,0 63,3 60,0 0,0 0 24 19 0 0,0 49,0 42,2 0,0 0,0038* 0,1294 - R3 Pós pré Pós pós Pré pós Pré pré 21 0 13 0 36,2 0,0 28,9 0,0 40 0 32 0 69,0 0,0 71,1 0,0 32 0 32 0 55,2 0,0 71,1 0,0 31 0 24 0 53,4 0,0 53,3 0,0 0,0057* <0,0001* - 111 37,9 196 66,9 177 60,4 150 51,2 <0,0001* Combinações Total Credibilidade n % 37 72,5 28 62,2 0 0 0 0 Teste de Kruskal-Wallis Rank Sum * Significante Segurança n % 33 64,7 22 48,9 0 0 0 0 Envolvimento n % 27 52,9 25 55,6 0 0 0 0 P-valor 0,0082* 0,4464 - 68 Tabela 4 - Distribuição numérica e percentual dos acertos julgados pelos telespectadores, segundo as diversas combinações em relação aos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os grupos com e sem ocupação. Com Ocupação n % Sem Ocupação n % P-valor R1 Pré pós Pós pré Pré pré Pós pós Total R1 30 26 39 38 133 60,0 52,0 78,0 76,0 66,5 21 19 39 40 119 42,0 38,0 78,0 80,0 59,5 0,0739 0,1627 1,0000 0,6344 0,1477 R2 Pós pós Pré pós Pós pré Pré pré Total R2 42 26 24 37 129 84,0 52,0 48,0 74,0 64,5 41 23 21 39 124 82,0 46,0 42,0 78,0 62,0 0,7952 0,5531 0,5512 0,6446 0,6049 R3 Pós pré Pós pós Pré pós Pré pré Total R3 27 35 24 36 122 54,0 70,0 48,0 72,0 61,0 31 36 21 36 124 62,0 72,0 42,0 72,0 62,0 0,4224 0,8299 0,5512 1,0000 0,8378 Total 384 64,0 367 61,2 0,3108 Combinações Teste de Wilcoxon Rank Sum * Significante 69 Tabela 5 - Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), segundo o grupo com presença e ausência de ocupação. Combinações Pré pós Pós pré R1 Pré pré Pós pós Pós pós Pré pós R2 Pós pré Pré pré Pós pré Pós pós R3 Pré pós Pré pré Total Cl n (%) 17 56,7 12 46,2 0 Com Ocupação Cr Se n n (%) (%) 25 19 83,3 63,3 18 12 69,2 46,2 0 0 En n (%) 18 60 13 50 0 Cl n (%) 4 19 9 47,4 0 Sem Ocupação Cr Se n n (%) (%) 12 14 57,1 66,7 10 10 52,6 52,6 0 0 En n (%) 9 42,9 12 63,2 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 8 30,8 9 37,5 0 17 65,4 16 66,7 0 18 69,2 15 62,5 0 12 46,2 10 41,7 0 8 34,8 10 47,6 0 15 65,2 11 52,4 0 13 56,5 12 57,1 0 12 52,2 9 42,9 0 10 37 0 17 63 0 15 55,6 0 12 44,4 0 11 35,5 0 23 74,2 0 17 54,8 0 19 61,3 0 9 37,5 0 20 83,3 0 16 66,7 0 12 50 0 4 19 0 12 57,1 0 16 76,2 0 12 57,1 0 65 41,4 113 72 95 60,5 77 49 46 33,8 83 61 82 60,3 73 53,7 Cl: Clareza ; Cr: Credibilidade ; Se: Segurança ; En: Envolvimento * Significante/ Teste de Kruskal- Wallis Rank Sum p-valor: com ocupação = <0,0001 sem ocupação = <0,0001 70 Tabela 6 - Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os acertos e erros realizado pelas fonoaudiólogas. Combinações Pré Pós Pós Pré R1 Pré Pré Pós Pós Total R1 n 3 3 2 1 9 Acertos % 100,0 100,0 66,7 33,3 75,0 R2 Pós Pós Pré Pós Pós Pré Pré Pré Total R2 3 1 1 1 6 100,0 33,3 33,3 33,3 50,0 0 2 2 2 6 0,0 66,7 66,7 66,7 50,0 0,5177 R3 Pós Pré Pós Pós Pré Pós Pré Pré Total R3 3 3 2 1 9 100,0 100,0 66,7 33,3 75,0 0 0 1 2 3 0,0 0,0 33,3 66,7 25,0 0,0457* 24 75,0 12 37,5 0,0232* Total Teste de Wilcoxon Rank Sum * Significante n 0 0 1 2 3 Erros % 0,0 0,0 33,3 66,7 25,0 p-valor 0,0457* 71 Tabela 7 - Distribuição numérica e percentual do julgamento das vozes dos repórteres (R1, R2 e R3), considerando os momentos pré e pós intervenção fonoaudiológica, julgado pelas fonoaudiólogas. R1 R2 R3 n Pré % n Pré pós Pós pré Total 0 0 0 0,0 0,0 0,0 3 3 6 Pré pós Pós pré Total 1 2 3 33,3 66,7 50,0 Pós pré Pré pós Total 0 0 0 0,0 0,0 0,0 Teste de Wilcoxon Rank Sum * Significante Pós % n Igual % P-valor Pré X Pós 100,0 100,0 100,0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0098* 1 1 2 33,3 33,3 33,3 1 0 1 33,3 0,0 16,7 0,7245 3 2 5 100,0 66,7 83,3 0 1 1 0,0 33,3 16,7 0,0184* 72 Tabela 8: Distribuição numérica e percentual dos termos mais referidos por quem acertou as combinações de vozes, em relação aos repórteres (R1, R2 e R3) julgados pelas fonoaudiólogas. R1 Pré pós Pós pré Pré pré Pós pós Clareza n % 2 66,7 2 66,7 0 0,0 0 0,0 R2 Pós pós Pré pós Pós pré Pré pré 0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 0 1 1 0 0,0 100,0 100,0 0,0 0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 R3 Pós pré Pós pós Pré pós Pré pré 2 0 2 0 66,7 0,0 100,0 0,0 0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 0 0 0 0 0,0 0,0 0,0 0,0 1 0 1 0 33,3 0,0 50,0 0,0 8 72,7 0 0,0 6 54,5 3 27,3 Combinações Total Credibilidade n % 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Segurança n % 2 66,7 2 66,7 0 0,0 0 0,0 Envolvimento n % 0 0,0 1 33,3 0 0,0 0 0,0 Teste de Kruskal-Wallis Rank Sum * Significante P-valor 0,0032 73 6 DISCUSSÃO Conforme explicitado na introdução desta dissertação, a presente pesquisa tomou como ponto de partida o trabalho de AZEVEDO (2007) defendido no mesmo programa de Pós-Graduação. O avanço aqui proposto foi na direção de, ao ser realizado no mesmo local proposto por AZEVEDO (2007) - emissora de TV universitária - atuar com outro tipo de profissional, no caso repórter, e fazer uso de estratégias de autopercepção, como princípio da intervenção fonoaudiológica. Se AZEVEDO (2007) analisou os efeitos da intervenção por ela proposta, a partir da perspectiva dos participantes e de telespectadores, para esta pesquisa optou-se pelos últimos e por fonoaudiólogas, com experiência na área de TV. A seguir, a discussão destaca os resultados desse julgamento, e finaliza com considerações a respeito da intervenção e da forma de análise utilizada. Os resultados da tabela 1 mostraram diferença significante (p<0,0001) a favor dos acertos julgados pelos telespectadores, na maioria das combinações de vozes dos três repórteres. Embora a diferença tenha sido significante na leitura dos acertos, verificou-se que R2 foi entre os três sujeitos estudados, o que apresentou menor porcentagem, quando comparado a R1 e R3. Esses acertos referiram-se às combinações de vozes semelhantes (pré pré e pós pós). A melhora apontada pelos telespectadores na performance dos três repórteres, no momento pós-intervenção fonoaudiológica foi registrada na Tabela 2, fato que revelou o efeito positivo da intervenção e corroborou com os achados da literatura (AZEVEDO 2007; SOUZA 2007). A pesquisa de AZEVEDO (2007) privilegiou a análise das variáveis sexo e idade na comparação dos telespectadores. Ao considerar que os achados de sua pesquisa não evidenciaram diferenças dessa natureza 74 entre os juízes, optou-se neste trabalho analisar a variável ocupação, e comparar os achados entre os grupos com e sem. Na comparação entre os acertos julgados pelos telespectadores dos grupos com e sem ocupação (Tabela 4), não foi observada diferença estatisticamente significante, fato que conduziu à conclusão de que no universo estudado (contexto universitário) não houve diferença nos julgamentos realizados. Apesar de constatada a diferença, foi possível observar que o grupo sem ocupação, composto exclusivamente por estudantes apresentou menos acertos nas combinações de vozes dos repórteres. Tal fato pode estar relacionado ao interesse e também à disponibilidade desse grupo, uma vez que demonstrou menor envolvimento com a pesquisa, talvez por realizarem o julgamento da gravação das vozes em intervalos de aula. Por outro lado, o grupo de pessoas com ocupação além de apresentar uma média de idade superior (33,0 anos) ao grupo sem ocupação, utilizou um tempo maior para avaliar as vozes, uma vez que não estava em horário de trabalho. Quanto ao julgamento realizado pelas fonoaudiólogas, este também foi efetuado de forma aleatória, por meio de avaliação perceptivoauditiva, e evidenciou que elas perceberam diferença estatisticamente significante nos relatos de notícias de R1 (p=0,0457) e R3 (p=0,0457) (Tabela 6). Ao contrário dos telespectadores, estas não perceberam diferença em relação a R2, e este foi quem apresentou maior porcentagem de erros. Tais achados vão ao encontro dos obtidos pelos telespectadores, embora em número não suficiente para apontar diferença estatística. As fonoaudiólogas julgaram melhor o momento pós-intervenção em maior número (Tabela 7), dado que corroborou com os encontrados pelos telespectadores. Pode-se concluir que, tanto o telespectador, público alvo do telejornalismo, quanto as fonoaudiólogas, profissionais com técnica especializada, apresentaram avaliações próximas em relação às 75 combinações apresentadas por todos os repórteres (inclusive R2) e reconheceram diferença a favor do momento pós-intervenção. O discurso apresentado por R2 ao final do processo de intervenção pode estar relacionado ao fato desse repórter não ter incorporado o trabalho realizado da mesma forma que R1 e R3: “Acredito que devido aos atrasos que apresentei, por ter outro emprego, não pude me dedicar integralmente, senti que poderia ter me dedicado bem mais”. A proposta do programa de intervenção, pelos resultados dos juizes, contribuiu para sensibilizar os repórteres acerca da utilização dos recursos expressivos de forma mais consciente. FEIJÓ (2003) afirma que as variações na comunicação oral são utilizadas pelos falantes de forma inconsciente. Contudo, no que se refere aos profissionais do telejornalismo, sua fala pode ser construída e, dessa forma, o fonoaudiólogo, ao propor atividades para trabalhar os parâmetros inerentes à expressividade oral possibilita, aos participantes fazerem uso de diferentes sons e perceberem os efeitos por eles gerados. Provavelmente, o efeito positivo deu-se ao fato de ter sido considerada a aprendizagem singular dos envolvidos, com respeito às experiências que cada um trouxe, e a sua forma e ritmo de aprendizagem próprios (ZABALA, 1998). O fato de o trabalho ter sido realizado com um grupo pequeno parece ter potencializado esses princípios. Cabe lembrar que nenhum dos participantes submeteu-se anteriormente a um processo dessa natureza, o que imprimiu maior valor à proposta colocada em prática. Todos os termos apresentados no protocolo foram considerados pelos telespectadores, com registro de diferença significante (p<0,0001), credibilidade foi o mais mencionado (66,9%) (Tabela 3), fato também observado entre os grupos com e sem ocupação. (72,0% e 61,0% respectivamente) (Tabela 5). 76 Diferentemente, para as fonoaudiólogas, o termo mais referido foi clareza (72,7%), com diferença estatisticamente significante (0,0032*), (Tabela 8) Dessa forma, pôde-se concluir que credibilidade (para os telespectadores) e clareza (para os fonoaudiólogos) foram os termos que expressaram em maior número a melhora na performance dos repórteres no momento pós intervenção fonoaudiológica. Na literatura esses termos são utilizados para definir a fala de profissionais de TV, incluindo os repórteres (MACIEL 1994; FEIJÓ 2003; COTES 2003; FRANÇA 2003; entre outros). Embora não tenha sido objetivo deste trabalho, a análise dos parâmetros presentes ao se comparar os momentos pré e pósintervenção fonoaudiológica entre si, evidenciou que houve mudança nos relatos. Tal Mudança pode ser registrada, relacionada a diferente forma de enfatizar as palavras, com uso de parâmetros como pausa, curva melódica, articulação, entre outros, com mais propriedade por parte dos repórteres. Num primeiro momento pode-se dizer que, para as fonoaudiólogas, especialistas na área, o parâmetro de articulação parece ter sido mais privilegiado, quando as mesmas perceberam mais clareza no relato. O arranjo diferenciado das pausas pode ter sido responsável para transmitir a credibilidade, que foi observada pelos telespectadores. Importante lembrar porém, que todos os parâmetros podem de forma integrada, produzir efeitos que dão a quem ouve, maior clareza e credibilidade. Pesquisadores atuantes na área televisiva (KYRILLOS et al. 2002; COTES 2005; TORRES 2005; STIER e COSTA NETO 2005) afirmaram que há a necessidade do profissional de TV utilizar padrão de voz que garanta atenção dos telespectadores, transmita a notícia com interpretação e credibilidade, e que para isso é necessário que esse profissional tenha plasticidade e habilidade vocal. Certamente o programa aqui proposto, alcançou seu objetivo de sensibilizar os envolvidos. 77 Além, da discussão dos achados, algumas considerações a respeito da proposta de intervenção serão explicitadas, com o intuito de contribuir para próximas pesquisas. O primeiro aspecto, diz respeito ao mapeamento das condições do contexto ocupacional e das demandas, que serviu para nortear o planejamento das ações. Este foi realizado no momento pré-intervenção fonoaudiológica e executado de duas formas: por meio de aplicação de questionário para levantar informações sobre a voz e contexto de trabalho, e avaliação fonoaudiológica, segundo proposta de KYRILLOS (2003b) que contemplou recursos vocais, verbais e não verbais. Esse mapeamento se constituiu em um instrumento de importância para conhecer o grupo participante do processo, e as demandas trazidas por eles, e a partir disso, elaborar um programa de intervenção fonoaudiológica direcionado para suas reais necessidades. Foi observado por meio do questionário que o grupo apresentou ausência de conhecimentos sobre saúde vocal, bem como relato de alguns problemas de saúde geral (digestivos, circulatórios, entre outros). Por meio da avaliação fonoaudiológica, foi possível perceber a utilização inadequada de alguns recursos considerados importantes para uma boa atuação profissional. Diante desse fato, pôde-se observar que o mapeamento direcionou os aspectos que foram abordados na intervenção, e essa foi elaborada com base nas demandas trazidas por um grupo específico, que apresentavam necessidades particulares. Nessa direção, foram consideradas as diretrizes dadas por FERREIRA (2004) de mapear as condições de produção vocal dos envolvidos antes de qualquer intervenção, e a realização de um diagnóstico da real necessidade dos envolvidos para estabelecer um plano de ação, que pode ser modificado de acordo com o andamento do trabalho fonoaudiológico e suas observações. Segundo a autora, o mesmo deve conter descrição das ações, com definição dos responsáveis, estabelecimento de prazos, prioridades e estratégias adequadas aos profissionais. 78 Optou-se para esta pesquisa trabalhar com os participantes em grupo, uma vez que com relação ao trabalho em grupo, VILELA e FERREIRA (2006) concluíram que esse atua como potente forma de intervenção. Tal estratégia possibilita uma dinâmica interativa entre as características sócio-históricas dos envolvidos e, dessa forma, cada qual se transforma no grupo, ao mesmo tempo em que é transformado por ele. GIANNINI e PASSOS (2006) compartilharam da mesma opinião, e acrescentaram que essa estratégia é fundamental para construção de importante espaço terapêutico, além de se constituir em um lugar de acolhimento e identificação, uma vez que os participantes compartilham as mesmas condições de ambiente e contexto profissional, e, com isso, os grupos se transformam em um lugar para descobrir formas de produzir a voz com menos esforço ou, no caso desta pesquisa, sensibilizar para diferentes possibilidades de fala construída. Ao relatar experiências com grupos de saúde vocal, SIMÃO e CHUN (1997) falaram da opção pelos grupos como forma de facilitar o processo de percepção de si, da própria situação e a dos outros. CHUN em outra obra (1998), acrescentou que, ao realizar intervenção fonoaudiológica com educadoras de escolas municipais, verificou, pelo relato das participantes, que essas reconheceram o trabalho vocal em grupo como responsável pelas mudanças registradas. Outros trabalhos realizados com grupos de diversas naturezas, também comprovaram o resultado positivo dessa modalidade ( BERGMANN 1998; SALES 1998; LOPES 2000; KYRILLOS 2005). O fato dos participantes serem estagiários e, portanto conciliarem também os deveres de estudante, fez com que mais uma vez fosse registrada incompatibilidade de horários e a carga horária proposta para a intervenção trouxesse problemas entre repórteres e pesquisadora. Um consenso sobre qual horário seria estabelecido para os encontros e respeitar o mesmo constituiu-se em um empecilho constante, verificado pelos atrasos e encurtamento do processo. Apesar de ter trabalhado com repórteres, esse achado corroborou o encontrado por AZEVEDO (2007) 79 que destacou a dificuldade encontrada pelos participantes em cumprir o horário pré estabelecido. Na leitura das fontes bibliográficas não é possível concluir sobre a carga horária ideal. Contudo, vale enfatizar que, apesar da intervenção fonoaudiológica ter sido realizada em curto período de tempo (nove horas no total), esta mostrou-se efetiva à medida que produziu melhora evidente na performance dos repórteres, segundo julgamento dos telespectadores e fonoaudiólogos. Provavelmente a obtenção desse efeito, em tempo restrito, pode estar relacionada ao fato que ao atuar na TV, os profissionais apresentam uma fala construída no momento do relato de notícia, o qual apesar de lida ou decorada, deve ser falada de forma natural. Em contrapartida, na comunicação espontânea, os recursos são utilizados de forma inconsciente e traduzem o contexto sócio-historico do falante. Mudanças nesse contexto, portanto necessitam de um processo mais longo. Em virtude do pouco tempo destinado à intervenção fonoaudiológica, e por acreditar na interação entre os aspectos verbais e não-verbais esses foram trabalhados de forma conjunta, sendo os últimos contemplados, especificamente, em apenas dois encontros. Na literatura pesquisada, vários autores preconizam essa interação e serviram de base para o presente trabalho. Para KYRILLOS (2005) quando verbal e não-verbal caminham juntos, a eficiência da comunicação é maior. MERCATELLI (2005) corroborou com essa afirmação, e acrescentou, ainda, que é importante que o outro para quem se fala compreenda não só a informação, mas seu verdadeiro sentido, e por isso, a voz, clareza da articulação, gestos, vocabulário, expressão facial e corporal, e aparência, são necessários nesse processo, visto que qualquer alteração em um desses elementos pode desviar a atenção do ouvinte e comprometer o enunciado. Outro aspecto a ser ressaltado está relacionado às publicações fonoaudiológicas com foco em intervenção, que em muitos casos apenas aborda os recursos vocais (FERREIRA e RICCI 1999; GIROTO e 80 MARTINS 2000; CASSOL 2002; TEIXEIRA et al. 2003; PETER e SOUTO 2004; STIER e FEIJÓ 2004; CAMARGO e PENTEADO 2004; STIER e FEIJÓ 2005). Vale ressaltar que, apesar dos repórteres aqui trabalhados apresentarem mais dificuldades com os recursos vocais, a comunicação não verbal, como gestos, postura e expressão facial, mesmo que com menor periodicidade (dois encontros), não deixaram de ser contemplados dada a sua importância, uma vez que estes complementam e auxiliam na composição da oralidade. Para MADUREIRA (2005), toda fala é expressiva e no contexto profissional, apesar dos profissionais apresentarem uma fala que é construída, deve transparecer naturalidade ao ouvinte, e, dessa forma acredita-se que a abordagem dos recursos vocais, verbais e não-verbais, contemplados no processo de intervenção, tenham favorecido essa condição. Observou-se, durante os encontros de intervenção fonoaudiológica, boa aceitação em relação às atividades e estratégias pelos participantes. Acredita-se que, principalmente quando se trata de estagiários, o acompanhamento fonoaudiológico dos profissionais, ao longo de sua atuação, para internalizar de forma mais concreta os parâmetros, é essencial para favorecer uma comunicação mais efetiva. A expressividade oral é um assunto que tem sido estudado na área fonoaudiológica desde o começo da década de 70, do século passado, quando as obras de MELLO (1972) e de SOARES, PICCOLOTTO (1977) foram apontadas como pioneiras. Inúmeros esforços têm sido realizados na tentativa de elucidar a questão da expressividade e o programa de Estudos Pós-graduados em Fonoaudiologia da PUC/SP, por meio de mostras e seminários tem abordado essa temática como foco das discussões, as quais contribuíram para a elaboração do programa de intervenção fonoaudiológica aqui estudado. 81 Na literatura, poucos são os estudos que envolvem a temática da expressividade (COTES 2000; GIMENES 2003; SANTOS 2006; VIOLA 2006; GHIRARDI 2007; MOREIRA FERREIRA 2007), e apenas dois discutem a questão da expressividade em contexto de intervenção (AZEVEDO 2007; SOUZA 2007). Outra estratégia que mostrou efeito positivo durante o processo de intervenção fonoaudiológica relacionou-se ao recurso da auto- percepção, trabalhado por meio de áudio vídeo gravação, utilizado com os participantes e seus colegas. Este recurso proporcionou aos sujeitos noções dos aspectos que poderiam melhorar em si e nos demais indivíduos, uma vez que eles tinham retorno, por meio do vídeo de suas performances durante os encontros, o que favorecia uma discussão entre eles sobre os recursos que poderiam ser aprimorados. Acredita-se que esse recurso, trabalhado em cinco encontros, tenha contribuído de forma efetiva para a melhora advinda do julgamento dos telespectadores e fonoaudiólogas, em relação ao desempenho dos três repórteres pós intervenção. O relato de R1 pós intervenção confirmou essa hipótese, quando disse que: “As gravações realizadas para analisar comportamentos (postura, respiração, entonação) foram essenciais”. Esse aspecto corroborou com o trabalho de AZEVEDO (2007) que referiu efeito positivo desse recurso na comunicação dos jornalistas, apesar de ter utilizado poucas vezes. Ao enfatizar que o indivíduo consegue se auto perceber e ter conhecimento aprendido com essa prática, a autora concluiu que esse foi o ponto positivo mais referido pelos participantes. KYRILLOS (2003b) afirmou que, ao ter consciência do próprio corpo, da voz e do conhecimento dos fatores que interferem em sua produção, pode-se com certeza atingir a melhor atuação profissional. O interesse em realizar uma intervenção fonoaudiológica surgiu, uma vez que a literatura comprovou um escassez de trabalhos com profissionais da TV, quando comparados aos demais profissionais que utilizam a voz como instrumento de trabalho. Esse dado pode ser verificado, também, com base em levantamento realizado em 2004, pela 82 SOCIEDADE BRASILEIRA DE FONOAUDIOLOGIA, publicado em obra que organiza a produção científica de fonoaudiólogos no Brasil, no qual KYRILLOS (2004b) responsável pelas pesquisas sobre telejornalismo, encontrou apenas 49 fontes, sendo 11 (27%) sobre atuação fonoaudiológica e 14 (34%) sobre a temática da expressividade. Outro aspecto importante contemplado referiu-se à elaboração do programa de intervenção fonoaudiológica. Primeiramente, pretendia-se estruturar um programa com foco na expressividade oral e corporal dos sujeitos, porém, ao realizar avaliação fonoaudiológica, a pesquisadora, especialista em voz, observou maior demanda voltada aos recursos vocais, e, dessa forma, a comunicação não-verbal foi contemplada em menor número de encontros. Segundo FERREIRA (2002), o trabalho com esses recursos não pode ficar apenas no campo da informação. Vivências devem ser propostas, com o desafio de levar o participante a incorporar, o que é trabalhado no seu dia-a-dia, quer pessoal, quer profissional. Avaliar os efeitos de uma intervenção na Fonoaudiologia tem sido tarefa difícil e um constante desafio na tentativa de encontrar formas adequadas. Há na literatura tendência para realizar a análise dos efeitos de forma subjetiva, com parecer advindo do próprio pesquisador ou dos demais envolvidos (CAMARGO e PENTEADO 2004; MARTINEZ e SILVA, 2004 entre outros). Tal modalidade, apesar de ser importante, não traz informações mais objetivas sobre as mudanças efetuadas, a partir da proposta de intervenção, percebidas por terceiros. Nesta pesquisa, optou-se por realizar uma análise dos efeitos a partir de coleta de amostra de fala pré e pós-intervenção. Se AZEVEDO (2007) avançou ao propor algo semelhante, o elemento diferencial nessa dissertação foi apresentar os momentos pré e pós, em todas as suas combinações. Apesar da complexidade da proposta, esta mostrou-se satisfatória, e vai na direção de maximizar a objetividade da análise. Importante registrar, porém, que a subjetividade inerente a qualquer processo de 83 ensino-aprendizagem não permite afirmar que todas as vezes que a proposta aqui descrita for aplicada, até mesmo em grupo semelhante ao trabalhado, igual efeito será registrado. È no interior dessa subjetividade que reside o desafio do fonoaudiólogo de, ao entender que cada um dos participantes afeta-se de maneira singular, buscar sensibilizar todos os envolvidos na direção de entender os conceitos apresentados, e mudar de atitude ao incorporar o que está sendo trabalhado (ZABALA 1998; FERREIRA E CHIEPPE, 2005) Finalizando, é importante destacar que a proposta de intervenção fonoaudiológica aqui apresentada constituiu-se em mais uma possibilidade de atuação para fonoaudiólogos, com profissionais de TV (FERREIRA E RICCI 1999, CASSOL 2002; SERVILHA 2002; TEIXEIRA et al. 2003; PETER e SOUTO 2004; STIER e FEIJÓ 2004; CAMARGO e PENTEADO 2004; VIEIRA 2005; STIER e FEIJÓ 2005; AZEVEDO 2007, LOPES et al. 2007, SOUZA 2007). Além disso, em futuras pesquisas com profissionais de TV acreditase que todas as considerações aqui apresentadas devem ser ponderadas. A questão da carga horária, que a princípio pode ser entendida como inerente ao profissional estagiário, por acumular as funções de estudante, parece se manter nos profissionais, uma vez que, no meio televisivo o tempo é priorizado e contabilizado. Contar com a presença de um fonoaudiólogo, em um acompanhamento ao longo da profissão, deve se constituir na meta de todos os profissionais de TV, uma vez que, a cada momento, novas formas de relatar notícias surgem, numa tendência de naturalizar cada vez mais tal expressão. Segundo COTES (2008), a evolução no telejornalismo evidencia uma tendência de afastamento do estilo de leitura, para uma aproximação de estabelecer uma interlocução mais natural com o público. Sensibilizar os profissionais para perceberem como diferentes composições dos sons podem gerar sentidos diversos é papel primordial do fonoaudiólogo. 84 7 CONCLUSÕES A partir dos resultados obtidos, pode-se concluir que o programa de intervenção fonoaudiológica, que contemplou, predominantemente, o trabalho com parâmetros de expressividade oral, a partir de estratégias de auto-percepção, gerou efeito positivo no relato de notícias dos três repórteres participantes. Esse foi percebido por telespectadores nos três repórteres e por fonoaudiólogas, em pelo menos dois. Os juízes apontaram para a melhora da credibilidade (fonoaudiólogas), na transmissão da notícia. (telespectadores) e clareza 85 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Azevedo JBM, Moura Carvalho R. Análise da performance vocal de apresentadores de telejornal. [Trabalho de conclusão de curso]. Belém: Universidade da Amazônia / UNAMA; 2003. Azevedo J.B.M. 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PUC- SP Rua Monte Alegre, 984 CEP: 05014 -000 – Perdizes 1.Título do estudo: Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres. 2. Propósito do estudo: Analisar o efeito de uma proposta de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres, a partir do julgamento realizado por fonoaudiólogos e telespectadores. 3. Procedimentos: Serei solicitado a realizar uma avaliação da gravação dos repórteres após intervenção fonoaudiológica. Nessa avaliação, devo opinar se os relatos estão iguais ou diferentes, se diferentes qual o melhor, e assinalar aspectos que justifiquem essa melhora. 4. Riscos e desconfortos: Não existem riscos ou desconfortos associados com este projeto. 5. Benefícios: Compreendo que não existem benefícios diretos para mim como participante neste estudo. Entretanto os resultados deste estudo podem ajudar os pesquisadores a avaliar os resultados da intervenção fonoaudiológica direcionada a demanda de repórteres. 6. Direitos do participante: Eu posso me retirar deste estudo a qualquer momento. 7. Compensação financeira: Fui esclarecido de que não haverá remuneração financeira. 8. Confidencialidade: Compreendo que os resultados deste estudo poderão ser publicados em jornais profissionais ou apresentados em congressos profissionais, mas que, minha opinião não será revelada a menos que a lei o requisite. 9. Se tiver dúvidas posso telefonar para Fga Luciana Leite Mesquita Trindade, no número (011) 84669445, a qualquer momento. 98 Anexo III TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO A FONOAUDIÓLOGAS Nome do participante:...............................................................Data................ Pesquisador: Luciana Leite Mesquita Trindade. PUC- SP Rua Monte Alegre, 984 CEP: 05014 -000 – Perdizes 1Título do estudo: Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres. 2. Propósito do estudo: Analisar o efeito de uma proposta de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres, a partir do julgamento realizado por fonoaudiólogos e telespectadores. 3. Procedimentos: Serei solicitada a realizar uma avaliação da gravação dos repórteres após intervenção fonoaudiológica. Nessa avaliação, devo opinar se os relatos estão iguais ou diferentes, se diferentes qual o melhor, e assinalar aspectos que justifiquem essa melhora. 4. Riscos e desconfortos: Não existem riscos ou desconfortos associados com este projeto. 5. Benefícios: Compreendo que não existem benefícios diretos para mim como participante neste estudo. Entretanto os resultados deste estudo podem ajudar os pesquisadores a avaliar os resultados da intervenção fonoaudiológica direcionada a demanda de repórteres. 6. Direitos do participante: Eu posso me retirar deste estudo a qualquer momento. 7. Compensação financeira: Fui esclarecido de que não haverá remuneração financeira. 8. Confidencialidade: Compreendo que os resultados deste estudo poderão ser publicados em jornais profissionais ou apresentados em congressos profissionais, mas que, minha opinião não será revelada a menos que a lei o requisite. 9. Se tiver dúvidas posso telefonar para Fga Luciana Leite Mesquita Trindade, no número (011) 84669445 a qualquer momento. 99 Anexo IV TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE ESCLARECIDO AOS REPÓRTERES Nome do participante:......................................................Data................ Pesquisador: Luciana Leite Mesquita Trindade PUC- SP Rua Monte Alegre, 984 CEP: 05014 -000 - Perdizes 1. Título do estudo: Julgamento do efeito de um programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres. 2.Propósito do estudo: Analisar o efeito de uma proposta de programa de intervenção fonoaudiológica na expressividade oral de repórteres, a partir do julgamento realizado por fonoaudiólogos e telespectadores. 3 Procedimentos: Serei solicitado a comparecer a um processo de intervenção fonoaudiológica a ser realizado durante um período de 6 encontros, com uma carga horária de 1 hora e 30 minutos cada encontro, totalizando 9 horas de intervenção fonoaudiológica, com o objetivo de aprimorar minha comunicação, e conseqüente, atuação profissional. 4 Riscos e desconfortos: Não existem riscos ou desconfortos associados com este projeto. 5 Benefícios: Compreendo que não existem benefícios diretos para mim como participante neste estudo. Entretanto os resultados deste estudo podem ajudar os pesquisadores a avaliar os resultados da intervenção fonoaudiológica direcionada a demanda de repórteres. 6 Direitos do participante: Eu posso me retirar deste estudo a qualquer momento. 7 Compensação financeira: Fui esclarecido de que não haverá remuneração financeira. 8 Confidencialidade: De forma a registrar exatamente o meu desempenho pré e pós intervenção fonoaudiológica, um registro em vídeo será usado. Deste vídeo será realizada apenas a análise em áudio, por fonoaudiólogas especialistas em voz e atuantes no telejornalismo e por telespectadores. Compreendo que os resultados deste estudo poderão ser publicados em jornais profissionais ou apresentados em congressos profissionais, mas que, minhas gravações não serão reveladas a menos que a lei o requisite. 9 Se tiver dúvidas posso telefonar para Fga. Luciana Leite Mesquita Trindade, no número (011) 84669445 a qualquer momento. 100 Anexo V PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO DOS TELESPECTADORES Você ouvirá 12 combinações de vozes de três diferentes repórteres. Em seguida, baseado no protocolo, você deve assinalar se os relatos estão iguais ou diferentes. Caso estejam diferentes você deve marcar qual a melhor gravação (primeira ou segunda) e assinalar uma ou mais opções que definam essa melhora. Os relatos são: ( ) Iguais ( ) Diferentes Se diferentes, qual é o melhor? ( ) O primeiro ( ) O segundo Assinale uma ou mais opções que definem essa melhora: ( ( ( ( ) A notícia ficou mais clara ) O repórter transmite mais credibilidade ) O repórter transmite maior segurança ao falar ) Você se sente mais envolvido com a notícia. 101 Anexo VI PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO DAS FONOAUDIÓLOGAS Você ouvirá 12 combinações de vozes de três diferentes repórteres. Em seguida, baseado no protocolo, você deve assinalar se os relatos estão iguais ou diferentes. Caso estejam diferentes você deve marcar qual a melhor gravação (primeira ou segunda) e assinalar uma ou mais opções que definam essa melhora. Os relatos são: ( ) Iguais ( ) Diferentes Se diferentes, qual é o melhor? ( ) O primeiro ( ) O segundo Assinale uma ou mais opções que definem essa melhora: ( ( ( ( ) A notícia ficou mais clara ) O repórter transmite mais credibilidade ) O repórter transmite maior segurança ao falar ) Você se sente mais envolvido com a notícia. 102 Anexo VII PROTOCOLO DE AVALIAÇÃO FONOAUDIOLÓGICA Central Globo de Jornalismo II Encontro Nacional de Fonoaudiólogos – Rede Globo (Kyrillos, 2003) Qualidade vocal Tipo: Neutra ( ) Não neutra ( ) severo de desvio ( ) Ressonância Equilibrada ( ) Desviada ( ) Alterada – grau Predomínio – foco ressonantal ( ) Pitch Grave ( ) Médio ( ) Agudo ( ) Loudness Forte ( ) Médio ( ) Fraco ( ) Articulação Precisa ( ) Imprecisa ( ) Distorcida ( ) Velocidade Média ( ) Indiferenciada ( ) Lenta ( ) Travada ( ) Exagerada ( ) Acelerada ( ) Coordenação Pneumofonoarticulatória Presente ( ) Ausente ( ) Ataque vocal Brusco ( ) Isocrônico ( ) Aspirado ( ) Ênfase:_______________________________________________________ Pausas: _____________________________________________________________ Curva melódica: Ascendente ( ) Descendente ( ) Ritmo: Repetitivo ( ) Monótono ( ) Variações Loudness:_____________________________________________________ Pitch: _____________________________________________________________ 103 Velocidade: _____________________________________________________________ Expressão facial (olhos/boca): _____________________________________________________________ Postura corporal: _____________________________________________________________ Uso de gestos: _____________________________________________________________ Meneios de cabeça: _____________________________________________________________ 104 Anexo VIII A avaliação fonoaudiológica dos repórteres realizada no momento pré-intervenção, foi feita com base em proposta de KYRILLOS (2003b) que abordou recursos vocais, verbais e não verbais. Com a aplicação do questionário pré-intervenção fonoaudiológica, os dados foram levantados, contemplando-se aqui apenas os mais relevantes, alguns deles trabalhados durante os encontros de intervenção fonoaudiológica. Repórter 1, sexo feminino, 20 anos; é repórter há 11 meses, e atua em apenas uma emissora de TV. Na avaliação, observou-se qualidade vocal do tipo neutra, ressonância com predomínio de foco ressonantal, pitch agudo, loudness média, articulação precisa, velocidade acelerada, coordenação pneumofonoarticulatória presente, ataque vocal isocrônico, uso limitado de ênfases, pouco uso de pausas, curva melódica ascendente, ritmo repetitivo e variações de velocidade (inicia o discurso acelerado e vai adequando de acordo com o contexto). Com relação à comunicação não-verbal, foram observadas face expressiva de acordo com o conteúdo da mensagem, postura corporal inadequada (corpo inclinado para frente), bom uso de gestos e presença de movimentos acertivos de cabeça para marcar ênfases. SITUAÇÃO FUNCIONAL Trabalha na TV de 20 a 30 horas por semana; refere que, às vezes considera calmo o ambiente de trabalho. Afirma que o local é ruidoso, e que o barulho é proveniente da voz das pessoas. Afirma que a temperatura da TV é fria, devido aos equipamentos existentes na sala de edição. Segundo relato desse repórter, os fatores do ambiente de trabalho sempre interferem na sua vida pessoal ou em sua saúde. ASPECTOS GERAIS DE SAÚDE R1, às vezes apresenta problemas circulatórios (dor nas pernas); e sempre fica resfriado e com dor de ouvido. HÁBITOS R1 sempre consome bebidas alcoólicas (cerveja, pinga); as vezes alimenta-se em horários regulares e nunca evita nenhum tipo de alimento. Sempre apresenta estalos e desvio de queixo, e às vezes tem dificuldades em abrir a boca. ASPECTOS VOCAIS R1 apresentou alterações na voz, porém nunca realizou tratamento especializado para este problema; às vezes sente a garganta seca. Nunca 105 recebeu orientações sobre cuidados com a voz. Às vezes fala muito no trabalho e raramente bebe água durante uso da voz. Repórter 2, sexo masculino, 22 anos; é repórter há oito meses, e atua em duas emissoras de TV. Na avaliação fonoaudiológica, observou-se qualidade vocal do tipo neutra, ressonância com predomínio de foco ressonantal, pitch grave, loudness fraco, articulação indiferenciada, velocidade lenta, coordenação pneumofonoarticulatória presente, ataque vocal isocrônico, uso de ênfases marcado apenas por aumento de intensidade, não utiliza pausas expressivas, curva melódica descendente, ritmo monótono, velocidade lenta com poucas variações ao longo do discurso. Com relação à comunicação não-verbal, foram observadas expressão facial marcada por movimentos de sobrancelhas, postura corporal adequada, uso de gestos repetitivos (uso de uma das mãos e a outra colada ao lado do corpo), e utilização de meneios de cabeça para acompanhar ênfases. SITUAÇÃO FUNCIONAL Trabalha na TV de 10 a 20 horas por semana, relata que, às vezes o ambiente de trabalho é calmo; afirma que o local é ruidoso, que o barulho é proveniente da voz das pessoas; segundo relato desse repórter, os fatores do ambiente de trabalho sempre interferem na sua vida pessoal ou em sua saúde. ASPECTOS GERAIS DE SAÚDE R2, às vezes apresenta azia, gastrite e problemas de coluna. HÁBITOS R2 sempre consome bebidas alcoólicas (cerveja), às vezes se alimenta em horários regulares e nunca evita qualquer tipo de alimento. ASPECTOS VOCAIS R2 apresentou alterações na voz, porém nunca realizou tratamento especializado para esse problema; raramente apresenta rouquidão, pigarro, tosse com catarro e secreção/ catarro na garganta. Nunca recebeu orientações sobre cuidados com a voz; raramente grita, às vezes fala muito, em lugares abertos, e às vezes bebe água durante uso da voz. Repórter 3, sexo feminino, 22 anos; é repórter há sete meses, e atua em uma única emissora de TV. Na avaliação fonoaudiológica, observou-se qualidade vocal neutra, ressonância com predomínio de foco ressonantal, pitch agudo, loudness fraca, articulação indiferenciada, velocidade média, coordenação pneumofonoarticulatória presente, ataque vocal brusco, utilização de ênfases não condizentes com o discurso, poucas pausas, curva melódica descendente, ritmo repetitivo e variações de velocidade de média para acelerada. Com relação à comunicação não-verbal, observou-se 106 expressão facial com movimentos rápidos, pouca utilização de gestos (mãos coladas ao corpo) e boa utilização de meneios de cabeça. SITUAÇÃO FUNCIONAL Trabalha na TV de 30 a 40 horas por semana e refere que o ambiente de trabalho é sempre calmo. Afirma que, às vezes a emissora de TV é ruidosa e que o ruído advém da própria sala. ASPECTOS GERAIS DE SAÚDE R3 afirma que, às vezes, tem sinusite e amigdalite, e sempre tem resfriados. Com relação a problema de audição, refere às vezes apresentar, dificuldade para ouvir, dor de ouvido e tonturas/vertigens. HÁBITOS R3 sempre consome bebidas alcoólicas (cerveja). ASPECTOS VOCAIS R3 já apresentou alterações na voz, porém, nunca realizou tratamento especializado para esse problema. Às vezes apresenta voz fina e garganta seca. Já recebeu orientações sobre cuidados com a voz, e fala muito em lugares abertos. 107 Anexo IX DESCRIÇÃO DOS ENCONTROS Do quadro 1 ao 6, encontra-se a descrição dos encontros de intervenção fonoaudiológica, separadamente, com objetivos, estratégias utilizadas e comentários. As estratégias são inerentes à atuação profissional junto a profissionais da voz; e a literatura, quando possível foi referida. As gravações pré e pós-intervenção fonoaudiológica foram realizadas em dias separados aos encontros, assim como a devolutiva para emissora e direção da TV. 108 Quadro 1: Descrição do primeiro encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos -Promover integração entre pesquisadora e sujeitos participantes; -Comentar sobre os dados do questionário de saúde geral e trabalhar noções de saúde vocal; -Verificar a percepção dos repórteres sobre atuação fonoaudiológica; -Explicar o mecanismo de produção vocal (localização da laringe, pregas vocais, etc); -Enfatizar importância do exercício de alongamento corporal, aquecimento e desaquecimento vocal para atuação profissional. - Promover adequação do padrão respiratório - Treinar articulação dos repórteres. Estratégias -Em círculo por meio de uma conversa informal, a pesquisadora apresentou-se e cada participante falou seu nome, idade, há quanto tempo atua na emissora e o que espera do processo de intervenção fonoaudiológica; -Os dados encontrados no questionário, com destaque aos mais relevantes referidos pelos sujeitos, foram comentados, e a partir daí realizada uma atividade sobre hábitos vocais (adequados e inadequados). Cada participante virava uma figura que apresentava um tipo de hábito e discorria sobre a mesma. Foi explicado aos sujeitos que cada um dos aspectos comentados interfere de forma diferente nos mesmos e que existem também maneiras diversas de lidar com esses hábitos. -Os participantes foram questionados sobre o que consideram importante no trabalho fonoaudiológico com repórter/telejornalista por meio de uma pergunta. -Foi abordada a questão da produção vocal, por meio de figuras ilustrativas e percepção (mãos na região da garganta-vibração). -Foram realizados exercícios de alongamento corporal, aquecimento e desaquecimento vocal por meio de exercícios específicos. - Exercícios respiratórios referentes à inspiração pelo nariz e expiração pela boca - Controle respiratório (entrada e saída do ar) - Trabalhar a articulação dos sujeitos, por meio de frases com trava línguas, aliterações, rimas e seqüências articulatórias. Atividades * Alongamento: - braços para cima -braços para baixo -braços para trás com as mãos cruzadas -tronco para baixo com os dedos tocando o chão -Ficar na ponta do pé, erguendo os braços até o máximo que conseguir -Rotação de cabeça (movimentos de sim, não, talvez) * Aquecimento: -sopro+som fino+vibração de lábios/língua -voz crepitante Desaquecimento: -escalas descendentes - bocejo suspiro -“b” prolongado Respiração: Inspiração pelo nariz e expiração pela boca - Enfatizada a importância da respiração costodiafragmática; - Inspirar 5 tempos, manter e soltar em 5; - Inspirar pelo nariz e soltar pela boca com a emissão dos sons fricativos (/s/ e /z/) e soltar controlando a saída do ar. 109 - OBS: Para os participantes que apresentavam dificuldades na percepção da respiração, foi solicitado o uso de apoio das mãos na região do diafragma. * Atividades realizadas por KYRILLOS (2008) com universitários do Curso de Jornalismo da PUC/SP. -Articulação: -Trava línguas retirado do Conselho Regional de Fonoaudiologia (2º região/ São Paulo) (http://www.fonosp.org.br/publicar/conteudo.php?id=435) -Seqüências articulatórias: Proposta por RECTOR e COTES (2005) pg 72. Exercícios articulatórios (com os trava línguas e com as seqüências articulatórias) - Sobrearticulação; - Leitura somente de vogais; - Fala mastigada; - Articulação travada - Leitura com rolha Comentários Dois sujeitos chegaram ao local da intervenção fonoaudiológica pontualmente (R1 e R3). Um (R2) ficou impossibilitado pois atuava em outra emissora de TV. O momento inicial foi à colhida, com conversas informais. A fonoaudióloga apresentou-se e solicitou que sentassem em semicírculo e que cada um falasse seu nome, idade, há quanto tempo atuava na emissora e se já tinha passado por algum tipo de treinamento ou intervenção fonoaudiológica, anteriormente realizado por fonoaudiólogo. Os participantes se conheciam, o que ajudou na fluidez da conversa. Todos eram da cidade de São Paulo e nunca haviam realizado treinamento e/ou intervenção. R3 que era filha de fonoaudióloga relatou nunca ter realizado treinamento, porém, referiu apresentar noções de cuidados com a voz. Nesse encontro, os participantes puderam tirar suas dúvidas sobre a intervenção, e em seguida a fonoaudióloga abordou os achados dos dados do questionário aplicado no dia da entrevista. Após esse procedimento, como as questões mais relevantes do questionário, no julgamento da fonoaudióloga, referiam-se à saúde vocal optou-se por realizar uma atividade na qual foram feitas considerações sobre: fumo, temperatura, ar álcool, alimentação, condicionado, sono/repouso, exercício físico, medicamentos, vestuário e hábitos inadequados. Nessa atividade, ficou nítido em R1 a falta de conhecimento 110 sobre cuidados com a voz, pois ao tirar figuras apresentava dificuldade em discorrer se aquele hábito era benéfico ou maléfico para a voz. Essa ausência de cuidados com a voz também pôde ser observada em seu relato. R1: “Durante o dia bebo seis copos de líquido, sendo três de água; não evito nenhum tipo de alimento; às vezes falo muito no trabalho; sempre consumo bebidas alcoólicas”. R3 em contrapartida, que é filha de fonoaudióloga, apresentou mais noções que a outra participante em relação aos cuidados com a voz, e afirmou: R3: “Eu bebo muita água durante o dia; me alimento em horários regulares e evito alimentos gordurosos”. Essa atividade foi realizada apenas com R1 e R3, uma vez que R2 chegou atrasado ao encontro. Ao abordar o mecanismo de produção vocal, a pesquisadora perguntou aos sujeitos: O que é voz? Como ela é produzida? O que é prega vocal? Quantas pregas vocais nós temos? Onde se localizam? R1 respondeu: “Voz é som, temos uma prega vocal, é rosada? e fica na garganta. R2 preferiu não arriscar e ficou calado frente à resposta de sua colega. Em contrapartida, R3 afirmou: “Voz é emoção, identidade, temos duas pregas vocais, e são vermelhas, se localizam na laringe”. Ao perceber que R3 foi a que mais se aproximou da resposta, errando apenas a cor da prega vocal, a pesquisadora explicou, de uma maneira simplista que a voz é o som produzido pela vibração das pregas vocais, que estas são em número de dois (falou do posicionamento em forma de V, paralelas ao chão), que são brancas; quando vermelhas, significa inchaço; e que se localizam no pescoço (região laríngea). Em seguida, solicitou aos sujeitos que colocassem as mãos na região da garganta e, por meio de atividades com sons sonoros, percebessem a vibração das pregas vocais. A mesma atividade posteriormente foi realizada com os sons surdos, para sentirem a diferença. Os três indivíduos realizaram a vibração com esforço, 111 e a fonoaudióloga precisou trabalhar essa emissão de uma forma mais harmoniosa e suave, por meio de repetições. R1: “Nossa! Agora eu sinto. Que coisa mágica!” R2: “É. Realmente tudo isso é muito bom; agora estamos sentindo mesmo que através das mãos a vibração de nossa prega vocal”. R3 não comentou nada; apenas observou os comentários feitos pelos colegas. A atividade seguinte foi realizada com objetivo de se trabalhar alongamento corporal. Foi solicitado aos participantes que ocupassem a sala, para que houvesse mais espaço no momento da execução das atividades. Os três sujeitos realizaram as atividades sem dificuldades aparentes. A próxima tarefa que envolvia o aquecimento vocal, os sujeitos, principalmente R1 e R3, riram bastante, o que dificultou a realização da mesma. R1: “Nossa...que não consigo (rs) principalmente porque não consigo vibrar a língua”. R3: “Não consigo, preciso fechar os olhos e me concentrar”. Diante disso, a pesquisadora solicitou que R1 substituísse a vibração de língua pela vibração de lábios, e que R3 fechasse os olhos na hora de realizar a atividade. R2 conseguiu executar as atividades sem dificuldades. Foi explicado aos participantes que a prega vocal, é um músculo, e que, assim como os demais do corpo, precisa ser exercitada, principalmente para profissionais que têm uma grande demanda vocal, como no caso dos repórteres. Os sujeitos, durante a explicação fornecida pela fonoaudióloga, ficaram bastante atentos e realizaram a atividade com mais atenção e concentração. Nos exercícios de desaquecimento vocal, nenhum dos repórteres teve dificuldade. Foram realizados questionamentos do tipo: R1: “Pra que esse exercício? Que função ele tem? Preciso fazê-lo sempre? 112 A pesquisadora respondeu que, assim como temos que preparar o músculo da perna para longa jornada, temos que deixar a prega vocal preparada para a fala habitual, e que enquanto os exercícios de aquecimento propiciam alongamento da prega vocal e favorecem os sons agudos (“finos”), os de desaquecimento promovem encurtamento de prega vocal e favorecem os sons graves (“grossos”). R1 reiterou: “Agora que já sei disso, vou colocar em prática no meu dia-a dia. Vou anotar, pois isso é muito importante. São cuidados básicos que devemos ter com a nossa voz” R2: “Acredito que, se todas as pessoas soubessem disso, muitos problemas poderiam ser evitados” R3: “È realmente muito interessante; às vezes eu faço, agora vou fazer mais ainda, esse kit vai andar sempre comigo”. Em seguida, a pesquisadora solicitou que ficassem em pé para iniciar os exercícios respiratórios. Esta observou presença de respiração superior (elevação de ombros) nos três participantes. Foi solicitado que colocassem as mãos sobre o abdômen e outra sobre o tórax, para realizar duas expirações e inspirações longas. Em seguida, solicitou-se que inspirassem pelo nariz e soltassem pela boca, sendo observada presença de respiração invertida (“enchiam o peito na inspiração”). R2 ficou muito surpreso ao ver a fonoaudióloga demonstrando a respiração costodiafragmática, pois apresentou muita dificuldade para perceber. Em seguida retrucou: R2: “Nossa, como respiramos errado! Não estamos acostumados, isso é muito difícil” R3: “Realmente não é o jeito como fazemos no dia-a-dia, mas vamos lá, vamos tentar”. E R1 finalizou: “É muito difícil, muito mesmo!”” Foi solicitado aos repórteres a respiração em cinco tempos (inspira 5, mantém, e solta em 5). Como houve dificuldade na realização, julgou-se importante primeiro um trabalho com a respiração em três tempos, com 113 aumento progressivo. Nessa última, não foi observada dificuldade aparente; porém, a atividade foi realizada em uma velocidade lenta. Ao se trabalhar controle respiratório (entrada e saída do ar), foi fornecido o seguinte comando aos repórteres: “imaginem uma vela na frente de vocês, e que vocês terão que soprar a mesma, sem apagar a chama, emitindo o som do /s/ e do /z/”. Ao emitir o som surdo s, R2 apresentou dificuldades e soltou o ar de uma vez, enquanto R3 conseguiu manter o controle, e soltou o ar aos poucos. R2 afirmou: “É difícil ter todo esse controle, é questão de prática” No momento da emissão do /z/, R3 conseguiu executar sem dificuldades e logo em seguida falou: R3: “Olha aquilo que vimos ontem; agora além de conseguir sustentar a saída do ar, sinto a vibração das pregas vocais”. A última atividade proposta nesse encontro foi a referente aos exercícios articulatórios. Cada participante recebeu uma ficha impressa com seqüência de trava-línguas, da qual iniciaria a leitura e o outro continuaria na seqüência. Foi explicado que esse exercício era importante para trabalhar agilidade articulatória, aspecto esse de fundamental importância para quem trabalha no jornalismo. A pesquisadora considerou relevante ler de forma mais lenta, frase por frase, com os participantes. Em seguida, solicitou que eles iniciassem a leitura de forma alternada. Esses, pela falta de prática, o fizeram com dificuldade, lendo as frases numa velocidade muito lenta; porém, com o decorrer da mesma, as dificuldades foram amenizadas e a velocidade aumentou gradativamente. Em determinados momentos, os participantes distorciam as palavras e voltavam à frase desde o começo. Nessa atividade, a pesquisadora sugeriu a leitura do trava-línguas com diferentes ajustes de articulação: travada, exagerada e normal, por meio de demonstrações de cada um deles. Cada participante fez um tipo de ajuste (R1: articulação travada, R2: articulação normal e R3: articulação exagerada), enquanto os demais ficavam atentos. No final, a pesquisadora, juntamente com os repórteres 114 discutiram o efeito de sentido de cada tipo de articulação no ouvinte. Os participantes souberam apenas falar do impacto da articulação normal; e dessa forma, os demais tipos foram explicitados pela fonoaudióloga. Em seguida, essa mesma atividade foi realizada com rolha entre os dentes, com leitura apenas das vogais, com fala mastigada e sobrearticulação, nas quais não foi observada dificuldade. Além de trava-línguas, foram realizadas tarefas que envolviam: dias da semana, meses do ano e contagem de 1 a 30. Nas seqüências articulatórias, ficou nítida a maior dificuldade apresentada pelos repórteres. Os três sujeitos referiram que a tarefa era muito difícil e que necessitavam de prática intensa. R1 exclamou: “Nossa, como isso é difícil!” R2: “Acho que só vou conseguir fazer isso com anos de prática. E R3 retrucou: “Realmente é difícil; acho que só quem é fonoaudiólogo consegue fazer isso”. No final do encontro, foi oferecido aos sujeitos um material impresso sobre saúde vocal, e estes foram filmados, por meio da seguinte notícia: “O primeiro telejornal da TV brasileira foi Imagens do dia, e nasceu junto com a TV Tupi de São Paulo, em 1950. O primeiro Jornalista falar no dia da estréia da TV Tupi foi Maurício Loureiro Gama”. (PATERNOSTRO, 2006, pg 36). 115 Quadro 2: Descrição do segundo encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos - Desenvolver a ressonância mais equilibrada. -Sensibilizar os participantes quanto ao uso de frases com diferentes mudanças loudness em diferentes palavras. Estratégias - Trabalhar ressonância e projeção vocal no ambiente por meio de exercícios específicos; - Trabalhar a loudness por meio de atividades específicas. Atividades - * Ressonância: Som do “m” mastigado Sons nasais mmmmm... associado as vogais (a,e,i,o,u) - Loudness: Médicos brasileiros descobrem um novo tratamento para a endometriose, a principal causa da infertilidade feminina (http://veja.abril.com.br/040505/p_122.html) - Há pessoas que falam inglês muito bem, outras arranham por pura necessidade, e aí se encaixa boa parte dos mais de 80% da população mundial que não nasceram nem cresceram em país da língua inglesa (http://veja.abril.com.br/040505/p_124.html) - As adolescentes que recorrem a dietas radicais têm mais risco de se tornar mais obesas do que aquelas que abusam da ingestão de alimentos gordurosos (http://veja.abril.com.br/040505/p_081.html) - O clima nada amistoso que envolve as relações entre Brasil e Paraguai no últimos meses tente a piorar. Uma nova lei, promulgada pelo presidente Nicanor Duartes Frutos, proíbe a posse de terras, por cidadãos e pessoas jurídicas dos países (http://veja.abril.com.br/040505/p_166.html) - Montar o orçamento doméstico não é trabalhoso, mas exige disciplina. A recompensa é alta: sobra de recursos no fim do mês” (http://veja.abril.com.br/040505/p_184.html) * Atividade realizada por KYRILLOS (2008) com universitários do Curso de Jornalismo da PUC/SP. Comentários Nesse segundo encontro, R1 não compareceu. R2 e R3 compareceram (esse último atrasou, já que trabalhava em outra emissora, fato que fez com que chegasse aos encontros sempre com atraso). Na atividade que envolveu ressonância, mais especificamente ao som do “m” mastigado e sons nasais, foi observado que R3 teve muita dificuldade, uma vez que apresentava ressonância laringofaríngea. Notouse menos dificuldades na realização do m...associado às vogais. 116 R2 chegou atrasado e não pôde executar tais exercícios. Com relação a loudness, esta foi trabalhada por meio de frases. R2 e R3 leram as frases alternadamente, e não houve interferência na leitura dos mesmos; porém, ao final, a pesquisadora observou que os dois repórteres não conseguiam realizar a leitura com loudness média nem forte. As impressões causadas pelas variações de intensidade foram trabalhadas, segundo proposta de FEIJÓ, 2003, pg 64. Os sujeitos relataram ter gostado do encontro, e afirmaram, ainda, que as práticas estavam sendo importantes, pois, por meio delas, percebiam no outro seus próprios erros. Os mesmos assistiram às gravações que haviam sido realizadas nos encontros anteriores, e foram discutidos os aspectos que poderiam melhorar. Ao final do encontro, gravaram a seguinte notícia: “Entender a importância da voz como forma de expressão comunicativa também é necessário para que a atuação profissional ocorra de maneira atraente para o telespectador”. (KYRILLOS, 2003, pg 111) 117 Quadro 3: Descrição do terceiro encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos -Sensibilizar os participantes quanto às variações do pitch de acordo com sexo, porte físico e idade do falante; - Promover a percepção da importância dos parâmetros de velocidade na leitura dos textos; - Conscientizar e treinar quanto ao uso da entoação. Estratégias - Trabalhar noções de pitch por meio de vídeo ilustrativo; -Trabalhar velocidade por meio de narração de texto; - Trabalhar entoação por meio de frases e poemas. Atividades Pitch: Vídeos ilustrativos Velocidade – texto: "Pé no chão, lá vão eles pra mais um espetáculo. Com fala forte e cantada, começam a dar ritmo à festa . Repentistas natos, usam e abusam da criatividade. E assim vão envolvendo e conquistando a atenção do público que se agita na arquibancada. O colorido dos versos embalam o sacolejo do homem com o animal e explodem nos ouvidos, deixando a marca registrada de sua passagem na arena." (http://www.cowboydoasfalto.com/loucutores.html) Entoação: Os Sinos (Manuel Bandeira) Você vai sair hoje? (ascendente) Não vou sair porque estou muito cansado (descendente) Proposta de FEIJÓ 2003, pg 58 Em seguida, foram utilizadas as mesmas frases com inflexões linear, ascendente e descendente. Comentários Os três repórteres compareceram ao processo de intervenção fonoaudiológica, sendo que R3 apresentou atraso. Primeiramente, com o objetivo de se trabalhar o pitch, foi apresentado um vídeo com sujeito do sexo masculino, forte, falando agudo (“fino”), e um sujeito baixo, do sexo masculino, falando muito grave (“grosso”). Os sujeitos ficaram atentos ao vídeo e no final riram bastante. R1: “ Como um baixinho fala tão grave desse jeito? Não está compatível” R3: Meu Deus, ..muito estranho! 118 Ao ouvir o relato dos dois participantes, solicitou-se que discorressem sobre o que estava estranho no vídeo e o porquê. Ambos conseguiram perceber a freqüência dos dois homens apresentados no vídeo, que não estava compatível com suas características de sexo, estrutura e idade, e referiram, ainda, que era estranho um homem alto falar fino e um baixinho falar tão grave. Nesse sentido, a pesquisadora aproveitou e fez a relação com a voz profissional, principalmente com repórteres e telejonalistas, e afirmou, que muitas vezes ao ouvir um profissional falar, algo nos causa ruído, estranhamento, e muitas vezes não sabemos o porquê. Esse fato pode estar relacionado à freqüência da voz do outro, ou seja, ao pitch. R2 compareceu ao encontro apenas no momento em que ia se iniciar a atividade com velocidade. Foi fornecido aos participantes um material impresso, com um texto de uma narração de rodeio. Em seguida, solicitou-se que cada um realizasse a leitura com as seguintes variações (velocidade lenta, média e acelerada), sem que os demais colegas soubessem o ajuste realizado. O primeiro a realizar a leitura foi R1, que o fez com velocidade média. Em seguida, R2 com velocidade acelerada e, por último, R3, com velocidade lenta. Quando os três repórteres acabaram de ler o texto, foi percebido pela pesquisadora que os três não conseguiram executar a atividade segundo os ajustes que tinham selecionado. Posteriormente à atividade, foram discutidas com o grupo as impressões causadas aos colegas, segundo proposta de FEIJÓ (2003, pg 65). Com relação ao trabalho de entonação, por meio do texto Os Sinos, foi solicitado que as mulheres o lessem com inflexão descendente e o rapaz com ascendente. Nessa atividade, apareceu apenas o relato de R2, que referiu muita dificuldade em executar o que havia sido solicitado. No trabalho, realizado ainda com entonação, por meio de frases segundo proposta de FEIJÓ (2003, pg 58), observou-se que apenas R1 conseguiu dizer a frase sem dificuldades. R2 e R3 não conseguiram realizar a primeira frase sob a forma de uma pergunta, e precisaram de 119 ajuda da pesquisadora, e mesmo assim o fizeram com bastante dificuldade. Na segunda frase, que era uma afirmação, aconteceu o contrário, pois apenas R1 apresentou dificuldades em realizar a inflexão descendente. Nas demais, realizadas com inflexões lineares, nenhum dos três repórteres apresentaram dificuldades. No final do encontro, os participantes discutiram os vídeos que haviam gravados anteriormente, e foram novamente submetidos a uma gravação, por meio da seguinte notícia: “Repórteres e apresentadores sabem que seu maior desafio na TV, é conseguir estabelecer uma comunicação efetiva, na credibilidade”. (FEIJÓ, 2003, pg 45) qual a mensagem seja recebida com 120 Quadro 4: Descrição do quarto encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos - Promover a percepção da importância da ênfase; - Trabalhar recurso de pausa. Estratégias - Trabalhar ênfase e o sentido de cada palavra marcada dentro do discurso por meio de frases, com marcações definidas; - Realizar marcação das pausas dentro do texto, por meio de letras de frases . Atividades Ênfase: frases : Proposta por FEIJÓ (2003 pg 45) Pausa: frase proposta por FEIJÓ (2003, pg 60) 1- Com utilização das pausas “A medida que o natal se aproxima, as lojas investem em decoração, e o comércio projeta um aumento de vendas em relação ao ano passado”. Sem utilização das pausas 2- Sem utilização das pausas “A medida que o natal se aproxima as lojas investem em decoração e o comércio projeta um aumento de vendas em relação ao ano passado”. Comentários Os três sujeitos compareceram, e R3 novamente atrasou. Inicialmente, foi realizada apenas com R1 e R3 uma atividade com objetivo de trabalhar a ênfase no discurso. Foi distribuído aos participantes um material impresso, com frases e ênfases pré-estabelecidas e solicitado para cada participante a leitura da palavra enfatizada dentro da frase. Nessa tarefa, observou-se grande dificuldade por parte dos três sujeitos, uma vez que afirmaram: R1: “Não consigo “dá” o devido destaque” R3: “Como tenho dificuldades, parece que tudo é importante”. Diante das reações apresentadas, a pesquisadora julgou importante explicitar, da forma mais clara possível, a função da ênfase dentro de um discurso. Dessa forma, afirmou que esse recurso é utilizado para darmos destaque à palavra de maior valo dentro de um texto ou frase, e que 121 portanto, nem todas as palavras devem ser enfatizadas, uma vez que torna o discurso monótono e sem valor. R2 não pôde realizar tal atividade, pois não se encontrava presente no encontro. Na tarefa que envolvia pausas, inicialmente foi oferecida uma frase: “A medida que o Natal se aproxima as lojas investem em decoração e o comércio projeta um aumento de vendas em relação ao ano passado”. Primeiramente, foram colocadas vírgulas após as palavras aproxima e decoração e solicitada a leitura da frase. Os três repórteres executaram a atividade sem dificuldades aparentes. Em seguida, a mesma frase foi trabalhada sem a utilização das vírgulas. Os três repórteres perceberam a diferença e afirmaram: R1: “Se não colocarmos pausas, fica muito corrido” R2:”Não faz sentido, tem que ter uma vírgula na frase”. E R3 complementa: “A pausa é importante sim para o discurso” No final do encontro, os sujeitos assistiram às gravações do encontro anterior, e afirmaram que as gravações em áudio e vídeo estavam sendo essenciais para trabalhar a percepção dos seus erros e os de seus colegas, e foram novamente gravados, por meio da notícia: “O repórter e apresentador de telejornal têm na sua voz seu principal instrumento de trabalho, sem a qual a atuação fica completamente inviabilizada. Dessa forma, torna-se interessante conhecer seu mecanismo de produção vocal e o que podemos fazer para mantê-la sempre adequada”. (KYRILLOS 2003, pg 113) 122 Quadro 5: Descrição do quinto encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos - Promover percepção da importância dos recursos não-verbais (gestos, postura, meneios de cabeça). Estratégias Trabalhar, por meio de vídeos gravados em encontros anteriores, aspectos como: gestos, postura e meneios de cabeça. Atividades -Apresentação de vídeos Comentários Apenas R1 e R3 compareceram ao encontro. Eles assistiram aos vídeos que haviam gravado nos encontros anteriores e apontaram aspectos que poderiam melhorar. Por meio de seu vídeo, R1 percebeu que, na maior parte dos vídeos, sua postura estava inadequada e referiu: R1: “Nossa! Minha postura está muito ruim; não tinha noção que ela estava desse jeito. Esse vídeo me auxiliou muito, pois agora posso corrigila”. Em contrapartida, R3 afirmou: eu já havia percebido sua postura inadequada nos vídeos anteriores, mas acho que até esse encontro você, sem de dar conta, conseguiu melhorá-la”. Ao final do encontro, novamente os sujeitos foram gravados, com a utilização da seguinte notícia: “Com maior consciência do próprio corpo, da voz e com conhecimento dos fatores que interagem para a sua produção, com certeza, pode-se atingir a melhor atuação profissional” (KYRILLOS, 2003 pg 117) 123 Quadro 6: Descrição do sexto encontro de intervenção fonoaudiológica Objetivos - Retomar os aspectos abordados nos encontros anteriores de forma geral. Estratégias - Abordagem dos recursos vocais, verbais e não-verbais Atividades - As atividades foram realizadas com recurso multimídia e atividades práticas. Comentários Apenas R1 e R2 compareceram ao encontro, esse último com atraso. Os indivíduos mostraram-se bastante satisfeitos com os encontros e estavam empolgados para realizar as atividades propostas. Foram trabalhados todos os recursos (vocais, verbais e não-verbais) abordados nos encontros anteriores, e os vídeos gravados nos nestes foram visualizados pelos repórteres. 124 GLOSSÁRIO Definição dos termos sublinhados na dissertação. Escalada: frase de impacto sobre os assuntos do telejornal que abrem o programa.(PATERNOSTRO, 2006) Link: : Ligação estúdio transmissor e transmissor-transmissor. Trata-se de serviço técnico que permite o envio do sinal de televisão para transmissão, e é também a ligação da emissora com unidade geradora de sinal (SQUIRRA, 1990)